2 Allan Kardec  
O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo  
Allan Kardec (1804-1869)  
Título original em francês:  
Le Ciel et l’Enfer ou la Justice Divine selon le Spiritisme  
Originalmente publicado em 1865  
Paris, França  
Tradução: Ery Lopes  
com base na 4ª edição, 1869 - Ebook  
Versão digital: 2.0  
Editada em 31 de outubro, 2025  
São Paulo, Brasil  
Não nos importamos com os direitos autorais.  
Esta tradução pode ser copiada e reproduzida, impressa e até comercializada,  
sem prévia autorização ou mesmo sem citar a fonte.  
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.  
Distribuição gratuita:  
O CÉU  
E O INFERNO  
Allan Kardec  
Tradução:  
Ery Lopes  
Não nos importamos com os direitos autorais.  
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sem prévia autorização ou mesmo sem citar a fonte.  
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.  
4 Allan Kardec  
Apresentação da obra  
Em 29 de maio de 1865, apenas quatro meses após a grave enfermidade  
de Kardec, a tipografia Bourdier registrou a Declaração do Impressor (DI) do  
livro O céu e o inferno, ou a justiça divina segundo o espiritismo. Quase três  
meses depois, na segunda-feira, 21 de agosto, a tipografia realizou o Depósito  
Legal (DL), cujo registro no jornal Bibliographie de la France (BF) ocorreu na  
edição de sábado, 26 de agosto. Por essa razão, Maurice Lachâtre mencionou  
agosto como o mês de lançamento da obra em seu Novo dicionário universal. O  
jornal L’Avenir, em sua tiragem de 24 de agosto, também anunciou a  
publicação. No entanto, a Revista Espírita trouxe uma notícia bibliográfica  
sobre o livro apenas na edição de setembro.  
Em 9 de julho de 1869, foi a tipografia Rouge que registrou a DI da  
edição definitiva, seguida pelo DL em 18 de julho e pela publicação na BF em  
24 de julho, com vendas antecipadas acontecendo já a partir de 1º de junho,  
conforme anunciado na Revista Espírita de julho daquele ano. A oficialização  
da publicação desta quarta edição ficou sob a responsabilidade de Amélie  
Boudet, baseada no material que já havia sido impresso em fevereiro de 1869,  
um mês antes da desencarnação de Kardec. Esse fato foi posteriormente  
confirmado no inventário da Livraria Espírita de 1873, assinado por Boudet e  
registrado em ata da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras  
Espíritas de Allan Kardec, disponível nos Arquivos Municipais de Paris.  
Vale destacar que, nesta edição, a tipografia levou pouco mais de uma  
semana para realizar o depósito legal, corroborando a informação encontrada  
no inventário de que as folhas já estavam impressas antes da declaração do  
impressor.  
Pelo menos 23 médiuns e 83 Espíritos contribuíram para esta obra,  
5 O Céu e o Inferno  
entre eles a Sra. Costel, a Srta. Dufaux e o Sr. Leymarie, que tiveram grande  
participação.  
As histórias dos Espíritos apresentados são profundamente comoventes.  
Entre elas, destaca-se a de Lapommeray, um Espírito endurecido que, em  
vida, foi médico homeopata e teria assassinado sua amante por  
envenenamento, sendo posteriormente guilhotinado. Emma Livry, por outro  
lado, é um Espírito feliz: a jovem bailarina teve seu tutu1 incendiado e, alguns  
meses depois, desencarnou devido às graves queimaduras.  
O suicida da Samaritana protagoniza outro relato impactante. A  
Samaritana era uma construção flutuante que abrigava banhos públicos. Foi  
nesse local, conhecido como “Banhos da Samaritana”, que encontraram o  
homem que havia se cortado com uma navalha, atingindo inclusive a carótida.  
O livro Espíritos sob investigação, resgatando parte da história, revela a  
identidade da maioria desses personagens, protagonistas da construção do  
espiritismo.2  
Georges, Espírito ligado à Sra. Costel, havia sido pintor e professor de  
desenho dela. A Sra. Costel, por sua vez, era grande amiga do médium Alfred  
Didier, também pintor e filho do editor de Allan Kardec, Pierre Paul Didier.  
Georges era cunhado de D’Ambel, vice-presidente da Sociedade Parisiense de  
Estudos Espíritas, secretário particular de Kardec e único médium conhecido  
do Espírito Erasto.  
No entanto, em 1865, todos esses médiuns, que haviam colaborado na  
obra O céu e o inferno, abandonaram a sociedade de Kardec.  
Apesar dessas deserções e da grave doença que o acometia, Kardec  
continuou sua incansável produção. Ele publicou edições mensais da Revista  
Espírita, a sexta edição reformulada e consideravelmente aumentada de O  
que é o espiritismo, a primeira edição de O céu e o inferno, a Coletânea de  
preces espíritas e a terceira edição revista, corrigida e modificada de O  
evangelho segundo o espiritismo, a primeira edição de A gênese, os  
milagres e as predições segundo o espiritismo, além de Caracteres da  
1 Tutu: saia de tule usado pelas dançarinas de balé clássico. Nota do editor.  
2
Para mais informações sobre o referido livro, consulte: https://ccdpe.org.br/produto/espiritos-sob-  
   
6 Allan Kardec  
revelação espírita. Também preparou uma nova edição aumentada do  
Resumo da lei dos fenômenos espíritas, a quinta edição revista, corrigida e  
aumentada de A gênese, a nova edição inteiramente revista e corrigida de O  
céu e o inferno, de fevereiro de 1869, que é a quarta edição, e a primeira  
edição do Catálogo Racional.  
Que legado impressionante! No entanto, muitos espíritas acabam  
privilegiando apenas o estudo das primeiras obras fundamentais, sem se  
aprofundar no conjunto dessa vasta produção.  
Para honrar esse trabalho e auxiliar os espíritas em seus estudos, o  
incansável colega e amigo Ery Lopes lança agora a tradução para o português  
dos originais franceses da quarta edição de O céu e o inferno. Com essa  
contribuição, ele se junta aos tradutores anteriores: Manoel Quintão,  
Herculano Pires e Noleto Bezerra.  
Uma curiosidade fascinante sobre esse livro diz respeito ao prefácio,  
presente apenas na primeira edição. A segunda e a terceira edições,  
provavelmente idênticas à original, nunca foram encontradas em nenhuma  
biblioteca ao redor do mundo. Por isso, não se sabe ao certo se o caderno com  
o prefácio foi incorporado ou não a essas edições.  
Devido à referência a Deus como o “Grande Arquiteto” nesse prefácio,  
alguns biógrafos precipitados associaram Kardec à maçonaria, suposição sem  
qualquer evidência material. Essa questão é explorada no livro Biografias de  
Kardec sob investigação, corrigindo imprecisões.3  
Recebemos, enfim, essa nova tradução com grande alegria,  
especialmente neste momento em que a obra completa 160 anos desde seu  
primeiro lançamento.  
Carlos Seth Bastos  
Julho, 2025  
3
Mais informações sobre este livro em: https://ccdpe.org.br/produto/biografias-de-kardec-sob-  
 
7 O Céu e o Inferno  
Nota do tradutor  
A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para  
aprender e fortalecer nossos aprendizados doutrinários espíritas o que,  
aliás, constitui uma satisfação para nós serviu de ensejo para cuidarmos  
desta tradução, que também é motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma  
opção aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo,  
especialmente aqueles que não disponham da fluência na leitura em francês,  
cumprindo assim o papel essencial do tradutor, qual seja a de ser um  
facilitador.  
Não se ignora a dificuldade natural no trabalho de verter para outro  
idioma qualquer uma obra de fôlego, tal como esta; acrescente-se aí a  
gravidade das implicações de uma tradução de O Céu e o Inferno, posto que  
se trata de um livro que contém fundamentos de uma doutrina de cunho  
científico, filosófico e religioso, doutrina essa tão complexa quanto importante  
para toda a humanidade. Em face disso, não ousaríamos propor uma tradução  
perfeita, mas tratamos tanto quanto nos é possível de buscar a máxima  
fidelidade da mensagem iluminadora e consoladora contida nesta obra  
monumental.  
A revisão desta tradução é contínua, portanto, correções e sugestões de  
melhorias são bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte  
periodicamente a possível existência de uma edição mais atualizada.  
É então ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para  
contribuir com a propagação desta doutrina que abraçamos com amor.  
Ery Lopes  
erylopes10@gmail.com  
Observação: as notas de rodapé de autoria do tradutor estão sinalizadas no final com a inscrição “N.  
T.”; as demais, sem sinalização, correspondem à tradução das notas de Allan Kardec contidas na obra  
original.  
Allan Kardec  
(1804-1869)  
Folha de rosto da 4ª edição francesa, de 1868, obra-base desta tradução.  
Ebook disponível no portal Google Books  
O
CÉU E O INFERNO  
OU  
A JUSTIÇA DIVINA  
SEGUNDO O ESPIRITISMO  
CONTENDO  
O EXAME COMPARADO DAS DOUTRINAS  
SOBRE A PASSAGEM DA VIDA CORPORAL À VIDA ESPIRITUAL,  
AS PENAS E AS RECOMPENSAS FUTURAS, OS ANJOS E OS DEMÔNIOS,  
AS PENAS ETERNAS ETC.  
SEGUIDO DE NUMEROSOS EXEMPLOS  
DA REAL SITUAÇÃO DA ALMA DURANTE E APÓS A MORTE.  
Por ALLAN KARDEC  
Autor de O Livro dos Espíritos  
Eu juro por mim mesmo diz o Senhor  
Deus que eu não quero a morte do ímpio,  
mas sim, que eu quero que o ímpio se converta,  
que ele deixe seu mau caminho e que viva.  
Ezequiel, 33: 11  
QUARTA EDIÇÃO  
PARIS, 1869  
11 O Céu e o Inferno  
SUMÁRIO  
Primeira Parte DOUTRINA  
Causas do temor da morte  
Por que os espíritas não temem a morte  
Intuição das penas futuras  
O inferno cristão imitado do inferno pagão  
Os limbos  
Descrição do inferno pagão  
Descrição do inferno cristão  
Origem da doutrina das penas eternas  
Argumentos a favor das penas eternas  
Impossibilidade material das penas eternas  
A doutrina das penas eternas teve a sua época  
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original  
A carne é fraca  
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras  
Código penal da vida futura  
Os anjos segundo a Igreja  
Refutação  
Os anjos segundo o Espiritismo  
12 Allan Kardec  
Origem da crença nos demônios  
Os demônios segundo a Igreja  
Os demônios segundo o Espiritismo  
14 Allan Kardec  
O título desta obra indica claramente o seu objetivo. Reunimos aqui  
todos os elementos apropriados para esclarecer o homem a respeito do seu  
destino. Como em nossas outras publicações sobre a doutrina espírita, nada  
colocamos neste livro que seja produto de um sistema preconcebido ou de  
uma concepção pessoal que não teria nenhuma autoridade: tudo foi deduzido  
da observação e da concordância dos fatos.  
O livro dos espíritos contém as bases fundamentais do Espiritismo; ele é  
a pedra angular do edifício; todos os princípios da doutrina foram expostos  
nele, até mesmo os que constituem o seu coroamento. Mas, era preciso lhes  
dar maiores desenvolvimentos, bem como deduzir todas as suas  
consequências e aplicações à medida que essas tais bases se desdobrassem  
através do ensino complementar dos Espíritos e de novas observações. Foi o  
que fizemos em O Livro dos Médiuns e em O Evangelho segundo o  
espiritismo, com relação a determinados pontos de vista; é o que fazemos  
nesta obra, sobre outro ponto de vista, e é o que faremos sucessivamente nas  
demais obras que nos restam publicar e que virão a seu tempo.  
As novas ideias não frutificam senão quando a terra está preparada para  
recebê-las; ora, por essa terra preparada, não se deve entender algumas  
inteligências precoces que só dariam frutos isolados, mas um certo conjunto  
na predisposição geral, a fim de que não só dê frutos mais abundantes, mas  
que a ideia, ao encontrar maior número de pontos de apoio, também encontre  
4
Este prefácio foi publicado na 1ª edição desta obra e reproduzida nas duas edições seguintes;  
portanto, ela não conta na 4ª edição, da qual foi feita esta tradução, e que é a versão definitiva composta  
por Allan Kardec. Supomos que sua exclusão se deu tão-somente por economia de espaço; por isso, aqui  
a inserimos por considerarmos uma apresentação interessante ao leitor e sem qualquer prejuízo para a  
fidelidade da obra. Nota do Tradutor (N. T.).  
   
15 O Céu e o Inferno  
menos oposição e seja mais forte para resistir aos seus antagonistas. O  
Evangelho segundo o espiritismo já foi um passo adiante; O Céu e o Inferno  
é um passo a mais, cujo alcance será facilmente compreendido, pois ele toca  
profundamente em certas questões, mas não poderia ter vindo mais cedo.  
Se considerarmos a época em que o Espiritismo surgiu, reconheceremos  
facilmente que ele chegou no tempo oportuno nem mais cedo, nem mais  
tarde. Mais cedo, ele teria abortado, porque, como as simpatias não eram  
numerosas, ele teria sucumbido sob os golpes dos adversários; mais tarde,  
teria perdido a ocasião favorável para se desenvolver; as ideias poderiam  
tomar outro rumo, do qual seria difícil desviá-las. Era preciso dar às velhas  
ideias o tempo de se gastarem e de provarem a sua insuficiência, antes de  
apresentar ideias novas.  
As ideias prematuras fracassam porque as pessoas não estão maduras  
para compreendê-las, e porque a necessidade de uma mudança de posição  
ainda não se fez sentir. Hoje, é evidente para todo mundo que um imenso  
movimento se manifesta na opinião em geral; que uma reação formidável se  
opera no sentido progressivo contra o espírito estacionário ou retrógrado da  
rotina; que os satisfeitos da véspera são os impacientes do dia seguinte. A  
humanidade está em trabalho de gestação; há alguma coisa no ar, uma força  
irresistível a impulsiona à frente, é como um jovem que sai da adolescência e  
que vislumbra novos horizontes sem defini-los, e que se desfaz das fraldas da  
infância. As pessoas querem coisa melhor, alimentos mais sólidos para a  
razão; mas essa coisa melhor ainda é vaga; as pessoas a procuram e todo  
mundo trabalha para isso desde o crente até o incrédulo, desde o lavrador  
até o sábio. O universo é um vasto canteiro de obras; uns estão demolindo,  
outros estão construindo; cada um talha uma pedra para o novo edifício, do  
qual só o grande Arquiteto possui o plano definitivo e cuja organização só  
será compreendida quando suas formas começarem a se delinear acima da  
superfície do solo. Este é o momento em que a soberana sabedoria escolheu  
para o surgimento do espiritismo.  
Os Espíritos que presidem o grande movimento regenerador agem,  
portanto, com maior sabedoria e previdência do que os homens, porque eles  
abraçam a marcha geral dos acontecimentos, enquanto nós outros vemos  
16 Allan Kardec  
apenas o círculo limitado do nosso horizonte. Tendo chegado os tempos da  
renovação, conforme os decretos divinos, era preciso que no meio das ruínas  
do velho edifício o homem vislumbrasse para não se desanimar os  
fundamentos da nova ordem das coisas; era preciso que o marinheiro  
pudesse perceber a estrela polar que o guiaria em direção ao porto.  
A sabedoria dos Espíritos que se mostrou no aparecimento do  
espiritismo, revelada quase instantaneamente por toda a Terra, na época mais  
propícia não é menos evidente na ordem e na gradação lógicas das  
revelações complementares sucessivas. Não cabe a ninguém constranger a  
vontade deles a esse respeito, pois eles não medem os seus ensinamentos  
pelo grau de impaciência dos homens. Não nos basta dizer: Gostaríamos de  
ter tal coisa” para que ela nos seja concedida; e menos ainda nos convém dizer  
a Deus: “Achamos que é chegada a hora para que o Senhor nos dê tal coisa,  
pois nos julgamos bastante adiantados para recebê-la”, pois isso equivaleria a  
dizer: “Nós sabemos melhor do que o Senhor aquilo que convém ser feito.”  
Aos impacientes, os Espíritos respondem: “Comecem primeiro por saber bem,  
compreender bem e sobretudo praticar bem aquilo que já sabem, a fim de que  
Deus lhes julgue dignos de aprender mais. Além disso, quando o momento  
chegar, nós saberemos agir e escolheremos os nossos instrumentos.”  
A primeira parte desta obra, intitulada Doutrina, contém o exame  
comparado das diversas crenças sobre o céu e o inferno, os anjos e os  
demônios, as penas e as recompensas futuras; o dogma das penas eternas  
aqui é tratado de uma maneira especial e refutado por argumentos extraídos  
das próprias leis da natureza, e que demonstram não só o seu lado ilógico, já  
assinalado cem vezes, mas também a sua impossibilidade material. Com as  
penas eternas, caem naturalmente as consequências que se acreditava poder  
tirar dessa doutrina.  
A segunda parte traz numerosos exemplos em apoio à teoria, ou melhor,  
que serviram para estabelecer a teoria. Eles constituem sua autoridade na  
diversidade das épocas e dos lugares onde foram obtidos, pois, se emanassem  
de uma fonte única, poderíamos considerá-los como o produto de uma mesma  
influência; eles a constituem, além disso, na sua coerência com o que é obtido  
todos os dias, em toda parte onde as pessoas se ocupam com as manifestações  
17 O Céu e o Inferno  
espíritas sob um ponto de vista sério e filosófico. Tais exemplos poderiam ser  
multiplicados ao infinito, visto que não há centro espírita que não possa  
fornecer um notável contingente deles. Para evitarmos repetições fatigantes,  
tivemos de fazer uma escolha entre os exemplos mais instrutivos. Cada um  
deles é um estudo, em que todas as palavras têm o devido alcance para quem  
quer que os medite com atenção, pois cada ponto jorra uma nova luz sobre a  
situação da alma após a morte e a passagem até agora tão obscura e temida  
da vida corpórea à vida espiritual. É o guia do viajante, antes de adentrar  
num país novo. A vida de além-túmulo aí se desenrola em todos os seus  
aspectos, como um vasto panorama; daí, qualquer um poderá tirar novos  
motivos de esperança e de consolação, bem como novas sustentações para  
fortalecer sua fé no futuro e na justiça de Deus.  
Nesses exemplos, tomados em sua maioria de fatos contemporâneos,  
dissimulamos os nomes próprios toda vez que o julgamos útil, por motivo de  
conveniências facilmente compreensíveis. Quem se interessar por esses  
exemplos reconhecerá os nomes sem dificuldade; para o público, nomes mais  
ou menos conhecidos, e alguns muito obscuros, não teriam acrescentado nada  
à instrução que deles se podem tirar.  
As mesmas razões que nos fizeram omitir os nomes dos médiuns no  
Evangelho segundo o espiritismo, levaram-nos a omiti-los nesta obra isso  
feito mais para o futuro do que para o presente. Ainda menos eles estão  
interessados nisso, já que não poderiam se atribuir nenhum mérito por uma  
coisa na qual sua própria inteligência em nada participou. A mediunidade,  
aliás, não é uma prerrogativa desse ou daquele indivíduo, mas uma faculdade  
fugaz, subordinada à vontade dos Espíritos que querem se comunicar, que se  
possui hoje e pode faltar amanhã, que nunca é aplicável a todos os Espíritos  
indistintamente, e, por isso mesmo, não constitui nenhum mérito pessoal,  
como seria um talento adquirido pelo trabalho e pelos esforços da  
inteligência. Os médiuns sinceros, aqueles que compreendem a gravidade da  
sua missão, consideram-se como instrumentos que a vontade de Deus pode  
quebrar quando bem o entender, caso não atuem segundo os seus desígnios;  
eles estão satisfeitos com uma faculdade que lhes permite serem úteis, mas da  
qual não podem se envaidecer. De resto, acerca deste ponto, nós nos  
18 Allan Kardec  
entregamos aos conselhos dos nossos guias espirituais.  
A Providência quis que a nova revelação não fosse privilégio de ninguém,  
mas que se estendesse por toda a Terra, em todas as famílias, entre os  
grandes e os pequenos, conforme aquelas palavras de que os médiuns de hoje  
são o cumprimento: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei o meu  
Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos  
jovens terão visões e vossos anciões terão sonhos. Nesses dias, derramarei o  
meu Espírito sobre os meus servos e sobre minhas servas, e eles  
profetizarão.” (Atos dos Apóstolos, 2: 17 e 18)  
Mas ele também disse: “Haverá falsos cristos e falsos profetas.” (Ver O  
Evangelho segundo o espiritismo, capítulo XXI.)  
Ora, esses tempos derradeiros já chegaram; não se trata do fim do  
mundo material, como a princípio se acreditava, mas do fim do mundo moral,  
quer dizer, a era da regeneração.  
Primeira Parte  
DOUTRINA  
20 Allan Kardec  
CAPÍTULO PRIMEIRO  
O PORVIR E O NADA  
1. Nós vivemos, pensamos e agimos: eis o que é indiscutível; nós morremos, o  
que não é menos certo. Porém, deixando a Terra, para onde vamos? O que  
será de nós? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser,  
tal é a alternativa; para sempre ou para nunca mais; tudo ou nada: ou nós  
vivemos eternamente ou tudo estará acabado sem volta. Vale a pena  
pensarmos nisso.  
Toda pessoa experimenta a necessidade de viver, de se divertir, de amar  
e de ser feliz. Digam àquele que sabe que vai morrer que ele viverá mais, que a  
sua hora está retardada; digam-lhe sobretudo que ele será mais feliz do que já  
o foi e que seu coração palpitará de alegria. Mas de que serviria essas  
aspirações de bonança se um sopro pode desvanecê-las?  
Existe algo mais desesperador do que esse pensamento de destruição  
absoluta?  
Afetos  
sagrados,  
inteligência,  
progresso,  
conhecimentos  
laboriosamente adquiridos, tudo seria interrompido, tudo ficaria perdido!  
Qual a necessidade de se esforçar para se tornar melhor, de tentar reprimir as  
paixões e de se preocupar em aprimorar o espírito, já que não se poderia  
colher nenhum fruto disso, principalmente com esse pensamento de que  
amanhã talvez isso não nos serviria para nada? Se fosse assim, a sorte do  
homem seria cem vezes pior que a do bruto, pois o bruto vive inteiramente do  
presente, para a satisfação dos seus apetites materiais, sem aspiração para o  
futuro. Uma secreta intuição diz que isso não é possível.  
2. Pela crença no nada, a pessoa concentra forçosamente todos os seus  
pensamentos na vida presente; de fato, não seria lógico preocupar-se com um  
 
21 O Céu e o Inferno  
futuro do qual nada se espera. Esta preocupação exclusiva do presente  
conduz a pessoa naturalmente a pensar em si antes de tudo; é, portanto, o  
mais poderoso estimulante do egoísmo, e o incrédulo é coerente consigo  
mesmo quando chega à seguinte conclusão: Aproveitemos enquanto estamos  
aqui; vamos curtir o máximo possível, porque depois todos nós teremos um  
fim; desfrutemos depressa, pois não sabemos quanto tempo isso durará. E é  
coerente com essa outra conclusão, muito mais grave para a sociedade: vamos  
aproveitar de todas as formas; cada um por si; neste mundo, a felicidade é dos  
mais espertos.  
Se o respeito humano retém algumas pessoas, que freio poderá ter  
aquelas que não temem nada? Elas dizem para si mesmas que a lei humana só  
atinge os atrapalhados; é por isso que elas empregam sua inteligência nos  
meios de se esquivarem delas. Se há uma doutrina insensata e antissocial,  
esta é seguramente a do nadismo5, porque ela rompe os verdadeiros laços de  
solidariedade e fraternidade, fundamentos das relações sociais.  
3. Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquira a  
certeza de que em oito dias, em um mês ou num ano, como se queira, tudo  
será aniquilado, que nem um só indivíduo sobreviverá, que não restará traço  
algum de si mesmo após a morte; o que esse povo fará durante esse tempo?  
Ele trabalhará para o seu melhoramento, para a sua instrução? Vai se dedicar  
ao trabalho para viver? Respeitará os direitos, as propriedades e a vida do seu  
semelhante? Será que se submeterá às leis ou a uma autoridade, seja ela qual  
for, mesmo a mais legítima? Inclusive a autoridade paterna? Haverá para esse  
povo um dever qualquer? Seguramente que não. Pois bem! O que não se dá  
coletivamente a doutrina do nadismo realiza todos os dias individualmente.  
Se as consequências não são tão desastrosas quanto poderiam ser, em  
primeiro lugar é porque na maioria dos incrédulos há mais bravata do que  
verdadeira incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque eles têm  
mais medo do nada do que querem parecer: o título de espírito forte lisonjeia  
seu amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos formam  
5 Aqui, Kardec aplicou um neologismo: néantisme, relativo ao termo francês néant = “nada”. — N. T.  
 
22 Allan Kardec  
uma ínfima minoria; eles se sujeitam a contragosto à influência da opinião  
contrária e são mantidos por uma força material. Mas, se a incredulidade  
absoluta se tornasse maioria, a sociedade entraria em dissolução. Eis para  
onde tende a propagação da doutrina do nadismo.6  
Quaisquer que sejam as suas consequências, se o nadismo fosse uma  
verdade, seria preciso aceitá-lo, e não seriam nem os sistemas contrários, nem  
a ideia do mal dele resultante, que poderiam fazer com que ele não existisse.  
Ora, não devemos esconder que o ceticismo, a dúvida e a indiferença ganham  
terreno a cada dia, malgrado os esforços da religião; isto é evidente. Se a  
religião é impotente contra a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa para  
combatê-la, de tal modo que se ela permanecesse na imobilidade, em pouco  
tempo ela estaria infalivelmente ultrapassada. O que lhe falta neste século de  
positivismo, em que se procura compreender antes de crer, é a sanção dessas  
doutrinas por meio de fatos patentes; falta também a concordância de certas  
doutrinas com os dados concretos da ciência. Se a doutrina diz branco e os  
fatos dizem preto, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.  
4. É nessa situação que o Espiritismo vem colocar um dique em oposição à  
invasão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela  
perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando  
a alma e a vida futura perceptíveis ao toque e à visão.  
Sem dúvidas, cada pessoa é livre na sua crença para acreditar em alguma  
coisa ou para não crer em nada; mas aqueles que procuram impor no meio da  
6
Um rapaz de 18 anos estava afetado por uma doença do coração declarada incurável. A ciência tinha  
dito: “Ele pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos, mas não irá além.” O jovem ficou sabendo  
disso; logo, ele abandonou os estudos e se entregou aos excessos de todo tipo. Quando lhe advertiam  
que uma vida desregrada era perigosa para a sua situação, ele respondia: Que me importa, já que não  
tenho mais do que dois anos de vida? De que me serviria fatigar o espírito? Eu aproveito do pouco que  
me resta e quero divertir-me até o fim. Eis a consequência lógica do nadismo.  
Se esse rapaz fosse espírita, ele teria dito: A morte só destruirá meu corpo, que deixarei como  
uma roupa gasta, mas o meu Espírito viverá sempre. Serei na minha vida futura aquilo que eu próprio  
tiver feito de mim nesta vida; nada do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais será  
perdido, porque será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda imperfeição de que me  
despojar será um passo a mais para a felicidade; minha ventura ou minha infelicidade futura depende  
da utilidade ou da inutilidade da minha existência atual. É, portanto, de meu interesse aproveitar o  
pouco tempo que me resta e evitar tudo que possa diminuir minhas forças.”  
Qual destas duas doutrinas é preferível?  
 
23 O Céu e o Inferno  
multidão sobretudo da juventude a negação do futuro, apoiando-se na  
autoridade do seu saber e na influência da sua posição, semeiam na sociedade  
os germes de perturbação e de dissolução, e incorrem em uma grande  
responsabilidade.  
5. Há uma outra doutrina que nega ser materialista, já que admite a existência  
de um princípio inteligente fora da matéria: esta é a doutrina da absorção no  
Todo Universal. Segundo esta doutrina, cada indivíduo em seu nascimento  
assimila uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e lhe dá a vida, a  
inteligência e o sentimento. Com a morte, esta alma retorna ao foco comum e  
se perde no infinito como uma gota d’água no oceano.  
Essa doutrina indubitavelmente é um passo avante sobre o materialismo  
puro, pois ela admite alguma coisa, ao passo que a outra não admite nada;  
mas as consequências são exatamente as mesmas. Que a pessoa seja  
mergulhada no nada ou no reservatório comum, é tudo a mesma coisa; se no  
primeiro caso ela é aniquilada, no segundo ela perde a sua individualidade;  
logo, é como se não existisse e todas as relações sociais se rompem para  
sempre. O essencial para a pessoa é a conservação do seu eu; sem isso, de que  
lhe importa existir ou não? O porvir para ela é sempre nulo e a vida presente é  
a única coisa que lhe interessa e lhe preocupa. Do ponto de vista das suas  
consequências morais, essa doutrina é tão perversa, tão desesperadora e tão  
estimuladora do egoísmo quanto o materialismo propriamente dito.  
6. Pode-se, além disso, fazer a objeção seguinte: todas as gotas dágua postas  
no oceano se assemelham e têm propriedades idênticas, como as partes de  
um mesmo conjunto; então, se as almas provêm do grande oceano da  
inteligência universal, por que elas se assemelham tão pouco? Por que há  
genialidade e há estupidez? Por que há as virtudes mais sublimes ao lado dos  
vícios mais ignóbeis? Por que há bondade, doçura e mansuetude assim como  
há maldade, crueldade e barbaria? Como as partes de um mesmo conjunto  
homogêneo podem ser tão diferentes umas das outras? Poderão dizer que é a  
educação que as modifica? Mas então, de onde vêm as qualidades inatas, as  
inteligências precoces, os instintos bons e maus, independentes de toda  
24 Allan Kardec  
educação e muitas vezes tão em desarmonia com o ambiente no qual se  
desenvolvem?  
A educação certamente modifica as qualidades intelectuais e morais da  
alma; porém, aqui se apresenta outra dificuldade: quem dá à alma a educação  
para fazê-la progredir? Outras almas, que por sua origem comum, não devem  
ser mais adiantadas. Por outro lado, a alma retornando ao Todo Universal de  
onde saiu, após ter progredido durante a vida, leva daí um elemento mais  
perfeito; disso se segue que esse conjunto, ao longo do tempo, devia se  
encontrar profundamente modificado e melhorado. Como é que desse  
conjunto pode sair incessantemente almas ignorantes e perversas?  
7. Nessa doutrina, a fonte universal de inteligência que fornece as almas  
humanas é independente da Divindade; não é precisamente o panteísmo. O  
panteísmo propriamente dito difere dessa doutrina porque ele considera o  
princípio universal da vida e da inteligência como constituindo a Divindade.  
Deus é ao mesmo tempo espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da  
natureza compõem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos  
constitutivos; Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada  
indivíduo, sendo uma parte do todo, também é o próprio Deus; nenhum ser  
superior e independente comanda o conjunto; o universo é uma imensa  
república sem chefe, ou melhor, onde cada um é chefe com poder absoluto.  
8. A esse sistema podem se opor numerosas objeções, cujas principais são  
estas: como a Divindade não pode ser concebida sem o infinito das perfeições,  
pergunta-se: como um conjunto perfeito pode ser formado de partes tão  
imperfeitas e tendo a necessidade de progredir? Estando cada parte  
submetida à lei do progresso, disso resulta que o próprio Deus deva  
progredir; se ele progride sem cessar, ele deveria ter sido muito imperfeito na  
origem dos tempos. Como um ser imperfeito, formado de vontades e de ideias  
tão divergentes, poderia conceber leis tão harmoniosas, tão admiráveis de  
unidade, de sabedoria e de previdência quais as que regem o universo? Se  
todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram com as leis da  
natureza; então como é que elas murmurem sem cessar contra essas leis, que  
25 O Céu e o Inferno  
seriam obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão  
com a condição de satisfazer a razão e de dar conta de todos os fatos que  
ela abrange; se um único fato lhe trouxer um desmentido, é que ela não  
está com a verdade absoluta.  
9. Do ponto de vista moral, as consequências são todas muito ilógicas. Em  
primeiro lugar é para as almas, tal como no sistema anterior, a absorção num  
todo e a perda da individualidade. Caso se admita que as almas conservem  
sua individualidade, segundo a opinião de alguns panteístas, Deus não tem  
mais vontade única; é um composto de incontáveis vontades divergentes.  
Depois, cada alma sendo parte integrante da Divindade, nenhuma é dominada  
por um poder superior; consequentemente, ela não incorre em nenhuma  
responsabilidade por suas boas ou más ações; ela não tem nenhum interesse  
na prática do bem e pode praticar o mal impunemente.  
10. Além do que esses sistemas não satisfazem nem a razão nem as  
aspirações do homem, neles nós encontramos, como se vê, dificuldades  
insuperáveis, porque eles são impotentes para realmente resolver todas as  
questões que levantam. O homem tem, portanto, três alternativas: o nada,  
a absorção ou a individualidade da alma antes e depois da morte. É para  
esta última crença que a lógica irresistivelmente nos leva; é essa crença  
também que formaram a base de todas as religiões desde que o mundo existe.  
Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, ela nos leva igualmente  
a esta outra consequência: a sorte de cada alma deve depender das suas  
qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do  
selvagem e a do homem perverso estivessem no mesmo nível da alma do  
cientista e do homem de bem. De acordo com a justiça, as almas devem ter a  
responsabilidade dos seus atos; todavia, para que elas sejam responsáveis, é  
preciso que elas sejam livres para escolher entre o bem e o mal; sem livre-  
arbítrio, há fatalidade, e com a fatalidade não poderia haver responsabilidade.  
11. Todas as religiões igualmente têm admitido o princípio do destino feliz ou  
infeliz da alma após a morte dito de outra forma, as penas e recompensas  
26 Allan Kardec  
porvindouras, que se resumem na doutrina do céu e do inferno encontrada  
em toda parte. Contudo, no que as religiões diferem essencialmente é sobre a  
natureza dessas penas e dessas recompensas, e principalmente sobre as  
condições que cada qual pode merecer. Daí os pontos de fé contraditórios que  
geraram a cultos diferentes e os deveres particulares impostos a cada um  
deles para honrar a Deus, e por esse meio ganhar o céu e evitar o inferno.  
12. Na sua origem, todas as religiões tiveram que se relacionar com o grau de  
adiantamento moral e intelectual dos homens; estes, bastante materializados  
para compreender o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram com  
que a maior parte dos deveres religiosos consistisse no cumprimento de  
fórmulas exteriores. Durante muito tempo, essas fórmulas foram suficientes  
para a razão deles; mais tarde, a luz adentrando no seu espírito, eles sentem o  
vazio que essas fórmulas deixam neles, e se a religião não preenche esse  
vazio, eles abandonam a religião e se tornam filósofos.  
13. Se a religião, apropriada no princípio aos conhecimentos limitados  
dos homens, sempre tivesse acompanhado o movimento progressivo do  
espírito humano, então não haveria incrédulos, porque está na própria  
natureza do homem a necessidade de crer, e ele acreditará se lhe derem  
um alimento espiritual em harmonia com as suas necessidades  
intelectuais. O homem quer saber de onde ele veio e para onde vai; se lhe  
mostrarem um objetivo que não corresponda aos seus anseios nem  
corresponda à ideia que ele faz de Deus, nem aos dados concretos que a  
ciência lhe fornece, e se, para atender a esse objetivo, lhe são impostas  
condições cuja utilidade sua razão não identifica, então ele rejeita tudo; o  
materialismo e o panteísmo lhe parecem ainda mais racionais, porque aqui se  
discute e se raciocina; raciocínio falso, é verdade, mas o homem prefere  
raciocinar em falso a não raciocinar absolutamente.  
Entretanto, se lhe apresentarem um futuro nas condições lógicas, digno  
em todos os sentidos da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus,  
então ele abandonará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo ele sente no  
seu interior, e que só tinha aceitado por falta de algo melhor. O Espiritismo  
27 O Céu e o Inferno  
oferece coisa melhor; é por isso que ele é acolhido rapidamente por todos  
aqueles atormentados pela incerteza pungente da dúvida e que não  
encontram nem nas crenças nem nas filosofias comuns o que eles procuram; o  
Espiritismo tem em si mesmo a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é  
por isso que ele é combatido inutilmente.  
14. O homem tem instintivamente a crença no futuro; mas, não possuindo até  
hoje nenhuma base certa para definir esse futuro, a sua imaginação tem  
criado sistemas que trouxeram a diversidade de crenças. A doutrina espírita  
com relação ao futuro não sendo uma obra de imaginação concebida mais  
ou menos engenhosamente, mas sim o resultado da observação dos fatos  
materiais que se desenrolam hoje sob os nossos olhos congregará, como  
ela já está fazendo, as opiniões divergentes ou dúbias, e trará pouco a pouco,  
pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, crença que não  
será mais baseada numa hipótese, mas numa certeza. A unificação com  
relação ao futuro destino das almas será o primeiro ponto de  
aproximação entre os diversos cultos, um passo imenso, primeiramente  
em direção à tolerância religiosa e, mais tarde, para a completa fusão.  
28 Allan Kardec  
CAPÍTULO II  
TEMOR DA MORTE  
Causas do temor da morte Por que os espíritas não temem a morte  
Causas do temor da morte  
1. O homem, seja qual for grau da escala a que pertença, desde o estado de  
selvageria, tem o sentimento inato do que há por vir; sua intuição lhe diz que  
a morte não é o último ato da existência e que aqueles por quem lamentamos  
não estão perdidos para sempre. A fé no futuro é intuitiva e infinitamente  
mais generalizada do que a crença no nada. Então, como é possível que, entre  
os que acreditam na imortalidade da alma, ainda há tanto apego às coisas da  
Terra e um medo tão grande da morte?  
2. O temor da morte é um efeito da sabedoria da Providência e uma  
consequência do instinto de conservação comum a todos os seres vivos. Ele é  
necessário enquanto o homem não estiver bastante esclarecido sobre as  
condições da vida futura, como contrapeso ao arrastamento que, sem esse  
freio, o levaria a deixar prematuramente a vida terrena e a negligenciar o  
trabalho neste mundo que deve servir para o seu próprio adiantamento.  
É por isso que, nos povos primitivos, o futuro não passa de uma vaga  
intuição, depois se torna uma simples esperança e mais tarde, finalmente,  
uma certeza embora ainda contrabalanceada por um secreto apego à vida  
corporal.  
3. À medida que o homem compreende melhor a vida vindoura, o receio da  
 
29 O Céu e o Inferno  
morte diminui e ao mesmo tempo, compreendendo melhor a sua missão  
terrena, ele espera o término desta missão com mais calma, resignação e  
despreocupação. A certeza da vida futura lhe dá outra direção às suas ideias,  
outro propósito às suas atividades; antes de ter essa certeza ele só trabalha  
para a vida atual; depois dessa certeza, ele trabalha com vistas ao futuro sem  
se descuidar do presente, porque sabe que o seu destino depende da direção  
mais ou menos boa ou má que ele der à vida presente. A certeza de  
reencontrar seus amigos após a morte, de continuar as relações que teve na  
Terra, de não perder o fruto de nenhum trabalho, de crescer sem cessar em  
inteligência e em perfeição, dá a ele a paciência para esperar e a coragem para  
suportar as fadigas momentâneas da vida terrestre. A solidariedade que ele vê  
se estabelecer entre os mortos e os vivos faz o homem compreender a  
solidariedade que deve existir entre os vivos; desde então, a fraternidade tem  
sua razão de ser e a caridade tem um objetivo no presente e no futuro.  
4. Para se libertar da apreensão da morte é preciso poder encará-la sob o seu  
verdadeiro ponto de vista, quer dizer, ter penetrado através do pensamento  
no mundo espiritual e dele ter feito uma ideia tão exata quanto possível, o que  
denota da parte do Espírito encarnado um certo desenvolvimento e uma  
aptidão para se desgarrar da matéria. Para aqueles que não estão  
suficientemente avançados, a vida material tem mais importância do que a  
vida espiritual.  
Apegando-se às aparências, o homem não vê além da vida no corpo,  
enquanto a vida real está na alma; o corpo sendo privado da vida, tudo aos  
seus olhos parece perdido e ele se desespera. Se, ao contrário de concentrar  
seu pensamento na vestimenta exterior ele se dirigisse à própria fonte da vida  
que é a alma, o ser real sobrevivente a tudo então ele se preocuparia  
menos com o corpo, que é a fonte de tantas misérias e dores; mas para isso, é  
preciso uma força que o Espírito só adquire com a maturidade.  
Portanto, o temor da morte decorre da noção insuficiente sobre a vida  
futura; ele também denota a necessidade de viver e o receio de que a  
destruição do corpo seja o fim de tudo; sendo assim, esse temor é provocado  
pelo desejo oculto da sobrevivência da alma, ainda velado pela incerteza.  
30 Allan Kardec  
Essa apreensão se enfraquece à medida que a convicção aumenta; ela  
desaparece quando esta convicção é completa.  
Eis aqui o lado providencial da questão. Era prudente não deslumbrar o  
homem, cuja razão ainda não estava forte o bastante para suportar a  
perspectiva muito positiva e atraente de um futuro que o teria feito  
negligenciar o presente necessário para o seu avanço material e intelectual.  
5. Tal situação é mantida e prolongada por causas puramente humanas, que  
desaparecerá com o progresso. A primeira dessas causas é o aspecto sob o  
qual a vida futura é apresentada, aspecto que poderia ser suficiente para as  
inteligências pouco desenvolvidas, mas que não conseguiria satisfazer às  
exigências da razão dos homens que refletissem. Por conta disso eles  
dizem quando alguém nos apresenta como verdades absolutas princípios  
contrariados pela lógica e pelos dados concretos da ciência, significa que eles  
não são verdadeiros. A partir daí, em alguns surge a incredulidade, e em  
grande número uma crença misturada com a dúvida. Para estes, a vida futura  
é uma ideia vaga, mais uma probabilidade do que uma convicção absoluta;  
eles acreditam nela, gostariam que fosse assim, mas apesar de tudo eles se  
questionam: E se não for desse jeito? Já que o presente é real, vamos nos  
ocupar primeiro com ele; o futuro virá por acréscimo.  
Além disso eles se dizem o que realmente é a alma? É um ponto,  
um átomo, uma faísca, uma chama? Como ela se sente? Como ela vê? Como ela  
percebe as coisas? Para eles, a alma não é mais uma realidade efetiva; ela é  
uma abstração. Os entes queridos reduzidos ao estado de átomo no seu  
modo de pensar estão por assim dizer perdidos para eles, e não têm mais a  
seus olhos as qualidades que os fizeram amá-los; eles não compreendem nem  
o amor de uma faísca nem o amor que podemos ter por ela, e eles mesmos  
ficam mediocremente satisfeitos de serem transformados em mônadas. Daí o  
retorno ao positivismo da vida terrena, que possui algo de mais substancial. O  
número de pessoas dominadas por esses pensamentos é considerável.  
6. Outra causa que liga as pessoas às coisas da Terra mesmo aquelas  
pessoas que creem mais firmemente na vida futura tem a ver com a  
31 O Céu e o Inferno  
impressão que elas conservam do ensinamento que lhes foi dado desde a  
infância.  
O quadro que a religião pinta a respeito disso, convenhamos, não é muito  
atraente, nem tampouco consolador. Por um lado, vemos as contorções de  
condenados que expiam nas torturas e nas labaredas sem fim seus erros  
momentâneos; para quem os séculos sucedem os séculos, sem esperança de  
abrandamento ou de piedade e o que é ainda mais impiedoso para quem  
o arrependimento é ineficaz. Por outro lado, as almas lânguidas e sofredoras  
do purgatório aguardam a sua libertação mediante a boa vontade dos vivos  
que rezarem ou providenciarem para que alguém reze por elas e não pelos  
seus próprios esforços para progredir. Estas duas categorias compõem a  
imensa maioria da população do outro mundo. Acima delas paira a categoria  
muito restrita dos eleitos, gozando durante a eternidade de uma beatitude  
contemplativa. Esta inutilidade eterna preferível ao nada, sem dúvida —  
não deixa de ser uma tediosa monotonia. É assim que, nas pinturas que  
retratam os bem-aventurados, vemos as figuras angélicas transparecendo  
mais o tédio do que a verdadeira felicidade.  
Essa situação não atende nem às aspirações nem à ideia instintiva de  
progresso, que parece ser a única compatível com a felicidade absoluta. É  
difícil imaginar que o selvagem ignorante, de senso moral obtuso, só por ter  
recebido o batismo, esteja no mesmo nível de quem alcançou o mais alto grau  
de ciência e de moralidade prática após longos anos de trabalho. É ainda  
menos concebível que uma criança morta em tenra idade antes de ter  
consciência de si mesma e de suas ações desfrute dos mesmos privilégios,  
simplesmente pelo ato de uma cerimônia da qual a sua vontade não tem  
nenhuma participação. Estas ideias não deixam de abalar os mais fervorosos,  
por pouco que eles meditem.  
7. Caso se considere que o trabalho progressivo que se realiza neste mundo  
não tenha nenhuma relação com a felicidade futura, a facilidade com que eles  
acreditam adquirir essa ventura por meio de algumas práticas exteriores, e  
até mesmo a possibilidade de comprá-la com dinheiro, sem qualquer  
reformulação séria do caráter e dos costumes, deixam aos prazeres do mundo  
32 Allan Kardec  
todo o seu valor. Muitos crentes se dizem no seu íntimo que, uma vez que seu  
futuro já está assegurado através do cumprimento de determinadas fórmulas,  
ou por doações póstumas que não os privam de nada, então seria  
desnecessário impor a si mesmo sacrifícios ou incômodos quaisquer em  
benefício dos outros, pois podemos alcançar a salvação trabalhando cada um  
por si.  
Seguramente, este não é o pensamento de todos, pois há grandes e belas  
exceções; mas ninguém pode negar que esse seja o pensamento da maioria,  
sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a ideia que se faz das  
condições para sermos felizes no outro mundo não alimente o apego aos bens  
terrenos e, consequentemente, o egoísmo.  
8. Acrescentemos a isso que tudo nos costumes contribui para fazer a pessoa  
sentir saudades da vida terrena e temer a passagem da Terra para o céu. A  
morte é toda cercada de cerimônias lúgubres que mais apavoram do que  
provocam esperança. Quando apresentam a morte, é sempre com um aspecto  
repulsivo e nunca como sono de transição; todos os seus emblemas recordam  
a destruição do corpo, mostrando-o horrível e descarnado; nenhum deles  
simboliza a alma se desprendendo radiosa das amarras terrenas. A partida  
para esse mundo mais feliz só é acompanhada pelo lamento dos  
sobreviventes, como se a maior desgraça tivesse chegado para aqueles que se  
foram; todos lhes dão um eterno adeus como se jamais fossem revê-los. O que  
se lastima por eles é a perda dos prazeres deste mundo, como se os falecidos  
não pudessem encontrar ainda outros melhores. Que desgraça dizem as  
pessoas morrer quando se é jovem, rico, feliz e tendo diante de si um  
futuro brilhante! A ideia de uma condição mais venturosa mal passa pelo  
pensamento, porque não há raízes. Desse modo, tudo colabora para inspirar o  
terror da morte, em lugar de fazer brotar a esperança. Com certeza o homem  
levará muito tempo para se desfazer desses preconceitos; mas ele o fará, na  
medida em que a sua fé se fortaleça e que ele faça uma ideia mais sensata da  
vida espiritual.  
9. Ademais, a crença comum põe as almas nas regiões pouco acessíveis ao  
33 O Céu e o Inferno  
pensamento, onde de alguma maneira elas se tornam estranhas aos  
sobreviventes; a própria Igreja coloca entre umas e outras uma barreira  
intransponível: ela declara que todas as relações estão interrompidas e que é  
impossível qualquer comunicação. Se as almas estiverem no inferno, toda a  
esperança de as rever está perdida para sempre, a menos que se vá para lá; se  
estiverem entre os eleitos, estarão inteiramente concentradas em sua  
beatitude contemplativa. Tudo isso estabelece entre mortos e vivos uma  
distância tal que se considera a separação como eterna; eis por que as pessoas  
preferem ter os entes queridos junto de si mesmas, ainda que sofrendo na  
Terra, a vê-los partir, mesmo que fosse para o céu. Ora, a alma que estivesse  
no céu estaria realmente feliz vendo, por exemplo, seu filho, seu pai, sua mãe  
ou seus amigos se queimando eternamente?  
Por que os espíritas não temem a morte  
10. A doutrina espírita modifica completamente a maneira de encararmos o  
porvir. A vida futura deixa de ser uma hipótese e se torna uma realidade; a  
situação das almas após a morte não é mais uma teoria, mas sim o resultado  
da observação. O véu é erguido; o mundo espiritual nos aparece em toda sua  
realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de  
uma concepção engenhosa, mas os próprios habitantes desse mundo que vêm  
nos descrever a sua situação; nós aí os vemos em todos os graus da escala  
espiritual, em todas as fases da felicidade e da infelicidade; nós assistimos a  
todas as peripécias da vida de além-túmulo. Esta é para os espíritas a causa da  
calma com a qual eles encaram a morte, a causa da serenidade dos seus  
derradeiros instantes na Terra. Aquilo que os sustenta não é meramente a  
esperança, mas a certeza, pois eles sabem que a vida futura não é mais do que  
a continuação da vida presente em melhores condições, e então a aguardam  
com a mesma confiança com que aguardariam o nascer do Sol após uma noite  
de tempestade. Os motivos dessa confiança consistem nos fatos dos quais eles  
são testemunhas e na concordância desses fatos com a lógica, a justiça e a  
bondade de Deus, além das aspirações íntimas do homem.  
34 Allan Kardec  
Para os espíritas, a alma não é mais uma abstração; ela tem um corpo  
etéreo, que dela faz um ser definido, o pensamento abraça e concebe o que  
já é o bastante para fixar as ideias sobre a sua individualidade, suas aptidões e  
suas percepções.7 A lembrança das pessoas queridas repousa sobre alguma  
coisa real. Não mais os representamos como chamas fugazes que nada  
significam para o pensamento, mas sim sob uma forma concreta que os  
mostre melhor para nós como seres viventes. Logo, em vez de estarem  
perdidos nas profundezas do espaço, eles estão à nossa volta; o mundo  
corpóreo e o mundo espiritual estão em perpétuas relações e se ajudam  
mutuamente. Não mais sendo permitida a dúvida sobre o porvir, a apreensão  
da morte perde a sua razão de ser; vê-se a morte se aproximar a sangue-frio,  
como uma libertação, como a porta da vida e não como a porta do nada.  
7 A este corpo etéreo, o Espiritismo dá o nome de perispírito. N. T.  
 
35 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO III  
O CÉU  
1. A palavra céu é dita, em geral, para designar o espaço indefinido que  
envolve a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso  
horizonte; ela vem do latim cœelum, formada do grego coïlos, oco, côncavo,  
porque o céu parece aos nossos olhos uma imensa concavidade. Os antigos  
acreditavam na existência de vários céus superpostos, constituídos de uma  
matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas das quais a  
Terra era o centro. Girando em torno da Terra, essas esferas arrastavam  
consigo os astros que se encontravam na sua direção.  
Essa ideia, decorrente da insuficiência dos conhecimentos astronômicos,  
foi a de todas as teogonias que fizeram dos céus, assim escalonados, os  
diversos graus da beatitude; o último deles seria a morada da suprema  
felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus; daí a expressão:  
Estar no sétimo céu, para expressar uma perfeita ventura. Os muçulmanos  
admitem nove céus e em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos  
crentes. O astrônomo Ptolomeu8 contava onze, sendo que o último era  
chamado Empíreo,9 por causa da luz ofuscante que nele reina. Ainda hoje, este  
é um nome poético dado ao lugar da glória eterna. A teologia cristã reconhece  
três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo é o espaço  
onde se movem os astros; o terceiro, para além da região dos astros, é a  
morada do Altíssimo, a região dos eleitos que contemplam Deus face a face. É  
segundo esta crença que se diz que são Paulo foi elevado ao terceiro céu.  
8 Ptolomeu viveu em Alexandria, no Egito, no segundo século da Era Cristã.  
9 Do grego pur ou pyr: fogo.  
     
36 Allan Kardec  
2. As diferentes doutrinas referentes à morada dos bem-aventurados se  
fundamentam, todas elas, no duplo erro de que a Terra seja o centro do  
Universo e que a região dos astros é limitada. É para além desse limite  
imaginário que todas as doutrinas têm colocado essa estância afortunada e a  
morada do Todo-Poderoso. Estranha anomalia que coloca o autor de todas as  
coisas aquele que governa tudo nos confins da criação, ao invés do  
centro, de onde a irradiação do seu pensamento poderia se estender a tudo!  
3. A ciência com a inexorável lógica dos fatos e da observação levou sua  
tocha até as profundezas do espaço e mostrou a nulidade de todas essas  
teorias. A Terra não é mais o eixo do Universo, mas apenas um dos menores  
astros rolando na imensidão; o próprio Sol não é mais do que o centro de um  
turbilhão planetário; as estrelas são inumeráveis sóis em torno dos quais  
orbitam mundos incontáveis, separados por distâncias pouco acessíveis ao  
pensamento, embora nos pareça que elas se tocam. Nesse conjunto grandioso,  
regido por leis eternas, em que se revelam a sabedoria e a onipotência do  
Criador, a Terra parece apenas um ponto imperceptível e um dos menos  
favorecidos para a habitabilidade. Desde então, perguntamos: por que Deus  
teria feito da Terra a única sede da vida e nela teria relegado as suas criaturas  
prediletas? Tudo, ao contrário, demonstra que a vida está por toda parte, que  
a humanidade é infinita como o Universo. Já que a ciência nos revelou mundos  
semelhantes à Terra, Deus não podia tê-los criado sem objetivo; ele deve ter  
povoado esses mundos de seres capazes de os governar.  
4. As ideias do homem são proporcionais ao que ele sabe; como todas as  
descobertas importantes, a da constituição dos mundos deve ter dado a ele  
outro rumo. Sob a influência desses novos conhecimentos, as crenças tiveram  
que se modificar: o céu foi deslocado; a região das estrelas, sendo ilimitada,  
não mais pode lhe servir. Onde ele está? Diante desta questão todas as  
religiões ficam mudas.  
O Espiritismo vem resolver essa questão demonstrando o verdadeiro  
destino do homem. Tomando a natureza deste último e os atributos de Deus  
como ponto de partida, chegamos a uma conclusão; quer dizer, partindo do  
37 O Céu e o Inferno  
conhecido chegamos ao desconhecido por uma dedução lógica, sem falar das  
observações diretas que o Espiritismo nos permite fazer.  
5. O homem é composto de corpo e Espírito; o Espírito é o ser principal, o ser  
racional, o ser inteligente; o corpo é o envoltório material que reveste o  
Espírito temporariamente, para o cumprimento de sua missão na Terra e a  
execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. O corpo, gasto, se  
destrói, e o Espírito sobrevive à destruição do corpo. Sem o Espírito, o corpo  
não passa de uma matéria inerte, como um instrumento privado do braço que  
o faz agir; sem o corpo, o Espírito é tudo: a vida e a inteligência. Ao deixar o  
corpo, ele retorna ao mundo espiritual, de onde havia saído para reencarnar.  
Portanto, há o mundo corporal, composto de Espíritos encarnados, e o  
mundo espiritual, formado de Espíritos desencarnados. Devido ao seu  
próprio envoltório material, os seres do mundo corporal estão vinculados à  
Terra ou a um globo qualquer; o mundo espiritual existe em toda parte, em  
torno de nós e no espaço; nenhum limite lhe é assinalado. Em razão da  
natureza fluídica de seu envoltório, os seres que o compõem, em vez de se  
arrastarem penosamente sobre o solo, atravessam as distâncias com a rapidez  
do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retinham  
cativos.  
6. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com a aptidão para  
adquirir tudo e para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo  
progresso eles alcançam novos conhecimentos, novas faculdades, novas  
percepções e, por conseguinte, novos contentamentos desconhecidos dos  
Espíritos inferiores; eles veem, escutam, sentem e compreendem aquilo que  
os Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem sentir, nem  
compreender. A felicidade é proporcional ao progresso realizado, de  
maneira que, entre dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o  
outro, unicamente por não estar tão avançado intelectual e moralmente,  
sem que eles precisem estar cada qual em um lugar diferente. Mesmo  
estando um ao lado do outro, um pode estar nas trevas ao passo que tudo  
resplandece ao redor do outro, exatamente como ocorre com um cego e um  
38 Allan Kardec  
vidente que se dão as mãos: um percebe a luz, a qual não causa nenhuma  
impressão ao seu vizinho. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às  
qualidades que possuem, então eles a colhem em toda parte onde  
estiverem seja na superfície da Terra, no meio dos encarnados ou no  
espaço.  
Uma comparação simples fará compreender melhor ainda esta situação.  
Se num concerto musical estiverem dois homens, um deles bom músico e com  
ouvido treinado, o outro sem conhecimento de música e com audição pouco  
delicada, o primeiro experimentará uma sensação de felicidade, enquanto o  
segundo ficará insensível, porque um compreende e percebe aquilo que não  
causa nenhuma impressão no outro. Assim acontece com todos os gozos dos  
Espíritos, que estão na proporção da capacidade de senti-los. O mundo  
espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os  
Espíritos inferiores, ainda sujeitos à influência da matéria, nem sequer  
entreveem, e que não estão acessíveis senão aos Espíritos depurados.  
7. O progresso nos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho; mas como são  
livres, eles trabalham para o seu adiantamento com maior ou menor atividade  
ou negligência, segundo a vontade deles; sendo assim, eles adiantam ou  
retardam seu progresso e, como consequência, a própria felicidade. Enquanto  
uns avançam rapidamente, outros se demoram por longos séculos nas faixas  
inferiores. São eles, pois, os próprios artífices da sua situação, feliz ou infeliz,  
conforme esta fala do Cristo: “A cada um segundo as suas obras!” Todo  
Espírito que ficar em atraso não pode culpar senão a si mesmo, assim como  
quem avança tem todo o seu mérito; a felicidade que ele conquistou tem ainda  
mais valor aos seus olhos.  
A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos, ou  
seja, pelos Espíritos puros. Eles não a alcançam antes de terem progredido em  
inteligência e em moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral  
raramente marcham juntos, mas aquilo que o Espírito não realiza numa etapa  
ele o faz em outra, de maneira que os dois progressos acabam por atingir o  
mesmo nível. Essa é a razão pela qual vemos frequentemente homens  
inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente, e vice-versa.  
39 O Céu e o Inferno  
8. A encarnação é necessária para o duplo progresso moral e intelectual do  
Espírito: para o progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a  
desempenhar no trabalho; para o progresso moral, pela necessidade de que  
os homens têm uns dos outros. A vida social é o critério determinante das  
boas ou más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a  
benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a  
sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em suma, tudo o  
que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motivação, por  
alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o  
homem que vivesse isolado não haveria nem vícios nem virtudes; se pelo  
isolamento ele se preserva do mal, ele também anula o bem.  
9. Uma só existência corporal é claramente insuficiente para que o Espírito  
possa adquirir todo o bem que lhe falta e para se desfazer de todo aquilo que  
é mau dentro dele. Como poderia, por exemplo, o selvagem alcançar numa  
única encarnação o nível moral e intelectual de um europeu mais avançado?  
Isso é materialmente impossível. Deve ele, pois, permanecer eternamente na  
ignorância e barbaria, privado das satisfações que só o desenvolvimento das  
faculdades lhe pode proporcionar? O simples bom senso rejeita tal suposição,  
que seria a negação da justiça e da bondade de Deus, ao mesmo tempo que a  
negação da lei progressiva da natureza. Eis por que Deus que é  
soberanamente justo e bom concede ao Espírito do homem quantas  
existências forem necessárias para chegar ao seu objetivo, que é a perfeição.  
Em cada nova existência, o Espírito traz consigo aquilo que adquiriu nas  
precedentes, tanto em aptidões quanto em conhecimentos intuitivos, em  
inteligência e em moralidade. Assim, cada existência é um passo adiante no  
caminho do progresso.10  
A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos; ela deixa de ser  
necessária àqueles que completaram seu curso e progrediram para o estado  
espiritual, ou para as existências corpóreas em mundos superiores, que nada  
mais têm da materialidade terrena. Para estes, a encarnação é voluntária e  
tem como finalidade exercer sobre os encarnados uma ação mais direta para  
10 Veja a nota do cap. I, item 8, nota 1.  
 
40 Allan Kardec  
o cumprimento da missão de que estão encarregados junto a eles; tais  
Espíritos aceitam as vicissitudes e os sofrimentos da vida por devotamento.  
10. No intervalo das existências corporais o Espírito retorna ao mundo  
espiritual por um tempo mais ou menos longo, onde é feliz ou infeliz  
conforme o bem ou o mal que tenha feito. O estado espiritual é o estado  
normal do Espírito, já que esse deve ser o seu estado definitivo e que o corpo  
espiritual não morre; o estado carnal é apenas transitório e passageiro. É no  
estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso  
realizado pelo seu trabalho durante a encarnação; é também nesse estado que  
ele se prepara para novas lutas e toma as resoluções que se esforçará para  
pôr em prática no seu retorno à humanidade.  
O Espírito progride igualmente na erraticidade; lá ele adquire  
conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra; aí suas ideias se  
modificam. O estado corporal e o estado espiritual constituem para ele a fonte  
de dois gêneros de progresso solidários entre si; é por isso que ele passa  
alternadamente por esses dois modos de existência.  
11. A reencarnação pode ocorrer na Terra ou em outros mundos. Entre os  
mundos, há alguns mais desenvolvidos do que outros, onde a existência se  
desenrola em condições menos penosas do que na Terra, física e moralmente,  
mas onde não são admitidos senão Espíritos que chegaram a um grau de  
perfeição relativo ao estado desses mundos.  
A vida nos mundos superiores já é uma recompensa, pois neles fica-se  
isentos dos males e das vicissitudes a que estamos expostos aqui na Terra. Os  
corpos de lá menos materiais, quase fluídicos não estão sujeitos nem às  
moléstias, nem às enfermidades, nem às mesmas necessidades. Estando  
excluídos deles os Espíritos maus, as pessoas vivem em paz, sem outra  
preocupação além daquela de seu avanço através do trabalho intelectual. Lá  
reina a verdadeira fraternidade, porque não existe egoísmo; reina a  
verdadeira igualdade, porque não há orgulho; reina a verdadeira liberdade,  
porque não há desordens a reprimir, nem ambiciosos procurando oprimir o  
fraco. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos; são  
etapas na rota do progresso que conduzem ao estado definitivo. Sendo a Terra  
41 O Céu e o Inferno  
um mundo inferior destinado à depuração dos Espíritos imperfeitos, esta é a  
razão pela qual o mal aqui predomina, até que agrade a Deus fazer dela uma  
morada de Espíritos mais avançados.  
É assim que o Espírito, progredindo gradualmente à medida que se  
desenvolve, chega ao apogeu da felicidade; todavia, antes de ter atingido o  
ponto culminante da perfeição, ele saboreia uma felicidade relativa ao seu  
adiantamento. A criança desfruta dos prazeres da infância, mais tarde os da  
juventude, e finalmente os mais substanciais, da idade madura.  
12. A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na ociosidade  
contemplativa, que seria como temos dito tantas vezes uma eterna e  
fastidiosa inutilidade. A vida espiritual em todos os seus graus é, ao contrário,  
uma constante atividade, mas uma atividade isenta de fadigas. A suprema  
alegria consiste na satisfação de todos os esplendores da criação, que  
nenhuma linguagem humana seria capaz de descrever, que a imaginação mais  
fecunda jamais poderia conceber; consiste no conhecimento e na penetração  
de todas as coisas; na ausência de qualquer sofrimento físico e moral; numa  
satisfação íntima, uma serenidade de alma inalterável; no amor puro que une  
todos os seres, por causa da ausência de todo atrito devido ao contato dos  
maus e, acima de tudo, na contemplação de Deus e na compreensão dos seus  
mistérios revelados aos mais dignos. Essa felicidade também está nas funções  
das quais é um prazer estar encarregado. Os Espíritos puros são os Messias ou  
mensageiros de Deus para a transmissão e execução das suas vontades; eles  
cumprem as grandes missões, presidem a formação dos mundos e a harmonia  
geral do universo, encargo glorioso ao qual não se chega senão pela perfeição.  
Os Espíritos da ordem mais elevada são os únicos nos segredos de Deus,  
inspirando-se no seu pensamento, de que são os representantes diretos.  
13. As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu adiantamento, às  
luzes que possuem, às suas capacidades, à sua experiência e o grau de  
confiança que inspiram ao soberano Mestre. Aí, nada de privilégios, nada de  
favores que não sejam o prêmio do mérito: tudo é medido conforme a estrita  
justiça. As missões mais importantes são confiadas somente àqueles que Deus  
42 Allan Kardec  
sabe que estão aptos a cumpri-las e incapazes de fracassar ou de as  
comprometer. Ao passo que, sob o olhar de Deus, os mais dignos compõem o  
supremo conselho, aos chefes superiores é atribuída a direção de turbilhões  
planetários; a outros é conferida a direção de mundos especiais. Vêm em  
seguida, pela ordem de adiantamento e da subordinação hierárquica, as  
atribuições mais restritas daqueles Espíritos que são responsáveis pela  
marcha dos povos, pela proteção das famílias e dos indivíduos, pela impulsão  
de cada ramo de progresso, pelas diversas operações da natureza até os mais  
ínfimos detalhes da criação. Neste vasto e harmonioso conjunto há ocupações  
para todas as capacidades, todas as aptidões e todas as boas vontades;  
ocupações aceitas com júbilo, solicitadas com ardor, porque é um meio de  
avanço para os Espíritos que desejam se elevar.  
14. Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há outras  
em todos os graus de importância, concedidas a Espíritos de todas as classes;  
disso podemos afirmar que cada encarnado tem a sua, ou seja, deveres a  
cumprir, para o bem dos seus semelhantes, desde o pai de família a quem  
incumbe o cuidado para fazer seus filhos progredirem, até o homem de gênio  
que lança na sociedade novos elementos de progresso. É nessas missões  
secundárias que se encontra tantos desfalecimentos, prevaricações e  
renúncias mas que só prejudicam ao indivíduo, e não ao conjunto.  
15. Portanto, todas as inteligências concorrem para a obra geral, qualquer  
que seja o grau a que tenham chegado, e cada qual na medida de suas forças;  
umas no estado de encarnação, outras no estado de Espírito. Em toda parte há  
atividade, desde a base até o topo da escala, todos se instruindo, ajudando uns  
aos outros, prestando mútuo apoio e estendendo as mãos entre si para  
alcançarem o ápice.  
Estabelece-se assim a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo  
corporal, isto é, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos livres e os  
Espíritos cativos. Desta forma se perpetuam e se consolidam, pela depuração  
e continuidade dos relacionamentos, as verdadeiras simpatias, as mais santas  
afeições.  
43 O Céu e o Inferno  
Por toda parte, pois, há vida e movimento; não há nenhum recanto do  
infinito que não seja povoado, nenhuma região que não seja incessantemente  
percorrida por legiões inumeráveis de seres radiantes, invisíveis aos sentidos  
grosseiros dos encarnados, mas cuja vista encanta de admiração e de alegria  
as almas libertas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa  
a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos; cada um carrega consigo  
os elementos de sua ventura, em virtude da categoria em que seu grau de  
adiantamento o coloca.  
A felicidade deriva das qualidades próprias dos indivíduos, e não do  
estado material do ambiente onde se encontram; ela existe, portanto, em toda  
parte onde haja Espíritos capazes de serem felizes; não há nenhum lugar no  
universo específico para eles. Em qualquer lugar onde estejam, os Espíritos  
puros podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.  
16. No entanto, a felicidade não é pessoal; se a possuíssemos somente em nós  
mesmos, se não pudéssemos compartilhá-la com os outros, ela seria egoísta e  
triste. Ela também está na comunhão de pensamentos que une os seres  
simpáticos. Os Espíritos felizes, atraídos uns aos outros pela similaridade de  
ideias, de gostos e de sentimentos, formam vastos grupos ou famílias  
homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia suas próprias  
qualidades e se enche dos eflúvios serenos e benéficos que emanam do  
conjunto, cujos membros ora se dispersam para se dedicarem às suas  
missões, ora se congregam em algum do espaço para compartilharem os  
resultados de seus trabalhos, ora se reúnem em torno de um Espírito de uma  
ordem mais elevada para receberem dele conselhos e instruções.  
17. Se bem que os Espíritos estejam por todo lado, os mundos são lares onde  
eles se reúnem preferencialmente, em razão da analogia que existe entre eles  
e aqueles que os habitam. No derredor dos mundos avançados é farta a  
presença de Espíritos superiores; já no derredor dos mundos atrasados,  
sobram Espíritos inferiores. A Terra ainda é um desses mundos atrasados.  
Então, cada globo tem, de alguma forma, sua população própria de Espíritos  
encarnados e desencarnados, que se preenche em sua maioria pela  
44 Allan Kardec  
encarnação e desencarnação dos mesmos Espíritos. Essa população é mais  
estável nos mundos inferiores, onde os Espíritos estão mais apegados à  
matéria, e mais variada nos mundos superiores. Contudo, a partir dos  
mundos, centros de luz e felicidade, os Espíritos se desprendem rumo a  
mundos inferiores para neles semearem os germes do progresso, levar até  
eles a consolação e a esperança, levantar os ânimos abatidos pelas provações  
da vida e algumas vezes lá encarnarem para cumprir a sua missão com mais  
eficácia.  
18. Nessa imensidão sem fronteiras, onde está o céu? Ele está em toda parte;  
nenhum recinto lhe serve como limite. Os mundos felizes são as últimas  
estações que a ele conduz; as virtudes lhe abrem o caminho e os vícios  
interditam o acesso a eles.  
Ao lado desse quadro grandioso, que povoa todos os recantos do  
Universo e que dá a todas as coisas da criação um propósito e uma razão de  
ser, quão pequena e mesquinha é a doutrina que circunscreve a humanidade  
num ponto imperceptível do espaço, que nos mostra que ela começa num  
determinado instante para um dia acabar igualmente com o mundo que a  
carrega, não abrangendo assim mais do que um minuto na eternidade! Como  
ela é triste, fria e glacial quando nos mostra o resto do Universo antes,  
durante e depois da humanidade terrena, sem vida, sem movimento, igual a  
um imenso deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora essa  
doutrina, pelo retrato que ela faz de um pequeno número de eleitos  
devotados à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é  
condenada a sofrimentos sem fim! Como ela é perversa para os corações que  
amam, pela barreira que ela interpõe entre os mortos e os vivos! As almas  
felizes diz-se não pensam além da sua própria felicidade; aquelas que  
são infelizes, só pensam nas suas dores. É de se admirar que o egoísmo reine  
na Terra, já que ele é mostrado no céu? Quão estreita é então a ideia que ela  
faz da grandeza, do poder e da bondade de Deus!  
Como é sublime, ao contrário, a ideia de que o Espiritismo nos dá do céu!  
Quanto a sua doutrina engrandece as ideias e alarga o pensamento! Mas  
quem diz que ela é verdadeira? Primeiramente a razão, em seguida a  
45 O Céu e o Inferno  
revelação, depois, a sua concordância com o progresso da ciência. Entre duas  
doutrinas, em que das quais uma reduz e a outra expande os atributos de  
Deus; em que uma está em desacordo e a outra está em harmonia com o  
progresso; em que uma fica para trás e a outra marcha para frente, o bom  
senso diz de que lado está a verdade. Que diante dessas duas doutrinas, cada  
pessoa interrogue no seu íntimo as suas aspirações e uma voz íntima lhe  
responderá. As aspirações são a voz de Deus, que não pode enganar os  
homens.  
19.11 Mas então, por que Deus não lhes revelou desde o princípio toda a  
verdade? Pela mesma razão que não se ensina na infância o que é ensinado na  
idade madura. A revelação limitada foi suficiente durante um certo período da  
humanidade: Deus a proporciona conforme as capacidades do Espírito.  
Aqueles que recebem hoje uma revelação mais completa são os mesmos  
Espíritos que já tinham recebido uma parte dela em outros tempos, mas que  
desde então cresceram em inteligência.  
Antes que a ciência tivesse revelado aos homens as forças vivas da  
natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel e a formação da Terra,  
será que eles poderiam ter compreendido a imensidão do espaço e a  
pluralidade dos mundos? Antes que a geologia tivesse comprovado a  
formação da Terra, será que os homens poderiam ter desalojado o inferno das  
suas entranhas e ter compreendido o sentido alegórico dos seis dias da  
criação? Antes que a astronomia tivesse descoberto as leis que regem o  
universo, será que eles poderiam ter compreendido que não há alto nem  
baixo no espaço e que o céu não está nem acima das nuvens nem limitado  
pelas estrelas? Antes do progresso da ciência psicológica, será que eles  
poderiam ter se identificado com a vida espiritual? Teriam concebido, depois  
da morte, uma vida feliz ou infeliz, a não ser num lugar específico e sob uma  
forma física? Não; compreendendo mais pelos sentidos do que pelo  
pensamento, o Universo era vasto demais para o cérebro deles; foi preciso  
reduzi-lo a proporções menos extensas para colocá-lo ao alcance deles, até  
11  
Na obra original, este item foi equivocadamente numerado como sendo o 17, retrocedendo a  
contagem; nesta tradução, seguimos a ordem lógica e o assinalamos item 19. N. T.  
 
46 Allan Kardec  
que fosse ampliado posteriormente. Uma revelação parcial tinha sua  
utilidade; ela era sábia naquela época e é insuficiente hoje. O erro está  
naqueles que, não se dando conta do progresso das ideias, acham que podem  
governar as pessoas maduras com as limitações da infância. (Veja O  
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.)  
47 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO IV  
O INFERNO  
Intuição das penas futuras  
O inferno cristão imitado do inferno pagão Os limbos –  
Descrição do inferno pagão Descrição do inferno cristão  
Intuição das penas futuras  
1. Em todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida futura  
devia ser feliz ou infeliz, por conta do bem e do mal que se faz neste mundo;  
só que, a ideia que faz disso está relacionada com o desenvolvimento de seu  
senso moral e com as noções mais ou menos justas que ele tem acerca do bem  
e do mal; as penas e recompensas são o reflexo dos seus instintos  
predominantes. É assim que os povos guerreiros colocam sua suprema  
felicidade nas honras concedidas à bravura; que os caçadores colocam na  
abundância da caça; que os sensuais, nas delícias da volúpia. Enquanto o  
homem for dominado pela matéria, ele só poderá compreender a  
espiritualidade imperfeitamente, porque ele faz das punições e das  
satisfações futuras um quadro mais material do que espiritual; ele imagina  
que seja preciso comer e beber no outro mundo, porém mais do que na Terra,  
e coisas melhores.12 Mais tarde, encontramos nas crenças referentes à vida  
futura um misto de espiritualidade e materialidade; é por isso que, ao lado da  
beatitude contemplativa, coloca-se um inferno com torturas físicas.  
12  
Um jovenzinho da Saboia, a quem seu pároco descreveu um quadro atraente da vida futura,  
perguntou-lhe se lá todo mundo comia pão branco como em Paris.  
   
48 Allan Kardec  
2. Não podendo conceber além do que vê, o homem primitivo naturalmente  
modelou seu futuro pelo presente; para compreender outros tipos além  
daqueles que tinha diante dos olhos, ele precisava de um desenvolvimento  
intelectual que só poderia se realizar com o tempo. Também o quadro que ele  
idealizou dos castigos porvindouros não é mais do que um reflexo dos males  
da humanidade, mas numa proporção mais larga; nisso ele reuniu todas as  
torturas, todos os suplícios, todas as aflições que encontrou na Terra; foi  
assim que, nos climas escaldantes, ele imaginou um inferno de fogo, e nas  
regiões boreais, um inferno de gelo. Como ainda não estava desenvolvido o  
sentido que mais tarde o faria entender o mundo espiritual, ele não podia  
conceber mais do que os sofrimentos físicos; eis por que, salvo algumas  
diferenças no formato, o inferno em todas as religiões é semelhante.  
O inferno cristão imitado do inferno pagão  
3. O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo  
mais grandioso do gênero; ele se perpetuou no dos cristãos, que também teve  
seus cantores poéticos. Comparando-os, encontramos neles, salvo os nomes e  
algumas variações nos detalhes, numerosas analogias: tanto num quanto no  
outro, o fogo material é a base de tormentos, por ser o símbolo dos  
sofrimentos mais cruéis. Mas que coisa estranha! em muitos pontos os  
cristãos superaram o inferno dos pagãos. Se estes últimos tinham o tonel das  
Danaides13, a roda de Íxion14, o rochedo de Sísifo15, eram suplícios  
individuais; já o inferno cristão, este tem, para todos, suas caldeiras ferventes,  
das quais os anjos levantam as tampas para ver as contorções dos  
13  
Danaides, segundo a mitologia grega, são as filhas de Dânao que mataram seus respectivos maridos  
na noite de núpcias e que, por isso, depois de morrerem, foram condenadas no tártaro (espécie de  
inferno para o mito grego) a encher de água um tonel furado, de modo a tornar interminável o trabalho  
das condenadas. N. T.  
14  
Íxion é um personagem da mitologia grega que, por blasfemar Zeus, foi morto e enviado ao tártaro,  
onde foi sentenciado a viver eternamente girando amarrado a uma roda em chamas. N. T.  
15  
Sísifo, no mito grego, foi o astuto fundador e rei de Corinto que, depois de enganar repetidamente a  
morte, enfim foi vencido e então condenado a rolar uma enorme pedra até o cume de uma montanha,  
sendo que esta caía sempre antes que ele alcançasse tal objetivo. N. T.  
     
49 O Céu e o Inferno  
condenados16 e nisso, impiedosamente, Deus fica ouvindo os gemidos deles  
durante a eternidade! Jamais os pagãos retrataram os habitantes dos Campos  
Elíseos17 apreciando a vista dos suplícios do Tártaro.18  
4. Semelhantes aos pagãos, os cristãos têm o seu rei dos infernos, que é  
Satanás, com a diferença de que Plutão19 se limitava a governar o sombrio  
império do qual ele havia sido encarregado, embora ele não fosse mau; ele  
retinha consigo aqueles que tinham praticado o mal porque essa era a sua  
missão , sem que jamais ele procurasse induzir os homens ao mal para se  
dar o prazer de fazê-los sofrer; enquanto isso, Satanás recruta vítimas por  
toda parte, as quais ele gosta de atormentar com suas legiões de demônios  
armados de forcados para sacudi-las no fogo. Discute-se seriamente até  
mesmo a natureza desse fogo que queima incessantemente sem jamais  
consumir os condenados; até questionam se não seria um fogo de betume.20 O  
inferno cristão, portanto, nada fica a dever ao inferno pagão.  
5. As mesmas considerações que, entre os antigos, haviam estabelecido um  
local para a morada da felicidade, igualmente estabeleceram um lugar  
circunscrito para os suplícios. Uma vez que os homens localizaram o primeiro  
nas regiões superiores, era natural localizar o segundo nas regiões inferiores,  
isto é, o centro da Terra, do qual acreditava-se que certas cavidades sombrias  
e de aspecto terrível lhes serviam de entrada. Foi aí também que por muito  
tempo os cristãos colocaram a morada dos réprobos. Vejamos ainda sobre  
este assunto outra analogia:  
O inferno dos pagãos continha de um lado os Campos Elíseos e do outro  
16 Sermão pregado em Montpelier em 1860.  
17 Campos Elísios, na mitologia clássica, é a feliz morada dos heróis e dos justos após a morte. N. T.  
18  
Os bem-aventurados, sem sair do lugar que ocupam, ainda assim o deixarão, de certa forma, em  
razão do seu dom de inteligência e da sua visão especial, a fim de apreciar as torturas dos condenados;  
ao vê-los, não somente eles não sentirão nenhuma dor, como também ficarão repletos de alegria e  
renderão graças a Deus pela própria felicidade, testemunhando a inefável calamidade dos ímpios.(São  
Tomás de Aquino)  
19  
Plutão, na versão da mitologia romana adaptada dos mitos gregos, é o senhor do inferno,  
correspondente ao deus Hades, senhor do tártaro na mitologia grega. N. T.  
20 Sermão pregado em Paris em 1861.  
         
50 Allan Kardec  
o Tártaro; o Olimpo morada dos deuses e dos homens divinizados ficava  
nas regiões superiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos  
infernos, quer dizer aos lugares baixos, para de lá tirar as almas dos justos  
que aguardavam sua vinda. Portanto, os infernos não eram um lugar  
unicamente de suplício; assim como para os pagãos, eles estavam nos lugares  
baixos. Do mesmo modo que o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos ficava  
nos lugares elevados; colocaram-na para além do céu das estrelas, que  
acreditavam ser limitado.  
6. Essa mistura de ideias pagãs e cristãs não tem nada que deva surpreender.  
Jesus não podia de uma hora para outra destruir crenças arraigadas; faltava  
ao homem os conhecimentos necessários para conceber a imensidão do  
espaço e o número infinito de mundos; a Terra era para eles o centro do  
Universo; dela, não se conhecia nem a forma nem a estrutura interior; tudo  
era limitado ao ponto de vista daqueles homens: as noções do futuro não  
podiam se estender além dos seus conhecimentos. Em razão disso, Jesus  
encontrava-se na impossibilidade de os iniciar no verdadeiro estado das  
coisas; mas, por um lado, não querendo sancionar com a sua autoridade os  
preconceitos estabelecidos, ele se absteve, deixando ao tempo a tarefa de  
retificar aquelas concepções. Ele se limitou a falar vagamente da vida bem-  
aventurada e dos castigos que esperam os culpados; mas, em nenhuma parte  
nos seus ensinamentos constam o quadro dos suplícios corporais dos quais os  
cristãos constituíram um artigo de fé.  
Eis aqui como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos  
dias. Foi necessária a difusão dos esclarecimentos nos tempos modernos e o  
desenvolvimento geral da inteligência humana para lhe fazer justiça. Mas  
então, como nada de positivo tinha substituído aquelas concepções  
estabelecidas, o longo período de uma crença cega foi transitoriamente  
sucedido pelo período da incredulidade, ao qual a nova revelação veio pôr um  
fim. Era preciso demolir antes de reconstruir, porque é mais fácil incutir  
ideias justas em quem não crê em nada por eles sentirem que lhes falta  
alguma coisa do que em quem tem uma fé robusta naquilo que é um  
absurdo.  
51 O Céu e o Inferno  
7. Pela localização do céu e do inferno, as seitas cristãs foram levadas a não  
admitir para as almas senão duas situações extremas: a perfeita felicidade e o  
sofrimento absoluto. O purgatório não passa de uma posição intermediária  
momentânea, da qual, ao saírem, as almas passam diretamente para a morada  
dos bem-aventurados. E nem poderia ser de outro modo, conforme a crença  
na sorte definitiva da alma após a morte. Se não há mais que duas moradas —  
a dos eleitos e a dos réprobos , então não se pode admitir vários graus em  
cada uma sem admitir a possibilidade de ultrapassá-los e, por conseguinte, o  
progresso; ora, se há progresso, não há sorte definitiva, e se há sorte  
definitiva, então não há progresso. Jesus resolveu essa questão quando disse:  
Há muitas moradas na casa de meu Pai.21  
Os limbos  
8. A Igreja admite, é verdade, uma posição especial em certos casos  
particulares. As crianças falecidas em tenra idade, não tendo feito mal algum,  
não podem ser condenadas ao fogo eterno; por outro lado, não tendo feito o  
bem, elas não têm qualquer direito à felicidade suprema. Elas ficam então —  
diz a Igreja nos limbos,22 uma posição mista jamais definida na qual, se as  
crianças não sofrem, também não gozam da perfeita alegria. Porém, já que a  
sorte delas está irrevogavelmente fixada, elas ficam privadas da felicidade  
para toda a eternidade. Essa privação equivale a um suplício eterno injusto,  
visto que não dependia das crianças que as coisas ocorressem de outro modo.  
É o mesmo caso dos selvagens, que, não tendo recebido a graça do batismo e  
as luzes da religião, pecam por ignorância ao se entregarem aos próprios  
instintos naturais, não podendo ter nem a culpa nem o mérito daqueles que  
agem com conhecimento de causa. A simples lógica repulsa tal doutrina em  
nome da justiça de Deus. A justiça de Deus está integralmente nestas palavras  
21 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.  
22  
O conceito teológico de limbo foi extinto pela Igreja Católica em 2007, sob o pontificado do papa  
Bento  
XVI,  
“por  
refletir  
uma  
visão  
excessivamente  
restritiva  
da  
salvação”  
(Fonte:  
   
52 Allan Kardec  
do Cristo: “A cada um conforme as suas obras.”; mas é preciso entender  
obras boas ou más praticadas livremente, voluntariamente, e as únicas sobre  
as quais recaem a responsabilidade o que não é o caso nem das crianças,  
nem dos selvagens, nem daqueles que não puderam ser esclarecidos.  
Descrição do inferno pagão  
9. Quase não conhecemos o inferno pagão além do que é recitado pelos  
poetas. Homero23 e Virgílio24 lhe deram a mais completa descrição, mas aqui  
devemos levar em conta as necessidades que a poesia impõe à forma. A  
descrição de Fénelon25 no seu livro Telêmaco, conquanto extraída da mesma  
fonte com relação às crenças fundamentais, tem a simplicidade mais exata da  
prosa. Descrevendo todo o aspecto lúgubre dos lugares, ele se concentra  
especialmente em ressaltar o gênero dos sofrimentos pelos quais os culpados  
passam, e se ele se estendeu muito sobre o destino dos reis malvados, foi na  
intenção de instruir o seu aluno real. Por mais popular que seja esta obra,  
muitas pessoas provavelmente não guardam essa descrição bastante presente  
na memória, ou talvez não tenham refletido sobre ela o suficiente para  
estabelecer uma comparação; por isso consideramos útil reproduzir as suas  
partes que têm uma relação mais direta com o assunto que nos interessa, ou  
seja, as que concernem mais especialmente às penalidades individuais.  
10. “Ao entrar, Telêmaco26 escuta os gemidos de uma sombra inconsolável. Ele  
perguntou: Qual é, pois, a vossa desgraça? Quem fostes na Terra? A sombra  
lhe respondeu: Eu fui Nabofarzan, rei da soberba Babilônia; todos os povos do  
Oriente tremiam só de ouvirem o meu nome; fazia-me adorar pelos babilônios  
23  
Homero: poeta grego do século IX antes de Cristo e a quem se atribui a autoria dos clássicos Ilíada e  
Odisseia N. T.  
24 Virgílio: poeta romano que viveu no século anterior a Cristo, autor do clássico Eneida N. T.  
25  
François de Salignac de La Mothe-Fénelon (1651-1715): teólogo, escritor e poeta francês, que, entre  
outras obras, é autor da obra As aventuras de Telémaco, à qual Kardec aqui se refere. N. T.  
26 Telémaco, na poesia homérica, é o filho de Penélope e de Ulisses (Odisseu), que é o herói da Odisseia e  
o rei de Ítaca, uma das ilhas da costa oeste da Grécia, da qual saiu para lutar na Guerra de Tróia. N. T.  
       
53 O Céu e o Inferno  
num templo de mármore, onde eu era representado por uma estátua de ouro,  
diante da qual se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da Etiópia;  
jamais alguém ousou me contradizer sem ser prontamente punido; a cada dia  
era inventado novos prazeres para tornar-me a vida mais deliciosa. Eu também  
era jovem e robusto; oh! Quantas prosperidades ainda me restava usufruir no  
trono! Mas certa mulher, a quem eu amava e que não me correspondia, logo me  
fez perceber que eu não era um deus: ela me envenenou; eu já não era mais  
nada. Ontem, minhas cinzas foram postas com pompa numa urna dourada;  
choraram, descabelaram-se; fingiram querer se atirar às chamas da minha  
fogueira para morrerem comigo; vão ainda gemer ao pé do suntuoso túmulo  
onde depositaram minhas cinzas, mas ninguém lamenta por mim; minha  
memória é em honra da própria família, e aqui embaixo eu já sofro horríveis  
tratamentos.  
“Comovido com  
este espetáculo, Telêmaco lhe diz: Fostes  
verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Porventura sentíeis aquela  
doce paz sem a qual o coração permanece sempre apertado e abatido em  
meio às delícias? Não, respondeu o babilônio; eu não sei mesmo o que  
quereis dizer. Os sábios exaltam essa paz como o único bem; quanto a mim,  
eu nunca a senti; meu coração constantemente estava agitado por novos  
desejos, temor e de esperança. Cansei eu mesmo de me atordoar com o abalo  
das minhas paixões; tive o cuidado de manter essa embriaguez para torná-la  
contínua: o menor intervalo de razão tranquila teria sido amargo demais para  
mim. Eis a paz que desfrutei; qualquer outra me parece antes uma fábula, um  
sonho; eis os bens de que sinto saudades.  
Enquanto assim falava, o babilônio chorava como um homem covarde  
que foi amolecido pela prosperidade e que não foi acostumado a suportar  
regularmente um infortúnio. Havia aos pés dele alguns escravos que tinham  
sido mortos para honrar seus funerais; Mercúrio27 os havia entregue a  
Caronte28 com o seu rei, dando-lhes um poder absoluto sobre esse rei, a quem  
eles tinham servido na Terra. Essas sombras de escravos não mais temiam  
27  
Mercúrio, no mito romano, é o deus do comércio, dos ladrões e dos viajantes, correspondente a  
Hermes, da mitologia grega. N. T.  
28  
Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro do Hades (submundo onde vivem as almas dos mortos),  
que transporta as almas dos recém-falecidos de uma para a outra margem do rio Estige e Aqueronte, ao  
preço de uma moeda de óbolo; aqueles que não tinham condições de pagar a quantia, ou aqueles cujos  
corpos não haviam sido enterrados, tinham de vagar pelas margens por cem anos. N. T.  
   
54 Allan Kardec  
a sombra de Nabofarzan; elas a mantinham acorrentada e lhe faziam as  
mais cruéis indignidades. Uma delas lhe dizia: Não éramos homens tanto  
quanto tu? Quão insensato tu fostes para te julgares um deus; não devíeis te  
lembrar que tu eras da raça dos outros homens? Outra sombra, para  
insultá-lo, exclamava: Tinhas razão em não querer que te tomassem por  
homem, porque tu eras um monstro desumano. Outra lhe dizia: E então,  
onde estão agora os teus bajuladores? Tu nada mais tens a dar, infeliz! Não  
podes mais nem mesmo fazer o mal; eis que te tornastes escravo dos teus  
próprios escravos; os deuses são lentos para fazer justiça, mas enfim eles a  
fazem.  
“Ao ouvir essas duras palavras, Nabofarzan lançou-se de bruços no  
chão, arrancando os cabelos num acesso de raiva e desespero. Caronte,  
porém, disse aos escravos: Puxem-no pela corrente, levantem-no contra a  
vontade dele; ele não terá nem mesmo o consolo de esconder a sua  
vergonha; é preciso que todas as sombras do Estige sejam testemunhas  
disso para justificar os deuses, que sofreram por tanto tempo em que esse  
ímpio reinou na Terra.  
“E logo percebeu, bem perto dele, o negro Tártaro29, de onde saía uma  
fumaça escura e densa, cujo odor empestado causaria a morte, caso se  
espalhasse na morada dos vivos. Essa fumaça cobria um rio de fogo e  
turbilhões de chamas, cujo ruído semelhante ao das torrentes mais  
impetuosas quando se precipitam de altos rochedos no fundo dos abismos —  
fazia com que não se pudesse ouvir nada distintamente nesses tristes lugares.  
“Secretamente animado por Minerva30, Telêmaco entra destemido  
nesse poço. De início, ele viu um grande número de homens que tinham  
vivido nas mais baixas condições e que eram punidos por terem procurado  
riquezas por meio de fraudes, traições e crueldades. Ali ele notou muitos  
ímpios hipócritas que, simulando amar a religião, dela tinham se servido  
como de um belo pretexto para satisfazer suas ambições e para zombarem  
das pessoas crédulas; esses homens, que abusaram da própria virtude que  
é o maior dom dos deuses , eram punidos como os mais canalhas de todos  
29  
Tártaro, segundo a mitologia grega, é a região mais profunda do inferno, “tão abaixo da superfície  
quanto a terra é do céu. N. T.  
30  
Minerva, pela mitologia romana, é a deusa da sabedoria e das artes, correspondente à deusa grega  
Palas Atena. N. T.  
   
55 O Céu e o Inferno  
os homens. Os filhos que degolaram seus pais e suas mães, as esposas que  
sujaram suas mãos com o sangue dos maridos, os traidores que venderam  
sua pátria após ter violado todos os juramentos, estes sofriam penas menos  
cruéis do que aqueles hipócritas. Os três juízes dos infernos assim o queriam,  
e aqui está a razão deles: é que os hipócritas não se contentam em serem  
maus como os demais ímpios; eles querem também se passar por bons e,  
através da sua falsa virtude, fazem com que os homens não ousem mais  
confiar na verdade. Os deuses de quem eles zombaram e tornaram  
desprezíveis para os homens têm o prazer de empregar toda a sua força  
para se vingarem dos seus insultos.  
“Perto destes, aparecem outros homens que as pessoas comuns  
dificilmente consideram culpados, mas que a vingança divina persegue  
impiedosamente: são os ingratos, os mentirosos, os aduladores que louvaram  
o vício, os críticos maliciosos que tentam macular a mais pura virtude; enfim  
aqueles que julgaram temerariamente as coisas sem as conhecer  
profundamente e que, por isso mesmo, arruinaram a reputação dos  
inocentes.  
“Telêmaco, vendo os três juízes que estavam sentados e que  
condenavam um homem, ousou lhes perguntar quais eram os crimes do réu.  
Imediatamente o condenado, tomando a palavra, gritou: Eu jamais fiz mal  
algum; devotei todo o meu prazer em praticar o bem; fui magnífico, liberal,  
justo e compassivo; de que então podem me culpar? Então Minos31 lhe  
respondeu: Não te culpamos por nada com relação aos homens; porém, tu  
não devias menos aos homens do que aos deuses? Que justiça é essa, então,  
de que te vanglorias? Tu não faltaste a qualquer dever para com os homens,  
que nada são; foste virtuoso, mas atribuíste toda a tua virtude só a ti mesmo,  
e não aos deuses, que a deram a ti porque tu desejavas gozar do fruto de tua  
própria virtude e te confinar em ti mesmo: tu foste a tua divindade. Mas os  
deuses que tudo fizeram, e que não o fizeram para eles mesmos não  
podem renunciar aos seus direitos; tu os esqueceste e eles também te  
esquecerão; eles te largarão a ti mesmo, pois quiseste pertencer a ti e não a  
eles. Então, procura agora, se puderes, o consolo em teu próprio coração.  
31 O semideus Minos, pela mitologia grega, filho de Europa com Zeus, foi o rei de Creta e, após sua morte,  
tornou-se um dos três juízes do inferno, juntamente com Éaco e Radamanto, sendo aquele que dava o  
veredito final. N. T.  
 
56 Allan Kardec  
Eis-te para sempre separado dos homens, aos quais querias agradar; eis-te  
sozinho contigo mesmo, tu que eras o teu ídolo; aprenda que não existe  
verdadeira virtude sem respeito e amor aos deuses, a quem tudo é devido.  
Tua falsa virtude, que por muito tempo levou os homens ingênuos a se  
enganarem, vai ser confundida. Os homens, julgando os vícios e as virtudes  
apenas pelo que lhes afeta ou lhes convêm, são cegos tanto para o bem  
quanto para o mal. Aqui, uma luz divina derroga todos os julgamentos  
superficiais humanos; ela muitas vezes condena o que eles admiram e  
sanciona o que eles condenam.  
A estas palavras, o filósofo, como que atingido por um raio, mal podia  
se sustentar. A complacência que outrora tivera ao contemplar a sua  
moderação, sua coragem e suas inclinações generosas, transformou-se em  
desespero. A visão do próprio coração, inimigo dos deuses, tornou-se o seu  
suplício; ele se vê e não pode deixar de se ver; vê a vaidade dos julgamentos  
humanos, aos quais ele quis lisonjear em todas as suas ações. Há uma  
revolução universal em tudo que está dentro dele, como se revirassem todas  
as suas entranhas; já não é o mesmo; falta-lhe todo apoio no coração; sua  
consciência, cujo testemunho lhe havia sido tão agradável, revolta-se contra  
ele e o repreende amargamente pela confusão e a ilusão de todas as suas  
virtudes, que não tiveram o culto da divindade como o princípio e o fim; ele  
está perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de  
desespero. As Fúrias32 só não o atormentam porque lhes basta o verem  
entregue a si mesmo, e seu próprio coração vinga suficientemente os deuses  
desprezados. Ele procura os lugares mais sombrios para se esconder dos  
outros mortos, não podendo se esconder de si. Ele procura as trevas e não  
pode encontrá-las; uma luz importuna o segue por toda parte; a todo lado  
os raios penetrantes da verdade vem vingar a verdade que ele deixou de  
seguir. Tudo o que ele amava se torna odioso para ele, como sendo a fonte  
dos seus males, que jamais podem findar. Ele resmunga consigo: Ó insensato!  
Não conheci, pois, nem os deuses, nem os homens, nem a mim mesmo! Não,  
não conheci nada, porque jamais amei o único e verdadeiro bem; todos os  
meus passos foram desorientados; minha sabedoria não passava de loucura;  
a minha virtude não era mais do que um orgulho profano e cego: eu mesmo  
32  
Na mitologia romana, as Fúrias (Tisífone, Megera e Alecto) eram as personificações da vingança,  
responsáveis por punir os mortais. Na versão grega, eram chamadas de Eríneas, ou Erínias. N. T.  
 
57 O Céu e o Inferno  
era o meu próprio ídolo!  
“Finalmente Telêmaco avistou os reis que foram condenados por terem  
abusado de seu poder. De um lado, uma Fúria vingadora lhes apresentava  
um espelho que lhes mostrava toda a deformidade de seus vícios; ali eles  
viam e não podiam deixar de ver sua vaidade grosseira e ávida dos mais  
ridículos louvores; viam sua rigidez para com os homens, a quem deveriam  
trazer felicidade; viam sua insensibilidade para com as virtudes, seu temor de  
ouvir a verdade, sua inclinação pelos covardes e bajuladores, sua falta de  
aplicação, sua inércia, sua indolência; sua desconfiança equivocada; seu  
fausto e sua excessiva magnificência fundadas sobre a ruína dos povos; viam  
sua ambição de adquirir um pouco de glória vã com o sangue dos seus  
cidadãos; viam enfim a crueldade que procura a cada dia novas delícias nas  
lágrimas e no desespero de tantos miseráveis. Esses reis incessantemente se  
viam nesse espelho, reconhecendo-se mais horríveis e mais monstruosos do  
que a própria Quimera33 vencida pelo Belerofonte34, mais do que a Hidra de  
Lerna35 abatida por Hércules e mais do que o próprio Cérbero36, embora este  
vomitasse por suas três goelas escancaradas um sangue preto e venenoso,  
que é capaz de empestar toda a raça de mortais viventes na Terra.  
Ao mesmo tempo, do outro lado uma Fúria lhes repetia com insultos  
todos os louvores que os lisonjeiros lhes tinham dado em vida e lhes  
apresentava também outro espelho, no qual eles se viam tais como a lisonja  
os havia pintado. A diferença desses dois quadros tão opostos era o  
suplício por sua vaidade. Notava-se que os piores dentre esses reis eram  
aqueles a quem tinham sido dados os mais magníficos elogios durante a vida,  
porque os maus são mais temidos que os bons e, sem pudor, exigem as  
bajulações covardes dos poetas e dos oradores do seu tempo.  
Ouvia-se eles gemerem nessas profundezas tenebrosas, onde eles não  
conseguem perceber nada além dos insultos e escárnios que lhes cabem  
ouvir. Não há nada em torno deles que não os repulsa, que não os contradiga  
33  
Fera mitológica clássica caracterizada pela aparência hibrida de dois ou mais animais e a capacidade  
de lançar chamas pelas narinas. N. T.  
34  
Belerofonte, no mito grego, foi um filho de Poseidon e herói venerado na Lídia e em Corinto, famoso  
por ter domado o cavalo alado Pégaso e por ter matado Quimera. N. T.  
35  
Serpente de sete cabeças do pântano de Lerna, na Argólia. Suas cabeças renasciam se não fossem  
cortadas de uma só vez. Foi morta por Hércules. N. T.  
36 Cão monstruoso de três cabeças, guardião do inferno. N. T.  
       
58 Allan Kardec  
e que não os confunda, enquanto na Terra eles debochavam da vida dos  
homens e pretendiam que tudo fosse feito para servi-los. No Tártaro, estão  
entregues a todos os caprichos de certos escravos que lhes fazem  
experimentar agora uma cruel servidão; eles servem dolorosamente e não  
lhes resta qualquer esperança de poder aliviar seu cativeiro; eles estão sob os  
golpes desses escravos, que se tornaram seus tiranos impiedosos, como é  
uma bigorna sob as marteladas dos Ciclopes37 quando Vulcano38 os incita a  
trabalhar nas fornalhas ardentes do Monte Etna.39  
Nesse lugar, Telêmaco viu rostos pálidos, hediondos e consternados. É  
uma terrível tristeza que consome esses criminosos; eles têm horror de si  
mesmos e não podem se livrar desse horror assim como da sua própria  
natureza; eles não precisam de outro castigo pelas suas faltas além das  
próprias faltas; eles os veem constantemente em toda a sua enormidade;  
elas se apresentam a eles como espectros horríveis e os perseguem. Para  
evitar tal perseguição, eles procuram uma morte mais eficiente do que a que  
os separou do corpo. No desespero em que se encontram, eles invocam em  
seu auxílio uma morte que possa extinguir neles todo sentimento e toda  
consciência; pedem aos abismos para os engolir, a fim de escaparem dos raios  
vingadores da verdade que os persegue, mas continuam reservados à  
represália que destila sobre eles gota por gota, e que jamais estancará. A  
verdade que eles temiam ver constitui o próprio suplício deles; eles a veem  
e só têm olhos para vê-la se levantar contra eles: sua visão os perfura, os  
rasga e os arranca de si mesmos; ela é como um raio que, sem destruir nada  
do lado de fora, penetra nas profundezas das entranhas.  
“Entre os objetos que arrepiam os cabelos de Telêmaco, ele viu vários  
reis antigos da Lídia40 que eram punidos por terem substituído pelas delícias  
de uma vida mole o trabalho de consolar os povos, que devia ser inseparável  
da realeza.  
37 Os ciclopes são, de acordo com a mitologia grega, gigantes imortais com um só olho no meio da testa  
que trabalhavam para Hefesto como ferreiros no interior do Monte Etna, forjando os raios a serem  
usados por Zeus. N. T.  
38  
Vulcano é o deus romano do fogo e dos trabalhos com metais, correspondente ao ferreiro divino  
Hefesto, dos mitos gregos. N. T.  
39 Etna é um vulcão ativo situado na parte oriental da Sicília, ilha italiana no Mar Mediterrâneo. N. T.  
40  
Lídia era uma região na porção ocidental da antiga Ásia menor (antiga Anatólia), às margens do Mar  
Egeu, onde hoje são as províncias Uşak, Manisa e İzmir, na Turquia. N. T.  
       
59 O Céu e o Inferno  
Esses reis repreendiam reciprocamente pela sua cegueira. Um dizia ao  
outro, que havia sido seu filho: Não vos tinha recomendado tantas vezes, na  
minha velhice e antes da morte, que reparásseis os males que eu havia feito  
com minha negligência? Ah, maldito pai, dizia o filho; fostes vós que me  
pusestes a perder! Foi o vosso exemplo que me inspirou o fausto, o orgulho, a  
volúpia e a crueldade para com os homens! Vendo-vos governar com tanta  
moleza e rodeado de aduladores covardes, fiquei acostumado a amar a  
bajulação e os prazeres. Acreditei que o resto dos homens era, em relação aos  
reis, o que os cavalos e outros animais de carga são para os homens, isto é,  
animais que só são levados em conta enquanto prestam serviços e rendem  
comodidades. Acreditei nisto e fostes vós que me fizestes assim crer; quantos  
males agora eu sofro por vos haver imitado. A estas reprovações eles  
acrescentaram as mais terríveis maledicências, parecendo tomados pela raiva  
para se devorarem uns aos outros.  
Em torno desses reis, como as corujas de noite, também flutuavam  
cruéis suspeitas, vãos alarmes, desconfianças que vingam os povos da dureza  
de seus reis, a ganância insaciável de riquezas, a falsa glória sempre tirânica e  
a fraqueza covarde que redobra todos os males de que sofremos, sem jamais  
podermos dar prazeres consistentes.  
Via-se vários desses reis severamente punidos, não pelos males que  
tivessem feito, mas por terem negligenciado o bem que eles deveriam  
fazer. Todos os crimes do povo que vinham do descaso no cumprimento das  
leis foram imputados aos reis, que devem reinar exatamente para que as leis  
vigorem através do seu ministério. Foram-lhes imputadas também todas as  
desordens que vinham do fausto, do luxo e de todos os outros excessos que  
levam os homens a um estado violento e à tentação de desprezar as leis para  
a aquisição de bens. Sobretudo foram tratados rigorosamente os reis que, ao  
invés de serem bons e vigilantes pastores dos povos, só pensavam em  
devastar o rebanho, quais lobos devoradores.  
Entretanto, o que mais consternou Telêmaco foi ver nesse abismo de  
trevas e de males um grande número de reis que, tendo se passado na Terra  
como muito bondosos, foram condenados às penas do Tártaro por se terem  
deixado governar por homens malvados e astutos. Eles eram punidos pelos  
males que tinham permitido que acontecessem através de sua  
autoridade. No mais, a maior parte desses reis não foram nem bons nem  
60 Allan Kardec  
maus, tamanha havia sido a fraqueza deles; nunca eles tinham temido não  
conhecer a verdade; nunca experimentaram o gosto da virtude e nunca  
devotaram seu prazer em fazer o bem.”  
Descrição do inferno cristão  
11. A opinião dos teólogos sobre o inferno está resumida nas citações  
seguintes.41 Esta descrição, sendo extraída dos autores sagrados e da vida dos  
santos, pode muito bem ser considerada como a expressão da fé ortodoxa a  
respeito dessa questão, tanto que ela é reproduzida a todo momento, com  
algumas variações, nos sermões do púlpito evangélico e nas instruções  
pastorais.  
12. Os demônios são Espíritos puros, e os condenados, atualmente no inferno,  
podem também ser considerados como Espíritos puros, já que só a alma deles  
desceu até lá, e os seus ossos, que retornaram ao pó, transformam-se  
incessantemente em ervas, em plantas, em frutos, em minerais e em líquidos,  
sofrendo, sem saber, as contínuas metamorfoses da matéria. Mas os  
condenados, assim como os santos, devem ressuscitar no derradeiro dia,  
retomando, para não mais deixar, um corpo carnal, os mesmos corpos sob o  
quais eram conhecidos entre os vivos. Aquilo que os distinguirá uns aos outros,  
é que os eleitos ressuscitarão num corpo purificado e todo radioso os  
condenados em um corpo maculado e deformado pelo pecado. Portanto, não  
haverá no inferno somente Espíritos puros; haverá também homens iguais a  
nós. Consequentemente, o inferno é um lugar físico, geográfico, material, visto  
que será povoado por criaturas terrenas, tendo pés, mãos, boca, língua, dentes,  
ouvidos, olhos semelhantes aos nossos, sangue nas veias e nervos sensíveis à  
dor.  
Onde está situado o inferno? Alguns doutores o colocaram nas próprias  
entranhas do nosso mundo; outros, sabe-se lá em que planeta; mas a questão  
não foi decidida por nenhum concílio. Estamos então, quanto a este ponto,  
reduzidos às conjecturas; a única coisa que se afirma é que o inferno, onde  
quer que esteja situado, é um mundo composto de elementos materiais,  
41 Estas citações foram extraídas da obra intitulada O Inferno, por Auguste Callet.  
 
