29 de outubro de 2026

Instrução Prática Sobre as Manifestações Espíritas (Espiritismo) – Allan Kardec: Baixe em PDF Grátis ou Leia Online

É uma obra dedicada à apresentação e ao estudo dos fenômenos relacionados às manifestações espíritas. O livro aborda conceitos e orientações sobre a comunicação com os espíritos, os diferentes tipos de manifestações e os cuidados necessários para sua compreensão, sendo um material importante para quem deseja conhecer os primeiros estudos de Kardec sobre a prática e os fenômenos mediúnicos.

Acesse Instrução Prática Sobre as Manifestações Espíritas em PDF, leia online ou leia aqui, na página. Faça o estudo do texto completo e traduzido de forma simples e rápida.

Capa da obra Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, lançada em julho de 1858 por Allan Kardec, contendo diretrizes para comunicação com o mundo invisível.

Acesso:

Sobre a Obra

É uma das primeiras obras publicadas por Allan Kardec. Escrita logo após O Livro dos Espíritos, ela funciona como um guia metodológico e manual de campo para os pesquisadores e praticantes dos fenômenos espíritas da época.

Objetivo Central

O livro foi desenvolvido para orientar a fundação e o funcionamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fornecendo diretrizes experimentais, éticas e metodológicas para lidar com as comunicações mediúnicas.

Principais Pontos da Obra

  • Teoria das Manifestações: Explica a natureza dos Espíritos e como ocorre a interação entre o mundo físico e o espiritual através do perispírito (o corpo fluídico do Espírito).
  • Classificação da Mediunidade: Detalha os diferentes tipos de médiuns (de efeitos físicos, escreventes/psicógrafos, audientes, videntes, entre outros) e como identificar suas faculdades.
  • Vocabulário Espírita: Apresenta e define termos fundamentais criados por Kardec para organizar o estudo da doutrina (como Espiritismo, Espírito, Perispírito e Médium).
  • Escala Espírita: Classifica os Espíritos segundo o grau de adiantamento moral e intelectual (Espíritos Imperfeitos, Bons Espíritos e Espíritos Puros).
  • Conduta e Cuidados nas Sessões: Alerta sobre os riscos de mistificações, obsessões e a ação de Espíritos enganadores, enfatizando a necessidade de critério, seriedade moral e discernimento nas reuniões.

Posteriormente, o conteúdo desta obra foi ampliado e aprofundado por Kardec para dar origem a O Livro dos Médiuns (1861), que a substituiu como o manual definitivo de experimentação mediúnica.

FAC – Perguntas e respostas

1. Qual é a finalidade principal do livro Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas?

Sirve como um manual de orientação técnica e metodológica para quem deseja estudar e praticar as comunicações mediúnicas. Ele estabelece as primeiras regras de conduta para sessões espíritas, critérios de avaliação de mensagens e o correto uso da mediunidade.

2. Qual é a relação deste livro com O Livro dos Médiuns?

A Instrução Prática (1858) foi a primeira tentativa de Kardec de sistematizar a prática espírita. Com o avanço das pesquisas e o acúmulo de novas observações, Kardec revisou, ampliou e reorganizou todo o material, lançando em 1861 O Livro dos Médiuns, que substituiu a obra anterior.

3. O que são e como ocorrem as manifestações espíritas?

São as interações entre os Espíritos (almas dos que já morreram) e os encarnados no mundo físico. Elas ocorrem pela ação do Espírito sobre o perispírito (invólucro fluídico), que atua sobre o fluido magnético do médium, permitindo produzir sons, mover objetos ou transmitir pensamentos por escrito e pela fala.

4. Quem são os médiuns e como se dividem as suas faculdades?

Médiuns são pessoas capazes de servir de intermediárias entre os Espíritos e os homens. Na obra, Kardec divide os médiuns principalmente em dois grupos:

  • Médiuns de efeitos físicos: Capazes de provocar movimentos de objetos, ruídos e ostentações materiais.
  • Médiuns de efeitos inteligentes: Capazes de receber e transmitir pensamentos, conselhos ou ensinamentos (ex.: médiuns escreventes ou psicógrafos, audientes, falantes e videntes).

5. Como Kardec classifica os Espíritos nesta obra?

Ele apresenta a Escala Espírita, que organiza os Espíritos em três ordens principais com base em seu progresso moral e intelectual:

  1. Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos: Predomínio da matéria sobre o Espírito; propensão ao mal, à ignorância e ao orgulho.
  2. Segunda Ordem – Bons Espíritos: Predomínio do Espírito sobre a matéria; desejo do bem, sabedoria e benevolência.
  3. Primeira Ordem – Espíritos Puros: Superioridade intelectual e moral absoluta; já percorreram todos os graus de depuração.

6. Quais são os principais perigos e cuidados nas reuniões mediúnicas?

O maior risco é o engano por Espíritos zombeteiros, enganadores ou obsessores, que se aproveitam do orgulho, da vaidade ou da curiosidade leviana dos participantes. Para evitar esses riscos, Kardec recomenda:

  • Manter seriedade moral e recolhimento nas reuniões.
  • Submeter todas as comunicações ao filtro da razão e do bom senso.
  • Rejeitar teorias extravagantes e mensagens que contrariem a lógica ou a moral.

7. Qual a importância do Vocabulário Espírita incluído no livro?

Kardec incluiu o vocabulário para definir com precisão os termos científicos e filosóficos da nova doutrina, evitando confusões conceituais. Foi nele que termos como Espiritismo, Espírito, Perispírito, Psychografia e Médium foram consolidados formalmente.

2 – Allan Kardec

Instrução Prática Sobre as Manifestações Espíritas

Allan Kardec (1804-1869)

Título original em frances:
Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites

Originalmente publicado em julho de 1858
Paris, França

Traduçao: Ery Lopes
Com base da 1ª ediçao – ebook.

Versao digital 1.1
Atualizada em 22 de junho, 2024
Sao Paulo – SP, Brasil

Nao nos importamos com os direitos autorais.
Esta traduçao pode ser copiada e reproduzida, impressa e ate comercializada,
sem previa autorizaçao ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.

Distribuiçao gratuita:
Portal Luz Espírita

3 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

INSTRUÇÃO PRÁTICA
SOBRE AS

MANIFESTAÇÕES
ESPÍRITAS

Allan Kardec

Tradução:

Ery Lopes

Nao nos importamos com os direitos autorais.

Esta traduçao pode ser copiada e reproduzida, impressa e ate comercializada,
sem previa autorizaçao ou mesmo sem citar a fonte.

Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.

4 – Allan Kardec

Nota do tradutor

A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para
aprender e fortalecer nossos aprendizados doutrinarios espíritas — o que,
alias, constitui uma satisfaçao para nos — serviu de ensejo para cuidarmos
desta traduçao, que tambem e motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma
opçao aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo, especialmente
aqueles que nao disponham da fluencia na leitura em frances, cumprindo assim
o papel essencial do tradutor, qual seja o de ser um facilitador.

Nao se ignora a dificuldade natural no trabalho de verter para outro
idioma qualquer uma obra de folego, tal como esta; acrescente-se aí a gravidade
das implicaçoes de uma traduçao de Instrução Prática sobre as
Manifestações Espíritas, posto que se trata de um livro que contem
fundamentos de uma doutrina de cunho científico, filosofico e religioso,
doutrina essa tao complexa quanto importante para toda a humanidade. Em
face disso, nao ousaríamos propor uma traduçao perfeita, mas tratamos tanto
quanto nos e possível de buscar a maxima fidelidade da mensagem iluminadora
e consoladora contida nesta obra monumental.

A revisao desta traduçao e contínua, portanto, correçoes e sugestoes de
melhorias sao bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte
periodicamente a existencia de uma ediçao mais atualizada.

E entao ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para
contribuir com a propagaçao desta doutrina que abraçamos com amor.

Ery Lopes

Observação: as notas de rodape de autoria do tradutor estao sinalizadas no final com a inscriçao “N. T.”;
as demais, sem sinalizaçao, correspondem a traduçao das notas de Allan Kardec contidas na obra original.

5 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Apresentação da obra

A publicaçao de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, atendeu
bem ao apelo de uma grande demanda interessada em compreender aquela
extraordinaria fenomenologia que resultou na moda das Mesas Girantes e deu
vida ao chamado Espiritualismo Moderno; ora, repousava naquelas
manifestaçoes toda uma filosofia de vida e uma síntese historia da essencia
universal contida numa revelaçao especial, sublime, que passamos a conhecer
pelo nome Espiritismo.

Ocorreu, pois, que o autor daquela obra monumental — Allan Kardec —
entao se viu diante de novos apelos, de um publico cada vez mais motivado a
penetrar no conhecimento da natureza espiritual, especialmente pela
oportunidade de ter contato com os Espíritos; de toda a parte do mundo eram-
lhe endereças cartas suplicando orientaçoes para uma maneira segura e pratica
de desenvolvimento das faculdades mediunicas e as devidas instruçoes para o
exercício das atividades desse genero.

Foi a proposito dessas suplicas gerais, juntamente com o interesse de
propagar a propria Doutrina Espírita, que, enfim, o nosso confrade pioneiro se
debruçou sobre este trabalho, que veio a lume em julho de 1858, sob o título
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas.

Nesta composiçao ficam evidentes a capacidade editorial de Kardec,
enriquecidas pela experiencia anterior de publicaçoes didaticas, assinadas
como Prof. Rivail; ele classica muito adequadamente os temas principais e
topicos relativos, estruturando a obra de forma a tornar a leitura tao agradavel
quanto instrutiva, objetivando sem rodeios o desiderato da formaçao do
medium e da util aplicaçao das sessoes espíritas.

Alem das qualidades de escritor, e-nos prazeroso salientar o zelo com a

6 – Allan Kardec

gravidade do assunto, posto os escolhos que a imprudencia enseja na pratica
mediunica, pelo que o autor convida os leitores a se atentarem para a questao
moral que predomina em todos os aspectos do Espiritismo. E esse cuidado todo
carinho tambem ilustra o amor que o codificador espírita alimentou em favor
da causa doutrinaria.

O lançamento, obviamente, foi um sucesso; tanto que sua caixa-postal foi
reforçada com pedidos de novas reimpressoes. Nesse ínterim, porem, novas
pesquisas e experimentaçoes a respeito da mediunidade vinham requisitar o
autor a novos desenvolvimentos teoricos; estava claro que, embora o volume
de Instrução Prática ja fosse bastante esclarecedor, era preciso pensar num
trabalho maior, que viesse contemplar as novas observaçoes acerca nao so do
campo mediunico, mas da doutrina em geral.

Por esta razao foi que Allan Kardec abdicou de reeditar aquele pequeno
manual e entao passou a se dedicar a obra que seria lançada em 1861, sob o
título O Livro dos Médiuns, da qual hoje se diz comumente que o opusculo
Instrução Prática e seu prototipo.

De forma pratica, o novo livro substitui o trabalho anterior, ate porque ele
abrange todos os temas contidos no anterior, inclusive alguns paragrafos
inteiros de Instrução Prática foram aproveitados na obra subintitulada Guia
dos Médiuns e dos Evocadores. Nao obstante, julgamos ser muito interessante
que os estudiosos conheçam este lançamento, com o que aqui nos ocupamos, a
fim de observar, por exemplo, o processo de desenvolvimento da bibliografia
kardequiana, conferindo, de uma ediçao para outra, a evoluçao da pesquisa e
da disposiçao dos conceitos doutrinarios, pois, ao contrario do que muitos
poderiam pensar, a codificaçao espírita nao caiu do ceu nem foi ditada
prontinha para a transcriçao de Kardec; nao, absolutamente! Ela e fruto de uma
longa e dedicada elaboraçao, crescendo paulatinamente, passo a passo com as
sequenciais revelaçoes que a espiritualidade foi concedendo dia a dia.

Em face disso, empenhamo-nos com satisfaçao em produzir e em colocar
a disposiçao de todos esta ediçao, com os votos para que ela seja util.

Equipe Luz Espírita

7 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Allan Kardec
(1804-1869)

8 – Allan Kardec

Folha de rosto da ediçao original, 1858.

Ebook disponível no Google Books

9 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

CONTENDO

A exposição completa das condições necessárias para se comunicar com os
Espíritos e os meios de desenvolver a faculdade mediatriz nos médiuns,

POR ALLAN KARDEC

AUTOR DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS

E DIRETOR DA REVISTA ESPÍRITA

PARIS
1858

10 – Allan Kardec

Índice

INTRODUÇAO – pag. 12

VOCABULARIO ESPIRITA – pag. 16

QUADRO SINOTICO DA NOMENCLATURA ESPIRITA – pag. 49

Capítulo I: ESCALA ESPIRITA – pag. 50
3ª ordem: ESPIRITOS IMPERFEITOS
2ª ordem: BONS ESPIRITOS
1ª ordem: ESPIRITOS PUROS

Capítulo II: MANIFESTAÇOES ESPIRITAS – pag. 58
Açao oculta
Evidentes
Físicas
Inteligentes
Aparentes, vaporosas ou tangíveis
Espontaneas

Capítulo III: COMUNICAÇOES ESPIRITAS – pag. 68

Capítulo IV: DIFERENTES MODOS DE COMUNICAÇAO – pag. 74
Sematologia e Tiptologia
Psicografia

Capítulo V: OS MEDIUNS – pag. 85
Mediuns de influencias físicas – Mediuns naturais e Mediuns facultativos
Mediuns escreventes ou psicografos

Capítulo VI: PAPEL E INFLUENCIA DOS MEDIUNS NAS MANIFESTAÇOES – pag. 96

Capítulo VII: INFLUENCIA DO AMBIENTE SOBRE AS MANIFESTAÇOES – pag. 102

11 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Capítulo VIII: RELAÇOES COM OS ESPIRITOS – pag. 106
As reunioes
O Local
Evocaçoes
Espíritos que podemos evocar
Linguagem a ser usada com os Espíritos
Questoes a serem endereçadas aos Espíritos
Mediuns remunerados

Capítulo IX: TEMAS DE ESTUDO – pag. 126

Capítulo X: CONSELHOS AOS NOVATOS – pag. 129

Capítulo XI: INFLUENCIA DO ESPIRITISMO – pag. 131

12 – Allan Kardec

INTRODUÇÃO

Muitas pessoas nos pediram para lhes indicar as condiçoes a cumprir e a
maneira de proceder para ser um medium. A soluçao desta questao e mais
complicada do que parece a primeira vista, porque implica em conhecimentos
preliminares de uma certa extensao; para fazer experiencias de física e de
química, e preciso primeiramente conhecer a física e a química. As respostas
que temos dado a essas pessoas nao poderiam conter desenvolvimentos
incompatíveis com os limites de uma correspondencia; o tempo material, alias,
nao nos tem permitido satisfazer a todas as solicitaçoes; foi isso o que nos
motivou a publicar essa instruçao, necessariamente mais completa do que tudo
o que poderíamos escrever diretamente.

Estaria enganado quem pensasse em encontrar nesta obra uma receita
universal e infalível para formar mediuns. Se bem que cada pessoa tenha em si
mesma os germes das qualidades necessarias para se tornar um medium, essas
qualidades existem em graus muito diferentes, e o seu desenvolvimento se deve
a determinadas causas que nao depende da vontade da pessoa faze-las brotar.
As regras da poesia, da pintura e da musica nao fazem nem poetas, nem
pintores e nem musicos daqueles que nao tem o talento para essas artes: as
regras apenas orientam a aplicaçao das faculdades naturais. E o mesmo caso do
nosso trabalho; o seu objetivo consiste em indicar os meios de desenvolver a
faculdade mediatriz tanto quanto as disposiçoes de cada pessoa assim o
permitirem, e sobretudo dirigir sua aplicaçao de uma maneira util — desde que
a faculdade exista. Mas este nao e o unico objetivo ao qual nos propusemos. Ao
lado dos mediuns propriamente ditos, ha uma multidao que cresce a cada dia
de pessoas que se ocupam com as manifestaçoes espíritas; guia-las nas suas
observaçoes, apontar-lhes os obstaculos que elas podem e hao de

13 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

necessariamente encontrar numa coisa nova, inicia-las na maneira de dialogar
com os Espíritos, indicar-lhes os meios de conseguirem boas comunicaçoes, tal
e o círculo que temos de abranger, para nao corrermos o risco de fazer um
trabalho incompleto. Entao, que ninguem fique surpreso ao encontrar no nosso
trabalho ensinamentos que a primeira vista possam lhes parecer estranhos: a
experiencia mostrara a utilidade desses ensinamentos. Quem tiver estudado
esta obra cuidadosamente compreendera melhor os fatos de que serao
testemunhas; a linguagem de certos Espíritos parecera menos estranha. Como
instruçao pratica, a nossa obra entao nao se destina exclusivamente aos
mediuns, mas a todos os que tambem possam ver e observar os fenomenos
espíritas.

A ciencia espírita repousa necessariamente sobre a existencia dos
Espíritos e sua intervençao no mundo corporal. Isso hoje e um fato admitido
por tanta gente que seria desnecessario qualquer demonstraçao. Como o nosso
proposito e o de guiar as pessoas que desejam se ocupar com as manifestaçoes,
supomos que elas estejam suficientemente esclarecidas sobre esse ponto e
sobre as verdades fundamentais que decorrem disso, de modo que seja inutil
entrar em qualquer explicaçao sobre esse assunto. E por isso que nao as
discutiremos e nao procuraremos levantar controversias, nem refutaremos
objeçoes. Endereçamo-nos apenas as pessoas convencidas ou — com boa
vontade — dispostas a se convencer; quanto aquelas que precisam aprender
tudo, elas nao encontrarao aqui certas demonstraçoes que talvez poderiam
desejar, porque nos consideramos o ponto de partida como admitido. Aos que
contestam esse ponto de partido, nos diremos: Vejam e observem quando
surgir a ocasiao para isso. Se, apesar dos fatos e dos raciocínios, voces teimarem
na vossa incredulidade, nos consideraríamos como tempo perdido aquele que
passaríamos querendo vos tirar de um erro no qual voces certamente se
comprazem. Respeitamos vossa opiniao, entao queiram respeitar a nossa; isso
e tudo o que vos pedimos.

Começaremos essa instruçao pela exposiçao dos princípios gerais da
doutrina. Embora possa parecer mais racional começar pela pratica, nos
cremos que nao e o caso aqui; ha uma convicçao moral que so o raciocínio pode

14 – Allan Kardec

dar; portanto, aqueles que dela adquiriram as primeiras noçoes pelo estudo da
teoria compreenderao melhor a necessidade de certos preceitos recomendados
na pratica, e para isso terao disposiçoes mais favoraveis. Ao trazer os indecisos
de volta ao terreno da realidade, nos esperamos destruir os preconceitos que
possam prejudicar o resultado que buscamos, poupar ensaios inuteis, ja que
eles sao mal direcionados ou direcionados para o impossível, alem de, enfim,
combater as ideias supersticiosas que sempre tem sua fonte na noçao
equivocada ou incompleta das coisas.

As manifestaçoes espíritas sao a fonte de uma serie de ideias novas que
nao poderiam encontrar sua representaçao na língua usual; nos as exprimimos
por analogia, como ocorre no princípio de qualquer ciencia; daí a ambiguidade
dos termos — causa de inesgotaveis discussoes. Com palavras claramente
definidas e uma palavra para cada coisa, entao nos entendemos mais
facilmente; se discutirmos, nesse caso sera sobre a essencia e nao mais sobre a
forma. E em vista de alcançarmos esse objetivo e de ordenar essas ideias novas,
e ainda confusas, que em primeiro lugar nos damos a todas as palavras — que,
por uma ligaçao direta ou indireta, se relacionam com a doutrina — explicaçoes
bastante completas, conquanto sucintas, para fixar as ideias. A ciencia espírita
deve ter seu vocabulario, como todas as outras ciencias. Para compreender uma
ciencia, e preciso antes de tudo compreender a linguagem; essa e a primeira
coisa que recomendamos aqueles que querem fazer um estudo serio do
espiritismo. Qualquer que fosse futuramente a opiniao particular deles sobre
os diversos pontos da doutrina, eles poderiam discuti-la com conhecimento de
causa. A forma alfabetica permitira tambem recorrer mais facilmente as
definiçoes e aos ensinamentos que sao como a pedra angular do edifício, e que
servirao para refutar em poucas palavras determinadas críticas e a prevenir um
monte de questoes.

A especialidade do objetivo a que nos propusemos indica os limites
naturais desta obra. Como a ciencia espírita toca em todos os pontos da
metafísica e da moral, e ate — podemos dizer — na maior parte dos
conhecimentos humanos, nao e num quadro tao restrito que poderíamos
abordar todas as questoes, nem discutir todas as objeçoes. Para os

15 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

desenvolvimentos complementares, nos remetemos a O Livro dos Espíritos e
a Revista Espírita. No primeiro, encontraremos a exposiçao completa e
metodica da doutrina, tal como ela foi ditada pelos proprios Espíritos; na
segunda, alem da listagem e apreciaçao dos fatos, encontraremos uma
variedade de temas que so o formato de uma publicaçao periodico pode conter.
A coleçao dessa revista constituira o acervo mais completo sobre o assunto, do
triplo ponto de vista: historico, dogmatico e crítico.

16 – Allan Kardec

VOCABULÁRIO ESPÍRITA

Nota do tradutor: a ordem dos vocábulos aqui segue a sequência

alfabética do nosso idioma português e, por conta disso, não corresponde
exatamente à sequência original. Além disso, colocamos em colchete os
termos originais equivalentes ao vocabulário em francês.

Alma [Ame] (do latim änima; do grego anemos, sopro, respiraçao): Segundo alguns, e o

princípio da vida material; segundo outros, e o princí pio da inteligencia sem
individualidade apos a morte; segundo as diversas doutrinas religiosas, e um ser
imaterial, distinto, cujo corpo e apenas o envoltorio, que serve ao corpo e conserva a
sua individualidade apos a morte.

Essa diversidade de acepçoes dadas a um mesmo vocabulo e uma fonte
perpetua de controversias que nao existiria se cada ideia tivesse sua representaçao
nitidamente definida. Para evitar toda confusao sobre os significados que damos a
essa palavra, nos chamaremos:

Alma espírita, ou simplesmente alma, o ser imaterial, distinto e individual,
unido ao corpo que lhe serve de envoltorio temporario; quer dizer, o espí rito no
estado da reencarnaçao, e que pertence exclusivamente a especie humana;

Princípio intelectual¸ o princí pio geral da inteligencia comum aos homens e
aos animais; e alma intelectual esse mesmo princí pio individualizado.

Alma universal [Ame universelle]: nome que certos filosofos dao ao princí pio geral da
vida e da inteligencia. (Veja: Todo universal).

Anjo [Ange] (do latim angelus; do grego aggelos, mensageiro): Segundo a ideia comum, os
anjos sao seres intermediarios entre o homem e a divindade, por sua natureza e sua
potencia, e podendo se manifestar tanto por aviso ocultos quanto por uma maneira
visível. Eles nao foram realmente criados perfeitos, pois a perfeiçao pressupoe
infalibilidade, e alguns dentre eles se revoltaram contra Deus. Diz-se: bons e maus
anjos, anjos das trevas. Contudo, a ideia mais generalizada relacionada a esta palavra

17 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

e a da bondade e da suprema virtude.
De acordo com a doutrina espí rita, os anjos nao sao seres a parte e de uma

natureza especial; sao os Espí ritos de primeira ordem, isto e, aqueles que chegaram a
condiçao de Espí ritos puros depois de terem experimentado todas as provaçoes.

Nosso mundo nao e de toda a eternidade, e muito tempo antes que ele existisse,
os Espí ritos ja tinham atingido esse grau supremo; entao os homens acreditaram que
aqueles seres sempre foram dessa maneira.

Alucinação [Hallucination] (do latim hallucinare, errar): “Erro, ilusao de uma pessoa que
acredita ter percepçoes que realmente nao tem.” (Academia) — Os fenomenos
espí ritas que provem da emancipaçao da alma provam que aquilo que e qualificado
como alucinaçao frequentemente e uma percepçao real semelhante aquela da dupla
vista do sonambulismo ou do extase, provocada por um estado anormal, um efeito das
faculdades da alma desprendida dos laços corporais. Sem duvidas, algumas vezes e
uma verdadeira alucinaçao no sentido relativo a esse termo; mas a ignorancia e a
pouca atençao que ate agora se tem prestado a esses tipos de fenomenos fizeram
considerar como ilusao aquilo que muitas vezes e uma visao real. Quando nao se sabe
explicar um fato psicologico, acha-se mais simples qualifica-lo de alucinaçao.

Aparição [Apparition]: fenomeno pelo qual os seres do mundo incorporeo se
manifestam a visao.

Aparição vaporosa ou etérea: aquela e impalpavel e inconsistente, e nao
oferece nenhuma resistencia ao toque.

Aparição tangível ou estereotite:1 aquela que e palpavel e apresenta a
consistencia de um corpo solido.

A aparição difere da visão porque ela ocorre no estado de vigí lia, atraves dos
orgaos visuais, e porque a pessoa tem plena consciencia de suas relaçoes com o
mundo exterior. A visão ocorre no estado de sono ou de extase; ela tambem ocorre no
estado desperto por efeito da segunda vista. A aparição nos chega pelos olhos do
corpo; ela se produz no mesmo lugar onde nos encontramos; a visão tem por objeto
as coisas ausentes ou distantes, percebidas pela alma no seu estado de emancipaçao,
e enquanto as faculdades sensitivas estao mais ou menos suspensas. (Veja: Lucidez,
Clarividência.)

Arcanjo [Archange]: anjo de uma ordem superior (Veja: Anjo). A palavra anjo e um termo
generico que se aplica a todos os Espí ritos puros. Se admitirmos que entre eles haja

1 Ver Estereotite, neste mesmo Vocabulário. — Nota do Tradutor (N. T).

18 – Allan Kardec

diferentes graus de elevaçao, poderí amos designa-los pelas palavras arcanjos e
serafins, usando os termos conhecidos.

Ateu, ateísmo [Athee, Atheisme] (do grego atheos, derivado de a privativo e de théos,
Deus: sem Deus; que nao cre em Deus): o ateí smo e a negaçao absoluta da divindade.
Quem acredita na existencia de um ser supremo — quaisquer que sejam os atributos
que lhe suponha e o culto que lhe preste — nao e ateu. Toda religiao se fundamenta
necessariamente na crença em uma divindade; essa crença pode ser mais ou menos
esclarecida, mais ou menos conforme a verdade; porem, uma religiao ateia seria um
contrassenso.

O ateí smo absoluto tem poucos proselitos, pois o sentimento da divindade
existe no coraçao do homem ainda que na ausencia de qualquer ensinamento. O
ateí smo e o Espiritismo sao incompatíveis.

Batedor [Frappeur] (Veja: Espírito.)

Céu [Ciel]: no sentido da morada dos bem-aventurados. (Veja: Paraíso.)

Clarividência [Clairvoyance]: propriedade inerente a alma e que da a certas pessoas a
faculdade de ver sem o recurso dos orgaos da visao. (Veja: Lucidez.)

Classificação dos Espíritos [Classification des Esprits]: (Veja: Escala espírita.)

Comunicação espírita [Communication spirite]: manifestaçao inteligente dos
Espí ritos tendo por objetivo uma troca contí nua de pensamentos entre eles e os
homens. Nos as distinguimos entre:

Comunicações frívolas: aquelas que se referem a assuntos futeis e sem
importancia;

Comunicações grosseiras: aquelas que se traduzem por expressoes que
chocam a decencia;

Comunicações sérias: aquelas que excluem a banalidade, qualquer que seja o
assunto.

Comunicações instrutivas: aquelas que tem por finalidade principal um
ensinamento dado pelos Espí ritos sobre as ciencias, a moral, a filosofia etc.

(Sobre os modos de comunicaçoes, veja: Sematologia, Tiptologia, Psicografia,
Pneumatografia, Psicofonia, Pneumatofonia, Telegrafia humana.)

Crisíaco [Crisiaque]: aquele que esta num estado momentaneo de crise produzida pela
açao magnetica. Essa qualificaçao e atribuí da mais particularmente aqueles nos quais
esse estado e espontaneo e acompanhado de uma certa superexcitaçao nervosa. Os
crisíacos geralmente desfrutam da lucidez sonambulica ou da segunda vista.

19 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Deísta [Deiste]: aquele que cre em Deus, sem admitir culto exterior. Algumas vezes, o
deísmo e erradamente confundido com o ateísmo. (Veja: Ateu.)

Demônio [Demon] (do latim Dæmo, derivado do grego daïmôn, genio, sorte, destino,
manes.): Dæmones, tanto em grego quanto em latim, se diz de todos os seres
incorporeos, bons ou maus, e que supostamente possuam conhecimentos e poder
superiores ao homem. Nas lí nguas modernas, esse termo e geralmente tomado no
sentido negativo, e sua acepçao esta restrita aos genios malfazejos. Segundo a crença
vulgar, os demonios sao seres essencialmente maus pela propria natureza deles. Os
Espí ritos nos ensinam que Deus, sendo soberanamente justo e bom, nao poderia ter
criado seres devotados ao mal e desgraçados por toda a eternidade. Conforme estes
Espí ritos, nao ha demônios na acepçao absoluta e restrita dessa palavra; o que
realmente ha sao Espí ritos imperfeitos, que podem se melhorar pelos proprios
esforços e pela vontade pessoal. Os Espí ritos da nova classe seriam os verdadeiros
demonios, se esse termo nao implicasse na ideia de uma natureza perpetuamente ma.

Demônio familiar [Demon familier]: (Veja: Espírito familiar.)

Demonologia, Demonografia [Demonologie, Demonographie]: tratado sobre a
natureza e a influencia dos demonios.

Demonomancia [Demonomancie] (do grego daïmôn e mantéia, adivinhaçao): suposto
conhecimento do futuro por inspiraçao dos demonios.

Demonomania [Demonomanie]: variedade de alucinaçao mental que consiste em
acreditar estar possuí do pelo demonio.

Deus [Dieu]: inteligencia suprema, causa primaria de todas as coisas. Ele e eterno,
imutavel, imaterial, unico, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e infinito em
todas as suas perfeiçoes.

Diabo [Diable] (do grego diabolos, delator, acusador, mentiroso, caluniador): segundo a
crença vulgar, e um ser real, um anjo rebelde, chefe de todos os demonios, e que tem
um poder bastante extenso para lutar ate mesmo contra Deus. Ele conhece nossos
pensamentos mais secretos, inspira todas as mas paixoes e assume todas as formas
para nos induzir ao mal. De acordo com a doutrina dos Espí ritos sobre os demonios,
o diabo e a personificaçao do mal; e um ser alegorico que resume em si todas as mas
paixoes dos Espí ritos imperfeitos. Assim como os antigos davam as suas divindades
alegoricas determinados atributos especiais (ao Tempo, uma foice, uma ampulheta,
asas e a figura de um velho; a Fortuna, uma bandeira sobre os olhos e uma roda sob
um pe, e assim por diante), da mesma forma o diabo teve que ser representado sob os

20 – Allan Kardec

traços caracterí sticos da baixeza das inclinaçoes. Os chifres e a cauda sao os emblemas
da bestialidade, quer dizer, da brutalidade das paixoes animais.

Dríades [Dryades]: (Veja: Hamadríades.)

Duendes [Farfadets] 2 (do latim fadus, fadu, fada): Espí ritos brincalhoes; especie de
duendes, mais traquinas do que malvados, pertencendo a classe dos Espí ritos
levianos. (Veja: Lutin.)

Emancipação da alma [Emancipation de l’ame]: estado particular da vida humana
durante o qual a alma, desprendendo-se parcialmente de seus laços materiais,
recupera algumas de suas faculdades do Espí rito e entre mais facilmente em
comunicaçao com os seres incorporeos. Essa situaçao se manifesta principalmente
pelos fenomenos dos sonhos, do soniloquio, da dupla vista, do sonambulismo natural
ou magnetico, e do extase. (Veja esses vocabulos.)

Encarnação [Incarnation]: estado dos Espí ritos que revestem um envoltorio corporal.
Diz-se: Espírito encarnado por oposiçao ao Espírito errante. Os Espí ritos sao
errantes no intervalo de suas diferentes encarnaçoes. A encarnaçao pode ocorrer na
Terra ou em outro mundo.

Erraticidade [Erraticite]: estado dos Espí ritos errantes, isto e, nao encarnados durante
os intervalos de suas diversas existencias corporais. A erraticidade nao e exatamente
um sinal absoluto de inferioridade para os Espí ritos. Ha Espí ritos errantes de todas as
classes, salvo da primeira ordem, de Espí ritos puros, que, nao tendo mais que se
submeter a encarnaçao, nao podem ser considerados como errantes. Os Espí ritos
errantes sao felizes ou infelizes conforme o grau de sua depuraçao. E nesse estado que
o Espí rito, entao despojado do veu material do corpo, reconhece suas existencias
anteriores e as faltas que o afastam da perfeiçao e da felicidade infinita; e aí tambem
que ele escolhe novas provaçoes a fim de avançar mais rapidamente.

Escala espírita [Echelle spirite]: quadro das diversas ordens de Espí ritos, indicando os
graus que eles percorreram para chegar a perfeiçao. Ela contem tres ordens
principais: Espí ritos imperfeitos, bons Espí ritos e Espí ritos puros, subdivididas em
nove classes caracterí sticas para a progressao dos sentimentos morais e as ideias
intelectuais.3

2 Farfadet às vezes é traduzido como diabrete, também como sinônimo de trasgo e lutin. — N. T.
3 Posteriormente, a partir da segunda edição de O Livro dos Espíritos (1860), Allan Kardec acrescentou
uma classe a essa subdivisão, totalizando então dez classes características de Espíritos. — N. T.

21 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Os proprios Espí ritos nos ensinam que eles pertencem a diferentes categorias,
conforme o grau de sua depuraçao, mas nos dizem tambem que essas categorias nao
constituem especies distintas, e que todos os Espí ritos sao chamados a percorre-las
sucessivamente. (Veja: os desenvolvimentos relativos ao carater de cada classe de
Espí ritos no capítulo especial.4)

Esfera [Sphere]: palavra pela qual alguns Espí ritos designam os diferentes graus da
escala espí rita. Eles dizem que se atingiu a quinta ou sexta esfera, assim como outros
dizem no quinto e no sexto ceu. Da maneira como eles se expressam, poderí amos crer
que a Terra e um ponto central rodeado de esferas concentricas nas quais se cumprem
sucessivamente os diversos níveis de perfeiçao; ha ate quem ainda fale da esfera de
fogo, da esfera das estrelas etc. Como as mais simples noçoes de astronomia bastam
para mostrar o absurdo de tal teoria, ela so pode vir ou de uma falsa interpretaçao dos
termos ou de Espí ritos bastante atrasados ainda imbuídos dos sistemas de Ptolomeu5
e de Tycho Brahe6. Se um homem que voce reputa como sabio afirmar uma coisa
evidentemente absurda, entao voce duvidara do conhecimento dele; a mesma coisa
deve ser com os Espíritos; e pela experiencia que aprendemos a conhece-los. Portanto,
essas expressoes sao deturpadas, mesmo tomadas em sentido figurado, porque elas
podem induzir ao erro sobre a verdadeira significaçao pela qual devemos entender a
progressao dos Espíritos. (Veja: Reencarnação.)

Espírita [Spirite]: o que tem relaçao com o espiritismo.

Espiritismo [Spiritisme]: doutrina fundada sobre a crença na existencia dos Espí ritos e
suas comunicaçoes com os homens.

Espiritista [Spiritiste]: aquele que segue a doutrina espí rita.

Espírito [Esprit] (do latim spiritus, derivado de spirare, soprar): no sentido especial da
doutrina espí rita, os Espíritos são os seres inteligentes da criação e que povoam o
Universo fora do mundo material.

A natureza í ntima dos Espí ritos e desconhecida por nos; eles mesmos nao a
podem definir — seja por ignorancia, seja pela insuficiencia da nossa linguagem.
Quanto a isso, nos somos como cegos de nascença perante a luz. Segundo o que eles
nos dizem, o Espí rito nao e material no sentido comum do termo, nem exatamente

4 Capítulo I: Escala Espírita, nesta obra. — N. T.
5 Cláudio Ptolomeu (90-168) foi um notável filósofo grego que se notabilizou pelos seus estudos no campo
da matemática, geografia e astronomia. — N. T.
6 Tycho Brahe (1546-1601), célebre astrônomo dinamarquês. — N. T.

22 – Allan Kardec

imaterial no sentido absoluto, pois o Espí rito e alguma coisa e a imaterialidade
absoluta seria o nada. O Espí rito, portanto, e formado de uma substancia, mas da qual
a materia grosseira que afeta nossos sentidos nao pode nos dar uma ideia. Pode-se
compara-lo a uma chama ou centelha cujo brilho varia conforme o grau de sua
depuraçao. Ele pode assumir todas as formas atraves do perispí rito, do qual ele e
revestido. (Veja: Perispírito.)

