2 - Allan Kardec  
O QUE É O ESPIRITISMO  
Allan Kardec  
Versão digital:  
Numa Linguagem Simplificada  
Adaptada por:  
Louis Neilmoris  
Título original em francês:  
QU´EST´CE QUE LE SPIRITISME  
Lançado em junho de 1859  
Paris, França  
Edição digital revisada em setembro, 2018  
Distribuição gratuita: Portal Luz Espírita  
3 - O QUE É O ESPIRITISMO  
O QUE É O  
ESPIRITISMO  
NUMA LINGUAGEM SIMPLIFICADA  
Allan Kardec  
Adaptação:  
Louis Neilmoris  
4 - Allan Kardec  
Nota da adaptação  
A proposta deste trabalho é trazer ao meio popular o consolo e a  
iluminação de O QUE É O ESPIRITISMO: um exemplar introdutório acerca da  
Doutrina Espírita para uma geração que vivia uma turbulência filosófica, em  
meados do Século XIX, especialmente pela incidência dos fenômenos espirituais  
espalhados por todo o globo terreno, mas, obra essa perfeitamente aproveitável  
para a nossa geração e para as porvindouras, a fim de que o Espiritismo seja  
bem compreendido e vivenciado.  
Mas, convenhamos, as traduções brasileiras, até então disponíveis,  
ainda oferecem à grande massa popular graves obstáculos para uma perfeita  
compreensão, não por falha dos tradutores, muito pelo contrário, mas pela  
fidelidade com que verteram dos originais em francês para o português,  
mantendo a elevada elocução. Kardec, eminente autoridade em linguística,  
evidentemente, só poderia escrever à altura do superior nível cultural de seus  
contemporâneos. Desta forma, e nada mais justo, as versões procuram sempre  
equilibrar a linguagem.  
Esta adaptação procura simplificar o texto utilizando-se de vocábulos  
mais comuns, mais atualizados, no entanto, sem alterar o teor da argumentação.  
As novas verdades que a maravilhosa Doutrina Espírita nos traz devem  
estar ao alcance de todos, por uma questão de respeito e de amor.  
Louis Neilmoris  
5 - O QUE É O ESPIRITISMO  
O QUE É O ESPIRITISMO  
NOÇÕES ELEMENTARES DO MUNDO INVISÍVEL  
PELAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS  
COM O RESUMO DOS PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA  
E RESPOSTA ÀS PRINCIPAIS OBJEÇÕES  
QUE PODEM SER APRESENTADAS.  
CONTENDO A BIOGRAFIA DE  
ALLAN KARDEC (POR HENRI SAUSSE)  
P O R  
ALLAN KARDEC  
6 - Allan Kardec  
Sumário  
Biografia de Allan Kardec pag.7  
Preâmbulo pag.26  
CAPÍTULO I Pequena conferência espírita pag.28  
Primeiro Diálogo O Crítico pag.28  
Segundo Diálogo O Cético pag.36  
Espiritismo e Espiritualismo - Dissidências - Fenômenos espíritas simulados - Impotência dos  
detratores - O maravilhoso e o sobrenatural - Oposição da Ciência - Falsas explicações dos  
fenômenos - Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam - Boa ou má vontade  
dos Espíritos para convencer - Origem das ideias espíritas modernas - Meios de comunicação -  
Médiuns interesseiros - Médiuns e feiticeiros - Diversidade dos Espíritos - Utilidade prática das  
manifestações - Loucura, suicídio e obsessão - Esquecimento do passado - Elementos de  
convicção - Sociedades espíritas - Interdição do Espiritismo  
Terceiro diálogo O Padre pag.70  
CAPÍTULO II Noções elementares de Espiritismo pag. 87  
Observações preliminares pag. 87  
Dos Espíritos pag. 88  
Comunicação com o mundo invisível pag. 91  
Objetivo providencial das manifestações espíritas pag. 98  
Dos médiuns pag. 99  
Obstáculos da mediunidade pag. 102  
Qualidades dos médiuns pag. 104  
Charlatanismo pag. 106  
Identidade dos Espíritos pag. 107  
Contradições pag. 109  
Consequências do Espiritismo pag. 109  
CAPÍTULO III Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita pag. 113  
Pluralidade dos mundos pag. 113  
Da alma pag. 114  
O homem durante a vida terrena pag. 115  
O homem depois da morte pag. 122  
7 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Biografia de  
Allan Kardec  
Minhas senhoras, meus senhores:  
Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar  
de só possuírem um conhecimento muito imperfeito da biografia de Allan Kardec, e de não  
saberem onde encontrar as informações que desejariam conhecer sobre aquele a quem  
chamamos Mestre. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos  
hoje reunidos, e um mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz vibrar todos os  
corações. Em respeito ao fundador da filosofia espírita, permiti-me, no intuito de tentar  
corresponder a tão legítimo desejo, que vocês entretenham alguns momentos com esse Mestre  
amado, cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados, e cuja vida íntima e  
laboriosa existência são apenas conjeturadas.  
Se foi fácil a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do  
grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas produções, pela ausência  
até hoje de elementos para isso, bem poucos puderam penetrar na vida do homem íntimo e  
segui-lo passo a passo no desempenho da sua tarefa, tão grande, tão gloriosa e tão bem  
preenchida.  
Não somente a biografia de Allan Kardec é pouco conhecida, senão que ainda está  
por ser escrita. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais evidentes erros, as mais  
grosseiras e as mais despudoradas calúnias.  
Portanto, vou me esforçar para lhes mostrar, com luz mais verdadeira, o grande  
iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos.  
Todos sabem que a nossa cidade se pode honrar com justo título de ter visto nascer  
entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico, esse filósofo sábio, clarividente e  
profundo, esse trabalhador obstinado cujo labor sacudiu o edifício religioso do Velho Mundo  
e preparou os novos fundamentos que deveriam servir de base à evolução e à renovação da  
nossa sociedade caduca, impelindo-a para um ideal mais sadio, mais elevado, para um seguro  
adiantamento intelectual e moral.  
Com efeito, foi em Lyon, que, a 3 de outubro de 1804, nasceu de antiga família  
lionesa, com o nome de Rivail, aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de Allan Kardec e  
conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia, ao nosso filial reconhecimento.  
Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial:  
Aos 12 do vindemiário1 do ano XIII, auto do nascimento de Denizard Hippolyte-Léon  
Rivail2, nascido ontem às 7 horas da noite, filho de Jean-Baptiste-Antoine Rivail, magistrado,  
juiz, e Jeanne Duhamel, sua esposa, residentes em Liyon, rua Sala no 76.  
O sexo da criança foi reconhecido como masculino.Testemunhas maiores:  
1 Vindemiário: primeiro mês do calendário republicano francês, aqui correspondente ao mês de outubro -- Nota desta Edição (N. E.).  
2 Esta menção difere da forma mais comum como é descrito o nome verdadeiro de Allan Kardec: Hippolyte-Léon Denizard Rivail, inclusive  
como encontraremos mais adiante nesta mesma biografia -- N. E.  
8 - Allan Kardec  
Syriaque-Frédéric Dittmar, diretor do estabelecimento das águas minerais da Rua Sala,  
e Jean-François Targe, mesma Rua Sala, à requisição do médico Pierre Radamel, Rua Saint--  
Dominique nº 78.  
Feita a leitura, as testemunhas assinaram, assim como o Maire da região do Sul.  
O presidente do Tribunal,  
(assinado): Mathiou.  
O futuro fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e  
respeitado e todo um passado de virtudes, de honra, de probidade; grande número dos seus  
antepassados se tinham distinguido na advocacia e na magistratura, por seu talento, saber e  
escrupulosa probidade. Parecia que o jovem Rivail também devia sonhar com os louros e as  
glórias da sua família. Entretanto, não foi assim, pois desde o começo da sua juventude ele se  
sentiu atraído para as ciências e para a filosofia.  
Rivail Denizard fez os seus primeiros estudos em Lyon e completou em seguida a  
sua bagagem escolar em Yverdun, Suíça, com o célebre professor Pestalozzi3, de quem cedo  
se tornou um dos mais eminentes discípulos, colaborador inteligente e dedicado. Aplicou-se  
de todo o coração à propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência  
sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. Muitíssimas vezes, quando Pestalozzi  
era chamado pelos governos de toda a parte para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun,  
confiava a Denizard Rivail o encargo de substituí-lo na direção da sua escola. O discípulo  
tornado mestre tinha, além de tudo, com os mais legítimos direitos, a capacidade requerida  
para dar boa conta da tarefa que lhe era confiada. Era bacharel em letras e em ciências e  
doutor em medicina, tendo feito todos os estudos médicos e defendido brilhantemente sua  
tese4. Notável linguista, conhecia a fundo e falava corretamente o alemão, o inglês, o italiano  
e o espanhol; conhecia também o holandês, e podia facilmente exprimir-se nesta língua.  
Denizard Rivail era um alto e belo rapaz, de maneiras distintas, humor jovial na  
intimidade, bom e obsequioso. Tendo sido convocado para o serviço militar, ele obteve  
isenção e, dois anos depois, veio fundar um estabelecimento semelhante ao de Yverdun em  
Paris, na Rua de Sèvres nº 35. Para essa empresa ele se associou a um dos seus tios, irmão de  
sua mãe, o qual era seu sócio capitalista.  
No mundo das letras e do ensino que frequentava em Paris, Denizard Rivail  
encontrou a senhorita Amélie Boudet, professora com diploma de 1ª classe. Pequena, mas  
bem proporcionada, gentil e graciosa, rica por seus pais e filha única, inteligente e viva, ela  
soube por seu sorriso e predicados fazer-se notar pelo Sr. Rivail, em quem adivinhou, sob a  
franca e comunicativa alegria do homem amável, o pensador sábio e profundo, que aliava  
grande dignidade à mais esmerada urbanidade.  
O registro civil nos informa que:  
Amélie-Gabrielle Boudet, filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo tabelião, e de Julie-  
Louise Seigneat de Lacombe, nasceu em Thiais (Sena), aos 2 do Frimário do ano IV (23 de novembro de  
1795).  
Portanto, a senhorita Amélie Boudet tinha nove anos a mais que o Sr. Rivail,  
contudo na aparência diríamos ter menos dez que ele, quando, em 6 de fevereiro de 1832, se  
firmou em Paris o contrato de casamento de Hippolyte-Léon Denizard Rivail, diretor do  
Instituto Técnico na Rua de Sèvres (Método de Pestalozzi), filho de Jean-Baptiste Antoine e  
senhora, Jeanne Duhamel, residentes em Château-du-Loir, com Amélie-Gabrielle Boudet,  
filha de Julien-Louis e senhora Julie-Louise Seigneat de Lacombe, residentes em Paris, na  
Rua de Sèvres.  
O sócio do Sr. Rivail tinha a paixão do jogo; arruinou o sobrinho, perdendo grossas  
3 Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827): pedagogo suíço e pioneiro na reforma educacional, fundador e diretor da escola modelo em seu  
tempo -- N. E.  
4
Esta informação de que Kardec era doutor em medicina é contestável. Ver revista Reformador de março de 1958, artigo "Kardec teria  
sido médico?", pág. 67 -- N. E.  
9 - O QUE É O ESPIRITISMO  
somas em Spa e em Aix-la-Chapelle. O Sr. Rivail requereu a liquidação do Instituto, de cuja  
partilha couberam 45 mil francos a cada um deles. Essa soma foi colocada pelo Sr. e Sra.  
Rivail em casa de um dos seus amigos íntimos, negociante, que fez maus negócios e cuja  
falência nada deixou aos credores.  
Longe de desanimar com esse duplo revés, o Sr. e Sra. Rivail se lançaram  
corajosamente ao trabalho. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de três casas,  
que lhe produziam cerca de 7 mil francos por ano; e, terminado o seu dia, esse trabalhador  
infatigável escrevia à noite, ao serão, gramáticas, aritméticas, livros para estudos pedagógicos  
superiores; traduzia obras inglesas e alemãs e preparava todos os cursos de Levy-Alvarès,  
frequentados por discípulos de ambos os sexos do faubourg Saint-Germain. Organizou  
também em sua casa, na Rua de Sèvres, cursos gratuitos de química, física, astronomia e  
anatomia comparada, de 1835 a 1840, e que eram muito frequentados.  
Membro de várias sociedades sábias, notadamente da Academia real d’Arras, foi  
premiado, por concurso, em 1831, pela apresentação da sua notável memória: Qual o sistema  
de estudo mais em harmonia com as necessidades da época?  
Dentre as suas numerosas obras convém citar, por ordem cronológica: Plano  
apresentado para o melhoramento da instrução pública, em 1828; em 1829, segundo o  
método de Pestalozzi, ele publicou, para uso das mães de família e dos professores, o Curso  
prático e teórico de aritmética; em 1831 fez aparecer a Gramática francesa clássica; em 1846  
o Manual dos exames para obtenção dos diplomas de capacidade, soluções racionais das  
questões e problemas de aritmética e geometria; em 1848 foi publicado o Catecismo  
gramatical da língua francesa; finalmente, em 1849, encontramos o Sr. Rivail professor no  
Liceu Polimático, regendo as cadeiras de Fisiologia, Astronomia, Química e Física. Em uma  
obra muito apreciada resume seus cursos, e depois publica: Ditados normais dos exames na  
Municipalidade e na Sorbona; Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas.  
Tendo essas diversas obras sido adotadas pela Universidade de França, e vendendo-  
se abundantemente, o Sr. Rivail pôde conseguir, graças a elas e ao seu assíduo trabalho, uma  
modesta abastança. Como se pode julgar por esta muito rápida exposição, o Sr. Rivail estava  
admiravelmente preparado para a rude tarefa que ia ter que desempenhar e fazer triunfar. Seu  
nome era conhecido e respeitado, seus trabalhos justamente apreciados, muito antes que ele  
imortalizasse o nome de Allan Kardec.  
Prosseguindo em sua carreira pedagógica, o Sr. Rivail poderia viver feliz, honrado e  
tranquilo, estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho perseverante e pelo brilhante êxito  
que lhe havia coroado os esforços; mas a sua missão o chamava a uma tarefa mais onerosa, a  
uma obra maior, e, como teremos muitas vezes ocasião de evidenciá-lo, ele sempre se  
mostrou à altura da missão gloriosa que lhe estava reservada. Seus pendores, suas aspirações  
o teriam impelido para o misticismo, mas a educação, o juízo reto e a observação metódica  
conservaram-no igualmente ao abrigo dos entusiasmos desarrazoados e das negações não  
justificadas.  
Foi em 1854 que o Sr. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes, a  
princípio do Sr. Fortier, magnetizador, com o qual mantinha relações, em razão dos seus  
estudos sobre o Magnetismo. O Sr. Fortier lhe disse um dia: “Eis aqui uma coisa que é bem  
mais extraordinária: não somente se faz girar uma mesa, magnetizando-a, mas também se  
pode fazê-la falar. Interroga-se, e ela responde.”  
Replicou o Sr. Rivail: Isso é outra questão; eu acreditarei quando vir e quando  
me tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir, e que se pode  
tornar sonâmbula. Até lá, permita-me que não veja nisso senão uma fábula para provocar o  
sono.  
A princípio, esse era o estado de espírito do Sr. Rivail, tal o encontraremos muitas  
vezes, não negando coisa alguma por preconceito, mas pedindo provas e querendo ver e  
observar para crer; assim como devemos nos postar sempre no estudo tão atraente das  
manifestações do Além.  
10 - Allan Kardec  
* * *  
Até agora, apenas lhes falei do Sr. Rivail, professor emérito, autor pedagógico de  
renome. Contudo, nessa época de sua vida, de 1854 a 1856, um novo horizonte se rasga para  
esse pensador profundo, para esse sagaz observador. Então o nome de Rivail se oculta para  
ceder o lugar ao de Allan Kardec, que a fama levará a todos os cantos do globo, que todos os  
ecos repetirão e que todos os nossos corações idolatram.  
Eis aqui como Allan Kardec nos revela as suas dúvidas, as suas hesitações e  
também a sua primeira iniciação:  
Eu me encontrava no ciclo de um fato inexplicado e, na aparência, contrário às leis  
da Natureza e que minha razão repelia. Não tinha ainda visto nem observado nada; as  
experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me firmavam na  
possibilidade do efeito puramente material; mas a ideia de uma mesa falante não me entrava  
ainda no cérebro.  
No ano seguinte era no começo de 1855 encontrei o Sr. Carlotti, um amigo de  
há vinte e cinco anos, que discorreu acerca desses fenômenos durante mais de uma hora, com  
o entusiasmo que ele punha em todas as ideias novas. O Sr. Carlotti era corso de origem, de  
natureza ardente e enérgica; eu tinha sempre distinguido nele as qualidades que caracterizam  
uma grande e bela alma, mas desconfiava da sua exaltação. Ele foi o primeiro a me falar da  
intervenção dos Espíritos, e me contou tantas coisas surpreendentes que, longe de me  
convencerem, aumentaram as minhas dúvidas. "Você um dia será dos nossos" disse-me  
ele. "Não digo que não" respondi-lhe eu ; "veremos isso mais tarde".  
Daí a algum tempo, pelo mês de maio de 1855, estive, na casa da sonâmbula Sra.  
Roger, com o Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison,  
que me falaram desses fenômenos no mesmo sentido que o Sr. Carlotti, mas noutro tom. O Sr.  
Pâtier era funcionário público, de certa idade, homem muito instruído, de sério caráter, frio e  
calmo; sua linguagem pausada, isenta de todo entusiasmo, produziu-me viva impressão, e,  
quando ele me convidou para assistir às experiências que se realizavam na casa da Sra.  
Plainemaison, Rua Grange-Batelière nº 18, aceitei com solicitude. A entrevista foi marcada  
para a terça-feira de maio, às 8 horas da noite.  
Foi aí, pela primeira vez, que testemunhei o fenômeno das mesas girantes, que  
saltavam e corriam, e isso em condições tais que a dúvida não era possível.  
Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma  
ardósia com o auxílio de uma cesta. Minhas ideias estavam longe de se haver modificado, mas  
havia naquilo um fato que devia ter uma causa. Entrevi, sob essas aparentes futilidades e a  
espécie de divertimento que com esses fenômenos se fazia, alguma coisa de sério e como que a  
revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi aprofundar.  
A ocasião se ofereceu para mim e pude observar mais atentamente do que tinha  
podido fazer. Em um dos serões da Sra. Plainemaison, conheci a família Baudin, que morava  
então na Rua Rochechouart. O Sr. Baudin convidou-me a assistir às sessões semanais que se  
efetuavam em sua casa, e às quais eu fui, desde esse momento, muito assíduo.  
Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos ainda por  
efeito de revelações que por observação. Apliquei o método da experimentação a essa nova  
ciência, como até então o tinha feito; nunca formulei teorias preconcebidas; observava  
atentamente, comparava, deduzia as consequências; dos efeitos procurava chegar às causas  
pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como  
válida, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que  
sempre procedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de quinze a dezesseis anos.  
Desde o princípio compreendi a gravidade da exploração que ia empreender. Entrevi nesses  
fenômenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro, a  
solução do que havia procurado toda a minha vida; em suma, era uma completa revolução  
nas ideias e nas crenças; portanto, se fazia necessário agir com circunspeção e não  
levianamente, ser positivista e não idealista, para me não deixar arrastar pelas ilusões.  
Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos —  
porque eram as almas dos homens não tinham nem a soberana sabedoria, nem a soberana  
ciência; que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento, e que a sua opinião tinha  
11 - O QUE É O ESPIRITISMO  
somente o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade, reconhecida desde o começo, evitou-  
me o grave perigo de crer na sua infalibilidade e me preservou de formular teorias  
prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns.  
O que quer que os Espíritos pudessem dizer, só o fato da comunicação com eles  
provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto capital, um imenso  
campo aberto às nossas explorações, a chave de uma multidão de fenômenos inexplicados. O  
segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado desse mundo e seus costumes, se  
assim nos podemos exprimir. Cedo, observei que, em razão de sua posição pessoal e de seus  
conhecimentos, cada Espírito desvendava-me uma fase desse mundo, exatamente como se  
chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e  
condições, podendo cada qual nos ensinar alguma coisa  
e
nenhum deles podendo,  
individualmente, ensinar-nos tudo. Cumpre ao observador formar o conjunto, com o auxílio  
dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e confrontados  
entre si. Eu, pois, agi com os Espíritos como o teria feito com os homens: eles foram, para  
mim, desde o menor até o mais elevado, meios de colher informações e não reveladores  
predestinados.  
A estas informações, colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec, convém  
acrescentar que a princípio o Sr. Rivail, longe de ser um entusiasta dessas manifestações e  
absorvido por outras preocupações, esteve a ponto de abandoná-las, o que talvez tivesse feito  
se não fossem as instantes solicitações dos Srs. Carlotti, René Taillandier, membro da  
Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou, pai e filho, e Didier, editor, que  
acompanhavam havia cinco anos o estudo desses fenômenos e tinham reunido cinquenta  
cadernos de comunicações diversas, que não conseguiam pôr em ordem. Conhecendo as  
vastas e raras aptidões de síntese do Sr. Rivail, esses senhores lhe enviaram os cadernos,  
pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e os completasse. Este trabalho era árduo e  
exigia muito tempo, em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações; e o sábio  
enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente, em razão de outros trabalhos.  
Uma noite, seu Espírito protetor, Z., através de um médium, deu-lhe uma  
comunicação toda pessoal, na qual lhe dizia, entre outras coisas, tê-lo conhecido em uma  
precedente existência, quando, ao tempo dos Druidas, viviam juntos nas Gálias. Ele se  
chamava então Allan Kardec, e, como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar,  
prometia-lhe esse Espírito ajudá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado, e que  
facilmente cumpriria.  
Então, o Sr. Rivail se lançou à obra: tomou os cadernos, anotou-os com cuidado.  
Após atenta leitura, suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem cada ditado, cada  
relatório de sessão; assinalou as lacunas a preencher, as obscuridades a aclarar, e preparou as  
perguntas necessárias para chegar a esse resultado.  
Até então diz ele próprio , as sessões na casa do Sr. Baudin não tinham nenhum  
fim determinado; aí me propus fazer resolver os problemas que me interessavam sob o ponto  
de vista da filosofia, da psicologia e da natureza do mundo invisível. Comparecia a cada  
sessão com uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas: eram respondidas  
com precisão, profundeza e de modo lógico. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter  
muito diferente, e, entre os assistentes, encontravam-se pessoas sérias que tomaram vivo  
interesse pelo trabalho. Se me acontecia faltar, ficavam as sessões como que tolhidas, tendo  
as questões fúteis perdido o atrativo para o maior número. A princípio eu não tinha em vista  
senão a minha própria instrução; mais tarde, quando vi que tudo aquilo formava um conjunto  
e tomava as proporções de uma doutrina, tive o pensamento de publicá-lo, para instrução de  
todos. Foram essas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completadas,  
fizeram a base de O Livro Dos Espíritos.  
Em 1856, o Sr. Rivail frequentou as reuniões espíritas que se realizavam na Rua  
Tiquettone, na casa do Sr. Roustan, com a Sra. Japhet, sonâmbula, que obtinha como médium  
comunicações muito interessantes, com o auxílio da cesta aguçada; fez examinar por esse  
12 - Allan Kardec  
médium as comunicações obtidas e postas precedentemente em ordem. A princípio, esse  
trabalho foi efetuado nas sessões comuns; mas a pedido dos Espíritos, e para que fosse  
consagrado mais cuidado, mais atenção a esse exame, foi continuado em sessões particulares.  
Não me contentei com essa verificação diz ainda Allan Kardec , que os Espíritos  
me haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns,  
toda vez que se oferecia ocasião, eu a aproveitava para propor algumas das questões que me  
pareciam mais melindrosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram seu auxílio a esse  
trabalho. E foi da comparação e da fusão de todas essas respostas, coordenadas, classificadas  
e muitas vezes refeitas no silêncio da meditação, que formei a primeira edição de O LIVRO DOS  
ESPÍRITOS, a qual apareceu em 18 de abril de 1857.  
Esse livro era em formato grande, in-4, em duas colunas, uma para as perguntas e  
outra, em frente, para as respostas. No momento de publicá-lo, o autor ficou muito  
embaraçado em resolver como o assinaria, se com o seu nome, Denizard-Hippolyte-Léon  
Rivail, ou com um pseudônimo. Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico, em  
virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo originar uma confusão, talvez mesmo  
prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de assiná-lo com o nome de Allan  
Kardec que, segundo lhe revelara o guia, ele tivera ao tempo dos Druidas.  
A obra alcançou tal êxito que a primeira edição foi logo esgotada. Allan Kardec  
reeditou-a em 18585 sob a forma atual in-12, revisada, corrigida e consideravelmente  
aumentada.  
No dia 25 de março de 1856 Allan Kardec estava em seu gabinete de trabalho, em  
via de compulsar as comunicações e preparar O Livro dos Espíritos, quando ouviu ressoarem  
pancadas repetidas no tabique6; procurou a causa disso, sem descobrir, e em seguida voltou à  
obra. Sua mulher, entrando cerca das dez horas, ouviu os mesmos ruídos; procuraram, mas  
sem resultado, de onde eles podiam provir. Na época, moravam na rua dos Mártires nº 8, no  
segundo andar, ao fundo.  
No dia seguinte, sendo dia de sessões em casa do Sr. Baudin escreve Allan Kardec  
, contei o fato e pedi a explicação dele:  
Pergunta: Ouviu o fato que acabo de narrar; poderia me dizer a causa dessas  
pancadas que se fizeram ouvir com tanta insistência?  
Resposta: "Era o teu Espírito familiar."  
P. Com que fim, ele vinha bater assim?  
R."Queria comunicar-se contigo."  
P. Poderia me dizer o que ele queria?  
R."Pode perguntar a ele mesmo, pois está aqui."  
P. Meu Espírito familiar, quem quer que seja, eu agradeço por ter vindo me  
visitar. Teria a bondade de me dizer quem tu és?  
R."Para ti me chamarei a Verdade, e todos os meses, durante um quarto de  
hora, estarei aqui, à tua disposição."  
P. Ontem, quando ouvi batidas, enquanto eu trabalhava, tinha alguma coisa de  
particular a me dizer?  
R.O que eu tinha a te dizer era sobre o trabalho que fazia; o que escrevia me  
desagradava e eu queria te fazer parar.  
NOTA O que eu escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia sobre os Espíritos e suas manifestações.  
P. A tua desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia, ou sobre o  
conjunto do trabalho?  
R."Sobre o capítulo de ontem: faço-te juiz dele. Torna a lê-lo esta noite e  
5 No entanto, sabe-se que esta segunda edição só foi impressa em 1860 -- N. E.  
6 Tabique: divisória geralmente de madeira, usada para separar ou fechar áreas ou quartos numa cômodo N. E.  
13 - O QUE É O ESPIRITISMO  
reconheceras os seus erros e os corrigirá."  
P. Eu mesmo não estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. Está  
melhor?  
R."Está melhor, mas não muito bom. Lê da terceira à trigésima linha e  
reconhecerá um grave erro."  
P. Rasguei o que tinha feito ontem.  
R."Não importa. Essa inutilização não impede que subsista o erro. Relê e  
verá."  
P. O nome de Verdade que toma é uma alusão à verdade que procuro?  
R."Talvez, ou, pelo menos, é um guia que te há de auxiliar e proteger."  
P. Posso te evocar em minha casa?  
R."Sim, para que eu te assista pelo pensamento; mas, quanto a respostas  
escritas em tua casa, não será tão cedo que as poderá obter."  
P. Poderia vir mais frequentemente que todos os meses?  
R."Sim; mas não prometo senão uma vez por mês, até nova ordem."  
P. Encarnou como alguma personagem conhecida na Terra?  
R."Disse que para ti eu era a Verdade, o que da tua parte devia importar  
discrição; não saberá mais que isto."  
De volta a casa, Allan Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde verificar o  
grave erro que de fato havia cometido. O intervalo de um mês fixado para cada comunicação  
do Espírito Verdade raramente foi observado.  
Ele se manifestou frequentemente a Allan Kardec, mas não em sua casa, onde  
durante cerca de um ano este não pôde receber nenhuma comunicação por médium algum e,  
cada vez que ele esperava obter alguma coisa, era impedido por uma causa qualquer e  
imprevista, que a isso se vinha opor.  
Foi em 30 de abril de 1856, na casa do Sr. Roustan, pela médium Sra. Japhet, que  
Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar. Esse aviso —  
a princípio muito vago foi precisado no dia 12 de junho de 1856, por intermédio da Sra.  
Aline C., médium. Em 6 de maio de 1857, a Sra. Cardone, pelo exame das linhas da mão de  
Allan Kardec, confirmou as duas comunicações precedentes, que ela ignorava. Finalmente,  
em 12 de abril de 1860, na casa do Sr. Dehan, sendo intermediário o Sr. Croset, médium, essa  
missão foi novamente confirmada em uma comunicação espontânea, obtida na ausência de  
Allan Kardec.  
Assim também se deu a respeito do seu pseudônimo. Numerosas comunicações  
procedentes dos mais diversos pontos vieram reafirmar e corroborar a primeira comunicação  
obtida a esse respeito.  
Em razão do êxito de O Livro dos Espíritos, levado pelos acontecimentos e pelos  
documentos que tinha em seu poder, Allan Kardec formou o projeto de criar um jornal  
espírita. Havia-se dirigido ao Sr. Tiedeman para lhe solicitar o auxílio financeiro, mas este  
não estava resolvido a tomar parte nessa empresa. Allan Kardec perguntou aos seus guias, no  
dia 15 de novembro de 1857, por intermédio da Srta. Ermance Dufaux, o que deveria fazer.  
Foi-lhe respondido que pusesse a sua ideia em execução e que não se inquietasse com o resto.  
Apressei-me em redigir o primeiro número diz Allan Kardec , e o lancei no dia 1  
de janeiro de 1858, sem nada dizer a ninguém. Não tinha um único assinante, nem sócio  
capitalista. Fiz tudo inteiramente por minha conta e risco, e não tive de que me arrepender,  
porque o êxito ultrapassou a minha expectativa. A partir de 1 de janeiro, os números se  
sucederam sem interrupção, e, como o previra o Espírito, esse jornal se tornou para mim um  
poderoso auxiliar. Mais tarde, reconheci que era uma felicidade para mim não ter tido um  
sócio capitalista, porque estava mais livre, enquanto que um estranho interessado teria  
pretendido impor-me as suas ideias e a sua vontade e poderia embaraçar meu trabalho. Só, eu  
não tinha que prestar contas a ninguém, por mais onerosa que, como trabalho, fosse a minha  
tarefa.  
14 - Allan Kardec  
E essa tarefa devia ir sempre crescendo em labor e em responsabilidades, em lutas  
incessantes contra obstáculos, emboscadas, perigos de toda sorte. Porém, à medida que o  
trabalho se tornava mais áspero, esse enérgico trabalhador se elevava, também, à altura dos  
acontecimentos, que nunca o surpreenderam; e durante onze anos, nessa Revista Espírita, que  
acabamos de ver como começou tão modestamente, ele afrontou todas as tempestades, todas  
as emulações, todos os ciúmes que não lhe foram poupados, como ele mesmo relata e como  
lhe foi anunciado ao ser revelada a sua missão. Essa comunicação e as reflexões de que as  
anotou Allan Kardec nos mostram, sob um prisma pouco lisonjeiro, a situação naquela época,  
mas fazem também ressaltar o grande valor do fundador do Espiritismo e o seu mérito em ter  
sabido triunfar:  
Médium, Sra. Aline C. 12 de junho de 1856:  
P. Quais são as causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a insuficiência  
das minhas aptidões?  
R. "Não; mas a missão dos reformadores é cheia de desafios e perigos; a tua é  
rude; previno-te, porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de transformar. Não  
creia que te seja suficiente publicar um livro, dois livros, dez livros, e ficar tranquilamente  
em tua casa; não, é preciso te mostrar no conflito; terríveis ódios se açularão contra ti,  
implacáveis inimigos tramarão a tua perda; estará exposto à calúnia, à traição, mesmo  
daqueles que te parecerão mais dedicados; as tuas melhores instruções serão impugnadas e  
desnaturadas; sucumbirá mais de uma vez ao peso da fadiga; em uma palavra, é uma luta  
quase constante que terá de sustentar com o sacrifício do teu repouso, da tua tranquilidade,  
da tua saúde e mesmo da tua vida, porque tu não viverá muito tempo. Pois bem. Mais de um  
recua quando, em lugar de uma vereda florida, não encontra sob seus passos senão  
espinhos, pedras agudas e serpentes. Para tais missões não basta a inteligência. É preciso  
antes de tudo, para agradar a Deus, humildade, modéstia, desinteresse, porque abatem os  
orgulhosos e os presunçosos. Para lutar contra os homens, é necessário coragem,  
perseverança e firmeza inquebrantáveis; é preciso, também, ter prudência e tato para  
conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito por medidas ou palavras  
intempestivas; enfim, é preciso devotamento, abnegação, e estar pronto para todos os  
sacrifícios.  
"Veja que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti"  
Espírito Verdade  
NOTA – (É Allan Kardec que assim se exprime): “Escrevo esta nota no dia 1 de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que  
esta comunicação me foi dada, e verifico que ela se realizou em todos os pontos, porque experimentei todas as tribulações  
que nela me foram anunciadas. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme;  
acusações infames têm sido publicadas contra mim; as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas; tenho sido traído  
por aqueles em quem depositara confiança, e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. A  
Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas, tramadas por aqueles que se diziam a meu favor, e que,  
mostrando-se amáveis em minha presença, me detratavam na ausência. Disseram que aqueles que adotavam o meu partido  
eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. Não tenho mais conhecido o repouso; mais de  
uma vez, sucumbi; sob o excesso do trabalho, alterando minha saúde e comprometendo a vida.  
“Entretanto, graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos, que sem cessar me têm dado provas  
manifestas de sua solicitude, sou feliz em reconhecer que não tenho experimentado um único instante de desfalecimento  
nem de desânimo, e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor, sem me preocupar com a  
malevolência de que era alvo. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, eu devia contar com tudo isso, e tudo se  
verificou.”  
Quando conhecemos todas essas lutas, todas as torpezas de que Allan Kardec foi  
alvo, quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante triunfo adquire mérito  
e esplendor! No que se tornaram esses invejosos, esses pigmeus que procuravam obstruir o  
seu caminho? Na maior parte são desconhecidos os seus nomes, ou nenhuma recordação  
despertam mais: o esquecimento os retomou e sepultou para sempre em suas sombras,  
enquanto que o de Allan Kardec, o intrépido lutador, o pioneiro ousado, passará à posteridade  
15 - O QUE É O ESPIRITISMO  
com a sua auréola de glória tão legitimamente adquirida.  
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi fundada em 1 de abril de 1858. Até  
então, as reuniões se realizavam na casa de Allan Kardec, na rua dos Mártires, com a Sra.  
Ermance Dufaux como principal médium; o seu salão poderia conter de quinze a vinte  
pessoas. Cedo, aí ele reuniu mais de trinta. Tornando-se então esse local muito acanhado e  
não querendo onerar Allan Kardec com todos os encargos, alguns dos assistentes se  
propuseram formar uma sociedade espírita e alugar outro local em que se efetuassem as  
reuniões. Mas, para poderem se reunir, era preciso obter o reconhecimento e a autorização da  
Polícia. O Sr. Dufaux, que conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então, encarregou-  
se de dar os passos para esse fim, e, graças ao ministro do Interior, o general X. que era  
favorável às novas ideias , a autorização foi obtida em quinze dias, enquanto que pelo  
processo ordinário teria exigido meses, sem grande probabilidade de êxito.  
A Sociedade foi então regularmente constituída e se reunia todas as terças-feiras,  
no local que foi alugado no Palais-Royal, galeria Valois. Aí ficou durante um ano, de 1 de  
abril de 1858 a 1 de abril de 1859. Não podendo lá permanecer por mais tempo, reunia-se  
todas as sextas-feiras em um dos salões do restaurante Douix, no Palais-Royal, galeria  
Montpensier, de 1 de abril de 1859 a 1 de abril de 1860, época em que se instalou em sede  
própria, na rua e passagem Sant’Ana nº 59.  
Depois de haver dado conta das condições em que se formou a Sociedade e da tarefa  
que teve a desempenhar, Allan Kardec assim se expressa (Revista Espírita, 1859, pág. 169.):  
“Empreguei em minhas funções — que posso dizer laboriosas toda a solicitude e  
toda a dedicação de que era capaz; do ponto de vista administrativo, esforcei-me por manter  
nas sessões uma ordem rigorosa e por imprimir-lhe um caráter de seriedade, sem o qual o  
prestígio de assembleia séria teria desaparecido cedo. Agora, que a minha tarefa está  
terminada e que o impulso está dado, devo lhes inteirar da resolução que tomei, de renunciar  
de futuro a toda espécie de função na Sociedade, mesmo a de diretor dos estudos; não  
ambiciono senão um título: o de simples membro titular, com que me sentirei sempre feliz e  
honrado. O motivo da minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos, que  
aumentam todos os dias, pela extensão das minhas relações; porque, além daqueles que  
conhecem, preparo outros trabalhos mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos  
estudos e não absorverão menos de dez anos; ora, os trabalhos da Sociedade não deixam de  
tomar muito tempo seja para o preparo, seja para a coordenação e a passagem a limpo.  
Reclamam assiduidade muitas vezes prejudicial às minhas ocupações pessoais, pois que se  
torna indispensável a iniciativa quase exclusiva que me têm deixado. É a esse motivo, meus  
senhores, que eu devo o fato de ter tantas vezes tomado a palavra, lamentando com frequência  
que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem das suas luzes.  
Desde muito tempo alimentava o desejo de me demitir das minhas funções: manifestei-o de  
modo muito explícito em diversas ocasiões tanto aqui, tanto em particular a muitos dos  
meus colegas, e especialmente ao Sr. Ledoyen. Teria feito isso mais cedo, não fosse o temor de  
produzir uma perturbação na Sociedade. Retirando-me no meado do ano, poderiam acreditar  
em uma deserção, e era preciso não dar esse prazer aos nossos adversários. Portanto,  
desempenhei a minha tarefa até ao fim; hoje, porém, que esses motivos cessaram, apresso-me  
em lhes dar parte da minha resolução, para não embaraçar a escolha que farão. É justo que  
cada um tenha a sua parte nos encargos e nas honras.  
Apressemo-nos a acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan Kardec  
foi reeleito por unanimidade, menos um voto e uma cédula em branco. Diante desse  
testemunho de simpatia, ele se submeteu e se conservou em suas funções.  
Em setembro de 1860, Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa região,  
e eis aqui como fez referência a ela na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:  
O Sr. Allan Kardec dá conta do resultado da viagem que acaba de fazer, no  
interesse do Espiritismo, e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por toda parte  
16 - Allan Kardec  
encontrou, especialmente em Sens, Mácon, Lião e Saint-Etienne. Em todo lugar em que se  
demorou, observou os progressos consideráveis da doutrina; mas o que sobretudo é digno de  
nota, é que em nenhuma parte viu que se fizesse um divertimento dela, mas, que, ao contrário,  
dela se ocupam de modo sério, e que por toda parte lhe compreendem o alcance e as  
consequências futuras. Sem dúvida, há muitos adversários, sendo os mais acesos os inimigos  
interessados, mas os zombeteiros diminuem sensivelmente; vendo que os seus sarcasmos não  
colocam do seu lado os gracejadores, e que auxiliam mais do que impedem o progresso das  
novas crenças, começam a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu  
ânimo em pura perda, e assim se calam. Uma frase muito característica parece ser em toda  
parte a ordem do dia, e é esta: o Espiritismo está no ar; só por si desenha o estado das coisas.  
Mas, é sobretudo em Lyon que os resultados são mais notáveis. Os espíritas lá são numerosos  
em todas as classes, e na classe operária contam-se por centenas. A Doutrina Espírita tem  
exercido sobre os operários a mais salutar influência, sob o ponto de vista da ordem, da  
moral e das ideias religiosas; em resumo, a propagação do Espiritismo marcha com a mais  
animadora rapidez.  
No decurso dessa viagem, Allan Kardec pronunciou um discurso magistral, no  
banquete realizado em 19 de setembro de 1860, do qual eis aqui algumas passagens, próprias  
a nos interessar, a nós que aspiramos a substituir dignamente esses trabalhadores da primeira  
hora:  
A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos; eu sabia  
perfeitamente que Lyon os contava em grande escala, mas estava longe de imaginar que o  
número fosse tão considerável, porque é por centenas que eles se contam, e, em pouco tempo  
eu espero , já se não poderão contar mais.  
Porém, se Lyon se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que  
ainda vale mais. Por toda parte só encontrei espíritas sinceros, compreendendo a doutrina  
sob seu verdadeiro ponto de vista. Há, meus senhores, três categorias de adeptos: uns que se  
limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram, antes de tudo, os fenômenos; o  
Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. Os  
segundos veem outra coisa nele além dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico,  
admiram a moral que deles decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é uma  
bela máxima, e nada mais. Os terceiros, finalmente, não se contentam de admirar a moral:  
praticam-na e aceitam-lhe as consequências. Bem convencidos de que a existência terrestre é  
uma prova passageira, esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes, para marchar na  
senda do progresso que lhes traçam os Espíritos, empenhando-se em fazer o bem e em  
reprimir as suas más inclinações; as suas relações são sempre seguras, porque as suas  
convicções os afastam de todo pensamento do mal; em toda ocasião, a caridade é a regra da  
sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os espíritas-cristãos.  
Pois bem, meus senhores, eu lhes digo com satisfação: ainda não encontrei, aí,  
nenhum adepto da primeira categoria; em parte alguma vi que se ocupassem do Espiritismo  
por mera curiosidade, com frívolos intuitos; por toda parte o objetivo é sério, as intenções são  
ajuizadas; e, a crer no que me dizem, há muitos da terceira categoria. Honra, pois, aos  
espíritas lioneses, por terem, assim, entrado largamente nessa senda progressista, sem a qual  
o Espiritismo não teria objetivo. Este exemplo não será perdido, terá suas consequências, e  
não é sem razão eu vejo que os Espíritos me responderam noutro dia, por um dos seus  
médiuns mais dedicados, posto que dos mais obscuros, quando eu lhes exprimia a minha  
surpresa: "Por que te admiras disso? Lyon foi a cidade dos mártires; a fé aí é vivaz; ela  
fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lyon será o coração".  
Essa opinião de Allan Kardec sobre os espíritas lioneses de sua época é para  
nós uma grande honra, mas deve ser também uma regra de conduta. Devemos nos esforçar  
por merecer esses elogios, aprofundando por nossa vez as lições do mestre e, sobretudo,  
conformando com elas o nosso proceder. Noblesse oblige7, diz um adágio; saibamo-nos  
7 "Noblesse oblige" (do francês): literalmente "a nobreza obriga", cuja conotação clássica é a de que devemos nos comportar conforme a  
altura de nossa nobreza N. E.  
17 - O QUE É O ESPIRITISMO  
recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do Espiritismo.  
Entretanto, Allan Kardec não se contentava em atirar flores sobre nossos  
companheiros; dava-lhes, sobretudo, sábios conselhos, sobre os quais, por nossa vez,  
deveremos meditar.  
O ensino vindo dos Espíritos, os diferentes grupos, tanto como os indivíduos, se  
acham sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos, ou os dirigem  
moralmente. Se esses Espíritos não se acham de acordo, a questão está em saber qual é o que  
merece maior confiança; será, evidentemente, aquele cuja teoria não pode provocar nenhuma  
objeção séria, em uma palavra, aquele que, em todos os pontos, dá maior número de provas  
de superioridade. Se tudo nesse ensino é bom, racional, pouco importa o nome que toma o  
Espírito; e a esse respeito a questão de identidade é inteiramente secundária. Se, sob um nome  
respeitável, o ensino peca pelas qualidades essenciais, podem imediatamente concluir que é  
um nome apócrifo8 e que é um Espírito impostor ou gaiato. Regra geral: o nome nunca é uma  
garantia; a única garantia verdadeira de superioridade é o pensamento e a maneira como ele  
é expresso. Os Espíritos enganadores tudo podem imitar, tudo, exceto o verdadeiro saber e o  
verdadeiro sentimento.  
Acontece muitas vezes que, para fazer adotar certas utopias, alguns Espíritos  
fazem alarde de um falso saber e pensam impô-las, escolhendo no arsenal das palavras  
técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente crédulo. Eles também têm um meio  
mais certo: é afetar as exterioridades da virtude; com o auxílio das grandes palavras —  
caridade, fraternidade, humildade esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos e é o  
que acontece muitas vezes, quando não estamos precavidos. É preciso então evitar nos deixar  
seduzir pelas aparências tanto da parte dos Espíritos, quanto da dos homens; ora, eu  
confesso, aí está uma das maiores dificuldades; mas, nunca se disse que o Espiritismo fosse  
uma ciência fácil; tem seus desafios que só podem ser evitados pela experiência. Para escapar  
da cilada, é preciso antes de tudo fugir ao entusiasmo que cega, ao orgulho que leva certos  
médiuns a se acreditarem os únicos intérpretes da verdade; é preciso que tudo seja friamente  
examinado, maduramente pesado, confrontado, e, se desconfiamos do próprio julgamento o  
que é muitas vezes mais prudente , é preciso recorrer a outras pessoas, segundo o  
provérbio: que quatro olhos veem melhor do que dois. Só um falso amor-próprio ou uma  
obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada  
um recusa.  