61 O Céu e o Inferno  
porém sem Sol, sem Lua, sem estrelas, mais triste, mais inóspito e mais  
desprovido de todos os germes e de toda a aparência de bem do que as  
regiões mais inabitadas deste mundo onde nós pecamos.  
“Os teólogos mais reservados não se arriscam a descrever, à maneira  
dos egípcios, dos hindus e dos gregos, todos os horrores dessa morada; eles  
se limitam a nos apresentá-la como amostra, a título de amostra, um pouco  
que a Escritura revela a respeito, o lago de fogo e de enxofre do Apocalipse e  
os vermes de Isaías, esses vermes eternamente formigando sobre os  
cadáveres do Tofel42, e os demônios atormentando os homens aos quais eles  
perderam, e os homens chorando e rangendo os dentes, segundo a expressão  
dos evangelistas.  
Santo Agostinho não concorda que esses sofrimentos físicos sejam  
meras imagens dos castigos morais; ele vê, num verdadeiro lago de enxofre,  
verdadeiros vermes e serpentes atacando todas as partes do corpo dos  
condenados e associando suas mordidas às do fogo. Ele pretende, segundo  
um versículo de são Marcos, mais do que esse fogo estranho, embora material  
como o nosso, e agindo sobre corpos físicos, os conservará como o sal  
conserva a carne das vítimas. Porém os condenados, vítimas sempre  
sacrificadas e sempre viventes, sentirão a tortura desse fogo que queima sem  
consumir; ele penetrará a pele deles; ficarão embebidos dele e saturados em  
todos os seus membros, e na medula dos seus ossos, e na pupila dos seus  
olhos e nas fibras mais ocultas e sensíveis do seu ser. A cratera de um vulcão  
se aí pudessem submergir seria para eles um lugar de refrigério e de  
repouso.  
Assim falam, com toda a segurança, os teólogos mais tímidos, os mais  
discretos e os mais reservados; eles não negam, aliás, que haja no inferno  
outros suplícios corporais; dizem apenas que, para afirmar isso, eles não têm  
um conhecimento suficiente, pelo menos tão concreto como o que lhes foi  
dado sobre a horrível tortura do fogo e do repugnante suplício dos vermes.  
Todavia, há teólogos mais ousados ou mais esclarecidos que fazem do inferno  
descrições mais detalhadas, mais variadas e mais completas. E, embora não se  
saiba em que lugar do espaço esse inferno esteja situado, existem santos que  
42  
Tofel (em hebraico: 
תפל
, insípido, reboque), localidade mencionada na Bíblia hebraica (em  
Deuteronômio 1:1) como um dos limites do grande deserto do Sinai. É identificada como a atual região  
de Tafilah, na Jordânia. N. T.  
 
62 Allan Kardec  
o viram. Eles não foram lá com a lira na mão, como Orfeu43, ou de espada em  
punho, como Ulisses44, mas foram transportados em Espírito. Santa Teresa45  
está entre estes.  
De acordo com a narrativa da santa, parece que há cidades no inferno;  
lá ela viu pelo menos uma espécie de viela longa e estreita, como essas tantas  
que existem nas velhas cidades; ela a percorreu, caminhando horrorizada  
sobre terreno lamacento e fétido, onde fervilhavam répteis monstruosos; mas  
ela foi detida em sua marcha por uma muralha que barrava a viela; nessa  
muralha foi feito um nicho onde Teresa se acomodou, sem saber bem como  
isso aconteceu. Era diz ela o lugar que lhe estava destinado, caso ela  
abusasse, em vida, das graças que Deus derramou sobre sua célula de Ávila.  
Conquanto ela tivesse entrado nesse nicho de Pedra com uma maravilhosa  
facilidade, ali ela não podia nem se sentar, nem se deitar, nem se manter de  
pé; tampouco ela podia sair de lá. Aquelas paredes horríveis, abaixando-se  
sobre ela, envolviam-na e a apertavam como se tivessem sido animadas.  
Parecia-lhe que a estavam sufocando, estrangulando-a ao mesmo tempo que  
a esfolavam viva e a cortavam em pedaços. E ela se sentia queimando,  
experimentando também todos os gêneros de angústias. De socorro,  
nenhuma esperança; tudo em torno dela era escuridão e, no entanto, através  
dessas trevas ela ainda avistava, não sem espanto, a horrível viela onde  
estava alojada e toda sua imunda vizinhança um espetáculo para ela tão  
intolerável quanto os apertos da sua prisão.46  
Esse era, sem dúvidas, apenas um pequeno canto do inferno. Outros  
viajantes espirituais foram mais favorecidos; eles viram no inferno grandes  
cidades totalmente em fogo; Babilônia e Nínive, até mesmo Roma, seus  
palácios e seus templos incendiados, e todos os seus habitantes acorrentados;  
o comerciante no seu balcão, os sacerdotes reunidos com cortesãos em salões  
43  
Lendário poeta e músico grego, exaltado em alguns mitos como um grande encantador, pelo toque  
magistral de sua lira, autor de façanhas incríveis, como quando vai às profundezas do Hades para  
resgatar da morte sua esposa Eurídice. N. T.  
44  
Ulisses (ou Odisseu), rei mitológico da ilha grega Ítaca, pai de Telémaco e herói heleno da Guerra de  
Troia, conforme os clássicos Ilíada e Odisseia. N. T.  
45  
Teresa de Ávila, (1515-1582) foi uma freira carmelita, mística e santa católica cuja biografia registra  
várias experiências medianímicas. N. T.  
46  
Reconhece-se nessa visão todas as características dos pesadelos; portanto, é provável que seja um  
efeito desse tipo o que aconteceu com Santa Teresa.  
       
63 O Céu e o Inferno  
de banquetes, e uivando em seus assentos dos quais eles não podem se  
arrancar, e levando aos seus lábios, para se saciarem, taças das quais saiam  
chamas; criados ajoelhados em fossas ferventes, braços estendidos, e  
príncipes de cujas mãos escorria sobre eles ouro derretido em lava  
devoradora. Outros viram no inferno planícies sem-fim que camponeses  
famintos aravam e semeavam, e desses campos fumegantes de seus suores,  
dessas sementes estéreis, enquanto nada brotava, esses camponeses se  
devoravam uns aos outros; após isso, tão numerosos como antes, tão magros,  
tão famintos, eles se dispersaram em bandos pelo horizonte, indo procurar ao  
longe, mas em vão, terras mais férteis, e imediatamente foram substituídos,  
nos campos que abandonaram, por outras colônias errantes de condenados.  
Há quem tenha visto no inferno montanhas repletas de precipícios, florestas  
que gemiam, poços sem água, fontes alimentadas por lágrimas, rios de  
sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcas de desesperados  
vagando por mares sem costas. Em uma palavra, ali se via tudo o que os  
pagãos viam: um lúgubre reflexo da Terra, uma sombra desmedidamente  
aumentada de suas misérias, seus sofrimentos naturais eternizados e até  
calabouços, patíbulos e instrumentos de tortura que as nossas próprias mãos  
forjaram.  
Com efeito, lá há demônios que, para melhor empanturrar os homens  
em seus corpos, também tomam corpos. Uns têm asas de morcegos, chifres,  
couraças de escama, patas com garras e dentes pontiagudos; eles nos  
aparecem armados com espadas, forcados, pinças, alicates ardentes, serras,  
grelhas, foles e porretes, fazendo por toda a eternidade com a carne humana  
o ofício de cozinheiros e açougueiros; estes, transformados em leões ou em  
víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas solitárias; alguns se  
convertem em corvos, para arrancar os olhos de certos culpados; outros, em  
dragões voadores, para os carregar nas costas e deixar todos assustados,  
todos ensanguentados, todos gritando através dos espaços tenebrosos, para  
então os deixar cair de volta no lago de enxofre. Eis aqui nuvens de  
gafanhotos e de escorpiões gigantescos, cuja visão causa arrepios, cujo odor  
causa náuseas, cujo menor toque causa convulsões; eis aqui monstros  
policéfalos, abrindo por todos os lados goelas vorazes, sacudindo crinas de  
víboras sobre suas cabeças disformes, esmagando os réprobos entre suas  
mandíbulas sangrentas e os vomitando todos em pedaços, porém vivos,  
64 Allan Kardec  
porque eles são imortais.  
Estes demônios em forma física, que lembram tão visivelmente os  
deuses do Amenti47 e do Tártaro, assim como os ídolos adorados pelos  
fenícios, moabitas e outros gentios vizinhos da Judeia, esses demônios não  
agem ao acaso; cada um tem a sua função e a sua obra; o mal que eles fazem  
no inferno tem relação com o mal que inspiraram e levaram os homens a  
praticarem na Terra.48 Os condenados são punidos em todos os seus sentidos  
e em todos os seus órgãos, porque também ofenderam Deus com todos os  
seus sentidos e com todos os seus órgãos; punidos de uma forma como  
glutões pelos demônios da gula, e de uma forma como preguiçosos pelos  
demônios da preguiça, e de outra forma como fornicadores pelos demônios  
da fornicação, e por tantas maneiras diversas quanto há de diversidade de  
pecados. Eles terão frios mesmo queimados e calor mesmo congelados;  
ficarão ansiosos por repouso e por movimento, e sempre famintos e sedentos,  
e mil vezes mais cansados do que um escravo ao fim da jornada, mais doentes  
do que os moribundos, mais alquebrados, mais abatidos, mais cobertos de  
chagas do que os mártires, e isso não findará nunca.  
Nenhum demônio se desanima e jamais se desanimará de sua terrível  
tarefa; nesse aspecto, todos eles são bem disciplinados e fiéis à execução das  
ordens vingativas que receberam. Sem isso, o que seria do inferno? Os  
pacientes repousariam se os algozes viessem a discutir ou se cansar. Mas  
nada de repouso para uns, nada de disputas para outros; por mais malvados  
que sejam e por mais numerosos que sejam, os demônios se entendem de um  
canto a outro do abismo e nunca se viu na Terra nações mais dóceis aos seus  
príncipes, nem exércitos mais obedientes aos seus chefes e nem comunidades  
monásticas mais humildemente submissas aos seus superiores.49  
47  
Amenti (literalmente “o escondido”) é o submundo da mitologia egípcia, o lugar onde os mortos são  
julgados por Osíris, para separar as almas boas e as más. N. T.  
48  
Uma estranha punição, na verdade, aquela que consistiria em poder continuar, numa escala maior, o  
mal que eles pouco fizeram na Terra! Seria mais racional que eles próprios sofressem as consequências  
deste mal, em vez de se darem ao prazer de fazer os outros sofrerem.  
49  
Esses mesmos demônios, rebeldes a Deus pelo bem, são de uma exemplar docilidade para a prática  
do mal; nenhum deles recua ou afrouxa durante a eternidade. Que estranha metamorfose operou-se  
neles, que haviam sido criados puros e perfeitos como anjos!  
Não é muito estranho vê-los dar o exemplo de perfeita compreensão, harmonia e concórdia  
inalterável, enquanto os homens não sabem viver em paz e se destroem na Terra? Ao vermos o requinte  
dos castigos reservados aos condenados e comparando a situação deles com a dos demônios,  
     
65 O Céu e o Inferno  
“Mal se conhece, aliás, a população de demônios, desses vis Espíritos de  
que são compostas as legiões de vampiros, goules50, sapos, escorpiões,  
corvos, hidras51, salamandras52 e outras feras anônimas que constituem a  
fauna das regiões infernais. Mas, conhecemos e nomeamos vários príncipes  
que comandam essas legiões, dentre outros Belfegor, o demônio da luxúria;  
Abadon ou Apolion, demônio do homicídio; Belzebu, demônio dos desejos  
impuros, ou senhor das moscas que geram a corrupção; Mamon, demônio da  
avareza; Moloque, Belial, Baalgad e Astaroth, assim como tantos outros, e  
acima deles o seu chefe supremo, o sombrio arcanjo que no céu trazia o nome  
Lúcifer e que no inferno se chama Satanás.  
Esta é, em resumo, a ideia que nos é dada do inferno, considerada do  
ponto de vista da sua natureza física e dos castigos físicos que ali se sofre.  
Abri os escritos dos pais da igreja e dos antigos doutores; interrogai nossas  
lendas piedosas; observai as esculturas e pinturas das nossas igrejas; escutai  
o que se diz em nossos púlpitos e vós aprendereis bem mais.”  
13. O autor acompanha esse quadro com as seguintes reflexões, cujo  
significado todos compreenderão:  
“A ressurreição dos corpos é um milagre, mas Deus faz um segundo  
milagre para dar a esses corpos mortais já usados uma vez pelas passageiras  
provas da vida e já uma vez aniquilados a virtude de subsistirem sem se  
dissolverem numa fornalha, onde os metais se evaporariam. Que se diga que a  
alma é o seu próprio carrasco e que Deus não a persegue, mas que a abandona  
no estado infeliz que ela escolheu; a rigor, isto é compreensível embora esse  
abandono eterno de um ser extraviado e sofredor pareça pouco compatível com  
a bondade do Criador. Porém, o que se diz da alma e dos castigos espirituais, não  
se pode de maneira alguma dizer dos corpos e dos castigos corporais; para  
perpetuar tais castigos corporais, não basta que Deus retire sua mão; é preciso,  
perguntamos quais são os mais dignos de pena, os algozes ou as vítimas?  
50  
Goule (transliteração do árabe 
غول
ل
ا
, al-ghoûl) é um monstro (demônio) canibal típico da mitologia  
árabe pré-islâmica, caracterizado pelo gosto de assaltar tumbas, comer cadáveres e outras coisas  
macabras. N. T.  
51  
Hidra, monstro da mitologia grega, com corpo de dragão e várias cabeças de serpentes, habitante de  
um pântano junto ao lago de Lerna, na região do Peloponeso, sul da Grécia. N. T.  
52  
Salamandra, no folclore europeu, é um tipo dentre as criaturas ligadas aos espíritos elementares,  
sendo as salamandras aquelas que dominam o fogo. N. T.  
     
66 Allan Kardec  
ao contrário, que ele a demonstre, que ele intervenha, que ele aja, sem o que o  
corpo sucumbiria.  
Os teólogos supõem, com isso, que após a ressurreição dos corpos Deus  
de fato opere esse segundo milagre do qual nós falamos. Primeiro, do  
sepulcro que os devorava, ele tira nossos corpos de barro; retira-os tais como  
lá forma enterrados, com suas enfermidades originais e as degradações  
sucessivas da idade, das moléstias e dos vícios; ele nos restitui nossos corpos  
nesse estado, decrépitos, friorentos, gotosos, cheios de carências, sensíveis a  
uma picada de abelha, todos cobertos das feridas que a vida e a morte nos  
marcaram, e aí está o primeiro milagre; depois, a esses corpos franzinos,  
todos prontos para retornarem ao pó de onde saíram, Deus inflige uma  
propriedade que eles nunca tiveram, e eis o segundo milagre; ele lhes inflige a  
imortalidade, esse mesmo dom que, em sua cólera dizei antes, em sua  
misericórdia ele havia retirado de Adão ao sair do Éden. Quando Adão era  
imortal, ele era invulnerável, mas quando ele deixou de ser invulnerável,  
tornou-se mortal; a morte seguiu de perto a dor.  
Desta forma, a ressurreição não nos restabelece nem nas condições  
físicas do homem inocente nem nas condições físicas do homem culpado;  
trata-se apenas de uma ressurreição das nossas misérias, mas com uma  
sobrecarga de misérias novas, infinitamente mais horríveis. Em parte, é uma  
verdadeira criação, e a mais maliciosa que a imaginação já ousou conceber.  
Deus revisa suas ideias e, para ajuntar aos tormentos espirituais dos  
pecadores os tormentos carnais que possam durar para sempre, ele muda  
repentinamente por efeito do seu poder as leis por ele mesmo  
estabelecidas desde o início, bem como as propriedades dos compostos  
materiais; ele ressuscita carnes enfermas e corrompidas e, juntando por um  
nó indestrutível esses elementos que tendem por si mesmos a se separar, ele  
mantém e perpetua contra a ordem natural essa podridão viva; ele a  
lança no fogo, não para purificá-la, mas para conservá-la tal qual é, sensível,  
sofredora, ardente e horrível, de tal forma que ele a quer imortal.  
“Através desse milagre, faz-se de Deus um dos algozes do inferno, pois  
se os condenados não podem atribuir seus males espirituais a si mesmos, por  
outro lado eles só podem atribuir os outros males a Deus. Aparentemente, era  
pouco demais deixá-los, após a morte, entregues à tristeza, ao  
arrependimento e a todas as angústias de uma alma que sente ter perdido o  
67 O Céu e o Inferno  
bem supremo; segundo os teólogos, Deus irá buscar esses condenados nessa  
noite, no fundo desse abismo, e os chamará de volta à vida por um momento,  
não para os consolar, mas sim para os revestir de um corpo horrendo,  
flamejante, imperecível, mais empestado que a túnica de Dejanira53, e só  
então os abandonar para sempre.  
Ainda assim Deus não os abandonará, porque, semelhante ao céu e à  
Terra, o inferno só sobrevive por um ato permanente da vontade divina,  
sempre ativa, e porque tudo se desfaleceria se ele cessasse de dar sua  
sustentação. Portanto, Deus sempre terá sua mão sobre eles para impedir que  
o seu fogo se apague e que os corpos dos condenados sejam consumidos,  
desejando que esses infelizes imortais contribuam, através da perenidade de  
seus suplícios, para a edificação dos eleitos.”  
14. Nós temos dito e com razão que o inferno dos cristãos havia  
superado o dos pagãos. De fato, veem-se no Tártaro os culpados torturados  
pelo remorso, sempre diante dos seus crimes e de suas vítimas, atormentados  
por aqueles que eles atormentaram quando estavam vivos; eles fogem da luz  
que os penetra e em vão procuram escapar dos olhares que os perseguem; lá  
o orgulho é abatido e humilhado; todos trazem os estigmas do seu passado;  
todos são punidos pelas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, basta  
entregá-los à própria sorte, e todos julgam desnecessário lhes acrescentar  
outros castigos. No entanto, são sombras, quer dizer, almas com corpos  
fluídicos, imagens da sua existência terrestre; não se vê ali homens  
retomarem seu corpo carnal para sofrer materialmente, nem o fogo penetrar  
sua pele e os saturar até a medula dos ossos, nem o requinte e o refinamento  
dos suplícios que constituem a base do inferno cristão. Ali se encontram juízes  
inflexíveis, porém justos, que proferem a sentença de acordo com a falta,  
enquanto no império de Satanás, todos são envolvidos nas mesmas torturas;  
tudo lá está fundado na materialidade; até a equidade está banida de lá.  
Sem dúvidas, existe hoje na própria Igreja muitos homens sensatos que  
53 Na mitologia grega, Dejanira foi a esposa do mais célebre herói heleno, Héracles (Hércules, na versão  
latina) a quem ela levou à morte, por ele ter pretendido desposar outra mulher; para isso, Dejanira fez  
seu ex-marido vestir uma túnica envenenada doada pelo centauro Nesso e supostamente dotada de um  
poder de encantamento para reconquistar Héracles. N. T.  
 
68 Allan Kardec  
não admitem essas coisas literalmente e que não veem nelas nada além de  
alegorias das quais é preciso interpretar o significado; mas a opinião deles é  
apenas individual e não influenciam a lei. A crença no inferno material, com  
todas as suas consequências, ainda não deixou de ser um artigo de fé.  
15. Pergunta-se, como é que determinadas pessoas puderam ver essas coisas  
em êxtase,54 se essas coisas não existem. Não é o caso aqui de explicar a  
origem das imagens fantásticas que tantas vezes se reproduzem com todas as  
aparências de realidade. Diremos somente que devemos ver nisso uma prova  
desse princípio, que o êxtase é a menos segura de todas as revelações,55  
porque esse estado de superexcitação nem sempre é resultado de um  
desprendimento tão completo da alma no qual se possa acreditar, e que  
muitas vezes nele encontramos o reflexo das preocupações da véspera. As  
ideias das quais a mente é nutrida e das quais o cérebro ou melhor, o  
envoltório perispiritual correspondente ao cérebro conservou a impressão,  
reproduzem-se amplificadas como numa miragem, sob formas vaporosas que  
se cruzam e se confundem, compondo assim um quadro bizarro. Os extáticos  
de todos os cultos sempre viram coisas relacionadas com a fé da qual foram  
influenciados; logo, não é surpreendente que aqueles que, como santa Teresa,  
sejam fortemente imbuídos das ideias do inferno, tal como dadas em  
descrições verbais ou escritas e em quadros, tenham visões que,  
propriamente falando, são apenas reproduções, e produzem o efeito de um  
pesadelo. Um pagão cheio de fé teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria  
visto Júpiter, no Olimpo, segurando o raio na mão.  
54 Êxtase: um dos estágios da emancipação da alma, no qual o Espírito do encarnado fica mais ou menos  
livre para explorar o mundo espiritual, mas não perfeitamente, podendo o extático frequentemente se  
enganar a respeito de suas impressões durante a excursão anímica. Ver mais em O Livro dos Espíritos,  
de Allan Kardec, especialmente nas questões de 439 a 446. N. T.  
55 O Livro dos Espíritos, questões de 443 e 444.  
   
69 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO V  
O PURGATÓRIO  
1. O Evangelho não faz menção alguma do purgatório, que só foi admitido pela  
Igreja no ano 593. Este é certamente um dogma mais racional e mais  
conforme à justiça de Deus do que o inferno, pois ele estabelece penas menos  
rigorosas e resgatáveis para as infrações de uma gravidade mediana.  
O conceito do purgatório, portanto, é fundamentado na equidade,  
porque, comparado à justiça humana, é uma detenção temporária em relação  
a uma condenação perpétua. O que poderíamos pensar de um país que só  
aplicasse a pena de morte para os crimes e os pequenos delitos? Sem o  
purgatório, não há para as almas nada além das duas alternativas extremas: a  
felicidade absoluta ou o suplício eterno. Nesta hipótese, que seria das almas  
culpadas apenas de faltas leves? Ou elas compartilhariam da felicidade dos  
eleitos, sem seres perfeitas, ou sofreriam o castigo dos maiores criminosos,  
sem terem praticado tanto mal o que não seria nem justo nem racional.  
2. Mas a noção de purgatório devia necessariamente ser incompleta; é por  
isso que, conhecendo somente o sofrimento através do fogo, fizeram dele um  
diminutivo do inferno; também nele as almas ardem, só que com um fogo  
menos intenso. Sendo o progresso inconciliável com o dogma das penas  
eternas, as almas não saem de lá por efeito do seu avanço, mas sim pela  
virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção.  
Se o primeiro pensamento era bom, não é o mesmo caso das suas  
consequências, pelos abusos que causou. Por meio das preces pagas, o  
purgatório se tornou uma mina mais lucrativa do que o inferno.56  
56  
O purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências, por meio das quais se vendia a  
   
70 Allan Kardec  
3. O local do purgatório jamais foi determinado, nem a natureza das penas ali  
sofridas foi claramente definida. Estava reservado à nova revelação preencher  
essa lacuna, ao nos explicar as causas das misérias da vida terrena, das quais  
só a pluralidade das existências poderia nos mostrar a justiça.  
Essas misérias são necessariamente o resultado das imperfeições da  
alma, pois se a alma fosse perfeita, ela nunca cometeria faltas nem teria que  
sofrer suas consequências. A pessoa que fosse sóbria e moderada em tudo,  
por exemplo, não seria vítima das enfermidades causadas pelos excessos. Na  
maioria das vezes, a pessoa é infeliz neste mundo por sua própria culpa; mas  
se ela é imperfeita, é porque já assim era antes de vir à Terra e está expiando  
não somente suas faltas atuais, como também as faltas anteriores que ainda  
não foram reparadas. A pessoa enfrenta numa vida as provações que ela fez  
outros sofrerem numa outra existência. As vicissitudes que experimenta são  
ao mesmo tempo um castigo temporário e uma advertência sobre as  
imperfeições das quais ela deve se livrar para evitar males futuros e progredir  
rumo ao bem. Para a alma, são lições da experiência rudes lições, às vezes,  
porém tanto mais proveitosas para o futuro quanto mais deixarem profundas  
impressões. Essas vicissitudes são oportunidades para lutas incessantes que  
desenvolvem suas forças e suas faculdades morais e intelectuais, fortificam-na  
no bem e das quais a pessoa sempre sai vitoriosa, se tiver a coragem de  
suportá-las até o fim. O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde a alma  
entra radiosa e triunfante, tal como o soldado que sai da batalha e vem  
receber a palma gloriosa.  
4. Cada existência é para a alma uma ocasião de dar um passo adiante;  
depende da sua vontade que esse passo seja o maior possível, para alcançar  
vários degraus, ou então permanecer no mesmo ponto; neste último caso, ela  
terá sofrido sem proveito; e já que, cedo ou tarde, sempre é preciso pagar sua  
dívida, ela deverá recomeçar uma nova existência em condições ainda mais  
dolorosa, porque a uma mancha não removida ela acrescenta outra mancha.  
É então nas encarnações sucessivas que a alma se despoja pouco a pouco  
entrada no céu. Este abuso foi a causa principal da Reforma Protestante e o que fez Lutero rejeitar o  
purgatório.  
71 O Céu e o Inferno  
das suas imperfeições e que, numa palavra, ela se purga, até que esteja  
bastante pura para merecer deixar os mundos de expiação rumo a mundos  
mais felizes e, mais tarde, desfrutarem da suprema felicidade.  
O purgatório não é, pois, uma ideia vaga e incerta; é uma realidade  
concreta que vemos, que tocamos e que sofremos; ele existe nos mundos de  
expiação, e a Terra é um desses mundos; nela os homens expiam seu passado  
e seu presente em proveito do seu futuro. Mas, contrariamente à ideia que  
fazem dele, depende de cada um abreviar ou prolongar sua estadia, conforme  
o grau de adiantamento e de purificação ao qual tenha alcançado pelo seu  
trabalho sobre si mesmo. Podemos sair do purgatório, não porque tenhamos  
completado nosso tempo ou pelos méritos alheios, mas sim pelo nosso  
próprio mérito, segundo estas palavras do Cristo: A cada um segundo as  
suas obras, palavras que resumem toda a justiça de Deus.  
5. Então, a pessoa que sofre nesta vida deve se convencer de que isso é  
porque ela não se depurou suficientemente na sua existência anterior e que,  
se não o fizer nesta, sofrerá ainda mais na existência seguinte. Isso é ao  
mesmo tempo justo e lógico. Já que o sofrimento é inerente à imperfeição, a  
pessoa sofre enquanto ela for imperfeita, assim como uma enfermidade dura  
enquanto ela não for tratada. É desse modo que, enquanto o homem for  
orgulhoso, ele sofrerá as consequências do orgulho, assim como o egoísta  
sofrerá as consequências do egoísmo.  
6. O Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual, em razão do grau de  
suas imperfeições; depois, a vida corporal lhe é dada como um meio de  
reparação. É por isso que aí ele se reencontra, seja com as pessoas a quem  
ofendeu, seja nos ambientes semelhantes àqueles onde praticou o mal, seja  
em situações opostas, como, por exemplo, estar na miséria, caso ele tenha  
sido um rico malvado, ou numa condição humilhante, caso tenha sido um  
orgulhoso.  
A expiação no mundo dos Espíritos e na Terra não é um duplo  
castigo para o Espírito; ela é a mesma que continua na Terra, como um  
complemento, com o objetivo de lhe facilitar no seu melhoramento através de  
72 Allan Kardec  
um trabalho eficaz; cabe a ele aproveitá-lo. Não é melhor para o Espírito  
retornar à Terra com a possibilidade de ganhar o céu, do que a ser condenado  
sem remissão ao sair dela? Essa liberdade que lhe é concedida significa uma  
prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que deseja que o homem  
deva tudo aos seus próprios esforços e seja o artesão do seu futuro; se  
estiver infeliz, e se estiver assim por um tempo mais ou menos longo, ele não  
poderá se queixar senão de si mesmo: a via do progresso está sempre aberta  
para ele.  
7. Se considerarmos o quanto é grande o sofrimento de certos Espíritos  
culpados no mundo invisível, quão terrível é a situação de alguns, de que  
quantas angústias eles estão à mercê e o quanto essa posição se torna mais  
penosa devido a incapacidade em que se acham para verem o fim desses  
sofrimentos, então poderíamos dizer que para eles isso é o inferno se essa  
palavra não significasse a ideia de um castigo eterno e material. Graças à  
revelação dos Espíritos e aos exemplos que eles nos oferecem, nós sabemos  
que a duração da expiação é subordinada ao melhoramento do culpado.  
8. O Espiritismo não vem, com isso, negar a punição futura; ele vem, ao  
contrário, constatá-la. O que ele destrói é o inferno localizado, com suas  
fornalhas e suas penas irremissíveis. Ele também não nega o purgatório, pois  
prova que já estamos nele; ele o define e o especifica, explicando a causa das  
misérias terrenas, e através disso ele faz com que aqueles que o negam possa  
crer nele.  
Será que o Espiritismo rejeita as preces pelos falecidos? Muito ao  
contrário, porque os Espíritos sofredores as solicitam; porque faz disso um  
dever de caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzir ao bem e, por  
esse meio, abreviar os seus tormentos.57 Falando à inteligência, ele tem  
conduzido a fé aos incrédulos, assim como tem conduzido a prece àqueles que  
dela zombaram. Porém ele afirma que a eficácia das orações está no  
pensamento, e não nas palavras; que as melhores orações são as do coração, e  
não as dos lábios; aquelas que nós mesmos dizemos, e não aquelas que  
57 Veja em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII: Ação da prece.  
 
73 O Céu e o Inferno  
mandam dizer por dinheiro. Quem então ousaria criticá-lo?  
9. Que o castigo ocorra na vida espiritual ou na Terra, e qualquer que seja a  
sua duração, ele sempre tem um fim mais ou menos distante ou próximo.  
Portanto, na realidade só existem duas alternativas para o Espírito: punição  
temporária gradual conforme a culpa e recompensa gradual conforme o  
mérito. O Espiritismo repulsa a terceira alternativa a da condenação  
eterna. O inferno fica sendo uma figura simbólica dos maiores sofrimentos  
cujo término é desconhecido. O purgatório é a realidade.  
A palavra purgatório revela a ideia de um lugar circunscrito: eis por que  
ela é naturalmente mais aplicada à Terra, considerada como um lugar de  
expiação, do que ao Espaço infinito onde vagam os Espíritos sofredores, e que  
além disso a natureza da expiação terrena é uma verdadeira expiação.  
Quando os homens se melhorarem, eles só fornecerão ao mundo  
invisível bons Espíritos, e estes, ao encarnarem, só fornecerão à humanidade  
carnal elementos aperfeiçoados; então a Terra deixará de ser um mundo de  
expiação e os homens não sofrerão mais as misérias consequentes de suas  
imperfeições. É essa transformação que se opera neste momento e eleva a  
Terra na hierarquia dos mundos. (Veja O Evangelho segundo o Espiritismo,  
cap. III.)  
10. Por que então o Cristo não falou do purgatório? É que, não existindo a  
ideia, não havia uma palavra para representá-la. Ele se serviu do vocábulo  
inferno, a única que estava em uso, como um termo genérico, para designar  
as punições futuras sem distinção. Se ele tivesse colocado, ao lado da palavra  
inferno, um termo equivalente a purgatório, ele não poderia especificar o seu  
verdadeiro sentido sem resolver uma questão reservada para a posteridade;  
teria sido, além disso, consagrar a existência de dois lugares especiais de  
castigo. O inferno na sua concepção genérica, revelando a ideia de punição  
continha implicitamente a ideia do purgatório, que não passa de um modo  
de penalidade. O futuro, devendo esclarecer os homens sobre a natureza das  
penas, devia por isso mesmo reduzir o inferno ao seu justo valor.  
Como a Igreja achou que, após seis séculos, ela devia suprir o silêncio de  
74 Allan Kardec  
Jesus ao decretar a existência do purgatório, foi porque ela considerou que ele  
não havia dito tudo. Por que então não seria assim com relação às outras  
questões, como foi para esta?  
75 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO VI  
DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS  
Origem da doutrina das penas eternas –  
Argumentos a favor das penas eternas Impossibilidade material  
das penas eternas A doutrina das penas eternas teve a sua época –  
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original  
Origem da doutrina das penas eternas  
1. A crença na eternidade das penas perde diariamente tanto terreno que,  
sem ser profeta, todo mundo pode prever que o seu fim está próximo. Ela tem  
sido combatida por argumentos tão fortes e tão peremptórios que desde  
então parece quase supérfluo se ocupar com essa crença, e que basta deixá-la  
desaparecer por si mesma. Entretanto, não se pode esconder que, por mais  
caduca que seja, ela ainda é o ponto de encontro dos adversários das novas  
ideias, aquele que eles defendem com mais afinco por ser uma das  
questões mais vulneráveis e porque eles preveem as consequências de sua  
queda. Desse ponto de vista, essa questão merece um exame sério.  
2. A doutrina das penas eternas como a do inferno material teve a sua  
razão de ser enquanto esse temor podia ser um freio para os homens pouco  
adiantados intelectual e moralmente. Assim como teriam ficado pouco ou  
nada impressionados com a ideia das punições morais, eles não teriam ficado  
mais impressionados com a das punições temporárias; eles nem mesmo  
teriam compreendido a justiça das penas graduais e proporcionais, porque  
não estavam aptos a ver as nuances muitas vezes delicadas do bem e do mal,  
nem o valor relativo das circunstâncias atenuantes ou agravantes.  
 
76 Allan Kardec  
3. Quanto mais próximos os homens estão do estado primitivo, mais eles são  
materialistas; o senso moral é o que mais tardiamente se desenvolve neles.  
Por esta razão, eles não podem fazer mais do que uma ideia muito imperfeita  
de Deus e dos seus atributos, assim como uma ideia não menos vaga a  
respeito da vida futura. Eles assimilam Deus à sua própria natureza; para eles,  
Deus é um soberano absoluto, tanto mais medonho porque é invisível, como  
um monarca despótico que, escondido no seu palácio, nunca se mostra aos  
seus súditos. Ele só parece poderoso através da força material, pois eles não  
compreendem a força moral; só o enxergam armado com raios ou em meio a  
relâmpagos e tempestades, semeando ruína e a desolação em sua passagem, a  
exemplo dos guerreiros invencíveis. Um Deus de mansidão e de misericórdia  
não seria um Deus, mas um ser fraco que não conseguiria fazer com que o  
obedecessem. A vingança implacável, os castigos terríveis e eternos nada  
tinham de contrários à ideia que eles faziam de Deus, nada que repugnassem  
a razão deles. Como eles mesmos eram implacáveis nos seus ressentimentos,  
cruéis com os inimigos e impiedosos com os vencidos, Deus, que era superior  
a eles, deveria ser ainda mais terrível.  
Para tais homens, era preciso crenças religiosas semelhantes à sua  
natureza ainda rude. Uma religião totalmente espiritual, repleta de amor e de  
caridade, não podia se aliar à brutalidade dos costumes e das paixões. Então,  
não podemos criticar Moisés por sua legislação draconiana58, que mal foi  
suficiente para conter seu povo indócil, nem por ter feito de Deus um Deus  
vingativo. Isso foi necessário naquela época; a doce doutrina de Jesus não  
teria surtido efeito e seria impotente.  
4. À medida que o Espírito se desenvolvia, o véu material se dissipava pouco a  
pouco e os homens se tornavam mais aptos a entender as coisas espirituais;  
mas isso não aconteceu senão gradualmente. Quando veio Jesus, ele pôde  
anunciar um Deus clemente, pôde falar do seu reino, que não é deste mundo, e  
dizer aos homens: “Amem-se uns aos outros e façam o bem àqueles que  
58  
Draconiano: referência a Drácon, legislador ateniense do século VII a.C., celebrizado pela severidade  
(desumanidade, na opinião de muitos) do código de leis que ele formulou quando foi incumbido de  
encerrar um conflito civil em Atenas, no ano de 621 a.C. N. T.  
 
77 O Céu e o Inferno  
odeiam vocês”, enquanto os antigos diziam: Olho por olho, dente por dente.”  
Ora, quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas  
novamente criadas e encarnadas? Se esse fosse o caso, então Deus teria criado  
no tempo de Jesus almas mais avançadas do que no tempo de Moisés. Mas  
então, o que teria sido destas últimas? Será que elas teriam definhado por  
toda a eternidade no embrutecimento? O simples bom senso repele essa  
suposição. Não; elas eram as mesmas almas que, após ter vivido sob o império  
da lei mosaica, tinham adquirido durante várias existências um  
desenvolvimento suficiente para compreender uma doutrina mais elevada, e  
que hoje estão bastante adiantadas para receber um ensinamento ainda mais  
completo.  
5. No entanto, o Cristo não pôde revelar aos seus contemporâneos todos os  
mistérios do porvir; ele mesmo disse: “Ainda tenho muitas coisas a lhes dizer,  
mas vocês não as compreenderiam; é por isso que eu lhes falo em parábolas.”  
Sobretudo no que diz respeito à moral quer dizer, os deveres do homem  
para com o homem , ele foi mais explícito, porque, tocando na corda  
sensível da vida material, Jesus sabia se fazer ser compreendido; quanto aos  
outros pontos, ele se limitou a semear sob a forma alegórica os germes  
daquilo que deveria ser desenvolvido mais tarde.  
A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta última  
ordem de ideias. Em relação às penas principalmente, o Cristo não poderia  
romper bruscamente com as ideias estabelecidas; ele veio traçar aos homens  
novos deveres: a caridade e o amor ao próximo substituindo o espírito de  
ódio e de vingança, a abnegação substituindo o egoísmo: isso já era muito. Ele  
não poderia racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos  
prevaricadores sem enfraquecer ao mesmo tempo a ideia do dever. Ele  
prometia o reino dos céus aos bons; esse reino estaria então interditado aos  
maus; para onde iriam estes? Era preciso uma contrapartida capaz de  
impressionar inteligências ainda materializadas demais para se identificar  
com a vida espiritual; pois não podemos perder de vista que Jesus se  
endereçava ao povão, à parte menos esclarecida da sociedade, para a qual ele  
precisava de imagens de algum modo palpáveis, e não de ideias refinadas. Foi  
78 Allan Kardec  
por isso que ele não entrou em detalhes supérfluos a este respeito: bastava-  
lhe opor uma punição à recompensa; nada mais era necessário naquela época.  
6. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de  
serem lançados na Geena; ora, o que seria a Geena? Um lugar nos arredores  
de Jerusalém, um aterro sanitário onde se despejavam as imundícies da  
cidade. Deveríamos então interpretar isso também ao pé da letra? Essa era  
uma daquelas figuras enérgicas com a ajuda da qual se impressionava as  
multidões. Ocorre o mesmo com o fogo eterno. Se esse não tivesse sido o seu  
pensamento, Jesus estaria em contradição consigo mesmo ao exaltar a  
clemência e a misericórdia de Deus, pois clemência e inexorabilidade são  
coisas opostas que se anulam. Isso seria, portanto, se enganar estranhamente  
quanto ao significado das palavras de Jesus, ver nelas a sanção do dogma das  
penas eternas, quando todo seu ensinamento proclama a piedade do Criador.  
Na Oração dominical,59 ele nos ensina a dizer: “Senhor, perdoai as  
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.Se o  
culpado não tivesse qualquer perdão pelo qual esperar, seria inútil pedi-lo.  
Mas esse perdão é incondicional? Seria uma graça, uma remissão pura e  
simples da pena incorrida? Não; a medida desse perdão está subordinada à  
maneira como nós temos perdoado; quer dizer que se não perdoarmos, não  
seremos perdoados. Fazendo do esquecimento das ofensas uma condição  
absoluta, Deus não podia exigir que o homem fraco fizesse o que ele todo  
poderoso não fizesse. A Oração dominical é um protesto diário contra a  
eterna vingança de Deus.  
7. Para homens que só tinham uma noção confusa da espiritualidade da alma,  
a ideia do fogo material nada tinha de chocante, ainda menos porque ela fazia  
parte da crença comum extraída daquela ideia do inferno dos pagãos, quase  
universalmente disseminada. A eternidade da punição não tinha nada a mais  
que repugnasse às pessoas submetidas, desde muitos séculos, à legislação do  
terrível Jeová. No pensamento de Jesus, portanto, o fogo eterno não era mais  
do que uma simples figura; pouco lhe importava que essa figura fosse tomada  
59 Oração dominical: o Pai Nosso. N. T.  
 
79 O Céu e o Inferno  
ao pé da letra, desde que ela servisse de contenção. Ele sabia bem que o  
tempo e o progresso deveriam se encarregar de explicar o seu sentido  
alegórico, até que, segundo a sua predição, sobretudo o Espírito de Verdade  
viesse esclarecer os homens sobre todas as coisas.  
A característica essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do  
arrependimento. Ora, jamais Jesus disse que o arrependimento não  
encontraria graça perante Deus. Em todas as ocasiões, ao contrário, ele  
mostrou Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pródigo que  
retornou ao teto paterno. Ele não o mostra inflexível senão para o pecador  
endurecido; contudo, se Deus sustenta o castigo numa mão, na outra ele  
sempre sustenta o perdão pronto para ser estendido ao culpado assim que  
este volte sinceramente para ele. Esta certamente não é a imagem de um Deus  
sem piedade. Devemos considerar também que Jesus nunca pronunciou  
contra ninguém nem mesmo contra os maiores culpados a condenação  
irremissível.  
8. Todas as religiões primitivas, de acordo com o caráter dos povos, tiveram  
deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová dos hebreus  
fornecia-lhes mil meios de exterminar seus inimigos; ele os recompensava  
com a vitória ou os punia com a derrota. Conforme a ideia que se fazia de  
Deus, acreditava-se honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue dos animais ou dos  
homens; daí vem os sacrifícios sangrentos que representavam um papel tão  
importante em todas as religiões antigas. Os judeus já tinham abolido os  
sacrifícios humanos; os cristãos malgrado os ensinamentos do Cristo —  
por muito tempo acreditavam honrar o Criador jogando às chamas e às  
torturas milhares daqueles que eles chamavam hereges; isso era, de uma  
outra forma, um verdadeiro sacrifício humano, já que eles o faziam para a  
maior glória de Deus, e com acompanhamento de cerimônias religiosas.  
Mesmo hoje, eles ainda invocam o Deus dos exércitos antes do combate e o  
glorificam após a vitória, e isso muitas vezes pelas causas mais injustas e mais  
anticristãs.  
9. Como o homem é lento para se desfazer dos seus preconceitos, hábitos e  
80 Allan Kardec  
ideias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés e a nossa geração  
cristã ainda vê traços de antigos costumes bárbaros, consagrados ou pelo  
menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não  
ortodoxos, dos que são considerados heréticos, para pôr um fim às fogueiras  
e para esclarecer a verdadeira grandeza de Deus. Todavia, na falta de  
fogueiras, as perseguições materiais e morais ainda estão em pleno vigor, tão  
profundamente a ideia de um Deus cruel está enraizada no homem. Nutrido  
por sentimentos que lhe são inculcados desde a infância, será que o homem  
poderia estranhar que o Deus que lhe apresentam, como sendo honorificado  
por atos bárbaros, condene a torturas eternas e veja sem piedade o  
sofrimento dos desgraçados?  
Sim, foram os filósofos os ímpios, segundo alguns que ficaram  
escandalizados ao ver o nome de Deus profanado por atos que não são dignos  
dele; foram esses filósofos que o mostraram aos homens em toda a sua  
grandeza, despojando-o das paixões e baixezas humanas, atribuídas por uma  
crença não esclarecida. Com isso a religião ganhou em dignidade o que tem  
perdido em prestígio exterior, porque se há menos homens apegados à forma,  
há muito mais daqueles que são sinceramente religiosos pelo coração e pelos  
sentimentos.  
Mas, ao lado destes, quantos são os que, detendo-se na superfície, foram  
levados à negação de toda a Providência! Por não terem sabido colocar as  
crenças religiosas em harmonia com o progresso da razão humana, fizeram  
brotar o deísmo em alguns, a incredulidade absoluta em outros, e noutros  
mais o panteísmo, isto é, o próprio homem se fez deus, por falta de ver um  
bastante perfeito.  
Argumentos a favor das penas eternas  
10. Voltemos ao dogma das penas eternas. O principal argumento que  
invocam a seu favor é o seguinte:  
É um consenso entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcional  
à qualidade do ofendido. A ofensa que for cometida contra um soberano, sendo  
81 O Céu e o Inferno  
considerada como mais grave do que aquela contra uma pessoa comum, é  
punida com maior severidade. Ora, Deus é mais do que um soberano, porque é  
infinito; então a ofensa contra ele deve ser infinita e deve receber um castigo  
infinito, ou seja, eterno.”  
Refutação Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto de  
partida, uma base sobre a qual ela se apoie numa palavra: premissas. Nós  
adotamos essas premissas dos próprios atributos de Deus:  
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,  
soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições.  
É impossível conceber Deus de outra maneira que não seja com o infinito  
das perfeições; sem o que ele não seria Deus, pois então poderíamos imaginar  
um ser possuindo algo que faltasse a Deus. Para que ele seja único e acima de  
todos os seres, ninguém deve poder superá-lo ou igualá-lo no que quer que  
seja. Portanto, é preciso que ele seja infinito em tudo.  
Por serem infinitos, os atributos divinos não estão sujeitos nem a  
aumentar nem a diminuir; sem isso, eles não seriam infinitos e Deus não seria  
perfeito. Se tirássemos a menor parcela de um só dos seus atributos, já não  
teríamos mais Deus, porque poderia existir um ser mais perfeito.  
O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma  
qualidade contrária que pudesse diminuí-la e anulá-la. Um ser infinitamente  
bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau  
pode ter a menor parcela de bondade. Do mesmo modo que um objeto não  
seria absolutamente preto com a mais leve nuança de branco, nem um branco  
absoluto com a menor mancha de preto.  
Estabelecido este ponto de partida, contra os argumentos citados nós  
colocamos os argumentos seguintes:  
11. Só um ser infinito pode fazer alguma coisa infinita. O homem, sendo  
limitado nas suas virtudes, nos seus conhecimentos, na sua força, nas suas  
aptidões e na sua existência terrena, então ele não pode produzir nada além  
de coisas limitadas.  
Se o homem pudesse ser infinito no que ele faz de mal, poderia ser  
igualmente no que ele faz de bem, e assim ele seria igual a Deus. Entretanto,  
82 Allan Kardec  
se o homem fosse infinito no que ele faz de bem, então ele não faria o mal, já  
que o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.  
Admitindo-se que uma ofensa temporária dirigida à Divindade pudesse  
ser infinita, se Deus se vingasse disso com um castigo infinito, então ele seria  
infinitamente vingativo; se ele fosse infinitamente vingativo, ele não poderia  
ser infinitamente bom e misericordioso, pois um desses atributos é a negação  
do outro. Se ele não fosse infinitamente bom, então não seria perfeito, e se não  
fosse perfeito, ele não seria Deus.  
Se Deus fosse inflexível para com o culpado que se arrepende, ele não  
seria misericordioso; se ele não fosse misericordioso, então não seria  
infinitamente bom.  
Por que Deus faria para o homem uma lei de perdão, se ele mesmo não  
devesse perdoar? Isso resultaria que o homem que perdoa aos seus inimigos e  
que lhes retribui com o bem no lugar do mal seria melhor do que Deus, que  
permanece surdo ao arrependimento daquele que o ofendeu, e lhe recusa,  
pela eternidade, o mais leve alívio.  
Deus que está em toda parte e tudo vê deve estar assistindo às  
torturas dos condenados; se ele fica insensível aos gemidos deles durante a  
eternidade, é que ele é eternamente impiedoso; se não tem piedade, então ele  
não é infinitamente bom.  
12. A isso, costuma-se responder que o pecador que se arrepende antes de  
morrer experimenta a misericórdia de Deus, e que então até mesmo o maior  
culpado pode encontrar essa graça diante dele.  
Quanto a isso não há qualquer dúvida, e está entendido que Deus só  
perdoa o arrependido, permanecendo inflexível para com os endurecidos;  
mas, se ele é pleno de misericórdia para a alma que se arrepende antes de  
deixar o corpo, por que deixaria de ser misericordioso para quem se  
arrepende depois da morte? Por que o arrependimento só teria utilidade  
durante a vida, que não passa de um breve instante, e não mais durante a  
eternidade, que não tem fim? Se a bondade e a misericórdia de Deus ficassem  
circunscritas num determinado tempo, elas não seriam infinitas, e assim  
Deus não seria infinitamente bom.  
83 O Céu e o Inferno  
13. Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a justiça mais  
inexorável, nem aquela que deixa qualquer falta impune; é aquela que mais  
rigorosamente leva em conta o bem e o mal, que recompensa um e pune o  
outro na proporção mais equitativa, e não se engana jamais.  
Se, por um erro momentâneo que é sempre o resultado da natureza  
imperfeita do homem e muitas vezes do meio onde ele se encontra a alma  
pode ser punida eternamente, sem esperança de abrandamento nem de  
perdão, então não há proporção entre o erro e a punição: logo, não há justiça.  
Se o culpado retorna para Deus, arrependendo-se e pedindo para  
reparar o mal que fez, isso significa um retorno ao bem, aos bons sentimentos.  
Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem é infrutífero, e já que o bem  
não é levado em conta, então aqui não há justiça. Entre os homens, o  
condenado que se corrige tem a pena comutada, e às vezes até perdoada;  
desse modo, na justiça humana teria mais equidade do que na justiça divina!  
Se a condenação for irrevogável, o arrependimento será inútil; nada  
tendo a esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de modo  
que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente, mas também a  
permanecer no mal pela eternidade. Isso não seria nem justiça nem bondade.  
14. Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve conhecer tudo, do passado e  
do futuro; ele deve saber já no momento da criação de uma alma se ela vai  
fracassar de modo grave o bastante para ser condenada eternamente. Se Deus  
não souber disso, significa que sua sabedoria não é infinita, e assim ele não é  
Deus. Se o souber, quer dizer que ele cria voluntariamente um ser destinado  
desde a sua formação às torturas sem fim, e então ele não é bom.  
Se Deus, tocado pelo arrependimento de um condenado, pode lhe  
estender a sua misericórdia e o retirar do inferno, então não haverá mais  
penas eternas, e o julgamento pronunciado para os homens fica revogado.  
15. A doutrina das penas eternas absolutas, portanto, conduz forçosamente à  
negação ou ao enfraquecimento de alguns dos atributos de Deus;  
consequentemente, essa doutrina é inconciliável com a perfeição infinita, de  
onde chegamos a essa conclusão:  
84 Allan Kardec  
Se Deus é perfeito, a condenação eterna não existe; se ela existe, Deus  
não é perfeito.  
16. Também se invoca em favor do dogma da eternidade das penas o  
argumento seguinte:  
A recompensa concedida aos bons, sendo eterna, deve ter como  
contrapartida uma punição eterna. É justo proporcionar a punição à  
recompensa.”  
Refutação Deus criou a alma para torná-la feliz ou infeliz?  
Evidentemente, a felicidade da criatura deve ser o objetivo da sua criação; do  
contrário, Deus não seria bom. A alma alcança a felicidade pelo seu próprio  
mérito; uma vez adquirido esse mérito, ela não pode perder o fruto dele; do  
contrário, ela degeneraria. Portanto, a eternidade da felicidade é a  
consequência de sua imortalidade.  
Contudo, antes de chegar à perfeição, a alma tem lutas a enfrentar,  
combates a travar contra as más paixões. Como Deus não a criou perfeita, mas  
capaz de ser tornar perfeita, a fim de que ela tenha o mérito de suas obras, a  
alma pode cair no erro. Suas quedas são consequências de sua fraqueza  
natural. Se, por uma queda, ela tivesse que ser punida eternamente, então  
poderíamos perguntar por que Deus não a criou mais forte? A punição que ela  
sofre é um sinal de que ela fez algo errado e que deve ter como resultado  
reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse irremissível, seu desejo de se  
melhorar seria supérfluo; desde então a finalidade providencial da criação  
não poderia ser alcançada, porque haveria seres predestinados à felicidade e  
outros à infelicidade. Se uma alma culpada se arrepende, ela pode se tornar  
boa; podendo tornar-se boa, ela pode aspirar à felicidade. Seria justo Deus lhe  
recusar os meios para isso?  
Já que o bem é o objetivo final da criação, a felicidade, que é o seu  
prêmio, deve ser eterna; então o castigo, que é um meio de alcançá-la, deve  
ser temporário. A mais vulgar noção de justiça, mesmo entre os homens, diz  
que não se pode castigar perpetuamente aquele que tem o desejo e a vontade  
de fazer o bem.  
85 O Céu e o Inferno  
17. Um último argumento a favor das penas eternas é este:  
“O temor de um castigo eterno é um freio; se fosse anulado, o homem, não  
temendo mais nada, iria se entregar a todos os excessos.”  
Refutação Esse raciocínio seria justo se a não-eternidade das penas  
levasse à supressão de toda sanção penal. O estado feliz ou infeliz na vida  
futura é uma consequência rigorosa da justiça de Deus, pois uma semelhança  
de condições entre um homem bom e um perverso seria a negação dessa  
justiça. Mas, por não ser eterno, o castigo nem por isso deixa de ser menos  
doloroso; tanto mais ele é temido quanto mais se crê nele, e tanto mais se crê  
nele quanto mais ele for racional. Uma penalidade na qual ninguém acredita  
não representa um freio, e a eternidade das penas é um exemplo disso.  
A crença nas penas eternas como já dissemos teve a sua utilidade e  
a sua razão de ser numa certa época; hoje, não somente ela não funciona mais  
como também produz incrédulos. Antes de colocá-la como uma necessidade,  
seria preciso demonstrar a sua realidade. Seria preciso sobretudo conferir a  
sua eficácia naqueles que a preconizam e se esforçam para demonstrá-la.  
Infelizmente, entre esses, muitos provam pelos próprios atos que não estão  
com medo de nada disso. Se ela é impotente para reprimir o mal entre aqueles  
que dizem acreditar nela, que influência ela poderá ter sobre quem não  
acredita nela?  
Impossibilidade material das penas eternas  
18. Até aqui, o dogma das penas eternas só foi combatido pelo raciocínio;  
agora, vamos demonstrá-lo em contradição com os fatos positivos que temos  
diante dos olhos e provar a sua impossibilidade.  
Segundo esse dogma, a sorte das almas é irrevogavelmente fixada após a  
morte. Este é, portanto, um ponto terminal definitivo oposto ao progresso.  
Ora, será que a alma progride ou não? A questão toda é essa. Se ela progride, a  
eternidade das penas é impossível.  
Será possível duvidar desse progresso, quando se vê a imensa variedade  
de aptidões morais e intelectuais que existem na Terra, desde o selvagem até  
86 Allan Kardec  
o homem civilizado? Quando se vê a diferença que um mesmo povo apresenta  
de um século para o outro? Se admitirmos que não são mais as mesmas almas,  
é preciso admitir então que Deus tenha criado almas em todos os graus de  
adiantamento, conforme as épocas e os lugares, e que ele tenha favorecido  
umas ao passo que tenha destinado outras à perpétua inferioridade algo  
incompatível com a justiça, que deve ser a mesma para todas as criaturas.  
19. É incontestável que a alma atrasada moral e intelectualmente como a  
dos povos bárbaros não pode ter os mesmos elementos de felicidade, as  
mesmas aptidões para gozar dos esplendores do infinito, como aquela alma  
cujas faculdades estão todas largamente desenvolvidas. Por isso, se essas  
almas não progridem, elas não podem nas condições mais favoráveis —  
gozar na perpetuidade senão de uma felicidade por assim dizer negativa.  
Então, para estarmos de acordo com a rigorosa justiça, forçosamente nós  
chegaremos à conclusão de que as almas mais avançadas são aquelas mesmas  
que eram atrasadas e que conseguiram progredir. Porém, aqui tocamos na  
grande questão da pluralidade das existências, como sendo o único meio  
racional para resolver essa dificuldade. Entretanto, vamos desconsiderar essa  
questão e considerar a alma numa única existência.  
20. Eis um caso, dentre tantos que se vê, de um rapaz de 20 anos, ignorante,  
com instintos viciosos, negando a Deus e a sua alma, entregando-se à  
desordem e cometendo toda sorte de malvadeza. De repente, ele se encontra  
num meio favorável; ele trabalha, instrui-se, pouco a pouco se corrige e  
finalmente se torna piedoso. Esse não é um exemplo palpável do progresso da  
alma durante a vida? Não vemos casos parecidos com esse todos os dias?  
Então, com uma idade avançada, esse homem morre santamente e,  
naturalmente, a sua salvação está assegurada. Mas, qual seria a sua sorte se  
um acidente o tivesse levado a morrer quarenta ou cinquenta anos mais cedo?  
Ele estava em todas as condições exigidas para ser condenado; ora, uma vez  
condenado, todo progresso ficaria perdido. Eis, pois, um homem salvo porque  
viveu por muito tempo, mas que, segundo a doutrina das penas eternas, teria  
se perdido para sempre caso tivesse vivido menos o que poderia resultar  
87 O Céu e o Inferno  
de um acidente fortuito. Então, já que sua alma pôde progredir num dado  
tempo, por que ela não poderia progredir no mesmo tempo depois da morte,  
se uma causa independente da sua vontade a tivesse impedido de fazê-lo  
durante sua vida? Por que Deus lhe recusaria tais meios? O arrependimento,  
embora tardio, não deixou de vir a seu tempo. Mas se desde o instante da  
morte uma condenação irremissível lhe tivesse ocorrido, então o seu  
arrependimento teria sido infrutífero, pela eternidade, e sua capacidade de  
progredir seria aniquilada para sempre.  
21. O dogma da eternidade absoluta das penas é, portanto, incompatível com  
o progresso da alma, já que impõe um obstáculo invencível. Esses dois  
princípios obrigatoriamente anulam um ao outro; se um existe, o outro não  
pode existir. Qual dos dois existe? A lei do progresso é patente: não é uma  
teoria, mas um fato constatado pela experiência; é uma lei da natureza, lei  
divina, imprescritível. Então, já que esta lei existe e que não pode se conciliar  
com a outra, é porque a outra não existe. Se o dogma da eternidade das penas  
fosse uma verdade, santo Agostinho, são Paulo e tantos outros jamais teriam  
visto o céu, caso morressem antes do progresso que lhes trouxe a conversão.  
A esta derradeira afirmação, alguém pode responder que a conversão  
desses personagens santos não é um resultado do progresso da alma, mas da  
graça que lhes foi concedida e pela qual foram tocados.  
Mais isso é um jogo de palavras. Se esses santos praticaram o mal e mais  
tarde praticaram o bem, é que eles melhoraram; logo, eles progrediram. Por  
acaso Deus teria concedido a eles por um favor especial a graça de se  
corrigirem? Por que a eles e não a outros? É sempre a doutrina dos  
privilégios, incompatível com a justiça de Deus e com seu amor equânime  
para com todas as suas criaturas.  
Segundo a doutrina espírita, de acordo com as mesmas palavras do  
Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é filho de suas  
obras, durante esta vida e depois da morte; ele não deve favor nenhum: Deus  
o recompensa pelos seus esforços e o pune pela sua negligência, por tanto  
tempo quanto ele for negligente.  
88 Allan Kardec  
A doutrina das penas eternas teve a sua época  
22. A crença na eternidade dos castigos físicos prevaleceu como um temor  
salutar até que os homens estivessem em condições de compreender a força  
moral. Tais são as crianças que são contidas durante algum tempo pela  
ameaça de certos seres quiméricos com os quais elas são intimidadas; mas  
chega um momento em que o próprio raciocínio da criança faz justiça aos  
contos com os quais ela foi embalada momento em que seria absurdo  
querer governá-las pelos mesmos artifícios. Se aqueles que cuidam da criança  
persistirem em lhe afirmar que essas fábulas são verdades que devem ser  
tomadas ao pé da letra, elas perderão a sua confiança.  
Assim é como acontece hoje com a humanidade; ela saiu da infância e  
avançou além dos seus limites. O homem já não é mais esse instrumento  
passivo que se curva à força material, nem aquele ser crédulo que aceitava  
tudo de olhos fechados.  
23. A crença é um ato de entendimento e é por isso que ela não pode ser  
imposta. Se, durante um determinado período da humanidade, o dogma das  
penas eternas pareceu ser inofensivo, e até mesmo salutar, chegou um  
momento em que ele se tornou perigoso. Com efeito, desde o instante em que  
você impõe esse dogma como verdade absoluta, enquanto a própria razão o  
repulsa, disso resulta necessariamente uma de duas coisas: ou o homem que  
deseja crer procura uma crença mais racional, e então se afasta de você, ou ele  
passa a desacreditar em tudo. É evidente para qualquer um que tenha  
estudado a questão com cuidado que em nossos dias o dogma da  
eternidade das penas tem feito mais materialistas e ateus do que todos os  
filósofos.  
As ideias seguem um curso incessantemente progressivo; não se pode  
governar os homens a não ser seguindo esse curso. Querer pará-lo ou fazê-lo  
retroceder, ou simplesmente ficar estagnado enquanto ele avança é se perder.  
Seguir ou não seguir esse movimento é uma questão de vida ou de morte,  
para as religiões assim como para os governos. Isso é bom? Isso é mau? Com  
certeza isso é mau aos olhos daqueles que, vivendo do passado, vissem esse  
89 O Céu e o Inferno  
passado escapar deles; já para quem enxerga o futuro, essa é a lei do  
progresso, que é uma lei de Deus, e contra as leis de Deus toda teimosia é  
inútil; lutar contra sua vontade é querer se arrebentar.  
Por que então querer a todo custo sustentar uma crença que cai em  
desuso e que, em definitivo, prejudica mais do que faz bem à religião? Ah, é  
triste dizer, mas aqui uma questão material domina a questão religiosa. Essa  
crença tem sido amplamente explorada com a ajuda do pensamento de que  
com dinheiro se poderia abrir as portas do céu e se proteger do inferno. As  
somas que ela tem arrecadado e que ainda arrecada são incalculáveis; é  
o imposto adiantado pelo temor da eternidade. Esse imposto sendo  
facultativo, a arrecadação é proporcional à crença; se a crença deixar de  
existir, a renda será nula. A criança dá de seu bolo voluntariamente a quem  
lhe promete afugentar o lobisomem; mas quando a criança não mais acredita  
em lobisomem, ela guarda seu bolo.  
24. Dando noções mais positivas da vida futura e provando que se pode  
alcançar a salvação pelas próprias obras, a nova revelação deve encontrar  
uma oposição ainda mais viva, já que ela seca uma fonte mais importante de  
lucro. É assim que acontece toda vez que uma descoberta ou uma invenção  
vem modificar os hábitos. Quem vive de processos velhos e dispendiosos  
costuma defendê-los, e desdenham os novos, mais econômicos. Quem  
acreditaria, por exemplo, que a imprensa apesar dos serviços que prestaria  
à humanidade poderia ser aclamada pela numerosa classe dos copistas?  
Ninguém, certamente; eles a amaldiçoaram. Foi assim com as máquinas, com  
as ferrovias e com centenas de outras coisas.  
Aos olhos dos incrédulos, o dogma das penas eternas é uma questão fútil  
da qual eles riem; para os olhos do filósofo, ele tem uma gravidade social  
pelos abusos que provoca. O homem verdadeiramente religioso vê a  
dignidade da religião interessada na destruição desses abusos e de sua causa.  
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original  
25. Aos que afirmam encontrar na Bíblia a justificativa para a eternidade das  
90 Allan Kardec  
penas, podemos mostrar textos contrários que não deixam qualquer  
ambiguidade. As seguintes palavras de Ezequiel são a mais explícita negação,  
não somente das penas irremissíveis, mas da responsabilidade que a falta do  
pai do gênero humano teria feito pesar sobre a sua raça:  
1. O Senhor me falou novamente e me disse: 2. Como é que vocês se servem  
dessa parábola entre vocês e que a transformaram em provérbio em Israel,  
dizendo-se: Os pais comeram uvas verdes, foram os dentes dos filhos que ficaram  
embotados? 3. Juro por mim mesmo disse o Senhor Deus que essa parábola  
não passará mais entre vocês como provérbio em Israel; 4. Pois todas as almas me  
pertencem; a alma do filho está comigo como a alma do pai; a alma que pecou  
morrerá ela mesma.  
5. Se um homem for justo, se ele agir de acordo com a equidade e a justiça; 7.  
Se não entristecer nem oprimir ninguém; se ele devolver ao seu devedor o penhor  
que este lhe havia dado; se não tomar nada de valor de outrem pela violência; se  
ele der o seu pão a quem tem fome; se ele vestir os que estão nus; 8. Se não se  
prestar à usura e não receber mais do que deu; se desviar sua mão da iniquidade e  
se fizer um julgamento equânime entre dois homens que litigam entre si; 9. Se  
andar no caminho dos meus preceitos e conservar minhas ordens para agir  
conforme a verdade, então este homem é justo e muito certamente viverá disse  
o Senhor Deus.  
10. Se este homem tem um filho que seja ladrão e que derrame sangue, ou  
que cometa algumas dessas faltas; 13. Esse filho muito certamente morrerá, já que  
tem praticado todas essas ações detestáveis, e seu sangue ficará sobre sua cabeça.  
14. Se este homem tem um filho que, vendo todos os crimes cometidos por  
seu pai, fica repleto de medo e tem o cuidado de não imitar seu pai; 17. Este não  
morrerá por causa da iniquidade de seu pai, mas muito certamente viverá. 18. Seu  
pai, que tinha oprimido os outros com calúnias e que tinha feito ações criminosas  
no meio do seu povo, este sim morrerá por causa da sua própria iniquidade.  
19. Se vocês dizem: Por que o filho não carrega a iniquidade do pai? É porque  
o filho agiu segundo a equidade e a justiça; porque tem guardado todos os meus  
preceitos e os tem praticado; por isso muito certamente ele viverá.  
20. A alma que pecou morrerá ela mesma: O filho não carregará a  
iniquidade do pai e o pai não carregará a iniquidade do filho; a justiça do justo  
ficará com ele, e a impiedade do ímpio ficará com ele.  
21. Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que tiver cometido, se ele  
guardar todos os meus preceitos, e se ele agir segundo a equidade e a justiça, ele  
certamente viverá e não morrerá. 22. Eu não me lembrarei mais de todas as  
91 O Céu e o Inferno  
iniquidades que ele tiver cometido; ele viverá nas obras de justiça que tiver  
praticado.  
23. Será que eu quero a morte do ímpio? disse o Senhor Deus Não é  
melhor que ele se converta e que se retire do seu mau caminho e que viva?  
(Ezequiel, 18)60  
Digam-lhes estas palavras: Eu juro por mim mesmo disse o Senhor Deus  
que eu não quero a morte do ímpio, mas sim, que eu quero que o ímpio se  
converta, que ele deixe o seu mau caminho e que viva. (Ezequiel, 33: 11)  
60  
No original, equivocadamente consta a referência para o capítulo 28 (XXVIII), quando de fato é o  
décimo oitavo capítulo, com base na Bíblia de Sacy, que foi a versão utilizada por Allan Kardec. N. T.  
 
92 Allan Kardec  
CAPÍTULO VII  
AS PENAS FUTURAS  
SEGUNDO O ESPIRITISMO  
A carne é fraca –  
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras  
Código penal da vida futura  
A carne é fraca  
Há inclinações viciosas que são evidentemente inerentes ao Espírito,  
porque se prendem mais à moral do que ao físico; outras parecem ser mais a  
consequência do organismo e, por esse motivo, acredita-se que ele seja menos  
responsável: tais são as predisposições à cólera, à frouxidão, à sensualidade  
etc.  
Hoje, está plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os  
órgãos cerebrais, correspondentes às diversas aptidões, devem o seu  
desenvolvimento à atividade do Espírito; que esse desenvolvimento é antes  
um efeito e não uma causa. Não é que um homem seja músico porque tem o  
talento da música, mas sim que ele tem o talento da música porque o seu  
Espírito é musicista.  
Se a atividade do Espírito reage sobre o cérebro, deve reagir igualmente  
sobre as outras partes do organismo. Assim sendo, o Espírito é o artífice do  
seu próprio corpo, que ele modela por assim dizer a fim de adequá-lo às  
suas necessidades e à manifestação de suas tendências. Dado isso, a perfeição  
das raças avançadas não seria o produto de criações distintas, mas sim o  
 
93 O Céu e o Inferno  
resultado do trabalho do Espírito, que aperfeiçoa o seu instrumento à medida  
que suas faculdades aumentam.  
Por uma consequência natural desse princípio, as disposições morais do  
Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor  
atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bílis ou de  
quaisquer outros fluidos. É assim, por exemplo, que o guloso sente a saliva vir  
à boca ao ver um prato apetitoso. Não é a comida que pode superexcitar o  
órgão do paladar, já que não há contato; então, é o Espírito, cuja sensibilidade  
foi despertada, que age pelo pensamento sobre aquele órgão, enquanto em  
outra pessoa a visão desse mesmo prato não produz qualquer efeito. É ainda  
pela mesma razão que uma pessoa sensível facilmente derrama lágrimas: não  
é a abundância de lágrimas que dá a sensibilidade ao Espírito, mas é a  
sensibilidade do Espírito que provoca a secreção abundante de lágrimas; sob  
a influência da sensibilidade, o organismo se adaptou a essa disposição  
normal do Espírito, como se adaptou à disposição do Espírito glutão.  
Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um Espírito irascível  
deve levar ao temperamento bilioso;61 daí segue que uma pessoa não é  
colérica porque é biliosa, mas que é biliosa porque é colérica. O mesmo ocorre  
com todas as outras disposições instintivas: um Espírito frouxo e indolente  
deixará o organismo num estado de atonia em relação ao seu caráter, ao  
passo que, se for ativo e enérgico, ele dará ao seu sangue e aos seus nervos  
qualidades totalmente diferentes. A ação do Espírito sobre o físico é tão  
evidente que muitas vezes se vê graves desordens orgânicas se produzirem  
por efeito de violentas comoções morais. A expressão comum: A emoção lhe  
transtornou o sangue, não é assim tão fora de sentido quanto se poderia  
pensar. Ora, o que poderia transtornar o sangue, senão as disposições morais  
do Espírito?  
Então, pode-se admitir, ao menos em parte, que o temperamento é  
determinado pela natureza do Espírito, que é a causa e não o efeito. Dizemos  
61  
Esta associação da bile ao comportamento raivoso vem da “teoria humoral” de Hipócrates (séc. IV  
a.C.), o pai da medicina, classificando os temperamentos predominantes em quatro tipos, cada um  
resultante de uma substância orgânica: colérico, vindo a bile amarela; melancólico, da bile negra;  
violento, do sangue; e paciente, vindo da fleuma. Segundo esta tese, as enfermidades resultam do  
desequilíbrio dessas substâncias. N. T.  
 
94 Allan Kardec  
em parte porque há casos em que o físico influi evidentemente sobre o moral:  
é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa  
externa, acidental, independente do Espírito como a temperatura, o clima,  
os defeitos físicos congênitos, um mal-estar passageiro etc. O humor do  
Espírito pode então ser afetado nas suas manifestações pelo estado  
patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada.  
Desculpar-se dos seus malfeitos pela fraqueza da carne não é, portanto,  
mais do que um subterfúgio para escapar da responsabilidade. A carne só é  
fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão e deixa ao Espírito a  
responsabilidade de todos os seus atos. A carne que não tem pensamento e  
nem vontade jamais pode prevalecer sobre o Espírito, que é o ser pensante  
e desejoso; é o Espírito quem dá à carne as qualidades correspondentes aos  
seus instintos, como um artista imprime à sua obra material a marca de sua  
genialidade. Liberto dos instintos da bestialidade, o Espírito modela um corpo  
que deixa de ser um tirano para as suas aspirações rumo à espiritualidade do  
seu ser; é a partir daí que o homem come para viver, porque viver é uma  
necessidade, não mais vivendo para comer.  
Em suma, a responsabilidade moral dos atos da vida fica intacta; porém  
a razão nos diz que as consequências dessa responsabilidade devem ser  
proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito: quanto mais  
esclarecido ele for, menos ele será desculpável, porque com a inteligência e o  
senso moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.  
Essa lei explica o insucesso da medicina em certos casos. Já que o  
temperamento é um efeito e não uma causa, os esforços promovidos para  
modificá-lo são necessariamente paralisados pelas disposições morais do  
Espírito que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação  
terapêutica. Logo, é sobre a causa primeira que se deve agir. Deem se for  
possível coragem ao medroso, e vocês verão cessar os efeitos fisiológicos  
do medo.  
Isto prova uma vez mais a necessidade, para a arte de curar, de levar em  
conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo. (Revista espírita,  
março de 1869: ‘A carne é fraca’.)  
95 O Céu e o Inferno  
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras  
A Doutrina Espírita não está baseada sobre uma teoria preconcebida  
quando se refere às penas futuras, assim como aos demais assuntos; não é um  
sistema substituindo outro sistema: em todas as coisas, ela se apoia nas  
observações, e é isso que faz a sua autoridade. Ninguém imaginava, pois, que  
as almas após a morte deviam se encontrar em tal ou qual situação; são os  
próprios seres que deixaram a Terra que vêm hoje nos iniciar nos mistérios  
da vida futura, descrevendo sua posição feliz ou infeliz, suas impressões e sua  
transformação desde a morte do corpo; numa palavra, sobre esta questão,  
eles vêm completar o ensinamento do Cristo.  
Não se trata aqui da relação de um único Espírito, que somente poderia  
ver as coisas do seu ponto de vista, sob um único aspecto, ou ainda ser  
dominado pelos preconceitos terrestres; nem se trata de uma revelação feita  
a um só indivíduo, que poderia se deixar ser enganado pelas aparências, nem  
de uma visão extática que se presta às ilusões e que com frequência não  
passa de reflexo de uma imaginação exaltada;62 mas se trata de inúmeros  
exemplos fornecidos por todas as categorias de Espíritos, desde a mais  
elevada até a mais baixa da escala, através da ajuda de incontáveis  
intermediários disseminados em todos os pontos da Terra, de tal sorte que a  
revelação não seja privilégio de ninguém, que qualquer pessoa possa ver e  
conferir, e que ninguém seja obrigado a crer pela fé dos outros.  
Código penal da vida futura  
O Espiritismo não vem, pois, da sua autoridade particular, formular um  
código de fantasia; a sua lei, no que toca ao futuro da alma, deduzida da  
observação dos fatos, pode ser resumida nos seguintes pontos:  
1º) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as  
imperfeições das quais ela não se depurou durante a vida corpórea. O  
62 Veja lá atrás o capítulo VI, item 7, e em O Livro dos Espíritos, as questões 443 e 444.  
 
96 Allan Kardec  
seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou  
de suas imperfeições.  
2º) A felicidade perfeita está atrelada à perfeição, quer dizer, à depuração  
completa do Espírito. Toda imperfeição é, ao mesmo tempo, causa de  
sofrimento e de privação de prazer, do mesmo modo que toda qualidade  
adquirida é fonte de prazer e de atenuação dos sofrimentos.  
3º) Não há uma única imperfeição da alma que não traga consigo suas  
consequências funestas e inevitáveis, assim como não há uma só  
qualidade boa que não seja uma fonte de satisfação. A soma das  
penas é assim proporcional à soma das imperfeições, da mesma maneira  
que a dos prazeres está condicionada à soma das qualidades.  
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que  
aquela que só tem três ou quatro; quando dessas dez imperfeições não  
lhe restar mais do que um quarto ou a metade, ela sofrerá menos, e  
quando não lhe restar mais nenhuma, ela não sofrerá mais e será  
perfeitamente ditosa. De forma igual, na Terra, quem tem muitas  
doenças sofre mais do que quem tem apenas uma ou nenhuma. Pela  
mesma razão, a alma que possui dez qualidades tem mais satisfações do  
que aquela que tem menos qualidades.  
4º) Em virtude da lei do progresso, toda alma tendo a possibilidade de  
adquirir o bem que lhe falta e de se despojar do que tem de mau,  
conforme seus esforços e sua vontade, disso resulta que o porvir não  
está fechado a nenhuma criatura. Deus não repudia nenhum de seus  
filhos; ele os recebe em seu seio à medida que eles atingem a perfeição,  
deixando assim a cada qual o mérito das suas obras.  
5º) Estando o sofrimento atrelado à imperfeição, como a satisfação à  
perfeição, a alma carrega em si mesma seu próprio castigo por onde  
quer que ela esteja; não há para isso a necessidade de um lugar  
circunscrito. O inferno está então por toda parte onde haja almas  
sofredoras, como o céu está por toda parte onde existam almas felizes.  
6º) O bem e o mal que fazemos são o produto das boas e más qualidades que  
possuímos. Não fazer o bem que podemos fazer é, portanto, o resultado  
97 O Céu e o Inferno  
de uma imperfeição. Já que toda imperfeição é uma fonte de sofrimento,  
o Espírito deve sofrer não somente por todo o mal que fez, mas por todo  
o bem que poderia ter feito e que não fez durante sua vida terrena.  
7º) O Espírito sofre pelo mal que ele mesmo fez, para que, sua atenção  
estando constantemente voltada para as consequências desse mal,  
ele compreenda melhor os seus inconvenientes e esteja motivado a se  
corrigir.  
8º) A justiça de Deus sendo infinita, é feita uma conta rigorosa do bem e do  
mal; se não há uma única má ação e nem um só mau pensamento que  
não tenha consequências fatais, então não há uma única boa ação e nem  
um só bom movimento da alma nem o menor mérito, em resumo —  
que seja perdido, mesmo para os mais perversos, já que isso significa  
um começo de progresso.  
9º) Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que  
deverá ser paga; se não for paga numa existência, será paga na próxima  
ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias uma com as  
outras. Aquele que se quita na presente existência não terá que pagar  
uma segunda vez.  
10º) O Espírito sofre a penalidade das suas imperfeições seja no mundo  
espiritual, seja no mundo corpóreo. Todas as misérias, todas as  
vicissitudes que experimentamos na vida carnal são decorrentes das  
nossas imperfeições expiações de faltas cometidas, ou na presente  
existência ou nas precedentes.  
Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes que  
experimentamos na vida corporal, podemos julgar a natureza das faltas  
cometidas numa existência anterior e as imperfeições que foram a sua  
causa.  
11º) A expiação varia conforme a natureza e a gravidade da falta; assim, uma  
mesma falta pode ocasionar diferentes expiações, de acordo com as  
circunstâncias atenuantes ou agravantes nas quais ela foi cometida.  
12º) Com relação à natureza e a duração do castigo, não há qualquer regra  
98 Allan Kardec  
absoluta e uniforme; a única lei geral é que toda falta recebe sua punição  
e toda boa ação recebe sua recompensa, conforme o seu valor.  
13º) A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito  
culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é prescrita  
contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é um  
melhoramento sério, efetivo e um retorno sincero ao bem.  
Assim sendo, o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte; ele  
pode prolongar seus sofrimentos pela sua teimosia no mal, e pode  
suavizá-los ou abreviá-los pelos esforços para fazer o bem.  
Uma condenação por tempo qualquer determinado teria o duplo  
inconveniente: ou continuar a ferir o Espírito que já tivesse melhorado  
ou cessar o sofrimento quando o Espírito ainda estivesse no mal. Deus,  
que é justo, pune o mal enquanto o mal existe, e cessa de punir quando  
o mal não existe mais;63 ou, se assim preferirem, o mal moral sendo por  
si mesmo uma causa de sofrimento, o suplício dura pelo tempo que o  
mal existir; sua intensidade diminui à medida que o mal se enfraquece.  
14º) Estando a duração do castigo subordinada ao melhoramento, disso  
resulta que o Espírito culpado que nunca se melhorasse sofreria sempre,  
e que, para ele, a pena seria eterna.  
15º) Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não ver o  
término da sua situação e acreditar que eles sofrerão para sempre. Isso  
para eles é um castigo que lhes parece ser eterno.64  
16º) O arrependimento é o primeiro passo rumo ao melhoramento, mas só  
ele não basta; é preciso ainda a expiação e a reparação.  
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições  
necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.  
O arrependimento suaviza as dores da expiação, o que lhe dá a  
63 Veja lá atrás no capítulo VI, item 25, a citação de Ezequiel.  
64  
Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se: o limite das neves perpétuas; o gelo eterno dos polos;  
também se diz: o secretário perpétuo da Academia, o que não quer dizer que isso seja para a  
perpetuidade, mas somente por um tempo ilimitado. Eterno e perpétuo são então empregados no  
sentido de indeterminado. Nesta acepção, pode-se dizer que as sentenças são eternas, se entendermos  
que elas não têm uma duração limitada; são eternas para o Espírito que não vê o fim delas.  
   
99 O Céu e o Inferno  
esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas somente a  
reparação pode anular o efeito, destruindo-lhe a causa; o perdão seria  
uma graça, e não uma anulação.  
17º) O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e em qualquer  
tempo; se for tardio, o culpado sofrerá por muito mais tempo.  
A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a  
consequência da falta cometida, seja na vida atual, seja na vida espiritual,  
após a morte, seja numa nova existência corporal, até que os últimos  
traços da falta sejam apagados.  
A reparação consiste em fazer o bem a quem foi feito o mal.  
Aquele que não repara os seus erros nesta vida por impossibilidade  
ou má vontade ficará numa existência posterior em contato com as  
mesmas pessoas que tenham do que se queixar dele, e nas condições por  
ele escolhidas, de maneira a poder lhes demonstrar o seu devotamento e  
lhes fazer tanto bem quanto lhes tenha feito mal.  
Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo; nesse  
caso, a reparação se realiza assim: fazendo o que se devia fazer e não foi  
feito, cumprindo os deveres que negligenciou ou incompreendeu, as  
missões em que fracassou; praticando o bem ao contrário do que fez de  
mal: isto é, tornando-se humilde se foi orgulhoso, dócil se foi duro,  
caridoso se foi egoísta, benevolente se foi malvado, laborioso se foi  
preguiçoso, útil se foi inútil, prudente se foi dissoluto, de bom exemplo  
se deu maus exemplos etc. É assim que o Espírito progride, tirando  
proveito do passado.65  
65  
A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça que pode ser considerada como a  
verdadeira lei da reabilitação moral dos Espíritos. É uma doutrina que nenhuma religião ainda  
proclamou.  
Mas algumas pessoas a rejeitam, porque achariam mais cômodo poder apagar seus malfeitos por  
um simples arrependimento, que só custa palavras, e com a ajuda de algumas fórmulas; deixem que elas  
pensem que estão quites: mais tarde elas verão se isso lhes basta. Poderíamos lhes perguntar: será que  
esse princípio não é consagrado pela lei humana? Será que a justiça de Deus pode ser inferior à dos  
homens? Se elas se dessem por satisfeitas com um indivíduo que, tendo-os arruinado por abuso de  
confiança, se limitasse a dizer-lhes que ele se arrepende infinitamente. Por que elas se esquivariam de  
uma obrigação que todo homem honesto tem como um dever a cumprir, na medida de suas forças?  
Quando essa perspectiva de reparação for inculcada na crença das multidões, ela será um freio  
muito mais poderoso do que o do inferno e das penas eternas, porque toca no cotidiano da vida, e o  
homem compreenderá a razão de ser das circunstâncias dolorosas em que se encontra colocado.  
 
100 Allan Kardec  
18º) Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, dos quais  
eles perturbariam a harmonia; eles ficam nos mundos inferiores, onde  
expiam suas faltas pelas tribulações da vida, e se purificam de suas  
imperfeições até que mereçam encarnar nos mundos mais avançados  
moral e fisicamente.  
Se fosse possível conceber um lugar de castigo circunscrito, esse  
lugar seria nos mundos de expiação, pois é em torno desses mundos que  
pululam Espíritos imperfeitos desencarnados, esperando uma nova  
existência que, ao lhes permitir reparar o mal que fizeram, ajudaria no  
seu avanço.  
19º) Como o Espírito sempre tem o seu livre-arbítrio, seu melhoramento  
algumas vezes é lento e sua obstinação no mal é mais tenaz. Nisso ele  
pode persistir anos e séculos; mas sempre chega um momento em que a  
sua teimosia em desafiar a justiça de Deus cede diante do sofrimento e  
que, malgrado sua fanfarrice, ele reconhece a força superior que o  
domina. Desde que se manifestem nele os primeiros clarões de  
arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança.  
Nenhum Espírito está na condição de não se melhorar jamais; de  
outro modo, ele estaria fatalmente devotado a uma eterna inferioridade  
e escaparia da lei do progresso, que rege providencialmente todas as  
criaturas.  
20º) Quaisquer que sejam a inferioridade e a perversidade dos Espíritos,  
Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo guardião que vela por  
eles, que observa os movimentos da sua alma e que se esforça para lhes  
suscitar bons pensamentos, desejo de progredir e de reparar, numa nova  
existência, o mal que fizeram. Entretanto, o guia protetor age na maioria  
das vezes de uma maneira oculta, sem exercer qualquer pressão. O  
Espírito se melhora pelo ato da sua própria vontade, e não por um  
constrangimento qualquer. Ele agirá bem ou mal em virtude do seu  
livre-arbítrio, mas sem ser fatalmente levado numa ou noutra direção.  
Se fizer o mal, sofrerá as consequências tanto tempo quanto permanecer  
no mau caminho; desde que dê um passo em direção ao bem, ele sentirá  
imediatamente os seus efeitos.  
101 O Céu e o Inferno  
Observação Seria um erro crer que, em virtude da lei de  
progresso, a certeza de chegar mais cedo ou mais tarde até a perfeição e a  
felicidade pode ser um encorajamento a persistir no mal, contanto que se  
arrependa depois: primeiro porque o Espírito inferior não vê o término da  
sua situação; em segundo lugar, porque o Espírito, sendo o artesão da sua  
própria infelicidade, acaba por compreender que depende dele fazê-la  
cessar, e que quanto mais tempo ele permanecer no mal, por mais tempo  
será infeliz; que o seu sofrimento durará para sempre se ele mesmo não  
lhe der um encerramento. Seria então de sua parte um cálculo errado, do  
qual ele seria o primeiro a ser enganado. Mas, ao contrário, segundo o  
dogma das penas irremissíveis, se toda esperança lhe estivesse fechada  
para sempre, então ele não teria nenhum interesse em converter-se ao  
bem, que para ele seria inútil.  
Diante dessa lei desaba também a objeção tirada da presciência  
divina. Ao criar uma alma, Deus realmente sabe se ela em virtude do seu  
livre-arbítrio seguirá o bom caminho ou o mau caminho; ele sabe que a  
alma será punida se fizer o mal; mas sabe igualmente que esse castigo  
temporário é um meio de fazê-la compreender seu erro e de conduzi-la ao  
bom caminho, aonde ela chegará mais cedo ou mais tarde. Segundo a  
doutrina das penas eternas, Deus conhece a alma que fracassará e que ela  
está previamente condenada a torturas sem fim.  
21º) Cada pessoa só é responsável pelas suas faltas pessoais; ninguém  
carrega a culpa pelos erros dos outros, a menos que tenha sido a causa  
desses erros quer seja provocando-os pelo exemplo, quer seja não os  
impedindo quando poderia ter feito isso.  
É assim, por exemplo, que o suicida sempre é punido; mas aquele  
que, por sua dureza, leva um indivíduo ao desespero e daí a se suicidar,  
esse sofre uma pena muito maior.  
22º) Conquanto a diversidade de punições seja infinita, existem algumas que  
são inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo  
os detalhes, são praticamente idênticas.  
A punição mais imediata, sobretudo para as pessoas que sejam  
apegadas à vida material em detrimento do progresso espiritual,  
102 Allan Kardec  
consiste na lentidão da separação entre a alma e o corpo, nas angústias  
que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração da  
perturbação que pode durar meses e anos. Mas, ao contrário, naquelas  
pessoas cuja consciência é pura, que desde quando estavam encarnadas  
já se identificavam com a vida espiritual e eram desapegadas das coisas  
materiais, a separação é rápida e sem abalos, o despertar é pacífico e a  
perturbação é quase nula.  
23º) Um fenômeno muito frequente entre os Espíritos de uma determinada  
inferioridade moral consiste em acreditarem que ainda estejam vivos, e  
essa ilusão pode se prolongar por anos, durante os quais eles  
experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e todas as  
perplexidades da vida.  
24º) Para um criminoso, a presença incessante de suas vítimas e das  
circunstâncias do crime é um suplício cruel.  
25º) Alguns Espíritos estão mergulhados em densas trevas; outros, num  
isolamento absoluto no meio do Espaço, atormentados pela ignorância  
de sua posição e da sua sorte. Os mais culpados sofrem torturas bem  
mais pungentes, porque eles não veem o término delas. Muitos ficam  
privados de ver seus entes queridos. Todos, geralmente, suportam com  
uma intensidade relativa os males, as dores e as carências que causaram  
aos outros, até que o arrependimento e o desejo de reparação venham  
lhes trazer um alívio, fazendo-os perceber a possibilidade de, por eles  
mesmos, pôr um fim a essa situação.  
26º) É um suplício para o orgulhoso ver acima dele, na glória, rodeados e  
celebrados, aqueles que ele tinha desprezado na Terra, enquanto ele é  
relegado às últimas fileiras. Para o hipócrita, o suplício é se ver  
desmascarado pela luz que põe a nu os seus pensamentos mais secretos,  
que todo mundo pode ler: não há como ele se esconder ou dissimular. O  
suplício para o sensualista é ver todas as tentações, todos os desejos,  
sem poder saciá-los. Para o avarento, é ver o seu ouro ser dilapidado e  
não poder retê-lo. Para o egoísta, é ser abandonado por todo mundo e  
sofrer tudo o que os outros sofreram por causa dele: ele terá sede, mas  
103 O Céu e o Inferno  
ninguém lhe dará de beber; terá fome, mas ninguém lhe dará de comer;  
nenhuma mão amiga vem apertar a sua, nenhuma voz compassiva vem  
consolá-lo; ele só se preocupou consigo durante a vida, então  
ninguém pensa nele e nem tem pena dele após a sua morte.  
27º) O meio de evitar ou de atenuar as consequências das próprias faltas na  
vida futura é livrar-se delas o máximo possível na vida presente; é  
reparar o mal, para não ter que repará-lo mais tarde de uma maneira  
mais terrível. Quanto mais tardarmos a nos desfazer dos nossos defeitos,  
mais dolorosas serão suas consequências e mais rigorosa será a  
reparação que devemos realizar.  
28º) A situação do Espírito, desde a sua entrada no mundo espiritual, é  
aquela que ele mesmo preparou para si na vida corporal. Mais tarde,  
outra encarnação lhe será concedida para a expiação e a reparação  
através de novas provas, e disso ele tira um maior ou menor proveito, de  
acordo com o seu livre-arbítrio; se não a aproveitar, será uma tarefa a  
ser recomeçada cada vez em condições mais penosas, de forma que  
aquele que sofre bastante na Terra pode dizer a si mesmo que ele  
tinha muito a expiar; aqueles que gozam de uma felicidade aparente,  
apesar dos seus vícios e de suas inutilidades, certamente pagarão muito  
caro por isso numa existência ulterior. Foi nesse sentido que Jesus disse:  
Bem-aventurados os aflitos, pois eles serão consolados.(O evangelho  
segundo o Espiritismo, cap. V.)  
29º) A misericórdia de Deus é infinita, sem dúvidas, mas não é cega. O  
culpado que é perdoado não fica exonerado, e enquanto ele não tiver  
satisfeito à justiça, continua sofrendo as consequências de suas faltas.  
Por infinita misericórdia devemos entender que Deus não é inexorável, e  
que sempre deixa aberta a porta do retorno ao bem.  
30º) Como as punições são temporárias e subordinadas ao arrependimento  
e à reparação, que dependem da livre vontade humana, essas punições  
são ao mesmo tempo castigos e remédios que devem ajudar a curar as  
chagas do mal. Os Espíritos em punição são, portanto, não como galés  
condenados ao tempo, mas como enfermos no hospital, que padecem da  
104 Allan Kardec  
doença que frequentemente vem da sua própria culpa e dos meios  
curativos dolorosos de que ela requer, mas que têm esperança de cura, e  
que se curam tanto mais rapidamente quanto mais eles seguem  
exatamente as prescrições do médico que cuida deles com atenção. Se os  
Espíritos prolongarem seus sofrimentos por descuido próprio, o médico  
não terá nada a ver com isso.  
31º) Às penas que o Espírito sofre na vida espiritual vêm se juntar aquelas  
da vida corpórea, que são as consequências das imperfeições humanas,  
das suas paixões, do mau emprego das suas faculdades e a expiação de  
suas falhas presentes e passadas. É na vida corpórea que o Espírito  
conserta o mal de suas existências anteriores e que ele põe em prática as  
resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e  
vicissitudes que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, mas que  
são todas justas, já que elas são aquisições do passado e que servem para  
o nosso adiantamento.66  
32º) Pergunta-se: Deus não daria uma prova de maior amor por suas  
criaturas se as tivesse criado infalíveis e, por conseguinte, isentas das  
vicissitudes relativas à imperfeição?  
Para isso, seria preciso que ele criasse seres perfeitos, nada tendo  
a adquirir, nem em conhecimentos e nem em moralidade. Sem nenhuma  
dúvida, ele poderia fazer isso; se não o fez, é que em sua sabedoria ele  
quis que o progresso fosse a lei geral.  
Os homens são imperfeitos e, como tais, sujeitos a vicissitudes  
mais ou menos penosas; esse é um fato que devemos aceitar, já que  
existe. Daí a inferir que Deus nem é bom e nem justo seria uma revolta  
contra a ele.  
Haveria uma injustiça se ele tivesse criado seres privilegiados,  
sendo uns mais favorecidos do que outros, gozando sem esforço da  
felicidade que outros só conseguem com sacrifício, ou que jamais  
conseguem alcançar. Mas onde a sua justiça reluz é na igualdade  
66  
Veja lá atrás o cap. V, Purgatório, item 3 e seguintes e, adiante, na 2ª Parte: Exemplos, o cap. VIII:  
Expiações terrestres. Veja também O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V: Bem-aventurados os  
aflitos.  
 
105 O Céu e o Inferno  
absoluta que preside à criação de todos os Espíritos; todos têm um  
mesmo ponto de partida; sem ninguém que, desde sua formação, seja  
mais bem dotado do que os outros; ninguém cuja marcha ascendente  
seja facilitada por exceção: aqueles que já alcançaram o objetivo  
passaram como os demais pela fileira das provações e da  
inferioridade.  
Admitido isso, o que há de mais justo do que a liberdade de ação  
concedida a cada um? A rota da felicidade está aberta a todos; o objetivo  
é o mesmo para todos; as condições para alcançá-la são as mesmas para  
todos; a lei gravada em todas as consciências é ensinada a todos. Deus  
fez da felicidade o prêmio do trabalho, e não do favor, para que cada  
um tivesse o seu mérito; cada qual é livre para trabalhar ou para não  
fazer nada por seu adiantamento; aquele que trabalha bastante e rápido  
é recompensado mais cedo; quem se perde no caminho ou desperdiça  
seu tempo retarda sua chegada e não pode reclamar senão de si mesmo.  
O bem e o mal são voluntários e facultativos; sendo livre, o homem não é  
fatalmente levado nem para um, nem para outro.  
33º) Apesar da diversidade de gêneros e dos graus de sofrimentos dos  
Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode ser resumido  
nestes três princípios:  
O sofrimento é inerente à imperfeição.  
Toda imperfeição, e toda falta que dela resulta, traz consigo seu  
próprio castigo, pelas suas consequências naturais e inevitáveis,  
assim como a doença é o resultado dos excessos, como o tédio é o da  
ociosidade, sem que seja necessária uma condenação especial para  
cada falta ou cada indivíduo.  
Toda pessoa, podendo se livrar das próprias imperfeições através da  
sua vontade, pode se poupar dos males que delas resultam e assim  
assegurar a sua felicidade futura.  
Esta é a lei da justiça divina: a cada um segundo as suas obras, tanto no  
céu como na terra.  
106 Allan Kardec  
CAPÍTULO VIII  
OS ANJOS  
Os anjos segundo a Igreja Refutação –  
Os anjos segundo o Espiritismo  
Os anjos segundo a Igreja  
1. Todas as religiões têm tido sob diversos nomes seus anjos, quer dizer,  
seres superiores à humanidade, intermediários entre Deus e os homens. O  
materialismo, negando toda a existência espiritual fora da vida orgânica,  
naturalmente classificou os anjos entre as ficções e as alegorias. A crença nos  
anjos faz parte essencial dos dogmas da Igreja; eis como ela os define:67  
2. Acreditamos firmemente diz um concílio geral e ecumênico68 que só há  
um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos, tirou do  
nada ambas as criaturas em conjunto: a espiritual e a corporal, a angélica e a  
mundana, e em seguida formou, como criatura mediana entre as duas: a  
natureza humana, composta de corpo e espírito.  
Tal é, segundo a lei, o plano divino na obra da criação; plano majestoso e  
completo, como convinha à eterna sabedoria. Assim concebido, ele oferece aos  
nossos pensamentos o ser em todos os graus e em todas as condições. Na esfera  
mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais; na última  
classe, a existência e a vida puramente materiais, e no meio que as separa, uma  
união maravilhosa das duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao  
67 Nós tomamos emprestado este resumo da carta pastoral de Monsenhor Gousset, cardeal-arcebispo de  
Reims, para a Quaresma de 1864. Portanto, podemos considerá-lo, assim como o dos demônios —  
extraído da mesma fonte e citado no próximo capítulo como a última expressão do dogma da Igreja  
sobre este ponto.  
68 Concílio de Latrão.  
     
