2 – Allan Kardec
O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo
Allan Kardec (1804-1869)
Título original em francês:
Le Ciel et l’Enfer ou la Justice Divine selon le Spiritisme
Originalmente publicado em 1865
Paris, França
Tradução: Ery Lopes
com base na 4ª edição, 1869 – Ebook
Versão digital: 2.0
Editada em 31 de outubro, 2025
São Paulo, Brasil
Não nos importamos com os direitos autorais.
Esta tradução pode ser copiada e reproduzida, impressa e até comercializada,
sem prévia autorização ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
Distribuição gratuita:
Portal Luz Espírita
3 – O Céu e o Inferno
O CÉU
E O INFERNO
Allan Kardec
Tradução:
Ery Lopes
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Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
4 – Allan Kardec
Apresentação da obra
Em 29 de maio de 1865, apenas quatro meses após a grave enfermidade
de Kardec, a tipografia Bourdier registrou a Declaração do Impressor (DI) do
livro O céu e o inferno, ou a justiça divina segundo o espiritismo. Quase três
meses depois, na segunda-feira, 21 de agosto, a tipografia realizou o Depósito
Legal (DL), cujo registro no jornal Bibliographie de la France (BF) ocorreu na
edição de sábado, 26 de agosto. Por essa razão, Maurice Lachâtre mencionou
agosto como o mês de lançamento da obra em seu Novo dicionário universal. O
jornal L’Avenir, em sua tiragem de 24 de agosto, também anunciou a
publicação. No entanto, a Revista Espírita trouxe uma notícia bibliográfica
sobre o livro apenas na edição de setembro.
Em 9 de julho de 1869, foi a tipografia Rouge que registrou a DI da
edição definitiva, seguida pelo DL em 18 de julho e pela publicação na BF em
24 de julho, com vendas antecipadas acontecendo já a partir de 1º de junho,
conforme anunciado na Revista Espírita de julho daquele ano. A oficialização
da publicação desta quarta edição ficou sob a responsabilidade de Amélie
Boudet, baseada no material que já havia sido impresso em fevereiro de 1869,
um mês antes da desencarnação de Kardec. Esse fato foi posteriormente
confirmado no inventário da Livraria Espírita de 1873, assinado por Boudet e
registrado em ata da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras
Espíritas de Allan Kardec, disponível nos Arquivos Municipais de Paris.
Vale destacar que, nesta edição, a tipografia levou pouco mais de uma
semana para realizar o depósito legal, corroborando a informação encontrada
no inventário de que as folhas já estavam impressas antes da declaração do
impressor.
Pelo menos 23 médiuns e 83 Espíritos contribuíram para esta obra,
5 – O Céu e o Inferno
entre eles a Sra. Costel, a Srta. Dufaux e o Sr. Leymarie, que tiveram grande
participação.
As histórias dos Espíritos apresentados são profundamente comoventes.
Entre elas, destaca-se a de Lapommeray, um Espírito endurecido que, em
vida, foi médico homeopata e teria assassinado sua amante por
envenenamento, sendo posteriormente guilhotinado. Emma Livry, por outro
lado, é um Espírito feliz: a jovem bailarina teve seu tutu1 incendiado e, alguns
meses depois, desencarnou devido às graves queimaduras.
O suicida da Samaritana protagoniza outro relato impactante. A
Samaritana era uma construção flutuante que abrigava banhos públicos. Foi
nesse local, conhecido como “Banhos da Samaritana”, que encontraram o
homem que havia se cortado com uma navalha, atingindo inclusive a carótida.
O livro Espíritos sob investigação, resgatando parte da história, revela a
identidade da maioria desses personagens, protagonistas da construção do
espiritismo.2
Georges, Espírito ligado à Sra. Costel, havia sido pintor e professor de
desenho dela. A Sra. Costel, por sua vez, era grande amiga do médium Alfred
Didier, também pintor e filho do editor de Allan Kardec, Pierre Paul Didier.
Georges era cunhado de D’Ambel, vice-presidente da Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas, secretário particular de Kardec e único médium conhecido
do Espírito Erasto.
No entanto, em 1865, todos esses médiuns, que haviam colaborado na
obra O céu e o inferno, abandonaram a sociedade de Kardec.
Apesar dessas deserções e da grave doença que o acometia, Kardec
continuou sua incansável produção. Ele publicou edições mensais da Revista
Espírita, a sexta edição reformulada e consideravelmente aumentada de O
que é o espiritismo, a primeira edição de O céu e o inferno, a Coletânea de
preces espíritas e a terceira edição revista, corrigida e modificada de O
evangelho segundo o espiritismo, a primeira edição de A gênese, os
milagres e as predições segundo o espiritismo, além de Caracteres da
1 Tutu: saia de tule usado pelas dançarinas de balé clássico. — Nota do editor.
2 Para mais informações sobre o referido livro, consulte: https://ccdpe.org.br/produto/espiritos-sob-
investigacao-resgatando-parte-da-historia.
6 – Allan Kardec
revelação espírita. Também preparou uma nova edição aumentada do
Resumo da lei dos fenômenos espíritas, a quinta edição revista, corrigida e
aumentada de A gênese, a nova edição inteiramente revista e corrigida de O
céu e o inferno, de fevereiro de 1869, que é a quarta edição, e a primeira
edição do Catálogo Racional.
Que legado impressionante! No entanto, muitos espíritas acabam
privilegiando apenas o estudo das primeiras obras fundamentais, sem se
aprofundar no conjunto dessa vasta produção.
Para honrar esse trabalho e auxiliar os espíritas em seus estudos, o
incansável colega e amigo Ery Lopes lança agora a tradução para o português
dos originais franceses da quarta edição de O céu e o inferno. Com essa
contribuição, ele se junta aos tradutores anteriores: Manoel Quintão,
Herculano Pires e Noleto Bezerra.
Uma curiosidade fascinante sobre esse livro diz respeito ao prefácio,
presente apenas na primeira edição. A segunda e a terceira edições,
provavelmente idênticas à original, nunca foram encontradas em nenhuma
biblioteca ao redor do mundo. Por isso, não se sabe ao certo se o caderno com
o prefácio foi incorporado ou não a essas edições.
Devido à referência a Deus como o “Grande Arquiteto” nesse prefácio,
alguns biógrafos precipitados associaram Kardec à maçonaria, suposição sem
qualquer evidência material. Essa questão é explorada no livro Biografias de
Kardec sob investigação, corrigindo imprecisões.3
Recebemos, enfim, essa nova tradução com grande alegria,
especialmente neste momento em que a obra completa 160 anos desde seu
primeiro lançamento.
Carlos Seth Bastos
Julho, 2025
3 Mais informações sobre este livro em: https://ccdpe.org.br/produto/biografias-de-kardec-sob-
investigacao-corrigindo-imprecisoes. — Nota do editor.
7 – O Céu e o Inferno
Nota do tradutor
A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para
aprender e fortalecer nossos aprendizados doutrinários espíritas — o que,
aliás, constitui uma satisfação para nós — serviu de ensejo para cuidarmos
desta tradução, que também é motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma
opção aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo,
especialmente aqueles que não disponham da fluência na leitura em francês,
cumprindo assim o papel essencial do tradutor, qual seja a de ser um
facilitador.
Não se ignora a dificuldade natural no trabalho de verter para outro
idioma qualquer uma obra de fôlego, tal como esta; acrescente-se aí a
gravidade das implicações de uma tradução de O Céu e o Inferno, posto que
se trata de um livro que contém fundamentos de uma doutrina de cunho
científico, filosófico e religioso, doutrina essa tão complexa quanto importante
para toda a humanidade. Em face disso, não ousaríamos propor uma tradução
perfeita, mas tratamos tanto quanto nos é possível de buscar a máxima
fidelidade da mensagem iluminadora e consoladora contida nesta obra
monumental.
A revisão desta tradução é contínua, portanto, correções e sugestões de
melhorias são bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte
periodicamente a possível existência de uma edição mais atualizada.
É então ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para
contribuir com a propagação desta doutrina que abraçamos com amor.
Ery Lopes
erylopes10@gmail.com
Observação: as notas de rodapé de autoria do tradutor estão sinalizadas no final com a inscrição “N.
T.”; as demais, sem sinalização, correspondem à tradução das notas de Allan Kardec contidas na obra
original.
8 – Allan Kardec
Allan Kardec
(1804-1869)
9 – O Céu e o Inferno
Folha de rosto da 4ª edição francesa, de 1868, obra-base desta tradução.
Ebook disponível no portal Google Books
10 – Allan Kardec
O
CÉU E O INFERNO
OU
A JUSTIÇA DIVINA
SEGUNDO O ESPIRITISMO
CONTENDO
O EXAME COMPARADO DAS DOUTRINAS
SOBRE A PASSAGEM DA VIDA CORPORAL À VIDA ESPIRITUAL,
AS PENAS E AS RECOMPENSAS FUTURAS, OS ANJOS E OS DEMÔNIOS,
AS PENAS ETERNAS ETC.
SEGUIDO DE NUMEROSOS EXEMPLOS
DA REAL SITUAÇÃO DA ALMA DURANTE E APÓS A MORTE.
Por ALLAN KARDEC
Autor de O Livro dos Espíritos
Eu juro por mim mesmo — diz o Senhor
Deus — que eu não quero a morte do ímpio,
mas sim, que eu quero que o ímpio se converta,
que ele deixe seu mau caminho e que viva.
Ezequiel, 33: 11
QUARTA EDIÇÃO
PARIS, 1869
11 – O Céu e o Inferno
SUMÁRIO
PREFÁCIO
Primeira Parte – DOUTRINA
I – O PORVIR E O NADA
II – TEMOR DA MORTE
Causas do temor da morte
Por que os espíritas não temem a morte
III – O CÉU
IV – O INFERNO
Intuição das penas futuras
O inferno cristão imitado do inferno pagão
Os limbos
Descrição do inferno pagão
Descrição do inferno cristão
V – O PURGATÓRIO
VI – DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS
Origem da doutrina das penas eternas
Argumentos a favor das penas eternas
Impossibilidade material das penas eternas
A doutrina das penas eternas teve a sua época
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original
VII – AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO
A carne é fraca
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras
Código penal da vida futura
VIII – OS ANJOS
Os anjos segundo a Igreja
Refutação
Os anjos segundo o Espiritismo
12 – Allan Kardec
IX – OS DEMÔNIOS
Origem da crença nos demônios
Os demônios segundo a Igreja
Os demônios segundo o Espiritismo
X – INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MANIFESTAÇÕES MODERNAS
XI – DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS MORTOS
Segunda Parte – EXEMPLOS
I – A PASSAGEM
II – ESPÍRITOS FELIZES
SANSON – JOBARD – SAMUEL PHILIPPE – VAN DURST – SIXDENIERS – DR. DEMEURE – VIÚVA
FOULON, nome de nascimento: WOLLIS – UM MÉDICO RUSSO – BERNARDIN – CONDESSA
PAULA – JEAN REYNAUD – ANTOINE COSTEAU – EMMA LIVRY – DR. VIGNAL – VICTOR LEBUFLE
– ANAÏS GOURDON – MAURICE GONTRAN
III – ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS
JOSEPH BRE – HÉLÈNE MICHEL – MARQUÊS DE SAINT-PAUL – DR. CARDON – ÉRIC STANISLAS
– ANNA BELLEVILLE
IV – ESPÍRITOS SOFREDORES
O CASTIGO – NOVEL – AUGUSTE MICHEL – LAMENTAÇÕES DE UM BOÊMIO – LISBETH –
PRÍNCIPE OURAN – PASCAL LAVIC – FERDINAND BERTIN – FRANÇOIS RIQUIER – CLAIRE
V – SUICIDAS
O SUICIDA DA SAMARITANA – O PAI E O CONSCRITO – FRANÇOIS-SIMON LOUVET – UMA MÃE E
SEU FILHO – DUPLO SUICÍDIO POR AMOR E POR DEVER – LUÍS E A COSTUREIRA DE BOTINAS –
UM ATEU – FELICIANO – ANTÔNIO BELL
VI – CRIMINOSOS ARREPENDIDOS
VERGER – LEMAIRE – BENOIST – O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY – JACQUES LATOUR
VII – ESPÍRITOS ENDURECIDOS
LAPOMMERAY – ÂNGELA, nulidade sobre a Terra – UM ESPÍRITO ENTEDIADO – A
RAINHA DE OUDE – XUMÈNE
13 – O Céu e o Inferno
VIII – EXPIAÇÕES TERRESTRES
MARCEL, o menino do nº 4 – SZYMEL SLIZGOL – JULIANA MARIA, a pobrezinha – MAX, o
mendigo – HISTÓRIA DE UM CRIADO – ANTONIO B… – LETIL – UM ESTUDIOSO AMBICIOSO –
CHARLES DE SAINT-G…, deficiente mental – ADELAIDE MARGARIDA GOSSE – CLARA RIVIER –
FRANÇOISE VERNHES – ANNA BITTER – JOSÉ MESTRE, o cego
14 – Allan Kardec
PREFÁCIO4
O título desta obra indica claramente o seu objetivo. Reunimos aqui
todos os elementos apropriados para esclarecer o homem a respeito do seu
destino. Como em nossas outras publicações sobre a doutrina espírita, nada
colocamos neste livro que seja produto de um sistema preconcebido ou de
uma concepção pessoal que não teria nenhuma autoridade: tudo foi deduzido
da observação e da concordância dos fatos.
O livro dos espíritos contém as bases fundamentais do Espiritismo; ele é
a pedra angular do edifício; todos os princípios da doutrina foram expostos
nele, até mesmo os que constituem o seu coroamento. Mas, era preciso lhes
dar maiores desenvolvimentos, bem como deduzir todas as suas
consequências e aplicações à medida que essas tais bases se desdobrassem
através do ensino complementar dos Espíritos e de novas observações. Foi o
que fizemos em O Livro dos Médiuns e em O Evangelho segundo o
espiritismo, com relação a determinados pontos de vista; é o que fazemos
nesta obra, sobre outro ponto de vista, e é o que faremos sucessivamente nas
demais obras que nos restam publicar e que virão a seu tempo.
As novas ideias não frutificam senão quando a terra está preparada para
recebê-las; ora, por essa terra preparada, não se deve entender algumas
inteligências precoces que só dariam frutos isolados, mas um certo conjunto
na predisposição geral, a fim de que não só dê frutos mais abundantes, mas
que a ideia, ao encontrar maior número de pontos de apoio, também encontre
4 Este prefácio foi publicado na 1ª edição desta obra e reproduzida nas duas edições seguintes;
portanto, ela não conta na 4ª edição, da qual foi feita esta tradução, e que é a versão definitiva composta
por Allan Kardec. Supomos que sua exclusão se deu tão-somente por economia de espaço; por isso, aqui
a inserimos por considerarmos uma apresentação interessante ao leitor e sem qualquer prejuízo para a
fidelidade da obra. — Nota do Tradutor (N. T.).
15 – O Céu e o Inferno
menos oposição e seja mais forte para resistir aos seus antagonistas. O
Evangelho segundo o espiritismo já foi um passo adiante; O Céu e o Inferno
é um passo a mais, cujo alcance será facilmente compreendido, pois ele toca
profundamente em certas questões, mas não poderia ter vindo mais cedo.
Se considerarmos a época em que o Espiritismo surgiu, reconheceremos
facilmente que ele chegou no tempo oportuno — nem mais cedo, nem mais
tarde. Mais cedo, ele teria abortado, porque, como as simpatias não eram
numerosas, ele teria sucumbido sob os golpes dos adversários; mais tarde,
teria perdido a ocasião favorável para se desenvolver; as ideias poderiam
tomar outro rumo, do qual seria difícil desviá-las. Era preciso dar às velhas
ideias o tempo de se gastarem e de provarem a sua insuficiência, antes de
apresentar ideias novas.
As ideias prematuras fracassam porque as pessoas não estão maduras
para compreendê-las, e porque a necessidade de uma mudança de posição
ainda não se fez sentir. Hoje, é evidente para todo mundo que um imenso
movimento se manifesta na opinião em geral; que uma reação formidável se
opera no sentido progressivo contra o espírito estacionário ou retrógrado da
rotina; que os satisfeitos da véspera são os impacientes do dia seguinte. A
humanidade está em trabalho de gestação; há alguma coisa no ar, uma força
irresistível a impulsiona à frente, é como um jovem que sai da adolescência e
que vislumbra novos horizontes sem defini-los, e que se desfaz das fraldas da
infância. As pessoas querem coisa melhor, alimentos mais sólidos para a
razão; mas essa coisa melhor ainda é vaga; as pessoas a procuram e todo
mundo trabalha para isso — desde o crente até o incrédulo, desde o lavrador
até o sábio. O universo é um vasto canteiro de obras; uns estão demolindo,
outros estão construindo; cada um talha uma pedra para o novo edifício, do
qual só o grande Arquiteto possui o plano definitivo e cuja organização só
será compreendida quando suas formas começarem a se delinear acima da
superfície do solo. Este é o momento em que a soberana sabedoria escolheu
para o surgimento do espiritismo.
Os Espíritos que presidem o grande movimento regenerador agem,
portanto, com maior sabedoria e previdência do que os homens, porque eles
abraçam a marcha geral dos acontecimentos, enquanto nós outros vemos
16 – Allan Kardec
apenas o círculo limitado do nosso horizonte. Tendo chegado os tempos da
renovação, conforme os decretos divinos, era preciso que no meio das ruínas
do velho edifício o homem vislumbrasse — para não se desanimar — os
fundamentos da nova ordem das coisas; era preciso que o marinheiro
pudesse perceber a estrela polar que o guiaria em direção ao porto.
A sabedoria dos Espíritos — que se mostrou no aparecimento do
espiritismo, revelada quase instantaneamente por toda a Terra, na época mais
propícia — não é menos evidente na ordem e na gradação lógicas das
revelações complementares sucessivas. Não cabe a ninguém constranger a
vontade deles a esse respeito, pois eles não medem os seus ensinamentos
pelo grau de impaciência dos homens. Não nos basta dizer: “Gostaríamos de
ter tal coisa” para que ela nos seja concedida; e menos ainda nos convém dizer
a Deus: “Achamos que é chegada a hora para que o Senhor nos dê tal coisa,
pois nos julgamos bastante adiantados para recebê-la”, pois isso equivaleria a
dizer: “Nós sabemos melhor do que o Senhor aquilo que convém ser feito.”
Aos impacientes, os Espíritos respondem: “Comecem primeiro por saber bem,
compreender bem e sobretudo praticar bem aquilo que já sabem, a fim de que
Deus lhes julgue dignos de aprender mais. Além disso, quando o momento
chegar, nós saberemos agir e escolheremos os nossos instrumentos.”
A primeira parte desta obra, intitulada Doutrina, contém o exame
comparado das diversas crenças sobre o céu e o inferno, os anjos e os
demônios, as penas e as recompensas futuras; o dogma das penas eternas
aqui é tratado de uma maneira especial e refutado por argumentos extraídos
das próprias leis da natureza, e que demonstram não só o seu lado ilógico, já
assinalado cem vezes, mas também a sua impossibilidade material. Com as
penas eternas, caem naturalmente as consequências que se acreditava poder
tirar dessa doutrina.
A segunda parte traz numerosos exemplos em apoio à teoria, ou melhor,
que serviram para estabelecer a teoria. Eles constituem sua autoridade na
diversidade das épocas e dos lugares onde foram obtidos, pois, se emanassem
de uma fonte única, poderíamos considerá-los como o produto de uma mesma
influência; eles a constituem, além disso, na sua coerência com o que é obtido
todos os dias, em toda parte onde as pessoas se ocupam com as manifestações
17 – O Céu e o Inferno
espíritas sob um ponto de vista sério e filosófico. Tais exemplos poderiam ser
multiplicados ao infinito, visto que não há centro espírita que não possa
fornecer um notável contingente deles. Para evitarmos repetições fatigantes,
tivemos de fazer uma escolha entre os exemplos mais instrutivos. Cada um
deles é um estudo, em que todas as palavras têm o devido alcance para quem
quer que os medite com atenção, pois cada ponto jorra uma nova luz sobre a
situação da alma após a morte e a passagem — até agora tão obscura e temida
— da vida corpórea à vida espiritual. É o guia do viajante, antes de adentrar
num país novo. A vida de além-túmulo aí se desenrola em todos os seus
aspectos, como um vasto panorama; daí, qualquer um poderá tirar novos
motivos de esperança e de consolação, bem como novas sustentações para
fortalecer sua fé no futuro e na justiça de Deus.
Nesses exemplos, tomados em sua maioria de fatos contemporâneos,
dissimulamos os nomes próprios toda vez que o julgamos útil, por motivo de
conveniências facilmente compreensíveis. Quem se interessar por esses
exemplos reconhecerá os nomes sem dificuldade; para o público, nomes mais
ou menos conhecidos, e alguns muito obscuros, não teriam acrescentado nada
à instrução que deles se podem tirar.
As mesmas razões que nos fizeram omitir os nomes dos médiuns no
Evangelho segundo o espiritismo, levaram-nos a omiti-los nesta obra — isso
feito mais para o futuro do que para o presente. Ainda menos eles estão
interessados nisso, já que não poderiam se atribuir nenhum mérito por uma
coisa na qual sua própria inteligência em nada participou. A mediunidade,
aliás, não é uma prerrogativa desse ou daquele indivíduo, mas uma faculdade
fugaz, subordinada à vontade dos Espíritos que querem se comunicar, que se
possui hoje e pode faltar amanhã, que nunca é aplicável a todos os Espíritos
indistintamente, e, por isso mesmo, não constitui nenhum mérito pessoal,
como seria um talento adquirido pelo trabalho e pelos esforços da
inteligência. Os médiuns sinceros, aqueles que compreendem a gravidade da
sua missão, consideram-se como instrumentos que a vontade de Deus pode
quebrar quando bem o entender, caso não atuem segundo os seus desígnios;
eles estão satisfeitos com uma faculdade que lhes permite serem úteis, mas da
qual não podem se envaidecer. De resto, acerca deste ponto, nós nos
18 – Allan Kardec
entregamos aos conselhos dos nossos guias espirituais.
A Providência quis que a nova revelação não fosse privilégio de ninguém,
mas que se estendesse por toda a Terra, em todas as famílias, entre os
grandes e os pequenos, conforme aquelas palavras de que os médiuns de hoje
são o cumprimento: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei o meu
Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos
jovens terão visões e vossos anciões terão sonhos. Nesses dias, derramarei o
meu Espírito sobre os meus servos e sobre minhas servas, e eles
profetizarão.” (Atos dos Apóstolos, 2: 17 e 18)
Mas ele também disse: “Haverá falsos cristos e falsos profetas.” (Ver O
Evangelho segundo o espiritismo, capítulo XXI.)
Ora, esses tempos derradeiros já chegaram; não se trata do fim do
mundo material, como a princípio se acreditava, mas do fim do mundo moral,
quer dizer, a era da regeneração.
19 – O Céu e o Inferno
Primeira Parte
DOUTRINA
20 – Allan Kardec
CAPÍTULO PRIMEIRO
O PORVIR E O NADA
1. Nós vivemos, pensamos e agimos: eis o que é indiscutível; nós morremos, o
que não é menos certo. Porém, deixando a Terra, para onde vamos? O que
será de nós? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser,
tal é a alternativa; para sempre ou para nunca mais; tudo ou nada: ou nós
vivemos eternamente ou tudo estará acabado sem volta. Vale a pena
pensarmos nisso.
Toda pessoa experimenta a necessidade de viver, de se divertir, de amar
e de ser feliz. Digam àquele que sabe que vai morrer que ele viverá mais, que a
sua hora está retardada; digam-lhe sobretudo que ele será mais feliz do que já
o foi e que seu coração palpitará de alegria. Mas de que serviria essas
aspirações de bonança se um sopro pode desvanecê-las?
Existe algo mais desesperador do que esse pensamento de destruição
absoluta? Afetos sagrados, inteligência, progresso, conhecimentos
laboriosamente adquiridos, tudo seria interrompido, tudo ficaria perdido!
Qual a necessidade de se esforçar para se tornar melhor, de tentar reprimir as
paixões e de se preocupar em aprimorar o espírito, já que não se poderia
colher nenhum fruto disso, principalmente com esse pensamento de que
amanhã talvez isso não nos serviria para nada? Se fosse assim, a sorte do
homem seria cem vezes pior que a do bruto, pois o bruto vive inteiramente do
presente, para a satisfação dos seus apetites materiais, sem aspiração para o
futuro. Uma secreta intuição diz que isso não é possível.
2. Pela crença no nada, a pessoa concentra forçosamente todos os seus
pensamentos na vida presente; de fato, não seria lógico preocupar-se com um
21 – O Céu e o Inferno
futuro do qual nada se espera. Esta preocupação exclusiva do presente
conduz a pessoa naturalmente a pensar em si antes de tudo; é, portanto, o
mais poderoso estimulante do egoísmo, e o incrédulo é coerente consigo
mesmo quando chega à seguinte conclusão: Aproveitemos enquanto estamos
aqui; vamos curtir o máximo possível, porque depois todos nós teremos um
fim; desfrutemos depressa, pois não sabemos quanto tempo isso durará. E é
coerente com essa outra conclusão, muito mais grave para a sociedade: vamos
aproveitar de todas as formas; cada um por si; neste mundo, a felicidade é dos
mais espertos.
Se o respeito humano retém algumas pessoas, que freio poderá ter
aquelas que não temem nada? Elas dizem para si mesmas que a lei humana só
atinge os atrapalhados; é por isso que elas empregam sua inteligência nos
meios de se esquivarem delas. Se há uma doutrina insensata e antissocial,
esta é seguramente a do nadismo5, porque ela rompe os verdadeiros laços de
solidariedade e fraternidade, fundamentos das relações sociais.
3. Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquira a
certeza de que em oito dias, em um mês ou num ano, como se queira, tudo
será aniquilado, que nem um só indivíduo sobreviverá, que não restará traço
algum de si mesmo após a morte; o que esse povo fará durante esse tempo?
Ele trabalhará para o seu melhoramento, para a sua instrução? Vai se dedicar
ao trabalho para viver? Respeitará os direitos, as propriedades e a vida do seu
semelhante? Será que se submeterá às leis ou a uma autoridade, seja ela qual
for, mesmo a mais legítima? Inclusive a autoridade paterna? Haverá para esse
povo um dever qualquer? Seguramente que não. Pois bem! O que não se dá
coletivamente a doutrina do nadismo realiza todos os dias individualmente.
Se as consequências não são tão desastrosas quanto poderiam ser, em
primeiro lugar é porque na maioria dos incrédulos há mais bravata do que
verdadeira incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque eles têm
mais medo do nada do que querem parecer: o título de espírito forte lisonjeia
seu amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos formam
5 Aqui, Kardec aplicou um neologismo: néantisme, relativo ao termo francês néant = “nada”. — N. T.
22 – Allan Kardec
uma ínfima minoria; eles se sujeitam a contragosto à influência da opinião
contrária e são mantidos por uma força material. Mas, se a incredulidade
absoluta se tornasse maioria, a sociedade entraria em dissolução. Eis para
onde tende a propagação da doutrina do nadismo.6
Quaisquer que sejam as suas consequências, se o nadismo fosse uma
verdade, seria preciso aceitá-lo, e não seriam nem os sistemas contrários, nem
a ideia do mal dele resultante, que poderiam fazer com que ele não existisse.
Ora, não devemos esconder que o ceticismo, a dúvida e a indiferença ganham
terreno a cada dia, malgrado os esforços da religião; isto é evidente. Se a
religião é impotente contra a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa para
combatê-la, de tal modo que se ela permanecesse na imobilidade, em pouco
tempo ela estaria infalivelmente ultrapassada. O que lhe falta neste século de
positivismo, em que se procura compreender antes de crer, é a sanção dessas
doutrinas por meio de fatos patentes; falta também a concordância de certas
doutrinas com os dados concretos da ciência. Se a doutrina diz branco e os
fatos dizem preto, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.
4. É nessa situação que o Espiritismo vem colocar um dique em oposição à
invasão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela
perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando
a alma e a vida futura perceptíveis ao toque e à visão.
Sem dúvidas, cada pessoa é livre na sua crença para acreditar em alguma
coisa ou para não crer em nada; mas aqueles que procuram impor no meio da
6 Um rapaz de 18 anos estava afetado por uma doença do coração declarada incurável. A ciência tinha
dito: “Ele pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos, mas não irá além.” O jovem ficou sabendo
disso; logo, ele abandonou os estudos e se entregou aos excessos de todo tipo. Quando lhe advertiam
que uma vida desregrada era perigosa para a sua situação, ele respondia: Que me importa, já que não
tenho mais do que dois anos de vida? De que me serviria fatigar o espírito? Eu aproveito do pouco que
me resta e quero divertir-me até o fim. — Eis a consequência lógica do nadismo.
Se esse rapaz fosse espírita, ele teria dito: A morte só destruirá meu corpo, que deixarei como
uma roupa gasta, mas o meu Espírito viverá sempre. Serei na minha vida futura aquilo que eu próprio
tiver feito de mim nesta vida; nada do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais será
perdido, porque será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda imperfeição de que me
despojar será um passo a mais para a felicidade; minha ventura ou minha infelicidade futura depende
da utilidade ou da inutilidade da minha existência atual. É, portanto, de meu interesse aproveitar o
pouco tempo que me resta e evitar tudo que possa diminuir minhas forças.”
Qual destas duas doutrinas é preferível?
23 – O Céu e o Inferno
multidão — sobretudo da juventude — a negação do futuro, apoiando-se na
autoridade do seu saber e na influência da sua posição, semeiam na sociedade
os germes de perturbação e de dissolução, e incorrem em uma grande
responsabilidade.
5. Há uma outra doutrina que nega ser materialista, já que admite a existência
de um princípio inteligente fora da matéria: esta é a doutrina da absorção no
Todo Universal. Segundo esta doutrina, cada indivíduo em seu nascimento
assimila uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e lhe dá a vida, a
inteligência e o sentimento. Com a morte, esta alma retorna ao foco comum e
se perde no infinito como uma gota d’água no oceano.
Essa doutrina indubitavelmente é um passo avante sobre o materialismo
puro, pois ela admite alguma coisa, ao passo que a outra não admite nada;
mas as consequências são exatamente as mesmas. Que a pessoa seja
mergulhada no nada ou no reservatório comum, é tudo a mesma coisa; se no
primeiro caso ela é aniquilada, no segundo ela perde a sua individualidade;
logo, é como se não existisse e todas as relações sociais se rompem para
sempre. O essencial para a pessoa é a conservação do seu eu; sem isso, de que
lhe importa existir ou não? O porvir para ela é sempre nulo e a vida presente é
a única coisa que lhe interessa e lhe preocupa. Do ponto de vista das suas
consequências morais, essa doutrina é tão perversa, tão desesperadora e tão
estimuladora do egoísmo quanto o materialismo propriamente dito.
6. Pode-se, além disso, fazer a objeção seguinte: todas as gotas d’água postas
no oceano se assemelham e têm propriedades idênticas, como as partes de
um mesmo conjunto; então, se as almas provêm do grande oceano da
inteligência universal, por que elas se assemelham tão pouco? Por que há
genialidade e há estupidez? Por que há as virtudes mais sublimes ao lado dos
vícios mais ignóbeis? Por que há bondade, doçura e mansuetude assim como
há maldade, crueldade e barbaria? Como as partes de um mesmo conjunto
homogêneo podem ser tão diferentes umas das outras? Poderão dizer que é a
educação que as modifica? Mas então, de onde vêm as qualidades inatas, as
inteligências precoces, os instintos bons e maus, independentes de toda
24 – Allan Kardec
educação e muitas vezes tão em desarmonia com o ambiente no qual se
desenvolvem?
A educação certamente modifica as qualidades intelectuais e morais da
alma; porém, aqui se apresenta outra dificuldade: quem dá à alma a educação
para fazê-la progredir? Outras almas, que por sua origem comum, não devem
ser mais adiantadas. Por outro lado, a alma retornando ao Todo Universal de
onde saiu, após ter progredido durante a vida, leva daí um elemento mais
perfeito; disso se segue que esse conjunto, ao longo do tempo, devia se
encontrar profundamente modificado e melhorado. Como é que desse
conjunto pode sair incessantemente almas ignorantes e perversas?
7. Nessa doutrina, a fonte universal de inteligência que fornece as almas
humanas é independente da Divindade; não é precisamente o panteísmo. O
panteísmo propriamente dito difere dessa doutrina porque ele considera o
princípio universal da vida e da inteligência como constituindo a Divindade.
Deus é ao mesmo tempo espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da
natureza compõem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos
constitutivos; Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada
indivíduo, sendo uma parte do todo, também é o próprio Deus; nenhum ser
superior e independente comanda o conjunto; o universo é uma imensa
república sem chefe, ou melhor, onde cada um é chefe com poder absoluto.
8. A esse sistema podem se opor numerosas objeções, cujas principais são
estas: como a Divindade não pode ser concebida sem o infinito das perfeições,
pergunta-se: como um conjunto perfeito pode ser formado de partes tão
imperfeitas e tendo a necessidade de progredir? Estando cada parte
submetida à lei do progresso, disso resulta que o próprio Deus deva
progredir; se ele progride sem cessar, ele deveria ter sido muito imperfeito na
origem dos tempos. Como um ser imperfeito, formado de vontades e de ideias
tão divergentes, poderia conceber leis tão harmoniosas, tão admiráveis de
unidade, de sabedoria e de previdência quais as que regem o universo? Se
todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram com as leis da
natureza; então como é que elas murmurem sem cessar contra essas leis, que
25 – O Céu e o Inferno
seriam obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão
com a condição de satisfazer a razão e de dar conta de todos os fatos que
ela abrange; se um único fato lhe trouxer um desmentido, é que ela não
está com a verdade absoluta.
9. Do ponto de vista moral, as consequências são todas muito ilógicas. Em
primeiro lugar é para as almas, tal como no sistema anterior, a absorção num
todo e a perda da individualidade. Caso se admita que as almas conservem
sua individualidade, segundo a opinião de alguns panteístas, Deus não tem
mais vontade única; é um composto de incontáveis vontades divergentes.
Depois, cada alma sendo parte integrante da Divindade, nenhuma é dominada
por um poder superior; consequentemente, ela não incorre em nenhuma
responsabilidade por suas boas ou más ações; ela não tem nenhum interesse
na prática do bem e pode praticar o mal impunemente.
10. Além do que esses sistemas não satisfazem nem a razão nem as
aspirações do homem, neles nós encontramos, como se vê, dificuldades
insuperáveis, porque eles são impotentes para realmente resolver todas as
questões que levantam. O homem tem, portanto, três alternativas: o nada,
a absorção ou a individualidade da alma antes e depois da morte. É para
esta última crença que a lógica irresistivelmente nos leva; é essa crença
também que formaram a base de todas as religiões desde que o mundo existe.
Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, ela nos leva igualmente
a esta outra consequência: a sorte de cada alma deve depender das suas
qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do
selvagem e a do homem perverso estivessem no mesmo nível da alma do
cientista e do homem de bem. De acordo com a justiça, as almas devem ter a
responsabilidade dos seus atos; todavia, para que elas sejam responsáveis, é
preciso que elas sejam livres para escolher entre o bem e o mal; sem livre-
arbítrio, há fatalidade, e com a fatalidade não poderia haver responsabilidade.
11. Todas as religiões igualmente têm admitido o princípio do destino feliz ou
infeliz da alma após a morte — dito de outra forma, as penas e recompensas
26 – Allan Kardec
porvindouras, que se resumem na doutrina do céu e do inferno encontrada
em toda parte. Contudo, no que as religiões diferem essencialmente é sobre a
natureza dessas penas e dessas recompensas, e principalmente sobre as
condições que cada qual pode merecer. Daí os pontos de fé contraditórios que
geraram a cultos diferentes e os deveres particulares impostos a cada um
deles para honrar a Deus, e por esse meio ganhar o céu e evitar o inferno.
12. Na sua origem, todas as religiões tiveram que se relacionar com o grau de
adiantamento moral e intelectual dos homens; estes, bastante materializados
para compreender o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram com
que a maior parte dos deveres religiosos consistisse no cumprimento de
fórmulas exteriores. Durante muito tempo, essas fórmulas foram suficientes
para a razão deles; mais tarde, a luz adentrando no seu espírito, eles sentem o
vazio que essas fórmulas deixam neles, e se a religião não preenche esse
vazio, eles abandonam a religião e se tornam filósofos.
13. Se a religião, apropriada no princípio aos conhecimentos limitados
dos homens, sempre tivesse acompanhado o movimento progressivo do
espírito humano, então não haveria incrédulos, porque está na própria
natureza do homem a necessidade de crer, e ele acreditará se lhe derem
um alimento espiritual em harmonia com as suas necessidades
intelectuais. O homem quer saber de onde ele veio e para onde vai; se lhe
mostrarem um objetivo que não corresponda aos seus anseios nem
corresponda à ideia que ele faz de Deus, nem aos dados concretos que a
ciência lhe fornece, e se, para atender a esse objetivo, lhe são impostas
condições cuja utilidade sua razão não identifica, então ele rejeita tudo; o
materialismo e o panteísmo lhe parecem ainda mais racionais, porque aqui se
discute e se raciocina; raciocínio falso, é verdade, mas o homem prefere
raciocinar em falso a não raciocinar absolutamente.
Entretanto, se lhe apresentarem um futuro nas condições lógicas, digno
em todos os sentidos da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus,
então ele abandonará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo ele sente no
seu interior, e que só tinha aceitado por falta de algo melhor. O Espiritismo
27 – O Céu e o Inferno
oferece coisa melhor; é por isso que ele é acolhido rapidamente por todos
aqueles atormentados pela incerteza pungente da dúvida e que não
encontram nem nas crenças nem nas filosofias comuns o que eles procuram; o
Espiritismo tem em si mesmo a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é
por isso que ele é combatido inutilmente.
14. O homem tem instintivamente a crença no futuro; mas, não possuindo até
hoje nenhuma base certa para definir esse futuro, a sua imaginação tem
criado sistemas que trouxeram a diversidade de crenças. A doutrina espírita
com relação ao futuro — não sendo uma obra de imaginação concebida mais
ou menos engenhosamente, mas sim o resultado da observação dos fatos
materiais que se desenrolam hoje sob os nossos olhos — congregará, como
ela já está fazendo, as opiniões divergentes ou dúbias, e trará pouco a pouco,
pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, crença que não
será mais baseada numa hipótese, mas numa certeza. A unificação com
relação ao futuro destino das almas será o primeiro ponto de
aproximação entre os diversos cultos, um passo imenso, primeiramente
em direção à tolerância religiosa e, mais tarde, para a completa fusão.
28 – Allan Kardec
CAPÍTULO II
TEMOR DA MORTE
Causas do temor da morte – Por que os espíritas não temem a morte
Causas do temor da morte
1. O homem, seja qual for grau da escala a que pertença, desde o estado de
selvageria, tem o sentimento inato do que há por vir; sua intuição lhe diz que
a morte não é o último ato da existência e que aqueles por quem lamentamos
não estão perdidos para sempre. A fé no futuro é intuitiva e infinitamente
mais generalizada do que a crença no nada. Então, como é possível que, entre
os que acreditam na imortalidade da alma, ainda há tanto apego às coisas da
Terra e um medo tão grande da morte?
2. O temor da morte é um efeito da sabedoria da Providência e uma
consequência do instinto de conservação comum a todos os seres vivos. Ele é
necessário enquanto o homem não estiver bastante esclarecido sobre as
condições da vida futura, como contrapeso ao arrastamento que, sem esse
freio, o levaria a deixar prematuramente a vida terrena e a negligenciar o
trabalho neste mundo que deve servir para o seu próprio adiantamento.
É por isso que, nos povos primitivos, o futuro não passa de uma vaga
intuição, depois se torna uma simples esperança e mais tarde, finalmente,
uma certeza — embora ainda contrabalanceada por um secreto apego à vida
corporal.
3. À medida que o homem compreende melhor a vida vindoura, o receio da
29 – O Céu e o Inferno
morte diminui e ao mesmo tempo, compreendendo melhor a sua missão
terrena, ele espera o término desta missão com mais calma, resignação e
despreocupação. A certeza da vida futura lhe dá outra direção às suas ideias,
outro propósito às suas atividades; antes de ter essa certeza ele só trabalha
para a vida atual; depois dessa certeza, ele trabalha com vistas ao futuro sem
se descuidar do presente, porque sabe que o seu destino depende da direção
mais ou menos boa ou má que ele der à vida presente. A certeza de
reencontrar seus amigos após a morte, de continuar as relações que teve na
Terra, de não perder o fruto de nenhum trabalho, de crescer sem cessar em
inteligência e em perfeição, dá a ele a paciência para esperar e a coragem para
suportar as fadigas momentâneas da vida terrestre. A solidariedade que ele vê
se estabelecer entre os mortos e os vivos faz o homem compreender a
solidariedade que deve existir entre os vivos; desde então, a fraternidade tem
sua razão de ser e a caridade tem um objetivo no presente e no futuro.
4. Para se libertar da apreensão da morte é preciso poder encará-la sob o seu
verdadeiro ponto de vista, quer dizer, ter penetrado através do pensamento
no mundo espiritual e dele ter feito uma ideia tão exata quanto possível, o que
denota da parte do Espírito encarnado um certo desenvolvimento e uma
aptidão para se desgarrar da matéria. Para aqueles que não estão
suficientemente avançados, a vida material tem mais importância do que a
vida espiritual.
Apegando-se às aparências, o homem não vê além da vida no corpo,
enquanto a vida real está na alma; o corpo sendo privado da vida, tudo aos
seus olhos parece perdido e ele se desespera. Se, ao contrário de concentrar
seu pensamento na vestimenta exterior ele se dirigisse à própria fonte da vida
— que é a alma, o ser real sobrevivente a tudo — então ele se preocuparia
menos com o corpo, que é a fonte de tantas misérias e dores; mas para isso, é
preciso uma força que o Espírito só adquire com a maturidade.
Portanto, o temor da morte decorre da noção insuficiente sobre a vida
futura; ele também denota a necessidade de viver e o receio de que a
destruição do corpo seja o fim de tudo; sendo assim, esse temor é provocado
pelo desejo oculto da sobrevivência da alma, ainda velado pela incerteza.
30 – Allan Kardec
Essa apreensão se enfraquece à medida que a convicção aumenta; ela
desaparece quando esta convicção é completa.
Eis aqui o lado providencial da questão. Era prudente não deslumbrar o
homem, cuja razão ainda não estava forte o bastante para suportar a
perspectiva muito positiva e atraente de um futuro que o teria feito
negligenciar o presente necessário para o seu avanço material e intelectual.
5. Tal situação é mantida e prolongada por causas puramente humanas, que
desaparecerá com o progresso. A primeira dessas causas é o aspecto sob o
qual a vida futura é apresentada, aspecto que poderia ser suficiente para as
inteligências pouco desenvolvidas, mas que não conseguiria satisfazer às
exigências da razão dos homens que refletissem. Por conta disso — eles
dizem — quando alguém nos apresenta como verdades absolutas princípios
contrariados pela lógica e pelos dados concretos da ciência, significa que eles
não são verdadeiros. A partir daí, em alguns surge a incredulidade, e em
grande número uma crença misturada com a dúvida. Para estes, a vida futura
é uma ideia vaga, mais uma probabilidade do que uma convicção absoluta;
eles acreditam nela, gostariam que fosse assim, mas apesar de tudo eles se
questionam: E se não for desse jeito? Já que o presente é real, vamos nos
ocupar primeiro com ele; o futuro virá por acréscimo.
Além disso — eles se dizem — o que realmente é a alma? É um ponto,
um átomo, uma faísca, uma chama? Como ela se sente? Como ela vê? Como ela
percebe as coisas? Para eles, a alma não é mais uma realidade efetiva; ela é
uma abstração. Os entes queridos — reduzidos ao estado de átomo no seu
modo de pensar — estão por assim dizer perdidos para eles, e não têm mais a
seus olhos as qualidades que os fizeram amá-los; eles não compreendem nem
o amor de uma faísca nem o amor que podemos ter por ela, e eles mesmos
ficam mediocremente satisfeitos de serem transformados em mônadas. Daí o
retorno ao positivismo da vida terrena, que possui algo de mais substancial. O
número de pessoas dominadas por esses pensamentos é considerável.
6. Outra causa que liga as pessoas às coisas da Terra — mesmo aquelas
pessoas que creem mais firmemente na vida futura — tem a ver com a
31 – O Céu e o Inferno
impressão que elas conservam do ensinamento que lhes foi dado desde a
infância.
O quadro que a religião pinta a respeito disso, convenhamos, não é muito
atraente, nem tampouco consolador. Por um lado, vemos as contorções de
condenados que expiam nas torturas e nas labaredas sem fim seus erros
momentâneos; para quem os séculos sucedem os séculos, sem esperança de
abrandamento ou de piedade e — o que é ainda mais impiedoso — para quem
o arrependimento é ineficaz. Por outro lado, as almas lânguidas e sofredoras
do purgatório aguardam a sua libertação mediante a boa vontade dos vivos
que rezarem ou providenciarem para que alguém reze por elas — e não pelos
seus próprios esforços para progredir. Estas duas categorias compõem a
imensa maioria da população do outro mundo. Acima delas paira a categoria
muito restrita dos eleitos, gozando durante a eternidade de uma beatitude
contemplativa. Esta inutilidade eterna — preferível ao nada, sem dúvida —
não deixa de ser uma tediosa monotonia. É assim que, nas pinturas que
retratam os bem-aventurados, vemos as figuras angélicas transparecendo
mais o tédio do que a verdadeira felicidade.
Essa situação não atende nem às aspirações nem à ideia instintiva de
progresso, que parece ser a única compatível com a felicidade absoluta. É
difícil imaginar que o selvagem ignorante, de senso moral obtuso, só por ter
recebido o batismo, esteja no mesmo nível de quem alcançou o mais alto grau
de ciência e de moralidade prática após longos anos de trabalho. É ainda
menos concebível que uma criança morta em tenra idade — antes de ter
consciência de si mesma e de suas ações — desfrute dos mesmos privilégios,
simplesmente pelo ato de uma cerimônia da qual a sua vontade não tem
nenhuma participação. Estas ideias não deixam de abalar os mais fervorosos,
por pouco que eles meditem.
7. Caso se considere que o trabalho progressivo que se realiza neste mundo
não tenha nenhuma relação com a felicidade futura, a facilidade com que eles
acreditam adquirir essa ventura por meio de algumas práticas exteriores, e
até mesmo a possibilidade de comprá-la com dinheiro, sem qualquer
reformulação séria do caráter e dos costumes, deixam aos prazeres do mundo
32 – Allan Kardec
todo o seu valor. Muitos crentes se dizem no seu íntimo que, uma vez que seu
futuro já está assegurado através do cumprimento de determinadas fórmulas,
ou por doações póstumas que não os privam de nada, então seria
desnecessário impor a si mesmo sacrifícios ou incômodos quaisquer em
benefício dos outros, pois podemos alcançar a salvação trabalhando cada um
por si.
Seguramente, este não é o pensamento de todos, pois há grandes e belas
exceções; mas ninguém pode negar que esse seja o pensamento da maioria,
sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a ideia que se faz das
condições para sermos felizes no outro mundo não alimente o apego aos bens
terrenos — e, consequentemente, o egoísmo.
8. Acrescentemos a isso que tudo nos costumes contribui para fazer a pessoa
sentir saudades da vida terrena e temer a passagem da Terra para o céu. A
morte é toda cercada de cerimônias lúgubres que mais apavoram do que
provocam esperança. Quando apresentam a morte, é sempre com um aspecto
repulsivo e nunca como sono de transição; todos os seus emblemas recordam
a destruição do corpo, mostrando-o horrível e descarnado; nenhum deles
simboliza a alma se desprendendo radiosa das amarras terrenas. A partida
para esse mundo mais feliz só é acompanhada pelo lamento dos
sobreviventes, como se a maior desgraça tivesse chegado para aqueles que se
foram; todos lhes dão um eterno adeus como se jamais fossem revê-los. O que
se lastima por eles é a perda dos prazeres deste mundo, como se os falecidos
não pudessem encontrar ainda outros melhores. Que desgraça — dizem as
pessoas — morrer quando se é jovem, rico, feliz e tendo diante de si um
futuro brilhante! A ideia de uma condição mais venturosa mal passa pelo
pensamento, porque não há raízes. Desse modo, tudo colabora para inspirar o
terror da morte, em lugar de fazer brotar a esperança. Com certeza o homem
levará muito tempo para se desfazer desses preconceitos; mas ele o fará, na
medida em que a sua fé se fortaleça e que ele faça uma ideia mais sensata da
vida espiritual.
9. Ademais, a crença comum põe as almas nas regiões pouco acessíveis ao
33 – O Céu e o Inferno
pensamento, onde de alguma maneira elas se tornam estranhas aos
sobreviventes; a própria Igreja coloca entre umas e outras uma barreira
intransponível: ela declara que todas as relações estão interrompidas e que é
impossível qualquer comunicação. Se as almas estiverem no inferno, toda a
esperança de as rever está perdida para sempre, a menos que se vá para lá; se
estiverem entre os eleitos, estarão inteiramente concentradas em sua
beatitude contemplativa. Tudo isso estabelece entre mortos e vivos uma
distância tal que se considera a separação como eterna; eis por que as pessoas
preferem ter os entes queridos junto de si mesmas, ainda que sofrendo na
Terra, a vê-los partir, mesmo que fosse para o céu. Ora, a alma que estivesse
no céu estaria realmente feliz vendo, por exemplo, seu filho, seu pai, sua mãe
ou seus amigos se queimando eternamente?
Por que os espíritas não temem a morte
10. A doutrina espírita modifica completamente a maneira de encararmos o
porvir. A vida futura deixa de ser uma hipótese e se torna uma realidade; a
situação das almas após a morte não é mais uma teoria, mas sim o resultado
da observação. O véu é erguido; o mundo espiritual nos aparece em toda sua
realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de
uma concepção engenhosa, mas os próprios habitantes desse mundo que vêm
nos descrever a sua situação; nós aí os vemos em todos os graus da escala
espiritual, em todas as fases da felicidade e da infelicidade; nós assistimos a
todas as peripécias da vida de além-túmulo. Esta é para os espíritas a causa da
calma com a qual eles encaram a morte, a causa da serenidade dos seus
derradeiros instantes na Terra. Aquilo que os sustenta não é meramente a
esperança, mas a certeza, pois eles sabem que a vida futura não é mais do que
a continuação da vida presente em melhores condições, e então a aguardam
com a mesma confiança com que aguardariam o nascer do Sol após uma noite
de tempestade. Os motivos dessa confiança consistem nos fatos dos quais eles
são testemunhas e na concordância desses fatos com a lógica, a justiça e a
bondade de Deus, além das aspirações íntimas do homem.
