16 - Allan Kardec
encontrou, especialmente em Sens, Mácon, Lião e Saint-Etienne. Em todo lugar em que se
demorou, observou os progressos consideráveis da doutrina; mas o que sobretudo é digno de
nota, é que em nenhuma parte viu que se fizesse um divertimento dela, mas, que, ao contrário,
dela se ocupam de modo sério, e que por toda parte lhe compreendem o alcance e as
consequências futuras. Sem dúvida, há muitos adversários, sendo os mais acesos os inimigos
interessados, mas os zombeteiros diminuem sensivelmente; vendo que os seus sarcasmos não
colocam do seu lado os gracejadores, e que auxiliam mais do que impedem o progresso das
novas crenças, começam a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu
ânimo em pura perda, e assim se calam. Uma frase muito característica parece ser em toda
parte a ordem do dia, e é esta: o Espiritismo está no ar; só por si desenha o estado das coisas.
Mas, é sobretudo em Lyon que os resultados são mais notáveis. Os espíritas lá são numerosos
em todas as classes, e na classe operária contam-se por centenas. A Doutrina Espírita tem
exercido sobre os operários a mais salutar influência, sob o ponto de vista da ordem, da
moral e das ideias religiosas; em resumo, a propagação do Espiritismo marcha com a mais
animadora rapidez.
No decurso dessa viagem, Allan Kardec pronunciou um discurso magistral, no
banquete realizado em 19 de setembro de 1860, do qual eis aqui algumas passagens, próprias
a nos interessar, a nós que aspiramos a substituir dignamente esses trabalhadores da primeira
hora:
A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos; eu sabia
perfeitamente que Lyon os contava em grande escala, mas estava longe de imaginar que o
número fosse tão considerável, porque é por centenas que eles se contam, e, em pouco tempo
— eu espero —, já se não poderão contar mais.
Porém, se Lyon se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que
ainda vale mais. Por toda parte só encontrei espíritas sinceros, compreendendo a doutrina
sob seu verdadeiro ponto de vista. Há, meus senhores, três categorias de adeptos: uns que se
limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram, antes de tudo, os fenômenos; o
Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. Os
segundos veem outra coisa nele além dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico,
admiram a moral que deles decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é uma
bela máxima, e nada mais. Os terceiros, finalmente, não se contentam de admirar a moral:
praticam-na e aceitam-lhe as consequências. Bem convencidos de que a existência terrestre é
uma prova passageira, esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes, para marchar na
senda do progresso que lhes traçam os Espíritos, empenhando-se em fazer o bem e em
reprimir as suas más inclinações; as suas relações são sempre seguras, porque as suas
convicções os afastam de todo pensamento do mal; em toda ocasião, a caridade é a regra da
sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os espíritas-cristãos.
Pois bem, meus senhores, eu lhes digo com satisfação: ainda não encontrei, aí,
nenhum adepto da primeira categoria; em parte alguma vi que se ocupassem do Espiritismo
por mera curiosidade, com frívolos intuitos; por toda parte o objetivo é sério, as intenções são
ajuizadas; e, a crer no que me dizem, há muitos da terceira categoria. Honra, pois, aos
espíritas lioneses, por terem, assim, entrado largamente nessa senda progressista, sem a qual
o Espiritismo não teria objetivo. Este exemplo não será perdido, terá suas consequências, e
não é sem razão — eu vejo — que os Espíritos me responderam noutro dia, por um dos seus
médiuns mais dedicados, posto que dos mais obscuros, quando eu lhes exprimia a minha
surpresa: "Por que te admiras disso? Lyon foi a cidade dos mártires; a fé aí é vivaz; ela
fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lyon será o coração".
Essa opinião de Allan Kardec — sobre os espíritas lioneses de sua época — é para
nós uma grande honra, mas deve ser também uma regra de conduta. Devemos nos esforçar
por merecer esses elogios, aprofundando por nossa vez as lições do mestre e, sobretudo,
conformando com elas o nosso proceder. Noblesse oblige7, diz um adágio; saibamo-nos
7 "Noblesse oblige" (do francês): literalmente "a nobreza obriga", cuja conotação clássica é a de que devemos nos comportar conforme a
altura de nossa nobreza — N. E.