107 O Céu e o Inferno  
espírito inteligente e ao corpo organizado.  
Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível; mas ela é limitada  
nas suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que  
pode haver outros seres simples como ela, e superiores por suas qualidades e  
privilégios. Ela é grande e nobre, mas está associada à matéria, servida por  
frágeis órgãos, limitada na sua ação e no seu poder. Por que não haveria outras  
naturezas ainda mais nobres, libertas dessa escravidão e desses entraves,  
dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável? Antes que Deus  
tivesse colocado o homem na Terra para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, não teria  
ele já chamado outras criaturas para compor a sua corte celeste e adorá-lo na  
morada de sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem o tributo de  
honra e a homenagem deste Universo; será que é de se admirar que ele receba  
das mãos dos anjos o incenso e as orações do homem? Se, pois, os anjos não  
existissem, a grande obra do Criador não teria o coroamento e a perfeição que  
lhe cabia; este mundo, que atesta a sua onipotência, não seria mais a obra-prima  
da sabedoria; até a nossa razão, embora fraca e débil, poderia facilmente  
conceber um Deus mais completo e pleno.  
Em cada página dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamentos se  
faz menção dessas inteligências sublimes, nas invocações piedosas ou nas  
referências históricas. A intervenção dos anjos aparece claramente na vida dos  
patriarcas e dos profetas. Deus se serve do ministério deles, ora para emitir suas  
vontades, ora para anunciar eventos futuros; ele quase sempre faz dos anjos os  
órgãos de sua justiça ou da sua misericórdia. A presença deles mescla-se com as  
diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador; a sua  
lembrança é inseparável da dos grandes homens e dos fatos mais importantes  
da antiguidade religiosa. Ela se encontra até mesmo no seio do politeísmo, e nas  
fábulas da mitologia, porque a crença em questão é tão antiga e universal  
quanto o mundo; o culto que os pagãos prestavam aos bons e aos maus gênios  
não passava de uma falsa aplicação da verdade, de um resto degenerado do  
dogma primitivo.  
As palavras do santo concílio de Latrão contêm uma distinção  
fundamental entre os anjos e os homens. Elas nos ensinam que os primeiros são  
Espíritos puros, ao passo que estes outros se compõem de um corpo e de uma  
alma; isto é, que a natureza angélica se sustenta por si mesma, não só sem  
mistura como também sem associação real possível com a matéria, por mais  
leve e sutil que se suponha; enquanto isso, a nossa alma, igualmente espiritual,  
108 Allan Kardec  
está associada ao corpo, de maneira a formar com ele uma só e a mesma pessoa,  
e que tal é essencialmente a sua destinação.  
Enquanto dura essa união tão íntima da alma com o corpo, essas duas  
substâncias têm uma vida comum e exercem uma sobre a outra uma influência  
recíproca; a alma não pode se libertar inteiramente da condição imperfeita que  
dela resulta: suas ideias lhe chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos  
externos e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Daí vem que ela  
mesma não pode se contemplar, e que ela não pode conceber Deus e os anjos  
sem lhes supor alguma forma visível e palpável. Eis por que os anjos, para se  
manifestarem aos santos e aos profetas tiveram que recorrer a formas  
corporais; mas essas formas não passavam de corpos espaciais que eles  
movimentavam sem se identificarem com eles, ou de atributos simbólicos  
relacionados com a missão da qual eles estavam encarregados.  
Seu ser e seus movimentos não estão localizados e circunscritos num  
ponto fixo e limitado do espaço. Não estando ligados a corpo algum, eles não  
podem ser detidos nem limitados, como nós somos, por outros corpos; eles não  
ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum vazio; mas assim como a nossa  
alma está totalmente no nosso corpo e em cada uma de suas partes, assim  
também os anjos estão inteiramente, e quase que simultaneamente, em todos os  
pontos e em todas as partes do mundo. Mais rápidos do que o pensamento, eles  
podem estar em toda parte num piscar de olhos e aí operar por si mesmos, sem  
outros obstáculos aos seus desígnios além da vontade de Deus e da resistência  
da liberdade humana.  
Enquanto estamos limitados a ver apenas pouco a pouco, e até uma certa  
medida, as coisas que estão fora de nós, e enquanto as verdades de ordem  
sobrenatural nos aparecem como em enigma e num espelho, conforme a  
expressão do apóstolo são Paulo, os anjos veem sem esforço o que lhes importa  
saber, e eles estão sempre em relação imediata com o objeto de seu pensamento.  
Seus conhecimentos não são o resultado da indução e do raciocínio, mas sim  
dessa intuição clara e profunda que abrange conjuntamente o gênero e as  
espécies que deles derivam, os princípios e as consequências decorrentes disso.  
“A distância das épocas, a diferença dos lugares e a multiplicidade dos  
objetos não podem produzir nenhuma confusão no espírito deles.  
Sendo infinita, a essência divina é incompreensível; ela tem mistérios e  
profundezas que os anjos não podem penetrar. Os desígnios particulares da  
Providência estão ocultos para eles, mas lhes desvenda os segredos quando ela  
109 O Céu e o Inferno  
os encarrega, em certas circunstâncias, de anunciarem esses desígnios aos  
homens.  
As comunicações de Deus aos anjos, e dos anjos entre si, não se fazem  
como entre nós, por meio de sons articulados e de outros sinais sensíveis. As  
inteligências puras não necessitam nem de olhos para ver nem de ouvidos para  
ouvir; elas sequer possuem o órgão da voz para manifestar seus pensamentos;  
esse intermediário habitual de nossos relacionamentos não lhes é necessário,  
pois essas inteligências comunicam seus sentimentos de uma maneira peculiar e  
que é toda espiritual. Para se compreenderem, basta-lhes querer.  
Só Deus conhece a quantidade de anjos. Este número, sem dúvidas, não é  
infinito e nem poderia ser; porém, segundo os autores sagrados e os santos  
doutores, é bastante considerável e verdadeiramente prodigioso. Se é natural  
proporcionar a quantidade de habitantes de uma cidade à sua grandeza e à sua  
extensão, sendo a Terra apenas um átomo em comparação ao firmamento e às  
imensas regiões do espaço, é preciso concluir daí que o número de habitantes do  
céu e do ar é muito maior que o dos homens.  
“Posto que a majestade dos reis toma emprestado seu esplendor do  
número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servos, o que seria mais  
apropriado para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que esta  
multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a terra, o mar e o abismo,  
além da dignidade daqueles que permanecem constantemente prostrados ou  
em pé diante de seu trono?  
Os pais da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos são  
distribuídos em três grandes hierarquias, ou principados, e cada hierarquia em  
três companhias, ou coros.  
Os anjos da primeira e mais alta hierarquia são designados de acordo com  
as funções que eles exercem no céu. Uns são chamados Serafins, por serem  
como que abrasados perante Deus pelos ardores da caridade; outros são  
Querubins, porque são um reflexo luminoso da sua sabedoria; os demais são os  
Tronos, porque proclamam sua grandeza e fazem resplandecer seu brilho.  
“Aqueles da segunda hierarquia recebem seus nomes das atividades que  
lhes são atribuídas no governo geral do Universo; são eles: as Dominações, os  
que determinam aos anjos de ordens inferiores suas missões e seus deveres; as  
Virtudes, que realizam os prodígios solicitados em favor dos grandes interesses  
da Igreja e do gênero humano; as Potências, que protegem por sua força e sua  
vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.  
110 Allan Kardec  
Os da terceira hierarquia compartilham a direção das sociedades e das  
pessoas; são eles: os Principados, prepostos dos reinos, das províncias e das  
dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância; e os  
Anjos guardiões, aqueles que acompanham cada um de nós a velar pela nossa  
segurança e nossa santificação.”  
Refutação  
3. O princípio geral que ressalta dessa doutrina é que os anjos são seres  
puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, criaturas  
privilegiadas e devotadas à felicidade suprema e eterna desde a sua  
formação; dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e de todos  
os conhecimentos, sem terem feito nada para adquiri-las. Os anjos estão na  
primeira faixa da obra da criação; na última faixa, a vida puramente material,  
e entre as duas está a humanidade, formada de almas, seres espirituais  
inferiores aos anjos, unidos aos corpos materiais.  
Várias dificuldades capitais resultam desse sistema. Para começar, qual é  
essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a matéria  
bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Será que isso quer dizer se  
referir às plantas e aos animais? Então isso seria uma quarta ordem na  
criação, pois não se pode negar que haja no animal inteligente algo mais do  
que na planta, e nesta, algo mais do que numa pedra. Quanto à alma humana,  
que é a transição, ela está unida diretamente a um corpo que é apenas matéria  
bruta, porque, sem alma, esse corpo não tem mais vida do que um punhado de  
terra.  
Essa divisão evidentemente carece de clareza e não está de acordo com a  
observação; ela se assemelha à teoria dos quatro elementos, tombada diante  
dos progressos da ciência. Admitamos, portanto estes três termos: a criatura  
espiritual, a criatura humana e a criatura corporal; esse é dizem o plano  
divino, plano majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna.  
Notemos, de início, que entre esses três termos não há nenhuma ligação  
necessária; são três criações distintas, formadas sucessivamente; de uma para  
111 O Céu e o Inferno  
a outra há quebra de continuidade; ao passo que, na natureza, tudo se  
encadeia, tudo nos mostra uma admirável lei de unidade, cujos todos os  
elementos que não são mais do que transformações uns dos outros têm  
seu traço de união. Essa teoria é verdadeira no sentido de que esses três  
termos evidentemente existem; isoladamente ela é incompleta, pois lhe  
faltam os pontos de contato, como é fácil demonstrar.  
4. Esses três pontos culminantes da criação são diz a Igreja necessários  
à harmonia do conjunto; que, sem qualquer um deles, a obra ficaria  
incompleta e não mais estaria de acordo com a sabedoria eterna. Entretanto,  
um dos dogmas fundamentais da religião diz que a terra, os animais, as  
plantas, o Sol, as estrelas e até a luz foram criados e tirados do nada, há seis  
mil anos. Antes dessa época, portanto, não havia nem a criatura humana nem  
a criatura corporal; então, durante a eternidade transcorrida, a obra divina  
permanecia imperfeita. A criação do universo tendo seis mil anos é artigo de  
fé tão crucial que até poucos anos atrás a ciência ainda era anatematizada  
porque ela vinha destruir a cronologia bíblica, ao provar a grande antiguidade  
da Terra e de seus habitantes.  
Porém o concílio de Latrão concílio ecumênico que faz a lei em  
matéria de ortodoxia diz: Nós acreditamos firmemente que só há um  
Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos tirou  
conjuntamente do nada ambas as criaturas: a espiritual e a corporal.O  
começo dos tempos não pode significar outra coisa senão a eternidade  
transcorrida, pois o tempo é infinito, como o Espaço: ele não tem nem começo  
nem fim. Esta expressão começo dos tempos é uma simbologia que implica a  
ideia de uma anterioridade ilimitada. O concílio de Latrão acredita, pois,  
firmemente, que as criaturas espirituais e as criaturas corpóreas foram  
formadas simultaneamente e tiradas conjuntamente do nada numa época  
indeterminada no passado. Com isso, a que fica reduzido o texto bíblico que  
fixa essa criação em seis mil anos do nosso calendário? Admitindo que seja  
esse o começo do Universo visível, esse não é seguramente o começo dos  
tempos. Em que acreditar: no concílio ou na Bíblia?  
112 Allan Kardec  
5. O mesmo concílio formula uma estranha proposição, dizendo: Nossa alma,  
igualmente espiritual, é associada ao corpo de maneira a formar com ele  
exatamente uma única e mesma pessoa, e esse é essencialmente o seu  
destino.” Ora, se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, essa  
união constitui o seu estado normal, seu objetivo, sua finalidade, já que tal é a  
sua destinação. No entanto, a alma é imortal e o corpo é mortal; sua união  
com o corpo só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que fosse por um  
século, o que isso representa em relação à eternidade? Mas, para muitos, ela  
dura apenas algumas horas; então, que utilidade poderia ter para a alma uma  
união tão efêmera? Já que, na eternidade, sua maior duração é um tempo  
imperceptível, será que é exato afirmar que a sua destinação é estar  
essencialmente ligada ao corpo? Na realidade, essa união não é mais do que  
um acidente, um ponto na vida da alma, e não o seu estado essencial.  
Se o destino essencial da alma fosse estar unida a um corpo material; se,  
por sua natureza e segundo o propósito providencial de sua criação, essa  
união fosse necessária às manifestações das suas faculdades, seria preciso  
concluir daí que, sem o corpo, a alma humana é um ser incompleto; ora,  
para que a alma continuasse a ser o que ela é para a sua destinação, após ter  
deixado o corpo, é preciso que ela tome outro, o que nos leva à necessária  
pluralidade das existências dito de outra forma: nos leva à reencarnação, à  
perpetuidade. É realmente estranho que um concílio considerado como uma  
das luzes da Igreja tenha unificado o ser espiritual e o ser material, a tal ponto  
que eles não possam de forma alguma existir um sem o outro, uma vez que a  
condição essencial de sua criação é a de estarem unidos.  
6. O quadro hierárquico dos anjos nos ensina que várias ordens têm, nas suas  
atribuições, o governo do mundo físico e da humanidade; que eles foram  
criados para isso. Mas, segundo o Gênesis, o mundo físico e a humanidade não  
existem senão há seis mil anos; o que então esses anjos faziam antes disso,  
durante a eternidade, já que os objetivos de suas ocupações não existiam? Os  
anjos não foram criados desde toda a eternidade? Assim deve ser, visto que  
eles servem para a glorificação do Altíssimo. Se Deus os tivesse criado numa  
época qualquer determinada, ele teria ficado até então isto é, durante uma  
113 O Céu e o Inferno  
eternidade sem adoradores.  
7. Mais adiante, foi dito: Enquanto dura esta união tão íntima da alma com o  
corpo.Chega então um momento em que essa união deixa de existir? Esta  
proposição contradiz aquela que faz dessa união o destino essencial da alma.  
Foi dito ainda: As ideias chegam à alma através dos sentidos, pela  
comparação dos objetos exteriores.” Eis aí uma doutrina filosófica  
parcialmente verdadeira, mas não em sentido absoluto. Essa é, segundo o  
eminente teólogo, uma condição inerente à natureza da alma, receber as  
ideias através dos sentidos. Ele se esquece das ideias inatas, as faculdades às  
vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz ao nascer e  
que não derivam de nenhuma instrução. Por quais sentidos esses jovens  
pastores esses calculistas natos que têm causado admiração nos sábios —  
têm adquirido ideias necessárias para a resolução quase instantânea dos  
problemas mais complicados? Outro tanto se pode dizer de certos músicos,  
pintores e linguistas precoces.  
Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio.  
Eles sabem porque eles são anjos, sem precisar aprender; Deus já os criou  
assim; a alma, ao contrário, precisa aprender. Mas se a alma só recebe as  
ideias pelos órgãos carnais, quais são as ideias que pode ter a alma de uma  
criança morta ao fim de apenas alguns dias, em admitindo assim com a  
Igreja que essa alma não renasce?  
8. Aqui se apresenta uma questão vital: será que a alma adquire ideias e  
conhecimentos após a morte do corpo? Se, uma vez desprendida do corpo, ela  
nada pode adquirir, a alma da criança, do selvagem, do cretino, do idiota, do  
ignorante permanecerá para sempre tal como era até a morte; ela está  
condenada à nulidade por toda a eternidade.  
Mas se ela adquire novos conhecimentos após a vida atual, é que ela  
pode progredir. Sem o progresso posterior da alma, chega-se a consequências  
absurdas; com o progresso, chegamos à negação de todos os dogmas  
fundados sobre o seu estado estacionário: o destino irrevogável, as penas  
eternas etc. Se a alma progride, onde se limita o progresso? Não há razão  
114 Allan Kardec  
alguma para que ela não atinja o grau dos anjos ou dos Espíritos puros. Se ela  
pode chegar até aí, não haveria nenhuma necessidade de criar seres especiais  
e privilegiados, isentos de todo labor e gozando da felicidade eterna sem nada  
terem feito para conquistá-la, enquanto outros seres menos favorecidos só  
obtêm a suprema felicidade ao preço de longos e cruéis sofrimentos pelas  
mais rudes provas. Deus assim poderia fazer, sem dúvidas, mas se admitimos  
o infinito de suas perfeições sem as quais ele não seria Deus , é preciso  
admitir também que ele nada fez de inútil, nem nada que desminta a soberana  
justiça e a soberana bondade.  
9. “Posto que a majestade dos reis toma emprestado seu esplendor do  
número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servos, o que seria mais  
apropriado para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que esta  
multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a terra, o mar e o abismo,  
além da dignidade daqueles que permanecem constantemente prostrados  
ou em pé diante de seu trono?”  
Não será rebaixar a Divindade assemelhar a sua glória ao fausto dos  
soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no espírito das massas ignorantes,  
falseia a opinião que se faz da sua verdadeira grandeza. É sempre assim: Deus  
reduzido às mesquinhas proporções humanas. Atribuir-lhe a necessidade de  
ter milhões de adoradores continuamente prostrados ou de pé diante dele é  
lhe emprestar as fraquezas dos monarcas déspotas e orgulhosos do Oriente. O  
que torna os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e o brilho dos  
cortesãos? Não; é a sua bondade, é a sua justiça, é o título merecido de pais do  
seu povo. Podemos perguntar se haveria alguma coisa mais apropriada para  
nos dar uma ideia da majestade de Deus do que a multidão de anjos que  
compõem a sua corte? Sim, com certeza há uma coisa melhor do que isso: é  
apresentá-lo a todas as suas criaturas soberanamente bom, justo e  
misericordioso, e não como um Deus colérico, ciumento, vingativo, inflexível,  
exterminador, parcial, criando para sua própria glória esses seres  
privilegiados, favorecidos com todos os dons, nascidos para a eterna  
felicidade, enquanto faz os outros comprarem a felicidade penosamente e  
punindo um momento de erro com uma eternidade de suplícios.  
115 O Céu e o Inferno  
10. Com relação à união da alma e do corpo, o Espiritismo professa uma  
doutrina infinitamente mais espiritualista para não dizer menos  
materialista e que ainda tem a vantagem de ser mais coerente com a  
observação e a destinação da alma. Segundo o que ele nos ensina, a alma é  
independente do corpo, que não é mais do que um envoltório temporário; sua  
essência é a espiritualidade; sua vida normal é a vida espiritual. O corpo  
não passa de um instrumento para o exercício de suas faculdades nas relações  
com o mundo material; porém, separada do corpo, ela desfruta dessas  
faculdades com mais liberdade e maior alcance.  
11. Sua união com o corpo necessária para os seus primeiros  
desenvolvimentos só acontece no período em que podemos chamar de sua  
infância e sua adolescência; quando a alma atinge um certo grau de perfeição  
e de desmaterialização, essa união não é mais necessária e a alma progride  
apenas pela vida de Espírito. De resto, por mais numerosas que sejam as  
existências corporais, elas são obrigatoriamente limitadas à vida do corpo, e a  
sua soma total, em todos os casos, só representa uma parte imperceptível da  
vida espiritual, que é indefinida.  
Os anjos segundo o Espiritismo  
12. Que há seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não  
podemos duvidar disso. Sobre esse ponto, a revelação espírita confirma a  
crença de todos os povos; mas ela nos faz conhecer ao mesmo tempo a  
natureza e a origem desses seres.  
As almas, ou Espíritos, são criados simples e ignorantes, quer dizer, sem  
conhecimento e sem consciência do bem e do mal; porém, todos são aptos  
para adquirir tudo o que lhes falta; eles o adquirem pelo trabalho; o propósito  
que é a perfeição é o mesmo para todos. Eles alcançam a perfeição mais  
ou menos rapidamente em virtude do seu livre-arbítrio e na proporção dos  
próprios esforços; todos têm os mesmos degraus a percorrer, o mesmo  
trabalho a cumprir, pois Deus não faz o caminho nem mais largo nem mais  
116 Allan Kardec  
fácil para uns do que para os outros, já que todos são seus filhos e porque,  
sendo justo, ele não tem preferência por nenhum deles. Ele lhes diz: “Aqui  
está a lei que deve ser sua regra pessoal de conduta; só ela pode levá-los ao  
objetivo; tudo que está conforme a essa lei é o bem e tudo que for contrário a  
ela é o mal. Vocês são livres para observar ou infringir esta lei, e assim vocês  
se constituem os árbitros da própria sorte.Desse modo, Deus não criou o  
mal; todas as suas leis são para o bem; foi o próprio homem que criou o mal  
ao infringir as leis divinas; se ele as observasse escrupulosamente, o homem  
jamais se desviaria do bom caminho.  
13. Mas a alma, nas primeiras fases de sua existência, igual a uma criança,  
carece de experiência; é por isso que ela é falível. Deus não lhe dá a  
experiência, porém lhe concede os meios de adquiri-la; cada tropeço na via do  
mal é um atraso para a alma; ela sofre as suas consequências e aprende às  
custas disso o que ela deve evitar. É assim que pouco a pouco ela se  
desenvolve, aperfeiçoa-se e avança na hierarquia espiritual, até que chegue à  
condição de Espírito puro ou anjo. Os anjos são, portanto, as almas dos  
homens chegados ao grau de perfeição a que a criatura comporta, saboreando  
a plenitude da felicidade prometida. Antes de ter alcançado o grau supremo,  
eles desfrutam de uma felicidade relativa ao seu avanço; mas essa felicidade  
não está na ociosidade: ela está nas funções que apraz a Deus lhes confiar, e  
que eles ficam felizes em realizar, porque essas ocupações são um meio de  
progredir. (Veja o cap. III: O Céu.)  
14. A humanidade não está restringida à Terra: ela ocupa os inúmeros  
mundos que circulam no espaço; ela já ocupou os mundos desaparecidos e  
ocupará aqueles que se formarem. Deus tem criado durante toda a eternidade  
e cria sem cessar. Logo, muito antes que a Terra existisse, qualquer que seja a  
antiguidade que dela possamos supor, já existiam nesses outros mundos  
Espíritos encarnados que percorreram as mesmas etapas que nós, Espíritos  
de formação mais recente, nos acompanhando neste momento, e que já  
chegaram ao objetivo antes mesmo que tivéssemos saído das mãos do  
Criador. Desde toda a eternidade, portanto, tem havido anjos, ou Espíritos  
117 O Céu e o Inferno  
puros; mas como a existência humana deles se perde no passado infinito, para  
nós é como se eles sempre tivessem sido anjos.  
15. Assim se encontra realizada a grande lei de unidade da criação. Deus  
jamais esteve inativo; ele sempre teve Espíritos puros, experimentados e  
esclarecidos para transmissão de suas ordens e para a direção de todas as  
partes do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos  
detalhes. Portanto, ele não precisou criar seres privilegiados, isentos de  
obrigações; todos antigos ou novos conquistaram suas graduações na  
luta e por seu próprio mérito; todos, enfim, são filhos de suas obras pessoais.  
Assim se cumpre igualmente a soberana justiça de Deus.  
118 Allan Kardec  
CAPÍTULO IX  
OS DEMÔNIOS  
Origem da crença nos demônios Os demônios segundo a Igreja  
Os demônios segundo o Espiritismo  
Origem da crença nos demônios  
1. Em todas as épocas os demônios representaram um notável papel nas  
diversas teogonias; se bem que, consideravelmente desacreditados na opinião  
em geral, a importância que lhes é atribuída ainda hoje dá uma certa  
gravidade a essa questão, pois ela toca no próprio fundamento das crenças  
religiosas; é por isso que é útil examiná-la com os desenvolvimentos que o  
assunto requer.  
A crença em um poder superior é instintiva nos homens; também a  
encontramos, sob diferentes formas, em todas as eras do mundo. Mas se, pelo  
grau de avanço intelectual ao qual a humanidade já chegou atualmente, ainda  
se discute sobre a natureza e os atributos desse poder, muito mais imperfeitas  
deviam ser as noções que se tinha a respeito desse assunto na infância da  
humanidade!  
2. O quadro com que nos apresentam a inocência dos povos primitivos em  
contemplação diante das belezas da natureza, na qual eles admiram a  
bondade do Criador é, sem dúvida, bastante poético, mas lhe falta a realidade.  
Quanto mais o homem se aproxima do estado de natureza, mais o  
instinto predomina nele, assim como ainda podemos ver nos povos selvagens  
e bárbaros dos nossos dias; o que mais o preocupa, ou melhor, o que o  
 
119 O Céu e o Inferno  
interessa exclusivamente é a satisfação das necessidades materiais, pois ele  
não tem outras necessidades. O único sentido que pode torná-lo acessível aos  
prazeres puramente morais não se desenvolve senão lenta e gradualmente; a  
alma tem sua infância, sua adolescência e sua virilidade, tal como o corpo  
humano; mas para alcançar a virilidade que a torna apta a compreender as  
coisas abstratas, quantas evoluções ela tem a percorrer na humanidade!  
Quantas existências lhe falta realizar!  
Sem precisar voltar às primeiras eras, vejamos em torno de nós os  
nossos povos camponeses e nos perguntemos que sentimentos de admiração  
despertam neles o esplendor do Sol nascente, a abóbada estrelada, o gorjeio  
dos pássaros, o murmúrio das ondas cristalinas, os prados cobertos de flores!  
Para eles, o Sol se levanta porque está habituado a isso e, desde que ele faça  
calor suficiente para amadurecer as colheitas e não o bastante para torrá-las,  
então isso é tudo o que eles pedem; se eles olham para o céu, é para saber se  
fará um tempo bom ou um mau tempo no dia seguinte; que os pássaros  
cantem ou não, isso não importa para eles, desde que não devorem seus  
grãos; no lugar das melodias do rouxinol, eles querem mais é o cacarejar das  
galinhas e o grunhido dos seus porcos; o que eles pedem aos riachos limpos  
ou lamacentos é que não sequem e não os inundem; aos prados, pedem que  
deem uma boa erva, com ou sem flores. Isso é tudo o que eles desejam;  
dizemos mais: é tudo o que eles entendem da natureza e, no entanto, eles já  
estão muito longe dos homens primitivos!  
3. Se nos reportarmos a estes últimos, então os veremos ainda mais  
exclusivamente preocupados com a satisfação das carências materiais; aquilo  
que serve para sustentá-los e aquilo que pode prejudicá-los resumem para  
eles o bem e o mal neste mundo. Eles acreditam num poder extra-humano,  
mas como aquilo que lhes traz um prejuízo material é o que mais os afeta, eles  
o atribuem a esse poder, do qual, aliás, eles fazem uma ideia muito vaga. Não  
podendo ainda conceber nada fora do mundo visível e tangível, eles imaginam  
que esse poder resida nos seres e nas coisas que lhes são prejudiciais. Logo, os  
animais nocivos são para eles os representantes naturais e diretos desse  
poder. Pela mesma razão, eles viram a personificação do bem nas coisas úteis:  
120 Allan Kardec  
daí vem o culto prestado a certos animais, a certas plantas e até a objetos  
inanimados. Mas o homem é geralmente mais sensível ao mal do que ao bem;  
para ele, o bem parece natural, enquanto o mal o afeta mais; eis por que em  
todos os cultos primitivos as cerimônias em homenagem ao poder maléfico  
sempre foram mais numerosas: o temor supera o reconhecimento.  
Durante um longo tempo o homem só compreendeu o bem e o mal  
físicos; depois, o sentimento moral do bem e do mal marcaram um progresso  
na inteligência humana; só a partir daí o homem entreviu a espiritualidade e  
compreendeu que o poder extra-humano está fora do mundo visível, e não  
nas coisas materiais. Essa foi a obra de algumas inteligências de elite, mas que  
nunca puderam ultrapassar certos limites.  
4. Vimos assim uma luta incessante entre o bem e o mal, e este último muitas  
vezes predominou. Por outro lado, como não era possível racionalmente  
admitir que o mal fosse obra de um poder benfazejo, concluiu-se pela  
existência de dois poderes rivais governando o mundo. Daí nasceu a doutrina  
dos dois princípios: o do bem e o do mal, doutrina lógica para aquela época,  
porque o homem ainda era incapaz de conceber outra, e incapaz de penetrar a  
essência do Ser supremo. Como ele poderia compreender que o mal não passa  
de um estado momentâneo do qual pode brotar o bem, e que os males que o  
afligem devem conduzi-lo à felicidade através do seu desenvolvimento? Os  
limites do seu horizonte moral não lhe permitiam ver nada fora da vida  
presente, nem para frente nem para trás; não conseguia conceber nem que ele  
já tivesse progredido, nem que ainda iria progredir individualmente e,  
tampouco entender que as vicissitudes da vida são o resultado da imperfeição  
do ser espiritual que está nele, o qual preexiste e sobrevive ao corpo,  
depurando-se numa série de existências até que tenha alcançado a perfeição.  
Para compreender o bem que pode resultar do mal, não devemos ver apenas  
uma existência; é preciso abranger o conjunto, e só então aparecem as  
verdadeiras causas e seus efeitos.  
5. O duplo princípio do bem e do mal foi durante muitos séculos e sob  
diferentes nomes a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado  
121 O Céu e o Inferno  
nos nomes de Ormuz e Arimã entre os persas, e nos de Jeová e Satã entre os  
hebreus. Mas como todo soberano deve ter ministros, todas as religiões  
admitiram forças secundárias, isto é, gênios bons ou maus. Os pagãos os  
personificaram sob uma numerosa multidão de individualidades, alguns deles  
tendo atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as  
virtudes, e aos quais deram o nome genérico de deuses. Os cristãos e os  
muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios.  
6. A doutrina dos demônios tem então sua origem na antiga crença dos dois  
princípios: o do bem e o do mal. Não vamos examinar aqui além do ponto de  
vista cristão, para ver se está de acordo com o conhecimento mais exato que  
possuímos hoje sobre os atributos da Divindade.  
Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas  
religiosas; os dogmas, o culto, as cerimônias, os hábitos e a moral, tudo é  
relacionado à ideia mais ou menos justa e mais ou menos elevada que se faz  
de Deus, desde o fetichismo até o Cristianismo. Se a essência íntima de Deus  
ainda é um mistério para a nossa inteligência, ainda assim nós o  
compreendemos melhor do que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. De  
acordo com a razão, o Cristianismo nos ensina que:  
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,  
soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.  
Assim como foi dito alhures (cap. VI, Doutrina das penas eternas), Se  
tirássemos a menor parcela de um só dos atributos de Deus, já não teríamos  
mais Deus, porque poderia existir um ser mais perfeito.Esses atributos, na  
sua plenitude mais absoluta, são assim o critério de todas as religiões, a  
medida da verdade de cada um dos princípios que elas ensinam. Para que  
qualquer um desses princípios seja verdadeiro, é preciso que não atente  
contra nenhuma das perfeições de Deus. Vejamos se é assim com a doutrina  
vulgar dos demônios.  
Os demônios segundo a Igreja  
7. Segundo a Igreja, Satanás o chefe ou o rei dos demônios não é uma  
122 Allan Kardec  
personificação alegórica do mal, mas sim um ser real, praticando  
exclusivamente o mal, enquanto Deus faz exclusivamente o bem. Então vamos  
imaginar isso tal como nos é ensinado.  
Será que, assim como Deus, Satanás existe desde toda a eternidade? Ou  
ele é posterior a Deus? Se ele é de toda a eternidade, então é incriado, e por  
isso ele é igual a Deus. Logo, Deus não é único: há o Deus do bem e o Deus do  
mal.  
Satanás é posterior a Deus? Então ele é uma criatura de Deus. Já que ele  
só faz o mal, que é incapaz de fazer o bem e de se arrepender, então Deus  
criou um ser perpetuamente destinado ao mal. Se o mal não é obra de Deus,  
mas sim a obra de uma das suas criaturas predestinadas a isso, Deus não  
deixa de ser o primeiro autor do mal, e desta forma ele não é infinitamente  
bom. O mesmo acontece com todos os seres malvados chamados demônios.  
8. Assim foi, por muito tempo, a crença sobre este ponto. Hoje se diz:69  
Deus, que é a bondade e a santidade por essência, não os havia criado  
malvados e perversos. Sua mão paternal, que se apraz derramar sobre todas as  
suas obras um reflexo de suas perfeições infinitas, cobriu os demônios com seus  
dons mais magníficos. Às qualidades supereminentes de sua natureza, ele juntou  
a generosidade de sua graça; ele os fez totalmente semelhantes aos Espíritos  
sublimes que estão na glória e na felicidade; distribuídos por todas as suas  
categorias e misturados a todas as suas classes, eles tinham a mesma finalidade  
e as mesmas destinações; seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. Eles também  
poderiam ter merecido serem consagrados para sempre na justiça e admitidos  
ao gozo eterno da felicidade dos céus. Este último favor teria coroado todos os  
outros favores com os quais eles foram agraciados; deveria ser o prêmio por sua  
docilidade, mas eles se tornaram indignos disso, perdendo-o por causa de uma  
revolta audaciosa e insensata.  
Qual foi o escolho da perseverança deles? Que verdade eles ignoraram?  
Que ato de fé e adoração eles recusaram a Deus? A Igreja e os anais da história  
sagrada não falam disso de uma maneira concreta; contudo parece certo  
que eles não aquiesceram à mediação do Filho de Deus para eles mesmos, nem à  
69  
As citações seguintes foram extraídas da carta pastoral de Monsenhor Gousset, cardeal arcebispo de  
Reims, para a quaresma de 1865. Em razão do mérito pessoal e da posição do autor, nós podemos  
considerá-las como a última expressão da Igreja sobre a doutrina dos demônios.  
 
123 O Céu e o Inferno  
exaltação da natureza humana em Jesus Cristo.  
O Verbo divino, por quem todas as coisas foram criadas, é também o  
único mediador e salvador, no céu e na Terra. O propósito sobrenatural não foi  
dado aos anjos e aos homens senão como previsão de sua encarnação e de seus  
méritos; é que não há proporção alguma entre as obras dos Espíritos mais  
eminentes e essa recompensa, que não é outra além do próprio Deus. Nenhuma  
criatura poderia alcançar tal propósito sem essa intervenção maravilhosa e  
sublime da caridade. Ora, para preencher a distância infinita que separa a  
essência divina das obras feitas por suas mãos, seria preciso que reunisse na sua  
pessoa os dois extremos, e que associasse à sua divindade a natureza do anjo ou  
a natureza do homem. E ele escolheu a natureza humana.  
“Esse desígnio, concebido desde toda a eternidade, foi manifestado aos  
anjos muito antes do seu cumprimento; o Homem-Deus lhes foi apresentado  
como Aquele que devia confirmá-los na graça e os introduzir na glória, sob a  
condição de o adorarem na Terra durante a sua missão, e no céu pelos séculos e  
séculos. Revelação inesperada, visão encantadora para os corações generosos e  
agradecidos, mas mistério profundo, avassalador para os Espíritos soberbos!  
Esse propósito sobrenatural, esse imenso peso de glória que lhes foi proposto  
não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Eles jamais  
poderiam reivindicar os títulos e a possa dessa gloria para si mesmos! Um  
mediador entre eles e Deus: quanta injúria feita à dignidade deles! A preferência  
espontânea concedida à natureza humana: quanta injustiça dirigida aos direitos  
deles! Essa humanidade, que lhes é tão inferior: será que um dia eles chegarão a  
vê-la deificada pela sua união com o Verbo, e sentada à direita de Deus num  
trono resplandecente? Será que eles aceitarão oferecer-lhe eternamente suas  
homenagens e suas adorações?  
Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de  
orgulho e de inveja. São Miguel e com ele a grande maioria exclamaram: Quem é  
semelhante a Deus? Ele é o mestre de seus dons e o soberano Senhor de todas as  
coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será imolado para a salvação do mundo!  
Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo-se de que era devedor ao seu Criador pela  
sua nobreza e pelas suas prerrogativas, escutou apenas à sua temeridade e  
disse: Sou eu mesmo que subirei ao céu; estabelecerei minha morada acima dos  
astros e me sentarei sobre o monte da aliança, nos flancos do Aquilão;  
dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo.Os que  
compartilharam de tais sentimentos acolheram as palavras dele com um  
124 Allan Kardec  
murmúrio de aprovação, e eles se encontram em todos os graus da hierarquia,  
mas a quantidade deles não os protegeu do castigo.”  
9. Essa doutrina desencadeia várias objeções:  
1ª) Se Satanás e os demônios eram anjos, é que eles eram perfeitos; sendo  
perfeitos, como eles puderam decair e ignorar a tal ponto a autoridade  
de Deus, em cuja presença eles se encontravam? Até poderíamos  
conceber que, se eles só tivessem chegado a esse patamar eminente  
gradualmente e depois de terem percorrido a trilha da imperfeição, eles  
até poderiam ter tido um infeliz retrocesso; mas o que torna a coisa mais  
incompreensível é que eles nos são apresentados como tendo sido  
criados perfeitos.  
A consequência dessa teoria é esta: Deus quis criar neles seres  
perfeitos, já que os tinha coberto com todos os dons, mas se enganou;  
portanto, segundo a Igreja, Deus não é infalível.70  
2ª) Já que nem a Igreja e nem os anais da história sagrada explicam a  
causa da revolta dos anjos contra Deus e parece certo que foi apenas  
pela recusa deles em reconhecer a futura missão do Cristo , que valor  
pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena que ocorreu nessa  
ocasião? De qual fonte extraíram as palavras tão claras relatadas como  
tendo sido ali pronunciadas, e até mesmo os simples murmúrios? De  
duas coisas, uma: ou a cena é verdadeira ou não é. Se for verdadeira, não  
há qualquer incerteza, mas então por que a Igreja não fecha a questão?  
Se a Igreja e a História se calam, se a causa apenas parece certa, significa  
que não passa de uma suposição, e a descrição da cena é uma obra da  
imaginação.71  
70  
Esta doutrina monstruosa é afirmada por Moisés, quando diz (Gênesis, 6: 6 e 7): “Ele se arrependeu  
de ter feito o homem na Terra. E, sendo tocado pela dor até o fundo do coração, ele disse: ‘Exterminarei  
da face da Terra o homem que eu criei; exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde aquilo  
que rasteja sobre a terra até os pássaros do céu: pois eu me arrependo de os ter criado’.”  
Um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem infalível; logo, ele não é Deus. Estas são  
as palavras que a Igreja então proclama como verdades sagradas. Tampouco podemos ver o que poderia  
haver de comum entre os animais e a perversidade dos homens para justificar o extermínio.  
71 Encontra-se em Isaías, 14: 11 e seguintes: “Teu orgulho foi lançado nos infernos; teu corpo morto está  
   
125 O Céu e o Inferno  
3ª) As palavras atribuídas a Lúcifer demonstram uma ignorância que nos  
deixa espantados por encontrar num arcanjo que, por sua própria  
natureza e pelo grau em que está colocado, não deve compartilhar —  
quanto à organização do universo dos erros e dos preconceitos que os  
homens professaram até que a ciência viesse esclarecê-los. Como ele  
poderia dizer: “Eu estabelecerei minha morada acima dos astros, eu  
dominarei as nuvens mais elevadas”? É sempre a velha crença da Terra  
como centro do mundo, do céu de nuvens que se estendem até as  
estrelas, a região limitada das estrelas formando uma abóboda, mas que  
a astronomia nos mostra disseminadas ao infinito no espaço sem fim.  
Como se sabe hoje que as nuvens não se estendem a mais de duas léguas  
da superfície da Terra, para dizer que ele dominará as nuvens mais  
elevadas, e para falar das montanhas, seria preciso que a cena se  
passasse na superfície da Terra e que nela ficasse a morada dos anjos; se  
essa morada ficasse nas regiões superiores, seria inútil dizer que ela se  
elevaria acima das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem marcada  
pela ignorância é dizer que os homens hoje sabem mais do que os anjos.  
A Igreja sempre esteve errada em não levar em conta os progressos da  
ciência.  
10. A resposta à primeira objeção encontra-se na seguinte passagem:  
A Escritura e a tradição dão o nome de céu ao lugar no qual os anjos  
caído no chão; tua cama será a podridão e tuas vestes será os vermes. Como é que você caiu do céu,  
Lúcifer, você que parecia tão brilhante ao raiar do dia? Como é que foi derrubado na Terra, você que  
feriu as nações com pragas; que dizia em teu coração: Eu subirei aos céus, estabelecerei meu trono  
acima dos astros de Deus e me sentarei sobre a montanha da aliança, nos flancos de Aquilão; ficarei  
acima das nuvens mais altas e serei semelhante ao Altíssimo? E dessa glória, no entanto, você foi  
lançado no inferno, até o mais profundo dos abismos. Aqueles que te virem, aproximando-se de você,  
depois de encará-lo, eles te dirão: Será que é este homem aquele que apavorou a Terra, que lançou o  
terror nos reinos, que fez do mundo um deserto, que destruiu cidades e que manteve acorrentados  
aqueles a quem fez seus prisioneiros?”  
Estas palavras do profeta não são referentes à revolta dos anjos, mas sim uma alusão ao orgulho  
e à queda do rei da Babilônia, que mantinha os judeus em cativeiro, assim como está provado nos  
últimos versículos. O rei da Babilônia é designado por alegoria pelo nome de Lúcifer, porém aí não  
se faz nenhuma menção da cena descrita aqui. Essas palavras são as do rei que disse em seu coração, e  
se colocava, por seu orgulho, acima de Deus, cujo povo ele mantinha escravo. A predição da libertação  
dos judeus, da ruína da Babilônia e da derrota dos assírios é, aliás, o assunto exclusivo desse capítulo.  
126 Allan Kardec  
tinham sido colocados no momento da criação deles. Mas esse não era o céu dos  
céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se mostra aos seus eleitos face a face, e  
onde seus eleitos o contemplam sem esforço e sem obstáculos, porque lá não há  
mais possibilidade nem perigo nem possibilidade de pecado; lá, a tentação e a  
fraqueza são desconhecidas; lá, a justiça, a alegria e a paz reinam numa imutável  
segurança; lá, a santidade e a glória são inamissíveis.72 Era, portanto, outra  
região celeste, uma esfera luminosa e afortunada onde essas nobres criaturas,  
enormemente favorecidas pelas comunicações divinas, deviam recebê-las e a  
elas aderirem pela humildade da fé, antes de serem autorizadas a ver  
claramente a realidade na própria essência de Deus.”  
Resulta do que foi dito que os anjos decaídos pertenciam a uma  
categoria menos elevada, menos perfeita, e que eles ainda não tinham  
alcançado o lugar supremo em que a falha é impossível. Que seja, mas então  
há aqui uma evidente contradição, pois foi dito também que Deus tinha feito  
os anjos totalmente semelhantes aos Espíritos sublimes”, que distribuídos  
por todas as suas categorias e misturados a todas as suas classes, eles tinham  
a mesma finalidade e a mesma destinação”; que “seu chefe foi o mais belo dos  
arcanjos”. Se eles foram feitos totalmente semelhantes aos outros, então eles  
não eram de uma natureza inferior; se estavam a todas as suas classes, então  
eles não estavam num lugar especial. Com isso, a objeção permanece intacta.  
11. E há outra objeção que é, incontestavelmente, a mais grave e a mais séria.  
Foi dito: “Esse desígnio (a mediação do Cristo), concebido desde toda a  
eternidade, foi manifestado aos anjos muito antes do seu cumprimento.”  
Logo, Deus sabia desde toda a eternidade que os anjos assim como os  
homens teriam necessidade dessa mediação. Ele sabia, ou não sabia, que  
alguns anjos iriam falir; que essa queda acarretaria para eles a condenação  
eterna, sem esperança de retorno; que eles estariam destinados a tentar os  
homens; que aqueles dentre os homens que se deixassem seduzir teriam a  
mesma sorte. Mas se Deus sabia disso, ele então teria criado esses anjos, com  
conhecimento de causa, para sua perdição irrevogável e para a perdição da  
maior parte do gênero humano. Seja lá o que digam, em tal previsão, é  
72 Inamissível: no jargão eclesiástico, uma graça divina que não se perde nem se corrompe. N. T.  
 
127 O Céu e o Inferno  
impossível conciliar a criação dos anjos com a soberana bondade. Se Deus não  
sabia disso, é que ele não era todo-poderoso. Num e noutro caso, isso é a  
negação de dois atributos sem a plenitude dos quais Deus não seria Deus.  
12. Caso se admita a falibilidade dos anjos, como a dos homens, a punição é  
uma consequência justa e natural da falta; mas caso se admita ao mesmo  
tempo a possibilidade da redenção, do retorno ao bem, o reinício na graça  
após o arrependimento e a expiação, então não há nada que desminta a  
bondade divina. Deus sabia que eles iriam falir, que seriam punidos, mas sabia  
também que esse castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender  
a própria culpa e serviria a favor deles. Assim, seriam cumpridas estas  
palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte do pecador, mas sim a  
sua salvação.73 O que seria a negação dessa bondade é a inutilidade do  
arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nesta hipótese, seria  
rigorosamente exato dizer que: Esses anjos, desde a sua criação, visto que  
Deus não podia ignorar isso, foram condenados ao mal por toda a  
perpetuidade, e predestinados a se tornarem demônios, para arrastarem os  
homens ao mal.”  
13. Vejamos agora qual é a sorte desses anjos e o que eles fazem:  
Tão logo se deu a revolta deles na linguagem dos Espíritos, isto é, nos elãs  
dos seus pensamentos, eles já foram irrevogavelmente banidos da cidade  
celestial e precipitados no abismo.  
Por essas palavras, entendemos que eles foram arremessados a um lugar  
de suplícios onde estão sofrendo a pena do fogo, conforme o texto do Evangelho,  
que saiu da própria boca do Salvador: ‘Vão, malditos, ao fogo eterno que foi  
preparado para o demônio e para os seus anjos.São Pedro diz expressamente  
que: ‘Deus os lançou às correntes e às torturas do inferno; mas nem todos ficam  
lá perpetuamente; é que somente no fim do mundo é que eles ficarão trancados  
lá para sempre, assim com os réprobos. Atualmente, Deus permite que eles  
ainda ocupem um lugar nesta criação à qual pertencem; na ordem das coisas à  
qual está ligada a existência deles, enfim, nas relações que eles deviam ter com o  
homem, e das quais eles fazem o mais pernicioso abuso. Enquanto uns ficam na  
73 Veja lá atrás, no capítulo VII, item 20, a citação de Ezequiel.  
 
128 Allan Kardec  
tenebrosa morada, lá servindo de instrumento para a justiça divina contra as  
almas infelizes que eles seduziram, uma infinidade de outros, formando  
legiões invisíveis sob a condução de seus chefes, residem nas camadas inferiores  
da nossa atmosfera e percorrem todas as partes do globo. Eles se envolvem em  
tudo o que se passa aqui e frequentemente com uma participação muito ativa.”  
No que concerne às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo eterno,  
essa questão foi tratada lá atrás, no capítulo IV, O Inferno.  
14. Segundo essa doutrina, apenas uma parte dos demônios está no inferno; a  
outra vagueia em liberdade, intrometendo-se em tudo o que aqui se passa,  
dando-se o prazer de fazer o mal, e isso até o fim do mundo, cuja época  
indeterminada provavelmente não ocorrerá tão cedo. Por que então essa  
diferença? Eles são menos culpados? Seguramente que não. A menos que eles  
se revezem nessa função, o que parece resultar desta passagem: Enquanto  
uns ficam na sua tenebrosa morada, lá servindo de instrumento para a justiça  
divina contra as almas infelizes que eles seduziram.”  
Suas funções consistem, portanto, em atormentar as almas que eles  
seduziram. Assim, eles não estão encarregados de punir aquelas que são  
culpadas de faltas livre e voluntariamente cometidas, mas sim de punir as  
almas que eles provocaram. De uma só vez, eles são a causa do erro e o  
instrumento do castigo. E uma coisa que a justiça humana, por mais  
imperfeita que seja, jamais admitiria a vítima que sucumbe por fraqueza,  
na ocasião em que se cria para tentá-la, é punida tão severamente quanto o  
agente provocador que faz uso da artimanha e da astúcia; ou até mais  
severamente, porque esta vítima vai para o inferno ao deixar a Terra para não  
sair de lá nunca mais, a sofrer lá sem trégua nem misericórdia durante a  
eternidade, enquanto aquele que é o causador primordial da sua falta desfruta  
de descanso e de liberdade até o fim do mundo! Será que a justiça de Deus não  
é mais perfeita do que a dos homens?  
15. Isso não é tudo: “Deus permite que eles ainda ocupem um lugar nesta  
criação, nas relações que eles deviam ter com o homem, e das quais eles  
fazem o mais pernicioso abuso.Porventura, Deus poderia ignorar o abuso  
129 O Céu e o Inferno  
que eles fariam da liberdade que ele lhes concedera? Então, por que concedeu  
essa liberdade a eles? Portanto, é conscientemente que Deus larga suas  
criaturas à mercê delas mesmas, sabendo em virtude de sua onisciência —  
que elas vão sucumbir e que terão a sorte dos demônios. Por si mesmas, elas  
já não tinham fraqueza o bastante, sem precisar que fossem tentadas ao mal  
por um inimigo tanto mais perigoso quanto invisível? Se pelo menos o castigo  
fosse apenas temporário e se o culpado pudesse se redimir pela reparação!  
Mas não: ele é condenado para sempre. Seu arrependimento, seu retorno ao  
bem, suas lamentações, tudo é inútil!  
Sendo assim, os demônios são os agentes provocadores predestinados a  
recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus, que sabia, ao  
criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. O que diríamos na Terra  
de um juiz que agisse desse modo para lotar as prisões? Que estranha ideia  
nos dão da Divindade, de um Deus cujos atributos essenciais são a soberana  
justiça e a soberana bondade! E é em nome de Jesus Cristo daquele que só  
pregou amor, perdão e caridade que ensinam tais doutrinas! Houve um  
tempo em que essas anomalias passavam despercebidas; como não eram  
compreendidas, não eram sentidas. O homem, curvado ao jugo do despotismo,  
submetia cegamente sua razão, ou melhor, abdicava da sua razão; mas hoje, já  
chegou o momento da emancipação: ele compreende a justiça e a deseja  
durante sua vida e após a sua morte; é por isso que ele diz: Não é assim, não  
pode ser assim, ou Deus não é Deus!”  
16. Por toda parte o castigo segue esses seres decaídos e malditos; por toda  
parte eles carregam o seu próprio inferno consigo: eles já não têm nem paz nem  
repouso; até mesmo as doçuras da esperança para eles foram transformadas em  
amargura o que é odioso para eles. A mão de Deus os feriu logo no ato do  
pecado deles, mas a vontade deles se obstinou no mal. Tornados perversos, eles  
não querem deixar de ser assim e assim serão para sempre.  
Eles são, após seu pecado, o que o homem é após a morte. A reabilitação  
daqueles que tombaram é, portanto, impossível; a sua perdição é doravante  
sem volta e eles teimam no seu orgulho diante de Deus, no seu ódio contra o seu  
Cristo, no seu ciúme contra a humanidade.  
Não tendo podido se apropriar da glória celeste, pela expansão de sua  
130 Allan Kardec  
ambição, eles se esforçam para estabelecer seu império na Terra para dela banir  
o reino de Deus. O Verbo encarnado cumpriu os seus desígnios, apesar deles,  
para a salvação e a glória da humanidade; todos os meios de ação dos anjos  
decaídos foram dedicados a roubar as almas que o Cristo tinha resgatado;  
astúcia e importunação, mentira e sedução, tudo eles colocaram em prática para  
levá-las ao mal e consumar a ruína dessas almas.  
Com tais inimigos, a vida do homem desde o berço até o túmulo não  
deixa de ser, infelizmente, uma luta perpétua, pois eles são fortes e infatigáveis.  
“Com efeito, esses inimigos são os mesmos que, após terem introduzido o  
mal no mundo, chegaram a cobrir a Terra com espessas trevas do erro e do  
vício; são os mesmos que, por longos séculos, fizeram ser adorados como deuses  
e que reinaram como mestres sobre os povos da Antiguidade; são os mesmos,  
enfim, que ainda exercem seu império tirânico nas regiões idólatras e que  
fomentam a desordem e o escândalo até no seio das sociedades cristãs.  
Para compreender tudo o que eles têm de recursos a serviço da sua  
malvadez, basta notar que eles não perderam nada das prodigiosas  
faculdades que são o apanágio da natureza angélica. Sem dúvida, o porvir e  
sobretudo a ordem sobrenatural têm mistérios que Deus reservou para si e que  
eles não podem descobrir; porém, a inteligência deles é bem superior à nossa,  
porque percebem num simples piscar de olhos os efeitos nas suas causas, e as  
causas nos seus efeitos. Essa penetração lhes permite anunciar antecipadamente  
os eventos que escapam às nossas conjeturas. A distância e a diversidade dos  
lugares desaparecem ante a sua agilidade. Mais repentinos do que o relâmpago,  
mais rápidos do que o pensamento, eles se acham quase que ao mesmo tempo  
em diversos pontos do globo e podem, à distância, descrever as coisas das quais  
eles são testemunhas na mesma hora em que acontecem.  
As leis gerais pelas quais Deus rege e governa este Universo não são do  
domínio deles; eles não podem derrogá-las, nem, consequentemente, predizer  
ou operar verdadeiros milagres; mas eles possuem a arte de imitar e falsificar —  
dentro de certos limites as obras divinas; sabem quais os fenômenos  
resultam da combinação dos elementos, então eles predizem com certeza os que  
ocorrem naturalmente, assim como os fenômenos que eles mesmos têm o poder  
de produzir. Daí vem os numerosos oráculos, os extraordinários encantamentos  
de que os livros sagrados e profanos preservaram a memória, e que têm servido  
de base e de alimento para todas as superstições.  
A substância simples e imaterial deles os oculta de nossas vistas; estão ao  
131 O Céu e o Inferno  
nosso lado sem serem percebidos; tocam nossa alma sem tocar nossos ouvidos.  
Nós acreditamos obedecer aos nossos próprios pensamentos, quando na  
verdade nos submetemos às suas tentações e à sua funesta influência. Nossas  
disposições, ao contrário, são conhecidas por eles através das impressões que  
deixamos transparecer, e eles nos atacam, geralmente pelo nosso lado mais  
fraco. Para nos seduzirem com mais segurança, eles costumam nos apresentar  
ciladas e sugestões conforme nossas inclinações; modificam sua ação segundo as  
circunstâncias e os traços característicos de cada temperamento. No entanto,  
suas armas favoritas são a mentira e a hipocrisia.”  
17. O castigo afirmam segue os anjos decaídos por toda parte; eles não  
têm nem paz nem repouso. Isso não desfaz de modo algum a observação feita  
sobre o descanso do qual gozam aqueles que estão fora do inferno —  
descanso tanto menos justificado porque, estando fora, eles praticam o mal  
ainda mais. Sem nenhuma dúvida, eles não são felizes como os bons anjos,  
mas será que não devemos levar em conta a liberdade de que eles gozam? Se  
eles não têm a felicidade moral que a virtude proporciona, eles são  
incontestavelmente menos infelizes do que seus cúmplices, que ficam nas  
chamas. E então, para o malvado, existe uma espécie de prazer em fazer o mal  
em total liberdade. Perguntem a um criminoso se para ele é a mesma coisa  
ficar na prisão ou vagar pelos campos e cometer seus crimes bem à vontade?  
A situação é exatamente a mesma.  
Dizem que o remorso persegue os demônios sem tréguas nem piedade.  
Mas esquecem que o remorso é o precursor imediato do arrependimento —  
se já não for o próprio arrependimento. Ora, dizem: Tornados perversos, eles  
não querem deixar de ser assim e assim serão para sempre.” Mas, já que eles  
não querem deixar de ser perversos, significa que eles não têm quaisquer  
remorsos; se tivessem o menor arrependimento, eles deixariam de fazer o  
mal e pediriam perdão. Então, para eles, o remorso não é um castigo.  
18. Eles são, após seu pecado, o que o homem é após a morte. A reabilitação  
daqueles que tombaram é, portanto, impossível.De onde vem essa  
impossibilidade? Ninguém compreende que ela seja a consequência de sua  
similitude com o homem após a morte proposição que, aliás, não está  
132 Allan Kardec  
muito clara. Essa impossibilidade vem da própria vontade deles, os demônios,  
ou da vontade de Deus? Se parte da vontade deles, isso denota uma extrema  
perversidade, um endurecimento absoluto no mal; desde então, não podemos  
compreender por que seres tão profundamente perversos puderam ter sido  
algum dia anjos de virtude e que, durante o tempo indefinido que passaram  
entre estes últimos, não tenham deixado perceber algum traço de sua  
maldade natural. Mas se é da vontade de Deus, é menos compreensível ainda  
que Deus inflija como castigo a impossibilidade de redenção, após uma  
primeira falta. O Evangelho nada diz de semelhante a isso.  
19. Eles acrescentam: “Sua perdição é doravante sem volta e eles teimam no  
seu orgulho diante de Deus.” Ora, de que lhes serviria não teimar no mal, já  
que qualquer arrependimento é inútil? Se eles tivessem a esperança de uma  
reabilitação, a qualquer preço que fosse, o bem teria um objetivo para eles;  
mas não é o que acontece. Se perseveram no mal é então porque a porta da  
esperança lhes foi fechada. E por que Deus lhes fechou essa porta? Para se  
vingar da ofensa que recebeu da falta de submissão deles. Assim, para  
satisfazer o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere não  
somente vê-los sofrer, mas também vê-los a fazer o mal em vez do bem; vê-los  
a induzir ao mal e a levar à perdição eterna todas as suas criaturas do gênero  
humano, quando bastaria um simples ato de clemência para evitar um  
desastre tão grande e um desastre sempre previsto!  
Será que, por ato de clemência, foi uma graça pura e simples que talvez  
tivesse sido um encorajamento ao mal? Não, mas sim de um perdão  
condicional, subordinado a um sincero retorno ao bem. Em vez de uma  
palavra de esperança e de misericórdia, fazem Deus dizer: Pereça toda a raça  
humana, melhor do que minha vingança! E ficam admirados que com tal  
doutrina ainda existam incrédulos e ateus! É assim que Jesus nos representa  
seu Pai? Ele que nos deu uma lei expressa do esquecimento e do perdão das  
ofensas? Aquele que nos ensina pagar o mal com o bem, que coloca o amor  
aos inimigos na primeira classe das virtudes que devem nos conduzir ao céu?  
Por acaso ele pretenderia que os homens fossem melhores, mais justos e mais  
complacentes que o próprio Deus?  
133 O Céu e o Inferno  
Os demônios segundo o Espiritismo  
20. Segundo o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são seres  
especiais; a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos materiais,  
eles constituem a humanidade que povoa a Terra e as outras esferas  
habitadas; libertos desse corpo, eles constituem o mundo espiritual, ou dos  
Espíritos, que povoam os espaços. Deus os criou perfectíveis e lhes deu por  
objetivo a perfeição, com a felicidade que é a sua consequência, mas não lhes  
deu a perfeição: Deus quis que ela dependesse do trabalho pessoal deles, a  
fim de que eles tivessem o mérito. Desde o instante da sua formação, eles  
progridem tanto no estado de encarnação como no estado espiritual; tendo  
chegado ao apogeu, tornam-se Espíritos puros, quer dizer anjos, segundo a  
expressão comum, de maneira que, a partir do embrião do ser inteligente até  
o anjo, existe uma cadeia ininterrupta na qual cada elo marca um grau de  
progresso.  
Resulta daí que há Espíritos em todos os graus de adiantamento moral e  
intelectual, conforme estejam no alto, embaixo ou no meio da escala. Por  
conseguinte, existem em todos os graus saber e ignorância, bondade e  
maldade. Nas faixas inferiores há alguns Espíritos que ainda estão  
profundamente inclinados ao mal e que nele se comprazem. Podem chamá-los  
de demônios, se assim quiserem, pois eles são capazes de todas as  
malvadezas atribuídas aos demônios. Se o Espiritismo não lhes dá esse nome,  
é que esse termo se vincula à ideia de seres distintos da humanidade, de uma  
natureza essencialmente perversa, de seres eternamente devotados ao mal e  
incapazes de progredir no bem.  
21. De acordo com a doutrina da Igreja, os demônios foram criados bons e se  
tornaram maus por sua desobediência: são anjos decaídos, colocados por  
Deus no topo da escala, e então desceram. Segundo o Espiritismo, são  
Espíritos imperfeitos, mas que se melhoram; eles ainda estão na base da  
escala, mas irão subir.  
Aqueles que por seu descuido, negligência, teimosia e má vontade  
permanecem por mais tempo nas faixas inferiores, estes carregam a  
134 Allan Kardec  
penitência, e o hábito do mal lhes torna mais difícil de sair dessa faixa. Mas  
chega um tempo em que eles se cansam dessa existência dolorosa e das suas  
consequências; é então que, comparando sua situação com a dos bons  
Espíritos, eles compreendem que aquilo que lhes interessa é o bem, e então  
procuram se melhorar; mas o fazem por espontânea vontade e sem serem  
constrangidos a isso. Eles são submetidos à lei do progresso, pela aptidão  
deles para progredir, mas ainda assim eles não progridem a contragosto.  
Deus lhes fornece constantemente os meios de progredir, mas eles ficam  
livres para aproveitá-los ou não. Se o progresso fosse obrigatório, eles não  
teriam nenhum mérito, e Deus quer que eles tenham o mérito pessoal de suas  
obras. Ninguém é colocado na primeira classe por privilégio, mas a primeira  
classe está aberta a todos, e ninguém chega lá senão por seus esforços. Os  
anjos mais elevados conquistaram o seu status assim como os demais:  
passando pela rota padrão.  
22. Tendo chegado a um certo grau de depuração, os Espíritos têm missões  
compatíveis com o seu avanço; eles desempenham todas aquelas que são  
atribuídas aos anjos de diferentes categorias. Como Deus tem criado desde  
toda a eternidade, também desde toda a eternidade encontram-se Espíritos  
para satisfazer a todas as necessidades do governo do Universo. Então, uma  
só espécie de seres inteligentes, submetida à lei do progresso, é realmente  
suficiente para tudo. Essa unidade na criação, com a ideia de que todos têm  
um mesmo ponto de partida, a mesma rota a percorrer, e que cada um se  
eleva pelo seu próprio mérito, corresponde melhor à justiça de Deus, em vez  
da criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dons  
naturais, que seriam outros tantos privilégios.  
23. A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas  
humanas, não admitindo a lei do progresso, e ainda assim vendo seres de  
diversos graus, concluiu que eles eram o produto de outras tantas criações  
especiais. Com isso, ela chega a fazer de Deus um pai parcial, dando tudo a  
alguns de seus filhos enquanto impõe aos outros o mais rude trabalho. Não é  
de se surpreender que durante muito tempo os homens nada tenham achado  
135 O Céu e o Inferno  
de chocante nessas preferências, já que eles as usaram do mesmo modo em  
relação aos seus próprios filhos, através dos direitos de primogenitura e de  
privilégios do nascimento. Poderiam eles acreditar que estavam fazendo  
mais mal do que Deus? Porém hoje, o círculo de ideias está alargado; os  
homens enxergam mais claramente; eles têm noções mais nítidas da justiça;  
eles a desejam para si e nem sempre a encontram na Terra, mas esperam pelo  
menos encontrá-la mais perfeita no céu. Eis por que toda doutrina em que a  
justiça divina não lhes apareça na sua maior pureza é repugnada pela sua  
razão.  
136 Allan Kardec  
CAPÍTULO X  
INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS  
NAS MANIFESTAÇÕES MODERNAS  
1. Os fenômenos espíritas modernos têm chamado a atenção sobre fatos  
análogos que ocorreram em todas as épocas, e jamais a História foi tão  
consultada com relação a isso como nos últimos tempos. Pela semelhança dos  
efeitos, chegou-se à conclusão da unidade da causa desses fenômenos. Como  
acontece com todos os fatos extraordinários cuja causa é desconhecida, a  
ignorância viu nos fenômenos espírita uma causa sobrenatural, e a  
superstição os ampliou, acrescentando-lhes crendices absurdas; daí vem um  
monte de lendas que, na sua maior parte, é uma mistura de um pouco de  
verdade com muita falsificação.  
2. As doutrinas sobre os demônios, que por tanto tempo têm prevalecido,  
exageraram de tal maneira o poder deles que, por assim dizer, fizeram com  
que se esquecessem de Deus; foi por isso que atribuíram aos demônios tudo o  
que parecia ultrapassar a capacidade humana e por toda parte aparecia a mão  
de Satanás: as coisas melhores, as descobertas mais úteis, principalmente as  
que pudessem tirar o homem da ignorância e ampliar o círculo de suas ideias,  
foram muitas vezes consideradas como obras diabólicas. Os fenômenos  
espíritas mais proliferados nos nossos dias e mais bem observados  
sobretudo com a ajuda das luzes da razão e dos dados da ciência têm  
confirmado de fato a intervenção de inteligências ocultas, mas sempre agindo  
nos limites da lei da natureza, e revelando, por sua ação, uma nova força e leis  
desconhecidas até então. A questão se reduz assim em saber de qual ordem  
 
137 O Céu e o Inferno  
são essas inteligências.  
Enquanto só tínhamos noções incertas ou sistemáticas do mundo  
espiritual, podíamos nos enganar; mas hoje, que observações rigorosas e  
estudos experimentais têm lançado luz sobre a natureza dos Espíritos, sua  
origem e sua destinação, seu papel no Universo e o seu modo de ação, a  
questão está resolvida pelos fatos. Sabe-se agora que eles são as almas  
daqueles que viveram na Terra. Sabe-se também que as diversas categorias  
de Espíritos bons e maus não constituem seres de diferentes espécies, mas  
que isso apenas demonstra os diversos graus de adiantamento. Segundo a  
faixa que eles ocupam, em razão do seu desenvolvimento intelectual e moral,  
aqueles que se manifestam o fazem sob aspectos bastante opostos o que  
não os impede de terem saído da grande família humana, tanto quanto o  
selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.  
3. Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mantém suas velhas  
crenças no que concerne aos demônios. Ela diz: “Nós temos princípios que  
não foram modificados há dezoito séculos e que são imutáveis.Seu erro é  
precisamente em não levar em conta o progresso das ideias e de supor Deus  
tão pouco sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento da  
inteligência, para usar com os homens primitivos a mesma linguagem que a  
dos homens avançados. Se, à medida que a humanidade progride, a religião se  
apega aos velhos erros, tanto na questão espiritual quanto em questões  
científicas, então chega um momento em que ela é ultrapassada pela  
incredulidade.  
4. Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva dos demônios nas  
manifestações modernas.74  
Nas suas intervenções exteriores, os demônios não são menos atentos ao  
dissimular a presença deles, para afastar suspeitas. Sempre astutos e pérfidos,  
eles atraem o homem com suas ciladas antes de lhe impor as correntes da  
opressão e da servidão. Aqui, eles aguçam a curiosidade através de fenômenos e  
74 As citações deste capítulo foram tiradas da mesma carta pastoral referida no capítulo precedente, do  
qual elas são a sequência com a mesma autoridade.  
 
138 Allan Kardec  
brincadeiras pueris; acolá, atacam pelo encantamento a subjugam pela atração  
ao maravilhoso. Se o sobrenatural aparece, se seu poder os desmascara, então  
eles se acalmam e apascentam as apreensões, pedem confiança e provocam  
familiaridade. Às vezes se fazem passar por divindades e bons gênios, às vezes  
tomam emprestado o nome e até os traços dos mortos que deixaram uma  
memória entre os vivos. Graças a essas fraudes dignas da antiga serpente, eles  
falam e são ouvidos; dogmatizam e as pessoas acreditam neles; misturam suas  
mentiras com algumas verdades e promovem o erro sob todas as formas. É daí  
que resultam as pretensas revelações de além-túmulo; é para obter tal resultado  
que a madeira, a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, o pé da  
mesa e a mão da crianças se tornam oráculos; é por isso que a pitonisa profetiza  
em seu delírio e que o ignorante, num sono misterioso, de repente se torna um  
doutor da ciência. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e em todos os  
tempos, o objetivo final dessas estranhas manifestações.  
Os resultados surpreendentes dessas observações ou desses atos, em sua  
maioria bizarros e ridículos, não podendo proceder da sua virtude intrínseca,  
nem da ordem estabelecida por Deus, não podem ser atribuídos senão ao  
concurso das potências ocultas. Tais são, notadamente, os fenômenos  
extraordinários obtidos atualmente, pelos processos aparentemente inofensivos  
do magnetismo e do órgão inteligente das mesas falantes. Em meio a essas  
operações da magia moderna, vemos se reproduzir entre nós as evocações e os  
oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos  
ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, dão ordens à madeira e ela  
obedece; interrogam-na e ela responde em todas as línguas e sobre todas as  
questões; achamo-nos na presença de seres invisíveis que usurpam os nomes  
dos mortos, e cujas pretensas revelações são marcadas com o cunho da  
contradição e da mentira; formas ligeiras e sem consistência aparecem de  
pronto e se mostram dotadas de uma força sobre-humana.  
Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores  
dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, nem  
se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade. As almas dos mortos,  
que Deus nos proíbe de consultar, permanecem no lugar que lhe foi designado  
pela justiça divina, e sem a permissão dela, elas não podem se colocar às ordens  
dos vivos. Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do  
herege e do ímpio, bem como do fiel, tanto do crime quanto da inocência, estes  
não são nem enviados de Deus nem apóstolos da verdade e da salvação, mas os  
139 O Céu e o Inferno  
agentes do erro e do inferno. Malgrado a precaução que tomam para se  
esconderem sob os nomes mais veneráveis, eles se traem pela nulidade de suas  
doutrinas, não menos do que pela baixeza de seus atos e incoerência de suas  
palavras. Esforçam-se para apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado  
original, da ressurreição do corpo, da eternidade das penas e de toda a  
revelação divina, a fim de tirar das leis sua verdadeira sanção e de abrir todas as  
barreiras aos vícios. Se suas sugestões pudessem prevalecer, elas formariam  
uma religião conveniente para o uso do socialismo e de todos aqueles  
incomodados com a noção do dever e da consciência. A incredulidade do nosso  
século lhes preparou o caminho. Que as sociedades cristãs possam, por um  
retorno sincero à fé católica, escapar do perigo desta nova e terrível invasão!”  
5. Toda essa teoria se apoia sobre esse princípio de que os anjos e os  
demônios são seres distintos das almas humanas, e que estas sejam o produto  
de uma criação especial, inferior até mesmo aos demônios, em inteligência,  
em conhecimento e em faculdades de todos os tipos. Ela conclui pela  
intervenção exclusiva dos anjos maus nas manifestações antigas e modernas  
atribuídas aos Espíritos dos mortos.  
A possibilidade das almas de se comunicarem com os vivos é uma  
questão de fato, é o resultado de experiências e de observações que nós não  
discutiremos aqui. Contudo, vamos admitir como hipótese a doutrina aqui  
mencionada, e vejamos se ela não se destrói por si mesma, pelos seus  
próprios argumentos.  
6. Das três categorias de anjos, segundo a Igreja, uma se ocupa  
exclusivamente com o céu; outra, com a administração do Universo; a terceira  
está encarregada da Terra, e nesta última encontram-se os anjos guardiões  
prepostos para a proteção de cada indivíduo. Somente uma parte dos anjos  
desta última categoria tomou parte na revolta e foi transformada em  
demônios. Então, se Deus permitiu que estes possam levar os homens à  
perdição, por sugestões de todos os tipos, e possam produzir manifestações  
ostensivas, por que ele que é soberanamente justo e bom teria  
concedido a eles o imenso poder de que desfrutam e dado uma liberdade tal  
de que fazem um uso tão pernicioso, sem permitir que os bons anjos lhes  
140 Allan Kardec  
façam um contrapeso através de manifestações semelhantes dirigidas ao  
bem? Admitamos que Deus tenha dado uma parte igual de poder aos anjos  
bons e aos maus, o que já seria um favor exorbitante em proveito destes  
últimos, e aí pelo menos o homem teria ficado livre para escolher. Porém, dar  
aos anjos maus o monopólio da tentação, com a capacidade de simular o bem  
para melhor enganar, para seduzir com mais segurança, isso seria uma  
verdadeira armadilha ante a fraqueza humana, sua inexperiência e sua boa-fé.  
Dizemos mais: seria abusar da sua confiança em Deus. A razão se recusa a  
admitir tal parcialidade a favor do mal. Vejamos, porém, os fatos.  
7. Aos demônios são concedidas faculdades transcendentes; eles nada  
perderam de sua natureza angelical: eles têm o saber, a perspicácia, a  
previdência a clarividência dos anjos e, mais ainda, a astúcia, a esperteza e a  
artimanha no grau supremo. O objetivo deles consiste em desviar os homens  
do bem e, sobretudo, afastá-los de Deus para os arrastar para o inferno, do  
qual são provedores e recrutadores.  
Compreende-se que eles se dirijam às pessoas que estão no bom  
caminho e que seria inútil para eles se elas aí persistem; compreende-se a  
sedução e o simulacro do bem para atraí-las para as fileiras deles; mas o que é  
incompreensível é que eles se dirijam àquelas pessoas que já lhes pertencem  
de corpo e alma, para as reconduzir a Deus e ao bem. Ora, quem está nas suas  
garras mais do que a pessoa que renega e blasfema contra Deus, mergulhada  
no vício e na desordem das paixões? Essa pessoa já não está no caminho do  
inferno? Seria compreensível que, seguro de sua presa, o anjo mau a incite a  
adorar Deus, a se submeter à vontade divina e a renunciar ao mal? Que ela  
exalte aos seus olhos a vida venturosa dos Espíritos bons e que lhe descreva  
com horror a situação dos malignos? Alguém já viu um comerciante  
vangloriar a mercadoria do seu concorrente, em detrimento da sua própria  
mercadoria, e aconselhar seus clientes a irem comprar do outro? Já se viu um  
recrutador depreciar a vida militar e louvar a monotonia da vida doméstica?  
Ou dizer aos recrutas que eles terão uma vida de fadigas e de privações? Que  
eles têm dez chances contra uma de serem mortos, ou pelo menos terem os  
braços e as pernas amputados?  
141 O Céu e o Inferno  
Este é, portanto, o papel estúpido atribuído ao demônio, pois é um fato  
notório que, por consequência das instruções emanadas do mundo invisível,  
vemos todos os dias incrédulos e ateus sendo reconduzidos a Deus e orando  
com fervor o que eles jamais tinham feito , assim como vemos gente  
viciosa trabalhar com ardor para seu próprio melhoramento. Achar que isso  
seja obra das artimanhas do demônio é fazer dele um verdadeiro estúpido.  
Ora, como não se trata aqui de uma mera suposição, mas sim de um resultado  
da experiência, e já que contra um fato não há negação possível, devemos  
concluir que ou o demônio é um desastrado de primeira ordem, ou que ele  
não é tão astuto e nem tão mau como se pretende, e por conseguinte, que ele  
não é tão temível quanto, uma vez que ele trabalha contra seus próprios  
interesses; ou então, que nem todas as manifestações vêm dele.  
8. “Eles promovem o erro sob todas as formas; é para obter tal resultado que a  
madeira, a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, o pé da mesa e  
a mão das crianças se tornam oráculos.”  
De acordo com isso, qual é então o valor destas palavras do Evangelho:  
“Derramarei do meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e filhas  
profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos anciões terão sonhos. E  
nesses dias, derramarei do meu espírito sobre meus servos e sobre minhas  
servas, e eles profetizarão.” (Atos dos Apóstolos, 2: 17 e 18.)? Isso não é a  
predição da mediunidade concedida a todo mundo, inclusive às crianças, que  
está se realizando nos nossos dias? Porventura, os apóstolos lançaram o  
anátema sobre essa faculdade? Não; eles a anunciaram como uma graça de  
Deus, e não como obra do demônio. Será que os teólogos da atualidade sabem  
desse assunto mais do que os apóstolos? Não deveriam eles ver o dedo de  
Deus no cumprimento dessas palavras?  
9. Em meio a essas operações da magia moderna, vemos se reproduzir entre  
nós as evocações e os oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que  
ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas.”  
Onde foi visto operações da magia nas evocações espíritas? Houve um  
tempo em que se podia crer na eficácia dessas coisas, mas hoje elas são  
142 Allan Kardec  
ridículas; ninguém acredita nelas, e o Espiritismo as condena. Na época em  
que florescera a magia, não se tinha mais do que uma ideia muito imperfeita  
sobre a natureza dos Espíritos, considerados como seres dotados de um  
poder sobre-humano; ninguém os convocava senão para obter deles —  
mesmo que fosse pelo preço da própria alma favores da sorte e da fortuna,  
a descoberta de tesouros, a revelação do futuro ou de filtros.75 A magia —  
com a ajuda dos seus sinais, fórmulas e práticas cabalísticas era  
supostamente capaz de fornecer segredos para operar prodígios, obrigar os  
Espíritos a ficarem às ordens dos homens e lhes satisfazer os desejos. Hoje  
todos sabem que os Espíritos não são mais do que as almas dos homens; nós  
só os evocamos para recebermos conselhos dos bons, para moralizarmos os  
imperfeitos e para continuarmos as relações com os nossos entes queridos.  
Aqui está aquilo que o Espiritismo diz sobre esse tema:  
10. Não há nenhum meio de vocês constrangerem um Espírito a vir a  
contragosto, desde que ele lhes seja semelhante ou superior em moralidade,  
porque vocês não têm nenhuma autoridade sobre ele; se o Espírito lhes for  
inferior, vocês podem trazê-lo, desde que seja para o bem dele, porque então  
outros Espíritos lhes auxiliam. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item  
282, 10ª pergunta.)  
A mais essencial de todas as disposições para as evocações é o  
recolhimento, quando se deseja ter contato com Espíritos sérios. Com fé e o  
desejo do bem, a pessoa fica mais forte para evocar os Espíritos superiores.  
Elevando sua alma por alguns instantes de recolhimento no momento da  
evocação, ela se identifica com os bons Espíritos e os dispomos a virem. (O Livro  
dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 12ª pergunta.)  
Nenhum objeto, medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou de  
afastar ou expulsar os Espíritos; a matéria não exerce nenhuma ação sobre eles.  
Jamais um bom Espírito aconselhará tais absurdos. A virtude dos talismãs nunca  
existiu a não ser na imaginação de pessoas crédulas. (O Livro dos Médiuns, 2ª  
parte, cap. XXV, item 282, 17ª pergunta.)  
75 Filtro (philtre, no original em francês): segundo a lenda popular, poção mágica principalmente usada  
para inspirar o amor. N. T.  
 
143 O Céu e o Inferno  
Não há nenhuma fórmula sacramental para a evocação dos Espíritos.  
Qualquer um que pretendesse receitar alguma, seguramente, pode ser tachado  
de mistificador, pois para os Espíritos a forma não vale nada. Todavia, a  
evocação sempre deve ser feita em nome de Deus. (O Livro dos Médiuns, 2ª,  
cap. XVII, item 203.)  
Os Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres e em horas  
indevidas são Espíritos que se divertem à custa dos que lhes dão ouvidos. É  
sempre inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões: inútil, porque não  
se ganha absolutamente nada além de ser mistificado; perigoso, não pelo mal  
que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode exercer sobre  
as mentes fracas. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 18ª  
pergunta.)  
Não há nem dias nem horas especialmente mais favoráveis para as  
evocações; isso é completamente indiferente para os Espíritos, como tudo o que  
é material, e seria uma superstição acreditar na influência dessas coisas. Os  
momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador possa estar menos  
distraído pelas suas ocupações habituais, quando seu corpo e seu espírito  
estejam mais calmos. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 19ª  
pergunta.)  
A crítica maliciosa tem prazer em representar as comunicações espíritas  
como envolta das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia.  
Se aqueles que criticam o Espiritismo sem conhecê-lo tivessem se dado ao  
trabalho de estudar aquilo de que querem falar, então eles teriam se poupado do  
esforço de imaginação ou de alegações que só servem para provar a ignorância  
ou a má vontade deles. Para a edificação das pessoas leigas à ciência, diremos  
que não há para se comunicar com os Espíritos nem dias, nem horas e nem  
lugares mais favoráveis do que outros; diremos ainda que, para evocá-los, não é  
preciso nem fórmulas e nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que não há  
necessidade de nenhuma preparação nem de qualquer iniciação; que o emprego  
de qualquer sinal ou objeto material para atraí-los ou para afastá-los é inútil e  
que apenas o pensamento é suficiente; diremos, enfim, que os médiuns recebem  
comunicações espirituais sem sair do seu estado normal, tão simples e  
naturalmente como se elas fossem ditadas por uma pessoa viva. Só o  
charlatanismo poderia atribuir formas excêntricas e acrescentar acessórios  
ridículos. (O que é o Espiritismo, cap. II, item 49.)  
144 Allan Kardec  
Em princípio, o futuro deve ser oculto ao homem; somente em casos raros  
e excepcionais é que Deus permite a sua revelação. Caso o homem conhecesse o  
futuro, ele negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade,  
porque seria dominado pelo pensamento de que, se tal coisa tem de acontecer,  
não adianta se preocupar com ela, ou então ele tentaria impedi-la. Deus não quis  
que fosse assim, a fim de que cada qual concorra para a realização das coisas,  
mesmo daquelas às quais a pessoa desejaria se opor. Deus permite a revelação  
do porvir quando esse conhecimento prévio deve facilitar o cumprimento da  
coisa, em vez de entravá-la, obrigando-nos a agir de modo diferente do que  
faríamos sem esse conhecimento. (O livro dos Espíritos, Livro III, cap. X,  
questões 868 e seguintes.)  
Os Espíritos não podem guiar os homens nas pesquisas científicas e nas  
descobertas. A ciência é obra do gênio; ela não deve ser adquirida senão pelo  
trabalho, pois é só pelo trabalho que o homem avança no seu caminho. Que  
mérito ele teria se bastasse só interrogar os Espíritos para saber de tudo?  
Qualquer imbecil poderia se tornar sábio por esse preço. O mesmo ocorre com  
as invenções e descobertas da indústria.  
Quando é chegado o tempo de uma descoberta, os Espíritos encarregados  
de dirigir o seu progresso procuram o homem capaz de levá-la a efeito e lhe  
inspiram as ideias necessárias, de maneira a lhe deixar todo o mérito da obra,  
pois é preciso que ele elabore essas ideias e as ponha em prática. É assim com  
todos os grandes trabalhos da inteligência humana. Os Espíritos deixam cada  
homem na sua esfera; daquele que só é apto a cavar a terra eles não farão  
depositários dos segredos de Deus; mas eles sabem tirar da obscuridade o  
homem capaz de promover os seus desígnios. Portanto, não deixem a  
curiosidade ou a ambição arrastar vocês por um caminho que não representa o  
propósito do Espiritismo, e que os levaria às mais ridículas mistificações. (O  
Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXVI, item 294, perguntas 28 e 29.)  
Os Espíritos não podem revelar tesouros escondidos. Os Espíritos  
superiores não se ocupam com essas coisas; mas os Espíritos zombeteiros  
frequentemente indicam tesouros que não existem, ou então podem fazer que se  
veja um em algum lugar, enquanto o tesouro esteja no lado oposto; e isso tem a  
sua utilidade para mostrar que a verdadeira riqueza está no trabalho. Quando a  
Providência destina riquezas ocultas a alguém, este as encontrará naturalmente;  
caso contrário, não. (O Livro dos Médiuns, 2ª, cap. XXVI, item 295, 30ª  
pergunta.)  
145 O Céu e o Inferno  
Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos que são os agentes e  
os meios de ação do mundo invisível, constituindo uma das forças e uma das  
potências da natureza, o Espiritismo nos dá a chave de uma imensidade de  
coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio, e que nos tempos  
antigos puderam se passar por prodígios. Do mesmo modo que o magnetismo,  
ele nos revela uma lei, se não desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou,  
melhor dizendo, conhecíamos os efeitos pois eles se produziram em todos os  
tempos , mas não conhecíamos a lei, e foi a ignorância dessa lei que gerou a  
superstição. Uma vez compreendida essa lei, o maravilhoso desaparece e os  
fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que os espíritas não  
fazem maior milagre ao fazer uma mesa se mover ou ao fazer os falecidos  
escreverem, tanto quanto o médico ao fazer um moribundo voltar à vida, ou o  
físico ao fazer um raio cair. Aquele que pretendesse fazer milagres com a ajuda  
dessa ciência seria ou um ignorante do assunto ou um enganador. (O Livro dos  
Médiuns, 1ª parte, cap. II, item 15.)  
Certas pessoas têm uma ideia muito errada das evocações; há quem  
acredite que elas consistem em fazer os mortos se reerguerem do túmulo com a  
aparência lúgubre. Somente nos romances, nos contos fantásticos de fantasmas  
e no teatro é que se veem os mortos descarnados saírem dos seus sepulcros,  
envoltos de mortalhas e chacoalhando seus ossos. O Espiritismo, que jamais fez  
milagres, tampouco já produziu algum desse, e nunca fez um corpo morto  
reviver. O corpo que está na cova lá fica definitivamente, mas o ser espiritual,  
fluídico e inteligente, este não foi colocado lá com o seu envoltório grosseiro; ele  
foi separado do corpo no momento da morte, e uma vez feita a separação, este  
ser não tem mais nada em comum com o corpo. (O que é o Espiritismo, cap. II,  
item 48.)  
11. Nós nos estendemos sobre estas citações para mostrar que os princípios  
do Espiritismo não têm nenhuma relação com os da magia. Assim sendo, nada  
de Espíritos às ordens dos homens, nada de mecanismos para os constranger,  
nada de sinais ou fórmulas cabalísticas, nada de descobertas de tesouros ou  
processos para se enriquecer, nada de milagres ou prodígios, nem de  
adivinhações ou de aparições fantásticas; enfim, nada que constitua o objetivo  
e os elementos essenciais da magia. O Espiritismo não somente desaprova  
todas essas coisas, como também demonstra a impossibilidade e a ineficácia  
146 Allan Kardec  
delas. Não há, portanto, qualquer analogia entre a finalidade e os meios da  
magia e os do Espiritismo; querer misturá-los só pode ser por ignorância ou  
má-fé, e como os princípios do Espiritismo nada têm de secreto, mas  
formulados em termos claros e sem equívocos, o erro não poderia prevalecer.  
Quanto às ocorrências de curas, reconhecidas como reais na carta  
pastoral mencionada, o exemplo foi mal escolhido para desviar as relações  
com os Espíritos. A cura é um dos benefícios que mais sensibilizam e que  
todos podem apreciar; poucas pessoas estarão dispostas a renunciá-la,  
principalmente depois de ter esgotado todos os outros recursos, pelo temor  
de ser curado pelo diabo; ao contrário, muitos dirão que se o diabo os curou,  
então ele fez uma boa ação.76  
12. “Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores  
dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, nem  
se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade.”  
O autor está se referindo às manifestações físicas dos Espíritos; dentre  
elas, evidentemente há algumas que seriam pouco dignas dos Espíritos  
superiores; mas, se no lugar da palavra anjos vocês colocarem Espíritos  
puros, ou Espíritos superiores, então terão exatamente aquilo que o  
Espiritismo diz. Porém, não seria possível colocar na mesma linha as  
comunicações inteligentes pela escrita, pela fala, pela audição ou por qualquer  
outro meio, que não fossem mais indignas dos bons Espíritos do que o seriam  
dos homens mais eminentes da Terra, nem as aparições, as curas e um  
punhado de outras manifestações que os livros sagrados citam em  
abundância como sendo a ação dos anjos ou dos santos. Então, se os anjos e os  
santos já produziram fenômenos semelhantes, por que não os produziriam  
hoje? Por que os mesmos fatos hoje seriam obra do demônio nas mãos de  
certas pessoas, enquanto são reputados milagres santos nas mãos de outros?  
Sustentar tal tese é abdicar de toda a lógica.  
O autor da carta pastoral incorre em erro quando diz que esses  
fenômenos são inexplicáveis. Ao contrário, hoje eles estão perfeitamente  
76  
Querendo persuadir as pessoas curadas pelos Espíritos de que elas foram curadas pelo diabo, estão  
afastando radicalmente da Igreja um grande número daquelas que nem pensavam em deixá-la.  
 
147 O Céu e o Inferno  
explicados, e é por isso que eles não são mais considerados como  
maravilhosos e sobrenaturais; e ainda que não fossem, não seria mais lógico  
atribuí-los ao diabo, assim como antigamente não era ilógico lhe dar o crédito  
de todos os efeitos naturais que não eram compreendidos.  
Por papéis indignos devemos entender os papéis ridículos e aqueles que  
consistem em fazer o mal; mas não se pode qualificar assim o dos Espíritos  
que fazem o bem e que conduzem os homens a Deus e à virtude. Ora, o  
Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não fazem parte das  
atribuições dos Espíritos superiores, assim como o provam estes preceitos:  
13. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem: a dos  
Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre e lógica,  
isenta de contradições; ela exala sabedoria, benevolência, modéstia e a mais  
pura moral; ela é concisa e sem palavras inúteis. Já na linguagem dos Espíritos  
inferiores, ignorantes ou orgulhosos, o vazio de ideias é quase sempre  
compensado pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente  
falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda  
expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de  
malevolência, de presunção ou arrogância são sinais incontestáveis da  
inferioridade de um Espírito.  
Os Espíritos superiores não se ocupam senão com comunicações  
inteligentes, tendo em vista a nossa instrução; as manifestações físicas ou  
puramente materiais estão mais especialmente nas atribuições dos Espíritos  
inferiores, comumente designados sob o nome de Espíritos batedores, como  
entre nós as tarefas pesadas são executadas pelos ajudantes, e não pelos  
sábios. Seria absurdo pensar que os Espíritos, por menos elevados que  
sejam, gostem de dar espetáculos. (O que é o Espiritismo, capítulo II, itens 37 a  
40 e 60. Veja também, O Livro dos Espíritos, Livro II, cap. I: Diferentes ordens de  
Espíritos e Escala espírita; O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXIV, Identidade dos  
Espíritos; Distinção dos bons e dos maus Espíritos.)  
Qual é o homem de boa-fé que pode ver nestes preceitos um papel  
indigno atribuído aos Espíritos elevados? Enquanto atribuem aos demônios  
uma inteligência igual à dos anjos, não apenas o Espiritismo jamais confunde  
148 Allan Kardec  
os Espíritos, mas também constata, pela observação dos fatos, que os  
Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes, que o seu horizonte moral  
é limitado e que sua perspicácia é restrita; que muitas vezes eles têm uma  
ideia falsa e incompleta das coisas, e que são incapazes de resolver certas  
questões o que os coloca na impossibilidade de fazer tudo quanto se atribui  
aos demônios.  
14. As almas dos mortos, que Deus nos proíbe de consultar, permanecem no  
lugar que lhe foi designado pela justiça divina, e sem a permissão dela, eles não  
podem se colocar às ordens dos vivos.”  
O Espiritismo diz também que essas almas não podem vir sem a  
permissão de Deus, mas é ainda mais rigoroso, pois afirma que nenhum  
Espírito, bom ou mau, pode vir sem essa permissão, enquanto a Igreja atribui  
aos demônios o poder de dispensá-la. O Espiritismo vai ainda mais longe, pois  
diz que, mesmo com essa permissão, quando eles atendem ao apelo dos vivos,  
não é para se colocar às ordens destes.  
O Espírito evocado vem voluntariamente ou é obrigado a vir? Ele  
obedece à vontade de Deus, quer dizer, à lei geral que rege o Universo; julga  
se é útil vir, mas ainda aí lhe resta o livre-arbítrio. O Espírito superior vem  
sempre quando é chamado para um propósito útil; nunca se nega a responder  
a não ser no meio de pessoas pouco sérias ou que tratam a coisa como  
brincadeira. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 8ª pergunta.)  
O Espírito evocado pode se negar a atender ao chamado que lhe é feito?  
Perfeitamente; sem isso, onde estaria o seu livre-arbítrio? E quanto a vocês  
mesmos? Consideram-se obrigados a responder a todos os que pronunciam o  
nome de vocês? Quando digo que o Espírito pode se recusar, refiro-me ao  
pedido do evocador, pois um Espírito inferior pode ser constrangido a vir por  
um Espírito superior. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 9ª  
pergunta.)  
Os espíritas estão tão convencidos de que eles não têm nenhum poder  
direto sobre os Espíritos, e que não podem obter nada deles sem a permissão  
de Deus, que eles dizem, quando fazem um apelo a um Espírito qualquer: Eu  
rogo a Deus todo-poderoso que permita a um Espírito bom se comunicar  
149 O Céu e o Inferno  
comigo; rogo também ao meu anjo guardião que bem queira me assistir e  
afastar os Espíritos maus. E quando se trata de um apelo a um determinado  
Espírito: Eu rogo a Deus todo-poderoso que permita a tal Espírito se  
comunicar comigo. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XVII, item 203.)  
15. As acusações lançadas pela Igreja contra a prática das evocações,  
portanto, não concernem ao Espiritismo, pois elas se dirigem principalmente  
às operações da magia, com a qual o Espiritismo nada tem em comum, visto  
que ele condena nessas práticas exatamente o que a própria Igreja condena;  
já que ele não atribui aos bons Espíritos um papel indigno deles, e, enfim, que  
ele declara não pedir nada e nem obter nada sem a permissão de Deus.  
Sem dúvidas pode haver pessoas que abusem das evocações, que façam  
delas um jogo, que lhes deturpem dos seu objetivo providencial para lhes  
fazer servir aos seus interesses pessoais, que, por ignorância, leviandade,  
orgulho ou ambição, afastem-se dos verdadeiros princípios da doutrina;  
porém, o Espiritismo sério os desaprova, assim como a verdadeira religião  
desaprova os falsos devotos e os excessos do fanatismo. Portanto, não é lógico  
nem racional imputar ao Espiritismo em geral os abusos que ele condena, ou  
os erros daqueles que não o compreendem. Antes de formular uma acusação,  
é preciso ver se ela é justa. Nós diremos então: A condenação da Igreja recai  
sobre os charlatães, os exploradores, as práticas da magia e da feitiçaria; e  
nisso, ela tem razão. Quando a crítica religiosa ou cética condena os abusos e  
estigmatiza o charlatanismo, ela apenas realça melhor a pureza da sã  
doutrina, que assim ajuda a se desembaraçar das más escórias; com isso, ela  
facilita a nossa tarefa. Seu erro está em confundir o bem e o mal, por  
ignorância da maior parte deles, por má-fé de alguns; mas a distinção que  
essa crítica não faz, outros a fazem. Em todos os casos, a sua censura à qual  
todo espírita sincero se associa, desde que se aplique ao mal não pode  
atingir a doutrina.  
16. Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do herege e  
do ímpio, bem como do fiel, tanto do crime quanto da inocência, estes não são  
nem enviados de Deus nem apóstolos da verdade e da salvação, mas os agentes  
do erro e do inferno.”  
150 Allan Kardec  
Desse modo, ao herético, ao ímpio e ao criminoso, Deus não permite que  
os bons Espíritos venham lhes tirar do erro para os salvar da perdição eterna!  
Ele só lhes envia os agentes do inferno, para lhes mergulhar ainda mais no  
lamaçal! E pior, Deus não envia ao inocente senão seres perversos para  
pervertê-la! Será então que entre os anjos, essas criaturas privilegiadas de  
Deus, não se encontra algum ser bastante compassivo para vir em socorro  
dessas almas perdidas? De que servem as brilhantes qualidades de que eles  
são dotados, se só servem para o seu gozo pessoal? Será que esses anjos são  
realmente bons, já que, mergulhados nas delícias da contemplação, eles veem  
essas almas na rota do inferno e não vêm livrá-las? Não é esta a imagem do  
rico egoísta que, tendo tudo em abundância, deixa impiedosamente o pobre  
morrer de fome bem na sua porta? Não é isso o egoísmo erigido em virtude e  
colocado bem aos pés do Eterno?  
Vocês se admiram de que os bons Espíritos venham ao herege e ao  
ímpio; vocês então se esquecem destas palavras do Cristo: Não é aquele que  
está bem que precisa de médico.” Vocês não conseguem ver as coisas de um  
ponto de vista mais elevado do que os fariseus do tempo do Cristo? E vocês  
mesmos, se vocês forem chamados por um descrente, por acaso se recusariam  
a ir a ele para colocá-lo no bom caminho? Pois os Espíritos bons fazem o que  
vocês fariam: eles vão ao ímpio para fazê-lo ouvir bons conselhos. Em vez de  
lançar o anátema sobre as comunicações de além-túmulo, abençoem os  
desígnios do Senhor, e admirem sua onipotência e sua bondade infinita.  
17. Há anjos guardiões, dizem; mas já que esses anjos guardiões não podem  
se fazer ouvir pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração, por que  
eles não empregariam meios de ação mais diretos e mais materiais, de modo a  
tocar os sentidos, uma vez que esses meios existem? Será que Deus coloca  
esses meios que são obra sua, pois tudo vem dele e nada acontece sem a  
sua permissão à disposição somente dos maus Espíritos, enquanto proíbe  
aos bons de se servirem desses recursos? Disso é preciso concluir que Deus  
concede aos demônios mais facilidades para levar os homens à perdição, do  
que ele concede aos anjos guardiões para os salvar!  
Pois bem! O que os anjos da guarda não podem fazer, segundo a Igreja,  
151 O Céu e o Inferno  
os demônios fazem por eles. Por meio dessas mesmas comunicações, ditas  
infernais, eles reconduzem a Deus aqueles que o renegavam, e ao bem os que  
estavam mergulhados no mal; esses demônios nos dão o estranho espetáculo  
de milhões de homens que creem em Deus pela força do diabo, quando a  
Igreja foi impotente para os converter. Quantos homens que jamais oraram  
hoje oram com fervor, graças às instruções desses mesmos demônios!  
Quantos desses, orgulhosos, egoístas e devassos, nós vemos se tornarem  
humildes, caridosos e menos sensualistas! E ainda dizem que isso é obra dos  
demônios! Se for assim, é preciso convir que o demônio lhes tem prestado um  
grandíssimo serviço e lhes tem ajudado melhor do que os anjos. É necessário  
ter uma opinião bem pobre do senso dos homens neste século para crer que  
eles possam aceitar cegamente tais ideias. Uma religião que faz de tal  
doutrina a sua pedra angular, que se declara minada em suas bases se lhe  
tirarmos os seus demônios, seu inferno, suas penas eternas e seu Deus  
impiedoso, esta é uma religião que se suicida.  
18. Dizem que Deus que enviou seu Cristo para salvar os homens —  
provou o seu amor pelas criaturas; mas então ele as deixou desprotegidas?  
Sem dúvida alguma, Cristo é o divino Messias, enviado para ensinar aos  
homens a verdade e lhes mostrar o bom caminho. Mas, só a partir dele,  
contem o número daqueles que não puderam ouvir sua palavra de verdade,  
quantos morreram e quantos morrerão sem a conhecer, e, entre aqueles que a  
conhecem, quantos a põem em prática! Por que Deus, em sua solicitude para a  
salvação de seus filhos, não lhes enviaria outros mensageiros, vindo sobre  
toda a Terra e penetrando nos lugares mais humildes, entre os grandes e os  
pequenos, entre os sábios e os ignorantes, entre os incrédulos e os crentes,  
para ensinar a verdade a quem não a conhece, para explicar a quem não a  
compreende, para suprir pelo seu ensino direto e múltiplo a insuficiência da  
propagação do Evangelho, acelerando assim a chegada do reino de Deus? E  
quando esses mensageiros chegam em massas inumeráveis, abrindo os olhos  
aos cegos, convertendo os ímpios, curando os enfermos e consolando os  
aflitos, a exemplo de Jesus, então vocês os repulsam, repudiam o bem que eles  
fazem, dizendo que são os demônios! Esta também era a linguagem dos  
152 Allan Kardec  
fariseus com relação a Jesus, pois eles igualmente diziam que ele fazia o bem  
pela força do diabo. O que o Cristo lhes respondeu? Reconhece-se a árvore  
pelo seu fruto; uma árvore má não pode dar bons frutos.”  
Mas para os fariseus, os frutos produzidos por Jesus eram maus, porque  
ele veio destruir o abuso e proclamar a liberdade que devia arruinar a  
autoridade deles; se ele tivesse vindo lhes lisonjear o orgulho, sancionar suas  
prevaricações e apoiar o poder deles, então ele teria sido aos olhos dos  
fariseus o Messias esperado pelos judeus. Mas ele estava só, pobre e fraco,  
então o fizeram perecer, acreditando eles que assim matariam a palavra de  
Jesus; todavia, a sua palavra era divina e sobreviveu. Entretanto, ela tem sido  
propagada com lentidão, e após dezoito séculos, mal ela é conhecida pela  
décima parte do gênero humano, além de que numerosos cismas eclodiram  
no próprio seio dos seus discípulos. Foi então que Deus, em sua misericórdia,  
começou a enviar os Espíritos para confirmá-la, completá-la, pô-la ao alcance  
de todos e difundi-la por toda a Terra. Mas os Espíritos não estão encarnados  
num só homem, cuja voz teria ficado limitada; eles são incontáveis, eles vão  
por toda parte e ninguém pode detê-los; eis por que seu ensinamento se  
espalha com a rapidez do relâmpago: eles falam ao coração e à razão, e por  
isso são compreendidos pelos mais humildes.  
19. Vocês dizem: “Não é indigno de mensageiros celestes, transmitir suas  
instruções por um meio tão vulgar como o das mesas falantes? Não é ultrajá-  
los supor que eles se divirtam com trivialidades e deixem sua brilhante  
mansão para se meterem à disposição do primeiro que apareça?”  
Jesus não deixou a morada do seu Pai para nascer num estábulo? E aliás,  
onde vocês viram que o Espiritismo atribua coisas triviais aos Espíritos  
superiores? Ele afirma, ao contrário, que as coisas vulgares são o produto de  
Espíritos vulgares. Mas, pela sua própria vulgaridade, essas coisas não fazem  
mais do que provocar as imaginações; elas têm servido para provar a  
existência do mundo espiritual e mostrar que esse mundo é muito diferente  
do que se julgava. Isso era o início; era simples como tudo aquilo que começa;  
mas a árvore brotada de uma pequena semente nem por isso deixa de mais  
tarde espalhar sua folhagem ao longe. Quem teria acreditado que da  
153 O Céu e o Inferno  
misérrima manjedoura de Belém um dia sairia a palavra que haveria de  
comover o mundo?  
Sim, Cristo é o Messias divino; sim, sua palavra é a da verdade; sim, a  
religião fundada sobre essa verdade será inabalável, mas com a condição de  
seguirmos e praticarmos seus sublimes ensinamentos, e não de fazermos do  
Deus justo e bom que ela nos ensina a conhecer um Deus parcial,  
vingativo e impiedoso.  
154 Allan Kardec  
CAPÍTULO XI  
DA PROIBIÇÃO DE  
EVOCAR OS MORTOS  
1. A Igreja não nega de forma algum o fato das manifestações espíritas; ao  
contrário, ela admite todas elas assim como nós vimos nas citações  
precedentes. No entanto, ela as atribui à intervenção exclusiva dos demônios.  
É um erro que alguns invoquem o Evangelho para interditar as manifestações,  
pois o Evangelho não diz nenhuma palavra sobre isso. O supremo argumento  
que fazem prevalecer é a proibição de Moisés. Eis em quais termos se refere  
ao assunto a carta pastoral citada nos capítulos anteriores:  
Não é permitido se colocar em contato com eles [os Espíritos], seja  
diretamente, seja por intermédio de quem os invoca e os interroga. A lei mosaica  
punia com a morte essas práticas detestáveis, em uso entre os gentios. Diz o  
Levítico: Não vão procurar os mágicos, nem dirijam qualquer pergunta aos  
adivinhos, sob pena de incorrer em contaminação ao se dirigirem a eles.’  
(Levítico, 19: 31) — ‘Se um homem ou uma mulher tiver um Espírito de Píton ou  
de adivinhação, que seja punido com a morte; que seja apedrejado, e seu sangue  
recairá sobre sua cabeça’. (Levítico, 20: 27). Também o livro do Deuteronômio  
diz: ‘Que não haja entre vocês ninguém que consulte os adivinhos, ou que  
observe sonhos e agouros, ou que faça uso de malefícios, sortilégios e  
encantamentos, ou que consulte aquele que tem o Espírito de Píton e que  
pratique a adivinhação ou que interrogue os mortos para saber a verdade; pois  
o Senhor tem como uma abominação todas essas coisas, e ele destruirá, na  
chegada de vocês, as nações que cometem esses crimes.(Deuteronômio, 18: 10  
a 12)”  
2. É útil, para a compreensão do verdadeiro sentido das palavras de Moisés,  
 
155 O Céu e o Inferno  
reproduzir o texto completo que foi um tanto abreviado naquela citação:  
“Não se desviem do vosso Deus para irem procurar mágicos, e não  
consultem jamais os adivinhos, sob pena de se contaminarem ao se dirigirem a  
eles. Eu sou o Senhor vosso Deus.(Levítico, 19: 31.)  
Se um homem ou uma mulher tiver um Espírito de Píton, ou um Espírito  
de adivinhação, que seja punido de morte; que seja apedrejado, e o seu sangue  
recairá sobre sua cabeça.” (Idem, 20: 27.)  
Quando tiverem entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos dará,  
tomem muito cuidado para não querer imitar as abominações desses povos; —  
e que não haja ninguém entre vocês que pretenda purificar seu filho ou sua  
filha fazendo-os passar pelo fogo, ou que consulte os adivinhos ou que observe  
sonhos e augúrios, ou que faça uso de malefícios, sortilégios e encantamentos,  
ou que consulte os que têm o Espírito de Píton, e que se ponham a adivinhar, ou  
que interrogue os mortos para saber a verdade. Pois o Senhor tem como  
abominação todas essas coisas, e exterminará todos esses povos na chegada de  
vocês, por causa desses tipos de crimes que eles têm cometido.(Deuteronômio,  
18: 9 a 12)  
3. Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste ponto, assim  
deve ser igualmente em todos os outros, pois, por que ela seria boa nesse  
ponto que concerne às evocações e má em outras partes? É preciso ser  
consequente; se reconhecemos que sua lei não está mais em harmonia com  
nossos costumes e nossa época para certas coisas, não há razão para que  
também não o esteja para a proibição de que tratamos.  
É preciso, aliás, se reportar aos motivos que provocaram essa proibição,  
motivos que então tinha sua razão de ser, mas que seguramente hoje já não  
existem mais. O legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos  
os hábitos adquiridos no Egito, onde esse das evocações estava em uso e era  
objeto de abusos, como o provam estas palavras de Isaías: O Espírito do Egito  
se aniquilará dentro dele, e eu anularei o seu conselho; eles consultarão seus  
ídolos, seus adivinhos, seus pítons e seus mágicos.(Capítulo 19: 3)  
Além disso, os israelitas não deviam contrair nenhuma aliança com as  
nações estrangeiras; ora, eles encontrariam as mesmas práticas entre esses  
povos a quem iam encarar e a quem deviam combater. Portanto, por razões  
156 Allan Kardec  
políticas, Moisés teve que inspirar no povo hebreu uma aversão a todos os  
costumes que tivessem sido assimilados de outras nações. Para motivar essa  
aversão, era preciso apresentar esses costumes como reprovados pelo  
próprio Deus; eis por que ele diz: “O Senhor tem como abominação todas  
essas coisas, e destruirá, com a vossa chegada, as nações que cometem tais  
crimes.”  
4. A proibição de Moisés era tanto mais justificada porque não se evocava os  
mortos por respeito e afeição por eles, nem com um sentimento de piedade;  
era só um meio de adivinhação, do mesmo tipo que os augúrios e presságios  
explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Por mais que tenha feito,  
ele não conseguiu desenraizar esse hábito, que se tornara objeto de comércio,  
bem como atestam as seguintes passagens do mesmo profeta:  
E quando lhes disserem: Consultem os magos e adivinhos que falam aos  
sussurros em seus encantamentos, respondam-lhes: Não é verdade que cada  
povo consulta o seu Deus? E que vai falar com os mortos daquilo que diz  
respeito aos vivos?(Isaías, 8: 19)  
Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios da magia; quem  
enlouquece aqueles que se metem a adivinhar; quem reverte o espírito dos  
sábios e quem converte em loucura a sua vã ciência.” (Capítulo 44: 25.)  
“Que esses agouros que estudam o céu, que contemplam os astros e que  
contam os meses para deles tirar as predições que eles querem fazer do futuro,  
venham agora e que vos salvem. Eles se tornaram como a palha, e o fogo os  
devorou; eles não poderão livrar suas almas das chamas ardentes; não restarão  
de suas brasas nem mesmo os carvões com os quais possam se aquecer, nem  
fogo diante do qual possam se sentar. Eis o que sucederá com todas essas coisas  
às quais vocês têm se ocupado com tanto esforço; esses mercadores que vieram  
traficar convosco desde a vossa juventude fugirão todos, um para um lado, outro  
para outro, sem que se encontre um só deles que vos tire dos vossos males.(47:  
13 a 15.)  
Nesse capítulo Isaías se dirige aos babilônios sob a figura alegórica da  
virgem filha da Babilônia, filha de caldeus. (Versículo 1.) Ele diz que os  
encantadores não impedirão a ruína de sua monarquia. No capítulo seguinte,  
ele se endereça diretamente aos israelitas.  
157 O Céu e o Inferno  
“Venham aqui, vocês outros, filhos de uma advinha, raça de um homem  
adúltero e de uma mulher prostituída. De quem vocês se divertem? Contra quem  
vocês abriram a boca e lançaram vossas línguas afiadas? Não são vocês os filhos  
pérfidos e bastardos vocês que procuram sua consolação nos seus deuses  
debaixo de todas as árvores carregadas de folhagens, que sacrificam vossos  
filhinhos nas torrentes sob os rochedos avançados? Vocês depositaram vossa  
confiança nas pedras da torrente; vocês derramaram licores para honrá-los e  
ofereceram sacrifícios a eles. Depois disso, minha indignação não se acenderá?”  
(57: 3 a 6.)  
Estas palavras são inequívocas; elas provam claramente que naquele  
tempo as evocações tinham por finalidade a adivinhação, e que delas se fazia  
um comércio; estavam associadas às práticas da magia e da feitiçaria, e até  
mesmo acompanhadas de sacrifícios humanos. Logo, Moisés tinha razão em  
proibir essas coisas, e em afirmar que Deus as tinha como abominação. Essas  
práticas supersticiosas se perpetuaram até a Idade Média, mas hoje a razão  
lhe faz justiça e o Espiritismo veio mostrar o propósito exclusivamente moral,  
consolador e religioso das relações de além-túmulo. Já que os espíritas não  
sacrificam criancinhas nem derramam licores para honrar os deuses”; e já  
que eles não interrogam nem os astros, nem os mortos e nem os augúrios  
para conhecerem o futuro que Deus sabiamente ocultou aos homens; e já que  
eles repudiam todo tráfico da faculdade que alguns receberam de se  
comunicar com os Espíritos; e já que eles não são motivados nem pela mera  
curiosidade e nem pela cupidez, mas sim por um sentimento piedoso e por  
um desejo exclusivo de se instruírem, de se melhorarem e de suavizar as  
almas sofredoras, então a proibição de Moisés não lhes diz respeito de modo  
algum. É o que teriam visto aqueles que a invocam contra os espíritas, se eles  
tivessem mais bem aprofundado o sentido das palavras bíblicas; eles teriam  
reconhecido que não existe qualquer analogia entre o que se passava com os  
hebreus e os princípios do Espiritismo. Muito mais: teriam reconhecido que o  
Espiritismo condena precisamente tudo que motivou a proibição de Moisés;  
mas, cegos pela ânsia de encontrar um argumento contra as ideias novas, eles  
nem sequer perceberam que esse argumento é completamente falso.  
A lei civil de nossos dias pune todos os abusos que Moisés queria  
158 Allan Kardec  
reprimir. Se Moisés pronunciou a pena máxima contra os delinquentes, foi  
porque ele careceu de meios rigorosos para governar aquele povo  
indisciplinado, por isso a pena de morte era prodigalizada na sua legislação.  
De resto, ele não tinha muita escolha nos seus meios de repressão; não havia  
nem prisões nem casas de correção no deserto, e seu povo não era do tipo que  
sofria de medo das penas puramente disciplinares; ele não conseguia graduar  
sua penalidade como se faz hoje em dia. Então, é errado se apoiar na  
severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos  
mortos. Agora, por respeito à lei de Moisés, deveríamos manter a pena capital  
para todos os casos em que ele a aplicava? Por que, a propósito, reviver com  
tanta insistência este artigo, enquanto se passa em silêncio o começo do  
capítulo que proíbe aos sacerdotes possuírem os bens da Terra e de tomar  
parte de qualquer herança, já que o Senhor é a sua própria herança?  
(Deuteronômio, 18: 1 e 2)  
5. Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita,  
promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos  
costumes e ao caráter do povo. A primeira é invariável; a outra se modifica  
segundo as épocas, e não pode passar pela cabeça de ninguém que possamos  
ser governados pelos mesmos dispositivos dos hebreus no deserto, muito  
menos os decretos de Carlos Magno não poderiam ser aplicados à França do  
século dezenove. Quem pensaria, por exemplo, em reviver hoje aquele artigo  
da lei mosaica: “Se um boi ferir com seu chifre um homem ou uma mulher, e a  
pessoa morrer disso, o boi deve ser apedrejado e ninguém deverá comer de  
sua carne; mas o dono do boi será julgado inocente.(Êxodo, 21: 28 e  
seguintes)  
Pois esse artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha por objetivo  
senão o de punir o boi e absolver seu dono; ele equivalia simplesmente à  
confiscação do animal, causa do acidente, para obrigar o proprietário a ter  
mais cuidado. A perda do boi era a punição para o seu dono, punição essa que  
devia ser bem sensível para um povo de pastores, para que não fosse  
necessário lhe infligir outra; mas ela não devia beneficiar ninguém, razão pela  
qual era proibido comer da carne desse boi. Outros artigos estipulam o caso  
159 O Céu e o Inferno  
em que o dono do boi é responsabilizado.  
Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés, pois tudo nela  
estava previsto nos seus mínimos detalhes; mas a forma, assim como o  
fundamento, era conforme às circunstâncias em que se encontrava.  
Certamente, se Moisés voltasse hoje a dar um código para uma nação  
civilizada da Europa, ele não daria aquele código dos hebreus.  
6. A isso, contesta-se que todas as leis de Moisés foram ditadas em nome de  
Deus, assim como aquela do Sinai. Ora, se todas elas são consideradas de  
origem divina, por que os mandamentos estão limitados ao Decálogo? Por que  
então se faz diferença entre elas? Se todas emanam de Deus, todas são  
igualmente obrigatórias. Por que nem todas são observadas? Além disso, por  
que não se conservou a circuncisão à qual Jesus foi submetido e que ele não  
aboliu? Esquece-se que todos os legisladores antigos, para darem mais  
autoridade às suas leis, diziam que as tiraram de uma divindade. Mais do que  
qualquer outro, Moisés carecia desse apoio, em razão do tipo do seu povo. Se,  
apesar disso, ele teve tanta dificuldade em fazer com que o obedecessem, teria  
sido bem pior se ele as tivesse promulgado em seu próprio nome.  
Não é que Jesus veio modificar a lei mosaica, e que a sua lei é o código  
dos cristãos? Não foi ele quem disse: “Vocês ouviram o que foi dito aos  
antigos: tal e tal coisa; mas eu lhes digo tal outra coisa? Porém, ele tocou na  
lei do Sinai? De modo algum! Na verdade, ele a sancionou, e toda a sua  
doutrina moral não é mais do que o desenvolvimento dela. Ora, em nenhum  
momento Jesus fala da proibição de evocar os mortos. Essa era, pois, uma  
questão bastante grave para que ele tivesse omitido nas suas instruções, ao  
passo que ele tratou de questões mais secundárias.  
7. Em resumo, aqui se trata de saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da  
lei evangélica; noutras palavras, se ela é mais judia do que cristã. Também é  
de se notar que, de todas as religiões, a que fez menos oposição ao Espiritismo  
foi a religião judia, e que ela não invocou a lei de Moisés contra as relações  
com os mortos lei sobre a qual se apoiam as seitas cristãs.  
8. Outra contradição: se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é que  
160 Allan Kardec  
esses Espíritos podiam vir, pois do contrário sua proibição teria sido inútil. Se  
os mortos podiam vir no tempo de Moisés, também o podem hoje; se são  
Espíritos de mortos, então não são exclusivamente demônios. Ademais,  
Moisés não fala de modo algum desses últimos.  
Desse modo, é evidente que não podemos nos apoiar logicamente sobre  
a lei de Moisés nessa circunstância, pelo duplo motivo de que ela não rege o  
Cristianismo e nem é apropriada para os costumes da nossa época. Mas,  
mesmo supondo que ela tivesse toda a autoridade que alguns lhe conferem,  
ela não poderia, assim como nós vimos, ser aplicada ao Espiritismo.  
É verdade que Moisés incluiu a interrogação dos mortos na sua  
proibição; contudo, isso é de uma forma secundária, e como acessório das  
práticas da feitiçaria. O próprio termo interrogar, colocado ao lado de  
adivinhos e agoureiros, prova que entre os hebreus as evocações eram um  
meio de adivinhação; ora, os espíritas não evocam os mortos para obter  
revelações ilícitas, mas sim para receber sábios conselhos e procurar alívio  
aos que sofrem. Com certeza, se os hebreus só tivessem se servido das  
comunicações de além-túmulo com essa finalidade, então Moisés, longe de as  
interditar, teria encorajado sua prática, porque elas teriam tornado seu povo  
mais dócil.  
9. Se agradou a alguns críticos brincalhões ou mal-intencionados  
apresentarem as reuniões espíritas como assembleias de feiticeiros e de  
necromantes, e os médiuns como ledores de sorte; se alguns charlatães  
misturam o nome do Espiritismo com práticas ridículas que este desaprova,  
muita gente sabe o que esperar do caráter essencialmente moral e grave das  
reuniões espíritas sérias; a doutrina, escrita para todo mundo, protesta o  
suficiente contra os abusos de todos os gêneros para que a calúnia recaia  
sobre quem a mereça.  
10. A evocação dizem é uma falta de respeito pelos mortos, cujas cinzas  
não devem ser perturbadas. Mas quem disse isso? Os adversários de dois  
campos opostos que se dão as mãos: os incrédulos, que não creem nas  
almas, e aqueles que, crendo nelas, pretendem que as almas não podem vir  
161 O Céu e o Inferno  
e que somente o demônio se manifesta.  
Quando a evocação é feita religiosamente e com recolhimento; quando  
os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um sentimento de  
afeição e simpatia, e com o desejo sincero de se instruir e de se tornar melhor,  
então nós não vemos nisso o que teria de desrespeitoso em chamar as  
pessoas depois de sua morte mais do que enquanto vivas. Entretanto, há  
outra resposta categórica para essa objeção: é que os Espíritos vêm  
livremente, e não a força; que eles vêm até mesmo espontaneamente, sem  
serem chamados; que eles testemunham sua satisfação em se comunicar com  
os homens, e frequentemente se queixam do esquecimento no qual às vezes  
os deixamos. Se a paz deles fosse perturbada ou se eles se incomodassem com  
o nosso chamado, eles diriam isso, ou não viriam. Já que são livres, quando  
eles se manifestam, é porque isso lhes convém.  
11. Alega-se ainda outra razão: As almas permanecem na morada que lhes  
foi designada pela justiça de Deus, isto é, no inferno ou no paraíso”; assim,  
aquelas que estão no inferno não podem sair de lá, embora toda essa  
liberdade seja concedida aos demônios; já as almas que estão no paraíso,  
estas estão todas devotadas à sua beatitude: elas estão muito acima dos  
mortais para se ocuparem com eles e estão felizes demais para voltarem a  
esta terra de misérias e para se interessarem pelos parentes e amigos que  
aqui deixaram. Elas são, portanto, como certos ricos que desviam a vista dos  
pobres, com receio de que isso perturbe sua digestão. Se fosse assim, elas  
seriam pouco dignas da bonança suprema, que seria o prêmio do egoísmo!  
Restam aquelas almas que estão no purgatório; mas estas são sofredoras e  
têm de pensar antes de tudo em sua própria salvação. Então, já que nem estas  
nem aquelas podem vir, é só o diabo que vem no lugar delas. Portanto, se as  
almas não podem vir, então não há por que temer perturbar o repouso delas.  
12. Mas aqui se apresenta outra complicação: se as almas que estão na  
beatitude não podem deixar sua morada afortunada para virem em socorro  
dos mortais, por que a Igreja invoca a assistência dos santos, que, por sua vez,  
devem gozar da maior soma possível de beatitude? Por que ela diz aos fiéis  
162 Allan Kardec  
para invocá-los nas doenças, nas aflições, e para se preservarem dos flagelos?  
Por qual razão segundo a Igreja os santos e a própria Virgem Maria se  
manifestam aos homens e fazem milagres? Então é que estes deixam o céu  
para virem à Terra. Agora, se estes que são os mais altos dos céus podem sair  
de lá, por que aqueles que são menos elevados não o poderiam?  
13. Que os incrédulos neguem a manifestação das almas, isso é  
compreensível, uma vez que eles não acreditam na alma; mas o que é  
estranho é ver aqueles cujas crenças se fundamentam na existência da alma e  
seu futuro teimarem contra os meios de provar que ela existe, esforçando-  
se para demonstrar que isso é impossível. Pareceria natural, ao contrário,  
que aqueles que têm mais interesse na existência da alma pudessem acolher  
com alegria, e como um benefício da Providência, os meios de confundir os  
negadores através de provas irrecusáveis, pois estes são os negadores da  
própria religião. Eles deploram incessantemente a invasão da descrença que  
dizima o rebanho de fiéis, mas quando é apresentado o meio mais poderoso  
de combatê-la, eles o recusam com tanta ou mais obstinação do que os  
próprios descrentes. Depois, quando as provas transbordam a ponto de não  
deixar qualquer dúvida, recorre-se como argumento supremo a  
proibição aqui em questão, e, para justificá-la, procura-se um artigo da lei de  
Moisés no qual ninguém pensara, e na qual querem ver, à toda força, uma  
aplicação que não existe. Acham-se tão felizes com essa descoberta que não  
percebem que esse artigo constitui uma justificativa da doutrina espírita.  
14. Todos os motivos alegados contra as relações com os Espíritos não podem  
resistir a um exame sério; porém, da determinação que está sendo colocada  
nisso, podemos inferir que um grande interesse se liga a essa questão, caso  
contrário, não se daria tanta insistência. Ao ver essa cruzada de todos os  
cultos contra as manifestações espíritas, diríamos que eles estão com medo  
delas. O verdadeiro motivo bem poderia ser o medo de que Espíritos muito  
esclarecidos viessem justamente iluminar os homens sobre pontos que se  
pretende deixar na escuridão, fazendo-lhes conhecer exatamente como que é  
o outro mundo e as verdadeiras condições para lá os homens serem felizes  
163 O Céu e o Inferno  
ou infelizes. Eis por que, da mesma forma que se diz a uma criança: “Não vá  
lá, porque há lobisomens”, agora dizem aos homens: Não chamem os  
Espíritos, pois se trata do diabo.Porém, por mais que se faça, se proíbem aos  
homens de evocar os Espíritos, ninguém impedirá os Espíritos de virem até os  
homens para tirar a lâmpada de debaixo do alqueire.  
O culto que estiver com a verdade absoluta não terá nada a temer da luz,  
pois a luz fará ressaltar a verdade, e o demônio não consegue prevalecer  
contra a verdade.  
15. Repelir as comunicações de além-túmulo é rejeitar o mais poderoso modo  
de instrução que resulta para si mesmo da iniciação à vida futura e dos  
exemplos que essas comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina,  
além disso, o bem que podemos fazer desviando do mal os Espíritos  
imperfeitos, ajudando os que sofrem a se desprenderem da matéria e a se  
melhorarem; interdizer as comunicações significa privar as almas infelizes da  
assistência que podemos e devemos lhes dedicar. As seguintes palavras de um  
determinado Espírito resumem admiravelmente as consequências da  
evocação praticada com uma finalidade caritativa:  
Todo Espírito sofredor e queixoso lhes contará a causa da sua queda, os  
arrastamentos aos quais ele sucumbiu; contará suas esperanças, seus  
combates e terrores; dirá de seus remorsos, suas dores, seus desesperos; ele  
mostrará Deus justamente irritado a punir o culpado com toda a severidade  
da sua justiça. Ao escutá-lo, vocês ficarão movidos de compaixão por ele e a  
temer por vocês mesmos. Acompanhando-o nas suas queixas, vocês verão que  
Deus nunca o perde de vista, esperando o pecador arrependido e lhe  
estendendo os braços tão logo este tente se melhorar. Verão o progresso do  
culpado, para o qual vocês terão a felicidade e a glória de ter contribuído;  
vocês o acompanharão com solicitude, como o cirurgião acompanha a cura da  
ferida de que ele trata diariamente.” (Bordeaux, 1861.)  
Segunda Parte  
EXEMPLOS  
 