34 – Allan Kardec
Para os espíritas, a alma não é mais uma abstração; ela tem um corpo
etéreo, que dela faz um ser definido, o pensamento abraça e concebe — o que
já é o bastante para fixar as ideias sobre a sua individualidade, suas aptidões e
suas percepções.7 A lembrança das pessoas queridas repousa sobre alguma
coisa real. Não mais os representamos como chamas fugazes que nada
significam para o pensamento, mas sim sob uma forma concreta que os
mostre melhor para nós como seres viventes. Logo, em vez de estarem
perdidos nas profundezas do espaço, eles estão à nossa volta; o mundo
corpóreo e o mundo espiritual estão em perpétuas relações e se ajudam
mutuamente. Não mais sendo permitida a dúvida sobre o porvir, a apreensão
da morte perde a sua razão de ser; vê-se a morte se aproximar a sangue-frio,
como uma libertação, como a porta da vida e não como a porta do nada.
7 A este corpo etéreo, o Espiritismo dá o nome de perispírito. — N. T.
35 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO III
O CÉU
1. A palavra céu é dita, em geral, para designar o espaço indefinido que
envolve a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso
horizonte; ela vem do latim cœelum, formada do grego coïlos, oco, côncavo,
porque o céu parece aos nossos olhos uma imensa concavidade. Os antigos
acreditavam na existência de vários céus superpostos, constituídos de uma
matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas das quais a
Terra era o centro. Girando em torno da Terra, essas esferas arrastavam
consigo os astros que se encontravam na sua direção.
Essa ideia, decorrente da insuficiência dos conhecimentos astronômicos,
foi a de todas as teogonias que fizeram dos céus, assim escalonados, os
diversos graus da beatitude; o último deles seria a morada da suprema
felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus; daí a expressão:
Estar no sétimo céu, para expressar uma perfeita ventura. Os muçulmanos
admitem nove céus e em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos
crentes. O astrônomo Ptolomeu8 contava onze, sendo que o último era
chamado Empíreo,9 por causa da luz ofuscante que nele reina. Ainda hoje, este
é um nome poético dado ao lugar da glória eterna. A teologia cristã reconhece
três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo é o espaço
onde se movem os astros; o terceiro, para além da região dos astros, é a
morada do Altíssimo, a região dos eleitos que contemplam Deus face a face. É
segundo esta crença que se diz que são Paulo foi elevado ao terceiro céu.
8 Ptolomeu viveu em Alexandria, no Egito, no segundo século da Era Cristã.
9 Do grego pur ou pyr: fogo.
36 – Allan Kardec
2. As diferentes doutrinas referentes à morada dos bem-aventurados se
fundamentam, todas elas, no duplo erro de que a Terra seja o centro do
Universo e que a região dos astros é limitada. É para além desse limite
imaginário que todas as doutrinas têm colocado essa estância afortunada e a
morada do Todo-Poderoso. Estranha anomalia que coloca o autor de todas as
coisas — aquele que governa tudo — nos confins da criação, ao invés do
centro, de onde a irradiação do seu pensamento poderia se estender a tudo!
3. A ciência — com a inexorável lógica dos fatos e da observação — levou sua
tocha até as profundezas do espaço e mostrou a nulidade de todas essas
teorias. A Terra não é mais o eixo do Universo, mas apenas um dos menores
astros rolando na imensidão; o próprio Sol não é mais do que o centro de um
turbilhão planetário; as estrelas são inumeráveis sóis em torno dos quais
orbitam mundos incontáveis, separados por distâncias pouco acessíveis ao
pensamento, embora nos pareça que elas se tocam. Nesse conjunto grandioso,
regido por leis eternas, em que se revelam a sabedoria e a onipotência do
Criador, a Terra parece apenas um ponto imperceptível e um dos menos
favorecidos para a habitabilidade. Desde então, perguntamos: por que Deus
teria feito da Terra a única sede da vida e nela teria relegado as suas criaturas
prediletas? Tudo, ao contrário, demonstra que a vida está por toda parte, que
a humanidade é infinita como o Universo. Já que a ciência nos revelou mundos
semelhantes à Terra, Deus não podia tê-los criado sem objetivo; ele deve ter
povoado esses mundos de seres capazes de os governar.
4. As ideias do homem são proporcionais ao que ele sabe; como todas as
descobertas importantes, a da constituição dos mundos deve ter dado a ele
outro rumo. Sob a influência desses novos conhecimentos, as crenças tiveram
que se modificar: o céu foi deslocado; a região das estrelas, sendo ilimitada,
não mais pode lhe servir. Onde ele está? Diante desta questão todas as
religiões ficam mudas.
O Espiritismo vem resolver essa questão demonstrando o verdadeiro
destino do homem. Tomando a natureza deste último e os atributos de Deus
como ponto de partida, chegamos a uma conclusão; quer dizer, partindo do
37 – O Céu e o Inferno
conhecido chegamos ao desconhecido por uma dedução lógica, sem falar das
observações diretas que o Espiritismo nos permite fazer.
5. O homem é composto de corpo e Espírito; o Espírito é o ser principal, o ser
racional, o ser inteligente; o corpo é o envoltório material que reveste o
Espírito temporariamente, para o cumprimento de sua missão na Terra e a
execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. O corpo, gasto, se
destrói, e o Espírito sobrevive à destruição do corpo. Sem o Espírito, o corpo
não passa de uma matéria inerte, como um instrumento privado do braço que
o faz agir; sem o corpo, o Espírito é tudo: a vida e a inteligência. Ao deixar o
corpo, ele retorna ao mundo espiritual, de onde havia saído para reencarnar.
Portanto, há o mundo corporal, composto de Espíritos encarnados, e o
mundo espiritual, formado de Espíritos desencarnados. Devido ao seu
próprio envoltório material, os seres do mundo corporal estão vinculados à
Terra ou a um globo qualquer; o mundo espiritual existe em toda parte, em
torno de nós e no espaço; nenhum limite lhe é assinalado. Em razão da
natureza fluídica de seu envoltório, os seres que o compõem, em vez de se
arrastarem penosamente sobre o solo, atravessam as distâncias com a rapidez
do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retinham
cativos.
6. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com a aptidão para
adquirir tudo e para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo
progresso eles alcançam novos conhecimentos, novas faculdades, novas
percepções e, por conseguinte, novos contentamentos desconhecidos dos
Espíritos inferiores; eles veem, escutam, sentem e compreendem aquilo que
os Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem sentir, nem
compreender. A felicidade é proporcional ao progresso realizado, de
maneira que, entre dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o
outro, unicamente por não estar tão avançado intelectual e moralmente,
sem que eles precisem estar cada qual em um lugar diferente. Mesmo
estando um ao lado do outro, um pode estar nas trevas ao passo que tudo
resplandece ao redor do outro, exatamente como ocorre com um cego e um
38 – Allan Kardec
vidente que se dão as mãos: um percebe a luz, a qual não causa nenhuma
impressão ao seu vizinho. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às
qualidades que possuem, então eles a colhem em toda parte onde
estiverem — seja na superfície da Terra, no meio dos encarnados ou no
espaço.
Uma comparação simples fará compreender melhor ainda esta situação.
Se num concerto musical estiverem dois homens, um deles bom músico e com
ouvido treinado, o outro sem conhecimento de música e com audição pouco
delicada, o primeiro experimentará uma sensação de felicidade, enquanto o
segundo ficará insensível, porque um compreende e percebe aquilo que não
causa nenhuma impressão no outro. Assim acontece com todos os gozos dos
Espíritos, que estão na proporção da capacidade de senti-los. O mundo
espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os
Espíritos inferiores, ainda sujeitos à influência da matéria, nem sequer
entreveem, e que não estão acessíveis senão aos Espíritos depurados.
7. O progresso nos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho; mas como são
livres, eles trabalham para o seu adiantamento com maior ou menor atividade
ou negligência, segundo a vontade deles; sendo assim, eles adiantam ou
retardam seu progresso e, como consequência, a própria felicidade. Enquanto
uns avançam rapidamente, outros se demoram por longos séculos nas faixas
inferiores. São eles, pois, os próprios artífices da sua situação, feliz ou infeliz,
conforme esta fala do Cristo: “A cada um segundo as suas obras!” Todo
Espírito que ficar em atraso não pode culpar senão a si mesmo, assim como
quem avança tem todo o seu mérito; a felicidade que ele conquistou tem ainda
mais valor aos seus olhos.
A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos, ou
seja, pelos Espíritos puros. Eles não a alcançam antes de terem progredido em
inteligência e em moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral
raramente marcham juntos, mas aquilo que o Espírito não realiza numa etapa
ele o faz em outra, de maneira que os dois progressos acabam por atingir o
mesmo nível. Essa é a razão pela qual vemos frequentemente homens
inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente, e vice-versa.
39 – O Céu e o Inferno
8. A encarnação é necessária para o duplo progresso moral e intelectual do
Espírito: para o progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a
desempenhar no trabalho; para o progresso moral, pela necessidade de que
os homens têm uns dos outros. A vida social é o critério determinante das
boas ou más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a
benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a
sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em suma, tudo o
que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motivação, por
alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o
homem que vivesse isolado não haveria nem vícios nem virtudes; se pelo
isolamento ele se preserva do mal, ele também anula o bem.
9. Uma só existência corporal é claramente insuficiente para que o Espírito
possa adquirir todo o bem que lhe falta e para se desfazer de todo aquilo que
é mau dentro dele. Como poderia, por exemplo, o selvagem alcançar numa
única encarnação o nível moral e intelectual de um europeu mais avançado?
Isso é materialmente impossível. Deve ele, pois, permanecer eternamente na
ignorância e barbaria, privado das satisfações que só o desenvolvimento das
faculdades lhe pode proporcionar? O simples bom senso rejeita tal suposição,
que seria a negação da justiça e da bondade de Deus, ao mesmo tempo que a
negação da lei progressiva da natureza. Eis por que Deus — que é
soberanamente justo e bom — concede ao Espírito do homem quantas
existências forem necessárias para chegar ao seu objetivo, que é a perfeição.
Em cada nova existência, o Espírito traz consigo aquilo que adquiriu nas
precedentes, tanto em aptidões quanto em conhecimentos intuitivos, em
inteligência e em moralidade. Assim, cada existência é um passo adiante no
caminho do progresso.10
A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos; ela deixa de ser
necessária àqueles que completaram seu curso e progrediram para o estado
espiritual, ou para as existências corpóreas em mundos superiores, que nada
mais têm da materialidade terrena. Para estes, a encarnação é voluntária e
tem como finalidade exercer sobre os encarnados uma ação mais direta para
10 Veja a nota do cap. I, item 8, nota 1.
40 – Allan Kardec
o cumprimento da missão de que estão encarregados junto a eles; tais
Espíritos aceitam as vicissitudes e os sofrimentos da vida por devotamento.
10. No intervalo das existências corporais o Espírito retorna ao mundo
espiritual por um tempo mais ou menos longo, onde é feliz ou infeliz
conforme o bem ou o mal que tenha feito. O estado espiritual é o estado
normal do Espírito, já que esse deve ser o seu estado definitivo e que o corpo
espiritual não morre; o estado carnal é apenas transitório e passageiro. É no
estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso
realizado pelo seu trabalho durante a encarnação; é também nesse estado que
ele se prepara para novas lutas e toma as resoluções que se esforçará para
pôr em prática no seu retorno à humanidade.
O Espírito progride igualmente na erraticidade; lá ele adquire
conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra; aí suas ideias se
modificam. O estado corporal e o estado espiritual constituem para ele a fonte
de dois gêneros de progresso solidários entre si; é por isso que ele passa
alternadamente por esses dois modos de existência.
11. A reencarnação pode ocorrer na Terra ou em outros mundos. Entre os
mundos, há alguns mais desenvolvidos do que outros, onde a existência se
desenrola em condições menos penosas do que na Terra, física e moralmente,
mas onde não são admitidos senão Espíritos que chegaram a um grau de
perfeição relativo ao estado desses mundos.
A vida nos mundos superiores já é uma recompensa, pois neles fica-se
isentos dos males e das vicissitudes a que estamos expostos aqui na Terra. Os
corpos de lá — menos materiais, quase fluídicos — não estão sujeitos nem às
moléstias, nem às enfermidades, nem às mesmas necessidades. Estando
excluídos deles os Espíritos maus, as pessoas vivem em paz, sem outra
preocupação além daquela de seu avanço através do trabalho intelectual. Lá
reina a verdadeira fraternidade, porque não existe egoísmo; reina a
verdadeira igualdade, porque não há orgulho; reina a verdadeira liberdade,
porque não há desordens a reprimir, nem ambiciosos procurando oprimir o
fraco. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos; são
etapas na rota do progresso que conduzem ao estado definitivo. Sendo a Terra
41 – O Céu e o Inferno
um mundo inferior destinado à depuração dos Espíritos imperfeitos, esta é a
razão pela qual o mal aqui predomina, até que agrade a Deus fazer dela uma
morada de Espíritos mais avançados.
É assim que o Espírito, progredindo gradualmente à medida que se
desenvolve, chega ao apogeu da felicidade; todavia, antes de ter atingido o
ponto culminante da perfeição, ele saboreia uma felicidade relativa ao seu
adiantamento. A criança desfruta dos prazeres da infância, mais tarde os da
juventude, e finalmente os mais substanciais, da idade madura.
12. A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na ociosidade
contemplativa, que seria — como temos dito tantas vezes — uma eterna e
fastidiosa inutilidade. A vida espiritual em todos os seus graus é, ao contrário,
uma constante atividade, mas uma atividade isenta de fadigas. A suprema
alegria consiste na satisfação de todos os esplendores da criação, que
nenhuma linguagem humana seria capaz de descrever, que a imaginação mais
fecunda jamais poderia conceber; consiste no conhecimento e na penetração
de todas as coisas; na ausência de qualquer sofrimento físico e moral; numa
satisfação íntima, uma serenidade de alma inalterável; no amor puro que une
todos os seres, por causa da ausência de todo atrito devido ao contato dos
maus e, acima de tudo, na contemplação de Deus e na compreensão dos seus
mistérios revelados aos mais dignos. Essa felicidade também está nas funções
das quais é um prazer estar encarregado. Os Espíritos puros são os Messias ou
mensageiros de Deus para a transmissão e execução das suas vontades; eles
cumprem as grandes missões, presidem a formação dos mundos e a harmonia
geral do universo, encargo glorioso ao qual não se chega senão pela perfeição.
Os Espíritos da ordem mais elevada são os únicos nos segredos de Deus,
inspirando-se no seu pensamento, de que são os representantes diretos.
13. As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu adiantamento, às
luzes que possuem, às suas capacidades, à sua experiência e o grau de
confiança que inspiram ao soberano Mestre. Aí, nada de privilégios, nada de
favores que não sejam o prêmio do mérito: tudo é medido conforme a estrita
justiça. As missões mais importantes são confiadas somente àqueles que Deus
42 – Allan Kardec
sabe que estão aptos a cumpri-las e incapazes de fracassar ou de as
comprometer. Ao passo que, sob o olhar de Deus, os mais dignos compõem o
supremo conselho, aos chefes superiores é atribuída a direção de turbilhões
planetários; a outros é conferida a direção de mundos especiais. Vêm em
seguida, pela ordem de adiantamento e da subordinação hierárquica, as
atribuições mais restritas daqueles Espíritos que são responsáveis pela
marcha dos povos, pela proteção das famílias e dos indivíduos, pela impulsão
de cada ramo de progresso, pelas diversas operações da natureza até os mais
ínfimos detalhes da criação. Neste vasto e harmonioso conjunto há ocupações
para todas as capacidades, todas as aptidões e todas as boas vontades;
ocupações aceitas com júbilo, solicitadas com ardor, porque é um meio de
avanço para os Espíritos que desejam se elevar.
14. Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há outras
em todos os graus de importância, concedidas a Espíritos de todas as classes;
disso podemos afirmar que cada encarnado tem a sua, ou seja, deveres a
cumprir, para o bem dos seus semelhantes, desde o pai de família a quem
incumbe o cuidado para fazer seus filhos progredirem, até o homem de gênio
que lança na sociedade novos elementos de progresso. É nessas missões
secundárias que se encontra tantos desfalecimentos, prevaricações e
renúncias — mas que só prejudicam ao indivíduo, e não ao conjunto.
15. Portanto, todas as inteligências concorrem para a obra geral, qualquer
que seja o grau a que tenham chegado, e cada qual na medida de suas forças;
umas no estado de encarnação, outras no estado de Espírito. Em toda parte há
atividade, desde a base até o topo da escala, todos se instruindo, ajudando uns
aos outros, prestando mútuo apoio e estendendo as mãos entre si para
alcançarem o ápice.
Estabelece-se assim a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo
corporal, isto é, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos livres e os
Espíritos cativos. Desta forma se perpetuam e se consolidam, pela depuração
e continuidade dos relacionamentos, as verdadeiras simpatias, as mais santas
afeições.
43 – O Céu e o Inferno
Por toda parte, pois, há vida e movimento; não há nenhum recanto do
infinito que não seja povoado, nenhuma região que não seja incessantemente
percorrida por legiões inumeráveis de seres radiantes, invisíveis aos sentidos
grosseiros dos encarnados, mas cuja vista encanta de admiração e de alegria
as almas libertas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa
a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos; cada um carrega consigo
os elementos de sua ventura, em virtude da categoria em que seu grau de
adiantamento o coloca.
A felicidade deriva das qualidades próprias dos indivíduos, e não do
estado material do ambiente onde se encontram; ela existe, portanto, em toda
parte onde haja Espíritos capazes de serem felizes; não há nenhum lugar no
universo específico para eles. Em qualquer lugar onde estejam, os Espíritos
puros podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.
16. No entanto, a felicidade não é pessoal; se a possuíssemos somente em nós
mesmos, se não pudéssemos compartilhá-la com os outros, ela seria egoísta e
triste. Ela também está na comunhão de pensamentos que une os seres
simpáticos. Os Espíritos felizes, atraídos uns aos outros pela similaridade de
ideias, de gostos e de sentimentos, formam vastos grupos ou famílias
homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia suas próprias
qualidades e se enche dos eflúvios serenos e benéficos que emanam do
conjunto, cujos membros ora se dispersam para se dedicarem às suas
missões, ora se congregam em algum do espaço para compartilharem os
resultados de seus trabalhos, ora se reúnem em torno de um Espírito de uma
ordem mais elevada para receberem dele conselhos e instruções.
17. Se bem que os Espíritos estejam por todo lado, os mundos são lares onde
eles se reúnem preferencialmente, em razão da analogia que existe entre eles
e aqueles que os habitam. No derredor dos mundos avançados é farta a
presença de Espíritos superiores; já no derredor dos mundos atrasados,
sobram Espíritos inferiores. A Terra ainda é um desses mundos atrasados.
Então, cada globo tem, de alguma forma, sua população própria de Espíritos
encarnados e desencarnados, que se preenche em sua maioria pela
44 – Allan Kardec
encarnação e desencarnação dos mesmos Espíritos. Essa população é mais
estável nos mundos inferiores, onde os Espíritos estão mais apegados à
matéria, e mais variada nos mundos superiores. Contudo, a partir dos
mundos, centros de luz e felicidade, os Espíritos se desprendem rumo a
mundos inferiores para neles semearem os germes do progresso, levar até
eles a consolação e a esperança, levantar os ânimos abatidos pelas provações
da vida e algumas vezes lá encarnarem para cumprir a sua missão com mais
eficácia.
18. Nessa imensidão sem fronteiras, onde está o céu? Ele está em toda parte;
nenhum recinto lhe serve como limite. Os mundos felizes são as últimas
estações que a ele conduz; as virtudes lhe abrem o caminho e os vícios
interditam o acesso a eles.
Ao lado desse quadro grandioso, que povoa todos os recantos do
Universo e que dá a todas as coisas da criação um propósito e uma razão de
ser, quão pequena e mesquinha é a doutrina que circunscreve a humanidade
num ponto imperceptível do espaço, que nos mostra que ela começa num
determinado instante para um dia acabar igualmente com o mundo que a
carrega, não abrangendo assim mais do que um minuto na eternidade! Como
ela é triste, fria e glacial quando nos mostra o resto do Universo antes,
durante e depois da humanidade terrena, sem vida, sem movimento, igual a
um imenso deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora essa
doutrina, pelo retrato que ela faz de um pequeno número de eleitos
devotados à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é
condenada a sofrimentos sem fim! Como ela é perversa para os corações que
amam, pela barreira que ela interpõe entre os mortos e os vivos! As almas
felizes — diz-se — não pensam além da sua própria felicidade; aquelas que
são infelizes, só pensam nas suas dores. É de se admirar que o egoísmo reine
na Terra, já que ele é mostrado no céu? Quão estreita é então a ideia que ela
faz da grandeza, do poder e da bondade de Deus!
Como é sublime, ao contrário, a ideia de que o Espiritismo nos dá do céu!
Quanto a sua doutrina engrandece as ideias e alarga o pensamento! — Mas
quem diz que ela é verdadeira? Primeiramente a razão, em seguida a
45 – O Céu e o Inferno
revelação, depois, a sua concordância com o progresso da ciência. Entre duas
doutrinas, em que das quais uma reduz e a outra expande os atributos de
Deus; em que uma está em desacordo e a outra está em harmonia com o
progresso; em que uma fica para trás e a outra marcha para frente, o bom
senso diz de que lado está a verdade. Que diante dessas duas doutrinas, cada
pessoa interrogue no seu íntimo as suas aspirações e uma voz íntima lhe
responderá. As aspirações são a voz de Deus, que não pode enganar os
homens.
19.11 Mas então, por que Deus não lhes revelou desde o princípio toda a
verdade? Pela mesma razão que não se ensina na infância o que é ensinado na
idade madura. A revelação limitada foi suficiente durante um certo período da
humanidade: Deus a proporciona conforme as capacidades do Espírito.
Aqueles que recebem hoje uma revelação mais completa são os mesmos
Espíritos que já tinham recebido uma parte dela em outros tempos, mas que
desde então cresceram em inteligência.
Antes que a ciência tivesse revelado aos homens as forças vivas da
natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel e a formação da Terra,
será que eles poderiam ter compreendido a imensidão do espaço e a
pluralidade dos mundos? Antes que a geologia tivesse comprovado a
formação da Terra, será que os homens poderiam ter desalojado o inferno das
suas entranhas e ter compreendido o sentido alegórico dos seis dias da
criação? Antes que a astronomia tivesse descoberto as leis que regem o
universo, será que eles poderiam ter compreendido que não há alto nem
baixo no espaço e que o céu não está nem acima das nuvens nem limitado
pelas estrelas? Antes do progresso da ciência psicológica, será que eles
poderiam ter se identificado com a vida espiritual? Teriam concebido, depois
da morte, uma vida feliz ou infeliz, a não ser num lugar específico e sob uma
forma física? Não; compreendendo mais pelos sentidos do que pelo
pensamento, o Universo era vasto demais para o cérebro deles; foi preciso
reduzi-lo a proporções menos extensas para colocá-lo ao alcance deles, até
11 Na obra original, este item foi equivocadamente numerado como sendo o 17, retrocedendo a
contagem; nesta tradução, seguimos a ordem lógica e o assinalamos item 19. — N. T.
46 – Allan Kardec
que fosse ampliado posteriormente. Uma revelação parcial tinha sua
utilidade; ela era sábia naquela época e é insuficiente hoje. O erro está
naqueles que, não se dando conta do progresso das ideias, acham que podem
governar as pessoas maduras com as limitações da infância. (Veja O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.)
47 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO IV
O INFERNO
Intuição das penas futuras
– O inferno cristão imitado do inferno pagão – Os limbos –
Descrição do inferno pagão – Descrição do inferno cristão
Intuição das penas futuras
1. Em todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida futura
devia ser feliz ou infeliz, por conta do bem e do mal que se faz neste mundo;
só que, a ideia que faz disso está relacionada com o desenvolvimento de seu
senso moral e com as noções mais ou menos justas que ele tem acerca do bem
e do mal; as penas e recompensas são o reflexo dos seus instintos
predominantes. É assim que os povos guerreiros colocam sua suprema
felicidade nas honras concedidas à bravura; que os caçadores colocam na
abundância da caça; que os sensuais, nas delícias da volúpia. Enquanto o
homem for dominado pela matéria, ele só poderá compreender a
espiritualidade imperfeitamente, porque ele faz das punições e das
satisfações futuras um quadro mais material do que espiritual; ele imagina
que seja preciso comer e beber no outro mundo, porém mais do que na Terra,
e coisas melhores.12 Mais tarde, encontramos nas crenças referentes à vida
futura um misto de espiritualidade e materialidade; é por isso que, ao lado da
beatitude contemplativa, coloca-se um inferno com torturas físicas.
12 Um jovenzinho da Saboia, a quem seu pároco descreveu um quadro atraente da vida futura,
perguntou-lhe se lá todo mundo comia pão branco como em Paris.
48 – Allan Kardec
2. Não podendo conceber além do que vê, o homem primitivo naturalmente
modelou seu futuro pelo presente; para compreender outros tipos além
daqueles que tinha diante dos olhos, ele precisava de um desenvolvimento
intelectual que só poderia se realizar com o tempo. Também o quadro que ele
idealizou dos castigos porvindouros não é mais do que um reflexo dos males
da humanidade, mas numa proporção mais larga; nisso ele reuniu todas as
torturas, todos os suplícios, todas as aflições que encontrou na Terra; foi
assim que, nos climas escaldantes, ele imaginou um inferno de fogo, e nas
regiões boreais, um inferno de gelo. Como ainda não estava desenvolvido o
sentido que mais tarde o faria entender o mundo espiritual, ele não podia
conceber mais do que os sofrimentos físicos; eis por que, salvo algumas
diferenças no formato, o inferno em todas as religiões é semelhante.
O inferno cristão imitado do inferno pagão
3. O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo
mais grandioso do gênero; ele se perpetuou no dos cristãos, que também teve
seus cantores poéticos. Comparando-os, encontramos neles, salvo os nomes e
algumas variações nos detalhes, numerosas analogias: tanto num quanto no
outro, o fogo material é a base de tormentos, por ser o símbolo dos
sofrimentos mais cruéis. Mas — que coisa estranha! — em muitos pontos os
cristãos superaram o inferno dos pagãos. Se estes últimos tinham o tonel das
Danaides13, a roda de Íxion14, o rochedo de Sísifo15, eram suplícios
individuais; já o inferno cristão, este tem, para todos, suas caldeiras ferventes,
das quais os anjos levantam as tampas para ver as contorções dos
13 Danaides, segundo a mitologia grega, são as filhas de Dânao que mataram seus respectivos maridos
na noite de núpcias e que, por isso, depois de morrerem, foram condenadas no tártaro (espécie de
inferno para o mito grego) a encher de água um tonel furado, de modo a tornar interminável o trabalho
das condenadas. — N. T.
14 Íxion é um personagem da mitologia grega que, por blasfemar Zeus, foi morto e enviado ao tártaro,
onde foi sentenciado a viver eternamente girando amarrado a uma roda em chamas. N. T.
15 Sísifo, no mito grego, foi o astuto fundador e rei de Corinto que, depois de enganar repetidamente a
morte, enfim foi vencido e então condenado a rolar uma enorme pedra até o cume de uma montanha,
sendo que esta caía sempre antes que ele alcançasse tal objetivo. — N. T.
49 – O Céu e o Inferno
condenados16 e nisso, impiedosamente, Deus fica ouvindo os gemidos deles
durante a eternidade! Jamais os pagãos retrataram os habitantes dos Campos
Elíseos17 apreciando a vista dos suplícios do Tártaro.18
4. Semelhantes aos pagãos, os cristãos têm o seu rei dos infernos, que é
Satanás, com a diferença de que Plutão19 se limitava a governar o sombrio
império do qual ele havia sido encarregado, embora ele não fosse mau; ele
retinha consigo aqueles que tinham praticado o mal — porque essa era a sua
missão —, sem que jamais ele procurasse induzir os homens ao mal para se
dar o prazer de fazê-los sofrer; enquanto isso, Satanás recruta vítimas por
toda parte, as quais ele gosta de atormentar com suas legiões de demônios
armados de forcados para sacudi-las no fogo. Discute-se seriamente até
mesmo a natureza desse fogo que queima incessantemente sem jamais
consumir os condenados; até questionam se não seria um fogo de betume.20 O
inferno cristão, portanto, nada fica a dever ao inferno pagão.
5. As mesmas considerações que, entre os antigos, haviam estabelecido um
local para a morada da felicidade, igualmente estabeleceram um lugar
circunscrito para os suplícios. Uma vez que os homens localizaram o primeiro
nas regiões superiores, era natural localizar o segundo nas regiões inferiores,
isto é, o centro da Terra, do qual acreditava-se que certas cavidades sombrias
e de aspecto terrível lhes serviam de entrada. Foi aí também que por muito
tempo os cristãos colocaram a morada dos réprobos. Vejamos ainda sobre
este assunto outra analogia:
O inferno dos pagãos continha de um lado os Campos Elíseos e do outro
16 Sermão pregado em Montpelier em 1860.
17 Campos Elísios, na mitologia clássica, é a feliz morada dos heróis e dos justos após a morte. — N. T.
18 “Os bem-aventurados, sem sair do lugar que ocupam, ainda assim o deixarão, de certa forma, em
razão do seu dom de inteligência e da sua visão especial, a fim de apreciar as torturas dos condenados;
ao vê-los, não somente eles não sentirão nenhuma dor, como também ficarão repletos de alegria e
renderão graças a Deus pela própria felicidade, testemunhando a inefável calamidade dos ímpios.” (São
Tomás de Aquino)
19 Plutão, na versão da mitologia romana adaptada dos mitos gregos, é o senhor do inferno,
correspondente ao deus Hades, senhor do tártaro na mitologia grega. — N. T.
20 Sermão pregado em Paris em 1861.
50 – Allan Kardec
o Tártaro; o Olimpo — morada dos deuses e dos homens divinizados — ficava
nas regiões superiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos
infernos, quer dizer aos lugares baixos, para de lá tirar as almas dos justos
que aguardavam sua vinda. Portanto, os infernos não eram um lugar
unicamente de suplício; assim como para os pagãos, eles estavam nos lugares
baixos. Do mesmo modo que o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos ficava
nos lugares elevados; colocaram-na para além do céu das estrelas, que
acreditavam ser limitado.
6. Essa mistura de ideias pagãs e cristãs não tem nada que deva surpreender.
Jesus não podia de uma hora para outra destruir crenças arraigadas; faltava
ao homem os conhecimentos necessários para conceber a imensidão do
espaço e o número infinito de mundos; a Terra era para eles o centro do
Universo; dela, não se conhecia nem a forma nem a estrutura interior; tudo
era limitado ao ponto de vista daqueles homens: as noções do futuro não
podiam se estender além dos seus conhecimentos. Em razão disso, Jesus
encontrava-se na impossibilidade de os iniciar no verdadeiro estado das
coisas; mas, por um lado, não querendo sancionar com a sua autoridade os
preconceitos estabelecidos, ele se absteve, deixando ao tempo a tarefa de
retificar aquelas concepções. Ele se limitou a falar vagamente da vida bem-
aventurada e dos castigos que esperam os culpados; mas, em nenhuma parte
nos seus ensinamentos constam o quadro dos suplícios corporais dos quais os
cristãos constituíram um artigo de fé.
Eis aqui como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos
dias. Foi necessária a difusão dos esclarecimentos nos tempos modernos e o
desenvolvimento geral da inteligência humana para lhe fazer justiça. Mas
então, como nada de positivo tinha substituído aquelas concepções
estabelecidas, o longo período de uma crença cega foi transitoriamente
sucedido pelo período da incredulidade, ao qual a nova revelação veio pôr um
fim. Era preciso demolir antes de reconstruir, porque é mais fácil incutir
ideias justas em quem não crê em nada — por eles sentirem que lhes falta
alguma coisa — do que em quem tem uma fé robusta naquilo que é um
absurdo.
51 – O Céu e o Inferno
7. Pela localização do céu e do inferno, as seitas cristãs foram levadas a não
admitir para as almas senão duas situações extremas: a perfeita felicidade e o
sofrimento absoluto. O purgatório não passa de uma posição intermediária
momentânea, da qual, ao saírem, as almas passam diretamente para a morada
dos bem-aventurados. E nem poderia ser de outro modo, conforme a crença
na sorte definitiva da alma após a morte. Se não há mais que duas moradas —
a dos eleitos e a dos réprobos —, então não se pode admitir vários graus em
cada uma sem admitir a possibilidade de ultrapassá-los e, por conseguinte, o
progresso; ora, se há progresso, não há sorte definitiva, e se há sorte
definitiva, então não há progresso. Jesus resolveu essa questão quando disse:
“Há muitas moradas na casa de meu Pai”.21
Os limbos
8. A Igreja admite, é verdade, uma posição especial em certos casos
particulares. As crianças falecidas em tenra idade, não tendo feito mal algum,
não podem ser condenadas ao fogo eterno; por outro lado, não tendo feito o
bem, elas não têm qualquer direito à felicidade suprema. Elas ficam então —
diz a Igreja — nos limbos,22 uma posição mista jamais definida na qual, se as
crianças não sofrem, também não gozam da perfeita alegria. Porém, já que a
sorte delas está irrevogavelmente fixada, elas ficam privadas da felicidade
para toda a eternidade. Essa privação equivale a um suplício eterno injusto,
visto que não dependia das crianças que as coisas ocorressem de outro modo.
É o mesmo caso dos selvagens, que, não tendo recebido a graça do batismo e
as luzes da religião, pecam por ignorância ao se entregarem aos próprios
instintos naturais, não podendo ter nem a culpa nem o mérito daqueles que
agem com conhecimento de causa. A simples lógica repulsa tal doutrina em
nome da justiça de Deus. A justiça de Deus está integralmente nestas palavras
21 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.
22 O conceito teológico de limbo foi extinto pela Igreja Católica em 2007, sob o pontificado do papa
Bento XVI, “por refletir uma visão excessivamente restritiva da salvação” (Fonte:
https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_2007041
9_un-baptised-infants_po.html). — N. T.
52 – Allan Kardec
do Cristo: “A cada um conforme as suas obras.”; mas é preciso entender
obras boas ou más praticadas livremente, voluntariamente, e as únicas sobre
as quais recaem a responsabilidade — o que não é o caso nem das crianças,
nem dos selvagens, nem daqueles que não puderam ser esclarecidos.
Descrição do inferno pagão
9. Quase não conhecemos o inferno pagão além do que é recitado pelos
poetas. Homero23 e Virgílio24 lhe deram a mais completa descrição, mas aqui
devemos levar em conta as necessidades que a poesia impõe à forma. A
descrição de Fénelon25 no seu livro Telêmaco, conquanto extraída da mesma
fonte com relação às crenças fundamentais, tem a simplicidade mais exata da
prosa. Descrevendo todo o aspecto lúgubre dos lugares, ele se concentra
especialmente em ressaltar o gênero dos sofrimentos pelos quais os culpados
passam, e se ele se estendeu muito sobre o destino dos reis malvados, foi na
intenção de instruir o seu aluno real. Por mais popular que seja esta obra,
muitas pessoas provavelmente não guardam essa descrição bastante presente
na memória, ou talvez não tenham refletido sobre ela o suficiente para
estabelecer uma comparação; por isso consideramos útil reproduzir as suas
partes que têm uma relação mais direta com o assunto que nos interessa, ou
seja, as que concernem mais especialmente às penalidades individuais.
10. “Ao entrar, Telêmaco26 escuta os gemidos de uma sombra inconsolável. Ele
perguntou: Qual é, pois, a vossa desgraça? Quem fostes na Terra? — A sombra
lhe respondeu: Eu fui Nabofarzan, rei da soberba Babilônia; todos os povos do
Oriente tremiam só de ouvirem o meu nome; fazia-me adorar pelos babilônios
23 Homero: poeta grego do século IX antes de Cristo e a quem se atribui a autoria dos clássicos Ilíada e
Odisseia — N. T.
24 Virgílio: poeta romano que viveu no século anterior a Cristo, autor do clássico Eneida — N. T.
25 François de Salignac de La Mothe-Fénelon (1651-1715): teólogo, escritor e poeta francês, que, entre
outras obras, é autor da obra As aventuras de Telémaco, à qual Kardec aqui se refere. — N. T.
26 Telémaco, na poesia homérica, é o filho de Penélope e de Ulisses (Odisseu), que é o herói da Odisseia e
o rei de Ítaca, uma das ilhas da costa oeste da Grécia, da qual saiu para lutar na Guerra de Tróia. — N. T.
53 – O Céu e o Inferno
num templo de mármore, onde eu era representado por uma estátua de ouro,
diante da qual se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da Etiópia;
jamais alguém ousou me contradizer sem ser prontamente punido; a cada dia
era inventado novos prazeres para tornar-me a vida mais deliciosa. Eu também
era jovem e robusto; oh! Quantas prosperidades ainda me restava usufruir no
trono! Mas certa mulher, a quem eu amava e que não me correspondia, logo me
fez perceber que eu não era um deus: ela me envenenou; eu já não era mais
nada. Ontem, minhas cinzas foram postas com pompa numa urna dourada;
choraram, descabelaram-se; fingiram querer se atirar às chamas da minha
fogueira para morrerem comigo; vão ainda gemer ao pé do suntuoso túmulo
onde depositaram minhas cinzas, mas ninguém lamenta por mim; minha
memória é em honra da própria família, e aqui embaixo eu já sofro horríveis
tratamentos.
“Comovido com este espetáculo, Telêmaco lhe diz: Fostes
verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Porventura sentíeis aquela
doce paz sem a qual o coração permanece sempre apertado e abatido em
meio às delícias? — Não, respondeu o babilônio; eu não sei mesmo o que
quereis dizer. Os sábios exaltam essa paz como o único bem; quanto a mim,
eu nunca a senti; meu coração constantemente estava agitado por novos
desejos, temor e de esperança. Cansei eu mesmo de me atordoar com o abalo
das minhas paixões; tive o cuidado de manter essa embriaguez para torná-la
contínua: o menor intervalo de razão tranquila teria sido amargo demais para
mim. Eis a paz que desfrutei; qualquer outra me parece antes uma fábula, um
sonho; eis os bens de que sinto saudades.
“Enquanto assim falava, o babilônio chorava como um homem covarde
que foi amolecido pela prosperidade e que não foi acostumado a suportar
regularmente um infortúnio. Havia aos pés dele alguns escravos que tinham
sido mortos para honrar seus funerais; Mercúrio27 os havia entregue a
Caronte28 com o seu rei, dando-lhes um poder absoluto sobre esse rei, a quem
eles tinham servido na Terra. Essas sombras de escravos não mais temiam
27 Mercúrio, no mito romano, é o deus do comércio, dos ladrões e dos viajantes, correspondente a
Hermes, da mitologia grega. — N. T.
28 Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro do Hades (submundo onde vivem as almas dos mortos),
que transporta as almas dos recém-falecidos de uma para a outra margem do rio Estige e Aqueronte, ao
preço de uma moeda de óbolo; aqueles que não tinham condições de pagar a quantia, ou aqueles cujos
corpos não haviam sido enterrados, tinham de vagar pelas margens por cem anos. — N. T.
54 – Allan Kardec
a sombra de Nabofarzan; elas a mantinham acorrentada e lhe faziam as
mais cruéis indignidades. Uma delas lhe dizia: Não éramos homens tanto
quanto tu? Quão insensato tu fostes para te julgares um deus; não devíeis te
lembrar que tu eras da raça dos outros homens? — Outra sombra, para
insultá-lo, exclamava: Tinhas razão em não querer que te tomassem por
homem, porque tu eras um monstro desumano. — Outra lhe dizia: E então,
onde estão agora os teus bajuladores? Tu nada mais tens a dar, infeliz! Não
podes mais nem mesmo fazer o mal; eis que te tornastes escravo dos teus
próprios escravos; os deuses são lentos para fazer justiça, mas enfim eles a
fazem.
“Ao ouvir essas duras palavras, Nabofarzan lançou-se de bruços no
chão, arrancando os cabelos num acesso de raiva e desespero. Caronte,
porém, disse aos escravos: Puxem-no pela corrente, levantem-no contra a
vontade dele; ele não terá nem mesmo o consolo de esconder a sua
vergonha; é preciso que todas as sombras do Estige sejam testemunhas
disso para justificar os deuses, que sofreram por tanto tempo em que esse
ímpio reinou na Terra.
“E logo percebeu, bem perto dele, o negro Tártaro29, de onde saía uma
fumaça escura e densa, cujo odor empestado causaria a morte, caso se
espalhasse na morada dos vivos. Essa fumaça cobria um rio de fogo e
turbilhões de chamas, cujo ruído — semelhante ao das torrentes mais
impetuosas quando se precipitam de altos rochedos no fundo dos abismos —
fazia com que não se pudesse ouvir nada distintamente nesses tristes lugares.
“Secretamente animado por Minerva30, Telêmaco entra destemido
nesse poço. De início, ele viu um grande número de homens que tinham
vivido nas mais baixas condições e que eram punidos por terem procurado
riquezas por meio de fraudes, traições e crueldades. Ali ele notou muitos
ímpios hipócritas que, simulando amar a religião, dela tinham se servido
como de um belo pretexto para satisfazer suas ambições e para zombarem
das pessoas crédulas; esses homens, que abusaram da própria virtude — que
é o maior dom dos deuses —, eram punidos como os mais canalhas de todos
29 Tártaro, segundo a mitologia grega, é a região mais profunda do inferno, “tão abaixo da superfície
quanto a terra é do céu”. — N. T.
30 Minerva, pela mitologia romana, é a deusa da sabedoria e das artes, correspondente à deusa grega
Palas Atena. — N. T.
55 – O Céu e o Inferno
os homens. Os filhos que degolaram seus pais e suas mães, as esposas que
sujaram suas mãos com o sangue dos maridos, os traidores que venderam
sua pátria após ter violado todos os juramentos, estes sofriam penas menos
cruéis do que aqueles hipócritas. Os três juízes dos infernos assim o queriam,
e aqui está a razão deles: é que os hipócritas não se contentam em serem
maus como os demais ímpios; eles querem também se passar por bons e,
através da sua falsa virtude, fazem com que os homens não ousem mais
confiar na verdade. Os deuses — de quem eles zombaram e tornaram
desprezíveis para os homens — têm o prazer de empregar toda a sua força
para se vingarem dos seus insultos.
“Perto destes, aparecem outros homens que as pessoas comuns
dificilmente consideram culpados, mas que a vingança divina persegue
impiedosamente: são os ingratos, os mentirosos, os aduladores que louvaram
o vício, os críticos maliciosos que tentam macular a mais pura virtude; enfim
aqueles que julgaram temerariamente as coisas sem as conhecer
profundamente e que, por isso mesmo, arruinaram a reputação dos
inocentes.
“Telêmaco, vendo os três juízes que estavam sentados e que
condenavam um homem, ousou lhes perguntar quais eram os crimes do réu.
Imediatamente o condenado, tomando a palavra, gritou: Eu jamais fiz mal
algum; devotei todo o meu prazer em praticar o bem; fui magnífico, liberal,
justo e compassivo; de que então podem me culpar? — Então Minos31 lhe
respondeu: Não te culpamos por nada com relação aos homens; porém, tu
não devias menos aos homens do que aos deuses? Que justiça é essa, então,
de que te vanglorias? Tu não faltaste a qualquer dever para com os homens,
que nada são; foste virtuoso, mas atribuíste toda a tua virtude só a ti mesmo,
e não aos deuses, que a deram a ti porque tu desejavas gozar do fruto de tua
própria virtude e te confinar em ti mesmo: tu foste a tua divindade. Mas os
deuses — que tudo fizeram, e que não o fizeram para eles mesmos — não
podem renunciar aos seus direitos; tu os esqueceste e eles também te
esquecerão; eles te largarão a ti mesmo, pois quiseste pertencer a ti e não a
eles. Então, procura agora, se puderes, o consolo em teu próprio coração.
31 O semideus Minos, pela mitologia grega, filho de Europa com Zeus, foi o rei de Creta e, após sua morte,
tornou-se um dos três juízes do inferno, juntamente com Éaco e Radamanto, sendo aquele que dava o
veredito final. — N. T.
56 – Allan Kardec
Eis-te para sempre separado dos homens, aos quais querias agradar; eis-te
sozinho contigo mesmo, tu que eras o teu ídolo; aprenda que não existe
verdadeira virtude sem respeito e amor aos deuses, a quem tudo é devido.
Tua falsa virtude, que por muito tempo levou os homens ingênuos a se
enganarem, vai ser confundida. Os homens, julgando os vícios e as virtudes
apenas pelo que lhes afeta ou lhes convêm, são cegos tanto para o bem
quanto para o mal. Aqui, uma luz divina derroga todos os julgamentos
superficiais humanos; ela muitas vezes condena o que eles admiram e
sanciona o que eles condenam.
“A estas palavras, o filósofo, como que atingido por um raio, mal podia
se sustentar. A complacência que outrora tivera ao contemplar a sua
moderação, sua coragem e suas inclinações generosas, transformou-se em
desespero. A visão do próprio coração, inimigo dos deuses, tornou-se o seu
suplício; ele se vê e não pode deixar de se ver; vê a vaidade dos julgamentos
humanos, aos quais ele quis lisonjear em todas as suas ações. Há uma
revolução universal em tudo que está dentro dele, como se revirassem todas
as suas entranhas; já não é o mesmo; falta-lhe todo apoio no coração; sua
consciência, cujo testemunho lhe havia sido tão agradável, revolta-se contra
ele e o repreende amargamente pela confusão e a ilusão de todas as suas
virtudes, que não tiveram o culto da divindade como o princípio e o fim; ele
está perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de
desespero. As Fúrias32 só não o atormentam porque lhes basta o verem
entregue a si mesmo, e seu próprio coração vinga suficientemente os deuses
desprezados. Ele procura os lugares mais sombrios para se esconder dos
outros mortos, não podendo se esconder de si. Ele procura as trevas e não
pode encontrá-las; uma luz importuna o segue por toda parte; a todo lado
os raios penetrantes da verdade vem vingar a verdade que ele deixou de
seguir. Tudo o que ele amava se torna odioso para ele, como sendo a fonte
dos seus males, que jamais podem findar. Ele resmunga consigo: Ó insensato!
Não conheci, pois, nem os deuses, nem os homens, nem a mim mesmo! Não,
não conheci nada, porque jamais amei o único e verdadeiro bem; todos os
meus passos foram desorientados; minha sabedoria não passava de loucura;
a minha virtude não era mais do que um orgulho profano e cego: eu mesmo
32 Na mitologia romana, as Fúrias (Tisífone, Megera e Alecto) eram as personificações da vingança,
responsáveis por punir os mortais. Na versão grega, eram chamadas de Eríneas, ou Erínias. — N. T.
57 – O Céu e o Inferno
era o meu próprio ídolo!
“Finalmente Telêmaco avistou os reis que foram condenados por terem
abusado de seu poder. De um lado, uma Fúria vingadora lhes apresentava
um espelho que lhes mostrava toda a deformidade de seus vícios; ali eles
viam e não podiam deixar de ver sua vaidade grosseira e ávida dos mais
ridículos louvores; viam sua rigidez para com os homens, a quem deveriam
trazer felicidade; viam sua insensibilidade para com as virtudes, seu temor de
ouvir a verdade, sua inclinação pelos covardes e bajuladores, sua falta de
aplicação, sua inércia, sua indolência; sua desconfiança equivocada; seu
fausto e sua excessiva magnificência fundadas sobre a ruína dos povos; viam
sua ambição de adquirir um pouco de glória vã com o sangue dos seus
cidadãos; viam enfim a crueldade que procura a cada dia novas delícias nas
lágrimas e no desespero de tantos miseráveis. Esses reis incessantemente se
viam nesse espelho, reconhecendo-se mais horríveis e mais monstruosos do
que a própria Quimera33 vencida pelo Belerofonte34, mais do que a Hidra de
Lerna35 abatida por Hércules e mais do que o próprio Cérbero36, embora este
vomitasse por suas três goelas escancaradas um sangue preto e venenoso,
que é capaz de empestar toda a raça de mortais viventes na Terra.
“Ao mesmo tempo, do outro lado uma Fúria lhes repetia com insultos
todos os louvores que os lisonjeiros lhes tinham dado em vida e lhes
apresentava também outro espelho, no qual eles se viam tais como a lisonja
os havia pintado. A diferença desses dois quadros tão opostos era o
suplício por sua vaidade. Notava-se que os piores dentre esses reis eram
aqueles a quem tinham sido dados os mais magníficos elogios durante a vida,
porque os maus são mais temidos que os bons e, sem pudor, exigem as
bajulações covardes dos poetas e dos oradores do seu tempo.
“Ouvia-se eles gemerem nessas profundezas tenebrosas, onde eles não
conseguem perceber nada além dos insultos e escárnios que lhes cabem
ouvir. Não há nada em torno deles que não os repulsa, que não os contradiga
33 Fera mitológica clássica caracterizada pela aparência hibrida de dois ou mais animais e a capacidade
de lançar chamas pelas narinas. — N. T.
34 Belerofonte, no mito grego, foi um filho de Poseidon e herói venerado na Lídia e em Corinto, famoso
por ter domado o cavalo alado Pégaso e por ter matado Quimera. — N. T.
35 Serpente de sete cabeças do pântano de Lerna, na Argólia. Suas cabeças renasciam se não fossem
cortadas de uma só vez. Foi morta por Hércules. — N. T.
36 Cão monstruoso de três cabeças, guardião do inferno. — N. T.
58 – Allan Kardec
e que não os confunda, enquanto na Terra eles debochavam da vida dos
homens e pretendiam que tudo fosse feito para servi-los. No Tártaro, estão
entregues a todos os caprichos de certos escravos que lhes fazem
experimentar agora uma cruel servidão; eles servem dolorosamente e não
lhes resta qualquer esperança de poder aliviar seu cativeiro; eles estão sob os
golpes desses escravos, que se tornaram seus tiranos impiedosos, como é
uma bigorna sob as marteladas dos Ciclopes37 quando Vulcano38 os incita a
trabalhar nas fornalhas ardentes do Monte Etna.39
“Nesse lugar, Telêmaco viu rostos pálidos, hediondos e consternados. É
uma terrível tristeza que consome esses criminosos; eles têm horror de si
mesmos e não podem se livrar desse horror assim como da sua própria
natureza; eles não precisam de outro castigo pelas suas faltas além das
próprias faltas; eles os veem constantemente em toda a sua enormidade;
elas se apresentam a eles como espectros horríveis e os perseguem. Para
evitar tal perseguição, eles procuram uma morte mais eficiente do que a que
os separou do corpo. No desespero em que se encontram, eles invocam em
seu auxílio uma morte que possa extinguir neles todo sentimento e toda
consciência; pedem aos abismos para os engolir, a fim de escaparem dos raios
vingadores da verdade que os persegue, mas continuam reservados à
represália que destila sobre eles gota por gota, e que jamais estancará. A
verdade que eles temiam ver constitui o próprio suplício deles; eles a veem
e só têm olhos para vê-la se levantar contra eles: sua visão os perfura, os
rasga e os arranca de si mesmos; ela é como um raio que, sem destruir nada
do lado de fora, penetra nas profundezas das entranhas.