Eis os desafios tão sábios e tão práticos dados por aqueles que quiseram fazer passar  
por um entusiasta, um místico, um alucinado; e essa regra de conduta, estabelecida no  
começo, ainda não foi invalidada, nem pela observação, nem pelos acontecimentos; é sempre  
a vereda mais segura, mais prudente, a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do  
Espiritismo.  
Allan Kardec trabalhava então em O Livro dos Médiuns, que apareceu na primeira  
quinzena de janeiro de 1861, editado pelos Srs. Didier & Cia., livreiros-editores. O mestre  
expõe a sua razão de ser nos seguintes termos, na Revista Espírita:  
Neste trabalho, que é fruto de longa experiência e de laboriosos estudos,  
procuramos esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações; de  
acordo com os Espíritos, ele contém a explicação teórica dos diversos fenômenos e condições  
em que eles podem se produzir; mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da  
mediunidade foi, sobretudo, de nossa parte, objeto de atenção toda especial.  
O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se  
geralmente acredita, e os escolhos que aí se encontram são numerosos; é o que produz tanta  
decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. O  
nosso objetivo foi alertar os investigadores contra tais dificuldades, nem sempre isentas de  
inconveniente para quem quer que se aventure, com imprudência, por esse novo terreno. Não  
podíamos desprezar um ponto tão capital, e o tratamos com cuidado igual à sua importância.  
8 Apócrifo: falso, ilegítimo N. D.  
18 - Allan Kardec  
O Livro dos Médiuns é ainda o vade-mécum9 de todos que querem se entregar com  
proveito à prática do Espiritismo experimental; nada apareceu de melhor nem de mais  
completo nessa ordem de ideias. É ainda o mais seguro guia de que nos podemos servir para  
explorar, sem perigo, o terreno da mediunidade.  
* * *  
No ano de 1861, Allan Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens, Mácon e Lyon,  
e verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade.  
De fato diz ele , não é mais por centenas que contamos os espíritas aí, como há  
um ano; é por milhares, ou, para melhor dizer, já se não contam, e podemos calcular que,  
seguindo a mesma progressão, dentro de um ano ou dois eles serão mais de trinta mil. O  
Espiritismo tem feito adeptos aí em todas as classes, mas é sobretudo na classe operária que  
se tem propagado com maior rapidez, e isso não é de admirar: sendo essa classe a que mais  
sofre, volta-se para o lado que lhe oferece maior consolação. Se aqueles que clamam contra o  
Espiritismo lhe oferecessem outro tanto, essa classe se voltaria para eles; mas, ao contrário,  
querem tirar-lhe exatamente aquilo que a ajuda a carregar o seu fardo de miséria. E isto tem  
sido o meio mais seguro de perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas fileiras.  
O que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico e traz ensino tão  
grande que acreditamos dever dedicar aos operários a maior parte do nosso relatório.  
No ano passado, só havia um único centro de reunião, o dos Brotteaux, dirigido  
por Dijoux, chefe de oficina, e sua mulher; depois, formaram-se outros em diferentes pontos  
da cidade: em Guillotière, em Perrache, em Croix-Rousse, em Vaise, em Saint-Just, etc., sem  
contar grande número de reuniões particulares. Então, havia apenas dois ou três médiuns  
principiantes; hoje os há em todos os grupos e muitos são de primeira ordem; em um só grupo  
vimos cinco escreverem simultaneamente. Vimos, igualmente, um rapaz muito bom médium  
vidente, no qual pudemos verificar essa capacidade desenvolvida no mais alto grau.  
Sem dúvida, muito é para desejar que se multipliquem os adeptos, mas o que mais  
vale ainda do que o número é a qualidade. Pois bem, declaramo-lo bem alto: não vimos em  
parte alguma reuniões espíritas mais edificantes do que as dos operários lioneses, quanto à  
ordem, ao recolhimento e à atenção que prestam às instruções dos seus guias espirituais; há  
homens, velhos, senhoras, jovens, crianças mesmo, cuja atitude respeitosa contrasta com a  
sua idade; jamais uma única criança perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões,  
muitas vezes longas; pareciam quase tão ávidas quanto seus pais, em recolher as nossas  
palavras.  
Mas, isto não é tudo: o número das transformações morais é, entre os operários,  
quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados, paixões acalmadas,  
ódios apaziguados, lares tornados tranquilos, em uma palavra, as mais legítimas virtudes  
cristãs desenvolvidas, e isso pela confiança, de agora em diante inabalável, que lhes dão as  
comunicações espíritas, no futuro em que não acreditavam; é uma felicidade para eles  
assistirem a essas instruções, de que saem reconfortados contra a adversidade; muitos  
chegam a caminhar mais de uma légua, sob qualquer tempo, inverno ou verão, tudo  
arrostando para não faltarem a uma sessão; é que neles não há a fé vulgar, mas a baseada  
sobre uma convicção profunda, raciocinada e não, cega.  
Por ocasião dessa viagem, um banquete novamente reuniu sob a presidência de  
Allan Kardec os membros da grande família espírita lionesa. No dia 19 de setembro de 1860  
os convivas eram apenas uns trinta; em 19 de setembro de 1861 o número era de cento e  
sessenta, “representando os diferentes grupos, que se consideram todos como membros de  
uma grande família, entre os quais não existe sombra de ciúme e de rivalidade, o que diz o  
Mestre, de passagem temos grande satisfação em registrar. A maioria dos assistentes era  
composta de operários e todo mundo notou a perfeita ordem que não cessou de reinar um só  
instante. É que os verdadeiros espíritas põem sua satisfação nas alegrias do coração e não nos  
9 Vade-mécum (do latim): livro de referência, guia para determinado assunto, usado para pronta-pesquisa N. E.  
19 - O QUE É O ESPIRITISMO  
prazeres ruidosos”.  
Em 14 de outubro do mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus, onde,  
como em todas as cidades por que passava, semeava a boa-nova e fazia germinar fé no futuro.  
Além das viagens e dos trabalhos de Allan Kardec, esse ano de 1861 permanecerá  
memorável nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo monstruoso que quase parece  
incrível. Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em Barcelona, e em que foram queimadas  
pela fogueira dos inquisidores trezentas obras espíritas.  
O Sr. Maurício Lachâtre estava nessa época estabelecido como livreiro, em  
Barcelona, em relações e em comunhão de ideias com Allan Kardec. Assim, pediu a este que  
lhe enviasse certo número de obras espíritas, para expô-las à venda e fazer propaganda da  
nova filosofia.  
Essas obras (trezentas, aproximadamente) foram expedidas nas condições comuns,  
com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. Na sua chegada à Espanha, os direitos  
da alfândega foram cobrados ao destinatário e arrecadados pelos agentes do governo  
espanhol; mas a entrega das caixas não se fez: o bispo de Barcelona, tendo julgado esses  
livros perniciosos à fé católica, fez confiscar a expedição pelo Santo-Ofício.  
Uma vez que não queriam entregar essas obras ao destinatário, Allan Kardec  
reclamou a sua devolução; mas a sua reclamação foi de nulo efeito, e o bispo de Barcelona,  
fazendo-se autoridade da França, fundamentou a sua recusa com a seguinte resposta: “A  
Igreja Católica é universal, e sendo esses livros contrários à fé católica, o governo não pode  
consentir que eles passem a perverter a moral e a religião de outros países.  
E não somente esses livros não foram restituídos, mas também os direitos  
aduaneiros ficaram em poder do fisco espanhol. Allan Kardec poderia promover uma ação  
diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o retorno das obras. Entretanto, os  
Espíritos o convenceram a desistir disso, dizendo que para a propaganda do Espiritismo era  
preferível deixar essa desonra seguir o seu curso.  
Renovando os fastos e as fogueiras da Idade Média, o bispo de Barcelona fez  
queimar em praça pública, pela mão do carrasco, as obras incriminadas.  
Eis aqui, a título de documento histórico, o processo verbal dessa infâmia clerical:  
Aos nove dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da  
manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no lugar em que são executados os criminosos  
condenados à pena última, por ordem do bispo desta cidade foram queimados trezentos  
volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:  
A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;  
A Revista Espiritualista, diretor Piérart;  
O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;  
O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;  
O que é o Espiritismo, pelo mesmo;  
Fragmento de Sonata, ditado pelo Espírito Mozart;  
Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Doutor Grand;  
A História de Joana d’Arc, por ela mesma ditada a Sra. Ermance Dufaux;  
A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo Barão de  
Guldenstubbé.  
Assistiram ao auto-de-fé:  
Um padre revestido de hábitos sacerdotais, trazendo em uma das mãos a cruz e, na  
outra, uma tocha;  
Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do auto-de-fé;  
O escrevente do tabelião;  
Um empregado superior da administração das alfândegas;  
Três mozos (serventes) da alfândega, encarregados de alimentar o fogo;  
Um agente da alfândega, representando o proprietário das obras condenadas;  
Uma multidão incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada em  
que ardia a fogueira.  
20 - Allan Kardec  
Quando o fogo consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas, o padre e os  
seus ajudantes se retiraram cobertos pelos apupos e as maldições dos numerosos assistentes,  
que gritavam: Abaixo a Inquisição!  
Em seguida muitas pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas.  
Seria diminuir o horror de tais atos, acompanhá-los com a narrativa dos  
comentários; constatemos somente que o Espiritismo tomou um incremento inesperado em  
toda a Espanha ao clarão dessa fogueira e, como os Espíritos haviam previsto, conquistou aí  
um número incalculável de adeptos. Só podemos então, como o fez Allan Kardec, alegrar-nos  
com o grande reclamo que esse ato odioso operou em favor do Espiritismo. A propósito,  
porém, da propaganda que nós mesmos devemos fazer da nossa filosofia, nunca deveremos  
esquecer estes conselhos do Mestre (Revista Espírita, 1863, pág. 367.):  
O Espiritismo se dirige aos que não creem ou que duvidam, e não aos que têm fé e  
a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar  
as nossas, e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência  
que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas  
para converter às nossas ideias o clero, de qualquer comunhão que seja. Então repetiremos a  
todos os espíritas: acolham com dedicação os homens de boa vontade; ofereçam a luz aos que  
a procuram, porque com os que creem não serão bem-sucedidos; não violentem a fé de  
ninguém, muito mais quanto ao clero que aos leigos, porque semearão em campos áridos;  
ponham a luz em evidência, para que os que quiserem ver a vejam; mostrem os frutos da  
árvore e deles deem de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados.  
Estes conselhos, como todos os de Allan Kardec, são claros, simples e sobretudo  
práticos; cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos oportunamente.  
* * *  
O ano de 1862 foi fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. No dia 15  
de janeiro apareceu a pequenina e excelente brochura de propaganda: O Espiritismo em sua  
expressão mais simples. Diz Allan Kardec: “O objetivo desta publicação é apresentar, em  
quadro muito resumido, um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da doutrina dos  
Espíritos, para permitir ser compreendido o seu fim moral e filosófico. Pela clareza e  
simplicidade do estilo, procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências. Contamos com  
o zelo de todos os verdadeiros espíritas, para que lhe auxiliem a propagação.” Este apelo foi  
ouvido, porque a pequena brochura se espalhou em profusão, devendo muitos a esse excelente  
trabalho o fato de terem compreendido o fim e o alcance do Espiritismo.  
Tendo os nossos predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec, por  
ocasião do Ano-Novo, a expressão dos seus sentimentos de gratidão, eis aqui como respondeu  
o Mestre a esse testemunho de simpatia:  
Meus caros irmãos e amigos de Lyon:  
A manifestação coletiva que tiveram a bondade de me transmitir por ocasião do  
ano-novo produziu-me vivíssima satisfação, provando-me que conservaram de mim uma boa  
recordação; mas, o que me causou maior deleite, nesse ato espontâneo de sua parte, foi  
encontrar, entre as numerosas assinaturas que nele figuram, representantes de quase todos os  
grupos, porque é um sinal da harmonia que reina entre eles. Sou feliz por ver que  
compreenderam perfeitamente o objetivo dessa organização, cujos resultados desde já podem  
apreciar, porque deve ser agora evidente para vocês que uma sociedade única seria quase  
impossível.  
Agradeço, meus bons amigos, os votos que fazem por mim; eles me são tanto mais  
agradáveis quanto sei que partem do coração, e são os que Deus atende. Então, fiquem  
satisfeitos, porque Ele os ouve todos os dias, proporcionando-me a extraordinária satisfação  
no estabelecimento de uma nova doutrina, de ver aquela a que me tenho dedicado  
21 - O QUE É O ESPIRITISMO  
engrandecer e prosperar, em minha vida, com uma rapidez maravilhosa; considero um  
grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já produz.  
Esta certeza, de que recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me paga  
com usura todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; só peço a Deus uma graça, e é  
a de me dar a força física necessária para ir até ao fim da minha tarefa, que longe se encontra  
de estar concluída; mas, seja como for, possuirei sempre a maior consolação, pela certeza de  
que a semente das ideias novas, espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que  
muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido contemplar os  
primeiros frutos.  
Se lamento alguma coisa, é que a limitação dos meus recursos pessoais me não  
permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda mais rápido; porém, se  
em sua sabedoria, Deus entendeu dispor de modo diferente, legarei esses planos aos nossos  
sucessores, que, sem dúvida, serão mais felizes. Apesar da escassez dos recursos materiais, o  
movimento que se opera na opinião ultrapassou toda a expectativa; creiam, meus irmãos, que  
nisso o seu exemplo não terá sido sem influência. Recebam, portanto, as nossas felicitações  
pela maneira como sabem compreender e praticar a Doutrina.  
No ponto a que hoje as coisas chegaram, e tendo em vista a marcha do Espiritismo  
através dos obstáculos semeados em seu caminho, podemos dizer que as principais  
dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar e está colocado sobre bases que de  
ora em diante desafiam os esforços dos seus adversários.  
Perguntam como pode ter inimigos uma doutrina que torna feliz e melhor; é  
natural; o estabelecimento das melhores coisas inicialmente sempre choca interesses. Não tem  
acontecido assim com todas as invenções e descobertas que têm revolucionado a indústria? As  
que hoje são consideradas como benefícios, sem as quais não se poderia mais passar, não  
tiveram inimigos obstinados? Toda lei que reprime um abuso não tem contra si todos os que  
vivem dos abusos? Como poderiam querer que uma doutrina que conduz ao reino da caridade  
efetiva não fosse combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabem que eles são  
numerosos na Terra!  
No começo contaram sepultá-la com a zombaria; hoje veem que essa arma é  
impotente e que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem tropeçar. Não  
acreditem que se confessem vencidos; não, o interesse material é tenaz. Reconhecendo que é  
uma potência com que é necessário de hoje em diante contar, vão dirigir-lhe assaltos mais  
sérios, mas que só servirão para melhor atestar a fraqueza deles. Uns a atacarão diretamente  
por palavras e atos, e a perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se esforçarão  
por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros, secretamente e por caminhos  
disfarçados, procurarão miná-la surdamente.  
Fiquem prevenidos de que a luta não está terminada; fui avisado de que eles vão  
tentar um supremo esforço. Porém, não tenham receio: o penhor da vitória está nesta divisa,  
que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Ergam-na bem  
alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas.  
A tática posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão  
empregar com novo ardor é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e suscitando  
entre eles a desconfiança e o ciúme. Não se deixem cair no laço, e tenham como certo que  
quem quer que procure qualquer meio para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa  
intenção. É por isso que lhes recomendo que usem da maior atenção na formação dos seus  
grupos, não somente para sua tranquilidade, como no próprio interesse dos seus trabalhos.  
A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há  
recolhimento possível quando se está preocupado com discussões e com a manifestação de  
sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver fraternidade; porém, não  
pode haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Entre orgulhosos, que se  
suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão mortificados se não tiverem a  
supremacia, egoístas que não pensam senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se,  
e com ela a dissolução. É o que os nossos inimigos desejariam e é o que eles procuram fazer.  
Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranquilidade e de estabilidade,  
é preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou sociedade que se formar, sem  
ter caridade efetiva por base, não tem vitalidade; enquanto que aqueles que forem fundados  
de acordo com o verdadeiro espírito da doutrina vão se vê como membros de uma mesma  
família que, não sendo possível habitarem todos sob o mesmo teto, moram em lugares  
22 - Allan Kardec  
diferentes. A rivalidade entre eles seria um contrassenso; ela não poderia existir onde reina a  
verdadeira caridade, porque a caridade não se pode entender de duas maneiras.  
Reconheçam então o verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos,  
palavras e obras, e estejam convencidos de quem quer que nutra em sua alma sentimentos de  
animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão  
de compreender e praticar o Espiritismo.  
O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e  
a sociedade em geral…  
Tudo mereceria citação nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é preciso que  
nos limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.  
* * *  
A pedido dos espíritas de Lyon e de Bordéus, Allan Kardec fez uma longa viagem  
de propaganda em setembro e outubro, semeando por toda parte a boa-nova e distribuindo  
conselhos mas somente aos que lhe pediam; o convite feito pelos grupos lioneses estava  
subscrito por quinhentas assinaturas. Uma publicação especial deu conta dessa viagem de  
mais de seis semanas durante a qual o Mestre presidiu a mais de cinquenta reuniões em vinte  
cidades, onde por toda parte foi alvo do mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por  
verificar os imensos progressos do Espiritismo.  
A respeito das viagens de Allan Kardec, como certas influências hostis houvessem  
espalhado o boato de que eram feitas à custa da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,  
sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de antemão todos os seus gastos de  
correspondência e de manutenção, o Mestre rebateu essa falsidade assim:  
Muitas pessoas, sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas viagens  
oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando surgiu a ocasião; aos  
que ainda o pudessem partilhar, recordaremos o que afirmamos noutra circunstância  
(REVISTA ESPÍRITA, número de junho de 1862, página 167), que a Sociedade se limita a bancar  
às suas despesas correntes e não possui reservas; para que pudesse acumular capital, seria  
preciso que tivesse em mira o número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer, porque o seu  
fim não é a especulação e porque o número nada acrescenta à importância dos trabalhos. Sua  
influência é toda moral e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a ideia de  
uma assembleia idônea e séria, aí está o seu mais poderoso meio de propaganda. Então, ela  
não poderia prover tal despesa. Os gastos de viagem, como todos os que as nossas relações  
reclamam para o Espiritismo, são tirados dos nossos recursos pessoais e das nossas  
economias, aumentadas com o produto das nossas obras, sem o qual nos seria impossível  
prover a todos os encargos, que são para nós a consequência da obra que empreendemos. Isto  
é dito sem vaidade e unicamente para render homenagem à verdade, e para edificação  
daqueles aos quais se afigura que nós capitalizamos.  
Em 1862 Allan Kardec fez também aparecer uma Refutação às críticas contra o  
Espiritismo, no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.  
Em abril de 1864 publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, com a  
explicação das máximas morais do Cristo, sua aplicação e sua concordância com o  
Espiritismo. O título dessa obra foi depois modificado, e é hoje O Evangelho segundo o  
Espiritismo.  
Aproveitando-se da época das férias, Allan Kardec fez em setembro de 1864 uma  
viagem a Antuérpia e a Bruxelas. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de ver acerca dos  
grupos e sociedades espíritas, recorda o que já havia dito em Lyon, em 1861:  
Vale mais, portanto, haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos, em  
que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única sociedade que a  
todos reunisse. Esse fracionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios, desde  
que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim.  
23 - O QUE É O ESPIRITISMO  
As sociedades numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da propaganda;  
mas, quanto aos estudos sérios e continuados, é preferível constituírem-se grupos íntimos.  
No dia 1 de agosto de 1865, Allan Kardec lançou uma nova obra O Céu e o  
Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, na qual são mencionados numerosos  
exemplos da situação dos Espíritos, no mundo espiritual e na Terra, e as razões que  
motivaram essa situação.  
Os admiráveis êxitos do Espiritismo, seu desenvolvimento quase incrível, criaram-  
lhe inúmeros inimigos e, à proporção que ele se foi engrandecendo, aumentou, também, a  
tarefa de Allan Kardec. O Mestre possuía uma vontade de ferro, um poder de combatividade  
extraordinário; era um trabalhador infatigável; de pé, em qualquer estação, desde às 4 horas e  
meia, respondia a tudo, às polêmicas veementes dirigidas contra o Espiritismo, contra ele  
próprio, às numerosas correspondências que lhe eram dirigidas; atendia à direção da Revista  
Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, à organização do Espiritismo e ao  
preparo das suas obras.  
Esse excesso físico e intelectual esgotou-lhe o organismo, e repetidas vezes os  
Espíritos precisam chamá-lo à atenção, a fim de obrigá-lo a poupar a saúde. Ele, porém, sabe  
que não deve durar mais que uns dez anos ainda: numerosas comunicações o preveniram  
desse termo e lhe anunciaram mesmo que a sua tarefa não seria concluída senão em nova  
existência, que sucederia a breve trecho à sua próxima desencarnação; por isso ele não quer  
perder ocasião alguma de dar ao Espiritismo tudo o que pode, em força e vitalidade.  
Em 1867 faz uma curta viagem a Bordéus, Tours e Orleans; em seguida põe  
novamente mãos à obra, para publicar, em janeiro de 1868, A Gênese, os Milagres e as  
Predições segundo o Espiritismo. É das mais importantes esta obra, porque, sob o ponto de  
vista científico, constitui a síntese dos quatro primeiros volumes já publicados.  
Em seguida, Allan Kardec ocupa-se de um projeto de organização do Espiritismo,  
por meio do qual espera imprimir mais vigor, mais ação à filosofia de que se fez apóstolo,  
procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir seus frutos. O objeto constante  
das suas preocupações é saber quem o substituirá em sua obra, porque sente que o desenlace  
está próximo; e a constituição que elabora tem precisamente por fim prover às necessidades  
futuras da Doutrina Espírita.  
Desde os primeiros anos do Espiritismo, Allan Kardec havia comprado, com o  
produto das suas obras pedagógicas, 2.666 metros quadrados de terreno na Avenida Ségur,  
atrás dos Inválidos. Como essa compra esgotou os seus recursos, ele contraiu com o Crédit  
Foncier um empréstimo de 50.000 francos para fazer construir nesse terreno seis pequenas  
casas, com jardim; alimentava a doce esperança de se recolher a uma delas, na Vila Ségur, e  
depois da sua morte a tornaria asilo, a que se pudessem recolher na velhice os defensores  
indigentes do Espiritismo.  
Em 1869 a Sociedade Espírita era reconstituída e tornada sociedade anônima, com o  
capital de 40.000 francos, dividido em quarenta ações, para a exploração da livraria, da  
Revista Espírita e das obras de Allan Kardec. A nova sociedade devia instalar-se no dia 1 de  
abril, na Rua de Lille nº 7.  
Allan Kardec cujo contrato de arrendamento na Passagem Sant’Ana estava quase  
a terminar contava retirar-se para a Vila Ségur, a fim de trabalhar mais ativamente nas  
obras que lhe restava fazer e cujo plano e documentos se achavam já reunidos. Estava, pois,  
em todos os preparativos de mudança de domicílio, quando a 31 de março a doença de  
coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta constituição e, como um raio, o  
arrebatou à afeição dos seus discípulos. Essa perda foi imensa para o Espiritismo, que via  
desaparecer o seu fundador e mais poderoso propagandista, e lançou em profunda  
consternação todos os que o haviam conhecido e amado.  
Hippolyte-Léon Denizard Rivail Allan Kardec faleceu em Paris, Rua e  
Passagem Sant’Ana, 59, 2ª circunscrição e mairie de la Banque, em 31 de março de 1869, na  
idade de 65 anos, sucumbindo da ruptura de um aneurisma.  
24 - Allan Kardec  
Unânimes sentimentos acolheram a dolorosa notícia, e numerosíssima concorrência  
acompanhou ao cemitério Père-Lachaise10, sua derradeira morada, os despojos mortais  
daquele que havia sido Allan Kardec, daquele que, através dos tempos, brilhará como um  
meteoro fulgurante na aurora do Espiritismo.  
Quatro orações foram proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira, pelo Sr.  
Levent, em nome da Sociedade Espírita de Paris; a segunda, pelo Sr. Camilo Flammarion, que  
não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec e do papel que cabe aos seus trabalhos  
no movimento contemporâneo, mas ainda, e, sobretudo, um exame da situação das ciências  
físicas, no ponto de vista do mundo invisível, das forças naturais desconhecidas, da existência  
da alma e da sua indestrutibilidade. Em seguida, tomou a palavra o Sr. Alexandre Delanne,  
em nome dos espíritas dos centros afastados; e, depois, o Sr. E. Muller, em nome da família e  
dos seus amigos, dirigiu ao morto querido os últimos adeuses.  
A senhora Allan Kardec tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo.  
Sobreviveu-lhe até 1883, ano em que, a 21 de janeiro, se extinguiu, na idade de 89 anos, sem  
herdeiros diretos.  
Erraria quem acreditasse que, em virtude dos seus trabalhos, Allan Kardec devia ser  
uma personagem sempre fria e austera. Entretanto, não era assim. Esse sério filósofo, depois  
de haver discutido pontos mais difíceis da psicologia e da metafísica transcendental,  
mostrava-se expansivo, esforçando-se por distrair os convidados que ele frequentemente  
recebia na Vila Ségur; conservando-se sempre digno e sóbrio em suas expressões, sabia  
adubá-las com o nosso velho sal gaulês em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. Gostava  
de rir com esse belo riso franco, largo e comunicativo, e possuía um talento todo particular em  
fazer os outros partilharem do seu bom humor.  
Todos os jornais da época se ocuparam da morte de Allan Kardec e procuraram  
medir as suas consequências. Eis aqui, a título de lembrança, o que a esse respeito escrevia o  
Sr. Pagès de Noyez, no Journal de Paris, de 3 de abril de 1869:  
Aquele que por tão longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o  
pseudônimo de Allan Kardec, chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos.  
Vimo-lo deitado num simples colchão, no meio da sala das sessões a que há tantos  
anos ele presidia; vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem aqueles a quem a morte  
não surpreende e que, tranquilos quanto ao resultado de uma vida honesta e laboriosamente  
preenchida, imprimem como que um reflexo da pureza de sua alma sobre o corpo que  
abandonaram.  
Resignados pela fé em uma vida melhor, e pela convicção da imortalidade da alma,  
inúmeros discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios descorados que  
ainda na véspera lhes falavam a linguagem da Terra. Mas eles recebiam já a consolação de  
além-túmulo: o Espírito de Allan Kardec veio dizer-lhes quais haviam sido as suas comoções,  
quais as suas primeiras impressões, quais, dos que o haviam precedido no além-túmulo,  
tinham vindo ajudar-lhe a alma a desprender-se da matéria. Se “o estilo é o homem”, aqueles  
que conheceram Allan Kardec em vida não podem deixar de ficar emocionados pela  
autenticidade dessa comunicação espírita.  
A morte de Allan Kardec é notável por uma coincidência estranha. A Sociedade  
fundada por esse grande divulgador do Espiritismo acabava de desaparecer. Abandonado o  
local, retirados os móveis, nada mais restava de um passado que devia renascer sobre novas  
bases. No fim da última sessão, o presidente fizera as suas despedidas; preenchida a sua  
missão, retirava-se da luta cotidiana, para se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia  
espiritualista. Outros, mais jovens intrépidos deveriam continuar a obra e, fortes por sua  
virilidade, impor a verdade por sua convicção.  
Para que referir os detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu o  
10  
De acordo com a revista Reformador de abril de 1957, artigo "Madame Allan kardec", pág. 93, o corpo de Kardec foi sepultado no  
cemitério de Montmartre e só em 31 de março de 1870 seus restos mortais foram transferidos para o cemitério Pére-Lachaise, onde foi  
erguido um dólmen do estilo dos druidas, contendo uma célebre frase do codificador espírita: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir  
sempre, tal é a lei" N. E.  
25 - O QUE É O ESPIRITISMO  
instrumento, e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora em diante mergulhados  
no turbilhão imenso das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora própria. Com ele  
terminou o prólogo de uma religião vivaz, que, irradiando todos os dias, cedo terá iluminado  
toda a Humanidade. Ninguém melhor que ele podia conduzir a bom termo essa obra de  
propaganda, à qual era necessário sacrificar as longas vigílias que alimentam o espírito, a  
paciência que educa com o correr do tempo, a abnegação que afronta a estultícia do presente,  
para não ver senão a irradiação do futuro.  
Allan Kardec terá, com suas obras, fundado o dogma pressentido pelas mais antigas  
sociedades. Seu nome, apreciado como o de um homem de bem, está há muito tempo  
popularizado pelos que creem e pelos que receiam. É difícil praticar o bem sem chocar os  
interesses estabelecidos. O Espiritismo destrói muitos abusos, reanima muitas consciências  
doloridas, dando-lhes a certeza da prova e a consolação do futuro.  
Os espíritas choram hoje o amigo que os deixa, porque o nosso entendimento, por  
assim dizer, material, não se pode submeter a essa ideia de transição; porém, pago o primeiro  
tributo a essa inferioridade do nosso organismo, o pensador ergue a cabeça e através desse  
mundo invisível, que ele sente existir além do túmulo, estende a mão ao amigo, que já não  
existe, convencido de que o seu Espírito nos protege sempre.  
O presidente da Sociedade Espírita de Paris está morto; mas o número de adeptos  
cresce todos os dias, e os corajosos, os quais pelo respeito ao Mestre se deixavam ficar no  
segundo plano, não hesitarão em se evidenciarem, por bem da grande causa.  
Esta morte, que o leigo deixará passar indiferente, não deixa de ser, por isso, um  
grande fato para a Humanidade. Não é mais o sepulcro de um homem, é a pedra tumular  
enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara aos nossos pés e sobre o qual o  
Espiritismo esparge as flores da esperança.  
Um ponto sobre o qual não atraí a sua atenção, mas que devo assinalar, é a caridade  
verdadeiramente cristã de Allan Kardec; dele se pode dizer que a mão esquerda ignorou  
sempre o bem que fazia a direita, e que esta ainda menos conheceu os botes que à outra  
atiravam aqueles para quem o reconhecimento é um fardo excessivamente pesado. Cartas  
anônimas, insultos, traições, difamações sistemáticas, nada foi poupado a esse intrépido  
lutador, a essa alma grande e varonil que penetrou integralmente na imortalidade.  
O despojo mortal de Allan Kardec repousa no Père-Lachaise, em Paris, sob uma  
modesta lápide erigida pela piedade dos seus discípulos; é aí que se reúnem todos os anos,  
desde 1869, os adeptos que têm guardado fidelidade à memória do Mestre e conservam  
preciosamente no coração o culto da saudade.  
E já que um sentimento semelhante nos reúne hoje, repitamos bem alto, minhas  
senhoras, meus senhores: Honra! Honra e glória a Allan Kardec!  
Henri Sausse  
26 - Allan Kardec  
Preâmbulo  
As pessoas que têm apenas um conhecimento superficial do Espiritismo são  
naturalmente inclinadas a formular certas questões, cuja solução podiam, sem  
dúvida, encontrar em um estudo mais aprofundado dele; porém, o tempo e muitas  
vezes a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. Antes de  
empreenderem essa tarefa, muitos desejam saber, pelo menos, do que se trata e se  
vale a pena ocupar-se com tal coisa. Por isso, achamos útil apresentar  
resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são  
diariamente dirigidas; para o leitor, isto será uma primeira iniciação, e, para nós,  
tempo ganho sobre o que tínhamos de gastar repetindo constantemente a mesma  
coisa.  
Sob a forma de diálogos, o primeiro capítulo deste volume traz respostas às  
observações mais comumente feitas por aqueles que desconhecem os princípios  
fundamentais da Doutrina e, bem assim, a refutação dos principais argumentos de  
seus contraditores. Esta forma nos pareceu a mais conveniente, por não ter a aridez  
da dogmática.  
No segundo capítulo, damos uma exposição sumária das partes da ciência  
prática e experimental, sobre as quais, na falta de uma instrução teórica completa, o  
observador novato deve fixar a sua atenção para poder julgar com conhecimento de  
causa; é, aproximadamente, um resumo de O Livro dos Médiuns.  
Quase sempre as objeções nascem das ideias falsas, feitas, a priori11, sobre  
aquilo que se não conhece bem.  
Retificar essas ideias é prevenir as objeções, tal é o objetivo deste pequeno  
trabalho.  
No terceiro capítulo, publicamos um resumo de O Livro dos Espíritos, com  
a solução de acordo com a Doutrina Espírita de certo número de problemas do  
mais alto interesse, de ordem psicológica, moral e filosófica, que diariamente são  
propostos, e aos quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória.  
Procurem resolvê-los por qualquer outra teoria, sem a chave que nos  
fornece o Espiritismo; comparem suas respostas com as dadas por este, e digam  
quais são as mais lógicas, quais as que melhor satisfazem à razão.  
Estes resumos não somente são úteis aos principiantes, que neles poderão,  
em pouco tempo e com pouca despesa, beber as noções mais essenciais da Doutrina  
Espírita, como também aos adeptos, pois lhes fornecem os meios para responderem  
às primeiras objeções que não deixarão de lhes apresentar, e, além disso, por  
encontrarem reunidos, em quadro restrito e sob um mesmo ponto de vista, os  
11A priori = ideia prematura e preconcebida, por suposição, sem conhecimento de causa N. E.  
27 - O QUE É O ESPIRITISMO  
princípios que devem sempre estar presentes à sua memória.  
Para responder, desde já e sumariamente, à pergunta formulada no título  
deste opúsculo, diremos que:  
O ESPIRITISMO É, AO MESMO TEMPO, UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO  
E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. COMO CIÊNCIA PRÁTICA ELE CONSISTE NAS  
RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS; COMO  
FILOSOFIA, COMPREENDE TODAS AS CONSEQUÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM  
DESSAS MESMAS RELAÇÕES.  
Podemos defini-lo assim:  
O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos  
Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.  
28 - Allan Kardec  
CAPÍTULO I  
Pequena conferência espírita  
PRIMEIRO DIÁLOGO  
O CRÍTICO  
Visitante Confesso, caro senhor, que a minha razão recusa admitir a  
realidade dos fenômenos estranhos atribuídos aos Espíritos, convencido que estou de  
estes não terem senão uma existência imaginária. Entretanto, eu me curvaria diante  
da evidência, se disso tivesse provas incontestáveis; por isso desejo merecer a sua  
permissão de assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser indiscreto, a  
fim de convencer-me, caso seja possível.  
Allan Kardec Desde que a tua razão repele o que nós consideramos  
irrecusável, tu a crê superior às de todos quantos não compartilham de tuas  
opiniões. Longe de mim o pensamento de duvidar do teu talento e a pretensão de  
supor minha inteligência superior à tua; então, admita que eu esteja iludido, é a tua  
razão quem te diz: e não falemos mais nisso.  
V. Entretanto, se conseguisse me convencer, conhecido que sou como  
opositor das suas ideias, isto seria um milagre eminentemente favorável à causa que  
defendem.  
A. K. Lamento-o, caro senhor, porém não tenho o dom de fazer  
milagres. Julga que uma ou duas sessões bastariam para adquirir convicção? Seria,  
realmente, um verdadeiro prodígio; eu precisei mais de um ano de trabalho para  
ficar convencido; o que prova que não cheguei a esse estado inconsideradamente.  
Além disso, não realizo sessões públicas e me parece que te enganou sobre o fim  
das nossas reuniões, visto não fazermos experiências com o propósito de satisfazer  
à curiosidade de ninguém.  
V. Não procuram então fazer prosélitos?12  
A. K. Para que buscarmos fazer prosélito, se não quer ser um?Não  
pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente  
desejam se instruir e me dão a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro  
um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; porém, quanto aos  
opositores que, como tu, têm convicções arraigadas, não tento um passo para delas  
12 Prosélito: seguidor, partidário, pessoa atraída ou convertida para uma doutrina religiosa, filosófica, política, etc. N. E.  
29 - O QUE É O ESPIRITISMO  
arredá-los, atento a que é grande o número dos que se mostram bem-dispostos,  
para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que não estão interessados.  
Estou certo de que, diante dos fatos, a convicção há de vir, mais cedo ou  
mais tarde, e que os descrentes hão de ser arrastados pela torrente; por ora, alguns  
partidários, de mais ou de menos, nada alteram na pesagem; pelo que nunca me  
verá incomodado para atrair às nossas ideias aqueles que, como tu, sabem as  
razões que têm para fugir delas.  
V. Há mais interesse em me convencer do que supõe. Permita que me  
explique com franqueza e prometa não ver ofensa alguma nas minhas palavras? São  
as minhas ideias sobre a coisa em si e não sobre a pessoa a quem me dirijo; posso  
respeitar a pessoa, sem participar de suas opiniões.  
A. K. O Espiritismo me tem ensinado a desprezar esses mesquinhos  
melindres do amor-próprio, e a não me ofender com palavras. Se as tuas expressões  
saírem dos limites da civilidade e das conveniências, apenas concluirei que se trata  
de um homem mal-educado, mas não irei além.  
Quanto a mim, antes quero que os outros fiquem com os defeitos, do que  
compartilhar deles. Veja, só por isso, que o Espiritismo já serve para alguma coisa.  
Já te disse, senhor, não tenho a pretensão de te fazer adotar a minha  
opinião; respeito a tua, se é sincera, como desejo que respeite a minha.  
Acreditando ser o Espiritismo um sonho sem sentido, sem dúvida que,  
vindo a minha casa, disse: Vou ver um louco. Confesse francamente, pois com isso  
não me escandalizarei.  
Todos os espíritas são loucos é coisa sabida. Pois bem! Se julgas assim,  
eu tenho escrúpulo de te transmitir a minha enfermidade mental; e causa-me  
espanto te ver buscar com tal pensamento uma convicção que vai te colocar no  
número dos loucos. Se já estás persuadido de que não conseguiremos te convencer,  
o passo que deu é inútil, visto que só terá por fim a curiosidade. Abreviemos, por  
favor, porque me falta tempo para perder em conversações sem propósito.  
V. O homem pode se enganar, deixar-se iludir, sem que, por isso, seja  
louco.  
A. K. Diga logo: como muitos outros, acredita que isto é moda que  
durará certo tempo; mas deve convir que um passatempo que, em alguns anos, tem  
conquistado milhões de partidários, em todos os países, que conta entre seus  
adeptos sábios de toda ordem, que se propaga de preferência nas classes mais  
esclarecidas, é uma estranha mania que merece ser examinada.  
V. Tenho minhas ideias a respeito, é certo, porém elas não se acham tão  
absolutamente firmadas, que não consinta em sacrificá-las à evidência. Disse que  
teria certo interesse em me convencer. Confesso que pretendo publicar um livro em  
que me proponho demonstrar com conhecimento de causa a minha opinião  
sobre o que considero um erro; e como esse livro deve produzir efeito, dando um  
golpe no Espiritismo, eu deixaria de publicá-lo, caso ficasse convencido da realidade  
da tua doutrina.  
A. K. Eu lamentaria que ficasse privado do que te pode proporcionar um  
30 - Allan Kardec  
livro que deve produzir tanto efeito; além disso, não tenho interesse algum em  
impedir a sua publicação: ao contrário, desejo-lhe grande circulação, porque assim  
ele nos servirá de prospecto e propaganda.  
A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há  
muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz a verdade aparecer,  
mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem  
querer, se faz propaganda do que se quer combater.  
Por outro lado, a questão dos Espíritos é tão palpitante de interesse, choca  
a tal ponto a curiosidade, que basta assinalá-la à atenção, para que nasça o desejo  
de aprofundá-la.  
V. Então, no teu entender, a crítica para nada serve, a opinião pública  
não vale nada?  
A. K. Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas  
como juízo individual, que bem pode se enganar. Leia a história e verá quantos  
trabalhos importantes foram criticados ao aparecer, sem que isso os excluísse do  
número das grandes obras; porém, quando uma coisa é má, não há elogio que a  
torne boa. Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo; se, porém, é  
uma verdade, não há diatribe13 que possa fazer dele uma mentira.  
Ao nosso modo de ver, teu livro não será mais que uma apreciação  
pessoal; a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos teus conceitos.  
Procurarão examinar. Se mais tarde reconhecerem que se enganou, teu livro se  
tornará ridículo, como aqueles que há pouco tempo foram publicados contra as  
teorias da circulação do sangue, da vacina etc., etc.  
Esquecia-me, porém, que ia tratar a questão com conhecimento de causa, o  
que equivale a dizer que a estudou sob todas as suas faces; que viu tudo o que se  
pode ver, leu tudo o que tem sido escrito sobre a matéria, analisou e comparou as  
diversas opiniões; que te achou nas melhores condições de observação pessoal; que  
durante anos lhe dedicou vigílias; em suma: que nada desprezou para chegar à  
verdade. Devo crer que isso aconteceu, se for um homem sério, porque somente  
aquele que fez tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa.  
Que juízo formaria de um homem que, sem conhecimento de literatura, sem  
ter estudado a pintura, se levantasse para censurar uma obra literária ou um  
quadro? É de lógica elementar que o crítico conheça aquilo de que fala, não  
superficialmente, mas, a fundo, sem o que, sua opinião não tem valor.  
Para combater um cálculo é necessário propor a ele outro cálculo, o que  
exige saber calcular. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má;  
é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica,  
baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica.  
Como poderá fazê-lo, quando não conhecer esses princípios?  
Não tendo ideia da mecânica, poderia apreciar as qualidades, ou os  
defeitos de determinada máquina? Não. Pois bem: o teu juízo acerca do  
Espiritismo, que aliás não conhece, não pode ter mais valor que o que, nas  
condições acima, emitisse opinião sobre a referida máquina. A cada passo seria  
apanhado em flagrante delito de ignorância, porque aqueles que têm estudado a  
13 Diatribe: crítica sobre alguma obra N. E.  
31 - O QUE É O ESPIRITISMO  
matéria verão logo que a desconhece; donde concluirão que não se trata de um  
homem sério ou que age de má-fé; portanto, seja num caso, seja noutro, expondo-se  
a ser desmentido pouco lisonjeiro ao teu orgulho.  
V. É precisamente para evitar esse perigo que vim te pedir permissão  
para assistir a algumas experiências.  
A. K. E julga que isto te baste para poder, falar de Espiritismo com  
conhecimento de causa? Como poderá compreender essas experiências e, ainda  
mais, julgá-las, quando não estudou os princípios em que elas se baseiam? Como  
apreciaria o resultado de ensaios metalúrgicos, satisfatório ou não, não conhecendo  
a fundo, por exemplo, a metalurgia?  
Permita-me te dizer, senhor, que teu projeto é absolutamente a mesma  
coisa que, não tendo estudado a Matemática, nem a Astronomia, te apresentasse a  
um dos membros do Observatório, dizendo-lhe: “Senhor, quero escrever um livro  
sobre Astronomia e provar que o sistema de vocês é falso; mas, como desconheço os  
menores rudimentos dessa ciência, deixa que me sirva da tua luneta por uma ou  
duas vezes; o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vocês".  
É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinônima de  
censurar; em sua acepção própria e segundo a etimologia, ela significa julgar,  
apreciar. Então, a crítica pode ser aprobativa ou desaprovadora.  
Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo; quem  
empreende essa tarefa, deve fazê-lo sem ideias preconcebidas; porém, se antes de  
abrir o livro, já o condena em pensamento, o exame não pode ser imparcial.  
Tal é o caso da maioria dos que têm falado contra o Espiritismo. Apenas  
sobre o nome formaram uma opinião, fazendo qual juiz que proferisse uma  
sentença, sem antes examinar as peças do processo. A consequência foi que seu  
julgamento feriu em falso, e que, em vez de persuadir, ocasionaram riso.  
A maior parte dos que seriamente têm estudado a questão, mudou de ideia,  
e mais de um adversário se tem tornado adepto do Espiritismo, quando reconhece  
que o seu objetivo é muito diverso daquele que supunha.  
V. Falou do exame dos livros em geral; acredita que seja materialmente  
possível a um jornalista ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos, sobretudo  
quando se ocupam com teorias novas, que lhe seria preciso aprofundar e verificar?  
Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras saídas de sua  
prensa.  
A. K. A tão judicioso raciocínio não tenho outra resposta a dar senão  
que, quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa, é melhor  
não fazê-la; é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus.  
V. Não acredite que minha opinião se tenha formado levianamente. Vi  
mesas girarem e produzirem sons como de pancadas; vi pessoas escreverem o que,  
segundo diziam, lhes ditavam os Espíritos; porém, estou convencido de que nisso há  
charlatanismo.  