165 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO PRIMEIRO  
A PASSAGEM  
1. A confiança na vida futura não exclui as apreensões da passagem desta vida  
para a outra. Muitas pessoas não temem a morte em si mesma; o que elas  
receiam é o momento da transição. Sofremos ou não nessa passagem? é  
isso o que as preocupa, e com muita razão, porque disso ninguém pode  
escapar. Podemos dispensar uma viagem terrestre; mas quanto àquela, ricos e  
pobres devem fazê-la, e se ela for dolorosa, nem a classe social nem a fortuna  
conseguem suavizar a amargura.  
2. Ao vermos a calma de certos falecidos e as terríveis convulsões da agonia  
de alguns outros, já podemos julgar que as sensações nem sempre são as  
mesmas; mas quem pode nos esclarecer a esse respeito? Quem nos  
descreverá o fenômeno fisiológico da separação entre a alma e o corpo? Quem  
nos dirá as impressões desse instante supremo? Sobre tal questão, a ciência e  
a religião ficam mudas.  
E por que elas ficam mudas? Porque falta a ambas o conhecimento das  
leis que regem as relações entre o espírito e a matéria; uma se detém no  
limiar da vida espiritual e a outra se detém no limiar da vida material. O  
Espiritismo é o traço de união entre as duas; só ele pode dizer como a  
transição se opera seja pelas noções mais positivas que ele nos oferece da  
natureza da alma, seja pela descrição dos que deixaram a vida. O  
conhecimento do laço fluídico que une a alma ao corpo é a chave desse  
fenômeno, assim como o de muitos outros.  
3. A matéria inerte é insensível: isso é um fato; só a alma experimenta as  
sensações do prazer e da dor. Durante a vida, toda desagregação da matéria  
 
166 Allan Kardec  
repercute na alma, que com isso recebe uma impressão mais ou menos  
dolorosa. É a alma quem sofre, e não o corpo; este não passa de um  
instrumento da dor: a alma é o paciente. Após a morte, o corpo sendo  
separado da alma, ele pode ser impunemente mutilado, pois ele não sente  
nada; já a alma, estando isolada do corpo, não recebe nenhum dano da  
desorganização corporal: ela tem sensações próprias cuja fonte não está na  
matéria tangível.  
O perispírito é o envoltório fluídico da alma, o qual não se separa dela  
nem antes nem depois da morte, e com a qual ele forma por assim dizer um  
conjunto, pois não se pode conceber o perispírito sem a alma. Durante a vida,  
o fluido perispiritual penetra o corpo em todas as suas partes e serve de  
veículo às sensações físicas da alma; é também por esse intermediário que a  
alma age sobre o corpo e lhe dirige os movimentos.  
4. A extinção da vida orgânica causa a separação entre a alma e o corpo, pela  
ruptura do laço fluídico que os une; mas essa separação jamais é brusca: o  
fluido perispiritual só se desagrega de todos os órgãos pouco a pouco, de  
maneira que a separação não fica completa e absoluta senão quando não resta  
mais um único átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo. A  
sensação dolorosa que a alma experimenta nesse momento é  
proporcional à soma dos pontos de contato que existem entre o corpo e o  
perispírito, e à maior ou menor dificuldade e lentidão que a separação  
apresenta. Portanto, não se pode dissimular que, conforme as circunstâncias,  
a morte pode ser mais ou menos penosa. Essas são as variadas circunstâncias  
que nós vamos examinar.  
5. Coloquemos em primeiro lugar, como princípio, os quatro casos seguintes,  
que podemos considerar como situações extremas, entre as quais há uma  
multiplicidade de nuances: 1º) Se no momento da extinção da vida orgânica o  
desprendimento do perispírito fosse operado completamente, a alma não  
sentiria absolutamente nada; 2º) Se nesse momento a coesão dos dois  
elementos estiver com toda a sua força, produz-se uma espécie de dilaceração  
que reage dolorosamente sobre a alma; 3º) Se a coesão for fraca, a separação  
é fácil e se opera sem abalo; 4º) Se, após a cessação completa da vida orgânica,  
167 O Céu e o Inferno  
ainda houver numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a  
alma poderá ressentir os efeitos da decomposição do corpo até que essa  
ligação seja totalmente rompida.  
Disso resulta que o sofrimento que segue a morte está subordinado à  
força de aderência que une o corpo e o perispírito; que tudo que pode ajudar a  
diminuir essa força e a acelerar a rapidez da desagregação torna a passagem  
menos penosa; enfim, que se o desprendimento for operado sem dificuldade,  
a alma não experimentará nenhuma sensação desagradável.  
6. Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual, produz-se ainda outro  
fenômeno de uma importância capital: o da perturbação. A esse momento, a  
alma experimenta uma dormência que paralisa momentaneamente as suas  
faculdades e neutraliza pelo menos em parte as sensações. Por assim  
dizer, ela fica num estado de catalepsia, de modo que a alma quase nunca  
testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Dizemos quase nunca  
porque existem casos em que a alma pode ter consciência do que se passa —  
tal como veremos em breve. Então, a perturbação pode ser considerada como  
o estado normal no instante da morte; sua duração é indeterminada, variando  
de algumas horas a alguns anos. À medida que se liberta, a alma acha-se na  
situação de um homem que sai de um sono profundo; as ideias são confusas,  
vagas e imprecisas; a pessoa vê como que através de um nevoeiro; pouco a  
pouco a vista se aclara, a memória retorna e então ela se reconhece. Porém,  
esse despertar é bem diverso, conforme os indivíduos; para alguns ele é calmo  
e proporciona uma sensação deliciosa; para outros, é repleto de terror e de  
ansiedade, produzindo o efeito de um terrível pesadelo.  
7. Enfim, o momento do último suspiro não é o mais penoso, porque o mais  
comum é que a alma não tenha consciência de si mesma; porém antes, ela  
sofre pela desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois,  
pelas angústias da perturbação. Apressemo-nos em dizer que esse estado não  
é generalizado; como temos dito, a intensidade e a duração do sofrimento  
correspondem à afinidade existente entre o corpo e o perispírito: quanto  
maior for essa afinidade, mais demorados e penosos são os esforços do  
Espírito para se libertar de seus laços. Todavia, há pessoas nas quais a coesão  
168 Allan Kardec  
é tão fraca que a desagregação se opera naturalmente por si mesma. O  
Espírito se separa do corpo como um fruto maduro se descola do caule; este é  
o caso das mortes calmas e de despertar pacífico.  
8. O estado moral da alma é a causa principal que influi sobre a maior ou a  
menor facilidade de desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito  
está na razão do apego do Espírito à matéria; ela tem seu ápice no homem  
cujas preocupações se concentram totalmente na vida e nos prazeres  
materiais; ela é quase nula naqueles cuja alma depurada está identificada por  
antecipação com a vida espiritual. Posto que a lentidão e a dificuldade da  
separação estão subordinados ao grau de depuração e de desmaterialização  
da alma, depende de cada um tornar essa passagem mais ou menos fácil ou  
penosa, agradável ou dolorosa.  
Estabelecido isso, ao mesmo tempo como teoria e como resultado da  
observação, resta-nos examinar a influência do gênero da morte sobre as  
sensações da alma no derradeiro momento.  
9. Na morte natural, aquela que resulta da extinção das forças vitais pela  
idade ou por uma enfermidade, o desprendimento se opera gradualmente;  
para o homem cuja alma está desmaterializada e cujos pensamentos estão  
desligados das coisas terrenas, o desprendimento fica quase completo antes  
da morte real: o corpo ainda experimenta a vida orgânica, enquanto a alma já  
adentrou na vida espiritual e não se liga mais ao corpo exceto por uma  
conexão tão frágil que pode ser rompido sem dificuldade na última batida do  
coração. Nesta situação, o Espírito pode já ter recuperado a sua lucidez e ser  
testemunha consciente da extinção da vida do corpo, do qual se sente feliz por  
ficar livre; para ele, a perturbação é quase nula, e não passa de um instante de  
sono tranquilo, do qual ele sai com uma indescritível impressão de felicidade  
e de esperança.  
No homem materialista e sensual, aquele que mais viveu para o corpo do  
que para o Espírito, para quem a vida espiritual não significa nada e nem  
mesmo é uma realidade no seu pensamento, tudo contribui para apertar os  
laços que o ligam à matéria; nada veio relaxá-los durante a vida. Nas  
169 O Céu e o Inferno  
proximidades da morte, o desprendimento se realiza também gradualmente,  
só que com esforços contínuos. As convulsões da agonia são o indício da luta  
que o Espírito trava, que às vezes quer romper os laços que lhe resistem, e de  
outras vezes se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arranca  
violentamente, pedaço por pedaço.  
10. O Espírito se apega tanto mais à vida corporal quando ele nada vê além  
dela; ele sente que essa vida está se acabando e deseja retê-la; ao invés de se  
entregar ao movimento que o envolve, ele resiste com todas as suas forças;  
com isso, ele pode prolongar a peleja por dias, semanas e até meses. Sem  
dúvidas, nesse momento o Espírito não possui toda a sua lucidez, pois a  
perturbação há de ter começado muito antes da morte, mas nem por isso ele  
sofre menos, e o vazio em que ele se encontra, a incerteza do que lhe  
acontecerá, aumentam as suas angústias. A morte chega e nem tudo se  
acabou, porque a perturbação continua; ele sente que vive, mas não sabe se é  
a vida material ou a vida espiritual; ele ainda luta, até que as últimas ligações  
do perispírito sejam rompidas. A morte pôs fim à moléstia propriamente dita,  
mas não interrompeu suas consequências; enquanto existirem pontos de  
contato entre o corpo e o perispírito, o Espírito sente suas impressões e sofre  
com elas.  
11. Bem diferente é a situação do Espírito desmaterializado, mesmo nas  
enfermidades mais cruéis. Os laços fluídicos que o unem ao corpo, sendo  
muito frágeis, rompem-se sem qualquer choque; depois, sua confiança no  
futuro que ele já antevê em pensamento algumas vezes até na realidade —  
lhe faz encarar a morte como um livramento e os seus males como uma prova;  
daí vem, para ele, uma calma moral e uma resignação que suaviza o seu  
sofrimento. Após a morte, tendo rompido esses laços no mesmo instante,  
nenhuma reação dolorosa ocorre nele, que ao despertar, se sente livre,  
disposto, aliviado de um grande peso e totalmente feliz por não sofrer mais.  
12. Na morte violenta as condições não são exatamente as mesmas. Nenhuma  
desagregação parcial pôde provocar uma separação prévia entre o corpo e o  
170 Allan Kardec  
perispírito, então a vida orgânica, com toda a sua força, é subitamente  
interrompida; o desprendimento do perispírito só começa após a morte e,  
neste e noutros casos, não pode se efetuar instantaneamente. O Espírito, pego  
de surpresa, fica como que atordoado; mas, percebendo que está pensando,  
acredita que ainda está vivo, e essa ilusão dura até que ele se dê conta da sua  
situação. Esse estado intermediário entre a vida corpórea e a espiritual é um  
dos mais interessantes para se estudar, pois apresenta o curioso espetáculo  
de um Espírito que toma seu corpo fluídico como se fosse seu corpo material,  
e que experimenta todas as sensações da vida orgânica. Isso oferece uma  
variedade infinita de nuances segundo as características, os conhecimentos e  
o grau de avanço moral do Espírito. Essa situação é de curta duração para  
aqueles em quem a alma está depurada, porque neles já havia um  
desprendimento antecipado, cuja morte mesmo a mais repentina não  
fez mais do que apressar o cumprimento; em outros, a situação pode se  
prolongar por anos. Tal estado é muito frequente mesmo nos casos de  
morte comum e, para alguns, nada tem de penoso segundo as qualidades  
do Espírito, enquanto para outros isso é uma situação terrível. É no suicídio  
principalmente que essa situação é mais árdua. Estando o corpo preso ao  
perispírito por todas as suas fibras, todas as convulsões corporais repercutem  
na alma, que então prova atrozes sofrimentos desse estado.  
13. O estado do Espírito no momento da morte pode ser resumido assim:  
Tanto mais o Espírito sofre quanto mais lento for o desprendimento do  
perispírito; a prontidão desse desprendimento está na razão do grau de  
adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado cuja  
consciência é pura, a morte é um sono de alguns instantes, isento de todo  
sofrimento, e do qual o despertar é pleno de suavidade.  
14. Para trabalhar pela sua depuração, reprimir suas más tendências e vencer  
suas paixões, é preciso ver as vantagens no futuro; para se identificar com a  
vida futura, para lá encaminhar suas aspirações e preferi-la à vida terrena,  
não basta somente crer nela, mas compreendê-la; é preciso considerá-la sob  
um aspecto satisfatório à razão, em completo acordo com a lógica, o bom  
171 O Céu e o Inferno  
senso e a ideia que fazemos da grandeza, da bondade e da justiça de Deus.  
Dentre todas as doutrinas filosóficas, o Espiritismo é aquela que exerce, a esse  
respeito, a mais poderosa influência, pela fé inabalável que proporciona.  
O espírita sério não se limita a crer; ele crê porque compreende, e  
compreende porque se dirige ao seu raciocínio; a vida futura é uma realidade  
que se desdobra sem cessar a seus olhos; ele a vê e a toca, por assim dizer, a  
todo instante; a dúvida não consegue penetrar sua alma. A vida corporal, tão  
limitada, apaga-se para ele diante da vida espiritual, que é a verdadeira vida;  
vem daí a pouca importância que ele dá aos incidentes da jornada e a sua  
resignação nas vicissitudes, das quais ele entende a causa e a utilidade. Sua  
alma se eleva pelas relações diretas que ele mantém com o mundo invisível;  
os laços fluídicos que o vinculam à matéria se enfraquecem, e assim se opera  
um primeiro desprendimento parcial que facilita a passagem dessa vida para  
a outra. A perturbação inseparável da transição é de curta duração, pois, tão  
logo é dado o passo, ele se reconhece; nada lhe é estranho e ele se dá conta da  
sua situação.  
15. Seguramente, o Espiritismo não é indispensável para tal resultado e nem  
tem a pretensão de só ele assegurar a salvação da alma; porém ele a facilita,  
pelos conhecimentos que proporciona, pelos sentimentos que inspira e pelas  
condições em que coloca o Espírito, fazendo-lhe compreender a necessidade  
de se melhorar. Além disso, ele dá a cada um os meios de facilitar o  
desprendimento dos outros Espíritos no momento em que eles deixam seu  
envoltório terrestre, abreviando-lhes a duração da perturbação pela prece e  
pela evocação. Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual,  
provoca-se uma desagregação mais rápida do fluido perispiritual; por uma  
evocação conduzida com sabedoria e prudência, e por palavras de  
benevolência e de encorajamento, tira-se o Espírito do entorpecimento em  
que este se acha, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo; se ele estiver  
sofrendo, estimula-o ao arrependimento, que é o único meio de abreviar os  
sofrimentos.77  
77  
Os exemplos que vamos citar apresentam os Espíritos nas diferentes fases da felicidade e da  
infelicidade na vida espiritual. Não fomos procurá-los nas personagens mais ou menos ilustres da  
 
172 Allan Kardec  
Antiguidade, cuja situação pode ter mudado consideravelmente depois da existência da qual os  
conhecemos, e que aliás não ofereceriam provas suficientes de autenticidade. Nós pegamos esses  
exemplos nas circunstâncias mais comuns da vida contemporânea, porque são aquelas em que cada  
pessoa pode encontrar mais similaridades e das quais pode-se tirar as instruções mais proveitosas  
através da comparação. Quanto mais próxima de nós for a existência terrestre dos Espíritos pela  
posição social, pelas relações ou laços de parentesco tanto mais eles nos interessam, e mais fácil é  
constatar a identidade deles. As posições simples são as mais comuns na sua grande maioria, e por isso  
cada qual pode tirar suas aplicações mais facilmente, enquanto as posições excepcionais comovem  
menos porque saem da esfera dos nossos hábitos. Portanto, não foram as personagens ilustres as que  
procuramos; se nesses exemplos se encontram algumas individualidades conhecidas, a sua maior parte  
é completamente anônima. Os nomes retumbantes nada teriam acrescentado à instrução e poderiam  
ferir suscetibilidades. Não nos endereçamos nem aos curiosos nem aos amadores de escândalo, mas sim  
àqueles que seriamente querem se instruir.  
Esses exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito; contudo, forçados a limitar a sua  
quantidade, escolhemos os que pudessem lançar mais luz sobre o estado do mundo espiritual, seja pela  
posição do Espírito, seja pelas explicações que ele fosse capaz de fornecer. A maioria desses exemplos  
são inéditos e só alguns poucos já foram publicados na Revista espírita; destes, suprimimos os detalhes  
supérfluos, não conservando mais do que as partes essenciais à finalidade que aqui nos propusemos,  
adicionando-lhes as instruções complementares que puderam ocasionar posteriormente.  
173 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO II  
ESPÍRITOS FELIZES  
SANSON  
Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris78, falecido em  
21 de abril de 1862, depois de um ano de cruéis sofrimentos. Prevendo o seu  
fim, ele havia endereçado ao presidente da Sociedade uma carta contendo a  
seguinte passagem:  
Em caso de surpresa pela desagregação da minha alma e do meu corpo,  
tenho a honra de lhes recordar um pedido que já lhes fiz há cerca de um ano,  
que é o de evocar o meu Espírito o mais imediatamente possível e sempre que  
julgarem conveniente, a fim de que, como um membro bastante inútil da  
nossa Sociedade durante minha presença na Terra, eu possa servir para  
alguma coisa a ela do além-túmulo, propiciando os meios de, nessas  
evocações, estudar fase por fase as circunstâncias que seguem aquilo que o  
vulgo chama de morte, mas que, para nós espíritas, não passa de uma  
transformação, de acordo com as visões impenetráveis de Deus, porém  
sempre útil ao objetivo a que ele se propõe.  
78  
Referência à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por Allan Kardec em 1 de abril de  
1858 e por ele presidida, mediante sucessivas eleições, até sua desencarnação (em 31 de março de  
1869). Também é citada como “Sociedade de Paris” ou simplesmente “Sociedade”. — N. T.  
     
174 Allan Kardec  
Além dessa autorização e solicitação para me dar a honra dessa espécie  
de autópsia espiritual, que meu pouquíssimo adiantamento como Espírito  
talvez torne estéril, caso em que a vossa sabedoria cuidará naturalmente para  
não os deixar ir além de um certo número de tentativas, ouso lhes pedir  
pessoalmente, assim como a todos meus colegas, que tenham a bondade de  
suplicar ao Todo-Poderoso que permita aos bons Espíritos me auxiliar com  
seus conselhos benevolentes, e que são Luís, nosso presidente espiritual, em  
particular, para me guiar na escolha e no momento de uma reencarnação, pois  
desde já isso me preocupa bastante; eu temo me enganar quanto às minhas  
forças espirituais e pedir a Deus, cedo demais e muito presunçosamente, um  
estado corporal no qual eu não pudesse satisfazer a bondade divina, e que, em  
vez de servir ao meu avanço, eu prolongasse a minha estadia na Terra ou  
alhures, caso eu falhasse.”  
Para satisfazer o desejo dele de ser evocado o mais breve possível após  
seu falecimento, dirigimo-nos ao necrotério com alguns membros da  
Sociedade e, na presença do seu corpo, a ocorrência seguinte se deu uma hora  
antes do enterro. Tínhamos um duplo objetivo ali: o de cumprir um  
derradeiro desejo e o de observar uma vez mais a situação de uma alma no  
momento tão próximo da morte, e tudo isso em um homem eminentemente  
inteligente e esclarecido, além de profundamente convicto das verdades  
espíritas. Queríamos constatar a influência dessas crenças sobre o estado do  
Espírito, a fim de captarmos suas primeiras impressões. E nossa expectativa  
não foi frustrada, pois o Sr. Sanson descreveu com perfeita lucidez o instante  
da transição; ele se viu morrer e se viu renascer circunstância pouco  
comum e que se deve à elevação do seu Espírito.  
I
(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862)  
1. Evocação Eu venho ao teu chamado para cumprir a minha promessa.  
2. Meu caro Sr. Sanson, cumprimos um dever e com prazer de te evocar o  
mais cedo possível depois da tua morte, assim como era teu desejo. —  
Resposta: É uma graça especial de Deus que permite ao meu Espírito poder  
175 O Céu e o Inferno  
se comunicar; agradeço por tua boa vontade, mas estou fraco e tremendo.  
3. Você estava sofrendo tanto que eu acho que podemos te perguntar como  
você se sente agora. Ainda sente aquelas dores? Que sensação experimenta  
comparando tua situação atual com aquela de dois dias atrás? R. Minha  
situação é muito feliz, pois não sinto mais nada das antigas dores; sinto-me  
regenerado e renovado, como se diz entre vocês. A transição da vida terrena  
para a vida dos Espíritos a princípio me deixou totalmente incompreensível,  
porque algumas vezes ficamos vários dias sem recobrar nossa lucidez; mas,  
antes de morrer, eu fiz uma prece a Deus lhe pedindo que me permitisse  
poder falar àqueles de quem eu gosto, e Deus me escutou.  
4. Ao fim de quanto tempo você recuperou a lucidez das tuas ideias? R. Ao  
fim de oito horas. Deus, eu repito, deu-me uma prova de sua bondade,  
julgando-me digno o bastante, e eu jamais poderei lhe agradecer o suficiente.  
5. Tem certeza de não ser mais do nosso mundo? E como pode constatar isso?  
R. Oh, certamente eu não sou mais do vosso mundo, mas sempre estarei  
perto de vocês para lhes proteger e apoiar, para pregar a caridade e a  
abnegação, que foram os guias da minha vida. E mais: ensinarei a verdadeira  
fé, a fé espírita, que deve elevar a crença do justo e do bom; sou forte e muito  
forte, transformado, enfim. Vocês não reconheceriam mais aquele velho  
enfermo que devia esquecer tudo, afastando-se dele todo prazer e toda  
alegria. Eu sou um Espírito; minha pátria é o espaço e o meu futuro é Deus,  
que irradia na imensidão. Gostaria muito de falar com meus filhos, pois eu  
lhes ensinaria aquilo que eles sempre tiveram má vontade em acreditar.  
6. Que efeito causa em ti ter a visão do teu corpo aqui ao lado? R. Meu  
corpo, pobre e mísero despojo, que deve virar pó, mas eu guardo a lembrança  
boa de todos os que me estimaram. Olho essa pobre carne deformada,  
habitação do meu Espírito, provação de tantos anos! Obrigado, meu pobre  
corpo, que depurou meu Espírito, e o meu sofrimento dez vezes santo me deu  
um lugar muito merecido, já que encontro tão depressa a possibilidade de  
falar com vocês.  
7. Você conservou as ideias até o último instante? R. Sim, meu Espírito  
176 Allan Kardec  
conservou suas faculdades; eu não enxergava, mas pressentia; toda a minha  
vida se desdobrou diante da minha memória e meu último pensamento,  
minha derradeira oração foi para que pudesse falar com vocês, como estou  
fazendo agora; depois, pedi a Deus para lhes proteger, a fim de que o sonho da  
minha vida fosse realizado.  
8. Teve consciência do momento em que teu corpo deu o último suspiro? O  
que se passou contigo nesse instante? Que sensação você experimentou? R.  
A vida se extingue e a visão, ou melhor, a visão do Espírito se apaga;  
encontramos o vazio, o desconhecido, e arrastados por não sei qual prestígio,  
nós nos encontramos num mundo em que tudo é alegria e grandeza! Eu não  
sentia mais nada, não percebia nada e, de repente, uma felicidade inefável me  
envolveu; já não estava mais sentido a opressão da dor.  
9. Você tinha conhecimento... (do que me propus a ler no teu túmulo?)  
As primeiras palavras dessa questão mal foram pronunciadas quando o Espírito  
respondeu antes que eu concluísse. E respondeu mais, sem que a pergunta fosse feita,  
sobre uma discussão levantada entre os assistentes, sobre a oportunidade de ler esta  
comunicação no cemitério, por causa das pessoas que poderiam ou não compartilhar  
dessas opiniões.  
R. Oh, meu amigo, eu sei, porque eu te vi ontem e te vejo hoje; minha  
satisfação é grande!... Obrigado, obrigado! Falem, para que todos me  
compreendam e que todos lhes estimem; não temam nada, pois as pessoas  
respeitam a morte; falem, então, a fim de que os incrédulos tenham fé. Adeus;  
falem; coragem, confiança, e que meus filhos possam se converter a uma  
crença venerada!  
J. SANSON  
Durante a cerimônia no cemitério, ele ditou as palavras seguintes:  
Que a morte não os apavore, meus amigos; ela é uma etapa para vocês,  
se souberem viver bem; é uma felicidade, se tiverem merecido dignamente e  
se tiverem cumprido bem suas provações. Eu repito a vocês: coragem e boa  
vontade! Não deem mais do que um valor medíocre aos bens terrenos, e serão  
recompensados. Não se pode gozar muito, sem tirar o bem-estar alheio, e  
177 O Céu e o Inferno  
sem se fazer moralmente um imenso mal. Que a Terra me seja breve!  
II  
(Sociedade Espírita de Paris, 25 de abril de 1862)  
1. Evocação R. Meus amigos, eu estou perto de vocês.  
2. Ficamos muito contentes com a conversa que tivemos contigo no dia do teu  
sepultamento, e, já que assim permite, ficaremos encantados em completá-la,  
em favor de nosso aprendizado. R. Estou inteiramente preparado, feliz por  
pensarem em mim.  
3. Tudo que possa nos esclarecer sobre o estado do mundo invisível e nos  
ajude a compreendê-lo é de grande significado, porque é a ideia falsa que se  
faz disso que na maioria das vezes leva à incredulidade. Então, não fique  
surpreso com as indagações que possamos te endereçar. R. Não ficarei  
espantado, e aguardo suas perguntas.  
4. O amigo descreveu com luminosa clareza a passagem da vida à morte; disse  
que, no momento em que o corpo dá o último suspiro, a vida se extingue e que  
a visão do Espírito se apaga. Esse momento é acompanhado de alguma  
sensação penosa, dolorosa? R. Sem dúvida, pois a vida é uma série contínua  
de dores, e a morte é o complemento de todas elas; daí uma ruptura violenta,  
como se o Espírito tivesse que fazer um esforço sobre-humano para se livrar  
do seu envoltório, e é esse esforço que absorve todo o nosso ser, fazendo-lhe  
perder o conhecimento daquilo em que ele está se tornando.  
Tal caso não é o mais comum. A experiência prova que muitos Espíritos perdem  
a consciência antes de expirar, e que, naqueles que já chegaram a um certo grau de  
desmaterialização, a separação se opera sem esforço.  
5. Sabe se que há Espíritos para os quais esse momento seja mais doloroso?  
Por exemplo, será mais doloroso para o materialista, para aquele que acredita  
que tudo para ele se acaba nesse momento? R. Isso é com certeza, porque o  
Espírito preparado já esqueceu o sofrimento, ou melhor, já se habituou com  
ele, e a tranquilidade com que ele encara a morte o livra de sofrer  
178 Allan Kardec  
duplamente, já que ele sabe aquilo que o espera. A aflição moral é mais forte e  
a sua ausência no instante da morte constitui um alívio muito grande. Aquele  
que não crê se assemelha ao condenado à pena capital e cujo pensamento fica  
imaginando a espada e o desconhecido. Há semelhança entre essa morte e a  
do ateu.  
6. Há materialistas endurecidos o bastante para crer seriamente, nesse  
momento supremo, que vão ser mergulhados no nada? R. Sem dúvidas,  
pois até na hora final há alguns que continuam acreditando no nada; contudo,  
no momento da separação, o Espírito tem um revés profundo: a dúvida se  
apodera dele e o tortura, uma vez que ele se pergunta o que será dele; deseja  
captar alguma coisa, mas não consegue. A separação não pode ser feita sem  
essa impressão.  
Um determinado Espírito nos deu, noutra ocasião, a descrição seguinte do  
paradeiro de um descrente:  
O incrédulo endurecido experimenta nos últimos momentos as angústias  
desses pesadelos terríveis em que se vê à beira de um precipício, prestes a cair  
no abismo; a pessoa faz esforços inúteis para fugir, mas não consegue; ela quer  
se agarrar a qualquer coisa, procurar um ponto de apoio, mas se sente  
escorregando; quer gritar, mas não pode articular nenhum som; é então que se  
vê o moribundo se contorcer, apertar as mãos e soltar gritos abafados sinais  
claros do pesadelo no qual está preso. No pesadelo comum, o despertar te tira  
da inquietação e você se sente feliz ao reconhecer que tudo era só um sonho;  
mas o pesadelo da morte frequentemente se prolonga por um longo tempo, até  
mesmo por anos, além do trespasse, e o que torna a sensação ainda mais penosa  
para o Espírito é a escuridão na qual ele às vezes é mergulhado.”  
7. Disse que no momento de morrer você não viu nada, mas que pressentia.  
Que não via nada corporalmente, isso é compreensível; entretanto, antes que  
a vida se extinguisse, já era possível entrever a claridade do mundo dos  
Espíritos? R. Foi o que eu disse anteriormente: o instante da morte  
proporciona a clarividência ao Espírito; os olhos não veem mais, porém o  
Espírito, que possui uma visão bem mais profunda, instantaneamente  
descobre um mundo desconhecido, e a verdade, aparecendo-lhe de súbito,  
concede embora momentaneamente ou um prazer imenso ou um  
179 O Céu e o Inferno  
sofrimento inexprimível, segundo o estado da sua consciência e da lembrança  
da sua vida passada.  
Trata-se do instante que precede aquele em que o Espírito perde a consciência,  
o que explica o emprego da palavra momentaneamente, pois as mesmas impressões  
agradáveis ou penosas continuam com o despertar.  
8. Teria a bondade de nos dizer, do instante em que teus olhos se abriram  
para a luz, o que te impressionou, o que você viu? Poderia nos descrever, se  
for possível, o aspecto das coisas que se apresentaram para ti? R. Quando  
pude voltar a mim e ver o que tinha perante os olhos, eu fiquei como que  
ofuscado e não me dei conta direito, pois a lucidez não volta imediatamente.  
Mas Deus, que me deu uma prova profunda da sua bondade, permitiu que eu  
recuperasse minhas faculdades. Eu me vi rodeado de numerosos e fiéis  
amigos. Todos os Espíritos protetores que vêm nos assistir, envolvendo-me e  
sorrindo para mim; uma felicidade sem igual os animava e eu mesmo, forte e  
disposto, podia sem esforço me transportar através do espaço. O que eu vi  
não tem nome na linguagem humana.  
Virei depois para lhes falar mais amplamente de todas as minhas  
venturas, mas sem ultrapassar o limite que Deus exige. Saibam que a  
felicidade, tal como entendem entre vocês, é uma ficção. Vivam sabiamente,  
santamente, no espírito de caridade e de amor, e vocês terão preparado para  
si impressões que nem o maior dos poetas seria capaz de descrever.  
Os contos de fadas estão indubitavelmente cheios de coisas absurdas; mas, em  
alguns pontos, não seriam eles a representação do que se passa no mundo dos  
Espíritos? O relato do Sr. Sanson não parece aquele de um homem que, adormecido  
numa pobre e obscura cabana, acorda num palácio esplêndido, em meio a uma corte  
brilhante?  
III  
9. Sob qual aspecto os Espíritos se apresentaram a ti? Sob o da forma  
humana? R. Sim, meu caro amigo; os Espíritos tinham nos ensinado na  
Terra que eles conservam no outro mundo a forma transitória que eles  
possuíam neste mundo, e isso é verdade. Mas quanta diferença entre a  
180 Allan Kardec  
máquina informe que aí se arrasta penosamente com seu cortejo de provas e  
a fluidez maravilhosa do corpo espiritual! A feiura não mais existe, porque os  
traços perderam a rudeza da expressão que forma o caráter distintivo da raça  
humana. Deus beatificou todos esses corpos graciosos, que se movem com  
toda a elegância da forma; a linguagem tem entonações intraduzíveis para  
vocês e o olhar tem a profundeza de uma estrela. Tentem, pelo pensamento,  
imaginar o que Deus pode fazer na sua onipotência, ele, o arquiteto dos  
arquitetos, e vocês terão feito uma vaga ideia da forma dos Espíritos.  
10. Quanto a ti, como você se vê? Percebe em ti uma forma limitada e  
circunscrita, embora fluídica? Você tem uma cabeça, um tronco, braços  
pernas...? R. O Espírito, tendo conservado sua forma humana, mas  
divinizada, idealizada, incontestavelmente tem todos esses membros citados.  
Sinto perfeitamente minhas pernas e meus dedos, pois nós podemos, através  
da nossa vontade, aparecer a vocês e apertar suas mãos. Estou perto de vocês  
e já apertei a mão de todos os meus amigos, sem que eles percebessem; nossa  
fluidez pode estar em toda parte sem obstruir o espaço e nem causar  
qualquer sensação, se esse for o nosso desejo. Neste momento, vocês estão  
com as mãos cruzadas e eu tenho as minhas sobre as suas. Digo-lhes: eu os  
estimo, mas meu corpo não ocupa espaço, a luz o atravessa e o que vocês  
chamariam de milagre, se fosse visível, para o Espírito é a ação contínua de  
todos os instantes.  
A visão dos Espíritos não tem comparação com a visão humana, do  
mesmo modo que seus corpos não têm semelhança real, porque tudo é  
modificado no conjunto e na essência. O Espírito eu repito tem uma  
perspicácia divina que se estende a tudo, posto que ele pode adivinhar até  
mesmo o pensamento de vocês; também pode, a propósito, tomar a forma que  
melhor possa despertar vossas lembranças. Mas, de fato, o Espírito superior  
que concluiu suas provas gosta da forma que pôde conduzi-lo para perto de  
Deus.  
11. Os Espíritos não têm sexo; entretanto, como até poucos dias atrás você  
era homem, em teu novo estado você tem mais da natureza masculina do que  
da natureza feminina? Seria o mesmo caso de um Espírito que tenha deixado  
181 O Céu e o Inferno  
seu corpo já há muito tempo? R. Nós não temos que ser de natureza  
masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou à  
vontade dele, e se, pelos seus desígnios maravilhosos, ele quis que os  
Espíritos reencarnassem na Terra, então teve que acrescentar a reprodução  
das espécies pelo macho e pela fêmea. Porém, vocês sabem disso, sem que  
seja necessária qualquer explicação: os Espíritos não podem ter sexo.  
Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo; os sexos só são necessários para  
a reprodução dos corpos. Como os Espíritos não se reproduzem, os gêneros seriam  
inúteis para eles. A nossa pergunta não tinha como objetivo constatar o fato, mas  
devido à morte recente do Sr. Sanson, nós queríamos saber se nele restava alguma  
impressão do seu estado terrestre. Os Espíritos depurados entendem perfeitamente a  
sua própria natureza, mas entre os Espíritos inferiores, não desmaterializados, há  
muitos que acreditam que ainda estejam na Terra e conservam as mesmas paixões e  
os mesmos desejos; eles ainda se consideram homens ou mulheres, e é por isso que  
alguns disseram que os Espíritos têm sexo. É assim que determinadas contradições  
provêm da posição mais ou menos avançada dos Espíritos que se comunicam; o erro  
não é deles, mas de quem os interroga sem se dar ao trabalho de aprofundar as  
questões.  
12. Que aspecto a nossa sessão tem para ti? Ela é, para tua nova visão,  
conforme parecia quando você estava vivo? As pessoas têm para ti a mesma  
aparência? É tudo tão claro e tão nítido? R. Bem mais claro, pois eu posso  
ler o pensamento de todos e Que maravilha! sou muito feliz pela salutar  
impressão que me causa a boa vontade de todos os Espíritos aqui reunidos.  
Desejo que o mesmo entendimento possa existir não só em Paris, pela reunião  
de todos os grupos, mas também em toda a França, onde os grupos se  
separam e se invejam, dominados por Espíritos desordeiros que se  
comprazem na desordem, ao passo que o Espiritismo deve ser o  
esquecimento completo e absoluto do eu.  
13. Disse que você pode ler o nosso pensamento; poderia nos explicar como  
se opera essa transmissão de pensamento? R. Não é fácil explicar isso; para  
lhes dizer, explicar esse singular prodígio da visão dos Espíritos, seria preciso  
lhes apresentar todo um arsenal de agentes novos, e vocês seriam tão sábios  
como nós o que não é possível, pois as suas faculdades estão restringidas  
182 Allan Kardec  
pela matéria. Paciência! Tornem-se bons e vocês chegarão lá; vocês só  
possuem atualmente aquilo que Deus lhes concede, mas com a esperança de  
progredir continuamente; mais tarde vocês serão como nós. Então, tratem de  
morrer bem para saberem muito. A curiosidade, que é estimulante do homem  
pensador, lhes conduz tranquilamente até a morte, reservando-lhes a  
satisfação de todas as suas curiosidades passadas, presentes e futuras.  
Enquanto esperam, eu lhes direi, para responder o melhor possível à sua  
pergunta: o ar que os envolve, impalpável como nós, carrega o caráter do seu  
pensamento; o sopro que vocês exalam é, por assim dizer, a página escrita dos  
seus pensamentos; elas são lidas e comentadas pelos Espíritos que os  
rodeiam sem cessar; eles são os mensageiros de uma telegrafia divina à qual  
nada escapa.  
A morte do justo  
Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de  
Paris, um Espírito deu, sob este título, a comunicação seguinte:  
A morte desse homem com quem vocês estão se ocupando neste  
momento foi a de um justo, ou seja, ela foi acompanhada de calma e de  
esperança. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espírita sucedeu  
para ele à vida terrestre, sem choques, sem abalos, e o seu último suspiro  
exalou-se num hino de reconhecimento e de amor. Quão poucos atravessam  
assim essa rude passagem! Quão poucos, após a embriaguez e o desespero da  
vida, concebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem bem  
saudável, mutilado por uma bala, continua sofrendo dos membros de que ele  
é separado, também a alma do homem que morre sem fé e sem esperança se  
despedaça e palpita ao escapar do corpo, lançando-se no espaço, inconsciente  
de si mesma.  
Orem por essas almas perturbadas; orem por todos aqueles que sofrem;  
a caridade não se restringe à humanidade visível: ela também socorre e  
consola os seres que povoam o Espaço. Vocês tiveram a prova concreta disto  
através da súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas feitas  
sobre a tumba desse homem de bem, que vocês devem interrogar, e que  
183 O Céu e o Inferno  
deseja lhes fazer progredir no santo caminho.79 O amor não tem limites; ele  
preenche o espaço, dando e recebendo mutuamente suas divinas consolações.  
O mar se desdobra numa perspectiva infinita; seu limite derradeiro parece  
fundir-se com o céu, e o Espírito fica deslumbrado pelo magnífico espetáculo  
dessas duas grandezas. Assim, o amor mais profundo do que as ondas, mais  
infinito do que o espaço deve reunir todos vocês, viventes e Espíritos, na  
mesma comunhão de caridade, e operar a admirável fusão daquilo que é finito  
e do que é eterno.  
GEORGES  
JOBARD  
(Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas; nascido em Baissey [Haute-Marne] e  
falecido em Bruxelas, de um ataque de apoplexia fulminante, em 27 de outubro de  
1861, com a idade de 69 anos)  
I
O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris.  
Pretendíamos evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando ele se antecipou  
a esse desejo, dando-nos espontaneamente esta comunicação a seguir:  
Eis-me aqui, eu a quem vocês iam evocar e que quer se manifestar  
primeiro a este médium, que em vão eu tinha solicitado até agora.  
Quero inicialmente lhes contar minhas impressões no momento da  
separação da minha alma: eu senti um abalo indescritível e me lembrei  
instantaneamente do meu nascimento, da minha juventude, da minha idade  
madura; toda a minha vida foi retratada nitidamente na minha memória. Eu  
não senti mais do que um piedoso desejo de me achar nas regiões reveladas  
pela nossa querida crença. Depois, todo esse tumulto se pacificou. Eu estava  
livre e meu corpo jazia inerte. Ah, meus caros amigos, que emoção é livrar-se  
do peso do corpo! Que emoção é abranger o espaço! Entretanto, não creiam  
que foi de repente que eu tenha me tornado um eleito do Senhor; não, eu  
79  
Alusão ao Espírito de Bernard, que se manifestou espontaneamente no dia das exéquias do Sr.  
Sanson. (Ver a Revista Espírita de maio de 1862: ‘Exéquias do Sr. Sanson’)  
   
184 Allan Kardec  
estou entre os Espíritos que, tendo aprendido um pouco, ainda têm muito o  
que aprender. Não tardou para que me lembrasse de vocês, meus irmãos de  
exílio, e lhes asseguro, toda a minha simpatia, todos os meus votos  
envolveram vocês.  
Querem saber quais foram os Espíritos que me receberam? Quais foram  
minhas impressões? Meus amigos eram todos aqueles que nós evocamos,  
todos os irmãos que compartilharam dos nossos trabalhos. Eu vi o esplendor,  
mas não posso descrevê-lo. Apliquei-me a discernir o que era verdadeiro nas  
comunicações, pronto para corrigir todas as asserções errôneas; pronto,  
enfim, para ser o cavaleiro da verdade no outro mundo, tal como havia sido  
no mundo de vocês.  
JOBARD  
1. Quando era vivo, o amigo nos pediu para evocá-lo assim que tivesse  
deixado a Terra; nós o fazemos, não só para realizar o teu desejo, mas  
sobretudo para renovar o testemunho a nossa sincera e muito viva simpatia  
por ti, além do interesse pela nossa instrução, pois você, melhor do que  
qualquer outro, pode nos dar ensinamentos precisos sobre o mundo em que  
se encontra. Desse modo, ficaremos contentes caso te agrade responder às  
nossas perguntas. R. Nessa hora, o que mais importa é o aprendizado de  
vocês. Quanto à sua simpatia, eu a vejo e a percebo sua expressão não só pelos  
ouvidos o que já constitui um grande progresso.  
2. Para fixarmos nossas ideias e não divagarmos, primeiro te perguntaremos  
em que lugar você está posicionado aqui e como te veríamos, se pudéssemos  
vê-lo? R. Estou perto do médium, e vocês me veria sob a aparência do Jobard  
que se sentava à sua mesa, conquanto os seus olhos mortais ainda fechados  
não podem ver os Espíritos senão sob a sua aparência mortal.  
3. O amigo teria a possibilidade de se tornar visível para nós? E se assim não  
puder, o que o impediria? R. A disposição que lhes é pessoal. Um médium  
vidente me veria, mas os outros não.  
4. Esse lugar é aquele que você ocupava quando estava vivo, de onde assistia  
às nossas sessões, e que nós te reservamos. Então, aqueles que te viram aqui  
185 O Céu e o Inferno  
devem imaginar te ver agora tal como era antes. Se já não está mais com o  
corpo material, está com o corpo fluídico que tem aquela mesma forma; se  
não te vemos com os olhos do corpo, vemos com os olhos do pensamento; se  
você não pode se comunicar pela palavra, pode fazê-lo pela escrita, com a  
ajuda de um intérprete. Portanto, nossas relações contigo não estão de modo  
algum interrompidas com a tua morte, e podemos conversar contigo tão fácil  
e tão completamente como outrora. É assim mesmo que são as coisas? R.  
Sim, e vocês sabem disso há muito tempo. Eu ocuparei este lugar com  
frequência, e mesmo que vocês não me percebam, porque o meu Espírito  
habitará entre vocês.  
Chamamos a atenção para esta última frase: O meu Espírito habitará entre  
vocês.” Nas circunstâncias atuais, isto não é só uma figura de linguagem, mas uma  
realidade. Pelo conhecimento que o Espiritismo nos dá sobre a natureza dos Espíritos,  
sabemos que um desencarnado pode estar entre nós não somente pelo pensamento,  
mas sim em pessoa, com o auxílio do seu corpo etéreo, que o torna uma  
individualidade específica. Por isso, um Espírito pode habitar entre nós depois da  
morte tanto quanto enquanto vivia no corpo, e melhor ainda, uma vez que ele pode ir  
e vir quando bem queira. Temos assim uma multidão de comensais invisíveis, uns  
indiferentes e outros que são atraídos por nossa afeição; é a estes últimos  
principalmente que se aplica esse ditado: “Eles habitam entre nós”, que pode ser  
interpretado assim: Eles nos assistem, nos inspiram e nos protegem.  
5. Não faz muito tempo que você estava sentado neste mesmo lugar; as  
condições nas quais se encontra agora te parecem estranhas? Que efeito essa  
mudança produziu em ti? R. Estas condições não me parecem estranhas,  
pois meu Espírito desencarnado desfruta de uma nitidez que não deixa na  
sombra nenhuma das questões que ele encara.  
6. Lembra-se de ter estado nessas mesmas condições antes da tua última  
existência, e percebe que alguma coisa teria mudado? R. Eu me lembro das  
minhas existências precedentes e percebo que melhorei. Eu vejo e assimilo  
aquilo que estou vendo, enquanto nas minhas precedentes encarnações, como  
Espírito perturbado, eu não percebia mais do que as faltas terrenas.  
7. Recorda-se da tua penúltima existência, aquela que precedeu o Sr. Jobard?  
186 Allan Kardec  
R. Na minha penúltima existência eu fui um operário mecânico,  
atormentado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar o meu trabalho. Como  
Jobard, realizei os sonhos do pobre operário, e louvo a Deus cuja bondade  
infinita fez germinar a semente que ele havia depositado em meu cérebro.  
8. Já se comunicou em outro lugar? R. Pouco tenho me comunicado ainda;  
em muitos lugares um Espírito tomou o meu nome; algumas vezes eu estava  
perto dele, sem poder me comunicar diretamente; minha morte é tão recente  
que eu ainda compartilho de certas influências terrestres. É preciso uma  
perfeita simpatia para que eu possa exprimir meu pensamento. Em pouco  
tempo, poderei agir indistintamente; mas, repito, não o posso ainda. Quando  
um homem um tanto conhecido morre, ele é chamado em toda parte; então,  
mil Espíritos se apressam de imitar sua individualidade; foi o que aconteceu  
comigo em muitas circunstâncias. Asseguro a vocês que tão logo após o  
desprendimento, poucos Espíritos podem se comunicar, mesmo a um médium  
de sua preferência.  
9. Consegue ver os Espíritos que estão aqui conosco? R. Eu vejo, sobretudo  
Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de verdade planando no  
espaço, mais uma multidão de Espíritos amigos que rodeiam vocês, zelosos e  
benevolentes. Sejam felizes, amigos, pois as boas influências os protegem das  
calamidades do erro.  
10. Enquanto vivo, o amigo compartilhava da opinião emitida sobre a  
formação da Terra pela incrustação de quatro planetas que teriam sido  
fundidos conjuntamente. Ainda conserva essa mesma crença? R. Isso é um  
erro. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da Terra e sua  
formação sucessiva. A Terra, como os outros planetas, teve sua vida própria, e  
Deus não precisou dessa grande desordem ou dessa agregação de planetas. A  
água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra.  
11. Achava também que os homens poderiam entrar em catalepsia por um  
tempo ilimitado, e que o gênero humano tivesse sido trazido à Terra dessa  
forma... R. Ilusão da minha imaginação, que ultrapassava sempre o objetivo.  
A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada. Tradições, lendas  
187 O Céu e o Inferno  
exageradas pela imaginação oriental. Meus amigos, já sofri bastante  
repassando as ilusões com as quais alimentava meu espírito: não se enganem  
com elas. Muito tenho aprendido e posso hoje dizer a vocês que a minha  
inteligência, pronta para absorver esses vastos e diversos estudos, havia  
guardado da minha precedente encarnação o amor pelo maravilhoso e pela  
composição extraída das imaginações populares.  
Pouco ainda tenho me ocupado com as questões puramente intelectuais,  
no sentido em que vocês as consideram. Como poderia eu, deslumbrado e  
arrebatado como estou agora pelo maravilhoso espetáculo que me envolve?  
Só o contato com o Espiritismo mais poderoso do que vocês, como  
humanos, poderiam imaginar é capaz de atrair meu ser a esta Terra que  
deixo, não com prazer, pois isso seria uma impiedade, mas com a profunda  
gratidão pela libertação.  
Durante uma campanha aberta pela Sociedade em favor dos operários de Lyon,  
em fevereiro de 1862, um determinado membro doou 50 francos, sendo 25 de si  
mesmo e 25 em nome do Sr. Jobard. A respeito disso, este último então deu a  
comunicação seguinte:  
Fiquei lisonjeado e grato por não ter sido esquecido pelos meus irmãos  
espíritas. Agradeço ao coração generoso que lhes trouxe a oferta que eu teria  
dado se ainda habitasse este vosso orbe. No mundo em que eu vivo agora não  
temos necessidade de dinheiro; então, precisei recorrer à bolsa da amizade  
para dar provas materiais de que eu estava comovido pelo infortúnio dos  
meus irmãos de Lyon. Bravos trabalhadores, que cultivam com ardor a vinha  
do Senhor, como vocês devem acreditar que a caridade não é uma palavra vã,  
pois os pequenos e os grandes lhes têm demonstrado simpatia e fraternidade.  
Vocês fazem parte na grande via humanitária do progresso; possa Deus  
mantê-los nela, e que vocês possam ser mais felizes. Os Espíritos amigos os  
sustentarão e então vocês triunfarão!  
Estou começando a viver espiritualmente, mais sereno e menos  
perturbado pelas evocações que choviam sobre mim de todo lado. A moda  
reina até sobre os Espíritos; quando a moda Jobard der lugar a outra e eu  
tiver caído no esquecimento humano, então rogarei aos meus amigos sérios  
e eu entendo por sérios aqueles que não se esqueceram da inteligência —  
188 Allan Kardec  
que me evoquem; com isso, aprofundaremos as questões que foram tratadas  
de forma muito superficial, e o seu Jobard, completamente transfigurado,  
poderá ser útil para vocês, tal como ele deseja de todo o coração.  
JOBARD  
Após os primeiros tempos dedicados a tranquilizar os seus amigos, o Sr.  
Jobard tomou lugar entre os Espíritos que trabalham ativamente pela  
renovação social, esperando o seu próximo retorno entre os vivos, para aí  
participar mais diretamente. Desde essa época, com frequência ele tem dado à  
Sociedade de Paris da qual ele continua membro comunicações de uma  
incontestável superioridade, sem se afastar da originalidade e do espirituoso  
bom humor que formavam a base do seu caráter, fazendo-o ser reconhecido  
antes mesmo que ele dê sua assinatura.  
SAMUEL PHILIPPE  
Samuel Philippe era um homem de bem em toda a acepção da palavra;  
ninguém se lembrava de tê-lo visto cometer uma má ação nem ter feito mal  
voluntariamente contra quem quer que seja. De um devotamento sem limite  
por seus amigos, era certo que sempre o encontraríamos pronto quando se  
precisasse dos seus serviços, mesmo que isso fosse às custas dos seus  
próprios interesses. Dores, fadigas, sacrifícios, nada lhe custava para ser útil, e  
ele o fazia naturalmente, sem afetação, admirando-se de que pudéssemos lhe  
atribuir algum mérito por isso. Jamais desejou o mal àqueles que lhe fizeram  
algum mal, e se propunha a lhes atender tão rapidamente como se eles lhe  
tivessem feito um bem. Quando tinha que lidar com os ingratos, dizia: Não  
sou eu quem deve ser lastimado, mas sim eles.” Embora muito inteligente e  
dotado de um espírito bastante natural, sua vida anônima, repleta de labor,  
tinha sido obscura e semeada de duras provações. Foi uma dessas naturezas  
da elite que florescem nas sombras, das quais o mundo não fala nada e cujo  
brilho não refletiu sobre a Terra. Pelo conhecimento do Espiritismo, ele  
adquirira uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para os  
males da vida terrestre. Faleceu em dezembro de 1862, com a idade de  
 
189 O Céu e o Inferno  
cinquenta anos, por consequência de uma dolorosa doença, sensibilizando  
sinceramente sua família e alguns amigos. Ele foi evocado vários meses após  
sua morte.  
Pergunta: Tem uma lembrança nítida dos teus últimos instantes na  
Terra? Resposta. Perfeitamente; essa lembrança me veio pouco a pouco,  
pois naquele momento as minhas ideias eram ainda confusas.  
P: Para a nossa instrução e pelo interesse que a tua vida exemplar nos  
inspira, poderia nos descrever como se efetuou a tua passagem da vida  
corporal para a vida espiritual, assim como tua situação no mundo dos  
Espíritos? R. De boa vontade; este relato não será útil somente para vocês,  
mas também para mim. Ao reportar meus pensamentos para a Terra, a  
comparação me faz apreciar melhor ainda a bondade do Criador.  
Vocês sabem com quantas tribulações a minha vida foi semeada, mas  
nunca me faltou coragem na adversidade, graças a Deus! E hoje eu me felicito  
por isso. Quantas coisas eu teria perdido se tivesse cedido ao desânimo!  
Estremeço só de pensar que, no caso do meu fracasso, tudo aquilo que sofri  
teria sido sem proveito e deveria ser recomeçado. Oh, meus amigos, estejam  
bem convencidos dessa verdade! Nela está a vossa felicidade futura.  
Certamente, não é caro demais comprar essa felicidade pagando só com  
alguns anos de sofrimento! Ah, se vocês soubessem o quanto é pouco o valor  
de alguns anos em comparação com o infinito!  
Se a minha derradeira existência teve algum mérito aos seus olhos, vocês  
não diriam o mesmo das que a precederam. Não foi senão pelo esforço do  
trabalho sobre mim mesmo que me tornei o que sou agora. Para apagar os  
últimos traços das minhas faltas anteriores, faltava-me ainda sofrer essas  
derradeiras provas que eu voluntariamente aceitei. Tirei na firmeza das  
minhas resoluções a força para suportá-las sem reclamar. Hoje eu bendigo  
essas provações; graças a elas eu rompi com o passado, que para mim já não é  
mais do que uma recordação, e doravante eu posso contemplar com uma  
legítima satisfação o caminho que percorri.  
Oh, vocês que me fizeram penar na Terra, que foram duros e malévolos  
comigo, que me humilharam e me cobriram de amargura, cuja má-fé tantas  
190 Allan Kardec  
vezes me levou às mais duras privações: não somente eu os perdoo, mas até  
lhes agradeço. Pretendendo me fazer mal, vocês nem imaginavam que me  
faziam tanto bem. É verdade, pois, que em grande parte é a vocês que eu devo  
a felicidade de que desfruto, porque vocês me forneceram a ocasião para  
perdoar e pagar o mal com o bem. Deus os colocou na minha estrada para  
provar minha paciência e me exercitar na prática da caridade mais difícil: a de  
amar os próprios inimigos.  
Não se impacientem com essa divagação; chegarei ao que me perguntam.  
Conquanto estivesse sofrendo cruelmente na minha derradeira moléstia,  
não tive nenhuma agonia; a morte veio para mim como um sono, sem luta e  
sem abalos. Não tendo apreensão pelo futuro, eu não me apeguei à vida e,  
consequentemente, não tive que me debater nos últimos enlaces; a separação  
se efetuou sem esforço, sem dor e sem que eu me apercebesse disso.  
Ignoro quanto tempo durou o sono final, mas ele foi curto. O despertar  
foi de uma serenidade que contrastava com meu estado precedente; não  
sentia mais dores e dele me regozijava; queria me levantar, caminhar, porém  
uma dormência que não era nada desagradável, que tinha até mesmo um  
certo encanto me deteve, e me entreguei a essa dormência com uma  
espécie de volúpia, sem me dar conta da minha situação e sem suspeitar de  
que já havia deixado a Terra. O que me envolvia parecia como num sonho.  
Então vi minha esposa e alguns amigos ajoelhados no meu quarto, chorando, e  
me convenci de que por certo eles achavam que eu estava morto. Eu queria  
desiludi-los, mas não pude articular nenhuma palavra, razão pela qual conclui  
que eu estava sonhando. O que alimentou essa minha ideia foi que eu me vi  
cercado de várias pessoas queridas, falecidas há muito tempo, e outras que eu  
não reconheci a princípio, mas que pareciam cuidar de mim, esperando meu  
despertar.  
Esse estado foi intercalado com instantes de lucidez e de sonolência,  
durante os quais alternadamente eu recobrava e perdia a consciência do meu  
eu. Pouco a pouco minhas ideias adquiriam mais nitidez; a luz que eu entrevia  
por entre um nevoeiro se fazia mais brilhante; então comecei a me reconhecer  
e compreendi que não pertencia mais ao mundo terrestre. Se eu não tivesse  
conhecido o Espiritismo, sem dúvidas a ilusão teria se prolongado por muito  
191 O Céu e o Inferno  
mais tempo.  
Meus despojos mortais ainda não tinham sido enterrados; eu olhei para  
eles com piedade, felicitando-me por estar finalmente desembaraçado deles.  
Fiquei tão feliz por estar livre! Respirava com facilidade como quem sai de  
uma atmosfera nauseante; uma indizível sensação de bem-estar penetrava  
todo o meu ser; a presença daqueles que eu amava me cobria de alegria; não  
fiquei nem um pouco espantado ao vê-los, pois isso me parecia tão natural,  
como se os revesse depois de uma longa viagem. Uma coisa me surpreendeu a  
princípio: nós nos compreendíamos sem articular uma palavra; nossos  
pensamentos eram transmitidos apenas pelo olhar e como que por uma  
penetração fluídica.  
Entretanto, eu não estava completamente livre das ideias terrenas; a  
recordação do que eu tinha enfrentado voltava de vez em quando à memória,  
como que para me fazer apreciar melhor a minha nova situação. Eu havia  
sofrido corporalmente, mas sobretudo moralmente; tinha sido exposto à  
malevolência, a essas mil perplexidades talvez mais penosas do que as  
desgraças reais, porque elas causam uma perpétua ansiedade. A impressão  
delas não estava inteiramente apagada e às vezes eu me interrogava se de fato  
eu havia me desprendido delas; parecia ainda que eu escutava algumas vozes  
desagradáveis; eu temia as amarras que tantas vezes me atormentara, e  
tremia sem querer; eu me tateava, por assim dizer, para me assegurar de que  
não estava sonhando; e quando obtive a certeza de que tudo aquilo tinha  
terminado, pareceu-me que um peso enorme tinha sido tirado de mim. Então  
é verdade, eu dizia a mim mesmo, que enfim me libertei de todas aquelas  
preocupações que formam o tormento da vida; então rendi graças a Deus! Eu  
era como um pobre a quem de repente coube uma grande fortuna; durante  
algum tempo, duvida-se da realidade, ressentindo as apreensões da  
necessidade. Ah, se os homens compreendessem a vida futura! Quanta força,  
quanta coragem essa convicção não lhes daria na adversidade! O que eles não  
fariam, enquanto estão na Terra, para garantir a bonança que Deus reserva  
àqueles dentre seus filhos que foram dóceis às suas leis! Eles veriam quão  
pouco valem os prazeres que eles invejavam em face dos prazeres que eles  
negligenciam!  
192 Allan Kardec  
P. Esse mundo tão novo para ti, e perto do qual o nosso vale tão pouco e  
os numerosos amigos que nele você reencontrou te fizeram esquecer tua  
família e teus amigos na Terra? R. Se eu tivesse esquecido deles eu seria  
indigno da felicidade de que desfruto. Deus não recompensa o egoísmo; ele o  
pune. O mundo onde vivo pode me fazer desdenhar a Terra, mas não os  
Espíritos que aí estão encarnados. Somente entre os homens é que se vê a  
prosperidade fazer esquecer os companheiros de infortúnio. Eu vou muitas  
vezes rever os meus companheiros; sinto-me feliz pela boa recordação que  
eles guardaram de mim; seu pensamento me atrai para eles; eu assisto às suas  
conversas, alegro-me com suas alegrias, entristeço-me com suas tristezas;  
mas não é aquela tristeza ansiosa da vida humana, uma vez que compreendo  
que elas não são mais do que passageiras e são para o próprio bem deles. Fico  
feliz ao pensar que um dia eles virão para esta mansão afortunada, onde não  
experimentamos dor. É para torná-los dignos dela que me dedico; eu me  
esforço para lhes sugerir bons pensamentos e especialmente a resignação que  
eu mesmo tive perante a vontade de Deus. O meu grande pesar é quando os  
vejo retardar esse momento por falta de coragem, por seus murmúrios, pela  
dúvida quanto ao futuro, ou por qualquer ação repreensível. Então, procuro  
desviá-los do mau caminho; quando consigo, é uma enorme felicidade para  
mim, e todos nós nos regozijamos aqui; quando falho, digo a mim mesmo com  
pesar: Mais um retardo para eles; mas me consolo pensando que nem tudo  
está perdido e sem retorno.  
VAN DURST  
(Antigo funcionário, falecido em Antuérpia, em 1863, aos oitenta anos de idade)  
Pouco tempo após sua morte, tendo um médium perguntado ao seu guia  
espiritual se ele poderia ser evocado, foi-lhe respondido: “Este Espírito está  
saindo lentamente da sua perturbação; ele já poderia te responder, mas a  
comunicação lhe custaria muito mais dor. Peço-te então que espere mais  
quatro dias, e ele te atenderá. Daqui até lá, ele já saberá das boas intenções  
que você tiver expressado a seu respeito, e ele virá até você agradecido e  
como bom amigo.”  
 
193 O Céu e o Inferno  
Quatro dias mais tarde o Espírito ditou o que segue:  
Meu amigo, minha vida foi bem pouco pesada na balança da eternidade;  
no entanto, estou longe de ser infeliz: estou na condição humilde, mas  
relativamente feliz por ter praticado poucos erros, sem por isso visar à  
perfeição. Se houver pessoas felizes numa pequena esfera, ah, então eu sou  
uma delas. Só lamento uma coisa: não ter conhecido o que hoje vocês já  
sabem; minha perturbação teria sido menos longa e menos penosa. Com  
efeito, ela foi grande: viver e não viver, ver seu corpo e estar fortemente  
ligado a ele, mas sem poder se servir dele; ver aqueles a quem amei e sentir  
apagar-se o pensamento que nos liga a eles, oh que terrível! Que momento  
cruel! Que momento, quando o aturdimento te envolve e te estrangula! E,  
instantes depois, trevas! Sentir, e um momento depois, estar aniquilado! A  
pessoa quer ter a consciência do seu eu, mas não a pode recuperar; ela não  
existe mais e, de repente, ela sente que existe, só que em uma perturbação  
profunda! E depois, passado um tempo incalculável, tempo de angústias  
contidas, pois não tem mais a força para senti-las, após esse tempo que parece  
interminável, renasce lentamente para a existência; desperta-se num novo  
mundo! Não mais corpo material, não mais vida terrestre: vida imortal! Chega  
de homens carnais, mas sim formas leves, Espíritos que deslizam de todos os  
lados, rodeando em torno de ti e que você não pode se dar conta de todos,  
pois é no infinito que eles flutuam! Ter diante de si o espaço e poder cruzá-lo  
à vontade! Comunicar-se pelo pensamento com tudo que te envolve! Amigo,  
que vida nova! Que vida resplandecente! Que vida de satisfações!... Oh, salve,  
salve a eternidade que me recebe em seu seio!... Adeus, Terra que por tanto  
tempo me reteve longe do elemento natural da minha alma! Não, eu não iria  
mais te querer, porque você é um lugar de exílio e a tua maior felicidade não  
significa nada!  
Porém, se eu soubesse o que vocês sabem, como essa iniciação à outra  
vida teria sido para mim mais fácil e mais agradável! Eu teria sabido antes de  
morrer o que tive que aprender mais tarde, no momento da separação, e  
então minha alma teria se desprendido mais facilmente. Vocês estão no  
caminho, mas jamais, jamais mesmo vocês irão longe o bastante! Digam ao  
meu filho, mas digam muitas vezes, para que ele acredite e se instrua; daí,  
194 Allan Kardec  
quando ele chegar aqui, não nos separaremos mais.  
Adeus a todos, amigos, adeus! Eu espero por vocês, e durante o tempo  
em que estiverem na Terra, eu virei muitas vezes instruir-me perto de vocês,  
pois eu ainda não sei tanto quanto muitos dentre vocês. Mas aprenderei  
rápido aqui, onde não tenho mais os entraves que me barravam, e onde não  
tenha mais a idade que enfraquece minhas forças. Aqui nós vivemos  
intensamente e avançamos, uma vez que temos diante de nós horizontes tão  
belos que ficamos impacientes para abraçá-los.  
Adeus, eu os deixo; adeus!  
VAN DURST  
SIXDENIERS  
Homem de bem, morto em acidente e conhecido do médium, de quando encarnado)  
(Bordeaux, 11 de fevereiro de 1861)  
P. Poderia nos dar alguns detalhes sobre a tua morte? R. De depois de  
afogado, sim. P. E por que não de antes? R. Vocês sabem o porquê. (De fato,  
o médium o conhecia.) P. Teria a bondade de descrever para mim as tuas  
sensações após a morte? R. Passei longo tempo antes de me reconhecer, mas  
com a graça de Deus e o auxílio dos que me cercavam, quando a luz se fez, eu  
estava inundado. Pode esperar e você sempre encontrará mais do que espera.  
Nada de material; tudo impressiona os sentidos ocultos: aquilo que nem o  
olho nem a mão pode tocar, compreende? É uma admiração espiritual que  
ultrapassa o teu entendimento, porque não há palavras para explicar: só a  
alma pode senti-la.  
Meu despertar foi bem agradável. A vida é um desses sonhos que,  
malgrado a ideia grotesca que damos a essa palavra, não a posso qualificar  
senão como um apavorante pesadelo. Imagine que você foi trancado num  
calabouço infecto e que teu corpo é corroído pelos vermes que penetra até a  
medula dos ossos, ficando suspenso sobre uma fornalha ardente; que a tua  
boca ressequida não encontra sequer o ar para refrescá-la; que o teu Espírito  
horrorizado não vê ao teu redor nada além de monstros prestes a te devorar;  
imagine, enfim, tudo de fantástico que um sonho pode criar de mais hediondo,  
 
195 O Céu e o Inferno  
de mais horripilante, e que de repente você se ache transportado para um  
Éden delicioso. Então você acorda cercado de todos aqueles que amou e por  
quem você chorou, vendo em torno de ti seus semblantes adorados a sorrirem  
de felicidade por você; respire os perfumes mais suaves, refresca tua garganta  
ressequida na fonte de água viva; sinta teu corpo elevado no espaço infinito  
que o carrega e o embala como faz a brisa de uma flor desprendida do cimo de  
uma árvore; sinta-se envolvido pelo amor de Deus igual o recém-nascido é  
envolvido pelo amor de sua mãe, e mesmo assim você não terá mais do que  
uma ideia imperfeita dessa transição. Procurei te explicar a ventura da vida  
que aguarda o homem depois da morte do corpo, mas não o pude. Seria  
possível explicar o infinito àquele que tem os olhos fechados para a luz e cujos  
membros jamais puderam sair do círculo estreito em que eles se acham  
presos? Para te explicar a felicidade eterna, eu te direi: ame! Pois só o amor  
pode fazer pressenti-lo, e quem diz amor diz ausência de egoísmo.  
P. Tua posição foi feliz desde tua entrada no mundo dos Espíritos? R. Não;  
tive que pagar a dívida do homem. Meu coração me havia feito pressentir o  
futuro como Espírito, mas eu não tinha fé. Precisei expiar minha indiferença  
para com meu Criador, mas a sua misericórdia me levou em conta o pouco de  
bondade que eu pude fazer, as dores que eu havia suportado com resignação,  
não obstante o meu sofrimento; então a sua justiça cuja balança os homens  
jamais compreenderão pesou o bem com tanta bondade e amor que o mal  
foi rapidamente apagado.  
P. Poderia nos dar notícias da tua filha? (morta quatro ou cinco anos depois do  
pai) R. Ela está em missão nesta Terra de vocês.  
P. Ela está feliz como encarnada? Não quero fazer nenhuma pergunta  
indiscreta... R. Eu sei disso muito bem; será que eu não vejo o teu  
pensamento como um quadro diante dos meus olhos? Não; como encarnada  
ela não é feliz, mas ao contrário; todas as misérias da vida de vocês a  
aguardam. Porém, ela deve pregar pelo exemplo essas grandes virtudes das  
quais vocês fazem belos discursos; eu a ajudarei, pois devo velar por ela; mas  
ela não terá grande dificuldade para superar os obstáculos, já que ela não  
196 Allan Kardec  
está em expiação, mas sim em missão. Fique tranquilo por ela, e obrigado  
pela tua lembrança.  
Nesse momento, o médium sentiu uma dificuldade para escrever e disse:  
se for um Espírito sofredor que me atrapalha, peço que se identifique. R.  
Uma infeliz.  
P. Gostaria de me dizer teu nome? R. Valéria.  
P. Poderia me dizer o que causou teu castigo? R. Não.  
P. Você se arrependeu dos teus erros? R. Você está vendo que sim.  
P. Quem te trouxe aqui? R. Sixdeniers.  
P. Com que objetivo ele fez isso? R. Para que você me ajude.  
P. Foi você quem me impediu de escrever uma hora atrás? R. Foi ele  
que me colocou no lugar dele.  
P. Qual é a relação entre vocês? R. Ele me guia.  
P. Peça a ele que se junte a nós na prece. (Depois da prece, Sixdeniers  
retorna:) Obrigado por ela; você entendeu, não me esquecerei de ti; pense  
nela.  
P. [A Sixdeniers] Como Espírito, você tem muitos Espíritos sofredores a  
guiar? R. Não; mas tão logo que tenhamos conduzido um deles ao bem,  
cuidamos de outro, sem com isso abandonar os anteriores.  
P. Como pode dar conta de uma vigilância que deverá se multiplicar ao  
infinito através dos séculos? R. Entenda que aqueles que temos reconduzido  
se depuram e progridem; então, eles nos dão menos trabalho, ao mesmo  
tempo em que nós mesmos nos elevamos e, ao subirmos, nossas faculdades  
progridem, nosso poder aumenta na proporção da nossa pureza.  
Observação Os Espíritos inferiores são assim assistidos pelos bons  
Espíritos que tem como missão guiar aqueles outros; essa tarefa não é  
exclusivamente delegada aos encarnados, mas estes devem contribuir com tal  
missão, porque isso é um meio de avanço para eles. Quando um Espírito  
197 O Céu e o Inferno  
inferior vem interferir numa boa comunicação, como no caso presente,  
certamente que nem sempre ele o faz com uma boa intenção; porém, os bons  
Espíritos o permitem seja como prova, seja para que aquele a quem ele se  
dirige trabalhe pelo seu melhoramento. É verdade que sua persistência acaba  
às vezes degenerando numa obsessão; quanto mais forte for essa persistência,  
mais ela provará a necessidade de assistência. Portanto, é um erro rebater um  
Espírito inferior; devemos olhá-lo como um pobre que vem pedir esmola, e  
então dizer: Este é um Espírito infeliz que os bons me enviam para educá-lo.  
Se conseguirmos isso, teremos a alegria de ter reconduzido uma alma ao bem  
e de ter abreviado seus sofrimentos. Essa tarefa muitas vezes é penosa; sem  
dúvidas, seria mais agradável receber sempre belas comunicações e não  
conversar senão com Espíritos de escolha própria; mas não é buscando a  
nossa própria satisfação, nem recusando as ocasiões que nos são oferecidas  
para praticar o bem, que mereceremos a proteção dos bons Espíritos.  
DR. DEMEURE  
Falecido em Albi [Tarn], em 25 de janeiro de 1865.  
O Sr. Demeure era um médico homeopata muito distinto em Albi80. Seu  
caráter, tanto quanto os seus conhecimentos, tinha lhe conciliado a estima e a  
veneração dos seus concidadãos. Sua bondade e caridade eram inesgotáveis e,  
apesar da idade avançada, nenhuma fadiga lhe custava quando se tratava de ir  
cuidar dos pobres doentes. O preço das suas visitas era a menor de suas  
preocupações; ele se considerava menos incomodado com o desafortunado do  
que com aquele que ele sabia que podia pagar, porque, dizia ele, este último,  
na falta dele, sempre podia procurar outro médico. Ao desafortunado, não só  
ele dava os remédios gratuitamente, mas também frequentemente deixava  
com o que suprir às necessidades materiais o que às vezes é o mais útil dos  
medicamentos. Dele se pode dizer que foi o Cura d’Ars da medicina.81  
80  
Albi é uma comuna (município) francesa do departamento (Estado) de Tarn, na região da Occitânia,  
ao sul da França. N. T.  
81  
João Batista Maria Vianney (1786 - 1859) foi um sacerdote católico francês, canonizado pela igreja  
     
198 Allan Kardec  
O Sr. Demeure abraçou com ardor a doutrina espírita, na qual encontrou  
a chave das mais graves questões, para as quais ele inutilmente havia  
procurado a solução na ciência e em todas as filosofias. Seu Espírito profundo  
e investigador lhe fez compreender imediatamente todo o alcance dessa  
doutrina, tanto que ele se tornou um dos seus mais zelosos propagadores.  
Relações de viva e mútua simpatia se estabeleceram entre ele e nós através da  
correspondência.  
Soubemos da sua morte em 30 de janeiro, e o nosso primeiro  
pensamento foi o de conversarmos com ele. Aqui está a comunicação que ele  
nos deu naquele mesmo dia:  
Eis-me aqui. Eu prometi, quando era vivo, que uma vez morto eu viria,  
se isso me fosse possível, apertar a mão do meu caro mestre e amigo, o Sr.  
Allan Kardec.  
A morte tinha dado à minha alma esse pesado sono que nomeamos  
letargia; mas meu pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto que  
prolonga a perturbação que segue a morte, despertei e de um salto fiz a  
viagem.  
“Como estou feliz! Já não sou mais velho nem adoentado; meu corpo não  
era senão um disfarce imposto; agora sou jovem e belo, belo dessa eterna  
juventude dos Espíritos, cujas rugas não marcam mais o rosto, cujos cabelos  
não embranquecem com o passar do tempo. Sinto-me leve como o pássaro  
que num voo rápido atravessa o horizonte do vosso céu nebuloso, e admiro, e  
contemplo, bendigo, amo e me inclino, átomo que sou, perante a grandeza, a  
sabedoria, a ciência de nosso Criador, perante as maravilhas que me rodeiam.  
Estou feliz; estou na glória! Oh, quem alguma vez poderia recontar as  
esplêndidas belezas da terra dos eleitos: os céus, os mundos, os sóis, seu papel  
no grande concerto da harmonia universal?! Pois bem, eu tentarei, meu  
mestre! Vou fazer o seu estudo e virei depor junto a ti a homenagem de meus  
trabalhos de Espírito que te dedico de antemão. Até logo.”  
DEMEURE  
católica como Santo Cura d’Ars, o padroeiro dos párocos, reconhecido pela extrema bondade e  
desprendimento material, a quem se atribui alguns três milagres, incluindo curas de doenças e  
“conhecimentos sobrenaturais” sobre o passado e o futuro. — N. T.  
199 O Céu e o Inferno  
As duas comunicações seguintes, transmitidas nos dias 1 e 2 de fevereiro, são  
referentes à doença de que nós fomos acometidos na ocasião.82 A despeito de serem  
pessoais, nós as reproduzimos porque elas provam que o Sr. Demeure é tão bom como  
Espírito quanto era como homem.  
“Meu bom amigo, tenha confiança em nós e muita coragem; essa crise,  
conquanto fatigante e dolorosa, não será longa e, com os cuidados prescritos,  
você poderá, conforme teus desejos, completar a obra que foi o principal  
objetivo da tua existência. Sou eu, portanto, que está sempre perto de ti, com  
o Espírito de Verdade, que, em seu nome, me permite tomar a palavra, como  
o último de teus amigos vindos entre os Espíritos. Eles me dão as honras das  
boas-vindas. Caro mestre, quanto estou feliz por ter morrido a tempo para  
estar com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez  
pudesse ter evitado essa tua crise, que eu não previa; fazia pouquíssimo  
tempo que eu tinha desencarnado para me ocupar com outra coisa que não da  
questão espiritual. Mas agora eu velarei por ti, querido mestre; é teu irmão e  
amigo que se alegra em ser um Espírito para estar próximo a ti e te prestar os  
cuidados durante tua enfermidade. Contudo, você conhece o provérbio:  
Ajuda-te e o céu te ajudará. Então, ajude os bons Espíritos nos cuidados que  
eles te dispensam, e se submeta estritamente às prescrições deles.  
Faz bastante calor aqui; esse carvão é cansativo. Enquanto estiver  
doente, não o queime; ele continua a aumentar tua opressão; os gases que  
dele se desprendem são deletérios.”  
Vosso amigo, DEMEURE  
“Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho lhe dizer que estava perto  
dele quando lhe ocorreu o acidente, que poderia ter sido fatal sem uma intervenção  
eficaz para a qual eu fiquei feliz em contribuir. De acordo com as minhas  
observações e as informações que colhi de boa fonte, ficou evidente para mim que,  
quanto mais cedo se der a sua desencarnação, mais cedo poderá se fazer a sua  
reencarnação, para a qual ele virá completar sua obra. Entretanto, é preciso que ele  
82 Com efeito, desde a publicação da obra O Evangelho segundo o Espiritismo (inicialmente intitulado  
Imitação do Evangelho), em abril do ano anterior à composição deste livro, portanto 1864, o codificador  
espírita ficou gravemente enfermo por esgotamento dos órgãos devido ao excesso de trabalho, tendo  
sido até advertido pelos amigos espirituais sobre a necessidade de repousar mais. N. T.  
 
200 Allan Kardec  
dê, antes de partir, o derradeiro retoque nas obras que devem completar a teoria  
doutrinária cujo iniciador foi ele, e ele se torna culpável de homicídio voluntário se,  
por excesso de trabalho, contribuir para o desfalecimento do seu organismo, que o  
ameaça de uma súbita partida para o nosso mundo. Não se deve temer dizer-lhe  
toda a verdade, para que ele tome suas precauções e siga literalmente as nossas  
prescrições.”  
DEMEURE  
A comunicação seguinte foi obtida em Montauban, em 26 de janeiro, no  
dia seguinte ao da sua morte, no círculo de amigos espíritas que ele tinha  
naquela cidade:  
“Antoine Demeure. Não estou morto para vocês, meus bons amigos, mas  
para aqueles que, diferentemente de vocês, não conhecem essa santa doutrina  
que reúne os que se amaram nessa Terra, e que tiveram os mesmos  
pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade.  
Sou feliz; mais feliz do que eu podia esperar, pois gozo de uma rara  
lucidez entre os Espíritos desgarrados da matéria desde tão pouco tempo.  
Tenham coragem, meus bons amigos; estarei com frequência junto a vocês e  
não deixarei de instrui-los sobre muitas coisas que ignoramos quando  
estamos ligados à nossa pobre matéria, que nos esconde tantas  
magnificências e tantos prazeres. Orem pelos que estão privados dessa  
ventura, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos.  
Não vou me estender mais por hoje, mas lhes direi que não me acho  
totalmente estranho neste mundo dos invisíveis; parece-me que sempre o  
habitei. Cá estou feliz porque vejo aqui os meus amigos e posso me comunicar  
com eles todas as vezes que o desejar.  
Não chorem, meus amigos; vocês me fariam lamentar tê-los conhecido.  
Deixem o tempo correr e Deus os conduzirá a esta morada, onde todos nós  
devemos nos reunir. Boa noite, meus amigos: que Deus os console; eu  
continuo perto de vocês.”  
DEMEURE  
Outra carta de Montauban contém o relato seguinte:  
Nós tínhamos ocultado à Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito  
201 O Céu e o Inferno  
lúcida, a morte do Sr. Demeure, para poupar sua extrema sensibilidade, e o  
bom doutor, certamente entendendo nossas intenções, tinha evitado se  
manifestar a ela. Quando foi 10 de fevereiro último, estávamos reunidos a  
convite dos nossos guias que diziam eles queriam aliviar madame G... de  
uma entorse da qual ela sofria cruelmente desde a véspera. Nós não sabíamos  
mais do que isso e estávamos longe de esperar a surpresa que eles nos  
reservavam. Tão logo essa senhora caiu em sonambulismo, ela começou a  
soltar gritos comoventes ao mostrar seu pé. Eis o que se passou:  
“A Sra. G... estava vendo um Espírito curvado sobre sua perna, mas seus  
traços ficavam ocultos para ela; ele operava fricções e massagens, exercendo  
de vez em quando uma tração longitudinal na parte doente, absolutamente  
como teria feito um médico. A operação era tão dolorosa que a paciente às  
vezes vociferava e fazia movimentos desordenados. Porém a crise não  
demorou muito; ao fim de dez minutos toda a marca de torção havia  
desaparecido, nada mais de inchaço, e o pé retomou sua aparência normal:  
madame. G... estava curada.  
“No entanto, o Espírito permanecia sempre escondido da médium,  
persistindo em não mostrar sua fisionomia; ele dava mesmo a impressão de  
querer fugir, quando de salto nossa doente que minutos antes não podia  
dar um passo se lança no meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu  
doutor espiritual. Ainda dessa vez o Espírito virou seu rosto, deixando sua  
mão na dela. Neste momento madame G... solta um grito e cai desfalecida no  
chão: ela acabara de reconhecer o Sr. Demeure no Espírito curador. Durante a  
síncope, ela recebeu os cuidados diligentes de vários Espíritos simpáticos.  
Finalmente tendo readquirido a lucidez sonambúlica, ela conversa com os  
Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, notadamente com o  
Espírito do doutor, que respondia a seus testemunhos de afeição em lhe  
penetrando um fluido reparador.  
Tal cena não é impressionante e dramática? E não seria de se acreditar  
ver todos esses personagens representar seu papel na vida humana? Isso não  
é uma prova entre mil outras de que os Espíritos são seres bem reais, tendo  
um corpo e agindo como faziam na Terra? Ficamos felizes por reencontrar  
nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada  
202 Allan Kardec  
solicitude. Durante sua vida, ele tinha sido o médico da médium; conhecia sua  
extrema sensibilidade e a tinha tratado dela como se fosse sua própria filha.  
Esta prova de identidade, dada àqueles que o Espírito amava, não é tocante e  
capaz de fazer encarar a vida futura sob seu aspecto mais consolador?”  
Observação A situação do Sr. Demeure, como Espírito, é bem aquela  
que podia deixar pressentir sua vida tão digna e utilmente cumprida. Mas um  
outro fato não menos instrutivo ressalta dessas comunicações: é a atividade  
que ele desenvolve quase imediatamente após sua morte, para ser útil. Por  
sua alta inteligência e suas qualidades morais, ele pertence à ordem dos  
Espíritos muito adiantados; ele é feliz, mas sua felicidade não está na inércia.  
Há poucos dias, ele cuidava dos enfermos como médico e, tão logo  
desencarnado, ele se apressa em vir cuidar deles como Espírito. Com certeza,  
algumas pessoas dirão: O que se ganha então em estar no outro mundo se lá  
não se goza de repouso? A isto lhes perguntaremos primeiro se não significa  
nada deixar de ter preocupações, ou necessidades, ou as enfermidades da  
vida, e ser livre, podendo sem se cansar percorrer o espaço com a rapidez do  
pensamento, e ir ver seus amigos a qualquer hora, a qualquer distância em  
que se encontrem? Depois acrescentamos: Quando vocês estiverem no outro  
mundo, nada os forçará a fazer seja lá o que for; vocês serão perfeitamente  
livres para ficar numa ociosidade beata, tanto tempo quanto isso lhes agradar;  
mas logo se cansarão desse repouso egoísta; vocês serão os primeiros a pedir  
uma ocupação. Então lhes será respondido: Se vocês estão entediados de não  
fazerem nada, procurem vocês mesmos algo para fazer; as ocasiões de ser útil  
não faltam no mundo dos Espíritos, assim como entre os homens. É assim que  
a atividade espiritual não é um constrangimento; é uma necessidade, uma  
satisfação para os Espíritos que procuram as ocupações de acordo com seus  
gostos e suas aptidões, e escolhem de preferência as ocupações que possam  
ajudar para o seu adiantamento.  
VIÚVA FOULON, nome de nascimento: WOLLIS  
Madame Foulon, falecida em Antibes a 3 de fevereiro de 1865, havia  
morado por muito tempo no Havre, onde ela conquistou uma reputação de  
 
203 O Céu e o Inferno  
miniaturista muito hábil. Seu notável talento a princípio era para ela só uma  
distração de amadora; mais tarde, porém, quando vieram dias difíceis, ela  
soube fazer da sua arte uma preciosa fonte de renda. O que a tornava  
especialmente amada e estimada, e que tornava sua memória cara a todos que  
a conheceram, era a amenidade de seu caráter; essas eram suas qualidades  
particulares, as quais só quem conhecia sua vida íntima podia apreciar toda a  
extensão. Pois, igual a todos aqueles em quem o sentimento do bem é inato,  
ela não fazia alarde dessas qualidades e nem mesmo suspeitava delas. Se  
havia uma pessoa sobre quem o egoísmo não tinha domínio, essa era ela, sem  
dúvida; talvez jamais o sentimento de abnegação pessoal fosse levado mais  
longe, porque, sempre pronta a sacrificar seu repouso, sua saúde e seus  
interesses por aqueles a quem podia ser útil, sua vida não foi mais do que uma  
longa série de devotamentos, assim como foi, desde a juventude, uma longa  
sequência de rudes e cruéis provas, diante das quais sua coragem, resignação  
e perseverança jamais falharam. Todavia, infelizmente, sua visão fatigada por  
um trabalho minucioso, apagava-se dia após dia; mais algum tempo e a  
cegueira, já muito avançada, estaria completa.  
Quando a Sra. Foulon tomou conhecimento da doutrina espírita, isso foi  
para ela como um rastro de luz; parecia-lhe que um véu se levantava sobre  
alguma coisa que não lhe era desconhecido, mas de que ela tinha apenas uma  
vaga intuição. Então ela estudou essa doutrina com ardor, mas ao mesmo  
tempo com essa lucidez de espírito, essa justeza de apreciação que era  
próprio de sua alta inteligência. É preciso conhecer todas as perplexidades de  
sua vida, perplexidades que tinham sempre por móvel, não ela mesma, mas os  
seres que lhe eram caros, para compreender todas as consolações que colheu  
nessa sublime revelação, que lhe dava uma fé inabalável no futuro e lhe  
mostrava o vazio das coisas terrenas.  
Sua morte foi digna da sua vida; ela viu sua aproximação sem nenhuma  
apreensão penosa: era para ela a libertação dos laços terrenos, que devia lhe  
abrir essa vida espiritual bem-aventurada com a qual tinha se identificado  
pelo estudo do Espiritismo. Morreu com calma, porque tinha consciência de  
ter cumprido a missão que havia aceitado ao vir à Terra; de ter cumprido  
escrupulosamente seus deveres de esposa e de mãe de família. Porque  
204 Allan Kardec  
também tinha, durante a vida, abjurado todo ressentimento contra aqueles  
dos quais ela tinha do que lastimar e que a tinham pago com ingratidão; a  
quem ela sempre havia retribuído o mal com o bem, e que deixara a vida  
perdoando-os, entregando-se à bondade e à justiça de Deus. Em suma, morreu  
com a serenidade que dá uma consciência pura, e a certeza de estar menos  
separada de seus filhos que durante a vida corpórea, já que desde então  
poderá estar com eles em Espírito, em qualquer lugar do globo onde se  
encontrem, para ajudá-los com seus conselhos e cobri-los com a sua proteção.  
Logo que soubemos da morte da Sra. Foulon, nosso primeiro desejo foi o  
de conversarmos com ela. As relações de amizade e de simpatia que a  
Doutrina Espírita fez nascer entre ela e nós explicam algumas de suas  
palavras e justificam a familiaridade da linguagem.  
I
(Paris, 6 de fevereiro de 1865, três dias após a morte dela)  
Estava certa de que vocês teriam a ideia de me evocar logo após a minha  
libertação, e fiquei pronta para lhes responder, pois não sofri perturbação; só  
os que têm medo são envolvidos por suas trevas espessas.  
Pois bem, meu amigo, agora estou feliz. Estes pobres olhos, que estavam  
enfraquecidos e que só me deixavam a lembrança dos prismas que tinham  
colorido a minha juventude com seu brilho cintilante, aqui estão abertos e  
reencontraram os esplêndidos horizontes que, nas suas vagas reproduções,  
alguns dos vossos grandes artistas idealizam, mas cuja realidade majestosa —  
severa, mas cheia de encantos está imbuída da mais completa concretude.  
Não faz mais do que três dias que estou morta e sinto que sou uma  
artista; minhas aspirações para o ideal da beleza na arte não eram mais do  
que a intuição de faculdades que eu tinha estudado e adquirido em outras  
existências e que se desenvolveram na derradeira. Porém, o que devo fazer  
para reproduzir uma obra-prima digna da grande cena que toca o espírito ao  
chegar na região da luz? Pincéis! Dê-me pincéis e eu provarei ao mundo que a  
arte espírita é o coroamento da arte pagã, da arte cristã que periclita, e que só  
ao Espiritismo está reservada a glória de fazê-la reviver com todo o seu brilho  
205 O Céu e o Inferno  
neste mundo deserdado de vocês.  
Basta para a artista; agora é a vez da amiga.  
Por que, querida amiga (madame Allan Kardec83), por que se afetar tanto  
assim por causa da minha morte? Sobretudo vocês, que conheceram as  
decepções e as amarguras da minha vida, vocês deveriam ao contrário se  
alegrarem ao ver que agora eu não devo mais beber no cálice amargo das  
dores terrestres que esvaziei até a última gota. Acreditem em mim: os mortos  
são mais felizes do que os vivos, e chorar por eles é duvidar da veracidade do  
Espiritismo. Vocês me verão novamente, estejam certos disso; eu parti  
primeiro porque minha tarefa neste mundo estava finalizada; cada qual tem a  
sua tarefa a cumprir na Terra, e quando a sua for concluída, você virá  
repousar um pouco perto de mim, para recomeçar em seguida, se for preciso,  
já que entendemos que não é da natureza permanecermos inativos. Cada um  
tem suas tendências e a elas obedece; essa é uma lei suprema que prova o  
poder do livre-arbítrio. Assim, boa amiga, indulgência e caridade, todos nós  
necessitamos delas reciprocamente tanto no mundo visível quanto no  
invisível. Com este propósito, tudo vai dar certo.  
Vocês não disseram para eu parar; saibam que é a primeira vez que eu  
converso longamente! Assim sendo, eu vou deixá-los; agora é a vez do meu  
excelente amigo, Sr. Kardec. Quero lhe agradecer pelas afetuosas palavras que  
dirigiu à amiga que o precedeu no túmulo; pois nós quase partimos juntos  
para o mundo onde me encontro, meu bom amigo! (Alusão àquela enfermidade  
de que o Dr. Demeure falou.) O que teria dito a companheira bem-amada dos  
teus dias, se os bons Espíritos não tivessem impedido tua morte? Então ela  
teria chorado e gemido, e isso eu compreendo; mas também é preciso que ela  
cuide para que você não se exponha novamente ao perigo antes de ter  
finalizado o teu trabalho de iniciação espírita, sem o que você corre o risco de  
chegar cedo demais entre nós e de ver, como Moisés, a Terra Prometida  
somente de longe. Portanto, mantenha-se em guarda; é uma amiga quem está  
te prevenindo.  
Agora, eu vou embora, mas retorno para junto dos meus queridos filhos;  
depois, vou ver, para além dos mares, se minha ovelha viajante finalmente  
83 O Espírito da viúva Foulon então se dirige a Amélie Gabrielle Boudet, esposa de Allan Kardec. N. T.  
 