“Entre os objetos que arrepiam os cabelos de Telêmaco, ele viu vários
reis antigos da Lídia40 que eram punidos por terem substituído pelas delícias
de uma vida mole o trabalho de consolar os povos, que devia ser inseparável
da realeza.
37 Os ciclopes são, de acordo com a mitologia grega, gigantes imortais com um só olho no meio da testa
que trabalhavam para Hefesto como ferreiros no interior do Monte Etna, forjando os raios a serem
usados por Zeus. — N. T.
38 Vulcano é o deus romano do fogo e dos trabalhos com metais, correspondente ao ferreiro divino
Hefesto, dos mitos gregos. — N. T.
39 Etna é um vulcão ativo situado na parte oriental da Sicília, ilha italiana no Mar Mediterrâneo. — N. T.
40 Lídia era uma região na porção ocidental da antiga Ásia menor (antiga Anatólia), às margens do Mar
Egeu, onde hoje são as províncias Uşak, Manisa e İzmir, na Turquia. — N. T.
59 – O Céu e o Inferno
“Esses reis repreendiam reciprocamente pela sua cegueira. Um dizia ao
outro, que havia sido seu filho: Não vos tinha recomendado tantas vezes, na
minha velhice e antes da morte, que reparásseis os males que eu havia feito
com minha negligência? — Ah, maldito pai, dizia o filho; fostes vós que me
pusestes a perder! Foi o vosso exemplo que me inspirou o fausto, o orgulho, a
volúpia e a crueldade para com os homens! Vendo-vos governar com tanta
moleza e rodeado de aduladores covardes, fiquei acostumado a amar a
bajulação e os prazeres. Acreditei que o resto dos homens era, em relação aos
reis, o que os cavalos e outros animais de carga são para os homens, isto é,
animais que só são levados em conta enquanto prestam serviços e rendem
comodidades. Acreditei nisto e fostes vós que me fizestes assim crer; quantos
males agora eu sofro por vos haver imitado. A estas reprovações eles
acrescentaram as mais terríveis maledicências, parecendo tomados pela raiva
para se devorarem uns aos outros.
Em torno desses reis, como as corujas de noite, também flutuavam
cruéis suspeitas, vãos alarmes, desconfianças que vingam os povos da dureza
de seus reis, a ganância insaciável de riquezas, a falsa glória sempre tirânica e
a fraqueza covarde que redobra todos os males de que sofremos, sem jamais
podermos dar prazeres consistentes.
“Via-se vários desses reis severamente punidos, não pelos males que
tivessem feito, mas por terem negligenciado o bem que eles deveriam
fazer. Todos os crimes do povo que vinham do descaso no cumprimento das
leis foram imputados aos reis, que devem reinar exatamente para que as leis
vigorem através do seu ministério. Foram-lhes imputadas também todas as
desordens que vinham do fausto, do luxo e de todos os outros excessos que
levam os homens a um estado violento e à tentação de desprezar as leis para
a aquisição de bens. Sobretudo foram tratados rigorosamente os reis que, ao
invés de serem bons e vigilantes pastores dos povos, só pensavam em
devastar o rebanho, quais lobos devoradores.
“Entretanto, o que mais consternou Telêmaco foi ver nesse abismo de
trevas e de males um grande número de reis que, tendo se passado na Terra
como muito bondosos, foram condenados às penas do Tártaro por se terem
deixado governar por homens malvados e astutos. Eles eram punidos pelos
males que tinham permitido que acontecessem através de sua
autoridade. No mais, a maior parte desses reis não foram nem bons nem
60 – Allan Kardec
maus, tamanha havia sido a fraqueza deles; nunca eles tinham temido não
conhecer a verdade; nunca experimentaram o gosto da virtude e nunca
devotaram seu prazer em fazer o bem.”
Descrição do inferno cristão
11. A opinião dos teólogos sobre o inferno está resumida nas citações
seguintes.41 Esta descrição, sendo extraída dos autores sagrados e da vida dos
santos, pode muito bem ser considerada como a expressão da fé ortodoxa a
respeito dessa questão, tanto que ela é reproduzida a todo momento, com
algumas variações, nos sermões do púlpito evangélico e nas instruções
pastorais.
12. “Os demônios são Espíritos puros, e os condenados, atualmente no inferno,
podem também ser considerados como Espíritos puros, já que só a alma deles
desceu até lá, e os seus ossos, que retornaram ao pó, transformam-se
incessantemente em ervas, em plantas, em frutos, em minerais e em líquidos,
sofrendo, sem saber, as contínuas metamorfoses da matéria. Mas os
condenados, assim como os santos, devem ressuscitar no derradeiro dia,
retomando, para não mais deixar, um corpo carnal, os mesmos corpos sob o
quais eram conhecidos entre os vivos. Aquilo que os distinguirá uns aos outros,
é que os eleitos ressuscitarão num corpo purificado e todo radioso — os
condenados em um corpo maculado e deformado pelo pecado. Portanto, não
haverá no inferno somente Espíritos puros; haverá também homens iguais a
nós. Consequentemente, o inferno é um lugar físico, geográfico, material, visto
que será povoado por criaturas terrenas, tendo pés, mãos, boca, língua, dentes,
ouvidos, olhos semelhantes aos nossos, sangue nas veias e nervos sensíveis à
dor.
“Onde está situado o inferno? Alguns doutores o colocaram nas próprias
entranhas do nosso mundo; outros, sabe-se lá em que planeta; mas a questão
não foi decidida por nenhum concílio. Estamos então, quanto a este ponto,
reduzidos às conjecturas; a única coisa que se afirma é que o inferno, onde
quer que esteja situado, é um mundo composto de elementos materiais,
41 Estas citações foram extraídas da obra intitulada O Inferno, por Auguste Callet.
61 – O Céu e o Inferno
porém sem Sol, sem Lua, sem estrelas, mais triste, mais inóspito e mais
desprovido de todos os germes e de toda a aparência de bem do que as
regiões mais inabitadas deste mundo onde nós pecamos.
“Os teólogos mais reservados não se arriscam a descrever, à maneira
dos egípcios, dos hindus e dos gregos, todos os horrores dessa morada; eles
se limitam a nos apresentá-la como amostra, a título de amostra, um pouco
que a Escritura revela a respeito, o lago de fogo e de enxofre do Apocalipse e
os vermes de Isaías, esses vermes eternamente formigando sobre os
cadáveres do Tofel42, e os demônios atormentando os homens aos quais eles
perderam, e os homens chorando e rangendo os dentes, segundo a expressão
dos evangelistas.
“Santo Agostinho não concorda que esses sofrimentos físicos sejam
meras imagens dos castigos morais; ele vê, num verdadeiro lago de enxofre,
verdadeiros vermes e serpentes atacando todas as partes do corpo dos
condenados e associando suas mordidas às do fogo. Ele pretende, segundo
um versículo de são Marcos, mais do que esse fogo estranho, embora material
como o nosso, e agindo sobre corpos físicos, os conservará como o sal
conserva a carne das vítimas. Porém os condenados, vítimas sempre
sacrificadas e sempre viventes, sentirão a tortura desse fogo que queima sem
consumir; ele penetrará a pele deles; ficarão embebidos dele e saturados em
todos os seus membros, e na medula dos seus ossos, e na pupila dos seus
olhos e nas fibras mais ocultas e sensíveis do seu ser. A cratera de um vulcão
— se aí pudessem submergir — seria para eles um lugar de refrigério e de
repouso.
“Assim falam, com toda a segurança, os teólogos mais tímidos, os mais
discretos e os mais reservados; eles não negam, aliás, que haja no inferno
outros suplícios corporais; dizem apenas que, para afirmar isso, eles não têm
um conhecimento suficiente, pelo menos tão concreto como o que lhes foi
dado sobre a horrível tortura do fogo e do repugnante suplício dos vermes.
Todavia, há teólogos mais ousados ou mais esclarecidos que fazem do inferno
descrições mais detalhadas, mais variadas e mais completas. E, embora não se
saiba em que lugar do espaço esse inferno esteja situado, existem santos que
42 Tofel (em hebraico: תפל, insípido, reboque), localidade mencionada na Bíblia hebraica (em
Deuteronômio 1:1) como um dos limites do grande deserto do Sinai. É identificada como a atual região
de Tafilah, na Jordânia. — N. T.
62 – Allan Kardec
o viram. Eles não foram lá com a lira na mão, como Orfeu43, ou de espada em
punho, como Ulisses44, mas foram transportados em Espírito. Santa Teresa45
está entre estes.
“De acordo com a narrativa da santa, parece que há cidades no inferno;
lá ela viu pelo menos uma espécie de viela longa e estreita, como essas tantas
que existem nas velhas cidades; ela a percorreu, caminhando horrorizada
sobre terreno lamacento e fétido, onde fervilhavam répteis monstruosos; mas
ela foi detida em sua marcha por uma muralha que barrava a viela; nessa
muralha foi feito um nicho onde Teresa se acomodou, sem saber bem como
isso aconteceu. Era — diz ela — o lugar que lhe estava destinado, caso ela
abusasse, em vida, das graças que Deus derramou sobre sua célula de Ávila.
Conquanto ela tivesse entrado nesse nicho de Pedra com uma maravilhosa
facilidade, ali ela não podia nem se sentar, nem se deitar, nem se manter de
pé; tampouco ela podia sair de lá. Aquelas paredes horríveis, abaixando-se
sobre ela, envolviam-na e a apertavam como se tivessem sido animadas.
Parecia-lhe que a estavam sufocando, estrangulando-a ao mesmo tempo que
a esfolavam viva e a cortavam em pedaços. E ela se sentia queimando,
experimentando também todos os gêneros de angústias. De socorro,
nenhuma esperança; tudo em torno dela era escuridão e, no entanto, através
dessas trevas ela ainda avistava, não sem espanto, a horrível viela onde
estava alojada e toda sua imunda vizinhança — um espetáculo para ela tão
intolerável quanto os apertos da sua prisão.46
“Esse era, sem dúvidas, apenas um pequeno canto do inferno. Outros
viajantes espirituais foram mais favorecidos; eles viram no inferno grandes
cidades totalmente em fogo; Babilônia e Nínive, até mesmo Roma, seus
palácios e seus templos incendiados, e todos os seus habitantes acorrentados;
o comerciante no seu balcão, os sacerdotes reunidos com cortesãos em salões
43 Lendário poeta e músico grego, exaltado em alguns mitos como um grande encantador, pelo toque
magistral de sua lira, autor de façanhas incríveis, como quando vai às profundezas do Hades para
resgatar da morte sua esposa Eurídice. — N. T.
44 Ulisses (ou Odisseu), rei mitológico da ilha grega Ítaca, pai de Telémaco e herói heleno da Guerra de
Troia, conforme os clássicos Ilíada e Odisseia. — N. T.
45 Teresa de Ávila, (1515-1582) foi uma freira carmelita, mística e santa católica cuja biografia registra
várias experiências medianímicas. — N. T.
46 Reconhece-se nessa visão todas as características dos pesadelos; portanto, é provável que seja um
efeito desse tipo o que aconteceu com Santa Teresa.
63 – O Céu e o Inferno
de banquetes, e uivando em seus assentos dos quais eles não podem se
arrancar, e levando aos seus lábios, para se saciarem, taças das quais saiam
chamas; criados ajoelhados em fossas ferventes, braços estendidos, e
príncipes de cujas mãos escorria sobre eles ouro derretido em lava
devoradora. Outros viram no inferno planícies sem-fim que camponeses
famintos aravam e semeavam, e desses campos fumegantes de seus suores,
dessas sementes estéreis, enquanto nada brotava, esses camponeses se
devoravam uns aos outros; após isso, tão numerosos como antes, tão magros,
tão famintos, eles se dispersaram em bandos pelo horizonte, indo procurar ao
longe, mas em vão, terras mais férteis, e imediatamente foram substituídos,
nos campos que abandonaram, por outras colônias errantes de condenados.
Há quem tenha visto no inferno montanhas repletas de precipícios, florestas
que gemiam, poços sem água, fontes alimentadas por lágrimas, rios de
sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcas de desesperados
vagando por mares sem costas. Em uma palavra, ali se via tudo o que os
pagãos viam: um lúgubre reflexo da Terra, uma sombra desmedidamente
aumentada de suas misérias, seus sofrimentos naturais eternizados e até
calabouços, patíbulos e instrumentos de tortura que as nossas próprias mãos
forjaram.
“Com efeito, lá há demônios que, para melhor empanturrar os homens
em seus corpos, também tomam corpos. Uns têm asas de morcegos, chifres,
couraças de escama, patas com garras e dentes pontiagudos; eles nos
aparecem armados com espadas, forcados, pinças, alicates ardentes, serras,
grelhas, foles e porretes, fazendo por toda a eternidade com a carne humana
o ofício de cozinheiros e açougueiros; estes, transformados em leões ou em
víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas solitárias; alguns se
convertem em corvos, para arrancar os olhos de certos culpados; outros, em
dragões voadores, para os carregar nas costas e deixar todos assustados,
todos ensanguentados, todos gritando através dos espaços tenebrosos, para
então os deixar cair de volta no lago de enxofre. Eis aqui nuvens de
gafanhotos e de escorpiões gigantescos, cuja visão causa arrepios, cujo odor
causa náuseas, cujo menor toque causa convulsões; eis aqui monstros
policéfalos, abrindo por todos os lados goelas vorazes, sacudindo crinas de
víboras sobre suas cabeças disformes, esmagando os réprobos entre suas
mandíbulas sangrentas e os vomitando todos em pedaços, porém vivos,
64 – Allan Kardec
porque eles são imortais.
“Estes demônios em forma física, que lembram tão visivelmente os
deuses do Amenti47 e do Tártaro, assim como os ídolos adorados pelos
fenícios, moabitas e outros gentios vizinhos da Judeia, esses demônios não
agem ao acaso; cada um tem a sua função e a sua obra; o mal que eles fazem
no inferno tem relação com o mal que inspiraram e levaram os homens a
praticarem na Terra.48 Os condenados são punidos em todos os seus sentidos
e em todos os seus órgãos, porque também ofenderam Deus com todos os
seus sentidos e com todos os seus órgãos; punidos de uma forma como
glutões pelos demônios da gula, e de uma forma como preguiçosos pelos
demônios da preguiça, e de outra forma como fornicadores pelos demônios
da fornicação, e por tantas maneiras diversas quanto há de diversidade de
pecados. Eles terão frios mesmo queimados e calor mesmo congelados;
ficarão ansiosos por repouso e por movimento, e sempre famintos e sedentos,
e mil vezes mais cansados do que um escravo ao fim da jornada, mais doentes
do que os moribundos, mais alquebrados, mais abatidos, mais cobertos de
chagas do que os mártires, e isso não findará nunca.
“Nenhum demônio se desanima e jamais se desanimará de sua terrível
tarefa; nesse aspecto, todos eles são bem disciplinados e fiéis à execução das
ordens vingativas que receberam. Sem isso, o que seria do inferno? Os
pacientes repousariam se os algozes viessem a discutir ou se cansar. Mas
nada de repouso para uns, nada de disputas para outros; por mais malvados
que sejam e por mais numerosos que sejam, os demônios se entendem de um
canto a outro do abismo e nunca se viu na Terra nações mais dóceis aos seus
príncipes, nem exércitos mais obedientes aos seus chefes e nem comunidades
monásticas mais humildemente submissas aos seus superiores.49
47 Amenti (literalmente “o escondido”) é o submundo da mitologia egípcia, o lugar onde os mortos são
julgados por Osíris, para separar as almas boas e as más. — N. T.
48 Uma estranha punição, na verdade, aquela que consistiria em poder continuar, numa escala maior, o
mal que eles pouco fizeram na Terra! Seria mais racional que eles próprios sofressem as consequências
deste mal, em vez de se darem ao prazer de fazer os outros sofrerem.
49 Esses mesmos demônios, rebeldes a Deus pelo bem, são de uma exemplar docilidade para a prática
do mal; nenhum deles recua ou afrouxa durante a eternidade. Que estranha metamorfose operou-se
neles, que haviam sido criados puros e perfeitos como anjos!
Não é muito estranho vê-los dar o exemplo de perfeita compreensão, harmonia e concórdia
inalterável, enquanto os homens não sabem viver em paz e se destroem na Terra? Ao vermos o requinte
dos castigos reservados aos condenados e comparando a situação deles com a dos demônios,
65 – O Céu e o Inferno
“Mal se conhece, aliás, a população de demônios, desses vis Espíritos de
que são compostas as legiões de vampiros, goules50, sapos, escorpiões,
corvos, hidras51, salamandras52 e outras feras anônimas que constituem a
fauna das regiões infernais. Mas, conhecemos e nomeamos vários príncipes
que comandam essas legiões, dentre outros Belfegor, o demônio da luxúria;
Abadon ou Apolion, demônio do homicídio; Belzebu, demônio dos desejos
impuros, ou senhor das moscas que geram a corrupção; Mamon, demônio da
avareza; Moloque, Belial, Baalgad e Astaroth, assim como tantos outros, e
acima deles o seu chefe supremo, o sombrio arcanjo que no céu trazia o nome
Lúcifer e que no inferno se chama Satanás.
“Esta é, em resumo, a ideia que nos é dada do inferno, considerada do
ponto de vista da sua natureza física e dos castigos físicos que ali se sofre.
Abri os escritos dos pais da igreja e dos antigos doutores; interrogai nossas
lendas piedosas; observai as esculturas e pinturas das nossas igrejas; escutai
o que se diz em nossos púlpitos e vós aprendereis bem mais.”
13. O autor acompanha esse quadro com as seguintes reflexões, cujo
significado todos compreenderão:
“A ressurreição dos corpos é um milagre, mas Deus faz um segundo
milagre para dar a esses corpos mortais — já usados uma vez pelas passageiras
provas da vida e já uma vez aniquilados — a virtude de subsistirem sem se
dissolverem numa fornalha, onde os metais se evaporariam. Que se diga que a
alma é o seu próprio carrasco e que Deus não a persegue, mas que a abandona
no estado infeliz que ela escolheu; a rigor, isto é compreensível — embora esse
abandono eterno de um ser extraviado e sofredor pareça pouco compatível com
a bondade do Criador. Porém, o que se diz da alma e dos castigos espirituais, não
se pode de maneira alguma dizer dos corpos e dos castigos corporais; para
perpetuar tais castigos corporais, não basta que Deus retire sua mão; é preciso,
perguntamos quais são os mais dignos de pena, os algozes ou as vítimas?
50 Goule (transliteração do árabe الغول, al-ghoûl) é um monstro (demônio) canibal típico da mitologia
árabe pré-islâmica, caracterizado pelo gosto de assaltar tumbas, comer cadáveres e outras coisas
macabras. — N. T.
51 Hidra, monstro da mitologia grega, com corpo de dragão e várias cabeças de serpentes, habitante de
um pântano junto ao lago de Lerna, na região do Peloponeso, sul da Grécia. — N. T.
52 Salamandra, no folclore europeu, é um tipo dentre as criaturas ligadas aos espíritos elementares,
sendo as salamandras aquelas que dominam o fogo. — N. T.
66 – Allan Kardec
ao contrário, que ele a demonstre, que ele intervenha, que ele aja, sem o que o
corpo sucumbiria.
“Os teólogos supõem, com isso, que após a ressurreição dos corpos Deus
de fato opere esse segundo milagre do qual nós falamos. Primeiro, do
sepulcro que os devorava, ele tira nossos corpos de barro; retira-os tais como
lá forma enterrados, com suas enfermidades originais e as degradações
sucessivas da idade, das moléstias e dos vícios; ele nos restitui nossos corpos
nesse estado, decrépitos, friorentos, gotosos, cheios de carências, sensíveis a
uma picada de abelha, todos cobertos das feridas que a vida e a morte nos
marcaram, e aí está o primeiro milagre; depois, a esses corpos franzinos,
todos prontos para retornarem ao pó de onde saíram, Deus inflige uma
propriedade que eles nunca tiveram, e eis o segundo milagre; ele lhes inflige a
imortalidade, esse mesmo dom que, em sua cólera — dizei antes, em sua
misericórdia — ele havia retirado de Adão ao sair do Éden. Quando Adão era
imortal, ele era invulnerável, mas quando ele deixou de ser invulnerável,
tornou-se mortal; a morte seguiu de perto a dor.
“Desta forma, a ressurreição não nos restabelece nem nas condições
físicas do homem inocente nem nas condições físicas do homem culpado;
trata-se apenas de uma ressurreição das nossas misérias, mas com uma
sobrecarga de misérias novas, infinitamente mais horríveis. Em parte, é uma
verdadeira criação, e a mais maliciosa que a imaginação já ousou conceber.
Deus revisa suas ideias e, para ajuntar aos tormentos espirituais dos
pecadores os tormentos carnais que possam durar para sempre, ele muda
repentinamente — por efeito do seu poder — as leis por ele mesmo
estabelecidas desde o início, bem como as propriedades dos compostos
materiais; ele ressuscita carnes enfermas e corrompidas e, juntando por um
nó indestrutível esses elementos que tendem por si mesmos a se separar, ele
mantém e perpetua — contra a ordem natural — essa podridão viva; ele a
lança no fogo, não para purificá-la, mas para conservá-la tal qual é, sensível,
sofredora, ardente e horrível, de tal forma que ele a quer imortal.
“Através desse milagre, faz-se de Deus um dos algozes do inferno, pois
se os condenados não podem atribuir seus males espirituais a si mesmos, por
outro lado eles só podem atribuir os outros males a Deus. Aparentemente, era
pouco demais deixá-los, após a morte, entregues à tristeza, ao
arrependimento e a todas as angústias de uma alma que sente ter perdido o
67 – O Céu e o Inferno
bem supremo; segundo os teólogos, Deus irá buscar esses condenados nessa
noite, no fundo desse abismo, e os chamará de volta à vida por um momento,
não para os consolar, mas sim para os revestir de um corpo horrendo,
flamejante, imperecível, mais empestado que a túnica de Dejanira53, e só
então os abandonar para sempre.
“Ainda assim Deus não os abandonará, porque, semelhante ao céu e à
Terra, o inferno só sobrevive por um ato permanente da vontade divina,
sempre ativa, e porque tudo se desfaleceria se ele cessasse de dar sua
sustentação. Portanto, Deus sempre terá sua mão sobre eles para impedir que
o seu fogo se apague e que os corpos dos condenados sejam consumidos,
desejando que esses infelizes imortais contribuam, através da perenidade de
seus suplícios, para a edificação dos eleitos.”
14. Nós temos dito — e com razão — que o inferno dos cristãos havia
superado o dos pagãos. De fato, veem-se no Tártaro os culpados torturados
pelo remorso, sempre diante dos seus crimes e de suas vítimas, atormentados
por aqueles que eles atormentaram quando estavam vivos; eles fogem da luz
que os penetra e em vão procuram escapar dos olhares que os perseguem; lá
o orgulho é abatido e humilhado; todos trazem os estigmas do seu passado;
todos são punidos pelas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, basta
entregá-los à própria sorte, e todos julgam desnecessário lhes acrescentar
outros castigos. No entanto, são sombras, quer dizer, almas com corpos
fluídicos, imagens da sua existência terrestre; não se vê ali homens
retomarem seu corpo carnal para sofrer materialmente, nem o fogo penetrar
sua pele e os saturar até a medula dos ossos, nem o requinte e o refinamento
dos suplícios que constituem a base do inferno cristão. Ali se encontram juízes
inflexíveis, porém justos, que proferem a sentença de acordo com a falta,
enquanto no império de Satanás, todos são envolvidos nas mesmas torturas;
tudo lá está fundado na materialidade; até a equidade está banida de lá.
Sem dúvidas, existe hoje na própria Igreja muitos homens sensatos que
53 Na mitologia grega, Dejanira foi a esposa do mais célebre herói heleno, Héracles (Hércules, na versão
latina) a quem ela levou à morte, por ele ter pretendido desposar outra mulher; para isso, Dejanira fez
seu ex-marido vestir uma túnica envenenada doada pelo centauro Nesso e supostamente dotada de um
poder de encantamento para reconquistar Héracles. — N. T.
68 – Allan Kardec
não admitem essas coisas literalmente e que não veem nelas nada além de
alegorias das quais é preciso interpretar o significado; mas a opinião deles é
apenas individual e não influenciam a lei. A crença no inferno material, com
todas as suas consequências, ainda não deixou de ser um artigo de fé.
15. Pergunta-se, como é que determinadas pessoas puderam ver essas coisas
em êxtase,54 se essas coisas não existem. Não é o caso aqui de explicar a
origem das imagens fantásticas que tantas vezes se reproduzem com todas as
aparências de realidade. Diremos somente que devemos ver nisso uma prova
desse princípio, que o êxtase é a menos segura de todas as revelações,55
porque esse estado de superexcitação nem sempre é resultado de um
desprendimento tão completo da alma no qual se possa acreditar, e que
muitas vezes nele encontramos o reflexo das preocupações da véspera. As
ideias das quais a mente é nutrida e das quais o cérebro — ou melhor, o
envoltório perispiritual correspondente ao cérebro — conservou a impressão,
reproduzem-se amplificadas como numa miragem, sob formas vaporosas que
se cruzam e se confundem, compondo assim um quadro bizarro. Os extáticos
de todos os cultos sempre viram coisas relacionadas com a fé da qual foram
influenciados; logo, não é surpreendente que aqueles que, como santa Teresa,
sejam fortemente imbuídos das ideias do inferno, tal como dadas em
descrições verbais ou escritas e em quadros, tenham visões que,
propriamente falando, são apenas reproduções, e produzem o efeito de um
pesadelo. Um pagão cheio de fé teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria
visto Júpiter, no Olimpo, segurando o raio na mão.
54 Êxtase: um dos estágios da emancipação da alma, no qual o Espírito do encarnado fica mais ou menos
livre para explorar o mundo espiritual, mas não perfeitamente, podendo o extático frequentemente se
enganar a respeito de suas impressões durante a excursão anímica. Ver mais em O Livro dos Espíritos,
de Allan Kardec, especialmente nas questões de 439 a 446. — N. T.
55 O Livro dos Espíritos, questões de 443 e 444.
69 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO V
O PURGATÓRIO
1. O Evangelho não faz menção alguma do purgatório, que só foi admitido pela
Igreja no ano 593. Este é certamente um dogma mais racional e mais
conforme à justiça de Deus do que o inferno, pois ele estabelece penas menos
rigorosas e resgatáveis para as infrações de uma gravidade mediana.
O conceito do purgatório, portanto, é fundamentado na equidade,
porque, comparado à justiça humana, é uma detenção temporária em relação
a uma condenação perpétua. O que poderíamos pensar de um país que só
aplicasse a pena de morte para os crimes e os pequenos delitos? Sem o
purgatório, não há para as almas nada além das duas alternativas extremas: a
felicidade absoluta ou o suplício eterno. Nesta hipótese, que seria das almas
culpadas apenas de faltas leves? Ou elas compartilhariam da felicidade dos
eleitos, sem seres perfeitas, ou sofreriam o castigo dos maiores criminosos,
sem terem praticado tanto mal — o que não seria nem justo nem racional.
2. Mas a noção de purgatório devia necessariamente ser incompleta; é por
isso que, conhecendo somente o sofrimento através do fogo, fizeram dele um
diminutivo do inferno; também nele as almas ardem, só que com um fogo
menos intenso. Sendo o progresso inconciliável com o dogma das penas
eternas, as almas não saem de lá por efeito do seu avanço, mas sim pela
virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção.
Se o primeiro pensamento era bom, não é o mesmo caso das suas
consequências, pelos abusos que causou. Por meio das preces pagas, o
purgatório se tornou uma mina mais lucrativa do que o inferno.56
56 O purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências, por meio das quais se vendia a
70 – Allan Kardec
3. O local do purgatório jamais foi determinado, nem a natureza das penas ali
sofridas foi claramente definida. Estava reservado à nova revelação preencher
essa lacuna, ao nos explicar as causas das misérias da vida terrena, das quais
só a pluralidade das existências poderia nos mostrar a justiça.
Essas misérias são necessariamente o resultado das imperfeições da
alma, pois se a alma fosse perfeita, ela nunca cometeria faltas nem teria que
sofrer suas consequências. A pessoa que fosse sóbria e moderada em tudo,
por exemplo, não seria vítima das enfermidades causadas pelos excessos. Na
maioria das vezes, a pessoa é infeliz neste mundo por sua própria culpa; mas
se ela é imperfeita, é porque já assim era antes de vir à Terra e está expiando
não somente suas faltas atuais, como também as faltas anteriores que ainda
não foram reparadas. A pessoa enfrenta numa vida as provações que ela fez
outros sofrerem numa outra existência. As vicissitudes que experimenta são
ao mesmo tempo um castigo temporário e uma advertência sobre as
imperfeições das quais ela deve se livrar para evitar males futuros e progredir
rumo ao bem. Para a alma, são lições da experiência — rudes lições, às vezes,
porém tanto mais proveitosas para o futuro quanto mais deixarem profundas
impressões. Essas vicissitudes são oportunidades para lutas incessantes que
desenvolvem suas forças e suas faculdades morais e intelectuais, fortificam-na
no bem e das quais a pessoa sempre sai vitoriosa, se tiver a coragem de
suportá-las até o fim. O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde a alma
entra radiosa e triunfante, tal como o soldado que sai da batalha e vem
receber a palma gloriosa.
4. Cada existência é para a alma uma ocasião de dar um passo adiante;
depende da sua vontade que esse passo seja o maior possível, para alcançar
vários degraus, ou então permanecer no mesmo ponto; neste último caso, ela
terá sofrido sem proveito; e já que, cedo ou tarde, sempre é preciso pagar sua
dívida, ela deverá recomeçar uma nova existência em condições ainda mais
dolorosa, porque a uma mancha não removida ela acrescenta outra mancha.
É então nas encarnações sucessivas que a alma se despoja pouco a pouco
entrada no céu. Este abuso foi a causa principal da Reforma Protestante e o que fez Lutero rejeitar o
purgatório.
71 – O Céu e o Inferno
das suas imperfeições e que, numa palavra, ela se purga, até que esteja
bastante pura para merecer deixar os mundos de expiação rumo a mundos
mais felizes e, mais tarde, desfrutarem da suprema felicidade.
O purgatório não é, pois, uma ideia vaga e incerta; é uma realidade
concreta que vemos, que tocamos e que sofremos; ele existe nos mundos de
expiação, e a Terra é um desses mundos; nela os homens expiam seu passado
e seu presente em proveito do seu futuro. Mas, contrariamente à ideia que
fazem dele, depende de cada um abreviar ou prolongar sua estadia, conforme
o grau de adiantamento e de purificação ao qual tenha alcançado pelo seu
trabalho sobre si mesmo. Podemos sair do purgatório, não porque tenhamos
completado nosso tempo ou pelos méritos alheios, mas sim pelo nosso
próprio mérito, segundo estas palavras do Cristo: “A cada um segundo as
suas obras”, palavras que resumem toda a justiça de Deus.
5. Então, a pessoa que sofre nesta vida deve se convencer de que isso é
porque ela não se depurou suficientemente na sua existência anterior e que,
se não o fizer nesta, sofrerá ainda mais na existência seguinte. Isso é ao
mesmo tempo justo e lógico. Já que o sofrimento é inerente à imperfeição, a
pessoa sofre enquanto ela for imperfeita, assim como uma enfermidade dura
enquanto ela não for tratada. É desse modo que, enquanto o homem for
orgulhoso, ele sofrerá as consequências do orgulho, assim como o egoísta
sofrerá as consequências do egoísmo.
6. O Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual, em razão do grau de
suas imperfeições; depois, a vida corporal lhe é dada como um meio de
reparação. É por isso que aí ele se reencontra, seja com as pessoas a quem
ofendeu, seja nos ambientes semelhantes àqueles onde praticou o mal, seja
em situações opostas, como, por exemplo, estar na miséria, caso ele tenha
sido um rico malvado, ou numa condição humilhante, caso tenha sido um
orgulhoso.
A expiação — no mundo dos Espíritos e na Terra — não é um duplo
castigo para o Espírito; ela é a mesma que continua na Terra, como um
complemento, com o objetivo de lhe facilitar no seu melhoramento através de
72 – Allan Kardec
um trabalho eficaz; cabe a ele aproveitá-lo. Não é melhor para o Espírito
retornar à Terra com a possibilidade de ganhar o céu, do que a ser condenado
sem remissão ao sair dela? Essa liberdade que lhe é concedida significa uma
prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que deseja que o homem
deva tudo aos seus próprios esforços e seja o artesão do seu futuro; se
estiver infeliz, e se estiver assim por um tempo mais ou menos longo, ele não
poderá se queixar senão de si mesmo: a via do progresso está sempre aberta
para ele.
7. Se considerarmos o quanto é grande o sofrimento de certos Espíritos
culpados no mundo invisível, quão terrível é a situação de alguns, de que
quantas angústias eles estão à mercê e o quanto essa posição se torna mais
penosa devido a incapacidade em que se acham para verem o fim desses
sofrimentos, então poderíamos dizer que para eles isso é o inferno — se essa
palavra não significasse a ideia de um castigo eterno e material. Graças à
revelação dos Espíritos e aos exemplos que eles nos oferecem, nós sabemos
que a duração da expiação é subordinada ao melhoramento do culpado.
8. O Espiritismo não vem, com isso, negar a punição futura; ele vem, ao
contrário, constatá-la. O que ele destrói é o inferno localizado, com suas
fornalhas e suas penas irremissíveis. Ele também não nega o purgatório, pois
prova que já estamos nele; ele o define e o especifica, explicando a causa das
misérias terrenas, e através disso ele faz com que aqueles que o negam possa
crer nele.
Será que o Espiritismo rejeita as preces pelos falecidos? Muito ao
contrário, porque os Espíritos sofredores as solicitam; porque faz disso um
dever de caridade e demonstra a sua eficácia para os conduzir ao bem e, por
esse meio, abreviar os seus tormentos.57 Falando à inteligência, ele tem
conduzido a fé aos incrédulos, assim como tem conduzido a prece àqueles que
dela zombaram. Porém ele afirma que a eficácia das orações está no
pensamento, e não nas palavras; que as melhores orações são as do coração, e
não as dos lábios; aquelas que nós mesmos dizemos, e não aquelas que
57 Veja em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII: Ação da prece.
73 – O Céu e o Inferno
mandam dizer por dinheiro. Quem então ousaria criticá-lo?
9. Que o castigo ocorra na vida espiritual ou na Terra, e qualquer que seja a
sua duração, ele sempre tem um fim — mais ou menos distante ou próximo.
Portanto, na realidade só existem duas alternativas para o Espírito: punição
temporária gradual conforme a culpa e recompensa gradual conforme o
mérito. O Espiritismo repulsa a terceira alternativa — a da condenação
eterna. O inferno fica sendo uma figura simbólica dos maiores sofrimentos
cujo término é desconhecido. O purgatório é a realidade.
A palavra purgatório revela a ideia de um lugar circunscrito: eis por que
ela é naturalmente mais aplicada à Terra, considerada como um lugar de
expiação, do que ao Espaço infinito onde vagam os Espíritos sofredores, e que
além disso a natureza da expiação terrena é uma verdadeira expiação.
Quando os homens se melhorarem, eles só fornecerão ao mundo
invisível bons Espíritos, e estes, ao encarnarem, só fornecerão à humanidade
carnal elementos aperfeiçoados; então a Terra deixará de ser um mundo de
expiação e os homens não sofrerão mais as misérias consequentes de suas
imperfeições. É essa transformação que se opera neste momento e eleva a
Terra na hierarquia dos mundos. (Veja O Evangelho segundo o Espiritismo,
cap. III.)
10. Por que então o Cristo não falou do purgatório? É que, não existindo a
ideia, não havia uma palavra para representá-la. Ele se serviu do vocábulo
inferno, a única que estava em uso, como um termo genérico, para designar
as punições futuras sem distinção. Se ele tivesse colocado, ao lado da palavra
inferno, um termo equivalente a purgatório, ele não poderia especificar o seu
verdadeiro sentido sem resolver uma questão reservada para a posteridade;
teria sido, além disso, consagrar a existência de dois lugares especiais de
castigo. O inferno — na sua concepção genérica, revelando a ideia de punição
— continha implicitamente a ideia do purgatório, que não passa de um modo
de penalidade. O futuro, devendo esclarecer os homens sobre a natureza das
penas, devia por isso mesmo reduzir o inferno ao seu justo valor.
Como a Igreja achou que, após seis séculos, ela devia suprir o silêncio de
74 – Allan Kardec
Jesus ao decretar a existência do purgatório, foi porque ela considerou que ele
não havia dito tudo. Por que então não seria assim com relação às outras
questões, como foi para esta?
75 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO VI
DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS
Origem da doutrina das penas eternas –
Argumentos a favor das penas eternas – Impossibilidade material
das penas eternas – A doutrina das penas eternas teve a sua época –
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original
Origem da doutrina das penas eternas
1. A crença na eternidade das penas perde diariamente tanto terreno que,
sem ser profeta, todo mundo pode prever que o seu fim está próximo. Ela tem
sido combatida por argumentos tão fortes e tão peremptórios que desde
então parece quase supérfluo se ocupar com essa crença, e que basta deixá-la
desaparecer por si mesma. Entretanto, não se pode esconder que, por mais
caduca que seja, ela ainda é o ponto de encontro dos adversários das novas
ideias, aquele que eles defendem com mais afinco — por ser uma das
questões mais vulneráveis e porque eles preveem as consequências de sua
queda. Desse ponto de vista, essa questão merece um exame sério.
2. A doutrina das penas eternas — como a do inferno material — teve a sua
razão de ser enquanto esse temor podia ser um freio para os homens pouco
adiantados intelectual e moralmente. Assim como teriam ficado pouco ou
nada impressionados com a ideia das punições morais, eles não teriam ficado
mais impressionados com a das punições temporárias; eles nem mesmo
teriam compreendido a justiça das penas graduais e proporcionais, porque
não estavam aptos a ver as nuances muitas vezes delicadas do bem e do mal,
nem o valor relativo das circunstâncias atenuantes ou agravantes.
76 – Allan Kardec
3. Quanto mais próximos os homens estão do estado primitivo, mais eles são
materialistas; o senso moral é o que mais tardiamente se desenvolve neles.
Por esta razão, eles não podem fazer mais do que uma ideia muito imperfeita
de Deus e dos seus atributos, assim como uma ideia não menos vaga a
respeito da vida futura. Eles assimilam Deus à sua própria natureza; para eles,
Deus é um soberano absoluto, tanto mais medonho porque é invisível, como
um monarca despótico que, escondido no seu palácio, nunca se mostra aos
seus súditos. Ele só parece poderoso através da força material, pois eles não
compreendem a força moral; só o enxergam armado com raios ou em meio a
relâmpagos e tempestades, semeando ruína e a desolação em sua passagem, a
exemplo dos guerreiros invencíveis. Um Deus de mansidão e de misericórdia
não seria um Deus, mas um ser fraco que não conseguiria fazer com que o
obedecessem. A vingança implacável, os castigos terríveis e eternos nada
tinham de contrários à ideia que eles faziam de Deus, nada que repugnassem
a razão deles. Como eles mesmos eram implacáveis nos seus ressentimentos,
cruéis com os inimigos e impiedosos com os vencidos, Deus, que era superior
a eles, deveria ser ainda mais terrível.
Para tais homens, era preciso crenças religiosas semelhantes à sua
natureza ainda rude. Uma religião totalmente espiritual, repleta de amor e de
caridade, não podia se aliar à brutalidade dos costumes e das paixões. Então,
não podemos criticar Moisés por sua legislação draconiana58, que mal foi
suficiente para conter seu povo indócil, nem por ter feito de Deus um Deus
vingativo. Isso foi necessário naquela época; a doce doutrina de Jesus não
teria surtido efeito e seria impotente.
4. À medida que o Espírito se desenvolvia, o véu material se dissipava pouco a
pouco e os homens se tornavam mais aptos a entender as coisas espirituais;
mas isso não aconteceu senão gradualmente. Quando veio Jesus, ele pôde
anunciar um Deus clemente, pôde falar do seu reino, que não é deste mundo, e
dizer aos homens: “Amem-se uns aos outros e façam o bem àqueles que
58 Draconiano: referência a Drácon, legislador ateniense do século VII a.C., celebrizado pela severidade
(desumanidade, na opinião de muitos) do código de leis que ele formulou quando foi incumbido de
encerrar um conflito civil em Atenas, no ano de 621 a.C. — N. T.
77 – O Céu e o Inferno
odeiam vocês”, enquanto os antigos diziam: “Olho por olho, dente por dente.”
Ora, quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas
novamente criadas e encarnadas? Se esse fosse o caso, então Deus teria criado
no tempo de Jesus almas mais avançadas do que no tempo de Moisés. Mas
então, o que teria sido destas últimas? Será que elas teriam definhado por
toda a eternidade no embrutecimento? O simples bom senso repele essa
suposição. Não; elas eram as mesmas almas que, após ter vivido sob o império
da lei mosaica, tinham adquirido durante várias existências um
desenvolvimento suficiente para compreender uma doutrina mais elevada, e
que hoje estão bastante adiantadas para receber um ensinamento ainda mais
completo.
5. No entanto, o Cristo não pôde revelar aos seus contemporâneos todos os
mistérios do porvir; ele mesmo disse: “Ainda tenho muitas coisas a lhes dizer,
mas vocês não as compreenderiam; é por isso que eu lhes falo em parábolas.”
Sobretudo no que diz respeito à moral — quer dizer, os deveres do homem
para com o homem —, ele foi mais explícito, porque, tocando na corda
sensível da vida material, Jesus sabia se fazer ser compreendido; quanto aos
outros pontos, ele se limitou a semear sob a forma alegórica os germes
daquilo que deveria ser desenvolvido mais tarde.
A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta última
ordem de ideias. Em relação às penas principalmente, o Cristo não poderia
romper bruscamente com as ideias estabelecidas; ele veio traçar aos homens
novos deveres: a caridade e o amor ao próximo substituindo o espírito de
ódio e de vingança, a abnegação substituindo o egoísmo: isso já era muito. Ele
não poderia racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos
prevaricadores sem enfraquecer ao mesmo tempo a ideia do dever. Ele
prometia o reino dos céus aos bons; esse reino estaria então interditado aos
maus; para onde iriam estes? Era preciso uma contrapartida capaz de
impressionar inteligências ainda materializadas demais para se identificar
com a vida espiritual; pois não podemos perder de vista que Jesus se
endereçava ao povão, à parte menos esclarecida da sociedade, para a qual ele
precisava de imagens de algum modo palpáveis, e não de ideias refinadas. Foi
78 – Allan Kardec
por isso que ele não entrou em detalhes supérfluos a este respeito: bastava-
lhe opor uma punição à recompensa; nada mais era necessário naquela época.
6. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de
serem lançados na Geena; ora, o que seria a Geena? Um lugar nos arredores
de Jerusalém, um aterro sanitário onde se despejavam as imundícies da
cidade. Deveríamos então interpretar isso também ao pé da letra? Essa era
uma daquelas figuras enérgicas com a ajuda da qual se impressionava as
multidões. Ocorre o mesmo com o fogo eterno. Se esse não tivesse sido o seu
pensamento, Jesus estaria em contradição consigo mesmo ao exaltar a
clemência e a misericórdia de Deus, pois clemência e inexorabilidade são
coisas opostas que se anulam. Isso seria, portanto, se enganar estranhamente
quanto ao significado das palavras de Jesus, ver nelas a sanção do dogma das
penas eternas, quando todo seu ensinamento proclama a piedade do Criador.
Na Oração dominical,59 ele nos ensina a dizer: “Senhor, perdoai as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” Se o
culpado não tivesse qualquer perdão pelo qual esperar, seria inútil pedi-lo.
Mas esse perdão é incondicional? Seria uma graça, uma remissão pura e
simples da pena incorrida? Não; a medida desse perdão está subordinada à
maneira como nós temos perdoado; quer dizer que se não perdoarmos, não
seremos perdoados. Fazendo do esquecimento das ofensas uma condição
absoluta, Deus não podia exigir que o homem fraco fizesse o que ele — todo
poderoso — não fizesse. A Oração dominical é um protesto diário contra a
eterna vingança de Deus.
7. Para homens que só tinham uma noção confusa da espiritualidade da alma,
a ideia do fogo material nada tinha de chocante, ainda menos porque ela fazia
parte da crença comum extraída daquela ideia do inferno dos pagãos, quase
universalmente disseminada. A eternidade da punição não tinha nada a mais
que repugnasse às pessoas submetidas, desde muitos séculos, à legislação do
terrível Jeová. No pensamento de Jesus, portanto, o fogo eterno não era mais
do que uma simples figura; pouco lhe importava que essa figura fosse tomada
59 Oração dominical: o Pai Nosso. — N. T.
79 – O Céu e o Inferno
ao pé da letra, desde que ela servisse de contenção. Ele sabia bem que o
tempo e o progresso deveriam se encarregar de explicar o seu sentido
alegórico, até que, segundo a sua predição, sobretudo o Espírito de Verdade
viesse esclarecer os homens sobre todas as coisas.
A característica essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do
arrependimento. Ora, jamais Jesus disse que o arrependimento não
encontraria graça perante Deus. Em todas as ocasiões, ao contrário, ele
mostrou Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pródigo que
retornou ao teto paterno. Ele não o mostra inflexível senão para o pecador
endurecido; contudo, se Deus sustenta o castigo numa mão, na outra ele
sempre sustenta o perdão pronto para ser estendido ao culpado assim que
este volte sinceramente para ele. Esta certamente não é a imagem de um Deus
sem piedade. Devemos considerar também que Jesus nunca pronunciou
contra ninguém — nem mesmo contra os maiores culpados — a condenação
irremissível.
8. Todas as religiões primitivas, de acordo com o caráter dos povos, tiveram
deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová dos hebreus
fornecia-lhes mil meios de exterminar seus inimigos; ele os recompensava
com a vitória ou os punia com a derrota. Conforme a ideia que se fazia de
Deus, acreditava-se honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue dos animais ou dos
homens; daí vem os sacrifícios sangrentos que representavam um papel tão
importante em todas as religiões antigas. Os judeus já tinham abolido os
sacrifícios humanos; os cristãos — malgrado os ensinamentos do Cristo —
por muito tempo acreditavam honrar o Criador jogando às chamas e às
torturas milhares daqueles que eles chamavam hereges; isso era, de uma
outra forma, um verdadeiro sacrifício humano, já que eles o faziam para a
maior glória de Deus, e com acompanhamento de cerimônias religiosas.
Mesmo hoje, eles ainda invocam o Deus dos exércitos antes do combate e o
glorificam após a vitória, e isso muitas vezes pelas causas mais injustas e mais
anticristãs.
9. Como o homem é lento para se desfazer dos seus preconceitos, hábitos e
80 – Allan Kardec
ideias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés e a nossa geração
cristã ainda vê traços de antigos costumes bárbaros, consagrados ou pelo
menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não
ortodoxos, dos que são considerados heréticos, para pôr um fim às fogueiras
e para esclarecer a verdadeira grandeza de Deus. Todavia, na falta de
fogueiras, as perseguições materiais e morais ainda estão em pleno vigor, tão
profundamente a ideia de um Deus cruel está enraizada no homem. Nutrido
por sentimentos que lhe são inculcados desde a infância, será que o homem
poderia estranhar que o Deus que lhe apresentam, como sendo honorificado
por atos bárbaros, condene a torturas eternas e veja sem piedade o
sofrimento dos desgraçados?
Sim, foram os filósofos — os ímpios, segundo alguns — que ficaram
escandalizados ao ver o nome de Deus profanado por atos que não são dignos
dele; foram esses filósofos que o mostraram aos homens em toda a sua
grandeza, despojando-o das paixões e baixezas humanas, atribuídas por uma
crença não esclarecida. Com isso a religião ganhou em dignidade o que tem
perdido em prestígio exterior, porque se há menos homens apegados à forma,
há muito mais daqueles que são sinceramente religiosos pelo coração e pelos
sentimentos.
Mas, ao lado destes, quantos são os que, detendo-se na superfície, foram
levados à negação de toda a Providência! Por não terem sabido colocar as
crenças religiosas em harmonia com o progresso da razão humana, fizeram
brotar o deísmo em alguns, a incredulidade absoluta em outros, e noutros
mais o panteísmo, isto é, o próprio homem se fez deus, por falta de ver um
bastante perfeito.
Argumentos a favor das penas eternas
10. Voltemos ao dogma das penas eternas. O principal argumento que
invocam a seu favor é o seguinte:
“É um consenso entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcional
à qualidade do ofendido. A ofensa que for cometida contra um soberano, sendo
81 – O Céu e o Inferno
considerada como mais grave do que aquela contra uma pessoa comum, é
punida com maior severidade. Ora, Deus é mais do que um soberano, porque é
infinito; então a ofensa contra ele deve ser infinita e deve receber um castigo
infinito, ou seja, eterno.”
Refutação – Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto de
partida, uma base sobre a qual ela se apoie — numa palavra: premissas. Nós
adotamos essas premissas dos próprios atributos de Deus:
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,
soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições.
É impossível conceber Deus de outra maneira que não seja com o infinito
das perfeições; sem o que ele não seria Deus, pois então poderíamos imaginar
um ser possuindo algo que faltasse a Deus. Para que ele seja único e acima de
todos os seres, ninguém deve poder superá-lo ou igualá-lo no que quer que
seja. Portanto, é preciso que ele seja infinito em tudo.
Por serem infinitos, os atributos divinos não estão sujeitos nem a
aumentar nem a diminuir; sem isso, eles não seriam infinitos e Deus não seria
perfeito. Se tirássemos a menor parcela de um só dos seus atributos, já não
teríamos mais Deus, porque poderia existir um ser mais perfeito.
O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma
qualidade contrária que pudesse diminuí-la e anulá-la. Um ser infinitamente
bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau
pode ter a menor parcela de bondade. Do mesmo modo que um objeto não
seria absolutamente preto com a mais leve nuança de branco, nem um branco
absoluto com a menor mancha de preto.
Estabelecido este ponto de partida, contra os argumentos citados nós
colocamos os argumentos seguintes:
11. Só um ser infinito pode fazer alguma coisa infinita. O homem, sendo
limitado nas suas virtudes, nos seus conhecimentos, na sua força, nas suas
aptidões e na sua existência terrena, então ele não pode produzir nada além
de coisas limitadas.
Se o homem pudesse ser infinito no que ele faz de mal, poderia ser
igualmente no que ele faz de bem, e assim ele seria igual a Deus. Entretanto,
82 – Allan Kardec
se o homem fosse infinito no que ele faz de bem, então ele não faria o mal, já
que o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.
Admitindo-se que uma ofensa temporária dirigida à Divindade pudesse
ser infinita, se Deus se vingasse disso com um castigo infinito, então ele seria
infinitamente vingativo; se ele fosse infinitamente vingativo, ele não poderia
ser infinitamente bom e misericordioso, pois um desses atributos é a negação
do outro. Se ele não fosse infinitamente bom, então não seria perfeito, e se não
fosse perfeito, ele não seria Deus.
Se Deus fosse inflexível para com o culpado que se arrepende, ele não
seria misericordioso; se ele não fosse misericordioso, então não seria
infinitamente bom.