A. K. Quanto cobraram para te mostrar essas coisas?  
32 - Allan Kardec  
V. Nada, por certo.  
A. K. Ora, aí estão charlatães de uma espécie diferente, que vão  
reabilitar o nome da sua classe. Até o presente não se tinha ainda visto charlatães  
desinteressados.  
Suponhamos que um gaiato de mau gosto tenha querido uma vez se divertir  
assim; será aceitável que as outras pessoas presentes pactuassem com ele? Demais,  
com que fim elas se fariam cúmplices de uma mistificação? Dirá que com o fim de  
divertir a sociedade...  
Concordo em que uma vez se prestassem a tal brinquedo; porém, quando  
esse brinquedo dura meses e anos, julgo que o mistificado é o próprio mistificador.  
Não é provável que, só pelo gosto de fazer que creiam em uma coisa que ele sabe  
ser falsa, alguém vá passar horas inteiras, imóvel, agarrado a uma mesa. O gosto  
não equivaleria à pena.  
Antes de julgar isso uma fraude, é preciso indagar que interesse havia em  
enganar; ora, não deixaria de convir que haja pessoas que se não combinam com a  
mais leve suspeita de embuste; pessoas cujo caráter já é uma garantia de  
probidade.  
Seria muito diferente case se tratasse de uma especulação, porque a  
tentação do ganho é má conselheira; todavia, admitindo mesmo que, neste último  
caso, ficasse bem comprovado um manejo fraudulento, isso em nada ofenderia a  
realidade do princípio, porque de tudo se pode abusar.  
Não é por que se vende vinho falsificado que devemos concluir que não  
existe vinho puro. O Espiritismo não é mais responsável pelos atos daqueles que  
abusam desse nome e o exploram, do que a ciência médica é responsável pelos atos  
dos charlatães que impingem suas drogas, ou a religião pelos dos sacerdotes que  
iludem seu ministério. Por sua novidade e mesmo por sua natureza, o Espiritismo  
está sujeito a abusos; porém, ele mesmo fornece os meios para que os reconheçam,  
definindo claramente seu verdadeiro caráter e afastando de si toda a solidariedade  
com aqueles que o viriam a explorar ou desviar do seu fim exclusivamente moral,  
para transformá-lo em meio de vida, em instrumento de adivinhação ou de  
investigações fúteis.  
Desde que o Espiritismo traça os limites em que se faz, define o que pode  
ou não dizer ou fazer, o que está ou não em suas atribuições, o que aceita e o que  
repudia, toda a falta recai sobre aqueles que, não se dando ao trabalho de estudá-  
lo, o julgam pelas aparências e que, por terem encontrado saltimbancos adornando-  
se sob o nome de espíritas, para chamar concorrência, dizem com gravidade: eis o  
que é o Espiritismo. Definitivamente, sobre quem cairá o ridículo? Será sobre o  
saltimbanco que usa do seu ofício? Será sobre o Espiritismo, cuja doutrina escrita  
desmente tais asserções? Ou, antes, sobre os críticos que falam do que não sabem  
ou de, cientemente, alterarem a verdade?  
Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua mesma  
ciência, fazem-no por ignorância ou má intenção; no primeiro caso há leviandade,  
no segundo, má-fé. E, neste último caso, eles se colocam na posição do historiador  
que, no interesse de sustentar um partido ou uma opinião, alterasse os fatos  
históricos. Quando usa desses meios, o partido fica desacreditado e não consegue o  
seu propósito.  
33 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Note bem, cavalheiro, que eu não pretendo que a crítica deve  
necessariamente aprovar nossas ideias, mesmo depois de havê-las estudado; não  
nos revoltamos de forma alguma contra os que não pensam como nós. O que é  
evidente para nós pode não ser para vocês outros; cada qual julga as coisas  
debaixo de certo ponto de vista, e do fato mais positivo nem todos tiram as mesmas  
consequências.  
Se um pintor, por exemplo, pinta em seu quadro um cavalo branco, não  
faltará quem diga que essa cor faz aí mau efeito, que a cor negra conviria mais, e  
nisto não se comete erro; porém, cometeremos erro se, vendo que o cavalo é  
branco, afirmarmos que é negro; é o que faz a maioria dos nossos adversários.  
Em resumo, senhor, todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar  
os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as consequências boas ou más que  
lhes agradar, porém a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o  
contrário do que ele sabe que é; ora, para isso, a primeira condição é não falar do  
que não conhece.  
V. Por favor, voltemos às mesas que se movem e falam; não será  
possível que elas sejam preparadas com algum artifício?  
A. K. É sempre a mesma questão de boa-fé, a que já respondi.  
Quando a fraude for provada, eu a reconhecerei; se descobrir fatos  
demonstrados de embuste, charlatanismo, especulação ou abuso de confiança,  
fustigue-os e eu desde já te declaro que não irei defendê-los, porque o Espiritismo  
sério é o primeiro a repudiá-los; e quem assinalar tais abusos o auxilia no trabalho  
de preveni-los e lhe presta importante serviço. Porém, generalizar essas acusações,  
lançar sobre elevado número de pessoas honradas a reprovação que só cabe a  
alguns indivíduos isolados, é um abuso de outro gênero, porque é uma calúnia.  
Admitindo, como disse, que as mesas estivessem preparadas, era preciso  
que o mecanismo empregado fosse bem engenhoso para fazê-las produzir  
movimentos e sons tão variados. Ora, como não é ainda conhecido o nome do hábil  
artista que os fabrica? Entretanto, ele deveria gozar de grande celebridade, visto  
que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo.  
Devemos também convir que o seu processo é bastante delicado e sutil,  
para poder se adaptar à primeira mesa que se apresenta, sem deixar sinal algum  
exterior que o denuncie.  
Como é que, desde Tertuliano, que já tratava das mesas giratórias e  
falantes, até o presente ninguém conseguiu ver e descrever tal mecanismo?  
V. Eis o que te ilude. Um célebre cirurgião reconheceu que certas  
pessoas podem produzir um ruído semelhante ao que atribuís à mesa pela contração  
de um músculo da perna; donde concluiu que os médiuns se divertem à custa da  
credulidade dos assistentes.  
A. K. Se é um estalido do músculo, não é então a mesa que está  
preparada. Uma vez que cada qual explica a seu modo essa pretendida fraude, fica  
reconhecido que a verdadeira causa não é sabida.  
Respeito a ciência desse sábio cirurgião, e somente acho que se  
apresentam algumas dificuldades na aplicação, às mesas falantes, da teoria  
34 - Allan Kardec  
indicada.  
A primeira é que é estranho que essa faculdade se tenha tornado comum,  
até o presente excepcional e olhada como um caso patológico; a segunda, que é  
preciso que haja robustíssima vontade de mistificar, para fazer estalar o músculo  
durante duas ou três horas consecutivas, quando disso só resulte senão fadiga e dor  
a quem assim procede; a terceira, que eu não compreendo bem como pode esse  
músculo responder às portas e paredes em que as pancadas se fazem ouvir; a  
quarta, finalmente, que é necessário dar-se a esse músculo estalador uma  
propriedade bem maravilhosa, para que ele possa mover uma pesada mesa,  
levantá-la, abri-la, fechá-la, conservá-la suspensa sem ponto de apoio, e,  
finalmente, fazê-la despedaçar-se ao cair. Ninguém, por certo, desconfiava que esse  
músculo possuísse tanta virtude (Revista Espírita, junho de 1859, artigo O Músculo  
estalante”).  
O célebre cirurgião de que fala teria estudado o fenômeno da tiptologia  
sobre os indivíduos que os produzem? Não; ele observou um efeito fisiológico  
anormal em alguns indivíduos que nunca se ocuparam de mesas batedoras; e,  
notando certa analogia entre esse efeito e o que essas mesas produzem, sem mais  
amplo exame concluiu, com toda a autoridade de sua ciência, que todos os que  
contribuem para que as mesas falem, devem ter a propriedade de fazer estalar o  
músculo curto-perônio, e não são mais que embusteiros sejam eles príncipes ou  
artífices, recebam ou não um pagamento.  
Ao menos, ele estudou o fenômeno da tiptologia em todas as suas fases?  
Verificou, por meio desse estalido muscular, se podia produzir todos os efeitos  
tiptológicos? Não; porque, do contrário, ele ficaria convencido da insuficiência do  
seu processo; apesar disso, julgou-se no caso de proclamar a sua descoberta, em  
pleno instituto.  
Esse juízo não será bastante comprometedor para um sábio? Quem pensa  
hoje nessa opinião? Confesso que, se me tivesse de sujeitar a uma operação  
cirúrgica, hesitaria muito em confiar-me a esse médico, porque recearia que ele não  
julgasse o meu mal com mais perspicácia.  
Já que esse juízo é uma das autoridades em que parece querer se apoiar  
para esmagar o Espiritismo, fico completamente inteirado da força dos outros  
argumentos que quer validar, a menos que não vá bebê-los em fontes mais  
autênticas.  
V. Entretanto, bem vê que já passou a moda das mesas girantes que  
durante certo tempo fizeram furor; hoje ninguém mais se ocupa com elas. Por que se  
dá isso, quando é uma coisa séria?  
A. K. Porque das mesas girantes saiu uma coisa ainda mais séria: uma  
ciência completa, uma perfeita doutrina filosófica, do máximo interesse para os  
homens que refletem. Quando estes nada mais tiveram a aprender no giro das  
mesas, não mais se ocuparam com elas.  
Para as pessoas fúteis, que nada querem aprofundar, esse fenômeno era  
um passatempo, um divertimento que abandonaram quando dele se aborreceram;  
são pessoas com as quais a ciência não conta. O período de curiosidade teve seu  
tempo e foi sucedido pelo da observação. O Espiritismo entrou então no domínio da  
35 - O QUE É O ESPIRITISMO  
gente séria, que não o toma como objeto de divertimento, mas, sim, como meio de se  
instruir. Porém, essas pessoas que o consideram como coisa séria, não se prestam a  
qualquer experiência de curiosidade, e ainda menos a satisfazer a daqueles que se  
apresentam com pensamentos hostis; como não brincam, não se prestam a servir de  
brinquedo para os outros; eu pertenço a esse número.  
V. No entanto, somente a experiência pode convencer, mesmo aquele  
que, a princípio, seja movido pela curiosidade. Se só trabalham na presença de  
pessoas convictas, deixem que lhes diga, ensinem a quem já sabe.  
A. K. Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a se  
convencer; é aos desta última classe que me dirijo, e não aos que julgam vir escutar  
humilhação o que eles chamam ilusões. Com estes eu não me ocupo, absolutamente.  
Quanto aos que manifestam sincero desejo de se esclarecer, o melhor modo  
que têm para prová-lo é mostrar perseverança; são reconhecidos por outros sinais  
que não apenas o desejo de ver uma ou duas experiências: esses querem trabalhar  
seriamente.  
A convicção só se adquire com o tempo, por meio de uma série de  
observações feitas com cuidado todo particular. Os fenômenos espíritas diferem  
essencialmente dos das ciências exatas: não se produzem à vontade; é preciso que  
os colhamos de passagem; é observando muito e por muito tempo que se descobre  
uma porção de provas que escapam à primeira vista, sobretudo, quando não se está  
familiarizado com as condições em que se pode encontrá-las, e ainda mais quando  
se vem com a intenção prevenida.  
As provas abundam para o observador assíduo e refletido: uma palavra,  
um fato aparentemente insignificante é para ele um raio de luz, uma confirmação;  
ao passo que tais fatos não têm sentido para quem os observa superficialmente ou  
por simples curiosidade; eis por que não me presto a fazer experiências sem  
resultado provável.  
V. Enfim, tudo deve ter começo. O aprendiz, que nada sabe, que nada  
viu ainda, mas que deseja se esclarecer, como poderá fazê-lo, quando não lhe  
permite os meios para isso?  
A. K. Eu faço grande distinção entre o incrédulo por ignorância e o  
incrédulo por intenção; quando descubro alguém com disposições favoráveis, nada  
me custa esclarecê-lo; há, porém, pessoas em quem a vontade de instruir-se só é  
aparente; com estas perde-se o tempo; porque, se elas não encontram logo o que  
parecem buscar e que talvez as incomodasse, se aparecesse , o pouco que veem  
não é o suficiente para lhes destruir as prevenções; julgam mal os resultados  
obtidos e os transformam em objeto de zombaria, pelo que não há utilidade em lhes  
fornecer evidências.  
A quem deseja se instruir, direi: “Não se pode fazer um curso de  
Espiritismo experimental como se faz um de Física ou de Química, atento que nunca  
se é senhor de produzir os fenômenos espíritas à vontade, e que muitas vezes as  
inteligências desses agentes fazem todas as nossas previsões se frustrarem. Aqueles  
que acidentalmente poderiam ver, não apresentando nexo algum, nem ligação  
necessária, seriam pouco compreensíveis para vocês.  
36 - Allan Kardec  
Instruam-se primeiramente pela teoria, leiam e meditem as obras que  
tratam dessa ciência; nelas aprenderão os princípios, encontrarão a descrição de  
todos os fenômenos, compreenderão a possibilidade deles pela explicação que elas  
lhes darão, e, pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que  
pudestes ser testemunha sem os compreender, mas que lhes voltarão à memória,  
vocês se fortificarão contra todas as dificuldades que possam surgir e desse modo  
formarão uma primeira convicção moral.  
Então, quando se apresentar a vocês a ocasião de observar ou operar  
pessoalmente, compreenderão, qualquer que seja a ordem em que os fatos se  
mostrem, porque nada verão de estranho.  
Eis, meu caro senhor, o que aconselho a todos que dizem querer instruir-  
se, e, pela resposta que dão, é fácil conhecer se neles há alguma coisa mais que  
curiosidade!  
SEGUNDO DIÁLOGO  
O CÉTICO14  
V. Compreendo, cavalheiro, a utilidade do estudo preliminar de que  
acaba de falar. Como predisposição pessoal, direi que não sou a favor nem contra o  
Espiritismo, mas esse assunto me excita o interesse no mais alto grau.  
Entre as pessoas de meu conhecimento, há partidários e adversários dele;  
tenho ouvido argumentos muito contraditórios a seu respeito, e me propunha  
submetê-lo algumas das objeções que foram feitas em minha presença e que me  
parecem de certo valor, para mim ao menos, que te confesso a minha ignorância a  
respeito.  
A. K. Terei grande satisfação, meu amigo, em responder às perguntas  
que me quiser dirigir, sempre que forem feitas com sinceridade e sem pensamento  
oculto; entretanto, não tenho a pretensão de poder responder a todas.  
O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e da qual resta ainda  
muito a aprender; pois então, seria grande presunção de minha parte pretender  
levar de vencida todas as dificuldades; não poderei dizer mais do que sei. O  
Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e  
da Moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas.  
Compreenda que me seria materialmente impossível repetir de viva voz e a cada  
pessoa, em particular, tudo quanto tenho escrito sobre essa matéria, para uso geral.  
Em prévia leitura cada qual encontrará, além disso, uma resposta à maior  
parte das questões que lhe venham à mente; essa leitura tem a dupla vantagem de  
evitar repetições inúteis e de provar um desejo sincero de instruir-se. Se, depois  
dela, ainda existirem dúvidas ou pontos obscuros, o esclarecimento não oferecerá  
mais dificuldade, porque já se possui um ponto de apoio e não se tem necessidade  
de perder tempo em rever os princípios mais elementares da Doutrina.  
Se assim permitir, cuidemos por ora de algumas questões genéricas.  
14 Cético, ou céptico: aquele que desacredita, que duvida e que supõe que não se possa chegar à solução verdadeira sobre aquilo que está  
em questão N. E.  
37 - O QUE É O ESPIRITISMO  
V. Assim seja; tenha a bondade de chamar minha atenção, sempre que  
eu dela me afaste.  
Espiritismo e Espiritualismo  
V. Em primeiro lugar, pergunto qual a necessidade da criação de novos  
termos: espírita e espiritismo, para substituir: espiritualista e espiritualismo, que são  
da língua comum e já compreendidos por todos nós? Já ouvi alguém classificar tais  
termos de barbarismos15.  
A. K. Desde muito a palavra espiritualista já tem uma acepção bem  
determinada; acepção essa que nos é dada pela Academia: Espiritualista, aquele ou  
aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo.  
Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo.  
Aquele que crê que em nós existe outra coisa, além da matéria, é espiritualista, o  
que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como poderá  
distinguir este daquele que tem esta crença? Somos obrigados a nos servir de uma  
perífrase16 e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos.  
Para as novas coisas são necessários termos novos, quando se quer evitar  
equívocos. Se eu tivesse dado à minha "Revista Espírita" a qualificação de  
espiritualista, não lhe teria especificado o objeto, porque, sem desmentir-lhe o  
título, bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos, e até combatê-los.  
Já há algum tempo, li num jornal, um artigo sobre uma obra filosófica em  
que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista; ora, os partidários  
dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se, confiantes nessa indicação,  
acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por  
eles admitidas.  
Se adotei os termos espírita, espiritismo, é porque eles exprimem, sem  
equívoco, as ideias relativas aos Espíritos. Todo espírita é necessariamente  
espiritualista, mas nem todos os espiritualistas são espíritas.  
Ainda que os Espíritos fossem uma quimera17, havia utilidade em adotar  
termos especiais para designar o que a eles se refere; porque as falsas ideias —  
como as verdadeiras devem ser expressas por termos próprios.  
Além disso, essas palavras não são mais bárbaras que as outras que as  
ciências, as artes e a indústria diariamente estão criando; com certeza, elas não o  
são mais do que aquela que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades,  
como: Secretividade, alimentividade, afecionividade, etc.  
Há pessoas que, por motivo de contradição, criticam tudo que não provém  
delas, tomando ares de oposicionistas; aqueles que assim provocam tão pequeninas  
manobras, só revelam o acanhamento de suas ideias. Agarrar-se a tais bagatelas é  
demonstrar falta de boas razões.  
As palavras espiritualismo e espiritualista são inglesas, e têm sido  
15  
Barbarismo: uso de formas vocabulares contrárias à norma culta da língua, seja do ponto de vista ortoépico (por exemplo, "peneu" no  
lugar de "pneu"; "rubrica" no de "rubrica"), ortográfico (por exemplo, "excessão" por "exceção"), gramatical (por exemplo, a construção  
"quando eu ver" por "quando eu vir"; ela está "meia triste" por "meio triste"; "menas palavras" por "menos palavras"), ou semântico  
(exemplo, o uso da locução "ir de encontro a" ['chocar-se com'] no lugar de "ir ao encontro de" ['estar conforme'] conforme Dicionário  
Houaiss N. E.  
16 Perífrase: frase ou recurso verbal excessivo, que exprime aquilo que poderia ser expresso por menor número de palavras N. E.  
17 Quimera: fantasia, ilusão, utopia N. D.  
38 - Allan Kardec  
empregadas nos Estados Unidos desde que começaram a surgir as manifestações  
dos Espíritos; no começo e por algum tempo, também delas se serviram na França;  
logo, porém, que apareceram os termos espírita, espiritismo, compreendeu-se a sua  
utilidade, e foram imediatamente aceitos pelo público.  
Hoje, seu uso está tão generalizado que os próprios adversários, aqueles  
que no princípio os classificavam de barbarismos, não empregam outros. Os  
sermões e as pastorais que fulminam o Espiritismo e os espíritas viriam produzir  
enorme confusão, se fossem dirigidos ao espiritualismo e aos espiritualistas.  
Bárbaros ou não, esses termos estão hoje incluídos na língua usual e em  
todas as línguas da Europa; são os únicos empregados em todas as publicações,  
favoráveis ou contrárias, feitas em todos os países. Eles ocupam o ponto de  
convergência da coluna da nomenclatura da nova ciência; para exprimir os  
fenômenos especiais dessa ciência, tínhamos necessidade de termos especiais; o  
Espiritismo hoje possui a sua nomenclatura, tal como a Química.  
As palavras espiritualismo e espiritualista, aplicadas às manifestações dos  
Espíritos, não são hoje mais empregadas senão pelos adeptos da escola americana.  
Dissidências  
V. Essa diversidade na crença do a que chamais uma ciência parece-me  
que é a sua condenação. Se ela se baseasse em fatos concretos, não deveria ser a  
mesma na América e na Europa?  
A. K. A isso responderei, primeiramente, que tal divergência só existe na  
forma, sem afetar a essência; realmente, ela apenas se limita ao modo de encarar  
alguns pontos da doutrina, e não constitui um antagonismo radical nos princípios,  
como afirmam os nossos adversários, sem ter estudado a questão.  
Diga-me, porém, qual a ciência que, em seu começo, não teve dissidências,  
até que seus princípios ficassem claramente estabelecidos? Não encontramos as  
mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de  
perfeito acordo sobre todos os pontos? Cada qual não tem seus sistemas  
particulares? As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e  
cordial entendimento? Em Medicina não há a Escola de Paris e a Escola de  
Montpellier? Cada descoberta, em qualquer ciência, não tem produzido cismas  
entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar?  
Referindo-nos ao Espiritismo, não será natural que, ao surgirem os  
primeiros fenômenos quando eram ignoradas as leis que os regem , cada  
pessoa tivesse uma teria e houvesse encarado os fatos de um modo particular?  
Onde estão hoje essas teorias primitivas? Caíram todos ante uma observação mais  
completa.  
Bastaram apenas alguns anos para que ficasse estabelecida a unidade  
grandiosa que hoje prevalece na Doutrina, e que prende a imensa maioria dos  
adeptos, com exceção de algumas individualidades que, nesta como em todas as  
coisas, se apegam às ideias primitivas e morrem com elas. Qual a ciência, qual a  
doutrina filosófica ou religiosa que oferece um exemplo igual?  
O Espiritismo apresentou a centésima parte das cisões que, durante tantos  
séculos, dilaceraram a Igreja e que ainda hoje a dividem?  
É realmente curioso ver as infantilidades a que recorrem os adversários do  
39 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Espiritismo; isso não indica uma falta de argumentos sérios? Se eles tivessem tais  
argumentos, não deixariam de fazê-los valer.  
Qual o recurso de se utilizam? Zombarias, negações, calúnias, porém,  
nunca de um só argumento peremptório; e a prova de ainda lhe não terem achado  
um ponto vulnerável, é que nada pôde deter-lhe a marcha crescente e que, apenas  
com dez anos de vida, ele já conta tal número de adeptos como ainda nenhuma seita  
contou depois de um século de existência. É fato verificado e reconhecido por seus  
próprios adversários.  
Para aniquilá-lo, não era bastante dizer: isto não é real, isto é um absurdo;  
seria necessário demonstrar categoricamente que os fenômenos não se produzem,  
não podem produzir-se; e é o que ninguém ainda fez.  
Fenômenos espíritas simulados  
V. Não estará provado que, fora do Espiritismo, esses mesmos  
fenômenos podem ser produzidos? E disso não podemos concluir que eles não têm a  
origem que os espíritas lhes atribuem?  
A. K. Por ser uma coisa suscetível de imitação, segue-se que ela não  
exista? O que dizer da lógica daquele que julgasse que todo vinho de Champanha  
fosse apenas água de Seltz, só porque se fabrica aquele tipo de vinho com água de  
Seltz?  
Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de  
engendrar falsificações.  
Alguns prestidigitadores18 acreditaram que o nome de espiritismo por  
causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto podia servir a  
explorações, e para atrair a multidão simularam, mais ou menos grosseiramente,  
alguns fenômenos de mediunidade, como já tinham simulado a clarividência  
sonambúlica; e todos os gaiatos os aplaudiram, bradando: "Eis aí o que é o  
Espiritismo!"  
Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros, não se  
proclamou que o Espiritismo recebia naquilo um golpe mortal? Antes de pronunciar  
tão positiva sentença, deve-se refletir que as afirmativas de um escamoteador19 não  
são palavras de um evangelho, e certificar se há identidade real entre a imitação e a  
coisa imitada.  
Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser  
uma pedra d’água. Um estudo, mesmo pouco atento, teria certificado de serem  
completamente outras as condições em que se dão os fenômenos espíritas; eles,  
além disso, ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer  
espectros nem de ler a buena-dicha20.  
Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo  
com a magia e a feitiçaria, quando aquele repudia o fim, as práticas, as fórmulas e  
as palavras místicas destas. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões  
espíritas às assembleias do sabbat, nas quais se espera o soar da meia-noite, para  
que os fantasmas apareçam.  
18 Prestidigitador: mágico ilusionista, aquele que ilude com truques N. E.  
19 Escamoteador: aquele que furta e foge com esperteza N. E.  
20 Buena-dicha = destino, sorte, sina N. E.  
40 - Allan Kardec  
Um espírita, meu amigo, assistia um dia a uma representação de  
Macbeth21, ao lado de um jornalista que ele não conhecia. Quando chegou a cena  
das feiticeiras, ele ouviu o vizinho dizer:  
— “Belo! Vamos assistir a uma sessão espírita; é justamente o que  
precisava para o meu próximo artigo; vou saber agora como as coisas se passam.  
Se eu encontrasse por aqui algum desses loucos, eu lhe perguntaria se ele se  
reconhece no quadro que tem diante dos olhos".  
“Eu sou um deles — disse-lhe o espírita e posso asseverar que nada vejo  
que se pareça com uma sessão de Espiritismo; tenho assistido a centenas de  
reuniões espíritas, e nelas nada encontrei que se assemelha a isto. Se é aqui que  
veio colher argumentos para o teu artigo, assevero-te que ele não primará pela  
veracidade".  
Muitos críticos não têm bases mais sólidas. Sobre quem cairá o ridículo, a  
não ser sobre aqueles que caminham tão estonteadamente?  
Quanto ao Espiritismo, seu crédito, longe de sofrer com tais ataques, tem  
crescido pelos reclamos que lhe fazem, chamando para ele a atenção de muita gente  
que nem sequer pensava nele; os reclamos provocaram o exame e contribuíram  
para lhe aumentar o número de adeptos; porque se reconheceu, então, que, em vez  
de brincadeira, ele era coisa séria.  
Impotência dos detratores  
V. Admito que, entre os detratores do Espiritismo, há muita gente  
inconsciente, como esses que acaba de citar; mas, ao lado deles, não se encontrarão  
também homens de real valor, cujas opiniões têm certo peso?  
A. K. Não o contesto. A isso respondo que o Espiritismo também conta  
em suas fileiras muitos homens de não menos real valor; digo mais, que a imensa  
maioria dos espíritas se compõe de homens inteligentes e de estudos; só a má-fé  
pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as mulheres simples e as massas  
ignorantes.  
Além disso, um fato peremptório responde a essa objeção; é que, apesar de  
todo o saber, de todo o poder oficial, ninguém consegue deter o Espiritismo na sua  
marcha; e, entretanto, não há um só dos seus contrários, seja ele o mais obscuro  
folhetinista, que se não tenha lisonjeado com a ideia de lhe dar um golpe mortal;  
sem querê-lo, todos sem exceção contribuem para a sua popularização.  
Uma ideia que resiste a tantos assaltos, que avança impávida através da  
chuva de dardos que lhe atiram, não provará a sua força máscula e a segurança das  
bases em que se firma? Não será esse fenômeno digno da atenção dos pensadores?  
Também, já hoje, muitos deles avançam que deve haver nisso alguma coisa  
de real, que talvez seja um desses grandes movimentos irresistíveis que, de tempos a  
tempos, abalam as sociedades para transformá-las. Isto se tem dado sempre com  
todas as ideias novas, chamadas a revolucionar o mundo; forçosamente elas  
encontram obstáculos, porque lutam contra os interesses, os prejuízos, os abusos  
que elas vêm destruir; porém, como estão nos desígnios de Deus, para que se  
cumpra a lei do progresso da humanidade, chegada a hora, nada as poderá deter; é  
21 Macbeth: clássica peça teatral de William Shakespeare recheada de elementos místicos N. E.  
41 - O QUE É O ESPIRITISMO  
a prova de serem a expressão da verdade.  
Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova primeiramente —  
como já disse que lhes faltam boas razões; pois que as que lhe opõem, não são  
convincentes; ela dimana ainda de outra causa, que inutiliza todas as suas  
combinações. Admiram-se de ver o desenvolvimento dessa doutrina, apesar de tudo  
o que fazem para contê-la, e não podem achar o motivo por não o buscarem onde  
ele realmente está. Uns creem encontrá-lo no grande poder do diabo, que assim se  
apresenta mais forte que eles, e, mesmo, mais forte que Deus; outros, no aumento  
da alucinação humana.  
O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só, e que  
se baseia na opinião de um só homem; daí a ideia de que poderão arruiná-lo,  
refutando essa opinião; eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no  
Espaço; essa fonte do Espiritismo não se acha num ponto, mas em toda parte,  
porque não há lugar em que os Espíritos não possam se manifestar, em todos os  
países, nos palácios e nas choupanas.  
A verdadeira causa está então na própria natureza do Espiritismo cuja  
força não provém de uma só fonte, mas permite a cada qual receber diretamente  
comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato.  
Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que  
comédia, charlatanismo, escamoteação, prestidigitação, quando, sem o auxílio de  
estranhos, são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que  
eles se mistifiquem a si mesmos, que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel  
de charlatães e escamoteadores?  
Essa universalidade das manifestações dos Espíritos, que surgem em todos  
os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da  
Doutrina, é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo  
invisível, assim como os que desconhecem as leis dos fenômenos elétricos não  
compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico; é de  
encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar, porque elas se  
equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar, aos que sentem a ação dos  
raios solares, que o Sol não existe.  
Com exceção das qualidades da Doutrina que agrada muito mais que  
aquelas que se opõem a ela veja nisso a causa dos insucessos dos que tentam  
deter seu progresso; para que triunfassem, era necessário impedir que os Espíritos  
se manifestassem.  
Eis o motivo por que os espíritas dão tão pouca importância às manobras  
dos seus adversários; eles têm por si a experiência e o peso dos fatos.  
O maravilhoso e o sobrenatural  
V. Evidentemente que o Espiritismo tende a fazer reviver as crenças  
fundadas no maravilhoso e no sobrenatural; ora, no século positivo em que vivemos,  
isto me parece difícil, porque é exigir que se acredite nas superstições e nos erros  
populares, já condenados pela razão.  
A. K. Uma ideia só é supersticiosa quando é falsa; mas deixa de ser  
supersticiosa desde que passe a ser uma verdade reconhecida.  
A questão está em saber se os Espíritos se manifestam ou não; ora, isso  
42 - Allan Kardec  
não pode ser tachado de superstição, antes de ficar provado que não existem  
Espíritos.  
Dirão: a minha razão não aceita essas comunicações; porém, os que creem  
e que não são nenhuns alienados invocam também as suas razões e também os  
fatos; para que lado se deve pender? Nesta questão, o grande juiz é o futuro —  
como tem sido em todas as questões científicas e industriais classificadas como  
absurdas e impossíveis em sua origem.  
Pretendem julgar antecipadamente segundo a sua opinião; nós só julgamos  
depois de ter visto e observado por muito tempo. Acrescento que, ao contrário, o  
Espiritismo esclarecido como é hoje procura destruir as ideias supersticiosas,  
mostrando o que há de real ou de falso nas crenças populares, denunciando o que  
existe de absurdo nelas que é fruto da ignorância e dos preconceitos.  
Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século  
que faz com que adotemos o Espiritismo, e que este deve, em parte, àquele a rapidez  
da sua propagação, antes que, como alguns pretendem, a uma recrudescência do  
amor ao maravilhoso e ao sobrenatural.  
O sobrenatural desaparece à luz do facho da Ciência, da Filosofia e da  
Razão, como os deuses do paganismo ante o brilho do Cristianismo. Sobrenatural é  
tudo o que está fora das leis da Natureza. O positivismo nada admite que escape à  
ação dessas leis; mas, porventura, ele conhece a todas as leis?  
Em todos os tempos os fenômenos cuja causa não era conhecida foram  
reputados como sobrenaturais; pois bem: o Espiritismo vem revelar uma nova lei,  
segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto é um fato tão natural,  
como o que se dá entre dois indivíduos separados por uma distância de cem léguas,  
por intermédio da eletricidade; o mesmo acontece com os outros fenômenos  
espíritas.  
Nos limites do que lhe pertence, o Espiritismo repudia todo efeito  
maravilhoso, isto é, fora das leis da Natureza; ele não faz milagres nem prodígios,  
antes explica certos efeitos, em virtude de uma dessas leis, demonstrando assim a  
sua possibilidade. Ele igualmente amplia o domínio da Ciência, e é nisto que ele  
próprio se torna uma ciência; como, porém, a descoberta dessa nova lei traz  
consequências morais, o código das consequências faz dele, ao mesmo tempo, uma  
doutrina filosófica.  
Deste último ponto de vista, ele corresponde às aspirações do homem, no  
que se refere ao seu futuro; e como a sua teoria do futuro repousa sobre bases  
positivas e racionais, ela agrada à ideia positivista do nosso século.  
É o que compreenderão, quando se derem ao trabalho de estudá-lo. (O  
Livro dos Médiuns, cap. II; Revista Espírita, dezembro de 1861, e janeiro de 1862).  
Oposição da ciência  
V. Vocês espíritas se apoiam em fatos como disse; mas opõem-se a  
vocês a opinião dos sábios que os contestam, ou os explicam de modo diferente. Por  
que eles não fixaram sua atenção sobre o fenômeno das mesas girantes? Se tivessem  
notado nisso alguma coisa de sério, parece-me que não desprezariam fatos tão  
extraordinários e nem os repeliriam com desprezo; no entanto, são todos eles contra  
vocês. Os sábios não serão o farol das nações, e não têm o dever de esclarecê-las? A  
43 - O QUE É O ESPIRITISMO  
que atribuí que eles tenham deixado de fazer isso, quando se apresentava a eles tão  
bela ocasião de revelar ao mundo a existência de uma nova força?  
A. K. Traçou o dever dos sábios de modo admirável; porém, é pena que  
eles o tenham esquecido em mais de uma circunstância. Mas, antes de responder à  
tua judiciosa observação, cumpre-me corrigir um grave erro que cometeu dizendo  
que todos os sábios são contra nós.  
Como disse há pouco, é exatamente na classe ilustrada que o Espiritismo  
faz maior número de seguidores, e isto em todos os países; ele já conta entre seus  
adeptos grande número de médicos de todas as nações, e ninguém nega que os  
médicos sejam homens de ciência; os magistrados, os professores, os artistas, os  
homens de letras, os oficiais, os altos funcionários, os grandes dignitários, os  
eclesiásticos, etc., que se agrupam ao redor da sua bandeira, não são pessoas em  
quem se não deva reconhecer certa dose de ilustração. Admite-se erroneamente que  
os sábios só se encontram na ciência oficial e nos corpos constituídos.  
Pelo fato de o Espiritismo ainda não ter adquirido direito de cidade na  
ciência oficial, merecerá ser condenado?  
Se nunca a Ciência tivesse se enganado, sua opinião nesse sentido teria  
grande peso na balança; infelizmente, a experiência prova o contrário. Ela não  
repeliu como quimeras tantas descobertas que, mais tarde, se tornaram título de  
glória para os seus autores? Não foi devido a um parecer do nosso primeiro corpo  
sábio que a França se absteve da iniciativa do vapor22? Quando Fulton veio ao  
campo de Bolonha apresentar o seu plano a Napoleão I, que confiou o exame  
imediato ao Instituto, este não decidiu que aquilo era uma utopia, com o que se não  
devia ocupar?Devemos daí concluir que os membros do Instituto são ignorantes e  
que sejam justificados os títulos triviais que, à força de mau gosto, certas pessoas se  
divertem em lhes rotular?  
Certo que não; não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu saber  
eminente, sem, contudo, deixar de reconhecer que eles não são infalíveis e,  
portanto, que as suas sentenças não estão isentas de apelação, sobretudo no que se  
refere a ideias novas.  
V. Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis; mas não é menos  
verdade que, em virtude do seu saber, sua opinião vale alguma coisa, e que, se ela  
estivesse do lado de vocês, daria grande peso à teoria espírita.  
A. K. Concorde também que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está  
fora da sua competência. Se quiser edificar uma casa, confiaria esse trabalho a um  
músico? Se estiver enfermo, aceitaria ser sangrado por um arquiteto?23 Quando  
está enrolado com um processo, vai consultar um dançarino? Finalmente, quando  
se trata de uma questão de teologia, alguém irá pedir a solução a um químico ou a  
um astrônomo?Não; cada um tem a sua especialidade.  
As ciências comuns repousam sobre as propriedades da matéria, que se  
pode manipular à vontade; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças  
materiais.  
22  
Vapor: referência ao protótipo do trem. A Academia Francesa de Ciências contestou a possibilidade de tal máquina baseando-se em  
estudos que alegavam que o ser humano não conseguiria respirar estando a uma velocidade superior a 40 km/h. N. E.  
23 A sangria, naqueles tempos, era um dos procedimentos mais comuns no tratamento médico N. E.  
44 - Allan Kardec  
Os do Espiritismo têm, como agentes, inteligências que têm independência,  
livre-arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos  
nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, ficam fora  
dos domínios da ciência propriamente dita.  
A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos, como  
experimenta uma pilha voltaica; foi malsucedida como devia ser, porque agiu  
visando uma analogia que não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela  
negação, juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente,  
como já tem emendado outros; e, àqueles que o preferiram, restará a vergonha do  
erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador.  
As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta  
questão; ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus  
existe ou não; é, pois, um erro fazê-las juiz dela.  
O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do  
voto de uma assembleia, porque esse voto, embora lhe fosse favorável, não tem o  
poder de forçar convicções. Quando a opinião pública se tiver formado a respeito,  
os membros dessas corporações a aceitarão sob o poder dos fatos.  
Deixem passar esta geração, levando os prejuízos do seu obstinado amor-  
próprio, e verão que há de acontecer com o Espiritismo o mesmo que se deu com  
tantas outras verdades, tão combatidas e de que hoje seria ridículo duvidar. Hoje,  
chamam aos crentes de loucos; amanhã, será a vez dos que não crerem; foi o  
mesmo que se deu com os que acreditavam no movimento de rotação da Terra. Nem  
todos os sábios, porém, julgaram do mesmo modo; e notem que agora chamo sábios  
aos homens de estudo e saber, tenham ou não tenham um título oficial.  
Muitos fizeram o seguinte raciocínio:  
“Não há efeito sem causa, e os efeitos mais vulgares podem conduzir-nos à  
solução dos mais difíceis problemas.  
“Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma maçã; se  
Galvani tivesse repelido sua serva e lhe chamasse visionária e louca, quando esta  
lhe falou das rãs que dançavam no prato, talvez ainda estivéssemos sem conhecer a  
admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica.  
“O fenômeno, burlescamente designado sob o nome de dança das mesas,  
não é mais ridículo que a dança das rãs, e, talvez, encerre alguns desses segredos  
da Natureza, que, quando se tem a chave para explicá-los, revolucionam a  
Humanidade".  
Eles disseram ainda:  
“Já que tanta gente se ocupa com eles, e homens notáveis fizeram deles o  
objeto do seu estudo, é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais  
fenômenos; uma ilusão, uma farsa, se o quiserem, não pode ter esse caráter de  
generalidade; seria divertimento para certo círculo, para certa sociedade, mas não  
daria a volta ao mundo.  
Portanto, guardemo-nos de negar  
a
possibilidade do que não  
compreendemos, com receio de receber, mais cedo ou mais tarde, o desmentido que  
desabonaria nossa perspicácia".  
V. Perfeitamente; eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e  
45 - O QUE É O ESPIRITISMO  
prudência; e, sem ser sábio, eu penso igualmente; contudo, note que ele nada afirma,  
mas duvida; ora, qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos  
e, sobretudo, na sua comunicação conosco?  
A. K. Essa crença apoia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu  
próprio só a adotei depois de meticuloso exame. Tendo adquirido no estudo das  
ciências exatas o hábito das coisas positivas, sondei e perscrutei esta nova ciência  
nos seus mais íntimos refolhos; busquei explicar-me tudo, porque não costumo  
aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê.  
Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico, outrora incrédulo e hoje  
fervoroso adepto:  
“Dizem que seres invisíveis se comunicam; por que negá-lo?  
“Antes de inventar-se o microscópio, alguém suspeitava que existissem  
esses milhares de animálculos que causam tantos estragos ao organismo?  
“Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem  
aos nossos sentidos?  
“Teremos, acaso, a ridícula pretensão de saber tudo, e de dizer que Deus  
nada mais nos pode revelar?  
“Se esses seres invisíveis que nos rodeiam são inteligentes, por que não  
poderão se comunicar conosco? Se estão em relação com os homens, devem  
desempenhar um papel no seu destino, nos acontecimentos da vida destes. Quem  
sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza, uma dessas forças  
ocultas de que nem suspeitávamos?  
“Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de  
observação!  
“A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos  
infinitamente pequenos; ela é mais que uma descoberta, é uma revolução nas ideias.  
“Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas  
explicadas?  
Os crentes são ridicularizados, mas que valor tem isso, quando o mesmo  
se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas?  
“Cristóvão Colombo não foi repelido, sobrecarregado de desgostos,  
tratado como insensato?  
“São ideias tão estranhas dizem que não se deve dar crédito; mas a  
isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de, em alguns  
minutos, estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso  
planeta; em algumas horas, atravessar-se a França; com o vapor produzido por um  
pouco de água fervente, um navio avançar contra o vento; e tirarmos da água os  
meios de iluminar-nos e aquecer-nos.  
“Quem, há meio século, se tivesse proposto iluminar toda a cidade de  
Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível, apenas  
conseguiria fazer rir de si.  
“Será isso, porventura, coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado  
pelos seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, nela deixaram seu  
invólucro material?  
“Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem  
desde os mais remotos tempos?  
46 - Allan Kardec  
“São coisas que bem merecem estudo aprofundado".  
Eis as reflexões de um sábio, mas de um sábio sem pretensão; elas são  
igualmente feitas por muitos outros homens esclarecidos; estes viram, não  
superficialmente e de ânimo prevenido; estudaram seriamente, sem partido fixo, e  
tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos, isto não pode ser a verdade.  
Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. Se essas ideias fossem  
uma quimera, acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que,  
por tanto tempo, pudessem ser vítimas de uma ilusão?  
Não há, pois, impossibilidade material de existirem seres invisíveis para  
nós, povoando o espaço, e esta só consideração devia bastar para exigir mais  
circunspeção.  
Quem, há bem pouco, poderia pensar que uma só gota de água límpida  
contivesse milhares de seres, cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação?  
Ora, eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal  
tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que  
admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos.  
V. Sem dúvida, mas por ser uma coisa possível, não devemos concluir  
que exista…  
A. K. É exato; mas não podem deixar de convir que, desde que uma  
coisa não é impossível, ela já avançou, porque a razão não a rejeita. Resta então  
averiguá-la pela observação dos fatos. Ora, essa observação não é nova: tanto a  
história sagrada quanto a profana provam a antiguidade e a universalidade dessa  
crença, que se perpetuou através de todas as dificuldades por que tem passado o  
mundo, e se mostra, entre os povos mais selvagens, no estado de ideias inatas e  
intuitivas, e tão gravadas no pensamento como a do Ente Supremo e a da existência  
futura.  
O Espiritismo então não é uma criação moderna; tudo prova que os  
antigos o conheciam tão bem, ou talvez melhor que nós; ele apenas não era  
ensinado, senão com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao homem  
comum abandonado de propósito no lamaçal da superstição.  
Quanto aos fatos, eles são de duas naturezas: uns espontâneos e outros  
provocados. Entre os primeiros estão as visões e as aparições, tão frequentes; os  
ruídos, barulhos e movimentações de objetos, sem causa material, e grande número  
de efeitos insólitos que olhávamos como sobrenaturais e hoje nos parecem simples,  
porque não admitimos o sobrenatural, visto como tudo se submete às leis imutáveis  
da Natureza. Os fatos provocados são os obtidos por intermédio de médiuns.  
Falsas explicações dos fenômenos  
(Alucinação - Fluido magnético - Reflexo do pensamento - Superexcitação cerebral  
- Estado sonambúlico dos médiuns)  
V. É contra os fenômenos provocados que principalmente a crítica se  
levanta. Deixemos de lado toda suposição de charlatanismo, e vamos admitir a mais  
completa boa-fé; não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma  
alucinação?  
A. K. Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da  
47 - O QUE É O ESPIRITISMO  
alucinação. Da forma como querem defini-la, ela não deixa de ser um efeito  
estranhíssimo e digno de estudo. É pena, porém, que aqueles que por meio dela  
pretendem dar conta dos fenômenos espíritas não possam antes apresentar a  
explicação deles. Além disso, há fatos que fogem dessa hipótese: quando a mesa ou  
outro objeto se move, se ergue, ou bate; quando a dita mesa passeia à vontade por  
uma câmara, sem que pessoa alguma lhe toque; quando ela se destaca do solo e se  
suspende no espaço, sem ponto de apoio; enfim, quando, ao cair, se despedaça, tudo  
isso não pode ser o efeito de uma alucinação.  