Espírito elementar [Esprit elementaire]: Espí rito considerado em si mesmo e sem o
seu perispí rito, ou seja, seu envoltorio semimaterial.

Espírito familiar [Esprit familier]: Espí rito que se liga a uma pessoa ou a uma família
— seja para lhe proteger, se for bom, seja para lhe prejudicar, se for mau. O Espí rito
familiar nao precisa ser evocado, pois ele esta sempre presente e responde
instantaneamente ao chamado que lhe e feito. Frequentemente ele manifesta sua
presença por sinais sensíveis.

Espíritos batedores [Esprits frappeurs]: aqueles que revelam sua presença atraves de
batidas. Eles pertencem as classes inferiores.

Espiritualismo [Spiritualisme]: crença na existencia de uma alma espiritual, imaterial,
que conserva sua individualidade apos a morte, abstraçao feita da crença nos
Espí ritos; e o oposto do materialismo. (Veja: Materialismo, Espiritismo.) E
espiritualista qualquer um que creia que em nos nao seja tudo materia, mas isso nao
quer dizer que ele admita a doutrina dos Espí ritos. Todo espiritista necessariamente
e espiritualista, porem e possível ser espiritualista sem ser espiritista; ja o
materialista nao e num um nem o outro. Como sao duas ideias essencialmente
distintas, faz-se necessario distingui-los por palavras diferentes, para evitar qualquer
equívoco. Ate para aqueles que consideram o espiritismo como uma ideia quimerica,
e preciso ainda lhe designar um vocabulo especial; isso e necessario tanto para as
ideias falsas quanto para as ideias verdadeiras, a fim de nos entendermos.

Estereotite [Stereotite] 7
(do grego stéréos, solido): qualidade das apariçoes que

7 O vocábulo stéréotite não consta nos dicionários tradicionais e provavelmente é um termo criado por
Allan Kardec, como um adjetivo aplicável ao que é físico, materializado, capaz de ser tocado (tangível),
em oposição ao que é etéreo, sem uma forma corporal materializada o suficiente para ser tangível. A
inspiração para este neologismo pode ter sido a palavra stéréotypie (estereotipia), que é o nome dado a
um antigo processo de impressão gráfica a partir de uma chapa metálica (também chamada de clichê,
estereótipo e até estereotipia mesmo) que servia como uma espécie de carimbo para poder reproduzir
cópias daquilo que era moldado nesse chapa e que, portanto, solidificava ou materializava ideias (textos
e imagens). Como consequência, vertemos o termo francês para o nosso português igualmente usando
uma expressão especial: estereotite. — N. T.

23 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

adquirem as propriedades da materia resistente e tangível; diz-se em oposiçao as
apariçoes vaporosas e etereas que sao impalpaveis. A apariçao estereotite apresenta
temporariamente a vista e ao toque as propriedades de um corpo vivo.

Evocação [Evocation] (Veja: Invocação.)

Expiação [Expiation]: castigo que os Espí ritos sofrem em puniçao pelas faltas cometidas
durante a vida corporal. A expiaçao, como sofrimento moral, ocorre no estado errante;
como sofrimento fí sico, ela ocorre no estado corporal. As vicissitudes e as tormentas
da vida corporal sao ao mesmo tempo provaçoes para o futuro e uma expiaçao para o
passado.

Êxtase [Extase] (do grego ekstasis, transbormento do Espí rito; derivado de existêmi,
impressionar pela admiraçao): intensificaçao da emancipaçao da alma durante a vida
corporal, de que resulta a suspensao momentanea das faculdades perceptivas e
sensitivas dos orgaos. Nesse estado, a alma nao se prende mais ao corpo senao por
laços frageis, que ela procura romper; ela pertence mais ao mundo dos Espí ritos que
ela vislumbra do que ao mundo material.

O extase algumas vezes e natural e espontaneo; tambem pode ser provocado
pela açao magnetica, e, nesse caso, consiste num grau superior de sonambulismo.

Fadas [Fees] (do latim fata): segundo a crença vulgar, as fadas sao seres semimateriais
dotados de um poder sobre-humano; elas sao boas ou mas, protetoras ou malvadas;
podem intencionalmente se tornar visíveis e invisíveis, e assumem todos os tipos de
formas. Na Idade Media e nos povos modernos, as fadas sucederam as divindades
subalternas dos antigos. Se extrairmos sua historia do maravilhoso que a imaginaçao
dos poetas e a crendice popular lhe empresta, nela nos encontraremos todas as
manifestaçoes espí ritas das quais somos testemunhas e que sao produzidas em todas
as epocas: e incontestavelmente aos fatos desse genero que essa crença deve a sua
origem. Nas fadas encarregadas de presidir o nascimento de uma criança e lhe seguir
no curso da vida, reconhecemos sem esforço os Espí ritos ou genios familiares. Suas
inclinaçoes mais ou menos boas, e que sao sempre o reflexo das paixoes humanas, as
colocam naturalmente na categoria de Espí ritos inferiores ou pouco avançados. (Veja:
Politeísmo.)

Fatalidade [Fatalite] (do latim fatalitas, derivado de fatum, destino): destino inevitavel.
Doutrina que supoe que todos os eventos da vida — e por extensao todos os nossos
atos — sejam previamente determinados e submetidos a uma lei da qual nos nao
podemos escapar. Existem dois tipos de fatalidade: uma proveniente das causas

24 – Allan Kardec

exteriores que nos atingem e reagem sobre nos, e que podemos chamar de reativa,
externa, fatalidade eventual; a outra, que tem sua fonte em nos mesmos e determina
todas as nossas açoes: e a fatalidade pessoal. A fatalidade, no sentido absoluto do
termo, faz do homem uma maquina, sem iniciativa nem livre-arbítrio, e, por
conseguinte, sem responsabilidade: e a negaçao de toda moral.

Segundo a doutrina espí rita, o Espí rito, escolhendo sua nova existencia e o
genero de provaçao a que deve se submeter, faz disso um ato de liberdade. Os eventos
da vida sao a consequencia dessa escolha e estao em relacionados com a posiçao
social da existencia; se o Espí rito deve renascer numa condiçao servil, o ambiente no
qual ele se encontrara acarretara acontecimentos totalmente diferentes do que se ele
devesse ser rico e poderoso; contudo, qualquer que seja essa condiçao, ele conserva
seu livre-arbí trio em todos os atos de sua vontade, e ele nunca e fatalmente levado a
fazer isto ou aquilo, nem a sofrer esse ou aquele acidente. Pelo tipo de luta que
escolheu, ele pode ser levado a determinados atos ou a encontrar determinados
obstaculos; mas nao se diz que isso acontecera inevitavelmente e que, alias, ele nao o
possa evitar pela sua prudencia e pela sua vontade; e para isso que Deus lhe deu o
senso crí tico. E assim para com um homem que, para alcançar um objetivo, tivesse
tres caminhos a seguir: pela montanha, pela planície ou pelo mar. Na primeira opçao
ele tem a chance de encontrar pedras e precipícios; na segunda, pantanos; na terceira,
enfrentar tempestades; mas nao se diz que ele se chocara com uma pedra, que
afundara nos pantanos ou que naufragara num lugar e nao no outro. A propria escolha
da rota nada tem de fatal no sentido absoluto da palavra; por instinto, o homem toma
o caminho pelo qual ele devera encontrar a provaçao escolhida; se tiver que lutar
contra as ondas, seu instinto nao o levara a escolher a rota da montanha.

Dependendo do genero das provas escolhido pelo Espí rito, o homem fica
exposto a certas vicissitudes; por causa dessas mesmas vicissitudes, ele e submetido
a perigos dos quais cabe a ele escapar. Aquele que comete um crime nao foi fatalmente
levado a comete-lo; ele escolheu uma vida de desafios que pode incita-lo ao crime;
caso ceda a tentaçao, tera sido por fraqueza de sua vontade. Assim, o livre-arbí trio
existe para o Espí rito no estado errante na escolha que faz quanto as provas a que se
submete, e no estado de encarnaçao nos atos da vida corporal. De fatal so ha o instante
da morte, pois ate o genero da morte tambem e uma sequencia da natureza das provas
escolhidas.

Este e o resumo da doutrina dos Espí ritos sobre a fatalidade.

Feiticeiros [Sorciers] (do latim sors, sortis, feitiço): refere-se primeiramente a indiví duos
encarregados de lançar feitiços, e, por extensao, a todos aqueles a quem se atribui um

25 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

poder sobrenatural. Os fenomenos estranhos que se produzem sob a influencia de
determinados mediuns provam que o poder atribuí do aos feiticeiros se baseia numa
realidade, mas da qual o charlatanismo abusou, assim como explora tudo. Se no nosso
seculo esclarecido ainda ha pessoas que atribuem esses fenomenos ao demonio, com
mais forte razao deviam acreditar nisso nos tempos de ignorancia; o resultou foi que
os indivíduos que possuí am — mesmo sem saber — algumas das faculdades dos
mediuns atuais eram condenadas ao fogo.

Fluídico [Fluidique]: oposto de solido; qualificaçao dada aos Espí ritos por alguns
escritores para caracterizar sua natureza eterea; diz-se: Espíritos fluídicos.
Acreditamos que essa expressao seja impropria; alem disso, ela representa um tipo
de pleonasmo quase como se dissessemos ar gasoso. A palavra Espírito diz tudo; ela
contem em si mesma sua propria definiçao, revelando necessariamente a ideia de uma
coisa incorporal; um Espí rito que nao fosse fluídico nao seria um Espí rito. Esse termo
tem outro inconveniente, que e de assemelhar a natureza dos Espí ritos aos nossos
fluidos materiais; lembra muito a ideia de laboratorio.

Fogo eterno [Feu eternel]: a ideia do fogo eterno, como castigo, remonta a mais alta
antiguidade e vem da crença dos antigos que colocavam os Infernos nas entranhas da
Terra, cujo fogo central lhes era revelado pelos fenomenos geologicos. Quando o
homem pode adquirir noçoes mais elevadas sobre a natureza da alma, ele
compreendeu que um ser imaterial nao podia ser afetado por um fogo material; mas
nem por isso o fogo deixou de ser um emblema do suplício mais cruel, e nao
encontramos uma figura mais energica para retratar os sofrimentos morais da alma;
e nesse sentido que a alta teologia o entende hoje, e e nessa concepçao que tambem
se diz: arder de amor, ser consumido pelo ciume, pela ambiçao etc.

Gênio [Genie] (do latim genius, formado do grego géinô, engendrar, produzir): e nesse
sentido que se diz que o homem capaz de criar ou de inventar coisas extraordinarias
que e um homem de genio. Na linguagem espí rita, gênio e sinonimo de Espírito.
Dizemos sem fazer diferença: Espí rito familiar e genio familiar; bom e mau Espí rito,
bom e mau genio. A palavra Espí rito contem um sentido mais vago e menos
circunscrito; o genio e um tipo de personificaçao do Espí rito; nos o figuramos sob uma
forma determinada mais ou menos parecida com a forma humana, mas vaporosa e
impalpavel, as vezes visível e as vezes invisível. Os genios sao os Espí ritos nas suas
relaçoes com os homens, agindo sobre eles atraves de um poder oculto superior.

Gênio familiar (Veja: Espírito familiar).

Gnomos [Gnomes] (do grego gnômon, conhecedor, habil, derivado de gnosko, conhecer):

26 – Allan Kardec

genios inteligentes que supostamente habitam o interior da Terra. Pelas qualidades
que lhes sao atribuídas, eles pertencem a ordem dos Espí ritos imperfeitos e a classe
dos Espí ritos levianos.

Hamadríade [Hamadryade] (do grego ama, semelhante, e drûs, carvalho): ninfa dos
bosques, segundo a mitologia paga. As drí ades eram ninfas imortais que cuidavam das
arvores em geral, e que podiam vagar em liberdade ao redor daqueles que lhes eram
particularmente consagrados. Ja a hamadrí ade nao era imortal; ela nascia e morria
com a arvore cuja guarda lhe era confiada e que ela jamais podia deixar. Hoje nao ha
duvidas de que a ideia das drí ades e das hamadrí ades teve sua origem nas
manifestaçoes analogas aquelas que testemunhamos. Os antigos, que poetizavam
tudo, divinizaram as inteligencias ocultas que se manifestam na propria substancia
dos corpos; para nos, elas nao sao mais do que Espí ritos batedores.

Ideias inatas [Idees innees]: ideias ou conhecimentos nao adquiridos e que parece que
trazemos ao nascer. Ha muito tempo se discute sobre as ideias inatas, das quais muitos
filosofos combatem a existencia, supondo que todas sao adquiridas. Se fosse assim,
como explicar certas predisposiçoes naturais que muitas vezes se revelam desde a
mais tenra idade e com exclusao de todo ensinamento? Os fenomenos espí ritas
lançam uma grande luz sobre essa questao. Hoje a experiencia nao deixa nenhuma
duvida sobre esse tipo de ideias que encontram sua explicaçao na sucessao das
existencias. Os conhecimentos adquiridos pelo Espí rito nas existencias anteriores se
refletem nas existencias posteriores pelo que nomeamos de ideias inatas.

Iluminado [Illumine]: qualificaçao dada a certos indiví duos que afirmam ser
esclarecidos sobre Deus de uma maneira particular e que geralmente sao
considerados como visionarios ou cerebros transtornados; diz-se: Seita dos
iluminados. Essa denominaçao tem sido aplicada a todos aqueles que recebem
comunicaçoes inteligentes e espontaneas da parte dos Espí ritos. Se dentre eles havia
homens superexcitados por uma imaginaçao exaltada, hoje sabemos a parte que deve
ser dada a realidade.

Inferno [Enfer] (do latim inferna, derivado de infernus, inferior, que esta abaixo, embaixo;
subentendido locus, lugar: lugar inferior): assim nomeado porque os antigos
acreditavam que ele estivesse localizado nas entranhas da Terra. Raramente e dito no
plural, exceto na linguagem poetica ou falando dos lugares subterraneos para onde —
segundo os pagaos — as almas iam depois da morte. Os infernos consistiam em duas
partes: os Campos Elísios, morada encantada dos homens de bem, e o Tártaro, lugar
onde os í mpios sofriam o castigo de seus crimes pelo fogo e pelas torturas eternas.

27 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

A crença referente a posiçao subterranea dos Infernos sobreviveu ao
paganismo. Segundo a Igreja catolica: Jesus desceu aos Infernos onde as almas dos
justos esperavam sua vinda nos Limbos. As almas dos í mpios foram lançadas nos
Infernos. A significaçao dessa palavra atualmente e restrita ao recinto dos reprobos;
mas o progresso das ciencias geologicas e astronomicas ja esclareceu a estrutura do
globo terrestre e sua verdadeira posiçao no espaço; o Inferno foi exilado do seu seio,
e hoje nenhum lugar especí fico lhe e assinalado.

No estado de ignorancia, o homem e incapaz de compreender as abstraçoes e
de abranger as generalidades; ele nao concebe nada que nao esteja localizado e
circunscrito; ele materializa as coisas imateriais e rebaixa ate mesmo a majestade
divina. Todavia, a medida que o progresso da ciencia positiva vem lhe esclarecer, ele
reconhece seu erro; suas ideias — mesquinhas e estreitas que eram — crescem, e o
horizonte do infinito se desenrola diante dos seus olhos. E assim que, conforme a
doutrina espí rita, os sofrimentos do alem-tumulo — que so podem ser morais — sao
inerentes a natureza impura e imperfeita dos Espí ritos inferiores; nao ha inferno
localizado no sentido comum ligado a essa palavra; cada qual o carrega em si mesmo
pelos sofrimentos que suporta e que nao sao menos pungentes por nao serem físicos;
o Inferno esta em toda parte e onde ha Espí ritos imperfeitos. (Veja: Paraíso, Fogo
eterno, Penas eternas.)

Instinto [Instinct]: especie de inteligencia rudimentar que dirige os seres vivos nas suas
açoes, a despeito de sua vontade e no interesse de sua conservaçao. O instinto se torna
inteligencia quando ha uma deliberaçao. Por instinto nos agimos sem raciocinar; pela
inteligencia nos raciocinamos antes de agir. No homem, muitas vezes, confundimos as
ideias instintivas com as ideias intuitivas. Estas ultimas sao aquelas que o homem
absorveu, tanto no estado de espí rito quanto nas existencias anteriores, e das quais
ele conserva uma vaga lembrança.8

Intuição [Intuition] (Veja: Instinto, Ideias inatas).

8 Posteriormente, no livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (cap. III, desde
o item 11), Allan Kardec irá considerar outras teorias sobre a natureza do instinto, sem fechar a questão;
uma dessas hipóteses — a qual ele considerou concordante com o Espiritismo no tocante às relações do
mundo espiritual com o mundo corpóreo — traz a ideia de que o instinto não seria um atributo da alma
individualizada; ou seja, não pertenceria propriamente ao ser vivo, mas seria um efeito de uma ação
externa, outra inteligência (Espíritos protetores) a zelar pelo indivíduo ora incapacitado de se governar.
A partir disso, evidencia-se que essa inteligência seja antes de tudo a providência divina cuidando de suas
criaturas através do trabalho dos seus ministros, os Espíritos protetores, anjos guardiões e até os
familiares e amigos encarnados, pelo que ele vai dizer, por exemplo: “Por intermédio da mãe, o próprio
Deus vela pelas suas criaturas que nascem.” — N. T.

28 – Allan Kardec

Inteligência [Intelligence]: faculdade de conceber, de compreender e de raciocinar. Seria
injusto negar aos animais algum tipo de inteligencia e de crer que eles apenas sigam
maquinalmente o impulso cego do instinto. A observaçao demonstra que em muitos
casos eles agem por conta propria e conforme as circunstancias; mas essa inteligencia
— por mais admiravel que seja — esta sempre limitada a satisfaçao das necessidades
materiais, enquanto a do homem lhe permite elevar-se acima da condiçao da
humanidade. A linha de demarcaçao entre os animais e o homem e traçada pelo
conhecimento que este ultimo tem sobre o Ser Supremo. (Veja: Instinto.)

Invisível [Invisible]: nome pelo qual certas pessoas designem os Espí ritos nas suas
manifestaçoes. Essa denominaçao nao nos parece apropriada, primeiro porque, se a
invisibilidade e para nos o estado normal dos Espí ritos, sabemos que ela nao e
absoluta, pois eles podem nos aparecer; em segundo lugar, essa qualificaçao nada tem
que caracterize essencialmente os Espí ritos; ela e aplicada igualmente a todos os
corpos inertes nao alcançados pelo sentido da visao. A palavra Espírito tem em si
mesma uma significaçao que revela a ideia de um ser inteligente e incorporeo.
Notemos ainda que, falando de um determinado Espí rito — por exemplo, o de
Fenelon9 — nos costumamos dizer: Foi o Espí rito de Fenelon que disse tal coisa, e nao
o invisível de Fenelon. E sempre prejudicial para a clareza e para a pureza da
linguagem desviar as palavras do seu proprio significado.

Invocação [Invocation] (do latim in, em, e vocare, chamar) — Evocação [Evocation] (do
latim vocare, e ou ex, de, de fora): essas duas palavras nao sao exatamente sinonimos
perfeitos, embora tenham a mesma raiz, vocare: chamar. E um erro lhes empregar uma
no lugar da outra: “Evocar significa chamar, fazer vir para si, fazer aparecer por
cerimonias magicas, encantamentos. Evocar almas, Espí ritos, sombras. Os
necromantes pretendiam evocar as almas dos mortos. (Academia)” Entre os antigos,
evocar era tirar as almas dos Infernos para traze-las para si.

Invocar e chamar em si, ou para o seu auxí lio, uma força superior ou
sobrenatural. Nos invocamos Deus atraves da oraçao. Na religiao catolica, invoca-se
os Santos. Toda prece e uma invocaçao. A invocaçao esta no pensamento; a evocaçao
e um ato. Na invocaçao o ser ao qual nos endereçamos nos ouve; na evocaçao, ele sai
do lugar onde estava para vir nos manifestar a presença dele. A invocaçao so e
endereçada aos seres que supomos bastante elevadas para nos ajudar; podemos
evocar tanto os Espíritos inferiores quanto os Espí ritos superiores. “Moises proibiu,

9 Menção a François Fénelon (1651-1715), famoso teólogo, poeta e escritor francês que, então
desencarnado, foi um dos Espíritos que muito contribuíram com a obra espírita de Allan Kardec. — N. T.

29 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

sob pena de morte, a evocaçao das almas dos mortos — pratica sacrílega que era usual
entre os cananeus. O capí tulo 22 do livro II Reis fala da evocaçao da sombra de Samuel
pela pitonisa.”

Como podemos ver, a arte das evocaçoes remonta a mais alta antiguidade; nos
a encontramos em todas as epocas e em todos os povos. Outrora a evocaçao era
acompanhada de praticas místicas, seja porque eram consideradas necessarias, seja
para se dar o prestí gio de um poder superior — o que era mais provavel. Hoje sabemos
que o poder de evocar nao e um privilegio, que pertence a todo mundo e que todas as
cerimonias magicas e cabalí sticas nao passavam de vao aparato.

Segundo os antigos, todas as almas evocadas ou eram errantes ou vinham dos
Infernos, que incluíam — como nos sabemos — os Campos Elí sios assim tambem
como o Tartaro; nao lhe havia nenhuma ma interpretaçao. Na linguagem moderna, o
significado do termo inferno tendo sido restrita a morada dos reprobos, ocorreu que,
para certas pessoas, a ideia de evocaçao estava associada a de maus Espí ritos, ou
demonios; mas essa crença cai a medida que se adquire um conhecimento mais
aprofundado dos fatos; com isso, ela e a menos difundida entre todos aqueles que
creem na realidade das manifestaçoes espí ritas; ela nao pode prevalecer diante da
experiencia e de um raciocí nio isento de preconceitos.

Lares [Lares] (Veja: Manes, Penates.)

Livre-arbítrio [Libre arbitre]: liberdade moral do homem; faculdade que ele tem de se
guiar conforme sua vontade na realizaçao dos seus atos. Os Espí ritos nos ensinam que
a alteraçao das faculdades mentais, por uma causa acidental ou natural, e o unico caso
em que o homem seja privado de seu livre-arbítrio; fora isso ele e o senhor de si
mesmo para agir ou nao agir. Ele desfruta dessa liberdade no estado de Espí rito, e e
em virtude dessa faculdade que ele escolhe livremente a existencia e as provas que
ele acredita que sejam apropriadas para o seu desenvolvimento; conserva essa
liberdade no estado corporal a fim de poder lutar contra essas mesmas provas. Os
Espí ritos que ensinam essa doutrina nao podem ser maus Espí ritos. (Veja:
Fatalidade.)

Lucidez [Lucidite]: clarividência, faculdade de ver sem o auxí lio dos orgaos da vista. E
uma faculdade inerente a propria natureza da alma ou do Espí rito, e que reside em
todo o seu ser; eis por que, em todos os casos em que haja emancipaçao da alma, o
homem tem percepçoes independentes dos sentidos. No estado corporal normal, a
faculdade de ver e limitada pelos orgaos materiais; livre deste obstaculo, ela nao fica
circunscrita; ela se estende por toda parte onde a alma exerce sua açao; tal e a causa

30 – Allan Kardec

da visao a distancia de que alguns sonambulos dispoem. Elas se veem do mesmo local
que observam, mesmo que seja a milhares de quilometros, porque, se o corpo nao esta
la, a alma de fato esta. Pode-se dizer entao que o sonambulo ve pela luz da alma.

A palavra clarividência e mais popular; diz-se lucidez mais particularmente da
clarividencia sonambulica. Um sonambulo e mais ou menos lucido, conforme a
emancipaçao da alma seja mais ou menos completa.

Lutin [Lutin]: da antiga palavra luicter, lutar, segundo alguns, da qual derivam
sucessivamente luicton, luiton, luits, e finalmente lutin. Conforme outros, luicton seria
substituí do por nuicton, derivado de nuict, noite, pois segundo a crença popular os
lutins vem principalmente a noite para atormentar os vivos.

Podemos entender por essa mesma denominaçao alguns Espíritos ligeiros, mais
travessos e traquinos do que malvados; eles se comprazem em provocar pequenos
aborrecimentos e pequenas contrariedades; sao ignorantes, mentirosos e
zombadores; sao as crianças malinas do mundo espí rita. Sua linguagem muitas vezes
e gozadora, mordaz e satí rica, mas raramente grosseira; eles se divertem com
brincadeiras e simpatizam com as pessoas de um carater brincalhao; seria perder
tempo e se expor a ridículos enganos dirigir questoes serias a eles.10

Magia, Mago [Magie, Magicien] (do grego magos, sabio, instruído, formado em mageia,
conhecimento profundo da natureza, de que derivou mage, mago, sacerdote, erudito
e filosofo entre os antigos persas): A magia, no original, era a ciencia dos sabios; todos
aqueles que conheciam a astrologia, que se orgulhavam de predizer o futuro, que
faziam coisas extraordinarias e incompreensíveis para as pessoas comuns eram
magos ou sabios que, mais tarde, chamarí amos de magos; mas todos os fenomenos
que nos reproduzimos hoje pelo magnetismo, pelo sonambulismo e pelo espiritismo
provam que a magia nao era uma arte puramente quimerica, e que entre muitos
absurdos certamente havia coisas reais. A popularizaçao desses fenomenos tem por
efeito destruir o prestí gio daqueles que outrora os operavam sob o veu do segredo, e
abusavam da credulidade ao atribuir para si mesmo um pretenso poder sobrenatural.
Graças a essa popularizaçao, hoje nos sabemos que nao ha nada de sobrenatural neste
mundo, e que determinadas coisas so parecem derrogar as leis da natureza porque
nao conhecemos a sua causa.

10 Segundo a crença popular da cultura de vários povos da Europa, o lutin é um tipo de demônio caseiro
que supostamente provoca fenômenos físicos (derruba objetos, móveis, louças, vidros, faz ruídos e outras
diabruras) para se divertir com o pavor que causam nas pessoas. No nosso português, eles são chamados
também de trasgos, duende, diabretes, fradinho da mão furada etc. — N. T.

31 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Magnetismo animal [Magnetisme animal] (do grego e do latim magnes, í ma): assim
nomeado por analogia com o magnetismo mineral. Tendo a experiencia demonstrado
que essa analogia nao existe, ou que e apenas aparente, essa denominaçao nao e exata,
mas como ela esta consagrada pelo uso universal, e que inclusive o epí teto que lhe foi
acrescentado nao permite o equívoco, mudar esse nome seria mais inconveniente do
que util. Algumas pessoas o substituem pela palavra mesmerismo,11 mas ate agora
essa troca ainda nao prevaleceu.

O magnetismo animal pode ser assim definido: açao recíproca de dois seres
vivos pelo intermedio de um agente especial chamado fluido magnético.

Magnetizador, Magnetista [Magnetiseur, Magnetiste]: esta ultima palavra e
empregada por algumas pessoas para designar os adeptos do magnetismo, aqueles
que acreditam em tais efeitos. O magnetizador e o praticante, aquele que exerce; o
magnetista e o teorico. E possível ser magnetista sem ser magnetizador, mas nao se
pode ser magnetizador sem ser magnetista. Essa distinçao nos parece util e logica.

Manes [Manes] (do latim manere, permanecer, segundo uns; de manes, manium, derivado
de manus, bom, segundo outros): na mitologia romana e etrusca, os manes eram as
almas ou as sombras dos mortos. Os antigos tinham um grande respeito pelos manes
de seus ancestrais, a quem eles acreditavam agradar atraves de sacrifí cios. Eles os
imaginam sob sua forma humana, porem vaporosa e invisível, vagando ao redor de
seus tumulos ou de suas residencias, visitando seus familiares. Quem nao
reconheceria nesses manes os Espí ritos sob o envoltorio semimaterial do perispí rito
e que eles proprios nos dizem que estao entre nos sob a forma que eles tinham quando
vivos? (Veja: Penates.)

Manifestação [Manifestation]: ato pelo qual um Espí rito revela sua presença. As
manifestaçoes sao:

Ocultas: quando elas nao tem nada de ostensividade e que o Espí rito se limite
a agir sobre o pensamento;

Patentes: quando elas sao captadas pelos sentidos;
Físicas: quando elas se traduzem por fenomenos materiais, tais como barulhos,

movimento e deslocamento de objetos;
Inteligentes: quando elas revelam uma ideia (Veja: Comunicação.);
Espontâneas: quando elas sao independentes da vontade e ocorrem sem que

nenhum Espí rito tenha sido chamado;

11 Mesmerismo: referência a Franz Anton Mesmer (1734-1815), célebre médico suábio que desenvolveu
a teoria do Magnetismo Animal. — N. T.

32 – Allan Kardec

Provocadas: quando elas sao o efeito da vontade, do desejo ou de uma evocaçao
especí fica;

Aparentes: quando o Espí rito se apresenta a visao (Veja: Aparição.)

Materialismo [Materialisme]: teoria daqueles que pensam que tudo seja materia no
homem, e que por isso nada sobreviva nele apos a destruiçao do corpo. Parece-nos
util refutar essa opiniao, que alias e particular a alguns indiví duos e em parte alguma
e estabelecida como uma doutrina. Se e possível demonstrar a existencia da alma pelo
raciocí nio, as manifestaçoes espí ritas sao a prova patente disso; por elas nos vemos
de alguma forma todas as peripecias da vida do alem-tumulo. O materialismo — que
so se baseia pela negaçao — nao pode resistir contra a evidencia dos fatos; e por isso
que a doutrina espírita muitas vezes triunfou ate mesmo entre aqueles que tinham
teimado contra todos os outros argumentos. A popularizaçao do espiritismo e o meio
mais eficaz para extirpar essa chaga das sociedades civilizadas.

Médiuns [Mediums] (do latim medium, meio, intermediario): pessoas acessíveis a
influencia dos Espíritos, e mais ou menos dotadas da faculdade de receber e de
transmitir suas comunicaçoes. Para os Espí ritos, o medium e um intermediario; e um
agente, um instrumento relativamente comodo, conforme a natureza ou o grau da
faculdade mediatriz. Esta faculdade depende de uma disposiçao organica especial
suscetível de desenvolvimento. Existem muitas variedades de mediuns. De acordo
com sua aptidao particular para esse ou aquele modo de transmissao, ou esse ou
aquele genero de comunicaçao.

Médiuns de influência física [Mediums a influence physique]: aqueles que tem o
poder de provocar manifestaçoes ostensivas. Eles compreendem as seguintes
variedades:

Médiuns motores: aqueles que provocam o movimento e o deslocamento dos
objetos;

Médiuns tiptólogos: aqueles que provocam barulhos e batidas;
Médiuns de aparição:12 aqueles que provocam apariçoes (Veja: Aparição.);
Entre os mediuns de influencia física, distinguimos:
Médiuns naturais: aqueles que produzem fenomenos espontaneos e sem

12 A forma literal do texto original (Médiums appariteurs) sugere como tradução algo semelhante a
“Médiuns aparecedores” ou “Médiuns aparecentes”, no sentido de que os médiuns fazem aparecer
Espíritos. Entretanto, preferimos traduzir esta especificação mediúnica pela locução “Médiuns de
aparição”, por nos parecer uma forma mais prática, e que condiz perfeitamente com a definição que Allan
Kardec iria adotar posteriormente, em O Livro dos Médiuns: Médiums à apparitions, ou seja, “Médiuns de
aparições”. — N. T.

33 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

nenhuma participaçao de sua vontade;
Médiuns facultativos: aqueles que tem o poder de provocar os fenomenos pelo

ato da vontade.

Médiuns de influências morais [Mediums a influences morales]: aqueles que sao
principalmente mais propensos a receber e a transmitir comunicaçoes inteligentes;
nos os distinguimos conforme sua aptidao especial:

Médiuns escreventes ou psicógrafos: aqueles que tem a faculdade de escrever
propriamente pela influencia dos Espí ritos (Veja: Psicografia);

Médiuns pneumatógrafos: aqueles que tem a faculdade de obter a escrita
direta dos Espí ritos (Veja: Pneumatografia);

Médiuns desenhistas: os que desenham sob a influencia dos Espí ritos;
Médiuns musicistas: aqueles que executam, compoem ou escrevem musica sob

a influencia dos Espíritos;
Médiuns falantes: eles transmitem pela palavra o que os mediuns escreventes

transmitem pela escrita;
Médiuns comunicantes:13 pessoas que tem o poder de desenvolver nos outros,

por sua vontade, a faculdade da escrita, que elas mesmas sejam ou nao mediuns
escreventes;

Médiuns inspirados: aqueles que, tanto no estado normal quanto no estado de
extase, recebem pelo pensamento comunicaçoes ocultas, diferentes das suas ideias
originais;

Médiuns de pressentimentos: pessoas que, em certas circunstancias, tem uma
vaga intuiçao das coisas futuras;

Médiuns videntes: pessoas que dispoem da faculdade da segunda vista, ou a de
ver os Espí ritos (Veja: Vista);

Médiuns sensitivos ou impressionáveis: pessoas capazes de sentir a presença
dos Espí ritos por uma vaga impressao, da qual elas nao podem dar conta. Essa
variedade nao tem uma caracterí stica bem traçada; todos os mediuns sao
necessariamente impressionaveis; a impressionabilidade e, portanto, uma qualidade
mais geral do que especí fica; e a faculdade rudimentar indispensavel para o
desenvolvimento de todas as outras; ela difere da impressionabilidade puramente
fí sica e nervosa com a qual nao pode ser confundida.

13 Ainda nesta obra, tanto no Quadro Sinóptico quanto no capítulo V (ao discorrer sobres os Médiuns
escreventes ou psicógrafos) o autor vai se referir a esta categoria como “médiuns formadores”. Ao revisar
a classificação dos tipos de mediunidade em O Livro dos Médiuns, o autor vai renomear esta
especialidade para “Médiuns excitadores” (Médiums excitateurs). — N. T.

34 – Allan Kardec

Nota — Algumas pessoas dizem no plural mídia, como dizem errata. Nao vemos
nenhuma vantagem em multiplicar sem necessidade as exceçoes ja tao numerosas da
nossa lí ngua. Todos os gramaticos hoje estao de acordo em dar a maioria das palavras
estrangeiras usadas na lí ngua atual o sinal frances do plural. Alias, varios vocabulos
com a terminaçao latina estao nesse caso; diz-se: muséums, factums, pensums,
mémorandums etc.; entao por que nao dirí amos médiuns? Dizer mídia seria um tipo
de artificialidade pedante.

Metempsicose [Metempsychose] (do grego meta, mudança; en, em; e psukê, alma):
transmigraçao da alma de um corpo para outro. “O dogma da metempsicose e de
origem indiana. Da India, essa crença passou para o Egito, de onde mais tarde
Pitagoras importa para a Grecia. Os discí pulos desse filosofo ensinam que o Espírito,
quando liberto das amarras do corpo, vai ao imperio dos mortos para esperar, num
estado intermediario de uma duraçao mais ou menos longa, para depois animar
outros corpos — de homens ou de animais — ate que se complete o tempo de sua
purificaçao e do seu retorno a fonte da vida.” — O dogma da metempsicose, como se
ve, e baseado na individualidade e imortalidade da alma; nele encontramos a doutrina
dos Espí ritos quanto a reencarnaçao; esse estado intermediario de uma duraçao mais
ou menos longa entre as diversas existencias nao e outra coisa senao o estado errante
no qual se encontram os Espí ritos entre duas encarnaçoes. Porem, entre a
metempsicose indiana e a doutrina da reencarnaçao, tal como ela nos e ensinada hoje,
ha uma diferença capital: primeiro que a metempsicose admite a transmigraçao da
alma para o corpo dos animais — o que seria uma degradaçao; em segundo lugar, que
essa transmigraçao so se opera na Terra. Os Espí ritos, ao contrario, dizem que a
reencarnaçao e um progresso incessante, que o homem e uma criaçao a parte da qual
a alma nao tem nada em comum com o princí pio vital dos animais, que as varias
existencias podem se realizar tanto na Terra como — por uma lei progressiva — num
mundo de uma ordem superior, e isso, como disse Pitagoras, “ate que se complete o
tempo da purificaçao”.

Mitologia [Mythologie] (do grego muthos, fabula, e logos, discurso): historia fabulosa das
divindades pagas. Entende-se tambem sob esse nome a historia de todos os seres
extra-humanos que, sob diversas denominaçoes, sucederam aos deuses pagaos na
Idade Media; e assim que temos mitologia escandinava, teutonica, celtica, escocesa,
irlandesa etc.

Morte [Mort]: aniquilamento das forças vitais do corpo pelo esgotamento dos orgaos. O
corpo sendo privado do princí pio da vida organica, a alma se desprende dele e entra

35 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

no mundo dos Espí ritos.