Por que Deus faria para o homem uma lei de perdão, se ele mesmo não
devesse perdoar? Isso resultaria que o homem que perdoa aos seus inimigos e
que lhes retribui com o bem no lugar do mal seria melhor do que Deus, que
permanece surdo ao arrependimento daquele que o ofendeu, e lhe recusa,
pela eternidade, o mais leve alívio.
Deus — que está em toda parte e tudo vê — deve estar assistindo às
torturas dos condenados; se ele fica insensível aos gemidos deles durante a
eternidade, é que ele é eternamente impiedoso; se não tem piedade, então ele
não é infinitamente bom.
12. A isso, costuma-se responder que o pecador que se arrepende antes de
morrer experimenta a misericórdia de Deus, e que então até mesmo o maior
culpado pode encontrar essa graça diante dele.
Quanto a isso não há qualquer dúvida, e está entendido que Deus só
perdoa o arrependido, permanecendo inflexível para com os endurecidos;
mas, se ele é pleno de misericórdia para a alma que se arrepende antes de
deixar o corpo, por que deixaria de ser misericordioso para quem se
arrepende depois da morte? Por que o arrependimento só teria utilidade
durante a vida, que não passa de um breve instante, e não mais durante a
eternidade, que não tem fim? Se a bondade e a misericórdia de Deus ficassem
circunscritas num determinado tempo, elas não seriam infinitas, e assim
Deus não seria infinitamente bom.
83 – O Céu e o Inferno
13. Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a justiça mais
inexorável, nem aquela que deixa qualquer falta impune; é aquela que mais
rigorosamente leva em conta o bem e o mal, que recompensa um e pune o
outro na proporção mais equitativa, e não se engana jamais.
Se, por um erro momentâneo — que é sempre o resultado da natureza
imperfeita do homem e muitas vezes do meio onde ele se encontra — a alma
pode ser punida eternamente, sem esperança de abrandamento nem de
perdão, então não há proporção entre o erro e a punição: logo, não há justiça.
Se o culpado retorna para Deus, arrependendo-se e pedindo para
reparar o mal que fez, isso significa um retorno ao bem, aos bons sentimentos.
Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem é infrutífero, e já que o bem
não é levado em conta, então aqui não há justiça. Entre os homens, o
condenado que se corrige tem a pena comutada, e às vezes até perdoada;
desse modo, na justiça humana teria mais equidade do que na justiça divina!
Se a condenação for irrevogável, o arrependimento será inútil; nada
tendo a esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de modo
que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente, mas também a
permanecer no mal pela eternidade. Isso não seria nem justiça nem bondade.
14. Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve conhecer tudo, do passado e
do futuro; ele deve saber já no momento da criação de uma alma se ela vai
fracassar de modo grave o bastante para ser condenada eternamente. Se Deus
não souber disso, significa que sua sabedoria não é infinita, e assim ele não é
Deus. Se o souber, quer dizer que ele cria voluntariamente um ser destinado
— desde a sua formação — às torturas sem fim, e então ele não é bom.
Se Deus, tocado pelo arrependimento de um condenado, pode lhe
estender a sua misericórdia e o retirar do inferno, então não haverá mais
penas eternas, e o julgamento pronunciado para os homens fica revogado.
15. A doutrina das penas eternas absolutas, portanto, conduz forçosamente à
negação ou ao enfraquecimento de alguns dos atributos de Deus;
consequentemente, essa doutrina é inconciliável com a perfeição infinita, de
onde chegamos a essa conclusão:
84 – Allan Kardec
Se Deus é perfeito, a condenação eterna não existe; se ela existe, Deus
não é perfeito.
16. Também se invoca em favor do dogma da eternidade das penas o
argumento seguinte:
“A recompensa concedida aos bons, sendo eterna, deve ter como
contrapartida uma punição eterna. É justo proporcionar a punição à
recompensa.”
Refutação – Deus criou a alma para torná-la feliz ou infeliz?
Evidentemente, a felicidade da criatura deve ser o objetivo da sua criação; do
contrário, Deus não seria bom. A alma alcança a felicidade pelo seu próprio
mérito; uma vez adquirido esse mérito, ela não pode perder o fruto dele; do
contrário, ela degeneraria. Portanto, a eternidade da felicidade é a
consequência de sua imortalidade.
Contudo, antes de chegar à perfeição, a alma tem lutas a enfrentar,
combates a travar contra as más paixões. Como Deus não a criou perfeita, mas
capaz de ser tornar perfeita, a fim de que ela tenha o mérito de suas obras, a
alma pode cair no erro. Suas quedas são consequências de sua fraqueza
natural. Se, por uma queda, ela tivesse que ser punida eternamente, então
poderíamos perguntar por que Deus não a criou mais forte? A punição que ela
sofre é um sinal de que ela fez algo errado e que deve ter como resultado
reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse irremissível, seu desejo de se
melhorar seria supérfluo; desde então a finalidade providencial da criação
não poderia ser alcançada, porque haveria seres predestinados à felicidade e
outros à infelicidade. Se uma alma culpada se arrepende, ela pode se tornar
boa; podendo tornar-se boa, ela pode aspirar à felicidade. Seria justo Deus lhe
recusar os meios para isso?
Já que o bem é o objetivo final da criação, a felicidade, que é o seu
prêmio, deve ser eterna; então o castigo, que é um meio de alcançá-la, deve
ser temporário. A mais vulgar noção de justiça, mesmo entre os homens, diz
que não se pode castigar perpetuamente aquele que tem o desejo e a vontade
de fazer o bem.
85 – O Céu e o Inferno
17. Um último argumento a favor das penas eternas é este:
“O temor de um castigo eterno é um freio; se fosse anulado, o homem, não
temendo mais nada, iria se entregar a todos os excessos.”
Refutação – Esse raciocínio seria justo se a não-eternidade das penas
levasse à supressão de toda sanção penal. O estado feliz ou infeliz na vida
futura é uma consequência rigorosa da justiça de Deus, pois uma semelhança
de condições entre um homem bom e um perverso seria a negação dessa
justiça. Mas, por não ser eterno, o castigo nem por isso deixa de ser menos
doloroso; tanto mais ele é temido quanto mais se crê nele, e tanto mais se crê
nele quanto mais ele for racional. Uma penalidade na qual ninguém acredita
não representa um freio, e a eternidade das penas é um exemplo disso.
A crença nas penas eternas — como já dissemos — teve a sua utilidade e
a sua razão de ser numa certa época; hoje, não somente ela não funciona mais
como também produz incrédulos. Antes de colocá-la como uma necessidade,
seria preciso demonstrar a sua realidade. Seria preciso sobretudo conferir a
sua eficácia naqueles que a preconizam e se esforçam para demonstrá-la.
Infelizmente, entre esses, muitos provam pelos próprios atos que não estão
com medo de nada disso. Se ela é impotente para reprimir o mal entre aqueles
que dizem acreditar nela, que influência ela poderá ter sobre quem não
acredita nela?
Impossibilidade material das penas eternas
18. Até aqui, o dogma das penas eternas só foi combatido pelo raciocínio;
agora, vamos demonstrá-lo em contradição com os fatos positivos que temos
diante dos olhos e provar a sua impossibilidade.
Segundo esse dogma, a sorte das almas é irrevogavelmente fixada após a
morte. Este é, portanto, um ponto terminal definitivo oposto ao progresso.
Ora, será que a alma progride ou não? A questão toda é essa. Se ela progride, a
eternidade das penas é impossível.
Será possível duvidar desse progresso, quando se vê a imensa variedade
de aptidões morais e intelectuais que existem na Terra, desde o selvagem até
86 – Allan Kardec
o homem civilizado? Quando se vê a diferença que um mesmo povo apresenta
de um século para o outro? Se admitirmos que não são mais as mesmas almas,
é preciso admitir então que Deus tenha criado almas em todos os graus de
adiantamento, conforme as épocas e os lugares, e que ele tenha favorecido
umas ao passo que tenha destinado outras à perpétua inferioridade — algo
incompatível com a justiça, que deve ser a mesma para todas as criaturas.
19. É incontestável que a alma atrasada moral e intelectualmente — como a
dos povos bárbaros — não pode ter os mesmos elementos de felicidade, as
mesmas aptidões para gozar dos esplendores do infinito, como aquela alma
cujas faculdades estão todas largamente desenvolvidas. Por isso, se essas
almas não progridem, elas não podem — nas condições mais favoráveis —
gozar na perpetuidade senão de uma felicidade por assim dizer negativa.
Então, para estarmos de acordo com a rigorosa justiça, forçosamente nós
chegaremos à conclusão de que as almas mais avançadas são aquelas mesmas
que eram atrasadas e que conseguiram progredir. Porém, aqui tocamos na
grande questão da pluralidade das existências, como sendo o único meio
racional para resolver essa dificuldade. Entretanto, vamos desconsiderar essa
questão e considerar a alma numa única existência.
20. Eis um caso, dentre tantos que se vê, de um rapaz de 20 anos, ignorante,
com instintos viciosos, negando a Deus e a sua alma, entregando-se à
desordem e cometendo toda sorte de malvadeza. De repente, ele se encontra
num meio favorável; ele trabalha, instrui-se, pouco a pouco se corrige e
finalmente se torna piedoso. Esse não é um exemplo palpável do progresso da
alma durante a vida? Não vemos casos parecidos com esse todos os dias?
Então, com uma idade avançada, esse homem morre santamente e,
naturalmente, a sua salvação está assegurada. Mas, qual seria a sua sorte se
um acidente o tivesse levado a morrer quarenta ou cinquenta anos mais cedo?
Ele estava em todas as condições exigidas para ser condenado; ora, uma vez
condenado, todo progresso ficaria perdido. Eis, pois, um homem salvo porque
viveu por muito tempo, mas que, segundo a doutrina das penas eternas, teria
se perdido para sempre caso tivesse vivido menos — o que poderia resultar
87 – O Céu e o Inferno
de um acidente fortuito. Então, já que sua alma pôde progredir num dado
tempo, por que ela não poderia progredir no mesmo tempo depois da morte,
se uma causa independente da sua vontade a tivesse impedido de fazê-lo
durante sua vida? Por que Deus lhe recusaria tais meios? O arrependimento,
embora tardio, não deixou de vir a seu tempo. Mas se desde o instante da
morte uma condenação irremissível lhe tivesse ocorrido, então o seu
arrependimento teria sido infrutífero, pela eternidade, e sua capacidade de
progredir seria aniquilada para sempre.
21. O dogma da eternidade absoluta das penas é, portanto, incompatível com
o progresso da alma, já que impõe um obstáculo invencível. Esses dois
princípios obrigatoriamente anulam um ao outro; se um existe, o outro não
pode existir. Qual dos dois existe? A lei do progresso é patente: não é uma
teoria, mas um fato constatado pela experiência; é uma lei da natureza, lei
divina, imprescritível. Então, já que esta lei existe e que não pode se conciliar
com a outra, é porque a outra não existe. Se o dogma da eternidade das penas
fosse uma verdade, santo Agostinho, são Paulo e tantos outros jamais teriam
visto o céu, caso morressem antes do progresso que lhes trouxe a conversão.
A esta derradeira afirmação, alguém pode responder que a conversão
desses personagens santos não é um resultado do progresso da alma, mas da
graça que lhes foi concedida e pela qual foram tocados.
Mais isso é um jogo de palavras. Se esses santos praticaram o mal e mais
tarde praticaram o bem, é que eles melhoraram; logo, eles progrediram. Por
acaso Deus teria concedido a eles — por um favor especial — a graça de se
corrigirem? Por que a eles e não a outros? É sempre a doutrina dos
privilégios, incompatível com a justiça de Deus e com seu amor equânime
para com todas as suas criaturas.
Segundo a doutrina espírita, de acordo com as mesmas palavras do
Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é filho de suas
obras, durante esta vida e depois da morte; ele não deve favor nenhum: Deus
o recompensa pelos seus esforços e o pune pela sua negligência, por tanto
tempo quanto ele for negligente.
88 – Allan Kardec
A doutrina das penas eternas teve a sua época
22. A crença na eternidade dos castigos físicos prevaleceu como um temor
salutar até que os homens estivessem em condições de compreender a força
moral. Tais são as crianças que são contidas durante algum tempo pela
ameaça de certos seres quiméricos com os quais elas são intimidadas; mas
chega um momento em que o próprio raciocínio da criança faz justiça aos
contos com os quais ela foi embalada — momento em que seria absurdo
querer governá-las pelos mesmos artifícios. Se aqueles que cuidam da criança
persistirem em lhe afirmar que essas fábulas são verdades que devem ser
tomadas ao pé da letra, elas perderão a sua confiança.
Assim é como acontece hoje com a humanidade; ela saiu da infância e
avançou além dos seus limites. O homem já não é mais esse instrumento
passivo que se curva à força material, nem aquele ser crédulo que aceitava
tudo de olhos fechados.
23. A crença é um ato de entendimento e é por isso que ela não pode ser
imposta. Se, durante um determinado período da humanidade, o dogma das
penas eternas pareceu ser inofensivo, e até mesmo salutar, chegou um
momento em que ele se tornou perigoso. Com efeito, desde o instante em que
você impõe esse dogma como verdade absoluta, enquanto a própria razão o
repulsa, disso resulta necessariamente uma de duas coisas: ou o homem que
deseja crer procura uma crença mais racional, e então se afasta de você, ou ele
passa a desacreditar em tudo. É evidente — para qualquer um que tenha
estudado a questão com cuidado — que em nossos dias o dogma da
eternidade das penas tem feito mais materialistas e ateus do que todos os
filósofos.
As ideias seguem um curso incessantemente progressivo; não se pode
governar os homens a não ser seguindo esse curso. Querer pará-lo ou fazê-lo
retroceder, ou simplesmente ficar estagnado enquanto ele avança é se perder.
Seguir ou não seguir esse movimento é uma questão de vida ou de morte,
para as religiões assim como para os governos. Isso é bom? Isso é mau? Com
certeza isso é mau aos olhos daqueles que, vivendo do passado, vissem esse
89 – O Céu e o Inferno
passado escapar deles; já para quem enxerga o futuro, essa é a lei do
progresso, que é uma lei de Deus, e contra as leis de Deus toda teimosia é
inútil; lutar contra sua vontade é querer se arrebentar.
Por que então querer a todo custo sustentar uma crença que cai em
desuso e que, em definitivo, prejudica mais do que faz bem à religião? Ah, é
triste dizer, mas aqui uma questão material domina a questão religiosa. Essa
crença tem sido amplamente explorada com a ajuda do pensamento de que
com dinheiro se poderia abrir as portas do céu e se proteger do inferno. As
somas que ela tem arrecadado — e que ainda arrecada — são incalculáveis; é
o imposto adiantado pelo temor da eternidade. Esse imposto sendo
facultativo, a arrecadação é proporcional à crença; se a crença deixar de
existir, a renda será nula. A criança dá de seu bolo voluntariamente a quem
lhe promete afugentar o lobisomem; mas quando a criança não mais acredita
em lobisomem, ela guarda seu bolo.
24. Dando noções mais positivas da vida futura e provando que se pode
alcançar a salvação pelas próprias obras, a nova revelação deve encontrar
uma oposição ainda mais viva, já que ela seca uma fonte mais importante de
lucro. É assim que acontece toda vez que uma descoberta ou uma invenção
vem modificar os hábitos. Quem vive de processos velhos e dispendiosos
costuma defendê-los, e desdenham os novos, mais econômicos. Quem
acreditaria, por exemplo, que a imprensa — apesar dos serviços que prestaria
à humanidade — poderia ser aclamada pela numerosa classe dos copistas?
Ninguém, certamente; eles a amaldiçoaram. Foi assim com as máquinas, com
as ferrovias e com centenas de outras coisas.
Aos olhos dos incrédulos, o dogma das penas eternas é uma questão fútil
da qual eles riem; para os olhos do filósofo, ele tem uma gravidade social
pelos abusos que provoca. O homem verdadeiramente religioso vê a
dignidade da religião interessada na destruição desses abusos e de sua causa.
Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original
25. Aos que afirmam encontrar na Bíblia a justificativa para a eternidade das
90 – Allan Kardec
penas, podemos mostrar textos contrários que não deixam qualquer
ambiguidade. As seguintes palavras de Ezequiel são a mais explícita negação,
não somente das penas irremissíveis, mas da responsabilidade que a falta do
pai do gênero humano teria feito pesar sobre a sua raça:
1. O Senhor me falou novamente e me disse: 2. Como é que vocês se servem
dessa parábola entre vocês e que a transformaram em provérbio em Israel,
dizendo-se: Os pais comeram uvas verdes, foram os dentes dos filhos que ficaram
embotados? 3. Juro por mim mesmo — disse o Senhor Deus — que essa parábola
não passará mais entre vocês como provérbio em Israel; 4. Pois todas as almas me
pertencem; a alma do filho está comigo como a alma do pai; a alma que pecou
morrerá ela mesma.
5. Se um homem for justo, se ele agir de acordo com a equidade e a justiça; 7.
Se não entristecer nem oprimir ninguém; se ele devolver ao seu devedor o penhor
que este lhe havia dado; se não tomar nada de valor de outrem pela violência; se
ele der o seu pão a quem tem fome; se ele vestir os que estão nus; 8. Se não se
prestar à usura e não receber mais do que deu; se desviar sua mão da iniquidade e
se fizer um julgamento equânime entre dois homens que litigam entre si; 9. Se
andar no caminho dos meus preceitos e conservar minhas ordens para agir
conforme a verdade, então este homem é justo e muito certamente viverá — disse
o Senhor Deus.
10. Se este homem tem um filho que seja ladrão e que derrame sangue, ou
que cometa algumas dessas faltas; 13. Esse filho muito certamente morrerá, já que
tem praticado todas essas ações detestáveis, e seu sangue ficará sobre sua cabeça.
14. Se este homem tem um filho que, vendo todos os crimes cometidos por
seu pai, fica repleto de medo e tem o cuidado de não imitar seu pai; 17. Este não
morrerá por causa da iniquidade de seu pai, mas muito certamente viverá. 18. Seu
pai, que tinha oprimido os outros com calúnias e que tinha feito ações criminosas
no meio do seu povo, este sim morrerá por causa da sua própria iniquidade.
19. Se vocês dizem: Por que o filho não carrega a iniquidade do pai? É porque
o filho agiu segundo a equidade e a justiça; porque tem guardado todos os meus
preceitos e os tem praticado; por isso muito certamente ele viverá.
20. A alma que pecou morrerá ela mesma: O filho não carregará a
iniquidade do pai e o pai não carregará a iniquidade do filho; a justiça do justo
ficará com ele, e a impiedade do ímpio ficará com ele.
21. Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que tiver cometido, se ele
guardar todos os meus preceitos, e se ele agir segundo a equidade e a justiça, ele
certamente viverá e não morrerá. 22. Eu não me lembrarei mais de todas as
91 – O Céu e o Inferno
iniquidades que ele tiver cometido; ele viverá nas obras de justiça que tiver
praticado.
23. Será que eu quero a morte do ímpio? — disse o Senhor Deus — Não é
melhor que ele se converta e que se retire do seu mau caminho e que viva?
(Ezequiel, 18)60
Digam-lhes estas palavras: Eu juro por mim mesmo — disse o Senhor Deus
— que eu não quero a morte do ímpio, mas sim, que eu quero que o ímpio se
converta, que ele deixe o seu mau caminho e que viva. (Ezequiel, 33: 11)
60 No original, equivocadamente consta a referência para o capítulo 28 (XXVIII), quando de fato é o
décimo oitavo capítulo, com base na Bíblia de Sacy, que foi a versão utilizada por Allan Kardec. — N. T.
92 – Allan Kardec
CAPÍTULO VII
AS PENAS FUTURAS
SEGUNDO O ESPIRITISMO
A carne é fraca –
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras
– Código penal da vida futura
A carne é fraca
Há inclinações viciosas que são evidentemente inerentes ao Espírito,
porque se prendem mais à moral do que ao físico; outras parecem ser mais a
consequência do organismo e, por esse motivo, acredita-se que ele seja menos
responsável: tais são as predisposições à cólera, à frouxidão, à sensualidade
etc.
Hoje, está plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os
órgãos cerebrais, correspondentes às diversas aptidões, devem o seu
desenvolvimento à atividade do Espírito; que esse desenvolvimento é antes
um efeito e não uma causa. Não é que um homem seja músico porque tem o
talento da música, mas sim que ele tem o talento da música porque o seu
Espírito é musicista.
Se a atividade do Espírito reage sobre o cérebro, deve reagir igualmente
sobre as outras partes do organismo. Assim sendo, o Espírito é o artífice do
seu próprio corpo, que ele modela — por assim dizer — a fim de adequá-lo às
suas necessidades e à manifestação de suas tendências. Dado isso, a perfeição
das raças avançadas não seria o produto de criações distintas, mas sim o
93 – O Céu e o Inferno
resultado do trabalho do Espírito, que aperfeiçoa o seu instrumento à medida
que suas faculdades aumentam.
Por uma consequência natural desse princípio, as disposições morais do
Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor
atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bílis ou de
quaisquer outros fluidos. É assim, por exemplo, que o guloso sente a saliva vir
à boca ao ver um prato apetitoso. Não é a comida que pode superexcitar o
órgão do paladar, já que não há contato; então, é o Espírito, cuja sensibilidade
foi despertada, que age pelo pensamento sobre aquele órgão, enquanto em
outra pessoa a visão desse mesmo prato não produz qualquer efeito. É ainda
pela mesma razão que uma pessoa sensível facilmente derrama lágrimas: não
é a abundância de lágrimas que dá a sensibilidade ao Espírito, mas é a
sensibilidade do Espírito que provoca a secreção abundante de lágrimas; sob
a influência da sensibilidade, o organismo se adaptou a essa disposição
normal do Espírito, como se adaptou à disposição do Espírito glutão.
Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um Espírito irascível
deve levar ao temperamento bilioso;61 daí segue que uma pessoa não é
colérica porque é biliosa, mas que é biliosa porque é colérica. O mesmo ocorre
com todas as outras disposições instintivas: um Espírito frouxo e indolente
deixará o organismo num estado de atonia em relação ao seu caráter, ao
passo que, se for ativo e enérgico, ele dará ao seu sangue e aos seus nervos
qualidades totalmente diferentes. A ação do Espírito sobre o físico é tão
evidente que muitas vezes se vê graves desordens orgânicas se produzirem
por efeito de violentas comoções morais. A expressão comum: A emoção lhe
transtornou o sangue, não é assim tão fora de sentido quanto se poderia
pensar. Ora, o que poderia transtornar o sangue, senão as disposições morais
do Espírito?
Então, pode-se admitir, ao menos em parte, que o temperamento é
determinado pela natureza do Espírito, que é a causa e não o efeito. Dizemos
61 Esta associação da bile ao comportamento raivoso vem da “teoria humoral” de Hipócrates (séc. IV
a.C.), o pai da medicina, classificando os temperamentos predominantes em quatro tipos, cada um
resultante de uma substância orgânica: colérico, vindo a bile amarela; melancólico, da bile negra;
violento, do sangue; e paciente, vindo da fleuma. Segundo esta tese, as enfermidades resultam do
desequilíbrio dessas substâncias. — N. T.
94 – Allan Kardec
em parte porque há casos em que o físico influi evidentemente sobre o moral:
é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa
externa, acidental, independente do Espírito — como a temperatura, o clima,
os defeitos físicos congênitos, um mal-estar passageiro etc. O humor do
Espírito pode então ser afetado nas suas manifestações pelo estado
patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada.
Desculpar-se dos seus malfeitos pela fraqueza da carne não é, portanto,
mais do que um subterfúgio para escapar da responsabilidade. A carne só é
fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão e deixa ao Espírito a
responsabilidade de todos os seus atos. A carne — que não tem pensamento e
nem vontade — jamais pode prevalecer sobre o Espírito, que é o ser pensante
e desejoso; é o Espírito quem dá à carne as qualidades correspondentes aos
seus instintos, como um artista imprime à sua obra material a marca de sua
genialidade. Liberto dos instintos da bestialidade, o Espírito modela um corpo
que deixa de ser um tirano para as suas aspirações rumo à espiritualidade do
seu ser; é a partir daí que o homem come para viver, porque viver é uma
necessidade, não mais vivendo para comer.
Em suma, a responsabilidade moral dos atos da vida fica intacta; porém
a razão nos diz que as consequências dessa responsabilidade devem ser
proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito: quanto mais
esclarecido ele for, menos ele será desculpável, porque com a inteligência e o
senso moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.
Essa lei explica o insucesso da medicina em certos casos. Já que o
temperamento é um efeito e não uma causa, os esforços promovidos para
modificá-lo são necessariamente paralisados pelas disposições morais do
Espírito — que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação
terapêutica. Logo, é sobre a causa primeira que se deve agir. Deem — se for
possível — coragem ao medroso, e vocês verão cessar os efeitos fisiológicos
do medo.
Isto prova uma vez mais a necessidade, para a arte de curar, de levar em
conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo. (Revista espírita,
março de 1869: ‘A carne é fraca’.)
95 – O Céu e o Inferno
Fontes da doutrina espírita sobre as penas futuras
A Doutrina Espírita não está baseada sobre uma teoria preconcebida
quando se refere às penas futuras, assim como aos demais assuntos; não é um
sistema substituindo outro sistema: em todas as coisas, ela se apoia nas
observações, e é isso que faz a sua autoridade. Ninguém imaginava, pois, que
as almas após a morte deviam se encontrar em tal ou qual situação; são os
próprios seres que deixaram a Terra que vêm hoje nos iniciar nos mistérios
da vida futura, descrevendo sua posição feliz ou infeliz, suas impressões e sua
transformação desde a morte do corpo; numa palavra, sobre esta questão,
eles vêm completar o ensinamento do Cristo.
Não se trata aqui da relação de um único Espírito, que somente poderia
ver as coisas do seu ponto de vista, sob um único aspecto, ou ainda ser
dominado pelos preconceitos terrestres; nem se trata de uma revelação feita
a um só indivíduo, que poderia se deixar ser enganado pelas aparências, nem
de uma visão extática que se presta às ilusões e que com frequência não
passa de reflexo de uma imaginação exaltada;62 mas se trata de inúmeros
exemplos fornecidos por todas as categorias de Espíritos, desde a mais
elevada até a mais baixa da escala, através da ajuda de incontáveis
intermediários disseminados em todos os pontos da Terra, de tal sorte que a
revelação não seja privilégio de ninguém, que qualquer pessoa possa ver e
conferir, e que ninguém seja obrigado a crer pela fé dos outros.
Código penal da vida futura
O Espiritismo não vem, pois, da sua autoridade particular, formular um
código de fantasia; a sua lei, no que toca ao futuro da alma, deduzida da
observação dos fatos, pode ser resumida nos seguintes pontos:
1º) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as
imperfeições das quais ela não se depurou durante a vida corpórea. O
62 Veja lá atrás o capítulo VI, item 7, e em O Livro dos Espíritos, as questões 443 e 444.
96 – Allan Kardec
seu estado — feliz ou infeliz — é inerente ao grau de sua depuração ou
de suas imperfeições.
2º) A felicidade perfeita está atrelada à perfeição, quer dizer, à depuração
completa do Espírito. Toda imperfeição é, ao mesmo tempo, causa de
sofrimento e de privação de prazer, do mesmo modo que toda qualidade
adquirida é fonte de prazer e de atenuação dos sofrimentos.
3º) Não há uma única imperfeição da alma que não traga consigo suas
consequências funestas e inevitáveis, assim como não há uma só
qualidade boa que não seja uma fonte de satisfação. A soma das
penas é assim proporcional à soma das imperfeições, da mesma maneira
que a dos prazeres está condicionada à soma das qualidades.
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que
aquela que só tem três ou quatro; quando dessas dez imperfeições não
lhe restar mais do que um quarto ou a metade, ela sofrerá menos, e
quando não lhe restar mais nenhuma, ela não sofrerá mais e será
perfeitamente ditosa. De forma igual, na Terra, quem tem muitas
doenças sofre mais do que quem tem apenas uma ou nenhuma. Pela
mesma razão, a alma que possui dez qualidades tem mais satisfações do
que aquela que tem menos qualidades.
4º) Em virtude da lei do progresso, toda alma tendo a possibilidade de
adquirir o bem que lhe falta e de se despojar do que tem de mau,
conforme seus esforços e sua vontade, disso resulta que o porvir não
está fechado a nenhuma criatura. Deus não repudia nenhum de seus
filhos; ele os recebe em seu seio à medida que eles atingem a perfeição,
deixando assim a cada qual o mérito das suas obras.
5º) Estando o sofrimento atrelado à imperfeição, como a satisfação à
perfeição, a alma carrega em si mesma seu próprio castigo por onde
quer que ela esteja; não há para isso a necessidade de um lugar
circunscrito. O inferno está então por toda parte onde haja almas
sofredoras, como o céu está por toda parte onde existam almas felizes.
6º) O bem e o mal que fazemos são o produto das boas e más qualidades que
possuímos. Não fazer o bem que podemos fazer é, portanto, o resultado
97 – O Céu e o Inferno
de uma imperfeição. Já que toda imperfeição é uma fonte de sofrimento,
o Espírito deve sofrer não somente por todo o mal que fez, mas por todo
o bem que poderia ter feito e que não fez durante sua vida terrena.
7º) O Espírito sofre pelo mal que ele mesmo fez, para que, sua atenção
estando constantemente voltada para as consequências desse mal,
ele compreenda melhor os seus inconvenientes e esteja motivado a se
corrigir.
8º) A justiça de Deus sendo infinita, é feita uma conta rigorosa do bem e do
mal; se não há uma única má ação e nem um só mau pensamento que
não tenha consequências fatais, então não há uma única boa ação e nem
um só bom movimento da alma — nem o menor mérito, em resumo —
que seja perdido, mesmo para os mais perversos, já que isso significa
um começo de progresso.
9º) Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que
deverá ser paga; se não for paga numa existência, será paga na próxima
ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias uma com as
outras. Aquele que se quita na presente existência não terá que pagar
uma segunda vez.
10º) O Espírito sofre a penalidade das suas imperfeições — seja no mundo
espiritual, seja no mundo corpóreo. Todas as misérias, todas as
vicissitudes que experimentamos na vida carnal são decorrentes das
nossas imperfeições — expiações de faltas cometidas, ou na presente
existência ou nas precedentes.
Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes que
experimentamos na vida corporal, podemos julgar a natureza das faltas
cometidas numa existência anterior e as imperfeições que foram a sua
causa.
11º) A expiação varia conforme a natureza e a gravidade da falta; assim, uma
mesma falta pode ocasionar diferentes expiações, de acordo com as
circunstâncias atenuantes ou agravantes nas quais ela foi cometida.
12º) Com relação à natureza e a duração do castigo, não há qualquer regra
98 – Allan Kardec
absoluta e uniforme; a única lei geral é que toda falta recebe sua punição
e toda boa ação recebe sua recompensa, conforme o seu valor.
13º) A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito
culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é prescrita
contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é um
melhoramento sério, efetivo e um retorno sincero ao bem.
Assim sendo, o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte; ele
pode prolongar seus sofrimentos pela sua teimosia no mal, e pode
suavizá-los ou abreviá-los pelos esforços para fazer o bem.
Uma condenação por tempo qualquer determinado teria o duplo
inconveniente: ou continuar a ferir o Espírito que já tivesse melhorado
ou cessar o sofrimento quando o Espírito ainda estivesse no mal. Deus,
que é justo, pune o mal enquanto o mal existe, e cessa de punir quando
o mal não existe mais;63 ou, se assim preferirem, o mal moral sendo por
si mesmo uma causa de sofrimento, o suplício dura pelo tempo que o
mal existir; sua intensidade diminui à medida que o mal se enfraquece.
14º) Estando a duração do castigo subordinada ao melhoramento, disso
resulta que o Espírito culpado que nunca se melhorasse sofreria sempre,
e que, para ele, a pena seria eterna.
15º) Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não ver o
término da sua situação e acreditar que eles sofrerão para sempre. Isso
para eles é um castigo que lhes parece ser eterno.64
16º) O arrependimento é o primeiro passo rumo ao melhoramento, mas só
ele não basta; é preciso ainda a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições
necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza as dores da expiação, o que lhe dá a
63 Veja lá atrás no capítulo VI, item 25, a citação de Ezequiel.
64 Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se: o limite das neves perpétuas; o gelo eterno dos polos;
também se diz: o secretário perpétuo da Academia, o que não quer dizer que isso seja para a
perpetuidade, mas somente por um tempo ilimitado. Eterno e perpétuo são então empregados no
sentido de indeterminado. Nesta acepção, pode-se dizer que as sentenças são eternas, se entendermos
que elas não têm uma duração limitada; são eternas para o Espírito que não vê o fim delas.
99 – O Céu e o Inferno
esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas somente a
reparação pode anular o efeito, destruindo-lhe a causa; o perdão seria
uma graça, e não uma anulação.
17º) O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e em qualquer
tempo; se for tardio, o culpado sofrerá por muito mais tempo.
A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a
consequência da falta cometida, seja na vida atual, seja na vida espiritual,
após a morte, seja numa nova existência corporal, até que os últimos
traços da falta sejam apagados.
A reparação consiste em fazer o bem a quem foi feito o mal.
Aquele que não repara os seus erros nesta vida — por impossibilidade
ou má vontade — ficará numa existência posterior em contato com as
mesmas pessoas que tenham do que se queixar dele, e nas condições por
ele escolhidas, de maneira a poder lhes demonstrar o seu devotamento e
lhes fazer tanto bem quanto lhes tenha feito mal.
Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo; nesse
caso, a reparação se realiza assim: fazendo o que se devia fazer e não foi
feito, cumprindo os deveres que negligenciou ou incompreendeu, as
missões em que fracassou; praticando o bem ao contrário do que fez de
mal: isto é, tornando-se humilde se foi orgulhoso, dócil se foi duro,
caridoso se foi egoísta, benevolente se foi malvado, laborioso se foi
preguiçoso, útil se foi inútil, prudente se foi dissoluto, de bom exemplo
se deu maus exemplos etc. É assim que o Espírito progride, tirando
proveito do passado.65
65 A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça que pode ser considerada como a
verdadeira lei da reabilitação moral dos Espíritos. É uma doutrina que nenhuma religião ainda
proclamou.
Mas algumas pessoas a rejeitam, porque achariam mais cômodo poder apagar seus malfeitos por
um simples arrependimento, que só custa palavras, e com a ajuda de algumas fórmulas; deixem que elas
pensem que estão quites: mais tarde elas verão se isso lhes basta. Poderíamos lhes perguntar: será que
esse princípio não é consagrado pela lei humana? Será que a justiça de Deus pode ser inferior à dos
homens? Se elas se dessem por satisfeitas com um indivíduo que, tendo-os arruinado por abuso de
confiança, se limitasse a dizer-lhes que ele se arrepende infinitamente. Por que elas se esquivariam de
uma obrigação que todo homem honesto tem como um dever a cumprir, na medida de suas forças?
Quando essa perspectiva de reparação for inculcada na crença das multidões, ela será um freio
muito mais poderoso do que o do inferno e das penas eternas, porque toca no cotidiano da vida, e o
homem compreenderá a razão de ser das circunstâncias dolorosas em que se encontra colocado.
100 – Allan Kardec
18º) Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, dos quais
eles perturbariam a harmonia; eles ficam nos mundos inferiores, onde
expiam suas faltas pelas tribulações da vida, e se purificam de suas
imperfeições até que mereçam encarnar nos mundos mais avançados
moral e fisicamente.
Se fosse possível conceber um lugar de castigo circunscrito, esse
lugar seria nos mundos de expiação, pois é em torno desses mundos que
pululam Espíritos imperfeitos desencarnados, esperando uma nova
existência que, ao lhes permitir reparar o mal que fizeram, ajudaria no
seu avanço.
19º) Como o Espírito sempre tem o seu livre-arbítrio, seu melhoramento
algumas vezes é lento e sua obstinação no mal é mais tenaz. Nisso ele
pode persistir anos e séculos; mas sempre chega um momento em que a
sua teimosia em desafiar a justiça de Deus cede diante do sofrimento e
que, malgrado sua fanfarrice, ele reconhece a força superior que o
domina. Desde que se manifestem nele os primeiros clarões de
arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança.
Nenhum Espírito está na condição de não se melhorar jamais; de
outro modo, ele estaria fatalmente devotado a uma eterna inferioridade
e escaparia da lei do progresso, que rege providencialmente todas as
criaturas.
20º) Quaisquer que sejam a inferioridade e a perversidade dos Espíritos,
Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo guardião que vela por
eles, que observa os movimentos da sua alma e que se esforça para lhes
suscitar bons pensamentos, desejo de progredir e de reparar, numa nova
existência, o mal que fizeram. Entretanto, o guia protetor age na maioria
das vezes de uma maneira oculta, sem exercer qualquer pressão. O
Espírito se melhora pelo ato da sua própria vontade, e não por um
constrangimento qualquer. Ele agirá bem ou mal em virtude do seu
livre-arbítrio, mas sem ser fatalmente levado numa ou noutra direção.
Se fizer o mal, sofrerá as consequências tanto tempo quanto permanecer
no mau caminho; desde que dê um passo em direção ao bem, ele sentirá
imediatamente os seus efeitos.
101 – O Céu e o Inferno
Observação — Seria um erro crer que, em virtude da lei de
progresso, a certeza de chegar mais cedo ou mais tarde até a perfeição e a
felicidade pode ser um encorajamento a persistir no mal, contanto que se
arrependa depois: primeiro porque o Espírito inferior não vê o término da
sua situação; em segundo lugar, porque o Espírito, sendo o artesão da sua
própria infelicidade, acaba por compreender que depende dele fazê-la
cessar, e que quanto mais tempo ele permanecer no mal, por mais tempo
será infeliz; que o seu sofrimento durará para sempre se ele mesmo não
lhe der um encerramento. Seria então de sua parte um cálculo errado, do
qual ele seria o primeiro a ser enganado. Mas, ao contrário, segundo o
dogma das penas irremissíveis, se toda esperança lhe estivesse fechada
para sempre, então ele não teria nenhum interesse em converter-se ao
bem, que para ele seria inútil.
Diante dessa lei desaba também a objeção tirada da presciência
divina. Ao criar uma alma, Deus realmente sabe se ela — em virtude do seu
livre-arbítrio — seguirá o bom caminho ou o mau caminho; ele sabe que a
alma será punida se fizer o mal; mas sabe igualmente que esse castigo
temporário é um meio de fazê-la compreender seu erro e de conduzi-la ao
bom caminho, aonde ela chegará mais cedo ou mais tarde. Segundo a
doutrina das penas eternas, Deus conhece a alma que fracassará e que ela
está previamente condenada a torturas sem fim.
21º) Cada pessoa só é responsável pelas suas faltas pessoais; ninguém
carrega a culpa pelos erros dos outros, a menos que tenha sido a causa
desses erros — quer seja provocando-os pelo exemplo, quer seja não os
impedindo quando poderia ter feito isso.
É assim, por exemplo, que o suicida sempre é punido; mas aquele
que, por sua dureza, leva um indivíduo ao desespero e daí a se suicidar,
esse sofre uma pena muito maior.
22º) Conquanto a diversidade de punições seja infinita, existem algumas que
são inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo
os detalhes, são praticamente idênticas.
A punição mais imediata, sobretudo para as pessoas que sejam
apegadas à vida material em detrimento do progresso espiritual,
102 – Allan Kardec
consiste na lentidão da separação entre a alma e o corpo, nas angústias
que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração da
perturbação que pode durar meses e anos. Mas, ao contrário, naquelas
pessoas cuja consciência é pura, que desde quando estavam encarnadas
já se identificavam com a vida espiritual e eram desapegadas das coisas
materiais, a separação é rápida e sem abalos, o despertar é pacífico e a
perturbação é quase nula.
23º) Um fenômeno muito frequente entre os Espíritos de uma determinada
inferioridade moral consiste em acreditarem que ainda estejam vivos, e
essa ilusão pode se prolongar por anos, durante os quais eles
experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e todas as
perplexidades da vida.
24º) Para um criminoso, a presença incessante de suas vítimas e das
circunstâncias do crime é um suplício cruel.
25º) Alguns Espíritos estão mergulhados em densas trevas; outros, num
isolamento absoluto no meio do Espaço, atormentados pela ignorância
de sua posição e da sua sorte. Os mais culpados sofrem torturas bem
mais pungentes, porque eles não veem o término delas. Muitos ficam
privados de ver seus entes queridos. Todos, geralmente, suportam com
uma intensidade relativa os males, as dores e as carências que causaram
aos outros, até que o arrependimento e o desejo de reparação venham
lhes trazer um alívio, fazendo-os perceber a possibilidade de, por eles
mesmos, pôr um fim a essa situação.
26º) É um suplício para o orgulhoso ver acima dele, na glória, rodeados e
celebrados, aqueles que ele tinha desprezado na Terra, enquanto ele é
relegado às últimas fileiras. Para o hipócrita, o suplício é se ver
desmascarado pela luz que põe a nu os seus pensamentos mais secretos,
que todo mundo pode ler: não há como ele se esconder ou dissimular. O
suplício para o sensualista é ver todas as tentações, todos os desejos,
sem poder saciá-los. Para o avarento, é ver o seu ouro ser dilapidado e
não poder retê-lo. Para o egoísta, é ser abandonado por todo mundo e
sofrer tudo o que os outros sofreram por causa dele: ele terá sede, mas
103 – O Céu e o Inferno
ninguém lhe dará de beber; terá fome, mas ninguém lhe dará de comer;
nenhuma mão amiga vem apertar a sua, nenhuma voz compassiva vem
consolá-lo; ele só se preocupou consigo durante a vida, então
ninguém pensa nele e nem tem pena dele após a sua morte.
27º) O meio de evitar ou de atenuar as consequências das próprias faltas na
vida futura é livrar-se delas o máximo possível na vida presente; é
reparar o mal, para não ter que repará-lo mais tarde de uma maneira
mais terrível. Quanto mais tardarmos a nos desfazer dos nossos defeitos,
mais dolorosas serão suas consequências e mais rigorosa será a
reparação que devemos realizar.
28º) A situação do Espírito, desde a sua entrada no mundo espiritual, é
aquela que ele mesmo preparou para si na vida corporal. Mais tarde,
outra encarnação lhe será concedida para a expiação e a reparação
através de novas provas, e disso ele tira um maior ou menor proveito, de
acordo com o seu livre-arbítrio; se não a aproveitar, será uma tarefa a
ser recomeçada cada vez em condições mais penosas, de forma que
aquele que sofre bastante na Terra pode dizer a si mesmo que ele
tinha muito a expiar; aqueles que gozam de uma felicidade aparente,
apesar dos seus vícios e de suas inutilidades, certamente pagarão muito
caro por isso numa existência ulterior. Foi nesse sentido que Jesus disse:
“Bem-aventurados os aflitos, pois eles serão consolados.” (O evangelho
segundo o Espiritismo, cap. V.)
29º) A misericórdia de Deus é infinita, sem dúvidas, mas não é cega. O
culpado que é perdoado não fica exonerado, e enquanto ele não tiver
satisfeito à justiça, continua sofrendo as consequências de suas faltas.
Por infinita misericórdia devemos entender que Deus não é inexorável, e
que sempre deixa aberta a porta do retorno ao bem.
30º) Como as punições são temporárias e subordinadas ao arrependimento
e à reparação, que dependem da livre vontade humana, essas punições
são ao mesmo tempo castigos e remédios que devem ajudar a curar as
chagas do mal. Os Espíritos em punição são, portanto, não como galés
condenados ao tempo, mas como enfermos no hospital, que padecem da
104 – Allan Kardec
doença que frequentemente vem da sua própria culpa e dos meios
curativos dolorosos de que ela requer, mas que têm esperança de cura, e
que se curam tanto mais rapidamente quanto mais eles seguem
exatamente as prescrições do médico que cuida deles com atenção. Se os
Espíritos prolongarem seus sofrimentos por descuido próprio, o médico
não terá nada a ver com isso.
31º) Às penas que o Espírito sofre na vida espiritual vêm se juntar aquelas
da vida corpórea, que são as consequências das imperfeições humanas,
das suas paixões, do mau emprego das suas faculdades e a expiação de
suas falhas presentes e passadas. É na vida corpórea que o Espírito
conserta o mal de suas existências anteriores e que ele põe em prática as
resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e
vicissitudes que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, mas que
são todas justas, já que elas são aquisições do passado e que servem para
o nosso adiantamento.66
32º) Pergunta-se: Deus não daria uma prova de maior amor por suas
criaturas se as tivesse criado infalíveis e, por conseguinte, isentas das
vicissitudes relativas à imperfeição?
Para isso, seria preciso que ele criasse seres perfeitos, nada tendo
a adquirir, nem em conhecimentos e nem em moralidade. Sem nenhuma
dúvida, ele poderia fazer isso; se não o fez, é que em sua sabedoria ele
quis que o progresso fosse a lei geral.
Os homens são imperfeitos e, como tais, sujeitos a vicissitudes
mais ou menos penosas; esse é um fato que devemos aceitar, já que
existe. Daí a inferir que Deus nem é bom e nem justo seria uma revolta
contra a ele.
Haveria uma injustiça se ele tivesse criado seres privilegiados,
sendo uns mais favorecidos do que outros, gozando sem esforço da
felicidade que outros só conseguem com sacrifício, ou que jamais
conseguem alcançar. Mas onde a sua justiça reluz é na igualdade
66 Veja lá atrás o cap. V, Purgatório, item 3 e seguintes e, adiante, na 2ª Parte: Exemplos, o cap. VIII:
Expiações terrestres. Veja também O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V: Bem-aventurados os
aflitos.
105 – O Céu e o Inferno
absoluta que preside à criação de todos os Espíritos; todos têm um
mesmo ponto de partida; sem ninguém que, desde sua formação, seja
mais bem dotado do que os outros; ninguém cuja marcha ascendente
seja facilitada por exceção: aqueles que já alcançaram o objetivo
passaram — como os demais — pela fileira das provações e da
inferioridade.
Admitido isso, o que há de mais justo do que a liberdade de ação
concedida a cada um? A rota da felicidade está aberta a todos; o objetivo
é o mesmo para todos; as condições para alcançá-la são as mesmas para
todos; a lei gravada em todas as consciências é ensinada a todos. Deus
fez da felicidade o prêmio do trabalho, e não do favor, para que cada
um tivesse o seu mérito; cada qual é livre para trabalhar ou para não
fazer nada por seu adiantamento; aquele que trabalha bastante e rápido
é recompensado mais cedo; quem se perde no caminho ou desperdiça
seu tempo retarda sua chegada e não pode reclamar senão de si mesmo.
O bem e o mal são voluntários e facultativos; sendo livre, o homem não é
fatalmente levado nem para um, nem para outro.
33º) Apesar da diversidade de gêneros e dos graus de sofrimentos dos
Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode ser resumido
nestes três princípios:
• O sofrimento é inerente à imperfeição.
• Toda imperfeição, e toda falta que dela resulta, traz consigo seu
próprio castigo, pelas suas consequências naturais e inevitáveis,
assim como a doença é o resultado dos excessos, como o tédio é o da
ociosidade, sem que seja necessária uma condenação especial para
cada falta ou cada indivíduo.
• Toda pessoa, podendo se livrar das próprias imperfeições através da
sua vontade, pode se poupar dos males que delas resultam e assim
assegurar a sua felicidade futura.
Esta é a lei da justiça divina: a cada um segundo as suas obras, tanto no
céu como na terra.
106 – Allan Kardec
CAPÍTULO VIII
OS ANJOS
Os anjos segundo a Igreja – Refutação –
Os anjos segundo o Espiritismo
Os anjos segundo a Igreja
1. Todas as religiões têm tido — sob diversos nomes — seus anjos, quer dizer,
seres superiores à humanidade, intermediários entre Deus e os homens. O
materialismo, negando toda a existência espiritual fora da vida orgânica,
naturalmente classificou os anjos entre as ficções e as alegorias. A crença nos
anjos faz parte essencial dos dogmas da Igreja; eis como ela os define:67
2. “Acreditamos firmemente — diz um concílio geral e ecumênico68 — que só há
um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos, tirou do
nada ambas as criaturas em conjunto: a espiritual e a corporal, a angélica e a
mundana, e em seguida formou, como criatura mediana entre as duas: a
natureza humana, composta de corpo e espírito.
“Tal é, segundo a lei, o plano divino na obra da criação; plano majestoso e
completo, como convinha à eterna sabedoria. Assim concebido, ele oferece aos
nossos pensamentos o ser em todos os graus e em todas as condições. Na esfera
mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais; na última
classe, a existência e a vida puramente materiais, e no meio que as separa, uma
união maravilhosa das duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao
67 Nós tomamos emprestado este resumo da carta pastoral de Monsenhor Gousset, cardeal-arcebispo de
Reims, para a Quaresma de 1864. Portanto, podemos considerá-lo, assim como o dos demônios —
extraído da mesma fonte e citado no próximo capítulo — como a última expressão do dogma da Igreja
sobre este ponto.
68 Concílio de Latrão.
107 – O Céu e o Inferno
espírito inteligente e ao corpo organizado.
“Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível; mas ela é limitada
nas suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que
pode haver outros seres simples como ela, e superiores por suas qualidades e
privilégios. Ela é grande e nobre, mas está associada à matéria, servida por
frágeis órgãos, limitada na sua ação e no seu poder. Por que não haveria outras
naturezas ainda mais nobres, libertas dessa escravidão e desses entraves,
dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável? Antes que Deus
tivesse colocado o homem na Terra para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, não teria
ele já chamado outras criaturas para compor a sua corte celeste e adorá-lo na
morada de sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem o tributo de
honra e a homenagem deste Universo; será que é de se admirar que ele receba
das mãos dos anjos o incenso e as orações do homem? Se, pois, os anjos não
existissem, a grande obra do Criador não teria o coroamento e a perfeição que
lhe cabia; este mundo, que atesta a sua onipotência, não seria mais a obra-prima
da sabedoria; até a nossa razão, embora fraca e débil, poderia facilmente
conceber um Deus mais completo e pleno.
“Em cada página dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamentos se
faz menção dessas inteligências sublimes, nas invocações piedosas ou nas
referências históricas. A intervenção dos anjos aparece claramente na vida dos
patriarcas e dos profetas. Deus se serve do ministério deles, ora para emitir suas
vontades, ora para anunciar eventos futuros; ele quase sempre faz dos anjos os
órgãos de sua justiça ou da sua misericórdia. A presença deles mescla-se com as
diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador; a sua
lembrança é inseparável da dos grandes homens e dos fatos mais importantes
da antiguidade religiosa. Ela se encontra até mesmo no seio do politeísmo, e nas
fábulas da mitologia, porque a crença em questão é tão antiga e universal
quanto o mundo; o culto que os pagãos prestavam aos bons e aos maus gênios
não passava de uma falsa aplicação da verdade, de um resto degenerado do
dogma primitivo.