Suponho que, por um produto da sua imaginação, o médium creia ver o  
que não existe. Será admissível que todos os presentes sejam vítimas da mesma  
vertigem ao mesmo tempo? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte, em  
todos os países? A ser assim, essa alucinação seria prodígio maior que o próprio  
fato.  
V. Admitindo a realidade do fenômeno das mesas que giram e falam,  
não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, do magnético, por  
exemplo?  
A. K. Tal foi o primeiro pensamento que tive, como tantos outros. Se  
tudo se limitasse a esses efeitos materiais, não há dúvida de que poderiam ser assim  
explicados; porém, quando esses movimentos e golpes nos deram provas de  
inteligência; quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira  
liberdade, foi-se levado a tirar a seguinte conclusão: “Se todo efeito tem uma  
causa, o efeito inteligente tem uma causa inteligente". Tais fenômenos poderão ser  
produzidos por um fluido, sem se admitir que esse fluido seja dotado de  
inteligência?  
Quando vemos os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o  
pensamento, bem compreendemos que esses aparelhos de ferro ou de madeira —  
não são inteligentes, mas que é uma inteligência quem os faz mover. Ocorre o  
mesmo com as mesas a que nos referimos. Ocorrem, ou não, efeitos inteligentes?  
Esta a questão. Os que contestam, são pessoas que nada viram ainda e se apressam  
a concluir segundo suas ideias particulares e baseadas quando muito em  
observação superficial.  
V. Podemos responder que, se há um efeito inteligente, este pode ser um  
reflexo da inteligência, seja do médium, seja de quem interroga, ou mesmo dos  
assistentes; porque, dizem, a resposta recebida estava sempre no pensamento de  
alguém.  
A. K. É ainda um erro, filho da falta de observação. Se os que assim  
pensam tivessem se dado ao trabalho de estudar o fenômeno em todas as suas fases,  
não deixariam de reconhecer a cada passo a independência absoluta da inteligência  
que se manifesta.  
Como conciliar essa tese com as respostas obtidas, tão fora do alcance  
intelectual e da instrução do médium? Respostas que vão de encontro às suas  
ideias, desejos e opiniões, ou que destroem completamente as previsões dos  
assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem, ou  
escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? À primeira vista,  
48 - Allan Kardec  
essa opinião nada tem de irracional, convenho, mas é desmentida por um conjunto  
de fatos tão concludentes que, diante deles, é impossível duvidar. Além disso,  
mesmo admitindo-se essa teoria, o fenômeno, ao contrário de ser simplificado, seria  
muito mais prodigioso.  
Pois então! O pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície, como a  
luz, o som, o calórico?! Em verdade, havia nisto um motivo para a Ciência exercer  
a sua sagacidade. E depois ainda o maravilhoso seria maior, porque, achando-se  
presentes vinte pessoas, será o pensamento desta ou daquela que é refletido, ou o  
desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável.  
É realmente curioso vermos os contraditores empenharem-se na busca de  
causas, cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se  
apresenta a eles.  
V. Não será admissível, segundo querem alguns, que o médium se ache  
em estado de crise e goze certa lucidez, que lhe dá a percepção sonambúlica —  
espécie de dupla vista que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de  
suas faculdades intelectuais? Por que dizem que as comunicações obtidas pelos  
médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos?  
A. K. Esse também é um desses sistemas que não resistem a um exame  
aprofundado. O médium nem se acha em crise nem dorme, mas está perfeitamente  
acordado, agindo e pensando como os outros, sem nada apresentar de  
extraordinário. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição; porém,  
quem se não limitar a julgar as coisas, por uma só face, reconhecerá sem  
dificuldade que o médium é dotado de uma capacidade particular que não permite  
confundi-lo com o sonâmbulo, sendo a independência do seu pensamento  
demonstrada por fatos da maior evidência.  
Exceção feita às comunicações escritas, qual o sonâmbulo que fez alguma  
vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições  
visíveis e, mesmo, tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso  
no ar, sem ponto de apoio?  
Será por efeito sonambúlico que certo médium um dia desenhou em minha  
casa e na presença de vinte testemunhas o retrato de uma jovem, morta havia  
dezoito meses e a quem ele não havia conhecido, retrato reconhecido pelo próprio  
pai da jovem, presente então à sessão? Será por efeito do mesmo gênero que uma  
mesa responde com precisão às questões propostas, mesmo feitas mentalmente?  
Certamente, se admitirmos que o médium se ache em estado magnético,  
parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula.  
Dizem ainda que os médiuns só falam com clareza daquilo que é  
conhecido. Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? Um  
dos meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma  
pessoa que ele tinha perdido de vista, havia quinze anos, era ainda deste mundo.  
“Sim, ainda vive, foi-lhe respondido; mora em Paris, rua tal, número  
tanto…"  
Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado. Seria isso uma ilusão?  
Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta, quando, por causa da  
idade da pessoa por quem ele perguntava, havia toda a probabilidade de ela não  
49 - O QUE É O ESPIRITISMO  
existir mais?  
Se, em certos casos, vemos respostas combinarem com o pensamento de  
quem pergunta, será racional concluirmos que isso seja uma lei geral?  
Nisso, como em todas as coisas, os juízos precipitados são sempre  
perigosos, porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não  
observaram.  
Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam  
V. O que os incrédulos desejam ver, pedem, e na maioria das vezes não  
lhes são fornecidos, são os fatos reais. Se todos testemunhassem esses fatos, a  
dúvida não mais seria permitida. Como é que tanta gente, apesar de sua vontade,  
nada tem conseguido ver? Apresentam-lhes como motivo, dizem eles, a sua falta de  
fé; ao que respondem, e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes  
deve dar os meios para poderem crer.  
A. K. É simples a razão. Eles querem que os fatos obedeçam à sua  
ordem e não se pode dar ordens aos Espíritos; é preciso esperar pela boa vontade  
deles.  
Não basta dizer: Mostre-me tal fato e eu crerei; é necessário ter a vontade  
de perseverar, deixar que os fatos se produzam espontaneamente, sem pretender  
forçá-los ou dirigi-los; aquele que mais deseja será, talvez, precisamente o que não  
obterá; porém, virão outros, e o que quer se apresentará, quando menos o esperar.  
Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis,  
corroborando-se uns aos outros; mas quem acreditar que basta tocar a manivela,  
para fazer que a máquina ande, engana-se redondamente.  
Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal?  
Mandará fazer tal ou qual coisa, para com vagar observá-lo à sua vontade? Não;  
porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá; mas vistoria as manifestações  
espontâneas do instinto do animal; espera-as e colhe-as na passagem. O simples  
bom-senso mostra que, com mais forte razão, devemos proceder do mesmo modo  
com os Espíritos que são inteligências muito mais independentes que as dos  
animais.  
É erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar; o que se exige  
é boa-fé, aliás coisa diversa; ora, há céticos que negam até a evidência e aos quais  
os próprios fenômenos não convenceriam.  
Quantos deles, depois de haverem visto, não persistem ainda em explicar  
os fatos a seu modo, dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem  
para trazer perturbação ao seio das reuniões, sem que elas mesmas lucrem coisa  
alguma; por isso, deixamo-las à margem, por não querermos com elas perder nosso  
tempo.  
Muitos até ficariam incomodados, caso se vissem forçados a crer, por  
terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado.  
O que se pode responder a quem só vê por toda parte ilusão e  
charlatanismo? Nada; é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto  
quiserem, que nada viram, e, mesmo, que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes.  
Ao lado desses céticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo,  
que, tendo formado uma opinião, pretendem por ela explicar tudo; estes não  
50 - Allan Kardec  
compreendem que os fenômenos se possam dar contrariamente ao seu desejo; não  
sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los.  
Quem de boa-fé deseja observar, deve, não digo crer sob palavra, mas  
abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis;  
eles devem aguardar, seguir, observar com paciência infatigável; esta condição é  
também favorável aos que se tornam adeptos, pois que ela prova não haverem  
formado levianamente a sua convicção. Vocês dispõem de tal paciência? Não, e  
dirão: por falta de tempo. Então não se ocupem e não falem mais nisso, pois  
ninguém lhes obriga a isso.  
Boa ou má vontade dos espíritos para convencer  
V. Os Espíritos devem almejar fazer seguidores; por que não se prestam  
preferencialmente aos meios de convencer certas pessoas, cuja opinião teria grande  
influência?  
A. K. É por julgarem que, naquele momento, não devem fornecer provas  
às pessoas a quem não ligam a importância que elas pretendem ter.  
É isso pouco lisonjeiro, convenho, porém não temos o direito de impor-lhes  
a nossa opinião; os Espíritos têm sua maneira de julgar as coisas, a qual nem  
sempre se coaduna com a nossa; eles veem, pensam e agem segundo outros  
elementos; ao passo que a nossa vista é circunscrita pela matéria, limitada pela  
estreiteza do círculo em que vivemos, eles abrangem o conjunto; o tempo, que nos  
parece tão longo, é para eles um instante; a distância, um simples passo, e certos  
pormenores, para nós de importância extrema, são futilidades a seus olhos; em  
compensação, ligam às vezes importância a coisas cujo verdadeiro alcance nos  
escapa.  
Para compreendê-los é preciso que nos elevarmos pelo pensamento acima  
do horizonte material e moral, colocarmo-nos no seu ponto de vista, pois que não  
são eles que devem descer ao nosso nível, mas subirmos nós até eles, é o que nos  
ensinam o estudo e a observação.  
Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos; para  
estes multiplicam eles as fontes de luz; o que os afugenta não é a dúvida que nasce  
da ignorância, é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam, que  
desejam colocá-los no banco dos réus e fazê-los moverem-se como títeres; é o  
sentimento de hostilidade e descrédito que exista em seus pensamentos, quando o  
não traduzam por palavras.  
Por sua causa os Espíritos nada fazem, pouco se importando com o que  
possam dizer ou pensar, porque o seu dia também chegará.  
Por isso vos dizia eu que não é a fé antecipada o que pedimos, mas, sim, a  
boa-fé.  
Origem das ideias espíritas modernas  
V. Uma coisa que eu desejava saber, meu amigo, é o ponto de partida  
das ideias espíritas modernas; elas serão filhas de uma revelação espontânea dos  
Espíritos, ou o resultado de uma crença prévia na existência deles?  
Compreende a importância de minha pergunta; porque, neste último caso, é  
51 - O QUE É O ESPIRITISMO  
admissível que a imaginação possa ter desempenhado seu papel nisso.  
A. K. Como acabou de dizer, essa questão tem importância, no ponto de  
vista em que se acham ainda que seja difícil acreditar-se supondo essas ideias  
nascidas de uma crença antecipada, que a imaginação pudesse produzir todos os  
resultados materiais observados.  
De fato, se o Espiritismo fosse fundado no pensamento preconcebido da  
existência dos Espíritos, com alguma aparência de razão, poderiam duvidar da sua  
veracidade; porque, se o princípio fosse uma quimera, as consequências dele  
emanadas também o seriam; mas as coisas não se passaram assim. Note, em  
primeiro lugar, que essa marcha seria totalmente ilógica; os Espíritos são a causa e  
não o efeito; quando se vê um efeito, pode-se procurar-lhe a causa, mas não é  
natural imaginarmos uma causa antes de ter visto seus efeitos. Não era possível  
então conceber o pensamento da existência dos Espíritos se efeitos não tivessem se  
mostrado, que achassem explicação provável na existência de seres invisíveis.  
Pois bem! Não foi mesmo deste modo que nasceu tal pensamento; isto é,  
ele não foi uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenômenos; a  
primeira suposição feita foi a de uma causa material.  
Assim, longe de que os Espíritos fossem uma ideia preconcebida, partiu-se,  
para chegar a eles, do ponto de vista materialista. Porém, não sendo possível  
explicar tudo por este meio, somente a observação conduziu à causa espiritual.  
Falo das ideias espíritas modernas; pois sabemos que essa crença é tão  
velha quanto o mundo.  
Eis o desenvolvimento das coisas: fenômenos espontâneos se produziram  
tais como ruídos estranhos, pancadas, movimentos de objetos, etc. sem causa  
ostensiva conhecida, realizando-se sob a influência de certas pessoas. Até aí, nada  
autorizava a buscarmos sua causa fora da ação de um fluido magnético ou outro  
qualquer, de propriedade ainda desconhecida. Entretanto, não demorou que nesses  
ruídos e movimentos fosse reconhecido um caráter intencional e inteligente, do que  
se concluiu, como já o disse, que: Se todo efeito tem uma causa, todo efeito  
inteligente tem uma causa inteligente. Esta inteligência não podia estar no objeto,  
porque a matéria não é inteligente. Seria o reflexo da pessoa ou das pessoas  
presentes?  
Assim se julgou no começo, como já igualmente eu disse; só a experiência  
podia pronunciar-se, e em muitas circunstâncias ela demonstrou por provas  
irrecusáveis a completa independência da inteligência que se manifesta. Ela não  
pertencia nem ao objeto nem à pessoa. Quem era então? Ela própria respondeu,  
declarando pertencer aos seres incorpóreos chamados Espíritos.  
A ideia dos Espíritos não preexistia, nem mesmo lhe foi consecutiva; em  
uma palavra, não nasceu do cérebro de ninguém, mas nos foi dada pelos Espíritos  
mesmos, e tudo o que soubemos depois a seu respeito nos foi ensinado por eles.  
Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de  
nos comunicarmos com eles, pôde-se ter conversações seguidas e obter informações  
sobre a natureza desses seres, condições de sua existência e seu papel no mundo  
visível. Se assim pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente  
pequenos, quantas coisas curiosas não ficaríamos sabendo sobre eles!  
Suponhamos que, antes da descoberta da América, um fio elétrico  
52 - Allan Kardec  
estivesse estabelecido através do Atlântico, e que na sua extremidade europeia  
alguns sinais inteligentes tivessem se produzido, e teríamos logo concluído que na  
outra extremidade se achavam seres inteligentes, que desejavam comunicar-se;  
teríamos interrogado e eles teriam respondido. Ficaríamos assim com a certeza  
da sua existência, e podia-se adquirir o conhecimento dos seus costumes, usos e  
modos de ser, apesar de nós nunca os termos visto.  
Foi o que se deu nas relações com o mundo invisível: as manifestações  
materiais foram sinais e meios de aviso que nos conduziram a comunicações mais  
regulares e mais seguidas.  
E é uma coisa notável que à medida que meios mais fácil de comunicação  
se acham ao nosso dispor, os Espíritos abandonam os primitivos, insuficientes e  
incômodos, qual o mudo que, recuperando a palavra, renuncia à linguagem dos  
sinais.  
Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte, estranhos à  
Humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência quem se encarregou  
da solução de tais problemas; mas, até que observações numerosas tivessem  
derramado luz sobre o assunto, o campo das conjeturas e dos sistemas esteve  
aberto, e Deus sabe quantos surgiram! Uns creram que os Espíritos eram  
superiores em tudo, outros, só viram neles demônios; era só por suas palavras e  
atos que podiam julgá-los.  
Suponhamos que dentre os desconhecidos habitantes transatlânticos, de  
que acabamos de falar, uns tenham dito muito boas coisas, ao passo que outros se  
faziam notar pelo cinismo da linguagem; teríamos logo concluído que entre eles  
havia bons e maus.  
Foi o que aconteceu com os Espíritos; foi assim que reconhecemos entre  
eles todos os graus de bondade e malvadez, de saber e ignorância.  
Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que  
entre eles se encontram, cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é  
mau, o verdadeiro do falso em suas relações conosco, absolutamente como  
procedemos a respeito dos homens.  
A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos  
Espíritos, mas, também, sobre a sua natureza e sobre o que podemos chamar  
estado fisiológico. Ficou-se sabendo por eles mesmos que uns são muito  
felizes e outros muito desgraçados; que não são seres à parte, de natureza  
excepcional e, sim, as almas daqueles que já viveram na Terra, onde deixaram seu  
invólucro corpóreo, e que hoje povoam os espaços, nos cercam, nos acotovelam  
sem cessar, e, dentre eles, cada qual pode reconhecer por sinais incontestáveis  
seus parentes e amigos  
e
aqueles que conheceram na Terra; podemos  
acompanhá-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo, desde o  
instante em que abandonam o corpo, e observar sua situação segundo o gênero  
de morte e o modo pelo qual viveram na Terra.  
Enfim, soube-se que eles não são entes abstratos, imateriais, no sentido  
absoluto da palavra; possuem um invólucro, a que chamamos perispírito —  
espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, que, em  
certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode  
53 - O QUE É O ESPIRITISMO  
tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível , e, desde então, o  
fenômeno das aparições e do contato ficou explicado.  
Enquanto dura o corpo, esse invólucro é um laço que o prende ao Espírito;  
mas quando o corpo morre, a alma ou o Espírito, que é a mesma coisa —  
abandona-o, contudo, sem deixar o primeiro envoltório, do mesmo modo como  
despimos as peças exteriores da nossa roupa, para só conservarmos as interiores;  
assim como o fruto despojado do invólucro cortical conserva ainda o perisperma.  
É esse envoltório semimaterial do Espírito que lhe serve de meio para a  
produção de diferentes fenômenos, pelos quais ele se manifesta a nós.  
Assim, cavalheiro, em poucas palavras, essa é a história do Espiritismo;  
bem pode ver e reconhecer ainda melhor quando o tiver estudado a fundo, que tudo  
nele é o resultado da observação e não de uma teoria preconcebida.  
Meios de comunicação  
V. Falou de meios de comunicação; poderia me dar uma ideia disso,  
porque é difícil compreender como esses seres invisíveis podem conversar conosco?  
A. K. De boa vontade; vou fazê-lo, contudo, abreviadamente, porque isto  
exigiria prolongado desenvolvimento, que encontrará minuciosamente em O Livro  
dos Médiuns. Mas o pouco que eu te disser, agora, bastará para facilitar a  
compreensão do mecanismo e servirá, sobretudo, para dar uma ideia de algumas  
das experiências a que poderá assistir, antes de começar a tua iniciação. A  
existência desse envoltório semimaterial (perispírito) é já uma chave para a  
explicação de muitas coisas e mostra a possibilidade de certos fenômenos.  
Quanto aos meios, são muito variados e dependem tanto da qualidade mais  
ou menos apurada dos Espíritos, quanto das disposições peculiares às pessoas que  
lhes servem de intermediárias. O mais comum o que se pode chamar universal —  
consiste na intuição, isto é, nas ideias e pensamentos que eles nos sugerem; mas  
este é um meio pouco apreciável, na generalidade dos casos; outros existem mais  
materiais. Certos Espíritos se comunicam por pancadas, respondendo por sim ou  
por não, ou designando as letras que devem formar as palavras. As pancadas  
podem ser obtidas pelo movimento de oscilação de um objeto, de uma mesa, por  
exemplo, que bate com o pé. Muitas vezes se fazem ouvir nas próprias substâncias  
dos corpos, sem que estes se movimentem. Esse modo primitivo é demorado e  
dificilmente se presta a comunicações de certo desenvolvimento; a escrita  
substituiu-o, e é obtida de diferentes maneiras.  
No começo, servia-se e algumas vezes ainda acontece de um objeto  
móvel, como uma prancheta, uma cestinha, uma caixa, ao qual se adapta um lápis,  
cuja ponta pousa sobre o papel. A natureza e a substância do objeto são  
indiferentes. O médium coloca as mãos sobre esse objeto ao qual transmite a  
influência que recebe do Espírito e o lápis traça os caracteres. O objeto assim  
empregado não é, propriamente falando, mais que um acessório da mão, uma  
espécie de porta-lápis.  
Depois, reconheceu-se a inutilidade desse intermediário, que não é senão  
uma complicação de meios, cujo único mérito está em demonstrar, de modo mais  
palpável, a independência do médium; este último pode escrever, segurando, ele  
mesmo, o lápis.  
54 - Allan Kardec  
Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir seus pensamentos por  
sons articulados, que se fazem ouvir, seja no ar, seja no interior do órgão auditivo,  
pela voz do médium, pela vista, por desenhos, pela música e por muitos outros  
meios que um estudo completo torna conhecidos.  
Para esses diferentes modos de comunicação, os médiuns possuem aptidões  
especiais que dependem de sua organização física. Assim, temos médiuns de efeitos  
físicos isto é, aptos para produzir fenômenos materiais, como pancadas,  
movimentos de corpos, etc. ; há médiuns auditivos, falantes, videntes, desenhistas,  
músicos, escreventes. Esta última faculdade é a mais comum, a que melhor se  
desenvolve pelo exercício e também a mais preciosa, por ser aquela que permite  
comunicações mais frequentes e rápidas.  
O médium escrevente apresenta numerosas variedades, das quais duas são  
muito distintas. Para compreendê-las, é necessário sabermos o modo pelo qual se  
opera o fenômeno. O Espírito atua, algumas vezes, diretamente sobre a mão do  
médium, à qual dá um impulso totalmente independente da vontade deste, e sem que  
ele tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecânico. Outras  
vezes, atuando sobre o cérebro do médium, seu pensamento se comunica com o  
deste que, então, se bem que escrevendo de modo involuntário, tem consciência  
mais ou menos nítida do que obtém: é o médium intuitivo; seu papel é exatamente o  
de um intérprete, que transmite um pensamento que não é o seu e que, portanto, ele  
deve compreender. Ainda que, neste caso, o pensamento do Espírito e o do médium  
algumas vezes se confundam, a experiência ensina a distingui-los com facilidade.  
Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois gêneros de  
médiuns; a vantagem dos que são mecânicos é proveitosa sobretudo para as  
pessoas que ainda não estão convencidas. Ademais, a qualidade essencial de um  
médium está na natureza dos Espíritos que o assistem, nas comunicações que  
recebe, antes que nos meios de execução.  
V. O processo parece-me dos mais simples. Poderia eu mesmo  
experimentá-lo?  
A. K. Perfeitamente; digo mais: se possuir a faculdade mediúnica, terá o  
melhor meio de se convencer, porque não poderá duvidar da própria boa-fé.  
Aconselho-te somente a não tentar ensaio algum antes de um estudo cuidadoso.  
As comunicações do além-túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se  
pensa; elas não estão isentas de inconvenientes e, mesmo, de perigos, para os que  
não têm a necessária experiência. É o mesmo que aconteceria àquele que, sem  
saber Química, tentasse fazer manipulações químicas; correria o risco de queimar  
os dedos.  
V. Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer a posse dessa aptidão?  
A. K. Até ao presente não se conhece um diagnóstico para a  
mediunidade; todos os que julgamos descobrir, são sem valor; o único meio de  
saber se a faculdade existe é experimentar.  
Além disso, os médiuns são muito numerosos e é raríssimo quando não o  
sejamos não encontrarmos algum em qualquer dos membros de nossa família, ou  
nas pessoas que nos cercam.  
55 - O QUE É O ESPIRITISMO  
O sexo, a idade e o temperamento são indiferentes; eles aparecem entre os  
homens e mulheres, entre crianças, velhos, doentes e pessoas sadias.  
Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer, isto  
implicaria a permanência da capacidade mediúnica, ao passo que ela é  
essencialmente móbil e fugaz. Sua causa física está na assimilação, mais ou menos  
fácil, dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado; sua causa  
moral está na vontade do Espírito que se comunica, quando isto lhe agrada, e não  
segundo a nossa vontade, donde resulta: 1º, que nem todos os Espíritos podem se  
comunicar indiferentemente por todos os médiuns; 2º, que todo médium pode perder  
ou ter a sua faculdade suspensa, quando ele menos o esperar.  
Estas poucas palavras bastam para mostrar que há nisto um estudo sério a  
ser feito, a fim de se poder explicar as variações que esse fenômeno apresenta.  
Portanto, seria um erro crer que todo Espírito possa vir responder ao apelo que lhe  
é feito, e se comunicar pelo primeiro médium de que se lance mão. Para que um  
Espírito se comunique, é preciso: 1º, que lhe convenha se manifestar; 2º, que sua  
posição ou suas ocupações lhe permitam isso; 3º, que encontre no médium um  
instrumento apropriado à sua natureza.  
A princípio, podemos nos comunicar com os Espíritos de todas as  
categorias, com os nossos parentes e amigos, com os mais elevados como com os  
mais vulgares; porém, independente das condições individuais de possibilidade, eles  
vêm mais ou menos de boa vontade segundo as circunstâncias e, sobretudo, segundo  
a sua simpatia pelas pessoas que os chamam, e não pelo pedido do primeiro que  
tenha a fantasia de evocá-los por um sentimento de curiosidade; nestas  
circunstâncias, se eles, quando na Terra, não se incomodariam com elas, depois da  
morte não o fazem também.  
Os Espíritos sérios só comparecem nas reuniões sérias, para onde os  
chamam com respeito e para coisas sérias; não se prestam a responder a perguntas  
de curiosidade, de prova, ou com um fim fútil, nem também a experiência alguma.  
Os Espíritos frívolos andam por toda parte; porém, nas reuniões sérias,  
calam-se e conservam-se afastados para escutar, como fariam estudantes em uma  
assembleia de doutores. Nas reuniões frívolas eles tomam a desforra, fazendo de  
tudo divertimento, muitas vezes zombando dos assistentes e respondendo a tudo sem  
se importarem com a verdade.  
De uma maneira especial, os Espíritos denominados batedores e,  
geralmente, todos os que produzem manifestações físicas, são de ordem inferior,  
sem por isso serem essencialmente maus possuem uma aptidão para os efeitos  
materiais; os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas, assim como os  
sábios da Terra não se entregam a exercícios de força muscular; quando aqueles  
precisam que tais efeitos se deem, lançam mão dos atrasados, como nós nos  
servimos dos trabalhadores para os serviços pesados.  
Médiuns interesseiros  
V. Antes de empreender um estudo de longo fôlego, há muita gente que  
deseja ter certeza de que não vai perder o tempo, certeza que lhe poderia provir do  
fato concludente, mesmo obtido a peso de ouro.  
A. K. Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar, é mais guiado  
56 - Allan Kardec  
pela curiosidade do que pelo desejo real de se instruir; ora, assim como eu, os  
Espíritos não gostam dos curiosos. Além disso, sobretudo a cobiça é para eles  
antipática e eles se recusam a prestar-lhe qualquer serviço; crer que Espíritos  
superiores como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, se ponham às ordens  
do primeiro que os chame, a toda hora, é fazer uma ideia bem falsa das nossas  
relações com o mundo espiritual.  
Não, senhor. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e  
respeitabilíssimo para serem assim exibidas. Sabemos que os fenômenos espíritas  
não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo, pois dependem da  
vontade dos Espíritos; mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão  
mediúnica, nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento.  
Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em  
geral, muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse; com razão se  
poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o  
auxiliasse, pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro.  
Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade,  
repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas queridas por nós,  
supondo que eles consintam nisso, o que é mais que duvidoso; em todos os casos só  
se prestariam a isso Espíritos de classe inferior, pouco escrupulosos a respeito de  
meios, e que não merecem confiança alguma; e estes mesmos, muitas vezes,  
encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do  
seu evocador. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se assim a que ela sirva de  
profissão, à vista de sua dependência de vontade estranha à do médium, e de lhe  
poder ela, no momento preciso, deixá-lo em falta, salvo se ele a suprir pela astúcia.  
Porém, admitindo mesmo inteira boa-fé, desde que os fenômenos não se  
produzem à vontade, seria puro acaso se, em sessão paga, se produzisse exatamente  
aquele que desejávamos ver para nos convencermos.  
Dê cem mil francos a um médium e não conseguirá que ele obtenha que os  
Espíritos façam o que não querem; essa dádiva que viria desnaturar a intenção e  
transformá-la em violento desejo de lucro seria antes um motivo para que ele  
fosse malsucedido. Quando se está bem compenetrado desta verdade que a  
afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos ,  
não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém  
que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro.  
Aquele que precisa de fatos que o convençam, deve provar aos Espíritos  
sua boa vontade por uma observação séria e paciente, se deseja ser auxiliado; pois  
se é uma verdade que a fé não se impõe, não o é menos, que se não pode comprá-la.  
V. Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral; entretanto, não  
é justo que aquele que emprega seu tempo, a bem da causa, não seja indenizado  
quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver?  
A. K. Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz, ou no  
seu próprio? Se ele deixou seu modo de vida, é porque não lhe satisfazia, e por  
esperar ganhar mais, em um novo, ou ter menos fadigas. Não há sacrifício algum no  
empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. É absolutamente o  
mesmo caso se dissesse ser no interesse da Humanidade que o padeiro fabrica o  
57 - O QUE É O ESPIRITISMO  
pão. A mediunidade não é o único recurso; se ele não a tivesse, procuraria ganhar  
a vida de outro modo.  
Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados, quando não possuem uma  
existência independente, procuram recursos no trabalho comum e não abandonam  
suas profissões; eles só dedicam à mediunidade o tempo que lhe podem dar, sem  
prejuízo de outras ocupações; empregando parte do tempo destinado aos  
divertimentos e repouso, nesse trabalho mais útil, eles se mostram devotados,  
tornam-se apreciados e respeitados.  
E ainda mais: a multiplicidade dos médiuns nas famílias torna inúteis os  
médiuns de profissão, ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis, o que  
é muito raro. Se não fosse o descrédito que acompanha esse gênero de exploração,  
para o que me felicito de muito haver contribuído, os médiuns mercenários se  
multiplicariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos; ora, para um  
que fosse leal, apresentaríamos cem charlatães que, abusando de uma faculdade  
real ou simulada, fariam o maior dano ao Espiritismo.  
Então, é um princípio: todos quantos veem no Espiritismo coisa diferente  
de uma exibição de fenômenos curiosos, que compreendem e tomam a peito a  
dignidade, consideração e os verdadeiros interesses da doutrina, reprovam toda  
espécie de especulação, qualquer que seja a forma ou disfarce com que se  
apresente.  
Os médiuns sérios e sinceros e eu dou este nome aos que compreendem  
a santidade do mandato que Deus lhes confiou evitam até as aparências do que  
poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça; eles consideram uma  
injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade.  
Apesar de ser incrédulo, senhor, admita que um médium nessas condições  
faria sobre ti uma impressão totalmente diversa da que sentiria se lhe tivesse pago  
para vê-lo trabalhar, ou, quando mesmo fosse admitido por favor, se soubesse que  
atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro; concorde que vendo-o antes  
animado de um verdadeiro sentimento religioso, estimulado pela fé somente e não  
pelo desejo do ganho, involuntariamente o respeito por ele se impunha a ti; seja  
embora ele o mais humilde proletário, inspirará a ti mais confiança, porque não há  
motivo algum para suspeitar da sua lealdade.  
Pois bem! Caro senhor, encontrará mil como este, contra um que não  
esteja nas mesmas condições, e é esta uma das causas que mais têm contribuído  
para o crédito e a propagação da doutrina; ao passo que, se ela só tivesse  
intérpretes interesseiros, não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje.  
É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam  
excessivamente raros, pelo menos em França; eles são desconhecidos na maioria  
dos centros espíritas da província, onde a reputação de mercenários bastaria para  
que os excluíssem de todos os grupos sérios, e onde para eles o ofício não seria  
lucrativo, por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de  
médiuns desinteressados, que se encontram por toda parte.  
Para suprir tanto a faculdade que lhes falta, tanto a insuficiência da  
clientela, há falsos médiuns que tudo aproveitam, servindo-se das cartas, da clara  
de ovo, da borra de café, etc., a fim de contentar a todos os gostos, esperando por  
esse meio, na falta de Espíritos, atrair os que ainda creem nessas tolices.  
58 - Allan Kardec  
Se eles só prejudicassem a si, o mal não seria grande; porém, há pessoas  
que, sem nada aprofundarem, confundem o abuso com a realidade, e disso os mal-  
intencionados têm se aproveitado para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo.  
Já pode ver então, senhor, que se a exploração da mediunidade conduz a cometer  
abusos prejudiciais à doutrina, o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la e de  
repelir o seu auxílio.  
V. Tudo isso é muito lógico, concordo, mas os médiuns desinteressados  
não se acham ao dispor de qualquer e nos sentimos constrangidos de incomodá-los;  
escrúpulos que não nos embaraçam, quando buscamos aquele que recebe um  
pagamento, convencido de que não lhe vamos roubar o tempo. Muita gente que se  
deseja convencer acharia muito mais facilidade se existissem médiuns públicos.  
A. K. Se os médiuns públicos como chamam não oferecem as  
garantias precisas, como poderiam ser úteis para levar alguém à convicção? O  
inconveniente que assinala não destrói os de muito mais gravidade, que citei.  
Buscariam a eles mais como divertimento para ouvir leitura da sorte —  
do que como meio de instrução. Mais cedo ou mais tarde, aquele que deseja  
seriamente se convencer encontra os meios, se tiver perseverança e boa vontade;  
porém, quando não se está preparado para tal, não é por assistir a uma sessão que  
se ficará convencido. A experiência prova que, por se trazer dessas sessões uma  
impressão desfavorável, sai-se menos disposto à convicção, e talvez sem vontade  
alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério.  
Porém, ao lado das considerações morais, os progressos da ciência  
espírita fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as  
manifestações , mostram-nos, hoje, a dificuldade material que se apresenta à sua  
produção, coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades  
fluídicas entre o Espírito evocado e o médium.  
Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste, e suponho que exista  
a mais completa lealdade. Para que um médium de profissão possa oferecer toda  
segurança às pessoas que o venham consultar, é necessário que ele possua uma  
faculdade permanente universal, isto é, que ele se possa comunicar facilmente com  
qualquer Espírito e a todo o momento, para estar constantemente à disposição do  
público, como um médico, e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas;  
ora, isto é o que não se encontra em médium algum seja entre os desinteressados,  
seja entre os outros , e isto por causas independentes da vontade do Espírito, o  
que não posso desenvolver aqui, porque não estou fazendo um curso de Espiritismo.  
Limito-me a dizer que as afinidades fluídicas princípio do qual decorrem  
as faculdades mediúnicas são individuais e não gerais, podendo existir do  
médium para tal Espírito, e não para tal outro; que, sem essas afinidades, cujas  
variantes são múltiplas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis;  
que muitas vezes a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece  
depois de algum tempo, ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa  
desde a primeira vez.  
Como vê, cavalheiro, a mediunidade é subordinada a leis, de alguma sorte  
orgânicas, às quais todo médium está sujeito; ora, não se pode negar que isto é um  
obstáculo para a mediunidade de profissão, pois que a possibilidade e a exatidão  
59 - O QUE É O ESPIRITISMO  
das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do  
Espírito.  
Se repelimos a exploração da mediunidade, não é nem por capricho, nem  
por sistema, mas porque os próprios princípios que regem as nossas relações, com  
o mundo invisível, se opõem à regularidade e precisão necessárias naquele que se  
põe à disposição do público, e a quem o desejo de satisfazer à clientela, que lhe  
paga, arrasta ao abuso.  
Do que tenho dito, não concluo que todos os médiuns interesseiros sejam  
charlatães; digo somente que a ambição do ganho impele ao charlatanismo e  
autoriza a suspeita de velhacaria.  
Quem deseja convencer-se deve procurar, primeiro que tudo, elementos de  
sinceridade.  
Médiuns e feiticeiros  
V. Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em  
relação com as potências ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma  
coisa.  
A. K. Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que,  
pelo simples fato de produzirem fenômenos estranhos e incompreendidos, foram  
qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que  
se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do  
comum. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da  
credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu.  
Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos  
verdadeiros médiuns para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não  
se quer dar a esse trabalho.  
Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila, despojando-a  
do seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, artimanhas, amuletos e  
talismãs, e reduzindo a seu justo valor os fenômenos possíveis, sem sair das leis  
naturais.  
A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer vem do erro em  
que estão julgando que os Espíritos se sujeitam às ordens dos médiuns; a razão  
deles repugna crer que um indivíduo qualquer possa forçar a comparecer o Espírito  
desse ou daquele personagem, mais ou menos ilustre; nisto eles estão perfeitamente  
com a verdade, e, se antes de apedrejarem o Espiritismo, se tivessem dado ao  
trabalho de estudá-lo, veriam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão  
sujeitos aos caprichos de ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a  
responder ao seu chamado; do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros.  
V. Neste caso, ao teu ver, todos os efeitos que certos médiuns  
acreditados obtêm à vontade e em público são apenas charlatanice?  
A. K. Não o digo em absoluto. Tais fenômenos não são impossíveis,  
porque há Espíritos de baixa categoria que se podem prestar à sua produção e que  
se divertem, talvez por já terem sido prestidigitadores na vida terrena; também há  
médiuns especialmente próprios para esse gênero de manifestações; porém, o bom-  
senso comum repele a ideia de virem os Espíritos por menos elevados que sejam  
60 - Allan Kardec  
representar palhaçadas e fazer escamoteações para divertimento dos curiosos. A  
obtenção desses fenômenos à vontade e, sobretudo em público, é sempre suspeita;  
neste caso a mediunidade e a enganação se tocam tão de perto que muitas vezes é  
difícil distingui-las; antes de vermos nisso a ação dos Espíritos, devemos observar  
minuciosamente e ter em conta, seja o caráter e os antecedentes do médium, seja um  
grande número de circunstâncias que só o estudo da teoria dos fenômenos espíritas  
nos pode fazer apreciar.  
Devemos notar que esse gênero de mediunidade quando exista  
mediunidade nisso limita-se a produzir sempre o mesmo fenômeno, salvo  
pequenas variantes, o que não é muito próprio para dissipar dúvidas. O  
desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade.  
Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenômenos, como efeitos  
mediúnicos, eles produzirão bom resultado, por darem valor à ideia espírita. A  
controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas pessoas um estudo  
mais aprofundado.  
Certamente não é aí que se deve ir tomar instruções sérias sobre o  
Espiritismo, nem sobre a filosofia da doutrina; porém, é um meio de chamar a  
atenção dos indiferentes e obrigar os teimosos a falarem dele.  
Diversidade dos Espíritos  
V. Fala de Espíritos bons ou maus, sérios ou frívolos; confesso que não  
compreendo essa diferença; parece-me que, deixando o envoltório corporal, os  
Espíritos se desprendem das imperfeições inerentes à matéria; que a luz se deve  
fazer para eles, sobre todas as verdades que nos são ocultas, e que eles ficam libertos  
dos prejuízos terrenos.  
A. K. Sem dúvida eles ficam livres das imperfeições físicas, isto é, das  
dores e enfermidades corporais; porém, as imperfeições morais são do Espírito e  
não do corpo. Entre eles há alguns que são mais ou menos adiantados, moral e  
intelectualmente.  
Seria erro acreditar que, deixando o corpo material, os Espíritos recebem  
logo a luz da verdade. É possível admitir que, quando morrer, não haja distinção  
alguma entre o teu Espírito e o de um selvagem? Assim sendo, de que te serviria ter  
trabalhado para a tua instrução e melhoramento, quando depois da morte um vadio  
será tanto quanto vós?  
O progresso dos Espíritos faz-se gradualmente e algumas vezes com muita  
lentidão. Entre eles há alguns que por seu grau de aperfeiçoamento veem as coisas  
sob um ponto de vista mais justo do que quando estavam encarnados; outros, pelo  
contrário, conservam ainda as mesmas paixões, os mesmos preconceitos e erros, até  
que o tempo e novas provas os venham esclarecer. Note bem que o que digo é fruto  
da experiência, colhido no que eles nos dizem em suas comunicações. É, pois, um  
princípio elementar do Espiritismo que existem Espíritos de todos os graus de  
inteligência e moralidade.  
V. Por que todos os Espíritos não são perfeitos? Deus os terá criado  
assim em categorias tão diversas?  
A. K. É o mesmo que perguntar por que todos os alunos de um colégio  
61 - O QUE É O ESPIRITISMO  
não estão cursando a aula de Filosofia.  
Todos os Espíritos têm a mesma origem e o mesmo destino; as diferenças  
que os separam não constituem espécies distintas, mas exprimem diversos graus de  
adiantamento. Os Espíritos não são perfeitos, porque não são mais do que as almas  
dos homens, que não atingiram também a perfeição; e, pela mesma razão, os  
homens não são perfeitos por serem encarnações de Espíritos mais ou menos  
adiantados. O mundo corporal e o mundo espiritual estão em contínuo  
revezamento; pela morte do corpo, o mundo corporal fornece seu contingente ao  
espiritual; pelos nascimentos, este alimenta a humanidade.  
Em cada nova existência, o Espírito dá maior ou menor passo no caminho  
do progresso, e, quando adquiriu na Terra a soma de conhecimentos e a elevação  
moral que o nosso globo comporta, ele o deixa, para ir viver em mundo mais  
elevado onde vai aprender novas coisas.  
Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são, de alguma  
sorte, o reflexo do mundo corporal; neles se encontram os mesmos vícios e as  
mesmas virtudes; há entre eles sábios, ignorantes e charlatães, prudentes e  
levianos, filósofos, raciocinadores, sistemáticos; como se não se despissem de seus  
prejuízos, todas as opiniões políticas e religiosas têm entre eles representantes;  
cada um fala segundo suas ideias, e o que eles dizem é, muitas vezes, apenas a sua  
opinião pessoal; eis o motivo por que se não deve crer cegamente em tudo o que  
dizem os Espíritos.  
V. Sendo assim, apresenta-se imensa dificuldade: nesses conflitos de  
opiniões diversas, como distinguir-se o erro da verdade? Não descubro a utilidade  
dos Espíritos, nem o que ganhamos em conversar com eles.  
A. K. Se eles apenas servissem para nos dar a prova de sua existência e  
de serem as almas dos homens, só isto seria de grande importância para quantos  
ainda duvidam que tenham uma alma e ignoram o que será deles depois da morte.  
Como todas as ciências filosóficas, esta exige longos estudos e minuciosas  
observações; é só assim que se aprende a distinguir a verdade da impostura, e que  
se adquire os meios de afastar os Espíritos enganadores. Acima dessa turba de  
baixa esfera, existem os Espíritos superiores, que só têm em vista o bem, e cuja  
missão é guiar os homens pelo bom caminho; cumpre-nos sabê-los apreciar e  
compreender. Estes nos vêm ensinar grandes coisas; mas não julgue que o estudo  
dos outros seja inútil; para bem conhecer um povo é necessário estudá-lo sob todas  
as faces. Vocês mesmos têm a prova disso; pensavam que bastava aos Espíritos  
deixarem seu envoltório corpóreo para que ficassem isentos de todas as suas  
imperfeições; ora, são as comunicações com eles que nos ensinaram que isto não se  
dá, e fizeram-nos conhecer o verdadeiro estado do mundo espiritual, que a todos  
nós interessa no mais alto ponto, pois que todos temos que ir para lá.  
Quanto aos erros que se podem originar da divergência de opiniões entre  
os Espíritos, eles desaparecem por si mesmos, à medida que se aprende a distinguir  
os bons dos maus, os sábios dos ignorantes, os sinceros dos hipócritas,  
absolutamente como se dá entre nós; então, o bom-senso repelirá as falsas  
doutrinas.  
62 - Allan Kardec  
V. A minha observação subsiste sempre no ponto de vista das questões  
científicas e outras que podemos submeter aos Espíritos. A divergência de suas  
opiniões, sobre as teorias que dividem os sábios, deixa-nos na incerteza.  
Compreendo que, como todos não possuem o mesmo grau de instrução, não  
podem saber tudo; mas, então, que peso pode ter para nós a opinião daqueles que  
sabem, quando não podemos distinguir quem erra ou quem tem razão? Vale tanto  
dirigirmo-nos aos homens como aos Espíritos.  
A. K. Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do  
verdadeiro caráter do Espiritismo. Aquele que supõe achar nele um meio fácil de  
saber tudo, de tudo descobrir, comete em grande erro.  
Os Espíritos não estão encarregados de trazer-nos a ciência já feita; seria,  
realmente, muito cômodo se nos bastasse pedir para sermos logo servidos, ficando  
assim dispensados do trabalho de estudar.  
Deus quer que trabalhemos, que o nosso pensamento se exercite; e só por  
esse preço adquiriremos a ciência; os Espíritos não vêm nos libertar dessa  
necessidade: eles são o que são; o Espiritismo tem por objeto estudá-los, a fim de  
que, por analogia, fiquemos sabendo o que seremos um dia; e não para nos fazer  
conhecer o que nos deve ser oculto, ou revelar-nos as coisas antes do tempo  
próprio.  
Tampouco os Espíritos são leitores da sorte, e aquele que se vangloria de  
obter deles certos segredos, prepara para si estranhas decepções da parte dos  
Espíritos galhofeiros; em uma palavra, o Espiritismo é uma ciência de observação,  
e não uma arte de adivinhar e especular. Nós o estudamos com o fim de conhecer o  
estado das individualidades do mundo invisível, as relações que nos prendem a elas,  
sua ação oculta sobre o mundo visível, e não para dele tirar qualquer vantagem  
material.  