206 Allan Kardec  
chegou ao porto, ou se ela é uma presa da tempestade. (Uma das filhas dela, que  
morava na América.) Que os Espíritos bons a protejam; vou me juntar a eles  
para isso. Voltarei a conversar convosco, pois sou uma faladora infatigável,  
como vocês bem sabem. Então, adeus, bons e caros amigos. Até breve!  
Viúva FOULON  
II  
(8 de fevereiro de 1865.)  
P. Caríssima madame Foulon, estou muito contente com a comunicação  
que me enviou outro dia, e com a promessa de continuar nossas conversas.  
Eu te reconheci perfeitamente na comunicação; ali falava de coisas  
desconhecidas do médium e que só podiam vir de você; depois, tua linguagem  
afetuosa a nosso respeito é bem aquela de tua alma amorosa. Mas há em tuas  
palavras uma segurança, uma postura, uma firmeza que não conhecia em ti  
quando estava viva. Você sabe que a este respeito eu me permiti mais de uma  
advertência em certas circunstâncias.  
R. É verdade, mas desde que me vi gravemente enferma, recobrei minha  
firmeza de espírito, perdida pelos desgostos e vicissitudes que por vezes  
tinham me tornado medrosa durante a vida. Então, eu disse para mim mesma:  
Você é espírita; esqueça a Terra; prepara-se para a transformação do teu ser e  
veja, pelo pensamento, a senda luminosa que a tua alma deve seguir ao deixar  
teu corpo, e que te conduzirá, feliz e liberta, nas esferas celestes onde você  
viverá de agora em diante.  
Vocês me dirão que foi um tanto presunçoso da minha parte contar com  
a felicidade perfeita ao deixar a Terra; mas eu tinha sofrido tanto que devia  
ter expiado minhas faltas desta existência e das anteriores. Esta intuição não  
tinha me enganado, e foi ela quem me deu a coragem, a calma e a firmeza nos  
instantes finais: essa firmeza aumentou naturalmente quando vi, após minha  
libertação, minhas esperanças realizadas.  
P. Tenha a bondade de nos descrever agora a tua passagem, o acordar e  
as primeiras impressões sentidas.  
R. Eu sofri, mas o meu Espírito foi mais forte do que aquele sofrimento  
207 O Céu e o Inferno  
material que o desprendimento o fazia experimentar. Encontrei-me, após o  
suspiro supremo, como que em estado de síncope, sem nenhuma consciência  
de minha situação, sem pensar em nada e numa vaga sonolência, que não era  
nem o sono do corpo nem o despertar da alma. Permaneci assim bastante  
tempo; depois, como se saísse de um longo desfalecimento, despertei pouco a  
pouco no meio de irmãos que não conhecia. Eles me dispensaram cuidados e  
carinhos, mostrando-me um ponto no espaço que parecia uma estrela  
cintilante e me disseram: “É para lá que você vai conosco; você não pertence  
mais à Terra.” Então me recordei; apoiei-me neles e, como um grupo gracioso  
que se lança rumo às esferas desconhecidas, mas com a certeza de lá  
encontrar a felicidade, nós subimos, subimos, e a estrela crescia. Era um  
mundo feliz, um mundo superior, onde a boa amiga de vocês finalmente vai  
achar o repouso quero dizer o repouso em relação às fadigas corporais que  
suportei, e às vicissitudes da vida terrena, mas não a indolência do Espírito,  
pois a atividade do Espírito é uma satisfação.  
P. Significa que você definitivamente deixou a Terra?  
R. Ainda tenho aqui muitos seres queridos meus para que eu a deixe  
definitivamente. Aqui voltarei, portanto, como Espírito, pois tenho uma  
missão a cumprir junto aos meus netos. Aliás, vocês sabem bem que nenhum  
obstáculo se opõe a que os Espíritos que estacionam nos mundos superiores à  
Terra venham visitá-la.  
P. A posição em que está não parece enfraquecer teus relacionamentos  
com aqueles que você aqui deixou?  
R. Não, meu amigo; o amor aproxima as almas. Creia em mim que é  
possível estar na Terra mais próximo daqueles que atingiram a perfeição do  
que daqueles que a inferioridade e o egoísmo fizeram gravitar em torno da  
esfera terrestre. A caridade e o amor são dois motores de uma poderosa  
atração. Esses são o laço que cimenta a união das almas conectadas uma à  
outra, e que continua assim, apesar da distância e dos lugares. Não há  
distâncias senão para os corpos materiais, mas nunca para os Espíritos.  
P. Que ideia ora você faz dos meus trabalhos referentes ao Espiritismo?  
R. Acho que você se encarregou de almas e que o fardo é pesado de  
208 Allan Kardec  
suportar; mas eu vejo o objetivo e sei que você o atingirá. Vou te ajudar, se eu  
puder, com meus conselhos de Espírito, para que possa superar as  
dificuldades que te ocorrerão, te orientando a tomar certas medidas  
apropriadas para, enquanto estiver vivo, promover o movimento renovador  
ao qual o Espiritismo conduz. Teu amigo Demeure, unido ao Espírito de  
verdade, te prestará um auxílio mais útil ainda; ele é mais sábio e mais sério  
do que eu, mas como sei que a assistência dos bons Espíritos te fortifica e te  
sustenta em teu labor, creia que o meu te estará assegurado em toda parte e  
para sempre.  
P. Poderíamos deduzir de algumas dessas tuas palavras que vocês não  
me prestarão uma cooperação pessoal muito ativa na obra do Espiritismo...  
R. Está enganado; mas vejo tantos outros Espíritos mais capazes do que  
eu para tratar dessa importante questão, que um invencível sentimento de  
timidez me impede, nesse momento, de te responder conforme teus desejos.  
Isso talvez aconteça; terei mais coragem e ousadia, contudo, é preciso antes  
que eu os conheça melhor. Não faz mais do que quatro dias que morri; ainda  
estou sob o efeito do deslumbramento que me envolve. Meu amigo, você não  
compreende? Mal eu consigo expressar as novas sensações que estou  
experimentando. Tive que ralar para me arrancar do fascínio que as  
maravilhas que admiro exercem sobre o meu ser. Só posso bendizer e adorar  
a Deus em suas obras. Mas isso passará, pois os Espíritos me garantem que  
em breve estarei acostumada com todas essas magnificências, e que então  
poderei, com minha lucidez de Espírito, tratar de todas as questões relativas à  
renovação terrestre. Depois, com tudo isso, imagine que nesse momento eu  
tenho principalmente uma família para consolar.  
Adeus e até logo; tua boa amiga, que te quer bem e sempre te amará,  
meu mestre, pois é a você que ela deve a única consolação durável e  
verdadeira que experimentou na Terra.  
Viúva FOULON  
III  
A comunicação seguinte foi dada aos filhos dela em 9 de fevereiro:  
209 O Céu e o Inferno  
“Meus filhos, meus queridos filhos. Deus me retirou de vocês, mas a  
recompensa que ele se dignou de me conceder é bem maior, em comparação  
ao pouco que fiz na Terra. Sejam resignados, meus bons filhos, às vontades do  
Altíssimo; de tudo que ele permitiu que vocês recebessem, tirem a força para  
suportarem as provações da vida. Seja sempre firme no coração de vocês essa  
crença que tanto facilitou minha passagem da vida terrena para a vida que  
nos espera ao sairmos deste mundo. Deus estendeu sobre mim, depois da  
minha morte, sua inesgotável bondade, tal como ele quis fazer quando eu  
estava na Terra. Agradeçam-lhe por todos os benefícios que ele tem  
concedido a vocês; louvem-no, meus filhos, louvem-no sempre, a todo  
instante. Não percam nunca de vista o propósito que lhes foi indicado, nem a  
rota que vocês têm a seguir. Pensem no uso que devem fazer do tempo que  
Deus concede a vocês na Terra. Aí serão felizes, meus bem-amados, felizes uns  
pelos outros, se a união reinar entre vocês; felizes com seus filhos, se os  
levarem ao bom caminho, naquele que Deus permitiu que lhes fosse revelado.  
Oh, se não podem me ver, saibam bem que os laços que nos uniam aí não  
são rompidos pela morte do corpo, pois não era o envoltório que nos ligava,  
mas sim o Espírito. É por isso, meus bem-amados, que ainda poderei, pela  
bondade do Todo-Poderoso, guiá-los e os encorajar na sua jornada, para nos  
juntarmos novamente mais tarde.  
Vão, meus filhos, cultivem com o mesmo amor essa crença sublime;  
belos dias estão reservados para vocês que creem. Já lhes disseram isso, mas  
eu não os devia ver na Terra; será do alto que apreciarei os tempos felizes  
prometidos pelo Deus bom, justo e misericordioso.  
Não chorem, minhas crianças; que essas mensagens fortaleçam a vossa  
fé, vosso o amor a Deus, que tantos dons derramou sobre vocês, que tantas  
vezes enviou o socorro à sua mãe. Orem sempre: a prece fortalece. Sigam,  
nesta vida que Deus lhes concede, os ensinos que eu segui com tanto ardor.  
Eu voltarei, meus filhos, mas antes é preciso amparar minha pobre filha  
que ainda tem tanta necessidade de mim. Adeus, até breve. Creiam na  
bondade do Todo-Poderoso; eu peço a ele por vocês. Até mais.”  
Viúva FOULON  
210 Allan Kardec  
Observação Todo espírita sério e esclarecido facilmente colherá  
dessas comunicações os ensinamentos que delas ressaltam. Então, só  
chamaremos a atenção para dois pontos. O primeiro é que esse exemplo nos  
mostra a possibilidade de não mais se encarnar na Terra e de passar daqui  
para um mundo superior sem, para isso, ficar separado dos seres queridos  
que aqui se deixa. Portanto, aqueles que temem a reencarnação, por causa das  
misérias da vida, podem se livrar desse temor fazendo o que é preciso, isto é,  
trabalhando pelo seu melhoramento. Quem não quiser vegetar nas classes  
inferiores deve se instruir e trabalhar para subir de nível.  
O segundo ponto é a confirmação desta verdade: depois da morte nós  
ficamos menos separados dos seres queridos do que durante a vida. Madame  
Foulon, retida pela idade e pela enfermidade numa pequena cidade do Sul,  
não tinha perto dela senão uma parte da família; a maioria dos seus filhos e  
dos seus amigos estava dispersa e distante, e então os obstáculos materiais  
impediam que ela pudesse vê-los tão frequentemente quanto uns e outros  
teriam desejado. O grande distanciamento tornava rara e difícil até mesmo a  
correspondência com alguns deles. Mal se desembaraçou do seu envoltório,  
ela, ligeira, corre atrás de cada um, transpondo as distâncias sem se cansar;  
com a rapidez da eletricidade, ela os vê, assiste às suas reuniões íntimas,  
envolve-os com a sua proteção e pode, por meio da mediunidade, conversar  
com eles a cada instante, como se estivesse viva. E dizer que a esse  
pensamento consolador há gente que prefira a ideia de uma separação  
indefinida!  
UM MÉDICO RUSSO  
O Sr. P. era médico em Moscou, tão distinto pelas suas eminentes  
qualidades morais quanto pelo seu saber. A pessoa que o evocou o conhecia  
só pela fama e não tinha tido relações com ele senão indiretamente. A  
comunicação original foi dada na língua russa.  
P. (Após a evocação.) O senhor está aqui? R. Sim. No dia da minha  
morte, eu o segui pessoalmente, mas você resistiu a todas as minhas  
 
211 O Céu e o Inferno  
tentativas para fazê-lo escrever. Eu tinha ouvido tuas palavras a meu respeito  
e isso me fez te reconhecer; então eu tive o desejo de conversar contigo para  
te ser útil.  
P. Por que você, já que era tão bom, sofreu tanto? R. Foi uma graça do  
Senhor, que quis com isso me fazer sentir duplamente o preço da minha  
libertação e me fazer avançar o máximo possível neste mundo.  
P. A ideia da morte te causava algum terror? R. Não, porque eu tinha  
bastante fé em Deus.  
P. A separação foi dolorosa? R. Não; o que vocês chamam de derradeiro  
momento não é nada. Senti apenas um estremecimento muito curto, e logo  
após me achava todo feliz por estar desprendido da minha mísera carcaça.  
P. O que aconteceu em seguida? R. Tive a felicidade de ver uma grande  
quantidade de amigos vindo me reencontrar e dar as boas-vindas —  
principalmente aqueles que eu tive a satisfação de ajudar.  
P. Em qual região está habitando? Em algum planeta? R. Tudo que não  
seja um planeta constitui o que vocês chamam de espaço; é aí onde estou. Mas  
quantos níveis existem nessa imensidade de que o homem não pode fazer  
ideia! Quantos degraus nessa escada de Jacó que vai da Terra ao céu, quer  
dizer, do aviltamento da encarnação num mundo inferior, como o vosso, até a  
depuração completa da alma! Aqui onde estou, só se chega com uma série de  
muitas provações o que significa muitas encarnações.  
P. Desse modo, você deve ter tido muitas existências... R. Como poderia  
ser de outro modo? Não há exceção na ordem imutável estabelecida por Deus.  
A recompensa só pode vir após a vitória conquistada na luta; e quando a  
recompensa é grande, necessariamente a luta também deve ter sido grande.  
Mas a vida humana é tão curta que a luta só e real em intervalos, e esses  
intervalos são as diferentes existências sucessivas; ora, já que me encontro  
num dos degraus elevados, é certo que alcancei essa felicidade por uma série  
de combates em que Deus me permitiu algumas vezes conquistar a vitória.  
P. Em que consiste a tua felicidade? R. Isso é mais difícil de fazê-los  
212 Allan Kardec  
compreender. A felicidade de que desfruto é um contentamento extremo de  
mim mesmo; não dos meus méritos pois isso seria orgulho, e o orgulho é  
coisa de Espíritos detestáveis , mas um contentamento, digamos, imerso no  
amor de Deus, no reconhecimento da sua bondade infinita; é a alegria  
profunda de ver o certo, o bem; de dizer a si mesmo: talvez eu tenha  
contribuído para o melhoramento de algumas daquelas pessoas que se  
elevaram em direção ao Senhor. A pessoa fica como que identificada com o  
bem-estar; é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. Temos o  
dom de ver os Espíritos mais apurados, de compreendê-los em suas missões,  
e de saber que nós também os alcançaremos; penetramos no infinito  
incomensurável regiões tão resplandecentes do fogo divino que ficamos  
deslumbrados até mesmo quando as contemplamos através do véu que ainda  
as cobre. Mas o que estou dizendo?!... Vocês entendem minhas palavras?  
Vocês acham que esse fogo de que falo seja parecido com o Sol, por exemplo?  
Não, não! É uma coisa indecifrável para o homem, porque as palavras não  
exprimem mais do que os objetos, as coisas físicas ou metafísicas das quais ele  
conhece pela memória ou pela intuição de sua alma, ao passo que, como o  
homem não pode ter essa memória do desconhecido absoluto, não existem  
termos que possam lhe dar essa percepção. Mas saibam disso: já é uma  
imensa felicidade pensar que podemos nos elevar infinitamente.  
P. Você teve a bondade de me dizer que gostaria de ser útil a mim. Em  
que, eu te pergunto? R. Eu posso ajudá-lo nos teus desfalecimentos,  
sustentá-lo nas tuas fraquezas, consolá-lo nas tuas tristezas. Se a tua fé for  
abalada por qualquer ocorrência que te perturbe e vier a vacilar, chame por  
mim: Deus há de me dar as palavras para te fazer se lembrar disso e te  
reconduzir a ele. Se você se sentir prestes a sucumbir sob o peso de  
inclinações que você mesmo reconhece serem culpáveis, então me chame: eu  
te ajudarei a carregar a tua cruz, como outrora Jesus foi ajudado a carregar a  
dele aquela que devia nos proclamar tão alto a verdade e a caridade. Se  
você fraquejar sob o peso de teus dissabores, se o desespero se apoderar de ti,  
então me chame: eu virei te tirar desse abismo, falando de Espírito para  
Espírito, te recolocando nos deveres que te são impostos não por  
considerações sociais ou materiais, mas pelo amor que você sentirá em mim,  
213 O Céu e o Inferno  
amor que Deus colocou em meu ser para ser transmitido àqueles que ele pode  
salvar.  
Com certeza você tem amigos na Terra; eles talvez partilhem das tuas  
dores e talvez já te tenham socorrido. Na tristeza, você vai procurá-los, vai  
levar até eles os teus lamentos e as tuas lágrimas, e eles, em troca desse sinal  
de afeição, te dão conselhos, apoio e carinho; pois bem! Você não acha que um  
amigo aqui também seja útil? Imagine como é consolador poder dizer:  
Quando eu morrer, meus amigos da Terra estarão à minha cabeceira, orando  
por mim e chorando por mim, mas meus amigos do espaço estarão no limiar  
da vida e virão sorrindo me levar ao lugar que terei merecido pelas minhas  
virtudes.  
P. Pelo que eu tenho merecido essa proteção que o amigo quer me  
dispensar? R. Eis por que me afeiçoei a ti desde o dia da minha morte: eu te  
vi como espírita, bom médium e adepto sincero; entre os que aí deixei, não vi  
outro melhor do que você; então, decidi vir contribuir para o teu avanço, no  
teu interesse, sem dúvidas, porém ainda mais no interesse de todos aqueles a  
quem você foi chamado a instruir na verdade. Como você vê, Deus te ama o  
bastante para fazer de ti um missionário; ao teu redor, pouco a pouco todos  
vão compartilhando das tuas crenças; os mais rebeldes pelo menos te  
escutam e um dia você os verá acreditar em ti. Não desanime jamais; siga  
sempre em frente, a despeito das pedras do caminho: aceite-me como suporte  
quando estiver fraquejando.  
P. Não ouso me julgar merecedor de tão grande favor... R. Sem dúvidas  
você está longe da perfeição; mas o teu ardor em propagar as santas  
doutrinas, em sustentar a fé daqueles que te ouvem, em pregar a caridade, a  
bondade e a benevolência mesmo quando usam de maus procedimentos  
contra ti, tua resistência contra os teus instintos de raiva, que você poderia  
satisfazer tão facilmente contra os que te afligem ou interpretam mal tuas  
intenções felizmente vêm servir de contrapeso ao que ainda há de mau em  
ti; e saiba disso: o perdão é um poderoso contrapeso contra o mal.  
Deus te enche com suas graças através da faculdade que ele te dá e que  
cabe a você ampliar com teus esforços, a fim de trabalhar eficazmente pela  
214 Allan Kardec  
salvação do teu próximo. Vou te deixar agora, mas conte comigo. Trate de  
moderar tuas ideias terrenas e de viver mais frequentemente com teus  
amigos aqui.  
P...  
BERNARDIN  
(Bordeaux, abril de 1862.)  
Sou um Espírito esquecido há muitos séculos; vivi na Terra na miséria e  
no opróbrio, trabalhando sem descanso para a cada dia levar à minha família  
um pedaço de pão insuficiente; mas eu amava o meu verdadeiro mestre, e  
quando aquele que me oprimia na Terra aumentava meu fardo de dor, eu  
dizia: Meu Deus, dê-me a força para suportar esse peso sem reclamar. Eu  
expiava, meus amigos, porém ao sair dessa rude provação, o Senhor me  
recebeu na paz, e o meu desejo mais caro é reunir todos vocês em torno a  
mim, meus filhos, meus irmãos, para lhes dizer: Seja qual for o preço que  
vocês aí paguem, a felicidade que os espera é ainda muito maior.  
Eu não tive status; filho de uma numerosa família, servi a quem podia me  
ajudar a sustentar minha vida. Nascido numa época em que a servidão era  
cruel, suportei todas as injustiças, todos os trabalhos árduos, todos os fardos  
que os subalternos do Senhor tinham o prazer de me impor. Vi minha mulher  
ser ultrajada; vi minhas filhas serem levadas e depois rejeitadas, sem poder  
me queixar; vi meus filhos serem envolvidos nas guerras de pilhagens e de  
crimes, enforcados pelas faltas que eles não tinham cometido! Ah, se vocês  
soubessem, pobres amigos, o que sofri na minha tão longa existência! No  
entanto, eu esperei, esperei a felicidade que não existe na Terra, e o Senhor  
me concedeu essa felicidade. Então, a todos vocês, meus irmãos, coragem,  
paciência e resignação.  
Meu filho, você pode guardar o que eu te dei; é um ensinamento prático.  
Aquele que prega é bem mais escutado quando pode dizer: Eu suportei mais  
do que vocês, e suportei sem resmungar.  
P. Em que época você viveu? R. De 1400 a 1460.  
 
215 O Céu e o Inferno  
P. Você teve outra existência depois? R. Sim, vivi ainda entre vocês  
como missionário; sim, missionário da fé; mas da fé verdadeira, da pura,  
daquela que sai da mão de Deus, e não daquela que os homens fizeram.  
P. Atualmente, como Espírito, você ainda tem ocupações? R. Seria  
possível acreditar que os Espíritos fiquem inativos? A inação e a inutilidade  
seriam para eles um suplício. Minha missão consiste em guiar os centros de  
trabalhadores no Espiritismo; eu inspiro neles bons pensamentos e me  
esforço para neutralizar aqueles que os Espíritos malvados procuram sugerir.  
BERNARDIN  
CONDESSA PAULA  
Era uma jovem, bela e rica, de uma ilustre linhagem segundo o mundo  
e, por outro lado, um modelo completo de todas as qualidades do coração e  
do espírito. Faleceu aos trinta e seis anos, em 1851. Ela foi uma daquelas  
pessoas cuja oração fúnebre se resume nestas palavras, na boca de todos:  
“Por que Deus tira tão cedo essas pessoas da Terra?” Felizes os que assim  
fazem sua memória ser abençoada! Ela era boa, doce e indulgente com todo  
mundo, sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em vez de agravá-lo.  
Jamais a maledicência manchou seus lábios. Sem arrogância nem austeridade,  
ela tratava seus inferiores com uma gentileza que nada tinha de familiaridade  
vil, e sem se dirigir a eles com ar de superioridade ou de uma proteção  
humilhante. Compreendendo que as pessoas que vivem do próprio trabalho  
não são rendeiros e que eles precisam do dinheiro que lhes é devido, seja pela  
sua condição, seja para viverem, jamais ela atrasou um salário; a ideia de que  
alguém pudesse sofrer com a falta de um pagamento, por sua causa, seria uma  
pontada na sua consciência. Ela não era dessas pessoas que sempre  
encontram dinheiro para satisfazer suas fantasias e nunca têm com o que  
pagar aquilo que devem; também não compreendia que pudesse ser de bom  
gosto para um rico ter dívidas, e se sentiria humilhada se alguém pudesse  
dizer que seus fornecedores eram obrigados a lhe fazer adiantamentos. Então,  
quando ela morreu, não houve senão pêsames e nenhuma reclamação.  
 
216 Allan Kardec  
Sua beneficência era inesgotável, mas não era dessa beneficência  
convencional que se exibe em plena luz do dia; nela havia a caridade do  
coração, e não aquela que busca a ostentação. Só Deus sabe as lágrimas que  
ela enxugou e os desesperos que acalmou, pois essas boas ações só tinham  
por testemunhas o próprio Deus e os infelizes que ela auxiliou. Ela sabia  
sobretudo descobrir esses infortúnios ocultos, que são os mais pungentes, e  
que ela socorria com a delicadeza que eleva o moral em vez de abaixá-lo.  
Sua classe e as altas funções do seu marido a obrigavam a uma gestão  
doméstica da qual não podia se eximir; mas, satisfazendo plenamente às  
exigências de sua posição sem mesquinharia, ela organizou tudo isso de modo  
que, evitando desperdícios ruinosos e despesas supérfluas, permitiu que lhe  
bastasse a metade do que teria custado aos outros, sem que fizessem melhor.  
Com isso, ela pôde doar uma parte maior da sua fortuna para os  
necessitados. Ela tinha reservado um grande capital de seus recursos e o  
revertido exclusivamente para aquela destinação sagrada para ela,  
considerando isso como tendo menos para gastar com sua casa. Ela encontrou  
assim a maneira de conciliar os seus deveres para com a sociedade e para com  
os infelizes.84  
Evocada doze anos após sua morte, por um dos seus parentes, que era  
iniciado no Espiritismo, ela deu a seguinte comunicação em resposta a  
diversas perguntas que lhe foram endereçadas:85  
Você tem razão, meu amigo, em pensar que sou feliz. Eu realmente sou  
feliz, muito acima de tudo o que alguém pode expressar, e não obstante eu  
ainda esteja longe da classe mais alta. Estive entre os felizes na Terra, pois não  
me lembro de ter experimentado uma desgraça real. Juventude, saúde,  
fortuna, consideração, eu tive tudo o que constitui a felicidade para vocês;  
mas o que significa essa felicidade, comparada àquela que aqui é desfrutada?  
O que são as suas festas mais esplêndidas, em que se exibem os mais caros  
adornos, perto dessas assembleias de Espíritos resplendentes de um brilho  
84 Pode-se dizer que essa dama era o retrato vivo da mulher benevolente mencionada em O Evangelho  
segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 4: ‘Infortúnios ocultos’.  
85 Extraímos do pensamento do médium essa comunicação, cujo original está na língua alemã, as partes  
instrutivas para o assunto que aqui tratamos, suprimindo o que é apenas do interesse da sua família.  
   
217 O Céu e o Inferno  
que as vistas de vocês não poderiam suportar, e que é o apanágio da sua  
pureza? Quanto valem seus palácios e salões dourados em comparação com  
as moradas aéreas, os vastos campos do espaço, salpicados de cores que  
tornariam pálido até o arco-íris? De que valem suas caminhadas de passos  
contados nos seus parques, diante dos percursos através da imensidade, mais  
rápidos do que o relâmpago? O que significam os horizontes limitados e  
nebulosos de vocês, ante o espetáculo grandioso desses mundos que se  
movem no universo sem fim sob a poderosa mão do Altíssimo? Quão tristes e  
estridentes são os concertos mais melodiosos deste mundo em relação à  
suave harmonia que faz vibrar os fluidos do éter e todas as fibras da alma!  
Como são tristes e insípidas as alegrias de vocês perto da inefável sensação de  
felicidade que penetra incessantemente todo o nosso ser, como um eflúvio  
benfazejo, sem qualquer sinal de inquietação, de apreensão, de sofrimento!  
Aqui tudo irradia amor, confiança e sinceridade; corações amáveis por toda  
parte, amigos por toda parte; em parte alguma invejosos e ciumentos! Tal é o  
mundo onde me encontro, meu amigo, e ao qual você chegará infalivelmente,  
seguindo caminho certo.  
“Todavia, nós logo nos entediaríamos com uma felicidade monótona; não  
creiam que a nossa seja isenta de peripécias, pois ela não é nem um concerto  
perpétuo, nem uma festa interminável, nem uma beata contemplação pela  
eternidade: ela é movimento, vida e atividade. As ocupações ainda que  
isentos de fadiga trazem consigo uma incessante variedade de aspectos e  
de emoções pelos mil incidentes de que estão repletos. Cada qual tem sua  
missão a cumprir, tem seus protegidos a ajudar, seus amigos da Terra a  
visitar, as engrenagens da natureza a dirigir, almas sofredoras a consolar; um  
vai e outro vem, não de uma rua a outra, mas de um mundo a outro; nós nos  
juntamos e nos espalhamos, para depois nos reagruparmos; reunimo-nos  
num ponto e nos comunicamos sobre o que fizemos, felicitamo-nos pelos  
êxitos obtidos; nós nos consultamos e nos auxiliamos reciprocamente nos  
casos difíceis; enfim, asseguro a vocês que ninguém tem tempo para ficar  
entediado um só segundo.  
Neste momento, a Terra é a nossa grande preocupação. Quanto  
movimento entre os Espíritos! Quantas numerosas tropas aí se concentram  
218 Allan Kardec  
para colaborar com a sua transformação! Parece um enxame de trabalhadores  
ocupados em desbravar uma floresta, sob a condução de chefes experientes;  
uns abatem os velhos troncos com o machado, arrancando-lhes as raízes  
profundas; outros desobstruem o terreno, aqui arando e semeando, acolá  
edificando a nova cidade sobre as ruínas carcomidas do velho mundo.  
Durante esse tempo, os chefes se reúnem, recebem conselhos e mandam os  
mensageiros distribuírem as ordens em todas as direções. A Terra deve ser  
regenerada em um determinado tempo; então é preciso que os desígnios da  
Providência se cumpram, e é por isso que cada um está em serviço. Não  
pensem que eu seja uma mera expectadora desse grande trabalho; eu teria  
vergonha de ficar inativa quando todo mundo está empenhado: uma  
importante missão me foi confiada e estou me esforçando para cumpri-la com  
o melhor que eu posso fazer.  
Não foi sem luta que cheguei à posição que estou ocupando na vida  
espiritual; fiquem bem certos de que minha última existência, por mais  
meritória que pareça para vocês, não era suficiente para isso. Durante várias  
existências eu passei por provações de trabalho e de miséria que escolhi  
voluntariamente para fortalecer e depurar minha alma; tive a felicidade de  
sair vitoriosa dessas provas, mas restava uma delas, a mais perigosa de todas:  
a prova da fortuna e do bem-estar material, de um bem-estar sem nenhum  
sinal de amargura. E lá estava o perigo. Antes de experimentá-la, eu quis me  
sentir forte o bastante para não sucumbir. Deus levou em conta as minhas  
boas intenções e me concedeu a graça de me sustentar. Muitos outros  
Espíritos seduzidos pelas aparências se apressam a escolher essa prova,  
e, infelizmente, como são fracos demais para encarar o perigo, as seduções  
triunfam sobre a inexperiência deles.  
Trabalhadores, eu estive nessas suas fileiras; eu, a nobre dama, assim  
como vocês, ganhei meu pão com o suor do meu rosto; enfrentei privações,  
sofri intempéries, e foi isso que desenvolveu as forças viris de minha alma,  
sem o que eu provavelmente teria sido reprovada na minha experiência mais  
recente o que me teria jogado bem longe para trás. Como eu, vocês também  
terão a sua vez na prova da fortuna; mas não se apressem em pedi-la cedo  
demais. E vocês que são ricos, tenham sempre presente no pensamento que a  
219 O Céu e o Inferno  
verdadeira fortuna a fortuna imperecível não existe na Terra, e  
compreendam a que preço vocês podem merecer os benefícios do Todo-  
Poderoso.”  
PAULA, na Terra, Condessa de...  
JEAN REYNAUD  
(Sociedade Espírita de Paris Comunicação espontânea)  
“Meus amigos, como esta nova vida é magnífica! Semelhante a uma  
torrente luminosa, ela carrega no seu curso imenso as almas inebriadas pelo  
infinito! Após a ruptura dos laços carnais, meus olhos abraçaram os novos  
horizontes que me cercam e eu desfrutei das esplêndidas maravilhas do  
infinito! Passei das sombras da matéria à alvorada deslumbrante que anuncia  
o Onipotente. Fui salvo, não pelo mérito das minhas obras, mas pelo  
conhecimento do princípio eterno que me fez evitar as manchas impressas  
pela ignorância na própria humanidade. Minha morte foi abençoada; meus  
biógrafos aqueles cegos! a julgaram prematura; eles lamentarão alguns  
escritos nascidos da poeira e não compreenderão o quanto o pouco ruído  
feito em torno do meu túmulo recém-fechado é útil para a santa causa do  
Espiritismo. Minha obra estava concluída; meus antecessores abriram o  
caminho; eu havia alcançado aquele ponto culminante em que o homem deu o  
que tinha de melhor e que não faz mais que recomeçar. Minha morte reaviva a  
atração dos letrados e a recoloca sobre a minha obra principal, que toca na  
grande questão espírita que eles fingem ignorar, mas que em breve os  
envolverá. Glória a Deus! Ajudado pelos Espíritos superiores que protegem a  
nova doutrina, serei um dos balizadores que marcarão a sua rota.”  
JEAN REYNAUD  
(Paris; reunião familiar. Outra comunicação espontânea)  
O Espírito responde a uma reflexão feita sobre sua morte inesperada,  
numa idade pouco avançada e que surpreendeu muita gente:  
“Quem diz que a minha morte não foi um benefício para o Espiritismo,  
 
220 Allan Kardec  
para o seu futuro, para as suas consequências? Você percebeu, meu amigo, a  
marcha que segue o progresso, o rumo que toma a fé espírita? Deus  
primeiramente deu provas materiais: dança das mesas, batidas e todos os  
tipos de fenômenos; era para chamar a atenção; era um prefácio divertido.  
Faltava aos homens as provas palpáveis para que eles acreditassem. Agora a  
coisa é bem diferente! Após os fatos físicos, Deus fala à inteligência, ao bom  
senso, à razão fria; já não se trata mais de atos de força, mas sim de coisas  
racionais, que devem convencer e atrair até os incrédulos mais teimosos. E  
isso ainda é só o começo. Note bem o que eu te digo: toda uma série de fatos  
inteligentes e irrefutáveis vão acontecer, e o número dos adeptos da fé  
espírita, já tão grande, vai aumentar ainda mais. Deus vai se impor sobre as  
inteligências da elite, as sumidades do conhecimento, do talento e do saber.  
Será um raio luminoso que se espalhará por toda a Terra, como um fluido  
magnético irresistível, e arrastará os mais recalcitrantes à busca pelo infinito,  
ao estudo dessa admirável ciência que nos ensina máximas tão sublimes.  
Todos vão se agrupar em torno de vocês, e, abstração feita do diploma de  
gênio que lhes havia sido dado, eles vão se fazer humildes e pequenos para  
aprenderem e se convencerem. Depois, mais tarde, quando estiverem bem  
instruídos e bem convencidos, eles usarão da autoridade e da notoriedade do  
nome deles para levar ainda mais longe e atingir os últimos limites da meta  
que vocês todos se propuseram: a regeneração da espécie humana através do  
conhecimento raciocinado e aprofundado das existências passadas e futuras.  
Eis a minha sincera opinião sobre a situação atual do Espiritismo.”  
(Bordeaux)  
Evocação Atendo com prazer ao teu apelo, madame. Sim, você tem  
razão: a perturbação espiritual, por assim dizer, não existiu para mim (isso  
correspondia ao pensamento da médium). Exilado voluntariamente em sua  
terra, onde deveria lançar a primeira semente séria das grandes verdades que  
envolvem o mundo neste momento, eu sempre tive consciência da pátria e  
logo me reconheci no meio dos meus irmãos.  
P. Eu te agradeço por ter aceitado vir, mas não acreditava que meu  
221 O Céu e o Inferno  
desejo de conversar contigo tivesse alguma influência sobre você. Deve haver  
necessariamente uma diferença tão grande entre nós que só penso nisso com  
respeito.  
R. Obrigado por esse bom pensamento, minha filha; porém, você deve  
saber também que, seja qual for a distância estabelecida entre nós pelas  
provas acabadas, mais ou menos prontamente, mais ou menos felizes, sempre  
há um laço poderoso que nos une: a simpatia; e esse laço você o apertou pelo  
teu pensamento constante.  
P. Se bem que muitos Espíritos tenham explicado suas primeiras  
sensações ao despertar, você poderia fazer a gentileza de me contar o que  
experimentou ao se reconhecer aí, e como se operou a separação entre o teu  
Espírito e o teu corpo?  
R. Foi como acontece com todos. Senti o momento da libertação se  
aproximar; entretanto, mais feliz que muitos, a separação não me causou  
angústia porque eu conhecia seus resultados, embora fossem ainda maiores  
do que eu pensava. O corpo é um entrave às faculdades espirituais e, sejam  
quais forem as luzes que se tenha conservado, elas sempre ficam mais ou  
menos abafadas pelo contato da matéria. Adormeci esperando um despertar  
feliz; o sono foi curto e a admiração imensa! Os esplendores celestes se  
desdobraram diante das minhas vistas, brilhavam com toda a sua claridade.  
Meu olhar maravilhado mergulhava nas imensidades desses mundos dos  
quais eu tinha afirmado a existência e habitabilidade. Era uma miragem que  
me revelava a verdade dos meus sentimentos. Mesmo que o homem se sinta  
seguro, quando ele fala, frequentemente no fundo do seu coração há aqueles  
momentos de dúvida, de incerteza; ele fica desconfiado, se não da verdade  
que proclama, pelo menos às vezes dos meios imperfeitos que ele emprega  
para demonstrá-la. Convencido da verdade que eu queria que fosse admitida,  
com frequência tive que combater contra mim mesmo, contra o desânimo de  
ver e, por assim dizer, de tocar a verdade, e de não poder torná-la palpável  
àqueles que teriam tanta necessidade de nela crer para marchar com  
segurança no caminho que eles devem seguir.  
P. Enquanto vivo, você professava o Espiritismo?  
222 Allan Kardec  
R. Entre professar e praticar há uma grande diferença. Muita gente  
professa uma doutrina que não pratica; eu praticava e não professava. Da  
mesma forma que todo homem que segue as leis do Cristo é cristão, ainda que  
o faça sem conhecer essas leis, também todo homem pode ser espírita, desde  
que creia em sua alma imortal, em suas reexistências, em sua marcha  
progressiva incessante, em suas provas terrestres e nas abluções necessárias  
para se purificar. Eu acreditava nisto; então, eu era espírita. Compreendi a  
erraticidade, esse laço intermediário entre as encarnações, esse purgatório  
onde o Espírito culpado se despoja de suas vestes manchadas para revestir  
uma nova roupa, em que o Espírito em progresso tece com cuidado o traje  
que ele vai usar novamente e que ele deseja conservar pura. Eu entendi, como  
já te disse, e sem professar continuei a praticar.  
Observação Essas três comunicações foram obtidas por três médiuns  
diferentes, completamente desconhecidos uns dos outros. Pela analogia dos  
pensamentos e pela forma da linguagem, podemos admitir pelo menos a  
presunção da identidade. A expressão tece com cuidado o traje que ele vai  
usar de novo é uma charmosa figura que pinta a solicitude com a qual o  
Espírito em progresso prepara a nova existência que ainda deve fazê-lo  
progredir. Os Espíritos atrasados tomam menos precauções e algumas vezes  
fazem escolhas infelizes que os forçam a recomeçar.  
ANTOINE COSTEAU  
Membro da Sociedade Espírita de Paris, sepultado em 12 de setembro de  
1863 no cemitério de Montmartre, na vala comum. Era um homem de coração  
que o Espiritismo reconduziu a Deus; sua fé no futuro era completa, sincera e  
profunda. Simples operário de pavimentação, ele praticava a caridade por  
pensamentos, palavras e ações, conforme seus poucos recursos, pois sempre  
achava um meio de ajudar os que tinham menos do que ele. Se a sociedade  
não arcou com os custos de uma sepultura para ele, foi porque tinha uma  
destinação mais útil a fazer dos fundos que teriam sido empregados sem  
proveito para os vivos, em vez de uma vã satisfação da vaidade, além de que  
 
223 O Céu e o Inferno  
os espíritas, principalmente, sabem que a cova comum é uma porta que  
conduz ao céu tanto quanto o mais suntuoso mausoléu.  
O Sr. Canu, secretário da Sociedade e outrora profundo materialista,  
pronunciou sobre o túmulo a seguinte alocução:  
Caro irmão Costeau, há apenas alguns anos, muitos de nós e confesso  
que eu era o primeiro não teríamos visto diante desta cova aberta senão o  
fim das misérias humanas e, depois, o nada, o apavorante nada, quer dizer,  
nada de alma para merecer ou expiar e, consequentemente, nada de Deus  
para recompensar, castigar ou perdoar. Hoje, graças à nossa divina doutrina,  
nós aqui vemos o fim das provações, e para você, caro irmão, cujos despojos  
mortais restituímos à Terra, o triunfo dos teus labores e o começo das  
recompensas merecidas por tua coragem, tua resignação, tua caridade e,  
numa palavra, pelas tuas virtudes; e acima de tudo, vemos toda a glorificação  
de um Deus sábio, todo-poderoso, justo e bom. Portanto, caro irmão, leve  
nossos agradecimentos aos pés do Eterno, que quis dissipar em torno de nós  
as trevas do erro e da incredulidade, porque, ainda pouco tempo atrás, nós te  
teríamos dito nesta circunstância, com a fronte abatida e o desânimo no  
coração: Adeus, amigo, para sempre.Hoje nós te dizemos, com a cabeça  
erguida e radiante de esperança, com o coração cheio de coragem e de amor:  
Caro irmão, até logo, e ore por nós’.”  
Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo sobre a cova, ainda não  
fechada, a comunicação seguinte, da qual todos os presentes inclusive os  
coveiros escutaram a leitura de cabeça descoberta e com profunda  
emoção. Era, de fato, um espetáculo novo e impressionante ouvir palavras de  
um morto, recebidas do seio do próprio túmulo:  
“Obrigado, meus amigos, obrigado! Minha cova ainda não está fechada e,  
no entanto, um segundo a mais e a terra vai cobrir meus despojos. Porém,  
vocês sabem disso, sob essa poeira minha alma não será enterrada, pois ela  
vai planar no espaço para subir até Deus!  
“E como é consolador poder dizer a si mesmo novamente, apesar do  
86 Para mais detalhes, além de outros discursos, ver a Revista Espírita de outubro de 1863: ‘Enterro de  
um Espírita na vala comum’ N. T.  
 
224 Allan Kardec  
invólucro falecido: Oh, não! Não estou morto! Estou vivendo a verdadeira  
vida, a vida eterna!  
O enterro do pobre não é seguido por uma multidão, nem pomposas  
manifestações ocorrem sobre sua tumba; contudo, amigos, creiam em mim,  
imensa multidão aqui não falta, e os bons Espíritos seguiram com vocês e  
com essas mulheres piedosas o corpo que aí jaz estendido! Pelo menos todos  
vocês acreditam e amam o bom Deus!  
Oh, é certo que não! Não morremos só porque o nosso corpo falece,  
esposa bem-amada! E de agora em diante eu estarei sempre perto de ti, para  
te consolar e te ajudar a suportar a prova. Ela, a vida, será rude para ti; mas  
com a ideia da eternidade e do amor de Deus enchendo teu coração, como  
teus sofrimentos serão leves para ti!  
“Parentes que cercam minha bem-amada companheira: amem-na,  
respeitem-na; sejam para ela irmãos e irmãs. Não se esqueçam de que todos  
vocês se devem assistência na Terra, se quiserem entrar na morada do  
Senhor.  
E vocês, espíritas, irmãos, amigos, obrigado por terem vindo me dizer  
adeus até essa morada de pó e barro; mas vocês, vocês sabem e sabem bem  
que a minha alma vive imortal e que ela irá algumas vezes lhes pedir preces,  
que não me serão recusadas de modo algum, para me ajudar a trilhar esta via  
magnífica que vocês me abriram durante a vida.  
Adeus a todos que aqui estão. Poderemos nos rever noutro lugar  
qualquer além deste túmulo. As almas me chamam para o encontro delas. Até  
mais, e orem por aqueles que sofrem. Até mais ver.”  
COSTEAU  
Passados três dias, evocado num grupo particular, o Espírito do Sr.  
Costeau ditou o que segue, através de outro médium:  
“A morte é a vida; não faço mais do que repetir o que já foi dito, mas para  
vocês não há outra expressão senão esta, malgrado o que dizem os  
materialistas, aqueles que querem permanecer cegos. Oh, meus amigos, que  
bela aparição sobre a Terra é ver tremular as bandeiras do Espiritismo!  
Ciência imensa, da qual vocês mal conhecem as primeiras palavras! Quantas  
225 O Céu e o Inferno  
claridades ela traz aos homens de boa vontade, aos que quebraram as  
terríveis amarras do orgulho, para proclamar bem alto a sua crença em Deus!  
Orem, homens, agradeçam a ele por todos esses benefícios. Pobre  
humanidade! Ah, se te fosse permitido compreender!... Mas não, ainda não  
chegou o tempo em que a misericórdia do Senhor deve se estender sobre  
todos os homens, a fim de que eles reconheçam as vontades dele e a elas se  
submetam.  
É por teus raios luminosos, ciência bendita, que eles lá chegarão e que  
eles compreenderão. É ao teu calor benfazejo que eles virão reaquecer os  
corações, no fogo divino que traz a fé e as consolações. É sob os teus raios  
vivificantes que o patrão e o operário virão se fundir e se tornarão um só,  
porque compreenderão essa caridade fraterna pregada pelo divino Messias.  
“Oh, meus irmãos! Pensem na felicidade imensa que vocês possuem por  
terem sido os primeiros iniciados na obra regeneradora. Honra a vocês,  
amigos! Continuem, e como eu, um dia, chegando na pátria dos Espíritos,  
vocês dirão: A morte é a vida, ou melhor, é um sonho, uma espécie de  
pesadelo que dura um minuto e do qual você emerge para se vê cercado de  
amigos que te parabenizam e ficam felizes por te estenderem os braços.  
Minha felicidade foi tão grande que eu não podia compreender que Deus me  
concedesse tantas graças por eu ter feito tão pouco. Parecia que eu estava  
sonhando, e como algumas vezes acontecia de eu sonhar estar morto, eu  
temia por um instante ser obrigado a voltar àquele corpo infeliz; todavia, não  
tardou que me desse conta da realidade e rendesse graças a Deus. Eu bendizia  
o mestre que tão bem soube despertar em mim os deveres de homem que  
pensa na vida futura. Sim, eu o bendizia e lhe agradecia, pois O Livro dos  
Espíritos tinha despertado na minha alma os impulsos de amor pelo meu  
Criador.  
Obrigado, meus bons amigos, por terem me atraído para perto de vocês.  
Digam aos nossos irmãos que eu muitas vezes fico na companhia do nosso  
amigo Sanson. Até mais! Tenham coragem! A vitória espera por vocês. Felizes  
os que tiverem tomado parte no combate!”  
Desde então, o Sr. Costeau se manifestou frequentemente seja na  
226 Allan Kardec  
sociedade, seja noutras reuniões, em que ele sempre deu provas dessa  
elevação de pensamentos que caracteriza os Espíritos avançados.  
EMMA LIVRY87  
Jovem senhorita morta por consequência de um acidente causado por  
fogo, e após cruéis sofrimentos. Alguém se propôs pedir a sua evocação na  
Sociedade Espírita de Paris, quando ela se apresentou espontaneamente, no  
dia 31 de julho de 1863, pouco tempo após seu falecimento.  
“Então aqui estou eu novamente no palco do mundo; eu que me julgava  
enterrada para sempre no meu véu da inocência e da juventude. O fogo da  
Terra me salvou do fogo do inferno assim eu pensava, na minha fé católica.  
E, se eu não ousava entrever os esplendores do paraíso, minha alma trêmula  
se refugiava na expiação do purgatório, enquanto eu orava, sofria e chorava.  
Mas quem dava à minha fraqueza aquela força de suportar minhas angústias?  
Quem, nas longas noites de insônia e de febre dolorosa, se debruçava sobre o  
meu leito de martírio? Quem refrescava meus lábios sedentos? Era você, meu  
anjo guardião, cuja auréola branca me cobria; e vocês também, queridos  
Espíritos amigos, que vinham sussurrar no meu ouvido palavras de esperança  
e de amor.  
“As chamas que consumiam meu pobre corpo também me despojaram  
da ligação com aquilo que é passageiro; assim, eu morri já vivendo a  
verdadeira vida. Não passei pela perturbação, e entrei serena e recolhida no  
dia radioso que envolve os que, após terem sofrido bastante, souberam  
esperar um pouco. Minha mãe, minha querida mãe, foi a última vibração  
terrestre que ressoou na minha alma. Como eu gostaria que ela se tornasse  
espírita!  
Desprendi-me da árvore terrestre como um fruto amadurecido antes do  
tempo. Eu tinha sido apenas arranhada pelo demônio do orgulho que  
contamina as almas infelizes arrastadas pelo sucesso chamativo e  
87 No original, este tópico foi intitulado ‘Senhorita Emma’, acrescido de uma nota de rodapé com o nome  
e sobrenome, que aqui, para efeito prático de designação, já aparecem no tópico, dispensando assim a  
nota do autor para tal finalidade. N. T.  
   
227 O Céu e o Inferno  
embriagador da juventude. Bendigo o fogo, bendigo os sofrimentos, bendigo a  
provação que representava uma expiação. Iguais a esses fios brancos e leves  
do outono, eu flutuo, levado na corrente luminosa; já não são mais as estrelas  
de diamante que brilham na minha fronte, mas as estrelas douradas do bom  
Deus.”  
EMMA  
Em outro centro, no Havre, o mesmo Espírito deu a comunicação  
seguinte, também espontaneamente, no dia 30 de julho de 1863.  
“Aqueles que sofrem na Terra são recompensados na outra vida. Deus é  
pleno de justiça e de misericórdia para com os que sofrem nesse mundo; ele  
concede uma felicidade tão pura, uma felicidade tão perfeita, que ninguém  
deveria temer nem os sofrimentos nem a morte, se fosse possível às pobres  
criaturas humanas sondar os misteriosos desígnios do nosso Criador. Mas a  
Terra é um lugar de provas muitas vezes imensas, muitas vezes semeadas de  
dores bem pungentes. Sejam todos resignados, se forem feridos por essas  
provas; curvem-se, todos vocês, diante da bondade suprema de Deus, que é  
todo-poderoso, se ele lhes der um fardo pesado para carregar. Quando Deus  
lhes chamar de volta para ele, depois de grandes sofrimentos, vocês verão na  
outra vida a vida feliz , o quanto eram insignificantes essas dores e essas  
penas da Terra, quando considerarem a recompensa que Deus lhes reserva —  
desde que nenhuma queixa e nenhum murmúrio tiverem penetrado nos  
corações de vocês. Bem jovem ainda eu deixei a Terra; Deus teve a bondade  
de me perdoar e de me dar a vida dos que respeitaram as vontades dele.  
Adorem sempre a Deus; amem-no de todo o coração; roguem sobretudo a ele,  
roguem-no firmemente; nisso consiste a vossa sustentação neste mundo, a  
vossa esperança e a vossa salvação.”  
EMMA  
DR. VIGNAL  
Antigo membro da Sociedade de Paris, falecido em 27 de março de 1865.  
Na véspera do enterro, um sonâmbulo muito lúcido, e que enxergava muito  
 
228 Allan Kardec  
bem os Espíritos, tendo sido requisitado para se transportar para junto do Dr.  
Vignal e dizer se conseguia vê-lo, então respondeu:  
“Vejo um cadáver no qual se opera um trabalho extraordinário: parece  
uma massa se agitando, como alguma coisa que faz esforços para se  
desprender dessa massa, mas que tem dificuldade para vencer a resistência.  
Não consigo distinguir a forma bem determinada do Espírito.”  
Então ele foi evocado na Sociedade de Paris, a 31 de março.  
P. Caro Sr. Vignal, todos os teus antigos colegas da Sociedade de Paris  
conservaram de ti as melhores lembranças, e eu, em particular, conservei a  
das excelentes relações que nunca foram interrompidas entre nós. Ao te  
chamarmos entre nós, tivemos por objetivo primeiro te dar um testemunho  
de simpatia, e ficaremos muito contentes se você quiser, ou se puder, vir  
conversar conosco. R. Caro amigo e digno mestre, tua boa lembrança e teus  
testemunhos de simpatia me sensibilizam bastante. Se hoje eu posso vir até  
vocês e assistir, livre e desprendido, a esta reunião de todos os nossos bons  
amigos e irmãos espíritas, é graças ao teu bom pensamento e à assistência  
que tuas preces me trouxeram. Como dizia, com justeza, o meu jovem  
secretário, eu estava impaciente para me comunicar; desde o começo desta  
noite, eu empreguei todas as minhas forças espirituais para dominar esse  
desejo. As conversas e as graves questões que vocês estavam discutindo me  
interessaram vivamente e tornaram minha espera menos penosa. Perdoe,  
caro amigo, mas o meu reconhecimento pedia para se manifestar.  
P. Queira nos dizer, inicialmente, como você se encontra no mundo dos  
Espíritos. Ao mesmo tempo, descreva-nos por favor o trabalho da separação,  
tuas sensações naquele momento, e diga-nos quanto tempo levou para se  
reconhecer. R. Estou tão feliz o quanto é possível, quando vemos se  
confirmarem plenamente todos os pensamentos secretos que se pode ter  
emitido sobre uma doutrina consoladora e reparadora. Sou feliz! Sim, sou feliz  
porque agora vejo sem nenhum obstáculo se desenrolar diante de mim o  
futuro da ciência e da filosofia espíritas.  
Porém, descartemos por hoje essas digressões inoportunas; eu virei de  
229 O Céu e o Inferno  
novo lhes informar a respeito, sabendo que minha presença lhes dará tanto  
prazer quanto eu mesmo experimento em visitá-los. O desligamento foi bem  
rápido; mais rápido do que eu esperava, pelo meu pouco mérito. Fui ajudado  
valiosamente pela cooperação de vocês, e o sonâmbulo de vocês deu uma  
descrição do fenômeno da separação nítida o bastante para que eu não  
precise insistir nessa questão. Era um tipo de oscilação descontínua, uma  
espécie de envolvimento em dois sentidos opostos; o Espírito triunfou, já que  
estou aqui. Só deixei o corpo completamente no momento em que ele foi  
depositado na Terra; então eu segui com vocês.  
P. O que acha do serviço prestado nos teus funerais? Fiz questão de estar  
presente. Naquele momento, o amigo estava desprendido o bastante para ver  
tudo aquilo? As preces que fiz em tua intenção (não ostensivamente, claro)  
chegaram até você? R. Sim, como eu te disse, tua assistência teve influência  
em tudo; então voltei com vocês, abandonando completamente minha velha  
crisálida. As coisas materiais pouco me tocam vocês sabem disso, aliás. Eu  
só pensava na alma e em Deus.  
P. Você deve estar lembrado que, a teu pedido, há cinco anos, no mês de  
fevereiro de 1860, nós fizemos um estudo a teu respeito, quando ainda estava  
vivo.88 Naquele momento, teu Espírito desprendeu-se para vir conversar  
conosco. Poderia descrever para nós, tanto quanto possível, a diferença que  
existe entre o teu desprendimento atual e aquele outro? R. Sim, com certeza  
eu me lembro; mas quanta diferença entre o meu estado daquela ocasião e o  
de hoje! Naquela ocasião, a matéria ainda me reprimia com a sua malha  
inflexível; eu queria me desprender de uma maneira mais absoluta, mas não  
podia. Hoje eu estou livre; um vasto campo o do desconhecido abre-se  
para mim e, com a ajuda de vocês e a dos bons Espíritos, aos quais me  
entrego, espero avançar e me compenetrar o mais rapidamente possível dos  
sentimentos que é preciso experimentar, além das ações que devem ser  
realizadas para escalar a senda de provações e então merecer o mundo das  
recompensas. Quanta majestade! Quanta grandeza! É quase um sentimento de  
temor que predomina até que, fracos como somos, queremos fixar as  
88 Veja na Revista Espírita do mês de março de 1860: ‘Estudo sobre o Espírito de pessoas encarnadas’.  
 
230 Allan Kardec  
sublimes claridades.  
P. Enfatizamos que ficaremos felizes em continuar esta conversa,  
quando o amigo bem quiser vir até nós. R. Eu respondi sucintamente e sem  
sequência às suas perguntas diversas. Não esperem muito, por enquanto, do  
seu fiel discípulo, pois ainda não estou inteiramente livre. Conversar e  
continuar conversando seria a minha felicidade, mas meu guia modera meu  
entusiasmo e eu já pude apreciar a sua bondade e a sua justiça o suficiente  
para me submeter inteiramente à decisão dele, por mais que eu lamente ser  
interrompido. Eu me consolo pensando que poderei vir frequentemente  
assistir incógnito às reuniões de vocês. Falarei convosco algumas vezes, pois  
amo todos vocês e quero lhes provar isso; porém, outros Espíritos mais  
avançados do que eu estão pedindo prioridade, e eu devo me curvar diante  
daqueles que gentilmente permitiram ao meu Espírito dar livre curso à  
torrente de pensamentos que já estavam acumulados.  
Vou deixá-los, amigos, e devo agradecer duplamente, não somente a  
vocês espíritas, que me chamaram, como também ao Espírito que permitiu  
que eu tomasse o seu lugar e que, quando estava vivo, portava o nome ilustre  
de Pascal.  
Aquele que foi e será sempre o mais devotado dos seus adeptos.  
DR. VIGNAL  
VICTOR LEBUFLE  
Jovem portuário, empregado no porto do Havre, falecido na idade dos  
vinte anos. Vivia com sua mãe, uma pobre pequena comerciante, a quem ele  
dedicava os mais ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o fruto do  
seu rude trabalho. Jamais o viram frequentar os cabarés, nem se entregar aos  
excessos tão comuns na sua profissão, pois ele não queria desviar a menor  
parte do seu salário daquele piedoso objetivo ao qual estava destinado. Todo  
o tempo que não era gasto no seu serviço, ele consagrava à sua mãe, para  
poupá-la do cansaço. Sofrendo há muito tempo da doença da qual sentia que  
iria morrer, ele ocultava seus sofrimentos com medo de causar inquietação na  
 
231 O Céu e o Inferno  
sua mãe, para que ela mesma não quisesse se encarregar da tarefa dele. Era  
preciso a esse moço um grande conjunto de qualidades naturais e uma  
grandiosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações do meio em  
que vivia, bem na idade das paixões. Ele era de uma sincera piedade, e a sua  
morte foi edificante.  
Na véspera do seu falecimento, ele tinha exigido de sua mãe que ela fosse  
repousar um pouco, alegando que ele também precisava dormir. Então ali ela  
teve uma visão: ela disse que se achava numa grande escuridão, quando viu  
um ponto luminoso que aumentava pouco a pouco, e o quarto ficou iluminado  
por uma forte claridade, da qual se destacava a figura do seu filho, radiante,  
elevando-se no espaço infinito. Ela compreendeu que seu fim estava próximo;  
de fato, no dia seguinte, aquela bela alma deixaria a Terra, enquanto seus  
lábios murmuravam uma prece.  
Uma família espírita, que conhecia sua bela conduta e se preocupava  
com a sua mãe, que ficara sozinha, teve a intenção de evocá-lo pouco tempo  
depois da sua morte, sendo que ele se manifestou espontaneamente, com a  
seguinte comunicação:  
Vocês desejam saber como estou agora: estou muito feliz! Ah, muito  
feliz mesmo! Não levem em conta as aflições e angústias, pois elas são a fonte  
das bênçãos e da felicidade no além-túmulo. Felicidade! Vocês não entendem  
o que essa palavra significa. Os prazeres da Terra estão longe daquilo que nós  
experimentamos quando retornamos para o Mestre com a consciência pura,  
com a confiança do servo que bem cumpriu o seu dever e que espera repleto  
de alegria a aprovação daquele que é tudo!  
Oh, meus amigos, a vida é penosa e difícil se vocês não olham para a  
finalidade; mas eu lhes digo, em verdade, que quando vierem para junto de  
nós, se sua vida foi conforme a lei de Deus, vocês serão recompensados além,  
mas muito além dos sofrimentos e dos méritos que vocês acham ter  
conquistado para o céu. Então, sejam bons, sejam caridosos, dessa caridade  
desconhecida por muito dentre os homens; dessa que se chama benevolência.  
Sejam úteis aos seus semelhantes; façam por eles mais do que vocês  
gostariam que fizessem por vocês, pois vocês ignoram a miséria íntima deles e  
conhecem a sua própria. Socorram minha mãe, minha pobre mãe, meu único  
232 Allan Kardec  
pesar da Terra. Ela deve passar por outras provas, e é preciso que ela chegue  
ao céu. Adeus, eu estou indo até ela.”  
VICTOR  
O guia do médium Os sofrimentos experimentados durante uma  
encarnação terrestre nem sempre constituem uma punição. Os Espíritos que,  
pela vontade de Deus, vem cumprir uma missão na Terra tal como este que  
veio se comunicar com vocês , ficam felizes por passarem pelos males que  
para outros são uma expiação. O sono os revigora perante o Altíssimo e lhes  
dá a força para suportarem tudo, em favor de sua maior glória. A missão deste  
Espírito, na sua última existência, não era uma missão de destaque; porém,  
por mais que ela fosse obscura, nem por isso ele teve menos mérito, porque  
ele não permitiu ser estimulado pelo orgulho. Ele tinha o dever, antes de tudo,  
de gratidão a cumprir para com aquela que foi sua mãe; depois, ele devia  
mostrar que, nos piores ambientes, é possível encontrarmos almas puras, de  
sentimentos nobres e elevados, e que através da vontade nós podemos  
resistir a todas as tentações. Isso é uma prova de que as qualidades têm uma  
causa anterior, e de que o exemplo dele não foi inútil.  
ANAÏS GOURDON  
Muito jovem e notável pela doçura do seu caráter, além das mais  
eminentes qualidades morais, ela morreu em novembro de 1860. Pertencia a  
uma família de trabalhadores das minas de carvão nos arredores de Saint-  
Étienne, circunstância importante para valorizar sua posição espiritual.  
Evocação R. Estou aqui.  
P. Teu marido e teu pai me pediram para que eu te chamasse, e eles  
ficarão muito felizes em obter uma comunicação tua. R. Eu também estou  
muito feliz por respondê-los.  
P. Por que você foi tirada tão cedo do afeto da tua família? R. Por eu ter  
terminado minhas provações terrenas.  
 
233 O Céu e o Inferno  
P. Você costuma ir vê-los? R. Sim, estou frequentemente perto deles.  
P. Está feliz como Espírito? R. Estou feliz; eu aguardo, tenho esperança,  
amo; os céus não significam terror para mim, e espero com confiança e amor  
que as asas brancas me elevem.  
P. O que você entende por essas asas? R. Pretendo me tornar um  
Espírito puro e resplandecer como os mensageiros celestes que me  
deslumbram.  
As asas dos anjos, arcanjos e serafins, que são Espíritos puros, evidentemente  
não passam de um atributo imaginado pelos homens para descrever a rapidez com  
que eles se transportam, já que a sua natureza etérea os dispensa de qualquer apoio  
para percorrer os espaços. Entretanto, um anjo pode aparecer aos homens com esse  
acessório, para corresponder ao pensamento deles, assim como outros Espíritos  
tomam a aparência que tinham na Terra, para serem reconhecidos.  
P. Teus parentes podem fazer algo que seja agradável para ti? R. Eles  
podem, esses seres queridos, não mais me entristecer com a visão de seus  
pesares, pois já sabem que não estou perdida para eles; que para eles a minha  
memória seja doce, leve e perfumada em suas lembranças. Eu passei como  
uma flor, e nada de triste deve restar de minha rápida passagem.  
P. Como a tua linguagem pode ser tão poética e tão pouco relacionada  
com a posição que você ocupava na Terra? R. Porque é a minha alma que  
está falando. Sim, eu tinha conhecimentos adquiridos e, muitas vezes, Deus  
permite que Espíritos delicados se encarnem entre os homens mais rudes  
para lhes fazerem pressentir as delicadezas que eles atingirão e que  
compreenderão mais tarde.  
Sem essa explicação tão lógica e tão conforme à solicitude de Deus para com as  
suas criaturas, dificilmente nos daríamos conta do que, à primeira vista, poderia  
parecer uma anomalia. Com efeito, o que há de mais gracioso e mais poético do que a  
linguagem do Espírito dessa jovem senhora, educada em meio aos mais rudes  
trabalhos? O contrário é visto muitas vezes: Espíritos inferiores encarnados entre  
homens mais adiantados, mas com um objetivo oposto, sendo que é em vista de seu  
próprio adiantamento que Deus os põe em contato com um mundo esclarecido e,  
algumas vezes, também para servirem de provação a esse mesmo ambiente. Que  
234 Allan Kardec  
outra filosofia pode resolver tais problemas?  
MAURICE GONTRAN  
Era filho único, falecido aos dezoito anos, devido uma afecção no peito.  
Inteligência rara, razão precoce, grande amor ao estudo, caráter doce, amável  
e simpático, ele possuía todas as qualidades que dão as mais legítimas  
esperanças de um futuro brilhante. Seus estudos foram concluídos  
antecipadamente com o maior sucesso e ele trabalhava para a Escola  
Politécnica. A sua morte foi para os pais a causa de uma dessas dores que  
deixam marcas profundas e tanto mais penosas porque, como ele sempre teve  
uma saúde delicada, eles atribuíram o seu fim prematuro ao trabalho ao qual  
eles o haviam empurrado, e por isso se martirizavam, dizendo: “De que lhe  
serve agora tudo o que aprendeu? Melhor teria sido que ele tivesse  
permanecido ignorante, pois não precisava disso para viver, e sem dúvidas ele  
ainda estaria entre nós; ele seria o consolo na nossa velhice.Se eles tivessem  
conhecido o Espiritismo, certamente teriam raciocinado de outra forma. Mais  
tarde, eles encontraram nele a verdadeira consolação. A comunicação  
seguinte foi dada pelo filho deles a um dos seus amigos, alguns meses depois  
da morte do rapaz:  
P. Meu caro Maurice, o carinhoso apego que você tem pelos teus pais faz  
com que eu não duvide do teu desejo de reerguer o ânimo deles, se isso  
estiver ao teu alcance. A tristeza eu diria até desespero em que a tua  
morte os mergulhou está alterando visivelmente a saúde deles e os faz tomar  
a vida com desgosto. Com certeza, algumas boas palavras tuas poderão fazer  
renascer neles a esperança.  
R. Meu velho amigo, esperei com impaciência a ocasião que você está me  
oferecendo de me comunicar. A dor de meus pais me aflige, mas ela se  
acalmará quando eles tiverem a certeza de que não estou perdido para eles. É  
para convencê-los dessa verdade que você deve se esforçar, e por certo você  
conseguirá isso. Era preciso esse acontecimento para conduzi-los a uma  
crença que lhes trará felicidade, pois ela os impedirá de murmurar contra os  
decretos da Providência. Meu pai, como você sabe, era muito cético a respeito  
 
235 O Céu e o Inferno  
da vida futura; então Deus permitiu que passasse por essa aflição para  
tirá-lo do seu erro.  
Nós nos reencontraremos aqui, neste mundo onde não conhecemos mais  
os desgostos da vida, e para onde eu vim de vocês; mas diga mesmo a meus  
pais que a satisfação de me reverem aqui poderá ser recusada a eles, como  
punição pela falta de confiança deles na bondade de Deus. Eu ficaria até  
mesmo proibido, até então, de me comunicar com eles enquanto eles ainda  
permanecerem na Terra. O desespero é uma revolta contra a vontade do  
Todo-Poderoso, e que é sempre punido pelo prolongamento da causa que  
levou a esse desespero, até que finalmente todos sejam submissos. O  
desespero é verdadeiro suicídio, porque ele mina as forças do corpo, e quem  
abrevia os seus dias com a intenção de escapar mais cedo das garras da dor  
prepara para si próprio as mais cruéis decepções; mas, ao contrário, é para  
cultivar as forças do corpo que devemos trabalhar, a fim de suportar mais  
facilmente o peso das provas.  
Meus bondosos pais, é a vocês que eu me dirijo. Desde que deixei meus  
despojos mortais, jamais cessei de estar perto de vocês, e aí estou com muito  
mais frequência do que quando vivia na Terra. Portanto, consolem-se, pois eu  
não estou morto; estou mais vivo do que vocês; só o meu corpo morreu,  
enquanto meu Espírito vive sempre. Ele está livre, feliz e agora protegido de  
doenças, de enfermidades e da dor. Em lugar de se afligirem, alegrem-se em  
saber que estou num ambiente isento de preocupações e de alarmes, onde o  
coração fica inebriado de uma alegria pura e sem mancha.  
Oh, meus amigos! Não chorem pelos que morrem prematuramente; isso  
é uma bênção que Deus concede a eles, poupando-os das tribulações da vida.  
A minha existência na Terra desta vez não devia se prolongar por muito mais  
tempo, porque eu já tinha adquirido o que devia adquirir em preparação para  
cumprir mais adiante uma missão mais importante. Se eu tivesse vivido aí por  
longos anos, sabe-se lá a quais perigos, a quais seduções eu teria sido  
exposto? Sabia que, não estando ainda forte o bastante para resistir, se eu  
teria sucumbido, isso poderia ser para mim um atraso de vários séculos? Por  
que então lamentar o que me é vantajoso? Uma dor inconsolável, nesse caso,  
acusaria uma falta de fé e não poderia ser legítima senão pela crença no nada.  
236 Allan Kardec  
Oh, sim! Eles são dignos de pena, aqueles que conservam essa crença  
desesperadora, pois para eles não existe consolação possível; os seus entes  
queridos estão perdidos, sem volta; o túmulo levou a sua última esperança!  
P. A tua morte foi dolorosa?  
R. Não, meu amigo, eu só sofri antes de morrer, devido a doença que me  
levou embora; mas esse sofrimento diminuía à medida que o derradeiro  
instante se aproximava; então, certo dia, adormeci sem pensar na morte. Eu  
tive um sonho, oh, um sonho delicioso! Sonhei que estava curado; já não sofria  
mais, eu respirava a plenos pulmões e voluptuosamente um ar embalsamado  
e revigorante; então fui transportado através do espaço por uma força  
desconhecida, e uma luz cintilante resplandecia em torno de mim, mas sem  
cansar minha vista. Eu vi meu avô; ele não tinha mais a fisionomia magricela,  
mas sim um aspecto esbelto e jovial; ele me estendia os braços e me abraçava  
efusivamente ao coração. Um monte de gente com semblante sorridente o  
acompanhava, todos me acolhendo com bondade e gentileza; parecia que eu  
os reconhecia, que estava contente por revê-los, e todos juntos trocávamos  
palavras e gestos de amizade. Pois bem! O que eu acreditava ser um sonho era  
a realidade: eu não deveria mais acordar na Terra, pois eu havia acordado no  
mundo dos Espíritos.  
P. Tua doença não foi provocada por tua grande assiduidade ao estudo?  
R. Oh, não! Estejam bem certos disso. O período que eu deveria viver na  
Terra já estava marcado e nada poderia me reter aí por mais tempo. Meu  
Espírito, nos momentos de desprendimento, já sabia disso e ficava feliz em  
pensar na libertação que se aproximava. Mas o período que aí passei não foi  
sem proveito, e hoje me felicito por não o ter desperdiçado. Os estudos sérios  
que fiz fortificaram minha alma e aumentaram meus conhecimentos; tantas  
coisas aprendi, e se não pude aplicá-los nessa minha curta existência entre  
vocês, eu vou aplicá-los mais tarde com maior proveito.  
Adeus, caro amigo; agora vou para junto dos meus pais, prepará-los para  
receberem esta comunicação.  
MAURICE  
237 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO III  
ESPÍRITOS EM  
CONDIÇÕES MEDIANAS  
JOSEPH BRÉ  
Falecido em 1840, evocado em Bordeaux em 1862, por sua neta  
O homem honesto segundo Deus ou segundo os homens  
1. Querido avô, poderia me dizer como se encontra entre os Espíritos, e me  
dar alguns detalhes instrutivos para o nosso avanço? R. Tudo que quiser,  
minha criança querida. Estou expiando minha falta de fé, mas a bondade de  
Deus é grande: ele leva em conta as circunstâncias. Estou sofrendo, porém não  
como você poderia imaginar: sofro de arrependimento por não ter usado bem  
meu tempo na Terra.  
2. Como não? O senhor sempre viveu honestamente... R. Sim, do ponto de  
vista dos homens; mas há um abismo entre a pessoa honesta perante os  
homens e a pessoa honesta perante Deus. Você quer se instruir, minha  
querida, então eu procurarei te demonstrar a diferença.  
Entre vocês, é considerado como homem honesto quando o indivíduo  
respeita as leis do seu país um respeito subjetivo, para muitos e quando  
ele não prejudica o seu próximo tomando seus bens de maneira visível;  
todavia, sua honra e sua felicidade frequentemente lhe são tiradas sem dó no  
   
238 Allan Kardec  
momento em que o código das leis ou a opinião pública não consegue pegar o  
culpado hipócrita. Quando alguém manda gravar na sua lápide uma infinidade  
de pretensas virtudes, todos acreditam que ele tenha quitado sua dívida com  
a humanidade! Quanto erro! Para ser honesto perante Deus, não basta não ter  
desrespeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não ter  
transgredido as leis divinas.  
Honesto perante Deus é aquele que, pleno de devotamento e de amor,  
consagra sua vida ao bem, ao progresso de seus semelhantes. Aquele que,  
motivado por um zelo devido à objetividade, for ativo na vida: ativo no  
cumprimento dos compromissos materiais que lhe são impostos, pois ele  
deve ensinar aos seus irmãos o amor ao trabalho; ativo nas boas obras, pois  
ele não deve esquecer que ele não passa de um servo a quem o patrão um dia  
pedirá contas da aplicação do seu tempo; ativo no final, pois ele deve pregar  
pelo exemplo o amor ao Senhor e ao próximo. O homem honesto perante  
Deus deve evitar com cuidado essas palavras mordazes, veneno escondido  
sob flores, que destrói reputações e muitas vezes mata o homem moral,  
vestindo-o de ridículo. O homem honesto para Deus deve sempre ter o  
coração fechado para o menor sinal de orgulho, de inveja e de ambição. Ele  
deve ser paciente e gentil para com aqueles que o atacam; deve perdoar do  
fundo do seu coração, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer  
que o tenha ofendido; deve amar seu criador em todas as suas criaturas; deve,  
finalmente, pôr em prática este preceito tão conciso e tão grande dos deveres  
do homem: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.  
Aí está, minha cara criança, em poucas palavras, o que deve ser o homem  
honesto perante Deus. Pois bem, teria eu feito tudo isso? Não; eu faltei com  
muitas dessas condições aqui confesso sem corar. Não tive a atividade que  
um homem deve ter; esquecer o Senhor me levou a outros esquecimentos  
que, conquanto não serem punidas pelas leis humanas, nem por isso deixam  
de ser prevaricações contra a lei de Deus. Sofri bastante com isso desde  
quando o compreendi; é por isso que hoje eu aguardo, mas com a esperança  
consoladora na bondade de Deus, que vê o meu arrependimento. Querida  
neta, exclame e repita tudo isso àqueles que têm a consciência pesada. Que  
eles compensem suas faltas pelo valor das boas obras, e a misericórdia divina  
239 O Céu e o Inferno  
se estenderá pela superfície da Terra. Seus olhos paternais contarão as  
provações e sua mão poderosa apagará as faltas.  
HELENA MICHEL89  
Jovem dama de vinte e cinco anos, morta subitamente em sua casa, sem  
sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Ela era rica, um pouco frívola  
e, por consequência da leviandade de seu caráter, ocupava-se mais com as  
futilidades da vida do que com as coisas sérias. Apesar disso, seu coração era  
bondoso: era dócil, benévola e caridosa.  
Evocada três dias após sua morte, por pessoas que a conheciam, ela  
assim se exprimiu:  
“Não sei onde estou... que turbação me cerca!... Vocês me chamaram e eu  
vim... Não compreendo por que não estou em minha casa... estão chorando a  
minha ausência, eu lá estou, mas não consigo fazer com que eles me  
reconheçam... Meu corpo não me pertence mais e mesmo assim eu o sinto frio,  
gelado... Eu quero deixá-lo, mas estou presa a ele, sempre retorno a ele... Sou  
duas pessoas... Oh, quando compreenderei o que está acontecendo comigo?...  
Ainda preciso ir lá... meu outro EU, o que seria dele, estando eu ausente?...  
Adeus!”  
O sentimento de dualidade, que ainda não foi destruído por uma separação  
completa, aqui está evidente. De caráter pouco sério, sua posição de fortuna que  
lhe permitia satisfazer seus caprichos devia favorecer suas tendências à  
leviandade. Então, não é de admirar que o seu desprendimento tenha sido lento, e  
que, três dias após a morte, ela ainda se sentia ligada ao seu envoltório corporal. Mas  
como ela não tinha nenhum vício sério e como seu íntimo era bom, essa situação nada  
tinha de muito penosa e não deveria durar muito tempo. Evocada novamente alguns  
dias depois daquela primeira conversa, suas ideias já tinham mudado bastante. Eis o  
que ela disse:  
Obrigada por ter orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me  
poupou de sofrimentos e apreensões do momento da separação do meu corpo  
89 No original, Hélène Michel. N. T.  
   
240 Allan Kardec  
e do meu Espírito. Minha pobre mãe terá muita dificuldade em se resignar,  
mas ela será amparada, e aquilo que a seus olhos é um terrível infortúnio era  
indispensável, para que as coisas do céu se tornassem para ela o que devem  
ser: tudo. Estarei perto dela até o fim da sua prova terrena e eu a ajudarei a  
suportá-la. Não sou infeliz, porém, eu ainda tenho muito a fazer para avançar  
rumo à morada dos bem-aventurados. Eu rogarei a Deus que me permita  
retornar à Terra, porque tenho que reparar o tempo que aí perdi nessa  
existência. Que a fé ampare vocês, meus amigos; tenham confiança na eficácia  
da prece, desde que ela parta verdadeiramente do coração. Deus é bom.”  
P. Levou muito tempo para você se reconhecer? R. Eu me dei conta da  
morte no mesmo dia em que vocês oraram por mim.  
P. Esse estado de perturbação foi doloroso? R. Não, eu não sofria;  
acreditava estar sonhando e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta  
de dores, mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer; resignei-me à  
vontade de Deus e isso me foi levado em conta. Fico agradecida a vocês pelas  
preces que me ajudaram no meu despertamento. Obrigado; eu voltarei  
sempre com prazer. Adeus.  
HELENA  
MARQUÊS DE SAINT-PAUL  
Falecido em 1860 e evocado a pedido de sua irmã, membro da Sociedade de Paris, em  
16 de maio de 1861)  
1. Evocação R. Aqui estou presente.  
2. A senhora sua irmã nos pediu te evocarmos, embora seja médium; mas ela  
ainda não é bastante experiente para estar tão segura de si. R. Tentarei  
responder da melhor forma que eu puder.  
3. Ela deseja saber inicialmente se você está feliz. R. Eu sou um errante, e  
esse estado transitório não proporciona nem felicidade completa nem o  
castigo absoluto.  
4. Demorou muito para se reconhecer? R. Fiquei muito tempo em  
perturbação e só saí desse estado para abençoar a piedade daqueles que não  
 
241 O Céu e o Inferno  
me esqueceram e por mim oraram. P. Conseguiria calcular a duração dessa  
perturbação? R. Não.  
5. Quais foram os parentes que você reconheceu de pronto? R. Reconheci  
minha mãe e meu pai, quando ambos me receberam ao despertar; eles me  
apresentaram à vida nova.  
6. Por que é que no final da tua moléstia você parecia estar conversando com  
aqueles a quem amava na Terra? R. Porque, antes de morrer, eu tive a  
revelação do mundo onde eu iria habitar. Eu era vidente antes de morrer, e os  
meus olhos estavam encobertos na passagem da separação definitiva do  
corpo, porque os laços carnais ainda estavam muito vigorosos.  
7. Por que parece que preferencialmente você tem recordações da tua  
infância? R. Porque o começo está mais próximo do fim do que o meio da  
vida. Como você entende disso? R. Isso quer dizer que os moribundos  
lembram e veem, como numa miragem de consolação, os anos jovens e  
puros.  
Provavelmente, é por um motivo providencial semelhante que os idosos, à  
medida que se eles aproximam do término da vida, têm algumas vezes uma lembrança  
precisa dos mínimos detalhes dos seus primeiros anos de vida.  
8. Por que, ao falar do teu corpo, sempre falava na terceira pessoa? R.  
Porque eu era vidente, como já te disse, e sentia claramente as diferenças  
entre o físico e o moral; essas diferenças, mescladas entre si pelo fluido da  
vida, tornam-se bem definidas aos olhos dos moribundos clarividentes.  
Eis aí uma particularidade singular que a morte deste senhor apresenta. Nos  
seus derradeiros momentos, ele repetia continuamente: Ele está com sede, é preciso  
lhe dar de beber; ele tem frio, é preciso aquecê-lo; ele está sofrendo em tal posição  
etc.” E quando lhe diziam: “Mas é você que está com sede”, ele respondia: Não, é ele.”  
Aqui se distinguem perfeitamente as duas existências: o eu pensante está no Espírito,  
e não no corpo; o Espírito, já em parte desprendido, considerava o corpo como outra  
individualidade que propriamente falando não era ele; era, portanto, ao seu corpo que  
se devia dar de beber, e não ao seu Espírito. Esse fenômeno também é percebido em  
alguns sonâmbulos.  
9. O que você disse do teu estado errante e da duração da tua perturbação,  
242 Allan Kardec  
levaria a crer que você não está muito feliz, e, no entanto, as tuas qualidades  
deveriam fazer supor o contrário. Além disso, há Espíritos errantes que são  
felizes, assim como há os infelizes... R. Eu me encontro num estado  
transitório; as virtudes humanas adquirem aqui o seu real valor. Sem dúvida,  
a minha situação é mil vezes preferível à da encarnação terrestre, mas eu  
sempre carreguei comigo as aspirações ao verdadeiro bem e ao verdadeiro  
belo, e minha alma não ficará saciada senão quando ela voar até os pés do seu  
Criador.  
DR. CARDON  
O Sr. Cardon havia passado boa parte da sua vida na marinha mercante,  
na qualidade de médico de navio baleeiro, onde tinha adquirido habilidades e  
ideias um tanto materialistas; retirando-se no vilarejo de J..., ali exercia a  
modesta profissão de médico rural. Depois de algum tempo, adquirira a  
certeza de que era portador de uma hipertrofia do coração e, sabendo que  
essa doença era incurável, o pensamento da morte o mergulhou numa  
sombria melancolia, da qual nada podia distraí-lo. Cerca de dois meses antes,  
ele predisse o seu fim fixando o dia exato; quando se viu perto de morrer,  
reuniu sua família em torno dele para lhe dar o último adeus. Sua esposa, sua  
mãe, seus três filhos e outros parentes estavam em volta do seu leito; no  
momento em que sua mulher tentava erguê-lo, ele desabou, todo pálido, seus  
olhos se fecharam e então foi dado como morto; sua senhora se colocou à  
frente para esconder a cena dos seus filhos. Após alguns minutos, ele reabriu  
os olhos; seu rosto, por assim dizer iluminado, assumiu uma expressão de  
radiosa beatitude e ele exclamou: “Oh, meus filhos, como é belo! Como é  
sublime! Oh, a morte! Que bênção! Que coisa doce! Eu estava morto e senti  
minha alma se elevar bem alto, bem alto; mas Deus me permitiu voltar para  
lhes dizer: Não temam, pois a morte é a libertação... Como eu gostaria de  
descrever para vocês a magnificência do que vi e as impressões de que me  
senti dominado! Mas vocês não conseguiriam compreender... Oh, meus filhos,  
comportem-se sempre de maneira a merecer essa inefável felicidade,  
reservada aos homens de bem! Vivam segundo a caridade! Se tiverem alguma  
 
243 O Céu e o Inferno  
coisa, doem uma parte àqueles a quem falta o necessário... Minha querida  
esposa, eu te deixo numa posição que não é feliz; há quem nos deva dinheiro,  
mas eu te imploro que não atormente aqueles que nos devem; se eles  
estiverem em dificuldades, espere até que possam pagar, e aos que não  
puderem, perdoe-lhes, e Deus te recompensará por isso. Você, meu filho,  
trabalhe para sustentar tua mãe; seja sempre um homem honesto e cuide-se  
para não fazer nada que possa desonrar nossa família. Tome essa cruz que  
vem de minha mãe; não a largue e que ela te faça lembrar sempre meus  
últimos conselhos... Meus filhos, ajudem-se e se amparem mutuamente; que a  
boa harmonia reine entre vocês; não sejam nem vaidosos nem orgulhosos;  
perdoem seus inimigos, se quiserem que Deus perdoe vocês...” Depois,  
mandando seus filhos se aproximarem, estendeu as mãos para eles e  
acrescentou: “Meus filhos, eu vos abençoo.” E seus olhos desta vez se  
fecharam para sempre; porém, sua fisionomia conservava uma expressão tão  
imponente que, até o momento em que foi enterrado, uma grande multidão  
veio contemplá-lo com admiração.  
Como esses interessantes detalhes nos foram transmitidos por um  
amigo da família, então nós tivemos o pensamento de que essa evocação  
poderia ser instrutiva para todos, ao mesmo tempo que seria útil para aquele  
Espírito.  
1. Evocação. R. Estou perto de vocês.  
2. Relataram-nos teus instantes finais, o que nos encheram de admiração.  
Teria a bondade de nos descrever, da melhor forma que puder, o que você viu  
no intervalo daquilo que poderíamos chamar de tuas duas mortes? R. O que  
eu vi, será que vocês poderiam compreender? Não sei, pois eu não  
encontraria expressões capazes de tornar compreensível o que vi durante os  
poucos instantes em que me foi possível deixar meus restos mortais.  
3. Você se deu conta do lugar onde esteve? É longe da Terra, em outro planeta  
ou no espaço? R. O Espírito não conhece o valor das distâncias, tal como  
vocês enxergam. Levado não sei por qual agente maravilhoso, eu vi o  
esplendor de um céu como só nossos sonhos poderiam realizá-lo. Essa  
excursão através do infinito se fez tão rapidamente que não posso precisar os  
244 Allan Kardec  
instantes empregados pelo meu Espírito.  
4. Atualmente, você usufrui da felicidade que tinha entrevisto? R. Não; bem  
que eu gostaria, mas Deus não pode me recompensar assim. Várias vezes eu  
me revoltei contra os pensamentos abençoados que meu coração ditava, e a  
morte me parecia uma injustiça. Médico incrédulo, eu tinha adquirido na arte  
de curar uma aversão contra a segunda natureza, que é o nosso movimento  
inteligente, divino; a imortalidade da alma era uma ficção própria para  
seduzir as naturezas pouco elevadas; entretanto, o vazio me apavorava, pois  
eu maldizia muitas vezes esse agente misterioso que fere sempre e sempre. A  
filosofia me desencaminhou, sem me fazer compreender toda a grandeza do  
Eterno, que sabe distribuir a dor e a alegria para o ensino da humanidade.  
5. Após a tua morte verdadeira, você logo se deu conta de si? R. Não;  
reconheci-me durante a transição pela qual meu Espírito passou para  
percorrer os lugares etéreos; mas após a morte real, não; foi preciso alguns  
dias para o meu despertar.  
Deus me concedeu uma graça, e eu vou lhes dizer a razão:  
Minha incredulidade inicial não existia mais; antes da minha morte eu já  
tinha acreditado, porque depois de ter sondado cientificamente a grave  
questão que me fazia definhar, tendo esgotado todas as explicações terrenas,  
então só me restava a razão divina; ela tinha me inspirado e me consolado, e a  
minha coragem era mais forte do que a dor. Eu bendizia o que havia  
amaldiçoado; o fim me parecia a libertação. O pensamento de Deus é grande  
como o mundo! Oh, que suprema consolação há na prece que dá inefáveis  
enternecimentos; ela é o elemento mais seguro de nossa natureza imaterial;  
por ela eu compreendi, eu acreditei firmemente, soberanamente, e é por isso  
que Deus, escutando minhas ações benignas, quis por bem me recompensar  
antes do fim da minha encarnação.  
6. Poderíamos dizer que na primeira vez você estava morto? R. Sim e não;  
tendo o Espírito deixado o corpo, naturalmente a carne se extinguira; mas ao  
retomar a posse de minha morada terrena, a vida voltou ao corpo, que havia  
passado por uma transição, um sono.  
7. Nesse momento, você sentia os laços que te prendiam ao corpo? R. Fora  
245 O Céu e o Inferno  
de dúvida; o Espírito tem um laço difícil de desatar, faltando-lhe um último  
estremecimento da carne para retornar à sua vida natural.  
8. Como é que, durante a tua morte aparente, e por alguns minutos, o teu  
Espírito pudesse se desprender instantaneamente e sem dificuldade, ao passo  
que a morte real foi seguida de uma perturbação de vários dias? Parece que  
no primeiro caso, como os laços entre a alma e o corpo são mais fortes do que  
no segundo, o descolamento deveria ser mais lento; mas o que ocorreu foi o  
contrário... R. Vocês têm feito com frequência a evocação de um Espírito  
encarnado e têm recebido respostas reais; eu estava na situação desses  
Espíritos. Deus me chamou e seus servidores me disseram: “Vem...”. Eu  
obedeci, e agradeço a Deus pela graça especial que ele bem quis me conceder.  
Pude ver a infinitude de sua grandeza e dela me dar conta. Obrigado àqueles  
que, antes da minha morte real, me permitiu instruir os meus parentes a  
serem encarnações boas e justas.  
9. De onde vieram as tuas belas e bondosas palavras que, quando do teu  
retorno à vida, você dirigiu à tua família? R. Eram o reflexo do que tinha  
visto e ouvido; os Espíritos bons inspiraram a minha voz e animaram o meu  
semblante.  
10. Que impressão você acha que a tua revelação causou nas pessoas  
presentes e particularmente nos teus filhos? R. Impactante, profunda. A  
morte não é mentirosa; os filhos, por mais ingratos que possam ser, curvam-  
se diante da encarnação que se vai. Se pudéssemos perscrutar o corações dos  
seus filhos, junto a um túmulo entreaberto, sentiríamos bater apenas  
sentimentos verdadeiros, profundamente tocados pela mão secreta dos  
Espíritos que a todos ditam esses pensamentos: Estremeçam, se estiverem na  
dúvida; a morte é a reparação, a justiça de Deus, e eu lhes asseguro isso,  
malgrado os incrédulos, meus amigos e minha família acreditarão nas  
palavras que minha boca pronunciou antes de eu morrer. Eu era o intérprete  
de um outro mundo.  
11. Disse não estar desfrutando da felicidade que você entreviu; então se  
sente infeliz? R. Não, porque eu acreditava antes de morrer, e isso em minha  
alma e consciência. A dor aperta aqui neste mundo, mas também sobe para o  
246 Allan Kardec  
futuro espiritual. Notem que Deus soube levar em conta as minhas preces e a  
minha crença absoluta nele; estou na rota da perfeição e chegarei ao objetivo  
que me foi permitido entrever. Orem, meus amigos, orem por esse mundo  
invisível que preside aos destinos de vocês; este intercâmbio fraternal é  
caridade; é uma alavanca potente que põe em comunicação os Espíritos de  
todos os mundos.  
12. Gostaria de remeter algumas palavras à tua esposa e aos teus filhos? R.  
Eu rogo a todos os meus entes que creiam em Deus poderoso, justo e  
imutável; na prece que consola e alivia; na caridade, que é o ato mais puro da  
encarnação humana; que eles se lembrem de que é válido doar ainda que  
pouco: o óbolo do pobre é o mais meritório diante de Deus, que sabe que um  
pobre doa muito mesmo doando pouco. É preciso que o rico dê altos valores e  
muitas vezes para merecer tanto quanto o pobre.  
O futuro é a caridade, a benevolência em todas as ações; é crer que todos  
os Espíritos são irmãos, jamais se gabando de todas as vaidades infantis.  
Família bem-amada, você terá rudes provas; contudo, saiba suportá-las  
corajosamente, pensando que Deus te assiste.  
Diga sempre essa prece:  
Deus de amor e de bondade, que dá tudo e sempre, concede-nos essa  
força que não recua ante nenhuma dor, torne-nos bons, gentis e caridosos,  
pequenos em fortuna e grandes em coração. Que o nosso Espírito seja espírita  
na Terra, para melhor te compreender e te amar.”  
Que teu nome, ó meu Deus, emblema de liberdade, seja o propósito  
consolador de todos os oprimidos, de todos aqueles que têm necessidade de  
amar, de perdoar e crer.  
CARDON  
ÉRIC STANISLAS  
(Comunicação espontânea; Sociedade de Paris, agosto de 1863)  
Quanta felicidade nos trazem as emoções sentidas vivamente por  
corações calorosos! Ó suaves pensamentos que vêm abrir um caminho de  
 
247 O Céu e o Inferno  
salvação a tudo que vive, a tudo que respira material e espiritualmente! Que o  
seu bálsamo consolador jamais cesse de se espalhar em largas ondas sobre  
vocês e sobre nós! Que expressão escolher para traduzir a satisfação vivida  
por todos vocês, irmãos do além-túmulo, na contemplação do amor puro que  
os une!  
Ah, irmãos, quanta bondade em toda parte, quantos sentimentos  
suaves, elevados e simples como vocês! Como a sua doutrina, vocês são  
convocados a semear pela longa estrada que vocês ainda têm a percorrer; mas  
também, o quanto tudo isso lhes será concedido antes mesmo de terem  
adquirido o seu direito!  
Eu assisti a toda essa noite; eu ouvi, percebi, entendi e, por minha vez,  
também vou poder cumprir o meu dever e instruir a classe dos Espíritos  
imperfeitos.  
Escutem: eu estava longe de ser feliz; mergulhado na imensidade, no  
infinito, os meus sofrimentos eram tão intensos que eu não tinha uma exata  
noção deles. Mas, Deus seja bendito! Ele me permitiu vir a um santuário que  
os ímpios não podem atravessar impunemente. Amigos, quanto sou grato a  
vocês! Quantas forças eu hauri entre vocês!  
Oh, homens de bem, reúnam-se frequentemente; instruam, pois vocês  
não podem imaginar quantos frutos produzem as reuniões sérias que há entre  
vocês; os Espíritos que ainda têm muitas coisas a aprender, aqueles que ficam  
voluntariamente inativos, preguiçosos e esquecidos dos seus deveres, estes  
podem estar presentes entre vocês seja por uma circunstância fortuita, seja  
por outra razão. Tocados por um choque terrível e isso é o que muitas  
vezes acontece eles podem refletir sobre si mesmos, podem reconhecer  
sua situação e enfim entrever o objetivo a alcançar, para então, fortalecidos  
pelo exemplo que vocês dão a eles, procurarem os meios que podem fazê-los  
sair do penoso estado na qual eles se encontram. Com uma enorme satisfação,  
faço-me porta-voz das almas sofredoras, pois é a homens de coração que me  
dirijo, e sei que não serei repudiado.  
Queiram mais uma vez, ó homens generosos, receber a expressão do  
meu reconhecimento particular, e a gratidão de todos os nossos amigos a  
quem vocês têm feito tanto bem, talvez até sem saberem disso.”  
ÉRIC STANISLAS  
248 Allan Kardec  
O guia do médium Meus filhos, este é um Espírito que estava muito  
infeliz, por ter se transviado durante um longo tempo. Então, ele  
compreendeu os seus erros, arrependeu-se e enfim voltou seus olhos para  
Deus, que ele ignorava. Sua posição não é a de alguém feliz, mas ele já aspira à  
felicidade e não está mais sofrendo. Deus lhe permitiu vir escutar, para depois  
ir a uma esfera inferior, a fim de instruir e fazer avançar os Espíritos que,  
como ele, transgrediram as leis do Eterno; esta é a reparação que lhe foi  
pedida. Doravante ele conquistará a felicidade, porque ele tem vontade de ser  
feliz.  
ANNA BELLEVILLE  
Jovem mulher falecida aos trinta e cinco anos, após longa e cruel  
enfermidade. Vivaz, extrovertida, dotada de uma rara inteligência, de grande  
retidão de julgamento e eminentes qualidades morais, devotada esposa e mãe  
de família, ela possuía além disso uma força de caráter pouco comum e um  
espírito fértil em recursos, tanto que ela jamais foi pega desprevenida nas  
circunstâncias mais críticas da vida. Sem rancor daqueles de quem ela podia  
se queixar, estava sempre pronta a lhes prestar serviço. Estando intimamente  
ligado a ela desde muitos anos, nós pudemos acompanhar todas as fases da  
sua existência e todos os imprevistos do seu desfecho.  
Um acidente provocou a terrível moléstia que a levaria, mas que antes a  
manteria três anos acamada, presa dos mais atrozes sofrimentos, que ela  
suportou até o último momento com uma coragem heroica, em meio ao qual  
sua graça natural não a abandonou. Acreditava firmemente na alma e na vida  
futura, mas se preocupava muito pouco com isso; todos os seus pensamentos  
se voltavam para a vida presente, à qual ela valorizava bastante, mas sem  
temer a morte e sem procurar os gozos materiais, já que sua vida era muito  
simples e ela deixava, sem dificuldade, passar aquilo que ela não podia obter.  
Entretanto, tinha instintivamente o gosto pelo bom e pelo belo, que ela sabia  
aplicar até nas menores coisas. Queria viver menos para ela mesma do que  
para os seus filhos, aos quais ela sentia que era necessária; eis por que ela era  
apegada à vida. Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo;  
 
249 O Céu e o Inferno  
interessava-se por ele, mas nunca pôde fixar seus pensamentos no futuro;  
para ela, isso era uma ideia verdadeira, porém não causava nenhuma  
impressão profunda no seu espírito. O que ela fazia de bem resultava de um  
impulso natural, espontâneo, e não inspirado pela intenção de uma  
recompensa ou de penas futuras.  
Já há muito tempo seu estado era desesperador e todo mundo esperava  
vê-la partir de um momento para outro; ela própria não tinha mais  
esperanças. Certo dia, quando seu marido estava ausente, ela sentiu se  
desfalecer e entendeu que sua hora havia chegado; sua vista ficou turva, a  
perturbação a invadiu e ela experimentou todas as angústias da separação. No  
entanto, ela lamentava morrer antes do retorno do marido; então, fazendo  
sobre si mesma um esforço extremo, ela falou consigo: Não, eu não quero  
morrer!Daí, ela sentiu a vida renascer nela, e recobrou o pleno uso das suas  
faculdades. Quando o marido voltou, ela lhe disse: “Eu ia morrer, mas quis  
esperar que você estivesse perto de mim, pois ainda tinha algumas  
recomendações a te fazer.” A luta entre a vida e a morte se prolongou por  
mais três meses que não foi outra coisa senão uma longa e dolorosa agonia.  
Evocação no dia seguinte da sua morte Meus bons amigos, obrigado  
por se preocuparem comigo. Ademais, vocês foram para mim como bons  
parentes. Pois bem, regozijem-se, estou feliz. Tranquilizem meu pobre marido  
e cuidem dos meus filhos. Eu fui para junto deles tão logo em seguida.  
P. Parece que a tua perturbação não foi longa, já que está nos  
respondendo com lucidez. R. Meus amigos, eu sofri tanto, e vocês sabem que  
sofri com resignação! Pois bem, a minha prova terminou. Dizer a vocês que eu  
esteja completamente libertada, não; mas não estou sofrendo mais, e isso para  
mim é um grande alívio! Agora estou radicalmente curada, eu lhes asseguro,  
mas preciso de ajuda através de preces para depois vir trabalhar com vocês.  
P. Qual poderia ter sido a causa dos teus longos sofrimentos? R. Um  
passado terrível, meu amigo.  
P. Poderia nos dizer qual foi esse passado? R. Oh, deixem-me esquecê-  
lo um pouco, pois eu paguei muito caro por ele!  
250 Allan Kardec  
Um mês após sua morte P. Agora que você deve estar completamente  
desprendida e que nos reconhece melhor, nós ficaríamos contentes em ter  
uma conversa mais explícita contigo. Poderia nos dizer qual a causa da tua  
longa agonia? Por que você ficou durante três meses entre a vida e a morte? –  
R. Obrigado, meus bons amigos, pela lembrança e pelas preces de vocês!  
Como elas foram salutares para mim, e como contribuíram para o meu  
desprendimento! Ainda tenho necessidade de ser amparada; então,  
continuem a orar por mim. Vocês compreendem o valor da prece. Não são  
fórmulas banais as que vocês dizem, como outros tantos que não se dão conta  
do efeito que uma boa oração produz.  
Sofri enormemente, porém meus sofrimentos me foram largamente  
compensados, e muitas vezes me foi permitido estar perto dos meus filhos  
queridos que deixei com tanto pesar!  
Prolonguei por mim mesma meus sofrimentos; meu ardente desejo de  
viver pelos filhos fazia com que me agarrasse de alguma forma à matéria e, ao  
contrário dos outros, eu me endureci e não queria abandonar o infeliz corpo  
com o qual eu precisava romper, e que ao mesmo tempo era para mim o  
instrumento de tantas torturas. Esta é a verdadeira causa da minha longa  
agonia. Minha doença, os sofrimentos que padeci, eram expiação do passado,  
uma dívida a mais a pagar.  
Ó meus amigos, se eu tivesse escutado vocês, quanta mudança haveria  
na minha vida presente! Que suavidade eu teria experimentado nos meus  
derradeiros instantes, e quanto essa separação teria sido fácil se, em vez de a  
contrariar, eu tivesse me entregado com confiança à vontade de Deus, à  
corrente que me arrastava! Mas ao invés de lançar meu olhar para o porvir  
que me aguardava, eu via apenas o presente que eu ia deixar!  
Quando voltar à Terra, eu serei espírita garanto a vocês! Que ciência  
grandiosa! Com muita frequência eu assisto às suas reuniões e aos conselhos  
que lhes são transmitidos. Se eu tivesse compreendido isso quando estava na  
Terra, meus sofrimentos teriam sido bem suavizados; porém a hora não havia  
chegado. Hoje eu compreendo a bondade de Deus e a sua justiça, mas ainda  
não estou adiantada o suficiente para deixar de me ocupar com as coisas da  
vida; meus filhos principalmente ainda me prendem a ela, não mais para  
251 O Céu e o Inferno  
mimá-los, porém para velar por eles e cuidar para que sigam o roteiro que o  
Espiritismo traça neste momento. Sim, meus bons amigos, eu ainda tenho  
graves preocupações; uma sobretudo, pois o futuro dos meus filhos depende  
disso.  
P. Poderia nos dar algumas explicações sobre o passado que você  
deplora? R. Ai de mim, meus bons amigos! Estou pronta para lhes fazer uma  
confissão. Eu ignorava o sofrimento; vi minha mãe sofrer sem ter piedade  
dela; eu a tratava como uma doente imaginária. Como nunca a tinha visto  
acamada, presumi que ela não estava sofrendo e eu ri dos seus sofrimentos. É  
assim como Deus pune.  
Seis meses após sua morte P. Agora que um tempo bastante longo se  
passou desde que você deixou o envoltório terrestre, poderia retratar para  
nós a tua situação e tuas ocupações no mundo dos Espíritos? R. Durante a  
minha vida terrena eu era o que geralmente chamamos de uma boa pessoa,  
mas antes de tudo eu prezava o meu bem-estar; compassiva por natureza,  
talvez eu não fosse capaz de um sacrifício penoso para amenizar um  
infortúnio. Hoje, tudo está mudado; continuo sendo eu, mas o eu de outrora  
sofreu modificações. Eu progredi, e vejo que não há nem classes nem  
condições outras além do mérito pessoal no mundo dos invisíveis, onde um  
povo caridoso e bom fica acima do rico orgulhoso que humilhava com a sua  
esmola. Eu zelo especialmente pela classe dos afligidos pelos tormentos  
familiares, pela perda de parentes ou da fortuna; eu tenho como missão  
consolá-los e os encorajar, e sou feliz por fazer isso.  
ANNA  
Uma importante questão decorre dos fatos citados, que é esta:  
Uma pessoa poderia, por um esforço da sua própria vontade, retardar o  
momento da separação da alma e do corpo?  
Resposta do Espírito de são Luís Essa questão, resolvida de uma  
maneira afirmativa e sem restrições, poderia dar lugar a falsas consequências.  
Em determinadas condições, um Espírito encarnado certamente pode  
prolongar a existência corpórea para concluir instruções indispensáveis ou  
que ele acredita serem como tais; isso lhe pode ser permitido, como no caso  
252 Allan Kardec  
aqui tratado, e dos quais temos muitos exemplos. Em todos os casos, esse  
prolongamento da vida só pode ser por uma curta duração, pois não pode ser  
dado ao homem intervir na ordem das leis da natureza, nem provocar um  
retorno real à vida depois que ela tiver chegado ao seu fim; não é mais do que  
um adiamento momentâneo. Contudo, não obstante a possibilidade do fato,  
não devemos concluir que ele possa se comum, nem crer que dependa de cada  
pessoa prolongar assim a sua existência. Como provação para o Espírito ou  
no interesse de uma missão a cumprir, os órgãos gastos podem receber um  
suplemento de fluido vital que lhes permita acrescentar alguns instantes à  
manifestação material do pensamento; os casos semelhantes são exceção, e  
não regra. Muito menos devemos ver nesse fato uma derrogação de Deus à  
imutabilidade de suas leis, mas sim uma consequência do livre-arbítrio da  
alma humana que no derradeiro instante toma consciência da missão que lhe  
foi confiada e que gostaria, apesar da morte, de terminar o que não havia  
conseguido. Às vezes, isso pode ser também um tipo de punição infligida ao  
Espírito que duvida do futuro, permitindo-lhe um prolongamento de  
vitalidade com o qual necessariamente ele sofre.  
SÃO LUÍS  
Alguém ainda poderia estranhar a rapidez do desprendimento deste Espírito,  
Anna Belleville, em vista do seu apego à vida carnal; mas é preciso considerar que tal  
apego nada tinha de sensual nem de material; tinha até mesmo o seu lado moral, já  
que era motivado pelo interesse dos filhos com pouca idade. Era, além disso, um  
Espírito adiantado em inteligência e em moralidade: um grau a mais e ele poderia  
estar entre os Espíritos muito felizes. Nos laços perispirituais, portanto, não havia a  
resistência causada pela identificação com a matéria; pode-se dizer que a vida,  
enfraquecida por uma longa enfermidade, só se prendia por alguns fios; eram esses  
fios que ele queria impedir que se rompessem. Porém, o Espírito foi punido pela  
resistência com o prolongamento dos seus sofrimentos, devido à própria doença, e  
não por causa da dificuldade do desprendimento. Eis por que, após a libertação, a  
perturbação foi de curta duração.  
Um fato igualmente importante decorre desta evocação, assim como da maior  
parte das que foram feitas em épocas diversas, mais ou menos distantes da morte: é a  
modificação que ocorre gradualmente nas ideias do Espírito, e cujo progresso pode  
ser observado. No caso deste Espírito, essa modificação se traduz, não por melhores  
253 O Céu e o Inferno  
sentimentos, mas por uma apreciação mais sensata das coisas. O progresso da alma na  
vida espiritual é, pois, um fato constatado pela experiência; a vida corporal é a  
execução prática desse progresso, a prova de suas resoluções, o crisol em que ele se  
depura.  
Desde o instante em que a alma progride após a morte, a sua sorte não pode ser  
irrevogavelmente fixada, pois a fixação definitiva do destino é como já dissemos  
outras vezes a negação do progresso. E como as duas coisas não podem existir  
simultaneamente, resta aquela que tem a sanção dos fatos e da razão.  
254 Allan Kardec  
CAPÍTULO IV  
ESPÍRITOS SOFREDORES  
O CASTIGO  
(Exposição geral do estado dos culpados em sua entrada no mundo dos Espíritos,  
ditada à Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860)  
Os Espíritos malvados, egoístas e endurecidos, logo após a morte ficam  
entregues a uma dúvida cruel sobre a sua destinação presente e futura; eles  
olham em torno de si e a princípio não veem nada sobre o que possam exercer  
sua personalidade maligna, e então o desespero toma conta deles, porque o  
isolamento e a inércia são intoleráveis aos Espíritos maus. Eles não erguem  
seu olhar para os lugares habitados pelos Espíritos puros, pois reconhecem o  
que os cerca e então, atentos ao abatimento dos Espíritos fracos e punidos,  
agarram-se a eles como a uma presa, armando-se da lembrança de suas faltas  
passadas, que eles colocam incessantemente em ação pelos seus gestos  
irrisórios. Não lhes sendo suficiente essa zombaria, eles se atiram à Terra  
iguais a abutres famintos, procurando entre os homens a alma que lhes abrirá  
acesso mais facilmente às tentações; apoderam-se dela e atiçam sua cobiça,  
tratando de acabar com a fé dela em Deus, até que finalmente, senhores de  
uma consciência, vendo sua presa garantida, eles estendem o contágio fatal a  
tudo o que se aproxime de sua vítima.  
O Espírito mau que exerce sua raiva fica quase feliz; só sofre nos  
momentos em que ele deixa de agir e quando o bem triunfa sobre o mal.  
   
255 O Céu e o Inferno  
No entanto, os séculos se passam; de repente o mau Espírito sente as  
trevas invadirem-no; seu círculo de ação se restringe e sua consciência, até  
então silenciosa, lhe faz sentir as pontas afiadas do remorso. Inativo e tomado  
pelo turbilhão, ele vagueia e, como dizem as Escrituras, sente os pelos da sua  
carne se arrepiarem de pavor. Logo mais, um grande vazio se faz nele e em  
torno dele; chega o momento em que ele deve expiar; a reencarnação está  
bem ali, ameaçadora. Ele vê, como num espelho, as provas terríveis que o  
aguardam; ele gostaria de recuar, mas avança e, precipitado no abismo  
escancarado da vida, então ele rola assustado, até que o véu da ignorância  
recaia sobre os seus olhos. Ele vive, age, ainda é culpado; ele sente nele  
mesmo sabe-se lá que lembrança inquieta, pressentimentos que o fazem  
tremer, mas não o fazem recuar na via do mal. Cansado das forças e dos  
crimes, ele vai morrer. Estendido num catre ou sobre uma cama que  
importa isso?! , o homem culpado sente, sob sua aparente imobilidade,  
remoer-se e viver um mundo de sensações esquecidas. Sob as pálpebras  
fechadas, ele vê despontar uma réstia, ele ouve estranhos sons; sua alma,  
prestes a deixar seu corpo, agita-se impacientemente, enquanto as mãos  
crispadas tentam se agarrar aos lençóis; ele desejaria falar, de gritar àqueles  
que o rodeiam: Retenham-me! Eu vejo o castigo! Mas ele não consegue; a  
morte se fixa em seus lábios pálidos e os assistentes dizem: Descanse em paz!  
Todavia, ele escuta tudo; ele flutua em torno do seu corpo, que ele não  
queria abandonar. Uma força misteriosa o atrai; ele vê e reconhece aquilo que  
ele já tinha visto. Desesperado, ele se lança no espaço onde desejaria se  
esconder. Nada de descanso, chega de repouso! Outros Espíritos lhe devolvem  
o mal que ele fez e, castigado, ridicularizado e confuso, por sua vez ele vagueia  
e vagueará até que um facho da luz divina penetre no seu endurecimento e o  
esclareça, para lhe mostrar o Deus vingador, o Deus triunfante sobre todo o  
mal, que ele não poderá apaziguar senão à força de gemidos e de expiações.  
GEORGES  
Jamais foi traçado um quadro mais eloquente, mais terrível e mais verdadeiro  
sobre a destinação da pessoa malvada. Será que ainda é necessário recorrermos à  
fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?  
256 Allan Kardec  
NOVEL  
(O Espírito se dirige ao médium que ele tinha conhecido enquanto estava vivo)  
Vou te contar o que eu sofri quando morri. Meu Espírito, retido ao meu  
corpo por laços materiais, teve grande dificuldade para se desprender o  
que já foi uma primeira e rude angústia. A vida que eu estava deixando aos  
vinte e quatro anos ainda era tão intensa em mim que eu não podia crer na  
sua perda. Eu procurava meu corpo e fiquei atônito e assustado ao me ver  
perdido no meio dessa multidão de sombras. Por fim, a consciência do meu  
estado e a revelação das faltas que eu havia cometido em todas as minhas  
encarnações me atingiram abruptamente; uma luz implacável iluminava os  
recônditos mais secretos da minha alma, que se sentia nua e depois tomada  
de uma acabrunhante vergonha. Tentei escapar disso interessando-me por  
objetos novos novos, porém conhecidos que me cercavam; os Espíritos  
radiantes, flutuando no éter, me davam a ideia de uma felicidade à qual eu não  
podia aspirar; formas sombrias e desoladas algumas delas mergulhadas  
num mórbido desespero, outras irônicas ou furiosas deslizavam em torno  
de mim e por sobre o chão ao qual eu permanecia atado. Eu via os humanos se  
agitarem, cuja ignorância eu invejava; toda uma ordem de sensações  
desconhecidas ou redescobertas invadiu-me de uma só vez. Impelido  
como que por uma força irresistível, procurando fugir dessa dor feroz, então  
atravessei distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as  
belezas da natureza nem os esplendores celestes pudessem acalmar um  
instante sequer o dilaceramento da minha consciência, nem o terror que me  
causava a revelação da eternidade. Um mortal é capaz de pressentir as  
torturas materiais pelos arrepios da carne, mas as suas frágeis dores,  
suavizadas pela esperança, temperadas pelas distrações, mortas pelo  
esquecimento, nunca poderão fazer vocês compreenderem as agonias de uma  
alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Passei um  
tempo, cuja duração não posso precisar, invejando os eleitos de quem eu via o  
esplendor, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com as suas  
chacotas, desprezando os humanos dos quais eu via as torpezas, passando de  
um profundo desânimo para uma revolta insensata.  
 