“As palavras do santo concílio de Latrão contêm uma distinção
fundamental entre os anjos e os homens. Elas nos ensinam que os primeiros são
Espíritos puros, ao passo que estes outros se compõem de um corpo e de uma
alma; isto é, que a natureza angélica se sustenta por si mesma, não só sem
mistura como também sem associação real possível com a matéria, por mais
leve e sutil que se suponha; enquanto isso, a nossa alma, igualmente espiritual,
108 – Allan Kardec
está associada ao corpo, de maneira a formar com ele uma só e a mesma pessoa,
e que tal é essencialmente a sua destinação.
“Enquanto dura essa união tão íntima da alma com o corpo, essas duas
substâncias têm uma vida comum e exercem uma sobre a outra uma influência
recíproca; a alma não pode se libertar inteiramente da condição imperfeita que
dela resulta: suas ideias lhe chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos
externos e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Daí vem que ela
mesma não pode se contemplar, e que ela não pode conceber Deus e os anjos
sem lhes supor alguma forma visível e palpável. Eis por que os anjos, para se
manifestarem aos santos e aos profetas tiveram que recorrer a formas
corporais; mas essas formas não passavam de corpos espaciais que eles
movimentavam sem se identificarem com eles, ou de atributos simbólicos
relacionados com a missão da qual eles estavam encarregados.
“Seu ser e seus movimentos não estão localizados e circunscritos num
ponto fixo e limitado do espaço. Não estando ligados a corpo algum, eles não
podem ser detidos nem limitados, como nós somos, por outros corpos; eles não
ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum vazio; mas assim como a nossa
alma está totalmente no nosso corpo e em cada uma de suas partes, assim
também os anjos estão inteiramente, e quase que simultaneamente, em todos os
pontos e em todas as partes do mundo. Mais rápidos do que o pensamento, eles
podem estar em toda parte num piscar de olhos e aí operar por si mesmos, sem
outros obstáculos aos seus desígnios além da vontade de Deus e da resistência
da liberdade humana.
“Enquanto estamos limitados a ver apenas pouco a pouco, e até uma certa
medida, as coisas que estão fora de nós, e enquanto as verdades de ordem
sobrenatural nos aparecem como em enigma e num espelho, conforme a
expressão do apóstolo são Paulo, os anjos veem sem esforço o que lhes importa
saber, e eles estão sempre em relação imediata com o objeto de seu pensamento.
Seus conhecimentos não são o resultado da indução e do raciocínio, mas sim
dessa intuição clara e profunda que abrange conjuntamente o gênero e as
espécies que deles derivam, os princípios e as consequências decorrentes disso.
“A distância das épocas, a diferença dos lugares e a multiplicidade dos
objetos não podem produzir nenhuma confusão no espírito deles.
“Sendo infinita, a essência divina é incompreensível; ela tem mistérios e
profundezas que os anjos não podem penetrar. Os desígnios particulares da
Providência estão ocultos para eles, mas lhes desvenda os segredos quando ela
109 – O Céu e o Inferno
os encarrega, em certas circunstâncias, de anunciarem esses desígnios aos
homens.
“As comunicações de Deus aos anjos, e dos anjos entre si, não se fazem
como entre nós, por meio de sons articulados e de outros sinais sensíveis. As
inteligências puras não necessitam nem de olhos para ver nem de ouvidos para
ouvir; elas sequer possuem o órgão da voz para manifestar seus pensamentos;
esse intermediário habitual de nossos relacionamentos não lhes é necessário,
pois essas inteligências comunicam seus sentimentos de uma maneira peculiar e
que é toda espiritual. Para se compreenderem, basta-lhes querer.
“Só Deus conhece a quantidade de anjos. Este número, sem dúvidas, não é
infinito e nem poderia ser; porém, segundo os autores sagrados e os santos
doutores, é bastante considerável e verdadeiramente prodigioso. Se é natural
proporcionar a quantidade de habitantes de uma cidade à sua grandeza e à sua
extensão, sendo a Terra apenas um átomo em comparação ao firmamento e às
imensas regiões do espaço, é preciso concluir daí que o número de habitantes do
céu e do ar é muito maior que o dos homens.
“Posto que a majestade dos reis toma emprestado seu esplendor do
número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servos, o que seria mais
apropriado para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que esta
multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a terra, o mar e o abismo,
além da dignidade daqueles que permanecem constantemente prostrados ou
em pé diante de seu trono?
“Os pais da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos são
distribuídos em três grandes hierarquias, ou principados, e cada hierarquia em
três companhias, ou coros.
“Os anjos da primeira e mais alta hierarquia são designados de acordo com
as funções que eles exercem no céu. Uns são chamados Serafins, por serem
como que abrasados perante Deus pelos ardores da caridade; outros são
Querubins, porque são um reflexo luminoso da sua sabedoria; os demais são os
Tronos, porque proclamam sua grandeza e fazem resplandecer seu brilho.
“Aqueles da segunda hierarquia recebem seus nomes das atividades que
lhes são atribuídas no governo geral do Universo; são eles: as Dominações, os
que determinam aos anjos de ordens inferiores suas missões e seus deveres; as
Virtudes, que realizam os prodígios solicitados em favor dos grandes interesses
da Igreja e do gênero humano; as Potências, que protegem por sua força e sua
vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.
110 – Allan Kardec
“Os da terceira hierarquia compartilham a direção das sociedades e das
pessoas; são eles: os Principados, prepostos dos reinos, das províncias e das
dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância; e os
Anjos guardiões, aqueles que acompanham cada um de nós a velar pela nossa
segurança e nossa santificação.”
Refutação
3. O princípio geral que ressalta dessa doutrina é que os anjos são seres
puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, criaturas
privilegiadas e devotadas à felicidade suprema e eterna desde a sua
formação; dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e de todos
os conhecimentos, sem terem feito nada para adquiri-las. Os anjos estão na
primeira faixa da obra da criação; na última faixa, a vida puramente material,
e entre as duas está a humanidade, formada de almas, seres espirituais
inferiores aos anjos, unidos aos corpos materiais.
Várias dificuldades capitais resultam desse sistema. Para começar, qual é
essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a matéria
bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Será que isso quer dizer se
referir às plantas e aos animais? Então isso seria uma quarta ordem na
criação, pois não se pode negar que haja no animal inteligente algo mais do
que na planta, e nesta, algo mais do que numa pedra. Quanto à alma humana,
que é a transição, ela está unida diretamente a um corpo que é apenas matéria
bruta, porque, sem alma, esse corpo não tem mais vida do que um punhado de
terra.
Essa divisão evidentemente carece de clareza e não está de acordo com a
observação; ela se assemelha à teoria dos quatro elementos, tombada diante
dos progressos da ciência. Admitamos, portanto estes três termos: a criatura
espiritual, a criatura humana e a criatura corporal; esse é — dizem — o plano
divino, plano majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna.
Notemos, de início, que entre esses três termos não há nenhuma ligação
necessária; são três criações distintas, formadas sucessivamente; de uma para
111 – O Céu e o Inferno
a outra há quebra de continuidade; ao passo que, na natureza, tudo se
encadeia, tudo nos mostra uma admirável lei de unidade, cujos todos os
elementos — que não são mais do que transformações uns dos outros — têm
seu traço de união. Essa teoria é verdadeira no sentido de que esses três
termos evidentemente existem; isoladamente ela é incompleta, pois lhe
faltam os pontos de contato, como é fácil demonstrar.
4. Esses três pontos culminantes da criação são — diz a Igreja — necessários
à harmonia do conjunto; que, sem qualquer um deles, a obra ficaria
incompleta e não mais estaria de acordo com a sabedoria eterna. Entretanto,
um dos dogmas fundamentais da religião diz que a terra, os animais, as
plantas, o Sol, as estrelas e até a luz foram criados e tirados do nada, há seis
mil anos. Antes dessa época, portanto, não havia nem a criatura humana nem
a criatura corporal; então, durante a eternidade transcorrida, a obra divina
permanecia imperfeita. A criação do universo tendo seis mil anos é artigo de
fé tão crucial que até poucos anos atrás a ciência ainda era anatematizada
porque ela vinha destruir a cronologia bíblica, ao provar a grande antiguidade
da Terra e de seus habitantes.
Porém o concílio de Latrão — concílio ecumênico que faz a lei em
matéria de ortodoxia — diz: “Nós acreditamos firmemente que só há um
Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos tirou
conjuntamente do nada ambas as criaturas: a espiritual e a corporal.” O
começo dos tempos não pode significar outra coisa senão a eternidade
transcorrida, pois o tempo é infinito, como o Espaço: ele não tem nem começo
nem fim. Esta expressão começo dos tempos é uma simbologia que implica a
ideia de uma anterioridade ilimitada. O concílio de Latrão acredita, pois,
firmemente, que as criaturas espirituais e as criaturas corpóreas foram
formadas simultaneamente e tiradas conjuntamente do nada numa época
indeterminada no passado. Com isso, a que fica reduzido o texto bíblico que
fixa essa criação em seis mil anos do nosso calendário? Admitindo que seja
esse o começo do Universo visível, esse não é seguramente o começo dos
tempos. Em que acreditar: no concílio ou na Bíblia?
112 – Allan Kardec
5. O mesmo concílio formula uma estranha proposição, dizendo: “Nossa alma,
igualmente espiritual, é associada ao corpo de maneira a formar com ele
exatamente uma única e mesma pessoa, e esse é essencialmente o seu
destino.” Ora, se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, essa
união constitui o seu estado normal, seu objetivo, sua finalidade, já que tal é a
sua destinação. No entanto, a alma é imortal e o corpo é mortal; sua união
com o corpo só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que fosse por um
século, o que isso representa em relação à eternidade? Mas, para muitos, ela
dura apenas algumas horas; então, que utilidade poderia ter para a alma uma
união tão efêmera? Já que, na eternidade, sua maior duração é um tempo
imperceptível, será que é exato afirmar que a sua destinação é estar
essencialmente ligada ao corpo? Na realidade, essa união não é mais do que
um acidente, um ponto na vida da alma, e não o seu estado essencial.
Se o destino essencial da alma fosse estar unida a um corpo material; se,
por sua natureza e segundo o propósito providencial de sua criação, essa
união fosse necessária às manifestações das suas faculdades, seria preciso
concluir daí que, sem o corpo, a alma humana é um ser incompleto; ora,
para que a alma continuasse a ser o que ela é para a sua destinação, após ter
deixado o corpo, é preciso que ela tome outro, o que nos leva à necessária
pluralidade das existências — dito de outra forma: nos leva à reencarnação, à
perpetuidade. É realmente estranho que um concílio considerado como uma
das luzes da Igreja tenha unificado o ser espiritual e o ser material, a tal ponto
que eles não possam de forma alguma existir um sem o outro, uma vez que a
condição essencial de sua criação é a de estarem unidos.
6. O quadro hierárquico dos anjos nos ensina que várias ordens têm, nas suas
atribuições, o governo do mundo físico e da humanidade; que eles foram
criados para isso. Mas, segundo o Gênesis, o mundo físico e a humanidade não
existem senão há seis mil anos; o que então esses anjos faziam antes disso,
durante a eternidade, já que os objetivos de suas ocupações não existiam? Os
anjos não foram criados desde toda a eternidade? Assim deve ser, visto que
eles servem para a glorificação do Altíssimo. Se Deus os tivesse criado numa
época qualquer determinada, ele teria ficado até então — isto é, durante uma
113 – O Céu e o Inferno
eternidade — sem adoradores.
7. Mais adiante, foi dito: “Enquanto dura esta união tão íntima da alma com o
corpo.” Chega então um momento em que essa união deixa de existir? Esta
proposição contradiz aquela que faz dessa união o destino essencial da alma.
Foi dito ainda: “As ideias chegam à alma através dos sentidos, pela
comparação dos objetos exteriores.” Eis aí uma doutrina filosófica
parcialmente verdadeira, mas não em sentido absoluto. Essa é, segundo o
eminente teólogo, uma condição inerente à natureza da alma, receber as
ideias através dos sentidos. Ele se esquece das ideias inatas, as faculdades às
vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz ao nascer e
que não derivam de nenhuma instrução. Por quais sentidos esses jovens
pastores — esses calculistas natos que têm causado admiração nos sábios —
têm adquirido ideias necessárias para a resolução quase instantânea dos
problemas mais complicados? Outro tanto se pode dizer de certos músicos,
pintores e linguistas precoces.
“Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio”.
Eles sabem porque eles são anjos, sem precisar aprender; Deus já os criou
assim; a alma, ao contrário, precisa aprender. Mas se a alma só recebe as
ideias pelos órgãos carnais, quais são as ideias que pode ter a alma de uma
criança morta ao fim de apenas alguns dias, em admitindo — assim com a
Igreja — que essa alma não renasce?
8. Aqui se apresenta uma questão vital: será que a alma adquire ideias e
conhecimentos após a morte do corpo? Se, uma vez desprendida do corpo, ela
nada pode adquirir, a alma da criança, do selvagem, do cretino, do idiota, do
ignorante permanecerá para sempre tal como era até a morte; ela está
condenada à nulidade por toda a eternidade.
Mas se ela adquire novos conhecimentos após a vida atual, é que ela
pode progredir. Sem o progresso posterior da alma, chega-se a consequências
absurdas; com o progresso, chegamos à negação de todos os dogmas
fundados sobre o seu estado estacionário: o destino irrevogável, as penas
eternas etc. Se a alma progride, onde se limita o progresso? Não há razão
114 – Allan Kardec
alguma para que ela não atinja o grau dos anjos ou dos Espíritos puros. Se ela
pode chegar até aí, não haveria nenhuma necessidade de criar seres especiais
e privilegiados, isentos de todo labor e gozando da felicidade eterna sem nada
terem feito para conquistá-la, enquanto outros seres menos favorecidos só
obtêm a suprema felicidade ao preço de longos e cruéis sofrimentos pelas
mais rudes provas. Deus assim poderia fazer, sem dúvidas, mas se admitimos
o infinito de suas perfeições — sem as quais ele não seria Deus —, é preciso
admitir também que ele nada fez de inútil, nem nada que desminta a soberana
justiça e a soberana bondade.
9. “Posto que a majestade dos reis toma emprestado seu esplendor do
número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servos, o que seria mais
apropriado para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos reis do que esta
multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a terra, o mar e o abismo,
além da dignidade daqueles que permanecem constantemente prostrados
ou em pé diante de seu trono?”
Não será rebaixar a Divindade assemelhar a sua glória ao fausto dos
soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no espírito das massas ignorantes,
falseia a opinião que se faz da sua verdadeira grandeza. É sempre assim: Deus
reduzido às mesquinhas proporções humanas. Atribuir-lhe a necessidade de
ter milhões de adoradores continuamente prostrados ou de pé diante dele é
lhe emprestar as fraquezas dos monarcas déspotas e orgulhosos do Oriente. O
que torna os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e o brilho dos
cortesãos? Não; é a sua bondade, é a sua justiça, é o título merecido de pais do
seu povo. Podemos perguntar se haveria alguma coisa mais apropriada para
nos dar uma ideia da majestade de Deus do que a multidão de anjos que
compõem a sua corte? Sim, com certeza há uma coisa melhor do que isso: é
apresentá-lo a todas as suas criaturas soberanamente bom, justo e
misericordioso, e não como um Deus colérico, ciumento, vingativo, inflexível,
exterminador, parcial, criando para sua própria glória esses seres
privilegiados, favorecidos com todos os dons, nascidos para a eterna
felicidade, enquanto faz os outros comprarem a felicidade penosamente e
punindo um momento de erro com uma eternidade de suplícios.
115 – O Céu e o Inferno
10. Com relação à união da alma e do corpo, o Espiritismo professa uma
doutrina infinitamente mais espiritualista — para não dizer menos
materialista — e que ainda tem a vantagem de ser mais coerente com a
observação e a destinação da alma. Segundo o que ele nos ensina, a alma é
independente do corpo, que não é mais do que um envoltório temporário; sua
essência é a espiritualidade; sua vida normal é a vida espiritual. O corpo
não passa de um instrumento para o exercício de suas faculdades nas relações
com o mundo material; porém, separada do corpo, ela desfruta dessas
faculdades com mais liberdade e maior alcance.
11. Sua união com o corpo — necessária para os seus primeiros
desenvolvimentos — só acontece no período em que podemos chamar de sua
infância e sua adolescência; quando a alma atinge um certo grau de perfeição
e de desmaterialização, essa união não é mais necessária e a alma progride
apenas pela vida de Espírito. De resto, por mais numerosas que sejam as
existências corporais, elas são obrigatoriamente limitadas à vida do corpo, e a
sua soma total, em todos os casos, só representa uma parte imperceptível da
vida espiritual, que é indefinida.
Os anjos segundo o Espiritismo
12. Que há seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não
podemos duvidar disso. Sobre esse ponto, a revelação espírita confirma a
crença de todos os povos; mas ela nos faz conhecer ao mesmo tempo a
natureza e a origem desses seres.
As almas, ou Espíritos, são criados simples e ignorantes, quer dizer, sem
conhecimento e sem consciência do bem e do mal; porém, todos são aptos
para adquirir tudo o que lhes falta; eles o adquirem pelo trabalho; o propósito
— que é a perfeição — é o mesmo para todos. Eles alcançam a perfeição mais
ou menos rapidamente em virtude do seu livre-arbítrio e na proporção dos
próprios esforços; todos têm os mesmos degraus a percorrer, o mesmo
trabalho a cumprir, pois Deus não faz o caminho nem mais largo nem mais
116 – Allan Kardec
fácil para uns do que para os outros, já que todos são seus filhos e porque,
sendo justo, ele não tem preferência por nenhum deles. Ele lhes diz: “Aqui
está a lei que deve ser sua regra pessoal de conduta; só ela pode levá-los ao
objetivo; tudo que está conforme a essa lei é o bem e tudo que for contrário a
ela é o mal. Vocês são livres para observar ou infringir esta lei, e assim vocês
se constituem os árbitros da própria sorte.” Desse modo, Deus não criou o
mal; todas as suas leis são para o bem; foi o próprio homem que criou o mal
ao infringir as leis divinas; se ele as observasse escrupulosamente, o homem
jamais se desviaria do bom caminho.
13. Mas a alma, nas primeiras fases de sua existência, igual a uma criança,
carece de experiência; é por isso que ela é falível. Deus não lhe dá a
experiência, porém lhe concede os meios de adquiri-la; cada tropeço na via do
mal é um atraso para a alma; ela sofre as suas consequências e aprende às
custas disso o que ela deve evitar. É assim que pouco a pouco ela se
desenvolve, aperfeiçoa-se e avança na hierarquia espiritual, até que chegue à
condição de Espírito puro ou anjo. Os anjos são, portanto, as almas dos
homens chegados ao grau de perfeição a que a criatura comporta, saboreando
a plenitude da felicidade prometida. Antes de ter alcançado o grau supremo,
eles desfrutam de uma felicidade relativa ao seu avanço; mas essa felicidade
não está na ociosidade: ela está nas funções que apraz a Deus lhes confiar, e
que eles ficam felizes em realizar, porque essas ocupações são um meio de
progredir. (Veja o cap. III: O Céu.)
14. A humanidade não está restringida à Terra: ela ocupa os inúmeros
mundos que circulam no espaço; ela já ocupou os mundos desaparecidos e
ocupará aqueles que se formarem. Deus tem criado durante toda a eternidade
e cria sem cessar. Logo, muito antes que a Terra existisse, qualquer que seja a
antiguidade que dela possamos supor, já existiam nesses outros mundos
Espíritos encarnados que percorreram as mesmas etapas que nós, Espíritos
de formação mais recente, nos acompanhando neste momento, e que já
chegaram ao objetivo antes mesmo que tivéssemos saído das mãos do
Criador. Desde toda a eternidade, portanto, tem havido anjos, ou Espíritos
117 – O Céu e o Inferno
puros; mas como a existência humana deles se perde no passado infinito, para
nós é como se eles sempre tivessem sido anjos.
15. Assim se encontra realizada a grande lei de unidade da criação. Deus
jamais esteve inativo; ele sempre teve Espíritos puros, experimentados e
esclarecidos para transmissão de suas ordens e para a direção de todas as
partes do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos
detalhes. Portanto, ele não precisou criar seres privilegiados, isentos de
obrigações; todos — antigos ou novos — conquistaram suas graduações na
luta e por seu próprio mérito; todos, enfim, são filhos de suas obras pessoais.
Assim se cumpre igualmente a soberana justiça de Deus.
118 – Allan Kardec
CAPÍTULO IX
OS DEMÔNIOS
Origem da crença nos demônios – Os demônios segundo a Igreja
– Os demônios segundo o Espiritismo
Origem da crença nos demônios
1. Em todas as épocas os demônios representaram um notável papel nas
diversas teogonias; se bem que, consideravelmente desacreditados na opinião
em geral, a importância que lhes é atribuída ainda hoje dá uma certa
gravidade a essa questão, pois ela toca no próprio fundamento das crenças
religiosas; é por isso que é útil examiná-la com os desenvolvimentos que o
assunto requer.
A crença em um poder superior é instintiva nos homens; também a
encontramos, sob diferentes formas, em todas as eras do mundo. Mas se, pelo
grau de avanço intelectual ao qual a humanidade já chegou atualmente, ainda
se discute sobre a natureza e os atributos desse poder, muito mais imperfeitas
deviam ser as noções que se tinha a respeito desse assunto na infância da
humanidade!
2. O quadro com que nos apresentam a inocência dos povos primitivos em
contemplação diante das belezas da natureza, na qual eles admiram a
bondade do Criador é, sem dúvida, bastante poético, mas lhe falta a realidade.
Quanto mais o homem se aproxima do estado de natureza, mais o
instinto predomina nele, assim como ainda podemos ver nos povos selvagens
e bárbaros dos nossos dias; o que mais o preocupa, ou melhor, o que o
119 – O Céu e o Inferno
interessa exclusivamente é a satisfação das necessidades materiais, pois ele
não tem outras necessidades. O único sentido que pode torná-lo acessível aos
prazeres puramente morais não se desenvolve senão lenta e gradualmente; a
alma tem sua infância, sua adolescência e sua virilidade, tal como o corpo
humano; mas para alcançar a virilidade que a torna apta a compreender as
coisas abstratas, quantas evoluções ela tem a percorrer na humanidade!
Quantas existências lhe falta realizar!
Sem precisar voltar às primeiras eras, vejamos em torno de nós os
nossos povos camponeses e nos perguntemos que sentimentos de admiração
despertam neles o esplendor do Sol nascente, a abóbada estrelada, o gorjeio
dos pássaros, o murmúrio das ondas cristalinas, os prados cobertos de flores!
Para eles, o Sol se levanta porque está habituado a isso e, desde que ele faça
calor suficiente para amadurecer as colheitas e não o bastante para torrá-las,
então isso é tudo o que eles pedem; se eles olham para o céu, é para saber se
fará um tempo bom ou um mau tempo no dia seguinte; que os pássaros
cantem ou não, isso não importa para eles, desde que não devorem seus
grãos; no lugar das melodias do rouxinol, eles querem mais é o cacarejar das
galinhas e o grunhido dos seus porcos; o que eles pedem aos riachos limpos
ou lamacentos é que não sequem e não os inundem; aos prados, pedem que
deem uma boa erva, com ou sem flores. Isso é tudo o que eles desejam;
dizemos mais: é tudo o que eles entendem da natureza e, no entanto, eles já
estão muito longe dos homens primitivos!
3. Se nos reportarmos a estes últimos, então os veremos ainda mais
exclusivamente preocupados com a satisfação das carências materiais; aquilo
que serve para sustentá-los e aquilo que pode prejudicá-los resumem para
eles o bem e o mal neste mundo. Eles acreditam num poder extra-humano,
mas como aquilo que lhes traz um prejuízo material é o que mais os afeta, eles
o atribuem a esse poder, do qual, aliás, eles fazem uma ideia muito vaga. Não
podendo ainda conceber nada fora do mundo visível e tangível, eles imaginam
que esse poder resida nos seres e nas coisas que lhes são prejudiciais. Logo, os
animais nocivos são para eles os representantes naturais e diretos desse
poder. Pela mesma razão, eles viram a personificação do bem nas coisas úteis:
120 – Allan Kardec
daí vem o culto prestado a certos animais, a certas plantas e até a objetos
inanimados. Mas o homem é geralmente mais sensível ao mal do que ao bem;
para ele, o bem parece natural, enquanto o mal o afeta mais; eis por que em
todos os cultos primitivos as cerimônias em homenagem ao poder maléfico
sempre foram mais numerosas: o temor supera o reconhecimento.
Durante um longo tempo o homem só compreendeu o bem e o mal
físicos; depois, o sentimento moral do bem e do mal marcaram um progresso
na inteligência humana; só a partir daí o homem entreviu a espiritualidade e
compreendeu que o poder extra-humano está fora do mundo visível, e não
nas coisas materiais. Essa foi a obra de algumas inteligências de elite, mas que
nunca puderam ultrapassar certos limites.
4. Vimos assim uma luta incessante entre o bem e o mal, e este último muitas
vezes predominou. Por outro lado, como não era possível racionalmente
admitir que o mal fosse obra de um poder benfazejo, concluiu-se pela
existência de dois poderes rivais governando o mundo. Daí nasceu a doutrina
dos dois princípios: o do bem e o do mal, doutrina lógica para aquela época,
porque o homem ainda era incapaz de conceber outra, e incapaz de penetrar a
essência do Ser supremo. Como ele poderia compreender que o mal não passa
de um estado momentâneo do qual pode brotar o bem, e que os males que o
afligem devem conduzi-lo à felicidade através do seu desenvolvimento? Os
limites do seu horizonte moral não lhe permitiam ver nada fora da vida
presente, nem para frente nem para trás; não conseguia conceber nem que ele
já tivesse progredido, nem que ainda iria progredir individualmente e,
tampouco entender que as vicissitudes da vida são o resultado da imperfeição
do ser espiritual que está nele, o qual preexiste e sobrevive ao corpo,
depurando-se numa série de existências até que tenha alcançado a perfeição.
Para compreender o bem que pode resultar do mal, não devemos ver apenas
uma existência; é preciso abranger o conjunto, e só então aparecem as
verdadeiras causas e seus efeitos.
5. O duplo princípio do bem e do mal foi — durante muitos séculos e sob
diferentes nomes — a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado
121 – O Céu e o Inferno
nos nomes de Ormuz e Arimã entre os persas, e nos de Jeová e Satã entre os
hebreus. Mas como todo soberano deve ter ministros, todas as religiões
admitiram forças secundárias, isto é, gênios bons ou maus. Os pagãos os
personificaram sob uma numerosa multidão de individualidades, alguns deles
tendo atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as
virtudes, e aos quais deram o nome genérico de deuses. Os cristãos e os
muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios.
6. A doutrina dos demônios tem então sua origem na antiga crença dos dois
princípios: o do bem e o do mal. Não vamos examinar aqui além do ponto de
vista cristão, para ver se está de acordo com o conhecimento mais exato que
possuímos hoje sobre os atributos da Divindade.
Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas
religiosas; os dogmas, o culto, as cerimônias, os hábitos e a moral, tudo é
relacionado à ideia mais ou menos justa e mais ou menos elevada que se faz
de Deus, desde o fetichismo até o Cristianismo. Se a essência íntima de Deus
ainda é um mistério para a nossa inteligência, ainda assim nós o
compreendemos melhor do que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. De
acordo com a razão, o Cristianismo nos ensina que:
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso,
soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.
Assim como foi dito alhures (cap. VI, Doutrina das penas eternas), “Se
tirássemos a menor parcela de um só dos atributos de Deus, já não teríamos
mais Deus, porque poderia existir um ser mais perfeito.” Esses atributos, na
sua plenitude mais absoluta, são assim o critério de todas as religiões, a
medida da verdade de cada um dos princípios que elas ensinam. Para que
qualquer um desses princípios seja verdadeiro, é preciso que não atente
contra nenhuma das perfeições de Deus. Vejamos se é assim com a doutrina
vulgar dos demônios.
Os demônios segundo a Igreja
7. Segundo a Igreja, Satanás — o chefe ou o rei dos demônios — não é uma
122 – Allan Kardec
personificação alegórica do mal, mas sim um ser real, praticando
exclusivamente o mal, enquanto Deus faz exclusivamente o bem. Então vamos
imaginar isso tal como nos é ensinado.
Será que, assim como Deus, Satanás existe desde toda a eternidade? Ou
ele é posterior a Deus? Se ele é de toda a eternidade, então é incriado, e por
isso ele é igual a Deus. Logo, Deus não é único: há o Deus do bem e o Deus do
mal.
Satanás é posterior a Deus? Então ele é uma criatura de Deus. Já que ele
só faz o mal, que é incapaz de fazer o bem e de se arrepender, então Deus
criou um ser perpetuamente destinado ao mal. Se o mal não é obra de Deus,
mas sim a obra de uma das suas criaturas predestinadas a isso, Deus não
deixa de ser o primeiro autor do mal, e desta forma ele não é infinitamente
bom. O mesmo acontece com todos os seres malvados chamados demônios.
8. Assim foi, por muito tempo, a crença sobre este ponto. Hoje se diz:69
“Deus, que é a bondade e a santidade por essência, não os havia criado
malvados e perversos. Sua mão paternal, que se apraz derramar sobre todas as
suas obras um reflexo de suas perfeições infinitas, cobriu os demônios com seus
dons mais magníficos. Às qualidades supereminentes de sua natureza, ele juntou
a generosidade de sua graça; ele os fez totalmente semelhantes aos Espíritos
sublimes que estão na glória e na felicidade; distribuídos por todas as suas
categorias e misturados a todas as suas classes, eles tinham a mesma finalidade
e as mesmas destinações; seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. Eles também
poderiam ter merecido serem consagrados para sempre na justiça e admitidos
ao gozo eterno da felicidade dos céus. Este último favor teria coroado todos os
outros favores com os quais eles foram agraciados; deveria ser o prêmio por sua
docilidade, mas eles se tornaram indignos disso, perdendo-o por causa de uma
revolta audaciosa e insensata.
“Qual foi o escolho da perseverança deles? Que verdade eles ignoraram?
Que ato de fé e adoração eles recusaram a Deus? A Igreja e os anais da história
sagrada não falam disso de uma maneira concreta; contudo parece certo
que eles não aquiesceram à mediação do Filho de Deus para eles mesmos, nem à
69 As citações seguintes foram extraídas da carta pastoral de Monsenhor Gousset, cardeal arcebispo de
Reims, para a quaresma de 1865. Em razão do mérito pessoal e da posição do autor, nós podemos
considerá-las como a última expressão da Igreja sobre a doutrina dos demônios.
123 – O Céu e o Inferno
exaltação da natureza humana em Jesus Cristo.
“O Verbo divino, por quem todas as coisas foram criadas, é também o
único mediador e salvador, no céu e na Terra. O propósito sobrenatural não foi
dado aos anjos e aos homens senão como previsão de sua encarnação e de seus
méritos; é que não há proporção alguma entre as obras dos Espíritos mais
eminentes e essa recompensa, que não é outra além do próprio Deus. Nenhuma
criatura poderia alcançar tal propósito sem essa intervenção maravilhosa e
sublime da caridade. Ora, para preencher a distância infinita que separa a
essência divina das obras feitas por suas mãos, seria preciso que reunisse na sua
pessoa os dois extremos, e que associasse à sua divindade a natureza do anjo ou
a natureza do homem. E ele escolheu a natureza humana.
“Esse desígnio, concebido desde toda a eternidade, foi manifestado aos
anjos muito antes do seu cumprimento; o Homem-Deus lhes foi apresentado
como Aquele que devia confirmá-los na graça e os introduzir na glória, sob a
condição de o adorarem na Terra durante a sua missão, e no céu pelos séculos e
séculos. Revelação inesperada, visão encantadora para os corações generosos e
agradecidos, mas mistério profundo, avassalador para os Espíritos soberbos!
Esse propósito sobrenatural, esse imenso peso de glória que lhes foi proposto
não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Eles jamais
poderiam reivindicar os títulos e a possa dessa gloria para si mesmos! Um
mediador entre eles e Deus: quanta injúria feita à dignidade deles! A preferência
espontânea concedida à natureza humana: quanta injustiça dirigida aos direitos
deles! Essa humanidade, que lhes é tão inferior: será que um dia eles chegarão a
vê-la deificada pela sua união com o Verbo, e sentada à direita de Deus num
trono resplandecente? Será que eles aceitarão oferecer-lhe eternamente suas
homenagens e suas adorações?
“Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de
orgulho e de inveja. São Miguel e com ele a grande maioria exclamaram: Quem é
semelhante a Deus? Ele é o mestre de seus dons e o soberano Senhor de todas as
coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será imolado para a salvação do mundo!
Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo-se de que era devedor ao seu Criador pela
sua nobreza e pelas suas prerrogativas, escutou apenas à sua temeridade e
disse: ‘Sou eu mesmo que subirei ao céu; estabelecerei minha morada acima dos
astros e me sentarei sobre o monte da aliança, nos flancos do Aquilão;
dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo.’ Os que
compartilharam de tais sentimentos acolheram as palavras dele com um
124 – Allan Kardec
murmúrio de aprovação, e eles se encontram em todos os graus da hierarquia,
mas a quantidade deles não os protegeu do castigo.”
9. Essa doutrina desencadeia várias objeções:
1ª) Se Satanás e os demônios eram anjos, é que eles eram perfeitos; sendo
perfeitos, como eles puderam decair e ignorar a tal ponto a autoridade
de Deus, em cuja presença eles se encontravam? Até poderíamos
conceber que, se eles só tivessem chegado a esse patamar eminente
gradualmente e depois de terem percorrido a trilha da imperfeição, eles
até poderiam ter tido um infeliz retrocesso; mas o que torna a coisa mais
incompreensível é que eles nos são apresentados como tendo sido
criados perfeitos.
A consequência dessa teoria é esta: Deus quis criar neles seres
perfeitos, já que os tinha coberto com todos os dons, mas se enganou;
portanto, segundo a Igreja, Deus não é infalível.70
2ª) Já que nem a Igreja e nem os anais da história sagrada explicam a
causa da revolta dos anjos contra Deus — e parece certo que foi apenas
pela recusa deles em reconhecer a futura missão do Cristo —, que valor
pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena que ocorreu nessa
ocasião? De qual fonte extraíram as palavras tão claras relatadas como
tendo sido ali pronunciadas, e até mesmo os simples murmúrios? De
duas coisas, uma: ou a cena é verdadeira ou não é. Se for verdadeira, não
há qualquer incerteza, mas então por que a Igreja não fecha a questão?
Se a Igreja e a História se calam, se a causa apenas parece certa, significa
que não passa de uma suposição, e a descrição da cena é uma obra da
imaginação.71
70 Esta doutrina monstruosa é afirmada por Moisés, quando diz (Gênesis, 6: 6 e 7): “Ele se arrependeu
de ter feito o homem na Terra. E, sendo tocado pela dor até o fundo do coração, ele disse: ‘Exterminarei
da face da Terra o homem que eu criei; exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde aquilo
que rasteja sobre a terra até os pássaros do céu: pois eu me arrependo de os ter criado’.”
Um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem infalível; logo, ele não é Deus. Estas são
as palavras que a Igreja então proclama como verdades sagradas. Tampouco podemos ver o que poderia
haver de comum entre os animais e a perversidade dos homens para justificar o extermínio.
71 Encontra-se em Isaías, 14: 11 e seguintes: “Teu orgulho foi lançado nos infernos; teu corpo morto está
125 – O Céu e o Inferno
3ª) As palavras atribuídas a Lúcifer demonstram uma ignorância que nos
deixa espantados por encontrar num arcanjo que, por sua própria
natureza e pelo grau em que está colocado, não deve compartilhar —
quanto à organização do universo — dos erros e dos preconceitos que os
homens professaram até que a ciência viesse esclarecê-los. Como ele
poderia dizer: “Eu estabelecerei minha morada acima dos astros, eu
dominarei as nuvens mais elevadas”? É sempre a velha crença da Terra
como centro do mundo, do céu de nuvens que se estendem até as
estrelas, a região limitada das estrelas formando uma abóboda, mas que
a astronomia nos mostra disseminadas ao infinito no espaço sem fim.
Como se sabe hoje que as nuvens não se estendem a mais de duas léguas
da superfície da Terra, para dizer que ele dominará as nuvens mais
elevadas, e para falar das montanhas, seria preciso que a cena se
passasse na superfície da Terra e que nela ficasse a morada dos anjos; se
essa morada ficasse nas regiões superiores, seria inútil dizer que ela se
elevaria acima das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem marcada
pela ignorância é dizer que os homens hoje sabem mais do que os anjos.
A Igreja sempre esteve errada em não levar em conta os progressos da
ciência.
10. A resposta à primeira objeção encontra-se na seguinte passagem:
“A Escritura e a tradição dão o nome de céu ao lugar no qual os anjos
caído no chão; tua cama será a podridão e tuas vestes será os vermes. Como é que você caiu do céu,
Lúcifer, você que parecia tão brilhante ao raiar do dia? Como é que foi derrubado na Terra, você que
feriu as nações com pragas; que dizia em teu coração: Eu subirei aos céus, estabelecerei meu trono
acima dos astros de Deus e me sentarei sobre a montanha da aliança, nos flancos de Aquilão; ficarei
acima das nuvens mais altas e serei semelhante ao Altíssimo? — E dessa glória, no entanto, você foi
lançado no inferno, até o mais profundo dos abismos. Aqueles que te virem, aproximando-se de você,
depois de encará-lo, eles te dirão: Será que é este homem aquele que apavorou a Terra, que lançou o
terror nos reinos, que fez do mundo um deserto, que destruiu cidades e que manteve acorrentados
aqueles a quem fez seus prisioneiros?”
Estas palavras do profeta não são referentes à revolta dos anjos, mas sim uma alusão ao orgulho
e à queda do rei da Babilônia, que mantinha os judeus em cativeiro, assim como está provado nos
últimos versículos. O rei da Babilônia é designado — por alegoria — pelo nome de Lúcifer, porém aí não
se faz nenhuma menção da cena descrita aqui. Essas palavras são as do rei que disse em seu coração, e
se colocava, por seu orgulho, acima de Deus, cujo povo ele mantinha escravo. A predição da libertação
dos judeus, da ruína da Babilônia e da derrota dos assírios é, aliás, o assunto exclusivo desse capítulo.
126 – Allan Kardec
tinham sido colocados no momento da criação deles. Mas esse não era o céu dos
céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se mostra aos seus eleitos face a face, e
onde seus eleitos o contemplam sem esforço e sem obstáculos, porque lá não há
mais possibilidade nem perigo nem possibilidade de pecado; lá, a tentação e a
fraqueza são desconhecidas; lá, a justiça, a alegria e a paz reinam numa imutável
segurança; lá, a santidade e a glória são inamissíveis.72 Era, portanto, outra
região celeste, uma esfera luminosa e afortunada onde essas nobres criaturas,
enormemente favorecidas pelas comunicações divinas, deviam recebê-las e a
elas aderirem pela humildade da fé, antes de serem autorizadas a ver
claramente a realidade na própria essência de Deus.”
Resulta do que foi dito que os anjos decaídos pertenciam a uma
categoria menos elevada, menos perfeita, e que eles ainda não tinham
alcançado o lugar supremo em que a falha é impossível. Que seja, mas então
há aqui uma evidente contradição, pois foi dito também que “Deus tinha feito
os anjos totalmente semelhantes aos Espíritos sublimes”, que “distribuídos
por todas as suas categorias e misturados a todas as suas classes, eles tinham
a mesma finalidade e a mesma destinação”; que “seu chefe foi o mais belo dos
arcanjos”. Se eles foram feitos totalmente semelhantes aos outros, então eles
não eram de uma natureza inferior; se estavam a todas as suas classes, então
eles não estavam num lugar especial. Com isso, a objeção permanece intacta.
11. E há outra objeção que é, incontestavelmente, a mais grave e a mais séria.
Foi dito: “Esse desígnio (a mediação do Cristo), concebido desde toda a
eternidade, foi manifestado aos anjos muito antes do seu cumprimento.”
Logo, Deus sabia desde toda a eternidade que os anjos — assim como os
homens — teriam necessidade dessa mediação. Ele sabia, ou não sabia, que
alguns anjos iriam falir; que essa queda acarretaria para eles a condenação
eterna, sem esperança de retorno; que eles estariam destinados a tentar os
homens; que aqueles dentre os homens que se deixassem seduzir teriam a
mesma sorte. Mas se Deus sabia disso, ele então teria criado esses anjos, com
conhecimento de causa, para sua perdição irrevogável e para a perdição da
maior parte do gênero humano. Seja lá o que digam, em tal previsão, é
72 Inamissível: no jargão eclesiástico, uma graça divina que não se perde nem se corrompe. — N. T.
127 – O Céu e o Inferno
impossível conciliar a criação dos anjos com a soberana bondade. Se Deus não
sabia disso, é que ele não era todo-poderoso. Num e noutro caso, isso é a
negação de dois atributos sem a plenitude dos quais Deus não seria Deus.
12. Caso se admita a falibilidade dos anjos, como a dos homens, a punição é
uma consequência justa e natural da falta; mas caso se admita ao mesmo
tempo a possibilidade da redenção, do retorno ao bem, o reinício na graça
após o arrependimento e a expiação, então não há nada que desminta a
bondade divina. Deus sabia que eles iriam falir, que seriam punidos, mas sabia
também que esse castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender
a própria culpa e serviria a favor deles. Assim, seriam cumpridas estas
palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte do pecador, mas sim a
sua salvação”.73 O que seria a negação dessa bondade é a inutilidade do
arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nesta hipótese, seria
rigorosamente exato dizer que: “Esses anjos, desde a sua criação, visto que
Deus não podia ignorar isso, foram condenados ao mal por toda a
perpetuidade, e predestinados a se tornarem demônios, para arrastarem os
homens ao mal.”
13. Vejamos agora qual é a sorte desses anjos e o que eles fazem:
“Tão logo se deu a revolta deles na linguagem dos Espíritos, isto é, nos elãs
dos seus pensamentos, eles já foram irrevogavelmente banidos da cidade
celestial e precipitados no abismo.
“Por essas palavras, entendemos que eles foram arremessados a um lugar
de suplícios onde estão sofrendo a pena do fogo, conforme o texto do Evangelho,
que saiu da própria boca do Salvador: ‘Vão, malditos, ao fogo eterno que foi
preparado para o demônio e para os seus anjos.’ São Pedro diz expressamente
que: ‘Deus os lançou às correntes e às torturas do inferno; mas nem todos ficam
lá perpetuamente; é que somente no fim do mundo é que eles ficarão trancados
lá para sempre, assim com os réprobos. Atualmente, Deus permite que eles
ainda ocupem um lugar nesta criação à qual pertencem; na ordem das coisas à
qual está ligada a existência deles, enfim, nas relações que eles deviam ter com o
homem, e das quais eles fazem o mais pernicioso abuso. Enquanto uns ficam na
73 Veja lá atrás, no capítulo VII, item 20, a citação de Ezequiel.
128 – Allan Kardec
tenebrosa morada, lá servindo de instrumento para a justiça divina contra as
almas infelizes que eles seduziram, uma infinidade de outros, formando
legiões invisíveis sob a condução de seus chefes, residem nas camadas inferiores
da nossa atmosfera e percorrem todas as partes do globo. Eles se envolvem em
tudo o que se passa aqui e frequentemente com uma participação muito ativa.”
No que concerne às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo eterno,
essa questão foi tratada lá atrás, no capítulo IV, O Inferno.
14. Segundo essa doutrina, apenas uma parte dos demônios está no inferno; a
outra vagueia em liberdade, intrometendo-se em tudo o que aqui se passa,
dando-se o prazer de fazer o mal, e isso até o fim do mundo, cuja época
indeterminada provavelmente não ocorrerá tão cedo. Por que então essa
diferença? Eles são menos culpados? Seguramente que não. A menos que eles
se revezem nessa função, o que parece resultar desta passagem: “Enquanto
uns ficam na sua tenebrosa morada, lá servindo de instrumento para a justiça
divina contra as almas infelizes que eles seduziram.”
Suas funções consistem, portanto, em atormentar as almas que eles
seduziram. Assim, eles não estão encarregados de punir aquelas que são
culpadas de faltas livre e voluntariamente cometidas, mas sim de punir as
almas que eles provocaram. De uma só vez, eles são a causa do erro e o
instrumento do castigo. E — uma coisa que a justiça humana, por mais
imperfeita que seja, jamais admitiria — a vítima que sucumbe por fraqueza,
na ocasião em que se cria para tentá-la, é punida tão severamente quanto o
agente provocador que faz uso da artimanha e da astúcia; ou até mais
severamente, porque esta vítima vai para o inferno ao deixar a Terra para não
sair de lá nunca mais, a sofrer lá sem trégua nem misericórdia durante a
eternidade, enquanto aquele que é o causador primordial da sua falta desfruta
de descanso e de liberdade até o fim do mundo! Será que a justiça de Deus não
é mais perfeita do que a dos homens?
15. Isso não é tudo: “Deus permite que eles ainda ocupem um lugar nesta
criação, nas relações que eles deviam ter com o homem, e das quais eles
fazem o mais pernicioso abuso.” Porventura, Deus poderia ignorar o abuso
129 – O Céu e o Inferno
que eles fariam da liberdade que ele lhes concedera? Então, por que concedeu
essa liberdade a eles? Portanto, é conscientemente que Deus larga suas
criaturas à mercê delas mesmas, sabendo — em virtude de sua onisciência —
que elas vão sucumbir e que terão a sorte dos demônios. Por si mesmas, elas
já não tinham fraqueza o bastante, sem precisar que fossem tentadas ao mal
por um inimigo tanto mais perigoso quanto invisível? Se pelo menos o castigo
fosse apenas temporário e se o culpado pudesse se redimir pela reparação!
Mas não: ele é condenado para sempre. Seu arrependimento, seu retorno ao
bem, suas lamentações, tudo é inútil!
Sendo assim, os demônios são os agentes provocadores predestinados a
recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus, que sabia, ao
criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. O que diríamos na Terra
de um juiz que agisse desse modo para lotar as prisões? Que estranha ideia
nos dão da Divindade, de um Deus cujos atributos essenciais são a soberana
justiça e a soberana bondade! E é em nome de Jesus Cristo — daquele que só
pregou amor, perdão e caridade — que ensinam tais doutrinas! Houve um
tempo em que essas anomalias passavam despercebidas; como não eram
compreendidas, não eram sentidas. O homem, curvado ao jugo do despotismo,
submetia cegamente sua razão, ou melhor, abdicava da sua razão; mas hoje, já
chegou o momento da emancipação: ele compreende a justiça e a deseja
durante sua vida e após a sua morte; é por isso que ele diz: “Não é assim, não
pode ser assim, ou Deus não é Deus!”
16. Por toda parte o castigo segue esses seres decaídos e malditos; por toda
parte eles carregam o seu próprio inferno consigo: eles já não têm nem paz nem
repouso; até mesmo as doçuras da esperança para eles foram transformadas em
amargura — o que é odioso para eles. A mão de Deus os feriu logo no ato do
pecado deles, mas a vontade deles se obstinou no mal. Tornados perversos, eles
não querem deixar de ser assim e assim serão para sempre.
Eles são, após seu pecado, o que o homem é após a morte. A reabilitação
daqueles que tombaram é, portanto, impossível; a sua perdição é doravante
sem volta e eles teimam no seu orgulho diante de Deus, no seu ódio contra o seu
Cristo, no seu ciúme contra a humanidade.
“Não tendo podido se apropriar da glória celeste, pela expansão de sua
130 – Allan Kardec
ambição, eles se esforçam para estabelecer seu império na Terra para dela banir
o reino de Deus. O Verbo encarnado cumpriu os seus desígnios, apesar deles,
para a salvação e a glória da humanidade; todos os meios de ação dos anjos
decaídos foram dedicados a roubar as almas que o Cristo tinha resgatado;
astúcia e importunação, mentira e sedução, tudo eles colocaram em prática para
levá-las ao mal e consumar a ruína dessas almas.
“Com tais inimigos, a vida do homem — desde o berço até o túmulo — não
deixa de ser, infelizmente, uma luta perpétua, pois eles são fortes e infatigáveis.
“Com efeito, esses inimigos são os mesmos que, após terem introduzido o
mal no mundo, chegaram a cobrir a Terra com espessas trevas do erro e do
vício; são os mesmos que, por longos séculos, fizeram ser adorados como deuses
e que reinaram como mestres sobre os povos da Antiguidade; são os mesmos,
enfim, que ainda exercem seu império tirânico nas regiões idólatras e que
fomentam a desordem e o escândalo até no seio das sociedades cristãs.
“Para compreender tudo o que eles têm de recursos a serviço da sua
malvadez, basta notar que eles não perderam nada das prodigiosas
faculdades que são o apanágio da natureza angélica. Sem dúvida, o porvir e
sobretudo a ordem sobrenatural têm mistérios que Deus reservou para si e que
eles não podem descobrir; porém, a inteligência deles é bem superior à nossa,
porque percebem num simples piscar de olhos os efeitos nas suas causas, e as
causas nos seus efeitos. Essa penetração lhes permite anunciar antecipadamente
os eventos que escapam às nossas conjeturas. A distância e a diversidade dos
lugares desaparecem ante a sua agilidade. Mais repentinos do que o relâmpago,
mais rápidos do que o pensamento, eles se acham quase que ao mesmo tempo
em diversos pontos do globo e podem, à distância, descrever as coisas das quais
eles são testemunhas na mesma hora em que acontecem.
“As leis gerais pelas quais Deus rege e governa este Universo não são do
domínio deles; eles não podem derrogá-las, nem, consequentemente, predizer
ou operar verdadeiros milagres; mas eles possuem a arte de imitar e falsificar —
dentro de certos limites — as obras divinas; sabem quais os fenômenos
resultam da combinação dos elementos, então eles predizem com certeza os que
ocorrem naturalmente, assim como os fenômenos que eles mesmos têm o poder
de produzir. Daí vem os numerosos oráculos, os extraordinários encantamentos
de que os livros sagrados e profanos preservaram a memória, e que têm servido
de base e de alimento para todas as superstições.
“A substância simples e imaterial deles os oculta de nossas vistas; estão ao
131 – O Céu e o Inferno
nosso lado sem serem percebidos; tocam nossa alma sem tocar nossos ouvidos.
Nós acreditamos obedecer aos nossos próprios pensamentos, quando na
verdade nos submetemos às suas tentações e à sua funesta influência. Nossas
disposições, ao contrário, são conhecidas por eles através das impressões que
deixamos transparecer, e eles nos atacam, geralmente pelo nosso lado mais
fraco. Para nos seduzirem com mais segurança, eles costumam nos apresentar
ciladas e sugestões conforme nossas inclinações; modificam sua ação segundo as
circunstâncias e os traços característicos de cada temperamento. No entanto,
suas armas favoritas são a mentira e a hipocrisia.”