Deste ponto de vista, não há Espírito algum cujo estudo não nos traga  
alguma utilidade; alguma coisa aprendemos sempre com todos eles; as suas  
imperfeições, os defeitos, a incapacidade, a ignorância mesmo, são outros tantos  
objetos de observação, que nos iniciam na natureza íntima desse mundo; e quando  
eles não nos instruam, nós nos instruímos estudando-os, como fazemos quando  
observamos os costumes de um povo desconhecido para nós. Quanto aos Espíritos  
esclarecidos, esses nos ensinam muito, porém sempre nos limites do possível; nunca  
lhes perguntemos o que eles não podem ou não devem revelar; contentemo-nos com  
o que nos dizem; querer ir além é sujeitarmo-nos às manifestações dos Espíritos  
frívolos, sempre dispostos a falar de tudo. A experiência nos ensina a julgar do grau  
de confiança que lhes devemos conceder.  
Utilidade prática das manifestações  
V. Vamos admitir que a coisa esteja comprovada: o Espiritismo  
reconhecido como realidade; qual a sua utilidade prática? Se não até o presente não  
temos sentido a sua falta, parece-me que podíamos continuar a dispensá-lo e viver  
sem ele, muito tranquilamente.  
A. K. Podíamos dizer o mesmo das vias férreas e do vapor, sem os quais  
também se vivia muito bem. Se para vocês utilidade prática é dar meios de passar  
boa vida, fazer fortuna, conhecer o futuro, descobrir minas de carvão ou tesouros  
63 - O QUE É O ESPIRITISMO  
ocultos, arrecadar heranças, libertar-se do trabalho de estudar, o Espiritismo não  
tem utilidade; ele não pode produzir altas e baixas na Bolsa, nem transformar-se em  
ações de Bancos, nem mesmo fornecer inventos já prontos e no estado de serem  
explorados. Sob tal ponto de vista, quantas ciências deixariam de ser úteis! Quantas  
delas não oferecem vantagem alguma, comercialmente falando!  
Os homens igualmente passavam bem, antes da descoberta dos novos  
planetas, antes que se soubesse ser a Terra e não o Sol que se move, antes que se  
conhecesse o mundo microscópico e outras tantas coisas.  
Para viver e fazer brotar seu trigo, o camponês não precisa saber o que  
seja um planeta. Para que então os sábios se entregam a esses estudos? Há alguém  
que ouse dizer que eles perdem o tempo?  
Tudo que serve para erguer uma ponta do véu que nos envolve, ajuda o  
desenvolvimento da inteligência, alarga o círculo das ideias, fazendo-nos melhor  
compreender as leis da Natureza.  
Ora, o mundo dos Espíritos existe em virtude de uma dessas leis naturais, e  
o Espiritismo nos faz conhecê-lo; ele nos mostra a influência que o mundo invisível  
exerce sobre o visível e as relações existentes entre eles, como a Astronomia nos  
ensina as que ligam os astros à Terra; ele nos faz ver isso como sendo uma das  
forças que regem o Universo e contribuem para a manutenção da harmonia geral.  
Supondo que a sua utilidade se limitasse a isso, já não seria de grande  
importância a revelação de tal potência, apesar mesmo de toda a sua doutrina  
moral? De nada valerá um mundo inteiro novo que se nos revela, quando o  
conhecimento dele nos conduz à solução de tão grande número de problemas, até  
então insolúveis; quando ele nos inicia nos mistérios do além-túmulo, que nos  
devem interessar de algum modo, visto que todos nós, tarde ou cedo, temos de  
transpor esse marco fatal?  
Porém, o Espiritismo possui outra utilidade, mais positiva: é a natural  
influência moral que exerce. Ele é a prova patente da existência da alma, da sua  
individualidade depois da morte, da sua imortalidade, da sua sorte futura; é,  
portanto, a destruição do materialismo não pelo raciocínio, mas por fatos. Não  
convém pedir-lhe senão o que ele pode dar, e nunca o que está fora dos limites do  
seu fim providencial.  
Antes dos progressos sérios da Astronomia, acreditava-se na Astrologia.  
Será razoável dizermos que a Astronomia para nada serve, porque já não se pode  
encontrar na influência dos astros o prognóstico do destino?  
Assim como a Astronomia destronou os astrólogos, o Espiritismo veio  
destronar os adivinhos, os feiticeiros e os que liam a buena-dicha. Ele é, para a  
magia, o que é a Astronomia para a Astrologia, a Química para a Alquimia.  
Loucura, suicídio e obsessão  
V. Certas pessoas consideram as ideias espíritas como capazes de  
perturbar as faculdades mentais, pelo que acham prudente deter-lhes a propagação.  
A. K. Devem conhecer o provérbio: “Quem quer matar o cão diz que o  
cão está danado".  
Portanto, não é estranhável que os inimigos do Espiritismo procurem  
agarrar-se a todos os pretextos; como este lhes pareceu próprio para despertar  
64 - Allan Kardec  
temores e melindres, empregam-no logo, conquanto não resista ao mais ligeiro  
exame. Ouvi, pois, a respeito dessa loucura, o raciocínio de um louco.  
Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura; as  
ciências, as artes, a religião mesmo, fornecem o seu contingente. A loucura provém  
de certo estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento; estando o  
instrumento desorganizado, o pensamento fica alterado.  
Logo, a loucura é um efeito consecutivo, cuja causa primária é uma  
predisposição orgânica, que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas  
impressões; e isto é tão real que encontrareis pessoas que pensam excessivamente e  
não ficam loucas, ao passo que outras enlouquecem sob o influxo da menor  
excitação.  
Existindo uma predisposição para a loucura, esta toma o caráter de  
preocupação principal, que então se torna ideia fixa; esta poderá ser a dos  
Espíritos, num indivíduo que deles se tenha ocupado, como poderá ser a de Deus,  
dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma ciência, da maternidade, de um  
sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um  
louco espírita, se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante.  
É certo que um jornal disse que se contavam, só em uma localidade da  
América, de cujo nome não me recordo, 4.000 casos de loucura espírita; mas é  
também sabido que os nossos adversários têm a ideia fixa de se crerem os únicos  
dotados de razão; é uma esquisitice como outra qualquer. Para eles, nós somos  
todos dignos de um hospital de doidos, e, por consequência, os 4.000 espíritas da  
localidade em questão eram considerados como loucos.  
Dessa espécie, os Estados Unidos contam centenas de milhares, e todos os  
países do mundo um número ainda muito maior. Esse gracejo de mau gosto começa  
a não ter valor, desde que tal moléstia vai invadindo as classes mais elevadas da  
sociedade.  
Falam muito do caso de Vitor Hennequin, mas se esquecem que, antes de  
se ocupar com os Espíritos, já ele havia dado provas de excentricidade nas suas  
ideias; se as mesas girantes não tivessem então aparecido (as quais, segundo um  
trocadilho bem espirituoso dos nossos adversários, lhe fizeram girar a cabeça), sua  
loucura teria seguido outro rumo.  
Eu digo, pois, que o Espiritismo não tem privilégio algum, nesse sentido;  
mas vou ainda além: afirmo que, bem compreendido, ele é um preservativo contra a  
loucura e o suicídio.  
Entre as causas mais numerosas de excitação cerebral, devemos contar as  
decepções, os desastres, as afeições contrariadas, as quais são também as mais  
frequentes causas do suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo  
de um ponto de vista tão elevado, que as tribulações são para eles apenas incidentes  
desagradáveis de uma viagem. Aquilo que em outro qualquer produziria violenta  
comoção afeta-o pouquíssimo. Ele sabe que os dissabores da vida são provas que  
servirão para o seu adiantamento, se as sofrer sem murmurar, porque sua  
recompensa será proporcional à coragem com que as tiver suportado. Suas  
convicções lhe dão uma resignação que o preserva do desespero e, por  
consequência, de uma causa incessante de loucura e de suicídio. Além disso, ele  
sabe pelo espetáculo que as comunicações com os Espíritos lhe dão a sorte  
65 - O QUE É O ESPIRITISMO  
deplorável dos que abreviam voluntariamente os seus dias, e este quadro é bem de  
molde a fazê-lo refletir; também é considerável o número dos que por esse meio têm  
sido detidos nessa terrível queda. É um dos grandes resultados do Espiritismo.  
No número das causas de loucura, devemos também colocar o medo,  
principalmente do diabo, que já tem desarranjado mais de um cérebro. Sabe-se o  
número de vítimas que se tem feito, ferindo as imaginações fracas com esse painel  
que, por detalhes horrorosos, capricham em tornar mais assustador. O diabo —  
dizem só causa medo às crianças, é um freio para corrigi-las; sim, como o papão  
e o lobisomem, que as contêm por algum tempo, tornando-se elas piores que antes,  
quando lhes perdem o medo; mas, em troca desse pequeno resultado, não contam as  
epilepsias que têm sua origem nesse abalo de cérebros tão delicados.  
Não vamos confundir a loucura patológica com a obsessão; esta não vem  
de lesão alguma cerebral, mas da subjugação que Espíritos malévolos exercem  
sobre certos indivíduos, e que, muitas vezes, têm as aparências da loucura  
propriamente dita. Esta afecção muito frequente é independente de qualquer crença  
no Espiritismo e existiu em todos os tempos. Neste caso, a medicação comum é  
impotente e mesmo prejudicial.  
Fazendo conhecer esta nova causa de perturbação orgânica, o Espiritismo  
nos oferece, ao mesmo tempo, o único meio de vencê-la, agindo não sobre o  
enfermo, mas sobre o Espírito obsessor. O Espiritismo é o remédio e não a causa do  
mal.  
Esquecimento do passado  
V. Não consigo explicar a mim mesmo como o homem pode aproveitar  
da experiência adquirida em suas anteriores existências, quando não se lembra delas,  
pois que, desde que lhe falta essa reminiscência, cada existência é para ele como se  
fosse uma primeira; deste modo, está sempre a recomeçar.  
Suponhamos que cada dia, ao despertar, perdemos a memória de tudo  
quanto fizemos no dia anterior; quando chegássemos aos setenta anos, não  
estaríamos mais adiantados do que aos dez; ao passo que recordando as nossas  
faltas, inaptidões e punições que disso nos provieram, nos esforçaremos por evitá-  
las. Para me servir da comparação que fez do homem, na Terra, com o aluno de um  
colégio, eu não compreendo como este poderia aproveitar as lições da quarta classe,  
não se lembrando do que aprendeu na anterior.  
Essas soluções de continuidade na vida do Espírito interrompem todas as  
relações e, de alguma maneira, fazem dele uma entidade nova; do que podemos  
concluir que os nossos pensamentos morrem com cada uma das nossas existências,  
para renascer em outra, sem consciência do que fomos; é uma espécie de  
aniquilamento.  
A. K. De pergunta em pergunta, tem me levado a dar um curso completo  
de Espiritismo; todas as objeções que apresenta são naturais em quem ainda nada  
conhece, mas que, mediante estudo sério, pode encontrar suas respostas muito mais  
explícitas do que as que posso dar em sumária explicação que, por certo, deve  
sempre ir provocando novas questões.  
Tudo se encadeia no Espiritismo, e, quando se toma o conjunto, vê-se que  
seus princípios emanam uns dos outros, servindo-se mutuamente de apoio; e, então,  
66 - Allan Kardec  
o que parecia uma anomalia, contrária à justiça e à sabedoria de Deus, se torna  
natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria. Tal é o problema do  
esquecimento do passado, que se prende a outras questões de não menor  
importância e, por isso, não farei aqui senão tocar levemente o assunto.  
Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito,  
com isso ele nada perde das suas aquisições, apenas esquece o modo como as  
conquistou.  
Servindo-me ainda da comparação supra com o aluno, direi que pouco  
importa saber onde, como, com que professores ele estudou as matérias de uma  
classe, uma vez que as saiba, quando passa para a classe seguinte. Se os castigos o  
tornaram laborioso e dócil, que lhe importa saber quando foi castigado por  
preguiçoso e insubordinado?  
É assim que, reencarnando, o homem traz por intuição e como ideias  
inatas, o que adquiriu em ciência e moralidade. Digo em moralidade porque, se no  
curso de uma existência ele se melhorou, se soube tirar proveito das lições da  
experiência, se tornará melhor quando voltar; amadurecido na escola do sofrimento  
e do trabalho, seu Espírito terá mais firmeza; longe de ter de recomeçar tudo, ele  
possui um fundo que vai sempre crescendo e sobre o qual se apoia para fazer  
maiores conquistas.  
A segunda parte da tua objeção, relativa ao aniquilamento do pensamento,  
não tem base mais segura, porque esse esquecimento só se dá durante a vida  
corporal; uma vez terminada ela, o Espírito recobra a lembrança do seu passado;  
então poderá julgar do caminho que seguiu e do que lhe resta ainda fazer; de modo  
que não há essa solução de continuidade em sua vida espiritual, que é a vida  
normal do Espírito. Esse esquecimento temporário é um benefício da Providência; a  
experiência só se adquire, muitas vezes, por provas rudes e terríveis expiações, cuja  
recordação seria muito penosa e viria aumentar as angústias e tribulações da vida  
presente.  
Se os sofrimentos da vida parecem longos, que seria se a ele se juntasse a  
lembrança do passado?  
Tu mesmo, por exemplo, meu amigo, hoje é um homem de bem, mas talvez  
deva isso aos rudes castigos que tenha recebido pelos malefícios que hoje te  
repugnariam à consciência; seria agradável para ti a lembrança de ter sido outrora  
enforcado por tua maldade? Não te perseguiria a vergonha de saber que o mundo  
não ignorava o mal que tinha feito? Que te importa o que fiz e o que sofreu para  
expiar, quando hoje é um homem estimável? Aos olhos do mundo, é um homem  
novo, e aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. Livre da recordação de um  
passado importuno, vive com mais liberdade; é para ti um novo ponto de partida;  
tuas dívidas anteriores estão pagas, cabendo-te ter cuidado de não contrair outras.  
Quantos homens desejariam assim durante a vida poder encobrir os seus  
primeiros anos! Quantos, ao chegar ao termo de sua carreira, não têm dito: “Se eu  
tivesse de recomeçar, não faria mais o que fiz!”  
Pois bem, o que eles não podem fazer nesta mesma vida, farão em outra;  
em uma nova existência, seu Espírito trará, em estado de intuição, as boas  
resoluções que tiver tomado. É assim que se efetua gradualmente o progresso da  
humanidade.  
67 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Suponhamos ainda o que é um caso muito comum que, em tuas  
relações, em tua família mesmo se encontre um indivíduo que te deu outrora muitos  
motivos de queixa, que talvez te arruinou, ou desonrou em outra existência, e que,  
Espírito arrependido, veio encarnar-se em teu meio, ligar-se a ti pelos laços de  
família, a fim de reparar suas faltas para convosco, por seu devotamento e afeição;  
não te acharia mutuamente na mais embaraçosa posição, se ambos se lembrassem  
de tuas inimizades passadas? Em vez de se extinguirem, os ódios se eternizariam.  
Disso resulta que a reminiscência do passado perturbaria as relações  
sociais e seria um tropeço ao progresso. Quer uma prova?  
Supondo que um indivíduo condenado às galés tome a firme resolução de  
tornar-se um homem de bem, que acontece quando ele termina o cumprimento da  
pena? A sociedade o repele, e essa repulsa o lança de novo nos braços do vício. Se,  
porém, todos desconhecessem os seus antecedentes, ele seria bem acolhido; e, se ele  
mesmo os esquecesse, poderia ser honesto e andar de cabeça erguida, em vez de ser  
obrigado a curvá-la sob o peso da vergonha do que não pode esquecer.  
Isto está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos, a respeito  
dos mundos superiores ao nosso planeta, nos quais, só reinando o bem, a lembrança  
do passado nada tem de penosa; eis por que seus habitantes se recordam da sua  
existência precedente, como nós nos recordamos hoje do que ontem fizemos.  
Quanto à lembrança do que fizeram em mundos inferiores, ela produz neles  
a impressão de um mau sonho.  
Elementos de convicção  
V. Convenho, ilustre amigo, que do ponto de vista filosófico, a Doutrina  
Espírita é perfeitamente racional; mas fica sempre de pé a questão das  
manifestações, que só pode ser resolvida por fatos; ora, é a realidade destes que  
muita gente contesta, e não deve achar extraordinário o desejo que te manifestam de  
testemunhá-los.  
A. K. Acho isso muito natural; todavia, como eu procuro que eles sejam  
aproveitados, explico em que condições convém que cada um se coloque, para  
melhor observá-los e, sobretudo, compreendê-los; ora, quem não aceita essas  
condições, mostra não ter sério desejo de esclarecer-se, e com tal pessoa é inútil  
perdermos tempo.  
Concordará também que seria estranho que tão filosofia racional tivesse  
saído de fatos ilusórios e controvertidos.  
Em boa lógica, a realidade do efeito implica a da causa que o produz; se  
um é verdadeiro, a outra não pode ser falsa, porque, onde não há árvores, não se  
pode colher frutos.  
É certo que nem todos testemunharam os fatos, porque não se colocaram  
nas condições necessárias para observá-los; não tiveram a paciência e a  
perseverança exigidas. Mas isso também se dá com todas as ciências: o que uns não  
fazem, é feito por outros; todos os dias aceitamos o resultado dos cálculos  
astronômicos, sem que nós mesmos façamos as contas.  
Seja como for, se acha a filosofia boa, pode aceitá-la como aceitaria outra  
qualquer, conservando tua opinião sobre as vias e meios que a ela conduziram, ou,  
ao menos, não a admitindo senão a título de hipótese, até mais ampla averiguação.  
68 - Allan Kardec  
Os elementos de convicção não são os mesmos para todos; o que convence  
a uns, não produz impressão alguma em outros; assim sendo, é preciso um pouco de  
tudo. Porém, é um engano crermos que as experiências físicas sejam o único meio  
de convencer.  
Notei que os mais importantes fenômenos não produziram a menor  
impressão em algumas pessoas, ao passo que uma simples resposta escrita venceu  
todas as dúvidas.  
Quando se vê um fato que não se compreende, quanto mais extraordinário  
ele é, mais suspeitas desperta e mais o pensamento se esforça para lhe dar uma  
causa vulgar; se ele, porém, for compreendido, é logo admitido por ter uma razão  
de ser, desaparecendo o maravilhoso e o sobrenatural.  
Certamente as explicações que acabo de te dar, nesta conversa, estão longe  
de ser completas; mas, sumárias como são, estou persuadido de que te levarão a  
refletir; e, se as circunstâncias te fizerem testemunhar alguns fatos de manifestação,  
verá tais fenômenos com menor prevenção, porque possuirá uma base onde firmar o  
teu raciocínio.  
Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a  
doutrina filosófica.  
Ora, eu sou visitado todos os dias por pessoas que ainda não viram nada e  
creem tão firmemente como eu, só pelo estudo que fizeram da parte filosófica; para  
elas o fenômeno das manifestações é acessório; o fundo é a doutrina, a ciência; eles  
a veem tão grande e tão racional que nela encontram tudo quanto pode satisfazer às  
suas aspirações interiores, à parte o fato das manifestações; do que concluem que,  
supondo não existissem as manifestações, a doutrina não deixaria de ser sempre a  
que melhor resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis.  
Quantos me disseram que essas ideias estavam latentes no seu cérebro,  
embora em estado de confusão. O Espiritismo veio coordená-las, dar-lhes corpo, e  
foi para eles como um raio de luz. É o que explica o número de adeptos que a  
simples leitura de O Livro dos Espíritos produziu. Acredita que esse número seria  
o que é hoje, se nunca tivéssemos passado das mesas giratórias e falantes?  
V. O senhor tinha razão de dizer que das mesas giratórias e falantes saiu  
uma doutrina filosófica, e eu estava longe de suspeitar as consequências que  
surgiram de um fato encarado como simples objeto de curiosidade. Agora vejo  
quanto é vasto o campo aberto pela tua tese.  
A. K. Nisso te contesto, caro senhor; concede-me subida honra  
atribuindo-me esse sistema quando ele não me pertence. Ele foi totalmente deduzido  
do ensino dos Espíritos. Eu vi, observei, coordenei e procuro fazer compreender aos  
outros aquilo que compreendo; esta é a parte que me cabe.  
Entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos há esta diferença capital;  
que todos estes sistemas são obras de homens mais ou menos esclarecidos, ao passo  
que, naquele que me atribui, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.  
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá  
dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um  
nome em assunto de tamanha gravidade?  
O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais  
69 - O QUE É O ESPIRITISMO  
somos simples átomos.  
Sociedades espíritas  
V. Tua sociedade se preocupa com esses estudos: seria possível eu fazer  
parte dela?  
A. K. Por ora, ainda não; porque se para ser recebido nela, não há  
necessidade de ser doutor em Espiritismo, há, contudo, a de se ter sobre ele ao  
menos ideias mais firmes do que as tuas.  
Como a Sociedade não deseja ser perturbada nos seus estudos, ela não  
admite os que lhe viriam fazer perder tempo com questões elementares, nem os que,  
não simpatizando com seus princípios e convicções, lançariam a desordem no seu  
meio, com discussões intempestivas ou com a intenção de contradição.  
Como tantas outras, é uma sociedade científica, que se ocupa de  
aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita e procura esclarecer-se; é o  
centro ao qual convergem ensinos colhidos em todas as partes do mundo e onde se  
elaboram e coordenam questões que se relacionam com o progresso da Ciência,  
mas não é uma escola nem um curso de ensino elementar. Mais tarde, quando as  
tuas convicções estiverem fortalecidas pelo estudo, ela decidirá se deve te admitir.  
Enquanto espera, poderá assistir a uma ou duas sessões como visitante, com a  
condição de não fazer reflexão alguma de natureza a melindrar quem quer que seja;  
do contrário, eu, que te vou apresentar, incorreria na censura dos meus colegas, e a  
porta te seria interditada.  
Aí encontrará uma reunião de homens sérios e de boa sociedade, cuja  
maioria se recomenda pela superioridade do seu saber e posição social, e que não  
consentiria, àqueles que recebe em seu seio, se afastarem das conveniências, no que  
quer que seja; então, não creia que ela convide o público e chame o primeiro  
recém-vindo para assistir às suas sessões. Como não faz demonstrações com o fim  
de satisfazer curiosidades, ela afasta com cuidado os curiosos.  
Portanto, aqueles que supõem ir aí achar uma distração e uma espécie de  
espetáculo, ficarão desapontados e melhor farão se lá não forem.  
Eis por que ela recusa admitir, mesmo como simples visitantes, as pessoas  
que não conhece, ou aquelas cujas disposições hostis são notórias.  
Interdição do Espiritismo  
V. Solicito-te uma última resposta: O Espiritismo tem poderosos  
inimigos; eles não poderiam interditar sua prática e as sociedades e, por esse meio,  
impedir sua propagação?  
A. K. Seria um modo de perder a partida um pouco mais cedo, porque a  
violência é o argumento daqueles que não têm boas razões.  
Se o Espiritismo é uma quimera, ele cairá por si mesmo, sem que para isso  
se esforcem tanto; se o perseguem é por que o temem, e só uma coisa séria pode  
causar temor. Se, ao contrário, é uma realidade, então está na Natureza, como te  
disse, e ninguém com um traço de pena pode revogar uma lei natural.  
Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem, não há  
dúvida que, cercando esse homem, poderiam colocar um fim às manifestações;  
infelizmente para os adversários, elas não são mistério para pessoa alguma; aí não  
70 - Allan Kardec  
há segredos, nada oculto, tudo se passa às claras; elas estão à disposição de todo o  
mundo e se produzem desde o palácio até a mansarda.  
Podem interditar o seu exercício público; porém, é muito certo que não é  
em público que elas mais se dão é na intimidade; ora, desde que todos podem ser  
médiuns, quem impedirá que uma família no seu lar, ou que um indivíduo no  
silêncio do seu gabinete, ou que um prisioneiro em seu cárcere tenha comunicações  
com os Espíritos, mesmo nas barbas da polícia e sem que esta o saiba?  
Entretanto, vamos admitir que um governo seja forte bastante para impedi-  
los de trabalhar em suas casas; conseguirá também que não o façam na de seus  
vizinhos, no mundo inteiro, quando não há país algum, nos dois hemisférios, em que  
não se encontrem médiuns?  
Além disso, o Espiritismo não tem sua fonte entre os homens; ele é obra  
dos Espíritos, que não podem ser queimados nem encarcerados. Ele consiste na  
crença individual e não nas sociedades, que de nenhuma sorte são necessárias. Se  
chegassem a destruir todos os livros espíritas, os Espíritos ditariam outros.  
Em resumo, o Espiritismo é hoje um fato consumado; ele já conquistou o  
seu lugar na opinião pública e entre as doutrinas filosóficas; é preciso então que  
aqueles, a quem ele não convém, se resignem a vê-lo ao seu lado, restando-lhes a  
liberdade de recusá-lo.  
TERCEIRO DIÁLOGO  
O padre  
Um abade. O senhor me permite lhe dirigir algumas perguntas?  
A. K. Com prazer, reverendo; mas, antes de responder a elas, creio ser  
útil fazê-lo conhecer o terreno em que me devo colocar perante ti.  
Primeiro que tudo, devo declarar que não tenho a pretensão de convertê-lo  
às nossas ideias. Se desejar conhecê-las pormenorizadamente, encontrará as ideias  
espíritas nos livros em que estão expostas; neles poderá estudá-las à vontade e  
aceitá-las ou rejeitá-las.  
O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas terríveis  
consequências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura;  
ele se dirige então àqueles que em nada creem ou que de tudo duvidam e o  
número desses não é pequeno, como muito bem sabem; os que têm fé religiosa e a  
quem esta fé satisfaz, não têm necessidade dele.  
Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus  
ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se  
impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção.  
A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é  
um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em  
contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância.  
A seus olhos, toda crença, quando sincera e não permita ao homem fazer  
mal ao próximo, é respeitável, mesmo que seja errônea.  
Se alguém fosse arrastado por sua consciência a crer, por exemplo, que é o  
71 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Sol que gira ao redor da Terra, nós lhe diríamos: “Acredite se quiser, porque isso  
não fará que esses dois astros troquem os seus papéis”; mas, assim como não  
procuramos violentar-lhe a consciência, respeite também a nossa.  
Porém, se transformar uma crença, de si mesma inocente, em instrumento  
de perseguição, ela então se tornará nociva e pode ser combatida.  
Tal é, senhor abade, a linha de conduta que tenho seguido com os ministros  
dos diversos cultos que a mim têm se dirigido. Quando eles me interpelaram sobre  
alguns pontos da Doutrina, dei-lhes as explicações necessárias, isentando-me de  
discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar, em razão de todos  
os homens serem livres em suas apreciações; nunca, porém, fui procurá-los no  
propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão.  
Àquele que nos procura como irmão, nós o acolhemos como tal; ao que nos  
repele, deixamo-lo em paz. É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas,  
porque não concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. Sempre  
lhes tenho dito: Semeiem no campo dos descrentes, onde há colheita a fazer.  
O Espiritismo não se impõe, porque, como eu disse, respeita a liberdade de  
consciência; ele sabe também que toda crença imposta é superficial e só desperta as  
aparências da fé e nunca a fé sincera. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos,  
de modo a cada um poder formar opinião segura.  
Os que lhe aceitam os princípios sejam sacerdotes ou leigos o fazem  
livremente e por achá-los racionais; mas nós não ficamos querendo mal aos que se  
afastam da nossa opinião. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo, nós temos  
consciência de não havê-la provocado.  
Padre Se a Igreja, vendo levantar-se uma nova doutrina, cujos  
princípios, em consciência, julga dever condenar, pode contestar-lhe o direito de  
discuti-los e combatê-los, premunindo os fiéis contra o que ela considera erro?  
A. K. De modo algum podemos contestar esse direito, que também  
reclamamos para nós. Se ela tivesse se fundamentado nos limites da discussão, nada  
haveria de melhor; porém, leia a maioria dos discursos proferidos por seus  
membros e publicados em nome da religião, os sermões que têm sido pregados, e  
ver neles a injúria e a calúnia transbordando por toda parte e os princípios da  
doutrina sempre indigna e perversamente desfigurados.  
Do alto do púlpito, nós os espíritas não temos sido qualificados de  
inimigos da sociedade e da ordem pública, não temos sido amaldiçoados e  
rejeitados pela Igreja, sob o pretexto de que é melhor ser incrédulo do que crer em  
Deus e na alma pelos ensinos do Espiritismo?  
Hoje, muitos não lamentam não se poder atear as fogueiras da Inquisição  
para os espíritas? Em certas localidades não têm sido assinalados à antipatia de  
seus concidadãos, a ponto de fazer que os espíritas sejam perseguidos e injuriados  
nas ruas? Não se tem imposto a todos os fiéis que os evitem como empesteados, e  
impedido que os criados entrem a seu serviço? Muitas mulheres não têm sido  
aconselhadas a se separarem de seus maridos, como muitos maridos de suas  
mulheres, tudo por causa do Espiritismo? Não se têm tirado lugares a empregados,  
retirado o pão do trabalho a operários e recusado caridade aos necessitados, por  
eles serem espíritas? Não se têm despedido de alguns hospitais, até cegos, pelo fato  
72 - Allan Kardec  
de não quererem abjurar sua crença?  
Diga-me, senhor abade, isso será uma discussão leal? Porventura, os  
espíritas responderam à injúria com a injúria, ao mal com o mal?  
Não. A tudo eles sempre opuseram a calma e a moderação. A consciência  
pública já lhes faz a justiça de reconhecer eles não terem sido os agressores.  
Padre Todo homem sensato deplora esses excessos; mas a Igreja não  
pode ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco  
esclarecidos.  
A. K. Convenho; mas, entrarão na classe dos poucos esclarecidos os  
príncipes da Igreja? Veja a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros. Não foi  
um bispo quem ordenou o auto-de-fé de Barcelona? A autoridade superior  
eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados?  
Se ela tolera esses sermões indignos da cadeira evangélica; se ela  
patrocina a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe  
inteira de cidadãos, e se não se opõe às perseguições exercidas em nome da  
religião, é porque as aprova.  
Em resumo, a Igreja repelindo sistematicamente os espíritas que a  
buscavam forçou-os a retroceder; pela natureza e violência dos seus ataques ela  
ampliou a discussão e conduziu-a para um terreno novo. O Espiritismo era apenas  
uma simples doutrina filosófica; foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções,  
apresentando-o como inimigo formidável; foi ela, enfim, quem o proclamou nova  
religião. Foi um passo errado, mas a paixão não raciocina melhor.  
Um livre pensador. Há pouco proclamou a liberdade de pensamento e  
de consciência, e declarou que toda crença sincera é respeitável. O materialismo é  
uma crença como outra qualquer; por que negar-lhe a liberdade que concede a todas  
as outras?  
A. K. Certamente, cada um é livre de crer no que quiser ou de não crer  
em coisa alguma; e não toleraríamos mais uma perseguição contra aquele que  
acredita no nada depois da morte, assim como na promovida contra um cismático  
de qualquer religião.  
Combatendo o materialismo, não atacamos os indivíduos, mas sim uma  
doutrina que, se é inofensiva para a sociedade, quando se funda no foro íntimo da  
consciência de pessoas esclarecidas, é uma chaga social, se vier a se generalizar.  
A crença de tudo acabar para o homem depois da morte e que toda  
solidariedade cessa com a extinção da vida corporal leva-o a considerar como uma  
tolice o sacrifício do seu bem-estar presente, em proveito de alguém; daí a máxima:  
“Cada um por si durante a vida terrena, porque com ela tudo se acaba".  
A caridade, a fraternidade, a moral, em suma, ficam sem base alguma, sem  
nenhuma razão de ser. Para que nos molestarmos, nos constrangermos e nos  
sujeitarmos a privações hoje, quando amanhã talvez já nada sejamos?  
A negação do futuro, a simples dúvida sobre outra vida, são os maiores  
estimulantes do egoísmo que é a origem da maioria dos males da Humanidade. É  
necessário possuir alta dose de virtude para não seguir a corrente do vício e do  
crime, quando para isso não se tem outro freio além do da própria força de  
73 - O QUE É O ESPIRITISMO  
vontade.  
O respeito humano pode conter o homem do mundo, mas não contém  
aquele que não dá importância à opinião pública.  
A crença na vida futura, mostrando a perpetuidade das relações entre os  
homens, estabelece entre eles uma solidariedade que não se quebra na tumba; desse  
modo, essa crença muda o curso das ideias. Se essa crença fosse um simples  
espantalho, não duraria senão um tempo curto; mas, como a sua realidade é fato  
adquirido pela experiência, é um dever propagá-la e combater a crença contrária,  
mesmo no interesse da ordem social. É o que o Espiritismo faz; e o faz com êxito,  
porque fornece provas, e porque, decididamente, o homem antes quer ter a certeza  
de viver e poder ser feliz em um mundo melhor, para compensação das misérias  
deste mundo, do que a de morrer para sempre. O pensamento de ser aniquilado, de  
ver os filhos e os entes que lhe são mais caros perdidos, sem remissão, sorri a um  
bem limitado número, acreditem; é o motivo do tão pequeno êxito obtido pelos  
ataques dirigidos contra o Espiritismo, em nome da incredulidade, os quais não lhe  
produziram o menor abalo.  
Padre A religião ensina tudo isso; até agora foi suficiente; qual é hoje a  
necessidade de uma nova doutrina?  
A. K. Se a religião ensina o bastante, por que há tantos incrédulos,  
religiosamente falando?  
Ela prega, é verdade; ela nos manda crer, mas há muita gente que não crê  
por simples afirmação. O Espiritismo prova e faz ver o que a religião ensina em  
teoria. Além disso, donde vêm essas provas? Da manifestação dos Espíritos.  
Ora, é provável que os Espíritos só se manifestem com o consentimento de  
Deus; se, pois, Deus em sua misericórdia envia aos homens esse socorro para  
afastá-los da descrença, é uma impiedade repeli-lo.  
Padre Entretanto, não pode contestar que o Espiritismo não está de  
acordo com a religião em todos os pontos.  
A. K. Ora, senhor abade, todas as religiões dirão a mesma coisa: os  
protestantes, os judeus, os muçulmanos, tanto quanto os católicos. Se o Espiritismo  
negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e imortalidade, das  
penas e recompensas futuras, do livre-arbítrio do homem; se ele ensinasse que cada  
um só deve viver para si, não pensar senão em si, não só seria contrário à religião  
católica, como a todas as religiões do mundo; ele seria ainda a negação de todas as  
leis morais, base das sociedades humanas.  
Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo  
e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado  
ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito; colocam acima de todas as  
virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo:  
fazer aos outros como queremos que nos seja feito.  
Não são estes os fundamentos da religião? Essa certeza do futuro, de se ir  
encontrar aqueles a quem se amou, não será uma consolação? Essa grandiosidade  
da vida espiritual, que é a nossa essência, comparada às mesquinhas preocupações  
da vida terrena, não será própria a elevar a nossa alma e a fortalecer-nos na  
74 - Allan Kardec  
prática do bem?  
Padre Concordo que, nas questões gerais, o Espiritismo é conforme as  
grandes verdades do Cristianismo; porém, será o mesmo em relação aos dogmas?  
Ele não contradiz alguns princípios que a Igreja nos ensina?  
A. K. O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, não cogita de questões  
dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências  
filosóficas; essas consequências são boas ou más? Podem julgá-las pelos princípios  
gerais que acabo de expor.  
Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A  
questão é de grande importância e merece algumas considerações. Façamos  
primeiro um termo de comparação: a eletricidade, estando na Natureza, existiu em  
todo tempo e produziu sempre os efeitos que hoje observamos e muitos outros que  
ainda não conhecemos. Na ignorância da sua verdadeira causa, os homens  
explicavam esses efeitos de um modo mais ou menos extravagante. A descoberta da  
eletricidade e de suas propriedades veio anular um punhado de teorias absurdas,  
espalhando a luz por sobre mais de um mistério da Natureza. O que fizeram a  
eletricidade e as ciências físicas para certos fenômenos, o Espiritismo o fez para  
outros de ordem diferente.  
O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível, formado pelos  
seres incorpóreos que povoam o espaço e que são justamente as almas daqueles que  
viveram na Terra, ou em outros globos, nos quais deixaram seus corpos materiais.  
São os seres a que chamamos Espíritos, seres que nos cercam e incessantemente  
exercem sobre os homens uma grande influência, sem que estes o percebam, e  
desempenham papel muito ativo no mundo moral, e mesmo, até certo ponto, no  
físico.  
Portanto, o Espiritismo faz parte da Natureza e podemos dizer que, numa  
certa ordem de ideias, ele é uma potência, como a eletricidade o é sob outro ponto  
de vista, e como ainda a gravitação é uma outra. Os fenômenos vindos do mundo  
invisível produziram-se em todos os tempos; eis aí por que a história de todos os  
povos faz menção dela. Somente, em sua ignorância como se deu com a  
eletricidade , os homens os atribuíam a causas mais ou menos racionais, e deram,  
nesse ponto de vista, livre curso à sua imaginação.  
Mais bem observado depois que se popularizou, o Espiritismo vem  
derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal  
compreendidas. Seu verdadeiro caráter é então o de uma ciência e não de uma  
religião; e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as  
crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos  
fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a  
Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e  
mesmo budistas e bramanistas.  
Consequentemente, ele se fundamenta em princípios independentes das  
questões dogmáticas. Suas consequências morais são todas no sentido do  
Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura; razão  
pela qual, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos para  
compreendê-lo em sua verdadeira essência.  
Podemos condená-lo por isso?  
75 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Cada um pode formar uma religião de suas opiniões e interpretar à  
vontade as religiões conhecidas; mas daí a constituir nova Igreja, a distância é  
grande.  
Padre As evocações, entretanto, não são feitas segundo uma fórmula  
religiosa?  
A. K. Realmente, o sentimento religioso domina nas evocações e em  
nossas reuniões; mas não temos fórmula sacramental: para os Espíritos o  
pensamento é tudo e a forma é nada. Nós os chamamos em nome de Deus, porque  
cremos em Deus e sabemos que nada se faz neste mundo sem sua permissão, e,  
portanto, que eles não virão sem que Deus o permita; procedemos em nossos  
trabalhos com calma e recolhimento, porque essa é uma condição necessária para  
as observações, e, em segundo lugar, porque sabemos o respeito que se deve  
àqueles que não vivem mais sobre a Terra, qualquer que seja sua condição, feliz ou  
infeliz, no mundo espiritual; fazemos um apelo aos bons Espíritos, porque,  
conhecendo que há bons e maus, desejamos que estes últimos não venham tomar  
parte fraudulentamente nas comunicações que recebemos.  
O que tudo isto prova? Que não somos ateus, o que não quer dizer que  
sejamos seguidores de religião reformada.  
Padre Pois bem! Que dizem os Espíritos superiores a respeito da  
religião? Os bons nos devem aconselhar e guiar. Suponhamos que eu não tenha  
religião alguma e queira escolher uma; se eu lhes pedir para aconselharem-me se  
devo ser católico, protestante, anglicano, qualquer, judeu, maometano ou mórmon,  
qual será a resposta deles?  
A. K. Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais,  
comuns a todas, e os princípios particulares de cada uma delas. Os primeiros são os  
de que falamos há pouco; estes são proclamados por todos os Espíritos, qualquer  
que seja a sua classe. Quanto aos segundos, os Espíritos comuns sem ser maus  
podem ter preferências, opiniões; podem preconizar esta ou aquela forma,  
animar certas práticas, seja por convicção pessoal, seja porque conservaram as  
ideias da vida terrena, seja por prudência, para não assustar as consciências  
timoratas.  
Acreditam, por exemplo, que um Espírito esclarecido, fosse mesmo  
Fénelon, dirigindo-se a um muçulmano, irá inabilmente dizer-lhe que Maomé é um  
impostor, e que ele será condenado se não se fizer cristão?  
Não o fará, porque seria repelido.  
Em geral, os Espíritos superiores se a isso não são solicitados por  
alguma consideração especial não se preocupam com essas questões de minúcia,  
eles se limitam a dizer: Deus é bom e justo; só quer o bem; a melhor de todas as  
religiões é aquela que só ensina o que é conforme à bondade e justiça de Deus; que  
dá de Deus a maior e a mais sublime ideia e não O rebaixa emprestando-lhe as  
fraquezas e as paixões da humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e lhes  
ensina a amarem-se todos como irmãos; que condena todo mal feito ao próximo;  
que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que nada  
prescreve de contrário às leis imutáveis da Natureza, porque Deus não se pode  
76 - Allan Kardec  
contradizer; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, caridade e  
moralidade; aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o  
orgulho e a vaidade dos homens; aquela, finalmente, em nome da qual se comete  
menos mal, porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal; ela  
não lhe deve deixar porta alguma aberta, nem diretamente, nem por interpretação.  
Veja, julgue e escolha.  
Padre Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados  
pelos Espíritos que considera superiores; supondo mesmo que esses princípios sejam  
errôneos, tal crença segundo a opinião dos ditos Espíritos poderá ser  
prejudicial à salvação daqueles que, errando ou acertando, consideram-na artigo de  
fé e a praticam?  
A. K. Certamente que não, se ela os não desviar da prática do bem, se  
ela antes os incitar a isso; ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará  
evidentemente, se lhes fornecer ocasião de fazer o mal, de faltar à caridade com o  
próximo, se ela os tornar duros e egoístas, por que então não praticam segundo a  
lei de Deus, e Deus olha mais os pensamentos que os atos. Quem poderá sustentar o  
contrário?  
Acredita, por exemplo, que a fé possa ser proveitosa a um homem que,  
crendo perfeitamente em Deus, pratique atos inumanos ou contrários à caridade?  
Não haverá sempre mais culpa naquele que tinha mais meios de esclarecimento?  
Padre Assim, o católico fervoroso, que escrupulosamente cumpre com  
os deveres do seu culto, não é censurado pelos Espíritos?  
A. K. Não, se isso é para ele uma questão de consciência, se ele o faz  
com sinceridade; sim, mil vezes sim, se for hipócrita, se só tiver piedade aparente.  
Os Espíritos superiores, os encarregados do progresso da Humanidade,  
declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso, qualquer  
que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que  
deles se aproveitem.  
Ora, não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos;  
se, entre os seus ministros, há muitos que desempenham sua missão com  
devotamento inteiramente cristão, que a fazem grande, bela e respeitável,  
concordará que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu  
ministério. Os Espíritos combatem o mal, onde quer que ele se ache; mas, assinalar  
os abusos da religião, será atacá-la?  
Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos,  
abusos que fazem nascer o pensamento de ela poder ser substituída por outra  
melhor. Se a religião corresse qualquer perigo, a responsabilidade deveria cair  
sobre os que dão falsa ideia dela, transformando-a em arena de paixões humanas e  
explorando-a em proveito de sua ambição.  
Padre Disse que o Espiritismo não discute os dogmas, e, entretanto, ele  
admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo, a  
reencarnação, a aparição do homem na Terra, antes de Adão; nega a eternidade das  
penas, a existência dos demônios, o purgatório e o fogo do inferno.  
77 - O QUE É O ESPIRITISMO  
A. K. Já há muito tempo que esses pontos estão sendo discutidos; não foi  
o Espiritismo quem os pôs em litígio; são pontos sobre alguns dos quais há  
controvérsia, mesmo entre os teólogos, e que só o futuro julgará. Um grande  
princípio domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição  
indispensável do nosso futuro, como nos prova o estado dos Espíritos que conosco  
se comunicam.  
Enquanto a luz não se faz para vocês sobre essas questões, creiam, se  
quiserem, nas chamas e torturas materiais, se julgam que isso impede que  
pratiquem o mal; essa crença, porém, não as tornará mais reais se elas não  
existirem.  
Acreditam que não temos mais de uma existência corporal, mas isto não  
impede de renascerem aqui ou em outra parte se assim tiver de ser , apesar de  
o não quererem; vocês creem que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e  
quatro horas, mas, apesar disso, a Terra nos apresenta a prova do contrário,  
escrita em suas camadas geológicas; estão convencidos de Josué ter feito parar o  
Sol, o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira; dizem que a data da  
vinda do homem à Terra não vai além de 6 mil anos: isto, porém, não priva que os  
fatos lhes contradigam. E que dirão se um dia a Geologia demonstrar, por traços  
evidentes, a anterioridade do homem, como já tem demonstrado tantas outras  
coisas?  
Creia, pois, em tudo que lhes aprouver, mesmo na existência do diabo, se  
tal crença te puder tornar bom, humano e caridoso para com os teus semelhantes.  
Como doutrina moral, o Espiritismo só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o  
bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que, repito, tem consequências  
morais, que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto  
às questões secundárias, ele as abandona à consciência de cada um.  
Note bem, reverendo, que alguns dos pontos divergentes de que acabou de  
falar, a princípio não são contestados pelo Espiritismo. Se tivesse lido tudo quanto  
tenho escrito a respeito, teria visto que ele se limita a lhes dar uma interpretação  
mais lógica e racional do que a que vulgarmente dão a ele.  