Mundo corporal [Monde corporel]: conjunto de seres inteligentes que tem um corpo
material.

Mundo espírita ou Mundo dos Espíritos [Monde spirite ou Monde des Esprits]:
conjunto de seres inteligentes despidos de seu envoltorio corporal. O mundo espí rita
e o mundo normal, primordial, preexistente e sobrevivente a tudo. O estado corporal
nao e — para os Espí ritos — mais do que transitorio e passageiro. Eles mudam de
envoltorio como nos mudamos de roupa; eles largam o envoltorio que esta gasto,
como nos largamos uma roupa velha.

Necromancia [Necromancie] (do grego nekros, morto, e mantéia, adivinhaçao): arte de
evocar as almas dos mortos para se obter revelaçao atraves delas. Por extensao, essa
palavra foi aplicada a todos os meios de adivinhaçao, e e qualificado de necromante
qualquer um que siga a profissao de dizer o futuro. Sem duvidas isso se deve ao fato
da necromancia — na verdadeira acepçao do termo — deve ter sido um dos primeiros
meios empregados nesse sentido; em segunda lugar que, conforme a crença comum,
as almas dos mortos deveriam ser os principais agentes nos outros meios de
adivinhaçao, tal como a quiromancia, adivinhaçao pela leitura da mao, a
cartomancia etc. O abuso e o charlatanismo desacreditaram a necromancia, assim
como a magia.

Noctâmbulo, Noctambulismo [Noctambule, Noctambulisme] (do latim nox, noctis,
noite, e ambulare, caminhar, passear): aquele que anda ou vaga durante a noite
enquanto dorme; sinonimo de sonambulismo. Este ultimo termo e preferível, ja que
noctâmbulo, noctambulismo nao implicam de forma alguma a ideia de sono.

Oráculo [Oracle] (do latim os, oris, boca): conforme as crenças pagas, resposta dos deuses
as questoes dirigidas a eles; assim nomeado porque as respostas geralmente eram
transmitidas pela boca das Pitonisas (Vejas: Pitonisas). Por extensao, dizia-se
oráculo ao mesmo tempo para a resposta, para a pessoa que o pronunciava, assim
como para os diversos meios empregados para conhecer o futuro. Todo fenomeno
extraordinario, proprio a impressionar a imaginaçao, era considerado a expressao da
vontade dos deuses e se tornava um oraculo. Os sacerdotes pagaos — que nao
perdiam a oportunidade de explorar a credulidade — se faziam de interpretes dos
deuses e solenemente dedicavam a esse ofí cio os templos para onde os fieis vinham
trazer suas oferendas, na quimerica esperança de conhecer o futuro. A crença nos
oraculos evidentemente tem a sua origem nas comunicaçoes espí ritas, que o

36 – Allan Kardec

charlatanismo, a ganancia e o amor pela dominaçao cercaram de prestí gio, e que hoje
nos vemos em toda a sua simplicidade.

Paraíso [Paradis]: morada dos bem-aventurados. Os antigos o colocaram na parte dos
Infernos chamada Campos Elí seos (Veja: Inferno); ja os povos modernos o colocaram
nas regioes elevadas do espaço. Esta palavra e sinonimo de céu, tomado no mesmo
sentido, com a diferença que o vocabulo céu se refere a uma ideia de beatitude infinita,
enquanto a de paraíso e mais circunscrita e lembra um pouco mais os gozos
materiais. Diz-se tambem subir ao ceu, descer ao inferno. Essas opinioes sao baseadas
nessa crença primitiva, fruto da ignorancia, de que o Universo fosse formado de
esferas concentricas das quais a Terra ocupasse o centro; foi nessas esferas chamadas
de céus que colocaram a morada dos justos; daí a expressao quinto e sexto ceu, para
designar os diversos graus de beatitude. Mas desde entao a ciencia tem colocado seu
olhar investigador ate as profundezes etereas; ela nos mostra o espaço universal sem
limites, pontilhado de um numero infinito de globos, entres os quais circula o nosso,
o qual nao esta assinalada nenhum lugar de destaque, e sem que haja para ele nem
alto nem baixo. O erudito — vendo em toda parte a infinidade do espaço e os mundos
incontaveis, la onde lhe haviam indicado o ceu, e so encontrando nas entranhas da
Terra, em vez do lugar do Inferno, as camadas geologicas sobre as quais sua formaçao
esta escrita em caracteres irrecusaveis — entao se pos a duvidar do Ceu e do Inferno,
e a partir daí ate a duvida absoluta nao houve mais do que um passo.

A doutrina ensinada pelos Espí ritos superiores esta de acordo com a ciencia; ela
nao tem nada que fira a razao e que esteja em contradiçao com os conhecimentos
exatos. Ela nos mostra a morada dos Bons, nao num lugar recluso ou nas supostas
esferas de que a ignorancia tinha rodeado nosso planeta, mas em toda parte onde haja
bons Espí ritos, no espaço para aqueles que sao errantes e nos mundos mais perfeitos
para os que estao encarnados: aí esta o Paraí so Terrestre, aí estao os Campos Elí seos,
cuja ideia primordial vem do conhecimento intuitivo que tinha sido dado ao homem
nesse estado de coisas, e que a ignorancia e os preconceitos reduziram as mesquinhas
proporçoes. Essa doutrina nos mostra que os í mpios encontram o castigo de suas
faltas na sua propria imperfeiçao, nos seus sofrimentos morais, na presença inevitavel
de suas vítimas — castigos mais terríveis que as torturas fí sicas incompatíveis com a
doutrina da imaterialidade da alma; mostra-nos esses í mpios expiando seus erros
pelas tribulaçoes de novas existencias corporais que eles cumprem nos mundos
imperfeitos, e nao num lugar de eternos suplí cios de onde a esperança esta banida
para sempre. Aí esta o Inferno. Quantas pessoas nos dizem: Se nos tivessem ensinado
isso desde a nossa infancia, nos jamais terí amos duvidado!

37 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

A experiencia nos ensina que os Espí ritos nao suficientemente
desmaterializados ainda estao sobe o imperio das ideias e dos preconceitos da
existencia corporal; aqueles que utilizam em suas comunicaçoes uma linguagem
coerente com as ideias cujo erro materia esta demonstrado provam por isso mesmo
sua ignorancia e sua inferioridade. (Paraíso, do grego paradeizos, jardim, pomar.)

Penas eternas [Peines eternelles]: os Espí ritos superiores nos ensinam que so o bem e
eterno, porque ele e a essencia de Deus, e que o mal tera um fim. Por consequencia
desse princí pio, eles combatem a doutrina da eternidade das penas, como sendo
contraria a ideia de que Deus nos da de sua justiça e de sua bondade. Mas a luz nao
chega para os Espí ritos senao em razao da elevaçao deles; nas faixas inferiores, suas
ideias ainda sao obscurecidas pela materia; o futuro para eles e coberto por um veu;
eles nao veem alem do presente. Eles estao na situaçao de um homem que sobe uma
montanha; no fundo do vale a neblina e as curvas da estrada limitam sua vista; ele
precisa chegar ao cume para descobrir todo o horizonte, para julgar o caminho que
percorreu e aquele que lhe resta a fazer. Nao percebendo o termino de seus
sofrimentos, os Espíritos imperfeitos acreditam sofrer para sempre, e ate mesmo esse
pensamento e um castigo para eles. Entao, se alguns Espí ritos nos falam das penas
eternas, e que eles mesmos acreditam nisso, por causa de sua inferioridade.

Penates [Penates] (do latim penitus, interior, que esta dentro; formado por penus, lugar
reservado, escondido): deuses domesticos dos antigos, assim denominados porque
eram colocados nos lugares mais reservados da casa. — Lares [Lares] (do nome da
ninfa Lara, porque se acreditava que eles fossem filhos dessa ninfa e do deus
Mercurio): assim como os penates, eram deuses ou genios domesticos, com a
diferença que, em sua origem, os penates eram os manes [sombras] dos ancestrais,
cujas imagens eram guardadas em um lugar secreto, protegidos da profanaçao. Os
lares — genios benfazejos, protetores das famí lias e das casas — eram considerados
hereditarios, pois, uma vez ligados a uma famí lia, eles continuavam a proteger os seus
descendentes. Nao somente cada indivíduo, cada famí lia e cada casa tinha seus lares
particulares, mas tambem havia alguns deles para as cidades, para as vilas, para as
ruas, para os edifícios publicos etc., que eram colocados sob a invocaçao desses ou
daqueles lares, como ha cristaos aos cuidados deste ou daquele santo padroeiro.

Os lares e os penates — cujo culto podemos dizer que era universal, conquanto
sob variados nomes — nao eram outros senao os Espí ritos familiares cuja existencia
hoje nos e revelada; mas os antigos fizeram deles deuses, para quem a superstiçao
levantou altares, ao passo que para nos eles sao simplesmente Espí ritos que
animaram homens como nos, algumas vezes nossos parentes e amigos, e que se

38 – Allan Kardec

apegam a nos por simpatia. (Veja: Politeísmo.)

Perispírito [Perisprit] (de peri, ao redor, e spiritus, espí rito): envoltorio semimaterial do
Espí rito apos sua separaçao do corpo. O Espí rito o extrai no mundo onde se encontra
e o modifica ao passar de um para outro mundo; ele e mais ou menos sutil ou grosseiro
conforme a natureza de cada globo. O perispí rito pode assumir todas as formas ao
gosto do Espí rito; normalmente ele apresenta a imagem que o Espí rito tinha na sua
ultima existencia corporal.

Embora seja de uma natureza eterea, a substancia do perispí rito e capaz de
algumas modificaçoes que o tornam perceptível pela nossa visao; e o que ocorre nas
apariçoes. Por sua uniao com o fluido de certas pessoas, ele pode ser tornar tangível
temporariamente, isto, oferecer resistencia ao toque de um corpo solido, assim como
o vemos nas apariçoes estereotites14 ou palpaveis.

A natureza í ntima do perispí rito ainda nos e desconhecida; porem, poderí amos
supor que a materia dos corpos e composta de uma parte solida e grosseira, e de uma
parte sutil e eterea; que somente a primeira sofre a decomposiçao produzida pela
morte, enquanto a segunda persiste e segue o Espí rito. Dessa forma, o Espí rito teria
um duplo envoltorio; a morte so o despojaria do mais grosseiro; o segundo, que
constitui o perispí rito, conservaria a marca e a forma do primeiro envoltorio, do qual
ele e como a sombra; mas sua natureza essencialmente vaporosa permitiria ao
Espí rito modificar essa forma conforme sua vontade, e torna-lo visível ou invisível,
palpavel ou impalpavel.

O perispí rito esta para o Espí rito aquilo que o perisperma esta para o germe do
fruto. A amendoa despojada do seu envoltorio lenhoso, contem o germe sob o delicado
involucro do perisperma.

Pítia, Pitonisa [Pythie, Pythonisse]: sacerdotisa de Apolo Pí tia, em Delfos, assim
nomeada em referencia a serpente Pí ton, que Apolo havia matado. A Pí tia pronunciava
os oraculos, mas como eles nem sempre eram inteligíveis, os sacerdotes se
encarregavam de interpreta-los de acordo com as circunstancias. (Veja: Sibila.)

Pneumatofonia [Pneumatophonie] (do grego pneuma, ar, sopro, vento, espírito; e de
phoné, som ou voz): comunicaçao verbal e direta dos Espíritos sem o auxí lio dos
orgaos da voz. Som ou voz que eles fazem ouvir no vazio do ar e que parece ressoar
nos nossos ouvidos. (Veja: Psicofonia.)

Nota — Nos nao empregamos a palavra pneumatologia, porque ela ja tem uma

14 Ver Estereotite, neste mesmo Vocabulário. — N. T.

39 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

acepçao cientí fica determinada, e, em segundo lugar, porque esse termo seria
improprio quando se referisse somente a sons vagos e nao articulados.

Pneumatografia [Pneumatographie] (do grego pneuma, ar, sopro, vento, espí rito; e
grafo, escrevo): escrita direta dos Espí ritos sem o auxí lio da mao do medium. (Veja:
Psicografia.)

Politeísmo [Polytheisme] (do grego polus, varios; e théos, Deus): religiao que admite
varios deuses. Nos povos antigos a palavra deus revelava a ideia de poder; para eles,
todo poder superior ou vulgar era um deus; os proprios homens que tinham feito
grandes coisas se tornavam deuses para eles. Manifestando-se por efeitos que lhes
pareciam sobrenaturais, os Espí ritos eram a seus olhos tambem divindades, entre as
quais e impossível nao reconhecermos nossos Espí ritos, de todos os graus, desde
Espí ritos batedores ate os Espí ritos superiores. Nos deuses de forma humana,
transportando-se atraves do espaço e mudando de forma para se tornarem visíveis e
invisíveis conforme sua vontade, nos reconhecemos todas as propriedades do
perispí rito. Nas paixoes que lhes eram emprestadas, reconhecemos os Espí ritos ainda
nao desmaterializados. Nos manes, lares e penates, reconhecemos nossos Espí ritos
familiares, nossos genios tutelares. O conhecimento das manifestaçoes espí ritas e,
portanto, a fonte do politeí smo; desde a mais alta Antiguidade, os homens
esclarecidos julgaram esses pretensos deuses pelo seu devido valor e reconheceram
neles criaturas de um Deus supremo, soberano mestre do mundo. Confirmando a
doutrina da unicidade de Deus e esclarecendo os homens pela sublime moral do
Evangelho, o cristianismo marcou uma nova era na marcha do progresso da
humanidade. Entretanto, como os Espí ritos nao cessaram de se manifestar, ao inves
de deuses, os homens os transformaram em genios e fadas.

Possesso [Possede]: segundo a ideia ligada a essa palavra, o possesso e aquele em quem
o demonio veio se alojar. O demônio o possui significa o demônio assumiu o controle
do seu corpo (Veja: Demônio). Ao pegar o demônio — nao no seu sentido vulgar, mas
no sentido de Espí ritos maus, Espí rito impuro, Espí rito malvado, Espí rito imperfeito
—, seria o caso de sabermos se um Espí rito dessa natureza ou de qualquer outra pode
fixar moradia no corpo de um homem conjuntamente com aquele que ali esta
encarnado, ou se este poderia ser substituído por aquele. Neste ultimo caso,
poderí amos perguntar o que acontece com a alma assim expulsa. A doutrina espírita
diz que o Espí rito unido ao corpo nao pode ser definitivamente separado deste a nao
ser pela morte; que nenhum outro Espí rito poderia tomar o seu lugar nem se unir ao
corpo simultaneamente com ele; mas ela diz tambem que um Espí rito imperfeito pode

40 – Allan Kardec

se ligar ao Espí rito encarnado, comanda-lo, dominar seu pensamento, e — se ele nao
tiver forças para lhe resistir — obriga-lo a fazer isso ou aquilo, a agir nesse ou naquele
sentido; ele o envolve, por assim dizer, com sua influencia. Desta forma, nao ha
possessão no sentido absoluto do termo; o que ha e uma subjugação. Nao se trata de
desalojar um Espí rito mau, mas — para usarmos uma comparaçao material — de
faze-lo largar a presa, o que sempre e possível quando o queremos seriamente.
Contudo, tem gente que se contenta com um vício que satisfaz seus gostos e seus
desejos.

A superstiçao vulgar atribuiu a possessao do demonio certas doenças que nao
tem outra causa senao uma alteraçao dos orgaos. Essa crença era bastante difundida
entre os judeus; para eles, curar essas enfermidades significava expulsar demonios.
Qualquer que fosse a causa da doença, desde que a cura ocorresse, isso nao tira o
poder daquele que a opera. Portanto, Jesus e seus discí pulos poderiam dizer que
expulsavam demonios para usar a linguagem atual. Se eles falassem de outra forma,
nao teriam sido compreendidos, e talvez nem mesmo acreditados. Uma coisa pode ser
verdadeira ou falsa dependendo do sentido que se de as palavras. As maiores
verdades podem parecer absurdas quando consideramos apenas a forma.

Prece [Priere]: a prece e uma invocaçao e, em alguns casos, uma evocaçao pela qual
chamamos este ou aquele Espí rito. Quando ela e endereçada a Deus, ele nos envia seus
mensageiros — os Bons Espí ritos. A oraçao nao pode derrogar os decretos da
Providencia; mas, por ela, os Bons Espí ritos podem vir nos ajudar — seja nos dando a
força moral que nos falte, seja nos sugerindo ideias necessarias: daí vem o alívio que
sentimos quando oramos com fervor. Daí tambem vem o alívio que experimentam os
Espí ritos sofredores quando oramos por eles; estes mesmos pedem essas preces sob
a forma que lhes for mais familiar e que estiver mais em acordo com as ideias que eles
conservam de sua existencia corporal; mas a razao — conforme a dos Espí ritos — nos
diz que a prece dos labios e uma formula va quando o coraçao nao participa dela.

Provações [Epreuves]: vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espí ritos se depuram
segundo a maneira pela qual eles as suportam. De acordo com a doutrina espí rita, o
proprio Espí rito desprendido do corpo, reconhecendo sua imperfeiçao, por um ato do
seu livre-arbítrio, escolhe o genero das provas que ele imagina ser o mais apropriado
para o seu avanço, e que ele experimentara numa nova existencia. Se tiver escolhido
uma provaçao acima de suas forças, ele sucumbira, e seu avanço ficara atrasado.

Psicofonia [Psychophonie] (do grego psuké, alma; e phonê, som ou voz): transmissao do
pensamento dos Espí ritos atraves da voz de um medium falante.

41 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Psicografia [Psychographie] (do grego psuké, borboleta, alma; e graphô, escrevo):
transmissao do pensamento dos Espí ritos por meio da escrita atraves das maos de um
medium. No medium escrevente a mao e o instrumento, mas sua alma (ou seja, o
Espí rito encarnado nele) e o intermediario ou o interprete do outro Espí rito que se
comunica; na pneumatografia, e o outro Espí rito quem escreve sem intermediario.
(Veja: Pneumatografia.)

Psicografia imediata ou direta: quando o proprio medium escreve, segurando
a caneta como na escrita comum.

Psicografia mediata ou indireta: quando a caneta e adaptada a um objeto
qualquer que lhe serve de alguma maneira como uma extensao da mao, tal como uma
cesta, uma prancheta etc.

Psicologia [Psychologie]: dissertaçao sobre a alma; ciencia que trata da natureza da
alma. Essa palavra seria para um medium falante o que a psicografia e para um
medium escrevente, isto e, a transmissao do pensamento dos Espí ritos pela voz do
medium; mas como ja existe uma concepçao consagrada e bem definida, convem nao
lhe dar outra. (Veja: Psicofonia.)

Pureza absoluta [Purete absolue]: estado dos Espí ritos da primeira ordem, ou Espí ritos
puros; aqueles que ja percorreram todos os graus da escala e que nao precisam mais
que se submeter a encarnaçao.

Purgatório [Purgatoire] (do latim purgatorium, composto de purgare, purgar; da raíz
purus, puro, que deriva do grego pyr, pyros, fogo, antigo emblema da purificaçao):
conforme a Igreja catolica, lugar de expiaçao temporaria para as almas que ainda tem
que se purificar de algumas impurezas. A Igreja nao define de uma maneira precisa o
local onde se encontra o Purgatorio; ela o coloca em toda a parte, no espaço, talvez ao
nosso lado. Muito menos ela explica claramente a natureza das penas sofridas ali; sao
sofrimentos mais morais do que fí sicos; entretanto existe fogo, embora a alta teologia
reconheça que essa palavra deva ser tomada no sentido figurado e como símbolo da
purificaçao. O ensinamento dos Espí ritos e muito mais explícito a esse respeito; eles
rejeitam — e verdade — o dogma da eternidade das penas (Veja: Inferno, Penas
eternas), eles admitem uma expiaçao temporaria, mais ou menos longa, que, exceto
pelo nome, nao e outra coisa senao o purgatorio. Essa expiaçao se da pelos
sofrimentos morais da alma no estado errante; os Espí ritos errantes estao em todo
lugar: no espaço, ao nosso derredor, assim como a Igreja afirma. Ela admite certas
penas fí sicas no purgatorio; a doutrina espí rita diz que o Espí rito se depura e se purga
de suas impurezas nas existencias corporais; os sofrimentos e as tribulaçoes da vida

42 – Allan Kardec

sao as expiaçoes e as provaçoes pelas quais ele se eleva; disso resulta que aqui na
Terra nos estamos em pleno purgatorio. O que a doutrina catolica deixa vago os
Espí ritos esclarecem precisamente e tornam perceptível ao dedo e ao olho. Os
Espí ritos que sofrem podem dizer entao que — para usarmos nossa linguagem — eles
estao no purgatorio. Se, devido sua inferioridade moral, nao lhes for permitido ver o
fim de seus sofrimentos, eles dirao que estao no Inferno. (Veja: Inferno.)

A igreja admite a eficacia das preces em favor das almas do purgatorio; os
Espí ritos nos dizem que pela oraçao nos chamamos os bons Espí ritos que dao aos
fracos a força moral que lhes falta para suportar as provas. Portanto, os Espíritos
sofredores podem pedir preces, sem que nisso haja qualquer contradiçao com a
doutrina espí rita; ora, pelo que sabemos dos diferentes graus dos Espí ritos, nos
compreendemos que eles possam pedi-las conforme a forma que lhes era familiar
quando estavam vivos. (Veja: Prece.)

A igreja nao admite mais do que uma existencia corporal, apos a qual a sorte do
homem e irrevogavelmente determinada para a eternidade. Os Espí ritos nos dizem
que uma unica existencia — cuja duraçao, frequentemente abreviada por acidentes,
nao e mais passa de um ponto na eternidade — nao basta para a alma se purificar
completamente, e que Deus, na sua justiça, nao condena sem remissao aquele de
quem muitas vezes nao dependeu ser suficientemente esclarecido sobre o bem a ser
praticado; a doutrina dos Espí ritos reserva a alma a faculdade de cumprir numa serie
de existencias aquilo que ela nao poderia realizar em apenas uma: eis aqui a principal
diferença; mas se examinassemos cuidadosamente todos os princípios dogmaticos, e
se sempre colocassemos a parte aquilo que deve ser tomado no sentido figurado,
muitas das aparentes contradiçoes desapareceriam sem duvidas.

Reencarnação [Reincarnation]: retorno do Espí rito a vida corporal.
A reencarnaçao pode acontecer imediatamente apos a morte ou depois de um

lapso de tempo mais ou menos longo durante o qual o Espí rito e errante. Pode ocorrer
nesta Terra ou em outras esferas, mas sempre em corpos humanos, e jamais no de um
animal. A reencarnaçao e progressiva ou estacionaria; jamais e retrograda. Nas suas
novas existencias corporais o Espí rito pode decair como posiçao social, mas nao como
Espí rito; quer dizer, o mestre pode ser rebaixado a serviçal, o prí ncipe a artesao, o rico
a miseravel, enquanto sempre progredindo em ciencia e moralidade; assim, o
criminoso pode se tornar um homem de bem, mas o homem de bem nao pode se
tornar um criminoso.

Os Espí ritos imperfeitos, que ainda estao sob a influencia da materia, nem
sempre tem uma ideia perfeita sobre a reencarnaçao; a maneira como eles a explicam
refletem sua ignorancia e seus preconceitos terrestres, como talvez faria um

43 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

campones a quem fosse perguntado se e a Terra ou o Sol que gira. De suas existencias
anteriores eles so tem uma lembrança confusa, e o futuro para eles e vago (Sabe-se
que a recordaçao das existencias passadas e elucidada a medida que o Espí rito se
depura). Alguns deles ainda falam das esferas concentricas que circundam a Terra e
nas quais, elevando-se gradualmente, o Espí rito chega ao setimo ceu — que para eles
e o apogeu da perfeiçao. Todavia, mesmo em meio a diversidade de expressoes e a
bizarrice da simbologia, uma observaçao atenta revela facilmente um pensamento
dominante: as provas sucessivas que o Espí rito deve cumprir, e os diversos níveis que
ele deve percorrer para chegar a perfeiçao e a suprema felicidade. Com frequencia as
coisas so nos parecem contraditorias porque nao sondamos seu significado interior.

Satanás [Satan] (do hebreu chaitân, adversario, inimigo de Deus): chefe dos demonios.
Esse vocabulo e sinonimo de diabo, com a diferença que esta ultima palavra, mais do
que a primeira, pertence a linguagem popular. Em segundo lugar, conforme a ideia
relacionada a essa palavra, Satanas e um ser unico: o genio do mal, o rival de Deus;
diabo e um termo mais generico, que se aplica a todos os demonios; so ha um Satanas,
mas ha varios diabos. De acordo com a doutrina espí rita, Satanas nao e um ser
distinto, pois Deus nao tem um rival que possa competir com ele de poder em poder;
e a personificaçao alegorica do mal e de todos os Espí ritos maus. (Veja: Diabo,
Demônio.)

Sematologia [Sematologie] (do grego sema, semato, sinal; e logos, discurso):
transmissao do pensamento dos Espí ritos por meio de sinais, tais como batidas,
movimentos de objetos etc. (Veja: Tiptologia.)

Sefatim [Seraphin] (Veja: Anjos.)

Sibila [Sibylles] (do grego eolico sios, usado para théos, Deus; e de léouli, conselho;
conselho divino): profetisas que pronunciavam oraculos e que os antigos acreditavam
serem inspiradas pela Divindade. Deixando de lado o charlatanismo e o prestí gio de
com que eram envolvidas por aqueles que as exploravam, reconhecemos nas sibilas e
nas pitonisas todas as faculdades dos sonambulos, dos extaticos e de certos mediuns.

Silfos, Sílfides [Sylphes, Sylphides]: segundo a mitologia da Idade Media, os silfos eram
os genios do ar, assim como os gnomos eram os da terra e as ondinas eram das aguas.
Eram representados sob uma forma humana semivaporosa, com traços graciosos; as
asas transparentes eram o emblema da rapidez com a qual eles percorriam o espaço;
foi-lhes atribuí do o poder de se tornarem visíveis e invisíveis a vontade; seu carater
era gentil e benevolente. “Voces nao imaginam a multidao de silfos ageis que voces

44 – Allan Kardec

tem as vossas ordens; continuamente ocupados em recolher vossos pensamentos, tao
logo pronunciem uma palavra eles a pegam e vao repeti-la em torno de voces. A
rapidez deles e tao grande que eles percorrem mil passos em um segundo; sao os silfos
de Paracelso15 e de Gabalis16.” (A. Martin17)

A crença nos silfos tem sua origem evidente nas manifestaçoes espí ritas. Eles
sao os Espí ritos de uma ordem inferior, brincalhoes, mas benevolos.

Sonambulismo [Somnambulisme] (do latim somnus, sono; e ambulare, andar, passear):
estado de emancipaçao da alma mais completo que o sonho. (Veja: Sonho.)

O sonho e um sonambulismo imperfeito. No sonambulismo, a lucidez da alma
— quer dizer, a faculdade de ver, que e um dos atributos da sua natureza — e mais
desenvolvido; a alma pode ver as coisas com mais precisao e nitidez, e o corpo pode
agir sob o impulso da vontade da alma.

O total esquecimento ao acordar e um dos sinais caracterí sticos do verdadeiro
sonambulismo, porque entao a independencia da alma e do corpo e mais completa do
que no sonho.

Sonambulismo natural [Somnabulisme naturel]: aquele que e espontaneo e se
produz sem ser provocado e sem a influencia de nenhum agente externo.

Sonambulismo magnético ou artificial [Somnambulisme magnetique ou artificiel]:
aquele que e provocado pela açao que uma pessoa exerce sobre outra atraves do fluido
magnetico que ela derrama sobre a outra.

Sonhos [Reves]: afeito da emancipaçao da alma durante o sono. Quando os sentidos estao
enfraquecidos, os laços que unem o corpo e a alma se afrouxam; tornando-se mais
livre, a alma recupera parcialmente suas faculdades de Espí rito e entra mais
facilmente em comunicaçao com os seres do mundo incorporeo. Ao acordar, a
lembrança que ela conserva do que viu em outros lugares e em outros mundos, ou nas
suas existencias passadas, constitui o sonho propriamente dito. Sendo essa lembrança

15 Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541): médico suíço, alquimista
e teólogo de grande influência para a Renascença alemã. — N. T.
16 Referência à obra Conde de Gabalis, um clássico da literatura francesa do século XVII, cujo teor é um
romance ocultista; foi publicada anonimamente em 1670 e depois atribuída ao abade Montfaucon de
Villars (1635-1673). — N. T.
17 André Martin (1621-1679) foi um padre e filósofo francês, membro da Congregação do Oratório, da
qual foi expulso por ter adotado ideias de Descartes. Ganhou notoriedade principalmente ao publicar a
obra Philosophia moralis Christiana [Filosofia Moral Cristã], pela qual sintetiza o pensamento de Santo
Agostinho sobre diversas questões filosóficas, sendo então censura pela igreja católica. — N. T.

45 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

apenas parcial, quase sempre incompleta e misturada com as memorias de quando
estava acordado, disso resulta em situaçoes de continuidade que quebram a ligaçao
na sequencia dos acontecimentos e produzem esses quadros bizarros que parecem
nao ter sentido, semelhante a uma historia na qual aqui e ali tivessemos fragmentos
truncados de linhas e frases.

Sonilóquio [Somniloquie] (do latim somnus, sono; e loqui, falar): estado de emancipaçao
da alma intermediario entre o sonho e o sonambulismo natural. Aqueles que falam
enquanto sonham sao soní loquos.

Sono magnético [Sommeil magnetique]: agindo sobre o sistema nervoso, o fluido
magnetico produz em determinadas pessoas um efeito que foi comparado com o sono
natural, mas que difere deste essencialmente em varios aspectos. A principal
diferença consiste em que, nesse estado, o pensamento e inteiramente livre, que o
indivíduo tem uma perfeita consciencia de si mesmo, e que o corpo pode agir como
no estado normal, e isso porque a causa fisiologica do sono magnetico nao e a mesma
da causa do sono natural; mas o sono natural e um estado transitorio que sempre
precede o sono magnetico; a passagem de um para o outro estado e um verdadeiro
despertar da alma. E por isso que aqueles sao submetidos pela primeira vez ao
sonambulismo quase sempre respondem não a pergunta: Você está dormindo? E, de
fato, como eles veem e pensam livremente, para eles isso nao e dormir no sentido
comum da palavra.

Sono natural [Sommeil naturel]: suspensao momentanea da vida comum;
entorpecimento dos sentidos durante o qual ficam interrompidas as relaçoes da alma
com o mundo exterior atraves dos orgaos.

Superstição [Superstition]: por mais absurda que seja uma ideia supersticiosa, quase
sempre ela se baseia num fato, mas que a ignorancia a desnaturou, exagerou ou
interpretou falsamente. Seria um erro acreditar que popularizar o conhecimento das
manifestaçoes espí ritas significa propagar as superstiçoes. De duas coisas, uma: ou
esses fenomenos sao uma quimera ou sao reais; no primeiro caso, terí amos razao em
combate-los; mas se eles existirem — tal como a experiencia demonstra —, nada os
impedira de se reproduzirem. Ja que seria uma infantilidade atacar fatos positivos, o
que precisa ser combatido nao sao os fatos, mas sim a falsa interpretaçao que a
ignorancia lhes pode dar. Sem duvidas, nos seculos longí nquos, eles foram a fonte de
uma serie de superstiçao, como todos os fenomenos naturais cuja causa era
desconhecida; o progresso das ciencias positivas fez pouco a pouco desaparecer
alguns deles; a ciencia espí rita, mais bem conhecida, fara desaparecer os demais.

46 – Allan Kardec

Os adversarios do espiritismo se apoiam no perigo para a razao que esses
fenomenos apresentam. Todas as causas que podem assustar as imaginaçoes frageis
podem produzir a loucura; o que e preciso, antes de tudo, e curar o mal do medo.
Agora, a maneira de alcançar isso nao exagerar o perigo, fazendo crer que todas essas
manifestaçoes sejam obra do diabo. Aqueles que propagam essa crença com o objetivo
de desacreditar a coisa estao errando completamente o alvo, primeiro porque atribuir
qualquer coisa aos fenomenos espí ritas e reconhecer a existencia destes fenomenos;
segundo, ao pretender convencer que o diabo seja o seu unico agente, afronta-se
perigosamente a moral de certos indivíduos. Como nao poderemos impedir que as
manifestaçoes se produzam, mesmo com aqueles que nao querem lidar com isso, eles
so verao diabos e demonios ao seu redor, ate nos efeitos mais simples, que tomarao
como manifestaçoes; realmente ha algo aí que pode perturbar o cerebro. Acreditar
nesse medo e propagar o mal do medo, ao inves de cura-lo; aí esta o verdadeiro perigo;
aí esta a superstiçao.

Taumaturgo [Thaumaturge] (do grego thauma, thaumatos, maravilha; e ergon, obra):
fazedor de milagres: sao Gregorio Taumaturgo18. Diz-se as vezes (numa conotaçao
pejorativa) daqueles que a torto e a direito se gaba de ter o poder de produzir
fenomenos fora das leis da natureza; e nesse sentido que algumas pessoas qualificam
Swedenborg19 de taumaturgo.

Telegrafia humana [Telegraphie humaine]: comunicaçao a distancia entre duas
pessoas vivas que se evocam reciprocamente. Essa evocaçao provoca a emancipaçao
da alma (ou, Espí rito encarnado) que vem se manifestar e pode comunicar seu
pensamento pela escrita ou por outro meio. Os Espí ritos nos dizem que a telegrafia
humana um dia sera uma forma comum de comunicaçao — isso quando os homens
forem mais moralizados, menos egoí stas e menos apegados as coisas materiais; ate la,
trata-se de um privilegio das almas de elite.20

Tiptologia [Typtologie] (do grego typto, golpe; e logos, discurso): comunicaçao
inteligente dos Espí ritos por meio de batidas.

18 Gregório de Neocesareia (213-270), bispo cristão do século III, na Anatólia (atual Turquia), conhecido
como o fazedor de milagres. — N. T.
19 Menção a Emanuel Swedenborg (1688-1772), reputado polímata sueco que, depois de se destacar
devido importantes invenções e trabalhos científicos, notabilizou-se pelos seus dons mediúnicos. — N. T.
20 Para a denominação de telegrafia humana, Allan Kardec tomou como analogia a telegrafia elétrica, o
processo de telecomunicações que transmite textos escritos (telegramas) por meio de um código de sinais
(código Morse) através de fios. Posteriormente, os parapsicólogos passariam a chamar essa faculdade
psíquica de telepatia. — N. T.

47 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Tiptologia alfabética: quando os golpes designam as letras do alfabeto cuja
uniao forma as palavras e as frases. Ela pode ser produzida pelos dois processos
descritos logo a seguir:

Tiptologia por movimento: quando os golpes sao desferidos por um objeto
qualquer que se move, por exemplo, uma mesa que bate com seus pes por um
movimento bascular.

Tiptologia interna ou passiva: quando os golpes sao ouvidos na propria
substancia do objeto completamente imovel.

A tiptologia e um processo de comunicaçao muito imperfeito em razao de sua
lentidao, que nao permite desenvolvimentos tao extensos quanto aqueles que podem
ser obtidos pela psicografia ou pela psicofonia. (Veja: Psicografia, Psicofonia.)

Todo universal, o [Tout universel, le]: o grande conjunto. Segundo a opiniao de alguns
filosofos, ha uma alma universal da qual cada um de nos possui uma parcela; com a
morte, todas essas almas particulares retornariam a fonte geral sem conservar sua
individualidade, como os pingos de chuva se confundem nas aguas do Oceano. Essa
fonte comum e para eles o grande conjunto, o todo universal. Essa doutrina seria tao
desesperadora quanto o materialismo, pois, sem individualidade apos a morte, seria
absolutamente como se nao existisse. O espiritismo e a prova patente do contrario.
Mas a ideia do grande todo nao implica necessariamente na da fusao dos seres em um
so. Um soldado que retorna ao seu regimento faz parte de um tudo coletivo e nao deixa
de conservar sua individualidade. E o mesmo caso das almas que retornam ao mundo
dos Espí ritos, que para eles tambem e um todo coletivo: o conjunto universal. E nesse
sentido que deve ser entendido essa expressao na linguagem de certos Espí ritos.

Transmigração [Transmigration] (Veja: Reencarnação, Metempsicose.)

Vidente [Voyant, Voyante]: aquele ou aquela e dotado da segunda vista. Algumas pessoas
designam sob esse nome os sonambulos magneticos para melhor caracterizar a sua
lucidez. Essa palavra, nesta ultima acepçao, nao e muito melhor do que o termo
invisível aplicado aos Espí ritos; ela tem o inconveniente de nao ser especí fica para o
estado sonambulico. Quando ja temos um vocabulo para representar uma ideia, e
superfluo criar outro. E preciso evitar principalmente deturpar as palavras do
significado habitual.