257 O Céu e o Inferno  
Finalmente você me evocou e, pela primeira vez, um sentimento doce e  
terno me acalmou; escutei os ensinamentos que os teus guias te dão, a  
verdade me penetrou e eu orei: Deus me ouviu; ele se revelou a mim por sua  
clemência, assim como havia se revelado por sua justiça.  
NOVEL  
AUGUSTE MICHEL  
(Le Havre, março de 1863)  
Era um rapaz rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida  
material. Conquanto inteligente, a indiferença pelas coisas sérias era a base do  
seu caráter. Sem maldade, antes bom que mau, ele era estimado por seus  
companheiros de farra e requisitado na alta sociedade por suas qualidades de  
homem mundano. Ainda que não tenha praticado a maldade, também não fez  
o bem. Morreu de uma queda da carruagem durante um passeio. Evocado  
alguns dias depois do seu passamento por um médium que o conhecia  
indiretamente, ele deu sucessivamente as seguintes comunicações:  
8 de março de 1863 Mal acabo de me livrar do meu corpo; assim  
sendo, dificilmente posso falar com você. A terrível queda que matou meu  
corpo colocou meu Espírito num estado de grande perturbação. Estou  
inquieto com o que vai acontecer comigo e essa incerteza é cruel. O doloroso  
sofrimento que o meu corpo experimentou não representa nada em  
comparação com a perturbação pela qual estou passando. Ore para que Deus  
me perdoe. Oh, que dor! Oh, meu Deus, tenha misericórdia! Quanta dor!  
Adeus.  
18 de março Já estive com você, mas só pude falar com muita  
dificuldade; ainda nesse momento eu mal posso me comunicar contigo. Você é  
o único médium a quem eu posso pedir orações para que a bondade de Deus  
me tire da perturbação em que me encontro. Por que sofrer ainda, se o meu  
corpo não sofre mais? Por que essa dor horrível, essa angústia terrível  
persistindo sempre?! Ore! Oh, ore para que Deus me conceda repouso... Oh,  
258 Allan Kardec  
que incerteza cruel! Ainda estou ligado ao meu corpo. Só com dificuldade eu  
posso ver onde estou; meu corpo lá está, e por que eu continuo lá também?  
Venha orar sobre ele para que eu fique livre dessa cruel opressão. Deus há de  
me perdoar, eu espero. Vejo os Espíritos que estão junto de ti e através deles  
eu posso falar contigo. Ore por mim.  
6 de abril Sou eu quem vem te pedir que ore por mim. É preciso ir até  
o lugar onde jaz o meu corpo, para rogar ao Todo-Poderoso que acalme os  
meus sofrimentos! Estou sofrendo! Oh, como sofro! Vá até lá, porque isso é  
necessário, e dirija ao Senhor uma prece para que ele me dê o perdão. Sinto  
que eu poderei ficar mais tranquilo, porém volto incessantemente ao lugar em  
que depositaram o que me pertencia.  
Como o médium não tinha dado importância à insistência do Espírito, que lhe  
solicitara ir orar sobre o seu túmulo, então tinha negligenciado aquele pedido. Porém,  
mais tarde ele foi até lá, e naquele local ele recebeu a comunicação adiante:  
11 de maio Estava esperando por você; eu aguardava o momento em  
que viesse ao local onde meu Espírito parece grudado ao seu envoltório, a fim  
de implorar ao Deus de misericórdia para que sua bondade suavize os meus  
sofrimentos. Você pode fazer o bem por mim com preces, não esmoreça, eu te  
suplico. Eu vejo o quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ter sido;  
vejo os erros que cometi. Fui um ser inútil no mundo; não fiz nenhum bom  
uso das minhas capacidades; minha fortuna não serviu senão para satisfazer  
às minhas paixões, aos meus prazeres luxuosos e à minha vaidade; só pensei  
nos gozos do corpo, e não na minha alma. Será que a misericórdia de Deus  
descerá sobre mim, pobre Espírito que ainda sofre pelas faltas terrenas? Ore  
para que ele me perdoe, e que eu fique livre das dores que ainda sinto.  
Agradeço por você ter vindo aqui orar por mim.  
8 de junho Agora posso falar, e agradeço a Deus por me permitir isso.  
Eu vi minhas faltas e creio que Deus me perdoará. Siga teu caminho sempre  
de acordo com a crença que te anima, porque ela te reserva para mais tarde  
um repouso que eu ainda não tenho. Obrigado pelas tuas preces. Até mais ver!  
A insistência desse Espírito para que fossem orar sobre o seu túmulo é uma  
particularidade marcante, mas que tinha sua razão de ser se considerarmos o quanto  
259 O Céu e o Inferno  
eram tenazes os laços que o retinham ao corpo, e o quanto a separação foi longa e  
difícil, por consequência da materialidade da sua existência. Compreende-se que,  
sendo feita mais próxima do corpo, a prece podia exercer uma espécie de ação  
magnética mais poderosa para ajudar no desprendimento. Será que o costume quase  
universal de orar perto do corpo dos defuntos não vem da intuição inconsciente que  
nós temos desse efeito? Nesse caso, a eficácia da oração teria um resultado ao mesmo  
tempo moral e material.  
LAMENTAÇÕES DE UM BOÊMIO  
(Bordeaux, 19 de abril de 1862)  
30 de julho Estou menos infeliz agora, pois não sinto mais a corrente  
que me atava ao corpo; estou livre, enfim, mas ainda não completei a  
expiação: preciso reparar o tempo perdido, se eu não quiser ver meus  
sofrimentos se prolongarem. Deus assim espero verá meu sincero  
arrependimento e certamente virá me conceder seu perdão. Continue orando  
por mim, eu te suplico.  
Homens, irmãos meus, eu vivi só para mim e hoje eu expio e sofro! Que  
Deus lhes dê a graça de evitarem os espinhos nos quais me dilacero.  
Caminhem na via larga do Senhor e orem por mim, porque eu abusei dos  
benefícios que Deus empresta às suas criaturas!  
Aquele que sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons  
sentimentos que Deus coloca nele assemelha-se ao animal que o homem  
muitas vezes maltrata. O homem deve usar com sobriedade os bens de que ele  
é depositário; ele deve se habituar a viver só em vista da eternidade que o  
aguarda, e, por consequência, deve se desapegar dos gozos materiais. Sua  
alimentação não deve ter outro fim além da sua vitalidade; seu luxo deve estar  
subordinado às necessidades estritas da sua posição; seus gostos, seus  
pendores mesmo os naturais devem ser regidos pela mais forte razão,  
pois sem isso ele se materializa em vez de se depurar. As paixões humanas  
constituem um vínculo estreito que se infiltram na carne: então, não estreitem  
ainda mais esse vínculo. Vivam, mas não sejam boêmios. Vocês não sabem o  
quanto isso nos custa quando retornamos à pátria! As paixões terrenas os  
 
260 Allan Kardec  
espoliam antes mesmo de os largarem, e aí vocês chegam ao Senhor nus,  
inteiramente nus. Ah! Cubram-se de boas obras, porque elas ajudarão vocês a  
franquear o espaço que os separa da eternidade; como um manto brilhante,  
elas escondem as torpezas humanas de vocês. Vistam-se da caridade e do  
amor, vestes divinas que ninguém pode remover.  
Instruções do guia do médium Este Espírito está num bom caminho,  
pois ao arrependimento ele acrescenta conselhos para que se fique atento  
quanto aos perigos da rota que ele seguiu. Reconhecer os erros já é um mérito  
e um passo dado para o bem; eis por que a sua situação, mesmo sem ser feliz,  
nem por isso é a de um Espírito sofredor. Ele está arrependido; resta-lhe a  
reparação, que ele cumprirá numa outra existência de provações. Mas antes  
de lá chegar: será que vocês percebem qual é a situação desses homens de  
vida toda sensual que não deram ao próprio espírito outra atividade além da  
de inventar incessantemente novos prazeres? A influência da matéria os  
segue no além-túmulo e a morte não põe fim aos seus apetites que a sua vista  
tão limitada como na Terra procura em vão os meios de os saciar. Jamais  
tendo procurado o alimento espiritual, a alma deles vagueia no vazio, sem  
rumo, sem esperança, presa à ansiedade do homem que não tem diante de si  
nada além da perspectiva de um deserto sem fronteiras. A nulidade de suas  
ocupações intelectuais durante a vida do corpo leva naturalmente à nulidade  
do trabalho espiritual depois da morte; não podendo mais satisfazer o corpo,  
nada lhes restará para satisfazer o Espírito. Daí, um tédio mortal do qual eles  
não preveem o término, e ao qual eles prefeririam o nada. Mas o nada não  
existe; eles puderam matar o corpo, porém não podem matar o Espírito. É  
preciso, portanto, que eles vivam nessas torturas morais até que, vencidos  
pelo desgaste, se decidam lançar um olhar para Deus.  
LISBETH  
(Bordeaux, 13 de fevereiro de 1862)  
Um Espírito sofredor se inscreve com o nome de Lisbeth.  
1. Poderia nos dar alguns detalhes a respeito da tua situação e a causa dos  
 
261 O Céu e o Inferno  
teus sofrimentos? R. Seja humilde de coração, submisso à vontade de Deus,  
paciente nas provas, caridoso para com o pobre, encorajador para com o  
fraco, caloroso de coração para com todos os sofrimentos e você não sofrerá  
as torturas que eu enfrento.  
2. Se você foi arrastado pelos erros contrários às qualidades que você aponta,  
por outro lado, parece que você se arrepende deles. Esse arrependimento  
consegue te aliviar? R. Não; o arrependimento é inútil quando é apenas a  
consequência do sofrimento. O arrependimento produtivo é aquele que tem  
por base o remorso por ter ofendido Deus e o desejo ardente de reparar o  
erro. Ainda não cheguei a esse ponto, infelizmente. Recomende-me às preces  
de todos aqueles que se preocupam com os sofrimentos alheios, pois eu  
preciso delas.  
Aqui está uma grande verdade; o sofrimento às vezes provoca um grito de  
arrependimento, mas que não é a expressão sincera do remorso por ter feito o mal,  
porque, se o Espírito não estivesse sofrendo, ele estaria pronto para recomeçar suas  
faltas. É por isso que o arrependimento nem sempre leva à imediata libertação do  
Espírito; ele predispõe o remorso, só isso; porém, falta-lhe provar a sinceridade e a  
firmeza de suas resoluções por meio de novas provações que formam a reparação do  
mal que ele praticou. Se meditarmos cuidadosamente sobre todos os exemplos que  
citamos, encontraremos nas palavras dos Espíritos até mesmo dos mais inferiores  
sérios temas de instrução, porque elas nos apresentam os detalhes mais íntimos da  
vida espiritual. Enquanto a pessoa superficial não verá nesses exemplos mais do que  
narrativas mais ou menos curiosas, a pessoa séria e sensata encontrará neles uma  
fonte abundante de estudos.  
3. Farei o que você deseja. Poderia me dar alguns pormenores da tua última  
existência? Isso pode resultar em algum ensinamento útil para nós, e assim  
você tornaria o teu arrependimento produtivo.  
(O Espírito demonstra uma grande indecisão ao responder a essa pergunta e  
algumas outras seguintes.)  
R. Nasci numa condição elevada. Eu tinha tudo o que os homens  
consideram como a fonte da felicidade. Rica, fui egoísta; bela, fui vaidosa,  
insensível, falsa; nobre, fui ambiciosa. Esmaguei com o meu poder todos os  
que não se prostraram o bastante diante de mim, e esmaguei também aqueles  
262 Allan Kardec  
que se encontravam sob meus pés, sem pensar que a cólera do Senhor  
também esmaga, cedo ou tarde, as cabeças mais erguidas.  
4. Em que época você viveu? R. Há 150 anos, na Prússia.  
5. Desde esse tempo, você não fez nenhum progresso como Espírito? R. Não;  
a matéria se revoltava sempre. Você não pode entender a influência que ela  
ainda exerce, apesar da separação do corpo e do Espírito. O orgulho, veja só,  
enlaça o indivíduo em correntes de bronze, cujos anéis apertam cada vez mais  
o miserável que lhe entrega o coração. Orgulho, essa hidra de cem cabeças  
sempre renascentes, que sabe modular seus assobios venenosos de tal  
maneira que são interpretados como sendo uma música celestial! Orgulho,  
esse demônio múltiplo que se curva a todas as aberrações do Espírito, que se  
esconde em todos os refolhos do coração, que penetra nas veias, que envolve,  
que absorve e em seguida arrasta às trevas da geena eterna!... sim, eterna!  
O Espírito diz que não fez nenhum progresso, certamente porque sua situação é  
sempre penosa; mas a maneira como descreve o orgulho e deplora as suas  
consequências é incontestavelmente um progresso, pois seguramente, enquanto  
estava encarnado, e mesmo logo após sua morte, ele não poderia raciocinar assim. Ele  
compreende o mal e isso já é alguma coisa; a coragem e a determinação de evitá-lo lhe  
virão em seguida.  
6. Deus é bom demais para condenar suas criaturas a penas eternas; confie na  
sua misericórdia. R. Pode haver um fim para isso, dizem, mas onde? Eu o  
procuro há muito tempo e só vejo sofrimento sempre! Sempre, sempre!  
7. Como veio parar hoje aqui? R. Um Espírito que às vezes me acompanha  
me trouxe aqui. Desde quando você vê esse Espírito? R. Não faz muito  
tempo. E desde quando você se deu conta das faltas que cometeu? R.  
(após uma longa reflexão.) Sim, você tem razão; só então eu percebi.  
8. Compreende agora a relação que há entre o teu arrependimento e a ajuda  
visível prestada pelo teu Espírito protetor? Veja como origem desse apoio o  
amor de Deus, e veja como objetivo seu perdão e sua misericórdia infinita. –  
R. Oh, como eu desejaria isso! Creio que posso te prometer isso pelo nome  
sagrado daquele que jamais foi surdo à voz dos filhos em sofrimento. Chame-o  
263 O Céu e o Inferno  
do fundo do teu arrependimento e ele te ouvirá. R. Não posso; tenho medo.  
9. Oremos juntos; ele nos escutará. (Depois da prece.) Você ainda está aqui? R.  
Sim. Obrigada! Não se esqueça de mim.  
10. Venha e compareça aqui todos os dias. R. Sim, sim, eu voltarei sempre.  
O guia do médium. Não esqueçam jamais os ensinamentos que vocês  
colhem nos sofrimentos dos seus protegidos, e sobretudo nas causas desses  
sofrimentos; não esqueçam que elas servem de lição para todos, a fim de  
protegê-los dos mesmos perigos e dos mesmos castigos. Purifiquem seus  
corações, sejam humildes, amem-se, ajudem-se, e que seus corações  
agradecidos não esqueçam jamais a fonte de todas as graças, fonte inesgotável  
na qual cada um de vocês pode se saciar em abundância; fonte de água viva  
que mata a sede e ao mesmo tempo nutre; fonte de vida e felicidade eterna.  
Vão até ela, meus bem-amados, bebam dela com fé; lancem ali as suas redes, e  
elas sairão dessas ondas carregadas de bênçãos. Compartilhem-na com seus  
irmãos, advertindo-os dos perigos que eles podem encontrar. Repartam as  
bênçãos do Senhor; elas renascem sem cessar; quanto mais as despejarem ao  
seu redor, mais elas se multiplicarão. Vocês as têm em suas mãos, pois, ao  
dizer aos seus irmãos: “Ali estão os perigos, ali estão os escolhos; venham  
conosco para os evitar; imitem-nos, nós que damos o exemplo”, então vocês  
espalham as bênçãos do Senhor sobre aqueles que os escutam.  
Benditos sejam seus esforços, meus bem-amados. O Senhor ama os  
corações puros; sejam merecedores do amor dele.  
SANTO PAULINO  
PRINCIPE OURAN  
(Bordeaux, 1862)  
Um Espírito sofredor apresentou-se com o nome de Ouran, ex-príncipe  
russo:  
P. Gostaria de nos dar alguns detalhes sobre a tua situação? R. Oh,  
bem-aventurados os humildes de coração, porque a eles pertence o reino dos  
 
264 Allan Kardec  
céus! Orem por mim. Felizes são aqueles que, humildes de coração, escolhem  
passar suas provações numa posição modesta. Vocês não sabem vocês  
todos que são devorados pela inveja a que estado é reduzido aqueles a  
quem vocês chamam de felizardos na Terra; vocês não sabem das brasas  
ardentes que eles amontoam sobre suas cabeças; não sabem dos sacrifícios  
que a riqueza impõe quando se quer aproveitá-la para a salvação eterna! Que  
o Senhor me permita a mim, um déspota orgulhoso vir expiar, entre  
aqueles a quem oprimi com a minha tirania, os crimes que o orgulho me fez  
cometer! Orgulho! Repita essa palavra constantemente para jamais esquecer  
que ele é a fonte de todos os sofrimentos que nos envergonham. Sim, eu  
abusei do poder e dos favores de que eu dispunha; fui duro e cruel para com  
meus inferiores, que deviam se curvar a todos os meus caprichos, satisfazer  
todas as minhas depravações. Eu quis para mim a nobreza, as honras e a  
fortuna; então sucumbi sob o peso que assumi acima das minhas forças.  
Os Espíritos que fracassam geralmente tendem a dizer que eles tinham uma  
carga superior às suas forças; isso é uma forma de se desculparem aos próprios olhos,  
e mais um resquício de orgulho: eles não querem ter falido por erro deles. Deus não  
dá a ninguém mais do que se possa suportar; ele não pede a ninguém mais do que se  
possa dar; não exige que a árvore nascente produza os frutos da árvore já totalmente  
crescida. Deus dá aos Espíritos a liberdade; o que ele lhes pede é vontade, e a vontade  
só depende deles. Com a vontade, não existem tendências viciosas que não possam ser  
vencidas; mas quando alguém se satisfaz com um vício, é natural que ele não faça  
esforços para superá-lo. Portanto, é preciso culpar somente a si mesmo pelas  
consequências que daí resultam.  
P. Você tem consciência dos teus erros; isso já é um primeiro passo para o  
melhoramento. R. Essa consciência ainda é um sofrimento. Para muitos  
Espíritos o sofrimento é um efeito quase material, porque, ainda presos à  
humanidade da sua derradeira existência, eles não percebem as sensações  
morais. Meu Espírito se libertou da matéria e o sentimento moral aumentou  
de tudo o que as cruéis sensações físicas tinham de horrível.  
P. Consegue prevê um término para os teus sofrimentos? R. Sei que eles não  
serão eternos; mas o fim, ainda não o concebo; falta-me antes recomeçar a  
provação.  
265 O Céu e o Inferno  
P. Você espera recomeçar em breve? R. Ainda não sei.  
P. Tem lembrança dos teus antecedentes? Pergunto isso com a intenção de  
aprendizado. R. Sim, aqui estão teus guias que sabem do que você precisa.  
Vivi no tempo de Marco Aurélio.90 Já nessa época, então poderoso, sucumbi ao  
orgulho, causa de todas as quedas. Após ter errado por séculos, quis tentar  
uma vida obscura. Pobre estudante, mendiguei o pão, mas o orgulho sempre  
esteve presente; o Espírito tinha adquirido ciência, mas não virtude. Sábio e  
ambicioso, vendi minha alma às ofertas maiores, servindo a todas as  
vinganças, a todos os ódios. Sentia-me culpado, porém a sede das honras e das  
riquezas abafava os gritos da minha consciência. A expiação também foi longa  
e cruel. Enfim, na minha última encarnação, eu desejei recomeçar uma vida de  
luxo e de poder; achando que podia dominar os perigos, não escutei as  
advertências: o orgulho conduziu-me de novo a confiar mais no meu próprio  
julgamento do que no dos protetores amigos que não cessam de velar por nós.  
Você sabe o resultado dessa última tentativa.  
Hoje, enfim compreendi e espero a misericórdia do Senhor. Coloco a  
seus pés o meu orgulho esmagado e lhe peço para carregar meus ombros com  
o seu mais pesado fardo de humildade, ajudado por sua graça, o peso me  
parecerá leve. Ore comigo e por mim; peça também para que esse demônio de  
fogo não devore em você os instintos que o levam em direção a Deus. Irmãos  
em sofrimentos, que o meu exemplo sirva para vocês, e não se esqueçam  
jamais de que o orgulho é o inimigo da felicidade, pois dele decorrem todos os  
males que assolam a humanidade e a perseguem até nas regiões celestes.  
O guia do médium. Você tem alimentado dúvidas sobre esse Espírito,  
porque a linguagem dele não te parece de acordo com o estado de sofrimento  
que sua inferioridade demonstra; Não tema: você recebeu uma mensagem  
séria. Por mais sofredor que seja esse Espírito, ele é bastante elevado em  
inteligência para falar o que ele disse. Só lhe faltava a humildade, sem a qual  
nenhum Espírito pode chegar a Deus. Essa humildade, ele a conquistou agora,  
e nós esperamos que, com perseverança, ele saia triunfante de uma nova  
provação.  
90 Marco Aurélio (121 - 180), imperador romano entre os anos 161 e 180. N. T.  
 
266 Allan Kardec  
Nosso Pai celestial é pleno de justiça em sua sabedoria; ele leva em conta  
os esforços feitos pelo homem para domar seus maus instintos. Cada vitória  
conquistada sobre si mesmo é um degrau alcançado nessa escada em que uma  
extremidade se apoia na Terra e a outra se apoia nos pés do Juiz supremo.  
Portanto, subam seus degraus confiantemente; eles são fáceis de escalar para  
quem tem uma vontade firme. Olhem sempre para cima a fim de se  
encorajarem, pois ai daquele que se detém e vira a cabeça! Este, logo é  
atingido pela vertigem; o vazio que o cerca o apavora; então ele se acha sem  
forças e exprime: para que querer seguir adiante, se eu caminhei tão pouco?!  
Não, meus amigos, não virem a cabeça! O orgulho está incorporado no  
homem. Pois bem! Usem esse orgulho para lhes dar força e coragem de  
completar sua ascensão. Usem-no para dominar suas fraquezas e subam ao  
cume da montanha eterna.  
PASCAL LAVIC  
(Le Havre, 9 de agosto de 1863)  
Esse Espírito se comunicou espontaneamente ao médium, sem que este  
o tivesse conhecido em vida, nem mesmo de nome:  
Creio na bondade de Deus, que bem quis ter misericórdia do meu  
Espírito. Eu sofri, sofri muito, e meu corpo se perdeu no mar. Meu Espírito  
ficou sempre atado ao meu corpo, e por muito tempo ele vagou sobre as  
ondas. Deus...”  
(A comunicação foi interrompida; no dia seguinte, o Espírito continuou:)  
“[...] teve a bondade de permitir que as preces dos que ficaram na Terra  
me tirassem do estado de perturbação e de incerteza em que meu Espírito  
estava mergulhado. Eles me esperaram por muito tempo e então puderam  
encontrar meu corpo; ele agora repousa, enquanto meu Espírito, desprendido  
com dificuldade, vê as faltas cometidas. Consumada a provação, Deus julga  
com justiça e a sua bondade se estende sobre os arrependidos.  
“Se, por muito tempo, meu Espírito vagou junto com meu corpo, é que eu  
tinha o que expiar. Sigam o caminho certo, se vocês quiserem que Deus retire  
prontamente o Espírito de vocês do seu invólucro. Vivam no amor dele, orem,  
 
267 O Céu e o Inferno  
e a morte, que apavora alguns, lhes será doce, porque vocês sabem da vida  
que os espera. Eu caí no mar, e por muito tempo me esperaram. Não poder me  
desligar do corpo era para mim uma terrível prova; por isso preciso das suas  
preces, de vocês que foram introduzidos na crença que salva, de vocês que  
podem pedir por mim ao Deus justo. Arrependo-me e espero que ele bem  
queira me perdoar. Foi em 6 de agosto que meu corpo foi achado; eu era um  
pobre marinheiro e estava morto há muito tempo. Orem por mim!”  
PASCAL LAVIC  
P. Onde você foi encontrado? R. Perto de vocês.  
O Journal du Havre de 11 de agosto de 1863 continha o artigo seguinte,  
do qual o médium não podia ter conhecimento:  
“Tínhamos anunciado que havia sido encontrado, no dia 6 deste mês,  
um resto de cadáver encalhado entre Bléville e La Hève. A cabeça, os braços e  
o busto estavam removidos, no entanto, sua identidade pôde ser constatada  
pelo sapato ainda preso aos pés. Reconheceu-se assim que o corpo era do  
pescador Lavic, falecido em 11 de dezembro a bordo do barco L’Alerte,  
levado de Trouville por uma tempestade. Nascido em Calais, Lavic tinha a  
idade de 49 anos. Foi a viúva do defunto que reconheceu a identidade dele.”  
A 12 de agosto, como se tratasse desse acontecimento no centro onde o  
Espírito tinha se manifestado pela primeira vez, ele se comunicou de novo,  
espontaneamente:  
“Sou realmente Pascal Lavic, e tenho necessidade das suas preces. Vocês  
podem me fazer o bem, pois a provação que sofri foi terrível. A separação  
entre o meu Espírito e o meu corpo só foi feita depois que eu reconheci as  
minhas faltas; e nem assim eles se desligaram inteiramente; o corpo seguiu no  
mar que o havia engolido. Por isso, peçam a Deus para me perdoar; roguem  
para que ele me dê repouso. Orem, eu imploro a vocês. Que esse terrível fim  
de uma infeliz existência terrestre seja para vocês um ensinamento muito  
grande! Vocês devem pensar na vida futura e nunca deixar de pedir a Deus  
pela sua misericórdia. Rezem por mim; eu preciso que Deus tenha piedade de  
mim.”  
PASCAL LAVIC  
268 Allan Kardec  
FERDINAND BERTIN  
Um médium, morando no Havre, evocou o Espírito de uma pessoa que  
ele tinha conhecido. Esse Espírito respondeu: “Quero me comunicar, mas não  
consigo vencer o obstáculo que existe entre nós; sou obrigado a deixar esses  
infelizes que sofrem a se aproximarem de você.” Depois, ele recebeu  
espontaneamente a comunicação seguinte:  
“Estou num abismo horrível! Ajude-me... Ó meu Deus! Quem me tirará  
desse precipício?... Quem estenderá uma mão socorrista ao infeliz tragado  
pelo mar?... A noite é tão escura que tenho medo... Por toda parte o marulho  
das ondas, e nenhuma palavra amiga para me consolar e me ajudar neste  
momento extremo; pois esta noite profunda é a morte em todos os seus  
horrores, e eu não quero morrer!... Oh, meu Deus! Não é a morte futura, é a  
passada!... Estou separado para sempre dos que amo... Vejo o meu corpo, e o  
que há pouco eu sentia era apenas a lembrança da horrenda angústia da  
separação... Tenham piedade de mim, vocês que conhecem o meu sofrimento;  
orem por mim, pois não quero mais sentir todas aquelas dilacerações da  
agonia, como tem sido desde aquela noite fatal!... É essa, portanto, a minha  
punição; eu a pressinto... Rezem, eu imploro!... Oh, o mar... o frio... vou ser  
engolido... Socorro!... Tenham piedade! Não me rejeitem!... Nós dois nos  
salvaremos sobre estes destroços!... Oh, estou sufocando; as águas vão me  
engolir e os meus parentes não terão nem a triste consolação de me rever!...  
Mas não; eu vejo que meu corpo não está mais sendo chacoalhado pelas  
ondas... As preces de minha mãe serão atendidas. Minha pobre mãe! Se ela  
pudesse imaginar seu filho tão miserável como de fato ele é, ela rezaria mais;  
mas ela crê que a causa da minha morte santificou o passado; ela chora por  
mim martirizado, e não infeliz e castigado!... Oh, vocês que sabem, será que  
são impiedosos? Não, vocês rezarão...  
FRANÇOIS BERTIN  
Esse nome, completamente desconhecido do médium, não lhe sugeriu  
nenhuma lembrança; então ele achou que fosse provavelmente o Espírito de  
algum infeliz náufrago que viesse se manifestar espontaneamente a ele, assim  
como já lhe havia acontecido várias vezes. Ele soube mais tarde que se tratava  
 
269 O Céu e o Inferno  
de fato, do nome de uma das vítimas de um grande desastre marítimo  
ocorrido nessas paragens em 2 de dezembro de 1863. A comunicação foi dada  
em 8 do mesmo mês, seis dias após a catástrofe. O indivíduo tinha morrido  
fazendo tentativas incomuns para salvar a tripulação e no momento em que  
acreditava que sua segurança estava garantida.  
Esse indivíduo não tinha qualquer parentesco com o médium, nem  
sequer conhecimento dele; então, por que ele teria se manifestado a ele em  
vez de a qualquer membro da sua família? É que os Espíritos não encontram  
em qualquer pessoa as condições fluídicas requeridas para tal efeito; além  
disso, na perturbação em que estava, ele não tinha a liberdade de escolher,  
mas foi conduzido instintivamente e por atração para esse médium que, ao  
que parece, era dotado de uma aptidão especial para as comunicações  
espontâneas desse gênero. Sem dúvidas, ele pressentia também que nele  
encontraria uma simpatia particular, como outros a encontraram em  
circunstâncias parecidas. Sua família estranha ao Espiritismo, talvez até  
antipática a essa crença não teria acolhido sua revelação, como esse  
médium acolheu.  
Embora a morte tivesse ocorrido já há alguns dias, o Espírito ainda sofria  
todas as suas angústias. Era evidente que ele não tinha nenhuma consciência  
da sua situação; acreditava ainda estar vivo, lutando contra as ondas, e ainda  
assim ele fala do seu corpo como se estivesse separado dele; pede socorro, diz  
que não quer morrer e um instante depois ele fala da causa da sua morte, que  
ele reconhece ser um castigo. Tudo isso denota a confusão de ideias que quase  
sempre segue as mortes violentas.  
Dois meses mais tarde, a 2 de fevereiro de 1864, ele se comunica de novo  
espontaneamente com o mesmo médium e lhe dita o que se segue:  
A piedade que você teve dos meus sofrimentos tão horríveis me aliviou.  
Compreendo a esperança, entrevejo o perdão, mas após o castigo da falta  
cometida. Estou sempre sofrendo, e se Deus permite que por alguns  
momentos eu vislumbre o fim da minha infelicidade, não é senão às preces  
das almas caridosas, sensibilizadas pela minha situação, que eu devo esse  
abrandamento. Ó esperança, raio do céu, como é bendita quando te sinto  
brotar na minha alma!... Mas, infelizmente, o abismo se abre, o terror e o  
270 Allan Kardec  
sofrimento enfraquecem essa lembrança da misericórdia. A noite, sempre a  
noite!... a água, o bramir das ondas que tragaram meu corpo, não passam de  
uma pálida imagem do horror que envolve o meu pobre Espírito... Fico mais  
calmo quando posso ficar com você, pois assim como um terrível segredo  
depositado no peito amigo alivia aquele que por isso era oprimido, assim  
também a tua piedade, motivada pela confidência da minha miséria, acalma  
meu mal, tranquiliza meu Espírito... Tuas preces me fazem bem; não as recuse  
a mim. Não quero tombar nesse horrível sonho que se torna realidade quando  
o vejo... Tome o lápis com mais frequência; comunicar-me contigo me faz  
tanto bem!”  
Daí a alguns dias, esse mesmo Espírito tendo sido evocado numa reunião  
espírita em Paris, a ele foram dirigidas as seguintes perguntas, às quais ele  
respondeu numa única comunicação e por outro médium:  
Quem te levou a se manifestar espontaneamente ao primeiro médium,  
ao qual você se comunicou? Há quanto tempo você estava morto quando se  
manifestou? Quando se comunicou, você parecia incerto se ainda estava  
vivo ou se estava morto, experimentando todas as angústias de uma morte  
terrível; você agora tem uma melhor compreensão da tua situação? Você  
tinha dito positivamente que a tua morte era uma expiação; gostaria de nos  
dizer a causa dela? Isso será um aprendizado para nós e um alívio para você.  
Por essa confissão sincera você atrairia a misericórdia de Deus, a qual nós  
solicitaremos em nossas preces.  
R. Parece impossível à primeira vista que uma criatura possa sofrer tão  
cruelmente. Deus! Como é penoso se ver constantemente em meio às ondas  
furiosas, sentindo sem cessar essa amargura, esse frio glacial que sobe e  
aperta o estômago!  
Mas qual é o sentido de sempre entretê-los com tais espetáculos? Não  
deveria eu começar obedecendo às leis da gratidão, agradecendo-lhes, a vocês  
todos que se tanto importam com meus tormentos? Vocês perguntam se eu  
me comuniquei muito tempo depois da morte? Não posso responder  
facilmente. Pensem e avaliem em que horrível situação ainda estou. Contudo,  
fui trazido para junto do médium creio eu por uma vontade estranha à  
minha, e, coisa impossível para eu perceber, eu me servi do braço dele com a  
271 O Céu e o Inferno  
mesma facilidade com que me sirvo deste braço neste momento,  
convencido de que ele me pertence. Estou sentido agora mesmo um  
grandíssimo prazer, assim como que um alívio particular que, infelizmente,  
cessará em breve. Mas, ó meu Deus, será que eu terei uma confissão a fazer?  
Será que eu terei forças para isso?  
Depois de muitos encorajamentos, o Espírito acrescenta: Eu era muito  
culpado! O que mais me dói é que achavam que eu era um mártir; não sou  
nada disso! Numa precedente existência eu mandei colocar num saco várias  
vítimas e jogar no mar... Orem por mim!  
Comentários de são Luís sobre esta comunicação:  
Esta confissão será uma causa de grande lenitivo para esse Espírito. Sim,  
ele era muito culpável; mas a existência que ele acaba de deixar foi honrosa,  
tendo sido amado e estimado pelos seus patrões, como fruto do seu  
arrependimento e das boas resoluções que ele havia tomado antes de voltar à  
Terra, onde quis ser tão humano quanto tinha sido cruel. A dedicação da qual  
ele deu provas era uma reparação, mas lhe faltava redimir as faltas passadas  
por uma derradeira expiação: a da morte cruel pela qual ele passou; ele  
mesmo quis se purificar submetendo-se às torturas que outrora impusera a  
outras pessoas. E notem que uma ideia o persegue: o remorso de ver que ele  
seja considerado um mártir. Saibam que lhe será levado em conta esse  
sentimento de humildade. Desde então, ele deixou a via da expiação para  
entrar na da reabilitação. Através de suas preces, vocês podem sustentá-lo,  
fazendo-o caminhar com passos mais firmes e seguros.  
FRANÇOIS RIQUIER  
François Riquier, bastante conhecido, era um velho solteirão e avarento,  
falecido em C..., em 1857, deixando uma considerável fortuna aos parentes  
colaterais. Ele era proprietário de um imóvel onde em uma determinada  
época morava uma senhora, que depois já tinha se esquecido dele  
completamente, e nem mesmo sabia se ele ainda estava nesse mundo. Em  
1862, uma filha dessa senhora que é suscetível a crises de catalepsia  
 
272 Allan Kardec  
seguidas de um sono magnético espontâneo, e que também é uma excelente  
médium escrevente viu num dos seus sonos o Sr. Riquier, que, dizia ele,  
queria se dirigir à mãe dela. Alguns dias depois, tendo ele se manifestado  
espontaneamente e confirmando o desejo de falar com aquela senhora, foi-lhe  
perguntado o seguinte:  
P. O que você quer de nós? R. Meu dinheiro, que aqueles miseráveis se  
apossaram para o repartirem entre si! Venderam minhas fazendas, minhas  
casas, tudo, para dividirem entre eles. Dilapidaram meu patrimônio, como se  
não me pertencesse. Façam-me justiça, pois, a mim, eles não me escutam e  
não quero ver tais infâmias. Eles dizem que eu era mesquinho, e guardam  
meu dinheiro! Por que eles não o querem me devolver? Porventura eles  
acham que foi mal ganho?  
P. Mas você está morto, meu bom senhor! Você não precisa mais de  
dinheiro. Peça a Deus para ter uma nova existência, como pobre, para expiar a  
avareza desta última existência. R. Não, eu não poderia viver sendo pobre.  
Preciso do meu dinheiro para viver. Além disso, não tenho necessidade de  
outra vida, já que estou vivo no presente.  
P. (A pergunta seguinte foi feita no intuito de o trazer à realidade.) Você está  
sofrendo? R. Oh, sim! Estou sofrendo torturas piores do que a doença mais  
cruel, pois é minha alma que sofre essas torturas. Sempre tenho presente no  
pensamento a iniquidade da minha vida, que foi um motivo de escândalo para  
muita gente. Eu bem sei que sou um miserável indigno de piedade; mas eu  
sofro tanto que é preciso vocês me ajudarem a sair desse estado miserável.  
P. Rezaremos por você. R. Obrigado! Rezem para que eu esqueça  
minhas riquezas terrenas, sem o que eu jamais poderei me arrepender. Adeus  
e obrigado!  
FRANÇOIS RIQUIER, Rua da Caridade, nº 14  
É bastante curioso ver esse Espírito indicar seu endereço, como se ainda  
estivesse vivo. A senhora, que o ignorava, apressou-se em verificar a indicação  
e ficou bastante espantada por saber que a casa indicada tinha sido  
exatamente a última habitação dele. Assim, após cinco anos, ele não se  
273 O Céu e o Inferno  
considerava morto, e ainda se achava na ansiedade o que é terrível para  
um avarento de ver seus bens repartidos entre seus herdeiros. A evocação,  
certamente provocada por algum bom Espírito, teve como resultado lhe fazer  
compreender sua situação, além de o predispor ao arrependimento.  
CLAIRE  
(Sociedade de Paris, 1861)  
O Espírito que ditou as comunicações seguintes é o de uma mulher que o  
médium conheceu quando ela estava viva e cuja conduta e caráter justificam  
muito bem os tormentos que está enfrentando. Ela era dominada sobretudo  
por um sentimento excessivo de egoísmo e de personalidade, que se reflete na  
terceira comunicação, por sua pretensão em querer que o médium só se  
ocupe com ela. Essas comunicações foram obtidas em diversas épocas; as três  
últimas denotam um sensível progresso nas disposições do Espírito, graças ao  
cuidado do médium, que empreendera a sua educação moral.  
I. Eis-me aqui, eu, a infeliz Claire; o que você quer que eu te diga? A resignação  
e a esperança não passam de palavras para quem sabe que, incontáveis como  
os cascalhos da praia, seus sofrimentos durarão pela sucessão dos séculos  
intermináveis. Posso atenuá-los, você diz?... Que discurso vago! Onde  
encontrar coragem e esperança para isso? Portanto, seu tapado, trate de  
entender o que é um dia que jamais se acaba. Seria um dia, um ano ou um  
século?... O que eu sei sobre isso? As horas não o dividem, as estações não  
variam; eterno e lento como a água que brota da rocha, este dia execrável,  
este dia maldito, que pesa sobre mim como uma urna de chumbo... Eu sofro!...  
Nada vejo em torno de mim além das sombras silenciosas e indiferentes...  
Como eu sofro!  
Eu sei, no entanto, que acima desta miséria reina Deus, o Pai, o mestre,  
aquele para o qual tudo se encaminha. Quero pensar nele, quero lhe implorar.  
Debato-me e me arrasto como um estropiado que rasteja ao longo do  
caminho. Não sei que poder me atrai a você; será você a salvação? Depois que  
falo contigo, fico um pouco mais calma, mais reanimada; como uma velha  
 
274 Allan Kardec  
frienta reaquecida por um raio de sol, minha alma gélida ganha nova vida ao  
se aproximar de você.  
II. Meu infortúnio aumenta a cada dia; ele aumenta à medida que o  
conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria! Quanto eu  
amaldiçoo as horas de culpas, de egoísmo e de esquecimento, em que,  
ignorando toda a caridade, todo o devotamento, eu não pensava senão no meu  
bem-estar! Malditos sejam os negócios humanos! Vãs preocupações em  
interesses materiais! Malditas sejam essas coisas que me cegaram e me  
levaram à perdição! Estou consumida pelo incessante remorso do tempo  
desperdiçado. O que direi a você que me ouve? Cuide sempre de si mesmo;  
ame os outros mais do que a si próprio; não se retarde nos caminhos da  
bonança material; não engorde o teu corpo às custas da tua alma; vigie, como  
dizia o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeça por esses conselhos,  
pois meu Espírito os concebe, mas meu coração nunca os escutou. Igual a um  
cão açoitado, o medo me fez rastejar, mas ainda não conheço o amor  
voluntário; sua divina aurora tarda muito a se levantar! Ore por minha alma  
ressequida e tão miserável!  
III. Venho até aqui te procurar porque você me esqueceu. Acha então que  
preces isoladas pronunciando meu nome bastarão para o apaziguamento da  
minha penúria? Não, cem vezes não. Estou rugindo de dor; perambulo sem  
repouso, sem abrigo, sem esperança, sentindo o eterno aguilhão do castigo a  
perfurar minha alma revoltada. Dou risada quando ouço teus lamentos,  
quando o vejo abatido. O que significam essas tuas pálidas misérias, essas  
tuas lágrimas, esses teus tormentos que o sono suspende?! Por acaso eu  
durmo? Eu quero está ouvindo? , eu quero que deixe tuas dissertações  
filosóficas e cuide de mim; faça com que os outros se ocupem com elas. Não  
encontro expressões para descrever a agonia desse tempo que se escoa, sem  
que as horas marquem seus períodos. Eu mal vejo um tímido raio de  
esperança, e essa esperança foi você quem me deu; então não me abandone!  
IV. O Espírito são Luís Este quadro é todo verdadeiro; ele não é nada  
exagerado. Talvez alguém possa perguntar o que essa mulher fez para ser tão  
275 O Céu e o Inferno  
miserável. Teria ela cometido algum crime horrível? Roubou? Assassinou?  
Não; ela nada fez que merecesse a justiça dos homens. Ao contrário, ela se  
divertia com o que vocês chamam de felicidade terrestre; beleza, fortuna,  
prazeres, adulações, tudo lhe sobrava e nada lhe faltava, e as pessoas diziam  
ao vê-la: Que mulher felizarda! E todos invejavam a sorte dela. Então, o que  
ela fez? Foi egoísta; ela possuía tudo, exceto um bom coração. Se ela não  
violou a lei dos homens, violou a de Deus, pois desprezou a caridade a  
primeira das virtudes. Ela só amou a si mesma, e agora não é amada por  
ninguém; ela não deu nada, então nada lhe é dado; ela está isolada, largada,  
abandonada, perdida no espaço onde ninguém pensa nela, ninguém se  
preocupa com ela: isso é o que constitui o seu suplício. Como ela não procurou  
além dos prazeres mundanos, e que agora esses prazeres não existem mais, o  
vazio se fez em torno dela; ela só vê apenas o nada, e o nada lhe parece eterno.  
Ela não está sofrendo torturas físicas: os diabos não vêm atormentá-la, mas  
isso não é necessário, pois ela atormenta a si mesma, e assim ela sofre bem  
mais, porque os tais diabos ao menos seriam seres que pensariam nela. O  
egoísmo foi a sua alegria na Terra: ele a persegue e é atualmente o verme que  
lhe consome o coração seu verdadeiro demônio.  
SÃO LUÍS  
V. Vou lhes falar da importante diferença que existe entre a moral divina e a  
moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abandono e diz  
aos pecadores: “Arrependam-se e o reino dos céus será aberto para vocês.” A  
moral divina, enfim, aceita todo arrependimento e todas as faltas confessadas,  
ao passo que a moral humana rejeita tudo isso e admite, sorrindo, aos  
pecados ocultos que diz ela são parcialmente perdoados. Para uma, a  
graça do perdão; para a outra, a hipocrisia. Escolham, Espíritos ávidos da  
verdade! Escolham entre os céus abertos ao arrependimento e a tolerância  
que admite o mal sem reprimir seu egoísmo e seus falsos arranjos, mas que  
repulsa a paixão e os soluços das faltas confessadas em plena luz do dia.  
Arrependam-se todos vocês que pecam; renunciem ao mal, e acima de tudo  
renunciem à hipocrisia, que encobre a feiura, a máscara risonha e mentirosa  
das conveniências.  
276 Allan Kardec  
VI. Agora estou calma e resignada à expiação das faltas que cometi. O mal está  
em mim, e não fora; sou eu, portanto, que me devo modificar, e não as coisas  
exteriores. Nós trazemos conosco o nosso céu e o nosso inferno; logo, nossas  
faltas, gravadas na consciência, podem ser lidas correntemente no dia da  
ressurreição; então, somos nós os nossos próprios juízes, já que o estado da  
alma nos eleva ou nos afunda. Eu me explico: um Espírito sujo e  
sobrecarregado de erros não pode conceber nem desejar uma elevação que  
ele não seria capaz de suportar. Acreditem bem nisso: assim como as  
diferentes espécies de seres vivem cada qual na esfera que lhe é própria, da  
mesma forma os Espíritos, segundo o grau do seu avanço, se movem no meio  
que é semelhante às suas faculdades; eles não concebem outro meio senão  
quando o progresso instrumento da lenta transformação das almas os  
afasta de suas tendências vulgares e lhes faz depurar a crisálida do pecado, a  
fim de que possam voar antes de se lançarem, rápidos como flechas, para  
Deus o objetivo único e desejado. Infelizmente, ainda estou rastejando, mas  
não odeio mais, e já concebo a inefável felicidade do amor divino. Por isso,  
orem sempre por mim, que espero e aguardo.  
Na comunicação adiante, Claire fala de seu marido, a quem ela muito fez sofrer  
quando estava viva; fala também da posição em que hoje ele se encontra no mundo  
espiritual. Esse quadro, que ela não pôde completar por si mesma, foi completado  
pelo guia espiritual do médium.  
VII. Venho a você, que me deixa por tanto tempo no esquecimento; porém, eu  
tenho adquirido paciência e não estou mais desesperada. Você quer saber  
qual é a situação do pobre Félix; ele vagueia nas trevas, preso ao profundo  
desnudamento da alma. Seu ser superficial e leviano, contaminado pelo  
prazer, sempre ignorou o amor e a amizade. A paixão nem sequer o iluminou  
com suas luzes sombrias. Eu comparo sua situação presente com a de uma  
criança inapta para as funções da vida e privada de todo o socorro daqueles  
que a assistem. Félix vaga com medo nesse mundo estranho onde tudo  
resplandece com o brilho de Deus, que ele negou...  
VIII. O guia do médium Claire não pode continuar a análise dos sofrimentos  
277 O Céu e o Inferno  
do seu marido sem também sentir a mesma coisa; então, vou falar por ela.  
Félix que era superficial tanto nas ideias como nos sentimentos,  
violento porque era fraco, depravado porque era frio entrou no mundo dos  
Espíritos nu tanto na condição moral quanto fisicamente. Passando pela vida  
terrestre, ele nada adquiriu, e por isso tem de recomeçar tudo. Como um  
homem que acorda de um sono prolongado e que reconhece quão vã era a  
agitação dos seus nervos, esse pobre ser, ao sair da perturbação, reconhecerá  
que viveu de quimeras que desvirtuaram sua vida; amaldiçoará o  
materialismo que o fez abraçar o vazio, enquanto achava estar agarrando a  
realidade; amaldiçoará o positivismo que o fez chamar as ideias de uma vida  
futura de devaneios; chamar as aspirações de tolices, e a crença em Deus de  
fraqueza. O infeliz, ao despertar, verá que esses nomes, zombados por ele,  
eram a fórmula da verdade e que, ao contrário da fábula, a caça à presa foi  
menos proveitosa que a da sombra.  
GEORGES  
Estudo sobre as comunicações de Claire  
Estas comunicações são instrutivas sobretudo naquilo que elas nos  
mostram uma das faces mais vulgares da vida: a do egoísmo. Não se trata  
desses grandes crimes que horrorizam até mesmo os homens perversos, mas  
sim a condição de um monte de gente que neste mundo vive honrada e  
bajulada, por ter um certo verniz e porque não cai na malha das leis sociais.  
Nem se trata também, no mundo dos Espíritos, desses castigos excepcionais,  
cuja imagem faz tremer, mas sim de uma situação simples, natural,  
consequência da sua maneira de viver e do estado da sua alma; trata-se do  
isolamento, do desprezo e do abandono: eis a punição daquele que só viveu  
para si. Como foi visto, Claire era um Espírito muito inteligente, porém um  
coração seco; na Terra, sua posição social, sua fortuna, seus atributos físicos  
lhe atraíam elogios que lisonjeavam sua vaidade, e isso lhe bastava. No mundo  
espiritual, ela só encontra indiferença, e o vazio se faz em torno dela: punição  
mais pungente do que a dor, porque é mortificante, visto que a dor inspira dó,  
compaixão: esse é também um meio de atrair atenção, de fazer com que se  
278 Allan Kardec  
ocupem com ela, de se interessarem com seu destino.  
A sexta comunicação contém uma ideia perfeitamente verdadeira, no  
que ela explica a obstinação de certos Espíritos no mal. É espantoso ver que  
alguns deles sejam insensíveis ao pensamento e até o espetáculo da felicidade  
de que os bons Espíritos desfrutam. Eles estão exatamente na posição dos  
homens degradados que se comprazem na lama e nas delícias grosseiras e  
sensuais. Aqui, esses homens estão de alguma forma no seu próprio ambiente;  
eles não concebem as gratificações delicadas; preferem seus trapos sujos a  
vestes limpas e brilhantes, pois aí eles estão mais à vontade; preferem suas  
festas bacanais, ao sabor da boa companhia. Eles se sentem tão identificados  
com esse gênero de vida, que isso se tornou para eles uma segunda natureza;  
julgam-se até mesmo incapazes de se elevarem acima da sua esfera, razão  
pela qual eles aí permanecem até que uma transformação do ser abra a  
inteligência deles, desenvolvendo neles o senso moral e os torne acessíveis a  
sensações mais sutis.  
Esses Espíritos, quando estão desencarnados, não podem adquirir  
instantaneamente a delicadeza do sentimento e, durante um tempo mais ou  
menos longo, eles ocuparão as profundezas do mundo espiritual, tal como  
ocupavam as do mundo corporal. Eles lá ficarão enquanto forem rebeldes ao  
progresso; porém, a longo prazo, através da experiência, das tribulações e  
misérias das encarnações sucessivas, chega um momento em que eles  
concebem algo melhor do que aquilo que eles têm; suas aspirações se elevam  
e com isso eles começam a compreender o que lhes falta; é a partir daí que se  
esforçam para adquirir esse algo melhor e para se elevar. Uma vez que  
tiverem entrado nessa via, eles a trilharão com rapidez, porque já degustaram  
de uma satisfação que lhes parece bem superior, e, comparada com a qual, as  
outras não sendo mais do que grosseiras sensações acabam por lhes  
provocar repugnância.  
Pergunta (A são Luís) O que devemos entender por trevas onde estão  
mergulhadas certas almas sofredoras? Seriam elas daquelas trevas muitas vezes  
mencionadas nas Escrituras? R. As trevas de que estamos tratando são, na  
realidade, aquelas que foram designadas por Jesus e pelos profetas, falando  
do castigo dos ímpios. Mas isso ainda não passa de uma figura simbólica,  
279 O Céu e o Inferno  
destinada a tocar os sentidos materiais dos seus contemporâneos, que não  
poderiam conceber a punição de uma maneira espiritual. Certos Espíritos  
estão mergulhados nas trevas; porém, é preciso entender isso como uma  
verdadeira noite da alma, comparável à obscuridade pela qual a inteligência  
do idiota é atingida. Não é uma loucura da alma, mas sim uma inconsciência  
de si mesma e daquilo que a rodeia, que se faz tanto na presença da luz  
material quanto na sua ausência. Essa é a punição principalmente dos que  
duvidaram da destinação do seu ser; eles acreditavam no nada, e as  
aparências desse nada vêm efetivar o suplício deles até que a alma, voltando  
para si mesma, chegue a quebrar energicamente a rede do nervosismo moral  
que a tomava; da mesma forma, um homem oprimido por um pesadelo luta,  
em dado momento, com toda a força de suas faculdades contra os terrores  
pelos quais inicialmente ele se deixou dominar. Essa redução momentânea da  
alma a um nada fictício, com o sentimento de sua existência, é um sofrimento  
mais cruel do que se pode imaginar, por causa dessa aparência de repouso  
que a atinge; é esse repouso forçado, essa nulidade do seu ser e essa incerteza  
que formam o seu tormento; é esse tédio que a invade o que constitui o  
castigo mais terrível, pois ela não percebe nada em torno dela, nem coisas,  
nem pessoas; essas são, para ela, as verdadeiras trevas.  
SÃO LUÍS  
(Claire) Aqui estou eu. Também posso responder à questão levantada  
sobre as trevas, pois vaguei e sofri longo tempo nesses limbos onde tudo é  
soluço e misérias. Sim, as trevas visíveis de que as Escrituras falam existem, e  
os infelizes que, tendo terminado suas provas terrestres, deixam a vida,  
ignorantes ou culpados, estão imersos na fria região, inconscientes de si  
mesmos e do seu destino. Eles acreditam na eternidade de sua situação, eles  
ainda balbuciam as palavras da vida que os seduziu, eles se admiram e se  
assustam com sua profunda solidão; isso é que é escuridão, esse lugar vazio e  
povoado, esse espaço onde Espíritos pálidos, dominados e gemendo,  
vagueiam sem consolação, sem afeições e sem nenhum socorro. A quem  
recorrer?... Aí eles sentem a eternidade pesando sobre eles; eles tremem e  
lamentam os interesses mesquinhos que pontuaram suas horas; eles  
280 Allan Kardec  
lamentam a falta da noite que, sucedendo o dia, muitas vezes levou suas  
preocupações num sonho feliz. Para os Espíritos, as trevas são a ignorância, o  
vazio, o horror ao desconhecido... Não consigo continuar...  
CLAIRE  
Ainda sobre essa obscuridade, foi dada a explicação seguinte:  
Por sua natureza, o perispírito possui uma propriedade luminosa que se  
desenvolve sob a influência da atividade e das qualidades da alma.  
Poderíamos dizer que essas qualidades estão para o fluido perispiritual como  
a fricção está para o fósforo. O brilho da luz depende da pureza do Espírito; as  
menores imperfeições morais a mancham e a enfraquecem. A luz que irradia  
de um Espírito é tanto mais vivaz quanto mais ele for avançado. Sendo o  
Espírito, de algum modo, o seu próprio farol, ele vê mais ou menos conforme  
a intensidade da luz que ele produz; disso resulta que aqueles Espíritos que  
não a produzem acabam ficando na escuridão.”  
Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação do fluido luminoso  
dos Espíritos superiores, o que é confirmado pela observação; mas aqui não  
parece ser a causa verdadeira ou, pelo menos, a única causa do fenômeno  
em questão; visto que: 1º) nem todos os Espíritos inferiores estão nas trevas;  
2º) o mesmo Espírito pode se encontrar alternadamente na luz e na  
obscuridade; 3º) a luz é um castigo para determinados Espíritos muito  
imperfeitos. Se a escuridão em que certos Espíritos estão envoltos fosse  
inerente à personalidade deles, essa escuridão seria permanente e  
generalizada para todos os Espíritos maus o que não ocorre, porque  
Espíritos da mais inferior perversidade veem perfeitamente, enquanto outros  
que não podem ser qualificados de perversos ficam temporariamente em  
trevas profundas. Portanto, tudo prova que além da luz que lhes é própria, os  
Espíritos também recebem uma luz exterior que lhes falta mediante certas  
circunstâncias. Disso nós devemos concluir que essa obscuridade depende de  
uma causa ou de uma vontade externa, e que ela constitui uma punição  
especial para esses casos determinados pela soberana justiça.  
P. [a são Luís] Como se explica que a educação moral dos Espíritos  
desencarnados é mais fácil do que a dos encarnados? As relações  
281 O Céu e o Inferno  
estabelecidas pelo Espiritismo entre os homens e os Espíritos fizeram notar  
que estes últimos se corrigem mais rapidamente sob a influência dos  
conselhos salutares do que as pessoas encarnadas, assim como se vê nas  
curas de obsessões.  
R. (Sociedade de Paris) O Encarnado, por sua própria natureza, está  
numa luta incessante em razão dos elementos contrários dos quais ele é  
composto, e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo um  
sobre o outro. A matéria sofre facilmente a predominação de um fluido  
exterior; se a alma não vier reagir com todo o vigor moral do qual ela é capaz,  
então ela se deixa ser dominada por intermédio do seu corpo, e seguindo o  
impulso das influências perversas às quais ela está rodeada e isso com uma  
facilidade tanto maior quanto os invisíveis que a oprimem preferencialmente  
atacam os pontos mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante.  
Com o Espírito desencarnado, acontece de outra forma; é verdade que  
ele ainda está sob uma influência semimaterial, mas esse estado não é nada  
comparável ao do encarnado. O respeito humano tão preponderante no  
homem não existe para o Espírito, e esse pensamento não consegue fazê-lo  
resistir por muito tempo às razões que o seu próprio interesse lhe mostra  
serem boas razões. Ele pode lutar, e geralmente ele o faz com mais violência  
do que o encarnado, já que ele está mais livre; porém, nenhuma visão  
mesquinha de interesse material, nem de posição social, consegue entravar  
seu julgamento. Ele luta por amor ao mal, mas logo ele adquire o sentimento  
de sua impotência, em face da superioridade moral que o domina; a  
perspectiva de um futuro melhor tem mais persuasão sobre ele, porque ele  
está na própria vida em que ele deve se completar, e porque essa perspectiva  
não é apagada pelo turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, não  
estar mais sob a influência da carne é o que torna a conversão mais fácil,  
sobretudo quando se tem adquirido um certo desenvolvimento através das  
provações vividas. Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível  
ao raciocínio, mas o mesmo não ocorre com aquele que já tem experiência de  
vida. Aliás, tanto no encarnado quanto no desencarnado, é sobre a alma, é  
pelo sentimento que se deve agir. Toda ação material pode suspender  
momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso, mas nenhuma ação  
282 Allan Kardec  
material pode destruir o princípio mórbido que está na alma; todo ato que  
não tende a melhorar a alma não pode desviá-la do mal.  
SÃO LUÍS  
283 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO V  
SUICIDAS  
O SUICIDA DA SAMARITANA  
No dia 7 de abril de 1858, por volta das 7 horas da noite, um homem de  
cerca de cinquenta anos e convenientemente trajado apresentou-se no  
estabelecimento Banhos da Samaritana, em Paris, e mandou preparar um  
banho para ele. Após um intervalo de duas horas, o atendente, achando  
estranho que aquele indivíduo não pedia nada, decidiu entrar na cabine de  
banho para ver se o cliente não estaria indisposto; então, ele testemunhou  
uma hedionda cena: aquele infeliz tinha cortado a própria garganta com uma  
navalha, e todo o seu sangue misturara-se à água da banheira. Como a sua  
identidade não pôde ser certificada, o cadáver foi transportado para o  
necrotério.  
O Espírito desse homem, evocado na Sociedade de Paris seis dias após  
sua morte, deu as respostas seguintes:  
1. Evocação (Resposta do guia do médium) Espere... ele está aqui.  
2. Onde se encontra agora? R. Eu não sei... Diga-me, onde estou.  
3. Você está numa assembleia de pessoas que se ocupam com estudos  
espíritas e que são benevolentes contigo. R. Diga-me se estou vivo... Estou  
   
284 Allan Kardec  
sufocado no caixão.  
Embora separada do corpo, sua alma ainda está completamente imersa naquilo  
que poderíamos chamar de turbilhão da matéria corporal; as ideias terrenas  
permanecem vivas e ele não acredita estar morto.  
4. Quem te convenceu a vir até nós? R. Senti-me aliviado.  
5. Qual motivo te levou a se suicidar? R. Estou morto?... Não... pois eu habito  
meu corpo... Vocês não sabem o quanto estou sofrendo!... Estou sufocando...  
Que uma mão compassiva trate logo de acabar comigo!  
6. Por que você não deixou nenhuma pista que pudesse identificá-lo? R.  
Estou abandonado; fugi do sofrimento para cair na tortura.  
7. Você tem agora os mesmos motivos para continuar desconhecido? R. Sim;  
não metam um ferro candente na ferida que sangra!  
8. Poderia nos dizer o teu nome, tua idade, profissão e domicílio? R. Não... de  
jeito nenhum!  
9. Você tinha uma família, mulher, filhos? R. Fui abandonado; ninguém me  
amava.  
10. O que você fez para não ser amado por ninguém? R. Quantos são iguais a  
mim!... Um homem pode viver abandonado no meio da sua família, quando  
ninguém o ama.  
11. No momento de efetuar o teu suicídio, não teve nenhuma hesitação? R.  
Eu tinha sede de morte... Esperava o repouso.  
12. Como é que a ideia do futuro não te fez renunciar ao teu projeto? R. Eu já  
não acreditava mais nele; estava sem expectativa. O futuro é a esperança.  
13. Que reflexões você fez no instante em que sentiu a vida se extinguir? R.  
Não refleti; eu senti... Mas a minha vida não se extinguiu... minha alma está  
atada ao meu corpo... Eu sinto os vermes que me corroem.  
14. Que sensação experimentou no momento em que a morte estava  
completa? R. Ela está completa?  
15. Quando a tua vida se extinguiu, foi doloroso? R. Menos doloroso que  
285 O Céu e o Inferno  
depois. Só o corpo sofreu.  
16. (Ao Espírito de são Luís) O que o Espírito pretende dizer ao afirmar que o  
momento da morte foi menos doloroso do que depois? R. O Espírito  
descarregou o fardo que o oprimia; ele ressentia a volúpia da dor.  
17. Esse estado é sempre a consequência do suicídio? R. Sim; o Espírito do  
suicida fica preso ao corpo até o fim da sua vida; a morte natural é a libertação  
da vida: o suicídio a rompe inteiramente.  
18. Tal situação é a mesma em toda morte acidental, involuntariamente, mas  
que abrevia a duração natural da vida? R. Não... O que você entende por  
suicídio? O Espírito só é culpável pelos seus atos.  
Essa dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente falecidas, e  
sobretudo naquelas que, durante sua vida, não elevaram a alma acima da matéria.  
Esse é um fenômeno estranho à primeira vista, mas que se explica muito  
naturalmente. Se perguntarmos a um indivíduo posto em sonambulismo pela  
primeira vez se ele está dormindo, ele quase sempre responderá que não, e sua  
resposta é lógica: é o interlocutor que coloca mal a questão ao se servir de um termo  
inapropriado. Na nossa linguagem usual, a ideia do sono está ligada à suspensão de  
todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê, que sente e que  
tem consciência da sua liberdade moral não acredita que esteja dormindo, e de fato  
ele não está, na acepção comum da palavra. Eis por que ele responde não, até que  
esteja familiarizado com essa maneira de entender a coisa. O mesmo acontece com o  
homem que acaba de morrer; para ele a morte era o aniquilamento do ser. Ora, igual  
ao sonâmbulo, ele vê, ele sente, ele fala; então, em seu entendimento, ele não está  
morto, e ele afirma isto até que tenha adquirido a intuição do seu novo estado. Essa  
ilusão é sempre mais ou menos penosa, por jamais ser completa, e porque deixa o  
Espírito numa certa ansiedade. No exemplo aqui dado, ela é um verdadeiro suplício  
por causa da sensação dos vermes corroendo o corpo, além da sua duração, que deve  
ser igual à que teria sido a vida daquele homem se ele não a tivesse abreviado. Esse  
estado é frequente nos suicidas, mas não se apresenta sempre em condições idênticas;  
a situação varia principalmente na duração e na intensidade, conforme as  
circunstâncias agravantes ou atenuantes da falta. A sensação dos vermes e da  
decomposição do corpo não é mais particular aos suicidas; ela também é frequente  
nos que viveram mais da vida material do que da vida espiritual. Em princípio, não  
existe falta impune; mas não há uma regra uniforme e absoluta nos meios de punição.  
286 Allan Kardec  
O PAI E O CONSCRITO  
No começo da guerra da Itália, em 1859,91 um negociante de Paris, pai de  
família, gozando da estima geral de todos os seus vizinhos, tinha um filho cuja  
sorte o tinha convocado para o serviço militar; estando ele, pela sua condição,  
na impossibilidade de exonerar esse filho da convocação, ocorreu-lhe a ideia  
de se suicidar, a fim de isentá-lo, como filho único de viúva. Um ano depois,  
ele foi evocado na Sociedade de Paris, a pedido de uma pessoa que o conhecia  
e que desejava saber do seu paradeiro no mundo dos Espíritos.  
(A são Luís) Poderia nos dizer se podemos fazer a evocação do homem  
sobre o qual acabamos de falar? R. Sim; ele ficará bastante feliz com isso,  
pois será um pouco aliviado.  
1. Evocação R. Oh, obrigado! Sofro muito, mas... é justo; entretanto, ele me  
perdoará.  
O Espírito escreve com grande dificuldade; as letras são irregulares e  
malformadas; depois da palavra mas, ele para e, tentando em vão escrever, não  
consegue mais do que alguns rabiscos e pontos indecifráveis. É evidente que foi a  
palavra Deus que ele não pôde escrever.  
2. Preencha a lacuna que você acabou deixando. R. Não sou digno disso.  
3. Você disse que sofre; sem dúvida, foi errado se suicidar, mas o motivo que  
te levou a esse ato não mereceu qualquer indulgência? R. Minha punição  
será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má.  
4. Poderia nos descrever a punição que você está sofrendo? R. Sofro  
duplamente, na minha alma e no meu corpo; sofro neste último, embora não o  
possua mais, como o amputado sofre com a falta do membro ausente.  
5. Tua ação foi motivada unicamente em favor do teu filho, e por nenhuma  
outra causa? R. Somente o amor paterno me guiou, mas me guiou mal; por  
causa desse motivo, minha pena será encurtada.  
91  
Segunda Guerra de Independência Italiana, envolvendo a Itália e a França, sua aliada, contra o  
Império Austríaco, motivada principalmente por uma disputa de terras do Reino da Sardenha,  
culminando com a vitória da aliança ítalo-francesa e desencadeando o desfecho do processo de  
unificação da Itália. N. T.  
   
287 O Céu e o Inferno  
6. Consegue prever o fim dos teus sofrimentos? R. Não prevejo o fim deles,  
mas tenho certeza de que esse fim existe, o que já é um conforto para mim.  
7. Agora há pouco, você não pôde escrever o nome de Deus, porém, temos  
visto Espíritos muito sofredores escrevê-lo; isso faz parte de tua punição? R.  
Poderei escrevê-lo com grandes esforços de arrependimento.  
8. Pois bem! Faça grandes esforços e tente escrevê-lo; estamos convencidos  
de que conseguirá fazer isso, o que será um alívio para você.  
O Espírito acabou por escrever com letras irregulares, trêmulas e grossas: “Deus  
é muito bom.”  
9. Ficamos gratos por ter atendido ao nosso chamado, e rogaremos a Deus por  
você, para pedir a ele misericórdia em teu favor. R. Façam isso, por favor!  
10. (A são Luís) Queira nos dar a tua apreciação pessoal sobre o ato desse  
Espírito que acabamos de evocar. R. Esse Espírito sofre justamente, pois lhe  
faltou confiança em Deus, o que é uma falta sempre punível. A punição seria  
terrível e mais longa se ele não tivesse a seu favor um motivo louvável, que  
era aquele de impedir o filho de ir ao encontro da morte. Deus, que vê o fundo  
dos corações e que é justo, não o pune senão conforme suas obras.  
Observação Inicialmente, esse suicídio parecia desculpável, porque  
poderia ser considerado como um ato de devotamento; de fato, é um  
devotamento, mas não completamente. Como disse o Espírito de são Luís,  
esse homem faltou com a confiança em Deus. devido a sua ação, talvez ele  
tenha impedido que o destino do seu filho se cumprisse; primeiro, não era  
certeza que o filho fosse morrer na guerra, e talvez essa carreira militar  
devesse fornecê-lo a oportunidade de fazer algo útil para o seu adiantamento.  
Sua intenção era boa, indubitavelmente, tanto que lhe é levada em conta; a  
intenção atenua o mal e merece indulgência, mas ela não impede o que é mau  
de ser mau; se não fosse assim, em favor do pensamento, poderíamos  
desculpar todos os delitos, e poderíamos até matar, sob o pretexto de prestar  
algum serviço. Uma mãe que mata o filho com a ideia de enviá-lo direto para o  
céu seria menos culpada por ela ter feito isso com uma boa intenção? Com  
esse sistema, poderíamos justificar todos os crimes que um fanatismo cego  
288 Allan Kardec  
pudesse cometer nas guerras de religião.  
Em princípio, o homem não tem o direito de dispor da sua vida, porque  
ela lhe foi dada visando os deveres que ele tem a cumprir na Terra; é por  
isso que ele não deve abreviá-la voluntariamente sob nenhum pretexto. Como  
ele tem seu livre-arbítrio, ninguém pode impedi-lo, mas disso ele sempre  
sofre as consequências. O suicídio punido mais severamente é aquele  
praticado por desespero e em vista de se safar das misérias da vida; sendo  
essas misérias ao mesmo tempo provas e expiações, fugir delas significa  
recuar diante da tarefa aceita e, às vezes, diante da missão que deveria ser  
completada.  
O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte  
instantânea, mas também em tudo que se faz com conhecimento de causa  
para apressar prematuramente a extinção das forças vitais.  
Não se pode equiparar com o suicídio o devotamento daquele que se  
expõe a uma morte iminente para salvar o seu semelhante; primeiro porque,  
nesse caso, não há qualquer intenção premeditada de se tirar a vida, e, em  
segundo lugar, porque não há perigo do qual a Providência não possa nos  
livrar, se a hora de deixar a Terra não tiver chegado. Quando a morte ocorre  
em tais circunstâncias, é um sacrifício meritório, pois é uma abnegação em  
proveito de outrem. (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, itens  
14, 28, 29 e 3092)  
FRANÇOIS-SIMON LOUVET  
(Do Havre)  
A próxima comunicação foi dada espontaneamente numa reunião  
espírita no Havre, em 12 de fevereiro de 1863:  
“Tenham piedade de um pobre miserável que desde há muito tempo  
92  
No original, as referências são 53, 65, 66 e 67, correspondentes aos itens assim numerados na  
primeira edição da obra (então sob o título Imitação do Evangelho); aqui nós renumeramos os  
respectivos itens conforme a edição definitiva de O Evangelho segundo o Espiritismo, a partir da 3º  
edição. N. T.  
   
289 O Céu e o Inferno  
sofre de tão cruéis torturas! Oh, o vácuo... o espaço... eu caio, caio... Socorro!...  
Meu Deus, eu tive uma vida tão miserável!... Era um pobre coitado; passei  
tanta fome na velhice! Foi por isso que me pus a beber e que tive vergonha e  
desgosto de tudo... Eu queria morrer e me atirei... Oh, meu Deus! Que  
momento!... Por que então desejar dar fim a tudo, quando estava tão perto do  
término? Orem para que eu não mais veja esse vazio sempre debaixo de  
mim... Vou me despedaçar nessas pedras!... Eu imploro a vocês, a vocês que  
têm conhecimento das misérias dos que não estão mais neste mundo; eu me  
dirijo a vocês, apesar de não me conhecerem, mas eu sofro tanto... Para que  
querer comprovações? Estou sofrendo, isso não é o bastante! Se eu tivesse  
fome, em vez desse sofrimento mais terrível e invisível para vocês, então não  
hesitariam em me dar um pedaço de pão. Peço a vocês que rezem por mim...  
Não posso continuar por mais tempo... Perguntem a qualquer desses  
felizardos que estão aqui e então saberão quem fui eu. Rezem por mim.”  
FRANÇOIS-SIMON LOUVET  
O guia do médium Esse que acaba de se dirigir a você, meu filho, é um  
pobre infeliz que teve uma provação de misérias na Terra, mas o desgosto o  
tomou; faltou a ele coragem, e o desafortunado, em vez de olhar para cima  
como devia fazer, entregou-se à embriaguez; ele desceu aos últimos limites do  
desespero e pôs um fim à sua triste provação, atirando-se da Torre de  
Francisco I, no dia 22 de julho de 1857. Tenham piedade de sua pobre alma,  
que não é avançada, mas que tem conhecimento suficiente da vida futura para  
sofrer e desejar uma nova provação. Orem a Deus para que lhes conceda essa  
graça, e vocês farão uma boa ação.  
Tendo sido feito algumas pesquisas, encontrou-se no Journal du Havre  
de 23 de julho de 1857, um artigo cujo conteúdo é este:  
“Ontem, às quatro horas da tarde, os transeuntes do cais ficaram  
dolorosamente impressionados com um horrível acidente: um homem se  
atirou da torre e veio a se despedaçar nas pedras. Era um velho puxador de  
barcos, cujo pendor à embriaguez o conduzira ao suicídio. Ele se chamava  
François Victor Simon Louvet. Seu corpo foi transportado para a casa de uma  
de suas filhas, na rua da Corderie. Ele tinha a idade de sessenta e sete anos.”  
290 Allan Kardec  
Desde que esse homem morreu, já faz seis anos, ele sempre se vê caindo da torre  
e indo se despedaçar nas pedras; ele fica aterrorizado com o vácuo diante dele,  
permanecendo apreensivo com a queda... e isso já há seis anos! Quanto tempo isso vai  
durar? Ele não sabe, e essa indefinição aumenta suas angústias. Isso não equivale ao  
inferno e suas chamas? Quem revelou esses castigos? Eles foram inventados? Não! São  
aqueles mesmos que passam por isso que vêm descrevê-los, como outros descrevem  
suas alegrias. Muitas vezes eles fazem isso espontaneamente, sem que estejamos  
pensando neles, o que exclui toda ideia de que somos joguete da própria imaginação.  
UMA MÃE E SEU FILHO  
No mês de março de 1865, o Sr. C..., negociante numa pequena cidade  
perto de Paris, tinha em sua casa, gravemente adoentado, um filho de vinte e  
um anos. Esse rapaz, sentindo-se a ponto de expirar, chamou sua mãe e ainda  
teve forças para abraçá-la. Esta, derramando lágrimas abundantes, disse-lhe:  
“Vá, meu filho, antes de mim; eu não tardarei a te seguir.” Na mesma hora, ela  
partiu escondendo o rosto com as mãos.  
As pessoas que presenciaram essa cena comovente consideravam as  
palavras da Sra. C... como uma simples explosão de dor que o tempo e a razão  
deveriam apaziguar. Entretanto, tendo o enfermo falecido, procuraram-na por  
toda a casa e a encontraram enforcada no sótão. O cortejo da mãe ocorreu ao  
mesmo que o do filho.  
Evocação do filho vários dias depois o passamento P. Você soube da  
morte da tua mãe, que se suicidou, cedendo ao desespero causado pela tua  
perda? R. Sim, e se não fosse o desgosto que ela me causou com essa sua  
resolução fatal, eu estaria perfeitamente feliz. Pobre e excelente mãe! Ela não  
pôde suportar a prova dessa separação momentânea, e, para ficar junto do  
filho que tanto amava, tomou o caminho que a afastaria para longe dele, e  
infelizmente, por muito tempo! Com isso ela retardou indefinidamente essa  
reunião que teria sido tão logo, se a submissão às vontades do Senhor tivesse  
preenchido a sua alma, e se ela fosse resignada, humilde e penitente diante da  
provação que ela ia enfrentar e da expiação que ia purificá-la!  
Orem! Oh, orem por ela!... e acima de tudo não a imitem, mães que se  
 
291 O Céu e o Inferno  
comovem com a triste história da sua morte. Não creiam que ela amava mais  
do que as outras mães o filho que era sua alegria e seu orgulho. Não, ela não  
amava mais; porém, faltaram-lhe a coragem e a resignação. Mães que me  
escutam, quando virem a agonia cobrir os olhos apagados dos seus filhos,  
lembrem-se de que, tal como Cristo, eles sobem ao cume do Calvário, de onde  
deverão se elevar à glória eterna.  
BENJAMIN C...  
Evocação da mãe Quero ver meu filho! Vocês podem devolvê-lo para  
mim? Seus cruéis!... Eles tomaram meu filho para o levarem à luz e me  
deixaram na escuridão!... Quero meu filho... eu o quero... ele me pertence!...  
Será que o amor materno não vale nada? O quê?! Ter carregado por nove  
meses, nutrir com seu leite a carne da sua carne, sangue do seu sangue; ter  
guiado seus primeiros passos; ter ensinado a balbuciar o nome sagrado de  
Deus e o doce nome da sua mãe; ter feito dele um homem pleno de atividade,  
de inteligência, de honestidade, de amor filial, e depois perdê-lo quando ele  
realizava as esperanças que dele havíamos concebido, quando um futuro  
brilhante se abria diante dele?! Não, Deus não é justo; esse não é o Deus das  
mães; ele não compreende o desespero e a dor delas... E quando eu me mato  
para não me separar do meu filho, então ele é tirado de mim novamente!...  
Meu filho! Meu filho, onde está você?  
O evocador Pobre mãe, nós compartilhamos da tua dor, mas você  
buscou um triste meio para se reunir com o teu filho. O suicídio é um crime  
aos olhos de Deus, e você deveria pensar que ele pune toda infração das suas  
leis. A proibição de ver o teu filho é a tua punição.  
A mãe Não; eu pensava que Deus fosse melhor do que os homens; não  
acreditava no seu inferno, mas na reunião eterna das almas que se amaram  
como nós nos amávamos... Eu estava enganada... Ele não é o Deus justo e bom,  
pois ele não compreendeu a imensidão da minha dor e do meu amor!... Oh,  
quem devolverá meu filho? Será que o perdi para sempre? Piedade! Piedade,  
meu Deus!  
Evocador Vamos, acalme o teu desespero; imagine que, se há um meio  
de rever teu filho, não é blasfemando de Deus, como está fazendo agora. Em  
292 Allan Kardec  
vez de torná-lo favorável para você, está atraindo para si uma maior  
severidade.  
Mãe Disseram-me que eu não o veria mais; entendi que foi ao paraíso  
que levaram. E eu, por acaso estou no inferno?... No inferno das mães?... Ele  
existe, eu o vejo muito bem.  
Evocador Teu filho não está perdido para sempre, acredite em mim;  
você o verá, certamente, mas é preciso merecê-lo pela tua submissão à  
vontade de Deus, ao passo que por tua revolta você retardará esse momento  
indefinidamente. Ouça-me: Deus é infinitamente bom, mas ele é infinitamente  
justo. Ele jamais pune sem razão, e se ele te infligiu com grandes dores na  
Terra, é porque você as mereceu. A morte do teu filho era uma prova para a  
tua resignação; lamentavelmente, você aí fracassou quando estava viva, e eis  
que após a tua morte você fracassou de novo. Como é que você quer que Deus  
recompense os filhos rebeldes? Mas ele não é inexorável e sempre acolhe o  
arrependimento do culpado. Se você tivesse aceitado sem murmurar e com  
humildade a prova que ele te enviou por essa separação, e se tivesse esperado  
pacientemente até que ele te retirasse desta Terra, ao entrar no mundo onde  
você está agora, então imediatamente teria reencontrado teu filho, que teria  
vindo te receber e te estender os braços; você teria tido a alegria de vê-lo  
radiante após esse tempo de ausência. O que você fez e o que ainda faz neste  
momento coloca entre você e ele uma barreira. Não creia que ele esteja  
perdido nas profundezas do espaço; não, ele está mais perto de você do que  
você imagina; mas um véu impenetrável o esconde à tua vista. Ele te vê, ele te  
ama sempre e geme com a triste situação na qual a tua falta de confiança em  
Deus te afundou; ele aguarda todo ansioso o momento afortunado em que lhe  
será permitido se tornar visível a você; só depende de você adiantar ou  
atrasar esse momento. Ore a Deus e diga comigo:  
Meu Deus, perdoe-me por ter duvidado da tua justiça e da tua bondade;  
se me puniu, reconheço que mereci. Por favor, aceite o meu arrependimento e  
a minha submissão à tua santa vontade.”  
A mãe Que raio de esperança você acaba de acender na minha alma! É  
um clarão na noite que me envolve. Obrigada, vou orar... Adeus.  
C...  
293 O Céu e o Inferno  
A morte, mesmo por suicídio, não produziu nesse Espírito a ilusão de se achar  
ainda vivo, pois ele tem perfeitamente a consciência do seu estado; é que para outros  
a punição consiste até nessa ilusão, nos laços que os prendem ao corpo. Esta mulher  
quis deixar a Terra para seguir o filho no mundo onde ia entrar: foi preciso que ela  
soubesse que ali estava para ser punida, não o revendo. Sua punição é exatamente  
saber que não vê mais corporalmente, e na própria consciência que ela tem de sua  
situação. Assim é que cada erro é punido pelas circunstâncias que a acompanham, e  
que não há punições uniformes e constantes para as faltas do mesmo gênero.  
DUPLO SUICÍDIO POR AMOR E POR DEVER  
Um certo jornal de 13 de junho de 1862 contém o relato seguinte:  
A jovem senhora Palmira,93 modista, morando com seus pais, era dotada  
de uma aparência encantadora, ao qual se juntava o mais amável caráter; com  
isso, era cortejada para o matrimônio. Entre os pretendentes à sua mão, ela  
preferiu o Sr. B..., que sentia por ela uma forte paixão. Entretanto, embora o  
amasse muito, ela achava que, por respeito filial, devia obedecer à vontade dos  
pais e se casar com o Sr. D..., cuja posição social lhes parecia mais vantajosa do  
que a do rival.  
Os senhores B... e D... eram amigos íntimos. Conquanto não tivessem  
nenhum interesse comum, eles não deixaram de se ver. O amor mútuo de B... e  
de Palmira que se tornou a Sra. D... não tinha diminuído e, como eles se  
esforçavam por reprimi-lo, aumentava em razão da própria violência com que  
faziam isso. Para tentar apagá-lo, B... tomou a decisão de se casar, e desposou  
uma jovem de eminentes qualidades, fazendo todo o possível para amá-la. Mas  
ele não tardou a perceber que esse meio heroico era impotente para curá-lo. No  
entanto, durante quatro anos, nem B... nem a Sra. D... faltaram aos seus deveres.  
O que eles viriam a sofrer é indizível, pois D..., que verdadeiramente estimava o  
seu amigo, o atraía sempre para a sua casa e, quando B... queria se retirar, D...  
insistia para que B... ficasse.  
Os dois amantes, certo dia reunidos por uma circunstância fortuita que  
eles não procuraram, confessaram-se o estado de suas almas e concordaram  
entre si que a morte era o único remédio aos males que eles experimentavam;  
então resolveram se matarem juntos e executar seu plano na data seguinte,  
93 No original, Palmyre. N. T.  
   
294 Allan Kardec  
quando o Sr. D... deveria estar ausente do seu domicílio grande parte do dia.  
Após terem feito os últimos preparativos, escreveram uma longa e tocante carta,  
explicando a causa da morte que eles haviam escolhido para não faltar em seus  
deveres. A carta terminava com um pedido de perdão e rogando para eles serem  
enterrados no mesmo túmulo.  
“Quando o Sr. D... retornou, ele os encontrou asfixiados. Respeitou o desejo  
final deles e quis que eles não fossem separados no cemitério.”  
Este fato tendo sido levado à Sociedade de Paris como objeto de estudo,  
um Espírito respondeu:  
Os dois amantes que se suicidaram ainda não podem lhes responder. Eu  
os vejo; eles estão mergulhados na perturbação e amedrontados pela  
perspectiva da eternidade. As consequências morais da falta deles os  
castigarão durante sucessivas migrações, em que suas almas separadas se  
buscarão sem parar e sofrerão o duplo suplício do mútuo pressentimento e do  
desejo. Terminada a expiação, eles ficarão reunidos para sempre no seio do  
amor eterno. Dentro de oito dias, na próxima sessão, vocês poderão evocá-los;  
os dois virão, mas eles não se verão: uma noite profunda oculta um do outro  
por muito tempo.”  
1. Evocação da mulher. Você vê o teu amado, ao lado do qual se suicidou? –  
R. Não vejo nada, nem mesmo os Espíritos que rondam comigo neste lugar  
onde estou. Que noite! Quanta escuridão! E que véu espesso sobre meu rosto!  
2. Que sensação você experimentou quando acordou após a morte? R. Que  
estranho! Eu sentia frio e queimava; o gelo corria nas minhas veias e o fogo  
estava no meu rosto! Que coisa estranha, essa mistura incrível! Gelo e fogo  
parecendo me sufocar! Pensei que ia sucumbir uma segunda vez.  
3. Você sentiu alguma dor física? R. Todo o meu sofrimento está aqui, e  
aqui... O que quer dizer com aqui e aqui? R. Aqui, no meu cérebro; e aqui,  
no meu coração.  
É provável que, se pudéssemos ver o Espírito, nós o veríamos levar a mão à  
cabeça e ao coração.  
4. Acredita que ficará para sempre nessa situação? R. Oh, sempre, sempre!  
295 O Céu e o Inferno  
Às vezes escuto risadas infernais, vozes apavorantes que gritam estas  
palavras: “Sempre assim!”  
5. Pois bem! Podemos te dizer, com toda segurança, que não será sempre  
assim; com o teu arrependimento, você obterá o perdão. R. O que estão  
dizendo? Não compreendo.  
6. Repito que os teus sofrimentos terão um fim, que você pode adiantar pelo  
arrependimento, e nós te ajudaremos por meio da prece. R. Não ouvi mais  
do que uma palavra e sons vagos; essa palavra é graça! Foi mesmo graça o  
que você quis dizer? Você falou em graça: sem dúvida, deve ter sido para a  
alma que passou ao meu lado, aquela pobre criança que chora e que tem  
esperança...  
Uma senhora da nossa assembleia disse que tinha acabado de dirigir a Deus uma  
prece por aquela infeliz, e que sem dúvida foi isso que a comoveu; que ela de fato  
havia implorado mentalmente a graça de Deus em favor dela.  
7. Disse que está nas trevas; então você não nos vê? R. É-me permitido ouvir  
algumas palavras que você pronuncia, mas só vejo um crepe preto sobre o  
qual em certas horas se desenha um semblante que chora.  
8. Se você não vê o teu amado, também não sente a presença dele por perto, já  
que ele está aqui? R. Ah, não me fale dele! Devo esquecê-lo por enquanto, se  
eu quiser que seja apagada desse crepe a imagem que aí vejo desenhada.  
9. Que imagem é essa? R. A de um homem que sofre, cuja existência moral  
na Terra eu aniquilei por muito tempo.  
Lendo-se esse relato, logo ficamos totalmente dispostos a encontrar  
circunstâncias atenuantes para esse suicídio, e até mesmo a encará-lo como um ato  
heroico, já que foi provocado pelo sentimento do dever. Porém, vemos que o ato foi  
julgado de outra forma, e que a pena dos culpados deva ser longa e terrível, por se  
refugiarem voluntariamente na morte a fim de fugir da luta. A intenção de não faltar  
com seus deveres era nobre, sem dúvida, e isso lhes será levada em conta mais tarde;  
mas o verdadeiro mérito teria consistido em vencer a tentação, ao passo que eles  
agiram como um desertor que se esquiva no momento do perigo.  
A pena dos dois culpados consistirá, como se vê, em procurarem um pelo outro  
296 Allan Kardec  
durante muito tempo sem se encontrarem seja no mundo dos Espíritos, seja em  
outras encarnações terrenas. Essa pena é momentaneamente agravada pela ideia de  
que o seu estado atual deva durar para sempre. Como tal pensamento faz parte do  
castigo, não lhes foi permitido ouvir as palavras de esperança que lhes foram  
endereçadas. Aos que acharem essa pena muito terrível e longa principalmente  
porque ela não deve cessar senão depois de várias encarnações nós diremos que  
sua duração não é absoluta, e que dependerá da maneira como eles suportarão suas  
provas futuras, no que poderemos ajudá-los através de preces. Eles serão, como todos  
os Espíritos culpados, os árbitros de seu próprio destino. Isso, portanto, não é ainda  
melhor do que a condenação eterna e sem esperança, à qual estão irremediavelmente  
condenados segundo a doutrina da Igreja, que os considera tal como eternos  
relegados ao inferno, recusando-lhes as últimas preces, sem dúvida, por serem  
inúteis?  
LUÍS E A COSTUREIRA DE BOTINAS  
Durante sete ou oito meses, um homem chamado Luís G..., sapateiro,  
cortejava uma jovem, Victorina R..., costureira de botinas, com a qual deveria  
se casar muito em breve, pois os proclamas do casamento já estavam em  
processo de publicação. Estando as coisas nesse ponto, os jovens se  
consideravam quase definitivamente unidos e, por medida de economia, o  
sapateiro vinha todos os dias fazer suas refeições na casa da noiva.94  
Um dia, Luís tendo vindo, como de costume, jantar com a costureira de  
botinas, surgiu uma controvérsia a propósito de uma futilidade, cada parte  
teimando em sua opinião, até que as coisas chegaram ao ponto de Luís sair da  
mesa e partir jurando não mais voltar ali.  
No dia seguinte, porém, o sapateiro veio pedir perdão: a noite é uma boa  
conselheira, como se sabe. Todavia, a operária, talvez prejulgando pela cena  
da noite anterior o que poderia acontecer quando não desse mais tempo de  
desistir, negou-se a se reconciliar; nem protestos, nem lágrimas, nem  
desesperos nem nada mais puderam comovê-la. Vários dias se passaram  
depois daquela confusão; esperando que a sua amada fosse mais flexível, Luís  
quis fazer uma última tentativa: ele então chega e bate na porta de modo a ser  
94 Nesta tradução, aportuguesamos os nomes originais Louis e Victorine para Luís e Victorina. N. T.  
   
297 O Céu e o Inferno  
reconhecido, mas a porta não foi aberta; em seguida, novas súplicas da parte  
do pobre rejeitado, novos apelos através da porta, mas nada foi capaz de  
sensibilizar a implacável pretendida. “Então, adeus, sua malvada!” — gritou  
enfim o pobre rapaz — “Adeus para sempre! Trate de procurar um marido  
que te ame tanto quanto eu!” Na mesma hora a moça ouviu uma espécie de  
gemido abafado, seguido de um barulho como que de um corpo que cai  
escorregando pela porta, e tudo ficou em silêncio. Então a moça achou que  
Luís tinha se sentado na soleira da porta para esperar que ela saísse; mas  
Victorina prometeu a si mesma não colocar os pés lá fora enquanto ele  
estivesse ali.  
Havia apenas um quarto de hora que isso tinha acontecido, quando uma  
pessoa local, passando pela calçada com uma lanterna, soltou um grito e pediu  
socorro. Os vizinhos chegaram depressa e a senhorita Victorina, também  
abrindo sua porta, deu um grito de horror ao perceber seu pretendido  
estendido no chão, pálido e sem vida. Todos se apressaram em socorrê-lo,  
mas logo viram que tudo era inútil, pois ele deixara de existir. O infeliz moço  
tinha enfiado sua faca na região do coração e a lâmina ficou cravada na ferida.  
(Sociedade Espírita de Paris, agosto de 1858)  
1. Ao Espírito de são Luís. Será que a moça, causa involuntária da morte do  
seu amado, tem alguma responsabilidade nisso? R. Sim, porque ela não o  
amava.  
2. Para prevenir essa desgraça, ela deveria desposá-lo, apesar da sua  
repugnância? R. Ela procurava uma ocasião para se separar dele, e fez no  
começo da união aquilo que teria feito mais tarde.  
3. Nisso, sua responsabilidade consiste em ter alimentado nele os sentimentos  
dos quais ela não compartilhava, sentimentos esses que foram a causa da  
morte do rapaz, certo? R. Certo, foi isso.  
4. Sua responsabilidade, nesse caso, deve ser proporcional à sua falta; então  
não deve ser tão grande quanto se ela tivesse provocado voluntariamente  
aquela morte, correto? R. Correto; isso salta aos olhos!  
5. O suicídio de Luís encontra alguma desculpa na desorientação causada pela  
298 Allan Kardec  
obstinação de Victorina? R. Sim, pois seu suicídio, que provinha do amor, é  
menos criminoso aos olhos de Deus do que o suicídio de quem quer se livrar  
da vida por um motivo de covardia.  
Tendo o Espírito de Luís G..., sido evocado numa outra vez, foram-lhe  
endereçadas as perguntas seguintes:  
1. O que pensa dessa ação que você cometeu? R. Victorina é uma ingrata; eu  
fiz errado em me matar por sua causa, pois ela não merecia isso.  
2. Então ela não te amava? R. Não; no começa ela achava que sim e se iludia;  
mas a discussão que tivemos lhe abriu os olhos; então ela ficou contente com  
esse pretexto para se livrar de mim.  
3. E você a amava sinceramente? R. Eu tinha paixão por ela; isso era tudo, eu  
acho. Se eu a tivesse amado com um amor puro, eu jamais teria pretendido  
magoá-la.  
4. Se ela soubesse que você realmente pretendia se matar, será que ela teria  
persistido em te recusar? R. Não sei; creio que não, pois ela não é má; mas  
ela teria ficado infeliz; foi ainda melhor para ela que tenha acontecido assim.  
5. Ao chegar à porta dela, você já tinha a intenção de se matar, em caso de  
recusa? R. Não; eu não pensei nisso; não acreditava que ela seria tão  
obstinada. Foi só quando vi a resistência dela que então uma vertigem tomou  
conta de mim.  
6. Parece que você não se arrepende do suicídio senão pelo fato de Victorina  
não o merecer... Esse é o único sentimento que você experimenta? R. Neste  
momento, sim; ainda estou muito perturbado; parece que ainda estou à porta  
dela; também sinto outra coisa que eu não sei definir.  
7. Acha que vai compreendê-la mais tarde? R. Sim, quando estiver  
desembaraçado... Foi o mal que eu fiz; deveria tê-la deixado em paz... Fui fraco  
e agora eu carrego o castigo. Vejam só, a paixão cega o homem e o faz cometer  
muitas loucuras; ele só compreende isso quando é tarde demais.  
8. Você disse que carrega um castigo; que castigo você está sofrendo? R. Eu  
errei em abreviar minha vida; eu não deveria ter feito isso. Eu deveria  
suportar tudo, em vez de dar um fim a tudo antes do tempo, e agora, estou  
299 O Céu e o Inferno  
desgraçado; estou sofrendo; é sempre ela quem me faz sofrer. Parece que  
ainda estou lá, à sua porta; ingrata!... Não me falem mais dela; não quero mais  
pensar nela; isso me faz muito mal. Adeus.  
Nisso também se vê uma prova da justiça distributiva que preside a punição dos  
culpados, conforme o grau de responsabilidade. Na presente circunstância, a primeira  
falta cabe àquela jovem, que alimentou em Luís um amor do qual ela não  
compartilhava e com o qual ela estava brincando; ela, portanto, carrega a maior parte  
da responsabilidade. Quanto ao moço, ele já é punido pelo sofrimento que está  
enfrentando; mas a sua pena é leve, porque não fez mais do que ceder a um impulso  
irrefletido e num momento de exaltação, em vez da fria premeditação daqueles que se  
suicidam para se subtraírem das provas da vida.  
UM ATEU  
O Senhor J.-B. D... era um homem instruído, mas imbuído até o último  
grau das ideias materialistas, não acreditando nem em Deus nem na própria  
alma. Ele foi evocado dois anos após sua morte, na Sociedade Espírita de  
Paris, a pedido de um de seus parentes.  
1. Evocação R. Estou sofrendo! Eu sou um réprobo.  
2. Fomos solicitados para te chamar em nome de teus parentes, que desejam  
conhecer tua destinação; poderia nos dizer se a nossa evocação é agradável  
ou penosa para você? R. Penosa.  
3. Tua morte foi voluntária? R. Sim.  
O Espírito escreve com extrema dificuldade; a letra é bem grossa, irregular,  
tremida e quase ilegível. Ao começar, ele mostra sua cólera, quebra o lápis e rasga o  
papel.  
4. Fique mais calmo; nós todos pediremos a Deus por você. R. Sou forçado a  
crer em Deus.  
5. Que motivo poderia te ter levado a se destruir? R. Tédio de uma vida sem  
esperança.  
Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança; a pessoa quer escapar do  
 
300 Allan Kardec  
infortúnio a todo custo. Com o Espiritismo, o futuro se desdobra e a esperança se  
legitima: então o suicídio deixa de ter objetivo; e tem mais, reconhece-se que por meio  
do suicídio a pessoa só escapa de um mal para cair noutro cem vezes pior. Eis por que  
o Espiritismo já tem tirado tanta gente da morte voluntária. São imensamente  
culpadas aquelas pessoas que se esforçam para acreditar através de sofismas  
científicos e supostamente em nome da razão nessa ideia desesperadora, fonte  
de tantos males e crimes, de que tudo acaba com a vida! Essas pessoas serão  
responsáveis não apenas pelos seus próprios erros, mas também por todos os males  
dos quais elas foram a causa.  
6. Você quis fugir das dificuldades da vida; ganhou alguma coisa com isso?  
Está mais feliz agora? R. Por que o nada não existe?  
7. Teria a gentileza de nos descrever a tua situação, o melhor que puder? R.  
Sofro por ser obrigado a crer em tudo que eu negava. Minha alma está  
como que em um braseiro; ela está terrivelmente atormentada.  
8. De onde vinham as ideias materialistas que você tinha quando estava vivo?  
R. Em outra existência eu tinha sido malvado, e meu Espírito foi condenado  
a sofrer os tormentos da dúvida durante minha vida; então eu me matei.  
Há aqui toda uma ordem de ideias. Pergunta-se frequentemente como pode  
haver materialistas, já que, tendo passado para o mundo espiritual, eles deveriam ter  
a intuição das coisas. Ora, é precisamente essa intuição que é recusada a alguns  
Espíritos que conservaram seu orgulho e que não se arrependeram das suas faltas. A  
provação deles consiste em adquirir durante a vida corpórea, e através de sua  
própria razão, a prova da existência de Deus e da vida futura que eles têm  
incessantemente diante dos olhos. Mas, muitas vezes, a presunção de não admitirem  
nada acima de si os domina e eles sofrem a pena até que, tendo domado seu orgulho,  
finalmente se rendam à evidência.  
9. Quando você se afogou, o que pensava que ia te acontecer? Que reflexões  
fazia naquele momento? R. Nenhuma; era o nada para mim. Depois eu vi  
que, ainda não tendo passado por toda a minha condenação, eu teria de sofrer  
muito mais.  
10. Agora, está bem convencido da existência de Deus, da alma e da vida  
futura? R. Ai de mim! Estou atormentado demais para isso!  
301 O Céu e o Inferno  
11. Tornou a ver o teu irmão? R. Oh, não!  
12. E por que não? R. Por que unir nossos tormentos? Nós nos exilamos na  
desgraça e nos reunimos na felicidade; ai de mim!  
13. Gostaria de rever o teu irmão? Nós poderíamos chamá-lo aqui, ao teu  
lado... R. Não, não! Estou muito abaixo.  
14. Por que você não quer que o chamemos? R. Porque ele também não está  
feliz.  
15. Você teme vê-lo, mas isso não poderia te fazer bem? R. Não; mais tarde...  
16. Deseja mandar algum recado para os teus parentes? R. Que orem por  
mim.  
17. Parece que na sociedade que você frequentava algumas pessoas  
compartilham das suas opiniões de quando era vivo; você teria algo a lhes  
dizer sobre esse assunto? R. Ah, aqueles infelizes! Que eles creiam em outra  
vida! isso é o melhor que eu posso lhes desejar. Se pudessem entender a  
minha triste situação, isso os faria refletir bem.  
(Evocação do irmão do Espírito anterior; ele professava as mesmas ideias, mas  
que não se suicidou. Embora infeliz, ele está mais calmo; a sua escrita é clara e legível.  
18. Evocação R. Que o quadro dos nossos sofrimentos possa ser uma lição  
útil para vocês, para os persuadir que existe uma outra vida, na qual expiamos  
nossos erros e nossa incredulidade.  
19. Vocês se veem reciprocamente, você e teu irmão com quem acabamos de  
evocar? R. Não; ele foge de mim.  
Alguém poderia perguntar como é que os Espíritos conseguem fugir um do  
outro no mundo espiritual, onde não existem obstáculos materiais nem refúgios  
escondidos da vista. Tudo é relativo nesse mundo e de acordo com a natureza fluídica  
dos seres que o habitam. Só os Espíritos superiores têm percepções irrestritas; nos  
Espíritos inferiores elas são limitadas, e para estes os obstáculos fluídicos têm o efeito  
das barreiras materiais. Os Espíritos furtam-se da vista uns dos outros por efeito da  
sua vontade, que atua sobre o seu envoltório perispiritual e sobre os fluidos  
302 Allan Kardec  
ambientes. Mas a Providência, que vela por cada um individualmente, como seus  
filhos, deixa-lhes ou lhes recusa essa faculdade conforme as disposições morais de  
cada qual. Dependendo das circunstâncias, isso é uma punição ou uma recompensa.  
20. Você é mais calmo do que ele; poderia nos dar uma descrição mais precisa  
dos teus sofrimentos? R. Na Terra, você não sofre por causa do teu orgulho,  
do teu amor-próprio, quando é obrigado a reconhecer teus equívocos? Teu  
espírito não se revolta com a ideia de se humilhar diante de quem te prova  
que você está errado? Pois bem! Quanto você acha que sofre o Espírito que  
durante toda uma existência se convenceu de que nada existe além dele e que  
tem razão acima de todos? Quando de repente ele se encontra diante de uma  
radiante verdade, ele fica arrasado, ele se sente humilhado. A isso ainda vem  
se juntar o remorso de ter esquecido por tanto tempo a existência de um Deus  
tão bom, tão indulgente. Sua situação é insuportável; ele não encontra nem  
calma nem descanso; só encontrará um pouco de tranquilidade quando a  
santa graça quer dizer, o amor de Deus o tocar, pois o orgulho se apossa  
de tal modo de nosso pobre espírito que o envolve por inteiro; daí é preciso  
ainda muito tempo para nos livrarmos dessa vestimenta fatal. Somente a  
prece dos nossos irmãos pode nos ajudar a nos desembaraçarmos disso.  
21. Você quer dizer dos irmãos vivos ou dos Espíritos? R. De ambos.  
22. Enquanto conversávamos com teu irmão, uma pessoa aqui presente orou  
por ele; essa prece lhe foi útil? R. Ela não será perdida. Se ele repulsa a graça  
agora, ela lhe retornará quando ele estiver em condições de recorrer a essa  
divina panaceia.  
Nós vemos aqui um outro gênero de castigo, mas que não é o mesmo em todos  
os incrédulos. Para este Espírito, independentemente do sofrimento e da necessidade,  
o castigo é reconhecer as verdades que ele renegou na sua vida. Suas ideias atuais  
denotam um certo progresso, em comparação às de outros Espíritos que persistem na  
negação de Deus. já é alguma coisa e um princípio de humildade concordar que está  
errado. É mais do que provável que, na sua próxima encarnação, sua incredulidade dê  
lugar ao sentimento inato da fé.  
Depois que o resultado dessas duas evocações foi transmitido à pessoa  
que nos havia feito essa solicitação, nós recebemos dela a seguinte resposta:  
303 O Céu e o Inferno  
O senhor não pode imaginar, meu caro, o grande benefício produzido  
pela evocação do meu sogro e do meu tio. Nós os reconhecemos  
perfeitamente; em especial, a letra do primeiro apresenta uma semelhança  
impressionante com a caligrafia que ele tinha em vida, e mais ainda porque,  
nos derradeiros meses que ele passou conosco, essa letra era torta e  
indecifrável; nela é reconhecível a mesma forma das pernas, da rubrica e de  
certas letras. Quanto às palavras, às expressões e ao estilo, a analogia é ainda  
mais marcante; para nós, a comparação é perfeita, exceto pelo fato de que ele  
é mais esclarecido sobre Deus, a alma e a eternidade que outrora ele  
negava tão veementemente. Portanto, estamos absolutamente convencidos  
de sua identidade. Deus será glorificado por nossa crença mais firme no  
Espiritismo, e os nossos irmãos os Espíritos e os encarnados irão se  
tornar melhores. A identidade de seu irmão também não é menos evidente;  
apesar da imensa diferença entre o ateu e o crente, nós reconhecemos o seu  
caráter, seu estilo e as reviravoltas típicas de suas frases; mas principalmente  
uma palavra nos chamou a atenção: panaceia; essa era uma palavra que ele  
costumava usar, e a repetia para todo mundo e a todo o instante.  
Mostrei essas duas evocações a várias pessoas, que ficaram admiradas  
com a veracidade delas; porém os incrédulos, aqueles que compartilham das  
opiniões dos meus parentes, desejariam respostas ainda mais categóricas:  
eles queriam, por exemplo, que o Sr. D... especificasse onde ele foi enterrado,  
onde se afogou, de que maneira foi encontrado etc. Para os satisfazer e os  
convencer, será que vocês poderiam evocá-lo novamente, e nesse caso, bem  
que vocês poderiam lhe perguntar onde e como ele realizou o seu suicídio;  
quanto tempo permaneceu na água, em que lugar seu corpo foi achado; em  
que lugar ele foi enterrado; de que maneira civil ou religiosa foi feito  
seu sepultamento etc.  
“Rogo, meu senhor, que tenha a bondade de perguntar categoricamente  
essas questões, que são essenciais para aqueles que ainda duvidam. Tenho  
certeza de que isso produzirá um bem imenso. Providenciarei para que  
minha carta chegue na sexta-feira de manhã, a fim de que possam fazer essa  
evocação na sessão da Sociedade desse mesmo dia... etc.”  
Nós reproduzimos esta carta por causa da identidade que ela constata;  
aqui anexamos a resposta que a ela demos, para a instrução das pessoas que  
304 Allan Kardec  
não estão familiarizadas com as comunicações de além-túmulo.  
As perguntas que nos pediram para serem novamente endereçadas ao  
Espírito de teu sogro foram indubitavelmente ditadas com uma intenção  
louvável, qual a de convencer os incrédulos, pois em vocês não se mistura  
nenhum sentimento de dúvida ou de curiosidade. Porém, um conhecimento  
mais aperfeiçoado da ciência espírita teria feito com que compreendessem  
que essas perguntas são supérfluas. Primeiramente, ao me solicitar que eu  
obtenha respostas categóricas de teus parentes, sem dúvidas o senhor ignora  
que não podermos governar os Espíritos ao nosso bel-prazer; eles respondem  
quando e como eles querem, e muitas vezes conforme eles podem; a  
liberdade de ação deles é ainda maior do que quando estavam vivos, tendo  
agora mais meios de escaparem do constrangimento moral que queiramos  
exercer sobre eles. As melhores provas de identidade são as que eles dão  
espontaneamente, por vontade própria, ou que surjam de determinadas  
circunstâncias, e na maioria das vezes é inútil procurarmos provocá-las. Teu  
parente provou a própria identidade de um modo irrecusável, conforme você  
mesmo afirmou; portanto, é mais do que provável que ele se recusaria a  
responder às perguntas que, com toda razão, ele pode considerar como  
supérfluas e levantadas com vista a satisfazer à curiosidade de gente que lhe  
era indiferente. Ele poderia, como tantos outros Espíritos já fizeram em casos  
semelhantes, responder assim: Para que perguntar coisas que vocês já  
sabem?Acrescento inclusive que o estado de perturbação e de sofrimento  
em que ele se encontra se torna ainda mais penoso para ele com  
investigações desse gênero; é exatamente como se alguém quisesse obrigar  
um enfermo que mal consegue pensar e falar a contar os detalhes de sua vida;  
seguramente, isso seria faltar com o devido respeito mediante a situação dele.  
Quanto ao resultado que espera disso, fique certo de que seria nulo. As  
provas de identidade fornecidas têm um valor bem maior por terem sido  
espontâneas e porque nada pode se opor a elas; se os incrédulos não se  
deram por satisfeitos com elas, então não se dariam com mais nada talvez  
até menos com questões previstas e das quais eles poderiam suspeitar de  
conveniência. Há pessoas a quem nada pode convencer; ainda que vissem o  
teu parente com os próprios olhos, eles iriam achar que estariam sendo  
vítimas de uma alucinação.  
Duas palavras mais, meu senhor, sobre o pedido que me fez para  
305 O Céu e o Inferno  
efetuar essa evocação no mesmo dia em que eu receberia tua carta. As  
evocações não são feitas assim de repente; os Espíritos nem sempre  
correspondem ao nosso apelo; para isso, é preciso que eles possam e que eles  
queiram; além disso, é preciso um médium que lhes convenha, possuindo as  
aptidões especiais necessárias; que esse médium esteja disponível em dado  
momento; que o ambiente seja simpático ao Espírito etc. Todas essas  
circunstâncias nem sempre podem ser satisfeitas, e é importante que se saiba  
disso quando se queira fazer a coisa seriamente.”  
FELICIANO95  
Era um homem rico, instruído, poeta espirituoso, de caráter bom,  
prestativo e muito amável, de uma perfeita honorabilidade. Investimentos  
equivocados comprometeram a sua fortuna e, como sua idade não lhe  
permitia mais recuperá-la, ele cedeu ao desânimo e se suicidou em dezembro  
de 1864, enforcando-se no seu quarto. Não era nem materialista nem ateu,  
mas um homem de temperamento um tanto superficial, pouco se importando  
com a vida futura. Como o conhecemos intimamente, nós o evocamos quatro  
meses após sua morte, por simpatia pela sua pessoa.  
Evocação R. Sinto falta da Terra; tive aí algumas decepções, mas  
menos do que aqui. Eu que sonhava maravilhas, e estou abaixo da realidade  
ideal que esperava delas. O mundo dos Espíritos é bem misto, e para torná-lo  
suportável seria preciso uma boa triagem. Nem posso acreditar! Quantos  
esboços de costumes espíritas se poderia fazer aqui! Balzac96 deveria estar  
trabalhando; ele seria rude. Mas eu não o vi; então, onde estarão esses  
grandes Espíritos que tão fortemente flagelaram os vícios da humanidade?  
Eles deveriam, assim como eu, morar aqui por algum tempo antes de irem às  
regiões mais elevadas. É pandemônio curioso que me agrada observar, e eu  
aqui permaneço.  
Se bem que esse Espírito declare se encontrar numa sociedade bastante  
95 No original em francês: Félicien. N. T.  
96  
Honoré de Balzac (1799-1850): célebre escritor francês, considerado o fundador do Realismo na  
literatura moderna, notável por sua perspicácia em descrever comportamentos. N. T.  
     