17. O castigo — afirmam — segue os anjos decaídos por toda parte; eles não
têm nem paz nem repouso. Isso não desfaz de modo algum a observação feita
sobre o descanso do qual gozam aqueles que estão fora do inferno —
descanso tanto menos justificado porque, estando fora, eles praticam o mal
ainda mais. Sem nenhuma dúvida, eles não são felizes como os bons anjos,
mas será que não devemos levar em conta a liberdade de que eles gozam? Se
eles não têm a felicidade moral que a virtude proporciona, eles são
incontestavelmente menos infelizes do que seus cúmplices, que ficam nas
chamas. E então, para o malvado, existe uma espécie de prazer em fazer o mal
em total liberdade. Perguntem a um criminoso se para ele é a mesma coisa
ficar na prisão ou vagar pelos campos e cometer seus crimes bem à vontade?
A situação é exatamente a mesma.
Dizem que o remorso persegue os demônios sem tréguas nem piedade.
Mas esquecem que o remorso é o precursor imediato do arrependimento —
se já não for o próprio arrependimento. Ora, dizem: “Tornados perversos, eles
não querem deixar de ser assim e assim serão para sempre.” Mas, já que eles
não querem deixar de ser perversos, significa que eles não têm quaisquer
remorsos; se tivessem o menor arrependimento, eles deixariam de fazer o
mal e pediriam perdão. Então, para eles, o remorso não é um castigo.
18. “Eles são, após seu pecado, o que o homem é após a morte. A reabilitação
daqueles que tombaram é, portanto, impossível.” De onde vem essa
impossibilidade? Ninguém compreende que ela seja a consequência de sua
similitude com o homem após a morte — proposição que, aliás, não está
132 – Allan Kardec
muito clara. Essa impossibilidade vem da própria vontade deles, os demônios,
ou da vontade de Deus? Se parte da vontade deles, isso denota uma extrema
perversidade, um endurecimento absoluto no mal; desde então, não podemos
compreender por que seres tão profundamente perversos puderam ter sido
algum dia anjos de virtude e que, durante o tempo indefinido que passaram
entre estes últimos, não tenham deixado perceber algum traço de sua
maldade natural. Mas se é da vontade de Deus, é menos compreensível ainda
que Deus inflija — como castigo — a impossibilidade de redenção, após uma
primeira falta. O Evangelho nada diz de semelhante a isso.
19. Eles acrescentam: “Sua perdição é doravante sem volta e eles teimam no
seu orgulho diante de Deus.” Ora, de que lhes serviria não teimar no mal, já
que qualquer arrependimento é inútil? Se eles tivessem a esperança de uma
reabilitação, a qualquer preço que fosse, o bem teria um objetivo para eles;
mas não é o que acontece. Se perseveram no mal é então porque a porta da
esperança lhes foi fechada. E por que Deus lhes fechou essa porta? Para se
vingar da ofensa que recebeu da falta de submissão deles. Assim, para
satisfazer o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere não
somente vê-los sofrer, mas também vê-los a fazer o mal em vez do bem; vê-los
a induzir ao mal e a levar à perdição eterna todas as suas criaturas do gênero
humano, quando bastaria um simples ato de clemência para evitar um
desastre tão grande — e um desastre sempre previsto!
Será que, por ato de clemência, foi uma graça pura e simples que talvez
tivesse sido um encorajamento ao mal? Não, mas sim de um perdão
condicional, subordinado a um sincero retorno ao bem. Em vez de uma
palavra de esperança e de misericórdia, fazem Deus dizer: Pereça toda a raça
humana, melhor do que minha vingança! E ficam admirados que com tal
doutrina ainda existam incrédulos e ateus! É assim que Jesus nos representa
seu Pai? Ele que nos deu uma lei expressa do esquecimento e do perdão das
ofensas? Aquele que nos ensina pagar o mal com o bem, que coloca o amor
aos inimigos na primeira classe das virtudes que devem nos conduzir ao céu?
Por acaso ele pretenderia que os homens fossem melhores, mais justos e mais
complacentes que o próprio Deus?
133 – O Céu e o Inferno
Os demônios segundo o Espiritismo
20. Segundo o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são seres
especiais; a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos materiais,
eles constituem a humanidade que povoa a Terra e as outras esferas
habitadas; libertos desse corpo, eles constituem o mundo espiritual, ou dos
Espíritos, que povoam os espaços. Deus os criou perfectíveis e lhes deu por
objetivo a perfeição, com a felicidade que é a sua consequência, mas não lhes
deu a perfeição: Deus quis que ela dependesse do trabalho pessoal deles, a
fim de que eles tivessem o mérito. Desde o instante da sua formação, eles
progridem tanto no estado de encarnação como no estado espiritual; tendo
chegado ao apogeu, tornam-se Espíritos puros, quer dizer anjos, segundo a
expressão comum, de maneira que, a partir do embrião do ser inteligente até
o anjo, existe uma cadeia ininterrupta na qual cada elo marca um grau de
progresso.
Resulta daí que há Espíritos em todos os graus de adiantamento moral e
intelectual, conforme estejam no alto, embaixo ou no meio da escala. Por
conseguinte, existem em todos os graus saber e ignorância, bondade e
maldade. Nas faixas inferiores há alguns Espíritos que ainda estão
profundamente inclinados ao mal e que nele se comprazem. Podem chamá-los
de demônios, se assim quiserem, pois eles são capazes de todas as
malvadezas atribuídas aos demônios. Se o Espiritismo não lhes dá esse nome,
é que esse termo se vincula à ideia de seres distintos da humanidade, de uma
natureza essencialmente perversa, de seres eternamente devotados ao mal e
incapazes de progredir no bem.
21. De acordo com a doutrina da Igreja, os demônios foram criados bons e se
tornaram maus por sua desobediência: são anjos decaídos, colocados por
Deus no topo da escala, e então desceram. Segundo o Espiritismo, são
Espíritos imperfeitos, mas que se melhoram; eles ainda estão na base da
escala, mas irão subir.
Aqueles que por seu descuido, negligência, teimosia e má vontade
permanecem por mais tempo nas faixas inferiores, estes carregam a
134 – Allan Kardec
penitência, e o hábito do mal lhes torna mais difícil de sair dessa faixa. Mas
chega um tempo em que eles se cansam dessa existência dolorosa e das suas
consequências; é então que, comparando sua situação com a dos bons
Espíritos, eles compreendem que aquilo que lhes interessa é o bem, e então
procuram se melhorar; mas o fazem por espontânea vontade e sem serem
constrangidos a isso. Eles são submetidos à lei do progresso, pela aptidão
deles para progredir, mas ainda assim eles não progridem a contragosto.
Deus lhes fornece constantemente os meios de progredir, mas eles ficam
livres para aproveitá-los ou não. Se o progresso fosse obrigatório, eles não
teriam nenhum mérito, e Deus quer que eles tenham o mérito pessoal de suas
obras. Ninguém é colocado na primeira classe por privilégio, mas a primeira
classe está aberta a todos, e ninguém chega lá senão por seus esforços. Os
anjos mais elevados conquistaram o seu status assim como os demais:
passando pela rota padrão.
22. Tendo chegado a um certo grau de depuração, os Espíritos têm missões
compatíveis com o seu avanço; eles desempenham todas aquelas que são
atribuídas aos anjos de diferentes categorias. Como Deus tem criado desde
toda a eternidade, também desde toda a eternidade encontram-se Espíritos
para satisfazer a todas as necessidades do governo do Universo. Então, uma
só espécie de seres inteligentes, submetida à lei do progresso, é realmente
suficiente para tudo. Essa unidade na criação, com a ideia de que todos têm
um mesmo ponto de partida, a mesma rota a percorrer, e que cada um se
eleva pelo seu próprio mérito, corresponde melhor à justiça de Deus, em vez
da criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dons
naturais, que seriam outros tantos privilégios.
23. A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas
humanas, não admitindo a lei do progresso, e ainda assim vendo seres de
diversos graus, concluiu que eles eram o produto de outras tantas criações
especiais. Com isso, ela chega a fazer de Deus um pai parcial, dando tudo a
alguns de seus filhos enquanto impõe aos outros o mais rude trabalho. Não é
de se surpreender que durante muito tempo os homens nada tenham achado
135 – O Céu e o Inferno
de chocante nessas preferências, já que eles as usaram do mesmo modo em
relação aos seus próprios filhos, através dos direitos de primogenitura e de
privilégios do nascimento. Poderiam eles acreditar que estavam fazendo
mais mal do que Deus? Porém hoje, o círculo de ideias está alargado; os
homens enxergam mais claramente; eles têm noções mais nítidas da justiça;
eles a desejam para si e nem sempre a encontram na Terra, mas esperam pelo
menos encontrá-la mais perfeita no céu. Eis por que toda doutrina em que a
justiça divina não lhes apareça na sua maior pureza é repugnada pela sua
razão.
136 – Allan Kardec
CAPÍTULO X
INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS
NAS MANIFESTAÇÕES MODERNAS
1. Os fenômenos espíritas modernos têm chamado a atenção sobre fatos
análogos que ocorreram em todas as épocas, e jamais a História foi tão
consultada com relação a isso como nos últimos tempos. Pela semelhança dos
efeitos, chegou-se à conclusão da unidade da causa desses fenômenos. Como
acontece com todos os fatos extraordinários cuja causa é desconhecida, a
ignorância viu nos fenômenos espírita uma causa sobrenatural, e a
superstição os ampliou, acrescentando-lhes crendices absurdas; daí vem um
monte de lendas que, na sua maior parte, é uma mistura de um pouco de
verdade com muita falsificação.
2. As doutrinas sobre os demônios, que por tanto tempo têm prevalecido,
exageraram de tal maneira o poder deles que, por assim dizer, fizeram com
que se esquecessem de Deus; foi por isso que atribuíram aos demônios tudo o
que parecia ultrapassar a capacidade humana e por toda parte aparecia a mão
de Satanás: as coisas melhores, as descobertas mais úteis, principalmente as
que pudessem tirar o homem da ignorância e ampliar o círculo de suas ideias,
foram muitas vezes consideradas como obras diabólicas. Os fenômenos
espíritas — mais proliferados nos nossos dias e mais bem observados
sobretudo com a ajuda das luzes da razão e dos dados da ciência — têm
confirmado de fato a intervenção de inteligências ocultas, mas sempre agindo
nos limites da lei da natureza, e revelando, por sua ação, uma nova força e leis
desconhecidas até então. A questão se reduz assim em saber de qual ordem
137 – O Céu e o Inferno
são essas inteligências.
Enquanto só tínhamos noções incertas ou sistemáticas do mundo
espiritual, podíamos nos enganar; mas hoje, que observações rigorosas e
estudos experimentais têm lançado luz sobre a natureza dos Espíritos, sua
origem e sua destinação, seu papel no Universo e o seu modo de ação, a
questão está resolvida pelos fatos. Sabe-se agora que eles são as almas
daqueles que viveram na Terra. Sabe-se também que as diversas categorias
de Espíritos bons e maus não constituem seres de diferentes espécies, mas
que isso apenas demonstra os diversos graus de adiantamento. Segundo a
faixa que eles ocupam, em razão do seu desenvolvimento intelectual e moral,
aqueles que se manifestam o fazem sob aspectos bastante opostos — o que
não os impede de terem saído da grande família humana, tanto quanto o
selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.
3. Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mantém suas velhas
crenças no que concerne aos demônios. Ela diz: “Nós temos princípios que
não foram modificados há dezoito séculos e que são imutáveis.” Seu erro é
precisamente em não levar em conta o progresso das ideias e de supor Deus
tão pouco sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento da
inteligência, para usar com os homens primitivos a mesma linguagem que a
dos homens avançados. Se, à medida que a humanidade progride, a religião se
apega aos velhos erros, tanto na questão espiritual quanto em questões
científicas, então chega um momento em que ela é ultrapassada pela
incredulidade.
4. Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva dos demônios nas
manifestações modernas.74
“Nas suas intervenções exteriores, os demônios não são menos atentos ao
dissimular a presença deles, para afastar suspeitas. Sempre astutos e pérfidos,
eles atraem o homem com suas ciladas antes de lhe impor as correntes da
opressão e da servidão. Aqui, eles aguçam a curiosidade através de fenômenos e
74 As citações deste capítulo foram tiradas da mesma carta pastoral referida no capítulo precedente, do
qual elas são a sequência com a mesma autoridade.
138 – Allan Kardec
brincadeiras pueris; acolá, atacam pelo encantamento a subjugam pela atração
ao maravilhoso. Se o sobrenatural aparece, se seu poder os desmascara, então
eles se acalmam e apascentam as apreensões, pedem confiança e provocam
familiaridade. Às vezes se fazem passar por divindades e bons gênios, às vezes
tomam emprestado o nome e até os traços dos mortos que deixaram uma
memória entre os vivos. Graças a essas fraudes dignas da antiga serpente, eles
falam e são ouvidos; dogmatizam e as pessoas acreditam neles; misturam suas
mentiras com algumas verdades e promovem o erro sob todas as formas. É daí
que resultam as pretensas revelações de além-túmulo; é para obter tal resultado
que a madeira, a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, o pé da
mesa e a mão da crianças se tornam oráculos; é por isso que a pitonisa profetiza
em seu delírio e que o ignorante, num sono misterioso, de repente se torna um
doutor da ciência. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e em todos os
tempos, o objetivo final dessas estranhas manifestações.
“Os resultados surpreendentes dessas observações ou desses atos, em sua
maioria bizarros e ridículos, não podendo proceder da sua virtude intrínseca,
nem da ordem estabelecida por Deus, não podem ser atribuídos senão ao
concurso das potências ocultas. Tais são, notadamente, os fenômenos
extraordinários obtidos atualmente, pelos processos aparentemente inofensivos
do magnetismo e do órgão inteligente das mesas falantes. Em meio a essas
operações da magia moderna, vemos se reproduzir entre nós as evocações e os
oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos
ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, dão ordens à madeira e ela
obedece; interrogam-na e ela responde em todas as línguas e sobre todas as
questões; achamo-nos na presença de seres invisíveis que usurpam os nomes
dos mortos, e cujas pretensas revelações são marcadas com o cunho da
contradição e da mentira; formas ligeiras e sem consistência aparecem de
pronto e se mostram dotadas de uma força sobre-humana.
“Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores
dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, nem
se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade. As almas dos mortos,
que Deus nos proíbe de consultar, permanecem no lugar que lhe foi designado
pela justiça divina, e sem a permissão dela, elas não podem se colocar às ordens
dos vivos. Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do
herege e do ímpio, bem como do fiel, tanto do crime quanto da inocência, estes
não são nem enviados de Deus nem apóstolos da verdade e da salvação, mas os
139 – O Céu e o Inferno
agentes do erro e do inferno. Malgrado a precaução que tomam para se
esconderem sob os nomes mais veneráveis, eles se traem pela nulidade de suas
doutrinas, não menos do que pela baixeza de seus atos e incoerência de suas
palavras. Esforçam-se para apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado
original, da ressurreição do corpo, da eternidade das penas e de toda a
revelação divina, a fim de tirar das leis sua verdadeira sanção e de abrir todas as
barreiras aos vícios. Se suas sugestões pudessem prevalecer, elas formariam
uma religião conveniente para o uso do socialismo e de todos aqueles
incomodados com a noção do dever e da consciência. A incredulidade do nosso
século lhes preparou o caminho. Que as sociedades cristãs possam, por um
retorno sincero à fé católica, escapar do perigo desta nova e terrível invasão!”
5. Toda essa teoria se apoia sobre esse princípio de que os anjos e os
demônios são seres distintos das almas humanas, e que estas sejam o produto
de uma criação especial, inferior até mesmo aos demônios, em inteligência,
em conhecimento e em faculdades de todos os tipos. Ela conclui pela
intervenção exclusiva dos anjos maus nas manifestações antigas e modernas
atribuídas aos Espíritos dos mortos.
A possibilidade das almas de se comunicarem com os vivos é uma
questão de fato, é o resultado de experiências e de observações que nós não
discutiremos aqui. Contudo, vamos admitir como hipótese a doutrina aqui
mencionada, e vejamos se ela não se destrói por si mesma, pelos seus
próprios argumentos.
6. Das três categorias de anjos, segundo a Igreja, uma se ocupa
exclusivamente com o céu; outra, com a administração do Universo; a terceira
está encarregada da Terra, e nesta última encontram-se os anjos guardiões
prepostos para a proteção de cada indivíduo. Somente uma parte dos anjos
desta última categoria tomou parte na revolta e foi transformada em
demônios. Então, se Deus permitiu que estes possam levar os homens à
perdição, por sugestões de todos os tipos, e possam produzir manifestações
ostensivas, por que ele — que é soberanamente justo e bom — teria
concedido a eles o imenso poder de que desfrutam e dado uma liberdade tal
de que fazem um uso tão pernicioso, sem permitir que os bons anjos lhes
140 – Allan Kardec
façam um contrapeso através de manifestações semelhantes dirigidas ao
bem? Admitamos que Deus tenha dado uma parte igual de poder aos anjos
bons e aos maus, o que já seria um favor exorbitante em proveito destes
últimos, e aí pelo menos o homem teria ficado livre para escolher. Porém, dar
aos anjos maus o monopólio da tentação, com a capacidade de simular o bem
para melhor enganar, para seduzir com mais segurança, isso seria uma
verdadeira armadilha ante a fraqueza humana, sua inexperiência e sua boa-fé.
Dizemos mais: seria abusar da sua confiança em Deus. A razão se recusa a
admitir tal parcialidade a favor do mal. Vejamos, porém, os fatos.
7. Aos demônios são concedidas faculdades transcendentes; eles nada
perderam de sua natureza angelical: eles têm o saber, a perspicácia, a
previdência a clarividência dos anjos e, mais ainda, a astúcia, a esperteza e a
artimanha no grau supremo. O objetivo deles consiste em desviar os homens
do bem e, sobretudo, afastá-los de Deus para os arrastar para o inferno, do
qual são provedores e recrutadores.
Compreende-se que eles se dirijam às pessoas que estão no bom
caminho e que seria inútil para eles se elas aí persistem; compreende-se a
sedução e o simulacro do bem para atraí-las para as fileiras deles; mas o que é
incompreensível é que eles se dirijam àquelas pessoas que já lhes pertencem
de corpo e alma, para as reconduzir a Deus e ao bem. Ora, quem está nas suas
garras mais do que a pessoa que renega e blasfema contra Deus, mergulhada
no vício e na desordem das paixões? Essa pessoa já não está no caminho do
inferno? Seria compreensível que, seguro de sua presa, o anjo mau a incite a
adorar Deus, a se submeter à vontade divina e a renunciar ao mal? Que ela
exalte aos seus olhos a vida venturosa dos Espíritos bons e que lhe descreva
com horror a situação dos malignos? Alguém já viu um comerciante
vangloriar a mercadoria do seu concorrente, em detrimento da sua própria
mercadoria, e aconselhar seus clientes a irem comprar do outro? Já se viu um
recrutador depreciar a vida militar e louvar a monotonia da vida doméstica?
Ou dizer aos recrutas que eles terão uma vida de fadigas e de privações? Que
eles têm dez chances contra uma de serem mortos, ou pelo menos terem os
braços e as pernas amputados?
141 – O Céu e o Inferno
Este é, portanto, o papel estúpido atribuído ao demônio, pois é um fato
notório que, por consequência das instruções emanadas do mundo invisível,
vemos todos os dias incrédulos e ateus sendo reconduzidos a Deus e orando
com fervor — o que eles jamais tinham feito —, assim como vemos gente
viciosa trabalhar com ardor para seu próprio melhoramento. Achar que isso
seja obra das artimanhas do demônio é fazer dele um verdadeiro estúpido.
Ora, como não se trata aqui de uma mera suposição, mas sim de um resultado
da experiência, e já que contra um fato não há negação possível, devemos
concluir que ou o demônio é um desastrado de primeira ordem, ou que ele
não é tão astuto e nem tão mau como se pretende, e por conseguinte, que ele
não é tão temível quanto, uma vez que ele trabalha contra seus próprios
interesses; ou então, que nem todas as manifestações vêm dele.
8. “Eles promovem o erro sob todas as formas; é para obter tal resultado que a
madeira, a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, o pé da mesa e
a mão das crianças se tornam oráculos.”
De acordo com isso, qual é então o valor destas palavras do Evangelho:
“Derramarei do meu espírito sobre toda a carne; vossos filhos e filhas
profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos anciões terão sonhos. E
nesses dias, derramarei do meu espírito sobre meus servos e sobre minhas
servas, e eles profetizarão.” (Atos dos Apóstolos, 2: 17 e 18.)? Isso não é a
predição da mediunidade concedida a todo mundo, inclusive às crianças, que
está se realizando nos nossos dias? Porventura, os apóstolos lançaram o
anátema sobre essa faculdade? Não; eles a anunciaram como uma graça de
Deus, e não como obra do demônio. Será que os teólogos da atualidade sabem
desse assunto mais do que os apóstolos? Não deveriam eles ver o dedo de
Deus no cumprimento dessas palavras?
9. “Em meio a essas operações da magia moderna, vemos se reproduzir entre
nós as evocações e os oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que
ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas.”
Onde foi visto operações da magia nas evocações espíritas? Houve um
tempo em que se podia crer na eficácia dessas coisas, mas hoje elas são
142 – Allan Kardec
ridículas; ninguém acredita nelas, e o Espiritismo as condena. Na época em
que florescera a magia, não se tinha mais do que uma ideia muito imperfeita
sobre a natureza dos Espíritos, considerados como seres dotados de um
poder sobre-humano; ninguém os convocava senão para obter deles —
mesmo que fosse pelo preço da própria alma — favores da sorte e da fortuna,
a descoberta de tesouros, a revelação do futuro ou de filtros.75 A magia —
com a ajuda dos seus sinais, fórmulas e práticas cabalísticas — era
supostamente capaz de fornecer segredos para operar prodígios, obrigar os
Espíritos a ficarem às ordens dos homens e lhes satisfazer os desejos. Hoje
todos sabem que os Espíritos não são mais do que as almas dos homens; nós
só os evocamos para recebermos conselhos dos bons, para moralizarmos os
imperfeitos e para continuarmos as relações com os nossos entes queridos.
Aqui está aquilo que o Espiritismo diz sobre esse tema:
10. Não há nenhum meio de vocês constrangerem um Espírito a vir a
contragosto, desde que ele lhes seja semelhante ou superior em moralidade,
porque vocês não têm nenhuma autoridade sobre ele; se o Espírito lhes for
inferior, vocês podem trazê-lo, desde que seja para o bem dele, porque então
outros Espíritos lhes auxiliam. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item
282, 10ª pergunta.)
A mais essencial de todas as disposições para as evocações é o
recolhimento, quando se deseja ter contato com Espíritos sérios. Com fé e o
desejo do bem, a pessoa fica mais forte para evocar os Espíritos superiores.
Elevando sua alma por alguns instantes de recolhimento no momento da
evocação, ela se identifica com os bons Espíritos e os dispomos a virem. (O Livro
dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 12ª pergunta.)
Nenhum objeto, medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou de
afastar ou expulsar os Espíritos; a matéria não exerce nenhuma ação sobre eles.
Jamais um bom Espírito aconselhará tais absurdos. A virtude dos talismãs nunca
existiu a não ser na imaginação de pessoas crédulas. (O Livro dos Médiuns, 2ª
parte, cap. XXV, item 282, 17ª pergunta.)
75 Filtro (philtre, no original em francês): segundo a lenda popular, poção mágica principalmente usada
para inspirar o amor. — N. T.
143 – O Céu e o Inferno
Não há nenhuma fórmula sacramental para a evocação dos Espíritos.
Qualquer um que pretendesse receitar alguma, seguramente, pode ser tachado
de mistificador, pois para os Espíritos a forma não vale nada. Todavia, a
evocação sempre deve ser feita em nome de Deus. (O Livro dos Médiuns, 2ª,
cap. XVII, item 203.)
Os Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres e em horas
indevidas são Espíritos que se divertem à custa dos que lhes dão ouvidos. É
sempre inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões: inútil, porque não
se ganha absolutamente nada além de ser mistificado; perigoso, não pelo mal
que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode exercer sobre
as mentes fracas. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 18ª
pergunta.)
Não há nem dias nem horas especialmente mais favoráveis para as
evocações; isso é completamente indiferente para os Espíritos, como tudo o que
é material, e seria uma superstição acreditar na influência dessas coisas. Os
momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador possa estar menos
distraído pelas suas ocupações habituais, quando seu corpo e seu espírito
estejam mais calmos. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 19ª
pergunta.)
A crítica maliciosa tem prazer em representar as comunicações espíritas
como envolta das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia.
Se aqueles que criticam o Espiritismo sem conhecê-lo tivessem se dado ao
trabalho de estudar aquilo de que querem falar, então eles teriam se poupado do
esforço de imaginação ou de alegações que só servem para provar a ignorância
ou a má vontade deles. Para a edificação das pessoas leigas à ciência, diremos
que não há — para se comunicar com os Espíritos — nem dias, nem horas e nem
lugares mais favoráveis do que outros; diremos ainda que, para evocá-los, não é
preciso nem fórmulas e nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que não há
necessidade de nenhuma preparação nem de qualquer iniciação; que o emprego
de qualquer sinal ou objeto material para atraí-los ou para afastá-los é inútil e
que apenas o pensamento é suficiente; diremos, enfim, que os médiuns recebem
comunicações espirituais sem sair do seu estado normal, tão simples e
naturalmente como se elas fossem ditadas por uma pessoa viva. Só o
charlatanismo poderia atribuir formas excêntricas e acrescentar acessórios
ridículos. (O que é o Espiritismo, cap. II, item 49.)
144 – Allan Kardec
Em princípio, o futuro deve ser oculto ao homem; somente em casos raros
e excepcionais é que Deus permite a sua revelação. Caso o homem conhecesse o
futuro, ele negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade,
porque seria dominado pelo pensamento de que, se tal coisa tem de acontecer,
não adianta se preocupar com ela, ou então ele tentaria impedi-la. Deus não quis
que fosse assim, a fim de que cada qual concorra para a realização das coisas,
mesmo daquelas às quais a pessoa desejaria se opor. Deus permite a revelação
do porvir quando esse conhecimento prévio deve facilitar o cumprimento da
coisa, em vez de entravá-la, obrigando-nos a agir de modo diferente do que
faríamos sem esse conhecimento. (O livro dos Espíritos, Livro III, cap. X,
questões 868 e seguintes.)
Os Espíritos não podem guiar os homens nas pesquisas científicas e nas
descobertas. A ciência é obra do gênio; ela não deve ser adquirida senão pelo
trabalho, pois é só pelo trabalho que o homem avança no seu caminho. Que
mérito ele teria se bastasse só interrogar os Espíritos para saber de tudo?
Qualquer imbecil poderia se tornar sábio por esse preço. O mesmo ocorre com
as invenções e descobertas da indústria.
Quando é chegado o tempo de uma descoberta, os Espíritos encarregados
de dirigir o seu progresso procuram o homem capaz de levá-la a efeito e lhe
inspiram as ideias necessárias, de maneira a lhe deixar todo o mérito da obra,
pois é preciso que ele elabore essas ideias e as ponha em prática. É assim com
todos os grandes trabalhos da inteligência humana. Os Espíritos deixam cada
homem na sua esfera; daquele que só é apto a cavar a terra eles não farão
depositários dos segredos de Deus; mas eles sabem tirar da obscuridade o
homem capaz de promover os seus desígnios. Portanto, não deixem a
curiosidade ou a ambição arrastar vocês por um caminho que não representa o
propósito do Espiritismo, e que os levaria às mais ridículas mistificações. (O
Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXVI, item 294, perguntas 28 e 29.)
Os Espíritos não podem revelar tesouros escondidos. Os Espíritos
superiores não se ocupam com essas coisas; mas os Espíritos zombeteiros
frequentemente indicam tesouros que não existem, ou então podem fazer que se
veja um em algum lugar, enquanto o tesouro esteja no lado oposto; e isso tem a
sua utilidade para mostrar que a verdadeira riqueza está no trabalho. Quando a
Providência destina riquezas ocultas a alguém, este as encontrará naturalmente;
caso contrário, não. (O Livro dos Médiuns, 2ª, cap. XXVI, item 295, 30ª
pergunta.)
145 – O Céu e o Inferno
Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos que são os agentes e
os meios de ação do mundo invisível, constituindo uma das forças e uma das
potências da natureza, o Espiritismo nos dá a chave de uma imensidade de
coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio, e que nos tempos
antigos puderam se passar por prodígios. Do mesmo modo que o magnetismo,
ele nos revela uma lei, se não desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou,
melhor dizendo, conhecíamos os efeitos — pois eles se produziram em todos os
tempos —, mas não conhecíamos a lei, e foi a ignorância dessa lei que gerou a
superstição. Uma vez compreendida essa lei, o maravilhoso desaparece e os
fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que os espíritas não
fazem maior milagre ao fazer uma mesa se mover ou ao fazer os falecidos
escreverem, tanto quanto o médico ao fazer um moribundo voltar à vida, ou o
físico ao fazer um raio cair. Aquele que pretendesse fazer milagres com a ajuda
dessa ciência seria ou um ignorante do assunto ou um enganador. (O Livro dos
Médiuns, 1ª parte, cap. II, item 15.)
Certas pessoas têm uma ideia muito errada das evocações; há quem
acredite que elas consistem em fazer os mortos se reerguerem do túmulo com a
aparência lúgubre. Somente nos romances, nos contos fantásticos de fantasmas
e no teatro é que se veem os mortos descarnados saírem dos seus sepulcros,
envoltos de mortalhas e chacoalhando seus ossos. O Espiritismo, que jamais fez
milagres, tampouco já produziu algum desse, e nunca fez um corpo morto
reviver. O corpo que está na cova lá fica definitivamente, mas o ser espiritual,
fluídico e inteligente, este não foi colocado lá com o seu envoltório grosseiro; ele
foi separado do corpo no momento da morte, e uma vez feita a separação, este
ser não tem mais nada em comum com o corpo. (O que é o Espiritismo, cap. II,
item 48.)
11. Nós nos estendemos sobre estas citações para mostrar que os princípios
do Espiritismo não têm nenhuma relação com os da magia. Assim sendo, nada
de Espíritos às ordens dos homens, nada de mecanismos para os constranger,
nada de sinais ou fórmulas cabalísticas, nada de descobertas de tesouros ou
processos para se enriquecer, nada de milagres ou prodígios, nem de
adivinhações ou de aparições fantásticas; enfim, nada que constitua o objetivo
e os elementos essenciais da magia. O Espiritismo não somente desaprova
todas essas coisas, como também demonstra a impossibilidade e a ineficácia
146 – Allan Kardec
delas. Não há, portanto, qualquer analogia entre a finalidade e os meios da
magia e os do Espiritismo; querer misturá-los só pode ser por ignorância ou
má-fé, e como os princípios do Espiritismo nada têm de secreto, mas
formulados em termos claros e sem equívocos, o erro não poderia prevalecer.
Quanto às ocorrências de curas, reconhecidas como reais na carta
pastoral mencionada, o exemplo foi mal escolhido para desviar as relações
com os Espíritos. A cura é um dos benefícios que mais sensibilizam e que
todos podem apreciar; poucas pessoas estarão dispostas a renunciá-la,
principalmente depois de ter esgotado todos os outros recursos, pelo temor
de ser curado pelo diabo; ao contrário, muitos dirão que se o diabo os curou,
então ele fez uma boa ação.76
12. “Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores
dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, nem
se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade.”
O autor está se referindo às manifestações físicas dos Espíritos; dentre
elas, evidentemente há algumas que seriam pouco dignas dos Espíritos
superiores; mas, se no lugar da palavra anjos vocês colocarem Espíritos
puros, ou Espíritos superiores, então terão exatamente aquilo que o
Espiritismo diz. Porém, não seria possível colocar na mesma linha as
comunicações inteligentes pela escrita, pela fala, pela audição ou por qualquer
outro meio, que não fossem mais indignas dos bons Espíritos do que o seriam
dos homens mais eminentes da Terra, nem as aparições, as curas e um
punhado de outras manifestações que os livros sagrados citam em
abundância como sendo a ação dos anjos ou dos santos. Então, se os anjos e os
santos já produziram fenômenos semelhantes, por que não os produziriam
hoje? Por que os mesmos fatos hoje seriam obra do demônio nas mãos de
certas pessoas, enquanto são reputados milagres santos nas mãos de outros?
Sustentar tal tese é abdicar de toda a lógica.
O autor da carta pastoral incorre em erro quando diz que esses
fenômenos são inexplicáveis. Ao contrário, hoje eles estão perfeitamente
76 Querendo persuadir as pessoas curadas pelos Espíritos de que elas foram curadas pelo diabo, estão
afastando radicalmente da Igreja um grande número daquelas que nem pensavam em deixá-la.
147 – O Céu e o Inferno
explicados, e é por isso que eles não são mais considerados como
maravilhosos e sobrenaturais; e ainda que não fossem, não seria mais lógico
atribuí-los ao diabo, assim como antigamente não era ilógico lhe dar o crédito
de todos os efeitos naturais que não eram compreendidos.
Por papéis indignos devemos entender os papéis ridículos e aqueles que
consistem em fazer o mal; mas não se pode qualificar assim o dos Espíritos
que fazem o bem e que conduzem os homens a Deus e à virtude. Ora, o
Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não fazem parte das
atribuições dos Espíritos superiores, assim como o provam estes preceitos:
13. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem: a dos
Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre e lógica,
isenta de contradições; ela exala sabedoria, benevolência, modéstia e a mais
pura moral; ela é concisa e sem palavras inúteis. Já na linguagem dos Espíritos
inferiores, ignorantes ou orgulhosos, o vazio de ideias é quase sempre
compensado pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente
falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda
expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de
malevolência, de presunção ou arrogância são sinais incontestáveis da
inferioridade de um Espírito.
Os Espíritos superiores não se ocupam senão com comunicações
inteligentes, tendo em vista a nossa instrução; as manifestações físicas ou
puramente materiais estão mais especialmente nas atribuições dos Espíritos
inferiores, comumente designados sob o nome de Espíritos batedores, como
entre nós as tarefas pesadas são executadas pelos ajudantes, e não pelos
sábios. Seria absurdo pensar que os Espíritos, por menos elevados que
sejam, gostem de dar espetáculos. (O que é o Espiritismo, capítulo II, itens 37 a
40 e 60. Veja também, O Livro dos Espíritos, Livro II, cap. I: Diferentes ordens de
Espíritos e Escala espírita; O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXIV, Identidade dos
Espíritos; Distinção dos bons e dos maus Espíritos.)
Qual é o homem de boa-fé que pode ver nestes preceitos um papel
indigno atribuído aos Espíritos elevados? Enquanto atribuem aos demônios
uma inteligência igual à dos anjos, não apenas o Espiritismo jamais confunde
148 – Allan Kardec
os Espíritos, mas também constata, pela observação dos fatos, que os
Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes, que o seu horizonte moral
é limitado e que sua perspicácia é restrita; que muitas vezes eles têm uma
ideia falsa e incompleta das coisas, e que são incapazes de resolver certas
questões — o que os coloca na impossibilidade de fazer tudo quanto se atribui
aos demônios.
14. “As almas dos mortos, que Deus nos proíbe de consultar, permanecem no
lugar que lhe foi designado pela justiça divina, e sem a permissão dela, eles não
podem se colocar às ordens dos vivos.”
O Espiritismo diz também que essas almas não podem vir sem a
permissão de Deus, mas é ainda mais rigoroso, pois afirma que nenhum
Espírito, bom ou mau, pode vir sem essa permissão, enquanto a Igreja atribui
aos demônios o poder de dispensá-la. O Espiritismo vai ainda mais longe, pois
diz que, mesmo com essa permissão, quando eles atendem ao apelo dos vivos,
não é para se colocar às ordens destes.
O Espírito evocado vem voluntariamente ou é obrigado a vir? — Ele
obedece à vontade de Deus, quer dizer, à lei geral que rege o Universo; julga
se é útil vir, mas ainda aí lhe resta o livre-arbítrio. O Espírito superior vem
sempre quando é chamado para um propósito útil; nunca se nega a responder
a não ser no meio de pessoas pouco sérias ou que tratam a coisa como
brincadeira. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 8ª pergunta.)
O Espírito evocado pode se negar a atender ao chamado que lhe é feito?
— Perfeitamente; sem isso, onde estaria o seu livre-arbítrio? E quanto a vocês
mesmos? Consideram-se obrigados a responder a todos os que pronunciam o
nome de vocês? Quando digo que o Espírito pode se recusar, refiro-me ao
pedido do evocador, pois um Espírito inferior pode ser constrangido a vir por
um Espírito superior. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282, 9ª
pergunta.)
Os espíritas estão tão convencidos de que eles não têm nenhum poder
direto sobre os Espíritos, e que não podem obter nada deles sem a permissão
de Deus, que eles dizem, quando fazem um apelo a um Espírito qualquer: Eu
rogo a Deus todo-poderoso que permita a um Espírito bom se comunicar
149 – O Céu e o Inferno
comigo; rogo também ao meu anjo guardião que bem queira me assistir e
afastar os Espíritos maus. E quando se trata de um apelo a um determinado
Espírito: Eu rogo a Deus todo-poderoso que permita a tal Espírito se
comunicar comigo. (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XVII, item 203.)
15. As acusações lançadas pela Igreja contra a prática das evocações,
portanto, não concernem ao Espiritismo, pois elas se dirigem principalmente
às operações da magia, com a qual o Espiritismo nada tem em comum, visto
que ele condena nessas práticas exatamente o que a própria Igreja condena;
já que ele não atribui aos bons Espíritos um papel indigno deles, e, enfim, que
ele declara não pedir nada e nem obter nada sem a permissão de Deus.
Sem dúvidas pode haver pessoas que abusem das evocações, que façam
delas um jogo, que lhes deturpem dos seu objetivo providencial para lhes
fazer servir aos seus interesses pessoais, que, por ignorância, leviandade,
orgulho ou ambição, afastem-se dos verdadeiros princípios da doutrina;
porém, o Espiritismo sério os desaprova, assim como a verdadeira religião
desaprova os falsos devotos e os excessos do fanatismo. Portanto, não é lógico
nem racional imputar ao Espiritismo em geral os abusos que ele condena, ou
os erros daqueles que não o compreendem. Antes de formular uma acusação,
é preciso ver se ela é justa. Nós diremos então: A condenação da Igreja recai
sobre os charlatães, os exploradores, as práticas da magia e da feitiçaria; e
nisso, ela tem razão. Quando a crítica religiosa ou cética condena os abusos e
estigmatiza o charlatanismo, ela apenas realça melhor a pureza da sã
doutrina, que assim ajuda a se desembaraçar das más escórias; com isso, ela
facilita a nossa tarefa. Seu erro está em confundir o bem e o mal, por
ignorância da maior parte deles, por má-fé de alguns; mas a distinção que
essa crítica não faz, outros a fazem. Em todos os casos, a sua censura — à qual
todo espírita sincero se associa, desde que se aplique ao mal — não pode
atingir a doutrina.
16. “Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do herege e
do ímpio, bem como do fiel, tanto do crime quanto da inocência, estes não são
nem enviados de Deus nem apóstolos da verdade e da salvação, mas os agentes
do erro e do inferno.”
150 – Allan Kardec
Desse modo, ao herético, ao ímpio e ao criminoso, Deus não permite que
os bons Espíritos venham lhes tirar do erro para os salvar da perdição eterna!
Ele só lhes envia os agentes do inferno, para lhes mergulhar ainda mais no
lamaçal! E pior, Deus não envia ao inocente senão seres perversos para
pervertê-la! Será então que entre os anjos, essas criaturas privilegiadas de
Deus, não se encontra algum ser bastante compassivo para vir em socorro
dessas almas perdidas? De que servem as brilhantes qualidades de que eles
são dotados, se só servem para o seu gozo pessoal? Será que esses anjos são
realmente bons, já que, mergulhados nas delícias da contemplação, eles veem
essas almas na rota do inferno e não vêm livrá-las? Não é esta a imagem do
rico egoísta que, tendo tudo em abundância, deixa impiedosamente o pobre
morrer de fome bem na sua porta? Não é isso o egoísmo erigido em virtude e
colocado bem aos pés do Eterno?
Vocês se admiram de que os bons Espíritos venham ao herege e ao
ímpio; vocês então se esquecem destas palavras do Cristo: “Não é aquele que
está bem que precisa de médico.” Vocês não conseguem ver as coisas de um
ponto de vista mais elevado do que os fariseus do tempo do Cristo? E vocês
mesmos, se vocês forem chamados por um descrente, por acaso se recusariam
a ir a ele para colocá-lo no bom caminho? Pois os Espíritos bons fazem o que
vocês fariam: eles vão ao ímpio para fazê-lo ouvir bons conselhos. Em vez de
lançar o anátema sobre as comunicações de além-túmulo, abençoem os
desígnios do Senhor, e admirem sua onipotência e sua bondade infinita.
17. Há anjos guardiões, dizem; mas já que esses anjos guardiões não podem
se fazer ouvir pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração, por que
eles não empregariam meios de ação mais diretos e mais materiais, de modo a
tocar os sentidos, uma vez que esses meios existem? Será que Deus coloca
esses meios — que são obra sua, pois tudo vem dele e nada acontece sem a
sua permissão — à disposição somente dos maus Espíritos, enquanto proíbe
aos bons de se servirem desses recursos? Disso é preciso concluir que Deus
concede aos demônios mais facilidades para levar os homens à perdição, do
que ele concede aos anjos guardiões para os salvar!
Pois bem! O que os anjos da guarda não podem fazer, segundo a Igreja,
151 – O Céu e o Inferno
os demônios fazem por eles. Por meio dessas mesmas comunicações, ditas
infernais, eles reconduzem a Deus aqueles que o renegavam, e ao bem os que
estavam mergulhados no mal; esses demônios nos dão o estranho espetáculo
de milhões de homens que creem em Deus pela força do diabo, quando a
Igreja foi impotente para os converter. Quantos homens que jamais oraram
hoje oram com fervor, graças às instruções desses mesmos demônios!
Quantos desses, orgulhosos, egoístas e devassos, nós vemos se tornarem
humildes, caridosos e menos sensualistas! E ainda dizem que isso é obra dos
demônios! Se for assim, é preciso convir que o demônio lhes tem prestado um
grandíssimo serviço e lhes tem ajudado melhor do que os anjos. É necessário
ter uma opinião bem pobre do senso dos homens neste século para crer que
eles possam aceitar cegamente tais ideias. Uma religião que faz de tal
doutrina a sua pedra angular, que se declara minada em suas bases se lhe
tirarmos os seus demônios, seu inferno, suas penas eternas e seu Deus
impiedoso, esta é uma religião que se suicida.
18. Dizem que Deus — que enviou seu Cristo para salvar os homens —
provou o seu amor pelas criaturas; mas então ele as deixou desprotegidas?
Sem dúvida alguma, Cristo é o divino Messias, enviado para ensinar aos
homens a verdade e lhes mostrar o bom caminho. Mas, só a partir dele,
contem o número daqueles que não puderam ouvir sua palavra de verdade,
quantos morreram e quantos morrerão sem a conhecer, e, entre aqueles que a
conhecem, quantos a põem em prática! Por que Deus, em sua solicitude para a
salvação de seus filhos, não lhes enviaria outros mensageiros, vindo sobre
toda a Terra e penetrando nos lugares mais humildes, entre os grandes e os
pequenos, entre os sábios e os ignorantes, entre os incrédulos e os crentes,
para ensinar a verdade a quem não a conhece, para explicar a quem não a
compreende, para suprir pelo seu ensino direto e múltiplo a insuficiência da
propagação do Evangelho, acelerando assim a chegada do reino de Deus? E
quando esses mensageiros chegam em massas inumeráveis, abrindo os olhos
aos cegos, convertendo os ímpios, curando os enfermos e consolando os
aflitos, a exemplo de Jesus, então vocês os repulsam, repudiam o bem que eles
fazem, dizendo que são os demônios! Esta também era a linguagem dos
152 – Allan Kardec
fariseus com relação a Jesus, pois eles igualmente diziam que ele fazia o bem
pela força do diabo. O que o Cristo lhes respondeu? “Reconhece-se a árvore
pelo seu fruto; uma árvore má não pode dar bons frutos.”
Mas para os fariseus, os frutos produzidos por Jesus eram maus, porque
ele veio destruir o abuso e proclamar a liberdade que devia arruinar a
autoridade deles; se ele tivesse vindo lhes lisonjear o orgulho, sancionar suas
prevaricações e apoiar o poder deles, então ele teria sido aos olhos dos
fariseus o Messias esperado pelos judeus. Mas ele estava só, pobre e fraco,
então o fizeram perecer, acreditando eles que assim matariam a palavra de
Jesus; todavia, a sua palavra era divina e sobreviveu. Entretanto, ela tem sido
propagada com lentidão, e após dezoito séculos, mal ela é conhecida pela
décima parte do gênero humano, além de que numerosos cismas eclodiram
no próprio seio dos seus discípulos. Foi então que Deus, em sua misericórdia,
começou a enviar os Espíritos para confirmá-la, completá-la, pô-la ao alcance
de todos e difundi-la por toda a Terra. Mas os Espíritos não estão encarnados
num só homem, cuja voz teria ficado limitada; eles são incontáveis, eles vão
por toda parte e ninguém pode detê-los; eis por que seu ensinamento se
espalha com a rapidez do relâmpago: eles falam ao coração e à razão, e por
isso são compreendidos pelos mais humildes.
19. Vocês dizem: “Não é indigno de mensageiros celestes, transmitir suas
instruções por um meio tão vulgar como o das mesas falantes? Não é ultrajá-
los supor que eles se divirtam com trivialidades e deixem sua brilhante
mansão para se meterem à disposição do primeiro que apareça?”
Jesus não deixou a morada do seu Pai para nascer num estábulo? E aliás,
onde vocês viram que o Espiritismo atribua coisas triviais aos Espíritos
superiores? Ele afirma, ao contrário, que as coisas vulgares são o produto de
Espíritos vulgares. Mas, pela sua própria vulgaridade, essas coisas não fazem
mais do que provocar as imaginações; elas têm servido para provar a
existência do mundo espiritual e mostrar que esse mundo é muito diferente
do que se julgava. Isso era o início; era simples como tudo aquilo que começa;
mas a árvore brotada de uma pequena semente nem por isso deixa de mais
tarde espalhar sua folhagem ao longe. Quem teria acreditado que da
153 – O Céu e o Inferno
misérrima manjedoura de Belém um dia sairia a palavra que haveria de
comover o mundo?
Sim, Cristo é o Messias divino; sim, sua palavra é a da verdade; sim, a
religião fundada sobre essa verdade será inabalável, mas com a condição de
seguirmos e praticarmos seus sublimes ensinamentos, e não de fazermos do
Deus justo e bom — que ela nos ensina a conhecer — um Deus parcial,
vingativo e impiedoso.
154 – Allan Kardec
CAPÍTULO XI
DA PROIBIÇÃO DE
EVOCAR OS MORTOS
1. A Igreja não nega de forma algum o fato das manifestações espíritas; ao
contrário, ela admite todas elas — assim como nós vimos nas citações
precedentes. No entanto, ela as atribui à intervenção exclusiva dos demônios.
É um erro que alguns invoquem o Evangelho para interditar as manifestações,
pois o Evangelho não diz nenhuma palavra sobre isso. O supremo argumento
que fazem prevalecer é a proibição de Moisés. Eis em quais termos se refere
ao assunto a carta pastoral citada nos capítulos anteriores:
“Não é permitido se colocar em contato com eles [os Espíritos], seja
diretamente, seja por intermédio de quem os invoca e os interroga. A lei mosaica
punia com a morte essas práticas detestáveis, em uso entre os gentios. Diz o
Levítico: ‘Não vão procurar os mágicos, nem dirijam qualquer pergunta aos
adivinhos, sob pena de incorrer em contaminação ao se dirigirem a eles.’
(Levítico, 19: 31) — ‘Se um homem ou uma mulher tiver um Espírito de Píton ou
de adivinhação, que seja punido com a morte; que seja apedrejado, e seu sangue
recairá sobre sua cabeça’. (Levítico, 20: 27). Também o livro do Deuteronômio
diz: ‘Que não haja entre vocês ninguém que consulte os adivinhos, ou que
observe sonhos e agouros, ou que faça uso de malefícios, sortilégios e
encantamentos, ou que consulte aquele que tem o Espírito de Píton e que
pratique a adivinhação ou que interrogue os mortos para saber a verdade; pois
o Senhor tem como uma abominação todas essas coisas, e ele destruirá, na
chegada de vocês, as nações que cometem esses crimes.’ (Deuteronômio, 18: 10
a 12)”
2. É útil, para a compreensão do verdadeiro sentido das palavras de Moisés,
155 – O Céu e o Inferno
reproduzir o texto completo — que foi um tanto abreviado naquela citação:
“Não se desviem do vosso Deus para irem procurar mágicos, e não
consultem jamais os adivinhos, sob pena de se contaminarem ao se dirigirem a
eles. Eu sou o Senhor vosso Deus.” (Levítico, 19: 31.)
“Se um homem ou uma mulher tiver um Espírito de Píton, ou um Espírito
de adivinhação, que seja punido de morte; que seja apedrejado, e o seu sangue
recairá sobre sua cabeça.” (Idem, 20: 27.)
“Quando tiverem entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos dará,
tomem muito cuidado para não querer imitar as abominações desses povos; —
e que não haja ninguém entre vocês que pretenda purificar seu filho ou sua
filha fazendo-os passar pelo fogo, ou que consulte os adivinhos ou que observe
sonhos e augúrios, ou que faça uso de malefícios, sortilégios e encantamentos,
ou que consulte os que têm o Espírito de Píton, e que se ponham a adivinhar, ou
que interrogue os mortos para saber a verdade. — Pois o Senhor tem como
abominação todas essas coisas, e exterminará todos esses povos na chegada de
vocês, por causa desses tipos de crimes que eles têm cometido.” (Deuteronômio,
18: 9 a 12)
3. Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste ponto, assim
deve ser igualmente em todos os outros, pois, por que ela seria boa nesse
ponto que concerne às evocações e má em outras partes? É preciso ser
consequente; se reconhecemos que sua lei não está mais em harmonia com
nossos costumes e nossa época para certas coisas, não há razão para que
também não o esteja para a proibição de que tratamos.
É preciso, aliás, se reportar aos motivos que provocaram essa proibição,
motivos que então tinha sua razão de ser, mas que seguramente hoje já não
existem mais. O legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos
os hábitos adquiridos no Egito, onde esse das evocações estava em uso e era
objeto de abusos, como o provam estas palavras de Isaías: “O Espírito do Egito
se aniquilará dentro dele, e eu anularei o seu conselho; eles consultarão seus
ídolos, seus adivinhos, seus pítons e seus mágicos.” (Capítulo 19: 3)
Além disso, os israelitas não deviam contrair nenhuma aliança com as
nações estrangeiras; ora, eles encontrariam as mesmas práticas entre esses
povos a quem iam encarar e a quem deviam combater. Portanto, por razões
156 – Allan Kardec
políticas, Moisés teve que inspirar no povo hebreu uma aversão a todos os
costumes que tivessem sido assimilados de outras nações. Para motivar essa
aversão, era preciso apresentar esses costumes como reprovados pelo
próprio Deus; eis por que ele diz: “O Senhor tem como abominação todas
essas coisas, e destruirá, com a vossa chegada, as nações que cometem tais
crimes.”