Visão [Vision] (Veja: Aparição.)

Visionário [Visionnaire]: quem erroneamente acredita ter visoes, revelaçoes; no sentido
figurado: quem tem ideias loucas e quimericas (Academia). Essa palavra serviria
perfeitamente para designar as pessoas dotadas da segunda vista, e que tem visoes

48 – Allan Kardec

verdadeiras, se ela nao fosse consagrada a tomar numa conotaçao pejorativa.
Entretanto, a necessidade de uma palavra especial para definir tais pessoas e
evidente. (Veja: Vidente.)

Vista, segunda [Vue, segunda]: efeito da emancipaçao da alma que se manifesta em
estado desperto; faculdade de ver as coisas ausentes como se elas estivessem
presentes. Aqueles que sao dotados dessa capacidade nao veem pelos olhos, mas sim
pela alma, que capta a imagem dos objetos de qualquer lugar para onde a alma se
transporta, e como por um tipo de miragem. Essa aptidao nao e permanente; certas
pessoas a possuem sem saber; para estas, parece um efeito natural, e produz aquilo
que chamamos de visoes.

49 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

QUADRO S INÓPTICO

DA NOMENCLATURA ESPECIAL ESPÍRITA

DOUTRINA MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS
Espiritismo Ocultas
Espiritista Patentes
Espírita Físicas
Espiritualismo Inteligentes
Espiritualista Vaporosas ou etereas

Aparentes
Tangíveis ou estereotites

ESPÍRITOS Espontaneas

Natureza íntima dos Espíritos Provocadas

Espírito elementar
Perispírito COMUNICAÇÕES

Comunicaçoes frívolas
Estado dos Espíritos Comunicaçoes grosseiras
Encarnaçao Comunicaçoes serias
Erraticidade Comunicaçoes instrutivas
Pureza absoluta

Modos de comunicações
Escala espírita, Sematologia

ou diferentes ordens dos Espíritos Por movimento

1ª ordem:  =  1ª classe: Espíritos puros Tiptologia      Interna 


                                          2ª classe: Espíritos superiores                           Alfabetica 

               2ª ordem:        3ª classe: Espíritos sabios  Direta 
      Bons Espíritos        4ª classe: Espíritos instruídos Psicografia  Indireta 


                                          5ª classe: Espíritos benevolentes 

Pneumatografia
6ª classe: Espíritos neutros Pneumatofonia
3ª ordem: 7ª classe: Espíritos pseudossabios Psicofonia
Espíritos imperfeitos 8ª classe: Espíritos levianos Telegrafia humana
9ª classe: Espíritos impuros
MÉDIUNS

EMANCIPAÇÃO DA ALMA Ou agentes das manifestações
Ou do Espírito encarnado

Naturais
Sonho Mediuns

Facultativos
Sonambulismo natural

Sonambulismo artificial ou magnetico Mediuns motores

Extase de influencias tiptologos

Visao ou segunda vista físicas de apariçoes

                            escreventes ou psicografos 
                            pneumatografos 
                            desenhistas 
  Mediuns         musicistas 
             de          falantes 

Influencias videntes
Morais formadores
Inspirados
de pressentimentos
sensitivos ou impressionaveis

CAPÍTULO PRIMEIRO

ESCALA ESPÍRITA

De todos os princípios fundamentais da doutrina espírita, um dos mais
importantes e sem duvidas o que estabelece as diferentes ordens de Espíritos.
No começo das manifestaçoes, imaginava-se que um ser — pelo proprio fato de
ser um Espírito — devia ter a ciencia infusa e a suprema sabedoria, e muita
gente acreditava ter um meio infalível de adivinhaçao; esse erro deu origem a
varios equívocos. A experiencia logo revelou que o mundo invisível esta longe
de ter so Espíritos superiores; eles mesmos nos ensinaram que nao sao todos
iguais nem em conhecimento nem em moralidade, e que sua elevaçao depende
do grau de perfeiçao ao qual chegaram; eles traçaram as características
distintivas desses diferentes níveis que constituem no que nos chamamos de
Escala espírita. Desde entao, a diversidade e as contradiçoes de sua linguagem
foram esclarecidas, e compreendemos que, tanto entre os Espíritos como entre
os homens, para se saber algo nao basta se dirigir ao primeiro que apareça.

Esta escala nos da entao a chave de uma serie de fenomenos e de
anomalias aparentes que seria difícil — senao impossível — entendermos sem
ela. Esta escala tambem nos interessa pessoalmente porque, por nossa alma,
nos pertencemos ao mundo espírita, ao qual retornaremos ao deixar a vida
corporal, e porque assim ela nos mostra o caminho a seguir para chegarmos a
perfeiçao e ao bem supremo.

Do ponto de vista da ciencia pratica, ela nos da um meio de julgar os
Espíritos que se apresentam nas manifestaçoes, e de apreciar o grau de
confiança que a sua linguagem deve nos inspirar. Esse estudo requer uma
observaçao atenta e continuada; se e preciso tempo e experiencia para
aprendermos e conhecer os homens, nao e preciso menos para aprendermos a

51 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

conhecer os Espíritos.
A escala espírita contem tres ordens principais indicadas pelos Espíritos

e perfeitamente caracterizadas. Como cada uma dessas ordens apresenta
diversas nuances, nos as subdividimos em varias classes designadas pela
peculiaridade dominante dos Espíritos que delas fazem parte. A proposito, essa
classificaçao nao tem nada de absoluta; cada categoria nao oferece mais do que
um traço marcante no seu conjunto, mas de um nível para outro a gradaçao vais
se esmaecendo como nos reinos da natureza, como nas cores do arco-íris, ou
ainda como nos diferentes períodos da vida. De vinte a quarenta anos o homem
experimenta uma mudança notavel; aos vinte anos, ele e um jovem; aos
quarenta, e um adulto feito; mas entre essas duas fases da vida, seria impossível
estabelecer uma linha de demarcaçao, e dizer onde acaba um e onde começa a
outra. Acontece o mesmo com os graus da escala espírita. Destacaremos
tambem que os Espíritos nao pertencem sempre exclusivamente a esta ou
aquela classe; o progresso deles so se realiza gradualmente e muitas vezes mais
num aspecto do que noutro. Eles podem reunir características de varias
categorias, o que e facil de reconhecer pela sua linguagem e pelos seus atos.

Iniciaremos a escala pelas ordens inferiores, porque esse e o ponto de
partida dos Espíritos que se elevam paulatinamente das ultimas faixas ate as
primeiras.

TERCEIRA ORDEM – ESPÍRITOS IMPERFEITOS

Características gerais — Predominancia da materia sobre o Espírito.
Propensao ao mal. Ignorancia, orgulho, egoísmo e todas as mas paixoes que daí
resultam.

Eles tem a intuiçao de Deus, mas nao o compreendem.
Nem todos sao essencialmente maus; alguns dentre eles tem mais de

leviandade, de inconsequencia e de malícia do que de verdadeira maldade.
Alguns nao fazem nem o bem nem o mal; mas so em nao fazendo o bem, eles ja
denotam sua inferioridade. Outros, ao contrario, se comprazem com o mal e
ficam satisfeitos quando encontram a oportunidade de praticar a maldade. Eles

52 – Allan Kardec

podem aliar inteligencia com a malvadeza ou com a malícia; porem, qualquer
que seja seu desenvolvimento intelectual, suas ideias sao pouco elevadas e seus
sentimentos sao mais ou menos desprezíveis.

Seus conhecimentos sobre as coisas do mundo espírita sao limitados, e o
pouco que eles sabem se confunde com as ideias e os preconceitos da vida
corporal. Eles nao podem nos dar senao noçoes erroneas e incompletas sobre
essas coisas; mas o observador atento frequentemente encontra nas
comunicaçoes desses Espíritos — mesmo que sejam imperfeitas — a
confirmaçao das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos superiores.

O carater deles se revela pela sua linguagem. Todo Espírito que nas suas
comunicaçoes trai um mau pensamento, pode ser colocado na terceira ordem;
como consequencia, todo mau pensamento que nos e sugerido vem de um
Espírito dessa ordem.

Eles guardam a lembrança e a percepçao dos sofrimentos da vida
corporal, e essa impressao muitas vezes e mais dolorosa que a realidade.
Portanto, eles sofrem verdadeiramente, tanto pelos males que sofreram quanto
pelos males que fizeram outros sofrerem; e como sofrem por um longo tempo,
eles acreditam que vao sofrer para sempre. Deus, para puni-los, quer que eles
pensem assim.

Podemos dividi-los em quatro grupos principais:21

Nona classe: ESPÍRITOS IMPUROS — Sao inclinados ao mal, de que fazem
o objeto de suas preocupaçoes. Como Espíritos, eles dao conselhos traiçoeiros,
sopram a discordia e a desconfiança, e se mascaram de todas as maneiras para
melhor enganar. Ligam-se aos homens de carater bastante fraco para cederem
as suas sugestoes a fim de leva-los a perdiçao, satisfeitos de poderem retardar
o seu adiantamento, fazendo-os cair nas provas a que se submetem.

Nas manifestaçoes, nos os reconhecemos pela sua linguagem; a

21 Posteriormente, o autor editou essa divisão acrescentando uma classe à terceira ordem dos Espíritos
e, com isso, renumerando as classes desta versão anterior: a nona passaria a ser a décima, a oitava classe
passou a ser a nona, a sétima ficou sendo a oitava e a sexta passou a ser a sétima; para a sexta posição (a
nova classe) Allan Kardec colocou os “Espíritos batedores e perturbadores”. As classes seguintes
permanecerem sem alteração, e desta forma concretizou-se a versão definitiva da Escala Espírita, que
aparece a partir da segunda edição de O Livro dos Espíritos (1860). — N. T.

53 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

banalidade e a grosseria das expressoes — tanto nos Espíritos quanto nos
homens — e sempre um indício de inferioridade moral, quando nao intelectual.
Suas comunicaçoes denotam a baixeza de suas inclinaçoes e, se tentam iludir,
falando de uma maneira sensata, nao conseguem sustentar por muito tempo o
seu papel e acabam sempre traindo sua origem.

Alguns povos fizeram deles divindades maleficas, outros os designam
pelos nomes de demonios, maus genios e Espíritos do mal.

Quando estao encarnados, os seres viventes que eles animam sao
propensos a todos os vícios que geram as paixoes vis e degradantes:
sensualidade, crueldade, falsidade, hipocrisia, ganancia, avareza desprezível.
Eles fazem o mal por prazer, muitas das vezes sem motivo, e por odio ao bem
quase sempre escolhem suas vítimas entre as pessoas honestas. Sao flagelos
para a humanidade, qualquer que seja a faixa social a que pertençam, e o verniz
da civilizaçao nao os livra da vergonha e da desonra.

Oitava classe: ESPÍRITOS LEVIANOS — Sao ignorantes, maliciosos,
inconsequentes e zombeteiros. Metem-se em tudo e respondem a tudo sem se
importarem com a verdade. Deleitam-se em causar pequenos males e pequenos
gozos, em causar aborrecimentos, em induzir maliciosamente ao erro por meio
de mistificaçoes e de travessuras. A esta classe pertencem os Espíritos
vulgarmente designados pelos nomes de diabretes, lutins, gnomos, duendes.
Eles estao sob a dependencia de Espíritos superiores, que muitas vezes se
servem deles, como fazemos com os nossos empregados.

Eles parecem, mais do que os outros, apegados a materia, e parecem ser
os principais causadores das transformaçoes dos elementos do globo — quer
habitem o ar, a agua, o fogo, os corpos solidos ou as entranhas da Terra.
Manifestam sua presença pelos efeitos sensíveis, tais como batidas, movimento
e deslocamento anormal de objetos solidos, agitaçao do ar etc. — o que deu a
eles o nome de Espíritos batedores ou perturbadores. Reconhecemos que esses
fenomenos nao se devem a uma causa fortuita e natural, quando eles tem um
carater intencional e inteligente. Todos os Espíritos podem produzir esses
fenomenos, mas os Espíritos elevados geralmente os entregam aos cuidados
dos Espíritos inferiores, mais aptos as coisas materiais do que as coisas

54 – Allan Kardec

intelectuais.22
Em suas comunicaçoes com os homens, a linguagem deles e muitas vezes

espirituosa e jocosa, mas quase sempre sem profundidade; aproveitam-se das
esquisitices e das tolices que eles expressam em traços mordazes e satíricos.
Quando usam supostos nomes, e mais por malícia do que por maldade.

Sétima classe: ESPÍRITOS PSEUDOSSÁBIOS — Seus conhecimentos sao
bastante amplos, porem creem saber mais do que realmente sabem. Tendo
realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles
aparenta um carater serio que pode iludir quanto as suas capacidades e luzes;
mas na maioria das vezes isso nao passa de um reflexo dos preconceitos e ideias
sistematicas da vida terrestre; e uma mistura de algumas verdades com os
erros mais absurdos, no meio dos quais penetram a presunçao, o orgulho, o
ciume e a obstinaçao de que ainda nao puderam se livrara.

Sexta classe: ESPÍRITOS NEUTROS — Estes nao sao nem bastante bons
para fazer o bem, nem bastante maus para fazer o mal; pendem tanto para um
como para o outro e nao ultrapassam a condiçao comum da humanidade, seja
para a moral, seja para a inteligencia. Apegam-se as coisas deste mundo, dentre
as quais eles sentem falta das grosseiras alegrias.

SEGUNDA ORDEM – BONS ESPÍRITOS

Características gerais — Predominancia do Espírito sobre a materia;
desejo do bem. Suas qualidades e seu poder de fazer o bem sao proporcionais
ao grau que tenham alcançado: uns tem a ciencia, outros a sabedoria e a
bondade; os mais avançados reunem o saber as qualidades morais. Nao estando
ainda completamente desmaterializados, conforme sua categoria, eles
conservam mais ou menos os traços da existencia corporal, assim na forma da
linguagem como nos seus habitos, entre os quais se encontram mesmo algumas

22 Justamente as características definidas neste parágrafo acabaram compondo o aspecto geral da
categoria de “Espíritos batedores e perturbadores” que futuramente, na versão definitiva da Escala
Espírita, iria figurar a sexta classe, dentro da Terceira Ordem de Espíritos. — N. T.

55 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

de suas manias; de outro modo, eles seriam Espíritos perfeitos.
Compreendem Deus e o infinito e ja gozam da felicidade dos bons. Sao

felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une e para
eles a fonte de uma indescritível felicidade que nao e alterada nem pela inveja,
nem pelos remorsos, nem por nenhuma das mas paixoes que sao o tormento
dos Espíritos imperfeitos; mas todos ainda tem que passar por provas, ate que
atinjam a perfeiçao absoluta.

Como Espíritos, eles inspiram bons pensamentos, desviam os homens da
senda do mal, protegem na vida aqueles que se mostram dignos dessa proteçao
e neutralizam a influencia dos Espíritos imperfeitos naqueles que nao se
comprazem em se submeterem a ela.

Dentre estes, os que estao encarnados sao bondosos e benevolentes para
com os seus semelhantes; nao sao movidos nem pelo orgulho, nem pelo
egoísmo, nem pela ambiçao; nao experimentam nem o odio, nem o rancor, nem
a inveja e nem o ciume; eles fazem o bem pelo bem.

A esta ordem pertencem os Espíritos designados nas crenças comuns
pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em epocas
de superstiçoes e de ignorancia, eles sao tomados como divindades benfeitoras.

Podemos dividi-los em quatro grupos principais:

Quinta classe: ESPÍRITOS BENEVOLENTES — Sua qualidade dominante e a
bondade; eles se alegram em prestar serviço aos homens e lhes proteger, porem
seu saber e limitado: seu progresso e mais desenvolvido no sentido moral do
que no sentido intelectual.

Quarta classe: ESPÍRITOS INSTRUÍDOS — O que principalmente os
distingue e a amplitude de seus conhecimentos. Estes se preocupam menos
com as questoes morais do que com as questoes científicas, para as quais eles
tem maior aptidao; entretanto, so encaram a ciencia do ponto de vista da sua
utilidade e jamais dominados por quaisquer paixoes que sao proprias dos
Espíritos imperfeitos.

Terceira classe: ESPÍRITOS SÁBIOS — As qualidades morais da ordem
mais elevada formam seu carater distintivo. Sem possuírem conhecimentos

56 – Allan Kardec

ilimitados, eles sao dotados de uma capacidade intelectual que lhes permite um
julgamento correto a respeito dos homens e das coisas.

Segunda classe: ESPÍRITOS SUPERIORES — Eles reunem a ciencia, a
sabedoria e a bondade. Sua linguagem so exala benevolencia; e uma linguagem
constantemente digna, elevada e por vezes sublime. Sua superioridade lhes
torna mais aptos do que os outros a nos dar noçoes mais justas sobre as coisas
do mundo incorporeo, dentro dos limites do que e permitido ao homem saber.
Comunicam-se voluntariamente com aqueles que procuram a verdade de boa-
fe e cuja alma ja esta bastante desprendida das ligaçoes terrenas para
compreende-la; porem, afastam-se daqueles que sao animados apenas pela
curiosidade ou que, por influencia da materia, transviam-se da pratica do bem.

Quando excepcionalmente se encarnam na Terra, e para nela cumprir uma
missao de progresso e entao nos oferecem o tipo da perfeiçao a qual a
humanidade pode aspirar neste mundo.

PRIMEIRA ORDEM – ESPÍRITOS PUROS

Características gerais — Nenhuma influencia da materia. Absoluta
superioridade intelectual e moral em relaçao aos Espíritos das outras ordens.

Primeira classe: Classe única — Eles ja percorreram todos os graus da
escala e se depuraram de todas as impurezas da materia. Tendo alcançado a
soma de perfeiçao de que a criatura e capaz, estes nao tem mais que sofrer nem
provas nem expiaçoes. Nao estando mais sujeitos a reencarnaçao em corpos
perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.

Desfrutam de uma felicidade inalteravel, porque nao estao sujeitos nem
as necessidades nem as vicissitudes da vida material; contudo, essa felicidade
nao e aquela de uma ociosidade monótona passada em uma perpétua
contemplação. Eles sao os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens
eles executam para manutençao da harmonia universal. Comandam a todos os
Espíritos que lhes sao inferiores, ajudam-lhes a se aperfeiçoarem e lhes
designam suas missoes. Auxiliar os homens nas suas afliçoes, incentiva-los ao

57 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

bem ou a expiaçao das faltas que os distanciam da suprema felicidade: eis para
eles uma grata ocupaçao. Sao chamados as vezes pelos nomes de anjos,
arcanjos ou serafins.

Os homens podem entrar em comunicaçao com eles, mas seria muito
presunçoso aquele que pretendesse te-los constantemente as suas ordens.

Algumas pessoas erroneamente os designam pela expressao Espíritos
incriados. Os Espíritos incriados seriam desde toda a eternidade, como Deus;
ora, se os seres pudessem existir no universo sem a vontade de Deus, entao
Deus nao teria a onipotencia. Os Espíritos usaram essa expressao, mas nao
neste sentido; com isso, eles queriam dizer Espíritos que nao mais encarnarao
e que, desse ponto de vista, nao mais serao criados como homens. O termo e
improprio, porque da origem a uma interpretaçao falsa; esta e a desvantagem
de se apegar a letra sem examinar o conceito. (Veja. Anjo.)

58 – Allan Kardec

CAPÍTULO II

MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS

Ação oculta

Os Espíritos normalmente agem sobre o nosso pensamento sem sabermos
disso; eles nos induzem a fazer isto ou aquilo; nos achamos que estamos agindo
por nossa propria vontade, mas nao fazemos mais do que ceder a uma sugestao
estranha.

Nao devemos inferir daí que nos nao temos iniciativa, longe disso: o
Espírito encarnado sempre teu o seu livre-arbítrio; no final das contas cada um
faz o que bem quer e frequentemente segue o seu impulso pessoal. Para
entendermos como as coisas se passam, precisamos imaginar nossa alma
desprendida dos laços pela emancipaçao, o que sempre ocorre durante o sono,
que haja sonhos ou nao; todas as vezes que aconteça um afrouxamento dos
sentidos, e algumas vezes ate mesmo enquanto acordados. Entao a alma entre
em comunicaçao com os outros Espíritos, como qualquer que saísse de casa
para ir visitar os vizinhos (queiram nos permitir essa comparaçao comum).
Assim se estabelece entre eles um tipo de conversa, ou, falando mais
precisamente, uma troca de pensamentos. A influencia do outro Espírito nao e
exatamente uma coaçao, mas uma especie de conselho que ele da a nossa alma,
conselho esse que pode ser mais ou menos sabio conforme a natureza do
Espírito, e o qual a alma e livre para seguir ou rejeitar, mas que ela pode melhor
avaliar quando nao esta mais sob o imperio das ideias que a vida de
relacionamentos suscita; e por isso que — dizem — a noite e uma boa
conselheira.

59 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Nem sempre e facil distinguir o pensamento sugerido do pensamento
pessoal, porque com frequencia eles se confundem; no entanto, acredita-se que
ele nos vem de uma fonte externa quando e espontaneo, quando surge em nos
como inspiraçao e quando esta em oposiçao ao nosso modo de ver. Nosso senso
crítico e a nossa consciencia nos permitem saber se ele e bom ou ruim.

Manifestações patentes

As manifestaçoes patentes diferem-se das manifestaçoes ocultas porque
elas sao captadas pelos nossos sentidos; constituem, propriamente falando,
todos os fenomenos espíritas que se apresentam a nos sob variadas formas.

Manifestações físicas

Nomeamos desta maneira as manifestaçoes que se limitam aos
fenomenos materiais, tais como os ruídos e o movimento e deslocamento de
objetos. Na maioria das vezes eles nao tem nenhum sentido direto; seu
proposito e chamar nossa atençao para alguma coisa e para nos convencer da
presença de uma potencia superior ao homem. Para muitas pessoas, esse tipo
de manifestaçoes e so um objeto de curiosidade; para o observador, e no
mínimo a revelaçao de uma força desconhecida, em todo caso, digna de um
estudo serio.

Os efeitos mais simples desse genero sao as batidas sem uma causa
evidente conhecida e o movimento circular de uma mesa, ou de um objeto
qualquer, com ou sem a imposiçao das maos; mas eles podem tomar
proporçoes bem mais estranhas: as pancadas algumas vezes sao ouvidas por
todo lado e com uma intensidade que acabam em um verdadeiro alvoroço;
moveis sao deslocados, revirados e levantados; objetos sao transportados de
um lugar para outro a vista de todo mundo, cortinas sao puxadas, cobertas
arrancadas das camas, campainhas sao tocadas… Compreendemos que quando

60 – Allan Kardec

tais fenomenos se produzem, certas pessoas tenham lhes atribuído uma origem
diabolica; porem, um estudo atento fez justiça a essa crença supersticiosa.
Voltaremos a este tema logo mais.

Manifestações inteligentes

Se os fenomenos de que acabamos de falar tivessem se limitado aos efeitos
materiais, nao ha duvida de que eles poderiam ter sido atribuídos a uma causa
puramente física, a açao de algum fluido cujas propriedades ainda nao sao
conhecidas para nos. Ja nao seria o mesmo quando eles dessem sinais
incontestaveis de inteligencia; ora, se todo efeito tem uma causa, todo efeito
inteligente deve ter uma causa inteligente. Num objeto que se mexe, e facil
reconhecer entre um movimento meramente mecanico e um movimento
intencional. Se — por ruído ou por movimento — esse objeto faz um sinal, e
evidente que ha intervençao de uma inteligencia. Ja que a razao nos diz que nao
e o objeto material em si que e inteligente, entao concluímos que ele e movido
por uma causa inteligente estranha; e o caso dos fenomenos que estudamos.

Se as manifestaçoes puramente físicas de que acabamos de falar sao
capazes de cativar o nosso interesse, sao muito mais ainda quando elas nos
revelam a presença de uma inteligencia oculta, pois entao nao e mais
simplesmente um corpo inerte que temos diante de nos, mas um ser capaz de
nos entender e com o qual podemos fazer uma troca de ideias. Desde entao se
concebe que o modo de experimentaçao deve ser totalmente diferente daquele
que se tratasse de um fenomeno puramente material, e que os procedimentos
comuns de laboratorio sao incapazes de dar conta dos fatos que pertencem a
uma ordem intelectual. Aqui nao se trata mais de uma questao de analises nem
de calculos matematicos de forças; ora, e exatamente nesse erro que a maior
parte dos estudiosos cai; eles acreditavam estar na presença de um desses
fenomenos que a ciencia reproduz a qualquer momento e sob o qual poderiam
agir como se fosse um sal ou um gas; isso nao diminui em nada o saber deles;
nos apenas dizemos que eles se equivocaram ao crer que podiam meter os

61 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Espíritos num tubo de laboratorio, o espírito do vinho, e que os fenomenos
espíritas nao sao da alçada da ciencia mais do que as questoes de teologia ou
da metafísica.

Manifestações aparentes

As manifestaçoes aparentes mais comuns ocorrem durante o sono,
atraves dos sonhos: sao as visoes. Os sonhos jamais foram explicados pela
ciencia; ela acreditava ter dito tudo ao atribuí-los a um efeito da imaginaçao,
mas nao nos diz o que e a imaginaçao, nem como ela produz essas imagens tao
claras e tao nítidas que as vezes nos aparecem; isso e explicar uma coisa que
nao e conhecida por outra que tambem e desconhecida; portanto, a questao
permanece insoluvel. Dizem que e uma lembrança das preocupaçoes da
vespera; mas, mesmo admitindo essa soluçao — que nao e uma soluçao —,
restaria ainda saber qual e esse espelho magico que desse modo conserva a
impressao das coisas; como explicar sobretudo essas visoes das coisas reais
que jamais vimos em estado desperto e nas quais nos nunca sequer pensamos?
Somente o espiritismo poderia nos dar a chave desse fenomeno bizarro que
passa desapercebido por causa de sua propria simplicidade, como todas as
maravilhas da natureza que temos sob nossos pes.23 Nao esta no escopo dessa
obra examinar todas as particularidades que os sonhos podem apresentar;
resumiremos tudo dizendo que eles podem ser: uma visao atual das coisas
presentes ou ausentes; uma visao retrospectiva do passado, e, em alguns casos
excepcionais, um pressentimento do futuro. Muitas vezes tambem sao quadros
simbolicos que os Espíritos fazem passar sob nossos olhos para nos dar avisos
uteis e conselhos salutares — caso sejam Espíritos bons; ou para nos induzir ao
erro e incitar nossas paixoes — se forem Espíritos imperfeitos.

As pessoas que nos vemos nos sonhos sao, portanto, verdadeiras visoes;
se sonhamos mais frequentemente com aqueles com quem nos preocupamos,

23 Ver a palavra sonho no vocabulário.

62 – Allan Kardec

e porque o pensamento e um modo de evocaçao, e porque atraves dele
chamamos ate nos o Espírito dessas pessoas — estejam elas mortas ou vivas.

Acreditamos que seria um insulto ao bom senso dos nossos leitores
refutar tudo aquilo que ha de absurdo e de ridículo no que vulgarmente se
chama de interpretaçao dos sonhos.

As apariçoes propriamente ditas se dao em estado de vigília e quando se
goza da plenitude e inteira liberdade das suas faculdades. E sem duvidas o
genero de manifestaçao mais apropriada a despertar a curiosidade, mas e
tambem a menos facil de ser obtida. Os Espíritos podem se manifestar
ostensivamente de varias maneiras; as vezes e sob a forma de chamas sutis ou
de luzes mais ou menos brilhantes que nao tem nenhuma semelhança — nem
pelo seu aspecto nem pelas circunstancias nas quais elas se produzem — com
os fogos-fatuos24 ou com outros fenomenos físicos cuja causa ja esta
perfeitamente explicada. Doutras vezes, eles assumem as feiçoes de uma
pessoa conhecida ou desconhecida, sobre cuja individualidade podemos nos
confundir conforme as ideias de que estamos imbuídos. E entao uma imagem
vaporosa, eterea, que nao encontra nenhum obstaculo nos corpos solidos. Os
fatos desse tipo sao numerosos; mas antes de atribui-los a imaginaçao ou a
fraude, e preciso levar em conta as circunstancias nas quais eles sao
produzidos, da posiçao e principalmente do carater do narrador.

Em determinados casos, a apariçao se torna tangível, isto e, ela adquire
momentaneamente, e sob a força de certas circunstancias, as propriedades da
materia solida. Nao e mais pelos olhos que se entra em contato com a realidade,
mas pelo toque. Se era possível atribuir a apariçao puramente visual a ilusao ou
a um tipo de fascinaçao, a duvida ja nao e mais permitida desde quando voce
pode toca-la, pega-la, apalpa-la; quando ela mesma te agarra e te abraça.25

24 Fogo-fátuo: fenômeno natural que produz uma luminosidade, geralmente emanada de superfícies
aquosas ou de sepulturas, cuja causa é atribuída à combustão de gases provenientes da decomposição de
matérias orgânicas. — N. T.

25 Veja na Revista Espírita do mês de março, abril e maio de 1858, a narração e as explicações das
manifestações desse gênero.

63 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Manifestações espontâneas

A maioria dos fenomenos de que acabamos de falar — principalmente as
que pertencem ao genero das manifestaçoes físicas e aparentes — podem se
reproduzir espontaneamente, quer dizer, sem que a vontade tenha participaçao
neles. Em outras circunstancias, eles podem ser provocados pela vontade de
indivíduos ditos mediuns, dotados de um poder especial para isso.

As manifestaçoes desse genero nao sao nem raras nem novas; poucas
cronicas locais nao contem alguma historia desse genero. O medo
indubitavelmente tem exagerado muitas vezes os fatos que, passando de boca
em boca, tomaram proporçoes gigantescamente ridículas; com a ajuda da
superstiçao, as casas onde esses fatos tem ocorrido foram reputadas como
assombradas pelo diabo, e daí todos vem os contos maravilhosos ou
assustadores de fantasmas. Por sua vez, a astucia nao deixou escapar tao bela
ocasiao de explorar a credulidade, e isso frequentemente em proveito de
interesses pessoais. De resto, concebemos a impressao que os fatos desse tipo
podem produzir, mesmo reduzidos a realidade, em pessoas de carater fraco e
predispostas pela instruçao as ideias supersticiosas. O meio mais seguro de
prevenir os inconvenientes que esses fatos possam ter — ja que nao se pode
impedi-los — consiste em ensinar a verdade. As mais simples se tornam
assustadoras quando a causa e desconhecida. Quando todos estiverem
familiarizados com os Espíritos, e quando as pessoas a quem eles se
manifestam ja nao mais acreditem que ter uma legiao de demonios nos seus
calcanhares, entao ninguem mais tera medo dos Espíritos.

As manifestaçoes espontaneas raramente se produzem em lugares
isolados, pois e quase sempre nas casas habitadas onde elas ocorrem, e pelo
fato da presença de certos indivíduos que exercem uma influencia involuntaria;
esses indivíduos sao verdadeiros mediuns, sem saberem disso, e que por essa
razao nos os chamamos de médiuns naturais. Com relaçao aos outros
mediuns, eles sao o que os sonambulos naturais sao para os sonambulos
magneticos, e igualmente tao curiosos de se observar: e por isso que
incentivamos as pessoas que lidam com os fenomenos espíritas a recolherem

64 – Allan Kardec

todos os fatos desse genero que venham ao seu conhecimento, mas sobretudo
a constatarem com cuidado a realidade deles, para evitar de serem vítimas da
ilusao ou da fraude — o que evitarao por uma observaçao cuidadosa.

Devemos ficar atentos, nao somente contra relatos que possam estar
minimamente contaminadas pelo exagero, mas tambem contra as proprias
impressoes, para nao atribuirmos uma origem oculta a tudo o que nao
compreendemos. Uma infinidade de causas muito simples e muito naturais
pode produzir efeitos estranhos a primeira vista, e seria uma verdadeira
superstiçao ver por toda parte Espíritos ocupados em revirar moveis, quebrar
louças e, enfim, suscitar as mil e uma importunaçoes domesticas que e mais
racional atribuirmos a falta de jeito. O que e preciso fazer em tal caso e
investigar a causa, e pode apostar cem contra um que descobriríamos uma
causa bem simples onde se pensaria ter relaçao com algum Espírito
perturbador. Quando ocorre um fenomeno inexplicavel, a primeira ideia que
devemos ter e que ele se deve a uma causa material, porque e a mais provavel,
e so admitir a intervençao dos Espíritos com sensatez. Aquele que, por exemplo,
sem estar proximo de ninguem, recebesse uma bofetada ou uma bengalada nas
costas, como tem acontecido, nao poderia duvidar da presença de um ser
invisível.

De todas as manifestaçoes espíritas, as mais simples e as mais frequentes
sao os ruídos e as pancadas; e aqui principalmente que se deve temer a ilusao,
pois uma serie de causas naturais pode produzi-los: o vento que sibila ou agita
um objeto, algo que nos mesmos movemos sem percebermos, um efeito
acustico, um animal escondido, um inseto etc., ou mesmo as travessuras dos
brincalhoes de mau gosto. Alias, os ruídos espíritas tem uma característica
especial: tudo neles revela uma intensidade e um timbre muito variado que os
tornam facilmente reconhecíveis e nao permitem que sejam confundidos com
os estalos da madeira, com as crepitaçoes do fogo ou com o tique-taque
monotono do pendulo de um relogio; algumas vezes sao batidas secas, surdas,
fracas e leves, e noutras vezes claras, distintas e as vezes retumbantes, que
mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade mecanica. De todos
os meios de verificaçao, o mais eficaz — aquele que nao pode deixar duvida

65 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

quanto a origem do fenomeno — e a obediencia a vontade. Se as pancadas sao
ouvidas num lugar designado, se elas respondem ao pensamento pela
quantidade ou pela intensidade, entao nao se pode deixar de reconhecer nelas
uma causa inteligente; todavia, a falta de obediencia nem sempre significa uma
prova contraria.

Agora, vamos admitir que, por uma constataçao minuciosa, se adquira a
certeza de que os ruídos e todos os outros efeitos sejam manifestaçoes reais:
seria racional ter medo delas? Nao, certamente, porque nao ha em nenhum caso
o menor perigo; somente aqueles que estao convencidos de que e o diabo
podem ser afetados de uma maneira tao lamentavel — como as crianças a quem
se mete medo do lobisomem ou do bicho-papao. E preciso convir que essas
manifestaçoes as vezes tomam proporçoes e uma persistencia desagradaveis,
das quais temos o desejo muito natural de nos livrarmos. Uma explicaçao se faz
necessaria sobre esta questao.

Temos dito que as manifestaçoes físicas tem por objetivo chamar nossa
atençao para alguma coisa e nos convencer da presença de uma força superior
ao homem. Tambem dissemos que os Espíritos elevados nao se ocupam com
manifestaçoes desse tipo; eles se servem dos Espíritos inferiores para produzi-
las, como nos servimos dos empregados para os trabalhos pesados, e isso com
o proposito que acabamos de indicar. Depois de atingir esse proposito, a
manifestaçao material cessa, porque ela deixa de ser necessaria. Um ou dois
exemplos farao melhor compreender a coisa. No início dos meus estudos sobre
o espiritismo, estando certa noite ocupado com um trabalho referente a esta
materia, pancadas se fizeram ouvir em torno de mim durante quatro horas
consecutivas; era a primeira vez que tal coisa me acontecia; certifiquei-me de
elas nao tinham nenhuma causa acidental, mas naquele momento, nao pude
saber mais a respeito. Nessa epoca, eu tinha a oportunidade de ver
frequentemente um excelente medium escrevente. Logo no dia seguinte, eu
interroguei o Espírito que comunicava pelo seu intermedio sobre a causa
daquelas batidas. Foi-me respondido: Era o teu Espírito familiar que desejava
falar contigo. — E o que ele queria me dizer? Resposta: Pode perguntar a ele
mesmo, pois ele esta aqui. — Tendo entao interrogado esse Espírito, ele se

66 – Allan Kardec

apresentou sob um nome alegorico (eu soube depois, por outros Espíritos, que
era aquele de um ilustre filosofo da Antiguidade); ele me apontou erros no meu
trabalho, indicando-me as linhas onde estavam esses erros; deu-me uteis e
sabios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e viria ao meu
chamado todas as vezes que eu quisesse interroga-lo. Desde entao, de fato, esse
Espírito nunca mais me deixou. Ele me deu muitas provas de uma grande
superioridade e sua intervençao benevolente e eficaz ficou evidente para mim,
tanto nos assuntos da vida material quanto no que toca as questoes metafísicas.
Mas desde a nossa primeira conversa as pancadas cessaram. O que ele
realmente desejava? Entrar em comunicaçao comigo regularmente; para isso,
ele precisava me avisar. Com certeza nao foi ele mesmo quem veio produzir as
batidas em minha casa; para isso, ele provavelmente enviou um emissario sob
suas ordens. Dado o aviso, depois explicado, e estabelecidas as relaçoes
regulares, as pancadas se tornaram inuteis; eis por que elas pararam. Nao se
toca mais o tambor para despertar os soldados uma vez estes ja estejam de pe.