306 Allan Kardec  
diversificada e, por conseguinte, composta de Espíritos inferiores, a sua linguagem  
acabou nos surpreendendo, em razão do gênero de sua morte, da qual ele não faz  
qualquer menção, pois de outra forma era bem o reflexo do seu caráter. Isso nos  
deixou algumas dúvidas quanto à sua identidade.  
P. Queira nos dizer, por favor, como você morreu? R. Como morri? Pela  
morte que escolhi, a que me agradou. Meditei por muito tempo sobre qual  
modo eu deveria escolher para me livrar da vida. E, honestamente, confesso  
que não ganhei grande coisa com isso, exceto por ter me libertado das minhas  
preocupações materiais, só que para encontrar outras mais graves e mais  
penosas na minha condição de Espírito, cujo fim eu não prevejo.  
P. (Ao guia do médium) Será que é mesmo o Espírito do Sr. Feliciano  
quem respondeu? Essa linguagem quase despreocupada em um suicida nos  
espanta. R. Sim; mas por um sentimento justificável na sua posição, e que  
vocês compreenderão: ele não queria revelar o seu gênero de morte ao  
médium; foi por isso que ele dissimulou frases, mas acabou admitindo —  
levado por tua pergunta direta embora esteja muito afetado com isso. Ele  
sofre muito por ser suicida e afasta tanto quanto pode tudo que o faça  
recordar esse fim funesto.  
P. (Ao Espírito) Tua morte nos sensibilizou ainda mais porque nós  
previmos tristes consequências para você, e em razão principalmente da  
estima e apego que compartilhamos contigo. Pessoalmente, não me esqueci  
do quanto você era bom e prestativo para comigo. Ficarei feliz em expressar  
minha gratidão, fazendo alguma coisa que te seja útil. R. E, portanto, eu não  
podia escapar de outro modo dos embaraços da minha posição material.  
Agora, não preciso mais do que de preces; orem sobretudo para que eu seja  
liberto desses horríveis companheiros que estão aqui perto de mim,  
obsediando-me com suas risadas, gritos e zombarias infernais. Eles me  
chamam de covarde, e eles têm razão; é covardia abandonar a vida. Essa é a  
quarta vez que caio nessa provação. Eu tinha prometido para mim mesmo  
que não ia falir... Que fatalidade!... Ah, orem por mim; que suplício, esse meu!  
Estou muito infeliz! Você fará por mim, apenas orando, mais do que eu fiz por  
você quando eu estava na Terra; mas a provação na qual eu fracassei tantas  
307 O Céu e o Inferno  
vezes se apresenta diante de mim com traços indeléveis; terei que passar por  
isso de novo em algum momento; será que terei forças para isso? Ah,  
recomeçar a vida tantas vezes! Lutar por tanto tempo e ser arrastado pelos  
acontecimentos até cair, é desesperador, mesmo aqui! É por isso que  
necessito de forças. Dizem que podemos hauri-la na prece; então, rezem por  
mim; eu também quero rezar.  
Este caso particular de suicídio, conquanto realizado em circunstâncias muito  
comuns, apresenta também uma feição especial: ele nos mostra um Espírito que  
sucumbiu várias vezes a essa prova que se renova a cada existência e que se renovará  
até que ele tenha tido forças para resistir. É a confirmação daquele princípio de que,  
quando o objetivo de melhoramento para o qual nós encarnamos não é alcançado,  
então teremos sofrido sem proveito, porque nos cabe recomeçar até que saiamos  
vitoriosos da luta.  
Ao Espírito de Feliciano Ouça, eu te peço, ouça o que eu vou te dizer e  
queira meditar as minhas palavras. O que chama de fatalidade não é outra  
coisa senão a tua própria fraqueza, pois não existe fatalidade; de outro modo,  
o homem não seria responsável pelos seus atos. O homem sempre é livre e  
nisso consiste o seu mais belo privilégio. Deus não quis fazer dele uma  
máquina agindo e obedecendo cegamente. Se essa liberdade torna o homem  
falível, também o torna perfectível, e somente pela perfeição ele chega à  
felicidade suprema. Somente o orgulho o leva a acusar o destino dos seus  
infortúnios na Terra, quando na maioria das vezes eles se devem à sua  
própria incúria. Você tem um exemplo flagrante disso na tua última  
existência, quando tinha tudo o que precisava para ser feliz conforme o  
mundo: inteligência, talento, fortuna, meritória consideração, e não tinha  
nenhum vício ruinoso, mas ao contrário, tinha qualidades estimáveis. Como é  
que a tua posição ficou tão radicalmente comprometida? Unicamente pelo teu  
descuido. Admita que se você tivesse agido com mais prudência, se tivesse  
sabido se contentar com a bela parte que já possuía, em vez de procurar  
aumentá-lo sem necessidade, você não teria se arruinado. Portanto, não  
houve nenhuma fatalidade, pois você podia evitar o que aconteceu.  
Tua provação consistia num encadeamento de circunstâncias que  
deveriam te dar, não a necessidade, mas a tentação do suicídio; para você,  
308 Allan Kardec  
infelizmente, malgrado tua inteligência e tua educação, você não soube  
dominar essas circunstâncias e agora carrega a penalidade da tua fraqueza.  
Essa prova, tal como a pressentia com razão, deve se renovar ainda; na tua  
próxima existência, terá de enfrentar eventos que provocarão de novo o  
pensamento do suicídio, e assim acontecerá de novo até que tenha triunfado.  
Longe de acusar a sorte que é a tua própria obra , admire a  
bondade de Deus, que em vez de te condenar irremissivelmente pela primeira  
falta, sempre te oferece os meios de repará-la. Desse modo, você sofrerá, não  
eternamente, mas por tanto tempo quanto a reparação não tiver sido  
concluída. Depende de você, na condição de Espírito, tomar a decisão  
realmente firme de apresentar a Deus um arrependimento bem sincero e de  
solicitar com a mesma perseverança o apoio dos bons Espíritos, para que  
venha à Terra protegido contra todas as tentações. Uma vez alcançada essa  
vitória, você caminhará na estrada da felicidade com muito mais rapidez, pois,  
sob outros aspectos, o teu progresso já é bem grande. Então, esse ainda é um  
passo a ser dado; nós te ajudaremos nisso com nossas orações, mas elas serão  
impotentes se você mesmo não nos auxiliar com teus esforços.  
R. Obrigado! Muito obrigado por tuas belas exortações! Tenho muita  
necessidade desses incentivos, pois estou mais infeliz do que eu deixo  
parecer. Vou aproveitar essas exortações, eu garanto a vocês, e vou me  
preparar para a minha próxima encarnação, quando então dessa vez farei  
tudo para não sucumbir. Mal posso esperar para sair desse lugar ignóbil no  
qual fui aqui relegado.  
FELICIANO  
ANTÔNIO BELL97  
Contador numa instituição bancária no Canadá, ele se suicidou no dia 28  
de fevereiro de 1865. Um dos nossos correspondentes, médico e farmacêutico  
na mesma cidade, nos deu sobre esse caso as seguintes informações:  
Eu conhecia Bell já tem mais de vinte anos. Ele era um homem  
97 No original, Antoine Bell. N. T.  
   
309 O Céu e o Inferno  
inofensivo e pai de uma numerosa família. Há algum tempo, ele imaginou ter  
comprado de mim um veneno e que o teria usado para envenenar alguém.  
Muitas vezes ele vinha me suplicar para que eu lhe dissesse em que época eu  
lhe tinha vendido aquele veneno, e então ele caia em terríveis alucinações.  
Perdia o sono, acusando-se e batendo no peito. Sua família vivia numa  
constante ansiedade, das quatro horas da tarde até às nove da manhã —  
período em que ele prestava expediente no banco, onde ele organizava seus  
livros de uma maneira bem regular, sem jamais cometer nenhum erro. Tinha  
o costume de dizer que sentia dentro de si um ser que o fazia manter sua  
contabilidade com ordem e regularidade. Quando parecia estar convencido do  
absurdo dos seus pensamentos, ele bradava: Não, não, você quer me  
enganar... eu me lembro... isso é a verdade...”  
Antônio Bell foi evocado em Paris no dia 17 de abril de 1865, a pedido do  
seu amigo.  
1. Evocação R. O que querem de mim? Querem me submeter a um  
interrogatório? É inútil; confessarei tudo!  
2. Longe de nosso pensamento querer te atormentar com perguntas  
indiscretas; apenas desejamos saber qual é a tua situação no mundo em que  
está e se nós podemos fazer algo útil por você. R. Ah, se puderem, eu ficaria  
muito grato a você! Tenho horror ao meu crime e estou muito infeliz!  
3. Nossas preces, assim esperamos, vão aliviar tua tristeza. Além do mais,  
parece que você está em boas condições; existe arrependimento em teu ser e  
isso já constitui um começo de reabilitação. Deus, que é infinitamente  
misericordioso, sempre tem compaixão do pecador arrependido. Ore conosco.  
(Neste momento, foi feita a prece pelos suicidas, que se encontra em O Evangelho  
segundo o Espiritismo.)  
Agora, tende a bondade de nos dizer de qual crime você se reconhece  
culpado. Será levada em conta a teu favor essa confissão, feita com humildade.  
R. Deixem-me primeiro agradecer pela esperança que vocês vêm fazer  
brotar no meu coração. Ah, já faz muito tempo que eu vivia numa cidade cujas  
muralhas eram banhadas pelo Mar do Mediterrâneo. Eu amava uma bela e  
jovem donzela que correspondia ao meu amor; mas eu era pobre, e fui  
310 Allan Kardec  
rejeitado pela família dela. Ela me contou que ia desposar o filho de um  
negociante, cujo comércio se estendia para além de dois mares; então fui  
recusado. Louco de dor, resolvi tirar a própria vida só que depois de  
realizar minha vingança assassinando meu odioso rival. No entanto, os meios  
violentos me repugnavam; eu estremecia ao pensar na ideia desse crime, mas  
o meu ciúme prevaleceu. Na véspera do dia em que a minha amada devia ser  
dele, ele morreu envenenado devido minhas providências, achando eu esse  
meio mais fácil. Isso explica minhas reminiscências do passado. Sim, eu já vivi,  
e é preciso que eu reviva ainda... Oh, meu Deus! Tenha piedade da minha  
fraqueza e das minhas lágrimas.  
4. Nós deploramos essa infelicidade que retardou teu avanço e sinceramente  
lamentamos por você; todavia, já que se arrepende, Deus terá piedade de ti.  
Diga-nos, por gentileza, se você executou o teu plano de suicídio. R. Não;  
para vergonha minha, confesso que a esperança retornou no meu coração,  
pois eu desejava aproveitar o prêmio do meu crime. Entretanto, meus  
remorsos me traíram e assim eu expiei aquele momento de loucura pelo  
último suplício: eu fui enforcado.  
5. Você tinha consciência daquela má ação praticada na existência anterior? –  
R. Somente nos últimos anos da minha vida, e eis como: eu era bom por  
natureza, e depois de ter sido submetido como todos os Espíritos  
homicidas ao tormento da visão contínua da minha vítima, que me  
perseguia como um remorso vivo, dela me libertei depois de muitos anos,  
através de minhas preces e do meu arrependimento. Recomecei outra vez a  
vida, esta mais recente, e a atravessei pacífico e tímido. Tinha em mim uma  
vaga intuição da minha fraqueza natural e da minha anterior, cuja lembrança  
eu sempre conservava em estado latente. Porém, um Espírito obsessor e  
vingativo que não era outro senão o pai da minha vítima não teve  
dificuldades de se apoderar de mim, fazendo reviver no meu coração, como se  
fosse num espelho mágico, as lembranças do passado.  
Alternadamente influenciado por ele e pelo meu guia, que me protegia,  
eu era às vezes o envenenador e às vezes o pai de família que ganhava o pão  
dos seus filhos pelo seu trabalho. Fascinado por esse demônio obsessor, fui  
311 O Céu e o Inferno  
levado ao suicídio.  
Sou muito culpado, é verdade, mas menos do que se eu tivesse resolvido  
isso por mim mesmo. Os suicidas da minha categoria, e que são bastante  
frágeis para resistir aos Espíritos obsessores, são menos culpados e menos  
punidos do que quem tira a vida por efeito exclusivo do seu livre-arbítrio.  
Rezem comigo pelo Espírito que tão fatalmente me influenciou, a fim de que  
ele abdique de seus sentimentos de vingança, e rezem também por mim, para  
que eu adquira a energia necessária para não falir na prova do suicídio por  
livre vontade, prova à qual eu serei submetido, dizem-me, na minha  
próxima encarnação.  
6. Ao guia do médium Um Espírito obsessor realmente pode levar o  
obsediado ao suicídio? R. Seguramente, pois a obsessão que por si mesma  
já é um gênero de prova pode se revestir de todas as formas; mas isso não  
é uma desculpa. O homem sempre tem o seu livre-arbítrio e, por conseguinte,  
ele é livre para ceder ou resistir às sugestões a que está exposto. Quando ele  
fracassa, é sempre por causa da sua vontade. De resto, esse Espírito tem razão  
quando diz que aquele que cometeu o mal por incentivo de outro é menos  
repreensível e menos punível do que quando ele o comete voluntariamente;  
mas nem por isso ele é inocente, visto que, desde o instante em que ele se  
deixa ser afastado do caminho reto, é que o bem ainda não está fortemente  
enraizado nele.  
7. Como é possível que, apesar da oração e do arrependimento que tinham  
livrado esse Espírito do tormento que ele experimentava ao ver sua vítima,  
ele ainda fosse perseguido pela vingança do Espírito obsessor na sua última  
encarnação? R. Como vocês sabem, o arrependimento não passa de uma  
preliminar indispensável para a reabilitação, mas só isso não basta para  
isentar o culpado de toda a punição. Deus não se contenta com promessas; é  
preciso provar, pelos atos pessoais, a solidez do retorno ao bem. É por isso  
que o Espírito é submetido a novas provações que o fortalecem, ao mesmo  
tempo em que elas lhe permitem adquirir um merecimento ainda maior  
quando delas a pessoa sai vitoriosa. A pessoa fica exposta às perseguições dos  
Espíritos malignos até que ela se sinta forte o bastante para resistir aos  
312 Allan Kardec  
perseguidores; daí em diante, eles a deixarão livre, porque sabem que suas  
tentativas seriam infrutíferas.  
Esses dois últimos exemplos nos mostram a mesma prova se renovando a cada  
encarnação, toda vez que a pessoa caia nessa prova. Antônio Bell nos exemplifica,  
aliás, o fato não menos instrutivo de um homem perseguido pela lembrança de um  
crime cometido numa existência precedente, tal como um remorso e uma advertência.  
Por aí nós vemos que todas as existências são solidárias umas com as outras; a justiça  
e a bondade de Deus brilham na capacidade que ele concede ao homem para se  
melhorar gradualmente, sem jamais lhe fechar a porta do resgate das próprias falhas;  
o culpado é punido pelo seu erro pessoal e a punição, em vez de ser uma vingança de  
Deus, representa o meio empregado para fazer o homem progredir.  
313 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO VI  
CRIMINOSOS ARREPENDIDOS  
VERGER LEMAIRE BENOIST –  
VERGER  
Assassino do Arcebispo de Paris  
A 3 de janeiro de 1857, o monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, ao sair  
da igreja de Saint-Étienne-du-Mont, foi mortalmente ferido por um jovem  
padre chamado Verger. O culpado foi condenado à morte e executado no dia  
30 de janeiro. Até o último instante ele não demonstrou nem pesar, nem  
arrependimento, nem sensibilidade.  
Evocado no mesmo dia da sua execução, ele deu as seguintes respostas:  
1. Evocação R. Ainda estou retido no corpo.  
2. Então a tua alma ainda não está inteiramente desligada do teu corpo? R.  
Não... tenho medo... não sei... Esperem até que eu me reconheça... Não estou  
morto, não é mesmo?  
3. Você se arrepende do que fez? R. Estava errado em matar, mas fui levado  
a isso pelo meu caráter, que não podia suportar as humilhações... Evoquem-  
me uma outra vez.  
4. Por que você já vai? R. Eu ficaria com muito medo se o visse; eu temeria  
que ele me fizesse a mesma coisa.  
5. Mas não há o que você temer, pois a tua alma está separada do teu corpo;  
livre-se de toda preocupação: isso não é razoável. R. O que querem? Será  
   
314 Allan Kardec  
que vocês estão sempre certos de suas impressões?... Não sei onde estou...  
estou louco!  
6. Trate de se refazer. R. Não posso mais, porque estou louco... Esperem!...  
Vou recobrar toda a minha lucidez.  
7. Será que se você orasse, isso não poderia te ajudar a concentrar tuas ideias?  
R. Tenho medo... não me atrevo a orar.  
8. Ore, pois a misericórdia de Deus é grande! Nós vamos orar contigo. R.  
Sim, a misericórdia de Deus é infinita; sempre acreditei nela.  
9. Agora, compreende melhor a tua situação? R. Ela é tão extraordinária que  
ainda não posso compreendê-la.  
10. Está vendo a tua vítima? R. Parece que eu escuto uma voz semelhante à  
dele, dizendo-me: Não te quero mais... Mas deve ser um efeito da minha  
imaginação!... Estou louco, garanto a vocês, pois vejo meu próprio corpo de  
um lado e minha cabeça de outro... e, no entanto, parece que estou vivo, só  
que no Espaço, entre a Terra e o que chamam de céu... Sinto até o frio de uma  
faca caindo no meu pescoço... Mas isso é o medo que eu tenho de morrer...  
Parece que estou vendo uma multidão de Espíritos à minha volta, olhando  
para mim com compaixão... Eles falam comigo, mas eu não os compreendo.  
11. Entre esses Espíritos, há algum cuja presença te humilhe por causa do teu  
crime? R. Direi que só há um deles que me amedronta: aquele que eu matei.  
12. Lembra-se das tuas existências anteriores? R. Não; tudo é vago... acho  
que estou sonhando... Mais uma vez, preciso me encontrar...  
13. (Três dias depois) Você se reconhece melhor agora? R. Agora já sei que  
não sou mais desse mundo, e não sinto falta dele. Lamento pelo que fiz, mas  
meu Espírito está mais livre; eu sei melhor que há uma série de existências  
que nos dão os conhecimentos úteis para nos tornarmos tão perfeitos quanto  
uma criatura pode ser.  
14. Está sendo punido pelo crime que cometeu? R. Sim; eu lamento o que fiz  
e sofro por isso.  
15. De que maneira você é punido? R. Sou punido porque tenho consciência  
315 O Céu e o Inferno  
da minha falta e peço perdão a Deus por isso; sou punido pela consciência da  
minha falta de fé em Deus e porque sei agora que não devemos abreviar a  
vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso em razão de eu ter retardado  
o meu progresso ao tomar o caminho errado e não escutando o clamor da  
minha consciência, que me dizia que não seria matando que eu chegaria ao  
meu objetivo. Porém, deixei ser dominado pelo orgulho e pelo ciúme;  
enganei-me e disso me arrependo, pois o homem sempre deve fazer esforços  
para controlar suas más paixões e eu não controlei as minhas.  
16. Que sentimento você experimenta quando te evocamos? R. Um prazer e  
um temor, pois não sou mau.  
17. Em que consiste esse prazer e esse temor? R. Um prazer em conversar  
com as pessoas e de poder em parte reparar minha falta confessando-a;  
quanto ao temor, eu não saberia definir... É uma espécie de vergonha por ter  
sido assassino.  
18. Gostaria de estar reencarnado na Terra? R. Sim, eu peço isso, e desejo  
ficar constantemente exposto a ser assassinado e ter medo disso.  
Sendo evocado, Monsenhor Sibour disse que perdoava seu assassino e orava  
para que ele retornasse ao bem. Acrescentou que, embora presente, não tinha se  
mostrado a ele para não aumentar o sofrimento do algoz; o temor de vê-lo que era  
um sinal de remorso já bastava como castigo.  
P. O homem que comete um assassínio, ao escolher sua existência, já  
sabe que irá se tornar um assassino? R. Não; ele sabe que, escolhendo uma  
vida de luta, há a chance de matar um de seus semelhantes, mas ele não sabe  
se fará isso, porque quase sempre houve uma luta dentro dele.  
A situação de Verger, no momento de sua morte, é a de quase todos que  
perecem de morte violenta. Como a separação da alma não se opera de uma maneira  
brusca, eles ficam como que aturdidos e não sabem se estão mortos ou vivos. A  
presença do arcebispo lhe foi poupada, por ela não ser necessária a fim de incitar nele  
o remorso, ao passo que outros, ao contrário, são constantemente perseguidos pelo  
olhar das suas vítimas.  
À gravidade do seu crime, Verger acrescentava o fato de não ter se arrependido  
316 Allan Kardec  
ainda de morrer; portanto, ele tinha todas as condições requeridas para sofrer a  
condenação eterna. Entretanto, mal ele deixou a Terra e o arrependimento penetrou a  
sua alma; ele repudia seu passado e pede sinceramente para repará-lo. Não é o  
excesso de sofrimento que o motiva a isso, porque ele nem teve tempo para sofrer;  
mas é exatamente o grito da sua consciência, que ele tinha desprezado em vida e que  
agora ele está escutando. Por que então isso não seria levado em conta a favor dele?  
Por que aquilo que o teria salvo do inferno deixaria de valer alguns dias depois? Por  
que Deus, que teria sido misericordioso antes da morte, haveria de ser impiedoso  
algumas horas mais tarde?  
Alguém poderia ficar admirado da rapidez da mudança que às vezes se opera  
nas ideias de um criminoso endurecido até o derradeiro momento e naquele em quem  
um instante na outra vida basta para lhe fazer compreender a iniquidade da sua  
conduta. Esse efeito está longe de ser generalizado, pois sem isso não haveria maus  
Espíritos; o arrependimento quase sempre é muito tardio, então a pena é prolongada  
por consequência disso.  
A obstinação no mal durante a vida às vezes é uma consequência do orgulho que  
recusa ceder e admitir seus próprios erros; isso é porque o homem está sob a  
influência da matéria que lança um véu sobre suas percepções espirituais e o  
fascina. Depois que esse véu cai, uma luz súbita o esclarece e ele se encontra como que  
sóbrio. O pronto retorno a melhores sentimentos é sempre o indício de um certo  
progresso moral realizado, que não pede mais do que uma circunstância favorável  
para se revelar, enquanto quem persiste no mal mais ou menos por um longo tempo  
depois da morte é, incontestavelmente, um Espírito mais atrasado, em quem o  
instinto material sufoca a semente do bem e a quem ainda são necessárias novas  
provações para se corrigir.  
LEMAIRE  
Condenado à pena de morte pelo júri do Aisne e executado em 31 de dezembro de  
1857; evocado em 29 de janeiro de 1858  
1. Evocação R. Aqui estou.  
2. Que sentimento você experimenta diante de nós? R. Vergonha.  
3. Conservou tua consciência até o último momento? R. Sim.  
4. Imediatamente após a tua execução, você teve consciência da tua nova  
 
317 O Céu e o Inferno  
existência? R. Fiquei mergulhado numa imensa perturbação, da qual ainda  
não saí. Senti uma grande dor e parecia que meu coração a sofria. Vi rolar não  
sei o que aos pés do cadafalso; vi sangue correr, e a minha dor se tornou ainda  
mais pungente. Era uma dor puramente física, semelhante à que seria  
causada por um grave ferimento, a dor de uma amputação de um membro,  
por exemplo? R. Não; imaginem um remorso, uma grande dor moral. —  
Quando você começou a sentir essa dor? R. Desde que fiquei livre.  
5. Essa dor física causada pelo suplício, era sentida pelo corpo ou pelo  
Espírito? R. A dor moral estava no meu Espírito; o corpo sentia a dor física;  
mas o Espírito separado ainda se ressentia dessa dor física.  
6. Viu o teu corpo mutilado? R. Vi alguma coisa disforme, que me parecia  
partido; porém, eu ainda me sentia inteiro: era eu mesmo. Que impressão  
essa cena te causou? R. Eu sentia bastante a minha dor; eu estava perdido  
nela.  
7. É verdade que o corpo vive ainda alguns instantes após a decapitação, e que  
o supliciado tem consciência das suas ideias? R. O Espírito se retira pouco a  
pouco; quanto mais os laços materiais estão enlaçados, menos rápida é a  
separação.  
8. Há quem diga ter notado na fisionomia de determinados supliciados a  
expressão de cólera e de movimentos, como se eles quisessem falar; isso seria  
o efeito de uma contração nervosa ou de um ato voluntário? R. Voluntário,  
pois o Espírito ainda não tinha se retirado do corpo.  
9. Qual é o primeiro sentimento que você experimentou ao entrar na tua nova  
existência? R. Um sofrimento intolerável, uma espécie de remorso pungente  
cuja causa eu ignorava.  
10. Você ficou reunido com os teus cúmplices, executados junto contigo? R.  
Para a nossa tristeza, sim; nossa presença mútua é uma desgraça contínua;  
cada qual culpando os outros pelos seus crimes.  
11. Reencontrou tuas vítimas? R. Eu as vejo... estão todos felizes... o olhar  
delas me perseguem... sinto que penetram até o fundo do meu ser... em vão eu  
tento fugir... Que sentimento o olhar delas provoca em você? R. Vergonha  
318 Allan Kardec  
e remorso. Eu causei isso com as minhas próprias mãos, e as odeio também  
por isso. O que eles sentem diante de você? R. Piedade.  
12. Será que eles têm ódio e desejo de vingança? R. Não; o olhar deles clama  
pela minha expiação. Vocês não poderiam imaginar o horrível suplício que é  
dever tudo a quem odiamos.  
13. Você lamenta pela vida terrestre? R. Só lamento os meus crimes. Se  
dependesse de mim, eu não sucumbiria novamente.  
14. A tendência para o mal era da tua natureza, ou será que você foi  
influenciado pelo meio em que vivia? R. A tendência para o crime era da  
minha natureza, pois eu não passava de um Espírito inferior. Quis me elevar  
rapidamente, porém pedi mais do que minhas forças; acreditei ser forte e  
escolhi uma prova rude, daí cedi às tentações do mal.  
15. Se tivesse recebido bons princípios de educação, será que você poderia ter  
sido desviado da via criminosa? R. Sim; mas eu escolhi a condição em que  
nasci. Poderia ter se tornado um homem de bem? R. Um homem fraco,  
incapaz tanto de fazer o bem quanto de fazer o mal. Eu poderia corrigir o mal  
da minha natureza durante a minha existência, mas não me elevar a ponto de  
fazer o bem.  
16. Enquanto vivo, acreditava em Deus? R. Não. No entanto, dizem que no  
momento de morrer a pessoa se sente arrependida; isso é verdade? R. Eu  
acreditei num Deus vingativo... Eu tive medo da sua justiça. Neste  
momento, o teu arrependimento é mais sincero? R. Ah, eu vejo o que fiz. —  
O que você pensa de Deus agora? R. Eu o pressinto, mas não o compreendo.  
17. Acha justo o castigo que te infligiram na Terra? R. Sim.  
18. Espera obter o perdão dos teus crimes? R. Não sei. Como espera  
repará-los? R. Através de novas provações, mas me parece que existe uma  
eternidade entre elas e eu.  
19. Onde você se encontra agora? R. Estou dentro do meu sofrimento. —  
Perguntamos em que lugar você está. R. Perto do médium.  
20. Já que está aqui, se nós pudéssemos te ver, sob qual forma você apareceria  
319 O Céu e o Inferno  
para nós? R. Sob a minha forma corpórea: a cabeça separada do tronco. —  
Poderia aparecer para nós? R. Não; deixem-me!  
21. Gostaria de nos dizer como conseguiu fugir da prisão de Montdidier? R.  
Eu não sei mais... meu sofrimento é tão grande que só tenha lembrança do  
crime... Deixem-me!  
22. Poderíamos levar algum alívio para os teus sofrimentos? R. Façam votos  
para que chegue a minha expiação.  
BENOIST  
(Bordeaux, março de 1862)  
Um Espírito se apresenta espontaneamente ao médium sob o nome de  
Benoist, dizendo ter morrido em 1704 e que está padecendo de horríveis  
sofrimentos.  
1. Quem foi quando estava vivo? R. Um monge sem fé.  
2. A falta de fé foi o teu único erro? R. Basta ela para arrastar os demais.  
3. Poderia nos dar alguns detalhes da tua vida? A sinceridade da tua confissão  
será levada em conta a teu favor. R. Sem fortuna e preguiçoso, ordenei-me  
frade, não por vocação, mas para ter uma boa posição. Inteligente, eu consegui  
um lugar; influente, abusei do poder; vicioso, atraí para as desordens aqueles  
a quem eu tinha a missão de salvar; cruel, persegui aqueles que pareciam  
culpar meus excessos; os pacíficos foram incomodados devido minhas  
providências. A fome torturou muitas vítimas e seus gritos muitas vezes eram  
abafados pela violência. Agora, eu expio todas as torturas do inferno; minhas  
vítimas ateiam o fogo que me devora. A luxúria e a fome insaciáveis me  
perseguem; a sede irrita meus lábios ardentes sem nunca deixar cair sobre  
eles uma gota refrescante; todos os elementos se encalçam contra mim.  
Rezem por mim!  
4. As preces feitas pelos falecidos devem ser atribuídas a você assim como aos  
outros? R. Vocês acham que elas sejam muito edificantes, mas para mim  
 
320 Allan Kardec  
elas têm o mesmo valor daquelas que eu fingia fazer. Como não completei  
minha tarefa, não recebo salário por elas.  
5. Você jamais se arrependeu? R. Há muito tempo; mas só através do  
sofrimento. Como eu era surdo ao clamor de vítimas inocentes, o Mestre  
também é surdo aos meus clamores. Justiça!  
6. Você reconhece a justiça do Senhor; então, confie na bondade dele e peça  
pelo seu auxílio. R. Os demônios berram mais forte do que eu; meus gritos  
ficam engasgados; eles enchem a minha boca de piche fervente!... Eu consegui,  
grande... (O Espírito não pôde escrever a palavra Deus.)  
7. Você não está suficientemente separado das ideias terrenas para entender  
que as torturas pelas quais está passando são todas morais? R. Sofro-as,  
sinto-as, vejo os meus carrascos; todos eles têm um rosto conhecido; todos  
eles têm um nome que repercute em meu cérebro.  
8. O que foi que te levou a todas essas infâmias? R. Os vícios dos quais eu  
estava repleto; a brutalidade das paixões.  
9. Nunca implorou a assistência dos bons Espíritos para te ajudarem a sair  
dessa situação? R. Não vejo senão os demônios do inferno.  
10. Tinha medo deles, quando estava vivo? R. Não, medo nenhum; o nada,  
essa era a minha fé. Prazeres a todo custo, isso constituía o meu culto.  
Divindades do inferno, elas nunca me deixaram; consagrei minha vida a elas e  
elas não me abandonaram mais!  
11. Não vislumbra um fim para os teus sofrimentos? R. Infinito não tem fim.  
12. Deus é infinito na sua misericórdia; tudo pode ter um término quando ele  
assim o queira. R. Ah, se ele quisesse!  
13. Por que veio se apresentar aqui? R. Não sei como, mas eu queria falar e  
gritar como que para desabafar.  
14. Teus demônios não te impedem de escrever? R. Não, mas eles ficam na  
minha frente, me esperando; é por isso que eu não queria terminar.  
15. É a primeira vez que você escreve desse modo? R. Sim. Sabia que os  
Espíritos podem se aproximar dos homens assim? R. Não. Então, como  
321 O Céu e o Inferno  
você conseguiu compreendê-lo? R. Não sei.  
16. O que sente ao chegar perto de mim? R. Uma dormência nos meus  
temores.  
17. Como percebeu que você estava aqui? R. Como alguém que acorda.  
18. Como fez para se comunicar comigo? R. Nem sei, mas você não sentiu?  
19. Não se trata de mim, mas de você; tente se dar conta do que você faz neste  
momento em que eu escrevo. R. Você é o meu pensamento, eis tudo.  
20. Quer dizer que não sentiu vontade de me fazer escrever? R. Não, sou eu  
quem está escrevendo, e você pensa por mim.  
21. Tente se dar conta disso; os Espíritos bons que nos rodeiam te ajudarão  
nisso. R. Não, os anjos não vêm ao inferno. Olha ao teu redor. R. Sinto  
que alguém me ajuda a pensar por você... tua mão me obedece... não te toco,  
mas eu te seguro... Eu não entendo...  
22. Peça a assistência dos teus protetores; nós vamos pedir juntos. R. Quer  
me deixar? Fique comigo; eles vão me pegar de novo! Por favor, fique! Fique!  
23. Não posso ficar por mais tempo. Volte aqui todos os dias; nós rezaremos  
juntos e os bons Espíritos te ampararão. R. Sim, desejo meu perdão. Peçam  
por mim; quanto a mim, eu não consigo.  
O guia do médium Coragem, meu filho; aquilo que você pede te será  
concedido, mas a expiação ainda está longe de terminar. As atrocidades que  
ele cometeu são incontáveis e a culpa dele é ainda maior porque ele tinha  
inteligência, instrução e a luz para se guiar. Portanto, ele falhou com  
conhecimento de causa; sendo assim, seus sofrimentos são terríveis. Porém,  
com o socorro e o exemplo da prece, suas dores serão amenizadas, porque ele  
verá a possibilidade do fim delas, e a esperança o sustentará. Deus o vê na  
rota do arrependimento, e já lhe concedeu a graça de poder se comunicar, a  
fim de ser encorajado e amparado. Dessa maneira, pense sempre nele; nós o  
entregamos a você para fortalecê-lo nas boas resoluções que ele poderá tomar  
ajudado pelos teus conselhos. Ao arrependimento sucederá nele o desejo da  
reparação; a partir de então ele mesmo pedirá uma nova existência na Terra,  
322 Allan Kardec  
para praticar o bem em lugar do mal que ele fez. E quando Deus estiver  
satisfeito com ele, o perceber bem firme, Deus o fará pressentir as divinas  
claridades que o conduzirão à porta da salvação, recebendo-o no seu seio qual  
o filho pródigo. Tenha confiança! Nós te ajudaremos a realizar a tua obra.  
PAULINO  
Colocamos este Espírito entre os criminosos, se bem que ele não foi atingido  
pela justiça humana, porque o crime consiste nos atos, e não no castigo aplicado pelos  
homens. É a mesma situação do caso seguinte.  
O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY  
Numa pequena casa, perto de Castelnaudary, ocorriam barulhos  
estranhos e diversas manifestações que a fizeram ser considerada como mal-  
assombrada por algum gênio mau. Por esse fato, ela foi exorcizada em 1848,  
sem resultado. O proprietário, o Sr. D..., querendo habitá-la, lá morreu  
subitamente alguns anos depois; seu filho, que em seguida também quis lá  
morar, ao entrar num dos cômodos, recebeu certo dia um forte tapa dado por  
uma mão desconhecida; como ele estava perfeitamente sozinho, não pôde  
duvidar que o golpe tinha vindo de uma fonte oculta razão pela qual ele  
resolveu sair de lá definitivamente. Há naquela região uma tradição segundo a  
qual um grande crime havia sido cometido naquela casa.  
O Espírito que tinha dado a bofetada, tendo sido evocado na Sociedade  
de Paris, em 1859, manifestou-se com sinais de violência; todos os esforços  
para acalmá-lo foram inúteis. São Luís, interrogado a respeito disso,  
respondeu: “Trata-se de um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro:  
nós o trouxemos aqui, mas não conseguimos obrigá-lo a escrever, apesar de  
tudo o que lhe foi dito, pois ele tem seu livre-arbítrio, e o infeliz faz um triste  
uso disso.”  
P. Esse Espírito é passivo de melhoria? R. Por que não? Não são todos  
eles capazes, este assim como os outros? No entanto, é certo que para isso vai  
haver dificuldades; mas, por mais perverso que ele seja, o bem sendo aplicado  
em lugar do mal acabará por sensibilizá-lo. Em primeiro lugar, oremos por  
ele, e depois, daqui a um mês, vamos evocá-lo: vocês poderão ver a mudança  
 
323 O Céu e o Inferno  
que se realiza nele.  
Evocado novamente mais tarde, o Espírito mostra-se mais tratável, e  
pouco a pouco mais submisso e arrependido. Das explicações posteriores  
fornecidas por ele e por outros Espíritos, resulta que em 1608 ele morava  
naquela casa, onde tinha assassinado seu irmão por suspeitas de uma  
ciumenta rivalidade, golpeando-o na garganta enquanto sua vítima dormia;  
passados alguns anos, também matou aquela que havia se tornado sua esposa,  
após a morte do seu irmão. Ele faleceu em 1659, com a idade de oitenta anos,  
sem ter sido incomodado por essas mortes, às quais se dava pouca atenção  
naqueles tempos de confusões. Depois da sua morte, ele não parou de  
procurar fazer o mal, provocando vários acidentes ocorridos naquela casa.  
Um médium vidente que assistiu à primeira evocação, visualizou-o quando  
pretendiam forçá-lo a escrever; ele sacudia bruscamente o braço do médium:  
seu aspecto era medonho; estava vestido com uma camisa coberta de sangue  
e carregando um punhal.  
1. Pergunta a são Luís. Queira nos descrever o gênero de suplício desse  
Espírito. R. É atroz para ele, que foi condenado a permanecer na casa onde o  
crime foi cometido, sem poder dirigir seu pensamento para outra coisa que  
não o seu crime, sempre diante dos olhos dele, e crendo estar fadado a essa  
tortura por toda a eternidade. Ele se vê constantemente no momento em que  
cometeu seu crime; qualquer outra lembrança lhe foi retirada e toda  
comunicação com qualquer outro Espírito lhe é proibida. Na Terra, ele só  
pode permanecer naquela casa, e quando ele está no Espaço só existe trevas e  
solidão.  
2. Haveria algum meio de fazê-lo desalojar dessa casa? E qual seria? R. Caso  
se queira desembaraçar-se de obsessões de semelhantes Espíritos, isso é fácil:  
orem por eles. Mas isso é exatamente o que todo mundo sempre esquece de  
fazer; prefere-se intimidá-los com fórmulas de exorcismos o que os  
divertem bastante.  
3. Sugerindo às pessoas interessadas a ideia de orar por ele, e nós mesmos  
também orando, conseguiríamos fazê-lo desalojar aquela casa? R. Sim, mas  
reparem bem que eu disse para orar, e não para mandar orar.  
324 Allan Kardec  
4. Eis que se passaram dois séculos com ele nessa situação; será que ele  
percebe esse tempo como teria percebido se fosse vivo? Quer dizer, o tempo  
lhe pareceria tão longo ou menos longo do que quando estava vivo? R. Para  
ele parece ser mais longo, pois o sono não existe para ele.  
5. Disseram-nos que para os Espíritos o tempo não existe e que um século  
para eles não passa de um ponto na eternidade; então o tempo não é o mesmo  
para todos? R. Não, certamente; o tempo só é o mesmo para os Espíritos que  
já chegaram a um grau muito elevado de adiantamento, enquanto para os  
Espíritos inferiores o tempo às vezes é bem longo, sobretudo quando sofrem.  
6. De onde vinha esse Espírito antes da sua encarnação? R. Ele teve uma  
existência entre os povos dos mais ferozes e selvagens e, precedentemente,  
veio de um planeta inferior à Terra.  
7. Esse Espírito está sendo punido bem severamente pelo crime que cometeu;  
já que ele vivia entre povos bárbaros, ele deve ter cometido lá atos não menos  
atrozes que os dessa última encarnação; será que lá ele era punido da mesma  
forma? R. Ele era menos punido lá, porque, sendo mais ignorante, ele  
compreendia menos a extensão dos seus crimes.  
8. O estado em que esse Espírito se encontra é o dos seres vulgarmente  
chamados de danados? R. Absolutamente não; há Espíritos ainda mais  
hediondos. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, mesmo  
que para crimes semelhantes, pois eles variam conforme o culpado seja mais  
ou menos acessível ao arrependimento. Para esse Espírito aqui, a casa onde  
ele cometeu seus crimes é o seu inferno; outros carregam o seu inferno em si  
mesmos, pelas paixões que os atormentam e que eles não podem saciar.  
9. Apesar da sua inferioridade, esse Espírito ressente os bons efeitos da prece;  
já vimos a mesma coisa com outros Espíritos igualmente perversos e de  
natureza mais bruta. Como é possível que Espíritos mais esclarecidos e de  
uma inteligência mais desenvolvida, possam demonstrar completa ausência  
de bons sentimentos e que até riem de tudo o que há de mais sagrado e,  
enfim, que nada os comova, sem haver nenhuma trégua no seu cinismo? R. A  
prece só tem eficácia em favor do Espírito que se arrepende; aquele que,  
325 O Céu e o Inferno  
dominado pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste nos seus equívocos,  
exagerando-os ainda mais, tal como o fazem os Espíritos infelizes, então sobre  
esses a prece não adianta nada, e nem poderá adiantar senão no dia em que  
um facho de arrependimento tenha se manifestado neles. A ineficácia da  
prece é também para eles um castigo; a prece só alivia os que não estão  
totalmente endurecidos.  
10. Quando vemos um Espírito insensível aos bons efeitos da prece, isso seria  
uma razão para deixarmos de orar por ele? R. Sem dúvidas que não! Pois  
cedo ou tarde a prece poderá vencer o endurecimento dele, fazendo germinar  
nele pensamentos salutares.  
É o mesmo que acontece com determinados enfermos sobre os quais os  
remédios só agem a longo prazo, cujo efeito não é apreciável no momento; sobre  
outros,  
ao  
contrário,  
os  
medicamentos  
afetam  
imediatamente.  
Se  
nos  
compenetrarmos dessa verdade de que todos os Espíritos são perfectíveis e que  
nenhum está fatal e eternamente fadado ao mal, então compreenderemos que, cedo  
ou tarde, a prece fará seu efeito e que aquilo que à primeira vista parece ineficaz, na  
verdade, deposita sementes salutares que predispõem o Espírito ao bem quando  
não o afetam imediatamente. Seria, pois, um erro ficar desanimado porque não se  
obteve um sucesso de imediato.  
11. Quando esse Espírito reencarnar, em qual categoria de indivíduos ele se  
encontrará? R. Isso depende dele e do arrependimento que ele sentir.  
Várias conversas com esse Espírito lhe renderam uma notável modificação no  
seu estado moral. Eis aqui algumas das suas respostas:  
12. Ao Espírito. Por que você não pôde escrever da primeira vez que te  
chamamos? R. Eu não queria escrever. Por que não? R. Ignorância e  
embrutecimento.  
13. Então agora você pode deixar a casa de Castelnaudary quando bem  
quiser? R. Tenho essa permissão, uma vez que estou aproveitando os bons  
conselhos de vocês. Sente algum alívio com isso? R. Começo a ter  
esperança.  
14. Se pudéssemos te ver, sob qual aparência nós te enxergaríamos? R.  
326 Allan Kardec  
Iriam me ver com a camisa, mas sem o punhal. Por que você não carrega  
mais o teu punhal? O que fez dele? R. Eu o maldigo; Deus me livre de vê-lo!  
15. Se o filho do Sr. D... (aquele que tinha recebido a bofetada) retornasse  
àquela casa, você lhe faria algum mal? R. Não, porque estou arrependido. —  
E se ele ainda quisesse te desafiar? R. Oh, não me pergunte isso! Eu não me  
dominaria, isso está acima das minhas forças, pois não passo de um miserável.  
16. Consegue ver o fim das tuas aflições? R. Oh, ainda não; graças à tua  
intercessão, eu sei que elas não durarão para sempre, e isso já é muito mais  
do que eu mereço saber.  
17. Tenha a bondade de descrever para nós a situação em que você estava  
antes de te evocarmos pela primeira vez. Você deve saber que nós te pedimos  
isso por termos um meio de te ajudar, e não por mera curiosidade. R. Eu já  
disse a vocês: eu não tinha consciência de nada, nem do mundo nem do meu  
crime, e não podia sair da casa onde o cometi, a não ser para vagar no espaço,  
onde tudo em torno de mim era solidão e escuridão; eu não saberia te dar  
uma ideia disso, porque nunca consegui compreender nada disso. Desde que  
subi acima do ar, tudo era escuro, tudo era vazio; nem sei o que era... Hoje eu  
sinto muito mais remorsos, mas não sou mais constrangido a ficar naquela  
casa fatal; tenho permissão para vagar na Terra e procurar me esclarecer  
pelas minhas observações; mas então estou compreendendo melhor a  
enormidade das minhas responsabilidades; e se por um lado estou sofrendo  
menos, por outro aumentam as torturas do remorso. Mas, pelo menos tenho  
esperanças.  
18. Se você pudesse retomar uma existência corporal, qual escolheria? R.  
Ainda não vi nem refleti o bastante para saber.  
19. Durante teu longo isolamento e podemos até dizer cativeiro , você  
sentiu algum remorso? R. Nem o menor remorso, e foi por isso que eu sofri  
por tanto tempo. Só quando comecei a senti-lo foi que surgiram, sem que eu  
soubesse, as circunstâncias que ocasionaram a minha evocação, à qual eu  
devo o princípio da minha libertação. Então, obrigado a vocês, que tiveram  
piedade de mim e me esclareceram.  
327 O Céu e o Inferno  
De fato, nós temos visto avarentos sofrerem ao ver o ouro, que para eles se  
tornou uma verdadeira quimera; vemos orgulhosos atormentados pela inveja das  
honrarias que eles viam serem prestadas, mas não dirigidas a eles; homens que  
mandavam na Terra, humilhados pela força invisível que os constrangia a obedecer,  
assim como pela presença de seus subordinados, que não se curvavam mais diante  
deles; vemos ateus sofrerem as angústias da incerteza, encontrando-se num absoluto  
isolamento no meio da imensidade, sem ter nenhum ser que possa esclarecê-los. No  
mundo dos Espíritos, se há alegrias para todas as virtudes, há também penalidades  
para todas as faltas, e aqueles que não são afetados pelas leis dos homens são  
responsabilizados pela lei de Deus.  
É de se notar, além disso, que as mesmas faltas, embora cometidas em condições  
idênticas, são punidas com castigos às vezes bem diferentes, segundo o grau de  
adiantamento intelectual do Espírito. Aos Espíritos mais atrasados e de uma natureza  
bruta como este, com que estamos tratando aqui , são infligidas penas de alguma  
forma mais materiais do que morais, enquanto ocorre o contrário com aqueles cuja  
inteligência e sensibilidade sejam mais desenvolvidas. Para os primeiros é preciso um  
castigo apropriado à rudeza da sua brutalidade, a fim de fazê-los compreender os  
desajustamentos de sua situação e lhes inspirar o desejo de sair dessa posição. É  
assim que até mesmo a vergonha, por exemplo, que causaria pouca ou nenhuma  
impressão sobre eles, será intolerável para os outros.  
Nesse código penal divino, a sabedoria, a bondade e a previdência de Deus para  
com as suas criaturas revelam-se até nas menores coisas; tudo é proporcionado, tudo  
é combinado com uma admirável solicitude para facilitar aos culpados os meios de se  
reabilitar; em favor deles, são levadas em consideração todas as boas aspirações da  
alma. Segundo o dogma das penas eternas no inferno, ao contrário, os maiores e os  
menores culpados são igualados os culpados de um dia e os cem vezes  
reincidentes, os endurecidos e os arrependidos; tudo é calculado para os manter no  
fundo do abismo. Nenhuma tábua de salvação lhes é oferecida; um único pecado pode  
precipitar sua alma para sempre nesse abismo, sem que seja levado em conta o bem  
que eles tenham feito. De que lado está a verdadeira justiça e a verdadeira bondade?  
Essa evocação nada tem de casual; como ela deveria ser útil a esse infeliz, os  
Espíritos que velavam por ele vendo que ele já começava a compreender a  
enormidade de seus crimes julgaram que havia chegado o momento de lhe dar um  
socorro eficaz, e foi então que conduziram as circunstâncias propícias. Isso é algo que  
temos visto se reproduzir muitas vezes.  
A esse respeito, alguém nos perguntou o que aconteceria com ele se não pudesse  
328 Allan Kardec  
ter sido evocado, e o que acontece com todos os Espíritos sofredores que não podem  
ser evocados ou com os quais ninguém se importa. A isso, foi respondido que os meios  
de Deus para a salvação das criaturas são inumeráveis; a evocação é um meio de  
ajudá-los, mas certamente não o único, e Deus não deixa nenhuma de suas criaturas  
no esquecimento. Ademais, as preces coletivas devem exercer sua parte de influência  
sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento.  
Deus não subordinaria a sorte dos Espíritos sofredores aos conhecimentos e à  
boa vontade dos homens. Desde que estes possam estabelecer relações regulares com  
o mundo invisível, um dos primeiros resultados do Espiritismo foi lhes ensinar os  
serviços que, por meio dessas relações, podem auxiliar os seus irmãos desencarnados.  
Deus assim quis, por esse meio, provar a eles a solidariedade que existe entre todos os  
seres do Universo e dar uma lei da natureza como base ao princípio da fraternidade.  
Abrindo esse novo campo ao exercício da caridade, ele lhes mostra o lado  
verdadeiramente útil e sério das evocações, até então desvirtuadas de sua finalidade  
providencial pela ignorância e pela superstição. Portanto, os Espíritos sofredores  
jamais sentiram falta de socorro em nenhuma época, e se as evocações lhes abriram  
uma nova via de salvação, os encarnados talvez ganhem mais ainda com isso, no que  
elas são para os homens novas oportunidades de fazer o bem, ao mesmo tempo em  
que aprendem sobre o verdadeiro estado da vida futura.  
JACQUES LATOUR  
Assassino condenado pelo júri de Foix e executado em setembro de 1864  
Numa reunião espírita íntima de sete a oito pessoas, ocorrida em  
Bruxelas, em 13 de setembro de 1864, e à qual nós assistimos, uma senhora  
médium foi requisitada para escrever; não sendo feita nenhuma evocação  
especial, ela começa a rabiscar com extraordinária agitação e com letras  
muito grossas, e depois de ter riscado violentamente o papel essas palavras:  
“Eu me arrependo! Estou arrependido! Latour.”  
Surpresos com essa comunicação inesperada que nada havia  
provocado, pois ninguém havia pensado nesse infeliz, cuja morte era ignorada  
pela maior parte dos participantes , dirigimos ao Espírito algumas palavras  
de comiseração e encorajamento; então lhe perguntamos:  
Que motivo pôde te trazer até nós, e não em outro lugar, já que não te  
 
329 O Céu e o Inferno  
chamamos?  
Aquela dama, que também é médium falante, respondeu de viva voz:  
“Eu vi que vocês tinham almas compassivas e que teriam piedade de  
mim, já que outros me evocam mais por curiosidade do que por verdadeira  
caridade, ou se afastam de mim com horror.”  
Então começou uma cena indescritível, que não durou menos de meia  
hora: a médium juntando gestos e a expressão da fisionomia à fala, ficou  
evidente que o Espírito se identificava com a sua pessoa; por vezes suas  
manifestações de desespero eram muito comoventes, exibindo suas angústias  
e seus sofrimentos com um tom dilacerante, suas súplicas tão veementes, que  
todos os presentes ficaram profundamente compungidos.  
Alguns ficaram até mesmo aterrorizados com a superexcitação da  
médium, mas nós pensamos que a comunicação de um Espírito que se  
arrepende e que implora misericórdia não poderia oferecer nenhum perigo.  
Se ele apoderou-se dos órgãos da médium, foi para melhor expressar sua  
situação e chamar mais atenção para a sua destinação, mas não como os  
Espíritos obsessores e possessores, que visam se apoderar do médium para  
dominá-lo. Sem dúvidas, isso lhe foi permitido no seu próprio interesse, e  
talvez também para a instrução das pessoas presentes.  
Ele grita:  
“Oh, sim, piedade! Eu necessito muito dela, pois vocês não sabem o que  
eu estou sofrendo!... Não, vocês não sabem; não podem compreender... É  
horrível!... A guilhotina!... O que ela significa, em comparação com o que eu  
passo agora?! Ela não é nada, é só um instante. Mas esse fogo que me devora,  
oh, é pior, é uma morte contínua, é um sofrimento que não dá nem trégua nem  
repouso... que não tem fim!...  
“E as minhas vítimas que estão aqui, ao meu redor... que me mostram  
suas feridas... que me perseguem com seus olhares!... Elas estão aqui, diante  
de mim... Eu vejo todas elas... sim, todas... Eu vejo todas elas e não posso fugir  
delas!... E esse mar de sangue!... E esse ouro sujo de sangue!... Está tudo aqui,  
sempre diante de mim!... Não estão sentindo o fedor de sangue? Sangue,  
sempre sangue!... E eis as pobres vítimas, elas me imploram... e eu, impiedoso,  
machuco e machuco... machuco sempre!... O sangue me enerva!  
330 Allan Kardec  
“Eu acreditava que depois da morte tudo terminaria; foi por isso que  
esnobei o suplício, que eu desafiei Deus, que o neguei!... E vejam só que,  
quando me julgava aniquilado para sempre, um despertar terrível se fez... Oh,  
terrível!... Fiquei cercado de cadáveres, de figuras ameaçadoras... caminhando  
no sangue... Eu achava que estava morto, mas estou vivo!... Isso é medonho!... é  
horrível! Mais horrendo que todos os suplícios da Terra!  
“Ah se todos os homens pudessem saber o que existe além da vida! Eles  
saberiam o quanto lhes custa fazer o mal! Não haveria mais assassínios, nem  
criminosos, nem malfeitores! Quisera que todos os assassinos pudessem ver o  
que eu vejo e o que eu enfrento... Oh, não! Não haveria mais criminosos... É  
muito terrível sofrer o que eu sofro!  
“Eu bem sei que o mereci, oh meu Deus! Pois eu não tive pena das  
minhas vítimas; eu rejeitei suas mãos suplicantes quando elas me pediam  
para poupá-las. Sim, eu mesmo fui cruel; eu as matei covardemente para  
tomar seu ouro!... Oh, meu Deus! Eu fui um ímpio e te reneguei; blasfemei teu  
santo nome... Eu quis me iludir; foi por isso que eu queria me persuadir de  
que o Senhor não existia... Oh, meu Deus! Eu sou um grande criminoso!  
Agora eu compreendo. Mas, o Senhor não teria piedade de mim? O Senhor é  
Deus, ou seja, bondade, misericórdia! O Senhor é o todo-poderoso!  
“Piedade, Senhor! Oh, piedade! Piedade! Eu imploro, não seja inflexível;  
livre-me dessa vista odiosa, dessas imagens horríveis... desse sangue... das  
minhas vítimas, cujos olhares me perfuram até o coração iguais a golpes  
de punhal.  
“Vocês que estão aqui, vocês que me escutam, que são boas almas, almas  
caritativas; sim, eu vejo isso, vocês têm piedade de mim, não é verdade? Orem  
por mim... Oh, eu suplico a vocês: não me rejeitem! Peçam a Deus para me  
tirar esse horrível espetáculo da minha frente! Ele ouvirá vocês, porque vocês  
são bons... Eu imploro a vocês, não me repulsem, como os outros me  
repulsaram... Orem por mim!”  
Os participantes, sensibilizados com essas lamentações, dirigiram-lhe  
palavras de encorajamento e consolação, dizendo-lhe: Deus não é inflexível; o  
que ele pede ao culpado é um arrependimento sincero e o desejo de reparar o  
mal que praticou. Uma vez que o teu coração não mais esteja endurecido e  
331 O Céu e o Inferno  
que peça a ele o perdão dos teus crimes, Deus estenderá sua misericórdia até  
você, se você perseverar nas boas resoluções para reparar o mal que tenha  
feito. É certo que não há como restituir às suas vítimas a vida que você tirou  
delas, porém, se você pedir com fervor, Deus te permitirá reencontrá-las  
numa nova existência, na qual você poderá lhes demonstrar tanto  
devotamento quanto tenha sido cruel. E quando Deus julgar que a reparação  
for suficiente, você entrará na graça diante dele. Assim, a duração do teu  
castigo está nas tuas mãos; só depende de você abreviá-la. Prometemos te  
auxiliar com nossas preces e clamar em teu favor pela assistência dos bons  
Espíritos. Vamos recitar em tua intenção a prece contida em O Evangelho  
segundo o Espiritismo, para os Espíritos sofredores e arrependidos. Não  
recitaremos a que se refere aos maus Espíritos porque, desde que você se  
arrependeu, que implora a Deus e que renuncia a fazer o mal, então, aos  
nossos olhos você é apenas um Espírito infeliz, e não mau.  
Recitada aquela prece, e depois de alguns instantes de calma, o Espírito  
retoma a palavra:  
“Obrigado, meu Deus!... Oh! Obrigado! Vocês tiveram piedade de mim;  
aquelas horríveis imagens estão se afastando... Não me abandonem... Enviem  
os seus bons Espíritos para me ampararem... Obrigado.”  
Após essa cena, a médium fica alquebrada e arrasada por algum tempo;  
seus membros ficam doloridos. Ela tem uma lembrança, a princípio confusa,  
do que tinha acabado de se passar; em seguida, pouco a pouco, ela recorda  
algumas das palavras que pronunciou, ditas inconscientemente, sentindo que  
não era ela quem falava.  
No dia seguinte, numa nova reunião, o Espírito se manifestou de novo,  
recomeçando, durante apenas alguns minutos, aquela mesma cena da  
véspera, com a mesma pantomima expressiva, só que menos violenta. Depois  
ele escreve, pela mesma médium e com uma agitação febril, estas palavras:  
Obrigado pelas preces de vocês; uma sensível melhora já se produz em  
mim. Rezei a Deus com tanto fervor que ele consentiu que, por um momento,  
meus sofrimentos fossem aliviados; mas ainda terei de ver minhas vítimas...  
Ei-las! Ei-las!... Conseguem ver esse sangue?...”  
332 Allan Kardec  
(A prece da véspera é repetida. O Espírito continua, dirigindo-se à médium:)  
“Perdão por me apossar de você. Obrigado pelo reconforto que trouxe  
aos meus sofrimentos. Perdão por todo o desconforto que te causei; mas  
tenho necessidade de me manifestar; só você consegue...  
Obrigado! Obrigado! Já sinto um pouco de alívio, mas ainda não cheguei  
ao fim das minhas provações. Muito em breve minhas vítimas retornarão. Eis  
a punição, e eu fiz por merecê-la, meu Deus, mas seja indulgente!  
“Vocês todos, orem por mim, tenham compaixão por mim!”  
LATOUR  
Um membro da Sociedade Espírita de Paris, que tinha orado por esse  
infeliz, evocando-o, obteve as comunicações adiante, em diferentes intervalos:  
I
Fui evocado quase imediatamente após a minha morte, mas não pude  
me comunicar de pronto, sendo que muitos Espíritos levianos tomaram meu  
nome e a vez. Em Bruxelas, aproveitei a presença do presidente da Sociedade  
de Paris e, com a permissão de Espíritos superiores, consegui me comunicar.  
Voltarei a me manifestar a esta Sociedade e farei revelações que serão  
um começo de reparação das minhas faltas, e que poderão servir de  
ensinamento a todos os criminosos que me lerem e que refletirem sobre a  
narração dos meus sofrimentos.  
Os discursos sobre as penas do inferno fazem pouco efeito sobre o  
Espírito dos culpados, que não creem em todas essas imaginações —  
apavorantes para as crianças e homens fracos. Ora, um grande malfeitor não é  
um Espírito pusilânime; para ele, o medo da polícia funciona mais do que a  
narrativa dos tormentos do inferno. Eis por que todos aqueles que me lerem  
ficarão tocados com as minhas palavras e meus sofrimentos, que não são  
suposições. Não há um só padre que possa dizer: “Eu vi o que estou dizendo,  
eu testemunhei as torturas dos condenados.Mas quando eu disser: Eis o  
que se passou após a morte do meu corpo; eis qual foi o meu desencanto ao  
reconhecer que não estava morto, como eu esperava estar, e o que eu tinha  
tomado como o fim dos meus suplícios era apenas o começo de torturas  
333 O Céu e o Inferno  
indescritíveis!”, então, muitos se deterão à beira do precipício onde estavam  
prestem a cair, e assim, cada infeliz que eu tirar da carreira do crime servirá  
para redimir uma das minhas faltas. É desse modo que o bem surge do mal e  
que a bondade de Deus se manifesta por toda a parte, na Terra e no espaço.  
Foi-me permitido ser libertado do olhar das minhas vítimas, que se  
tornaram meus carrascos, a fim de me comunicar com vocês; todavia, ao  
deixá-los, eu as verei de novo, e só esse pensamento já me faz sofrer mais do  
que eu posso dizer. Fico feliz quando me evocam, porque então eu saio do  
meu inferno por alguns instantes. Orem sempre por mim; peçam ao Senhor  
para que ele me liberte do olhar das minhas vítimas.  
Sim, oremos juntos, a prece faz tanto bem!... Sinto-me mais leve; já não  
sinto tanto o peso do fardo que me envergonha. Vejo um lampejo de  
esperança luzindo meus olhos e, pleno de contrição, eu exclamo: Bendita seja  
a mão de Deus; que seja feita a sua vontade!  
II  
O MÉDIUM Em vez de pedir a Deus para te livrar do olhar das tuas  
vítimas, eu te convido a rezar comigo para pedir em teu favor a força de  
suportar essa tortura expiatória.  
LATOUR Eu preferiria ficar livre do olhar das minhas vítimas. Será que  
você sabe o que eu sofro? O homem mais insensível ficaria comovido se  
pudesse ver, impressos no meu rosto como que a fogo, os sofrimentos da  
minha alma. Farei o que você está me aconselhando, pois compreendo que  
isso seja esse um meio mais rápido de expiar minhas faltas. É como uma  
operação dolorosa que deve restituir a saúde do meu corpo muito enfermo.  
Ah se os culpados da Terra pudessem me ver! Como ficariam apavorados  
com as consequências de seus crimes, que, ocultos aos olhos dos homens, são  
vistos pelos Espíritos! Como a ignorância é fatal para tanta gente!  
Que responsabilidade assumem os que recusam a instrução às classes  
pobres da sociedade! Eles acham que com guardas e a polícia eles podem  
prevenir os crimes... Como estão errados!  
334 Allan Kardec  
III  
Os sofrimentos que enfrento são terríveis, mas desde as orações de  
vocês eu me sinto amparado pelos bons Espíritos, que me dizem para ter  
esperança. Compreendo a eficácia do remédio milagroso que vocês me  
aconselharam e peço ao Senhor que me dê a força para suportar essa dura  
expiação. Ela é igual até posso dizer ao mal que pratiquei. Não quero  
procurar me desculpar dos meus desacertos; mas pelo menos, para cada uma  
das minhas vítimas, salvo alguns instantes de terror que precederam o  
momento da morte, a sua dor cessou, e as que tinham terminado a provação  
terrena foram receber a recompensa que as aguardava. Contudo, desde o meu  
retorno ao mundo dos Espíritos, exceto por momentos bem curtos quando eu  
estava me comunicando, não parei de sofrer as dores do inferno.  
Os padres apesar dos seus quadros assustadores das penas sofridas  
pelos condenados não têm mais do que uma ideia muito falha dos  
verdadeiros sofrimentos que a justiça divina inflige aos seus filhos que  
violaram sua lei de amor e de caridade. Como fazer com que pessoas racionais  
creiam que uma alma isto é, uma coisa que não é material possa sofrer  
ao contato do fogo material? Isso é um absurdo, e por isso tantos criminosos  
debocham dessas pinturas fantásticas do inferno. Mas não é a mesma coisa  
quanto à dor moral suportada pelo condenado, após a morte física.  
Rezem por mim, para que o desespero não se aposse de mim.  
IV  
Agradeço a vocês pelo objetivo que me fizeram entrever, objetivo  
glorioso ao qual eu sei que alcançarei quando estiver purificado. Sofro muito,  
mas parece que os sofrimentos diminuem. Não posso acreditar que no mundo  
dos Espíritos a dor diminua só porque a pessoa pouco a pouco se acostume a  
ela. Não! O que eu entendo é que as boas preces de vocês aumentaram as  
minhas forças, e se as minhas dores são as mesmas, minha força sendo  
ainda maior, então eu sofro menos.  
Meu pensamento se reporta à minha última existência, sobre as faltas  
que eu poderia ter evitado se soubesse orar. Hoje eu compreendo a eficácia da  
335 O Céu e o Inferno  
prece; compreendo a força dessas mulheres honestas e piedosas, fracas  
segundo a carne, mas fortes pela fé que elas têm; compreendo esse mistério  
de que os falsos sábios da Terra não se compenetram. Prece! Essa palavra que  
por si só provoca a risada dos Espíritos fortes. Eu os espero no mundo  
espiritual, e quando o véu que lhes encobre a verdade for rasgado diante  
deles, então eles, por sua vez, irão se ajoelhar aos pés do Eterno que  
ignoraram, e eles ficarão felizes em se humilhar e se levantar dos seus  
pecados e crimes! Aí compreenderão a virtude da prece.  
Orar é amar, e amar é orar! Logo, eles amarão o Senhor e lhe dirigirão  
preces de amor e de reconhecimento, enfim regenerados pelo sofrimento,  
pois deverão sofrer, pedirão como eu peço para ter a força de expiar e de  
sofrer. E quando deixarem de sofrer, vão orar para agradecer ao Senhor pelo  
perdão que tiverem merecido por sua submissão e resignação. Oremos, irmão,  
para me fortalecer ainda mais...  
Oh! obrigado, irmão, por tua caridade, pois eu fui perdoado. Deus me  
liberta do olhar das minhas vítimas. Oh, meu Deus! Bendito seja por toda a  
eternidade, pela graça que me concedeu! Oh, meu Deus! Eu sei da enormidade  
dos meus crimes e me curvo diante a tua onipotência. Senhor, eu te amo de  
todo o meu coração e te imploro a graça de me permitir quando a tua  
vontade me enviar à Terra para passar por novas provações na Terra que  
eu venha, como um missionário da paz e da caridade, ensinar às crianças a  
pronunciarem teu nome com respeito. Eu te peço que me permita ensinar a  
todos a te amar, o Senhor, que é o Pai de todas as criaturas. Oh, obrigado, meu  
Deus! Sou um Espírito arrependido, e o meu arrependimento é sincero. Eu te  
amo, tanto quanto meu coração tão impuro pode entender esse sentimento,  
que é pura emanação da tua divindade. Irmão, vamos orar, pois meu coração  
transborda de reconhecimento. Estou livre, quebrei meus grilhões, não sou  
mais um réprobo; sou um Espírito sofredor, mas arrependido, e gostaria que  
o meu exemplo pudesse deter no limiar do crime todas essas mãos criminosas  
que vejo prestes a se levantarem. Oh! Parem, irmãos, parem! Pois as torturas  
que preparam para si mesmos serão atrozes! Não creiam que o Senhor  
sempre se deixará se comover tão prontamente pela prece dos seus filhos. São  
séculos de torturas que esperam por vocês.  
336 Allan Kardec  
O guia do médium Você disse que não compreende as palavras do  
Espírito. Tente se dar conta da emoção e do reconhecimento dele  
direcionados ao Senhor; ele acha que não pode expressar e dar testemunho  
disso melhor do que tentando parar todos esses criminosos que ele vê e que  
você não pode ver. Ele queria que suas palavras chegassem aos outros; mas o  
que ele não te disse porque ele ainda ignora é que ele terá permissão  
para começar missões reparadoras. Ele ficará perto dos seus cúmplices para  
inspirar neles o arrependimento, introduzindo em seus corações o germe do  
remorso. Algumas vezes se vê na Terra pessoas consideradas honestas vindo  
aos pés de um padre confessar um crime. É o remorso que lhes dita a  
confissão de culpa. E se o véu que te separa do mundo invisível se levantasse,  
então você veria frequentemente um Espírito que foi cúmplice, ou o  
instigador de um crime, vindo tentar reparar seu erro inspirando o remorso  
ao Espírito encarnado, assim como Jacques Latour fará um dia.  
Teu guia protetor  
A médium de Bruxelas, aquela que tinha recebido a primeira  
manifestação de Latour, obteve mais tarde a comunicação a seguir:  
“Não se preocupe mais comigo; estou mais tranquilo, embora ainda  
esteja sofrendo. Deus teve piedade de mim, pois viu o meu arrependimento.  
Agora, eu sofro desse arrependimento, que me mostra a enormidade dos  
meus erros.  
“Se eu tivesse sido bem guiado na vida, não teria feito todo o mal que fiz;  
mas como meus instintos não foram repreendidos, eu obedeci a eles, sem  
conhecer nenhum freio. Se todos os homens pensassem mais em Deus, ou se  
ao menos acreditassem nele, não seriam mais cometidos semelhantes  
desacertos.  
“Mas a justiça dos homens é mal compreendida; por uma falta, muitas  
vezes leve, um homem é trancado numa prisão que, sempre, é um lugar de  
perdição e de perversão. Ele sai dali completamente corrompido pelos maus  
conselhos e os maus exemplos que tenha recebido. Mesmo que a sua índole  
seja bastante boa e forte para resistir ao mau exemplo, ao sair da prisão todas  
as portas estarão fechadas para ele, todas as mãos lhe serão negadas, todos os  
337 O Céu e o Inferno  
corações honestos o repulsarão. O que lhe resta? O desprezo e a miséria; o  
abandono e o desespero, se sentir dentro de si boas resoluções para retornar  
ao bem; a pobreza o induz tudo. Então ele também despreza seu semelhante,  
odeia-o e perde toda a noção do bem e do mal, porque se sente rejeitado, justo  
ele, que tinha tomado a decisão de se tornar um homem honesto. Para se  
proporcionar o necessário, então ele rouba e às vezes mata; por fim, nós o  
guilhotinamos!  
Meu Deus, no momento em que minhas alucinações estão prestes a  
tomar conta de mim novamente, sinto tua mão se estender sobre mim; sinto  
tua bondade me envolver e proteger. Obrigado, meu Deus! Na minha próxima  
existência eu empregarei toda a minha inteligência e minha bondade no  
socorro aos infelizes que sucumbiram, para os preservar da queda.  
“Obrigado a vocês que não se repugnaram ao se comunicar comigo; não  
temam; vocês veem que já não sou mais malvado. Quando pensarem em mim,  
não imaginem o retrato que viram de mim, mas imaginem uma pobre alma  
desolada que lhes agradece pela indulgência.  
Adeus; evoquem-me novamente, e orem a Deus por mim.”  
LATOUR  
Estudo sobre o Espírito de Jacques Latour  
Não se pode ignorar a profundeza e o alto alcance de algumas das frases  
contidas nessa comunicação; ela oferece inclusive um dos aspectos do mundo  
dos Espíritos castigados, acima do qual também se vislumbra a misericórdia  
de Deus. A alegoria mitológica das Eumênides98 não é tão ridícula quanto se  
imagina, e os demônios carrascos oficiais do mundo invisível, que  
substituem os carrascos da crença moderna com seus chifres e tridentes,  
são menos racionais do que essas próprias vítimas servindo de castigo para o  
culpado.  
98  
Referência à tragédia grega contada na peça Eumênides, da autoria de Ésquilo (século VI a.C.), que  
narra um drama envolvendo uma série de mortes motivadas por vingança, resultando no julgamento de  
Orestes, que matou a própria mãe mais o amante dela, por eles terem matado seu pai. Segundo a  
mitologia, o castigo recomendado para casos desse gênero era o tormento eterno fustigado pelas erínias  
(fúrias, na mitologia romana), espécies de deusas (ou demônios) da vingança, sendo elas: Tisífone  
(Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Inominável). N. T.  
 
338 Allan Kardec  
Admitindo-se a identidade desse Espírito, talvez se estranhe uma  
mudança tão rápida no seu senso moral; mas, assim como já ressaltamos  
noutra ocasião, isso acontece porque às vezes há mais recursos num Espírito  
brutalmente mau do que naquele que está dominado pelo orgulho ou que  
esconda seus vícios sob a máscara da hipocrisia. Esse pronto retorno aos  
melhores sentimentos indica uma natureza mais selvagem do que perversa, à  
qual faltava apenas um bom direcionamento. Comparando sua linguagem com  
a de outro criminoso, mencionado logo a seguir, sob o título de: Castigo pela  
luz, é fácil perceber qual dos dois está mais avançado moralmente, não  
obstante a diferença de instrução e a posição social: um obedece ao instinto  
natural de ferocidade, a uma espécie de superexcitação, enquanto o outro  
trazia na perpetração dos seus crimes a calma e a frieza de uma lenta e  
pertinaz combinação, afrontando mesmo depois de morto o castigo, por  
orgulho; este sofre, mas não quer admitir isso; aquele outro está prontamente  
domado. Dessa forma também podemos prever qual dos dois sofrerá mais.  
Diz o Espírito de Latour: “Sofro por causa desse arrependimento, que me  
mostra a enormidade das minhas faltas.” Aqui há um pensamento profundo. O  
Espírito só compreende realmente a gravidade dos seus malfeitos quando se  
arrepende; o arrependimento traz o pesar, o remorso, um sentimento  
doloroso que é a transição do mal para o bem, da enfermidade moral para a  
sanidade moral. É para escapar disso que os Espíritos perversos se  
recrudescem contra a voz da sua consciência, como os doentes que repulsam  
o remédio que deve curá-los; eles procuram se iludir e se aturdir, teimando  
no mal. Latour chegou a esse período em que o endurecimento acaba por  
ceder; o remorso entrou no seu coração e o arrependimento o segue; ele  
compreende a extensão do mal que fez, vê sua abjeção e sofre com isso. Eis  
por que ele diz: “Eu sofro desse arrependimento. Na precedente existência,  
ele devia ter sido pior do que naquela outra, porque se ele tivesse se  
arrependido como agora, sua vida teria sido melhor. As resoluções que ele  
toma agora influenciarão na sua futura existência terrestre; e esta que ele  
acaba de deixar, por mais criminosa que tenha sido, marcou para ele uma  
etapa de progresso. É mais do que provável que antes de iniciá-la ele fosse, na  
erraticidade, um desses Espíritos rebeldes malvados e obstinados no mal,  
339 O Céu e o Inferno  
como se vê tantos outros.  
Muitas pessoas têm perguntado qual proveito podemos tirar dessas  
existências passadas, já que não nos lembramos delas, nem de quem fomos  
nem do que fizemos.  
Essa questão está completamente resolvida pelo fato de que, se o mal  
que cometemos fosse apagado e se não restasse nenhum vestígio dele no  
nosso coração, então tal lembrança seria inútil, já que não temos com o que  
nos preocupar a respeito. Quanto à questão de não estarmos inteiramente  
corrigidos, nós sabemos disso pelas nossas tendências atuais; é para essas  
tendências que devemos direcionar toda a nossa atenção. Basta saber o que  
somos, sem que seja necessário saber o que fomos.  
Quando se considera, durante a vida, a dificuldade da reabilitação do  
culpado mais arrependido e a reprovação pela qual esse passa, devemos  
bendizer a Deus por ter lançado um véu sobre o seu passado. Se Latour  
tivesse sido condenado a tempo, e mesmo que tivesse sido absolvido, seus  
antecedentes o teriam levado a ser rejeitado pela sociedade. Porventura,  
apesar do arrependimento dele, quem o teria acolhido na sua intimidade?  
Ora, os sentimentos que hoje ele manifesta como Espírito nos dão a esperança  
de que, na sua próxima encarnação, ele será um homem honesto, estimado e  
acolhido; mas, vamos supor que todos saibam quem foi Latour: então a  
reprovação continuará a persegui-lo. O véu lançado sobre o seu passado lhe  
abre a porta da reabilitação e ele poderá se sentar, sem medo e sem  
acanhamento, entre as pessoas mais honestas. Quantos não desejariam a  
qualquer preço poder apagar da memória dos homens certos anos de sua  
existência!  
Que apresentem uma doutrina que se concilie melhor isso com a justiça  
e a bondade de Deus! De resto, essa doutrina não é uma teoria, mas sim o  
resultado de observações. Não foram os espíritas que a imaginaram; eles  
viram e observaram as diferentes situações nas quais os Espíritos se  
apresentam; eles buscaram explicá-las, e dessa explicação saiu a doutrina. Se  
eles a aceitaram, foi porque ela resulta dos fatos, e porque ela lhes pareceu  
mais racional do que todas aquelas emitidas até hoje sobre o futuro da alma.  
Será possível recusar a essas comunicações um elevado ensinamento  
340 Allan Kardec  
moral? O Espírito pôde ser e deve ter sido mesmo auxiliado por  
Espíritos mais adiantados nessas reflexões, e sobretudo na escolha das suas  
expressões; mas, em semelhante caso, esses outros Espíritos auxiliam mais na  
forma do que na essência, e jamais colocam o Espírito inferior em contradição  
consigo mesmo. Eles poderiam ter poetizado em Latour a maneira do  
arrependimento, mas não o teriam feito expressar o arrependimento contra  
sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio; eles viram em Latour  
a semente de bons sentimentos, e desse modo o ajudaram a se expressar,  
contribuindo assim para desenvolver esses sentimentos ao mesmo tempo em  
que pediram comiseração para ele.  
Existe algo de mais sensacional e mais moral capaz de impressionar mais  
vivamente do que o quadro desse grande criminoso arrependido exalando  
seu desespero e seus remorsos? Ele que, em meio a torturas, perseguido pelo  
olhar incessante de suas vítimas, eleva seu pensamento a Deus para implorar  
misericórdia? Por acaso isso não é um salutar exemplo para os culpados?  
Compreende-se a natureza de suas angústias; elas são racionais, terríveis,  
embora simples e sem fazer encenações fantasmagóricas.  
Alguém talvez vá estranhar uma transformação tão grande num homem  
como Latour; mas por que ele não poderia ter se arrependido? Por que não  
haveria nele uma corda sensível vibrando? Será então que o culpado deva ser  
sempre devotado ao mal? Não chega para ele um momento em que a luz se  
faça em sua alma? Pois esse momento chegou para Latour. Aí está  
precisamente o lado moral das suas comunicações; é a consciência que ele  
tem de sua situação, são seus lamentos, seus projetos de reparação que são  
eminentemente instrutivos. O que haveria de extraordinário no fato de ele ter  
se arrependido sinceramente antes de morrer? Ou que ele tivesse dito antes  
da morte o que disse depois? Não há inúmeros exemplos disso?  
Um retorno ao bem antes de sua morte, aos olhos da maioria dos seus  
pares, teria parecido fraqueza; sua voz do além-túmulo é a revelação do  
porvir que os espera. Latour está com a verdade absoluta quando diz que o  
seu exemplo é mais apropriado para reconduzir os culpados do que a  
perspectiva das chamas do inferno, e até mesmo do que a guilhotina. Por que  
então não levar esses sentimentos às prisões? Isso faria muitos criminosos  
341 O Céu e o Inferno  
refletirem, assim como nós já temos vários exemplos disso. Porém, como crer  
na eficácia das palavras de um morto, quando se acha que ao morrer tudo se  
acaba? Entretanto, virá um dia em que será conhecida esta verdade: que os  
mortos podem vir instruir os vivos.  
Há diversas outras instruções importantes a tirar dessas comunicações;  
a primeira delas é a confirmação daquele princípio de eterna justiça de que o  
arrependimento não é o suficiente para colocar o culpado na classe dos  
eleitos. O arrependimento é o primeiro passo rumo à reabilitação que atrai a  
misericórdia de Deus; é o prelúdio do perdão e do abrandamento dos  
sofrimentos; mas Deus não absolve incondicionalmente: é preciso a expiação  
e sobretudo a reparação. É isso o que Latour está compreendendo, e é para  
isso que ele está se preparando.  
Em segundo lugar, se compararmos esse criminoso com aquele de  
Castelnaudary, encontraremos uma enorme diferença no castigo que os aflige.  
Neste último o arrependimento foi tardio e consequentemente a pena é mais  
longa. Ademais, essa pena é quase material, enquanto na de Latour o  
sofrimento é antes moral; isso ocorre porque, como dissemos há pouco, num  
deles a inteligência era bem menos desenvolvida do que no outro; faltava  
alguma coisa que pudesse afetar os seus sentidos obtusos; mas as penas  
morais não serão menos cruciantes para aquele que atingiu o devido grau  
para compreendê-las. Podemos perceber isso pelas queixas exaladas por  
Latour; não é cólera, mas sim a expressão dos remorsos, logo seguida pelo  
arrependimento e pelo desejo de reparação, a fim de avançar.  
342 Allan Kardec  
CAPÍTULO VII  
ESPÍRITOS ENDURECIDOS  
LAPOMMERAY  
Castigo pela luz  
Em uma das sessões da Sociedade de Paris em que havíamos discutido a  
questão da perturbação que geralmente segue a morte, um Espírito ao qual  
ninguém fizera alusão e tampouco pensávamos em evocar manifestou-se  
espontaneamente pela comunicação seguinte; embora ela não tenha sido  
assinada, reconheceu-se sem dificuldade sua autoria como sendo de um  
grande criminoso que a justiça humana tinha acabado de abater:  
O que estão falando da perturbação? Por que essas palavras vãs? Vocês  
são sonhadores e utopistas. Vocês ignoram completamente as coisas de que  
pretendem tratar. Não, senhores; a perturbação não existe, exceto talvez nos  
seus cérebros! Estou realmente tão morto quanto possível e vejo claro em  
mim, em torno de mim, por toda parte!... A vida é uma lúgubre comédia!  
Insensatos, aqueles que se retiram de cena antes que do cair da cortina!... A  
morte é um terror, um castigo ou um desejo, conforme a fraqueza ou a força  
dos que a temem, a afrontam ou a imploram. Para todos, ela é uma amarga  
irrisão!... A luz me ofusca e penetra, como uma flecha aguda, a sutileza do  
meu ser... Castigaram-me com as trevas da prisão e acreditavam me castigar  
com as trevas do túmulo, ou aquelas sonhadas pelas superstições católicas.  
Pois bem! São vocês, senhores, que sofrem da obscuridade, e eu, o degredado  
   
343 O Céu e o Inferno  
social, eu pairo acima de vocês... Eu quero permanecer eu mesmo!... —  
forte pelo pensamento, desdenhando os conselhos que ressoam à minha  
volta... Eu vejo claramente... Um crime! Eis uma palavra! O crime existe em  
toda parte. Quando ele é executado pelas massas, os o glorificam; quando  
executado individualmente, ele é odiado. Que absurdo!  
Não quero que tenham pena de mim... não estou pedindo nada... Eu sou  
autossuficiente e saberei lutar sozinho contra esta luz odiosa.  
Aquele que ontem era um homem.”  
Sendo essa comunicação analisada na sessão seguinte, reconheceu-se no  
próprio cinismo da linguagem um grande ensinamento, e vemos na situação  
desse infeliz uma nova fase do castigo que aguarda o culpado. De fato,  
enquanto alguns ficam mergulhados nas trevas ou num isolamento absoluto,  
outros enfrentam por longos anos as angústias da sua derradeira hora ou  
acreditam ainda viver nesse mundo; a luz brilha para este, seu Espírito goza  
da plenitude das suas faculdades, ele sabe perfeitamente que está morto e não  
se lastima por nada; ele não pede nenhuma assistência e ainda menospreza as  
leis divinas e as leis humanas. Então quer dizer que ele escapará da punição?  
Não, mas que a justiça de Deus se cumpre de todas as formas e o que faz a  
alegria para uns é um tormento para outros; essa luz faz seu suplício contra o  
qual ele se enrijeceu, e a despeito do seu orgulho, ele o confessa quando diz:  
“Eu sou autossuficiente e saberei lutar sozinho contra essa luz odiosa”; e  
nessa outra frase: A luz me ofusca e penetra, como uma flecha aguda, a  
sutileza do meu ser.” Essas palavras: sutileza do meu ser são características;  
ele reconhece que seu corpo é fluídico e penetrável à luz, da qual ele não pode  
escapar, e essa luz o transpassa qual uma flecha aguda.  
Esse Espírito aqui está colocado entre os endurecidos porque ele levou  
muito tempo para manifestar o menor arrependimento. É um exemplo dessa  
verdade que o progresso moral nem sempre acompanha o progresso  
intelectual. Pouco a pouco, porém, ele se foi corrigindo e mais tarde deu  
comunicações sabiamente racionais e instrutivas. Hoje, ele pode ser colocado  
entre os Espíritos arrependidos.  
Nossos guias espirituais, chamados a dar um parecer sobre esse assunto,  
ditaram as três seguintes comunicações, que merecem uma séria atenção:  
344 Allan Kardec  
I
Os Espíritos na erraticidade, sob o ponto de vista das existências, ficam  
evidentemente inativos e à espera; mesmo assim eles podem expiar, desde  
que o seu orgulho e a incrível tenacidade dos seus erros não os retenham no  
momento de sua progressiva ascensão. Um terrível exemplo disso está na  
última comunicação desse criminoso endurecido debatendo-se contra a  
justiça divina que o atinge depois da justiça dos homens. logo, nesse caso a  
expiação, ou melhor, o sofrimento fatal que os oprime, em vez de lhes  
beneficiar e de lhes fazer sentir a profunda significação de suas penas,  
exacerba-os na rebeldia e os faz proferir aqueles murmúrios que a Escritura,  
na sua eloquência poética, chama de ranger de dentes uma imagem por  
excelência, um sinal do sofrimento abatido, porém insubmisso, perdido na  
dor, mas cuja revolta ainda é bastante forte para recusar admitir a verdade do  
castigo e a verdade da recompensa!  
Os grandes erros, às vezes e até quase sempre , continuam no  
mundo espiritual, assim como as consciências muito criminosas. Ser assim  
mesmo, apesar de tudo, e desfilar diante do infinito, assemelha-se àquela  
cegueira do homem que contempla as estrelas e que as toma como arabescos  
de um teto, tal como acreditavam os gauleses do tempo de Alexandre.99  
Existe um infinito moral! Miserável e medíocre é aquele que, sob o  
pretexto de continuar as lutas e as fanfarrices abjetas da Terra, não vê mais  
longe no outro mundo do que neste. Para uma pessoa assim, resta a cegueira,  
o desprezo pelos outros, a personalidade egoísta e mesquinha, bem como o  
atraso do seu progresso. Homem! Não há uma verdade mais pura, ó homens,  
de que há um acordo secreto entre a imortalidade de um nome puro deixado  
na Terra e a imortalidade realmente conservada pelos Espíritos nas suas  
sucessivas provações.  
LAMENNAIS  
II  
Atirar um homem nas trevas ou nas ondas da claridade: o resultado não  
99  
Menção a Alexandre III da Macedônia, dito “o Grande”, também conhecido como Alexandre Magno  
(356 a.C. - 323 a.C.), cujo império foi o maior já conquistado em seu tempo, tendo sido Rei da Macedônia,  
Rei da Pérsia e Faraó do Egito. N. T.  
 
345 O Céu e o Inferno  
é o mesmo? Tanto em um como no outro caso, ele não vê nada além do que o  
cerca e ficará habituado até mesmo mais rapidamente à sombra do que à  
triste claridade elétrica na qual ele pode estar imerso. Com isso, o Espírito que  
se comunicou na última sessão exprime bem a verdade da sua posição quando  
exclama: Oh, eu me libertarei dessa odiosa luz.” Com efeito, essa luz é ainda  
mais terrível e ainda mais assustadora porque ela atravessa completamente  
esse indivíduo, tornando visíveis e claramente expostos seus pensamentos  
mais secretos. Aí está um dos aspectos mais severos do seu castigo espiritual.  
Ele se encontra, por assim dizer, internado na casa de vidro que Sócrates  
demandava, e aí está também um ensinamento, porque o que seria alegria e  
consolo para o sábio transforma-se em uma punição infame e contínua para o  
perverso, para o criminoso, para o parricida, aterrorizado em sua própria  
personalidade.  
Será que vocês compreendem isso, meus filhos? A dor e o terror devem  
oprimir aquele que, durante uma existência sinistra, se comprazia em tramar  
e maquinar as transgressões mais tristes no íntimo do seu ser, onde ele se  
refugiava igual a uma fera na sua caverna, mas que hoje encontra-se expulso  
desse covil íntimo em que se escondia do olhar e da investigação dos seus  
contemporâneos. Agora sua máscara da impassibilidade lhe foi arrancada e  
cada um dos seus pensamentos, um após o outro, se reflete na sua fronte!  
Sim, doravante, nada de repouso, nada de asilo para esse terrível  
criminoso. Cada pensamento maldoso e Deus sabe se sua alma exprime  
algum pensamento desse tipo se trai por fora e por dentro dele, como que  
por um choque elétrico superior. Ele quer se esconder da multidão; mas a luz  
odiosa o devassa continuamente à vista de todos. Ele quer fugir, lançando-se  
numa carreira ofegante desesperada através dos espaços incomensuráveis;  
mas por todo lado há luz! Por todo lado há olhares que penetram nele! Então  
ele dispara novamente em busca da escuridão, à procura da noite; mas a  
escuridão e a noite não mais existem para ele! Ele apela que a morte o ajude;  
mas a morte não é mais do que uma palavra sem sentido. E o desafortunado  
foge sempre! Ele marcha rumo à loucura espiritual um castigo horrível,  
uma dor medonha! Daí ele vai se debater consigo para se desembaraçar de si  
mesmo. Pois então, esta é a lei suprema para além da Terra: é o culpado que  
346 Allan Kardec  
se torna para si mesmo o seu castigo mais inexorável.  
Quanto tempo isso vai durar? Até a hora em que a sua vontade, enfim  
vencida, se curve sob o pungente aperto do remorso, e quando sua fronte  
soberba se humilhe perante suas vítimas apaziguadas e diante dos Espíritos  
da justiça. Notem também a grande lógica das leis imutáveis, no que ela ainda  
realizará o que foi escrito naquela altiva comunicação, tão nítida, tão lúcida e  
tão tristemente cheia de si mesmo, que ele deu na sexta-feira passada, ao se  
libertar por um ato da sua própria vontade.  
ERASTO  
III  
A justiça humana não faz distinção da individualidade dos seres que ela  
castiga; medindo o crime pelo próprio crime, ela fere indistintamente aqueles  
que o cometem e a mesma pena afeta o culpado sem distinção de sexo,  
qualquer que seja a sua educação. A justiça divina procede de outro modo; as  
punições correspondem ao grau de adiantamento dos seres aos quais elas  
são infligidas; a igualdade do crime não significa igualdade entre os  
indivíduos; dois homens culpados pelo mesmo delito podem ser separados  
pela distância das provações que imerge um deles na opacidade intelectiva  
dos primeiros círculos iniciáticos, enquanto o outro, tendo-os ultrapassado,  
possui a lucidez que isenta o Espírito da perturbação. Então, já não são as  
trevas que castigam, mas sim a agudeza da luz espiritual; ela transpassa a  
inteligência terrena e a faz sentir a angústia de uma ferida aberta.  
Os seres desencarnados que persistem na representação material do seu  
crime sentem o choque da eletricidade física: eles padecem pelos sentidos;  
aqueles que já estão desmaterializados pelo Espírito sentem uma dor muito  
superior, que aniquila, em suas ondas amargas, a lembrança dos fatos, para  
daí deixar restar somente a noção de suas causas.  
Em suma, malgrado a criminalidade de suas ações, o homem pode ter  
um progresso interno e, embora suas paixões o façam agir como um bruto,  
suas faculdades aguçadas o elevam acima da espessa atmosfera das camadas  
inferiores. A ausência de ponderação e de equilíbrio entre o progresso moral  
e o intelectual produz as anomalias tão frequentes em épocas de materialismo  
347 O Céu e o Inferno  
e transição.  
A luz que tortura o Espírito culpado é, pois, exatamente o raio espiritual  
inundando de claridades os secretos recintos do seu orgulho, descobrindo  
nele o vazio do seu ser fragmentado. Aí estão os primeiros sintomas e as  
primeiras angústias da agonia espiritual que anunciam a separação ou  
dissolução dos elementos intelectuais e materiais que compõem a primitiva  
dualidade humana, e que devem desaparecer na grande unidade do ser  
acabado.  
JEAN REYNAUD  
Essas três comunicações, obtidas simultaneamente, se completam uma pela  
outra, e apresentam o castigo sob um novo aspecto eminentemente filosófico e  
racional. É provável que os Espíritos querendo tratar dessa questão por meio de  
um exemplo tivessem provocado, com esse objetivo, a comunicação espontânea do  
Espírito culpado.  
Ao lado desse quadro tirado de um fato, eis aqui, para estabelecer um  
paralelo, o quadro que um pregador traçou do inferno, durante a quaresma de  
1864, em Montreuil-sur-Mer:  
“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se  
um dos corpos que lá estão queimando, sem ser consumido, viesse a ser  
devolvido ao nosso planeta, ele ficaria empesteado de um extremo a outro! O  
inferno é uma caverna vasta e sombria, eriçada de pregos pontiagudos, de  
lâminas de espadas bem cortantes, de navalhas muito afiadas, nas quais são  
precipitadas as almas dos condenados.” (Veja a Revista espírita de julho de 1864:  
‘A religião e o progresso’)  
ÂNGELA, nulidade sobre a Terra  
(Bordeaux, 1862)  
Um Espírito se apresentou espontaneamente ao médium com o nome de  
Ângela.100  
1. Arrepende-se das tuas faltas? R. Não. Então por que veio atrás de mim?  
100 No original, Angèle. N. T.  
   
348 Allan Kardec  
R. Para experimentar. Então não está feliz? R. Não. Está sofrendo? –  
R. Não. O que é então que está te faltando? R. A paz.  
Alguns Espíritos não consideram como sofrimento senão aqueles que lhes  
lembra as dores físicas, tudo indicando, porém, que o seu estado moral é intolerável.  
2. Como é que pode te faltar paz na vida espiritual? R. Uma mágoa do  
passado. Mágoa do passado é um remorso; então está arrependida? R.  
Não; é por medo do futuro. Do que você tem medo? R. Do desconhecido.  
3. Gostaria de me dizer o que você fez na tua última existência? Isso talvez me  
ajudaria a te orientar. R. Nada.  
4. Em qual posição social você estava? R. Mediana. Era casada? R.  
Casada e mãe. Você cumpriu com zelo as obrigações dessa dupla posição? –  
R. Não; meu marido me entediava, e meus filhos também.  
5. E como foi sua vida? R. A me divertir quando jovem e a me entediar  
quando senhora. Quais eram tuas ocupações? R. Nenhuma. E quem  
cuidava da tua casa? R. A empregada doméstica.  
6. Será que não é nessa inutilidade que se deve procurar a causa das tuas  
mágoas e teus temores? R. Você talvez tenha razão. Não basta concordar  
com isso. Para reparar essa existência inativa, gostaria de ajudar os Espíritos  
culpados que sofrem ao teu redor? R. Como? Ajudando-os a se  
melhorarem pelos teus conselhos e tuas preces. R. Eu não sei rezar. Nós  
rezaremos juntos e você aprenderá; está disposta? R. Não. Por que não? –  
R. A fadiga.  
Instruções do guia do médium  
Nós te damos as instruções colocando sob os teus olhos os diversos  
níveis de sofrimento e da posição dos Espíritos condenados à expiação em  
consequência das próprias faltas.  
Ângela era uma dessas criaturas sem iniciativa, cuja vida é tão inútil aos  
outros quanto a ela mesma. Amando apenas o prazer, incapaz de procurar no  
estudo, no cumprimento dos deveres da família e da sociedade essas  
satisfações do coração que só podem dar charme à vida, porque são de todas  
349 O Céu e o Inferno  
as épocas, então ela não empregou a juventude senão para as distrações  
frívolas; depois, quando os deveres sérios chegaram, o mundo já tinha  
criado um vácuo em torno dela, porque ela também tinha criado um vazio  
no seu coração. Sem defeitos sérios, mas sem qualidades, ela trouxe  
infelicidade ao marido, comprometeu o futuro de seus filhos e arruinou o  
bem-estar deles com sua incúria e sua indiferença. Ela lhes corrompeu o juízo  
e o coração, primeiro pelo seu exemplo, depois lhes abandonando aos criados  
dos empregados, que ela nem sequer se preocupava em escolher. Sua vida foi  
nula ao bem e, por isso mesmo culpável, pois o mal nasce quando o bem é  
negligenciado. Compreendam bem, todos vocês, que não basta se abster dos  
erros: é preciso praticar as virtudes que são opostas aos erros. Estudem os  
ensinamentos do Senhor; meditem sobre eles e se convençam de que, se eles  
lhes impõem uma barreira que impedem vocês de seguir o mal caminho, ao  
mesmo tempo eles forçam vocês a retomar a rota oposta, que conduz ao bem.  
O mal é contrário ao bem; então, quem quiser evitar o primeiro deve seguir o  
sentido oposto, sem o que a sua vida fica nula e suas obras são mortas, pois  
Deus nosso Pai não é o Deus dos mortos, mas o Deus dos vivos.  
Pergunta Posso saber qual foi a existência anterior de Ângela? A  
última deveria ter sido consequência da anterior.  
R. Ela viveu numa indolente beatice e na nulidade da vida monástica.  
Preguiçosa e egoísta, com gosto, ela quis experimentar a vida em família, mas  
o Espírito tinha progredido muito pouco. Ela sempre rejeitou a voz íntima que  
lhe mostrava tal perigo; a tentação era doce e ela achou melhor se entregar a  
essa tentação do que fazer um esforço para barrar desde o começo. Ainda hoje  
ela compreende o perigo que há em se manter nessa neutralidade, mas não se  
sente com forças para fazer o menor esforço no sentido de sair disso. Ore por  
ela, desperte-a; force os olhos dela a se abrirem para a luz: isso é um dever,  
não negligenciar ninguém.  
O homem foi criado para a atividade: atividade do Espírito, essa é tua  
essência; atividade do corpo, essa é uma necessidade. Portanto, preencha as  
condições da tua existência, como Espírito destinado à paz eterna. Como  
corpo destinado ao serviço do Espírito, o teu não passa de uma máquina  
350 Allan Kardec  
submissa à tua inteligência; então trabalhe e cultive a inteligência, a fim de  
que ela dê um impulso salutar ao instrumento que deve te auxiliar a cumprir  
tua tarefa. Não lhe conceda nem repouso nem trégua, e lembre-se de que essa  
paz à qual você aspira não te será dada a não ser pelo trabalho. logo, quanto  
mais você tiver descuidado do trabalho, mais ainda durará para você a  
ansiedade da espera.  
Trabalhe, trabalhe sem cessar; complete todos os teus deveres sem  
exceção; realize-os com zelo, com coragem e com perseverança, e então tua fé  
te sustentará. Quem cumpre conscientemente a tarefa mais ingrata, a tarefa  
mais vil na nossa sociedade, este é cem vezes mais elevado aos olhos do  
Altíssimo do que aquele que impõe essa tarefa aos outros e não cuida da sua  
tarefa. Tudo serve de degraus para subir ao céu: então não quebre os degraus  
sob teus pés e saiba que você está cercado de amigos que te estendem a mão e  
que amparam aqueles que depositam suas forças no Senhor.  
MONOD  
UM ESPÍRITO ENTEDIADO  
(Bordeaux, 1862)  
Esse Espírito se apresenta espontaneamente ao médium e pede preces.  
1. O que te leva a pedir preces? R. Estou farto de vagar sem objetivo. Há  
quanto tempo você está nessa situação? R. Cem anos, aproximadamente. —  
O que fazia na Terra? R. Nada de bom.  
2. Qual é a tua posição entre os Espíritos? R. Estou entre os entediados. —  
Isso não forma categoria. R. Qualquer coisa forma uma categoria entre nós.  
Cada sensação encontra suas semelhanças ou suas simpatias que se reúnem.  
3. Se você não foi condenado ao sofrimento, por que permaneceu tanto tempo  
sem progredir? R. Eu fui condenado ao tédio, que é um sofrimento entre  
nós; tudo que não é alegria é dor. Então você foi forçado a permanecer  
errante a contragosto? R. São coisas sutis demais para a inteligência  
material de vocês. Tente me fazer entender essas coisas; isso seria um  
 
351 O Céu e o Inferno  
começo de utilidade para você. R. Eu não conseguiria, pois eu não teria  
termos de comparação. Uma vida infértil na Terra deixa ao Espírito que nada  
aproveitou dela aquilo que o fogo deixa ao papel que consumiu: fagulhas, que  
lembram às cinzas ainda unidas entre elas o que elas foram e a causa de seu  
nascimento, ou, se você preferir, da destruição do papel. Essas faíscas são a  
recordação dos laços terrestres que percorrem o Espírito até que ele tenha  
dispersado as cinzas do seu corpo. Somente então ele se reconhece, essência  
eterizada, e deseja o progresso.  
4. O que pôde te ocasionar o tédio do qual você se queixa? R. Consequência  
da existência. O tédio é filho da desocupação; eu não soube empregar os  
longos anos que passei na Terra, então as consequências se fizeram sentir  
neste mundo.  
5. Os Espíritos que, igual você, vagam presos ao tédio não podem encerrar  
essa situação quando quiserem? R. Não, nem sempre eles podem, porque o  
enfado paralisa a vontade deles. Então eles sofrem as consequências da sua  
existência; foram improdutivos, não tiveram nenhuma iniciativa e assim eles  
não encontram nenhuma cooperação entre eles. ficam largados a si mesmos  
até que o cansaço desse estado neutro os faça desejar mudar a situação; desta  
feita, a partir da menor vontade despertada neles, eles encontram apoio e  
bons conselhos para ajudar seus esforços e a perseverança.  
6. Poderia me dizer algo da tua vida terrena? R. Ah, pouquíssima coisa! Você  
deve compreender. O tédio, a inutilidade e a ociosidade provêm da preguiça; a  
preguiça é mãe da ignorância.  
7. Tuas existências anteriores não te fizeram progredir? R. Sim, todas, mas  
muito pouco, pois cada uma foi o reflexo das outras. Sempre há progresso,  
mas tão pouco sensível que nós nem notamos.  
8. Já que está esperando uma nova existência, poderia vir mais algumas vezes  
até mim? R. Evoque-me para me forçar a vir; você me fará um favor.  
9. Pode me dizer por que a tua caligrafia muda com frequência? R. Porque  
você pergunta demais; isso me cansa e daí eu preciso de ajuda.  
O guia do médium É o trabalho intelectual que o fatiga e nos obriga a  
352 Allan Kardec  
lhe prestar nosso auxílio para que ele possa responder às tuas indagações. Ele  
é um desocupado no mundo espiritual, assim como foi no mundo terrestre.  
Nós o trouxemos até você para tentar tirá-lo dessa apatia, desse tédio, que é  
um verdadeiro sofrimento, às vezes mais penoso do que os sofrimentos  
agudos, pois isso pode se prolongar indefinidamente. Consegue imaginar a  
tortura da perspectiva de um tédio sem fim? Na maior parte das vezes são os  
Espíritos dessa categoria que procuram uma existência terrena só como  
distração e para interromper a insuportável monotonia da sua existência  
espiritual; assim, eles chegam aí tantas vezes sem resoluções tomadas para o  
bem, e é por isso que lhes é necessário recomeçar, até que finalmente o  
progresso real se faça sentir neles.  
A RAINHA DE OUDE101  
Falecida na França, em 1858  
1. Qual sensação você experimentou ao deixar a vida terrestre? R. Eu não  
saberia dizer; ainda estou passando pela perturbação. Sente-se feliz? R.  
Sinto saudades da vida... Não sei... Sinto uma dor profunda; a vida teria me  
livrado disso... Gostaria que o meu corpo se levantasse do sepulcro...  
2. Você lamenta o fato de não ter sido sepultada no teu país e de estar entre  
cristãos? R. Sim, a terra indiana pesaria menos sobre o meu corpo. O que  
pensa das honras fúnebres prestadas aos teus restos mortais? R. Foi uma  
coisa insignificante; eu era rainha e nem todos se prostraram diante de mim...  
Deixem-me... Estou sendo forçada a falar... Não quero que saibam como estou  
agora... Eu era uma rainha... fiquem sabendo disso!  
3. Respeitamos a tua classe e te pedimos que tenha a bondade de nos  
responder, para nosso aprendizado. Acha que teu filho algum dia vai  
101  
Localizado entre o rio Ganges e o Himalaia, o reino de Oude, ou Aúde, especialmente enquanto  
província do Império Mongol, foi um reinado opulento e estratégico para o comércio da Índia.  
Atualmente, pertence ao estado indiano de Utar Pradexe, cuja capital é Lucknow. A mencionada rainha  
se chamava Janab-i-Alia (Malika-iKishwar Bahadur), falecida em Paris, em 24 de janeiro de 1858, tendo  
ido à Europa para interceder em favor do filho, que havia perdido seu reinado para os ingleses. N. T.  
   
