63 – O Céu e o Inferno
de banquetes, e uivando em seus assentos dos quais eles não podem se
arrancar, e levando aos seus lábios, para se saciarem, taças das quais saiam
chamas; criados ajoelhados em fossas ferventes, braços estendidos, e
príncipes de cujas mãos escorria sobre eles ouro derretido em lava
devoradora. Outros viram no inferno planícies sem-fim que camponeses
famintos aravam e semeavam, e desses campos fumegantes de seus suores,
dessas sementes estéreis, enquanto nada brotava, esses camponeses se
devoravam uns aos outros; após isso, tão numerosos como antes, tão magros,
tão famintos, eles se dispersaram em bandos pelo horizonte, indo procurar ao
longe, mas em vão, terras mais férteis, e imediatamente foram substituídos,
nos campos que abandonaram, por outras colônias errantes de condenados.
Há quem tenha visto no inferno montanhas repletas de precipícios, florestas
que gemiam, poços sem água, fontes alimentadas por lágrimas, rios de
sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcas de desesperados
vagando por mares sem costas. Em uma palavra, ali se via tudo o que os
pagãos viam: um lúgubre reflexo da Terra, uma sombra desmedidamente
aumentada de suas misérias, seus sofrimentos naturais eternizados e até
calabouços, patíbulos e instrumentos de tortura que as nossas próprias mãos
forjaram.
“Com efeito, lá há demônios que, para melhor empanturrar os homens
em seus corpos, também tomam corpos. Uns têm asas de morcegos, chifres,
couraças de escama, patas com garras e dentes pontiagudos; eles nos
aparecem armados com espadas, forcados, pinças, alicates ardentes, serras,
grelhas, foles e porretes, fazendo por toda a eternidade com a carne humana
o ofício de cozinheiros e açougueiros; estes, transformados em leões ou em
víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas solitárias; alguns se
convertem em corvos, para arrancar os olhos de certos culpados; outros, em
dragões voadores, para os carregar nas costas e deixar todos assustados,
todos ensanguentados, todos gritando através dos espaços tenebrosos, para
então os deixar cair de volta no lago de enxofre. Eis aqui nuvens de
gafanhotos e de escorpiões gigantescos, cuja visão causa arrepios, cujo odor
causa náuseas, cujo menor toque causa convulsões; eis aqui monstros
policéfalos, abrindo por todos os lados goelas vorazes, sacudindo crinas de
víboras sobre suas cabeças disformes, esmagando os réprobos entre suas
mandíbulas sangrentas e os vomitando todos em pedaços, porém vivos,