Um fato quase semelhante sucedeu com um de nossos amigos. Fazia
algum tempo que seu quarto ressoava com ruídos diversos que ja estavam
ficando fatigantes. Tendo se apresentado a ocasiao de interrogar o Espírito de
seu pai, atraves de um medium escrevente, este amigo soube o que queriam
dele, fez o que foi lhe recomendado e depois disso nada mais ouviu. Convem
ressaltar que as pessoas que tem um meio regular e facil de comunicaçao com
os Espíritos experimentam muito mais raramente manifestaçoes deste genero,
e isso e compreensível.

Os Espíritos que assim se manifestam podem igualmente agir por conta
propria. Muitas vezes sao Espíritos sofredores que solicitam uma assistencia
moral (Veja: Prece no Vocabulario). Quando podem expressar seu pensamento
de uma maneira mais inteligível, eles pedem essa assistencia de acordo com a
forma que lhe era familiar quando estavam vivos, ou que esteja nas ideias e
habitos daqueles a quem eles se dirigem, pois pouco importa essa forma, desde
que a intençao venha do coraçao.

Em resumo, o meio de fazer as manifestaçoes importunas cessarem e
procurar entrar em comunicaçao inteligente com o Espírito que vem nos

67 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

perturbar, a fim de saber quem e e o que ele quer; satisfeito o seu desejo, ele
nos deixa em paz. E como alguem que bate a porta ate que ela seja aberta para
ele. Mas, alguem dira: O que fazer quando nao temos um medium? — O que um
enfermo faz quando nao tem um medico? — Segue em frente sem ele. Mas aqui
nos temos outro recurso: o enfermo nao pode se fazer de medico, porem de
cada dez pessoas ha nove que podem ser mediuns escreventes; basta entao
tornar-se um, se nao encontrar nenhum entre as pessoas proximas. Na falta de
um medium escrevente, e possível ainda interrogar diretamente o Espírito que
bate, e que pode responder pelo mesmo modo, ou seja, pelas batidas
convencionadas. Retornaremos a esse assunto nos capítulos seguintes.

68 – Allan Kardec

CAPÍTULO III

COMUNICAÇÕES ESPÍRITAS

Como temos dito, toda manifestaçao que revele uma intençao ou uma
vontade e, por isso mesmo, inteligente — em qualquer grau que seja. Esta e,
portanto, uma qualificaçao generica que diferencia esses tipos de
manifestaçoes daquelas que sao puramente materiais. Quando o
desenvolvimento dessa inteligencia permite uma troca mutua e contínua de
pensamentos, entao se obtem comunicações regulares cujo carater permite
julgar o Espírito que se manifesta; conforme sua natureza e seu objetivo, elas
podem ser: frívolas, grosseiras, sérias ou instrutivas (Veja o item
Comunicações no Vocabulario). Esta distinçao e aqui de grande importancia,
pois e por ela que os Espíritos nos revelam sua superioridade ou sua
inferioridade. Conhecemos os homens pela sua linguagem; e a mesma coisa
com os Espíritos. Ora, quem estiver bem convencido das qualidades distintivas
de cada uma das classes da escala espírita podera sem dificuldade assinalar a
qualquer Espírito que se apresente a categoria a qual pertence, assim como o
grau de estima e de confiança que ele merece; se a experiencia nao viesse apoiar
esse princípio, o simples bom senso seria suficiente para demonstra-lo.
Coloquemos entao como regra invariavel e sem exceçao que a linguagem dos
Espíritos é sempre proporcional ao nível de sua elevação. A dos Espíritos
realmente superiores e constantemente seria, digna e nobre; ela e sublime
quando o assunto assim o exige; nao apenas eles nos dizem unicamente coisas
boas como tambem as dizem em termos que excluem da maneira mais absoluta
toda trivialidade; por melhores que sejam essas coisas, se elas estiverem
manchadas por uma unica expressao que denote baixeza, isto e um sinal

69 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

inquestionavel de inferioridade, ainda mais se o conjunto da mensagem fere a
decencia por sua grosseria. A linguagem sempre revela a sua origem, seja pelo
pensamento que expressa, seja pela forma, e ate mesmo quando um Espírito
queira nos ludibriar quanto a sua pretensa superioridade, bastara conversar
algum tempo com ele para o avaliarmos. O fato seguinte se repetiu muitas vezes
no curso dos nossos longos e volumosos estudos: conversamos com um
Espírito cujo carater e linguagem nos conhecemos; um outro Espírito mais ou
menos elevado estava presente e, sem que lhe pedíssemos, entrou na conversa.
Ora, antes que ele dissesse seu nome, a diferença de estilo ficou tao evidente
que imediatamente todo mundo pensou de uma so vez: nao e mais fulano quem
esta falando. Nao julgaríamos os homens de outra forma; para isso, bastaria
ouvi-los sem os ver. Suponham que numa sala ao lado onde voces estejam haja
varios indivíduos que voces nao conhecem e a quem nao podem ver; pela
conversa deles voces poderao julgar prontamente se sao pessoas rudes ou de
boas, ignorantes ou educados, malfeitores ou honestos.

A bondade e a gentileza tambem sao atributos essenciais dos Espíritos
depurados; eles nao tem odio nem dos homens nem dos outros Espíritos; tem
pena das fraquezas, criticam os erros, mas sempre com moderaçao, sem rancor
e sem aversao. Isto quanto a moral. Podemos igualmente julga-los pela natureza
de sua inteligencia. Um Espírito pode ser bom, gentil, so ensinar o bem e
possuir conhecimentos limitados, porque nele o desenvolvimento ainda esta
incompleto. Nao estamos falando dos Espíritos notoriamente inferiores; a estes
seria perda de tempo pedir explicaçoes sobre certas coisas, tanto quanto
perguntar a um colegial o que ele pensa de Aristoteles ou do sistema do
Universo. Mas ha alguns que, em alguns aspectos, parecem esclarecidos, ao
passo que sobre outras questoes eles demonstram uma completa ignorancia
pelas heresias científicas mais absurdas. Este raciocinara muito sensatamente
sobre um ponto, mas sera irracional sobre outro. Tambem e assim entre nos:
um astronomo e instruído naquilo que diz respeito aos astros, mas pode ser
muito ignorante em arquitetura, em musica, pintura, agricultura etc. Tudo isso
denota claramente um desenvolvimento imperfeito, o que nao quer dizer que
ele seja um mau Espírito.

70 – Allan Kardec

Para julgar os Espíritos, assim como para julgar os homens, e preciso
primeiramente saber julgar-se a si mesmo. Infelizmente, ha muita gente que
toma sua propria opiniao como parametro exclusivo do bem e do mal, do
verdadeiro e do falso; tudo o que contradiga sua maneira de ver, suas ideias e a
teoria que conceberam ou adotaram e mau aos olhos deles. Para essas pessoas
falta evidentemente a qualidade primordial para uma correta apreciaçao: a
retidao do julgamento. Mas eles nem suspeitam disso; esse e o defeito com o
qual os homens mais se iludem.

Acredita-se geralmente que interrogando o Espírito de um homem que foi
sabio numa determinada especialidade na Terra seja possível obter a verdade
com mais segurança; isto e logico, mas nem sempre esta correto. A experiencia
demonstra que os instruídos, assim como os outros homens — sobretudo os
que deixaram a Terra ha pouco tempo — ainda estao sob o imperio dos
preconceitos da vida corporal; eles nao se despojam imediatamente do espírito
de sistema. Portanto, pode ser que, sob a influencia das ideias que eles
acalentaram em vida, e das quais fizeram para si um título de gloria, eles entao
vejam menos claramente do que imaginamos. Nao damos este princípio como
uma regra, longe disso: dizemos somente que isso ocorre e que, por
consequencia, a sua ciencia humana nem sempre e uma prova da sua
infalibilidade como Espíritos. Aqueles que — como muitas vezes acontece —
condenam na condiçao de Espírito as doutrinas que tinham sustentados como
homens, sempre dao com isso uma prova de elevaçao. Regra geral: o Espírito é
tanto menos perfeito quanto menos ele for desapegado da matéria. Todas
as vezes que nele encontramos a persistencia das ideias falsas que o
preocupavam durante sua vida — que elas sejam de ordem física ou de ordem
moral — entao isso e um sinal infalível de que ele nao esta completamente
desmaterializado.

O apega as ideias terrestres e tanto maior quanto mais recente for a morte.
No instante da morte a alma esta sempre num estado de perturbaçao durante
o qual ela mal se reconhece; é um despertar que não está completo; Eu não
sei onde estou; tudo está confuso para mim, essa e a resposta constante deles;
alguns se queixam de serem incomodados tao cedo; outros dizem sem rodeios

71 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

para deixa-los tranquilos, e, segundo seu carater, expressam essa ideia em
termos mais ou menos urbanos. Muitos nao acreditam que estejam mortos,
principalmente os torturados, os suicidas e em geral aqueles que sofreram uma
morte violenta. Eles veem o corpo deles, sabem que esse corpo lhes pertence e
nao compreendem que estejam separados dele; isso os surpreende; precisam
de algum tempo para se darem conta da sua nova situaçao. Dessa forma, a
evocaçao nao pode ser feita nesse momento a nao ser como objeto de estudos
psicologicos, porem nao e o caso de lhes pedir informaçoes.

Semelhante estado de confusao — que podemos comparar ao estado de
transiçao do sono para a vigília — continua por um tempo mais ou menos
longo. Vimos alguns que ficaram completamente desprendidos ao fim de tres
ou quatro dias, outros que demoraram varios meses para se desprenderem.
Acompanhamos com interesse a marcha progressiva deles e, de alguma forma,
assistimos ao despertar de sua alma; as questoes que lhes endereçamos — se
forem feitas com moderaçao, prudencia, ponderaçao e gentileza — ate os
ajudam a se libertarem. Se eles estiverem sofrendo e alguem tem compaixao de
sua dor, isso os reconforta. Quando a morte e natural — isto e, quando ela chega
pela extinçao gradual das forças vitais — a alma ja esta parcialmente livre antes
da ruptura completa da vida organica, e ela se reconhece mais prontamente. E
o mesmo que acontece com os homens que, durante a sua vida, se elevaram
atraves do pensamento acima das coisas materiais; desde esse mundo, de
alguma forma eles pertencem ao mundo dos Espíritos; a passagem de um para
o outro mundo se faz rapidamente e a perturbaçao e de curta duraçao.

Uma vez liberta dos seus despojos corporais, a alma se encontra no seu
estado normal: so entao e que podemos julga-la, porque aí ela mostra
verdadeiramente o que ela e; suas qualidades e seus defeitos, suas
imperfeiçoes, seus preconceitos, suas prevençoes e suas ideias falsas,
mesquinhas ou ridículas persistem sem modificaçao durante todo o período da
sua vida errante, mesmo que ela seja de mil anos; falta-lhe atravessar uma nova
fase na vida corporal para deixar para tras algumas de suas impurezas e subir
alguns degraus a mais. Nos conhecemos alguns Espíritos que, apos 200 anos de
vida errante, ainda tem as manias e mesquinharias de que se conhecia em vida,

72 – Allan Kardec

enquanto outros demonstram quase imediatamente uma grande
superioridade.

A proposito do estado de transiçao que acabamos de descrever, falamos
de Espíritos sofredores. Vao perguntar, naturalmente, se esse momento e
doloroso. Nao faz parte do escopo desta obra tratar da questao do sofrimento
dos Espíritos, nem tampouco examinar a natureza desse sofrimento; essa
questao tera o seu lugar na Revista.26 Entao nos limitaremos a dizer que para o
homem de bem, para quem adormece na paz de uma consciencia pura e nao
teme nenhum olhar escrutinador, o despertar e sempre calmo, doce e tranquilo;
ja para aquele cuja consciencia esta carregada de mas açoes, para o homem
material que depositou todas as suas alegrias na satisfaçao de seu corpo, para
quem abusou dos favores que a Providencia lhe concedeu, o despertar e
terrível. Sim, esses Espíritos sofrem no instante em que deixam a vida; sofrem
muito e esse sofrimento pode durar tanto quanto sua vida errante; embora esse
sofrimento seja apenas moral, e ainda mais pungente, porque nem sempre lhes
e permitido ver o seu termino; eles sofrem ate que um raio de esperança venha
brilhar aos seus olhos, e nos podemos fazer nascer essa esperança conversando
com eles. Boas palavras e demonstraçao de simpatia sao para eles um alívio
para o qual podem contribuir os bons Espíritos que chamamos em nosso
auxílio para apoiar nossas intençoes. Um suicida evocado pouco tempo depois
da sua morte nos detalhou suas torturas. Perguntaram-lhe: Quanto tempo isso
vai durar? — Eu nao sei de nada, e e isso o que me deixa desesperado! Um
Espírito superior, que estava presente, disse espontaneamente: “Isso durara ate
o fim natural da vida que ele interrompeu voluntariamente.” O outro
respondeu: — Obrigado, pelo que este que está aí acabou de me ensinar!

Finalizaremos este capítulo com uma nota essencial: o quadro que
acabamos de traçar nao e o resultado de uma teoria, nem de um sistema
filosofico mais ou menos engenhoso. Tudo o que dissemos nos o recebemos dos
proprios Espíritos; foram eles a quem interrogamos e que muitas vezes nos
responderam de uma maneira contraria as nossas convicçoes iniciais. Fizemos
com os Espíritos o que os anatomistas fazem com o corpo humano: pusemos o

26 Referência à Revista Espírita, editada também por Allan Kardec. — N. T.

73 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

escalpelo da investigaçao sobre inumeros assuntos. Nao nos contentamos em
faze-los falar; nos sondamos todos os refolhos de sua existencia, pelo menos
tanto quanto isso nos foi possível; nos os seguimos desde o instante em que eles
exalaram o ultimo suspiro da vida corporal, ate o momento em que a ela
retornaram; estudamos sua linguagem, seus comportamentos, seus habitos,
suas ideias e seus sentimentos, como o medico escuta as pulsaçoes de um
paciente, e nessa clinica moral onde todas as fases da vida espírita passaram
sob os nossos olhos, observamos e comparamos; de um lado, vimos feridas
hediondas, mas do outro, vimos tambem grandes motivos de consolaçao.
Enfatizamos: nao fomos nos que imaginamos todas essas coisas, mas foram os
Espíritos que se pintaram por eles mesmos. Ora, para quem deseja entrar em
contato com eles, e importante conhece-los bem, a fim de estar em condiçoes
de avaliar a situaçao deles e de melhor compreender a sua linguagem, que, sem
isso, poderia as vezes parecer contraditoria; foi por isso que nos demoramos
um tanto neste capítulo.

74 – Allan Kardec

CAPÍTULO IV

DIFERENTES MODOS DE
COMUNICAÇÃO

Os Espíritos podem se comunicar conosco por diversos meios. Nos os
definimos no Vocabulario; aqui, daremos a cada um desses meios as
explicaçoes necessarias para a sua pratica:

Sematologia e Tiptologia

Inicialmente, usava-se uma mesa para esse meio de correspondencia,
apenas porque esse e um objeto conveniente pela facilidade que se tem de
sentar-se ao seu redor e porque foi o primeiro sobre o qual foram produzidos
os movimentos que deram origem a expressao comum de dança das mesas;
mas e importante saber que, para tal finalidade, uma mesa nao tem mais
influencia do que qualquer outro objeto movel. Vamos considerar o fenomeno
em seu aspecto mais simples.

Se uma pessoa coloca a ponto dos seus dedos sobre a borda de um objeto
circular, movel, tal como uma xícara, um prato, um chapeu ou um copo, e que
nessa situaçao ela concentra sua vontade sobre esse objeto para faze-lo se
mover, pode ocorrer que esse objeto se mexa em um movimento rotatorio, a
princípio lento, depois cada vez mais rapido, ao ponto de ser difícil segui-lo. O
objeto virara para a direita ou para a esquerda, conforme a direçao indicada
pela pessoa, verbalmente ou mentalmente. Uma vez estabelecida a ligaçao

75 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

fluídica entre a pessoa e o objeto, este pode produzir o movimento sem contato,
agindo somente pelo pensamento. Dissemos que isso pode ocorrer porque, de
fato, nao ha uma certeza absoluta desse resultado. Certas pessoas sao dotadas
de uma tal força nesse sentido que o movimento se produz logo apos alguns
segundos; outras nao o obtem senao depois de cinco ou dez minutos; e, enfim,
ha aquelas que nunca obtem absolutamente nada. Fora a experiencia, nao ha
nenhum diagnostico que possa revelar a aptidao para a produçao desse
fenomeno; a força física nada tem a ver com isso: as pessoas frageis e sensíveis
muitas vezes o obtem mais dos que os homens vigorosos. E um teste que cada
um pode fazer sem qualquer perigo, embora as vezes resulte numa fatiga
muscular muito grande e um tipo de agitaçao febril.

Se a pessoa for dotada de uma potencia suficiente, ela podera virar
sozinha uma mesa leve; algumas vezes agir ate sobre uma mesa pesada e
maciça; mas isso requer um poder excepcional.

Para operar mais seguramente sobre uma mesa de um peso consideravel,
coloca-se varias pessoas ao seu redor; o numero e indiferente; nao e necessario
alternar os sexos, nem estabelecer um contato entre os dedos dos
participantes; basta por a ponta dos dedos estirados na borda da mesa, como
nas teclas de um piano; tudo isso nao leva a nenhuma consequencia. Por outro
lado, ha outras condiçoes essenciais mais difíceis a cumprir: a concentraçao do
pensamento de todo mundo em vista de se obter um movimento numa direçao
ou em outra, um recolhimento e um silencio absoluto, alem de, sobretudo, uma
enorme paciencia. O movimento as vezes ocorre em cinco ou dez minutos, mas
com frequencia e preciso se resignar a esperar uma meia-hora ou mais. Se
depois de uma hora nao for obtido nada, sera inutil continuar.

Devemos acrescentar que algumas pessoas sao antipaticas ao fenomeno,
e que sua influencia negativa pode ser exercida somente pelo fato da sua
presença; outras sao completamente neutras. Em geral, quanto menos
espectadores, melhor sera — seja porque ha menos chances de aí se encontrar
antipatias, seja porque sera mais facil haver silencio e concentraçao.

O fenomeno sempre e provocado pelo efeito da aptidao especial de
algumas pessoas atuantes cuja força e multiplicada pelo numero dessas

76 – Allan Kardec

pessoas. Quando a força e suficientemente grande, a mesa nao se limita a girar;
ela se move, se levanta, fica num pe so, se balança como um navio, e chega ate a
se erguer do chao sem nenhum ponto de apoio. Uma coisa admiravel e que, seja
qual for a inclinaçao da mesa, os objetos que estao sobre ela permanecem ali, e
que nem mesmo uma luminaria corre algum risco. Um fato nao menos singular
e que, estando inclinada e entao apoiada num unico pe, a mesa pode oferecer
uma resistencia tal que o peso de uma pessoa nao e suficiente para baixa-la.

Quando se chega a produzir um movimento energico, o contato das maos
deixa de ser necessario; todos podem se afastar da mesa e ela se dirige a direita,
a esquerda, para frente, para tras, em direçao a uma determinada pessoa,
levantando-se com um pe ou outro, de acordo com o comando que lhe for dado.

Ate entao esses fenomenos nao tem nenhum carater essencialmente
inteligente; mas nem por isso eles deixam de ser curiosos de se observar, como
um produto de uma força desconhecida. Alias, eles sao capazes de convencer
certas pessoas que nao seriam convencidas por provas filosoficas. E o primeiro
passo na ciencia espírita que nos conduz muito naturalmente aos meios de
comunicaçao.

O mais simples de todos esses meios e — como no homem privado da fala
ou da escrita — a linguagem dos sinais. Um Espírito pode comunicar seu
pensamento atraves do movimento de um objeto qualquer. Nos conhecemos
alguem que dialoga com seu Espírito familiar (o Espírito de uma pessoa de
quem ele gostava bastante) por meio do primeiro objeto que aparece: uma
regua, um estilete colocado sobre uma mesa… Ele poe os dedos em cima, e
depois de ter evocado esse Espírito, a regua se move a direita ou a esquerda
para dizer sim ou nao, mediante a convençao; indica os numeros etc. O mesmo
resultado e obtido com uma mesa ou um gueridom;27 estando os dedos
colocados na borda, que seja um so ou varios, e um tendo sido chamado um
Espírito, se este estiver presente e se estiver disposto a se revelar, a mesa sobe,
desce, se agita e, por seus movimentos a direita ou a esquerda, ou de basculo,

27 Gueridom (guéridon, em francês): espécie de mesa pequena, com tampo arredondado (geralmente de
mármore) e sustentada por um único pé central, tipicamente usado para exposição de objetos (um vaso
de flores, por exemplo) ou para serviço de buffet (iguarias e bebidas). — N. T.

77 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

ela respondera afirmativa ou negativamente. Pela sua trepidaçao, ela expressa
alegria, impaciencia e ate raiva; algumas vezes ela se vira violentamente ou se
joga sobre um dos assistentes, como se tivesse sido empurrada por uma mao
invisível, e nesses movimentos pode-se reconhecer a expressao de um
sentimento de afeto ou de antipatia. Um de nossos amigos estava certa noite
num salao que promovia manifestaçoes desse genero; ele recebeu uma carta e
enquanto a lia, o gueridom avançou na direçao dele e se aproximou da carta
espontaneamente, sem a influencia de ninguem. Terminada a leitura, ele foi
colocar a carta sobre uma mesa no outro lado do salao; o gueridom o seguiu e
foi se jogar sobre a carta. Ele concluiu daí tratar-se da presença de um Espírito
recem-chegado, simpatico ao autor da carta e que queria se comunicar com ele.
Interrogando-o por meio do seu gueridom, ele confirmou suas previsoes. Isso
e o que chamamos de sematologia, ou linguagem dos sinais.

A tiptologia, ou linguagem das batidas, oferece mais precisao. Ela e obtida
por dois modos diferentes. O primeiro, que chamamos tiptologia por
movimento, consiste em golpes desferidos pela propria mesa com um dos seus
pes. As batidas podem responder sim ou nao, de acordo com o numero de
golpes combinados para exprimir um ou o outro. Como podemos imaginar, as
respostas sao muito incompletas, sujeitas a equívocos e pouco convincentes
para os novatos, porque sempre podem ser atribuídas ao acaso.

A tiptologia interna e produzida de uma forma totalmente diferente. Ja
nao e mais a mesa que bate; ele permanece completamente imovel, mas as
batidas ressoam na propria substancia da madeira, da pedra ou de qualquer
outro objeto, e muitas vezes com bastante força para serem ouvidos de um
comodo vizinho. Se encostarmos o ouvido ou a mao numa parte qualquer da
mesa, poderemos senti-la vibrar desde os pes ate a superfície. Esse fenomeno
e obtido agindo da mesma maneira que para faze-la mover, com a diferença que
o movimento puro e simples pode ocorrer sem evocaçao, ao passo que, para as
batidas, quase sempre e necessario chamar um Espírito.

Reconhece-se nessas pancadas a intervençao de uma inteligencia porque
elas obedecem ao pensamento. Assim, segundo o desejo exprimido verbal ou
mentalmente, elas mudam de lugar, se fazem ouvir na direçao dessa ou daquela

78 – Allan Kardec

pessoa indicada, fazem uma volta na mesa, batem forte ou fracamente, imitam
o eco, o som da serra, do martelo, do tambor, dos tiros do pelotao, marcando o
ritmo de uma musica designada, indicam a hora, o numero de pessoas
presentes etc., ou ainda, deixam a mesa e vao se fazer ouvir contra a parede ou
contra a porta, no local determinado; enfim, respondem com sim ou nao as
perguntas que lhe sao feitas. Essas experiencias sao mais objeto de curiosidade,
que nao trazem comunicaçoes serias. Os Espíritos que se assim se manifestam
sao geralmente de uma ordem inferior. Os Espíritos serios nao se prestam a
façanhas, assim como entre nos os homens graves nao se prestam as
brincadeiras dos palhaços. Quando nos os interrogamos a esse respeito, eles
respondem com essa questao: Sera que, entre voces, sao os homens superiores
quem fazem os ursos dançarem? 28

A tiptologia alfabética nos oferecer um meio de correspondencia mais
facil e mais completo. Ela consiste na designaçao das letras do alfabeto por um
numero de batidas correspondente a classificaçao de cada letra, e dessa
maneira se formam as palavras e as frases. Entretanto, por sua lentidao, esse
meio tem o grande inconveniente de nao servir para longas produçoes. Mas e
possível abreviar um monte de casos: basta muitas vezes conhecer as primeiras
letras para adivinhar o restante da palavra, e entao nao se deixa termina-la; na
duvida, pergunta-se se e a palavra e a que se supoe, e o Espírito responde sim
ou nao pelo sinal combinado.

A tiptologia alfabetica pode ser obtida pelos dois meios que acabamos de
indicar: os golpes batidos na mesa e aqueles que sao ouvidos na substancia do
corpo duro. Para as comunicaçoes pouco serias, preferimos o primeiro, por
duas razoes: uma, e que de alguma forma esse meio e mais manejavel e esta ao
alcance de um numero maior de pessoas; a outra razao tem a ver com a
natureza dos Espíritos. Na tiptologia interna, os Espíritos que se manifestam

28 Pelo contexto, podemos entender que a expressão “fazer ursos dançarem” equivale a algo semelhante
a “divertir os brutos e os ignorantes”, provavelmente inspirada numa famosa citação contida no romance
Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert: “A palavra humana é como um caldeirão rachado no qual
tocamos melodias próprias para fazer os ursos dançarem, quando desejaríamos enternecer as estrelas.”
(“La parole humaine est comme un chaudron fêlé où nous battons des mélodies à faire danser les ours, quand
on voudrait attendrir les étoiles.”). — N. T.

79 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

geralmente sao aqueles que denominamos batedores: Espíritos levianos, por
vezes bastante divertidos, porem sempre muito ignorantes. Eles podem ser os
agentes de Espíritos serios conforme as circunstancias, mas na maioria das
vezes eles agem espontaneamente e por conta propria; enquanto isso, a
experiencia prova que os Espíritos das outras ordens se comunicam mais
voluntariamente pelo movimento.

Em todo o caso, a tiptologia alfabetica e um modo de comunicaçao pelo
qual os Espíritos superiores se servem a contragosto e unicamente por falta de
um recurso melhor; eles gostam do que se prestam a rapidez do pensamento e,
por causa dessa lentidao, que os impacienta, abreviam suas respostas. Eles ja
acham nossa linguagem demasiadamente lenta, ainda mais quando o meio
contribui para essa lentidao.

Psicografia

A ciencia espírita progrediu como todas as outras, e mais rapidamente do
que as outras, pois apenas alguns anos nos separam desses meios primitivos e
incompletos que trivialmente chamavamos de mesas falantes, e agora nos ja
estamos podendo nos comunicar com os Espíritos tao facil e rapidamente como
os homens o fazem entre si, e isso pelos mesmos meios: a escrita e a fala. A
escrita sobretudo tem a vantagem de mostrar mais materialmente a
intervençao de uma força oculta e de deixar os traços que podem ser
conservados, como nos o fazemos atraves da nossa propria correspondencia. O
primeiro modo empregado foi o das pranchetas e das cestas munidas de um
lapis; foram os proprios Espíritos que o indicaram. Aqui esta o procedimento.

Nos dissemos, no começo deste capítulo, que uma pessoa dotada de uma
aptidao especial pode provocar um movimento de rotaçao a um objeto
qualquer; tomemos, por exemplo, uma pequena cesta de 15 a 20 centímetros
de diametro (seja ela de madeira ou de vime, pouco importa, o material e
indiferente). Agora, se pelo fundo dessa cesta fizermos passar um lapis bem
preso, com a ponta de fora e para baixo, e se mantivermos tudo em equilíbrio

80 – Allan Kardec

sobre a ponta do lapis, ele proprio colocado sobre uma folha de papel, entao,
apoiando os dedos na cesta, ela fara seu movimento; mas em vez de girar como
um piao, ela conduzira o lapis em diversos sentidos sobre o papel de maneira a
formar desde riscos insignificantes a caracteres de um texto. Se um Espírito for
evocado e se ele quiser se comunicar, ele respondera, nao mais com sim e nao,
mas por palavras e frases completas. Nesse sistema, o lapis, ao chegar a
extremidade da linha, nao volta sobre si mesmo para começar outra linha; ele
continua circularmente, de tal sorte que a linha escrita forma uma espiral, e e
necessario virar o papel varias vezes para se ler o que esta escrito. O texto
obtido assim nem sempre e muito legível, pois as palavras nao ficam bem
separadas; entretanto, por uma especie de intuiçao, o medium facilmente
decifra a escrita. Por uma questao de economia, pode-se substituir o papel e o
lapis comum por uma lousa e um lapis respectivo. Designaremos essa cesta
pelo nome de cesta-pião.

Diversos outros dispositivos foram imaginados para atender ao mesmo
objetivo. O mais conveniente e aquele que chamaremos de cesta de bico e que
consiste em adaptar a cesta uma haste de madeira inclinada, ultrapassando de
10 a 15 centímetros de um lado, na posiçao do mastro de gurupes de um navio.
Por um buraco aberto na extremidade dessa haste, ou bico, passa-se um lapis
bastante comprido para que a ponta se apoie sobre o papel. Estando o medium
com os dedos nas bordas da cesta, o aparelho todo se agita e o lapis escreve
como no caso anterior, mas com a diferença de que geralmente a escrita e mais
legível, com as palavras separadas e as linhas nao mais em espiral, agora
seguindo como na escrita comum, ja que o medium pode facilmente conduzir o
lapis de uma linha a outra. Obtem-se assim dissertaçoes de varias paginas tao
rapidamente como se fossem escritas a mao.

A inteligencia que age muitas vezes se manifesta por outros sinais
inequívocos. Chegando ao fim da pagina, o lapis faz espontaneamente um
movimento para revirar a folha; quando quer se reportar a um trecho anterior
na mesma pagina ou noutra, ele o procura com a ponta do lapis — como nos
assim faríamos com o dedo — e depois a sublinha. Se, enfim, o Espírito quer se
dirigir a um dos assistentes, a extremidade da haste de madeira vira-se para

81 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

esse alguem. Por abreviar, frequentemente ele exprime as palavras sim e não
pelos sinais de afirmaçao e de negaçao que fazemos com a cabeça. De todos os
procedimentos empregados, este e o que da a escrita a maior variaçao, de
acordo com o Espírito que se manifesta, e frequentemente com a caligrafia igual
a que ele tinha quando era vivo, caso tenha deixado a Terra ha pouco tempo.

No lugar de cesta, algumas pessoas usam um tipo de mesa pequenina,
feita por encomenda, de 12 a 15 centímetros de comprimento por 5
a 6 de altura, com tres pes, e um dos quais carrega o lapis. Outras pessoas se
servem simplesmente de uma prancheta sem pes; numa das bordas fica um
orifício para se colocar o lapis; postada para escrever, ela fica inclinada e se
apoia por um dos seus lados sobre o papel; Em suma, concebe-se que todos
esses dispositivos nao tem nada de absoluto; o mais pratico e o melhor.

Com todos esses aparatos, quase sempre e preciso estar em dupla; mas
nao e necessario que a segunda pessoa seja dotada da faculdade mediatriz: ela
serve unicamente para manter o equilíbrio e diminuir a fadiga do medium.

Chamamos psicografia indireta a escrita assim obtida em oposiçao a
psicografia direta ou manual, obtida pelo proprio medium. Para entender este
ultimo processo, e preciso se dar conta do que se passa nessa operaçao. O
Espírito exterior que se comunica age sobre o medium; este, sob aquela
influencia, conduz maquinalmente o braço e a mao para escrever, sem ter (pelo
menos e o caso mais comum) a menor consciencia do que escreve; a mao atua
sobre a cesta e a cesta sobre o lapis. Assim, não é a cesta que se torna
inteligente, pois ela e um instrumento guiado por uma inteligencia; na
realidade, ela nao passa de um porta-lapis, um apendice da mao, um
intermediario entre a mao e o lapis. Suprimam esse intermediario e coloquem
o lapis na mao, e voces terao o mesmo resultado, com um mecanismo muito
mais simples, ja que o medium escreve como o faz nas condiçoes normais;
entao, toda pessoa que escreve com o auxílio de uma cesta, prancheta ou
qualquer outro objeto, pode escrever diretamente. De todos os meios de
comunicaçao, a escrita a mao, designada por algumas pessoas pelo nome
escrita involuntaria, e, sem contradiçao, a mais simples, a mais facil e a mais
comoda, porque nao exige nenhuma preparaçao e que, como a escrita corrente,

82 – Allan Kardec

serve para os trabalhos mais extensos. Voltaremos a ela quando falarmos dos
mediuns.

A pneumatografia e a escrita direta dos Espíritos. Quando esse fenomeno
apareceu pela primeira vez (pelo menos na nossa epoca, pois nada prova que
ele nao fosse conhecido na Antiguidade e na Idade Media, como todos os outros
generos de manifestaçoes) ele suscitou duvidas muito naturais; mas hoje ele e
um fato patente. Uma pessoa muito confiavel nos afirmou que um conego de
seus pais, de acordo com o abade Faria,29 obtinha esse tipo de escrita em Paris,
desde o ano de 1804. O Sr. barao de Guldenstube30 acaba de publicar sobre esse
tema uma obra muito interessante, acompanhada de numerosos autografos
dessa escrita.31 De certa forma, foi ele quem a pos em evidencia, e muitas outras
pessoas depois dele conseguirem os mesmos resultados. No início, colocava-se
uma folha de papel e um lapis sobre um tumulo, sob a estatua ou retrato de um
personagem qualquer e, no dia seguinte — muitas vezes, algumas horas depois
— sobre o papel achava-se inscrito um nome, uma frase, por vezes traços
ininteligíveis. Obviamente que nem o tumulo, nem a estatua nem o retrato
tiveram qualquer influencia por eles mesmos; era simplesmente um meio de
evocaçao pelo pensamento. Agora, basta colocar o papel, com ou sem o lapis,
em uma gaveta ou numa caixa que possa ser fechada a chave, tomando todas as
precauçoes necessarias para evitar qualquer fraude, e assim se obtem o mesmo
resultado evocando o Espírito.

Esse fenomeno e indubitavelmente um dos mais extraordinarios que as
manifestaçoes espíritas apresentam e e um dos que atestam de uma maneira
peremptoria a intervençao de uma inteligencia oculta; mas ele nao poderia
substituir a psicografia (pelo menos ate agora) para trabalhos que envolvem
certos assuntos. Obtem-se assim a expressao de um pensamento espontaneo,

29 José Custódio de Faria (1756-1819), conhecido na França como abade Faria, foi um monge de origem
indo-portuguesa que participou de importantes eventos da Revolução Francesa e que mais tarde se
notabilizou como magnetizador. — N. T.
30 Ludwig von Guldenstubbe. (1820-1873) foi um proeminente pesquisador do Magnetismo Animal
(Mesmerismo) e dos fenômenos espirituais. — N. T.
31 La réalité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phénomène de l’écriture directe [A
realidade dos Espíritos e de suas manifestações, demonstrada pelo fenômeno da escrita direta]. — N. T.

83 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

mas nos parece que ele dificilmente va servir para conversaçoes e troca rapida
de ideias que o outro meio proporciona. Esse modo, alias, e mais raro ser
obtido, ao passo que os mediuns escreventes sao mais numerosos.

A primeira vista, parece difícil perceber um fato tao anormal. Nao cabe em
nosso plano desenvolve-lo aqui, porque para isso seria preciso remontar a fonte
de outros fenomenos dos quais ele e uma consequencia. Sua explicaçao
completa encontra-se na Revista espírita, e veremos que, por uma deduçao
logica, chegamos a ela como um resultado totalmente natural.

Finalmente, os Espíritos nos transmitem seu pensamento pela voz de
certos mediuns dotados para isso de uma faculdade especial; e o que nos
chamamos de psicofonia. Esse meio tem todas as vantagens da psicografia pela
rapidez e extensao dos desenvolvimentos. Ele agrada bastante aos Espíritos
superiores; porem, para as pessoas que duvidam, tem a desvantagem de nao
demonstrar de uma maneira bastante evidente a intervençao de uma
inteligencia exterior. Ele e conveniente sobretudo para os que, ja
suficientemente instruídas sobre a realidade dos fatos, o utilizam para o
complemento de seus estudos e nao precisam reforçar sua convicçao.