É assim, por exemplo, que ele não nega o purgatório; antes, pelo contrário,  
demonstra sua necessidade e justiça; vai mesmo além: ele o define. O inferno foi  
descrito como imensa fornalha, mas ele será assim também compreendido pela alta  
teologia? Evidentemente, não; ela diz muito bem que isto é uma simples figura; que  
o fogo que ali se consome é um fogo moral, símbolo das maiores dores. Quanto à  
eternidade das penas, se fosse possível pôr-se a votos tal questão, para se conhecer  
a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de  
compreendê-la, mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a  
maioria, porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita  
misericórdia de Deus.  
Eis, além do mais, o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito:  
A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado.  
Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. O que  
Deus exige, para pôr um termo aos sofrimentos, é o arrependimento, a expiação e a  
reparação; em uma palavra, um melhoramento sério e efetivo, uma volta sincera ao  
bem. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte; sua pertinácia no mal  
78 - Allan Kardec  
prolonga os seus sofrimentos; seus esforços para fazer o bem os minoram ou  
abreviam. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento, o Espírito  
culpado, que não se arrependesse e nunca se melhorasse, sofreria sempre, e para  
ele então a pena seria eterna. Essa eternidade de penas deve ser entendida no  
sentido relativo e não no absoluto. Uma condição inerente à inferioridade do  
Espírito é não ver o fim da sua situação e crer que há de sofrer sempre o que é  
para ele um castigo. Contudo, desde que sua alma se abra ao arrependimento, Deus  
lhe faz ver um raio de esperança.  
Por certo, esta doutrina é mais conforme com a justiça de Deus, que pune,  
enquanto o culpado persiste no mal, e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom  
caminho. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós?  
Não; são os Espíritos que a ensinam e provam, pelos exemplos que  
diariamente nos fornecem. Os Espíritos não negam, pois, as penas futuras, pois que  
são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos; e este quadro  
nos toca mais que o das chamas perpétuas, porque tudo nele é perfeitamente lógico.  
Compreende-se que isto é possível, que assim deve ser, que essa situação é uma  
consequência natural das coisas; o pensador filósofo pode aceitá-lo, porque nele  
nada repugna à razão. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita  
gente, mesmo entre os materialistas, aos quais não fazia mossa o medo do inferno,  
como lhes era pintado.  
Padre Admitindo esse raciocínio, não julga que o leigo precisa de  
imagens mais impressionantes, antes que de uma filosofia que ele não pode  
compreender?  
A. K. Isso é um erro que tem lançado os homens ao materialismo, ou,  
pelo menos, afastado-os da religião. Chega o momento em que essas imagens não  
impressionam mais, e então aqueles que não aprofundam as coisas, não aceitando  
uma parte, rejeitam o todo, porque, dizem eles: se me ensinaram como verdade  
incontestável um ponto que é falso, se me deram uma imagem, uma figura, pela  
realidade, então, quem me garante que o resto seja verdadeiro? Se, pelo contrário,  
a razão, crescendo, nada tem a repelir, a fé se fortifica. A religião ganhará sempre  
em seguir o progresso das ideias; se alguma vez ela corre perigo, é quando os  
homens querem avançar e ela deseja ficar estacionária. Comete um erro de época  
quem espera conduzir os homens de hoje pelo medo do demônio e das torturas  
eternas.  
Padre Na prática, a Igreja reconhece hoje que o inferno material é uma  
figura; mas isso não exclui a existência dos demônios; sem eles, como explicar a  
influência do mal, que não pode vir de Deus?  
A. K. O Espiritismo não admite os demônios no sentido comum da  
palavra, porém, sim, os maus Espíritos, que não valem mais do que aqueles e que  
fazem igualmente o mal, suscitando maus pensamentos; somente ele diz não serem  
eles seres à parte, criados para o mal e perpetuamente votados a isto uma  
espécie de párias da criação e algozes do gênero humano; são seres atrasados,  
ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reservará o futuro. Nisso o Espiritismo  
concorda com a Igreja Católica Grega, que admite a conversão de Satã, alusão ao  
79 - O QUE É O ESPIRITISMO  
melhoramento dos maus Espíritos.  
Observe também que a palavra demônio não implica a ideia de mau  
Espírito, que lhe é dada pela acepção moderna, porque a palavra daimôn, grega,  
significa gênio, inteligência. Seja como for, hoje ela exprime um Espírito mau.  
Ora, admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer, em  
princípio, a realidade das manifestações. A questão está em saber se são eles os  
únicos que se comunicam como a Igreja afirma para motivar a proibição, feita  
por ela, de se comunicar com os Espíritos.  
Aqui, nós invocamos o raciocínio e os fatos. Se os Espíritos quaisquer  
que eles sejam se comunicam, só pode ser com a permissão de Deus; é possível  
que Ele só o tivesse permitido aos maus? Como?! Deixando a estes toda a liberdade  
de virem enganar os homens, Deus poderia impedir que os bons lhes viessem fazer  
um contrapeso, neutralizar suas doutrinas perniciosas?  
Crer que seja assim não seria pôr em dúvida seu poder e bondade, e fazer  
de Satã um rival da Divindade?  
A Bíblia, o Evangelho, os Padres da Igreja reconhecem perfeitamente a  
possibilidade das comunicações com o mundo invisível, e desse mundo não estão  
excluídos os bons; por que então havemos hoje de excluí-los?  
Além disso, admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações  
de santos, a Igreja rejeita assim a ideia de só podermos entrar em relação com os  
maus Espíritos. Seguramente, quando nos trabalhos obtidos só encontramos coisas  
boas, quando nos pregam neles a mais pura e sublime moral evangélica, a  
abnegação, o desinteresse e o amor ao próximo; quando neles se combate o mal,  
qualquer que seja o aspecto sobre que se mostre, será racional crer que o Espírito  
maligno assim proceda?  
Padre O Evangelho ensina que o anjo das trevas, ou Satã, se transforma  
em anjo de luz para seduzir os homens.  
A. K. Segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos,  
Satã não é um ser real; é a personificação do Mal, como Saturno era outrora a do  
Tempo. A Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica; é uma questão de opinião  
que eu não discutirei.  
Admitamos por um instante que Satã seja um ser real; à força de exagerar  
seu poder, tendo em vista intimidar, a Igreja chega a um resultado totalmente  
contrário, isto é, à destruição, não somente do medo, mas também da crença em tal  
personagem, segundo o provérbio: Quem muito quer provar, nada prova. Ela o  
representa como eminentemente fino, sagaz e ardiloso, mas, na questão do  
Espiritismo, o faz desempenhar o papel de louco ou de tolo.  
Uma vez que seu fim é alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do  
poder de Deus, compreende-se que se dirija àqueles que estão no bem para induzi-  
los ao mal, e, para tal fim, se veja obrigado a se transformar, segundo belíssima  
alegoria, em anjo de luz, isto é, que ele hipocritamente simule a virtude; mas, que  
deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes, é o que não se pode  
compreender.  
Os que não admitem Deus nem a alma, que desprezam a prece e vivem  
mergulhados no vício, são dele, quanto é possível ser; nada mais lhe resta fazer  
80 - Allan Kardec  
para sepultá-los no lamaçal; ora, excitá-los a voltar a Deus, a orar, a submeter-se à  
vontade do Criador, animá-los a renunciar ao mal, mostrando-lhes a felicidade dos  
escolhidos e a triste sorte que aguarda os maus, seria ato de um simplório, mais  
estúpido que o de dar liberdade a aves que estejam numa gaiola, com o pensamento  
de apanhá-las de novo.  
Há, pois, na doutrina da comunicação exclusiva dos demônios uma  
contradição que fere todo homem sensato; nunca alguém se convencerá que sejam  
auxiliares de Satã os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam, ao  
bem os que praticavam o mal; que consolam os aflitos, dão força e coragem aos  
fracos; que, pela sublimidade de seus ensinos, elevam a alma acima da vida  
material, e que, por este motivo, se deva interdizer-nos qualquer relação com o  
mundo invisível.  
Padre Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos,  
é porque elas são contrárias à religião, como sendo formalmente condenadas pelo  
Evangelho e por Moisés. Este último, pronunciando a pena de morte contra essas  
práticas, prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus.  
A. K. Peço perdão, mas essa proibição não se encontra em parte alguma  
do Evangelho; ela se acha somente na lei mosaica. Trata-se de saber se a Igreja  
coloca a lei mosaica acima da evangélica; assim será, por certo, se ela for mais  
judia que cristã.  
Devemos mesmo notar que, de todas as religiões, a judaica é a que faz  
menos oposição ao Espiritismo, contra cujas evocações ela não invocou a lei de  
Moisés, em que se apoiam as seitas cristãs. Se as prescrições bíblicas são o código  
da fé cristã, por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam caso se proibisse a um  
cidadão o estudo do código das leis do seu país?  
A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser, porque o  
legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do  
Egito, e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos.  
Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição dirigida a eles, nem  
com o sentimento de piedade, mas, sim, como meio de adivinhar, como objeto de  
tráfico vergonhoso, explorado pelo charlatanismo e pela superstição; nessas  
condições, Moisés teve razão de proibi-lo. Se ele pronunciou contra esse abuso uma  
penalidade severa, é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo  
indisciplinado; também quanto à pena de morte, era pródiga a sua legislação.  
É então um erro se apoiar na severidade do castigo para provar-se o grau  
de culpabilidade da evocação dos mortos. Se a interdição da evocação aos mortos  
vem do próprio Deus como a Igreja pretende , deve também ser Deus quem  
marcou a pena de morte contra os delinquentes. Esta pena passa a ter uma origem  
tão sagrada como a interdição; neste caso, por que não a conservam também?  
Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus; se creem  
que Deus seja o autor delas, por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é  
para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto, por que deixa de ser sobre todos os  
outros? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam, e repelem-na no que não  
julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições,  
entre outras a da circuncisão a que Jesus se sujeitou e que não aboliu?  
81 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Havia na lei mosaica duas partes: primeiro, a lei de Deus, resumida nas  
tábuas do Sinai; lei que foi conservada porque é divina, e o Cristo não fez mais que  
desenvolvê-la; segundo, a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes do  
tempo, e que o Cristo aboliu. Hoje as circunstâncias são outras, e a proibição de  
Moisés já não tem razão de ser. Além disso, se a Igreja proíbe a evocação dos  
Espíritos, poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não  
estamos vendo diariamente manifestações de todos os gêneros, entre pessoas que  
nunca se ocuparam com o Espiritismo? E antes de ele ser divulgado não se davam  
tantas delas?  
Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é  
uma prova de que eles podem vir; do contrário essa interdição seria inútil. Se, em  
seu tempo, podiam eles entrar em relação com os homens, ainda hoje o podem, e, se  
são Espíritos de mortos, não são exclusivamente demônios. Antes de tudo, devemos  
ser lógicos.  
Padre A Igreja não nega que bons Espíritos possam se comunicar, pois  
reconhece que os santos também têm se manifestado; ela, porém, não considera bons  
aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. É verdade que os Espíritos  
ensinam que há penas e recompensas futuras, porém, de modo diferente do que ela  
ensina; só ela pode julgar o que eles pregam e, portanto, distinguir os bons dos  
maus.  
A. K. Eis a magna questão. Galileu foi acusado de heresia e de ser  
inspirado pelo demônio, porque vinha revelar uma lei da Natureza, provando o erro  
de uma crença julgada inatacável, e, então, foi condenado e excomungado.  
Se, sobre todos os pontos, os Espíritos tivessem abundado no sentido  
exclusivo da Igreja, se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não  
condenassem certos abusos, teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de  
demônios. Tal é também a razão por que todas as religiões, os muçulmanos como os  
católicos, crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta, olham como obra do  
demônio qualquer doutrina que não é inteiramente autêntica, do seu ponto de vista.  
Ora, os Espíritos vêm não derrubar a religião, mas, como Galileu, revelar-nos  
novas leis da Natureza. Se alguns pontos de fé sofrem com isto, é porque, como na  
velha crença de girar o Sol ao redor da Terra, estão em contradição com essas leis.  
A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural, que é obra  
de Deus; e se, sendo essa lei reconhecida, não será mais racional adaptar a  
interpretação do dogma a ela, do que atribuí-la ao demônio.  
Padre Deixemos a questão dos demônios; bem sei que ela é  
diversamente interpretada pelos teólogos; porém, o sistema da reencarnação parece-  
me mais difícil de conciliar com os dogmas, pois que ele não é mais que a renovação  
da metempsicose de Pitágoras.  
A. K. Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão  
longos desenvolvimentos: ela se encontra tratada em O Livro dos Espíritos  
(questões 166 e seguinte, 222 e seguinte. e 1.010) e em O Evangelho Segundo o  
Espiritismo (capítulos IV e V); não acrescentarei senão duas palavras.  
A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem  
82 - Allan Kardec  
nos animais, o que implica uma degradação. Ademais, essa doutrina não era o que  
vulgarmente se crê. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada  
como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição  
temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os  
corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os  
porcos e javalis; as dos inconstantes e levianos, os das aves; as dos preguiçosos e  
ignorantes, os dos animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou  
menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão, voltava à  
humanidade. Portanto, a encarnação animal não era uma condição absoluta; como  
se vê, ela aliava-se à encarnação humana, e a prova é que a punição dos homens  
tímidos consistia em passar a corpos de mulheres, expostas ao desprezo e às  
injúrias (ver Pluralidade das existências da alma, por Pezzani). Era uma espécie de  
espantalho para os simples, antes que um artigo de fé para os filósofos. Assim como  
dizemos às crianças: “Se forem más, o lobo lhes comerá”, os antigos diziam aos  
criminosos: “Vocês se tornarão lobos”, e hoje se diz: “O diabo lhes agarrará e  
levará para o inferno”.  
A pluralidade das existências segundo o Espiritismo difere essencialmente  
da metempsicose, em não admitir a encarnação da alma humana nos corpos de  
animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda,  
mas progride sempre. Suas diferentes existências corporais se cumprem na  
humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso  
intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da metempsicose.  
Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência  
muitas vezes abreviada por causas acidentais , Deus lhe permite continuar na  
nova encarnação o que ela não pôde acabar em outra, ou recomeçar o que fez  
errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos.  
Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou  
não contrária a certos dogmas da Igreja, limito-me a dizer o seguinte: Ou a  
reencarnação existe, ou não; se existe, é uma lei da Natureza. Para provar que ela  
não existe, seria necessário demonstrar que vai de encontro não aos dogmas, mas a  
essas leis, e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela, explicando as  
questões que só ela pode resolver. Além disso, é fácil demonstrar que certos dogmas  
encontram nela sanção racional, hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora,  
por falta de compreensão. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o  
que será feito mais tarde pela força das coisas.  
Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente  
livres, como ainda hoje o são, de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. A  
ideia da pluralidade das existências se propaga com pasmosa rapidez, em razão de  
sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. E o que a Igreja fará  
quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos?  
Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação  
das necessidades de um ideal, nem uma opinião pessoal; é ou não um fato. Se está  
demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a  
reencarnação, é preciso admitir que eles são a consequência desta; logo, se faz  
parte da Natureza, não pode ser anulada por uma opinião contrária.  
83 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Padre Segundo os Espíritos, quem não crê neles nem nas suas  
manifestações, deve ser menos favorecido na vida futura?  
A. K. Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens, que  
seria daqueles que, desde o começo do mundo, não tiveram possibilidade de possuí-  
la, bem como daqueles que, durante ainda muito tempo, morrerão sem tê-la?  
Poderá Deus fechar as portas do futuro para eles?  
Não; os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos; eles  
nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, não faz a sorte futura do homem  
subordinar-se a condições alheias à vontade deste; eles não nos pregam que fora do  
Espiritismo não possa haver salvação, mas sim, como o Cristo: Fora da caridade  
não há salvação.  
Padre Permita-me então dizer que, desde que os Espíritos só ensinam  
os princípios de moral encontrados no Evangelho, não vejo qual possa ser a utilidade  
do Espiritismo, visto como antes que este viesse e hoje podíamos e podemos  
alcançar a salvação sem ser por ele. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem  
ensinar algumas grandes verdades novas, alguns desses princípios que mudam a face  
do mundo, como fez o Cristo. Ao menos o Cristo era só, sua doutrina era única, ao  
passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem, uns dizendo que é  
branco o que outros afirmam ser negro; do que resulta que, já desde o começo, seus  
partidários formam muitas seitas. Não seria melhor deixarmos os Espíritos  
tranquilos e nos contentarmos com o que já temos?  
A. K. Meu amigo, erra em não sair do teu ponto de vista e em considerar  
sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos.  
Se o Cristo disse a verdade, o Espiritismo não podia dizer outra coisa, e em  
vez de apedrejá-lo, por isso deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar, que vem  
confirmar, por todas as vozes de Além-Túmulo, as verdades fundamentais da  
religião, combatidas pela incredulidade.  
Que o materialismo o combata, explica-se facilmente; mas que a Igreja se  
una ao materialismo contra ele, é um fato menos concebível. Igualmente  
inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a  
mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo.  
O Cristo teria dito e revelado tudo? Não; visto que ele próprio disse: “Eu  
teria ainda muitas coisas a lhes dizer, mas vocês não podem compreendê-las, é por  
isso que eu lhes falo em parábolas".  
O Espiritismo vem hoje, época em que o homem está maduro para  
compreendê-lo, completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão  
tocar, ou não disse senão sob a forma alegórica. Sem dúvida, dirá que competia à  
Igreja dar essa explicação. Mas, qual delas? A romana, a grega ou a protestante?  
Como elas não estão de acordo, cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o  
privilégio de dar essa explicação. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os  
dissidentes?  
Deus que é sábio , prevendo que os homens iriam enxertar nela suas  
paixões e prejuízos, não quis lhes confiar o cuidado desta nova revelação: deu-a  
aos Espíritos, seus mensageiros, que a proclamaram por todos os pontos do globo,  
fora dos limites particulares de qualquer culto, a fim de que ela possa se aplicar a  
84 - Allan Kardec  
todos e nenhum a transforme em objeto de exploração.  
Por outro lado, os diversos cultos cristãos não terão de alguma forma se  
apartado do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão  
escrupulosamente observados? Não se têm desnaturado suas palavras, a fim de que  
possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas, quando elas lealmente  
condenam isso?  
Ora, pela voz dos Espíritos enviados de Deus, o Espiritismo vem chamar  
aqueles que dela se arredam, à estrita observância de seus preceitos; será por isso  
que o qualificam de obra satânica?  
Vocês se iludem dando o nome de seitas a algumas divergências de  
opiniões relativas aos fenômenos espíritas. Não é de admirar que no começo de uma  
ciência quando ainda as observações eram incompletas para muitos tenham  
surgido teorias contraditórias; essas teorias, porém, repousam sobre pontos de  
minúcias e não sobre o princípio fundamental. Podem constituir escolas que  
expliquem certos fatos a seu modo, porém, não são seitas, como não o são os  
diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em medicina, em  
física, etc. portanto, risquem a palavra seita, que é imprópria ao nosso caso.  
A quantas seitas o Cristianismo não tem dado nascimento, desde a sua  
origem? Por que a palavra do Cristo não teve bastante poder para impor silêncio a  
todas as controvérsias? Por que ela é suscetível de interpretações que ainda hoje  
dividem os cristãos em diferentes igrejas, pretendendo todas elas possuir  
exclusivamente a verdade necessária à salvação, detestando-se intimamente e  
amaldiçoando-se em nome do seu divino Mestre que só pregou o amor e a  
caridade?  
"Fraqueza dos homens" dirão vocês. Que seja; então, como querem que  
o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza, transforme a Humanidade como  
por encanto?  
Vamos à questão da utilidade. Diz que o Espiritismo nada revela de novo.  
É um erro: ao contrário, ele ensina muito àqueles que não se limitam a um estudo  
superficial. Bastaria que ele apenas pusesse a máxima "Fora da caridade não há  
salvação" que reúne os homens no lugar daquela "Fora da Igreja não há  
salvação" que os divide para que a sua vinda marcasse uma nova era para a  
Humanidade.  
Disse que se podia passar sem ele; concordo, como também se podia  
passar sem muitas das descobertas científicas. Os homens certamente viviam bem,  
antes da descoberta de todos os novos planetas, antes que se tivesse calculado os  
eclipses, antes que se conhecesse o mundo microscópico e cem outras coisas; para  
viver e fazer germinar o trigo, o camponês não tem necessidade de saber o que é um  
cometa, e, entretanto, ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das  
ideias e nos fazem compreender melhor as leis da Natureza.  
Ora, o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz  
conhecer; ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo.  
Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade, já não seria muito a revelação  
de tal potência?  
Vejamos, agora, a sua influência moral. Admitamos que ele nada ensine,  
sob este ponto de vista; qual o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o  
85 - O QUE É O ESPIRITISMO  
materialista não crê em coisa alguma; ora, o Espiritismo é a negação do  
materialismo, que já não tem razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega  
que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo; é pelos fatos visíveis  
e palpáveis que se mostram a eles. Não será isso um pequeno serviço prestado à  
humanidade e à religião? Porém ainda não é tudo: a certeza da vida futura, o  
quadro vivo daqueles que nos precederam nela, mostram a necessidade do bem e as  
consequências inevitáveis do mal. Eis por que, sem ser uma religião, o Espiritismo  
se prende essencialmente às ideias religiosas, desenvolve-as naqueles que não as  
possuem, fortifica-as nos que as têm incertas.  
Então, a religião encontra um apoio nele, não para as pessoas de vistas  
estreitas, que a veem integralmente na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no  
espírito, mas para aqueles que a veem segundo a grandeza e a majestade de Deus.  
Em uma palavra, o Espiritismo engrandece e eleva as ideias; combate os  
abusos engendrados pelo egoísmo, a cobiça, a ambição; mas quem terá a coragem  
de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à  
salvação, facilita-a firmando-nos no caminho do bem. Além disso, que homem  
sensato ousará avançar que aos olhos de Deus a falta de religiosismo é mais  
repreensível que o ateísmo ou o materialismo?  
Apresento claramente as questões seguintes, a quantos combatem o  
Espiritismo, sob o ponto de vista de suas consequências religiosas:  
1º Quem terá melhor recompensa na vida futura: aquele que não crê em  
coisa alguma, ou aquele que, sendo crente das verdades gerais, não admite certas  
partes do dogma?  
2º O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que  
o ateu e o materialista?  
3º O que não é ortodoxo, no rigor da palavra, mas faz o bem que pode, que  
é bom e indulgente para com o próximo, leal em suas relações sociais, deve contar  
menos com a salvação, do que aquele que crê em tudo, mas é duro, egoísta e baldo  
de caridade?  
4º Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs  
sem a dos deveres da tradição religiosa, ou a destes últimos sem a da moral?  
Senhor abade, respondi às questões e objeções que me dirigiu, mas, como  
disse no começo, sem intenção alguma preconcebida de conduzi-lo às nossas ideias  
e de mudar as tuas convicções, limitando-me tão somente a te fazer encarar o  
Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. Se não tivesse vindo, eu não teria ido te  
procurar.  
Isto não quer dizer que desprezássemos a tua adesão aos nossos princípios,  
caso ela se verificasse; longe disso; julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições  
que fazemos, as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e  
voluntárias são. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem  
quer que seja, como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência  
dos que, tendo crenças que os satisfazem, não venham espontaneamente ao nosso  
encontro.  
Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é  
estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão  
facilmente compreendidos qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias  
86 - Allan Kardec  
os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo;  
eis aqui a ordem que aconselhamos.  
A primeira leitura a ser feita é a deste resumo, que apresenta o conjunto e  
os pontos mais salientes da ciência; com isso, pois, já se pode fazer dela uma ideia e  
ficar convencido de que, no fundo, existe algo de sério. Nesta rápida exposição  
esforçamo-nos por indicar os pontos sobre que particularmente se deve fixar a  
atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das  
falsas apreciações da maioria daqueles que querem julgar o que não compreendem,  
ou que se baseiam em ideias preconcebidas.  
Se desta leitura nascer o desejo de continuar, deve-se ler O Livro dos Espíritos,  
onde os princípios da doutrina estão completamente desenvolvidos; depois, O Livro dos  
Médiuns, para a parte experimental, destinado a servir de guia aos que desejarem operar  
por si mesmos, como aos que quiserem bem compreender os fenômenos. Vêm depois as  
diversas obras onde são desenvolvidas as aplicações e as consequências da doutrina, como:  
O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, etc.  
87 - O QUE É O ESPIRITISMO  
CAPÍTULO II  
Noções elementares de Espiritismo  
OBSERVAÇÕES PRELIMINARES  
1. É um erro acreditar que basta a certos incrédulos o testemunho de fenômenos  
extraordinários, para que se tornem convictos. Quem não admite no homem a  
existência da alma ou Espírito também não a aceita fora dele; e, portanto, negando a  
causa, nega implicitamente os efeitos. Quase sempre os contraditores se apresentam  
com uma ideia preconcebida que os desvia de uma observação séria e imparcial, e  
levantam questões e objeções a que é impossível respondermos prontamente e de  
modo completo, porque seria preciso ministrar uma espécie de curso para cada um,  
retomando as coisas desde o princípio.  
O estudo prévio tem como resultado evitar essas objeções que, na maioria,  
se originam da ignorância das causas dos fenômenos e das condições em que estes  
se produzem.  
2. Quem não conhece o Espiritismo supõe que podemos produzir fenômenos  
espíritas como se faz uma experiência de física ou de química. Daí a pretensão de  
sujeitá-los à sua vontade e a recusa de se colocar nas condições necessárias para  
podê-los observar.  
Não admitindo como princípio a existência e a intervenção dos Espíritos —  
ou, pelo menos, não conhecendo nem a sua natureza, nem o seu modo de ação —  
esses indivíduos se comportam como se operassem sobre a matéria bruta; e, desde  
que não obtêm o que pedem, concluem que não há Espíritos.  
Colocando-se em um ponto de vista diferente, compreenderemos que todos  
nós, depois da morte, seremos Espíritos pois os Espíritos são exatamente as  
almas dos homens e que, nestas condições, também estaríamos pouco dispostos a  
servir de joguete, para satisfação das fantasias dos curiosos.  
3. Ainda que certos fenômenos possam ser provocados, pelo fato de provirem de  
inteligências livres, eles não se acham absolutamente à disposição de quem quer que  
seja; e quem se disser capaz de obtê-los, sempre que queira, só provará ignorância  
ou má-fé. É preciso esperá-los, apanhá-los em sua passagem, e, muitas vezes,  
quando são menos esperados é que os fatos mais interessantes e concludentes se  
apresentam.  
Nisto, assim como em tudo, aquele que seriamente deseja instruir-se  
deve ter paciência e perseverança, e colocar-se nas condições indispensáveis;  
doutra forma, é melhor não se preocupar com isso.  
88 - Allan Kardec  
4. Nem sempre as reuniões que têm por objeto tratar de manifestações espíritas se  
acham em boas condições seja para obter resultados satisfatórios, seja para  
produzir a convicção. Não podemos deixar de convir que de algumas dessas  
reuniões, os descrentes saem menos convencidos do que eram quando entraram,  
disparando acusações aos que lhes falam do caráter sério do Espiritismo coisas de  
que foram testemunhas, muitas vezes ridículas. Nisso eles não são mais lógicos que  
aqueles que pretendessem julgar de uma arte pelas primeiras provas de um aprendiz,  
de uma pessoa pela sua caricatura, ou de uma tragédia pela paródia. O Espiritismo  
também tem aprendizes; e quem quer se esclarecer não deve colher ensinos de  
uma só fonte, porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um  
juízo.  
5. As reuniões frívolas têm o grave inconveniente de dar aos noviços que a elas  
assistem uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. Os que só têm frequentado  
reuniões dessa espécie não podem tomar a sério uma coisa que eles veem tratada  
irrefletidamente pelos próprios que se dizem adeptos. Um estudo antecipado lhes  
ensinará a separar o bom do mau, a julgar do alcance do que veem.  
6. O mesmo raciocínio se aplica aos que julgarem o Espiritismo pelo que dizem  
certas obras excêntricas que dão uma ideia dele apenas incompleta e ridícula.  
O Espiritismo sério não pode responder por aqueles que o compreendem  
mal, ou que o praticam de modo contrário aos seus preceitos; assim como não o faz  
a poesia por aqueles que produzem maus versos.  
É deplorável dizem que existam tais obras prejudicando a verdadeira  
ciência. Sem dúvida, seria preferível que só houvesse as boas; o maior mal, porém,  
consiste em não se darem ao trabalho de estudá-las todas. Todas as artes, todas as  
ciências, além disso, estão no mesmo caso. Não vemos aparecerem tratados  
absurdos e cheios de erros sobre as mais sérias coisas?  
Por que o Espiritismo seria privilegiado nesse sentido, sobretudo em seu  
começo? Se os que o criticam não tomassem as aparências por base do seu juízo,  
saberiam o que ele admite e o que rejeita, e não lhe lançariam em conta o que ele  
repele em nome da razão e da experiência.  
DOS ESPÍRITOS  
7. Os Espíritos não são uma classe à parte na criação, como muitas pessoas supõem,  
mas sim, são as almas, despidas do seu envoltório corporal, daqueles que viveram na  
Terra ou em outros mundos.  
Aquele que admite a sobrevivência da alma ao corpo, pelo mesmo motivo  
admite a existência dos Espíritos; negar os Espíritos seria negar a alma.  
8. Geralmente as pessoas fazem uma ideia muito errônea do estado dos Espíritos;  
eles não são seres vagos e indefinidos como alguns acreditam , nem chamas  
semelhantes a fogos-fátuos, nem fantasmas como são pintados nos contos das almas  
89 - O QUE É O ESPIRITISMO  
do outro mundo. São seres nossos semelhantes, tendo como nós um corpo, mas  
fluídico e invisível no estado normal.  
9. Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, ela tem duplo invólucro: um  
pesado, grosseiro e destrutível o corpo; o outro é fluídico, leve e indestrutível —  
chamado perispírito.  
10. Portanto, há no homem três elementos essenciais:  
1. A alma ou Espírito, princípio inteligente em que o pensamento, a  
vontade e o senso moral residem;  
2. O corpo, envoltório material que põe o Espírito em relação com o  
mundo exterior;  
3. O perispírito, invólucro fluídico, leve, imponderável, servindo de  
laço e de intermediário entre o Espírito e o corpo.  
11. Quando o invólucro exterior está usado e não pode mais funcionar, tomba e o  
Espírito o abandona como o fruto se despoja da sua semente, a árvore da casca, a  
serpente da pele, em uma palavra, como se deixa um vestido velho que já não pode  
servir; é o que se designa pelo nome de morte.  
12. A morte é apenas a destruição do envoltório corporal, que a alma abandona,  
como a borboleta faz com a crisálida, porém, conservando seu corpo fluídico ou  
perispírito.  
13. A morte do corpo desembaraça o Espírito do laço que o prendia à Terra e o fazia  
sofrer; e uma vez libertado desse fardo, não lhe resta mais que o seu corpo etéreo,  
que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do  
pensamento.  
14. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e  
o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.  
OBSERVAÇÃO A alma é assim um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria  
mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e o termo Espírito para o ser  
semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico; mas, como não se pode conceber o princípio  
inteligente isolado da matéria, nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente, as palavras  
alma e Espírito são, no uso, indiferentemente empregadas uma pela outra; é a figura que consiste em  
tomar a parte pelo todo, do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas,  
uma vila composta de tantas famílias; filosoficamente, porém, é essencial que se faça essa diferença.  
15. Os Espíritos revestidos de seus corpos materiais constituem a Humanidade ou  
mundo corporal visível; despojados desses corpos, formam o mundo espiritual ou  
invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos, sem desconfiar disso,  
como vivemos no meio do mundo dos infinitamente pequenos, de que não  
suspeitávamos, antes da invenção do microscópio.  
16. Portanto, os Espíritos não são entes abstratos, vagos e indefinidos, mas seres  
concretos e circunscritos, aos quais só falta serem visíveis para se assemelharem aos  
90 - Allan Kardec  
humanos; donde se segue que se em dado momento pudesse ser levantado o véu que  
os esconde de nós, eles formariam uma população, cercando-nos por toda parte.  
17. Os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na Terra, porém em grau  
mais alto, porque as suas faculdades não estão amortecidas pela matéria; eles têm  
sensações desconhecidas por nós, veem e ouvem coisas que os nossos sentidos  
limitados nos não permitem ver nem ouvir. Para eles não há obscuridade,  
excetuando-se aqueles que, por punição, se acham temporariamente nas trevas.  
Todos os nossos pensamentos neles se repercutem, e eles os leem como em  
um livro aberto; de modo que o que podíamos esconder a alguém, durante a vida  
terrena, não mais o podemos depois da sua desencarnação (O Livro dos Espíritos,  
questão nº237).  
18. Os Espíritos estão em toda parte, ao nosso lado, acotovelando-nos e nos  
observando sem cessar. Por sua presença incessante entre nós, eles são os agentes de  
diversos fenômenos, desempenham um papel importante no mundo moral, e, até  
certo ponto, no físico; constituem, se o podemos dizer, uma das forças da Natureza.  
19. Desde que se admita a sobrevivência da alma ou do Espírito, é racional que as  
suas afeições continuem; sem o que, as almas dos nossos parentes e amigos seriam,  
pela morte, totalmente perdidas para nós.  
Como os Espíritos podem ir a toda parte, é igualmente racional admitirmos  
que aqueles que nos amaram, durante a vida terrena, ainda nos amem depois da  
morte, que venham para junto de nós e para isso se sirvam dos meios que encontrem  
à sua disposição; é o que confirma a experiência.  
A experiência, de fato, prova que os Espíritos conservam as afeições sérias  
que tinham na Terra, que folgam em se juntarem àqueles a que amaram, sobretudo  
quando são por estes atraídos pelos sentimentos afetuosos que lhes dedicam; ao  
passo que se mostram indiferentes para com quem só lhes vota indiferença.  
20. O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos Espíritos,  
suas capacidades, sua situação feliz ou infeliz, seu futuro; em suma, o conhecimento  
do Mundo Espiritual.  
Sendo averiguadas, essas manifestações conduzem à prova irrecusável da  
existência da alma, de sua sobrevivência ao corpo, de sua individualidade depois da  
morte, isto é, de sua vida futura; por isso ele é a negação das doutrinas materialistas,  
não tanto por meio de raciocínios, mas principalmente por fatos.  
21. Entre os que não conhecem o Espiritismo, uma ideia quase geral é a de crer que,  
pelo simples fato de estarem desprendidos da matéria, os Espíritos devem saber tudo  
e estar de posse da sabedoria suprema. É um grave erro.  
Não sendo mais que as almas dos homens, os Espíritos não adquirem a  
perfeição logo que deixam o corpo terreno. Seu progresso só se faz com o tempo, e  
só é progressivamente que se despojam das suas imperfeições, que conquistam os  
conhecimentos que lhes faltam.  
Seria tão ilógico admitirmos que o Espírito de um selvagem ou de um  
91 - O QUE É O ESPIRITISMO  
criminoso se torne de repente sábio e virtuoso, como seria contrário à justiça de  
Deus supor que ele continue perpetuamente em inferioridade. Como há homens de  
todos os graus de sabedoria e ignorância, de bondade e malvadez, ocorre o mesmo  
com os Espíritos. Alguns destes são apenas frívolos e travessos; outros são  
mentirosos, fraudulentos, hipócritas, maus e vingativos; outros, pelo contrário,  
possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra.  
Essa diversidade nas qualidades dos Espíritos é um dos pontos mais  
importantes a considerar, por explicar a natureza boa ou má das comunicações que  
recebemos; é em diferenciá-las que devemos empregar todo o nosso cuidado (O  
Livro dos Espíritos, nº 100, “Escala Espírita” e O Livro dos Médiuns, cap. XXIV).  
COMUNICAÇÃO COM O MUNDO INVISÍVEL  
22. Sendo admitidas a existência, a sobrevivência e a individualidade da alma, o  
Espiritismo reduz-se a uma só questão principal: Serão possíveis as comunicações  
entre as almas e os viventes?  
Essa possibilidade foi demonstrada pela experiência, e, uma vez  
estabelecido o fato das relações entre os mundos visível e invisível, bem como  
conhecidos a natureza, o princípio e o modo dessas relações, abriu-se um novo  
campo à observação e encontrou-se a chave de grande número de problemas.  
O Espiritismo é um poderoso elemento de moralização, pois cessa a dúvida  
sobre o futuro.  
23. O que faz nascer na mente de muitas pessoas a dúvida sobre a possibilidade das  
comunicações de além-túmulo é a ideia falsa que fazem do estado da alma depois da  
morte. Figuram que ela seja um sopro, uma fumaça, uma coisa vaga, apenas  
apreensível ao pensamento, que se evapora e vai não se sabe para onde, mas para  
lugar tão distante que se custa a compreender que ela possa tornar à Terra. Se, ao  
contrário, a considerarmos ainda unida a um corpo fluídico e semimaterial,  
formando com ele um ser concreto e individual, as suas relações com os viventes  
não têm nada de incompatível com a razão.  
24. Vivendo o mundo invisível no meio do visível com o qual está em contato  
perpétuo dá em resultado uma incessante reação de cada um deles sobre o outro,  
e bem assim demonstra que, desde que houve homens, houve também Espíritos, e  
que se estes têm o poder de se manifestar, deviam tê-lo feito em todas as épocas e  
entre todos os povos.  
Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações dos Espíritos tomaram  
grande desenvolvimento e adquiriram maior caráter de autenticidade, porque estava  
nas vistas da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo,  
mediante provas evidentes, permitindo, aos que deixaram a Terra, vir atestar sua  
existência e revelar-nos sua situação feliz ou infeliz.  
25. As relações entre os mundos visível e invisível podem ser ocultas ou evidentes,  
espontâneas ou provocadas.  
92 - Allan Kardec  
Os Espíritos atuam sobre os homens ocultamente, sugerindo-lhes  
pensamentos e influenciando-os, de modo perceptível, por meio de efeitos  
apreciáveis aos sentidos.  
As manifestações espontâneas se verificam repentinamente e de improviso;  
produzem-se, muitas vezes, entre as pessoas mais estranhas às ideias espíritas, as  
quais, não tendo meios de explicá-las, as atribuem a causas sobrenaturais. As que  
são provocadas, dão-se por intermédio de certos indivíduos dotados para isso de  
faculdades especiais, e designados pelo nome de médiuns.  
26. Os Espíritos podem se manifestar de muitas maneiras diferentes: pela vista, pela  
audição, pelo tato, produzindo ruídos e movimentos de corpos, pela escrita, desenho,  
música etc.  
27. Às vezes, os Espíritos se manifestam espontaneamente por pancadas e ruídos;  
muitas vezes é um meio que empregam para atestar sua presença e chamar sobre si a  
atenção, tal como nós, quando batemos para avisar que está alguém à porta.  
Alguns não se limitam a ruídos moderados, mas produzem bulhas imitando  
louças que se quebram, caindo, portas que se abrem e fecham com estrondo, móveis  
lançados ao chão, e alguns chegam mesmo a causar uma perturbação real e  
verdadeiros estragos.  
28. Ainda que invisível para nós no estado normal, o perispírito é matéria etérea.  
Em certos casos, o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação  
molecular que o torna visível e mesmo tangível; é como se produzem as aparições  
fenômeno que não é mais extraordinário que o do vapor que, invisível quando  
muito rarefeito, se torna visível por condensação.  
Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se quase sempre com as  
aparências que tinham em vida e que podem torná-los conhecidos.  
29. A vidência permanente e geral de Espíritos é muito rara, porém as aparições  
isoladas são bastante frequentes sobretudo em ocasiões de morte; quando deixa o  
corpo, o Espírito parece ter pressa de ir ver seus parentes e amigos, como para  
adverti-los de já não estar na Terra, e dizer-lhes que ainda vive.  
Se refletirmos sobre as nossas reminiscências, veremos quantos fatos  
autênticos dessa ordem se deram conosco sem que os percebêssemos  
convenientemente, não só de noite, durante o sono, senão também de dia e em  
completo estado de vigília. Outrora consideravam tais fatos como sobrenaturais e  
maravilhosos e os atribuíam à magia e à feitiçaria; hoje, os incrédulos os classificam  
como um produto da imaginação; desde que, porém, a ciência espírita nos forneceu  
meios de explicá-los, ficamos sabendo como eles se produzem e que pertencem à  
classe dos fenômenos naturais.  
30. Era por meio do perispírito que o Espírito agia sobre o seu corpo quando vivo e  
é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte,  
produzindo ruídos, movimentos de mesas e outros objetos que ele levanta, derruba  
ou transporta. Esse fenômeno nada terá de surpreendente, se considerarmos que  
93 - O QUE É O ESPIRITISMO  
entre nós os mais poderosos motores se alimentam dos fluidos de maior rarefação e,  
mesmo, da dos imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.  
É igualmente por meio do perispírito que o Espírito faz os médiuns  
escreverem, falarem ou desenharem; não possuindo corpo tangível para atuar  
ostensivamente, quando ele se quer manifestar, o Espírito serve-se do corpo do  
médium, apossando-se de seus órgãos e fazendo-os agir como se fossem seus, por  
um eflúvio com que ele os envolve e penetra.  
31. No fenômeno designado pelo nome de mesas girantes e falantes, é ainda pelo  
mesmo meio que o Espírito age sobre o móvel, seja fazendo-o mover-se sem  
significação determinada, seja produzindo golpes inteligentes, indicando as letras do  
alfabeto para formar palavras e frases, fenômeno este designado pelo nome de  
tiptologia.  
A mesa é apenas um instrumento de que ele então se serve, como o faz com  
o lápis para escrever, dando-lhe vitalidade momentânea, pelo fluido com que a  
penetra, mas não se identifica com ela.  
As pessoas que estando presas de emoção, vendo se manifestar a eles  
um ser querido abraçam a mesa, praticam um ato ridículo, porque é  
absolutamente o mesmo que abraçar a bengala de que se servisse um indivíduo para  
bater. O mesmo podemos dizer relativamente àquelas que dirigem a palavra à mesa,  
como se o Espírito se achasse encerrado na madeira, ou se a madeira se tivesse  
tornado Espírito.  
Por ocasião das comunicações dessa ordem, o Espírito não se acha na mesa,  
mas ao lado do móvel, como o faria se fosse vivo; e aí o veríamos, se nessa ocasião  
ele pudesse tornar-se visível. Dá-se o mesmo com as comunicações por escrito; o  
Espírito coloca-se ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o seu  
pensamento por uma corrente fluídica.  
Quando a mesa se levanta do solo e permanece no ar, sem ponto de apoio,  
não é com força braçal que o Espírito a suspende, e sim pela ação de uma atmosfera  
fluídica com que ele a envolve e penetra fluidos que neutralizam o efeito da  
gravitação, como o faz o ar com os balões e papagaios. Esse fluido, penetrando a  
mesa dá-lhe momentaneamente maior leveza específica. Quando a mesa descansa no  
solo, acha-se em caso semelhante ao da campânula pneumática em que se fez o  
vácuo.  
São simples comparações estas, para mostrar a analogia dos efeitos e nunca  
uma absoluta semelhança das causas.  
Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, porque ele  
pode ficar tranquilamente em seu lugar, e somente lhe dar o impulso preciso por  
uma corrente fluídica para que ela se mova, segundo a sua vontade. Nas pancadas  
que se fazem ouvir na mesa, ou em outra parte qualquer, não é o Espírito quem bate  
com a mão ou com algum objeto; ele lança, sobre o ponto donde parte o ruído, um  
jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico e modifica os sons, como se  
pode modificar os que são produzidos pelo ar.  
Assim, facilmente se compreende a possibilidade de o Espírito erguer no ar  
uma pessoa, como levantar um móvel qualquer, transportar um objeto de um para  
outro lugar, ou atirá-lo a qualquer parte.  
94 - Allan Kardec  
É uma só a lei que regula tais fenômenos.  
32. Pelo pouco que dissemos, é possível ver que as manifestações espíritas de  
qualquer natureza nada têm de maravilhoso e sobrenatural; são fenômenos que se  
produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível com o invisível,  
lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação etc.  
O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei, como a mecânica  
nos ensina as do movimento, a óptica as da luz etc.  
Pertencendo à Natureza, as manifestações espíritas se deram em todos os  
tempos; a lei que as dirige, uma vez conhecida, vem explicar-nos grande número de  
problemas, julgados sem solução; ela é a chave de uma multidão de fenômenos  
explorados e amplificados pela superstição.  
33. Afastado o prisma maravilhoso, esses fatos não mais apresentam nada que a  
razão possa rejeitar, pois que assim passam a ocupar o seu lugar no meio dos outros  
fenômenos naturais.  
Nos tempos de ignorância, todos os efeitos cuja causa não se conhecia eram  
reputados sobrenaturais; as descobertas da Ciência, porém, sucessivamente foram  
restringindo o círculo do maravilhoso, que o conhecimento da nova lei veio  
aniquilar.  
Portanto, aqueles que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso,  
provam, só por isso, que falam do que não conhecem.  
34. As manifestações dos Espíritos são de duas naturezas: efeitos físicos e  
comunicações inteligentes.  