353 O Céu e o Inferno  
recuperar os Estados do pai dele? R. Certamente, meu sangue reinará; ele é  
digno disso. A essa reintegração de teu filho, você atribui a mesma  
importância de quando era viva? R. Meu sangue não pode ser misturado  
com o do povo.  
4. Não foi possível registrar na tua certidão de óbito o teu local de  
nascimento; poderia informá-lo para nós agora? R. Sou descendente do mais  
nobre sangue da Índia. Creio que nasci em Déli.  
5. Já que viveu nos esplendores do luxo e que foi cercada de honras, o que  
acha disso agora? R. Era meu direito. A classe que você ocupou na Terra  
te conferiu uma posição mais elevada no mundo onde hoje você se encontra?  
R. Ainda sou uma rainha... Que me providenciem escravos para me  
servirem!... Não sei... Parece que ninguém se preocupa comigo aqui... e, no  
entanto, eu continuou sendo eu mesma...  
6. Você pertencia à religião muçulmana ou a alguma religião hindu? R.  
Muçulmana; mas eu era muito importante para me ocupar com Deus. Que  
diferença fazia para você a tua religião e a religião cristã, com relação à  
felicidade da humanidade? R. A religião cristã é absurda; ela diz que todos  
são irmãos. E qual a tua opinião sobre Maomé? R. Ele não era filho de um  
rei. Acredita que ele teve uma missão divina? R. Que me importa isso?! —  
Qual a tua opinião sobre o Cristo? R. O filho de um carpinteiro não é digno  
de ocupar meu pensamento.  
7. O que acha do costume de esconder as mulheres muçulmanas dos olhares  
dos homens? R. Penso que as mulheres foram feitas para dominar: eu  
mesmo era uma mulher. Alguma vez você teve inveja da liberdade  
desfrutada pelas mulheres da Europa? R. Não; que me importaria a  
liberdade delas? Por acaso elas são servidas de joelhos?  
8. Lembra-se de ter tido outras existências na Terra, antes desta que acaba de  
deixar? R. Devo ter sido sempre rainha.  
9. Por que você veio tão prontamente ao nosso chamado? R. Eu não queria  
vir, mas fui forçada... Você acha então que eu me dignaria a responder? Quem  
354 Allan Kardec  
é você, comparado a mim? Quem te forçou a vir? R. Não sei... Contudo,  
não deve haver aqui ninguém maior do que eu.  
10. Sob que forma você está aqui? R. Sou sempre uma rainha... Então você  
imagina que eu tenha deixado de ser uma realeza?... Você é pouco respeitoso...  
Fique sabendo que é de outro modo que se fala com as rainhas!  
11. Se pudéssemos te ver, nós te veríamos com teus adornos e tuas joias? R.  
Certamente! Como é que, tendo deixado tudo isso, teu Espírito tenha  
conservado tal aparência, sobretudo a dos adornos? R. Meus pertences não  
me deixaram. Sou tão bela quanto eu era... Não sei qual ideia você faz de mim!  
A verdade é que você nunca me viu!  
12. Que impressão você teve ao se encontrar no meio de nós? R. Se eu  
pudesse, eu não estaria aqui; vocês me tratam com tão pouco respeito!  
São Luís Deixem-na, a pobre está perturbada. Tenham compaixão da  
sua cegueira. Que ela lhes sirva de exemplo; vocês não sabem o quanto ela  
sofre com o próprio orgulho.  
Ao evocarmos essa grandeza decaída, agora mesmo no túmulo, nós não  
esperávamos resposta de uma grande profundidade, visto o gênero da educação das  
mulheres naquele país; mas pensávamos encontrar nesse Espírito, se não filosofia,  
mas pelo menos um sentimento mais verdadeiro da realidade, bem como ideias mais  
sensatas sobre as vaidades e grandezas deste nosso mundo. Longe disso: nesse  
Espírito, as ideias terrestres foram conservadas com toda a sua força; é o orgulho que  
não perdeu nada das suas ilusões; que luta contra sua própria fraqueza e que deve, de  
fato, sofrer muito com sua impotência.  
XUMÈNE  
(Bordeaux, 1862)  
Com esse nome, um Espírito se apresenta espontaneamente a uma  
médium, habituada a esse gênero de manifestações, pois sua missão parece  
ser a de auxiliar os Espíritos inferiores enviados pelo seu guia espiritual, no  
duplo objetivo da própria instrução da médium e do avanço desses Espíritos.  
 
355 O Céu e o Inferno  
P. Quem é você? Esse nome é de homem ou de mulher? R. Homem, e  
tão infeliz quanto possível. Estou sofrendo todos os tormentos do inferno.  
P. Se o inferno não existe, como é que você sofre seus tormentos? R.  
Pergunta inútil. P. Se percebo isso, outros podem precisar de explicações...  
R. Não me importo com isso.  
P. Será que o egoísmo não está entre as causas dos teus sofrimentos? –  
R. Pode ser que sim.  
P. Se quiser ser aliviado, comece repudiando tuas más tendências. R.  
Não te incomode com isso, pois não é da tua conta; comece a rezar por mim,  
como faz pelos outros, e depois veremos. Se não me ajudar com o teu  
arrependimento, a prece terá pouca eficácia. R. Se você falar, em vez de  
rezar, você terá pouca serventia para mim.  
P. Então deseja progredir? R. Talvez; não sei... Vejamos se a prece alivia  
os sofrimentos; isso é o essencial! Pois então, junte-se a mim com a  
vontade firme de obter esse alívio. R. Vá em frente!  
P. (Depois da prece da médium) Está satisfeito? R. Não como eu  
gostaria. Um remédio aplicado pela primeira vez não pode curar de  
imediato uma enfermidade antiga. R. É possível. Quer voltar? R. Sim, se  
você me chamar.  
O guia da médium Minha filha, você terá muito trabalho com esse  
Espírito endurecido, mas não haveria mérito algum em salvar quem não está  
perdido. Coragem! Tenha perseverança e você conseguirá! Não há culpado  
que não possa ser reconduzido pela persuasão e pelo exemplo, pois os  
Espíritos mais perversos acabam se corrigindo com o tempo; se não  
conseguimos levar até eles bons sentimentos imediatamente o que muitas  
vezes é impossível , o esforço que fizermos não será perdido. As ideias que  
lhes oferecemos mexem com eles e os forçam a refletir; são sementes que  
cedo ou tarde darão seus frutos. Não se arrebenta uma rocha com a primeira  
marretada.  
O que estou te dizendo aqui, minha filha, também se aplica aos  
encarnados, e você deve entender por que o Espiritismo mesmo entre os  
356 Allan Kardec  
crentes convictos não faz imediatamente homens perfeitos. A crença é um  
primeiro passo; a fé vem em seguida, e a transformação terá sua vez. Para  
muitos, porém, será preciso vir se retemperar no mundo dos Espíritos.  
Entre os endurecidos, não existem apenas Espíritos perversos e malignos;  
também é grande o número daqueles que, sem procurar fazer o mal, permanecem no  
atraso pelo orgulho, indiferença ou apatia. Nem por isso eles são menos infelizes, pois  
sofrem tanto mais pela própria inércia quanto por não terem como compensação as  
distrações do mundo. A perspectiva do infinito torna a posição deles intolerável, e  
ainda assim eles não têm nem força nem vontade de sair dessa situação. São estes que,  
nas encarnações, passam essas existências desocupadas, inúteis para eles mesmos e  
para os outros, e que quase sempre terminam por se suicidar, sem motivos sérios, por  
mero desgosto da vida.  
Esses Espíritos geralmente são mais difíceis de serem reconduzidos ao bem, em  
comparação com aqueles que são francamente malvados, já que nestes últimos há  
energia; uma vez esclarecidos, eles se tornam tão fervorosos ao bem quanto o foram  
para o mal. Será preciso, sem dúvida, muitas existências aos outros, para progredirem  
consideravelmente; mas pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como os outros o serão  
pelo sofrimento, eles procurarão uma distração numa ocupação qualquer que, mais  
tarde, se tornará para eles uma necessidade.  
357 O Céu e o Inferno  
CAPÍTULO VIII  
EXPIAÇÕES TERRESTRES  
MARCEL, o menino do nº 4 SZYMEL SLIZGOL  
MARCEL, o menino do nº 4  
Num hospício do interior, havia um menino entre oito e dez anos numa  
situação difícil de se descrever. Ele era designado apenas pelo nº 4.  
Inteiramente contorcido seja por deformidade natural, seja pela doença ,  
suas pernas tortas tocavam até seu pescoço; sua magreza era tal que a pele se  
partia sobre a saliência dos ossos; seu corpo todo era uma chaga e seus  
sofrimentos eram atrozes. Pertencia a uma pobre família israelita, e essa sua  
triste condição já durava quatro anos. Mas sua inteligência era notável para a  
sua idade; sua doçura, sua paciência e sua resignação eram edificantes. O  
médico do departamento no qual ele se tratava, tomado de compaixão por  
esse pobre que de alguma forma estava largado, pois parecia que seus pais  
não vinham vê-lo com frequência interessou-se por ele, e gostava de  
conversar com ele, encantado com o seu bom senso precoce. Não somente  
este médico tratava o menino com bondade, mas também vinha, quando suas  
ocupações assim lhe permitiam, para ler para ele, admirando-se da retidão do  
seu julgamento sobre coisas que pareciam acima da sua idade.  
   
358 Allan Kardec  
Certo dia, o menino lhe disse: Doutor, tenha a bondade de me dar mais  
daquelas pílulas que me receitou da última vez.” Respondeu o médico: E para  
que, meu garoto? Já te dei a dose suficiente, e creio que uma quantidade maior  
te faria mal.” O menino replicou: “É que, veja bem, eu sofro tanto, a ponto de  
precisar me esforçar muito para não gritar, e peço a Deus que me dê forças, a  
fim de não incomodar os outros pacientes que estão ao meu lado; mas muitas  
vezes tenho dificuldades para me conter. Essas pílulas me adormecem, e pelo  
menos durante esse tempo eu não perturbo ninguém.”  
Estas palavras bastam para mostrar a elevação dessa alma contida nesse  
corpo disforme. Onde essa criança teria colhido tais sentimentos? Não  
poderia ter sido no meio onde cresceu; além disso, na idade em que começou  
a sofrer, ele ainda não conseguia entender nenhum raciocínio. Portanto, esses  
sentimentos eram inatos nele. Mas então, com tão nobres instintos, por que  
Deus o condenava a uma vida tão miserável e tão dolorosa, admitindo-se que  
tivesse criado a alma ao mesmo tempo que o corpo, instrumento de tão cruéis  
sofrimentos? Ou devemos negar a bondade de Deus ou devemos admitir uma  
causa anterior, quer dizer, a preexistência da alma e a pluralidade das  
existências. Este menino está morto, e seus derradeiros pensamentos foram  
para Deus e para o médico caridoso que teve piedade dele.  
Algum tempo depois, ele foi evocado na Sociedade de Paris, onde deu a  
comunicação que segue (1863):  
Vocês me chamaram e eu vim fazer com que a minha voz se estenda  
para além desse recinto, para tocar todos os corações; que o eco que ela fará  
vibrar seja ouvido até mesmo na sua solidão; essa voz lhes lembrará que a  
agonia da Terra prepara as alegrias do céu, e que esse tormento não é mais do  
que a casca amarga de uma fruta deliciosa que dá coragem e resignação. Ela  
lhes dirá que sobre o catre onde jaz a miséria estão os enviados de Deus, cuja  
missão é ensinar à humanidade que não há dor que não se possa encarar com  
a ajuda do Todo-Poderoso e dos bons Espíritos. Ela também lhes dirá para  
que ouçam os prantos se misturando com as orações, e para que  
compreendam a harmonia piedosa tão diferente dos sotaques culpáveis do  
pranto se misturando com blasfêmias.  
Um dos bons Espíritos de vocês, um grande apóstolo do Espiritismo,  
359 O Céu e o Inferno  
teve a gentileza de me ceder o lugar esta noite.102 Por minha vez, também  
devo lhes dizer algumas palavras sobre o progresso da doutrina de vocês. Ela  
deve ajudar na missão daqueles que encarnam no seu meio para aprender a  
sofrer. O Espiritismo será o sinal indicador, com o qual eles terão o exemplo e  
a voz; é aí então que os prantos serão transformados em gritos de alegria e  
em lágrimas de satisfação.”  
P. Pelo que acaba de dizer, parece que os teus sofrimentos não eram por  
expiação de faltas anteriores...  
R. Não eram uma expiação direta, mas estejam seguros de que toda dor  
tem uma causa justa. Aquele que vocês conheceram tão miserável foi belo,  
grande, rico e adulado; tive bajuladores e cortesãos, por isso fui vaidoso e  
orgulhoso. Outrora fui bem culpado; reneguei Deus e fiz mal ao meu próximo,  
mas expiei cruelmente, primeiro no mundo dos Espíritos e depois na Terra. O  
que passei durante alguns anos só nesta última existência, tão curtíssima, já  
tinha sofrido durante uma vida inteira, inclusive na extrema velhice. Devido  
ao meu arrependimento, encontrei graça diante do Senhor, que se dignou de  
me confiar várias missões, dentre as quais a última vocês conheceram. Eu a  
solicitei para completar minha depuração.  
Adeus, meus amigos; voltarei algumas vezes entre vocês. Minha missão é  
a de consolar, e não a de instruir; mas aqui há tantos cujas feridas estão  
escondidas, que eles ficarão contentes com a minha vinda.  
MARCEL  
Instrução do guia do médium  
Pobrezinho desse ser sofredor, franzino, ulceroso e disforme! Quantos  
gemidos ele fez ouvir nesse asilo de misérias e de lágrimas! E apesar da sua  
pouca idade, como ele era resignado e como sua alma já compreendia o  
propósito dos sofrimentos! Ele já sentia que no além-túmulo uma recompensa  
o aguardava, por tantos prantos reprimidos! Ah, como ele orava por aqueles  
que, diferentes dele, não tinham a coragem de suportar seus males, sobretudo  
102 Santo Agostinho, pela médium com a qual ele costuma se comunicar com a Sociedade.  
 
360 Allan Kardec  
pelos que dirigiam blasfêmias contra o céu em lugar de orações!  
Se a agonia foi longa, de outra forma a hora da morte não foi nada  
terrível; sem dúvidas os membros convulsionados se contorciam e exibiam  
aos presentes um corpo deformado se revoltando contra a morte, a lei da  
carne que quer viver mesmo assim; mas um anjo bom pairava acima do leito  
do moribundo e cicatrizava seu coração; em seguida, ele arrebatou nas suas  
asas brancas essa alma tão bela, que escapou desse corpo disforme enquanto  
pronunciava essas palavras: Glória te seja rendida, ó meu Deus! E essa alma  
subiu rumo ao Todo-Poderoso, feliz, exclamando: Eis-me aqui, Senhor, que me  
deu como missão ensinar a sofrer; será que suportei dignamente a provação?  
E agora o Espírito do pobre menino retomou as suas proporções; ele  
plana no espaço, indo ao fraco e ao humilde, dizendo a todos: Tenham  
esperança e coragem! Desgarrado de toda matéria e de toda impureza, ele aí  
está perto de vocês, falando a vocês, não mais com sua voz doentia e  
lamentosa, mas sim com voz máscula, dizendo-lhes: Aqueles que me viram,  
enxergaram a criança que não murmurava; colheram disso a calma para os  
seus males, e seus corações se fortaleceram na doce confiança em Deus. Este  
foi o propósito da minha curta passagem na Terra.  
SANTO AGOSTINHO  
SZYMEL SLIZGOL  
Era um pobre israelita de Vilna,103 falecido em maio de 1865. Durante  
trinta anos ele mendigou, tendo uma bandeja na mão. Por toda parte em sua  
cidade, seu grito era conhecido: “Lembrem-se dos pobres, das viúvas e dos  
órfãos!Nesse tempo, Slizgol tinha juntado 90.000 rublos, do qual não  
guardou um só centavo de kopek para si. Ele sustentava os enfermos, que ele  
mesmo tratava; pagava o ensino de crianças pobres e distribuía aos  
necessitados a comida que lhe davam. A noite era consagrada ao preparo do  
rapé, que o mendigo vendia para prover suas próprias necessidades. O que  
lhe restava pertencia aos pobres. Szymel vivia sozinho no mundo, mas no dia  
103 Vilna, ou Vilnius, então anexada à Rússia, na época de Kardec, atualmente é a capital da República da  
Lituânia. N. T.  
   
361 O Céu e o Inferno  
do seu enterro uma grande parte da população de Vilna acompanhou seu  
cortejo e as lojas ficaram fechadas.  
(Sociedade Espírita de Paris, 15 de junho de 1865)  
Evocação Muito feliz e finalmente chegando à plenitude da minha  
ambição, pela qual paguei muito caro, aqui estou no meio de vocês, desde o  
começo dessa noite. Agradeço-lhes por se interessarem pelo Espírito do pobre  
mendigo que, com alegria, vai procurar responder às perguntas de vocês.  
P. Uma carta, vinda de Vilna, nos informou as particularidades mais  
notáveis da tua existência. Foi pela simpatia que elas nos inspiram que  
tivemos o desejo de conversar contigo. Nós te agradecemos por ter atendido  
ao nosso chamado e, uma vez que gentilmente quer nos responder, para  
nosso aprendizado, ficaríamos felizes em saber da tua posição como Espírito,  
e as causas que motivaram o gênero da tua última existência.  
R. Antes de tudo, concedam ao meu Espírito que compreende sua  
verdadeira posição o favor de dizer a vocês uma opinião sobre o  
pensamento que lhes ocorreu a respeito da minha pessoa, e peço que a  
corrijam, se esta opinião estiver errada.  
Vocês acham estranho que a manifestação pública tenha tido um alcance  
tão grande para render homenagem ao homem insignificante que soube, por  
meio de sua caridade, atrair tal simpatia. Não me refiro a você, caro mestre,  
nem a você, caro médium, nem a vocês todos que são espíritas verdadeiros e  
sinceros, mas sim às pessoas indiferentes à crença. Não há nada de  
surpreendente nisso. A força da pressão moral que a prática do bem exerce  
sobre a humanidade é tal que, por mais materialista que a pessoa seja, ela  
sempre se inclina; nós saudamos o bem, a despeito da tendência que temos  
para o mal.  
Agora, vamos às perguntas que, da parte de vocês, não são ditadas pela  
curiosidade, mas simplesmente formuladas com vistas à instrução geral. Vou  
lhes contar então, já que tenho a liberdade para isso, dizendo da forma mais  
breve possível, quais as causas que motivaram e determinaram minha última  
existência.  
Há vários séculos, eu vivi com o título de rei, ou pelo menos como  
362 Allan Kardec  
príncipe soberano. Dentro do círculo do meu poder, relativamente estreito em  
comparação com os Estados atuais, eu era o senhor absoluto do destino dos  
meus súditos; então agia como um tirano, ou digamos a palavra certa —  
como um carrasco. Sendo eu de um caráter imperioso, violento, avarento e  
sensualista, daí vocês podem ver qual devia ter sido a sorte dos pobres seres  
que viviam sob as minhas leis. Abusei do poder para oprimir o fraco, para  
subordinar toda espécie de ofícios, de trabalhos, de paixões e dores, para o  
serviço das minhas próprias paixões. Assim, eu impus um tributo sobre o  
produto da mendicidade: ninguém podia mendigar sem que eu antes tirasse a  
minha parte do que a piedade humana deixasse cair na sacola da miséria.  
Mais do que isso: a fim de não diminuir o número de mendigos entre os meus  
súditos, eu proibia aos infelizes de dar aos seus amigos, seus pais e seus  
demais parentes a pequena parte que sobrava para esses pobres seres. Em  
suma, eu fui tudo o que havia de mais implacável com o sofrimento e a  
miséria.  
Enfim, o que chamam de vida, eu perdi em tormentos e sofrimentos  
horríveis. Minha morte foi um modelo de terror para todos que, como eu,  
embora numa escala menor, compartilhavam da minha maneira de ver.  
Demorei-me na condição de Espírito errante durante três séculos e meio, e ao  
fim desse lapso de tempo eu compreendi que o objetivo da encarnação era  
totalmente diferente daquilo que os meus sentidos grosseiros e obtusos me  
fizeram cobiçar; pela força das preces, da resignação e dos pesares, eu obtive  
a permissão de tomar a tarefa material de suportar os mesmos sofrimentos  
que eu tinha causado, e ainda mais. Obtive essa permissão e Deus me  
concedeu pelo meu livre-arbítrio ampliar meus sofrimentos morais e  
físicos. Graças ao socorro dos bons Espíritos que me assistiram, eu persisti na  
resolução de praticar o bem e a eles sou grato, por me terem impedido de  
sucumbir diante da tarefa que eu tinha assumido.  
Finalmente, completei uma existência que, pela abnegação e caridade,  
redimiu aquilo que a outra tinha sido de cruel e injusta. Nasci de pais pobres,  
tornei-me órfão muito cedo e aprendi a me sustentar na idade em que muitos  
ainda se consideram incapazes de entender. Vivi sozinho, sem amor, sem  
afetos, e ainda assim, desde o começo da minha vida, suportei a brutalidade  
363 O Céu e o Inferno  
que eu havia exercido sobre os outros. Dizem que as somas por mim  
recolhidas foram todas destinadas ao alívio dos meus semelhantes; isso é um  
fato, ao qual, sem ostentação e sem orgulho, eu acrescento que muitíssimas  
vezes, ao preço de privações relativamente fortes, muito fortes, eu aumentava  
o benefício que me permitia fazer a caridade pública.  
Morri com calma, confiando no prêmio que eu tinha obtido com a  
reparação feita na minha derradeira existência, e estou sendo recompensado  
acima das minhas secretas aspirações. Hoje eu sou feliz, muito feliz, por poder  
lhes dizer que todo aquele que se eleva será rebaixado, e todo aquele que se  
humilha será elevado.  
P. Por favor, queira nos dizer em que consistiu a tua expiação no mundo  
dos Espíritos, e quanto tempo ela durou, desde tua morte até o momento em  
que a tua sorte foi suavizada por efeito do arrependimento e das boas  
resoluções que você tomou. Diga-nos também o que foi que provocou em você  
a mudança nas tuas ideias, no estado espiritual.  
R. Vocês me fazem trazer de novo à memória recordações bem  
dolorosas! Ah, como eu sofri!... Mas não me queixo disso; apenas recordo!...  
Vocês querem saber de que natureza foi a minha expiação; então, ei-la em  
todo o seu terrível horror:  
Como eu disse, sendo carrasco contra toda espécie de bons sentimentos,  
demorei muito tempo, muito tempo mesmo, preso pelo perispírito ao corpo  
em decomposição. Até que essa putrefação se completasse, eu me sentia  
corroído pelos vermes, que me faziam sofrer muito! Quando fui desligado dos  
liames que me atavam ao instrumento do meu suplício, então comecei a sofrer  
uma ainda mais cruel. Após a tortura física, vem o sofrimento moral e isso  
demandou um tempo bem mais longo do que o primeiro sofrimento. Fui posto  
na presença de todas as vítimas que eu havia torturado. Periodicamente, eu  
era levado, por uma força muito maior do que a minha, a encarar as minhas  
culpáveis ações. E percebia fisicamente e moralmente todas as dores que eu  
tinha causado. Oh, meus amigos, como é terrível o olhar constante daqueles a  
quem fizemos mal! Vocês têm um tímido exemplo disso entre vocês através  
da confrontação entre o acusado e a sua vítima.  
Aqui está, em resumo, o que sofri durante dois séculos e meio, até que  
364 Allan Kardec  
Deus, tocado pela minha dor e pelo meu arrependimento, sendo solicitado  
pelos guias que me assistiam, enfim permitiu que eu assumisse a vida de  
expiação que vocês conheceram.  
P. Algum motivo particular te convenceu a escolher tua última existência  
na religião israelita? R. Não escolhi isso por mim mesmo, mas aceitei o  
conselho dos meus guias. A religião de Israel juntou uma pequena humilhação  
a mais à minha vida de expiação, pois em certos países a maioria dos  
encarnados menospreza sobretudo os israelitas, e principalmente os judeus  
mendicantes.  
P. Na tua derradeira existência, com que idade começou a colocar em  
execução as resoluções que você tinha tomado? Como esse pensamento te  
ocorreu? À medida que exercia tanta abnegação, com tanta caridade, você  
tinha alguma intuição da causa que o levara a isso?  
R. Eu nasci de pais pobres, mas inteligentes e avarentos. Ainda jovem, fui  
privado da afeição e dos carinhos de minha mãe. Perdê-la me fez sentir um  
desgosto muito mais forte, porque meu pai, dominado pela paixão pelos  
ganhos, me abandonou inteiramente. Meus irmãos e minhas irmãs, todos com  
mais idade do que eu, não pareciam perceber meus tormentos. Um outro  
judeu, movido por um pensamento mais egoísta do que caridoso, me adotou e  
me colocou a trabalhar. Com o lucro dos meus trabalhos, que muitas vezes  
excedia minhas forças, ele recuperou o que eu lhe tinha custado. Mais tarde,  
libertei-me desse jugo e trabalhei por minha conta. No entanto, em toda parte,  
tanto na atividade quanto no repouso, eu era perseguido pela lembrança dos  
carinhos da minha mãe, e à medida que avançava em idade, sua lembrança  
ficava gravada cada vez mais profundamente na minha memória, e mais eu  
sentia falta dos seus cuidados e do seu amor.  
Em pouco tempo, da minha família só restava eu; a morte ceifou em  
poucos meses todos os meus parentes. Foi então que começou a se revelar a  
forma com a qual eu devia passar o resto da minha existência. Dois dos meus  
irmãos tinha deixado órfãos; comovido pela recordação de que como órfão  
havia sofrido, eu quis preservar aqueles seres pobrezinhos de uma juventude  
semelhante à minha; mas como o meu trabalho não era o suficiente para  
sustentar a todos nós, comecei a estender a mão, pedindo não para mim, mas  
365 O Céu e o Inferno  
para os outros. Deus não me deixaria o consolo de usufruir dos meus esforços;  
então os pobrezinhos me deixaram para sempre. Eu sabia muito bem o que  
lhes faltava: era a sua mãe. Com isso, resolvi recorrer à caridade em favor das  
viúvas infelizes que, não podendo sustentar nem a si nem aos seus filhos, se  
impunham privações que as conduziam ao túmulo, deixando pobres órfãos  
que ficavam assim abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo  
enfrentava.  
Eu tinha trinta anos quando, cheio de força e de saúde, viram-me  
mendigar pela viúva e pelo órfão. Os primeiros dias foram penosos, e eu tive  
que aguentar muitas palavras humilhantes. Porém, quando viram que eu  
realmente distribuía tudo o que recebia em nome dos pobres; quando me  
viram acrescentar às esmolas também as sobras do meu trabalho, eu adquiri  
uma espécie de consideração que de alguma forma me encantava.  
Vivi sessenta e poucos anos e jamais faltei com a tarefa que me impus.  
Jamais também uma advertência da consciência veio me fazer supor que um  
motivo anterior à minha existência fosse a causa da minha maneira de agir.  
Somente um dia, antes de começar a estender a mão, eu ouvi estas palavras:  
“Não faça aos outros o que você não gostaria que os outros te fizessem.”  
Fiquei impressionado com a moralidade geral contida nessas poucas palavras,  
e muitíssimas vezes me peguei acrescentando estas outras: “Mas, pelo  
contrário, faça a eles o que você gostaria que eles fizessem por você.” A  
lembrança de minha mãe e a dos meus sofrimentos me ajudando, continuei a  
marchar numa carreira que a minha consciência me dizia ser boa.  
Vou terminar esta longa comunicação lhes dizendo: obrigado! Ainda não  
sou perfeito, mas, sabendo que o mal só leva ao mal, eu farei o bem de novo,  
como já o fiz, para colher felicidade.  
SZYMEL SLIZGOL  
JULIANA MARIA, a pobrezinha  
Na comuna de Villate, perto de Nozai (Loire-Inférieure), havia uma  
pobre mulher chamada Juliana Maria,104 velha, enferma e que vivia da  
104 No original em francês, Julienne-Marie. N. T.  
   
366 Allan Kardec  
caridade pública. Um dia, ela caiu num lago, de onde foi retirada por um  
morador da região, o Sr. A..., que habitualmente a socorria. Levada até seu  
domicílio, ela morreu pouco tempo depois por consequência do acidente. A  
opinião geral era a de que ela queria se suicidar. No mesmo dia do seu  
falecimento, aquele que a tinha socorrido que aliás é espírita e médium —  
sentiu por todo o corpo como que um toque de alguém que estivesse perto  
dele, porém sem saber explicar a causa; quando ele soube da morte de Juliana  
Maria, ele logo pensou que talvez o Espírito dela tivesse vindo visitá-lo.  
Seguindo o conselho de um de seus amigos, membro da Sociedade  
Espírita de Paris, ao qual ele havia contado o que tinha se passado, o Sr. A... fez  
a evocação dessa mulher, com o objetivo de lhe ser útil; porém, previamente,  
ele pediu um conselho aos seus guias protetores, dos quais recebeu a resposta  
seguinte:  
Você pode evocá-la, e isto a fará feliz, embora o serviço que você  
pretende prestar a ela seja desnecessário, pois ela é feliz e inteiramente  
devotada aos que lhe foram compassivos. Você mesmo é um dos bons amigos  
dela; ela quase não te deixa e muitas vezes fala contigo sem que você perceba.  
Cedo ou tarde os serviços prestados são recompensados se não pelo  
favorecido, será por aqueles que se interessam por ele, tanto antes da sua  
morte como depois. Quando um Espírito não teve tempo de se reconhecer,  
são os outros Espíritos simpáticos que, em seu nome, testemunham toda a sua  
gratidão. É isso o que explica aquilo que você sentiu no dia do óbito dela.  
Agora é ela quem te ajuda no bem que você quer fazer. Lembre-se do que  
Jesus disse: Aquele que se rebaixar será exaltado. Você terá a medida dos  
serviços que ela pode te prestar, se, por sua vez, você lhe pedir assistência  
para ser útil ao teu próximo.”  
Evocação Bondosa Juliana Maria, você está feliz; isso é tudo que eu  
queria saber. Isso não me impedirá de pensar muitas vezes em você; jamais  
vou te esquecer em minhas preces.  
R. Tenha confiança em Deus; inspira aos teus enfermos uma fé sincera e  
quase sempre você triunfará. Jamais se preocupe com a recompensa que virá  
disso, pois ela será acima da tua expectativa. Deus sempre sabe recompensar  
conforme merece aquele que se dedica ao alívio dos seus semelhantes e traz  
367 O Céu e o Inferno  
nas suas ações um desinteresse completo; sem isso, tudo não passa de  
ilusão e quimera. É preciso fé, antes de tudo; de outro modo, nada adianta.  
Lembre-se dessa máxima e você ficará admirado dos resultados que vai obter.  
Os dois adoentados que você curou são a prova disso; nas circunstâncias em  
que eles se encontravam, com os remédios comuns você teria falhado.  
Quando pedir a Deus que permita aos bons Espíritos derramarem sobre  
você os fluidos benéficos deles, se esse pedido não te fizer sentir um  
estremecimento involuntário, é que tua prece não foi bastante fervorosa para  
ser ouvida; ela só será ouvida nas condições que te assinalo. É o que você tem  
experimentado quando diz do fundo do coração: Deus todo--Poderoso, Deus  
misericordioso, Deus de bondade sem limite, acolha a minha prece e permita  
aos bons Espíritos me assistirem na cura de...; tenha misericórdia dele, meu  
Deus, e restitua a sua saúde; sem o Senhor, eu nada posso. Que seja feita a tua  
vontade.”  
Você fez bem em não desdenhar os humildes; a voz daquele que sofreu e  
suportou com resignação as misérias deste mundo é sempre ouvida, e como  
você pode ver, um serviço prestado sempre recebe a sua recompensa.  
Agora, uma palavra a meu respeito, e isso te confirmará o que já foi dito.  
O Espiritismo te explica minha linguagem como Espírito: eu não preciso  
entrar em detalhes sobre esse assunto. Creio que também seja inútil te revelar  
minha existência anterior. A posição em que você me conheceu na Terra deve  
te fazer compreender e sondar minhas outras existências, que nem sempre  
foram irrepreensíveis. Devotada a uma vida de miséria, doente e não podendo  
trabalhar, eu mendiguei por toda a minha vida. Não enriqueci; nos dias da  
minha velhice, minhas pequenas economias se limitavam a uma centena de  
francos, que reservava para quando minhas pernas não pudessem mais me  
carregar. Deus julgou que a minha provação e a minha expiação já eram  
suficientes, e pôs um fim a elas, livrando-me sem sofrimento da vida terrestre;  
pois eu não me suicidei, como a princípio todos pensaram. Morri subitamente  
na beira do lago, enquanto dirigia minha última oração a Deus; a inclinação do  
terreno foi a causa da presença do meu corpo na água.  
Não sofri; estou feliz por ter podido cumprir minha missão sem entraves  
e com resignação. Tornei-me útil, na medida das minhas forças e das minhas  
368 Allan Kardec  
possibilidades, evitando fazer o mal ao meu próximo. Hoje, eu recebo a  
recompensa e dou graças a Deus, nosso divino Mestre, que adoçou a amargura  
das provações ao nos fazer esquecer durante a vida as nossas antigas  
existências, e que colocou no nosso caminho almas caridosas, para nos ajudar  
a suportar o fardo dos nossos erros passados.  
Persevere também você, e, como eu, será recompensado por isso.  
Agradeço as tuas boas preces e o serviço que me prestou; não o esquecerei  
jamais. Um dia nós nos veremos de novo e muitas coisas te serão explicadas;  
para este momento, isso seria supérfluo. Saiba apenas que te quero muito  
bem, e que sempre estarei por perto, quando tiver necessidade de mim para  
suavizar alguém que esteja sofrendo.  
A boa e pobrezinha JULIANA MARIA  
Tendo sido evocado na Sociedade de Paris, em 10 de junho de 1864, o  
Espírito de Juliana Maria ditou a comunicação que segue:  
“Obrigada por me admitir no meio de vocês, caro presidente. Vocês bem  
sabem que minhas existências anteriores foram mais elevadas na posição  
social; se voltei a sofrer essa provação da pobreza, foi para me punir de um  
orgulho mesquinho que me fazia repulsar quem fosse pobre e miserável.  
Então fui submetida a essa lei justa de talião, que me tornou a pobretona mais  
horrível dessa região; mas, para me provar a bondade de Deus, não fui  
rejeitada por todos: esse era todo o meu receio. Sendo assim, suportei minha  
prova sem murmurar, pressentindo uma vida melhor, pelo que eu não devia  
mais voltar a esta Terra de exílio e de calamidade.  
Que felicidade o dia em que a nossa alma, ainda jovem, pode entrar na  
vida espiritual para rever os seres amados! Pois eu também amei e estou feliz  
por ter encontrado aqueles que me precederam. Obrigado a esse bom homem,  
o Sr. A..., que me abriu a porta da gratidão; sem a sua mediunidade eu não  
poderia lhe agradecer e lhe provar que minha alma não esquece as felizes  
influências do seu bom coração e lhe recomendar que propague sua divina  
crença. Ele é chamado a resgatar as almas perdidas; que ele se convença bem  
do meu apoio. Sim, eu lhe posso retribuir ao cêntuplo o que ele fez por mim,  
instruindo-o na estrada que vocês seguem. Agradeçam ao Senhor por ter  
369 O Céu e o Inferno  
permitido que os Espíritos possam lhes dar as instruções para encorajar o  
pobre em suas lutas e deter o rico no seu orgulho. Tratem de compreender a  
vergonha que há em repudiar um infeliz; que eu lhes sirva de exemplo, a fim  
de evitar vir, como eu, a expiar suas faltas nessas dolorosas condições sociais,  
que os colocam tão baixo e que fazem de vocês a escória da sociedade.”  
JULIANA MARIA  
Depois que essa comunicação foi transmitida ao Sr. A..., ele por sua vez  
obteve esta outra, que aqui segue, e que é a confirmação da anterior:  
P. Bondosa Juliana Maria, já que quer me ajudar com os teus bons  
conselhos, a fim de me fazer progredir na estrada da nossa divina doutrina,  
por gentileza, queira se comunicar comigo; farei todos os esforços para  
aproveitar bem os teus ensinamentos.  
R. Lembre-se da recomendação que vou te fazer, e jamais se afaste dela:  
seja sempre caridoso, na medida de tuas possibilidades; você entende  
bastante de caridade tal como ela deve ser praticada em todas as classes da  
vida terrena. Portanto, eu não preciso vir te dar qualquer ensinamento sobre  
esse tema; você mesmo será o melhor juiz, desde que siga a voz da tua  
consciência, que nunca te enganará, quando a escutar com sinceridade.  
Não te iluda quanto às missões que você tem a cumprir; pequenos e  
grandes têm as suas; a minha foi muito penosa, mas eu merecia semelhante  
punição por causa das minhas existências precedentes, conforme já confessei  
ao bom presidente da Sociedade-mãe de Paris, à qual vocês todos se juntarão  
um dia. Esse dia não está tão longe quanto você pensa, pois o Espiritismo  
marcha a passos de gigante, apesar de tudo o que se faz para entravá-lo.  
Então, marchem todos destemidamente, fervorosos adeptos da doutrina, e  
seus esforços serão coroados de sucesso. Não se importem com o que  
disserem de vocês! Coloquem-se acima de uma crítica irrisória, que cairá  
sobre os adversários do Espiritismo.  
Esses orgulhosos! Eles se acham fortes e pensam que podem abater  
vocês facilmente; mas vocês, meus bons amigos, fiquem tranquilos e não  
temam enfrentá-los, pois eles são mais fáceis de serem derrotados do que se  
imagina. Muitos dentre eles têm medo e temem que a verdade finalmente  
370 Allan Kardec  
venha ofuscar os olhos deles. Esperem, e eles na vez deles virão ajudar  
no coroamento do edifício.  
JULIANA MARIA  
Este ocorrido está repleto de ensinamentos para quem meditar sobre as  
palavras desse Espírito nessas três comunicações; todos os grandes princípios do  
Espiritismo se encontram aqui reunidos. Desde a primeira, o Espírito demonstra sua  
superioridade através da sua linguagem; semelhante a uma fada benevolente, como  
que transformada e agora resplandecente, essa mulher vem proteger aquele que não a  
rejeitou quando estava sob os trapos de miséria. Tal fato, é uma aplicação daquelas  
máximas do Evangelho: “Os grandes serão rebaixados e os pequenos serão elevados;  
bem-aventurados os humildes e bem-aventurados os aflitos, porque eles serão  
consolados; não menosprezem os pequenos, pois quem é pequeno neste mundo talvez  
seja maior do que vocês imaginam.”  
MAX, o mendigo  
Num vilarejo da Baviera, por volta do ano 1850, morreu um idoso quase  
centenário, conhecido como pai Max. Ninguém conhecia exatamente a sua  
origem, pois ele não tinha família. Durante quase meio século, acabrunhado  
por enfermidades que o impossibilitavam de ganhar a vida pelo trabalho, ele  
não tinha outros recursos além da caridade pública, que ele dissimulava indo  
vender nas fazendas e casarões seus almanaques e outras miudezas. Deram a  
ele o apelido de conde Max, e as crianças só o chamavam de senhor conde —  
ao que ele sorria sem se ofender. Por que esse título? Ninguém saberia dizer;  
isso tinha se tornado um hábito. Talvez fosse por causa de sua fisionomia e de  
suas maneiras, cuja distinção contrastava com seus farrapos. Vários anos após  
sua morte, ele apareceu em sonho à filha do proprietário de um dos casarões  
onde ele era hospedado no estábulo, pois ele não tinha domicílio próprio. Ele  
disse à menina: Obrigado por você ter se lembrado do pobre Max em tuas  
orações, pois elas foram ouvidas pelo Senhor. Você deseja saber quem sou eu,  
ó alma caridosa, interessado pelo infeliz mendigo! Eu vou te satisfazer; isso  
será para todos uma grande lição.”  
Ele então fez para ela o relato seguinte, mais ou menos nesses termos:  
 
371 O Céu e o Inferno  
“Há um século e meio, aproximadamente, eu era um rico e poderoso  
senhor desta região; mas eu era mesquinho, orgulhoso e envaidecido da  
minha nobreza. Minha imensa fortuna não servia senão para os meus  
prazeres e mal dava para isso, porque eu era viciado em jogo, um debochado,  
e passava a vida nas orgias. Meus vassalos que eu acreditava terem sido  
criados para meu uso, como animais de fazenda eram oprimidos e  
maltratados para subsidiar minhas extravagâncias. Eu era surdo com relação  
aos prantos deles, como aos de todos os desafortunados, e, na minha opinião,  
eles deviam se considerar muito honrados em servir aos meus caprichos.  
Morri numa idade pouco avançada, esgotado pelos excessos, mas sem ter  
experimentado nenhuma infelicidade verdadeira; ao contrário, tudo parecia  
sorrir para mim, de sorte que aos olhos de todos eu era um dos felizardos do  
mundo: meu prestígio me rendeu um suntuoso funeral e os meus colegas  
devassos lamentaram minha morte pela perda de um senhor faustoso, mas  
nenhuma lágrima foi derramada sobre a minha catacumba, nem uma prece de  
coração foi endereçada a Deus por mim, e minha memória foi amaldiçoada  
por todos aqueles cuja miséria eu havia aumentado. Ah, como é terrível a  
maldição dos infelizes que nós criamos! Ela não cessou de retinir em meus  
ouvidos durante longos anos, que me pareciam uma eternidade! E por ocasião  
da morte de cada uma de minhas vítimas, era uma nova figura ameaçadora ou  
irônica que surgia diante de mim a me perseguir sem trégua, sem que eu  
pudesse encontrar um canto escuro para me esconder da sua vista! Nem um  
olhar amigo! Meus antigos companheiros de devassidão, desgraçados como  
eu, fugiam de mim e pareciam me dizer com desdém: ‘Você não pode mais  
proporcionar nossos prazeres!’ Oh, como eu teria pago caro naquela hora por  
um instante de repouso! Pagaria caro por um copo dágua para estancar a  
sede ardente que me devorava! Mas eu não possuía mais nada, e todo o ouro  
que tinha semeado de mãos cheias na Terra não havia produzido uma  
única bênção! Nem uma só, escute bem, minha filha!  
Enfim, farto de cansaço, exausto como um viajante esgotado que não vê  
o término de sua jornada, exclamei: Meu Deus, tenha piedade de mim!  
Quando então vai acabar essa horrível situação?’ Então uma voz, a primeira  
que escutei desde que tinha deixado a Terra, me disse: Quando quiser!’ — ‘E  
372 Allan Kardec  
o que eu devo fazer, grande Deus?’, eu respondi; ‘Diga! Eu me submeto a tudo.’  
— ‘É preciso se arrepender e se humilhar diante aqueles a quem você  
humilhou; é preciso lhes pedir que intercedam por ti, porque a prece do  
ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor.Então eu me humilhei,  
eu pedi aos meus vassalos e aos meus servos que estavam diante de mim, e  
cujas fisionomias, cada vez mais benevolentes, terminaram por desaparecer.  
Então isso foi para mim como uma nova vida; a esperança substituiu o  
desespero e eu agradeci a Deus com todas as forças de minha alma. A voz me  
disse, em seguida: ‘Príncipe!’ e eu respondi: Não há aqui outro príncipe senão  
o Deus onipotente que humilha os soberbos. Perdoe-me, Senhor, pois eu  
pequei; faça de mim o servo dos meus servos, se essa for a tua vontade.’  
“Alguns anos mais tarde eu nasci de novo, mas dessa vez numa família  
de pobres aldeões. Meus pais morreram quando eu ainda era criança e fiquei  
só no mundo, sem apoio. Ganhei a vida como pude, ora como operário e ora  
como ajudante na fazenda, mas sempre honestamente, porque dessa vez eu  
acreditava em Deus. Na idade dos quarenta anos, uma moléstia me deixou  
aleijado de todos os membros e eu precisei mendigar durante mais de  
cinquenta anos nessas mesmas terras das quais eu tinha sido o senhor  
absoluto. Receber um pedaço de pão nas mesmas fazendas que eu tinha  
possuído e onde, por uma amarga ironia, fui apelidado senhor conde, muito  
feliz muitas vezes por encontrar um abrigo na estrebaria do casarão que tinha  
sido meu. No meu sonho, eu me deleitava em percorrer esse mesmo casarão  
onde eu reinara como um déspota. Quantas vezes, nos meus sonhos, me via  
novamente no meio da minha antiga riqueza! Ao despertar, essas visões me  
deixavam um indefinível sentimento de amargura e de pesar; mas jamais uma  
reclamação escapou de minha boca; então, quando agradou a Deus me  
chamar até ele, eu o louvei por me ter dado a coragem de sofrer sem  
murmúrio essa longa e penosa prova, cuja recompensa eu recebo hoje. E você,  
minha filha, eu te abençoo por ter rezado por mim.”  
Nós recomendamos esse caso àqueles que afirmam que as pessoas não teriam  
mais freio se não tivessem diante de si o pavor das penas eternas, e perguntamos se a  
perspectiva de um castigo como o do pai Max é menos apropriada para nos tirar do  
mal caminho do que a perspectiva de torturas sem-fim, nas quais ninguém mais crê.  
373 O Céu e o Inferno  
HISTÓRIA DE UM CRIADO  
Numa família da alta classe, havia um criado muito jovem cuja  
personalidade inteligente e fina nos surpreendia pelo seu ar de distinção;  
nada nas suas maneiras refletia baixeza; sua presteza para o serviço dos  
patrões não tinha nada dessa obsequiosidade servil, própria das pessoas  
dessa condição. Visitando novamente aquela família no ano seguinte, nós não  
vimos mais aquele rapaz e perguntamos se o haviam despedido. Não, nos  
responderam: ele foi passar alguns dias na terra dele e lá morreu. Nós  
lamentamos muito por ele, pois era um excelente sujeito e tinha sentimentos  
verdadeiramente acima de sua posição. Ele era muito apegado a nós e nos  
deu as maiores provas de devotamento.”  
Mais tarde, tivemos a ideia de evocar aquele moço, e aqui está o que ele  
nos disse:  
Na minha última encarnação eu era, como se diz na Terra, de uma  
família muito boa, porém arruinada pela gastança de meu pai. Fiquei órfão,  
muito jovem e sem recursos. Um amigo do meu pai me acolheu; ele me criou  
como seu filho e me deu uma bela educação, da qual eu realmente fiquei um  
pouco orgulhoso. Esse amigo hoje é o Sr. de G..., a serviço de quem você me  
viu. Na minha última existência, eu quis expiar meu orgulho nascendo numa  
condição servil e ali encontrei a ocasião de provar meu devotamento ao meu  
benfeitor. Até salvei a vida dele sem que ele jamais desconfiasse disso. Era ao  
mesmo tempo uma prova, da qual aproveitei para o meu avanço, já que tive  
bastante força para não me deixar corromper pelo contato com um ambiente  
quase sempre vicioso; malgrado os maus exemplos, eu continuei puro, e dou  
graças a Deus por isso, porque fui recompensado pela felicidade de que  
desfruto.”  
P. Em que circunstâncias você salvou a vida do Sr. G...? R. Num passeio  
a cavalo, quando eu o seguia sozinho, eu percebi uma grande árvore que caía  
ao seu lado, sem que ele a visse; eu chamei por ele com um grito terrível; ele  
recuou de repente e nesse instante a árvore tombou aos seus pés. Sem o  
movimento que eu provoquei, ele teria sido esmagado.  
O Sr. G..., a quem o fato foi relatado, lembrou-se dele perfeitamente.  
 
374 Allan Kardec  
P. Por que morreu tão jovem? R. Deus julgou minha prova suficiente.  
P. Como você pôde aproveitar essa prova, já que não tinha nenhuma  
lembrança da causa que a tinha motivado? R. Na minha humilde posição,  
restava-me um instinto de orgulho, o qual eu tive a felicidade de poder  
controlar, o que fez com que a provação se tornasse proveitosa para mim; se  
não fosse assim, eu ainda teria de recomeçá-la. Meu Espírito se lembrava, em  
seus momentos de liberdade, e ao despertar ele me deixava um desejo  
intuitivo de resistir às minhas tendências, que eu sentia serem más. Assim, eu  
tive mais mérito em lutar do que se me lembrasse claramente do passado. A  
recordação de minha antiga situação teria exaltado o meu orgulho e isso me  
perturbaria, ao passo que eu tive apenas que combater os arrastamentos da  
minha nova posição.  
P. Você recebeu uma brilhante educação; mas para que isso te serviu na  
tua última existência, visto que você não se recordava dos conhecimentos que  
tinha adquirido? R. Esses conhecimentos teriam sido inúteis, até mesmo um  
contrassenso na minha nova posição; eles ficaram latentes e hoje eu os  
recupero. Entretanto, eles não me foram inúteis, pois desenvolveram minha  
inteligência; instintivamente eu tinha o gosto pelas coisas elevadas, o que me  
inspirava repulsa pelos exemplos baixos e ignóbeis que tinha sob os olhos.  
Sem essa formação, eu não teria sido mais do que um simples criado.  
P. Os exemplos de empregados dedicados aos seus patrões, até com  
abnegação, resultam de anteriores relações? R. Não tenha dúvidas disso; no  
mínimo, esse é o caso mais comum. Algumas vezes esses empregados são os  
próprios membros da família, ou, como eu, favorecidos que pagam uma dívida  
de gratidão, e cuja dedicação os ajuda a avançar. Vocês ainda não conhecem  
todos os efeitos das simpatias e antipatias que essas relações anteriores  
produzem no mundo! Não, a morte não interrompe essas relações, que  
frequentemente se perpetuam de século em século.  
P. Por que esses exemplos de dedicação dos empregados são tão raros  
atualmente? R. É preciso aí acusar o espírito de egoísmo e de orgulho deste  
século, desenvolvido pela incredulidade e pelas ideias materialistas. A fé  
verdadeira é desprezada pela cupidez e pelo desejo de ganho, e com ela se vão  
375 O Céu e o Inferno  
os devotamentos. O Espiritismo, reconduzindo os homens ao sentimento da  
verdade, fará renascer as virtudes esquecidas.  
Nada melhor do que esse exemplo para ressaltar o benefício do esquecimento  
das existências anteriores. Se o Sr. G... tivesse a lembrança de quem tinha sido seu  
jovem criado, ele teria ficado muito constrangido e nem mesmo o teria mantido  
naquela condição; com isso, teria entravado a prova que era proveitosa para ambos.  
ANTONIO B...  
Enterrado vivo A pena de talião  
O Sr. Antonio B..., escritor de mérito e estimado por seus concidadãos,  
tendo desempenhado com distinção e integridade funções públicas na  
Lombardia, por volta do ano 1850 caiu num estado de morte aparente, em  
consequência de um ataque de apoplexia, que infelizmente foi tomado —  
como às vezes acontece como uma morte real. Esse equívoco foi ainda mais  
fácil porque acreditava-se perceber no corpo alguns sinais de decomposição.  
Quinze dias depois do enterro, uma circunstância fortuita levou a família a  
pedir a exumação; isso foi devido a um medalhão esquecido por descuido no  
caixão. Mas o espanto dos assistentes foi grande quando, ao abrir a urna  
funerária, perceberam que o corpo tinha mudado de posição, estando ele de  
bruços e que coisa horrível! uma das mãos tinha sido parcialmente  
comida pelo defunto. Ficou evidente, então, que o infeliz Antonio B... tinha  
sido enterrado vivo; ele devia ter sucumbido sob as garras do desespero e da  
fome.  
Tendo sido evocado na Sociedade de Paris em agosto de 1861, a pedido  
de um dos seus parentes, o Sr. Antonio B... deu as seguintes explicações:  
1. Evocação O que querem de mim?  
2. Um dos teus parentes nos pediu para te evocar; nós o fazemos com prazer e  
ficaremos felizes se você bem quiser nos responder. R. Sim, ficarei feliz em  
responder.  
3. Lembra-se das circunstâncias da tua morte? R. Ah, é claro que sim! Eu  
lembro de tudo! Mas por que despertar a lembrança desse castigo?  
 
376 Allan Kardec  
4. É verdade que você foi enterrado vivo por engano? R. Deve ter sido isso,  
pois a morte aparente teve todas as características de uma morte real; eu  
estava quase exangue.105 Não se deve imputar a ninguém um fato previsto  
desde antes do meu nascimento.  
5. Já que essas perguntas são do tipo que te incomoda, devemos parar com  
elas? R. Não, continuem.  
6. Gostaríamos de saber que está feliz, pois você deixou a reputação de um  
homem de bem. R. Fico muito agradecido; eu sei que rezarão por mim. Vou  
tentar responder, mas se eu falhar, um dos guias de vocês responderão por  
mim.  
7. Poderia descrever para nós as sensações que você experimentou naquele  
momento terrível? R. Oh, que dolorosa provação é se sentir trancafiado  
entre quatro tábuas, de maneira a não poder se mexer! Não é possível gritar,  
pois a voz não ressoa mais num ambiente sem ar! Oh, que tortura é a de um  
infeliz que se esforça inutilmente para respirar numa atmosfera insuficiente e  
desprovida de oxigênio! Ai de mim! Eu era como um condenado na boca de  
um forno sem calor. Oh, eu não desejaria a ninguém tais torturas! Não; a  
ninguém eu desejaria um fim como o meu. Oh! Que cruel punição para uma  
existência cruel e feroz! Não me perguntem no que eu estava pensando, mas  
eu estava mergulhando no passado e vislumbrando vagamente o futuro.  
8. Você disse: cruel punição para uma feroz existência; mas a tua reputação,  
até hoje intacta, não parece supor nada disso. Poderia nos explicar isso? R. O  
que significa a duração de uma existência carnal comparada à eternidade?!  
Certamente, eu procurei agir bem na minha última encarnação, mas aquele  
desfecho tinha sido aceito por mim, antes de entrar na humanidade. Ah! Por  
que me interrogar sobre esse passado doloroso que só eu conheço, além dos  
Espíritos ministros do Onipotente? Saibam então, já que eu preciso lhes dizer,  
que numa existência anterior eu havia sepultado uma mulher minha  
própria esposa ainda viva, numa cova. É a pena de talião que a mim devia  
ser aplicada. Olho por olho, dente por dente.  
105 Privado de sangue. Descoloração da pele pela privação de sangue.  
 
377 O Céu e o Inferno  
9. Nós te agradecemos por ter aceitado responder às nossas questões, e  
pedimos a Deus que te perdoe o passado, em favor do mérito da tua mais  
recente existência. R. Voltarei mais tarde; a propósito, o Espírito de Erasto  
deseja fazer um complemento.  
Ensinamento do guia do médium  
O que vocês devem colher desse ensinamento é que todas as suas  
existências se correlacionam e que nenhuma delas é independente das outras;  
as preocupações, os problemas, assim como as grandes dores que ferem os  
homens, são sempre as consequências de uma vida anterior criminosa ou  
mal-empregada. Entretanto, devo lhes dizer que desfechos parecidos com  
esse de Antonio B... são raros, e se esse homem cuja derradeira existência  
foi isenta de culpa terminou desse jeito, foi porque ele mesmo tinha  
solicitado uma morte assim, com o propósito de abreviar a sua erraticidade e  
alcançar mais rapidamente as esferas superiores. Com efeito, depois de um  
período de perturbação e de sofrimento moral para expiar também seu crime  
abominável, ele será perdoado e subirá para um mundo melhor, onde  
reencontrará sua vítima, que o aguarda e que já o perdoou desde há muito  
tempo. Portanto, meus queridos espíritas, saibam tirar proveito desse  
exemplo cruel, para suportarem com paciência os sofrimentos corporais, os  
sofrimentos morais, assim como todas as pequenas misérias da vida.  
P. Que proveito a humanidade pode tirar de punições como essa? R. Os  
castigos não são aplicados para desenvolver a humanidade, mas para castigar  
o indivíduo culpável. Com efeito, a humanidade não tem nenhum interesse em  
ver um dos seus semelhantes sofrer. No presente caso, a punição foi  
apropriada à falta. Por que há loucos? Por que há cretinos? Por que há  
paralíticos? Por que alguns morrem no fogo? Por que há aqueles que passam  
anos nas torturas de uma longa agonia, sem poder nem viver nem morrer? Ah,  
acreditem em mim; respeitem a vontade soberana e não procurem sondar a  
razão dos decretos providenciais! Fiquem sabendo que Deus é justo e tudo  
que ele faz é bom.  
ERASTO  
378 Allan Kardec  
Não há neste fato um grande e terrível ensinamento? Assim, a justiça de Deus  
sempre alcança o culpado e, mesmo que às vezes seja tardia, nem por isso ela deixa de  
seguir o seu curso. Não é eminentemente moral saber que, se grandes culpáveis  
acabam sua existência tranquilamente e muitas vezes na abundância dos bens  
terrestres, a hora da expiação soará para eles, cedo ou tarde? Penas dessa natureza  
são compreensíveis, não somente por estarem de alguma forma diante dos nossos  
olhos, mas por serem lógicas; nós acreditamos nelas, porque a razão as admite.  
Por conseguinte, uma existência honrável não exclui as provações da vida, pois  
são escolhidas ou aceitas como complemento da expiação; é o pagamento de uma  
dívida que se quita antes de receber o prêmio pelo progresso realizado.  
Se considerarmos quão frequentes foram, nos séculos passados, mesmo nas  
classes mais elevadas e mais esclarecidas, os atos de barbárie que tanto nos revoltam  
hoje, e quantos assassinatos foram cometidos nessas épocas em que se brincava com a  
vida do semelhante e em que os fortes esmagavam os fracos sem escrúpulo, então nós  
compreenderemos bem quantos deve haver, dentre os homens de nossos dias, os que  
precisam lavar seu passado; ninguém mais ficará admirado com o número tão  
considerável de pessoas que morrem vítimas de acidentes isolados ou de catástrofes  
generalizadas. O despotismo, o fanatismo, a ignorância e os preconceitos da Idade  
Média e dos séculos que se seguiram legaram às gerações futuras um débito imenso,  
que ainda não foi liquidado. Muitas desgraças só nos parecem imerecidas porque nós  
não enxergamos mais do que o momento atual.  
LETIL  
O Sr. Letil, um fabricante perto de Paris, morreu em abril de 1864 de  
uma maneira medonha: uma caldeira de verniz fervente pegou fogo e caiu  
sobre ele, que num piscar de olhos ficou coberto de um material ardente,  
compreendendo de imediato que estava perdido. Estando ele, naquele  
momento, sozinho na oficina com um jovem aprendiz, ele teve a coragem de  
voltar ao seu domicílio, distante mais de duzentos metros. Quando foi possível  
lhe prestar os primeiros socorros, as carnes já estavam queimadas e caíam em  
pedaços; os ossos de uma parte do corpo e da face ficaram à nu. Ele  
permaneceu assim por doze horas, nos mais terríveis sofrimentos, mantendo,  
apesar disso, toda sua presença de espírito até o momento final e colocando  
 
379 O Céu e o Inferno  
em ordem os seus negócios com uma perfeita lucidez. Durante essa cruel  
agonia, não se ouviu dele uma só queixa, um só murmúrio, e morreu orando a  
Deus. Era um homem muito honorável, de um caráter meigo e benevolente,  
amado e estimado por todos que o conheciam. Ele havia abraçado as ideias  
espíritas com entusiasmo, mas sem a devida reflexão, e por essa razão —  
sendo ele próprio uma espécie de médium ele era alvo de numerosas  
mistificações que, no entanto, não abalavam sua fé. Sua confiança no que os  
Espíritos lhe diziam foi, em certas circunstâncias, levada até a ingenuidade.  
Evocado na Sociedade de Paris, em 29 de abril de 1864, poucos dias após  
sua morte e ainda sob a impressão da cena terrível que o vitimou, ele deu a  
comunicação adiante:  
“Uma tristeza profunda me acabrunha! Ainda totalmente aterrorizado  
pela minha morte trágica, sinto-me como se estivesse sob a espada de um  
carrasco. Eu realmente sofri! Oh, como eu sofri! Estou todo trêmulo; parece  
que ainda sinto o cheiro fétido que minhas carnes queimadas exalavam ao  
meu redor. Doze horas de agonia que você passou, ó Espírito culpado! Sofreu  
sem reclamar, então Deus dará o seu perdão.  
Ó minha bem-amada, não chore mais por mim! Minhas dores vão se  
acalmar. Não estou mais sofrendo de verdade, porém a lembrança equivale à  
realidade. Meus conhecimentos em Espiritismo me ajudam bastante; vejo  
agora que sem essa doce crença eu teria ficado no delírio em que fui lançado  
por essa morte horrenda.  
“Mas eu tenho um consolador que não me abandonou desde o meu  
último suspiro; eu ainda estava falando quando o vi já pertinho de mim:  
parecia-me que era um reflexo das minhas dores que me davam vertigem e  
me mostravam fantasmas... Mas não; era o meu anjo protetor que, silencioso e  
mudo, me consolava pelo coração. Logo que eu disse adeus à Terra, ele me  
disse: Venha, meu filho, e veja de novo o dia.’ Respirei mais livremente,  
achando que estava saindo de um sonho terrível; falei da minha amada  
esposa, do filho corajoso que a mim tinha se dedicado, e ele me disse: Estão  
todos na Terra, e você, meu filho, você está entre nós.’ Procurei minha casa; o  
anjo me deixou entrar nela, sempre me acompanhando. Vi todo mundo em  
lágrimas; tudo era triste e em luto nessa morada que outrora era de paz. Não  
380 Allan Kardec  
podia aguentar por mais tempo a vista daquele doloroso espetáculo; então,  
muito emocionado, eu disse ao meu guia: Ó meu bom anjo, vamos sair daqui!’  
O anjo respondeu: ‘Sim, vamos sair e procurar repouso.’  
Desde então eu sofro menos; se não fosse minha esposa inconsolável e  
meus amigos tão tristes, eu estaria quase feliz.  
“Meu bom guia, meu querido anjo, teve a gentileza de me dizer por que  
eu havia tido uma morte tão dolorosa, e para o aprendizado de vocês, meus  
filhos, eu vou lhes fazer uma confissão:  
“Há dois séculos, eu mandei queimar numa fogueira uma jovem,  
inocente como qualquer moça na sua idade, entre doze e quatorze anos. De  
que ela foi acusada? Ah! De ter sido cúmplice numa ação contra a sacerdotal.  
Eu era italiano e juiz inquisidor; como os carrascos não ousavam tocar o  
corpo da pobre criança, eu mesmo fui o juiz e o carrasco. Ó justiça, justiça de  
Deus, como você é grandiosa! A você estou submetido; tanto prometi não  
vacilar no dia do combate que ainda tive a força para manter a palavra, pois  
eu não murmurei, e você me perdoou, ó meu Deus! Quando então será que a  
lembrança da minha pobre e inocente vítima se apagará da minha memória?  
Essa lembrança é que me faz sofrer! É preciso, pois, que ela me perdoe.  
“Oh, vocês, filhos da nova doutrina, vocês dizem às vezes: Não nos  
lembramos do que já fizemos, portanto não podemos evitar os males aos  
quais nos expomos pelo esquecimento do passado! Ó meus irmãos, bendigam  
a Deus! Se ele tivesse deixado a vocês essa lembrança, não haveria descanso  
nenhum para vocês na Terra. Será que, perseguidos constantemente pelo  
remorso e pela vergonha, vocês poderiam ter um só instante de paz?  
O esquecimento é um benefício; a lembrança aqui é uma tortura. Mais  
alguns dias e, como recompensa pela paciência com a qual eu suportei as  
minhas dores, Deus vai me dar o esquecimento da minha falta. Eis a promessa  
que o meu bom anjo acaba de fazer para mim.”  
O caráter do Sr. Letil, na sua última existência, prova o quanto seu  
Espírito melhorou. Sua conduta foi o resultado do seu arrependimento e das  
boas resoluções que ele tomou; mas isso não bastava: faltava-lhe selar suas  
resoluções com uma grande expiação; faltava-lhe enfrentar como homem o  
que ele tinha feito aos outros; a resignação, nessa terrível circunstância, era  
381 O Céu e o Inferno  
para ele o maior teste, e felizmente para ele, não falhou. O conhecimento do  
Espiritismo sem dúvidas contribuiu muito para sustentar sua coragem,  
através da fé sincera que esse conhecimento lhe dava sobre o futuro; ele sabia  
que as dores da vida são provações e expiações, e então se submeteu a elas  
sem contestar, dizendo: Deus é justo; certamente eu mereci essas dores.”  
UM ESTUDIOSO AMBICIOSO  
Madame B..., de Bourdeaux, nunca provou as pungentes angústias da  
miséria, mas ela foi, por toda sua vida, uma mártir das dores físicas devido às  
inúmeras doenças graves das quais ela padeceu durante setenta anos, desde  
os cinco meses de idade, e que quase todo ano a colocava na porta da  
sepultura. Três vezes ela foi envenenada pelos testes feitos pela ciência  
incerta, e seu temperamento, arruinado tanto pelos remédios quanto pelas  
enfermidades, a deixou entregue, até o fim da vida, a sofrimentos intoleráveis,  
que nada podia acalmar. Sua filha, espírita cristã e médium, pedia a Deus em  
suas orações para suavizar as cruéis provações da mãe; porém, seu guia  
espiritual lhe disse para pedir simplesmente a força para ela suportar as  
provas com paciência e resignação, e então lhe ditou as seguintes instruções:  
“Tudo tem a sua razão de ser na existência humana: não existe nenhum  
sofrimento que tenha afetado vocês que não encontre um eco nos  
sofrimentos que vocês causaram; não há nenhum dos seus excessos que não  
encontre correspondência em uma de suas privações; nenhuma lágrima cai  
dos olhos de vocês sem ter que lavar uma falta, um crime qualquer. Portanto,  
suportem com paciência e resignação suas dores físicas ou morais, por mais  
cruéis que elas pareçam, e pensem no lavrador cujo cansaço afeta os  
membros, mas que continua sua obra sem parar, pois ele sempre tem diante  
de si as espigas douradas que serão os frutos da sua perseverança. Tal é a  
sorte do infeliz que sofre neste mundo; a aspiração à felicidade que deve  
ser o fruto de sua paciência vai torná-lo forte contra as dores passageiras  
da humanidade.  
Assim ocorre com a tua mãe: cada dor que ela aceita como expiação é  
uma mancha apagada do passado dela, e quanto mais cedo essas manchas  
 
382 Allan Kardec  
forem apagadas, mais cedo ela será feliz. A falta de resignação só torna o  
sofrimento estéril, pois então as provas têm que reiniciar. O que é mais útil  
para ela, portanto, é a coragem e a submissão; é isso que devemos pedir que  
Deus e os bons Espíritos lhe concedam.  
Tua mãe foi outrora um bom médico, envolvido numa classe em que  
nada custa para assegurar o bem-estar, e na qual ele foi coberto de presentes  
e honrarias. Ambicioso por glória e riquezas, querendo atingir o apogeu da  
ciência, não em vista de aliviar seus irmãos pois não era filantropo , mas  
sim para aumentar a própria reputação e com isso sua clientela, nada lhe  
custava para levar a efeito seus estudos. A mãe era martirizada no seu leito de  
sofrimento, porque ele previa um estudo nas convulsões que ele provocava; o  
filho era submetido às experiências que deviam lhe dar a solução para  
determinados fenômenos; o velho via seu fim se aproximar; o homem  
vigoroso se sentia enfraquecido com os testes que deviam constatar a ação de  
tal ou qual beberagem, e todos esses experimentos eram feitos sem que o  
infeliz desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, assim como a sede  
do ouro e de fama: esses eram os motivos de sua conduta. Foram necessários  
séculos e terríveis provações para domar esse Espírito orgulhoso e ambicioso;  
depois, o arrependimento começou sua obra de regeneração, e a reparação se  
completa, porque as provas dessa última existência são suaves perto daquelas  
que ele já suportou. Assim sendo, coragem! Se a pena foi longa e cruel,  
também será grande a recompensa reservada à paciência, à resignação e à  
humildade.  
Coragem, a vocês todos que sofrem; pensem no pouco tempo que dura  
sua existência material; pensem nas alegrias da eternidade; apelem à sua  
esperança, essa devotada amiga de todo coração sofredor; apelem à sua fé,  
irmã da esperança, fé que lhes mostra o céu, onde a esperança faz vocês  
penetrarem bem antes do tempo. Atraiam até vocês também esses amigos que  
o Senhor lhes concede, que os rodeiam, que os apoiam e os amam, e cuja  
constante solicitude os reconduz até aquele a quem vocês têm ofendido,  
transgredindo suas leis.”  
Após sua morte, a Sra. B... deu muitas comunicações, tanto à sua filha como à  
Sociedade Espírita de Paris, nas quais se refletem as mais eminentes qualidades e  
383 O Céu e o Inferno  
confirmando o que havia sido dito dos seus antecedentes.  
CHARLES DE SAINT-G..., deficiente mental  
(Sociedade Espírita de Paris, 1860)  
Charles de Saint-G... é um jovem deficiente mental de treze anos, ainda  
vivo, cujas faculdades intelectuais são tão nulas que ele nem mesmo  
reconhece os pais e mal é capaz de se alimentar. Há nele uma paralização  
completa do desenvolvimento em todo o sistema orgânico.  
1. A são Luís Poderia nos dizer se nós podemos fazer a evocação do Espírito  
desse garoto? R. Vocês podem evocá-lo como se evocassem o Espírito de um  
morto.  
2. Essa resposta nos faz supor que a evocação poderia ser feita a qualquer  
momento... R. Sim; a alma dele está ligada ao corpo por laços materiais, mas  
não por laços espirituais; ela sempre pode se desprender.  
3. Evocação de Charles de Saint-G... R. Sou um pobre Espírito atado à  
Terra, como um pássaro preso pelo pé.  
4. Em teu estado atual, como Espírito, você tem consciência de tua nulidade  
neste mundo? R. Com certeza; conheço bem o meu cativeiro.  
5. Quando teu corpo dorme e teu Espírito se desprende, você tem ideias tão  
lúcidas quanto se estivesse em estado normal? R. Quando meu infeliz corpo  
repousa, eu fico um pouco mais livre para me elevar ao céu a que aspiro.  
6. Você experimenta, como Espírito, um sentimento penoso desse estado  
corporal? R. Sim, pois é uma punição.  
7. Lembra-se da tua existência anterior? R. Oh, sim! Ela é a causa do meu  
exílio no presente.  
8. Qual foi essa existência? R. Um jovem libertino ao tempo de Henrique  
106  
Henrique III da França (15511589) foi o quarto filho do rei Henrique II e de Catarina de Médicis;  
reinou em seu país de 1574 a 1589. N. T.  
   
384 Allan Kardec  
9. Você disse que tua condição atual é uma punição; então não foi escolha tua?  
R. Não.  
10. Como essa existência atual pode servir para o teu avanço, no estado de  
nulidade em que você se encontra? R. Ela não é nula para mim perante Deus,  
que me impôs tal punição.  
11. Consegue prever a duração da tua existência atual? R. Não; alguns anos  
mais e eu retornarei à minha pátria.  
12. Desde tua precedente existência até essa encarnação atual, o que você tem  
feito como Espírito? R. Foi porque eu era um Espírito leviano que Deus me  
aprisionou.  
13. No estado de vigília, você tem consciência do que se passa ao teu redor, e  
isso apesar da imperfeição dos teus órgãos? R. Eu vejo e escuto, mas meu  
corpo não compreende nem vê nada.  
14. Podemos fazer alguma coisa que te seja útil? R. Nada.  
15. A são Luís As preces por um Espírito reencarnado podem ter a mesma  
eficácia que por Espírito errante? R. As preces são sempre boas e agradáveis  
a Deus. Na situação desse pobre Espírito, elas não podem servi-lo para nada,  
mas servirão mais tarde, pois Deus as levará em conta.  
Essa evocação confirma o que sempre tem sido dito sobre os deficientes  
mentais. Sua nulidade moral não tem relação com a nulidade do seu Espírito, que,  
abstração feita dos órgãos, goza de todas as suas faculdades. A imperfeição dos órgãos  
não passa de um obstáculo à livre manifestação dos pensamentos: ela não os aniquila  
absolutamente. É o caso de um homem vigoroso cujos membros estivessem  
amarrados.  
Ensinamento de um Espírito sobre os deficientes mentais,  
dada na Sociedade de Paris  
Os deficientes mentais são seres punidos na Terra pelo mau uso que  
fizeram de poderosas faculdades; a alma deles fica aprisionada num corpo  
cujos órgãos impotentes não podem expressar seus pensamentos. Esse  
385 O Céu e o Inferno  
mutismo moral e físico é uma das mais cruéis punições terrestres; muitas  
vezes essa condição é escolhida pelos Espíritos arrependidos que querem  
resgatar suas faltas. Essa provação não é estéril, pois o Espírito não fica  
estacionário na sua prisão carnal: seus olhos hebetados veem e seu cérebro  
deprimido percebe, mas nada pode ser traduzido, nem pela palavra nem pelo  
olhar, e, exceto pelo movimento, eles estão moralmente no estado dos  
letárgicos e dos catalépticos que veem e ouvem o que se passa em torno deles,  
mas sem poderem exprimi-lo. Quando em sonho vocês têm esses terríveis  
pesadelos em que vocês querem fugir de um perigo e que gritam para pedir  
socorro, enquanto a língua fica presa no céu da boca e os pés preso ao chão,  
então vocês provam por um instante o que um deficiente mental prova o  
tempo todo: paralisia do corpo junto com a vivência espiritual.  
Quase todas as enfermidades têm assim sua razão de ser; nada se faz  
sem causa, e o que vocês chamam injustiça da sorte é a aplicação da mais alta  
justiça. A loucura também é uma punição pelo abuso de altas faculdades; o  
louco tem duas personalidades: uma que é extravagante e outra que tem a  
consciência de seus atos, sem poder dirigi-los. Nos deficientes mentais, a vida  
contemplativa e isolada da sua alma que não tem as distrações do corpo —  
também pode ser tão agitada quanto as existências mais complicadas pelos  
eventos; alguns se revoltam contra seu suplício voluntário, lamentando por  
terem escolhido e sentido um desejo furioso de retornar a uma outra vida,  
desejo esse que lhes faz esquecer a resignação na vida presente e o remorso  
da vida passada, da qual eles têm consciência, pois os débeis mentais e os  
loucos sabem mais do que vocês, e sob a incapacidade física deles se esconde  
uma potência moral da qual vocês não fazem a menor ideia. Os atos de furor  
ou de imbecilidade a que seus corpos se entregam são julgados pelo ser  
interior que sofre com isso e disso se envergonha. Desse modo, desprezá-los,  
insultá-los ou mesmo maltratá-los, como se faz às vezes, é aumentar os  
sofrimentos deles, pois é fazê-los sentir mais duramente a própria fraqueza e  
abjeção; se eles pudessem, acusariam de covardia aqueles que assim agem  
dessa forma somente porque sabem que sua vítima não pode se defender.  
A deficiência mental não é uma lei de Deus, e a ciência pode fazê-la  
desaparecer, pois isso é o resultado material da ignorância, da miséria e da  
386 Allan Kardec  
impureza. Os novos meios de higiene que a ciência que tem se tornado  
mais prática colocou ao alcance de todos, tendem a destruir essa  
enfermidade. Sendo o progresso a condição expressa da humanidade, as  
provações impostas se modificarão e seguirão a marcha dos séculos; elas vão  
se tornar todas morais, e quando esta Terra de vocês que ainda é jovem —  
tiver cumprido todas as fases de sua existência, então se tornará uma morada  
de felicidade, como outros planetas mais avançados.  
PIERRE JOUTY, pai do médium  
Houve um tempo em que foi colocada em dúvida a alma dos deficientes mentais  
e que se perguntava se eles realmente pertenciam à espécie humana. A maneira como  
o Espiritismo os encara não é de uma alta moralidade e de um grande ensinamento?  
Não há motivo para sérias reflexões ao sondar que esses corpos desgraçados contêm  
almas que talvez tenham brilhado no mundo, que são tão lúcidas e tão inteligentes  
quanto as nossas, sob o espesso envoltório que sufoca suas manifestações e que um  
dia a mesma coisa pode acontecer conosco, caso nós abusemos das faculdades que a  
Providência nos concedeu?  
Como poderíamos explicar de outra forma a deficiência mental? Como fazê-la  
estar em harmonia com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das  
existências? Se a alma não tinha vivido antes disso, é que foi criada ao mesmo tempo  
que o corpo; nessa hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas como  
as dos deficientes, vindas da parte de um Deus justo e bom? Porque aqui não se trata  
de um desses acidentes como a loucura, por exemplo que se pode prevenir ou  
curar; esses seres nascem e morrem na mesma condição. Não tendo nenhuma noção  
do bem e do mal, qual será a sorte deles na eternidade? Serão felizes igual aos homens  
inteligentes e trabalhadores? Mas por que esse favor, já que eles nada fazem de bom?  
Será que eles ficarão naquilo a que chamam de limbo, isto é, num estado misto que  
nem é felicidade nem é infelicidade? Mas por que essa inferioridade eterna? Terá sido  
culpa deles se Deus os criou deficientes? Nós desafiamos todos aqueles que rejeitam a  
doutrina da reencarnação a saírem desse impasse. Com a reencarnação, ao contrário,  
o que parece uma injustiça torna-se uma admirável justiça; o que é inexplicável  
explica-se da maneira mais racional.  
De resto, não sabemos se os que rejeitam essa doutrina já a combateram com  
outros argumentos além da sua repugnância pessoal em voltar à Terra. Quanto a isso,  
nós lhes respondemos: para mandá-los aí de volta, Deus não pede a permissão de  
vocês, assim como o juiz não consulta a vontade do condenado para enviá-lo à prisão.  
387 O Céu e o Inferno  
Cada qual tem a possibilidade de aqui não retornar, caso se melhore o bastante para  
merecer passar para uma esfera mais elevada. Porém, nessas esferas felizes, o  
egoísmo e o orgulho não são admitidos; logo, é no intuito de se despojar dessas  
enfermidades morais que é preciso trabalhar, caso alguém queira subir de grau.  
Sabe-se que, em certas regiões, longe de serem objetos de desprezo, os  
deficientes mentais são tratados com cuidados benevolentes. Será que esse  
sentimento não se deve a uma intuição do verdadeiro estado desses desafortunados,  
tanto mais dignos de respeito quanto mais deve sofrer seu Espírito, que compreende  
sua posição, ao se ver marginalizado na sociedade? Lá, considera-se até mesmo como  
um favor e uma bênção ter um desses seres numa família. Isso seria uma superstição?  
É possível, porque nos ignorantes a superstição se confunde com as ideias mais  
sensatas, das quais eles não se dão conta. Em todo caso, para os parentes, isso é uma  
ocasião de exercerem uma caridade, ainda mais meritória para eles sendo  
geralmente pobres porque é um fardo sem compensação material. Há mais mérito  
em envolver com cuidados afetuosos um filho desgraçado do que cuidar daquele cujas  
qualidades ofereçam alguma compensação. Ora, sendo a caridade de coração uma das  
virtudes mais agradáveis a Deus, quem a pratica sempre atrai a sua bênção. Esse  
sentimento inato nos caridosos equivale a essa prece: Obrigado, meu Deus, por nos  
ter dado como prova um ser fraco para ser sustentado, um aflito para ser consolado.”  
ADELAIDE MARGARIDA GOSSE107  
Era uma humilde e pobre criada que vivia perto de Harfleur, na  
Normandia. Aos onze anos, ela começou a trabalhar para ricos horticultores  
da sua região. Poucos anos depois, uma enchente do rio Sena levou embora e  
afogou todo o gado! Surgem outros infortúnios e os seus patrões caem em  
apuros! Adelaide solidariza-se com a sorte deles, abafa a voz do egoísmo e, só  
escutando o generoso coração, ela faz com que eles aceitem quinhentos  
francos juntados por ela, além de continuar a servi-los sem qualquer ganho.  
Após a morte dos patrões, ela se apegou à filha deles, deixada viúva e sem  
recursos. Trabalha nos campos e traz seu ganho para casa. Casa-se, juntando  
sua jornada com a do marido, eis agora os dois sustentando a pobre mulher, a  
quem ela sempre chama de “sua patroa. Esse sublime sacrifício durou cerca  
107 No original, em francês: Adélaïde-Marguerite Gosse. N. T.  
   
388 Allan Kardec  
de meio século.  
A Sociedade de Emulação de Rouen não deixou no esquecimento essa  
mulher, tão digna de respeito e de admiração, e lhe concedeu uma medalha de  
honra junto com uma recompensa em dinheiro; as lojas maçônicas do Havre  
se uniram a esse testemunho de estima e lhe ofereceram uma pequena soma,  
para contribuir com o seu bem-estar. Finalmente, a administração local se  
interessou por ela com delicadeza, sem lhe constranger.  
Num instante e sem sofrimento, um ataque de paralisia arrebatou esse  
ser benevolente. As últimas homenagens lhe foram prestadas de uma maneira  
simples, mas decente; o secretário da prefeitura seguiu à frente do cortejo.  
(Sociedade de Paris, 27 de dezembro de 1861)  
Evocação Rogamos a Deus onipotente que permita ao Espírito de  
Margarida Gosse comunicar-se conosco. R. Sim, Deus quer me conceder essa  
graça.  
P. Estamos felizes por te demonstrar a nossa admiração pela conduta  
que você teve durante tua existência terrestre, e esperamos que tua  
abnegação tenha recebido a sua recompensa. R. Sim, Deus foi pleno de amor  
e de misericórdia para com a sua serva. O que eu fiz o que lhes parece bom  
foi completamente natural.  
P. Para o nosso aprendizado, poderia nos dizer qual foi a causa da  
humilde condição que ocupou na Terra? R. Em duas existências sucessivas,  
eu ocupei uma posição bastante elevada; o bem era fácil para mim; eu o  
praticava sem sacrifício, porque eu era rica, mas me parecia que eu avançava  
lentamente e por isso pedi para retornar numa condição mais modesta em  
que eu tivesse que lutar pessoalmente contra as privações; então me preparei  
para isso durante um longo tempo. Deus sustentou minha coragem e eu pude  
alcançar o objetivo ao qual eu tinha proposto para mim, graças ao socorro  
espiritual que Deus me deu.  
P. Você já reencontrou teus antigos patrões? Diga-nos, por favor, qual é a  
tua posição com relação a eles, e se você ainda se considera como sua  
389 O Céu e o Inferno  
subalterna. R. Sim, eu os revi; quando cheguei, eles já estavam nesse mundo.  
Vou lhes dizer, com toda humildade, que eles me consideram como sendo  
muito superior a eles.  
P. Você tinha um motivo particular para se apegar a eles, mais do que a  
outras pessoas? R. Nenhum motivo obrigatório; eu teria alcançado o meu  
objetivo em qualquer outro lugar. Eu os escolhi para quitar com eles uma  
dívida de reconhecimento, pois noutros tempos eles foram bons comigo e me  
prestaram serviço.  
P. Que futuro você pressente para si mesmo? R. Eu espero estar  
reencarnada num mundo onde a dor seja desconhecida. Talvez me achem  
bem presunçosa, mas eu lhes respondo com a vivacidade do meu caráter. De  
resto, eu me submeto à vontade de Deus.  
P. Nós te agradecemos por ter vindo ao nosso apelo e não duvidamos  
que Deus te cubra com sua bondade. R. Obrigada. Que Deus os abençoe e  
permita que todos vocês, ao morrerem, provem das alegrias tão puras que me  
foram concedidas.  
CLARA RIVIER  
Clara Rivier era uma garotinha de dez anos, pertencente a uma família  
de camponeses num vilarejo do sul da França; estava gravemente enferma  
desde os quatro anos de idade. Durante toda a sua vida, jamais deixou que  
ouvissem dela uma única lamentação, nem deu qualquer sinal de impaciência;  
conquanto desprovida de instrução, ela consolava sua família aflita ao falar da  
vida futura e da felicidade que lá ela iria encontrar. Morreu em setembro de  
1862, passados quatro dias de tormentos e convulsões, durante as quais ela  
não cessava de orar a Deus. Ela dizia: “Não tenho medo da morte, porque  
depois uma vida de felicidade está reservada para mim.” Ao seu pai, que  
chorava, ela dizia: Console-se; eu voltarei para te visitar. Minha hora está  
próxima, eu sinto isso, mas quando ela chegar eu saberei e te avisarei antes.”  
De fato, quando o momento fatal estava a ponto de se cumprir, ela chamou  
todos os seus parentes e disse: Não tenho mais do que cinco minutos de vida;  
 
390 Allan Kardec  
vamos nos dar as mãos.” Então ela expirou, conforme havia anunciado.  
Desde então, um Espírito batedor veio visitar a casa do casal Rivier, onde  
ele bagunça tudo: bate na mesa como se tivesse um porrete, agita os lençóis e  
as cortinas, mexe na louça etc. Esse Espírito aparece sob a forma de Clara para  
a irmãzinha dela, que não tem mais do que cinco anos. De acordo com essa  
criança, sua irmã lhe falou muitas vezes, e essas aparições frequentemente a  
fazem soltar gritos de alegria e dizer: “Mas vejam só como Clara está bonita!”  
1. Evocação de Clara Rivier R. Estou perto de vocês, disposta a responder.  
2. De onde você, mesmo sendo tão jovem e sem instrução, tirava as ideias  
elevadas que expressava sobre a vida futura antes da tua morte? R. Do  
pouco tempo que devia passar no vosso globo e de minha precedente  
encarnação. Eu era médium quando deixei a Terra, e era médium ao voltar  
entre vocês. Era uma predestinação; eu sentia e via o que eu dizia.  
3. Como é possível que uma criança da tua idade não tenha feito uma só  
reclamação durante quatro anos de sofrimentos? R. Porque o sofrimento  
físico era dominado por uma força maior, a do meu anjo guardião, que eu via  
continuamente perto de mim; ele conseguia aliviar tudo o que eu sentia, e  
tornava minha vontade mais forte que a dor.  
4. Como você foi informada do instante da tua morte? R. Meu anjo guardião  
me contou isso; ele jamais me enganou.  
5. Você disse ao teu pai: “Console-se; eu virei te visitar.” Como pode ser que,  
animada de tão bons sentimentos para com teus pais, você tenha vindo  
atormentá-los após tua morte, fazendo barulho na casa deles? R. Sem  
dúvidas, eu tinha uma provação, ou melhor, uma missão a cumprir. Se eu  
venho rever meus pais, vocês acham que seja por nada? Esses ruídos, essa  
perturbação, esses problemas causados pela minha presença são um aviso.  
Sou ajudada por outros Espíritos, cuja turbulência tem um propósito, como eu  
tenho o meu propósito ao aparecer à minha irmã. Graças a nós, muitas  
convicções vão surgir. Meus pais tinham que passar por uma prova; ela  
cessará logo, mas só depois de ter levado convicção a um monte de gente.  
6. Sendo assim, não é você pessoalmente que causa essa perturbação? R.  
391 O Céu e o Inferno  
Sou auxiliada por outros Espíritos que servem à prova reservada aos meus  
queridos pais.  
7. Como é que a tua irmã te reconheceu, se não foi você quem produziu as  
manifestações? R. Minha irmã nada viu além de mim. Ela dispõe agora de  
uma segunda vista, e essa não será a última vez que a minha presença virá  
consolá-la e encorajá-la.  
8. Por que, tão jovem, você foi afligida por tantas enfermidades? R. Eu tinha  
faltas anteriores a expiar; tinha abusado da saúde e da posição privilegiada  
que gozava na minha precedente encarnação. Então Deus me disse: “Você já  
desfrutou bastante, excessivamente, e por isso sofrerá o mesmo tanto; você  
era orgulhosa e agora será humilde, era vaidosa da tua beleza e agora será  
deformada; em vez de vaidade, você vai se esforçar para adquirir a caridade e  
a bondade.” Fiz conforme a vontade de Deus e meu anjo guardião me ajudou.  
9. Gostaria de mandar dizer algo aos teus pais? R. A pedido de um médium,  
meus pais têm feito muita caridade; eles estavam certos em não rezar só com  
os lábios: é preciso rezar com a mão e com o coração. Dar aos que sofrem é  
rezar, é ser espírita.  
Deus deu a todas as almas o livre-arbítrio, quer dizer, a faculdade de  
progredir; a todas elas Deus deu a mesma aspiração, e é por isso que a roupa  
de pano de saco está mais perto da roupa bordada a ouro do que  
geralmente se pensa. Então, aproximem as distâncias através da caridade;  
introduzam o pobre na casa de vocês, encorajem-no, levantem-no, e não o  
humilhem. Se soubéssemos praticar em toda a parte essa grande lei da  
consciência, não haveria, em determinadas épocas, essas grandes misérias  
que desonram os povos civilizados e que Deus envia para os castigar e lhes  
abrir os olhos.  
Queridos pais, orem a Deus, amem-se, pratiquem a lei do Cristo: não  
façam aos outros o que não gostariam que lhes fosse feito. Implorem a Deus  
que põe vocês à prova, mostrando que a vontade dele é santa e grande como  
ele. Preparando-se para o futuro, saibam se armar de coragem e de  
perseverança, pois vocês ainda estão sendo chamados a sofrer: é preciso  
saber merecer uma boa posição num mundo melhor, onde a compreensão da  
392 Allan Kardec  
justiça divina se torna a punição dos maus Espíritos.  
Eu sempre estarei perto de vocês, caros pais. Adeus, ou melhor, até logo.  
Tenham resignação, caridade e o amor para com os semelhantes e um dia  
vocês serão felizes.  
CLARA  
Este é um belo pensamento: “A roupa de pano de saco está mais perto do que se  
pensa da roupa bordada a ouro.” Isso é uma alusão aos Espíritos que, de uma  
existência a outra, passam de uma posição privilegiada a uma posição humilde ou  
miserável, porque muitas vezes eles expiam num ambiente ínfimo o abuso que  
cometeram dos dons que Deus lhes tinha concedido. Esta é uma justiça que todo  
mundo compreende.  
Outro pensamento não menos profundo é aquele que atribui as  
calamidades dos povos à infração da lei de Deus, pois Deus castiga os povos como  
castiga os indivíduos. É certo que se a lei de caridade fosse praticada, não haveria nem  
guerras nem grandes misérias. É à prática dessa lei que o Espiritismo conduz; será  
então que é por isso que ele encontra inimigos tão aferrados? Será que as palavras  
dessa mocinha para seus pais são as de um demônio?  
FRANÇOISE VERNHES  
Cega de nascença e filha de um arrendatário dos arredores de Toulouse,  
faleceu em 1855, com a idade de quarenta e cinco anos. Ela se ocupava  
constantemente em ensinar o catecismo às crianças, para prepará-las para a  
primeira comunhão. Tendo sido mudado o catecismo, ela não teve nenhuma  
dificuldade em lhes ensinar o novo, pois conhecia os dois de cor. Numa noite  
de inverno, retornando de uma longa excursão em companhia de uma tia, era  
preciso atravessar uma floresta por caminhos sinuosos e cheios de lama, em  
que as duas mulheres deviam andar com precaução à beira dos buracos. Sua  
tia queria conduzi-la pela mão, ela respondeu: Não se preocupe comigo; não  
corro nenhum risco de cair, pois eu vejo sobre meus ombros uma luz que me  
guia. Siga-me; sou eu quem vai te conduzir. Com isso elas chegaram em casa  
sem incidentes: uma cega conduzindo quem tinha olhos para enxergar.  
Evocação em Paris, em maio de 1865.  
393 O Céu e o Inferno  
P. Teria a bondade de nos dar a explicação da luz que te guiava naquela  
noite escura e que só era visível para você? R. Como assim?! Pessoas como  
vocês, que estão em contínua relações com os Espíritos, precisam de uma  
explicação para tal fato?! Era o meu anjo guardião quem me guiava.  
P. Essa também era a nossa opinião, mas nós desejávamos ter a sua  
confirmação. Naquele momento, você tinha consciência de que era o teu anjo  
guardião quem te servia de guia? R. Confesso que não; entretanto, eu  
acreditava numa proteção celeste. Eu rezava por muito tempo ao nosso Deus  
bom e clemente para que tivesse piedade de mim!... É tão cruel ser cega!... Sim,  
é muito cruel, mas eu também reconheço que faz parte da justiça. Aqueles que  
pecam pelos olhos devem ser punidos pelos olhos, da mesma forma como  
todas as faculdades de que os homens são dotados e das quais eles abusam.  
Não procurem, pois, para os numerosos infortúnios que afligem a  
humanidade, outra causa senão aquela que lhe é natural: a expiação; expiação  
que só é meritória quando suportada com submissão, e que pode ser  
abrandada se, através da prece, atrairmos as influências espirituais que  
protegem os culpáveis da penitenciária humana, e derramam esperança e  
consolação nos corações aflitos e padecentes.  
P. Você era dedicada ao ensino religioso das crianças pobres; teve  
alguma dificuldade para adquirir os conhecimentos necessários para o  
ensinamento do catecismo, que você sabia decorado, apesar da tua cegueira, e  
mesmo que ele tivesse sido modificado? R. Os cegos geralmente têm outros  
sentidos duplos, por assim dizer. A observação não é uma das menores  
faculdades da sua natureza. A memória deles é como um armário onde são  
colocados em ordem e para daí jamais desaparecerem os ensinamentos  
dos quais eles têm tendências e aptidões; já que nada do exterior é capaz de  
perturbar essa faculdade, disso resulta que ela pode ser desenvolvida de uma  
maneira notável, por meio da educação. Não era o caso em que eu me  
encontrava, pois eu não havia recebido nenhuma educação. Agradeço  
somente a Deus por ter permitido que isso fosse o suficiente para que eu  
pudesse cumprir minha missão de devoção a essas criancinhas. Ao mesmo  
tempo, isso constituía uma reparação pelo mau exemplo que eu lhes tinha  
394 Allan Kardec  
dado na minha precedente existência. Tudo é assunto sério para os espíritas;  
para tanto, basta-lhes olhar ao redor deles, e isso lhes será mais útil do que se  
deixassem levar pelas sutilezas filosóficas de certos Espíritos que zombam  
deles ao lhes lisonjear o orgulho com frases de grande efeito, porém vazias de  
significado.  
P. Pela tua linguagem, nós te julgamos avançada intelectualmente, da  
mesma forma que a tua conduta na Terra é uma prova do teu adiantamento  
moral. R. Ainda tenho muito a aprender; mas tem muita gente na Terra que  
passa por ignorante só porque sua inteligência é encoberta pela expiação;  
contudo, depois da morte, esses véus caem, e frequentemente esses pobres  
ignorantes tornam-se mais instruídos do que aqueles por quem eram  
desdenhados. Acreditem em mim, o orgulho é a pedra-chave pela qual os  
homens são reconhecidos. Todos aqueles cujo coração é acessível à bajulação  
ou que têm demasiada confiança na sua própria ciência estão no mau  
caminho e, em geral, não são sinceros; desconfiem deles! Sejam humildes  
como o Cristo e, como ele, carreguem sua cruz com amor, a fim de terem  
acesso ao reino dos céus.  
FRANÇOISE VERNHES  
ANNA BITTER  
Ser atingido pela perda de um filho adorado é uma dor cruciante; mas  
ver um filho único que dava as mais belas esperanças, e sobre quem  
concentrávamos todas as afeições definhar diante dos nossos olhos e  
morrer sem sofrer de uma causa desconhecida, por uma dessas aberrações da  
natureza que desorientam a sagacidade da ciência, e ter esgotado inutilmente  
todos os recursos da medicina, com a certeza de que não há nenhuma  
esperança, e enfrentar essa angústia de cada dia durante longos anos sem  
prever o seu fim... ah, isso é um suplício cruel que a fortuna só agrava, em vez  
de suavizar, porque as pessoas têm esperança de ver um ente querido  
desfrutar de sua vida.  
Tal era a situação do pai de Anna Bitter: um sombrio desespero  
 
395 O Céu e o Inferno  
igualmente se apoderou da alma dele e seu caráter se amargurava cada vez  
mais diante desse espetáculo inquietante, cujo desfecho só poderia ser fatal,  
conquanto indeterminado. Um amigo da família, iniciante no Espiritismo,  
achou que devia interrogar seu Espírito protetor a respeito disso, e então  
recebeu a resposta seguinte:  
Quero muito te dar a explicação do estranho fenômeno que você tem  
diante dos teus olhos, porque sei que ao me perguntar dele você não foi  
movido por uma indiscreta curiosidade, mas sim pelo interesse que você tem  
por aquela pobre criança, e porque, crendo na justiça de Deus, isso te renderá  
num proveitoso ensinamento. Aqueles que o Senhor quer atingir devem  
curvar a cabeça e não o maldizer nem se revoltar contra ele, pois ele jamais  
castiga sem uma razão. A pobre menina de quem o Todo-Poderoso tinha  
suspendido a sentença de morte deve retornar em breve para nós, já que  
Deus teve compaixão dela, e seu pai, esse homem infeliz, deve ser atingido na  
única afeição da sua vida, por ter brincado com o coração e a confiança das  
pessoas que o rodeiam. Em dado momento, seu arrependimento tocou o  
Todo-Poderoso e a morte pendurou a espada sobre aquela cabeça tão  
querida; mas a revolta voltou, e o castigo sempre acompanha a revolta. Que  
bênção quando é nesse mundo que vocês são castigados! Orem, meus amigos,  
por essa pobre criança, cuja juventude tornará difíceis seus derradeiros  
momentos; a seiva é tão abundante nesse pobre ser, malgrado seu estado de  
definhamento, que a alma se desprenderá dela penosamente. Oh, orem! Mais  
tarde ela os ajudará e ela mesma os consolará, pois o Espírito dela é mais  
elevado do que o das pessoas que a cercam.  
“Foi por uma permissão especial do Senhor que eu pude responder ao  
que me foi indagado, porque é necessário que esse Espírito seja ajudado para  
que o seu desprendimento seja mais fácil.”  
O pai morreu após ter sofrido o vazio do isolamento causado pela perda  
da filha. Aqui estão as primeiras comunicações que cada um deu depois de  
morrerem:  
A filha Obrigada, meu amigo, por se interessar pela pobre criança, e  
por ter seguido os conselhos do teu bom guia. Sim, graças às tuas preces eu  
396 Allan Kardec  
pude deixar mais facilmente o meu envoltório terreno, porque meu pai Ah!  
, ele não rezava: ele maldizia! Mas eu não o culpo: foi por causa da sua  
grande ternura por mim. Peço a Deus que lhe conceda a graça de ser  
esclarecido antes de morrer; eu o animo, eu o encorajo; minha missão é  
suavizar os seus últimos instantes. Às vezes um raio de luz divina parece  
penetrar nele; mas não passa de um clarão passageiro, e meu pai logo recai  
nas suas primeiras ideias. Não há nele senão uma semente de fé, sufocada  
pelos interesses do mundo, e que somente novas e mais terríveis provações  
poderão desenvolver é o que eu temo de menos. Quanto a mim, eu só tinha  
um resto de expiação a sofrer, e é por isso que ela não foi nem muito dolorosa  
nem muito difícil. Durante minha singular enfermidade, eu não sofria; eu era  
mais um instrumento da provação para o meu pai, pois ele sofria mais ao me  
ver naquele estado do que eu mesma sofria com a doença; eu era resignada, e  
ele não. Hoje sou recompensada, pois Deus me deu a graça de encurtar minha  
estadia na Terra, pelo que agradeço muito a ele. Estou feliz no meio dos bons  
Espíritos que me cercam; todos nós cuidamos das nossas obrigações com  
prazer, porque a inatividade seria um cruel suplício.  
O pai (aproximadamente um mês depois da morte) P. Nosso  
objetivo, em te chamar, é de nos inteirarmos da tua situação no mundo dos  
Espíritos e para te sermos úteis, se isso estiver ao nosso alcance. R. O mundo  
dos Espíritos? Eu não o vejo. Eu só vejo os homens que eu conhecia e dos  
quais nenhum pensa em mim, nem sentem a minha falta; ao contrário, parece  
que eles estão contentes por estarem livres de mim.  
P. Você já se deu conta da tua situação? R. Perfeitamente. Por algum  
tempo eu acreditei ainda ser do seu mundo, mas agora eu sei muito bem que  
não sou mais daí.  
P. Como é então que você não consegue ver outros Espíritos ao teu  
redor? R. Isso eu não sei, mas tudo é claro à minha volta.  
P. Não reencontrou tua filha? R. Não; ela está morta; eu a procuro e a  
chamo inutilmente. Que vazio horrível sua morte me deixou na Terra! Ao  
morrer, eu não tinha dúvidas de que a reencontraria; mas nada: é sempre o  
isolamento em torno de mim; ninguém me dirige uma palavra de consolação e  
397 O Céu e o Inferno  
de esperança. Adeus; vou procurar minha filha.  
O guia do médium Este homem não era ateu nem materialista, mas ele  
era daqueles que creem vagamente, sem se preocuparem com Deus nem com  
o futuro, daqueles que são absorvidos pelos interesses do mundo.  
Profundamente egoísta, sem dúvidas ele teria sacrificado tudo para salvar sua  
filha, mas indubitavelmente ele também teria sacrificado sem escrúpulos  
todos os interesses alheios no proveito pessoal dele. Fora sua filha, ele não  
tinha apego a ninguém. Deus o puniu por isso, como vocês sabem; foi tirado  
dele sua única consolação na Terra, e como ele não se arrependeu, ela foi  
tirada dele igualmente no mundo espiritual. Como ele não se interessava por  
ninguém na Terra, ninguém aqui se interessa por ele; ele está solitário,  
abandonado: esta é a sua punição. No entanto, sua filha está perto dele, mas  
ele não a vê; se a visse, ele não seria punido. O que ele faz? Ele se dirige a  
Deus? Ele se arrepende? Não; ele sempre reclama e até blasfema; em resumo,  
ele faz o que fazia na Terra. Ajudem-no, pela prece e pelos conselhos, para que  
ele saia da sua cegueira.  
JOSÉ MESTRE, o cego  
José Mestre108 pertencia à classe média da sociedade; ele gozava de um  
moderado conforto que sustentava suas necessidades. Seus pais lhe deram  
uma boa educação e o destinaram à indústria, porém aos vinte anos ele ficou  
cego. Morreu em 1845, perto dos cinquenta anos. Uma segunda enfermidade  
veio a atingi-lo: mais ou menos dez anos antes de sua morte, ele se tornou  
completamente surdo, de modo que suas relações com as pessoas só podiam  
ocorrer pelo tato. Não ver já era bem penoso, mas além disso não ouvir era  
um cruel suplício para ele que, tendo desfrutado de todas as suas faculdades,  
tinha que sentir mais ainda os efeitos dessa dupla privação. Por qual razão ele  
teria merecido esse triste destino? Não foi por causa dessa sua última  
existência, pois sua conduta tinha sido sempre exemplar: ele era um bom  
filho, de um caráter doce e benevolente, além de que quando se viu privado da  
108 Nome original: Joseph Maître. N. T.  
   
398 Allan Kardec  
audição, ele aceitou essa nova prova com resignação e jamais o viram  
murmurar uma queixar disso. Seus discursos denotavam uma perfeita lucidez  
de espírito e uma inteligência pouco comum.  
Uma pessoa que o conhecia, presumindo que poderíamos colher  
instruções úteis de uma conversa com seu Espírito, ao chamá-lo, recebeu dele  
a comunicação seguinte, em resposta às perguntas que lhe foram dirigidas:  
(Paris, 1863)  
Meus amigos, agradeço a vocês por terem lembrado de mim, embora  
talvez não tivessem pensado nisso se não esperassem em tirar algum proveito  
da minha comunicação; mas eu sei que um motivo mais sério os anima e é por  
isso que atendo com prazer ao seu chamado, já que me é permitido, feliz em  
poder servir ao aprendizado de vocês. Tomara que o meu exemplo possa se  
somar às provas tão numerosas que os Espíritos lhes dão a respeito da justiça  
de Deus.  
Vocês me conheceram cego e surdo, então se perguntaram o que eu  
tinha feito para merecer uma sorte dessas; eu vou lhes dizer. Saibam, antes de  
tudo, que era a segunda vez que eu estava privado da visão. Na minha  
precedente existência, ocorrida no começo do século XVIII, eu fiquei cego aos  
trinta anos, por consequência de excessos de todos os gêneros, que  
arruinaram a minha saúde e enfraqueceram meus órgãos; isso já era uma  
punição por ter abusado dos dons recebidos da Providência uma vez que  
eu era largamente favorecido. Todavia, em vez de reconhecer que a primeira  
causa da minha enfermidade estava em mim, eu acusei a própria Providência,  
na qual, aliás, eu pouco acreditava. Blasfemei contra Deus, eu o reneguei e o  
acusei, dizendo que, se ele existisse, ele devia ser injusto e malvado, posto que  
assim ele fazia suas criaturas sofrerem. Eu deveria, ao contrário, me  
considerar feliz por não ser obrigado a mendigar meu pão de cada dia, como  
tantos outros cegos miseráveis. Mas não; eu só pensava em mim e na privação  
dos prazeres que me era imposta. Sob a influência dessas ideias e da minha  
falta de fé, tornei-me rabugento, exigente e, enfim, insuportável para aqueles  
que me cercavam. A vida já não tinha mais qualquer objetivo para mim; eu  
não pensava no futuro, pois o considerava como uma quimera. Após ter  
399 O Céu e o Inferno  
esgotado inutilmente todos os recursos da ciência, vendo que minha cura era  
impossível, eu resolvi dar um fim à vida mais cedo, e então me suicidei.  
Ao meu despertar ah! eu estava mergulhado nas mesmas trevas de  
quando estava vivo! Entretanto, não tardei a reconhecer que não pertencia  
mais ao mundo corpóreo, mas que era um Espírito cego. Portanto, a vida de  
além-túmulo era uma realidade! Em vão eu tentava fugir para me lançar no  
nada: eu batia no vácuo. Se essa vida devia ser eterna, como eu ouvia dizer,  
então eu ficaria por toda a eternidade nessa situação? Esse pensamento era  
aterrorizante! Eu não estava mais sofrendo; porém, descrever a vocês os  
tormentos e as angústias da minha mente é uma coisa impossível. Quanto  
tempo isso duraria? Eu não sei; mas, ah como esse tempo me parecia longo!  
Exausto, atormentado, finalmente eu pude retornar a mim mesmo;  
compreendi que uma força superior estava pesando sobre mim e me convenci  
de que se essa potência podia me abater, ela também poderia me aliviar, e  
então implorei por sua piedade. À medida que eu orava e que meu fervor  
aumentava, alguma coisa me dizia que essa cruel situação teria um término. A  
luz finalmente se acendeu; meu arrebatamento foi extremo quando entrevi as  
claridades celestes e quando distingui os Espíritos que me cercavam, sorrindo  
com benevolência, bem como aqueles que volitavam radiosos no espaço. Eu  
quis seguir seus passos, mas uma força invisível me reteve. Então um deles  
me disse: Deus, que você desprezou, levou em conta o teu retorno a ele e nos  
permitiu te devolver a luz; mas você só cedeu pelo constrangimento e pelo  
cansaço. Se de agora em diante você quiser participar desta felicidade que  
aqui nós desfrutamos, você deve provar a sinceridade do teu arrependimento  
e dos teus bons sentimentos, recomeçando tua provação terrestre nas  
condições em que você ficará exposto a cair nas mesmas faltas, porque  
essa nova provação será mais rude ainda do que a primeira.” Eu aceitei  
ansiosamente, me prometendo não falhar de novo.  
Com isso, retornei à Terra na existência que vocês conhecem. Não tive  
dificuldade em ser bom, pois eu não era mau por natureza; estava revoltado  
contra Deus e Deus me puniu. Voltei com uma fé inata, razão pela qual não  
murmurei mais contra ele, e aceitei minha dupla enfermidade com resignação  
e como uma expiação que devia ter sua origem na soberana justiça. O  
400 Allan Kardec  
isolamento no qual me encontrei durante meus derradeiros anos nada tinha  
de desesperador, porque eu tinha fé no futuro e na misericórdia de Deus.  
aquele retiro me foi bastante proveitoso, pois durante essa longa noite, em  
que tudo era silêncio, minha alma agora mais livre se alçava rumo ao  
Eterno, entrevendo o infinito pelo pensamento. Quando chegou o fim do meu  
exílio, o mundo espiritual só reservava para mim esplendores e inefáveis  
alegrias.  
A comparação com o passado me faz considerar minha situação  
relativamente muito feliz, e eu rendo graças a Deus por isso; mas, quando  
olho adiante, vejo o quanto ainda estou longe da perfeita felicidade. Eu já  
expiei, mas agora me falta passar pela reparação. Minha última existência  
foi proveitosa unicamente para mim; espero recomeçar logo uma existência  
em que eu possa ser útil aos outros; assim será a reparação da minha  
inutilidade anterior. Somente então avançarei no bom caminho, aberto a  
todos os Espíritos de boa vontade.  
Eis a minha história, meus amigos; se o meu exemplo puder esclarecer  
alguns dos meus irmãos encarnados e lhes prevenir do atoleiro em que caí,  
terei iniciado a pagar a minha dívida.”  
JOSÉ  
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PEADE Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espírita