Acabamos de esboçar os diversos meios de comunicaçao direta com os
Espíritos; nos os designamos pelos nomes característicos que abrangem todas
as variedades e ate mesmos todas as nuances, e que assim permitem nos
entendermos, melhor do que com perífrases, que nada tem de exato nem de
metodico. No começo das manifestaçoes, quando tínhamos ideias menos
precisas sobre esse assunto, varios textos foram publicados com essa
designaçao:

Comunicaçoes de uma cesta, por uma prancheta, pelas mesas falantes etc.
Hoje se compreende o quanto essas expressoes tem de insuficiencia ou de
erroneo, exceçao feita do seu carater pouco serio. De fato, como acabamos de
ver, as mesas, pranchetas e cestas nao sao mais do que instrumentos inertes
que nao podem comunicar nada por si so — o que seria tomar o efeito pela
causa, ou tomar o instrumento pelo princípio, pois tanto faz um autor dizer no
título da sua obra que ele a escreveu com uma pena metalica ou com uma pena
de ganso. Esses instrumentos, alias, nao sao absolutos; conhecemos alguem que

84 – Allan Kardec

em vez da cesta-pião, que ja descrevemos, se servia de um funil por cujo
gargalo ele passava o lapis. Poderíamos entao ter tido comunicaçoes de um
funil, do assim como de uma caçarola ou de uma saladeira. Se elas ocorrem por
meio de batidas, e essas batidas sao desferidas por uma cadeira ou uma
bengala, entao ja nao e mais uma mesa falante, mas uma cadeira ou uma
bengala falante. O que importa saber nao e a natureza do instrumento, e sim o
modo de obtençao. Se a comunicaçao for por escrita, nao importa o que seja o
porta-lapis, para nos isso e psicografia; se for por batidas, e tiptologia. Tomando
as proporçoes de uma ciencia, o espiritismo precisa de uma linguagem
científica.

85 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

CAPÍTULO V

OS MÉDIUNS

Toda pessoa que sente num grau qualquer a influencia dos Espíritos e —
por isso mesmo — um medium. Esta faculdade e inerente ao homem e, por
conseguinte, nao e um privilegio exclusivo; logo, sao poucas as pessoas entre as
quais nao encontramos rudimentos dessa faculdade. Pode-se entao dizer que
quase todo mundo e medium; todavia, na pratica, esta qualificaçao nao se aplica
a nao ser aqueles em quem a faculdade mediatriz e nitidamente caracterizada
e se traduz por efeitos evidentes de certa intensidade, o que depende entao de
um organismo mais ou menos sensitivo. E notavel tambem que essa faculdade
nao se revela em todos da mesma maneira; os mediuns geralmente tem uma
aptidao especial para esta ou aquela ordem de fenomenos — o que estabelece
tantas variedades de mediuns quanto existe de especies de manifestaçoes
(Veja: Médiuns, no vocabulario). Entraremos em alguns detalhes sobre aqueles
que podem dar ensejo a observaçoes essenciais.

Médiuns de influência física.
Médiuns naturais e Médiuns facultativos

Os mediuns de influencia física sao aqueles que tem uma aptidao mais

especial para a produçao dos fenomenos materiais. E nessa classe que se
encontram principalmente os Médiuns naturais, aqueles cuja influencia e
exercida sem que eles saibam. Eles nao tem nenhuma consciencia do proprio
poder e muitas vezes o que se passe de anormal ao redor deles nao lhes parece

86 – Allan Kardec

nada extraordinario; faz parte deles mesmos, absolutamente como as pessoas
dotadas da segunda vista e que nao se dao conta disso. Sao sujeitos muito
dignos de observaçao e nao podemos deixar de coletar e estudar os fatos desse
genero que possam vir ao nosso conhecimento; eles se manifestam em todas as
idades e frequentemente em crianças muito pequenas.

Esta faculdade nao e em si mesma o indício de um estado patologico, pois
nao e incompatível com uma saude perfeita. Se aquele que a possui esta
sofrendo, isso e devido a uma causa estranha; sendo assim, os meios
terapeuticos sao impotentes para faze-la parar. Em alguns casos, ela pode ser
consequencia de uma debilidade organica, porem nunca e uma causa efetiva.
Nao seria razoavel, pois, conceber qualquer preocupaçao com ela do ponto de
vista da saude; esta faculdade so poderia ser inconveniente se o sujeito,
tornando-se medium facultativo, fizesse dela um uso abusivo, porque entao
haveria nele uma emissao excessivamente abundante de fluido vital e,
consequentemente, o enfraquecimento dos orgaos.

E preciso se precaver sobretudo contra qualquer experimentação física,
sempre prejudicial aos organismos sensitivos, pois e aí que esta o perigo: isso
poderia resultar em graves desordens na saude. A razao se revolta a ideia das
torturas morais e corporais as quais algumas vezes eram submetidos os seres
fracos e delicados para se certificar de que nao havia fraude da parte deles;
fazer semelhantes experiencias e brincar com a vida. O observador de boa-fe
nao tem necessidade de empregar esses meios; aquele que esta familiarizado
com esses tipos de fenomenos sabe alem disso que eles pertencem mais a
ordem moral do que a ordem física, e que seria inutil procurar uma soluçao
para eles nas nossas ciencias exatas.

Ja que esses fenomenos tem relaçao com a ordem moral, deve-se evitar
com um cuidado nao menos escrupuloso tudo o que possa superexcitar a
imaginaçao. Conhecemos os acidentes que o medo pode causar e seria menos
imprudente se conhecessemos todos os casos de loucura e de epilepsia que se
originam dos contos de lobisomem e do bicho-papao; como seria entao se
estivessemos convencidos de que e o diabo? Os que apoiam tais ideias nao
sabem a responsabilidade que assumem: eles podem matar. Ora, o perigo nao

87 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

e so para o sujeito, mas tambem para os que o cercam e que podem ficar
aterrorizados com a ideia de que sua casa seja um covil de demonios. Foi esta
crença funesta que causou tantos atos de atrocidade nos tempos de ignorancia.
Com um pouco mais de discernimento, pois, teria sido possível imaginar que ao
queimar corpos supostamente possuídos pelo diabo nao estariam queimando
o proprio diabo. Se queriam se livrar do diabo, era ele quem deveria ser morto.
Esclarecendo-nos sobre a verdadeira causa de todos esses fenomenos, a
doutrina espírita lhe da o golpe final. Portanto, longe de promover essa ideia,
devemos entao — e este e um dever de moralidade e de humanidade —
combate-lo onde quer que exista.

O que e preciso fazer quando uma faculdade semelhante se desenvolve
espontaneamente num indivíduo e deixar o fenomeno seguir seu curso natural:
a natureza e mais prudente do que os homens; alem disso, a Providencia tem
seus desígnios, e o pequenino pode ser o instrumento dos maiores propositos.
Porem, e preciso convir, esse fenomeno algumas vezes assume proporçoes
fatigantes e importunas para todo mundo; entao, aqui esta o que deve ser feito
em todos os casos.32 Partindo desse princípio de que as manifestaçoes físicas
espontaneas tiveram como objetivo chamar nossa atençao para alguma coisa,
devemos procurar conhecer esse objetivo, e para isso e preciso interrogar o Ser
invisível que quer se comunicar. Nos ja demos uma explicaçao sobre esse
assunto no capítulo das manifestaçoes. Ele pode querer alguma coisa para si
mesmo ou para a pessoal a qual ele se manifesta; em ambos os casos, e provavel
que, como ja dissemos, se ele estiver satisfeito, cessara suas visitas. Eis, enfim,

32 Um dos acontecimentos mais extraordinários dessa natureza, pela variedade e estranheza dos
fenômenos, é incontestavelmente o que ocorreu em 1852 no Palatinado (Baviera renana), em Bergzabern,
perto de Wissembourg. É tanto mais notável porque reúne num mesmo sujeito quase todos os gêneros
de manifestações espontâneas: ruídos a sacudir a casa, reviravoltas nos móveis, objetos atirados ao longe
por uma mão invisível, visões e aparições, sonambulismo, êxtase, catalepsia, atração elétrica, gritos e sons
aéreos, instrumentos tocando sem contato, comunicações inteligentes etc., e, o que não é de pouca
importância, a constatação desses fatos, durante quase dois anos, por inúmeras testemunhas oculares
dignas de crédito pelo seu conhecimento e pela sua posição social. O relato autêntico foi publicado
naquela época em vários jornais alemães e, em particular, numa brochura hoje esgotada e muito rara. A
tradução completa desta brochura encontra-se na Revista espírita de 1858, com os comentários e
explicações necessárias. Pelo que sabemos, esta é a única publicação francesa que foi feita sobre o caso.
Além do notável interesse ligado a estes fenômenos, eles são eminentemente instrutivos do ponto de vista
do estudo prático do espiritismo.

88 – Allan Kardec

outro meio — igual ao precedente — fundamentado nas observaçoes dos fatos.
Os Seres invisíveis que revelam sua presença por efeitos sensíveis sao

geralmente Espíritos de uma ordem inferior e que podem ser dominados pelo
ascendente moral; e essa ascendencia que devemos buscar adquirir. Longe de
nos mostrarmos submissos aos caprichos deles, devemos nos opor as suas
vontades e lhes obrigar a obedecer — o que nao nos impede de sermos
condescendentes com todos os pedidos justos e legí timos que eles possam
fazer. Tudo depende entao da natureza do Espírito que se comunica; ele pode
ser inferior e ao mesmo tempo gentil e vir com uma boa intençao; e disso que
precisamos nos assegurar, e o que facilmente reconheceremos atraves das
comunicaçoes dele; mas nao lhe perguntem se ele e um bom Espírito; seja como
for, a resposta e certa; teria o mesmo valor que perguntar a um patife se ele e
um homem honesto.

Para obter essa superioridade, e preciso que o sujeito passe do estado de
médium natural ao de médium facultativo. Produz-se entao o efeito igual ao
que acontece no sonambulismo. Sabe-se que o sonambulismo natural cessa
geralmente quando e substituído pelo sonambulismo magnetico. Nao se
bloqueia a faculdade emancipadora da alma; da-se outro curso a ela. E a mesma
coisa da faculdade mediatriz. Para tanto, ao inves de entravar os fenomenos —
coisa que raramente se consegue e que nem sempre deixa de ser um perigo —
e preciso encorajar o medium a produzi-los a vontade, impondo-se ao Espírito;
dessa forma, ele consegue controla-lo e, de um dominador as vezes tiranico, faz
dele um ser subordinado e por vezes muito docil. Um fato digno de nota e
confirmado pela experiencia e que num caso assim uma criança tem igual e as
vezes ate mais autoridade do que um adulto: mais uma prova em apoio a este
ponto capital da doutrina, que o Espírito so e infantil pelo corpo, e que ele tem
por si mesmo um desenvolvimento necessariamente anterior a sua encarnaçao
atual, desenvolvimento que pode lhe dar ascendencia sobre os Espíritos que lhe
sao inferiores.

89 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Médiuns facultativos

Os mediuns facultativos sao aqueles que tem a consciencia de seu poder e

que produzem fenomenos espíritas pela açao de sua vontade. Essa faculdade
— embora seja inerente a especie humana, como ja dissemos — esta longe de
existir em todos no mesmo grau; mas se ha poucas pessoas em quem ela seja
absolutamente nula, ainda mais raras sao aquelas que estao aptas a produzir
grandes efeitos, tais como a suspensao de corpos pesados no espaço, a
translaçao aerea e sobretudo as apariçoes. Os efeitos mais simples sao a rotaçao
de um objeto, batidas pelo levantamento desse objeto ou na sua propria
substancia. Mesmo sem darmos uma importancia capital a esses fenomenos,
recomendamos nao os desprezar, pois eles podem proporcionar a observaçoes
interessantes e ajudar a convicçao.33 Porem e de se notar que a capacidade de
produzir efeitos materiais raramente existe nos que dispoem de meios de
comunicaçao mais perfeitos, tais como a escrita e a palavra; geralmente ela
diminui num sentido a medida que se desenvolve em outro.

Médiuns escreventes ou psicógrafos

De todas as formas de comunicaçao, a escrita e a mais simples, a mais
comoda e sobretudo a mais completa. E para ela que devemos dedicar todos os
esforços, pois ela permite estabelecer com os Espíritos relaçoes tao
consecutivas e tao regulares quanto as que existem entre nos. Devemos nos
apegar a ela ainda mais porque e dessa forma que os Espíritos revelam melhor
sua natureza e seu grau de perfeiçao ou inferioridade. Pela facilidade que eles
tem de se exprimir, eles nos revelam seus pensamentos mais íntimos e assim
nos permitem julgar e apreciar o seu valor.

A faculdade de escrever, para o medium, e tambem a mais possível de ser
desenvolvida pelo exercício. No capítulo sobre os modos de comunicaçao, nos

33 A explicação dessa teoria encontra-se na Revista espírita, edições de maio e junho de 1868.

90 – Allan Kardec

explicamos as diversas maneiras de se obter a escrita; nos vimos que a cesta e
a prancheta apenas representam o papel da extensao da mao: e um porta-lapis
mais alongado, eis tudo; conseguiríamos tudo isso simplesmente colocando o
lapis na ponta de um bastao. Aqueles aparelhos tem a vantagem de dar uma
escrita mais características do que a que fosse obtida com a mao, mas eles tem
a desvantagem de quase sempre exigir a cooperaçao de uma pessoa — o que
pode ser um incomodo. E por isso que encorajamos todos a se dedicarem
preferencialmente a escrita imediata. O procedimento e mais simples: consiste
unicamente em pegar lapis e papel, e se colocar na posiçao de uma pessoa que
escreve, sem outra preocupaçao; mas, para ter sucesso, varias recomendaçoes
sao indispensaveis:

Como definitivamente e pela influencia de um Espírito que se escreve, esse
Espírito nao vira tao logo for chamado. Portanto, e necessario evoca-lo pelo
pensamento, em nome de Deus, e lhe pedir que tenha a bondade de vir se
comunicar. Nao ha aqui nenhuma formula sacramental; qualquer um que
pretendesse receitar uma alguma seguramente pode ser tachado de
mistificador: o pensamento e tudo; a forma nao vale nada. Nao menos
necessario e chamar um Espírito que seja simpatico, e isso por duas razoes:
uma e que ele vira com mais boa vontade se tiver afeiçao por nos; a outra e que,
em razao dessa afeiçao, ele estara mais disposto a ajudar nossos esforços para
se comunicar conosco; entao, preferencialmente sera um parente ou um amigo;
mas pode acontecer que esse parente ou amigo nao esteja numa posiçao de
poder atender ao nosso apelo, ou que nao tenha força o bastante para nos fazer
escrever; eis por que e sempre util evocar juntamente o Espírito familiar, seja
quem for, sem a necessidade de saber seu nome, porque este sempre esta ao
nosso lado. Logo, de duas, uma: ou e ele quem responde ou ele vai buscar o
outro, e em todos os casos ele presta seu apoio.

Uma coisa negligenciada por quase todos os iniciantes e fazer uma
pergunta; e obvio que o Espírito evocado nao pode responder se nada lhe for
perguntado. Sem duvidas ele poderia dizer qualquer coisa espontaneamente,
como acontece a todo instante com os mediuns experientes; mas com aquele
que esta nos seus primordios, o Espírito tem primeiro uma dificuldade

91 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

mecanica a vencer. Devemos, pois, simplificar tanto quanto possível; esse e o
efeito produzido por uma pergunta que leva a uma resposta precisa. Para
começar teríamos o cuidado de formular a questao de tal maneira que a
resposta seja simplesmente sim ou não; mais tarde, esta precauçao deixa de
ser util. A natureza da questao e indiferente; nao e necessario que ela tenha em
si mesma uma importancia real; ao contrario, quanto mais simples ela for,
melhor. A princípio, trata-se tao somente de se estabelecer uma relaçao; o
essencial e que a pergunta nao seja futil, que nao trate de coisas de interesse
privado e sobretudo que ela seja a expressao de um sentimento benevolente e
simpatico com o Espírito ao que e endereçada.

Uma coisa nao menos necessaria e a calma e a concentraçao unidas a um
desejo ardente e a uma firme vontade de alcançar o objetivo; e por vontade, nao
entendemos aqui uma vontade passageira que age esporadicamente e que a
cada minuto e interrompida por outras preocupaçoes; mas sim uma vontade
paciente, perseverante, sustentada pela prece que dirigimos ao Espírito
evocado. A concentraçao e favorecida pelo recolhimento, pelo silencio e o
afastamento de tudo o que possa causar distraçoes. Logo, so resta uma coisa a
fazer: esperar sem desanimar e renovar todos os dias as suas tentativas,
durante dez ou quinze minutos no maximo a cada vez, e isso durante quinze
dias, um mes, dois meses ou mais, se for preciso; por isso dissemos que era
preciso uma vontade firme e perseverante; eis por que tambem os Espíritos
consultados sobre a aptidao dessa ou daquela pessoa quase sempre dizem: com
vontade voces conseguirao. E possível, pois, que se consiga na primeira vez,
como e possível tambem que demore mais ou menos um longo tempo; porem,
em todos os casos, se ao fim de tres meses nao for obtido absolutamente nada,
sera praticamente inutil insistir.

E notavel que, quando se interroga os Espíritos sobre a questao de saber
se alguem e medium ou nao, eles respondem quase sempre afirmativamente —
o que nao impede que os ensaios muitas vezes sejam infrutíferos. Isso se explica
naturalmente: ao fazermos uma pergunta generica a um Espírito, ele responde
de uma maneira generica; ora, como nos sabemos, nada e mais flexível do que
a faculdade mediatriz, pois ela pode se apresentar sob as mais variadas formas

92 – Allan Kardec

e em graus muito diferentes. Portanto, uma pessoa pode ser medium sem se
aperceber disso e num sentido que nao e aquele que imaginamos. A esta
pergunta vaga: “Sera que eu sou medium?”, o Espírito pode responder que sim;
a esta outra mais precisa: “Eu sou um medium escrevente?”, ele pode responder
que nao. E preciso ter em conta tambem a natureza do Espírito a quem
interrogamos; ha os que sao tao levianos e ignorantes que respondem a torto e
a direito, como verdadeiros atordoados.

Um metodo que geralmente da muito certo — seja para acelerar o
resultado, seja mesmo para fazer uma pessoa escrever, sendo que sem isso ela
nao conseguiria — consiste em empregar como um auxiliar temporario um
bom medium escrevente ou um outro, ja experiente. Quando ele poe a mao ou
os dedos sobre a mao de quem deseja escrever, e raro que este ultimo nao
escreva imediatamente. Compreende-se o que acontece em tal circunstancia: a
mao que segura o lapis de alguma forma se torna uma extensao da mao do
medium, como se fosse uma cesta ou uma prancheta; mas isso nao impede que
esse exercício seja muito util, quando se pode emprega-lo, no sentido de que,
repetido sequencial e regularmente, ele ajuda a superar o obstaculo físico e
provoca o desenvolvimento da faculdade. Algumas vezes, basta apenas que ele
magnetize fortemente com essa intençao o braço e a mao daquele que quer
escrever; nao raro o magnetizador se limita mesmo a colocar sua mao no ombro
dele, e entao temos visto o principiante escrever prontamente sob essa
influencia. O mesmo efeito pode se produzir igualmente sem nenhum contato,
so pelo ato da vontade; nesse caso, e preciso estimular os esforços do Espírito,
encorajando-o pela palavra. Concebe-se sem dificuldade que a confiança do
magnetizador na sua propria força para produzir tal resultado deva aqui
desempenhar um papel importante, e que um magnetizador incredulo teria
pouca, senao nenhuma açao.

A força que permite desenvolver nos outros a faculdade de escrever
constitui uma variedade de mediuns que denominamos médiuns formadores;
e o que talvez va parecer estranho e que ela existe nas pessoas que nao
escrevem por si mesmas. Seu auxílio muitas vezes e util aos iniciantes, mesmo
com relaçao aqueles que tem uma aptidao natural; ha uma porçao de pequenas

93 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

precauçoes que ele frequentemente negligencia em detrimento da rapidez do
seu progresso, e que um guia experimentado aponta — seja pela disposiçao
física, seja sobretudo pela natureza das primeiras questoes e a maneira de as
formular. Seu papel e o de um professor que o aprendiz dispensa quando ja esta
habil o bastante.34

A fe do medium aprendiz nao e uma condiçao rigorosa; ela sem duvida
auxilia os esforços, mas nao e indispensavel: o desejo e a boa vontade bastam.
Tem-se visto pessoas inteiramente incredulas ficarem espantadas de escrever
a contragosto, enquanto crentes sinceros nao conseguem o mesmo — o que
prova que esta capacidade depende de uma predisposiçao organica.

Como disposiçao material, nos recomendamos evitar tudo o que possa
dificultar a livre movimentaçao da mao; e ate preferível que ela nao fique
totalmente apoiada sobre o papel. A ponta do lapis deve encostar o suficiente
para rabiscar, mas nao o bastante para oferecer resistencia. Todas essas
precauçoes se tornam inuteis uma vez que se tenha chegado a escrever
fluentemente, pois entao nenhum obstaculo pode mais dete-lo; sao so
preliminares para o aprendiz.

O primeiro indício de uma disposiçao para escrever e uma especie de
estremecimento no braço e na mao; pouco a pouco, a mao e tomada por uma
impulsao que ela nao pode conter. Muitas vezes ela inicialmente nao rabisca
senao traços insignificantes; depois, os caracteres se desenham cada vez mais
nitidamente e a escrita acaba adquirindo a rapidez da escrita comum. Em todos
os casos, deve-se entregar a mao ao seu movimento natural e nao fornecer nem
resistencia nem propulsao.

A escrita algumas vezes e bem legível, as palavras e as letras perfeitamente
destacadas; mas com determinados mediuns ela e difícil de ser decifrada por
outro que nao seja aquele que escreve: e preciso se acostumar com ela. Muito
frequentemente ela e formada de grandes traços; os Espíritos sao pouco
economicos com papel. Quando uma palavra ou uma frase e quase toda ilegível,

34 Teremos o prazer em dar pessoalmente, e sem interesse, todas as vezes que nos for possível, os
conselhos de nossa experiência às pessoas que desejarem se formar como médiuns escreventes, quando
eles já tiverem adquirido previamente o conhecimento teórico da ciência espírita, e isso a fim de não ter
que lhes ensinar os fundamentos desta ciência.

94 – Allan Kardec

pede-se ao Espírito a bondade de recomeçar, o que geralmente ele faz com boa
vontade. Quando a escrita e habitualmente ilegível mesmo para o medium, este
quase sempre consegue obter uma mais nítida atraves de exercícios frequentes
e sucessivos, colocando nisso uma forte vontade e rogando com fervor ao
Espírito que ele escreva mais legível. Se quiser guardar as respostas, e bom
transcreve-las imediatamente, assim como as questoes, enquanto ainda
estiverem na memoria, porque mais tarde provavelmente isso se torne
impossível. Certos Espíritos, antes de começar uma resposta, executam a mao
diversos desenvolvimentos e traçam um monte de riscos insignificantes; eles
dizem que e para treinar, para desatar a mao ou para estabelecer a conexao; as
vezes sao emblemas, alegorias das quais em seguida eles dao a explicaçao. Com
frequencia eles adotam sinais convencionais para expressar certas ideias, que
passam a ser usados nas reunioes habituais. Para indicar que uma questao lhes
desagrada e que nao a querem responder, eles fazem, por exemplo, um risco
longo ou algo equivalente.

Quando o Espírito termina o que tinha a dizer ou nao quer mais responder,
a mao fica imovel e o medium — quaisquer que sejam sua força e sua vontade
— nao consegue obter nenhuma palavra a mais; e um sinal de que o Espírito se
foi. Ao contrario, enquanto o Espírito nao terminar, o lapis se move sem que a
mao consiga para-lo. Se o Espírito quer espontaneamente dizer alguma coisa, a
mao toma convulsivamente o lapis e se poe a escrever sem poder fazer
oposiçao.

Estas sao as explicaçoes mais essenciais que temos a dar no tocante ao
desenvolvimento da psicografia; a experiencia mostrara na pratica alguns
detalhes que seria inutil relatar aqui, e para os quais nos guiaremos atraves dos
princípios gerais. Que muitos experimentem, e dificilmente se encontrara uma
família que nao tenha entre alguns dos seus membros um medium escrevente,
mesmo que seja uma criança.

Todo aquele que recebeu o dom de escrever com facilidade sob a
influencia dos Espíritos possui uma faculdade preciosa, pois se torna o
interprete entre o mundo visível e o mundo invisível; quase sempre e uma
missao que ele recebeu em favor do bem, mas da qual ele nao deve se orgulhar,

95 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

porque essa faculdade lhe pode ser retirada se ele fizer mau uso dela, ou ate
mesmo voltar-se contra ele, no sentido de que ele escrevera coisas mas e entao
so tera a sua disposiçao os Espíritos maus. Aquele que, apesar dos seus esforços
e de sua perseverança, nao consegue obte-la nao deve concluir com isso nada
desfavoravel contra si mesmo: e porque a seu organismo físico nao se presta a
isso, mas nem por isso ele fica deserdado das comunicaçoes espíritas; se nao as
recebe diretamente, ele pode obte-las — tao belas e tao beneficas — atraves de
um intermediario. Alem disso, em compensaçao, ele pode ter outras faculdades
nao menos uteis. A privaçao de um sentido e quase sempre compensada por
outro sentido mais desenvolvido.

96 – Allan Kardec

CAPÍTULO VI

PAPEL E INFLUÊNCIA DO
MÉDIUM NAS MANIFESTAÇÕES

Para se compreender o papel dos mediuns nas manifestaçoes, e preciso
entender a maneira como se opera a transmissao do pensamento dos Espíritos.
Aqui estamos falando dos mediuns escreventes.

Como ja dissemos, o Espírito tem um envoltorio semimaterial que nos
nomeamos perispírito. O fluido condensado — por assim dizer, ao redor do
Espírito, para formar esse envoltorio — e o intermediario pelo qual ele atua
sobre os corpos; ele e o agente da sua força material, e e atraves dele que o
Espírito produz os fenomenos físicos.

Se examinarmos certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa,
da cesta, ou da prancheta que escreve, entao nao poderemos duvidar de uma
açao exercida diretamente pelo Espírito sobre esses objetos. A cesta se agita as
vezes com tanta violencia que ela escapa das maos do medium; algumas vezes
ela ate se dirige a certas pessoas da reuniao para bater nelas; em outras
ocasioes, seus movimentos demonstram um sentimento afetuoso. A mesma
acontece quando o lapis esta na mao do medium; com frequencia e atirado
longe com força, ou entao a propria mao, assim como a cesta, agita-se
convulsivamente e bate na mesa com raiva, mesmo quando o medium esta na
maior calma, e fica admirado de nao ser senhor de si. Digamos, de passagem,
que esses efeitos denotam sempre a presença de Espíritos imperfeitos; os
Espíritos realmente superiores sao constantemente calmos, dignos e
benevolos; se nao sao escutados convenientemente, eles se retiram, e outros

97 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

tomam o lugar deles. Portanto, o Espírito pode expor suas ideias diretamente
pelo movimento de um objeto para o que a mao do medium nao passa de apoio;
ele tambem pode fazer isso sem que esse objeto esteja em contato com o
medium.

A transmissao do pensamento tambem se efetua atraves do Espírito do
medium, ou melhor, da sua alma, porque designamos por esse nome o Espírito
encarnado. Neste caso, o outro Espírito nao atua sobre a mao para faze-la
escrever, como nao atua sobre a cesta; ele nao a toma e nem a guia, mas atua
sobre a alma com a qual ele se identifica. A alma, sob essa impulsao, dirige a
mao por meio do fluido que compoe seu proprio perispírito, a mao dirige a
cesta e a cesta dirige o lapis. Notemos aqui uma coisa importante a saber: e que
o outro Espírito nao substitui a alma, pois ele nao pode desloca-la; ele a domina,
a revelia dela, e lhe imprime a sua vontade. Quando dizemos a revelia dela, nos
estamos querendo dizer da alma agindo externamente pelos orgaos do corpo;
mas a alma, como Espírito, ainda que encarnada, pode perfeitamente ter
consciencia da açao exercida sobre ela por um Espírito exterior. Nessa
circunstancia, o papel da alma por vezes e inteiramente passivo, e entao o
medium nao tem nenhuma consciencia do que escreve ou do que diz, se for um
medium falante; porem, ocasionalmente a passividade nao e absoluta, pois ele
tem uma consciencia mais ou menos vaga dessa açao, embora sua mao esteja
sendo levada por um movimento maquinal e sua vontade permaneça alheia.

Mas, se assim for, irao dizer que nada prova que seja mesmo um Espírito
exterior quem escreve e nao o Espírito do medium. Aqui e o caso de revelar um
erro compartilhado por algumas pessoas. Nos entao diremos que pode ocorrer
da alma do medium se comunicar da mesma forma que um Espíritos exterior;
e isso e facilmente concebível. Pois ja que podemos evocar o Espírito de pessoas
vivas, ausentes ou presentes, e que esse Espírito se comunica pela escrita ou
pela palavra do medium, entao por que o Espírito encarnado no medium nao
poderia igualmente se comunicar? Os fatos provam que em determinadas
circunstancias isso acontece — como no sonambulismo, por exemplo. Daí
segue que a comunicaçao feita pela alma do medium tem menos valor?
Absolutamente nao. O Espírito encarnado no medium pode ser mais elevado do

98 – Allan Kardec

que alguns Espíritos estranhos e entao pode dar comunicaçoes melhores: cabe
a nos julgarmos; nesse caso, ele fala como Espírito desprendido da materia, e
nao como homem. A questao a saber e se nao e sempre o Espírito do medium
quem esta emitindo seus proprios pensamentos assim como alguns afirmam.
Essa opiniao absoluta e um sistema que so pode vir de uma observaçao
incompleta; por isso e sempre perigoso levantar teorias sobre coisas que nao
conhecemos profundamente ou das quais so pudemos ver um lado. Ha casos,
sem duvidas, em que a intervençao de um Espírito exterior nao e incontestavel,
mas basta que, em alguns, ela seja evidente para concluirmos que outro Espírito
— que nao seja o do medium — pode se comunicar. Ora, essa intervençao
externa nao poderia ser duvidosa quando, por exemplo, uma pessoa que nao
sabe ler nem escrever, de repente, escreva como medium; quando um medium
escreve ou fala uma língua que ele nao conhece; quando, enfim, o que e o caso
mais comum, ele nao tem nenhuma consciencia do que escreve, que as ideias
ele que expressa sao contrarias a sua maneira de ver, esteja fora dos seus
conhecimentos ou acima do alcance de sua inteligencia. Sobre este ultimo caso,
a experiencia da provas tao numerosas e tao palpaveis que a duvida deixa de
ser permitida a quem tenha observado bastante, e sobretudo observado bem.

Seja qual for, portanto, o modo de açao do Espírito exterior para a
produçao da escrita, ou pela expressao do pensamento pela palavra, o medium
nunca passa de um instrumento, mas um instrumento mais ou menos comodo.
Isso nos da o ensejo de fazer uma observaçao importante que respondera
aquela questao natural: por que todos os mediuns nao escrevem em todas as
línguas que eles desconhecem?

Sem duvida, o Espírito comunicante compreende todas as línguas, pois as
línguas sao a expressao do pensamento, e que o Espírito compreende pelo
pensamento; mas, para exprimir esse pensamento, falta-lhe um instrumento:
esse instrumento e o medium. A alma do medium que recebe a comunicaçao
exterior nao pode transmiti-la senao pelos orgaos do corpo; ora, esses orgaos
nao podem ter para uma língua desconhecida a flexibilidade que eles tem para
uma língua que lhes e familiar. Um medium que so saiba frances poderia
ocasionalmente dar uma resposta em ingles, por exemplo, se o Espírito assim

99 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

quiser fazer; mas os Espíritos — que ja acham a linguagem humana muito lenta,
em comparaçao a rapidez do pensamento, tanto que eles a abreviam o quanto
podem — ficam impacientes com a resistencia mecanica que eles enfrentam;
daí por que nem sempre o fazem. Essa tambem e a razao pela qual um medium
noviço — que escreve mal e lentamente, mesmo na sua língua nativa —
geralmente nao obtem mais do que respostas breves e sem desenvolvimento;
por isso os Espíritos recomendam que so façam perguntas simples por seu
intermedio. Para aquelas de um grande alcance, e preciso um medium
experiente que nao ofereça nenhuma dificuldade mecanica ao Espírito. Nos nao
tomaríamos para ser nosso leitor um estudante que mal sabe soletrar. Um bom
operario nao gosta de se servir de maus instrumentos. Acrescentemos outra
consideraçao de uma gravidade muito grande no que se refere as línguas
estrangeiras: os ensaios deste genero sao sempre feitos com um objetivo de
curiosidade e de experimentaçao; ora, nada mais antipatico aos Espíritos do
que as provas as quais tentem submete-los. Os Espíritos superiores jamais se
sujeitam a isso, e se afastam logo que se pretenda entrar por esse caminho.
Tanto eles se comprazem com as coisas uteis e serias quanto eles repugnam ter
que se ocuparem com coisas futeis e sem finalidade. Os incredulos dirao que e
para se convencerem, e que esse proposito e util, ja que isso pode ganhar
adeptos para a causa dos Espíritos. A isto os Espíritos respondem: “A nossa
causa nao precisa dos que tem orgulho o bastante para se suporem
indispensaveis; nos chamamos para nos aqueles que nós queremos, e estes
sao quase sempre os mais pequeninos e os mais humildes. Jesus fez os milagres
que os escribas lhe pediam? E de que homens ele se serviu para revolucionar o
mundo? Se quiserem se convencer, voces tem outros meios que nao o de
façanhas; comecem primeiramente por se submeterem: nao e correto que o
discípulo imponha sua vontade ao mestre.”

Daí decorre que, salvo algumas exceçoes, o medium repassa o pensamento
dos Espíritos pelos meios mecanicos que estao a sua disposiçao, e que a
expressao desse pensamento pode — e deve, na maioria das vezes — ser
afetada pela imperfeiçao desses meios; sendo assim, o homem inculto, o

100 – Allan Kardec

campones,35 poderia dizer as mais belas coisas, expressar as mais elevadas e as
mais filosoficas ideias, falando como campones; para os Espíritos o pensamento
e tudo e a forma nao vale nada. Isso responde as objeçoes de alguns críticos a
respeito das incorreçoes de estilo e de ortografia que podem ser atribuídas aos
Espíritos, mas que podem vir tanto do medium como do Espírito. So ha
futilidade em se apegar a essas coisas.

Se, do ponto de vista da execuçao, o medium e nao e mais do que um
instrumento, noutro aspecto ele exerce uma influencia muito grande. Ja que,
para se comunicar, o Espírito externo se identifica com o do medium, essa
identificaçao so pode ocorrer enquanto houver entre eles alguma simpatia e,
por assim dizer, afinidade. A alma exerce sobre o outro Espírito uma especie de
atraçao ou repulsao conforme o grau de sua semelhança ou dissimilaridade;
ora, os bons tem afinidade com os bons, e os maus com os maus; daí segue que
as qualidades morais do medium tem uma influencia capital sobre a natureza
dos Espíritos que se comunicam por seu intermedio. Se ele for vicioso, os
Espíritos inferiores virao se agrupar em torno dele e estarao sempre prontos
para ocupar o lugar dos Espíritos bons que foram chamados. As qualidades que
atraem os bons Espíritos sao: bondade, gentileza, simplicidade de coraçao,
amor ao proximo e desapego das coisas materiais; os defeitos que os repulsam
sao: o egoísmo, a inveja, o ciume, o odio, a ganancia, a sensualidade e todas as
paixoes pelas quais o homem se prende a materia. Um meio por excelencia
seria, portanto, aquele que, pela facilidade da execuçao, juntasse as qualidades
morais no mais alto grau.

A influencia do Espírito do medium tambem pode ser exercida de outra
maneira: se ele for hostil ao Espírito estranho que se comunica, podera ser-lhe
um interprete infiel, alterar ou transviar o seu pensamento, ou ainda traduzi-lo
em termos improprios. O mesmo acontece entre nos quando confiamos a um
homem de ma-fe uma missao de confiança.

A faculdade mediatriz, qualquer que seja o seu grau, nao e entao suficiente

35 O autor aqui toma a figura do camponês como exemplo de alguem iletrado, obviamente que nao por
preconceito, mas porque era o exemplo classico naquela epoca (seculo XIX), em razao das mínimas
condiçoes que o homem do campo tinha de acesso a escola, especialmente em comparaçao com quem
vivia na zona urbana. — N. T.

101 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

para garantir boas comunicaçoes; e preciso — acima de tudo, e em condiçoes
expressas — um medium simpatico aos bons Espíritos. A repulsa destes para
com os mediuns inferiores do ponto de vista moral e facilmente compreendida.
Por acaso nos tomamos como confidentes dos nossos pensamentos as pessoas
que nao estimamos?