Os primeiros são os fenômenos materiais ostensivos, tais como os  
movimentos, ruídos, transportes de objetos, etc.; os outros consistem na troca  
regular de pensamentos por meio de sinais, da palavra e, principalmente, da escrita.  
35. As comunicações que recebemos dos Espíritos podem ser boas ou más, justas ou  
falsas, profundas ou frívolas, de acordo com a natureza dos que se manifestam. Os  
que dão provas de sabedoria e erudição são Espíritos adiantados no caminho do  
progresso; os que se mostram ignorantes e maus são os ainda atrasados, mas que  
com o tempo hão de progredir.  
Os Espíritos só podem responder sobre aquilo que sabem, segundo o seu  
estado de adiantamento, e ainda dentro dos limites do que lhes é permitido nos dizer,  
porque há coisas que eles não devem revelar, por não ser ainda dado ao homem tudo  
conhecer.  
36. Da diversidade de qualidades e aptidões dos Espíritos, resulta que não basta  
dirigirmo-nos a um Espírito qualquer para obtermos uma resposta segura a qualquer  
questão; porque, acerca de muitas coisas, ele não nos pode dar mais que a sua  
opinião pessoal, a qual pode ser justa ou errônea. Se ele é prudente, não deixará de  
confessar sua ignorância sobre o que não conhece; se é frívolo ou mentiroso,  
responderá de qualquer forma, sem se importar com a verdade; se é orgulhoso,  
apresentará suas ideias como verdades absolutas.  
95 - O QUE É O ESPIRITISMO  
É por isso que S. João, o Evangelista, diz: “Não creiam em todos os  
Espíritos, mas examinem se eles são de Deus".  
A experiência demonstra a sabedoria desse conselho. Há imprudência e  
leviandade em aceitar sem exame tudo o que vem dos Espíritos. É de necessidade  
que bem conheçamos o caráter daqueles que estão em relação conosco (O Livro dos  
Médiuns, nº 267).  
37. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos por sua linguagem; a dos Espíritos  
verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica e isenta de  
contradições; nela se respira a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a mais pura  
moral; ela é concisa e despida de redundâncias. Na dos Espíritos inferiores,  
ignorantes ou orgulhosos, o vácuo das ideias é quase sempre preenchido pela  
abundância de palavras.  
Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima contrária à sã moral,  
todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola,  
enfim, toda manifestação de malevolência, de presunção ou arrogância, são sinais  
incontestáveis da inferioridade dos Espíritos.  
38. Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes; seu horizonte moral é  
limitado, perspicácia restrita; eles não têm das coisas senão uma ideia muitas vezes  
falsa e incompleta, e, além disso, conservam-se ainda sob o império dos prejuízos  
terrestres, que às vezes eles tomam por verdades; por isso, são incapazes de resolver  
certas questões. Intencionalmente ou não, eles podem nos induzir em erro sobre  
aquilo que nem eles mesmos compreendem.  
39. Por isso, os Espíritos inferiores não são todos essencialmente maus; alguns há  
que são apenas ignorantes e levianos; outros engraçados, espirituosos e divertidos,  
sabendo manejar a sátira fina e mordaz. Ao lado desses encontram-se, no mundo  
espiritual, como na Terra, todos os gêneros de perversidade e todos os graus de  
superioridade intelectual e moral.  
40. Os Espíritos superiores se ocupam somente com comunicações inteligentes que  
nos instruam; as manifestações físicas ou puramente materiais são mais  
especialmente obra dos Espíritos inferiores, vulgarmente designados sob o nome de  
Espíritos batedores, como, entre nós, as provas de grande força são executadas por  
brutos e não por sábios.24  
41. Devemos sempre estar calmos e concentrados, quando entrarmos em  
comunicação com os Espíritos; nunca devemos perder de vista que eles são as almas  
dos homens e que é inconveniente fazer do seu trabalho um passatempo ou pretexto  
de divertimentos. Se lhes respeitamos os despojos mortais, maior respeito ainda nos  
devem merecer como Espíritos.  
As reuniões frívolas e sem objetivo sério faltam a um dever; os que  
24 Diferentemente da grande diversidade social de hoje, nos tempos de Allan Kardec, as classes sociais eram bem definidas e raramente um  
indivíduo de uma categoria migrava para outra. Por isso, ele define que os homens brutos eram destinados aos serviços pesados, enquanto  
os letrados não se ocupavam com tais encargos N. E.  
96 - Allan Kardec  
participam delas esquecem-se de que, de um momento para outro, podem entrar no  
mundo dos Espíritos, e não ficarão satisfeitos se forem tratados com pouca atenção.  
42. Outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espíritos são livres e só  
se comunicam quando querem, com quem lhes convém e quando as suas ocupações  
lho permitem; não estão às ordens e à mercê dos caprichos de quem quer que seja; a  
ninguém é dado fazê-los manifestar-se quando não o queiram, nem dizer o que  
desejem calar; de sorte que ninguém pode afirmar que tal Espírito há de responder  
ao seu apelo em dado momento, ou que há de responder a tal ou tal pergunta que se  
lhe dirigir. Asseverar o contrário é demonstrar ignorância dos princípios mais  
elementares do Espiritismo. Só o charlatanismo tem princípios infalíveis.  
43. Os Espíritos são atraídos pela simpatia, semelhança de gostos, características e  
intenção dos que desejam a sua presença. Os Espíritos superiores não vão às  
reuniões fúteis, como um sábio da Terra não vai a uma assembleia de levianos. O  
simples bom-senso nos diz que isso não pode ser de outro modo; se acaso, porém,  
eles aí se mostram algumas vezes, é somente com o fim de dar um conselho salutar,  
combater os vícios, reconduzir ao bom caminho os que dele se iam afastando; então,  
se não forem atendidos, eles se retiram.  
Forma juízo completamente errôneo aquele que crê que Espíritos sérios se  
prestem a responder a futilidades, a questões ociosas em que se lhes manifeste pouca  
afeição, falta de respeito e nenhum desejo de se instruir; e ainda menos que eles  
venham produzir espetáculo para satisfação dos curiosos. Eles não fariam isso  
quando estavam vivos e também o não fazem agora que estão desencarnados.  
44. A frivolidade das reuniões dá como resultado atrair os Espíritos levianos que só  
procuram ocasião de enganar e mistificar.  
Pelo mesmo motivo que os homens honestos e sérios não comparecem às  
assembleias de medíocre importância, os Espíritos sérios só comparecem às reuniões  
sérias, que têm por fim, não a curiosidade, porém, a instrução. É nessas assembleias  
que os Espíritos superiores dão ensinamentos.  
45. Do que precede, resulta que toda, para ser proveitosa, reunião espírita deve ser  
séria, como condição primacial, em recolhimento, devendo aí proceder-se com  
respeito, religiosidade e dignamente, caso se queira obter o auxílio habitual dos bons  
Espíritos. Convém não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem  
apresentado, quando encarnados, teríamos com eles todas as considerações, a que  
depois de desencarnados ainda têm mais direito.  
46. Em vão se alega a utilidade de certas experiências curiosas, gaiatas e divertidas,  
para convencer os incrédulos; é a um resultado contrário que se chega. O descrente  
que já é propenso a zombar das crenças mais sagradas não pode ver uma coisa  
séria naquilo de que se diverte, nem pode respeitar o que lhe não é apresentado de  
modo respeitável; por isso, retira-se sempre com má impressão das reuniões fúteis e  
levianas, onde não encontra ordem, gravidade e recolhimento. O que realmente pode  
convencê-lo é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara; é diante de suas  
97 - O QUE É O ESPIRITISMO  
palavras graves e solenes, de suas revelações íntimas, que o vemos comover- se e  
empalidecer.  
Mas, pelo fato mesmo de ele ter respeito, veneração e amor à pessoa cuja  
alma se lhe apresenta, fica chocado e escandalizado ao vê-la mostrar-se em uma  
assembleia irreverente, no meio de mesas que dançam e das gaiatices dos Espíritos  
brincalhões; incrédulo como é, sua consciência repele essa aliança do sério com o  
ridículo, do religioso com o profano; por isso tacha tudo de charlatanismo e, muitas  
vezes, sai menos convicto do que entrou.  
As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal que bem, porque  
afastam da doutrina maior número de pessoas do que atraem; além de que, prestam-  
se à crítica dos detratores, que assim acham fundados motivos para zombarias.  
47. Erra quem considera brinquedo as manifestações físicas; se não têm a  
importância do ensino filosófico, têm sua utilidade do ponto de vista dos fenômenos,  
pois que são o alfabeto da ciência, da qual deram a chave. Ainda que menos  
necessárias hoje, elas ainda concorrem para a convicção de algumas pessoas.  
De nenhum modo, porém, elas são incompatíveis com a ordem e a decência  
que deve haver nessas reuniões experimentais; se sempre as praticassem  
convenientemente, convenceriam com mais facilidade e produziriam, a todos os  
respeitos, muito melhores resultados.  
48. Certas pessoas fazem uma ideia muito falsa das evocações; algumas creem que  
elas consistem em fazer sair da tumba os mortos, com todo o aparato sombrio. O  
pouco que temos dito a respeito disso, deverá dissipar tal erro. É só nos romances,  
nos contos fantásticos de almas do outro mundo e no teatro que aparecem os mortos  
descarnados, saindo dos sepulcros, envoltos em mortalhas e fazendo chocalhar os  
ossos. O Espiritismo que nunca fez milagres não produz este e jamais  
pretendeu fazer reviver um corpo morto.  
Quando o corpo está na tumba, não sairá mais dela; porém, o ser espiritual,  
fluídico e inteligente, aí não se acha com esse grosseiro invólucro, do qual se  
separou no momento da morte, e, uma vez operada essa separação, nada mais há de  
comum entre eles.  
49. A crítica malévola representou as comunicações espíritas como mescladas pelas  
práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia25; se esses homens que  
falam do Espiritismo sem conhecê-lo se dessem ao trabalho de estudá-lo, teriam  
poupado esses desperdícios de imaginação, que só servem para provar sua  
ignorância ou má vontade.  
Devemos dizer às pessoas estranhas à ciência que para nos comunicarmos  
com os Espíritos não há dias, horas e lugares mais propícios uns que os outros; que,  
para evocá-los, não existem fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que  
não se precisa para isso de preparação alguma, nem de iniciação; que o emprego de  
qualquer sinal ou objeto material, seja para atraí-los, seja para repeli-los, não exerce  
efeito algum, bastando só o pensamento; e, finalmente, que os médiuns recebem as  
25 Necromancia: arte de adivinhar o futuro pelo contato com os mortos N. E.  
98 - Allan Kardec  
comunicações, tão simples e naturalmente como se fossem ditadas por uma pessoa  
viva, sem que saiam do estado normal.  
Só o charlatanismo pode inventar o emprego de modos excêntricos e  
acessórios ridículos.  
O apelo aos Espíritos faz-se em nome de Deus, com respeito e  
recolhimento; é a única coisa que se recomenda às pessoas sérias que desejem entrar  
em relação com Espíritos sérios.  
OBJETIVO PROVIDENCIAL DAS MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS  
50. O objetivo providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que  
tudo não se acaba para o homem com a vida terrestre, e dar aos crentes ideias mais  
justas sobre o futuro.  
Os bons Espíritos nos vêm instruir para nosso melhoramento e avanço e  
não para nos revelar o que não devemos saber ainda, ou o que só deve ser  
conseguido pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a  
solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções  
lucrativas, todo ignorante poderia se tornar sábio sem estudar, todo preguiçoso ficar  
rico sem trabalhar; não é o que Deus quer.  
Os Espíritos ajudam o homem sábio pela inspiração oculta, mas não o  
eximem do trabalho nem das investigações, a fim de lhe deixar o mérito.  
51. Quem neles quisesse ver auxiliares dos leitores da sorte faria uma ideia bem  
falsa dos Espíritos.  
Os Espíritos sérios se recusam a cuidar de coisas fúteis; os frívolos e  
zombeteiros tratam de tudo, respondem a tudo, predizem tudo o que se quer, sem se  
importarem com a verdade, e encontram maligno prazer em mistificar as pessoas  
demasiado crédulas. Neste caso, é essencial conhecermos perfeitamente a natureza  
das perguntas que podemos dirigir aos Espíritos (O Livro dos Médiuns, nº 286: “Perguntas  
que se podem fazer aos Espíritos”).  
52. Fora do terreno do que pode ajudar o nosso progresso moral, só há incerteza nas  
revelações que se podem obter dos Espíritos. A primeira consequência má para  
aquele que desvia sua faculdade do objetivo providencial é ser mistificado pelos  
Espíritos enganadores que rodeiam os homens; a segunda é cair sob o domínio  
desses mesmos Espíritos, que por traiçoeiros conselhos podem conduzi-lo a  
adversidades reais e materiais na Terra; a terceira é perder o fruto do conhecimento  
do Espiritismo, depois da vida terrestre.  
53. Portanto, as manifestações não são destinadas a servir aos interesses materiais;  
sua utilidade está nas consequências morais que delas dimanam; se elas tivessem  
como resultado apenas fazer conhecer uma nova lei da Natureza e demonstrar  
materialmente a existência da alma e sua imortalidade, só isso seria muito, porque  
era largo caminho novo aberto à Filosofia.  
99 - O QUE É O ESPIRITISMO  
DOS MÉDIUNS  
54. Os médiuns apresentam numerosíssimas variedades nas suas aptidões o que  
os torna mais ou menos próprios para obtenção de tal ou tal fenômeno, de tal ou tal  
gênero de comunicação.  
Segundo essas aptidões, distinguimo-los por médiuns de efeitos físicos, de  
comunicações inteligentes, videntes, falantes, auditivos, sensitivos, desenhistas,  
poliglotas, poetas, músicos, escreventes etc.  
Não devemos esperar do médium aquilo que está fora dos limites da sua  
faculdade.  
Sem o conhecimento das aptidões mediúnicas, o observador não pode achar  
a explicação de certas dificuldades ou de certas impossibilidades que se encontram  
na prática (O Livro dos Médiuns, cap. XVI, nº 185).  
55. Os médiuns de efeitos físicos são mais particularmente aptos para provocar  
fenômenos materiais como movimentos, pancadas etc., com o auxílio de mesas e  
outros objetos; quando esses fenômenos revelam um pensamento ou obedecem a  
uma vontade, são efeitos inteligentes que, por isso mesmo, denotam uma causa  
inteligente: é um dos modos por que os Espíritos se manifestam.  
Por meio de um número de pancadas convencionadas, podemos obter as  
respostas sim ou não, ou, então, a designação das letras do alfabeto que servem para  
formar palavras ou frases. Esse meio primitivo é muito demorado e não se presta a  
grandes desenvolvimentos.  
As mesas falantes foram a estreia da ciência (espírita); hoje, porém, que se  
possuem meios de comunicação tão rápidos e completos como entre os viventes,  
ninguém mais recorre àqueles senão acidentalmente e como experimentação.  
56. De todos os meios de comunicação, a escrita é ao mesmo tempo o mais simples,  
o mais rápido, o mais cômodo, e que permite mais desenvolvimento; é também a  
faculdade que se encontra mais frequentemente.  
57. Para obter a escrita, no princípio se serviram de intermediários materiais, como  
cestinhas, pranchetas etc., munidas de um lápis (O Livro dos Médiuns, cap. XIII, nº 152 e  
seguintes). Mais tarde, reconheceu-se a inutilidade desses acessórios e a possibilidade,  
para os médiuns, de escrever diretamente com a mão, como nas circunstâncias  
ordinárias.  
58. O médium escreve sob a influência dos Espíritos, que se servem dele como de  
um instrumento; sua mão é arrastada por um movimento involuntário, que muitas  
vezes ele não pode dominar.  
Certos médiuns não têm consciência alguma do que escrevem, outros a têm  
mais ou menos vaga, ainda quando o pensamento lhes seja estranho; é o que  
distingue os médiuns mecânicos dos médiuns intuitivos ou semimecânicos.  
A ciência espírita explica o modo de transmissão do pensamento do  
Espírito ao médium, e o papel deste último nas comunicações (O Livro dos Médiuns,  
cap. XV, nº 179 e seguintes; cap. XIX, nº 223 e seguintes).  
100 - Allan Kardec  
59. O médium tem a capacidade de poder comunicar-se, mas a comunicação efetiva  
depende da vontade dos Espíritos. Se estes não quiserem se manifestar, o médium  
nada obterá; será como um instrumento sem o músico que o toque.  
Visto que os Espíritos só se comunicam quando querem ou podem, não  
estão sujeitos ao capricho de ninguém; nenhum médium tem o poder de forçá-los a  
se apresentarem. Isto explica a intermitência da faculdade nos melhores médiuns, e  
as interrupções que sofrem, às vezes durante muitos meses. Logo, seria um erro  
comparar a mediunidade a uma propriedade do talento. O talento adquire-se pelo  
trabalho, quem o possui é sempre senhor dele; ao passo que o médium nunca é dono  
de sua faculdade, pois que ela depende de vontade alheia.  
60. Admitindo que não haja falsificação, os médiuns de efeitos físicos que obtêm a  
produção de certos fenômenos, regularmente e à vontade, estão em relação com  
Espíritos de baixa esfera que se comprazem nessa espécie de exibições, e que talvez  
foram enganadores quando na Terra; seria, porém, absurdo pensar que Espíritos,  
mesmo de pouca elevação, se divirtam em executar farsas teatrais.  
61. Sem dúvida, a obscuridade necessária à produção de certos efeitos físicos,  
favorece a suspeita, mas nada prova contra a realidade deles.  
Sabemos que em Química algumas combinações não podem ser operadas à  
luz; que muitas composições e decomposições se produzem sob a ação do fluido  
luminoso; ora, todos os fenômenos espíritas são resultantes de uma combinação dos  
fluidos próprios do Espírito com os do médium; desde que esses fluidos são matéria,  
não admira que em certas circunstâncias essa combinação seja contrariada pela  
presença da luz.  
62. As comunicações inteligentes realizam-se igualmente pela ação fluídica do  
Espírito sobre o médium, sendo preciso que o fluido deste último se identifique com  
o do Espírito.  
A facilidade das comunicações depende do grau de afinidade existente  
entre os dois fluidos. Assim, cada médium é mais ou menos apto para receber a  
impressão ou a impulsão do pensamento de um determinado Espírito; podendo ser  
bom instrumento para um e péssimo para outro. Resulta daí que se estando dois  
médiuns juntos e igualmente bem-dotados, o Espírito poderá se manifestar por um e  
não por outro.  
63. É um erro acreditarmos que basta ser médium para receber comunicações de  
qualquer Espírito com igual facilidade. Não existem médiuns universais para as  
evocações, nem com aptidão para produzir todos os fenômenos. Os Espíritos  
buscam preferencialmente os instrumentos que lhes sejam mais apropriados; impor-  
lhes o primeiro médium que tenhamos à mão seria o mesmo que obrigar uma  
pianista a tocar violino, supondo que, por saber música, ele possa tocar qualquer  
instrumento.  
64. Sem a harmonia que só pode nascer da assimilação fluídica as  
comunicações são impossíveis, incompletas ou falsas. Podem ser falsas, porque, em  
101 - O QUE É O ESPIRITISMO  
vez do Espírito que se deseja, não faltam outros sempre prontos a manifestarem-se e  
que pouco se importam com a verdade.  
65. A assimilação fluídica algumas vezes é totalmente impossível entre certos  
Espíritos e certos médiuns; outras vezes e é o caso mais comum ela só se  
estabelece gradualmente e com o tempo; é o que explica a maior facilidade com que  
os Espíritos se manifestam pelo médium com que estão mais habituados; e também  
porque as primeiras comunicações atestam quase sempre certo constrangimento e  
são menos explícitas.  
66. A assimilação fluídica é tão necessária nas comunicações pela tiptologia como  
pela escrita, visto que, tanto num como noutro caso, se trata da transmissão do  
pensamento do Espírito, qualquer que seja o meio material por que ela se faça.  
67. Não se pode impor um médium ao Espírito que se quer evocar, convindo deixar-  
lhe a escolha do instrumento. Em todo o caso, é necessário que o médium se  
identifique previamente com o Espírito, pelo recolhimento e pela prece, ou mesmo  
durante alguns minutos, e mesmo muitos dias antes se for possível, de modo a  
provocar e ativar a assimilação fluídica. É um meio de se atenuar a dificuldade.  
68. Quando as condições fluídicas não são propícias à comunicação direta do  
Espírito ao médium, ela pode se fazer por intermédio do guia espiritual deste último;  
neste caso, o pensamento só vem por segunda mão, isto é, depois de haver  
atravessado dois meios. Compreende-se então quanto é importante o médium ser  
bem assistido; porque, se ele o for por um Espírito obsessor, ignorante ou orgulhoso,  
a comunicação será necessariamente adulterada.  
Aqui as qualidades pessoais do médium desempenham forçosamente um  
papel importante, pela natureza dos Espíritos que ele atrai a si. Os mais indignos  
médiuns podem possuir poderosas faculdades, porém, os mais seguros são os que a  
esse poder reúnem as melhores simpatias no mundo espiritual; ora, essas simpatias,  
de forma alguma, não ficam demonstradas pelos nomes, mais ou menos  
imponentes, revestidos pelos Espíritos que assinam as comunicações, mas, sim, pelo  
fundo constantemente bom das mesmas.  
69. Qualquer que seja o modo de comunicação, do ponto de vista experimental, a  
prática do Espiritismo apresenta numerosas dificuldades e não é isenta de  
inconvenientes para quem não tem a experiência necessária.  
Quer se experimente mesmo, quer se seja simples observador das  
experiências de outrem, é essencial saber distinguir as diferentes naturezas dos  
Espíritos que se podem manifestar, conhecer a causa de todos os fenômenos, as  
condições em que se podem produzir, os obstáculos que lhe podem ser opostos, a  
fim de que se não perca tempo, pedindo o impossível. Não é menos necessário  
conhecer todas as condições e perigos da mediunidade, a influência do meio, das  
disposições morais etc. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte).  
102 - Allan Kardec  
OBSTÁCULOS DA MEDIUNIDADE  
70. Um dos maiores obstáculos da mediunidade é a obsessão, isto é, o domínio que  
certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns, impondo-se a eles sob um nome  
falso e impedindo a comunicação com outros Espíritos. É também um obstáculo que  
se depara a todo observador novato e inexperiente que, por não conhecer as  
características desse fenômeno, pode ser iludido pelas aparências, como aquele que  
desconhece a medicina pode se enganar sobre a causa e a natureza de qualquer  
doença.  
Se neste caso o estudo prévio é útil para o observador, mais indispensável é  
ao médium, a quem fornece os meios de prevenir um inconveniente que lhe poderia  
trazer consequências bem desagradáveis. Assim, toda a recomendação para que o  
estudo preceda à prática nunca é pouca (O Livro dos Médiuns, cap. XXIII).  
71. A obsessão apresenta três graus principais bem característicos: a obsessão  
simples, a fascinação e a subjugação. No primeiro, o médium tem perfeitamente  
consciência de não obter uma coisa boa; ele não se ilude acerca da qualidade do  
Espírito que teima em lhe manifestar, e do qual deseja se desembaraçar. Este caso  
não oferece gravidade alguma: é um simples incômodo, do qual o médium se liberta,  
deixando momentaneamente de escrever. Cansando-se de não ser ouvido, o Espírito  
acaba por se retirar.  
A fascinação obsessional é muito mais grave, porque nela o médium é  
completamente iludido. O Espírito que o domina apodera-se de sua confiança, a  
ponto de impedi-lo de julgar as comunicações que recebe, fazendo-lhe achar  
sublimes os maiores absurdos. O diferencial deste gênero de obsessão é provocar no  
médium uma excessiva passividade e levá-lo a acreditar que seja bom, justo e  
verdadeiro somente o que ele escreve; levá-lo a repelir e até considerar mau todo  
conselho e toda observação crítica, preferindo romper com os amigos a se convencer  
de que está sendo enganado; a encher-se de inveja contra os outros médiuns cujas  
comunicações sejam julgadas melhores que as suas; a querer impor-se nas reuniões  
espíritas, das quais se afasta quando não pode dominá-las. Essa atuação do Espírito  
pode chegar ao ponto de o indivíduo ser conduzido a dar os passos mais ridículos e  
comprometedores.  
72. Uma das características distintivos dos maus Espíritos é a imposição; eles dão  
ordens e querem ser obedecidos; os bons nunca se impõem; dão conselhos e se não  
são atendidos, retiram-se. Resulta daí que a impressão que em nós produzem os  
maus Espíritos é sempre penosa, fatigante e muitas vezes desagradável; ela provoca  
uma agitação febril, movimentos bruscos e desordenados; a dos bons, pelo contrário,  
é calma, branda e agradável.  
73. A subjugação obsessional, designada antigamente sob o nome de possessão, é  
um constrangimento físico exercido sempre por Espíritos da pior espécie e que pode  
ir à neutralização do livre-arbítrio do paciente. Ela muitas vezes se limita a simples  
impressões desagradáveis; porém, muitas vezes provoca movimentos desordenados,  
atos insensatos, gritos, palavras injuriosas ou incoerentes, de que o subjugado às  
103 - O QUE É O ESPIRITISMO  
vezes compreende o ridículo, mas não pode se conter. Este estado difere  
essencialmente da loucura patológica com que erradamente a confundem, pois aí  
não há lesão orgânica alguma; sendo provocada por diversas causas, os meios de  
curá-la também devem ser outros.  
A aplicação do processo comum das duchas e tratamentos corporais muitas  
vezes poderá determinar o aparecimento de uma verdadeira loucura, onde só havia  
uma causa moral.  
74. Na loucura propriamente dita, a causa do mal é interna; importa restituir o  
organismo ao seu estado normal; na subjugação, essa causa é externa, e é preciso  
libertar o doente (obsidiado) de um inimigo invisível, não lhe opondo remédios  
materiais, porém uma força moral superior à dele. A experiência prova que em  
tal caso os exorcismos nunca produziram resultado satisfatório: antes agravaram que  
minoraram a situação.  
Indicando a verdadeira fonte do mal, só o Espiritismo pode dar os meios de  
combatê-lo, fazendo a educação moral do Espírito obsessor chega-se a torná-lo  
melhor por conselhos prudentemente dirigidos e a fazê-lo renunciar  
voluntariamente à atormentação do enfermo, que então fica livre (O Livro dos  
Médiuns, nº 279. e Revista Espírita, fevereiro, março e junho de 1864: A jovem obsediada  
de Marmande”).  
75. A subjugação obsessional normalmente é individual; porém, quando uma  
falange de Espíritos maus se lança sobre uma povoação, ela pode apresentar caráter  
epidêmico. Foi um fenômeno desse gênero que se verificou ao tempo do Cristo; só  
um poder moral superior podia então domar esses entes malfazejos, designados sob  
o nome de demônios, e restituir a calma às suas vítimas.  
76. Um fato importante a ser considerado é que, qualquer que seja a sua natureza, a  
obsessão é independente da mediunidade, e que ela se encontra, de todos os graus —  
principalmente do último em grande número de pessoas que nunca ouviram falar  
de Espiritismo.  
De fato, tendo existido em todos os tempos, os Espíritos têm sempre  
exercido a mesma influência; a mediunidade não é uma causa, mas simples modo de  
manifestação dessa influência; pelo que podemos dizer com certeza que todo  
médium obsidiado sofre os efeitos dessa influência de um modo qualquer e muitas  
vezes nos atos mais comuns da sua vida, que, sem a mediunidade, se manifestaria  
por outros efeitos, muitas vezes atribuídos a enfermidades misteriosas, que escapam  
às investigações da medicina. Pela mediunidade o ente maléfico denuncia a sua  
presença; sem ela, é um inimigo oculto, de quem se não desconfia.  
77. Os que repelem tudo que não afete os nossos sentidos não admitem essa causa  
oculta; mas, quando a Ciência tiver saído da senda materialista, reconhecerá na ação  
do mundo invisível que nos cerca, e no meio do qual vivemos, um poder que reage  
sobre as coisas físicas, assim como sobre as morais; será um novo caminho aberto  
ao progresso e a chave de grande número de fenômenos até hoje mal  
compreendidos.  
104 - Allan Kardec  
78. Como a obsessão nunca pode ser produto de um bom Espírito, torna-se um  
ponto essencial o fato de sabermos reconhecer a qualidade dos que se apresentam. O  
médium não esclarecido pode ser enganado pelas aparências, mas o prevenido  
percebe o menor sinal suspeito, e o Espírito, vendo que nada pode fazer, retira-se.  
O conhecimento prévio dos meios de distinguir os bons dos maus Espíritos  
é então indispensável ao médium que se não quer expor a cair num laço. Ele é  
também ao simples observador, que por esse meio pode apreciar o justo valor do que  
vê e ouve (O Livro dos Médiuns, cap. XXIV).  
QUALIDADES DOS MÉDIUNS  
79. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das  
qualidades morais do médium; ela se mostra desenvolvida a nós, tanto nos mais  
dignos, como nos mais indignos. Mas não se dá o mesmo com a preferência que os  
Espíritos bons dão ao médium.  
80. Os Espíritos bons se comunicam mais ou menos de boa vontade por esse ou  
aquele médium, segundo a simpatia que lhe depositam.  
A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade  
com que ele obtém comunicações, mas por sua aptidão em recebê-las boas e em não  
ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores.  
81. Os médiuns menos moralizados algumas vezes também recebem excelentes  
comunicações, que só podem vir de bons Espíritos o que não deve ser motivo de  
espanto: muitas vezes é no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios  
conselhos. Se eles os desprezam, maior será a sua culpa, porque são eles que lavram  
a sua própria condenação. Deus cuja bondade é infinita não pode recusar  
assistência àqueles que mais necessitam dela. O virtuoso missionário que vai  
moralizar os criminosos, não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns  
imperfeitos.  
De outra maneira, os bons Espíritos, querendo dar um ensino útil a todos,  
servem-se do instrumento que têm à mão; porém, deixam-no logo que encontram  
outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições.  
Quando os bons Espíritos se retiram, os inferiores que pouco se  
importam com as más qualidades morais do médium acham então o campo livre.  
Resulta daí que, moralmente falando, os médiuns imperfeitos aqueles que não  
procuram emendar-se, tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos, que, muitas  
vezes, os conduzem à ruína e às maiores desgraças, mesmo na vida terrena.  
Quanto à sua aptidão mediúnica tão bela no começo e que assim devia  
ter sido conservada perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos, e, afinal,  
desaparece.  
82. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos  
105 - O QUE É O ESPIRITISMO  
embusteiros; primeiro, porque entre nós ainda não há pessoa perfeita o bastante para  
não ter algum lado fraco pelo qual dê acesso aos maus Espíritos; segundo, porque às  
vezes os bons Espíritos permitem mesmo que os maus venham, a fim de  
exercitarmos a nossa razão, aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos  
de prevenção, não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos  
Espíritos; nunca, porém, um Espírito bom nos virá enganar; qualquer que seja o  
nome que o apadrinhe, o erro vem de uma fonte má.  
Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e  
perseverança do espírita seja ele médium ou não; e aqueles que desanimam, com  
algumas decepções, dão prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com  
que eles possam contar.  
83. Não devemos nos admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito,  
quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que não o são.  
É digno de nota que, depois da publicação de O Livro dos Médiuns, o  
número de médiuns obsidiados diminuiu muito; prevenidos, os médiuns tornam-se  
vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de  
mistificadores.  
A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo  
prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam.  
84. O que constitui o médium propriamente dito é a aptidão; sob este ponto de vista,  
pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido.  
O médium seguro aquele que pode ser realmente qualificado de bom  
médium é o que aplica a sua capacidade, buscando tornar-se apto a servir de  
intérprete aos bons Espíritos.  
O poder que o médium tem de atrair os bons e repelir os maus Espíritos está  
na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que  
constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e  
se adquire ascendência sobre os maus Espíritos.  
85. Pelo mesmo motivo, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, as  
imperfeições morais do médium tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de  
si; em vez de se impor, sofre a imposição destes.  
Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente,  
visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos (Ver acima,  
números 74 e 75).  
86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas  
as suas fraquezas, e, entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o  
orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns  
obsidiados e principalmente nos fascinados. É o orgulho que faz com que se  
julguem infalíveis e rejeitem todos os conselhos.  
Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são alvo;  
basta que um médium apresente aptidão um pouco transcendente para que o  
busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como  
106 - Allan Kardec  
indispensável, o que o põe a se perder.  
87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres  
frequentemente falsos que assinam as comunicações por ele recebidas e se  
considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê  
digno o suficiente de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do  
merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão  
instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito  
pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo  
crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros,  
desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por  
qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por  
ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete.  
O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a  
capacidade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil,  
o que faz de boa mente quando a ocasião se oferece a ele, sem jamais incomodar-se  
por não o preferirem aos outros.  
Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador  
e, até o simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.  
88. Como todas as outras capacidades, a mediunidade é um dom de Deus que pode  
ser empregado tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu  
objetivo é nos pôr em relação direta com as almas daqueles que viveram, a fim de  
recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura.  
Assim como a visão nos põe em relação com o mundo visível, a  
mediunidade nos liga ao invisível.  
Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos,  
desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega  
em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim  
providencial, e cedo ou tarde será punido, como todo homem que faça mau uso de  
uma aptidão qualquer.  
CHARLATANISMO  
89. Certas manifestações espíritas facilmente se prestam à imitação; porém, apesar  
de os prestidigitadores e charlatães as terem explorado do mesmo modo que o  
fazem com tantos outros fenômenos é absurdo crermos que elas não existam e  
sejam sempre produto do charlatanismo.  
Quem estudou e conhece as condições normais em que elas se dão  
facilmente diferencia a imitação da realidade; além disso, aquela nunca pode ser  
completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir as diferenciações  
características do fenômeno verdadeiro.  
90. As manifestações que se imitam com mais facilidade são as de efeitos físicos e  
as de efeitos inteligentes comuns, como movimentos, pancadas, transportes, escrita  
107 - O QUE É O ESPIRITISMO  
direta, respostas banais etc.; mas não se dá o mesmo com as comunicações  
inteligentes de elevado alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao  
passo que para simular as últimas se torna necessária quase sempre uma instrução  
pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional, uma capacidade de  
improvisação universal, se assim nos permitem classificá-la.  
91. Os que não conhecem o Espiritismo são geralmente induzidos a suspeitar da  
boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência lhes poderão fornecer os meios de  
se certificarem da realidade dos fatos; fora disso, a melhor garantia que podem ter  
está no desinteresse absoluto e na honestidade do médium; por sua posição e caráter,  
há pessoas que estão acima de qualquer suspeita.  
Se a tentação do lucro pode excitar à fraude, o bom-senso diz que o  
charlatanismo não se mostra onde nada tem a ganhar (O Livro dos Médiuns, cap.  
XXVIII: “Do charlatanismo e do embuste” — Médiuns interesseiros, Fraudes espíritas, nº 304  
Revista Espírita, 1862).  
92. Como em todas as coisas, entre os adeptos do Espiritismo encontram-se  
entusiastas e exaltados; em geral, são os piores propagadores, porque a facilidade  
com que aceitam tudo sem exame desperta desconfiança.  
O espírita esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e  
calma, e, assim, evita ser vítima de ilusões e mistificações. À parte toda a questão de  
boa-fé, o observador novato antes de tudo deve atender à gravidade do caráter  
daqueles a quem se dirige.  
IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS  
93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da  
humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos;  
alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os nomes mais respeitáveis,  
com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um  
modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos.  
94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo  
muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos  
superiores, antigos relativamente à nossa época.  
Entre os que se manifestam, muitos não têm nomes para nós; mas então,  
para fixar as nossas ideias, eles podem tomar o de um Espírito conhecido, da mesma  
categoria da sua; de modo que, se um Espírito se comunicar com o nome de S.  
Pedro, por exemplo, nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome;  
tanto pode ser ele como outro da mesma ordem, como ainda um enviado seu. Neste  
caso, a questão da identidade é inteiramente irrelevante e seria infantil lhe dar  
importância; o que importa é a qualidade do ensino, se é bom ou mau, digno ou  
indigno da personagem que o assina; se esta o subscreveria ou repeliria: eis a  
questão.  
108 - Allan Kardec  
95. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos  
contemporâneos, cujo caráter e hábitos sejam conhecidos, porque é por esses  
mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais  
seguramente e muitas vezes de modo incontestável.  
Quando se evoca um parente ou um amigo, é a personalidade que interessa,  
e então é muito natural buscarmos reconhecer a identidade; porém, os meios que  
quem conhece pouco o Espiritismo geralmente emprega para isso são insuficientes e  
podem induzir a erro.  
96. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias,  
evidenciadas nas comunicações, nas quais se refletem seus hábitos, caráter,  
linguagem e até estilos familiares.  
Ela se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente  
com as pessoas a quem ama: são as melhores provas; é muito raro, porém, que ele  
satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas a esse respeito, sobretudo se elas  
partirem de pessoas que lhe são indiferentes, com intuito de curiosidade ou de prova.  
O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode, segundo o gênero  
de faculdade do seu intérprete e às vezes essas provas são superabundantes; o erro  
está em querer que ele as dê, como o evocador deseja; é então que ele recusa  
sujeitar-se às exigências (O Livro dos Médiuns, cap. XXIV: “Identidade dos Espíritos”, e  
Revista Espírita, 1862, Da identidade”).  
CONTRADIÇÕES  
97. As contradições que frequentemente notamos na linguagem dos Espíritos não  
podem causar admiração senão àqueles que só possuem da ciência espírita um  
conhecimento incompleto, pois são a consequência da qualidade mesma dos  
Espíritos, que, como já dissemos, só sabem das coisas na razão do seu adiantamento,  
sendo que muitos podem saber menos que certos homens.  
Sobre grande número de pontos, eles não emitem mais que a sua opinião  
pessoal que pode ser mais ou menos acertada e conservar ainda um reflexo dos  
prejuízos terrestres de que se não despojaram; outros forjam sistemas seus, sobre  
aquilo que ainda não conhecem, particularmente no que diz respeito a questões  
científicas e à origem das coisas. Portanto, nada há de surpreendente, em que nem  
sempre estejam de acordo.  
98. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias assinadas por um  
mesmo nome. Somente os Espíritos inferiores mudam de linguagem com as  
circunstâncias, mas os Espíritos superiores nunca se contradizem.  
Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo espiritual, sabe-se  
com que facilidade certos Espíritos adotam nomes diferentes para dar mais peso às  
suas palavras; disso se pode concluir com segurança que se duas comunicações,  
radicalmente contraditórias no fundo trazem o mesmo nome respeitável: uma delas é  
necessariamente falsa.  
109 - O QUE É O ESPIRITISMO  
99. Dois meios podem servir para fixar as ideias sobre as questões duvidosas: o  
primeiro, é submeter todas as comunicações ao exame severo da razão, do bom-  
senso e da lógica; é uma recomendação que todos os bons Espíritos fazem; os maus  
se abstêm de fazê-la, pois sabem que só têm a perder com esse exame sério, pelo que  
evitam discussão e querem ser acreditados sob palavra. O segundo critério da  
verdade está na concordância do ensino. Quando o mesmo princípio é ensinado em  
muitos pontos por diferentes Espíritos e médiuns estranhos uns aos outros e isentos  
de idênticas influências, podemos concluir que ele está mais próximo da verdade do  
que aquele que emana de uma só fonte e é contradito pela maioria (O Livro dos  
Médiuns, cap. XXVII, “Das contradições e das mistificações”; Revista Espírita, abril 1864:  
“Autoridade da Doutrina Espírita; e O Evangelho segundo o Espiritismo, “Introdução”).  
CONSEQUÊNCIAS DO ESPIRITISMO  
100. Ante a incerteza das revelações feitas pelos Espíritos, perguntarão: para que  
serve então o estudo do Espiritismo?  
Para provar materialmente a existência do mundo espiritual. Como o  
mundo espiritual é formado pelas almas daqueles que viveram, resulta de sua  
admissão a prova da existência da alma e sua sobrevivência ao corpo.  
As almas que se manifestam nos revelam suas alegrias ou seus sofrimentos  
segundo o modo como empregaram o tempo de vida terrena; nisto temos a prova das  
penas e recompensas futuras.  
Descrevendo-nos seu estado e situação, as almas ou Espíritos retificam as  
ideias falsas que faziam da vida futura e principalmente acerca do tipo e duração das  
penas.  
Passando assim a vida futura do estado de teoria vaga e incerta ao de fato  
conhecido e positivo, aparece a necessidade de trabalhar o mais possível durante a  
vida presente que é tão curta em proveito da vida futura, que é indefinida.  
Suponhamos que um homem de vinte anos tenha a certeza de morrer aos  
vinte e cinco anos, que fará ele nestes cinco anos que lhe restam? Trabalhará para o  
futuro? Certamente que não; procurará gozar o mais possível, acreditando ser uma  
tolice submeter-se a fadigas e privações sem proveito. Porém, se ele tiver a certeza  
de viver até aos oitenta anos, seu procedimento será outro, porque então  
compreenderá a necessidade de sacrificar alguns instantes do repouso atual para  
assegurar o repouso futuro, durante longos anos. O mesmo se dá com aquele que  
tem a certeza da vida futura.  
A dúvida relativamente a esse ponto conduz naturalmente a tudo sacrificar  
aos gozos do presente, daí por que se dá excessiva importância aos bens materiais.  
A importância que se dá aos bens materiais excita a cobiça, a inveja e o  
ciúme do que tem pouco contra aquele que tem muito.  
Da cobiça ao desejo de adquirir a qualquer preço o que o vizinho possui, o  
passo é simples; daí ódios, querelas, processos, guerras e todos os males  
engendrados pelo egoísmo.  
Com a dúvida sobre o futuro, o homem que é acabrunhado nesta vida pelo  
desgosto e pelo infortúnio só vê na morte o fim dos seus sofrimentos; e assim, nada  
110 - Allan Kardec  
esperando, procura a aproximação desse término pelo suicídio. Sem esperança de  
futuro, é natural que o homem seja afetado e se desespere com as decepções por que  
passa. Os abalos violentos que experimenta repercutem no seu cérebro e são a fonte  
da maioria dos casos de loucura.  
Sem a vida futura, a atual se torna a coisa principal para o homem, o único  
objeto de suas preocupações, ao qual ele tudo subordina; por isso, quer gozar a todo  
custo, não só os bens materiais como as honrarias; aspira a brilhar, elevar-se acima  
dos outros, superar os vizinhos por sua ostentação e posição; daí a ambição  
desordenada e a importância que dá aos títulos e a todos os efeitos da vaidade, pelos  
quais ele é capaz de sacrificar a própria honra, porque nada mais vê além. A certeza  
da vida futura e de suas consequências muda totalmente a ordem de suas ideias e lhe  
faz ver as coisas por outro prisma; é um véu que se levanta descobrindo um imenso  
e esplêndido horizonte.  
Diante da infinidade e grandeza da vida de Além-Túmulo, a vida terrena  
some-se, como um segundo na contagem dos séculos, como o grão de areia ao lado  
de uma montanha. Tudo se torna pequeno, mesquinho, e ficamos pasmos de haver  
dado importância a coisas tão efêmeras e infantis. Daí uma calma no meio dos  
acontecimentos da vida, uma tranquilidade que já constituem uma felicidade,  
comparadas às desordens e tormentos a que nos sujeitamos, com o objetivo de nos  
elevarmos acima dos outros; daí também uma indiferença para as vicissitudes e  
decepções que, tirando todo motivo de desespero, afasta numerosos casos de loucura  
e desvia forçosamente o pensamento do suicídio.  
Com a certeza do futuro, o homem espera e se resigna; com a dúvida perde  
a paciência, porque nada espera do presente.  
O exame daqueles que já viveram, provando que a soma da felicidade  
futura está na razão do progresso moral efetuado e do bem que se praticou na Terra;  
que a soma de desditas está na razão dos vícios e más ações, imprime em quantos  
estão bem convencidos dessa verdade uma tendência bastante natural para fazer o  
bem e evitar o mal.  
Quando a maioria dos homens estiver convencida dessa ideia, quando ela  
professar esses princípios e praticar o bem, este, impreterivelmente, triunfará do mal  
aqui na Terra; os homens procurarão não mais se molestarem uns aos outros,  
regularão suas instituições sociais tendo em vista o bem de todos e não o proveito  
de alguns; em uma palavra, compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo  
Cristo é a fonte da felicidade, mesmo neste mundo, e assim basearão as leis civis  
sobre as leis da caridade.  
A demonstração da existência do mundo espiritual que nos cerca e de sua  
ação sobre o mundo corporal é a revelação de uma das forças da Natureza e, por  
consequência, a chave de grande número de fenômenos até agora incompreendidos,  
tanto na ordem física quanto na moral.  
Quando a Ciência levar em conta essa nova força até hoje desconhecida,  
retificará imenso número de erros provenientes de atribuir tudo a uma única causa: a  
matéria. O conhecimento dessa nova causa, nos fenômenos da Natureza, será uma  
alavanca para o progresso e produzirá o efeito da descoberta de um agente  
inteiramente novo.  