Algumas pessoas realmente estao mal-informadas com relaçao as
comunicaçoes; ha quem normalmente so receba ou transmita coisas triviais ou
grosseiras — para nao dizer mais nada. Elas devem deplorar isso, por ser um
indício certo da natureza dos Espíritos que se agrupam em torno delas, porque
certamente nao sao Espíritos superiores que usam tal linguagem; portanto,
nunca seria demais elas fazerem todos os esforços para se livrarem de acolitos
tao pouco recomendaveis, a menos que encontrem prazer neste tipo de
conversaçoes; em todos os casos, nos as encorajamos a evitarem fazer alarde
disso, pois poderia dar uma ideia nada lisonjeira das simpatias que elas
encontram no mundo dos Espíritos. Completaremos o que temos a dizer sobre
os mediuns a medida que a sequencia de nossas instruçoes o exigir.

Agora, sera que e absolutamente impossível ter boas comunicaçoes
atraves de mediuns imperfeitos? E o que veremos no proximo capítulo.

102 – Allan Kardec

CAPÍTULO VII

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE
SOBRE AS MANIFESTAÇÕES

Seria um grave erro acreditar que e preciso ser medium para atrair a si os
seres do mundo invisível. O espaço e repleto deles; nos os temos
constantemente em torno de nos, ao nosso lado, vendo-nos, observando-nos,
participando das nossas reunioes, seguindo-nos ou nos evitando conforme os
atraímos ou os repelimos. A faculdade mediatriz nada tem a ver com isto: ela
nao e mais do que um meio de comunicaçao. De acordo com o que vimos a
respeito das causas de simpatia ou antipatia dos Espíritos, facilmente
compreenderemos que devemos estar cercados daqueles que tem afinidade
com o nosso proprio Espírito conforme este seja elevado ou degradado. Agora,
vamos considerar o estado moral do nosso planeta e entenderemos qual e o
genero de Espíritos que deve predominar entre os Espíritos errantes. Se
tomarmos cada povo em particular, poderemos julgar — pelo carater
predominante dos habitantes, pelas suas preocupaçoes e seus sentimentos
mais ou menos morais e humanitários — os tipos de Espíritos que ali
preferencialmente se encontram.

Os Espíritos nao sao outra coisa senao nossas almas libertas dos corpos, e
que carregam consigo o reflexo das nossas qualidades e das nossas
imperfeiçoes; eles sao bons ou maus dependendo do que fomos, com exceçao
daqueles que, tendo deixado suas impurezas no fundo do alambique terreno,
se elevaram acima da turba dos Espíritos imperfeitos. Na realidade, o mundo
espírita e, portanto, apenas um extrato quintessenciado do mundo corporeo e

103 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

que dele tira os bons e os maus odores.
Partindo deste princípio, suponhamos uma reuniao de homens levianos,

inconsequentes, ocupados com seus prazeres; quais serao os Espíritos que os
cercarao de preferencia? Com certeza nao serao Espíritos superiores, muito
menos os sabios e filosofos do nosso mundo iriam gastar o seu tempo aí. Desta
forma, todas as vezes que os homens se reunem, eles tem com eles uma
assembleia oculta que simpatiza com suas qualidades ou com seus defeitos, e
isto independentemente de toda e qualquer ideia de evocação. Admitamos
agora que estes homens tenham a possibilidade de conversar com os seres do
mundo invisível por meio de um interprete, ou seja, por um medium; quais sao
os que vao responder ao chamado deles? Evidentemente, aqueles que estao la,
bem proximos, e que nao perdem uma ocasiao para se comunicar. Se um
Espírito superior for chamado numa assembleia futil, ele podera vir e ate
mesmo proferir algumas palavras razoaveis, como um bom pastor que vem
para o meio de suas ovelhas desgarradas; mas desde que ele nao se veja nem
compreendido nem ouvido, ele vai embora dali, como voces o fariam no lugar
deles, e os outros ficam com o campo livre.

Nem sempre basta que uma assembleia seja seria para receber
comunicaçoes de uma ordem elevada; ha pessoas que nao riem jamais e cujo
coraçao nem por isso e mais puro. Ora, e o coraçao principalmente que atrai os
bons Espíritos. Nenhuma condiçao moral exclui as comunicaçoes espíritas; mas
se estivermos em mas condiçoes, estaremos em contato com os nossos
semelhantes, que nao deixam de nos enganar, e muitas vezes lisonjeando
nossos preconceitos.

Por nao ser de ordem superior, nem sempre por isso o Espírito e mau:
muitas vezes e apenas desajuizado. Se voce se divertir com seus gracejos, ele se
entregara a elas com o maior prazer e lhe dara pontos pelo sal de epigramas
que raramente levam a falsidade e que, de forma jovial, muitas vezes dao liçoes
picantes. Sao os brincalhoes36 do mundo espírita, assim como os Espíritos

36 No texto original, Kardec grafou vaudevillistes, uma menção àqueles que ganhavam a vida praticando
vaudevilles (vaudeviles, aportuguesado), que eram típicos espetáculos de rua, geralmente cômicos e
satíricos, muito comuns na cultura francesa dos séculos XVIII e XIX, misturando encenações teatrais
populares com dança, música, truques, mágicas etc. — N. T.

104 – Allan Kardec

superiores dele sao os sabios e os filosofos.
Por aí se ve a enorme influencia do ambiente sobre a natureza das

manifestaçoes inteligentes; entretanto, essa influencia nao se exerce como
algumas pessoas afirmaram, quando ainda nao se conhecia o mundo dos
Espíritos igual conhecemos hoje, e antes que experiencias mais conclusivas
viessem esclarecer as duvidas. Quando as comunicaçoes concordam com a
opiniao dos assistentes, nao e que essa opiniao se reflita no Espírito do medium
como num espelho, mas porque voces tem convosco Espíritos que sao
simpaticos a voces — tanto para o bem quanto para o mal — e que se
sintonizam com o vosso sentido; e a prova disso e que se voces tiverem a força
para atrair outros Espíritos alem daqueles que vos cercam, esse mesmo
medium vai usar uma linguagem totalmente diferente e vos dira as coisas mais
distantes dos vossos pensamentos e convicçoes. Em resumo, as condiçoes do
meio serao tanto melhores quanto mais houver homogeneidade para o bem,
mais sentimentos puros e elevados, e mais desejo sincero de se instruir sem
ideias preconcebidas.

Nesse meio, tres elementos podem influenciar de forma alternada ou
simultanea: a assembleia participante, pelos Espíritos que eles atraem; o
medium, pela natureza de seu proprio Espírito que serve de interprete; e
aquele que interroga. Este ultimo, por si so, pode dominar todas as outras
influencias e, nao obstante as condiçoes desfavoraveis do entorno, pode
algumas vezes obter grandes coisas atraves de sua ascendencia — se o objetivo
ao qual ele se propoe for util, pois os Espíritos superiores vem ao seu chamado,
e por ele; os outros se calam, como aprendizes diante dos seus mestres.

A influencia do ambiente faz compreender que quanto menos numerosas
forem as reunioes, melhor, porque assim e mais facil se obter a homogeneidade.
Os grupos pequenos e íntimos sao sempre mais favoraveis as belas
comunicaçoes; porem, e compreensível que se cem pessoas reunidas estiverem
suficientemente concentradas e atentas, elas obterao mais do que dez que
estivessem distraídas e fazendo barulho. O que principalmente e necessario
entre os presentes e uma comunhão de pensamentos; se essa comunhao visar
o bem, entao os bons Espíritos virao facilmente e com boa vontade. Nunca seria

105 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

demais tomar todo o cuidado com os novos membros introduzidos nas
reunioes; tem gente que leva perturbaçao consigo para onde quer que va. Os
mais prejudiciais, nesse caso, nao sao os que ignoram o assunto, nem mesmo
aqueles que nao acreditam: a convicçao so e adquirida pela experiencia, e ha
pessoas que querem se esclarecer de boa-fe. Aqueles de quem devemos nos
proteger sao principalmente as pessoas de ideias preconcebidas, os incredulos
que duvidam de tudo, ate mesmo da evidencia; os orgulhosos que pretendem
ter exclusivamente a luz interior, querendo em tudo impor a sua opiniao e
olhando com desdem os que nao pensam como eles. Nao se deixem enganar
pelo suposto desejo deles de se instruírem; ha muitos deles que ficariam muito
aborrecidos se fossem forçados a admitir que estavam errados. Tenham
cuidado sobretudo com esses oradores insípidos que querem sempre dizer a
ultima palavra: os Espíritos nao gostam de palavras inuteis.

106 – Allan Kardec

CAPÍTULO VIII

RELAÇÕES COM OS ESPÍRITOS

A maneira de se relacionar com os Espíritos nao e um dos pontos menos
uteis. Se considerarmos a distancia que separa as duas extremidades da escala,
veremos sem dificuldade a necessidade de certas precauçoes, conforme a
categoria dos Espíritos e seus habitos. Nao basta, pois, que estejamos
propriamente em boas condiçoes; e preciso conhecer o caminho mais favoravel
para atingir o objetivo com mais segurança. Com isso, teremos que examinar o
procedimento que convem adotarmos para as reunioes, os evocadores, a
linguagem a ser usada com os Espíritos, o tipo de questoes que podemos lhes
dirigir.

As reuniões

E evidente que nos nos referimos as reunioes que tem um proposito serio.
Quanto aquelas que sao realizadas com o objeto de divertimento e curiosidade,
vamos deixa-los a si mesmas; ali, os participantes estao livres para pedir
fortuna e falar sobre seus segredinhos, com a garantia previa do investimento
do seu dinheiro. No entanto, nos advertimos que essas reunioes frívolas tem
uma grave inconveniencia: e que algumas pessoas podem levar a serio o que
quase sempre e uma lorota da parte dos Espíritos levianos, que se divertem as
custas daqueles que os escutam. Quanto as pessoas que nunca viram nada, nao
e la que elas devem ir para tirar suas primeiras liçoes e nem para formar
convicçoes, pois elas poderiam se enganar redondamente quanto a natureza

107 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

dos seres que compoem o mundo espírita, assim como alguem que julgaria todo
o povo de uma grande cidade pelos habitantes dos seus suburbios.

De tudo o que temos dito, concebe-se que o silencio e o recolhimento sao
as condiçoes de primeira ordem; mas o que nao e menos necessario e a
regularidade das reunioes. Em todas elas sempre ha aqueles Espíritos que
poderíamos chamar de frequentadores assíduos, e nao estamos nos referindo
aos Espíritos que se encontram em toda a parte e que se metem em tudo;
estamos falando tanto de Espíritos familiares quanto daqueles que sao
interrogados mais assiduamente. Nao devemos supor que esses Espíritos nao
tenham outra coisa a fazer senao nos ouvir; eles tem suas ocupaçoes e, alem
disso, podem estar em condiçoes desfavoraveis para serem evocados. Quando
as reunioes sao realizadas em dias e horarios fixos eles se organizam de acordo
e e raro que faltem a elas. Ha ate alguns que levam a pontualidade ao excesso;
eles ficam ofendidos com um atraso de quinze minutos, e se eles mesmos
marcarem o horario do encontro, seria em vao chama-los alguns minutos antes.
Sem duvidas, eles podem vir fora das horas determinadas, e vem com muita boa
vontade — se o objetivo for util. Porem, nada e mais prejudicial as boas
comunicaçoes do que chama-los a torto e a direito, quando a fantasia nos
domina, e sobretudo sem motivo serio; como eles nao sao forçados a se
submeterem aos nossos caprichos, eles podem muito bem nao nos atender, e e
principalmente nessa hora que outros podem o lugar e o nome deles.

Nao ha hora cabalística para as evocaçoes; portanto, a escolha do horario
e completamente indiferente. Aquelas em que as ocupaçoes cotidianas
permitem mais calma e relaxamento sao as melhores ocasioes. Os Espíritos que,
para uma coisa qualquer, prescrevessem horas prediletas consagradas aos
seres infernais, nos contos fantasticos, seriam indubitavelmente Espíritos
mistificadores. O mesmo acontece com relaçao para os dias aos quais a
superstiçao atribuiu uma influencia imaginaria.

Nada impediria tambem que as reunioes fossem realizadas diariamente,
mas haveria uma inconveniencia em sua frequencia muito grande. Se os
Espíritos culpam o apego exagerado as coisas desse mundo, eles igualmente
recomendam nao descuidar dos deveres que a nossa posiçao social nos impoe;

108 – Allan Kardec

faz parte das nossas provaçoes. Alias, para a saude do corpo, nosso proprio
Espírito precisa nao estar constantemente voltado para um mesmo objetivo, e
sobretudo para as coisas abstratas; para tanto, ele presta mais atençao nelas
quando nao esta cansado. As reunioes semanais ou quinzenais sao suficientes;
elas se realizam com mais solenidade e concentraçao quando elas nao sao tao
proximas. Estamos falando das sessoes em que realiza um trabalho regular, e
nao daquelas em que um medium iniciante se dedica aos exercícios necessarios
para se desenvolver; estas, propriamente falando, nao sao sessoes; sao antes
liçoes que darao resultados tanto mais rapidamente quanto mais forem
multiplicadas. Porem, uma vez desenvolvida a faculdade, e essencial nao abusar
dela, pelos motivos que acabamos de dar. A satisfaçao que a posse dessa
faculdade proporciona a certos novatos suscita em alguns deles um entusiasmo
que e muito importante moderar. Eles devem ponderar que ela lhes foi dada
para o bem, e nao para satisfazer uma va curiosidade. Quando dizemos o bem,
queremos dizer o dos seus semelhantes, e nao apenas o seu próprio bem. Para
tanto, um medium que queira ter um relacionamento serio com os Espíritos
deve evitar ceder a curiosidade dos amigos ou conhecidos que venham assedia-
lo com questoes ociosas; entao, ele deve prestar um auxílio prestimoso e
desinteressado quando se trata de coisas uteis; agir de outra forma seria
egoísmo, e o egoísmo e uma chaga.

O local

Tambem nao existe nenhum lugar específico para as comunicaçoes
espíritas; deve-se inclusive evitar aqueles que, por sua natureza, costumam
impressionar a imaginaçao. Os bons Espíritos vem a qualquer local onde um
coraçao puro os convida para o bem, e os maus Espíritos nao tem predileçao
senao pelos locais onde eles encontram simpatias. Os cemiterios exercem mais
influencia sobre o nosso pensamento do que sobre os Espíritos, e a experiencia
demonstra que os Espíritos vem com a mesma facilidade tanto ao quarto mais
simples sem aparencia diabolica quanto aos tumulos ou capelas em ruínas,
tanto em plena luz do dia quanto no clarao da lua.

109 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Ja que a escolha do local e indiferente, e util nao o alterar sem necessidade.
O fluido vital — de que cada Espírito errante ou encarnado e, de alguma forma,
um foco — irradia em torno dele pelo pensamento. Com isso, entendemos que
num local habitual deva haver um efluvio desse fluido que, por assim dizer,
forma nesse lugar uma atmosfera moral com a qual os Espíritos se identificam.
Seria ate mesmo preferível um lugar que fosse reservado exclusivamente a esse
tipo de encontros e que nao fosse — se assim podemos nos expressar —
profanado por preocupaçoes vulgares, porque esse local seria um verdadeiro
santuario de onde os maus Espíritos estariam excluídos, em razao de ali os
elementos da atmosfera moral estarem menos misturados do que num lugar
comum.

A melhor acomodaçao física e aquela que e mais confortavel e que pode
proporcionar o mínimo de perturbaçao e distraçao. Nos objetos que servem de
decoraçao, tudo o que pode elevar o pensamento e lembrar o assunto tratado e
util, mas que fique bem claro que qualquer acomodaçao ou ornamentaçao que
remeta ao grimorio37 e absurda — dizemos ate que e perigosa, por causa das
ideias supersticiosas que isso necessariamente deve fomentar. Nos repetimos
aqui o que dissemos la atras a respeito das horas: os Espíritos que
recomendassem coisas desse tipo, ou quaisquer praticas místicas, sao Espíritos
inferiores que se diverte com a credulidade, ou que, talvez, eles mesmos
estejam dominados pelas ideias que tiveram durante sua vida. Dissemos e nao
nos cansamos de repetir: para os Espíritos superiores o pensamento e tudo e a
forma nao e nada; e pelos bons pensamentos que os atraímos, e nao pelas
formulas vas; aqueles que dao importancia as coisas materiais provam com isso
que ainda estao sob a influencia da materia. Se, em algum momento, a evocaçao
esteve envolvida de misterios e de símbolos, foi porque pretendiam se esconder
das pessoas comuns e queriam dar a si mesmos um prestígio diante dos
ignorantes. Hoje, a luz brilha para todo o mundo, e e em vao querer coloca-la
debaixo de um alqueire.

Tudo o que dissemos das reunioes em que todos se ocupam com

37 Grimório: coleção medieval de feitiços, rituais e encantamentos mágicos atribuídas a fontes clássicas
hebraicas ou egípcias. — N. T.

110 – Allan Kardec

comunicaçoes espíritas se aplica naturalmente as comunicaçoes individuais; e
por isso que nao faremos nenhuma mençao especial a respeito. O mesmo
ocorre com tudo o que nos resta examinar. Tomamos as reunioes como modelo
porque elas contem as condiçoes mais complexas de que cada um podera
aplicar aos casos particulares. Acrescentaremos tambem que, quando
realizadas em boas condiçoes, as reunioes tem uma vantagem no fato de que
varias pessoas unidas por uma ideia comum possuem mais forço para atrair os
bons Espíritos, que gostam de se encontrar num ambiente simpatico onde
possam derramar luz atraves de seu ensinamento. No entanto, ha situaçoes em
que eles preferem — e ate recomendam — as comunicaçoes isoladas. O que ha
de melhor a fazer nesses casos e se conformar com a decisao deles.

Evocações

Algumas pessoas pensam que, quando se trata principalmente de
ensinamentos gerais, devemos nos abster de evocar esse ou aquele Espírito, e
que e preferível esperar aquele que bem queira se comunicar. Elas se baseiam
naquela opiniao que, chamando um determinado Espírito, nao se pode ter
certeza de que seja ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem
espontaneamente e por sua propria açao prova melhor a sua identidade, pois
assim ele mostra o desejo que tem de estar em contato conosco. Na nossa
opiniao, isso e um erro: primeiramente porque sempre ha em torno de nos
Espíritos — na maioria das vezes de baixo nível — que nao querem outra coisa
senao se comunicar; em segundo lugar e ate por esta ultima razao, nao chamar
nenhum em particular e abrir a porta para todos os que queiram entrar. Numa
reuniao, nao dar a palavra a ninguem e deixa-la livre a todo mundo, e nos
sabemos o que isso resulta. O chamado direto feito a um determinado Espírito
representa um laço entre ele e nos: nos o chamamos pelo nosso desejo e assim
impomos uma especie de barreira aos intrusos, que facilmente podem nos
induzir ao erro sobre sua identidade. Sem um chamado direto, um Espírito
normalmente nao teria nenhum motivo para vir ate nos, se nao for um Espírito
familiar nosso. A proposito, a experiencia prova que em qualquer situaçao a

111 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

evocaçao e preferível. Quanto a questao de identidade, falaremos a respeito
dela adiante.

Portanto, essa regra nao e absoluta. Nas reunioes regulares, sobretudo
naquelas onde se realiza um trabalho contínuo, sempre ha Espíritos — como
dissemos — frequentadores assíduos, que comparecem sem serem chamados,
e que, exatamente por causa da regularidade das sessoes, ja ficam preparados:
muitas vezes eles tomam a palavra espontaneamente para dizer o que se deve
fazer ou para desenvolver um tema de debate, e entao eles sao facilmente
reconhecidos, seja pela forma da linguagem que e sempre identica, seja pela
escrita, seja por certos habitos que lhes sao familiares, ou, finalmente, seja pelos
nomes que eles indicam, ora no começo e ora no encerramento.

Quanto aos Espíritos estranhos, a maneira de lhes evocar e mais simples:
nao existe formula sacramental ou mística, bastando faze-la em nome de Deus,
nos seguintes termos ou equivalentes: Rogo a Deus todo-poderoso que
permita ao Espírito… (designe-o com certa precisao) se comunicar conosco;
ou entao: Em nome de Deus todo-poderoso, rogo ao Espírito de… que tenha
a bondade de comunicar conosco. Se ele puder vir, a resposta obtida
geralmente e: Sim, ou: Já estou aqui; ou ainda: O querem de mim?

Muitas vezes ficamos surpresos com a prontidao com que um Espírito
evocado se apresenta — mesmo na primeira vez: e como se ele ja estivesse
preparado; de fato, e o que acontece quando preparamos de antemao a sua
evocaçao. Essa preparaçao e uma especie de evocaçao antecipada, e como nos
sempre temos conosco os nossos Espíritos familiares que se identificam com o
nosso pensamento, eles preparam os caminhos de tal sorte que, se nao se
opuser, o Espírito que desejamos chamar ja se acha presente. Em caso
contrario, e o Espírito familiar do medium, do interrogador ou ainda o de um
dos frequentadores que vai busca-lo — o que nao leva muito tempo. Quando o
Espírito evocado nao pode vir imediatamente, o mensageiro (Mercúrio,38 se
preferirem) marca um prazo, as vezes de cinco minutos, quinze minutos, uma
hora e meia ou ate varios dias; quando ele chega, o mensageiro diz: Ele está

38 Mercúrio: menção ao personagem da mitologia latina designado como o mensageiro dos deuses,
equivalente a Hermes, na mitologia grega. — N. T.

112 – Allan Kardec

aqui; e entao podemos começar as perguntas que queremos lhe fazer.
Quando dizemos para que se faça a evocaçao em nome de Deus,

esperamos que a nossa recomendaçao seja levada a serio e nao levianamente;
aqueles que nao vissem nisso nada mais do que uma formula sem
consequencias fariam melhor abstendo-se.

Espíritos que podemos evocados

Podemos evocar todos os Espíritos, qualquer que seja o grau da escala a
que eles pertençam: tanto os bons quanto os maus, desde os que deixaram a
vida a pouco tempo como aqueles que viveram nas epocas mais antigas, dos
homens ilustres ate os anonimos, os nossos parentes e amigos, assim como os
que nao conhecemos; mas isto nao quer dizer que sempre eles queiram ou
possam atender ao nosso chamado. Independente da propria vontade deles ou
da permissao — que lhes pode ser recusada por uma força superior — eles
podem ser impedidos de atender a evocaçao, por motivos que nem sempre nos
e permitido saber.

Entre as causas que podem se opor a manifestaçao de um Espírito,
algumas tem a ver com dele e outras sao questoes externas. Entre as primeiras,
devemos colocar suas ocupaçoes ou as missoes que ele esteja cumprindo e das
quais ele nao pode se afastar para ceder aos nossos desejos; neste caso, sua
visita e apenas adiada.

Ha tambem a sua propria situaçao. Se bem que o estado de encarnaçao
nao seja um obstaculo absoluto, pode ser um impedimento em certos
momentos, sobretudo quando essa encarnaçao ocorre nos mundos inferiores e
quando o proprio Espírito esta pouco desmaterializado. Nos mundos
superiores, naqueles em que os laços entre o Espírito e a materia sao muito
fracos, a manifestaçao e quase tao facil quanto no estado errante, e em todos os
casos mais facil do que nos mundos onde a materia corporal e mais compacta.

As causas externas tem a ver principalmente com a natureza do medium,
com a da pessoa que evoca, com o meio no qual se faz a evocaçao e, enfim, com
a finalidade a que se propoem. Alguns mediuns recebem mais particularmente

113 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

comunicaçoes de seus Espíritos familiares, que podem ser mais ou menos
elevados; outros sao aptos a servir de intermediarios a todos os Espíritos; isso
depende da simpatia ou da antipatia, da atraçao ou da repulsao que o Espírito
pessoal do medium exerce sobre o outro Espírito, que pode toma-lo por
interprete com prazer ou com repugnancia. Isso tambem depende — apesar
das qualidades íntimas do medium — do desenvolvimento da faculdade
mediatriz. Os Espíritos vem mais voluntariamente e sobretudo sao mais
explícitos com um medium que nao lhes ofereça nenhum obstaculo físico. Alias,
havendo total igualdade de condiçoes morais, quanto mais facilidade tenha o
medium para escrever ou para se expressar mais suas relaçoes com o mundo
espírita se generalizam.

E preciso ainda levar em conta a facilidade que deve proporcionar o habito
de ser comunicar com esse ou aquele Espírito; com o tempo, o Espírito estranho
se identifica com o do medium e ainda com aquele que o chama. Fora a questao
da simpatia, estabelecem-se entre eles relaçoes fluídicas que tornam as
comunicaçoes mais rapidas; e por isso que um primeiro encontro nem sempre
e tao satisfatorio quanto poderíamos desejar, e e por isso tambem que os
proprios Espíritos pedem frequentemente para serem chamados de novo. O
Espírito que vem habitualmente se sente em casa: familiariza-se com seus
ouvintes e interpretes; ele fala e age mais livremente.

Resumindo, do que acabamos de dizer, resulta: que a faculdade de evocar
todo e qualquer Espírito nao implica que o Espírito seja obrigado a ficar as
nossas ordens; que ele pode vir num momento e nao vir em outro, com um
medium ou um evocador que lhe agrade e nao com outro; que ele pode dizer o
que quiser sem ser constrangido a dizer o que ele nao queira; que ele pode ir
embora quando lhe agradar; que, finalmente, por causas dependentes ou nao
da sua vontade, depois de se mostrar assíduo durante algum tempo, ele de
repente pode deixar de vir.

Da possibilidade de evocar os Espíritos encarnados resulta na de evocar o
Espírito de uma pessoa viva. Ele entao responde como Espírito, e nao como
homem; muitas vezes suas ideias nao sao mais as mesmas. Esse tipo de
evocaçao requer prudencia, pois ha circunstancias em que elas podem ter

114 – Allan Kardec

inconveniencias. A emancipaçao da alma, como se sabe, quase sempre ocorre
durante o sono; ora, a evocaçao a provoca se a pessoa nao estiver dormindo, ou
pelo menos produz um entorpecimento e uma suspensao momentanea das
faculdades sensitivas. Entao, seria perigoso se nesse instante a pessoa estivesse
numa situaçao em que precisasse de toda a sua consciencia. Tambem seria
perigoso se ela estivesse muito adoentada, pois a enfermidade poderia ser
agravada. De resto, o perigo e atenuado no sentido de que o Espírito conhece as
carencias do seu corpo e se conforma, nao ficando ausente alem do tempo
necessario; assim sendo, por exemplo, quando ele percebe que seu corpo vai
despertar, ele o diz e informa que ele vai ser forçado a se retirar. Ja que os
Espíritos podem reencarnar na Terra, acontece muitas vezes que evocamos
pessoas sem que saibamos que elas estejam vivas; nos mesmos o podemos ser
evocados sem suspeitarmos disso, mas entao as circunstancias nao sao mais
identicas, e isso nao teria nada de prejudicial.

As pessoas ficam admiradas em ver o Espíritos dos homens mais ilustres
— aos quais dificilmente elas ousariam falar quando eles estavam vivos —
atender ao chamado dos homens mais comuns; isso so pode surpreender
aqueles que nao conhecem a natureza do mundo espírita; qualquer um que
tenha estudado esse mundo sabe que a posiçao ocupada na Terra nao lhe da
nenhuma supremacia la, e que la talvez o poderoso possa estar abaixo daquele
que foi seu empregado; esse e o sentido daquela maxima de Jesus: “Os grandes
serao rebaixados e os pequenos serao elevados”, ou dessa outra: “Quem se
humilha sera exaltado, e quem se exaltar sera humilhado.” Em suma, um
Espírito pode nao ocupar entre seus semelhantes a categoria que lhe supomos;
mas se ele for verdadeiramente superior, ele deve ter depurado todo o orgulho
e toda a vaidade, e desde entao ele olha o coraçao, e nao a aparencia.

Linguagem a ser usada com os Espíritos

O grau de superioridade ou inferioridade dos Espíritos naturalmente
indica o tom que devemos usar com eles. E evidente que quanto mais eles sejam
elevados mais eles tem direito ao nosso respeito, as nossas consideraçoes e a

115 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

nossa submissao. Entao nao devemos lhes demonstrar menos respeito do que
demonstraríamos se estivessem vivos, mas por outros motivos: na Terra, nos
levaríamos em consideraçao a categoria e a posiçao social deles; no mundo dos
Espíritos, a nossa deferencia visa so a superioridade moral. A propria elevaçao
deles os poe acima das infantilidades das nossas formas de adulaçao. Nao e com
palavras que podemos cativar a benevolencia deles, mas pela sinceridade dos
sentimentos. Portanto, seria ridículo lhes dar os títulos que os nossos padroes
consagram a distinçao das classes, e que, se vivos, pudessem inflamar a vaidade
deles; como eles sao realmente superiores, nao somente eles nao dao
importancia a isso como tambem deploram tal coisa. Um bom pensamento e
mais agradavel para eles do que os epítetos mais elogiosos; se fosse de outro
modo, eles nao estariam acima da humanidade. O Espírito de um veneravel
eclesiastico que foi na Terra um príncipe da Igreja, homem de bem e um
praticante da lei de Jesus, certa vez respondeu a alguem que o tinha evocado
dando-lhe o título de Monsenhor: “Voce deveria dizer ao menos ex-monsenhor,
porque aqui so tem Deus como Senhor. Saiba bem que eu vejo muitos que se
ajoelhavam diante de mim na Terra, diante dos quais hoje eu mesmo me
inclino.”

Quanto a questao de saber se devemos ou nao tratar os Espíritos por tu39,
isso tem pouquíssima importancia. O respeito esta no pensamento, e nao nas
palavras; tudo depende da intençao dispensada, ja que os costumes quanto a
esse quesito nao sao os mesmos em todos os idiomas. Entao, podemos ou nao
tratar os Espíritos com tu, conforme sua categoria ou grau de familiaridade que
existe entre eles e nos, como faríamos perante os nossos semelhantes.

Se os Espíritos nao se importam com as palavras, por outro lado eles
gostam de que saibamos agradecer a boa vontade deles — seja por se

39 Assim como no nosso português, a língua francesa tem uma forma mais respeitosa de tratar
determinadas pessoas (desconhecidos, autoridades, alguém mais idoso e, em geral, qualquer um em
ocasiões de certa formalidade) usando o pronome da segunda pessoa do plural (vous = “vós”) em vez da
segunda pessoa no singular (tu = “tu”, ou “você”, no caso da língua falada no Brasil), usada entre familiares,
amigos e em ocasiões menos formais. Por exemplo; Vous étes três gentil = “Vós sois muito gentil”, em vez
de Tu es três gentil = “tu és muito gentil” ou “Você é muito gentil”. No português brasileiro, também
costumamos simplificar o pronome “vós” como o termo informal “vocês”: “Vós deveis vos amar uns aos
outros” = “Vocês devem se amar uns aos outros”. — N. T.

116 – Allan Kardec

apresentarem, seja por nos responderem. Consequentemente, devemos lhes
agradecer, como tambem devemos agradecer aqueles que se apegam a nos e
nos protegem; isso e uma forma de lhes incentivar a continuarem. Seria um
grave erro crer que a forma imperativa possa ter alguma influencia sobre eles:
esse seria um modo infalível de afastar os bons Espíritos. Podemos lhes pedir,
mas nao mandar neles, pois eles sao estao as nossas ordens, e tudo o que denota
orgulho os repulsa. Os proprios Espíritos familiares abandonam aqueles que
lhes desprezam e que se mostram ingratos a eles.

Ainda que nao sejam de primeira categoria, nem por isso os Espíritos
merecem menos consideraçao de nossa parte, especialmente quando eles nos
revelam uma relativa superioridade. Quanto aos Espíritos inferiores, o carater
deles nos indica a linguagem que devemos ter com eles. Ha alguns dentre os
quais que, conquanto sejam inofensivos e ate sejam gentis, sao levianos,
ignorantes, estouvados; trata-los igual aos Espíritos serios, assim como certas
pessoas fazem, seria o mesmo que ajoelhar-se diante de um colegial ou de um
asno trajado de doutor. O tom de familiaridade nao seria descabido para com
eles, e eles nao se aborrecem com isso; eles, ao contrario, aceitam esse
tratamento de boa vontade.

Entre os Espíritos inferiores existem muitos que sao infelizes. Quaisquer
que sejam as faltas que eles estejam expiando, seus sofrimentos sao razoes
ainda maiores para nossa comiseraçao tanto quanto e certo que ninguem pode
se orgulhar de escapar destas palavras do Cristo: “Que atire a primeira pedra
aquele que estiver sem pecado”. A bondade que lhes devotamos significa um
alívio para eles; na falta de simpatia, eles devem encontrar a indulgencia que
nos gostaríamos que todos tivessem para conosco.

Os Espíritos que revelam sua inferioridade pelo cinismo da sua linguagem,
suas mentiras, a baixeza dos seus sentimentos e a perfídia dos seus conselhos
sao seguramente menos dignos do nosso interesse do que aqueles cujas
palavras demonstram arrependimento; nos lhes devemos pelo menos a
piedade que devotamos aos maiores criminosos, e o meio de os reduzir ao
silencio consiste em mostrar-se superiores a eles: eles so se familiarizam com
as pessoas de quem eles acreditam nao ter nada a temer. Aqui e o caso de falar

117 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

com autoridade para afasta-los — o que sempre podemos conseguir atraves de
uma vontade firme, intimando-os em nome Deus e com o apoio dos bons
Espíritos. Eles se inclinam diante da superioridade moral, assim como o
culpado diante do juiz.

Em resumo, seria tao desrespeitoso tratar de igual para igual os Espíritos
superiores quanto seria ridículo ter a mesma veneraçao por todos sem exceçao.
Tenhamos veneraçao para com aqueles que a merecem, reconhecimento pelos
que nos protegem e nos auxiliam, e para todos os demais uma benevolencia de
que talvez um dia nos mesmos tenhamos necessidade. Ao penetrar no mundo
incorporeo nos aprendemos a conhece-lo e esse conhecimento deve nos guiar
nas nossas relaçoes com os que la habitam. Os Antigos, na sua ignorancia,
levantaram altares para eles; para nos eles sao apenas criaturas mais ou menos
perfeitas, e nos so levantamos altares a Deus (Veja: Politeísmo no Vocabulario).

Questões a serem endereçadas aos Espíritos

Quem estiver bem compenetrado dos princípios que desenvolvemos ate
agora compreendera sem dificuldades a importancia, do ponto de vista pratico,
do assunto que vamos abordar; ele e a sua consequencia e aplicaçao, e de certa
maneira nos poderíamos ate prever a sua conclusao pelo conhecimento que a
escala espírita nos da do carater dos Espíritos, conforme a categoria que eles
ocupam. Essa escala nos fornece a medida do que podemos lhes perguntar e do
que nao devemos esperar deles. Um estrangeiro que viesse ao nosso país com
a crença de que todos os homens aqui sejam iguais em ciencia e em moralidade
entao encontraria aqui muitas anomalias; mas tudo ficara bem explicado a
partir do momento em que ele tivesse compreendido que cada um fala e escreve
de acordo com suas aptidoes; e a mesma coisa com o mundo espírita. Desde
que vemos os Espíritos tao distantes uns dos outros, sob todos os aspectos,
entao compreendemos facilmente que nem todos estao aptos a resolver todas
as dificuldades e que uma questao mal endereçada pode nos expor a varios
equívocos.

Estabelecido este princípio, sera que e conveniente fazer perguntas aos

118 – Allan Kardec

Espíritos? Algumas pessoas pensam que deveríamos nos abster disso e que e
preciso deixa-los tomar a iniciativa daquilo que eles queiram dizer. Essas
pessoas se baseiam no fato de que falando espontaneamente, o Espírito fala
mais livremente, que ele so diz o que quer e que assim podemos ter mais
certeza de ter a expressao dos proprios pensamentos deles. Elas acham ate que
e mais respeitoso esperar pelo ensinamento que ele julgue apropriado nos dar.
A experiencia contradiz esta teoria, como tantas outras nascidas no início das
manifestaçoes. O conhecimento das diversas categorias de Espíritos traça o
limite do respeito que lhes e devido e prova que, a menos que se tenha certeza
de que se trata apenas de seres superiores, o ensinamento espontaneo deles
nem sempre sera muito edificante. Mas, deixando de lado essa consideraçao, e
assumindo que o Espírito seja bastante elevado para dizer somente coisas boas,
o seu ensinamento geralmente seria muito limitado se nao fosse instigado por
questionamentos. Assistimos muitas vezes a sessoes languidas ou nulas, por
falta de um tema específico para discussao. Ora, como os Espíritos so
respondem definitivamente quando lhes convem, ao agirmos adequadamente,
nos nao cometemos nenhuma violencia contra o livre-arbítrio deles. Muitas
vezes eles mesmos provocam indagaçoes dizendo: O que voce quer? Pergunte
e eu te responderei. Normalmente tambem eles proprios nos interrogam, nao
para se instruírem, mas para nos colocarem a prova ou para nos fazerem
expressar nossos pensamentos mais claramente. Reduzir-se diante deles a um
papel puramente passivo seria um excesso de submissao que eles nao pedem;
o que eles querem e atençao e recolhimento. Quando eles espontaneamente
tomam a palavra sem esperar perguntas — como dissemos la atras ao falar das
evocaçoes —, e o caso entao de nao os interromper e de seguir a linha que eles
traçam. Mas como isso nem sempre acontece, e bom ter em maos um assunto
ja preparado na falta da iniciativa dos Espíritos. Regra geral: quando um
Espírito fala, nao se deve interrompe-lo; e quando, por um sinal qualquer, ele
demonstrar a intençao de falar, deve-se esperar e so falar quando tiver certeza
de que ele nao tem mais nada a dizer.