Com o auxílio da lei espírita, o horizonte da Ciência se alargará, como se  
111 - O QUE É O ESPIRITISMO  
alargou com o da lei da gravidade.  
Quando do alto de suas cátedras os sábios proclamarem a existência do  
mundo espiritual e sua participação nos fenômenos da vida, eles infiltrarão na  
mocidade o antídoto das ideias materialistas, em vez de predispô-la à negação do  
futuro.  
Nas lições de filosofia clássica, os professores ensinam a existência da alma  
e seus atributos, segundo as diversas escolas, mas sem apresentar provas materiais.  
Não parece estranho que, quando lhes fornecemos as provas que não  
tinham, eles as repilam e classifiquem de superstições?  
Isso não será o mesmo que confessar a seus discípulos que eles lhes  
ensinam a existência da alma, mas que de tal fato não têm prova alguma?  
Quando um sábio emite uma hipótese, sobre um ponto de ciência, procura  
com empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa  
hipótese; como, pois, um professor de filosofia cujo dever é provar a seus  
discípulos que eles têm uma alma despreza os meios de lhes fornecer uma patente  
demonstração?  
101. Suponhamos que os Espíritos sejam incapazes de ensinar-nos alguma coisa  
além do que já sabemos, ou do que por nós mesmos poderemos saber; vê-se que só a  
demonstração da existência do mundo espiritual necessariamente conduz a uma  
revolução nas ideias; ora, uma revolução nas ideias não pode deixar de produzir  
outra na ordem das coisas. É esta revolução que o Espiritismo prepara.  
102. Entretanto, os Espíritos fazem mais que isso; se as suas revelações são rodeadas  
de certas dificuldades, se elas exigem minuciosas precauções para se lhes comprovar  
a exatidão, não é menos real que os Espíritos esclarecidos quando sabemos  
interrogá-los e quando lhes é permitido podem nos revelar fatos ignorados, dar-  
nos a explicação do que não compreendemos e nos encaminhar para um progresso  
mais rápido. É nisto, sobretudo, que o estudo sério e completo da ciência espírita é  
indispensável, a fim de só se lhe pedir o que ela pode dar e do modo como pode  
fazer; é ultrapassando esses limites que nos expomos a ser enganados.  
103. As menores causas podem produzir grandes efeitos; assim como de um  
grãozinho pode brotar uma árvore imensa, a queda de um fruto fez descobrir a lei  
que rege os mundos; as rãs, saltando num prato, revelaram a potência galvânica;  
também do fenômeno vulgar das mesas girantes saiu a prova da existência do  
mundo invisível, e, desta, uma doutrina que, em alguns anos, fez a volta do mundo e  
pode regenerá-lo pela verificação da realidade da vida futura.  
104. O Espiritismo ensina poucas verdades absolutamente novas, ou mesmo  
nenhuma, em virtude do axioma: nada há de novo debaixo do Sol.  
Só as verdades eternas são absolutas; as que o Espiritismo prega existiram  
de todos os tempos, pois são fundadas sobre leis naturais, pelo que, em todas as  
épocas encontraremos essas sementes que conseguiram desenvolver, mediante  
estudo mais completo e mais atentas observações. As verdades ensinadas pelo  
Espiritismo são antes consequências que descobertas.  
112 - Allan Kardec  
O Espiritismo não descobriu nem inventou os Espíritos, como não  
descobriu o mundo espiritual, no qual se acreditou em todos os tempos; todavia, ele  
o prova por fatos materiais e o apresenta em sua verdadeira luz, desembaraçando-o  
dos preconceitos e ideias supersticiosas, filhos da dúvida e da incredulidade.  
OBSERVAÇÃO Estas explicações, incompletas como são, bastam para mostrar a base em que se  
assenta o Espiritismo, o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar, segundo  
as circunstâncias.  
113 - O QUE É O ESPIRITISMO  
CAPÍTULO III  
Solução de alguns problemas  
pela Doutrina Espírita  
PLURALIDADE DOS MUNDOS  
105. Os diferentes mundos que circulam no espaço, terão habitantes como a  
Terra?  
Todos os Espíritos afirmam isso e a razão diz que assim deve ser. A Terra  
não ocupa nenhuma posição especial no Universo nem por sua colocação, nem  
pelo seu volume , e nada justificaria o privilégio exclusivo de ser habitada. Além  
do mais, Deus não teria criado milhares de globos com o fim único de enfeitar a  
nossa vista, tanto mais que o maior número deles se acha fora de nosso alcance (O  
Livro dos Espíritos, nº 55. Revista Espírita, 1858, pág. 65: “Pluralidade dos mundos”, por  
Flammarion).  
106. Se os mundos são povoados, seus habitantes serão semelhantes em tudo aos  
da Terra? Em uma palavra, eles poderiam viver entre nós, e nós entre eles?  
A forma geral poderia ser mais ou menos a mesma, mas o organismo deve  
ser adaptado ao meio em que eles têm de viver, como os peixes são feitos para viver  
na água e as aves no ar. Se o meio for diverso como tudo leva a crê-lo e como as  
observações astronômicas demonstram a organização deve ser diferente; então  
não é provável que eles possam mudar de mundo em seu estado normal com os  
mesmos corpos. Isto é confirmado por todos os Espíritos.  
107. Admitindo que esses mundos sejam povoados, estarão na mesma colocação  
que o nosso, sob o ponto de vista intelectual e moral?  
Segundo o ensino dos Espíritos, os mundos se acham em graus de  
adiantamento muito diferentes; alguns estão no mesmo ponto que o nosso; outros  
são mais atrasados, sendo sua humanidade mais bruta, mais material e mais  
propensa ao mal. Pelo contrário, outros são muito mais adiantados moral, intelectual  
e fisicamente; neles, o mal moral é desconhecido, as artes e as ciências já atingiram  
um grau de perfeição que foge à nossa apreciação; a organização física, menos  
material, não está sujeita aos sofrimentos, moléstias e enfermidades; aí os homens  
vivem em paz, sem buscar o prejuízo uns dos outros, isentos dos desgostos,  
cuidados, aflições e necessidades que os atormentam na Terra. Finalmente, há outros  
ainda mais adiantados, onde o envoltório corporal é quase fluídico e se aproxima  
114 - Allan Kardec  
cada vez mais da natureza dos anjos.  
Na série progressiva dos mundos, o nosso nem ocupa o primeiro nem o  
último lugar, mas é um dos mais materializados e atrasados (O Evangelho Segundo o  
Espiritismo, cap. III).  
DA ALMA  
108. Qual é a sede da alma?  
A alma não está localizada num ponto particular do corpo, como  
geralmente se crê; ela forma um conjunto fluídico com o perispírito, penetrável,  
assimilando-se ao corpo inteiro, com o qual ela constitui um ser complexo, do qual,  
de alguma maneira, a morte é somente um desdobramento. Podemos figuradamente  
supor dois corpos semelhantes na forma, um encaixado no outro, confundidos  
durante a vida e separados depois da morte. Nessa ocasião um deles é destruído, ao  
passo que o outro subsiste.  
Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do  
pensamento e do sentimento. Ela é ao mesmo tempo interna e externa, isto é, irradia  
exteriormente, podendo mesmo isolar-se do corpo, transportar-se ao longe e aí  
manifestar sua presença, como o provam a observação e os fenômenos  
sonambúlicos.  
109. Será que a alma é criada ao mesmo tempo em que o corpo, ou  
anteriormente a este?  
Depois da questão da existência da alma, esta é uma das questões mais  
capitais, porque de sua solução dimanam as mais importantes consequências; ela é a  
única capaz de explicar uma multidão de problemas até hoje insolúveis, por não se  
ter nela acreditado.  
De duas uma: ou a alma existia, ou não existia antes da formação do corpo;  
não pode haver meio-termo.  
Com a preexistência da alma tudo se explica lógica e naturalmente; sem ela,  
encontram-se tropeços a cada passo, e até certos dogmas da Igreja ficam sem  
justificação o que tem conduzido muitos pensadores à incredulidade.  
Os Espíritos resolveram a questão afirmativamente, e os fatos, como a  
lógica, não podem deixar dúvidas a esse respeito.  
Admita-se, ao menos como hipótese, a preexistência da alma, e veremos  
aplainar-se a maioria das dificuldades.  
110. Se a alma já existia, antes da sua união com o corpo ela tinha sua  
individualidade e consciência de si?  
Sem individualidade e sem consciência de si mesma, ela seria como se não  
existisse.  
111. Antes da sua união com o corpo, a alma já tinha feito algum  
progresso, ou estava estacionária?  
115 - O QUE É O ESPIRITISMO  
O progresso anterior da alma é simultaneamente demonstrado pela  
observação dos fatos e pelo ensino dos Espíritos.  
112. Deus criou as almas iguais moral e intelectualmente, ou as fez mais  
perfeitas e inteligentes umas que as outras?  
Se Deus as houvesse feito umas mais perfeitas que as outras, não conciliaria  
essa preferência com a justiça. Como todas as criaturas são obra sua, por que ele  
dispensaria do trabalho umas, quando impõe a outras para alcançarem a felicidade  
eterna? A desigualdade das almas em sua origem seria a negação da justiça de Deus.  
113. Se as almas são criadas iguais, como explicar a diversidade de  
aptidões e predisposições naturais que notamos entre os homens, na  
Terra?  
Essa diversidade é a consequência do progresso feito pela alma, antes da  
sua união ao corpo. As almas mais adiantadas, em inteligência e moralidade, são as  
que têm vivido mais e mais têm progredido antes de sua encarnação.  
114. Qual o estado da alma em sua origem?  
As almas são criadas simples e ignorantes isto é, sem ciência e sem  
conhecimento do bem e do mal , mas com igual aptidão para tudo. A princípio,  
encontram-se numa espécie de infância, sem vontade própria e sem consciência  
perfeita de sua existência. Pouco a pouco o livre-arbítrio se desenvolve, ao mesmo  
tempo em que as ideias (O Livro dos Espíritos, nº 114 e seguintes).  
115. A alma fez esse progresso anterior no estado de alma propriamente  
dita ou em precedente existência corporal?  
Além do ensino dos Espíritos sobre esse ponto, o estudo dos diferentes  
graus de adiantamento do homem, na Terra, prova que o progresso anterior da alma  
deve fazer-se em uma série de existências corporais, mais ou menos numerosas,  
segundo o grau a que ele chegou; a prova disto está na observação dos fatos que  
diariamente estão sob os nossos olhos (O Livro dos Espíritos, nº 166 a 222).  
O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA  
116. Como e em que momento se opera a união da alma ao corpo?  
Desde a concepção, ainda que errante, o Espírito está preso ao corpo com o  
qual se deve unir através de um cordão fluídico. Este laço se estreita cada vez mais à  
medida que o corpo se vai desenvolvendo. Desde esse momento, o Espírito sente  
uma perturbação que cresce sempre; ao aproximar-se do nascimento, ocasião em que  
ela se torna completa, o Espírito perde a consciência de si e não recobra as ideias  
senão gradualmente, a partir do momento em que a criança começa a respirar; a  
união então é completa e definitiva.  
117. Qual o estado intelectual da alma da criança no momento de nascer?  
116 - Allan Kardec  
Seu estado intelectual e moral é o que tinha antes da união ao corpo, isto é,  
a alma possui todas as ideias anteriormente adquiridas; mas, em razão da  
perturbação que acompanha a mudança de estado, suas ideias se acham  
momentaneamente em estado latente. Elas vão se esclarecendo aos poucos, mas não  
podem se manifestar senão proporcionalmente ao desenvolvimento dos órgãos.  
118. Qual a origem das ideias inatas, das disposições precoces, das aptidões  
instintivas para uma arte ou ciência, abstração feita da instrução?  
As ideias inatas só podem ter duas fontes: a criação das almas mais  
perfeitas umas que as outras, no caso de serem criadas ao mesmo tempo em que o  
corpo, ou um progresso por elas adquirido anteriormente à encarnação.  
Sendo a primeira hipótese incompatível com a justiça de Deus, só fica de pé  
a segunda.  
As ideias inatas são o resultado dos conhecimentos adquiridos nas  
existências anteriores, são ideias que se conservaram no estado de intuição, para  
servirem de base à aquisição de outras novas.  
119. Como se podem revelar gênios nas classes da sociedade inteiramente  
privadas de cultura intelectual?  
É um fato que prova que as ideias inatas são independentes do meio em que  
o homem foi educado. O ambiente e a educação desenvolvem as ideias inatas, mas  
não as podem nos dar. O homem de gênio é a encarnação de um Espírito adiantado  
que muito houvera já progredido. A educação pode fornecer a instrução que falta,  
mas não o gênio, quando este não exista.  
120. Por que encontramos crianças instintivamente boas em um meio perverso,  
apesar dos maus exemplos que colhem, ao passo que outras são instintivamente  
viciosas em um meio bom, apesar dos bons conselhos que recebem?  
É o resultado do progresso moral adquirido, como as ideias inatas são o  
resultado do progresso intelectual.  
121. Por que de dois filhos do mesmo pai, educados nas mesmas condições, um  
é às vezes inteligente e o outro estúpido, um bom e o outro mau? Por que o filho  
de um homem de gênio é, algumas vezes, um tolo, e o de um tolo, um homem  
genial?  
Esse é um fato que vem em defesa da origem das ideias inatas; prova, além  
disso, que a alma do filho de maneira alguma não procede da dos pais; se assim não  
fosse, em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que o todo, os pais  
transmitiriam aos filhos as suas qualidades e defeitos próprios, como lhes  
transmitem o princípio das qualidades corporais.  
Na geração, somente o corpo procede do corpo, mas as almas são  
independentes umas das outras.  
122. Se as almas são independentes umas das outras, donde vem o amor dos  
pais pelos filhos e o destes por aqueles?  
Os Espíritos se ligam por simpatia, e o nascimento em tal ou tal família não  
117 - O QUE É O ESPIRITISMO  
é um efeito do acaso, mas depende muitas vezes da escolha feita pelo Espírito, que  
vem juntar-se àqueles a quem amou no mundo espiritual ou em suas existências  
precedentes. Por outro lado, os pais têm por missão ajudar o progresso dos Espíritos  
que encarnam como seus filhos, e, para estimulá-los a isso, Deus lhes inspira uma  
afeição mútua; porém, muitos faltam a essa missão, sendo punidos por isso (O Livro  
dos Espíritos, nº 379, “Da Infância”).  
123. Por que há maus pais e maus filhos?  
São Espíritos que não se ligaram na mesma família por simpatia, mas com  
o fim de servirem de instrumentos de provas uns aos outros e, muitas vezes, para  
punição do que foram em existência anterior; a um é dado um mau filho, porque  
também ele o foi; a outro, um mau pai, pelo mesmo motivo, a fim de que sofram a  
pena de talião (Revista Espírita, setembro de 1861: “A pena do Talião”).  
124. Por que em certas pessoas nascidas em condição servil encontramos  
instintos de dignidade e grandeza, enquanto outras, nascidas nas classes  
superiores, só apresentam instintos de baixeza?  
É uma reminiscência intuitiva da posição social que o Espírito já ocupou, e  
do seu caráter na existência precedente.  
125. Qual a causa das simpatias e antipatias que se manifestam entre pessoas  
que se veem pela primeira vez?  
São quase sempre entes que se conheceram e algumas vezes se amaram em  
uma existência anterior, e que, encontrando-se nesta, são atraídos um para o outro.  
As antipatias instintivas provêm muitas vezes também de relações anteriores.  
Esses dois sentimentos podem ainda ter outra causa. O perispírito irradia ao  
redor do corpo, formando uma espécie de atmosfera impregnada das qualidades boas  
ou más do Espírito encarnado. Duas pessoas que se encontram, experimentam pelo  
contato desses fluidos a impressão sensitiva, impressão que pode ser agradável ou  
desagradável; os fluidos tendem a se confundir ou a se repelir, segundo sua natureza  
semelhante ou dessemelhante. É assim que se pode explicar o fenômeno da  
transmissão de pensamento. Pelo contato desses fluidos, duas almas leem uma na  
outra de algum modo; elas se adivinham e compreendem sem se falarem.  
126. Por que o homem não conserva a lembrança de suas existências  
anteriores? Ela não é necessária ao seu progresso futuro?  
Veja a parte que trata do Esquecimento do passado (ver cap. I, Segundo  
diálogo).  
127. Qual a origem do sentimento que chamamos de consciência?  
É uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências e  
das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar, resoluções que ele, como  
homem, muitas vezes esquece.  
128. O homem tem o livre-arbítrio ou está sujeito à fatalidade?  
Se a conduta do homem fosse sujeita à fatalidade, não haveria para ele nem  
responsabilidade do mal, nem mérito do bem que pratica. Toda punição seria uma  
118 - Allan Kardec  
injustiça, toda recompensa um contrassenso. O livre-arbítrio do homem é uma  
consequência da justiça de Deus, é o atributo que a divindade imprime àquele e o  
eleva acima de todas as outras criaturas. É isto tão real que a estima dos homens, uns  
pelos outros, baseia-se na admissão desse livre-arbítrio; quem, por uma  
enfermidade, loucura, embriaguez ou idiotismo, perde acidentalmente essa  
faculdade, é lastimado ou desprezado.  
O materialista que faz todas as capacidades morais e intelectuais  
dependerem do organismo reduz o homem ao estado de máquina, sem livre-arbítrio  
e, por consequência, sem responsabilidade do mal e sem mérito do bem que pratica  
(Revista Espírita, de março de 1861: “A cabeça de Garibaldi”; e de abril de 1862:  
Frenologia espírita e espiritualista”).  
129. Deus é o criador do mal?  
Deus não criou o mal; Ele estabeleceu leis e estas são sempre boas, porque  
Ele é soberanamente bom; aquele que as observasse fielmente seria perfeitamente  
feliz; porém, tendo seu livre-arbítrio, os Espíritos nem sempre as observam, e é  
dessa infração que provém o mal.  
130. O homem já nasce bom ou mau?  
É preciso fazer uma distinção entre a alma e o homem. A alma é criada  
simples e ignorante, isto é, nem boa nem má, porém, em razão do seu livre-arbítrio,  
é suscetível de seguir o bom ou o mau caminho, ou, de outra forma, de observar ou  
infringir as leis de Deus. O homem nasce bom ou mau, segundo seja ele a  
encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado.  
131. Qual a origem do bem e do mal na Terra e por que este último predomina?  
A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam é a origem do mal na  
Terra; quanto à predominância deste, vem da inferioridade do planeta, cujos  
habitantes na maioria são Espíritos inferiores ou que pouco têm progredido. Em  
mundos mais adiantados, onde só encarnam Espíritos depurados, o mal não existe ou  
está em minoria.  
132. Qual a causa dos males que afligem a humanidade?  
O nosso mundo pode ser considerado ao mesmo tempo como escola de  
Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. Os males da nossa  
humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos que  
a formam. Pelo contato de seus vícios, eles se infelicitam reciprocamente e punem-  
se uns aos outros.  
133. Por que vemos tantas vezes o homem mau prosperar, enquanto o homem  
de bem vive em aflição?  
Para aquele cujo pensamento não transpõe as raias da vida presente para  
quem acredite que esta existência seja única isto deve parecer clamorosa  
injustiça. Mas não é o mesmo com quem admite a pluralidade das existências e  
pensa na brevidade de cada uma delas, em relação à eternidade.  
O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do homem mau tem  
terríveis consequências em suas existências seguintes; que, pelo contrário, as  
119 - O QUE É O ESPIRITISMO  
aflições do homem de bem são seguidas de uma felicidade, tanto maior e duradoura,  
quanto mais resignadamente ele soube suportá-las; não lhe será mais que um dia  
mau em uma existência próspera.  
134. Por que alguns nascem na indigência e outros na opulência? Por que  
vemos tantas pessoas nascerem cegas, surdas, mudas ou afetadas de moléstias  
incuráveis, enquanto outras possuem todas as vantagens físicas? Será um efeito  
do acaso, ou um ato da Providência?  
Se fosse do acaso, a Providência não existiria. Porém, admitindo a  
Providência, perguntamos como esses fatos se conciliam com a sua bondade e  
justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se arrojam a  
acusar Deus.  
Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo por suas  
imprudências ou por excessos seja punido por onde pecou: porém, se a alma é  
criada ao mesmo tempo em que o corpo, o que ela fez para merecer tais aflições,  
desde o seu nascimento, ou para ficar isenta delas?  
Se admitimos a justiça de Deus, não podemos deixar de admitir que esse  
efeito tem uma causa; e se esta causa não se encontra na vida presente, deve achar-  
se antes desta, porque em todas as coisas a causa deve preceder ao efeito; há, pois,  
necessidade de a alma já ter vivido, para que possa merecer uma expiação.  
De fato, os estudos espíritas nos mostram que mais de um homem, nascido  
na miséria, foi rico e considerado em uma existência anterior, na qual fez mau uso  
da fortuna que Deus o encarregara de gerir; que mais de um, nascido na abjeção, foi  
anteriormente orgulhoso e prepotente, abusou do poder para oprimir os fracos. Esses  
estudos nos fazem vê-lo muitas vezes sujeitos àqueles a quem trataram com dureza,  
entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. Nem sempre  
uma vida penosa é expiação; muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito, que vê  
um meio de avançar mais rapidamente, conforme a coragem com que saiba suportá-  
la.  
A riqueza é também uma prova, mas muito mais perigosa que a miséria,  
pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja; também o exemplo dos que  
viveram, demonstra que ela é uma prova em que a vitória é mais difícil. A diferença  
das posições sociais seria a maior das injustiças quando não seja o resultado da  
conduta atual se ela não tivesse uma compensação. A convicção que adquirimos  
dessa verdade pelo Espiritismo nos dá força para suportarmos as dificuldades da  
vida e aceitarmos a nossa sorte, sem invejar a dos outros.  
135. Por que há homens doentes mentais?  
A posição dos doentes mentais seria a menos conciliável com a justiça de  
Deus, na hipótese da unicidade da existência. Por miserável que seja a condição em  
que o homem nasça, ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho; porém, os  
doentes mentais são votados ao embrutecimento e ao desprezo desde o nascimento  
até a morte; para eles não há compensação possível. Por que sua alma foi então  
criada doente mental?  
Os estudos espíritas feitos acerca dos doentes mentais provam que suas  
almas são tão inteligentes como as dos outros homens; que essa enfermidade é uma  
120 - Allan Kardec  
expiação infligida a Espíritos que abusaram da inteligência, e sofrem cruelmente por  
se sentirem presos em laços que não podem quebrar e pelo desprezo de que se  
veem alvo, quando, talvez, tenham sido tão considerados em encarnação precedente  
(Revista Espírita, outubro de 1861: “Os cretinos”).  
136. Qual o estado da alma durante o sono?  
No sono é só o corpo que repousa, mas o Espírito não dorme. As  
observações práticas provam que nessas condições o Espírito desfruta de toda a  
liberdade e da plenitude das suas capacidades; aproveita-se do repouso do corpo, dos  
momentos em que este lhe dispensa a presença, para agir separadamente e ir aonde  
quer. Durante a vida, qualquer que seja a distância a que se transporte, o Espírito  
fica sempre preso ao corpo por um cordão fluídico, que serve para chamá-lo, quando  
a sua presença se torna necessária. Só a morte rompe esse laço.  
137. Qual a causa dos sonhos?  
Os sonhos são o resultado da liberdade do Espírito durante o sono; às vezes,  
são a recordação dos lugares e das pessoas que o Espírito viu ou visitou nesse estado  
(O Livro dos Espíritos, nº 400 e seguintes; O Livro dos Médiuns: “Evocação das pessoas  
vivas”, nº 284).  
138. Donde vêm os pressentimentos?  
São recordações vagas e intuitivas do que o Espírito aprendeu em seus  
momentos de liberdade e algumas vezes avisos ocultos dados por Espíritos  
benévolos.  
139. Por que na Terra há homens selvagens e civilizados?  
Sem a preexistência da alma, esta questão é insolúvel, a menos que  
admitamos tenha Deus criado almas selvagens e almas civilizadas o que seria a  
negação da sua justiça. Além disso, a razão recusa admitir que depois da morte a  
alma do selvagem fique perpetuamente em estado de inferioridade, bem como se  
ache na mesma elevação que a do homem esclarecido.  
Admitindo um mesmo ponto de partida para as almas única doutrina  
compatível com a justiça de Deus a presença simultânea da selvageria e da  
civilização na Terra é um fato material que prova o progresso que uns já fizeram e  
que os outros têm de fazer.  
Então, com o tempo, a alma do selvagem atingirá o mesmo grau da alma  
esclarecida; mas, como todos os dias morrem selvagens, essa alma não pode atingir  
esse grau senão em encarnações sucessivas, cada vez mais aperfeiçoadas e  
apropriadas ao seu adiantamento, seguindo todos os graus intermediários a esses  
dois extremos.  
140., Segundo algumas pessoas pensam, não será admissível que a alma, não  
encarnando mais que uma vez, faça o seu progresso no estado de Espírito ou  
em outras esferas?  
Esta proposição seria admissível se todos os habitantes da Terra se  
achassem no mesmo nível moral e intelectual; caso em que se poderia dizer que a  
Terra fosse destinada a determinado grau; ora, quantas vezes temos diante de nós a  
121 - O QUE É O ESPIRITISMO  
prova do contrário!  
Com efeito, não é compreensível que o selvagem não pudesse conseguir  
civilizar-se aqui na Terra, quando vemos almas mais adiantadas encarnadas ao lado  
dele; do que resulta a possibilidade da pluralidade das existências terrenas,  
demonstrada por exemplos que temos à vista.  
Se fosse de outro modo, era preciso explicar: primeiro, por que só a Terra  
teria o monopólio das encarnações; segundo, por que, tendo esse monopólio, nela se  
apresentam almas encarnadas de todos os graus.  
141. Por que no meio das sociedades civilizadas se mostram seres de ferocidade  
comparável à dos mais bárbaros selvagens?  
São Espíritos muito inferiores, saídos das raças bárbaras, que experimentam  
reencarnar em meio que não é o seu, e onde estão deslocados, como estaria um  
rústico colocado de repente numa cidade adiantada.  
OBSERVAÇÃO Sem negar a Deus os atributos de bondade e justiça, não é possível admitirmos que a  
alma do criminoso endurecido tenha na vida atual o mesmo ponto de partida que a de um homem cheio  
de virtudes. Se a alma não é anterior ao corpo, a do criminoso e a do homem de bem são tão novas uma  
como a outra; por que razão, então, uma delas é boa e a outra má?  
142. Donde vem o caráter distintivo dos povos?  
São Espíritos que têm mais ou menos os mesmos gostos e inclinações, que  
encarnam em um meio simpático e, muitas vezes, no mesmo meio em que podem  
satisfazer as suas inclinações.  
143. Como os povos progridem e degeneram?  
Se a alma é criada juntamente com o corpo, as dos homens de hoje são tão  
novas e tão primitivas como a dos homens da Idade Média, e, desde então, pergunta-  
se por que elas têm costumes mais brandos e inteligência mais desenvolvida?  
Se na morte do corpo a alma deixa definitivamente a Terra, pergunta-se,  
ainda, qual seria o fruto do trabalho feito para melhoramento de um povo, se este  
tivesse de ser recomeçado com as almas novas que diariamente chegam?  
Os Espíritos encarnam em um meio simpático e em relação com o grau do  
seu adiantamento.  
Um chinês, por exemplo, que progredisse suficientemente e não  
encontrasse mais na sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará  
entre um povo mais adiantado. À medida que uma geração dá um passo para frente,  
atrai por simpatia Espíritos mais avançados, os quais são, talvez, os mesmos que já  
haviam vivido no mesmo país e que, por seu progresso, dele se tinham afastado; é  
assim que passo a passo uma nação avança. Se a maioria dos seus novos habitantes  
fosse de natureza inferior e os antigos emigrassem diariamente e não mais  
descessem a um meio inferior, o povo acabaria por degenerar, e, afinal, por  
extinguir-se.  
OBSERVAÇÃO Essas questões provocam outras que encontram solução no mesmo princípio; por  
exemplo, donde vem a diversidade de raças, na Terra? Há raças rebeldes ao progresso? A raça  
negra é suscetível de subir ao nível das raças europeias? A escravidão é útil ao progresso das raças  
inferiores? Como se pode operar a transformação da Humanidade? (O Livro dos Espíritos: “Lei de  
122 - Allan Kardec  
progresso”, nos 776 e seguintes).  
O HOMEM DEPOIS DA MORTE  
144. Como se opera a separação da alma e do corpo? É brusca ou gradual?  
O desprendimento opera-se gradualmente e com lentidão variável, segundo  
os indivíduos e as circunstâncias da morte. Os laços que prendem a alma ao corpo só  
se rompem aos poucos, e tanto menos rapidamente quanto mais a vida foi material e  
sensual (O Livro dos Espíritos, nº 155).  
145. Qual a situação da alma imediatamente depois da morte do corpo? Ela tem  
a consciência de si instantaneamente? Em uma palavra, o que ela vê e  
experimenta?  
No momento da morte, tudo se apresenta confuso; é preciso algum tempo  
para ela se reconhecer; conserva-se tonta, no estado do homem que sai de profundo  
sono e que procura compreender a sua situação. A lucidez das ideias e a memória do  
passado lhe voltam à medida que se destrói a influência da matéria de que ela acaba  
de separar-se, e que se dissipa o nevoeiro que lhe obscurece os pensamentos.  
O tempo da perturbação sequente à morte é muito variável; pode ser de  
algumas horas somente, como de muitos dias, meses ou mesmo de muitos anos. É  
menos longa, entretanto, para aqueles que, enquanto vivos, se identificaram com o  
seu estado futuro, porque esses compreendem imediatamente a sua situação; porém,  
é tanto mais longa quanto mais materialmente o indivíduo viveu.  
A sensação que a alma experimenta nesse momento é também muito  
variável; a perturbação sequente à morte não tem nada de penoso para o homem de  
bem; é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar plácido.  
Para aquele cuja consciência não é pura e amou mais a vida corporal do que  
a espiritual esse momento é cheio de ansiedade e de angústias, que vão aumentando  
à medida que ele se reconhece, porque então sente medo e certo terror diante do que  
vê e sobretudo do que entrevê. A sensação a que podemos chamar física, é a de  
grande alívio e de imenso bem-estar, fica-se como que livre de um fardo, e o  
Espírito sente-se feliz por não mais experimentar as dores corporais que o  
atormentavam alguns instantes antes; sente-se livre, desembaraçado, como aquele a  
quem tirassem as cadeias que o prendiam.  
Em sua nova situação, a alma vê e ouve ainda outras coisas que escapam à  
grosseria dos órgãos corporais. Tem então sensações e percepções que nos são  
desconhecidas.  
OBSERVAÇÃO Estas respostas e todas as relativas à situação da alma depois da morte ou durante a  
vida não são o resultado de uma teoria ou de um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre milhares  
de indivíduos, observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual, desde o mais baixo  
ao mais alto grau da escala, segundo seus hábitos durante a vida terrena, gênero de morte etc.  
Muitas vezes, falando da vida futura, diz-se que não se sabe o que nela se passa porque  
ninguém nos veio contá-lo; é um erro, pois são exatamente os que já se acham nela que nos vêm  
instruir a respeito, e Deus o permite hoje mais que em nenhuma outra época como último aviso à  
incredulidade e ao materialismo.  
146. A alma que deixa o corpo pode ver a Deus?  
123 - O QUE É O ESPIRITISMO  
As capacidades perceptivas da alma são proporcionais à sua purificação: só  
as almas de escol podem desfrutar da presença de Deus.  
147. Se Deus está em toda parte, por que nem todos os Espíritos podem vê-lo?  
Deus está em toda parte porque em toda parte Ele irradia, podendo dizer-se  
que o Universo está mergulhado na divindade, como nós estamos envolvidos pela  
luz solar; entretanto, os Espíritos atrasados estão envolvidos numa espécie de  
nevoeiro que o oculta a seus olhos, e que só se dissipa à medida que eles se  
desmaterializam e se purificam. Os Espíritos inferiores são, pela vista, em relação a  
Deus, o que os encarnados são, em relação aos Espíritos: verdadeiros cegos.  
148. Depois da morte, a alma tem consciência de sua individualidade? Como a  
constata e como podemos constatá-la?  
Se as almas não tivessem sua individualidade depois da morte, tanto para  
elas como para nós, isto seria o mesmo que não existirem; não teriam caráter próprio  
algum; a do criminoso estaria na mesma altura que a do homem de bem, donde  
resultaria não haver interesse algum em fazermos o bem.  
A individualidade da alma é mostrada nas manifestações espíritas de modo  
material, por assim dizer, pela linguagem e qualidades próprias de cada qual; uma  
vez que elas pensam e agem de modo diferente, umas são boas e outras más, umas  
sábias e outras ignorantes, umas querendo o que outras não querem, o que prova  
evidentemente não estarem confundidas em um todo homogêneo, isso sem falar das  
provas visíveis que nos dão de terem animado tal ou tal indivíduo na Terra. Graças  
ao Espiritismo experimental, a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga,  
mas sim o resultado da observação.  
A própria alma reconhece sua individualidade, porque tem pensamento e  
vontade próprios, que distinguem umas das outras; verificando ainda a sua  
individualidade por seu invólucro fluídico ou perispírito, espécie de corpo limitado,  
que faz dela um ser distinto.  
OBSERVAÇÃO Há quem pense poder fugir da conta de materialista por admitir um princípio  
inteligente universal, do qual uma parte absorveríamos ao nascermos, formando dela a nossa alma e  
restituindo-a depois da morte à massa comum, onde com outras se confundiria, tal como gotas d’água  
no oceano. Este sistema, espécie de transição, não merece mesmo o nome de Espiritualismo, pois é tão  
desolador quanto o materialismo. O reservatório comum do conjunto universal equivaleria ao  
aniquilamento, pois ali não haveria mais individualidades.  
149. O gênero de morte influi no estado da alma?  
O estado da alma varia consideravelmente segundo o gênero de morte, mas,  
sobretudo, segundo a qualidade dos hábitos durante a vida.  
Na morte natural, o desprendimento se opera gradualmente e sem abalo,  
começando mesmo antes que a vida esteja extinta. Na morte violenta, por suplício,  
suicídio ou acidente, os laços são partidos bruscamente; surpreendido, o Espírito fica  
como que tonto com a mudança efetuada nele, e não acha explicação para a sua  
situação.  
Um fenômeno mais ou menos constante em tal caso é a persuasão em que  
ele se conserva de não estar morto, podendo essa ilusão durar muitos meses e  
mesmo muitos anos. Neste estado, ele se locomove, julga ocupar-se dos seus  
124 - Allan Kardec  
negócios, como se ainda estivesse no mundo, e se mostra espantado de não lhe  
responderem, quando fala.  
Fora os casos de morte violenta, essa ilusão também se nota em muitos  
indivíduos, cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais (O Livro dos  
Espíritos, nº 165).  
150. Para onde a alma vai depois de deixar o corpo?  
Ela não vai perder-se na imensidade do infinito, como geralmente se supõe;  
erra no espaço e muitas vezes no meio daqueles que conheceu e, sobretudo, que  
amou, podendo instantaneamente transportar-se a distâncias imensas.  
151. A alma conserva as afeições que tinha na vida terrena?  
Guarda todas as afeições morais e só esquece as materiais que já não são  
de sua essência; por isso vem satisfeita ver os parentes e amigos e sente-se feliz com  
a lembrança deles.  
152. A alma conserva a lembrança do que fez na Terra? Ela ainda tem interesse  
pelos trabalhos que não pôde completar?  
Depende da sua elevação e da natureza desses trabalhos. Os Espíritos  
desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais, de que se julgam  
felizes por estar livres. Quanto aos trabalhos que começaram, segundo sua  
importância e utilidade, inspiram a outros o desejo de terminá-los.  
153. A alma encontra no mundo dos Espíritos os parentes que ali a  
precederam?  
Não só encontra seus conhecidos de outras existências como também a  
outros muitos. Geralmente, aqueles que mais a amam vêm recebê-la à sua chegada  
ao mundo espiritual, e ajudam-na a desprender-se dos laços terrenos. Entretanto, a  
privação de ver as almas mais caras é algumas vezes punição para os culpados.  
154. Qual o estado intelectual e moral da alma da criança morta com pouca  
idade na outra vida? Suas aptidões se conservam na infância, como durante a  
vida?  
O incompleto desenvolvimento dos órgãos da criança não dava ao Espírito  
a liberdade de se manifestar completamente; livre desse invólucro, suas faculdades  
são o que eram antes da sua encarnação. O Espírito, não tendo feito mais que passar  
alguns instantes na vida, não sofre modificação nas faculdades.  
OBSERVAÇÃO Nas comunicações espíritas, o Espírito de um menino pode então falar como adulto,  
porque pode ser um Espírito adiantado. Se algumas vezes adota a linguagem infantil, é para não tirar da  
mãe o encanto que sempre está ligado à afeição de um ente frágil, delicado e adornado com as graças  
da inocência (Revista Espírita, janeiro 1858: “Mãe, estou aqui!”). Podendo a mesma questão ser  
formulada acerca do estado intelectual da alma dos doentes mentais e loucos depois da morte,  
encontra-se a solução no que precede.  
155. Que diferença há entre a alma do sábio e a do ignorante, entre a do  
selvagem e a do homem civilizado depois da morte?  
125 - O QUE É O ESPIRITISMO  
Um pouco mais ou um pouco menos, a mesma que existia entre elas  
durante a vida; porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os  
conhecimentos que lhe faltavam na Terra.  
156. As almas progridem intelectualmente depois da morte?  
Progridem mais ou menos, segundo sua vontade, e algumas se adiantam  
muito; porém, têm necessidade de pôr em prática na vida corporal o que adquiriram  
em ciência e moralidade. As que ficaram estacionárias recomeçam uma existência  
semelhante à que deixaram; as que progrediram, alcançam uma encarnação de  
ordem mais elevada.  
Sendo o progresso proporcionado à vontade do Espírito, há muitos que, por  
longo tempo, conservam os gostos e as inclinações que tinham durante a vida, e  
prosseguem nas mesmas ideias (Revista Espírita, março de 1858: “A rainha de Oude”).  
157. A sorte do homem na vida futura está irrevogavelmente fixada depois da  
morte?  
A fixação irrevogável da sorte do homem depois da morte seria a negação  
absoluta da justiça e da bondade de Deus, porque há muitos que não puderam  
esclarecer-se suficientemente na existência terrena sem falar dos doentes mentais,  
loucos, selvagens e de elevado número de crianças que morrem sem ter visto a vida.  
Mesmo entre os homens esclarecidos, há muitos que, julgando-se bastante  
perfeitos, creem-se dispensados de estudar e trabalhar mais, e isto não é prova que  
Deus nos dá de sua bondade, o permitir que o homem faça amanhã o que não pode  
fazer hoje?  
Se a sorte é irrevogavelmente fixada, por que os homens morrem em idades  
diferentes, e por que, em sua justiça, Deus não concede a todos o tempo de produzir  
a maior soma de bem e reparar o mal que fizeram?  
Quem sabe se o criminoso que morre aos trinta anos não teria se tornado  
um homem de bem, se vivesse até aos sessenta?  
Por que Deus lhe tira assim os meios que concede a outros?  
Admitida a justiça divina, só o fato da diversidade das durações da vida e  
do estado moral da grande maioria dos homens prova a impossibilidade de a sorte da  
alma ser irrevogavelmente fixada depois da morte.  
158. Na vida futura, qual a sorte das crianças que morrem com pouca idade?  
Esta questão é uma das que melhor provam a justiça e a necessidade da  
pluralidade das existências. Uma alma que só tiver vivido alguns instantes sem  
fazer nem bem nem mal não pode merecer prêmio nem castigo, pois, segundo a  
máxima do Cristo "cada um é punido ou recompensado conforme suas obras" é tão  
ilógico como contrário à justiça de Deus admitir-se que, sem trabalho, essa alma seja  
chamada a gozar da bem-aventurança dos anjos, ou que desta se veja privada;  
entretanto, ela deve ter um destino qualquer. Um estado misto, por toda a  
eternidade, seria igualmente uma injustiça. Não podendo então ter consequência  
alguma para a alma, uma existência logo em começo interrompida tem por sorte  
atual o que mereceu da existência anterior, e futuramente o que vier a merecer em  
suas existências ulteriores.  
126 - Allan Kardec  
159. As almas têm ocupações na outra vida? Elas pensam em outra coisa, a não  
ser em suas alegrias e sofrimentos?  
Se as almas não fizessem mais que tratar de si durante a eternidade, seria  
egoísmo, e Deus, que condena essa falta na vida corporal, não poderia aprová-la na  
espiritual. As almas, ou Espíritos, têm ocupações em relação com o seu grau de  
adiantamento, ao mesmo tempo em que procuram instruir-se e melhorar-se (O Livro  
dos Espíritos, nº 558: “Ocupações e missões dos Espíritos”).  
160. Em que consistem os sofrimentos da alma depois da morte? As almas  
criminosas serão torturadas em chamas materiais?  
A Igreja hoje reconhece perfeitamente que o fogo do inferno é todo moral e  
não material; porém, não define a natureza dos sofrimentos. As comunicações  
espíritas colocam os sofrimentos sob os nossos olhos, e, por esse meio, podemos  
apreciá-los e convencer-nos de que, apesar de não serem o resultado de um fogo  
material, que efetivamente não poderia queimar almas imateriais, nem por isso eles  
deixam de ser mais terríveis, em certos casos.  
Essas penas não são iguais: variam infinitamente, segundo a qualidade e o  
grau das faltas cometidas, sendo quase sempre essas mesmas faltas o instrumento do  
seu castigo; é assim que certos assassinos são obrigados a conservarem-se no  
próprio lugar do crime e a contemplar suas vítimas incessantemente; que o homem  
de gostos sensuais e materiais conserva esses pendores juntamente com a  
impossibilidade de satisfazê-los, o que lhe é uma tortura; que certos avarentos  
julgam sofrer o frio e as privações que suportaram na vida por sua avareza; outros se  
conservam junto aos tesouros que enterraram, em transes perpétuos, com medo que  
os roubem; em uma palavra, não há um defeito, uma imperfeição moral, um ato  
mau, que não tenha, no mundo espiritual, seu reverso e suas consequências naturais;  
e, para isso, não há necessidade de um lugar determinado e limitado. Onde quer que  
se ache o Espírito perverso, o inferno estará com ele.  
Além dos sofrimentos espirituais, há as penas e provas materiais que o  
Espíritose não está depurado experimenta numa nova encarnação, na qual é  
colocado em condições de sofrer o que fez a outrem sofrer; de ser humilhado, se foi  
orgulhoso; miserável, se avarento; infeliz com seus filhos, se foi mau filho, etc.  
Como dissemos, a Terra é um dos lugares de exílio e de expiação, um  
purgatório para os Espíritos dessa natureza, do qual cada um se pode libertar,  
melhorando-se suficientemente para merecer habitação em mundo melhor (O Livro  
dos Espíritos, nº 237: “Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos” e Parte 4ª:  
“Esperanças e consolações”, cap. I, “Penas e gozos futuros”).  
161. A prece será útil para almas sofredoras?  
Todos os bons Espíritos a recomendam e as almas imperfeitas a pedem  
como meio de aliviar os seus sofrimentos. A alma por quem se pede experimenta um  
consolo, porque vê na prece um testemunho de interesse, e o infeliz é sempre  
consolado quando encontra pessoas que compartilhem de suas dores. De outro lado,  
pela prece o exortamos ao arrependimento e ao desejo de fazer o necessário para ser  
feliz; é neste sentido que se pode abreviar-lhe as penas, quando ele, de seu lado, o  
favorece com a sua boa vontade (O Livro dos Espíritos, nº 664).  
127 - O QUE É O ESPIRITISMO  
162. Quais as satisfações das almas felizes? Elas passam a eternidade em  
contemplação?  
A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito, como a  
punição à gravidade da falta; logo, há graus infinitos nas satisfações da alma —  
desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até aquele em que atinge a  
perfeição. A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer todas as coisas, não  
sentir ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que  
desgraçam os homens. Para os bons Espíritos, o amor que os une é a fonte de  
suprema felicidade, pois não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos,  
nem as angústias da vida material.  
O estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e  
monótona; seria a ventura do egoísta, uma existência interminavelmente inútil.  
Ao contrário, a vida espiritual é de uma atividade incessante pelas missões  
que os Espíritos recebem do Ser Supremo, de serem seus agentes no governo do  
Universo missões essas proporcionadas ao seu adiantamento, e cujo desempenho  
os torna felizes, porque lhes fornece ocasiões de serem úteis e de fazerem o bem (O  
Livro dos Espíritos, nº 558: “Ocupações e missões dos Espíritos”).  
OBSERVAÇÃO Convidamos os adversários do Espiritismo e os que não admitem a reencarnação a  
darem uma solução mais lógica dos problemas acima apresentados, por outro princípio qualquer que  
não seja o da pluralidade das existências.  
128 - Allan Kardec