Se, em princípio, as perguntas nao desagradam aos Espíritos, ha algumas
delas que lhes sao soberanamente antipaticas e das quais e preciso abster-se

119 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

completamente, sob pena de nao ter resposta, ou de ter uma ma resposta.
Quando dizemos que as perguntas sao desagradaveis, queremos nos referir aos
Espíritos elevados; ja os Espíritos inferiores, estes nao sao tao escrupulosos;
podemos lhes perguntar o que quisermos sem os ofender, ate as coisas mais
absurdas, e eles respondem tudo, mas como eles mesmos dizem: “Para uma
pergunta estupida, uma resposta estupida”, e seria bem louco quem os levasse
a serio.

Os Espíritos podem deixar de responder por varios motivos: 1° a pergunta
pode lhes desagradar; 2° nem sempre eles possuem os conhecimentos
necessarios; 3° ha coisas que eles estao proibidos de revelar. Logo, se eles nao
respondem a uma indagaçao e porque nao querem, nao podem ou nao devem.
Seja qual for o motivo, uma regra invariavel e que todas as vezes que um
Espírito se recusa categoricamente a responder, nunca se deve insistir, caso
contrario a resposta sera dada por um desses Espíritos levianos, sempre
prontos a se intrometer em tudo e que pouco se incomodam com a verdade. Se
a recusa nao for absoluta, podemos pedir ao Espírito para que atenda ao nosso
desejo; ele o faz as vezes, mas nunca cede a exigencia. Esta regra nao se aplica
aos desenvolvimentos que podemos e que ate devemos solicitar sobre um
ponto que nao esteja suficientemente explícito. Quando um Espírito quer
encerrar uma conversa, geralmente o indica com uma palavra, tal como: adeus,
chega por hoje, ja e tarde, ate outra hora etc. Esta palavra quase sempre e sem
apelaçao; a imobilidade do lapis e uma prova de que o Espírito se foi, e entao
nao devemos insistir.

Dois pontos essenciais devem ser considerados nas questoes: o conteudo
e a forma. Pela forma elas devem — embora sem fraseologia ridícula —
demonstrar o respeito e a consideraçao que se deve ao Espírito que se
comunica, se ele for superior, e nossa benevolencia, se ele for igual a nos ou
inferior. De outro ponto de vista, as questoes devem ser claras, precisas e sem
ambiguidade; e preciso evitar aquelas que tem um significado complexo: e
melhor fazer duas, se for necessario. Quando um assunto requer uma serie de
perguntas, e importante que elas sejam classificadas em ordem, que se
encadeiem e se sucedam metodicamente; por isso e sempre util prepara-las

120 – Allan Kardec

previamente, o que, alias, como dissemos, e uma especie de evocaçao
antecipada que prepara os caminhos; meditando sobre elas com a cabeça
descansada, nos as formulamos e as classificamos melhor, e entao obtemos
respostas mais satisfatorias. Isso nao impede de acrescentarmos, durante o
dialogo, questoes complementares nas quais nao tínhamos pensado, ou que
possam ser sugeridas pelas respostas; mas o quadro esta sempre traçado, e isso
e o essencial. O que devemos evitar e passar abruptamente de um assunto para
outro com perguntas sem sequencia e lançadas atravessadas no assunto
principal. Acontece tambem muitas vezes que algumas das questoes
preparadas de antemao, na expectativa de certas respostas, tornam-se inuteis
e, neste caso, nos as passamos adiante. Um fato que tambem ocorre muito
frequentemente e que a resposta por vezes se antecipa a pergunta e que, mal
sejam pronunciadas as suas primeiras palavras, o Espírito responde sem a
deixar ser completada. As vezes ele ate responde a um pensamento expresso
em voz baixa por um dos participantes, sem que a pergunta tenha sido feita, e
sem que o medium saiba. Se nao tivessemos a cada momento provas patentes
da absoluta neutralidade do medium, fatos deste tipo nao poderiam deixar
duvidas a esse respeito.

Com relaçao ao conteudo, as questoes merecem uma especial atençao de
acordo com o tema. Perguntas frívolas, de pura curiosidade e de comprovaçao
sao as que desagradam aos espíritos serios; eles as repelem ou nao respondem
a elas; os espíritos levianos se divertem com elas.

As perguntas de comprovaçao normalmente sao feitas por quem ainda
nao adquiriram uma convicçao e que procura assim se certificar da existencia
dos Espíritos, da sua perspicacia e da sua identidade; sem duvidas isso e muito
natural da parte deles, mas erram completamente o alvo, e sua insistencia neste
sentido deve-se a sua propria ignorancia das bases sobre as quais a ciencia
espírita se apoia — bases totalmente diferentes daquelas das ciencias
experimentais. Portanto, quem quiser aprender sobre essas bases deve
resignar-se a seguir um caminho completamente diferente e deixar de lado os
procedimentos das nossas escolas. Se eles pensam que so podem fazer isso
experimentando a sua maneira, seria melhor se absterem. O que diria um

121 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

professor a quem um aluno tentasse impor o seu metodo, que quisesse lhe ditar
para agir dessa ou daquela forma e fizesse as experiencias a seu modo? Mais
uma vez: a ciencia espírita tem os seus princípios, e aqueles que querem
conhece-la devem se conformar com isso, senao eles nao poderao dizer que sao
aptos a julga-la. Esses princípios sao os seguintes no que concerne as questoes
de comprovaçao:

1°) Os Espíritos nao sao maquinas que possam ser movidas a vontade; sao
seres inteligentes que so fazem e dizem o que querem, e que nao podemos
submeter aos nossos caprichos;

2°) As provas que desejamos ter da existencia deles, da sua perspicacia e da
sua identidade eles proprios nos dao espontaneamente e por sua propria
vontade em varias ocasioes; mas eles as dao quando querem e da maneira
que querem; cabe a nos esperar, ver e observar, e essas provas nao nos
faltarao: devemos pegá-las de passagem; se as quisermos provocar,
entao elas nos escaparao, e com isso os Espíritos nos provam sua
independencia e seu livre-arbítrio.

Esse princípio e, inclusive, aquele que rege todas as ciencias de
observaçao. O que faz o naturalista que estuda os habitos de um inseto, por
exemplo? Ele o segue em todas as manifestaçoes de sua inteligencia ou de seu
instinto; observa o que se passa, mas espera que os fenomenos se apresentem;
ele nao pensa em provoca-los nem em desviar seu curso; ele sabe, alem disso,
que se o fizesse, nao os teria mais em sua simplicidade natural. O mesmo
acontece com relaçao as observaçoes espíritas.

Pelo que hoje sabemos, entendemos que nao basta que um Espírito seja
serio para resolver qualquer questao seria ex professo40; nem basta, como
vimos, que tenha sido instruído na Terra para resolver uma questao de ciencia,
pois ele ainda pode estar imbuído de preconceitos terrenos; e preciso que ele
seja suficientemente elevado ou que seu desenvolvimento como Espírito tenha
se realizado dentro do círculo de ideias que queremos lhe submeter,
desenvolvimento esse as vezes bem diferente daquele que pudemos observar

40 Ex professo: expressão em latim que significa “com conhecimento de causa”, “magistralmente”. — N. T.

122 – Allan Kardec

nele durante sua vida; mas tambem acontece muitas vezes que outros Espíritos
mais elevados venham em auxílio do interrogado e supram a sua insuficiencia;
isso acontece sobretudo quando a intençao do interrogador e boa, pura e sem
segundas intençoes. Em suma, quando nos dirigimos pela primeira vez a um
Espírito, a primeira coisa a fazer e aprender a conhece-lo, a fim de julgar a
natureza das questoes que podemos lhe dirigir com mais certeza.

Os Espíritos geralmente dao pouca importancia as questoes de interesses
puramente materiais, aquelas que concernem a coisas da vida privada.
Estaríamos enganados se pensassemos entao que encontraríamos neles guias
infalíveis que podemos consultar a qualquer momento sobre o progresso ou os
resultados dos nossos negocios. Repetimos ainda: os Espíritos levianos
respondem a tudo; se voce quiser, eles vao prever ate a alta ou a queda da bolsa,
dizer se o marido que voce espera sera moreno ou loiro etc., e ainda mais se o
acaso os fizer acertar.

Nao incluímos entre as questoes frívolas todas aquelas que tem um
carater pessoal: devemos aprecia-las com bom senso. Mas os Espíritos que
melhor podem nos orientar neste sentido sao os nossos familiares, aqueles que
estao encarregados de zelar por nos e que, pelo habito que eles tem de nos
seguir, identificam-se com nossas necessidades; estes, sem duvida, conhecem
nossos afazeres melhor do que nos mesmos; logo, e a eles que devemos dirigir
este tipo de coisas, e devemos tambem faze-lo com calma, serenidade, com um
apelo serio a sua benevolencia, e nao levianamente; todavia, pedir isso a
queima-roupa e ao primeiro Espírito que aparecer valeria tanto quanto se
dirigir a primeira pessoa que encontrar no caminho.

Por conseguinte, nossos Espíritos familiares podem nos esclarecer e, em
muitas circunstancias, eles o fazem de uma maneira eficiente; mas a ajuda deles
nem sempre e patente e física; na maioria das vezes e oculta; ajudam-nos com
uma serie de advertencias indiretas que eles provocam, mas que infelizmente
nem sempre nos levamos em conta, do que resulta que muitas vezes so
podemos culpar a nos mesmos pelas nossas tribulaçoes. Quando os
interrogamos, em certos casos, eles podem nos dar conselhos objetivos, mas,
em geral, limitam-se a nos mostrar o caminho, recomendando-nos para nao nos

123 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

perturbarmos, e para isso eles tem um duplo motivo. Em primeiro lugar, as
tribulaçoes da vida — se nao forem fruto das nossas proprias faltas — fazem
parte das provaçoes que devemos suportar; eles podem entao nos ajudar a
suporta-las com coragem e resignaçao, porem nao lhes cabe desvia-las. Em
segundo lugar, se eles nos guiassem pela mao para evitar todos os
contratempos, o que faríamos com o nosso livre-arbítrio? Nos seríamos como
crianças mantidas na andadeira ate a idade adulta. Eles nos dizem: Eis o
caminho, siga o caminho certo; vou te inspirar a fazer o que e melhor para voce,
mas use sua consciencia, como uma criança usa as pernas para andar.”

Os Espíritos podem prever o futuro? Essa e a pergunta que todo novato
nao deixa de fazer; quanto a isso, diremos apenas uma palavra. A Providencia
foi sabia em nos esconder o futuro; quantos tormentos essa ignorancia nos
poupa! Sem falar que se nos o conhecessemos, entao nos entregaríamos
cegamente ao nosso destino, abdicando de toda iniciativa. Os proprios Espíritos
so sabem do futuro em razao de sua elevaçao, e por isso os Espíritos inferiores
que estao sofrendo acreditam que sofrem para sempre. Quando eles sabem do
futuro, nao devem revela-lo; entretanto, as vezes eles podem levantar uma
ponta do veu que o encobre, mas entao fazem isso espontaneamente, porque
julgam que seja util — nunca e a nosso pedido. E a mesma coisa com o nosso
passado. Insistir neste ponto, como nos outros, quando eles se recusam a
responder, e tornar-se joguete dos espíritos mistificadores.

Nao poderíamos fazer uma revisao de todas as variedades de perguntas
que e possível fazer sem reproduzir aqui o que esta contido no Livro dos
Espíritos. Entao, a ele nos remetemos para o desenvolvimento de todas as
questoes que dizem respeito ao futuro, as existencias anteriores, as
descobertas, aos tesouros escondidos, as ciencias, a medicina etc.

Médiuns remunerados

Ainda nao conhecemos mediuns escreventes dando consultas a tanto por
sessao; talvez isso venha a acontecer, por isso algumas palavras sobre este
assunto nos parecem uteis. Diremos primeiro que nada se prestaria mais ao

124 – Allan Kardec

charlatanismo e a fraude do que tal profissao. Nos diremos primeiramente que
nada se prestaria melhor ao charlatanismo e ao embuste do que uma profissao
como essa. Se temos visto falsos sonambulos, veremos ainda muito mais falsos
mediuns, e so isso ja seria motivo real de desconfiança. O desinteresse, ao
contrario, e a resposta mais peremptoria que podemos oferecer aos que nao
enxergam nos fatos nada mais do que um truque habil. Nao ha charlatanismo
desinteressado; qual seria entao a intençao das pessoas que usassem da
mistificaçao sem proveito e ainda mais quando sua reconhecida honestidade os
coloca acima de qualquer suspeita? Se o lucro que um medium retirasse da sua
faculdade pode ser um motivo de suspeita, isso jamais seria uma prova de que
tal suspeita fosse fundamentada; logo, ele poderia ter uma verdadeira aptidao
e agir de muito boa-fe ao mesmo tempo em que se beneficiasse; neste caso,
vejamos se e razoavelmente possível esperar algum resultado satisfatorio.

Quem compreendeu bem o que dissemos das condiçoes necessarias para
servir de interprete dos bons Espíritos, das numerosas causas que podem
afasta-los, das circunstancias independes da vontade deles e que muitas vezes
sao um obstaculo a sua vinda, enfim, de todas as condiçoes morais que podem
exercer uma influencia sobre a natureza das comunicaçoes, como poderíamos
supor que um Espírito — por menos elevado que fosse — estivesse a qualquer
hora do dia as ordens de um empresario de sessoes e submisso as suas
exigencias para satisfazer a curiosidade do primeiro que aparecesse? Sabemos
da aversao dos Espíritos por tudo o que cheira a cobiça e egoísmo, do pouco
caso que eles fazem das coisas materiais; e ainda querem que eles ajudem a
traficar a presença deles! Isso e repugnante ao pensamento, e seria preciso
conhecer muito pouco a natureza do mundo espírita para acreditar que
pudesse ser assim. Mas como os Espíritos levianos sao menos escrupulosos e
so procuram ocasiao para se divertirem as nossas custas, ocorre que, o
resultado e que se nao for mistificado por um falso medium, tem-se toda a
chance de ser mistificado por alguns de tais Espíritos. So estas reflexoes dao a
medida do grau de confiança que devemos depositar nas comunicaçoes desse
genero. De resto, para que serviriam hoje mediuns remunerados, ja que, se a
propria pessoa nao possui essa faculdade, ela pode encontra-la na sua família,

125 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

entre seus amigos ou entre conhecidos?
A inconveniencia que acabamos de apontar ja nao e a mesma quando se

trata de manifestaçoes puramente físicas. A natureza dos Espíritos que se
comunicam nessas circunstancias o torna facilmente compreendido; porem,
como a faculdade dos mediuns de influencia física nem sempre esta a sua
disposiçao, ela muitas vezes faria falta aquele que a deveria ter no momento
marcado para satisfazer as exigencias do publico. A faculdade mediatriz,
mesmo dentro deste limite, nao foi dada para desfilar nos palcos, e quem
pretendesse ter os Espíritos as suas ordens para os exibir em publico, com
razao, pode estar sob suspeita de charlatanismo ou de prestidigitaçao mais ou
menos habil. Que estejamos avisados todas as vezes que virmos anuncios de
supostas sessoes de espiritismo ou de espiritualismo a um preço para cada
lugar.

126 – Allan Kardec

CAPÍTULO IX

TEMAS DE ESTUDO

Quando evocamos parentes, amigos e alguns personagens famosos, para
comparar suas opinioes de alem-tumulo com as que eles tinham quando vivos,
as vezes ficamos embaraçados em manter as conversas sem cair nas
banalidades e futilidades. Por isso, ser util indicarmos a fonte de onde podemos
tirar temas de observaçao, por assim dizer, ilimitados.

Como vimos, o mundo espírita apresenta variedades do ponto de vista
intelectual e moral, tanto quanto a humanidade; devemos mesmo dizer muito
mais, pois, seja qual for a distancia que separa os homens na Terra, desde o
primeiro degrau ate o ultimo, ha Espíritos abaixo e acima desses limites. Para
conhecermos um povo, precisamos ve-lo da base ao topo, estuda-lo em todas
as fases da vida, sondar seus pensamentos, nos aprofundar sobre os seus
habitos íntimos, numa palavra, fazermos — por assim dizer — uma dissecaçao
moral. Somente multiplicando as observaçoes e que podemos compreender as
analogias e anomalias e estabelecer um julgamento atraves da comparaçao.
Quem poderia contar os volumes escritos sobre etnografia, antropologia e o
estudo do coraçao humano? E, no entanto, ainda estamos longe de ter dito tudo.
O que se faz pelos homens tambem pode ser feito pelos Espíritos, e esse e unico
meio de aprendermos a conhecer esse mundo que nos interessa tanto mais
quanto a morte — a qual somos todos submissos — nos conduz a ela mesma,
pela propria força das coisas. Ora, esse mundo nos e revelado atraves das
manifestaçoes inteligentes dos Espíritos; podemos, pois, entrevistar os
habitantes de todas as classes, nao apenas sobre generalidades, mas sobre as
particularidades da sua existencia alem-tumulo, e assim julgar o que la nos

127 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

espera de acordo com a nossa conduta aqui embaixo. Ate agora, o destino que
estava reservado para nos nao passava de objeto de um ensinamento teorico:
as manifestaçoes espíritas nos mostram esse destino abertamente, fazem-nos
toca-lo com o dedo e com a vista atraves dos exemplos mais impressionantes e
cuja realidade nao poderia ser posta em duvida por quem lhe dirija um olhar
perscrutador. E para esta realidade que queremos fornecer os meios de
constataçao atraves do direcionamento de estudos.

Se a evocaçao de homens ilustres e dos Espíritos superiores e
eminentemente util pelos ensinamentos que eles nos dao, a evocaçao dos
Espíritos comuns nao e menos — se bem que eles sejam incapazes de resolver
as questoes de alto porte. Pela sua inferioridade eles mesmos se revelam, e
quanto menor for a distancia que os separa de nos, mais reconhecemos neles
semelhanças com a nossa propria situaçao. Portanto, e do mais alto interesse,
pelo duplo ponto de vista psicologico e moral, estudar a posiçao daqueles que
foram nossos contemporaneos, que seguiram a rota da vida lado a lado
conosco, de quem conhecemos o carater, os habitos, as virtudes e os vícios,
ainda que eles fossem os homens mais obscuros: nos os compreendemos
melhor porque eles estao no nosso nível; com frequencia eles nos oferecem
traços característicos da mais alta importancia, e acrescentamos que e nesse
círculo — de certo modo íntimo — que a identidade dos Espíritos se revela,
sobretudo da maneira menos contestavel. E, como vemos, uma mina
inesgotavel de observaçoes, mesmo pegando so os homens cuja vida apresente
alguma particularidade com relaçao ao genero da morte, da idade, das boas e
mas qualidades, da posiçao feliz ou infeliz na Terra, dos costumes, do estado
mental etc.

Com os Espíritos elevados o quadro de estudos se alarga; alem das
questoes psicologicas, que tem um limite, podemos lhes propor uma
imensidade de problemas morais que se estendem ao infinito sobre todas as
posiçoes da vida, sobre a melhor conduta a seguir nessa ou naquela
determinada circunstancia, sobre os nossos deveres recíprocos etc. O valor da
instruçao que podemos receber sobre um assunto qualquer (moral, historico,
filosofico ou científico) depende inteiramente do estado do Espírito que

128 – Allan Kardec

interrogamos; cabe a nos julgar.
Fora as perguntas propriamente ditas, podemos solicitar aos Espíritos

superiores dissertaçoes sobre assuntos oferecidos ou escolhidos por eles em
uma serie que lhes apresentamos. Podemos deste modo tomar como texto as
qualidades, os vícios e os desvios da sociedade, tais como a avareza, o orgulho,
a preguiça, o ciume, o odio, a raiva, a caridade, a modestia etc. Espíritos um
pouco menos elevados, porem inteligentes, podem tratar de uma maneira feliz
assuntos menos graves, mas nao menos interessantes; outros, enfim,
dependendo da sua aptidao e da facilidade de execuçao que o medium lhes
apresenta, podem ditar obras volumosas.

A forma de fazer perguntas e de coordena-las e, como acabamos de ver,
uma coisa essencial. Encontraremos numerosas aplicaçoes disso nos artigos
publicados na Revista espírita, sob o título de Conversas Familiares de Além-
Túmulo. Podemos pega-los como modelos de procedimento a seguir nas
relaçoes que nos mesmos queremos estabelecer com os Espíritos.

129 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

CAPÍTULO X

CONSELHOS AOS NOVATOS

O conhecimento da ciencia espírita baseia-se numa convicçao moral e
numa convicçao material; a primeira e adquirida pelo raciocínio e a segunda
atraves da observaçao dos fatos. Para o novato, seria logico ver primeiro e
raciocinar depois; infelizmente nem sempre pode ser assim. Seria impossível
fazer um curso pratico de espiritismo como se faz um curso de física ou de
química; os fenomenos que sao da competencia dessas duas ciencias podem ser
reproduzidos a vontade: podem entao reproduzi-los gradativamente diante dos
olhos do estudante, procedendo do simples ao composto. O mesmo nao ocorre
com os fenomenos espíritas: nos nao os manuseamos como uma maquina
eletrica; devemos aceita-los tal como se apresentam, pois nao cabe a nos lhes
apontar uma ordem metodica. O resultado e que muitas vezes eles sao
ininteligíveis ou pouco conclusivos para o iniciante; os fenomenos podem
causar admiraçao sem convencer.

Podemos evitar essa inconveniencia seguindo um caminho contrario, ou
seja, começando pela teoria, e e isso que nos recomendamos a todo mundo que
queira seriamente se esclarecer. Pelo estudo dos princípios da ciencia —
princípios perfeitamente compreensíveis sem experimentaçao pratica — nos
adquirimos uma primeira convicçao moral que so precisa ser corroborada
pelos fatos; agora, como neste estudo preliminar todos os fatos ja foram
revistos e comentados, disso resulta que quando os vemos logo os
compreendemos, seja qual for a ordem em que as circunstancias permitam que
eles sejam observados.

Procuramos reunir nas nossas tres publicaçoes todos os elementos

130 – Allan Kardec

necessarios para esta finalidade, considerando a ciencia em todos os seus
aspectos, e dando sobre os diversos pontos as explicaçoes permitidas pelo
estado atual das coisas. Uma leitura atenta destas obras sera entao uma
primeira iniciaçao que permitira esperar pelos fatos, ou que dara os meios para
os provocar com conhecimento de causa, se nada se opuser, e isto sem nos
perdermos em tentativas que podem ser infrutíferas por nao terem sido
dirigidos dentro dos limites da possibilidade. Nesta Instrução prática
encontram-se todos os princípios fundamentais necessarios para os iniciantes;
na Revista espírita, alem de extensos desenvolvimentos, temos uma
consideravel variedade de fatos e de aplicaçoes; finalmente, no Livro dos
Espíritos tem o proprio ensinamento dos Espíritos sobre todas as questoes de
metafísica e de moralidade que estao ligadas a doutrina espírita.

131 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

CAPÍTULO XI

INFLUÊNCIA DO ESPIRITISMO

Os adversarios do espiritismo inicialmente usaram contra ele a arma do
ridículo e, sem cerimonia, tacharam todos os seus adeptos de loucura: essa
arma nao somente se enfraquece, mas tambem começa a tornar-se ridícula em
si mesma a medida que cresce o numero desses supostos loucos em todos os
países, e porque seria necessario enviar para os hospícios os homens mais
eminentes, pelos seus conhecimentos e pela sua posiçao social. Entao eles
mudaram de tatica e, assumindo um tom mais serio, lamentaram o destino
reservado a humanidade por essa doutrina da qual eles exaltaram os perigos
sem refletir que proclamar o perigo de uma coisa significa constatar a realidade
dela. Se o espiritismo e uma quimera, por que se preocupar tanto com ele? E
como combater moinhos de vento; deixem-no em paz e ele tera uma bela morte.
Mas eis que em vez de morrer, ele se propaga com uma rapidez incrível, e os
seus seguidores se multiplicam por todos os pontos do planeta, a tal ponto que
se isso continuar, em breve, havera mais loucos do que pessoas sensatas. Agora,
quem contribuiu para esse resultado? Foram os proprios adversarios que sem
querer fizeram a propaganda dele; suas críticas produziram o efeito do fruto
proibido. Cada um disse a si mesmo: ja que implicam tanto com esse monstro,
significa entao que existe um monstro — um raciocínio muito logico. E com a
curiosidade ajudando, todos querem ver, nem que seja atraves dos dedos,
cobrindo os olhos; foi assim que muitas pessoas foram levadas a pensar sobre
isso, sem que de outra forma talvez elas nao teriam ouvido falar dele, ou pelo
menos nao teriam se ocupado com ele. Se o espiritismo e uma realidade, e
porque faz parte da natureza, pois nao e uma teoria, uma opiniao, um sistema:

132 – Allan Kardec

ele e um fruto dos fatos. Se for perigoso, e preciso lhe dar um direcionamento.
Nao se suprime um rio, mas sim orienta-se o seu curso. Vamos ver entao em
poucas palavras quais sao esses supostos perigos.

Dizem que ele pode produzir uma impressao nociva sobre as faculdades
mentais. Ja nos explicamos suficientemente no decorrer desta obra sobre a
verdadeira fonte desse perigo, que vem precisamente daqueles que acreditam
combate-lo inoculando nos cerebros fracos a ideia do diabo ou do demonio. A
exaltaçao, e verdade, tambem pode vir num sentido oposto; mas deixando de
lado todas as ideias do espiritismo, nao vemos algum cerebro perturbado por
uma falsa apreciaçao das coisas mais sagradas? Os jornais noticiaram
recentemente o fato de uma jovem camponesa que cortou o proprio pulso com
um machado ao tomar literalmente estas palavras do Evangelho: Se a tua mão
é motivo de escândalo, corta a tua mão. Por causa disso deveríamos concluir
que o Evangelho e perigoso? E sera que aquela mae que matasse os filhos para
envia-los mais rapidamente ao paraíso provaria que a ideia do paraíso e
perigosa?

Em apoio a esta alegaçao contra o espiritismo sao citados numeros, e
dizem, por exemplo, que nos Estados Unidos — num unico país — conta-se
quatro mil casos de loucura causados por essas ideias. Perguntaremos primeiro
aqueles que apresentam fatos deste tipo de que fonte eles extraíram esses
dados e se as estatísticas que estabelecem sao realmente autenticas.
Acreditamos que seja retirado de alguns jornais do país que, como todos os
adversarios, acreditando ter o monopolio do bom senso, considerando todos
aqueles que acreditam nas manifestaçoes dos Espíritos como cerebros
rachados; nao e de surpreender que com tal sistema eles tenham encontrado
quatro mil desses casos; este numero ate nos parece muito modesto, porque
hoje eles sao contados em centenas de milhares. Pois entao, construam
hospícios para todos eles! Mas ja basta deste assunto, que nao merece um
exame serio. Vejamos uma acusaçao muito mais grave.

O espiritismo — dizem algumas pessoas — esta arruinando a religiao.
Temos muita razao em dizer que nada e mais perigoso do que um amigo
desastrado. Essas pessoas nao imaginam que dizendo isso elas mesmas estejam

133 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

atacando a religiao na sua base fundamental: a sua eternidade. Como uma
religiao estabelecida pelo proprio Deus poderia estar ameaçada por algumas
batidas?! Entao voces acreditam no poder desses Espíritos que, outras vezes,
segundo voces, nao passam de ilusao! Por isso, pelo menos estejam de acordo
com voces mesmos. Se esses Espíritos sao mitos, o que voces tem a temer? Se
existirem, duas coisas uma: ou voces acreditam que eles sejam muito poderosos
ou voces acreditam que a religiao seja muito fraca; escolham! Mas — vao dizer
—, nos nao tememos os Espíritos, pois nao acreditamos neles; nos so tememos
as falsas doutrinas daqueles que as defendem: que seja! Mas, segundo voces,
aqueles que acreditam nos Espíritos sao loucos; entao voces tem medo de que
os loucos abalem a Igreja?! Escolha novamente! Quanto a nos, diremos que
quem usa essa linguagem nao tem fe, porque e nao ter fe no poder de Deus
acreditar que, por causas tao fracas, seja vulneravel uma religiao da qual Jesus
disse: As portas do inferno nao prevalecerao contra ela.

Vejamos, porem, em que a doutrina espírita e contraria aos princípios
religiosos. O que ensinam esses Espíritos tao perigosos? Eles dizem o seguinte:
Amem a Deus acima de todas as coisas e ao proximo como a si mesmos. Amem-
se uns aos outros como irmaos. Perdoem seus inimigos; esqueçam as injurias;
façam aos outros o que voces gostariam que eles fizessem a voces. Nao se
contentem apenas em nao fazer o mal, mas façam o bem; suportem com
paciencia e resignaçao as tristezas da vida; eliminem do coraçao o egoísmo, o
orgulho, a inveja, o odio e o ciume. Eles dizem tambem: Deus vos da os bens da
terra para fazerem bom uso deles e nao para os usufruírem como os avarentos;
a sensualidade rebaixam voces ao nível do bruto. Mas Jesus tambem disse tudo
isso; sua moral e, portanto, a do Evangelho. Eles ensinam o dogma da
fatalidade? Nao; eles proclamam que o homem e livre em todas as suas açoes e
responsavel pelas proprias obras. Sera que eles dizem que pouco importa a
conduta de alguem aqui neste mundo, e que o destino e o mesmo apos a morte?
De forma alguma! Eles reconhecem as puniçoes e as recompensas futuras; eles
fazem mais: eles evidenciam tudo isso, porque sao os proprios seres que estao
felizes ou infelizes que vem nos retratar os seus sofrimentos e as suas alegrias.
E verdade que eles nao explicam tudo exatamente como fazemos entre nos; que

134 – Allan Kardec

eles nao admitem um fogo físico que queime eternamente almas imateriais.
Mas o que importa a forma, se a substancia existe?! A menos que se afirme que
a forma deva prevalecer sobre a substancia, o sentido figurado sobre o
significado literal. As proprias crenças religiosas nao se modificaram em muitas
passagens das Escrituras, especialmente sobre os seis dias da criaçao, que nos
sabemos muito bem nao serem mais seis vezes vinte e quatro horas, mas talvez
seis vezes cem mil anos? E sobre a idade do globo terrestre, sobre o movimento
da Terra em torno do Sol? Nao e verdade que o que antes era considerado uma
heresia digna do fogo terrestre e celeste, e como a derrubada da religiao, nao
foi admitido pela Igreja, depois que a ciencia positiva passou a demonstrar nao
o erro do texto, mas a falsa interpretaçao que lhe havia sido dada? O mesmo
acontece com o inferno, que a igreja ja nao situa nos lugares mais baixos da
terra desde que ali se pos um olhar investigativo; a alta teologia admite
perfeitamente a existencia de um fogo moral; ela nao atribui mais um lugar
específico ao purgatorio desde que sondamos as profundezas do espaço, e
pensa que ele poderia estar em toda parte, ate mesmo ao nosso lado; e a religiao
nao sofreu com isso; ao contrario, ela se beneficiou por nao se endurecer diante
das evidencias dos fatos. Nao se deve julgar a religiao pelo que ainda e ensinado
nas escolas das aldeias, onde as doutrinas superiores nao seriam
compreendidas. O alto clero e mais esclarecido do que o mundo geralmente
acredita, e ele provou em muitas ocasioes que, se necessario, ele sabe sair das
velhas rotinas da tradiçao e dos preconceitos; mas ha pessoas que querem ser
mais religiosas do que a religiao e que a rebaixam pela mesquinhez das suas
opinioes; para eles a forma e tudo, e ate sobrepoe a moral do Evangelho, que
eles praticam muito pouco: sao estes que mais lhe fazem mal. Em que entao a
doutrina espírita seria perniciosa? Ela explica o que estava inexplicado;
demonstra a possibilidade daquilo que se pensava ser impossível; prova a
utilidade da oraçao; ela apenas diz que so a prece de coraçao e eficaz e que a
dos labios e uma va simulaçao; quem se atreveria a argumentar o contrario? A
nao eternidade das tristezas, reencarnaçao: eis aqui entao a grande pedra no
caminho! Mas se estes fatos nunca se tornarem tao obvios e tao comuns como
o movimento da Terra em torno do Sol, sera preciso se render a evidencia, tal

135 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

como foi feito com o resto, e, procurando fazer isso desde ja, talvez fosse menos
difícil concordar que nao se acredita. Nao nos apressemos, pois, em pronunciar
um julgamento que poderia ser demasiado precipitado, e aproveitemos as
liçoes da historia.

O maior inimigo da religiao e o materialismo, e este nao tem adversario
mais duro do que a doutrina espírita. O ESPIRITISMO ja trouxe de volta ao
ESPIRITUALISMO inumeros materialistas obstinados que ate entao tinham
resistido a todos os argumentos teologicos; isso porque o espiritismo faz mais
do que argumentar, ele torna as coisas patentes. Ele e, portanto, o mais
poderoso auxiliar das ideias religiosas, porque da ao homem a convicçao do seu
destino futuro e como tal ele deve ser acolhido como um benefício para a
humanidade. Ele reavivou em mais de um coraçao a fe na Providencia, fez
nascer a esperança no lugar da duvida; fez mais: resgatou mais de uma vítima
do suicí dio, restaurou a paz e a concordia nas famílias, acalmou odios,
amorteceu paixoes brutais, desarmou a vingança e levou resignaçao a alma do
sofredor. Sera que ele e subversivo da ordem social e da moralidade publica?
Essa doutrina — que condena o odio e o egoísmo, que prega o desinteresse, o
amor ao proximo, sem exceçao de seitas ou castas — nao pode excitar paixoes
hostis, e seria desejavel para a paz do mundo e para a felicidade da raça humana
que todos os homens compreendessem e praticassem tais princípios; eles nao
teriam nada a temer uns dos outros.

Eis para onde a loucura do espiritismo conduz entre aqueles que,
aprofundando-se nesses misterios, veem nas manifestaçoes algo diferente de
mesas que giram ou demonios que dao provocam batidas.

136 – Allan Kardec

Participe do curso online

KLM – Estudo de O Livro dos Médiuns
promovido pela

PEADE – Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espírita

www.luzespirita.org.br/peade

137 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

Obras de Allan Kardec para estudo.

Esta seção reúne referências digitais às obras de Allan Kardec e a outras publicações relacionadas ao estudo do Espiritismo.

Obras fundamentais da Codificação

Obras Complementares

Coleção Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos)

A Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos foi fundada por Allan Kardec em 1858 e constitui uma importante fonte histórica para o estudo do desenvolvimento do Espiritismo no século XIX.

1858 a 1861

1862 a 1865

1866 a 1869

Evangelho no Lar

O Evangelho no Lar é uma prática de estudo e reflexão realizada no ambiente doméstico por pessoas ou famílias interessadas no estudo do Evangelho e dos ensinamentos espíritas.

Uma reunião pode ser realizada de maneira simples, respeitando a rotina e as características de cada família.

Sugestão de roteiro

  1. Preparação do ambiente.
  2. Prece inicial.
  3. Leitura de um trecho escolhido.
  4. Comentários e reflexão.
  5. Prece final.

O objetivo é proporcionar um momento de estudo, reflexão e convivência familiar em torno de ensinamentos morais e espirituais.

Livros Basicos, fundamentais e complementares da Doutrina Espirita

Obras de Allan Kardec — Biblioteca Espírita Digital

Obras de Allan Kardec

REVISTA ESPIRITA

Coleção Revista Espírita (1858-1869) — Allan Kardec

Coleção Revista Espírita (1858 — 1869)

Gostou deste conteúdo? Continue seus estudos com outras obras fundamentais da Doutrina Espírita disponíveis aqui:

Baixar Obras Póstumas – Allan Kardec

Baixar Catálogo Racional de Allan Kardec

Acesse também a Revista Espírita (1858) de Allan Kardec em PDF

© 2026 Instituto Espírita Espiritismo Global |