4. A proibição de Moisés era tanto mais justificada porque não se evocava os
mortos por respeito e afeição por eles, nem com um sentimento de piedade;
era só um meio de adivinhação, do mesmo tipo que os augúrios e presságios
explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Por mais que tenha feito,
ele não conseguiu desenraizar esse hábito, que se tornara objeto de comércio,
bem como atestam as seguintes passagens do mesmo profeta:
“E quando lhes disserem: Consultem os magos e adivinhos que falam aos
sussurros em seus encantamentos, respondam-lhes: Não é verdade que cada
povo consulta o seu Deus? E que vai falar com os mortos daquilo que diz
respeito aos vivos?” (Isaías, 8: 19)
“Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios da magia; quem
enlouquece aqueles que se metem a adivinhar; quem reverte o espírito dos
sábios e quem converte em loucura a sua vã ciência.” (Capítulo 44: 25.)
“Que esses agouros que estudam o céu, que contemplam os astros e que
contam os meses para deles tirar as predições que eles querem fazer do futuro,
venham agora e que vos salvem. Eles se tornaram como a palha, e o fogo os
devorou; eles não poderão livrar suas almas das chamas ardentes; não restarão
de suas brasas nem mesmo os carvões com os quais possam se aquecer, nem
fogo diante do qual possam se sentar. Eis o que sucederá com todas essas coisas
às quais vocês têm se ocupado com tanto esforço; esses mercadores que vieram
traficar convosco desde a vossa juventude fugirão todos, um para um lado, outro
para outro, sem que se encontre um só deles que vos tire dos vossos males.” (47:
13 a 15.)
Nesse capítulo Isaías se dirige aos babilônios sob a figura alegórica da
“virgem filha da Babilônia, filha de caldeus”. (Versículo 1.) Ele diz que os
encantadores não impedirão a ruína de sua monarquia. No capítulo seguinte,
ele se endereça diretamente aos israelitas.
157 – O Céu e o Inferno
“Venham aqui, vocês outros, filhos de uma advinha, raça de um homem
adúltero e de uma mulher prostituída. De quem vocês se divertem? Contra quem
vocês abriram a boca e lançaram vossas línguas afiadas? Não são vocês os filhos
pérfidos e bastardos — vocês que procuram sua consolação nos seus deuses
debaixo de todas as árvores carregadas de folhagens, que sacrificam vossos
filhinhos nas torrentes sob os rochedos avançados? Vocês depositaram vossa
confiança nas pedras da torrente; vocês derramaram licores para honrá-los e
ofereceram sacrifícios a eles. Depois disso, minha indignação não se acenderá?”
(57: 3 a 6.)
Estas palavras são inequívocas; elas provam claramente que naquele
tempo as evocações tinham por finalidade a adivinhação, e que delas se fazia
um comércio; estavam associadas às práticas da magia e da feitiçaria, e até
mesmo acompanhadas de sacrifícios humanos. Logo, Moisés tinha razão em
proibir essas coisas, e em afirmar que Deus as tinha como abominação. Essas
práticas supersticiosas se perpetuaram até a Idade Média, mas hoje a razão
lhe faz justiça e o Espiritismo veio mostrar o propósito exclusivamente moral,
consolador e religioso das relações de além-túmulo. Já que os espíritas não
“sacrificam criancinhas nem derramam licores para honrar os deuses”; e já
que eles não interrogam nem os astros, nem os mortos e nem os augúrios
para conhecerem o futuro que Deus sabiamente ocultou aos homens; e já que
eles repudiam todo tráfico da faculdade que alguns receberam de se
comunicar com os Espíritos; e já que eles não são motivados nem pela mera
curiosidade e nem pela cupidez, mas sim por um sentimento piedoso e por
um desejo exclusivo de se instruírem, de se melhorarem e de suavizar as
almas sofredoras, então a proibição de Moisés não lhes diz respeito de modo
algum. É o que teriam visto aqueles que a invocam contra os espíritas, se eles
tivessem mais bem aprofundado o sentido das palavras bíblicas; eles teriam
reconhecido que não existe qualquer analogia entre o que se passava com os
hebreus e os princípios do Espiritismo. Muito mais: teriam reconhecido que o
Espiritismo condena precisamente tudo que motivou a proibição de Moisés;
mas, cegos pela ânsia de encontrar um argumento contra as ideias novas, eles
nem sequer perceberam que esse argumento é completamente falso.
A lei civil de nossos dias pune todos os abusos que Moisés queria
158 – Allan Kardec
reprimir. Se Moisés pronunciou a pena máxima contra os delinquentes, foi
porque ele careceu de meios rigorosos para governar aquele povo
indisciplinado, por isso a pena de morte era prodigalizada na sua legislação.
De resto, ele não tinha muita escolha nos seus meios de repressão; não havia
nem prisões nem casas de correção no deserto, e seu povo não era do tipo que
sofria de medo das penas puramente disciplinares; ele não conseguia graduar
sua penalidade como se faz hoje em dia. Então, é errado se apoiar na
severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos
mortos. Agora, por respeito à lei de Moisés, deveríamos manter a pena capital
para todos os casos em que ele a aplicava? Por que, a propósito, reviver com
tanta insistência este artigo, enquanto se passa em silêncio o começo do
capítulo que proíbe aos sacerdotes possuírem os bens da Terra e de tomar
parte de qualquer herança, já que o Senhor é a sua própria herança?
(Deuteronômio, 18: 1 e 2)
5. Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita,
promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos
costumes e ao caráter do povo. A primeira é invariável; a outra se modifica
segundo as épocas, e não pode passar pela cabeça de ninguém que possamos
ser governados pelos mesmos dispositivos dos hebreus no deserto, muito
menos os decretos de Carlos Magno não poderiam ser aplicados à França do
século dezenove. Quem pensaria, por exemplo, em reviver hoje aquele artigo
da lei mosaica: “Se um boi ferir com seu chifre um homem ou uma mulher, e a
pessoa morrer disso, o boi deve ser apedrejado e ninguém deverá comer de
sua carne; mas o dono do boi será julgado inocente.” (Êxodo, 21: 28 e
seguintes)
Pois esse artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha por objetivo
senão o de punir o boi e absolver seu dono; ele equivalia simplesmente à
confiscação do animal, causa do acidente, para obrigar o proprietário a ter
mais cuidado. A perda do boi era a punição para o seu dono, punição essa que
devia ser bem sensível para um povo de pastores, para que não fosse
necessário lhe infligir outra; mas ela não devia beneficiar ninguém, razão pela
qual era proibido comer da carne desse boi. Outros artigos estipulam o caso
159 – O Céu e o Inferno
em que o dono do boi é responsabilizado.
Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés, pois tudo nela
estava previsto nos seus mínimos detalhes; mas a forma, assim como o
fundamento, era conforme às circunstâncias em que se encontrava.
Certamente, se Moisés voltasse hoje a dar um código para uma nação
civilizada da Europa, ele não daria aquele código dos hebreus.
6. A isso, contesta-se que todas as leis de Moisés foram ditadas em nome de
Deus, assim como aquela do Sinai. Ora, se todas elas são consideradas de
origem divina, por que os mandamentos estão limitados ao Decálogo? Por que
então se faz diferença entre elas? Se todas emanam de Deus, todas são
igualmente obrigatórias. Por que nem todas são observadas? Além disso, por
que não se conservou a circuncisão à qual Jesus foi submetido e que ele não
aboliu? Esquece-se que todos os legisladores antigos, para darem mais
autoridade às suas leis, diziam que as tiraram de uma divindade. Mais do que
qualquer outro, Moisés carecia desse apoio, em razão do tipo do seu povo. Se,
apesar disso, ele teve tanta dificuldade em fazer com que o obedecessem, teria
sido bem pior se ele as tivesse promulgado em seu próprio nome.
Não é que Jesus veio modificar a lei mosaica, e que a sua lei é o código
dos cristãos? Não foi ele quem disse: “Vocês ouviram o que foi dito aos
antigos: tal e tal coisa; mas eu lhes digo tal outra coisa”? Porém, ele tocou na
lei do Sinai? De modo algum! Na verdade, ele a sancionou, e toda a sua
doutrina moral não é mais do que o desenvolvimento dela. Ora, em nenhum
momento Jesus fala da proibição de evocar os mortos. Essa era, pois, uma
questão bastante grave para que ele tivesse omitido nas suas instruções, ao
passo que ele tratou de questões mais secundárias.
7. Em resumo, aqui se trata de saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da
lei evangélica; noutras palavras, se ela é mais judia do que cristã. Também é
de se notar que, de todas as religiões, a que fez menos oposição ao Espiritismo
foi a religião judia, e que ela não invocou a lei de Moisés contra as relações
com os mortos — lei sobre a qual se apoiam as seitas cristãs.
8. Outra contradição: se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é que
160 – Allan Kardec
esses Espíritos podiam vir, pois do contrário sua proibição teria sido inútil. Se
os mortos podiam vir no tempo de Moisés, também o podem hoje; se são
Espíritos de mortos, então não são exclusivamente demônios. Ademais,
Moisés não fala de modo algum desses últimos.
Desse modo, é evidente que não podemos nos apoiar logicamente sobre
a lei de Moisés nessa circunstância, pelo duplo motivo de que ela não rege o
Cristianismo e nem é apropriada para os costumes da nossa época. Mas,
mesmo supondo que ela tivesse toda a autoridade que alguns lhe conferem,
ela não poderia, assim como nós vimos, ser aplicada ao Espiritismo.
É verdade que Moisés incluiu a interrogação dos mortos na sua
proibição; contudo, isso é de uma forma secundária, e como acessório das
práticas da feitiçaria. O próprio termo interrogar, colocado ao lado de
adivinhos e agoureiros, prova que entre os hebreus as evocações eram um
meio de adivinhação; ora, os espíritas não evocam os mortos para obter
revelações ilícitas, mas sim para receber sábios conselhos e procurar alívio
aos que sofrem. Com certeza, se os hebreus só tivessem se servido das
comunicações de além-túmulo com essa finalidade, então Moisés, longe de as
interditar, teria encorajado sua prática, porque elas teriam tornado seu povo
mais dócil.
9. Se agradou a alguns críticos brincalhões ou mal-intencionados
apresentarem as reuniões espíritas como assembleias de feiticeiros e de
necromantes, e os médiuns como ledores de sorte; se alguns charlatães
misturam o nome do Espiritismo com práticas ridículas que este desaprova,
muita gente sabe o que esperar do caráter essencialmente moral e grave das
reuniões espíritas sérias; a doutrina, escrita para todo mundo, protesta o
suficiente contra os abusos de todos os gêneros para que a calúnia recaia
sobre quem a mereça.
10. A evocação — dizem — é uma falta de respeito pelos mortos, cujas cinzas
não devem ser perturbadas. Mas quem disse isso? Os adversários de dois
campos opostos que se dão as mãos: os incrédulos, que não creem nas
almas, e aqueles que, crendo nelas, pretendem que as almas não podem vir
161 – O Céu e o Inferno
e que somente o demônio se manifesta.
Quando a evocação é feita religiosamente e com recolhimento; quando
os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um sentimento de
afeição e simpatia, e com o desejo sincero de se instruir e de se tornar melhor,
então nós não vemos nisso o que teria de desrespeitoso em chamar as
pessoas depois de sua morte mais do que enquanto vivas. Entretanto, há
outra resposta categórica para essa objeção: é que os Espíritos vêm
livremente, e não a força; que eles vêm até mesmo espontaneamente, sem
serem chamados; que eles testemunham sua satisfação em se comunicar com
os homens, e frequentemente se queixam do esquecimento no qual às vezes
os deixamos. Se a paz deles fosse perturbada ou se eles se incomodassem com
o nosso chamado, eles diriam isso, ou não viriam. Já que são livres, quando
eles se manifestam, é porque isso lhes convém.
11. Alega-se ainda outra razão: “As almas permanecem na morada que lhes
foi designada pela justiça de Deus, isto é, no inferno ou no paraíso”; assim,
aquelas que estão no inferno não podem sair de lá, embora toda essa
liberdade seja concedida aos demônios; já as almas que estão no paraíso,
estas estão todas devotadas à sua beatitude: elas estão muito acima dos
mortais para se ocuparem com eles e estão felizes demais para voltarem a
esta terra de misérias e para se interessarem pelos parentes e amigos que
aqui deixaram. Elas são, portanto, como certos ricos que desviam a vista dos
pobres, com receio de que isso perturbe sua digestão. Se fosse assim, elas
seriam pouco dignas da bonança suprema, que seria o prêmio do egoísmo!
Restam aquelas almas que estão no purgatório; mas estas são sofredoras e
têm de pensar antes de tudo em sua própria salvação. Então, já que nem estas
nem aquelas podem vir, é só o diabo que vem no lugar delas. Portanto, se as
almas não podem vir, então não há por que temer perturbar o repouso delas.
12. Mas aqui se apresenta outra complicação: se as almas que estão na
beatitude não podem deixar sua morada afortunada para virem em socorro
dos mortais, por que a Igreja invoca a assistência dos santos, que, por sua vez,
devem gozar da maior soma possível de beatitude? Por que ela diz aos fiéis
162 – Allan Kardec
para invocá-los nas doenças, nas aflições, e para se preservarem dos flagelos?
Por qual razão — segundo a Igreja — os santos e a própria Virgem Maria se
manifestam aos homens e fazem milagres? Então é que estes deixam o céu
para virem à Terra. Agora, se estes que são os mais altos dos céus podem sair
de lá, por que aqueles que são menos elevados não o poderiam?
13. Que os incrédulos neguem a manifestação das almas, isso é
compreensível, uma vez que eles não acreditam na alma; mas o que é
estranho é ver aqueles cujas crenças se fundamentam na existência da alma e
seu futuro teimarem contra os meios de provar que ela existe, esforçando-
se para demonstrar que isso é impossível. Pareceria natural, ao contrário,
que aqueles que têm mais interesse na existência da alma pudessem acolher
com alegria, e como um benefício da Providência, os meios de confundir os
negadores através de provas irrecusáveis, pois estes são os negadores da
própria religião. Eles deploram incessantemente a invasão da descrença que
dizima o rebanho de fiéis, mas quando é apresentado o meio mais poderoso
de combatê-la, eles o recusam com tanta ou mais obstinação do que os
próprios descrentes. Depois, quando as provas transbordam a ponto de não
deixar qualquer dúvida, recorre-se — como argumento supremo — a
proibição aqui em questão, e, para justificá-la, procura-se um artigo da lei de
Moisés no qual ninguém pensara, e na qual querem ver, à toda força, uma
aplicação que não existe. Acham-se tão felizes com essa descoberta que não
percebem que esse artigo constitui uma justificativa da doutrina espírita.
14. Todos os motivos alegados contra as relações com os Espíritos não podem
resistir a um exame sério; porém, da determinação que está sendo colocada
nisso, podemos inferir que um grande interesse se liga a essa questão, caso
contrário, não se daria tanta insistência. Ao ver essa cruzada de todos os
cultos contra as manifestações espíritas, diríamos que eles estão com medo
delas. O verdadeiro motivo bem poderia ser o medo de que Espíritos muito
esclarecidos viessem justamente iluminar os homens sobre pontos que se
pretende deixar na escuridão, fazendo-lhes conhecer exatamente como que é
o outro mundo e as verdadeiras condições para lá os homens serem felizes
163 – O Céu e o Inferno
ou infelizes. Eis por que, da mesma forma que se diz a uma criança: “Não vá
lá, porque há lobisomens”, agora dizem aos homens: “Não chamem os
Espíritos, pois se trata do diabo.” Porém, por mais que se faça, se proíbem aos
homens de evocar os Espíritos, ninguém impedirá os Espíritos de virem até os
homens para tirar a lâmpada de debaixo do alqueire.
O culto que estiver com a verdade absoluta não terá nada a temer da luz,
pois a luz fará ressaltar a verdade, e o demônio não consegue prevalecer
contra a verdade.
15. Repelir as comunicações de além-túmulo é rejeitar o mais poderoso modo
de instrução que resulta para si mesmo da iniciação à vida futura e dos
exemplos que essas comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina,
além disso, o bem que podemos fazer desviando do mal os Espíritos
imperfeitos, ajudando os que sofrem a se desprenderem da matéria e a se
melhorarem; interdizer as comunicações significa privar as almas infelizes da
assistência que podemos e devemos lhes dedicar. As seguintes palavras de um
determinado Espírito resumem admiravelmente as consequências da
evocação praticada com uma finalidade caritativa:
“Todo Espírito sofredor e queixoso lhes contará a causa da sua queda, os
arrastamentos aos quais ele sucumbiu; contará suas esperanças, seus
combates e terrores; dirá de seus remorsos, suas dores, seus desesperos; ele
mostrará Deus justamente irritado a punir o culpado com toda a severidade
da sua justiça. Ao escutá-lo, vocês ficarão movidos de compaixão por ele e a
temer por vocês mesmos. Acompanhando-o nas suas queixas, vocês verão que
Deus nunca o perde de vista, esperando o pecador arrependido e lhe
estendendo os braços tão logo este tente se melhorar. Verão o progresso do
culpado, para o qual vocês terão a felicidade e a glória de ter contribuído;
vocês o acompanharão com solicitude, como o cirurgião acompanha a cura da
ferida de que ele trata diariamente.” (Bordeaux, 1861.)
164 – Allan Kardec
Segunda Parte
EXEMPLOS
165 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO PRIMEIRO
A PASSAGEM
1. A confiança na vida futura não exclui as apreensões da passagem desta vida
para a outra. Muitas pessoas não temem a morte em si mesma; o que elas
receiam é o momento da transição. Sofremos ou não nessa passagem? — é
isso o que as preocupa, e com muita razão, porque disso ninguém pode
escapar. Podemos dispensar uma viagem terrestre; mas quanto àquela, ricos e
pobres devem fazê-la, e se ela for dolorosa, nem a classe social nem a fortuna
conseguem suavizar a amargura.
2. Ao vermos a calma de certos falecidos e as terríveis convulsões da agonia
de alguns outros, já podemos julgar que as sensações nem sempre são as
mesmas; mas quem pode nos esclarecer a esse respeito? Quem nos
descreverá o fenômeno fisiológico da separação entre a alma e o corpo? Quem
nos dirá as impressões desse instante supremo? Sobre tal questão, a ciência e
a religião ficam mudas.
E por que elas ficam mudas? Porque falta a ambas o conhecimento das
leis que regem as relações entre o espírito e a matéria; uma se detém no
limiar da vida espiritual e a outra se detém no limiar da vida material. O
Espiritismo é o traço de união entre as duas; só ele pode dizer como a
transição se opera — seja pelas noções mais positivas que ele nos oferece da
natureza da alma, seja pela descrição dos que deixaram a vida. O
conhecimento do laço fluídico que une a alma ao corpo é a chave desse
fenômeno, assim como o de muitos outros.
3. A matéria inerte é insensível: isso é um fato; só a alma experimenta as
sensações do prazer e da dor. Durante a vida, toda desagregação da matéria
166 – Allan Kardec
repercute na alma, que com isso recebe uma impressão mais ou menos
dolorosa. É a alma quem sofre, e não o corpo; este não passa de um
instrumento da dor: a alma é o paciente. Após a morte, o corpo sendo
separado da alma, ele pode ser impunemente mutilado, pois ele não sente
nada; já a alma, estando isolada do corpo, não recebe nenhum dano da
desorganização corporal: ela tem sensações próprias cuja fonte não está na
matéria tangível.
O perispírito é o envoltório fluídico da alma, o qual não se separa dela
nem antes nem depois da morte, e com a qual ele forma por assim dizer um
conjunto, pois não se pode conceber o perispírito sem a alma. Durante a vida,
o fluido perispiritual penetra o corpo em todas as suas partes e serve de
veículo às sensações físicas da alma; é também por esse intermediário que a
alma age sobre o corpo e lhe dirige os movimentos.
4. A extinção da vida orgânica causa a separação entre a alma e o corpo, pela
ruptura do laço fluídico que os une; mas essa separação jamais é brusca: o
fluido perispiritual só se desagrega de todos os órgãos pouco a pouco, de
maneira que a separação não fica completa e absoluta senão quando não resta
mais um único átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo. A
sensação dolorosa que a alma experimenta nesse momento é
proporcional à soma dos pontos de contato que existem entre o corpo e o
perispírito, e à maior ou menor dificuldade e lentidão que a separação
apresenta. Portanto, não se pode dissimular que, conforme as circunstâncias,
a morte pode ser mais ou menos penosa. Essas são as variadas circunstâncias
que nós vamos examinar.
5. Coloquemos em primeiro lugar, como princípio, os quatro casos seguintes,
que podemos considerar como situações extremas, entre as quais há uma
multiplicidade de nuances: 1º) Se no momento da extinção da vida orgânica o
desprendimento do perispírito fosse operado completamente, a alma não
sentiria absolutamente nada; 2º) Se nesse momento a coesão dos dois
elementos estiver com toda a sua força, produz-se uma espécie de dilaceração
que reage dolorosamente sobre a alma; 3º) Se a coesão for fraca, a separação
é fácil e se opera sem abalo; 4º) Se, após a cessação completa da vida orgânica,
167 – O Céu e o Inferno
ainda houver numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a
alma poderá ressentir os efeitos da decomposição do corpo até que essa
ligação seja totalmente rompida.
Disso resulta que o sofrimento que segue a morte está subordinado à
força de aderência que une o corpo e o perispírito; que tudo que pode ajudar a
diminuir essa força e a acelerar a rapidez da desagregação torna a passagem
menos penosa; enfim, que se o desprendimento for operado sem dificuldade,
a alma não experimentará nenhuma sensação desagradável.
6. Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual, produz-se ainda outro
fenômeno de uma importância capital: o da perturbação. A esse momento, a
alma experimenta uma dormência que paralisa momentaneamente as suas
faculdades e neutraliza — pelo menos em parte — as sensações. Por assim
dizer, ela fica num estado de catalepsia, de modo que a alma quase nunca
testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Dizemos quase nunca
porque existem casos em que a alma pode ter consciência do que se passa —
tal como veremos em breve. Então, a perturbação pode ser considerada como
o estado normal no instante da morte; sua duração é indeterminada, variando
de algumas horas a alguns anos. À medida que se liberta, a alma acha-se na
situação de um homem que sai de um sono profundo; as ideias são confusas,
vagas e imprecisas; a pessoa vê como que através de um nevoeiro; pouco a
pouco a vista se aclara, a memória retorna e então ela se reconhece. Porém,
esse despertar é bem diverso, conforme os indivíduos; para alguns ele é calmo
e proporciona uma sensação deliciosa; para outros, é repleto de terror e de
ansiedade, produzindo o efeito de um terrível pesadelo.
7. Enfim, o momento do último suspiro não é o mais penoso, porque o mais
comum é que a alma não tenha consciência de si mesma; porém antes, ela
sofre pela desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois,
pelas angústias da perturbação. Apressemo-nos em dizer que esse estado não
é generalizado; como temos dito, a intensidade e a duração do sofrimento
correspondem à afinidade existente entre o corpo e o perispírito: quanto
maior for essa afinidade, mais demorados e penosos são os esforços do
Espírito para se libertar de seus laços. Todavia, há pessoas nas quais a coesão
168 – Allan Kardec
é tão fraca que a desagregação se opera naturalmente por si mesma. O
Espírito se separa do corpo como um fruto maduro se descola do caule; este é
o caso das mortes calmas e de despertar pacífico.
8. O estado moral da alma é a causa principal que influi sobre a maior ou a
menor facilidade de desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito
está na razão do apego do Espírito à matéria; ela tem seu ápice no homem
cujas preocupações se concentram totalmente na vida e nos prazeres
materiais; ela é quase nula naqueles cuja alma depurada está identificada por
antecipação com a vida espiritual. Posto que a lentidão e a dificuldade da
separação estão subordinados ao grau de depuração e de desmaterialização
da alma, depende de cada um tornar essa passagem mais ou menos fácil ou
penosa, agradável ou dolorosa.
Estabelecido isso, ao mesmo tempo como teoria e como resultado da
observação, resta-nos examinar a influência do gênero da morte sobre as
sensações da alma no derradeiro momento.
9. Na morte natural, aquela que resulta da extinção das forças vitais pela
idade ou por uma enfermidade, o desprendimento se opera gradualmente;
para o homem cuja alma está desmaterializada e cujos pensamentos estão
desligados das coisas terrenas, o desprendimento fica quase completo antes
da morte real: o corpo ainda experimenta a vida orgânica, enquanto a alma já
adentrou na vida espiritual e não se liga mais ao corpo exceto por uma
conexão tão frágil que pode ser rompido sem dificuldade na última batida do
coração. Nesta situação, o Espírito pode já ter recuperado a sua lucidez e ser
testemunha consciente da extinção da vida do corpo, do qual se sente feliz por
ficar livre; para ele, a perturbação é quase nula, e não passa de um instante de
sono tranquilo, do qual ele sai com uma indescritível impressão de felicidade
e de esperança.
No homem materialista e sensual, aquele que mais viveu para o corpo do
que para o Espírito, para quem a vida espiritual não significa nada e nem
mesmo é uma realidade no seu pensamento, tudo contribui para apertar os
laços que o ligam à matéria; nada veio relaxá-los durante a vida. Nas
169 – O Céu e o Inferno
proximidades da morte, o desprendimento se realiza também gradualmente,
só que com esforços contínuos. As convulsões da agonia são o indício da luta
que o Espírito trava, que às vezes quer romper os laços que lhe resistem, e de
outras vezes se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arranca
violentamente, pedaço por pedaço.
10. O Espírito se apega tanto mais à vida corporal quando ele nada vê além
dela; ele sente que essa vida está se acabando e deseja retê-la; ao invés de se
entregar ao movimento que o envolve, ele resiste com todas as suas forças;
com isso, ele pode prolongar a peleja por dias, semanas e até meses. Sem
dúvidas, nesse momento o Espírito não possui toda a sua lucidez, pois a
perturbação há de ter começado muito antes da morte, mas nem por isso ele
sofre menos, e o vazio em que ele se encontra, a incerteza do que lhe
acontecerá, aumentam as suas angústias. A morte chega e nem tudo se
acabou, porque a perturbação continua; ele sente que vive, mas não sabe se é
a vida material ou a vida espiritual; ele ainda luta, até que as últimas ligações
do perispírito sejam rompidas. A morte pôs fim à moléstia propriamente dita,
mas não interrompeu suas consequências; enquanto existirem pontos de
contato entre o corpo e o perispírito, o Espírito sente suas impressões e sofre
com elas.
11. Bem diferente é a situação do Espírito desmaterializado, mesmo nas
enfermidades mais cruéis. Os laços fluídicos que o unem ao corpo, sendo
muito frágeis, rompem-se sem qualquer choque; depois, sua confiança no
futuro que ele já antevê em pensamento — algumas vezes até na realidade —
lhe faz encarar a morte como um livramento e os seus males como uma prova;
daí vem, para ele, uma calma moral e uma resignação que suaviza o seu
sofrimento. Após a morte, tendo rompido esses laços no mesmo instante,
nenhuma reação dolorosa ocorre nele, que ao despertar, se sente livre,
disposto, aliviado de um grande peso e totalmente feliz por não sofrer mais.
12. Na morte violenta as condições não são exatamente as mesmas. Nenhuma
desagregação parcial pôde provocar uma separação prévia entre o corpo e o
170 – Allan Kardec
perispírito, então a vida orgânica, com toda a sua força, é subitamente
interrompida; o desprendimento do perispírito só começa após a morte e,
neste e noutros casos, não pode se efetuar instantaneamente. O Espírito, pego
de surpresa, fica como que atordoado; mas, percebendo que está pensando,
acredita que ainda está vivo, e essa ilusão dura até que ele se dê conta da sua
situação. Esse estado intermediário entre a vida corpórea e a espiritual é um
dos mais interessantes para se estudar, pois apresenta o curioso espetáculo
de um Espírito que toma seu corpo fluídico como se fosse seu corpo material,
e que experimenta todas as sensações da vida orgânica. Isso oferece uma
variedade infinita de nuances segundo as características, os conhecimentos e
o grau de avanço moral do Espírito. Essa situação é de curta duração para
aqueles em quem a alma está depurada, porque neles já havia um
desprendimento antecipado, cuja morte — mesmo a mais repentina — não
fez mais do que apressar o cumprimento; em outros, a situação pode se
prolongar por anos. Tal estado é muito frequente — mesmo nos casos de
morte comum — e, para alguns, nada tem de penoso segundo as qualidades
do Espírito, enquanto para outros isso é uma situação terrível. É no suicídio
principalmente que essa situação é mais árdua. Estando o corpo preso ao
perispírito por todas as suas fibras, todas as convulsões corporais repercutem
na alma, que então prova atrozes sofrimentos desse estado.
13. O estado do Espírito no momento da morte pode ser resumido assim:
Tanto mais o Espírito sofre quanto mais lento for o desprendimento do
perispírito; a prontidão desse desprendimento está na razão do grau de
adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado cuja
consciência é pura, a morte é um sono de alguns instantes, isento de todo
sofrimento, e do qual o despertar é pleno de suavidade.
14. Para trabalhar pela sua depuração, reprimir suas más tendências e vencer
suas paixões, é preciso ver as vantagens no futuro; para se identificar com a
vida futura, para lá encaminhar suas aspirações e preferi-la à vida terrena,
não basta somente crer nela, mas compreendê-la; é preciso considerá-la sob
um aspecto satisfatório à razão, em completo acordo com a lógica, o bom
171 – O Céu e o Inferno
senso e a ideia que fazemos da grandeza, da bondade e da justiça de Deus.
Dentre todas as doutrinas filosóficas, o Espiritismo é aquela que exerce, a esse
respeito, a mais poderosa influência, pela fé inabalável que proporciona.
O espírita sério não se limita a crer; ele crê porque compreende, e
compreende porque se dirige ao seu raciocínio; a vida futura é uma realidade
que se desdobra sem cessar a seus olhos; ele a vê e a toca, por assim dizer, a
todo instante; a dúvida não consegue penetrar sua alma. A vida corporal, tão
limitada, apaga-se para ele diante da vida espiritual, que é a verdadeira vida;
vem daí a pouca importância que ele dá aos incidentes da jornada e a sua
resignação nas vicissitudes, das quais ele entende a causa e a utilidade. Sua
alma se eleva pelas relações diretas que ele mantém com o mundo invisível;
os laços fluídicos que o vinculam à matéria se enfraquecem, e assim se opera
um primeiro desprendimento parcial que facilita a passagem dessa vida para
a outra. A perturbação inseparável da transição é de curta duração, pois, tão
logo é dado o passo, ele se reconhece; nada lhe é estranho e ele se dá conta da
sua situação.
15. Seguramente, o Espiritismo não é indispensável para tal resultado e nem
tem a pretensão de só ele assegurar a salvação da alma; porém ele a facilita,
pelos conhecimentos que proporciona, pelos sentimentos que inspira e pelas
condições em que coloca o Espírito, fazendo-lhe compreender a necessidade
de se melhorar. Além disso, ele dá a cada um os meios de facilitar o
desprendimento dos outros Espíritos no momento em que eles deixam seu
envoltório terrestre, abreviando-lhes a duração da perturbação pela prece e
pela evocação. Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual,
provoca-se uma desagregação mais rápida do fluido perispiritual; por uma
evocação conduzida com sabedoria e prudência, e por palavras de
benevolência e de encorajamento, tira-se o Espírito do entorpecimento em
que este se acha, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo; se ele estiver
sofrendo, estimula-o ao arrependimento, que é o único meio de abreviar os
sofrimentos.77
77 Os exemplos que vamos citar apresentam os Espíritos nas diferentes fases da felicidade e da
infelicidade na vida espiritual. Não fomos procurá-los nas personagens mais ou menos ilustres da
172 – Allan Kardec
Antiguidade, cuja situação pode ter mudado consideravelmente depois da existência da qual os
conhecemos, e que aliás não ofereceriam provas suficientes de autenticidade. Nós pegamos esses
exemplos nas circunstâncias mais comuns da vida contemporânea, porque são aquelas em que cada
pessoa pode encontrar mais similaridades e das quais pode-se tirar as instruções mais proveitosas
através da comparação. Quanto mais próxima de nós for a existência terrestre dos Espíritos — pela
posição social, pelas relações ou laços de parentesco — tanto mais eles nos interessam, e mais fácil é
constatar a identidade deles. As posições simples são as mais comuns na sua grande maioria, e por isso
cada qual pode tirar suas aplicações mais facilmente, enquanto as posições excepcionais comovem
menos porque saem da esfera dos nossos hábitos. Portanto, não foram as personagens ilustres as que
procuramos; se nesses exemplos se encontram algumas individualidades conhecidas, a sua maior parte
é completamente anônima. Os nomes retumbantes nada teriam acrescentado à instrução e poderiam
ferir suscetibilidades. Não nos endereçamos nem aos curiosos nem aos amadores de escândalo, mas sim
àqueles que seriamente querem se instruir.
Esses exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito; contudo, forçados a limitar a sua
quantidade, escolhemos os que pudessem lançar mais luz sobre o estado do mundo espiritual, seja pela
posição do Espírito, seja pelas explicações que ele fosse capaz de fornecer. A maioria desses exemplos
são inéditos e só alguns poucos já foram publicados na Revista espírita; destes, suprimimos os detalhes
supérfluos, não conservando mais do que as partes essenciais à finalidade que aqui nos propusemos,
adicionando-lhes as instruções complementares que puderam ocasionar posteriormente.
173 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO II
ESPÍRITOS FELIZES
SANSON – JOBARD – SAMUEL PHILIPPE – VAN DURST – SIXDENIERS
– DR. DEMEURE – VIÚVA FOULON, nome de nascimento: WOLLIS –
UM MÉDICO RUSSO – BERNARDIN – CONDESSA PAULA
– JEAN REYNAUD – ANTOINE COSTEAU – EMMA LIVRY – DR. VIGNAL
– VICTOR LEBUFLE – ANAÏS GOURDON – MAURICE GONTRAN
SANSON
Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris78, falecido em
21 de abril de 1862, depois de um ano de cruéis sofrimentos. Prevendo o seu
fim, ele havia endereçado ao presidente da Sociedade uma carta contendo a
seguinte passagem:
“Em caso de surpresa pela desagregação da minha alma e do meu corpo,
tenho a honra de lhes recordar um pedido que já lhes fiz há cerca de um ano,
que é o de evocar o meu Espírito o mais imediatamente possível e sempre que
julgarem conveniente, a fim de que, como um membro bastante inútil da
nossa Sociedade durante minha presença na Terra, eu possa servir para
alguma coisa a ela do além-túmulo, propiciando os meios de, nessas
evocações, estudar fase por fase as circunstâncias que seguem aquilo que o
vulgo chama de morte, mas que, para nós espíritas, não passa de uma
transformação, de acordo com as visões impenetráveis de Deus, porém
sempre útil ao objetivo a que ele se propõe.
78 Referência à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por Allan Kardec em 1 de abril de
1858 e por ele presidida, mediante sucessivas eleições, até sua desencarnação (em 31 de março de
1869). Também é citada como “Sociedade de Paris” ou simplesmente “Sociedade”. — N. T.
174 – Allan Kardec
“Além dessa autorização e solicitação para me dar a honra dessa espécie
de autópsia espiritual, que meu pouquíssimo adiantamento como Espírito
talvez torne estéril, caso em que a vossa sabedoria cuidará naturalmente para
não os deixar ir além de um certo número de tentativas, ouso lhes pedir
pessoalmente, assim como a todos meus colegas, que tenham a bondade de
suplicar ao Todo-Poderoso que permita aos bons Espíritos me auxiliar com
seus conselhos benevolentes, e que são Luís, nosso presidente espiritual, em
particular, para me guiar na escolha e no momento de uma reencarnação, pois
desde já isso me preocupa bastante; eu temo me enganar quanto às minhas
forças espirituais e pedir a Deus, cedo demais e muito presunçosamente, um
estado corporal no qual eu não pudesse satisfazer a bondade divina, e que, em
vez de servir ao meu avanço, eu prolongasse a minha estadia na Terra ou
alhures, caso eu falhasse.”
Para satisfazer o desejo dele de ser evocado o mais breve possível após
seu falecimento, dirigimo-nos ao necrotério com alguns membros da
Sociedade e, na presença do seu corpo, a ocorrência seguinte se deu uma hora
antes do enterro. Tínhamos um duplo objetivo ali: o de cumprir um
derradeiro desejo e o de observar uma vez mais a situação de uma alma no
momento tão próximo da morte, e tudo isso em um homem eminentemente
inteligente e esclarecido, além de profundamente convicto das verdades
espíritas. Queríamos constatar a influência dessas crenças sobre o estado do
Espírito, a fim de captarmos suas primeiras impressões. E nossa expectativa
não foi frustrada, pois o Sr. Sanson descreveu com perfeita lucidez o instante
da transição; ele se viu morrer e se viu renascer — circunstância pouco
comum e que se deve à elevação do seu Espírito.
I
(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862)
1. Evocação – Eu venho ao teu chamado para cumprir a minha promessa.
2. Meu caro Sr. Sanson, cumprimos um dever e com prazer de te evocar o
mais cedo possível depois da tua morte, assim como era teu desejo. —
Resposta: É uma graça especial de Deus que permite ao meu Espírito poder
175 – O Céu e o Inferno
se comunicar; agradeço por tua boa vontade, mas estou fraco e tremendo.
3. Você estava sofrendo tanto que eu acho que podemos te perguntar como
você se sente agora. Ainda sente aquelas dores? Que sensação experimenta
comparando tua situação atual com aquela de dois dias atrás? — R. Minha
situação é muito feliz, pois não sinto mais nada das antigas dores; sinto-me
regenerado e renovado, como se diz entre vocês. A transição da vida terrena
para a vida dos Espíritos a princípio me deixou totalmente incompreensível,
porque algumas vezes ficamos vários dias sem recobrar nossa lucidez; mas,
antes de morrer, eu fiz uma prece a Deus lhe pedindo que me permitisse
poder falar àqueles de quem eu gosto, e Deus me escutou.
4. Ao fim de quanto tempo você recuperou a lucidez das tuas ideias? — R. Ao
fim de oito horas. Deus, eu repito, deu-me uma prova de sua bondade,
julgando-me digno o bastante, e eu jamais poderei lhe agradecer o suficiente.
5. Tem certeza de não ser mais do nosso mundo? E como pode constatar isso?
— R. Oh, certamente eu não sou mais do vosso mundo, mas sempre estarei
perto de vocês para lhes proteger e apoiar, para pregar a caridade e a
abnegação, que foram os guias da minha vida. E mais: ensinarei a verdadeira
fé, a fé espírita, que deve elevar a crença do justo e do bom; sou forte e muito
forte, transformado, enfim. Vocês não reconheceriam mais aquele velho
enfermo que devia esquecer tudo, afastando-se dele todo prazer e toda
alegria. Eu sou um Espírito; minha pátria é o espaço e o meu futuro é Deus,
que irradia na imensidão. Gostaria muito de falar com meus filhos, pois eu
lhes ensinaria aquilo que eles sempre tiveram má vontade em acreditar.
6. Que efeito causa em ti ter a visão do teu corpo aqui ao lado? — R. Meu
corpo, pobre e mísero despojo, que deve virar pó, mas eu guardo a lembrança
boa de todos os que me estimaram. Olho essa pobre carne deformada,
habitação do meu Espírito, provação de tantos anos! Obrigado, meu pobre
corpo, que depurou meu Espírito, e o meu sofrimento dez vezes santo me deu
um lugar muito merecido, já que encontro tão depressa a possibilidade de
falar com vocês.
7. Você conservou as ideias até o último instante? — R. Sim, meu Espírito
176 – Allan Kardec
conservou suas faculdades; eu não enxergava, mas pressentia; toda a minha
vida se desdobrou diante da minha memória e meu último pensamento,
minha derradeira oração foi para que pudesse falar com vocês, como estou
fazendo agora; depois, pedi a Deus para lhes proteger, a fim de que o sonho da
minha vida fosse realizado.
8. Teve consciência do momento em que teu corpo deu o último suspiro? O
que se passou contigo nesse instante? Que sensação você experimentou? — R.
A vida se extingue e a visão, ou melhor, a visão do Espírito se apaga;
encontramos o vazio, o desconhecido, e arrastados por não sei qual prestígio,
nós nos encontramos num mundo em que tudo é alegria e grandeza! Eu não
sentia mais nada, não percebia nada e, de repente, uma felicidade inefável me
envolveu; já não estava mais sentido a opressão da dor.
9. Você tinha conhecimento… (do que me propus a ler no teu túmulo?)
As primeiras palavras dessa questão mal foram pronunciadas quando o Espírito
respondeu antes que eu concluísse. E respondeu mais, sem que a pergunta fosse feita,
sobre uma discussão levantada entre os assistentes, sobre a oportunidade de ler esta
comunicação no cemitério, por causa das pessoas que poderiam ou não compartilhar
dessas opiniões.
— R. Oh, meu amigo, eu sei, porque eu te vi ontem e te vejo hoje; minha
satisfação é grande!… Obrigado, obrigado! Falem, para que todos me
compreendam e que todos lhes estimem; não temam nada, pois as pessoas
respeitam a morte; falem, então, a fim de que os incrédulos tenham fé. Adeus;
falem; coragem, confiança, e que meus filhos possam se converter a uma
crença venerada!
J. SANSON
Durante a cerimônia no cemitério, ele ditou as palavras seguintes:
Que a morte não os apavore, meus amigos; ela é uma etapa para vocês,
se souberem viver bem; é uma felicidade, se tiverem merecido dignamente e
se tiverem cumprido bem suas provações. Eu repito a vocês: coragem e boa
vontade! Não deem mais do que um valor medíocre aos bens terrenos, e serão
recompensados. Não se pode gozar muito, sem tirar o bem-estar alheio, e
177 – O Céu e o Inferno
sem se fazer moralmente um imenso mal. Que a Terra me seja breve!
II
(Sociedade Espírita de Paris, 25 de abril de 1862)
1. Evocação — R. Meus amigos, eu estou perto de vocês.
2. Ficamos muito contentes com a conversa que tivemos contigo no dia do teu
sepultamento, e, já que assim permite, ficaremos encantados em completá-la,
em favor de nosso aprendizado. — R. Estou inteiramente preparado, feliz por
pensarem em mim.
3. Tudo que possa nos esclarecer sobre o estado do mundo invisível e nos
ajude a compreendê-lo é de grande significado, porque é a ideia falsa que se
faz disso que na maioria das vezes leva à incredulidade. Então, não fique
surpreso com as indagações que possamos te endereçar. — R. Não ficarei
espantado, e aguardo suas perguntas.
4. O amigo descreveu com luminosa clareza a passagem da vida à morte; disse
que, no momento em que o corpo dá o último suspiro, a vida se extingue e que
a visão do Espírito se apaga. Esse momento é acompanhado de alguma
sensação penosa, dolorosa? — R. Sem dúvida, pois a vida é uma série contínua
de dores, e a morte é o complemento de todas elas; daí uma ruptura violenta,
como se o Espírito tivesse que fazer um esforço sobre-humano para se livrar
do seu envoltório, e é esse esforço que absorve todo o nosso ser, fazendo-lhe
perder o conhecimento daquilo em que ele está se tornando.
Tal caso não é o mais comum. A experiência prova que muitos Espíritos perdem
a consciência antes de expirar, e que, naqueles que já chegaram a um certo grau de
desmaterialização, a separação se opera sem esforço.
5. Sabe se que há Espíritos para os quais esse momento seja mais doloroso?
Por exemplo, será mais doloroso para o materialista, para aquele que acredita
que tudo para ele se acaba nesse momento? — R. Isso é com certeza, porque o
Espírito preparado já esqueceu o sofrimento, ou melhor, já se habituou com
ele, e a tranquilidade com que ele encara a morte o livra de sofrer
178 – Allan Kardec
duplamente, já que ele sabe aquilo que o espera. A aflição moral é mais forte e
a sua ausência no instante da morte constitui um alívio muito grande. Aquele
que não crê se assemelha ao condenado à pena capital e cujo pensamento fica
imaginando a espada e o desconhecido. Há semelhança entre essa morte e a
do ateu.
6. Há materialistas endurecidos o bastante para crer seriamente, nesse
momento supremo, que vão ser mergulhados no nada? — R. Sem dúvidas,
pois até na hora final há alguns que continuam acreditando no nada; contudo,
no momento da separação, o Espírito tem um revés profundo: a dúvida se
apodera dele e o tortura, uma vez que ele se pergunta o que será dele; deseja
captar alguma coisa, mas não consegue. A separação não pode ser feita sem
essa impressão.
Um determinado Espírito nos deu, noutra ocasião, a descrição seguinte do
paradeiro de um descrente:
“O incrédulo endurecido experimenta nos últimos momentos as angústias
desses pesadelos terríveis em que se vê à beira de um precipício, prestes a cair
no abismo; a pessoa faz esforços inúteis para fugir, mas não consegue; ela quer
se agarrar a qualquer coisa, procurar um ponto de apoio, mas se sente
escorregando; quer gritar, mas não pode articular nenhum som; é então que se
vê o moribundo se contorcer, apertar as mãos e soltar gritos abafados — sinais
claros do pesadelo no qual está preso. No pesadelo comum, o despertar te tira
da inquietação e você se sente feliz ao reconhecer que tudo era só um sonho;
mas o pesadelo da morte frequentemente se prolonga por um longo tempo, até
mesmo por anos, além do trespasse, e o que torna a sensação ainda mais penosa
para o Espírito é a escuridão na qual ele às vezes é mergulhado.”
7. Disse que no momento de morrer você não viu nada, mas que pressentia.
Que não via nada corporalmente, isso é compreensível; entretanto, antes que
a vida se extinguisse, já era possível entrever a claridade do mundo dos
Espíritos? — R. Foi o que eu disse anteriormente: o instante da morte
proporciona a clarividência ao Espírito; os olhos não veem mais, porém o
Espírito, que possui uma visão bem mais profunda, instantaneamente
descobre um mundo desconhecido, e a verdade, aparecendo-lhe de súbito,
concede — embora momentaneamente — ou um prazer imenso ou um
179 – O Céu e o Inferno
sofrimento inexprimível, segundo o estado da sua consciência e da lembrança
da sua vida passada.
Trata-se do instante que precede aquele em que o Espírito perde a consciência,
o que explica o emprego da palavra momentaneamente, pois as mesmas impressões
agradáveis ou penosas continuam com o despertar.
8. Teria a bondade de nos dizer, do instante em que teus olhos se abriram
para a luz, o que te impressionou, o que você viu? Poderia nos descrever, se
for possível, o aspecto das coisas que se apresentaram para ti? — R. Quando
pude voltar a mim e ver o que tinha perante os olhos, eu fiquei como que
ofuscado e não me dei conta direito, pois a lucidez não volta imediatamente.
Mas Deus, que me deu uma prova profunda da sua bondade, permitiu que eu
recuperasse minhas faculdades. Eu me vi rodeado de numerosos e fiéis
amigos. Todos os Espíritos protetores que vêm nos assistir, envolvendo-me e
sorrindo para mim; uma felicidade sem igual os animava e eu mesmo, forte e
disposto, podia sem esforço me transportar através do espaço. O que eu vi
não tem nome na linguagem humana.
Virei depois para lhes falar mais amplamente de todas as minhas
venturas, mas sem ultrapassar o limite que Deus exige. Saibam que a
felicidade, tal como entendem entre vocês, é uma ficção. Vivam sabiamente,
santamente, no espírito de caridade e de amor, e vocês terão preparado para
si impressões que nem o maior dos poetas seria capaz de descrever.
Os contos de fadas estão indubitavelmente cheios de coisas absurdas; mas, em
alguns pontos, não seriam eles a representação do que se passa no mundo dos
Espíritos? O relato do Sr. Sanson não parece aquele de um homem que, adormecido
numa pobre e obscura cabana, acorda num palácio esplêndido, em meio a uma corte
brilhante?
III
9. Sob qual aspecto os Espíritos se apresentaram a ti? Sob o da forma
humana? — R. Sim, meu caro amigo; os Espíritos tinham nos ensinado na
Terra que eles conservam no outro mundo a forma transitória que eles
possuíam neste mundo, e isso é verdade. Mas quanta diferença entre a
180 – Allan Kardec
máquina informe que aí se arrasta penosamente com seu cortejo de provas e
a fluidez maravilhosa do corpo espiritual! A feiura não mais existe, porque os
traços perderam a rudeza da expressão que forma o caráter distintivo da raça
humana. Deus beatificou todos esses corpos graciosos, que se movem com
toda a elegância da forma; a linguagem tem entonações intraduzíveis para
vocês e o olhar tem a profundeza de uma estrela. Tentem, pelo pensamento,
imaginar o que Deus pode fazer na sua onipotência, ele, o arquiteto dos
arquitetos, e vocês terão feito uma vaga ideia da forma dos Espíritos.
10. Quanto a ti, como você se vê? Percebe em ti uma forma limitada e
circunscrita, embora fluídica? Você tem uma cabeça, um tronco, braços
pernas…? — R. O Espírito, tendo conservado sua forma humana, mas
divinizada, idealizada, incontestavelmente tem todos esses membros citados.
Sinto perfeitamente minhas pernas e meus dedos, pois nós podemos, através
da nossa vontade, aparecer a vocês e apertar suas mãos. Estou perto de vocês
e já apertei a mão de todos os meus amigos, sem que eles percebessem; nossa
fluidez pode estar em toda parte sem obstruir o espaço e nem causar
qualquer sensação, se esse for o nosso desejo. Neste momento, vocês estão
com as mãos cruzadas e eu tenho as minhas sobre as suas. Digo-lhes: eu os
estimo, mas meu corpo não ocupa espaço, a luz o atravessa e o que vocês
chamariam de milagre, se fosse visível, para o Espírito é a ação contínua de
todos os instantes.
A visão dos Espíritos não tem comparação com a visão humana, do
mesmo modo que seus corpos não têm semelhança real, porque tudo é
modificado no conjunto e na essência. O Espírito — eu repito — tem uma
perspicácia divina que se estende a tudo, posto que ele pode adivinhar até
mesmo o pensamento de vocês; também pode, a propósito, tomar a forma que
melhor possa despertar vossas lembranças. Mas, de fato, o Espírito superior
que concluiu suas provas gosta da forma que pôde conduzi-lo para perto de
Deus.
11. Os Espíritos não têm sexo; entretanto, como até poucos dias atrás você
era homem, em teu novo estado você tem mais da natureza masculina do que
da natureza feminina? Seria o mesmo caso de um Espírito que tenha deixado
181 – O Céu e o Inferno
seu corpo já há muito tempo? — R. Nós não temos que ser de natureza
masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou à
vontade dele, e se, pelos seus desígnios maravilhosos, ele quis que os
Espíritos reencarnassem na Terra, então teve que acrescentar a reprodução
das espécies pelo macho e pela fêmea. Porém, vocês sabem disso, sem que
seja necessária qualquer explicação: os Espíritos não podem ter sexo.
Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo; os sexos só são necessários para
a reprodução dos corpos. Como os Espíritos não se reproduzem, os gêneros seriam
inúteis para eles. A nossa pergunta não tinha como objetivo constatar o fato, mas
devido à morte recente do Sr. Sanson, nós queríamos saber se nele restava alguma
impressão do seu estado terrestre. Os Espíritos depurados entendem perfeitamente a
sua própria natureza, mas entre os Espíritos inferiores, não desmaterializados, há
muitos que acreditam que ainda estejam na Terra e conservam as mesmas paixões e
os mesmos desejos; eles ainda se consideram homens ou mulheres, e é por isso que
alguns disseram que os Espíritos têm sexo. É assim que determinadas contradições
provêm da posição mais ou menos avançada dos Espíritos que se comunicam; o erro
não é deles, mas de quem os interroga sem se dar ao trabalho de aprofundar as
questões.
12. Que aspecto a nossa sessão tem para ti? Ela é, para tua nova visão,
conforme parecia quando você estava vivo? As pessoas têm para ti a mesma
aparência? É tudo tão claro e tão nítido? — R. Bem mais claro, pois eu posso
ler o pensamento de todos e — Que maravilha! — sou muito feliz pela salutar
impressão que me causa a boa vontade de todos os Espíritos aqui reunidos.
Desejo que o mesmo entendimento possa existir não só em Paris, pela reunião
de todos os grupos, mas também em toda a França, onde os grupos se
separam e se invejam, dominados por Espíritos desordeiros que se
comprazem na desordem, ao passo que o Espiritismo deve ser o
esquecimento completo e absoluto do eu.
13. Disse que você pode ler o nosso pensamento; poderia nos explicar como
se opera essa transmissão de pensamento? — R. Não é fácil explicar isso; para
lhes dizer, explicar esse singular prodígio da visão dos Espíritos, seria preciso
lhes apresentar todo um arsenal de agentes novos, e vocês seriam tão sábios
como nós — o que não é possível, pois as suas faculdades estão restringidas
182 – Allan Kardec
pela matéria. Paciência! Tornem-se bons e vocês chegarão lá; vocês só
possuem atualmente aquilo que Deus lhes concede, mas com a esperança de
progredir continuamente; mais tarde vocês serão como nós. Então, tratem de
morrer bem para saberem muito. A curiosidade, que é estimulante do homem
pensador, lhes conduz tranquilamente até a morte, reservando-lhes a
satisfação de todas as suas curiosidades passadas, presentes e futuras.
Enquanto esperam, eu lhes direi, para responder o melhor possível à sua
pergunta: o ar que os envolve, impalpável como nós, carrega o caráter do seu
pensamento; o sopro que vocês exalam é, por assim dizer, a página escrita dos
seus pensamentos; elas são lidas e comentadas pelos Espíritos que os
rodeiam sem cessar; eles são os mensageiros de uma telegrafia divina à qual
nada escapa.
A morte do justo
Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de
Paris, um Espírito deu, sob este título, a comunicação seguinte:
A morte desse homem com quem vocês estão se ocupando neste
momento foi a de um justo, ou seja, ela foi acompanhada de calma e de
esperança. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espírita sucedeu
para ele à vida terrestre, sem choques, sem abalos, e o seu último suspiro
exalou-se num hino de reconhecimento e de amor. Quão poucos atravessam
assim essa rude passagem! Quão poucos, após a embriaguez e o desespero da
vida, concebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem bem
saudável, mutilado por uma bala, continua sofrendo dos membros de que ele
é separado, também a alma do homem que morre sem fé e sem esperança se
despedaça e palpita ao escapar do corpo, lançando-se no espaço, inconsciente
de si mesma.
Orem por essas almas perturbadas; orem por todos aqueles que sofrem;
a caridade não se restringe à humanidade visível: ela também socorre e
consola os seres que povoam o Espaço. Vocês tiveram a prova concreta disto
através da súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas feitas
sobre a tumba desse homem de bem, que vocês devem interrogar, e que
183 – O Céu e o Inferno
deseja lhes fazer progredir no santo caminho.79 O amor não tem limites; ele
preenche o espaço, dando e recebendo mutuamente suas divinas consolações.
O mar se desdobra numa perspectiva infinita; seu limite derradeiro parece
fundir-se com o céu, e o Espírito fica deslumbrado pelo magnífico espetáculo
dessas duas grandezas. Assim, o amor — mais profundo do que as ondas, mais
infinito do que o espaço — deve reunir todos vocês, viventes e Espíritos, na
mesma comunhão de caridade, e operar a admirável fusão daquilo que é finito
e do que é eterno.
GEORGES
JOBARD
(Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas; nascido em Baissey [Haute-Marne] e
falecido em Bruxelas, de um ataque de apoplexia fulminante, em 27 de outubro de
1861, com a idade de 69 anos)
I
O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris.
Pretendíamos evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando ele se antecipou
a esse desejo, dando-nos espontaneamente esta comunicação a seguir:
Eis-me aqui, eu a quem vocês iam evocar e que quer se manifestar
primeiro a este médium, que em vão eu tinha solicitado até agora.
Quero inicialmente lhes contar minhas impressões no momento da
separação da minha alma: eu senti um abalo indescritível e me lembrei
instantaneamente do meu nascimento, da minha juventude, da minha idade
madura; toda a minha vida foi retratada nitidamente na minha memória. Eu
não senti mais do que um piedoso desejo de me achar nas regiões reveladas
pela nossa querida crença. Depois, todo esse tumulto se pacificou. Eu estava
livre e meu corpo jazia inerte. Ah, meus caros amigos, que emoção é livrar-se
do peso do corpo! Que emoção é abranger o espaço! Entretanto, não creiam
que foi de repente que eu tenha me tornado um eleito do Senhor; não, eu
79 Alusão ao Espírito de Bernard, que se manifestou espontaneamente no dia das exéquias do Sr.
Sanson. (Ver a Revista Espírita de maio de 1862: ‘Exéquias do Sr. Sanson’)
184 – Allan Kardec
estou entre os Espíritos que, tendo aprendido um pouco, ainda têm muito o
que aprender. Não tardou para que me lembrasse de vocês, meus irmãos de
exílio, e lhes asseguro, toda a minha simpatia, todos os meus votos
envolveram vocês.
Querem saber quais foram os Espíritos que me receberam? Quais foram
minhas impressões? Meus amigos eram todos aqueles que nós evocamos,
todos os irmãos que compartilharam dos nossos trabalhos. Eu vi o esplendor,
mas não posso descrevê-lo. Apliquei-me a discernir o que era verdadeiro nas
comunicações, pronto para corrigir todas as asserções errôneas; pronto,
enfim, para ser o cavaleiro da verdade no outro mundo, tal como havia sido
no mundo de vocês.
JOBARD
1. Quando era vivo, o amigo nos pediu para evocá-lo assim que tivesse
deixado a Terra; nós o fazemos, não só para realizar o teu desejo, mas
sobretudo para renovar o testemunho a nossa sincera e muito viva simpatia
por ti, além do interesse pela nossa instrução, pois você, melhor do que
qualquer outro, pode nos dar ensinamentos precisos sobre o mundo em que
se encontra. Desse modo, ficaremos contentes caso te agrade responder às
nossas perguntas. — R. Nessa hora, o que mais importa é o aprendizado de
vocês. Quanto à sua simpatia, eu a vejo e a percebo sua expressão não só pelos
ouvidos — o que já constitui um grande progresso.
2. Para fixarmos nossas ideias e não divagarmos, primeiro te perguntaremos
em que lugar você está posicionado aqui e como te veríamos, se pudéssemos
vê-lo? – R. Estou perto do médium, e vocês me veria sob a aparência do Jobard
que se sentava à sua mesa, conquanto os seus olhos mortais — ainda fechados
— não podem ver os Espíritos senão sob a sua aparência mortal.
3. O amigo teria a possibilidade de se tornar visível para nós? E se assim não
puder, o que o impediria? – R. A disposição que lhes é pessoal. Um médium
vidente me veria, mas os outros não.
4. Esse lugar é aquele que você ocupava quando estava vivo, de onde assistia
às nossas sessões, e que nós te reservamos. Então, aqueles que te viram aqui
185 – O Céu e o Inferno
devem imaginar te ver agora tal como era antes. Se já não está mais com o
corpo material, está com o corpo fluídico que tem aquela mesma forma; se
não te vemos com os olhos do corpo, vemos com os olhos do pensamento; se
você não pode se comunicar pela palavra, pode fazê-lo pela escrita, com a
ajuda de um intérprete. Portanto, nossas relações contigo não estão de modo
algum interrompidas com a tua morte, e podemos conversar contigo tão fácil
e tão completamente como outrora. É assim mesmo que são as coisas? – R.
Sim, e vocês sabem disso há muito tempo. Eu ocuparei este lugar com
frequência, e mesmo que vocês não me percebam, porque o meu Espírito
habitará entre vocês.
Chamamos a atenção para esta última frase: “O meu Espírito habitará entre
vocês.” Nas circunstâncias atuais, isto não é só uma figura de linguagem, mas uma
realidade. Pelo conhecimento que o Espiritismo nos dá sobre a natureza dos Espíritos,
sabemos que um desencarnado pode estar entre nós não somente pelo pensamento,
mas sim em pessoa, com o auxílio do seu corpo etéreo, que o torna uma
individualidade específica. Por isso, um Espírito pode habitar entre nós depois da
morte tanto quanto enquanto vivia no corpo, e melhor ainda, uma vez que ele pode ir
e vir quando bem queira. Temos assim uma multidão de comensais invisíveis, uns
indiferentes e outros que são atraídos por nossa afeição; é a estes últimos
principalmente que se aplica esse ditado: “Eles habitam entre nós”, que pode ser
interpretado assim: Eles nos assistem, nos inspiram e nos protegem.
5. Não faz muito tempo que você estava sentado neste mesmo lugar; as
condições nas quais se encontra agora te parecem estranhas? Que efeito essa
mudança produziu em ti? – R. Estas condições não me parecem estranhas,
pois meu Espírito desencarnado desfruta de uma nitidez que não deixa na
sombra nenhuma das questões que ele encara.
6. Lembra-se de ter estado nessas mesmas condições antes da tua última
existência, e percebe que alguma coisa teria mudado? – R. Eu me lembro das
minhas existências precedentes e percebo que melhorei. Eu vejo e assimilo
aquilo que estou vendo, enquanto nas minhas precedentes encarnações, como
Espírito perturbado, eu não percebia mais do que as faltas terrenas.
7. Recorda-se da tua penúltima existência, aquela que precedeu o Sr. Jobard?
186 – Allan Kardec
— R. Na minha penúltima existência eu fui um operário mecânico,
atormentado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar o meu trabalho. Como
Jobard, realizei os sonhos do pobre operário, e louvo a Deus cuja bondade
infinita fez germinar a semente que ele havia depositado em meu cérebro.
8. Já se comunicou em outro lugar? – R. Pouco tenho me comunicado ainda;
em muitos lugares um Espírito tomou o meu nome; algumas vezes eu estava
perto dele, sem poder me comunicar diretamente; minha morte é tão recente
que eu ainda compartilho de certas influências terrestres. É preciso uma
perfeita simpatia para que eu possa exprimir meu pensamento. Em pouco
tempo, poderei agir indistintamente; mas, repito, não o posso ainda. Quando
um homem um tanto conhecido morre, ele é chamado em toda parte; então,
mil Espíritos se apressam de imitar sua individualidade; foi o que aconteceu
comigo em muitas circunstâncias. Asseguro a vocês que tão logo após o
desprendimento, poucos Espíritos podem se comunicar, mesmo a um médium
de sua preferência.
9. Consegue ver os Espíritos que estão aqui conosco? — R. Eu vejo, sobretudo
Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de verdade planando no
espaço, mais uma multidão de Espíritos amigos que rodeiam vocês, zelosos e
benevolentes. Sejam felizes, amigos, pois as boas influências os protegem das
calamidades do erro.
10. Enquanto vivo, o amigo compartilhava da opinião emitida sobre a
formação da Terra pela incrustação de quatro planetas que teriam sido
fundidos conjuntamente. Ainda conserva essa mesma crença? – R. Isso é um
erro. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da Terra e sua
formação sucessiva. A Terra, como os outros planetas, teve sua vida própria, e
Deus não precisou dessa grande desordem ou dessa agregação de planetas. A
água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra.
11. Achava também que os homens poderiam entrar em catalepsia por um
tempo ilimitado, e que o gênero humano tivesse sido trazido à Terra dessa
forma… – R. Ilusão da minha imaginação, que ultrapassava sempre o objetivo.
A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada. Tradições, lendas
187 – O Céu e o Inferno
exageradas pela imaginação oriental. Meus amigos, já sofri bastante
repassando as ilusões com as quais alimentava meu espírito: não se enganem
com elas. Muito tenho aprendido e posso hoje dizer a vocês que a minha
inteligência, pronta para absorver esses vastos e diversos estudos, havia
guardado da minha precedente encarnação o amor pelo maravilhoso e pela
composição extraída das imaginações populares.
Pouco ainda tenho me ocupado com as questões puramente intelectuais,
no sentido em que vocês as consideram. Como poderia eu, deslumbrado e
arrebatado como estou agora pelo maravilhoso espetáculo que me envolve?
Só o contato com o Espiritismo — mais poderoso do que vocês, como
humanos, poderiam imaginar — é capaz de atrair meu ser a esta Terra que
deixo, não com prazer, pois isso seria uma impiedade, mas com a profunda
gratidão pela libertação.
Durante uma campanha aberta pela Sociedade em favor dos operários de Lyon,
em fevereiro de 1862, um determinado membro doou 50 francos, sendo 25 de si
mesmo e 25 em nome do Sr. Jobard. A respeito disso, este último então deu a
comunicação seguinte:
Fiquei lisonjeado e grato por não ter sido esquecido pelos meus irmãos
espíritas. Agradeço ao coração generoso que lhes trouxe a oferta que eu teria
dado se ainda habitasse este vosso orbe. No mundo em que eu vivo agora não
temos necessidade de dinheiro; então, precisei recorrer à bolsa da amizade
para dar provas materiais de que eu estava comovido pelo infortúnio dos
meus irmãos de Lyon. Bravos trabalhadores, que cultivam com ardor a vinha
do Senhor, como vocês devem acreditar que a caridade não é uma palavra vã,
pois os pequenos e os grandes lhes têm demonstrado simpatia e fraternidade.
Vocês fazem parte na grande via humanitária do progresso; possa Deus
mantê-los nela, e que vocês possam ser mais felizes. Os Espíritos amigos os
sustentarão e então vocês triunfarão!
Estou começando a viver espiritualmente, mais sereno e menos
perturbado pelas evocações que choviam sobre mim de todo lado. A moda
reina até sobre os Espíritos; quando a moda Jobard der lugar a outra e eu
tiver caído no esquecimento humano, então rogarei aos meus amigos sérios
— e eu entendo por sérios aqueles que não se esqueceram da inteligência —
188 – Allan Kardec
que me evoquem; com isso, aprofundaremos as questões que foram tratadas
de forma muito superficial, e o seu Jobard, completamente transfigurado,
poderá ser útil para vocês, tal como ele deseja de todo o coração.
JOBARD
Após os primeiros tempos dedicados a tranquilizar os seus amigos, o Sr.
Jobard tomou lugar entre os Espíritos que trabalham ativamente pela
renovação social, esperando o seu próximo retorno entre os vivos, para aí
participar mais diretamente. Desde essa época, com frequência ele tem dado à
Sociedade de Paris — da qual ele continua membro — comunicações de uma
incontestável superioridade, sem se afastar da originalidade e do espirituoso
bom humor que formavam a base do seu caráter, fazendo-o ser reconhecido
antes mesmo que ele dê sua assinatura.
SAMUEL PHILIPPE
Samuel Philippe era um homem de bem em toda a acepção da palavra;
ninguém se lembrava de tê-lo visto cometer uma má ação nem ter feito mal
voluntariamente contra quem quer que seja. De um devotamento sem limite
por seus amigos, era certo que sempre o encontraríamos pronto quando se
precisasse dos seus serviços, mesmo que isso fosse às custas dos seus
próprios interesses. Dores, fadigas, sacrifícios, nada lhe custava para ser útil, e
ele o fazia naturalmente, sem afetação, admirando-se de que pudéssemos lhe
atribuir algum mérito por isso. Jamais desejou o mal àqueles que lhe fizeram
algum mal, e se propunha a lhes atender tão rapidamente como se eles lhe
tivessem feito um bem. Quando tinha que lidar com os ingratos, dizia: “Não
sou eu quem deve ser lastimado, mas sim eles.” Embora muito inteligente e
dotado de um espírito bastante natural, sua vida anônima, repleta de labor,
tinha sido obscura e semeada de duras provações. Foi uma dessas naturezas
da elite que florescem nas sombras, das quais o mundo não fala nada e cujo
brilho não refletiu sobre a Terra. Pelo conhecimento do Espiritismo, ele
adquirira uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para os
males da vida terrestre. Faleceu em dezembro de 1862, com a idade de
189 – O Céu e o Inferno
cinquenta anos, por consequência de uma dolorosa doença, sensibilizando
sinceramente sua família e alguns amigos. Ele foi evocado vários meses após
sua morte.
Pergunta: Tem uma lembrança nítida dos teus últimos instantes na
Terra? – Resposta. Perfeitamente; essa lembrança me veio pouco a pouco,
pois naquele momento as minhas ideias eram ainda confusas.
P: Para a nossa instrução e pelo interesse que a tua vida exemplar nos
inspira, poderia nos descrever como se efetuou a tua passagem da vida
corporal para a vida espiritual, assim como tua situação no mundo dos
Espíritos? – R. De boa vontade; este relato não será útil somente para vocês,
mas também para mim. Ao reportar meus pensamentos para a Terra, a
comparação me faz apreciar melhor ainda a bondade do Criador.
Vocês sabem com quantas tribulações a minha vida foi semeada, mas
nunca me faltou coragem na adversidade, graças a Deus! E hoje eu me felicito
por isso. Quantas coisas eu teria perdido se tivesse cedido ao desânimo!
Estremeço só de pensar que, no caso do meu fracasso, tudo aquilo que sofri
teria sido sem proveito e deveria ser recomeçado. Oh, meus amigos, estejam
bem convencidos dessa verdade! Nela está a vossa felicidade futura.
Certamente, não é caro demais comprar essa felicidade pagando só com
alguns anos de sofrimento! Ah, se vocês soubessem o quanto é pouco o valor
de alguns anos em comparação com o infinito!
Se a minha derradeira existência teve algum mérito aos seus olhos, vocês
não diriam o mesmo das que a precederam. Não foi senão pelo esforço do
trabalho sobre mim mesmo que me tornei o que sou agora. Para apagar os
últimos traços das minhas faltas anteriores, faltava-me ainda sofrer essas
derradeiras provas que eu voluntariamente aceitei. Tirei na firmeza das
minhas resoluções a força para suportá-las sem reclamar. Hoje eu bendigo
essas provações; graças a elas eu rompi com o passado, que para mim já não é
mais do que uma recordação, e doravante eu posso contemplar com uma
legítima satisfação o caminho que percorri.
Oh, vocês que me fizeram penar na Terra, que foram duros e malévolos
comigo, que me humilharam e me cobriram de amargura, cuja má-fé tantas
190 – Allan Kardec
vezes me levou às mais duras privações: não somente eu os perdoo, mas até
lhes agradeço. Pretendendo me fazer mal, vocês nem imaginavam que me
faziam tanto bem. É verdade, pois, que em grande parte é a vocês que eu devo
a felicidade de que desfruto, porque vocês me forneceram a ocasião para
perdoar e pagar o mal com o bem. Deus os colocou na minha estrada para
provar minha paciência e me exercitar na prática da caridade mais difícil: a de
amar os próprios inimigos.
Não se impacientem com essa divagação; chegarei ao que me perguntam.
Conquanto estivesse sofrendo cruelmente na minha derradeira moléstia,
não tive nenhuma agonia; a morte veio para mim como um sono, sem luta e
sem abalos. Não tendo apreensão pelo futuro, eu não me apeguei à vida e,
consequentemente, não tive que me debater nos últimos enlaces; a separação
se efetuou sem esforço, sem dor e sem que eu me apercebesse disso.
Ignoro quanto tempo durou o sono final, mas ele foi curto. O despertar
foi de uma serenidade que contrastava com meu estado precedente; não
sentia mais dores e dele me regozijava; queria me levantar, caminhar, porém
uma dormência — que não era nada desagradável, que tinha até mesmo um
certo encanto — me deteve, e me entreguei a essa dormência com uma
espécie de volúpia, sem me dar conta da minha situação e sem suspeitar de
que já havia deixado a Terra. O que me envolvia parecia como num sonho.
Então vi minha esposa e alguns amigos ajoelhados no meu quarto, chorando, e
me convenci de que por certo eles achavam que eu estava morto. Eu queria
desiludi-los, mas não pude articular nenhuma palavra, razão pela qual conclui
que eu estava sonhando. O que alimentou essa minha ideia foi que eu me vi
cercado de várias pessoas queridas, falecidas há muito tempo, e outras que eu
não reconheci a princípio, mas que pareciam cuidar de mim, esperando meu
despertar.
Esse estado foi intercalado com instantes de lucidez e de sonolência,
durante os quais alternadamente eu recobrava e perdia a consciência do meu
eu. Pouco a pouco minhas ideias adquiriam mais nitidez; a luz que eu entrevia
por entre um nevoeiro se fazia mais brilhante; então comecei a me reconhecer
e compreendi que não pertencia mais ao mundo terrestre. Se eu não tivesse
conhecido o Espiritismo, sem dúvidas a ilusão teria se prolongado por muito
191 – O Céu e o Inferno
mais tempo.
Meus despojos mortais ainda não tinham sido enterrados; eu olhei para
eles com piedade, felicitando-me por estar finalmente desembaraçado deles.
Fiquei tão feliz por estar livre! Respirava com facilidade como quem sai de
uma atmosfera nauseante; uma indizível sensação de bem-estar penetrava
todo o meu ser; a presença daqueles que eu amava me cobria de alegria; não
fiquei nem um pouco espantado ao vê-los, pois isso me parecia tão natural,
como se os revesse depois de uma longa viagem. Uma coisa me surpreendeu a
princípio: nós nos compreendíamos sem articular uma palavra; nossos
pensamentos eram transmitidos apenas pelo olhar e como que por uma
penetração fluídica.
Entretanto, eu não estava completamente livre das ideias terrenas; a
recordação do que eu tinha enfrentado voltava de vez em quando à memória,
como que para me fazer apreciar melhor a minha nova situação. Eu havia
sofrido corporalmente, mas sobretudo moralmente; tinha sido exposto à
malevolência, a essas mil perplexidades talvez mais penosas do que as
desgraças reais, porque elas causam uma perpétua ansiedade. A impressão
delas não estava inteiramente apagada e às vezes eu me interrogava se de fato
eu havia me desprendido delas; parecia ainda que eu escutava algumas vozes
desagradáveis; eu temia as amarras que tantas vezes me atormentara, e
tremia sem querer; eu me tateava, por assim dizer, para me assegurar de que
não estava sonhando; e quando obtive a certeza de que tudo aquilo tinha
terminado, pareceu-me que um peso enorme tinha sido tirado de mim. Então
é verdade, eu dizia a mim mesmo, que enfim me libertei de todas aquelas
preocupações que formam o tormento da vida; então rendi graças a Deus! Eu
era como um pobre a quem de repente coube uma grande fortuna; durante
algum tempo, duvida-se da realidade, ressentindo as apreensões da
necessidade. Ah, se os homens compreendessem a vida futura! Quanta força,
quanta coragem essa convicção não lhes daria na adversidade! O que eles não
fariam, enquanto estão na Terra, para garantir a bonança que Deus reserva
àqueles dentre seus filhos que foram dóceis às suas leis! Eles veriam quão
pouco valem os prazeres que eles invejavam em face dos prazeres que eles
negligenciam!
192 – Allan Kardec
P. Esse mundo — tão novo para ti, e perto do qual o nosso vale tão pouco — e
os numerosos amigos que nele você reencontrou te fizeram esquecer tua
família e teus amigos na Terra? – R. Se eu tivesse esquecido deles eu seria
indigno da felicidade de que desfruto. Deus não recompensa o egoísmo; ele o
pune. O mundo onde vivo pode me fazer desdenhar a Terra, mas não os
Espíritos que aí estão encarnados. Somente entre os homens é que se vê a
prosperidade fazer esquecer os companheiros de infortúnio. Eu vou muitas
vezes rever os meus companheiros; sinto-me feliz pela boa recordação que
eles guardaram de mim; seu pensamento me atrai para eles; eu assisto às suas
conversas, alegro-me com suas alegrias, entristeço-me com suas tristezas;
mas não é aquela tristeza ansiosa da vida humana, uma vez que compreendo
que elas não são mais do que passageiras e são para o próprio bem deles. Fico
feliz ao pensar que um dia eles virão para esta mansão afortunada, onde não
experimentamos dor. É para torná-los dignos dela que me dedico; eu me
esforço para lhes sugerir bons pensamentos e especialmente a resignação que
eu mesmo tive perante a vontade de Deus. O meu grande pesar é quando os
vejo retardar esse momento por falta de coragem, por seus murmúrios, pela
dúvida quanto ao futuro, ou por qualquer ação repreensível. Então, procuro
desviá-los do mau caminho; quando consigo, é uma enorme felicidade para
mim, e todos nós nos regozijamos aqui; quando falho, digo a mim mesmo com
pesar: Mais um retardo para eles; mas me consolo pensando que nem tudo
está perdido e sem retorno.
VAN DURST
(Antigo funcionário, falecido em Antuérpia, em 1863, aos oitenta anos de idade)
Pouco tempo após sua morte, tendo um médium perguntado ao seu guia
espiritual se ele poderia ser evocado, foi-lhe respondido: “Este Espírito está
saindo lentamente da sua perturbação; ele já poderia te responder, mas a
comunicação lhe custaria muito mais dor. Peço-te então que espere mais
quatro dias, e ele te atenderá. Daqui até lá, ele já saberá das boas intenções
que você tiver expressado a seu respeito, e ele virá até você agradecido e
como bom amigo.”
193 – O Céu e o Inferno
Quatro dias mais tarde o Espírito ditou o que segue:
“Meu amigo, minha vida foi bem pouco pesada na balança da eternidade;
no entanto, estou longe de ser infeliz: estou na condição humilde, mas
relativamente feliz por ter praticado poucos erros, sem por isso visar à
perfeição. Se houver pessoas felizes numa pequena esfera, ah, então eu sou
uma delas. Só lamento uma coisa: não ter conhecido o que hoje vocês já
sabem; minha perturbação teria sido menos longa e menos penosa. Com
efeito, ela foi grande: viver e não viver, ver seu corpo e estar fortemente
ligado a ele, mas sem poder se servir dele; ver aqueles a quem amei e sentir
apagar-se o pensamento que nos liga a eles, oh que terrível! Que momento
cruel! Que momento, quando o aturdimento te envolve e te estrangula! E,
instantes depois, trevas! Sentir, e um momento depois, estar aniquilado! A
pessoa quer ter a consciência do seu eu, mas não a pode recuperar; ela não
existe mais e, de repente, ela sente que existe, só que em uma perturbação
profunda! E depois, passado um tempo incalculável, tempo de angústias
contidas, pois não tem mais a força para senti-las, após esse tempo que parece
interminável, renasce lentamente para a existência; desperta-se num novo
mundo! Não mais corpo material, não mais vida terrestre: vida imortal! Chega
de homens carnais, mas sim formas leves, Espíritos que deslizam de todos os
lados, rodeando em torno de ti e que você não pode se dar conta de todos,
pois é no infinito que eles flutuam! Ter diante de si o espaço e poder cruzá-lo
à vontade! Comunicar-se pelo pensamento com tudo que te envolve! Amigo,
que vida nova! Que vida resplandecente! Que vida de satisfações!… Oh, salve,
salve a eternidade que me recebe em seu seio!… Adeus, Terra que por tanto
tempo me reteve longe do elemento natural da minha alma! Não, eu não iria
mais te querer, porque você é um lugar de exílio e a tua maior felicidade não
significa nada!
Porém, se eu soubesse o que vocês sabem, como essa iniciação à outra
vida teria sido para mim mais fácil e mais agradável! Eu teria sabido antes de
morrer o que tive que aprender mais tarde, no momento da separação, e
então minha alma teria se desprendido mais facilmente. Vocês estão no
caminho, mas jamais, jamais mesmo vocês irão longe o bastante! Digam ao
meu filho, mas digam muitas vezes, para que ele acredite e se instrua; daí,
194 – Allan Kardec
quando ele chegar aqui, não nos separaremos mais.
Adeus a todos, amigos, adeus! Eu espero por vocês, e durante o tempo
em que estiverem na Terra, eu virei muitas vezes instruir-me perto de vocês,
pois eu ainda não sei tanto quanto muitos dentre vocês. Mas aprenderei
rápido aqui, onde não tenho mais os entraves que me barravam, e onde não
tenha mais a idade que enfraquece minhas forças. Aqui nós vivemos
intensamente e avançamos, uma vez que temos diante de nós horizontes tão
belos que ficamos impacientes para abraçá-los.
Adeus, eu os deixo; adeus!
VAN DURST
SIXDENIERS
Homem de bem, morto em acidente e conhecido do médium, de quando encarnado)
(Bordeaux, 11 de fevereiro de 1861)
P. Poderia nos dar alguns detalhes sobre a tua morte? – R. De depois de
afogado, sim. – P. E por que não de antes? – R. Vocês sabem o porquê. (De fato,
o médium o conhecia.) – P. Teria a bondade de descrever para mim as tuas
sensações após a morte? – R. Passei longo tempo antes de me reconhecer, mas
com a graça de Deus e o auxílio dos que me cercavam, quando a luz se fez, eu
estava inundado. Pode esperar e você sempre encontrará mais do que espera.
Nada de material; tudo impressiona os sentidos ocultos: aquilo que nem o
olho nem a mão pode tocar, compreende? É uma admiração espiritual que
ultrapassa o teu entendimento, porque não há palavras para explicar: só a
alma pode senti-la.
Meu despertar foi bem agradável. A vida é um desses sonhos que,
malgrado a ideia grotesca que damos a essa palavra, não a posso qualificar
senão como um apavorante pesadelo. Imagine que você foi trancado num
calabouço infecto e que teu corpo é corroído pelos vermes que penetra até a
medula dos ossos, ficando suspenso sobre uma fornalha ardente; que a tua
boca ressequida não encontra sequer o ar para refrescá-la; que o teu Espírito
horrorizado não vê ao teu redor nada além de monstros prestes a te devorar;
imagine, enfim, tudo de fantástico que um sonho pode criar de mais hediondo,
195 – O Céu e o Inferno
de mais horripilante, e que de repente você se ache transportado para um
Éden delicioso. Então você acorda cercado de todos aqueles que amou e por
quem você chorou, vendo em torno de ti seus semblantes adorados a sorrirem
de felicidade por você; respire os perfumes mais suaves, refresca tua garganta
ressequida na fonte de água viva; sinta teu corpo elevado no espaço infinito
que o carrega e o embala como faz a brisa de uma flor desprendida do cimo de
uma árvore; sinta-se envolvido pelo amor de Deus igual o recém-nascido é
envolvido pelo amor de sua mãe, e mesmo assim você não terá mais do que
uma ideia imperfeita dessa transição. Procurei te explicar a ventura da vida
que aguarda o homem depois da morte do corpo, mas não o pude. Seria
possível explicar o infinito àquele que tem os olhos fechados para a luz e cujos
membros jamais puderam sair do círculo estreito em que eles se acham
presos? Para te explicar a felicidade eterna, eu te direi: ame! Pois só o amor
pode fazer pressenti-lo, e quem diz amor diz ausência de egoísmo.
P. Tua posição foi feliz desde tua entrada no mundo dos Espíritos? – R. Não;
tive que pagar a dívida do homem. Meu coração me havia feito pressentir o
futuro como Espírito, mas eu não tinha fé. Precisei expiar minha indiferença
para com meu Criador, mas a sua misericórdia me levou em conta o pouco de
bondade que eu pude fazer, as dores que eu havia suportado com resignação,
não obstante o meu sofrimento; então a sua justiça — cuja balança os homens
jamais compreenderão — pesou o bem com tanta bondade e amor que o mal
foi rapidamente apagado.
P. Poderia nos dar notícias da tua filha? (morta quatro ou cinco anos depois do
pai) – R. Ela está em missão nesta Terra de vocês.
P. Ela está feliz como encarnada? Não quero fazer nenhuma pergunta
indiscreta… – R. Eu sei disso muito bem; será que eu não vejo o teu
pensamento como um quadro diante dos meus olhos? Não; como encarnada
ela não é feliz, mas ao contrário; todas as misérias da vida de vocês a
aguardam. Porém, ela deve pregar pelo exemplo essas grandes virtudes das
quais vocês fazem belos discursos; eu a ajudarei, pois devo velar por ela; mas
ela não terá grande dificuldade para superar os obstáculos, já que ela não
196 – Allan Kardec
está em expiação, mas sim em missão. Fique tranquilo por ela, e obrigado
pela tua lembrança.
Nesse momento, o médium sentiu uma dificuldade para escrever e disse:
se for um Espírito sofredor que me atrapalha, peço que se identifique. – R.
Uma infeliz.
P. Gostaria de me dizer teu nome? – R. Valéria.
P. Poderia me dizer o que causou teu castigo? – R. Não.
P. Você se arrependeu dos teus erros? – R. Você está vendo que sim.
P. Quem te trouxe aqui? – R. Sixdeniers.
P. Com que objetivo ele fez isso? – R. Para que você me ajude.
P. Foi você quem me impediu de escrever uma hora atrás? – R. Foi ele
que me colocou no lugar dele.
P. Qual é a relação entre vocês? – R. Ele me guia.
P. Peça a ele que se junte a nós na prece. (Depois da prece, Sixdeniers
retorna:) – Obrigado por ela; você entendeu, não me esquecerei de ti; pense
nela.
P. [A Sixdeniers] Como Espírito, você tem muitos Espíritos sofredores a
guiar? – R. Não; mas tão logo que tenhamos conduzido um deles ao bem,
cuidamos de outro, sem com isso abandonar os anteriores.
P. Como pode dar conta de uma vigilância que deverá se multiplicar ao
infinito através dos séculos? – R. Entenda que aqueles que temos reconduzido
se depuram e progridem; então, eles nos dão menos trabalho, ao mesmo
tempo em que nós mesmos nos elevamos e, ao subirmos, nossas faculdades
progridem, nosso poder aumenta na proporção da nossa pureza.
Observação – Os Espíritos inferiores são assim assistidos pelos bons
Espíritos que tem como missão guiar aqueles outros; essa tarefa não é
exclusivamente delegada aos encarnados, mas estes devem contribuir com tal
missão, porque isso é um meio de avanço para eles. Quando um Espírito
197 – O Céu e o Inferno
inferior vem interferir numa boa comunicação, como no caso presente,
certamente que nem sempre ele o faz com uma boa intenção; porém, os bons
Espíritos o permitem — seja como prova, seja para que aquele a quem ele se
dirige trabalhe pelo seu melhoramento. É verdade que sua persistência acaba
às vezes degenerando numa obsessão; quanto mais forte for essa persistência,
mais ela provará a necessidade de assistência. Portanto, é um erro rebater um
Espírito inferior; devemos olhá-lo como um pobre que vem pedir esmola, e
então dizer: Este é um Espírito infeliz que os bons me enviam para educá-lo.
Se conseguirmos isso, teremos a alegria de ter reconduzido uma alma ao bem
e de ter abreviado seus sofrimentos. Essa tarefa muitas vezes é penosa; sem
dúvidas, seria mais agradável receber sempre belas comunicações e não
conversar senão com Espíritos de escolha própria; mas não é buscando a
nossa própria satisfação, nem recusando as ocasiões que nos são oferecidas
para praticar o bem, que mereceremos a proteção dos bons Espíritos.
DR. DEMEURE
Falecido em Albi [Tarn], em 25 de janeiro de 1865.
O Sr. Demeure era um médico homeopata muito distinto em Albi80. Seu
caráter, tanto quanto os seus conhecimentos, tinha lhe conciliado a estima e a
veneração dos seus concidadãos. Sua bondade e caridade eram inesgotáveis e,
apesar da idade avançada, nenhuma fadiga lhe custava quando se tratava de ir
cuidar dos pobres doentes. O preço das suas visitas era a menor de suas
preocupações; ele se considerava menos incomodado com o desafortunado do
que com aquele que ele sabia que podia pagar, porque, dizia ele, este último,
na falta dele, sempre podia procurar outro médico. Ao desafortunado, não só
ele dava os remédios gratuitamente, mas também frequentemente deixava
com o que suprir às necessidades materiais — o que às vezes é o mais útil dos
medicamentos. Dele se pode dizer que foi o Cura d’Ars da medicina.81
80 Albi é uma comuna (município) francesa do departamento (Estado) de Tarn, na região da Occitânia,
ao sul da França. — N. T.
81 João Batista Maria Vianney (1786 – 1859) foi um sacerdote católico francês, canonizado pela igreja
198 – Allan Kardec
O Sr. Demeure abraçou com ardor a doutrina espírita, na qual encontrou
a chave das mais graves questões, para as quais ele inutilmente havia
procurado a solução na ciência e em todas as filosofias. Seu Espírito profundo
e investigador lhe fez compreender imediatamente todo o alcance dessa
doutrina, tanto que ele se tornou um dos seus mais zelosos propagadores.
Relações de viva e mútua simpatia se estabeleceram entre ele e nós através da
correspondência.
Soubemos da sua morte em 30 de janeiro, e o nosso primeiro
pensamento foi o de conversarmos com ele. Aqui está a comunicação que ele
nos deu naquele mesmo dia:
“Eis-me aqui. Eu prometi, quando era vivo, que uma vez morto eu viria,
se isso me fosse possível, apertar a mão do meu caro mestre e amigo, o Sr.
Allan Kardec.
“A morte tinha dado à minha alma esse pesado sono que nomeamos
letargia; mas meu pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto que
prolonga a perturbação que segue a morte, despertei e de um salto fiz a
viagem.
“Como estou feliz! Já não sou mais velho nem adoentado; meu corpo não
era senão um disfarce imposto; agora sou jovem e belo, belo dessa eterna
juventude dos Espíritos, cujas rugas não marcam mais o rosto, cujos cabelos
não embranquecem com o passar do tempo. Sinto-me leve como o pássaro
que num voo rápido atravessa o horizonte do vosso céu nebuloso, e admiro, e
contemplo, bendigo, amo e me inclino, átomo que sou, perante a grandeza, a
sabedoria, a ciência de nosso Criador, perante as maravilhas que me rodeiam.
“Estou feliz; estou na glória! Oh, quem alguma vez poderia recontar as
esplêndidas belezas da terra dos eleitos: os céus, os mundos, os sóis, seu papel
no grande concerto da harmonia universal?! Pois bem, eu tentarei, meu
mestre! Vou fazer o seu estudo e virei depor junto a ti a homenagem de meus
trabalhos de Espírito que te dedico de antemão. Até logo.”
DEMEURE
católica como Santo Cura d’Ars, o padroeiro dos párocos, reconhecido pela extrema bondade e
desprendimento material, a quem se atribui alguns três milagres, incluindo curas de doenças e
“conhecimentos sobrenaturais” sobre o passado e o futuro. — N. T.
199 – O Céu e o Inferno
As duas comunicações seguintes, transmitidas nos dias 1 e 2 de fevereiro, são
referentes à doença de que nós fomos acometidos na ocasião.82 A despeito de serem
pessoais, nós as reproduzimos porque elas provam que o Sr. Demeure é tão bom como
Espírito quanto era como homem.
“Meu bom amigo, tenha confiança em nós e muita coragem; essa crise,
conquanto fatigante e dolorosa, não será longa e, com os cuidados prescritos,
você poderá, conforme teus desejos, completar a obra que foi o principal
objetivo da tua existência. Sou eu, portanto, que está sempre perto de ti, com
o Espírito de Verdade, que, em seu nome, me permite tomar a palavra, como
o último de teus amigos vindos entre os Espíritos. Eles me dão as honras das
boas-vindas. Caro mestre, quanto estou feliz por ter morrido a tempo para
estar com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez
pudesse ter evitado essa tua crise, que eu não previa; fazia pouquíssimo
tempo que eu tinha desencarnado para me ocupar com outra coisa que não da
questão espiritual. Mas agora eu velarei por ti, querido mestre; é teu irmão e
amigo que se alegra em ser um Espírito para estar próximo a ti e te prestar os
cuidados durante tua enfermidade. Contudo, você conhece o provérbio:
‘Ajuda-te e o céu te ajudará’. Então, ajude os bons Espíritos nos cuidados que
eles te dispensam, e se submeta estritamente às prescrições deles.
“Faz bastante calor aqui; esse carvão é cansativo. Enquanto estiver
doente, não o queime; ele continua a aumentar tua opressão; os gases que
dele se desprendem são deletérios.”
Vosso amigo, DEMEURE
“Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho lhe dizer que estava perto
dele quando lhe ocorreu o acidente, que poderia ter sido fatal sem uma intervenção
eficaz para a qual eu fiquei feliz em contribuir. De acordo com as minhas
observações e as informações que colhi de boa fonte, ficou evidente para mim que,
quanto mais cedo se der a sua desencarnação, mais cedo poderá se fazer a sua
reencarnação, para a qual ele virá completar sua obra. Entretanto, é preciso que ele
82 Com efeito, desde a publicação da obra O Evangelho segundo o Espiritismo (inicialmente intitulado
Imitação do Evangelho), em abril do ano anterior à composição deste livro, portanto 1864, o codificador
espírita ficou gravemente enfermo por esgotamento dos órgãos devido ao excesso de trabalho, tendo
sido até advertido pelos amigos espirituais sobre a necessidade de repousar mais. — N. T.
200 – Allan Kardec
dê, antes de partir, o derradeiro retoque nas obras que devem completar a teoria
doutrinária cujo iniciador foi ele, e ele se torna culpável de homicídio voluntário se,
por excesso de trabalho, contribuir para o desfalecimento do seu organismo, que o
ameaça de uma súbita partida para o nosso mundo. Não se deve temer dizer-lhe
toda a verdade, para que ele tome suas precauções e siga literalmente as nossas
prescrições.”
DEMEURE
A comunicação seguinte foi obtida em Montauban, em 26 de janeiro, no
dia seguinte ao da sua morte, no círculo de amigos espíritas que ele tinha
naquela cidade:
“Antoine Demeure. Não estou morto para vocês, meus bons amigos, mas
para aqueles que, diferentemente de vocês, não conhecem essa santa doutrina
que reúne os que se amaram nessa Terra, e que tiveram os mesmos
pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade.
“Sou feliz; mais feliz do que eu podia esperar, pois gozo de uma rara
lucidez entre os Espíritos desgarrados da matéria desde tão pouco tempo.
Tenham coragem, meus bons amigos; estarei com frequência junto a vocês e
não deixarei de instrui-los sobre muitas coisas que ignoramos quando
estamos ligados à nossa pobre matéria, que nos esconde tantas
magnificências e tantos prazeres. Orem pelos que estão privados dessa
ventura, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos.
“Não vou me estender mais por hoje, mas lhes direi que não me acho
totalmente estranho neste mundo dos invisíveis; parece-me que sempre o
habitei. Cá estou feliz porque vejo aqui os meus amigos e posso me comunicar
com eles todas as vezes que o desejar.
“Não chorem, meus amigos; vocês me fariam lamentar tê-los conhecido.
Deixem o tempo correr e Deus os conduzirá a esta morada, onde todos nós
devemos nos reunir. Boa noite, meus amigos: que Deus os console; eu
continuo perto de vocês.”
DEMEURE
Outra carta de Montauban contém o relato seguinte:
“Nós tínhamos ocultado à Sra. G…, médium vidente e sonâmbula muito
201 – O Céu e o Inferno
lúcida, a morte do Sr. Demeure, para poupar sua extrema sensibilidade, e o
bom doutor, certamente entendendo nossas intenções, tinha evitado se
manifestar a ela. Quando foi 10 de fevereiro último, estávamos reunidos a
convite dos nossos guias que — diziam eles — queriam aliviar madame G… de
uma entorse da qual ela sofria cruelmente desde a véspera. Nós não sabíamos
mais do que isso e estávamos longe de esperar a surpresa que eles nos
reservavam. Tão logo essa senhora caiu em sonambulismo, ela começou a
soltar gritos comoventes ao mostrar seu pé. Eis o que se passou:
“A Sra. G… estava vendo um Espírito curvado sobre sua perna, mas seus
traços ficavam ocultos para ela; ele operava fricções e massagens, exercendo
de vez em quando uma tração longitudinal na parte doente, absolutamente
como teria feito um médico. A operação era tão dolorosa que a paciente às
vezes vociferava e fazia movimentos desordenados. Porém a crise não
demorou muito; ao fim de dez minutos toda a marca de torção havia
desaparecido, nada mais de inchaço, e o pé retomou sua aparência normal:
madame. G… estava curada.
“No entanto, o Espírito permanecia sempre escondido da médium,
persistindo em não mostrar sua fisionomia; ele dava mesmo a impressão de
querer fugir, quando de salto nossa doente — que minutos antes não podia
dar um passo — se lança no meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu
doutor espiritual. Ainda dessa vez o Espírito virou seu rosto, deixando sua
mão na dela. Neste momento madame G… solta um grito e cai desfalecida no
chão: ela acabara de reconhecer o Sr. Demeure no Espírito curador. Durante a
síncope, ela recebeu os cuidados diligentes de vários Espíritos simpáticos.
Finalmente tendo readquirido a lucidez sonambúlica, ela conversa com os
Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, notadamente com o
Espírito do doutor, que respondia a seus testemunhos de afeição em lhe
penetrando um fluido reparador.
“Tal cena não é impressionante e dramática? E não seria de se acreditar
ver todos esses personagens representar seu papel na vida humana? Isso não
é uma prova entre mil outras de que os Espíritos são seres bem reais, tendo
um corpo e agindo como faziam na Terra? Ficamos felizes por reencontrar
nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada
202 – Allan Kardec
solicitude. Durante sua vida, ele tinha sido o médico da médium; conhecia sua
extrema sensibilidade e a tinha tratado dela como se fosse sua própria filha.
Esta prova de identidade, dada àqueles que o Espírito amava, não é tocante e
capaz de fazer encarar a vida futura sob seu aspecto mais consolador?”
Observação – A situação do Sr. Demeure, como Espírito, é bem aquela
que podia deixar pressentir sua vida tão digna e utilmente cumprida. Mas um
outro fato não menos instrutivo ressalta dessas comunicações: é a atividade
que ele desenvolve quase imediatamente após sua morte, para ser útil. Por
sua alta inteligência e suas qualidades morais, ele pertence à ordem dos
Espíritos muito adiantados; ele é feliz, mas sua felicidade não está na inércia.
Há poucos dias, ele cuidava dos enfermos como médico e, tão logo
desencarnado, ele se apressa em vir cuidar deles como Espírito. Com certeza,
algumas pessoas dirão: O que se ganha então em estar no outro mundo se lá
não se goza de repouso? A isto lhes perguntaremos primeiro se não significa
nada deixar de ter preocupações, ou necessidades, ou as enfermidades da
vida, e ser livre, podendo sem se cansar percorrer o espaço com a rapidez do
pensamento, e ir ver seus amigos a qualquer hora, a qualquer distância em
que se encontrem? Depois acrescentamos: Quando vocês estiverem no outro
mundo, nada os forçará a fazer seja lá o que for; vocês serão perfeitamente
livres para ficar numa ociosidade beata, tanto tempo quanto isso lhes agradar;
mas logo se cansarão desse repouso egoísta; vocês serão os primeiros a pedir
uma ocupação. Então lhes será respondido: Se vocês estão entediados de não
fazerem nada, procurem vocês mesmos algo para fazer; as ocasiões de ser útil
não faltam no mundo dos Espíritos, assim como entre os homens. É assim que
a atividade espiritual não é um constrangimento; é uma necessidade, uma
satisfação para os Espíritos que procuram as ocupações de acordo com seus
gostos e suas aptidões, e escolhem de preferência as ocupações que possam
ajudar para o seu adiantamento.
VIÚVA FOULON, nome de nascimento: WOLLIS
Madame Foulon, falecida em Antibes a 3 de fevereiro de 1865, havia
morado por muito tempo no Havre, onde ela conquistou uma reputação de
203 – O Céu e o Inferno
miniaturista muito hábil. Seu notável talento a princípio era para ela só uma
distração de amadora; mais tarde, porém, quando vieram dias difíceis, ela
soube fazer da sua arte uma preciosa fonte de renda. O que a tornava
especialmente amada e estimada, e que tornava sua memória cara a todos que
a conheceram, era a amenidade de seu caráter; essas eram suas qualidades
particulares, as quais só quem conhecia sua vida íntima podia apreciar toda a
extensão. Pois, igual a todos aqueles em quem o sentimento do bem é inato,
ela não fazia alarde dessas qualidades e nem mesmo suspeitava delas. Se
havia uma pessoa sobre quem o egoísmo não tinha domínio, essa era ela, sem
dúvida; talvez jamais o sentimento de abnegação pessoal fosse levado mais
longe, porque, sempre pronta a sacrificar seu repouso, sua saúde e seus
interesses por aqueles a quem podia ser útil, sua vida não foi mais do que uma
longa série de devotamentos, assim como foi, desde a juventude, uma longa
sequência de rudes e cruéis provas, diante das quais sua coragem, resignação
e perseverança jamais falharam. Todavia, infelizmente, sua visão fatigada por
um trabalho minucioso, apagava-se dia após dia; mais algum tempo e a
cegueira, já muito avançada, estaria completa.
Quando a Sra. Foulon tomou conhecimento da doutrina espírita, isso foi
para ela como um rastro de luz; parecia-lhe que um véu se levantava sobre
alguma coisa que não lhe era desconhecido, mas de que ela tinha apenas uma
vaga intuição. Então ela estudou essa doutrina com ardor, mas ao mesmo
tempo com essa lucidez de espírito, essa justeza de apreciação que era
próprio de sua alta inteligência. É preciso conhecer todas as perplexidades de
sua vida, perplexidades que tinham sempre por móvel, não ela mesma, mas os
seres que lhe eram caros, para compreender todas as consolações que colheu
nessa sublime revelação, que lhe dava uma fé inabalável no futuro e lhe
mostrava o vazio das coisas terrenas.
Sua morte foi digna da sua vida; ela viu sua aproximação sem nenhuma
apreensão penosa: era para ela a libertação dos laços terrenos, que devia lhe
abrir essa vida espiritual bem-aventurada com a qual tinha se identificado
pelo estudo do Espiritismo. Morreu com calma, porque tinha consciência de
ter cumprido a missão que havia aceitado ao vir à Terra; de ter cumprido
escrupulosamente seus deveres de esposa e de mãe de família. Porque
204 – Allan Kardec
também tinha, durante a vida, abjurado todo ressentimento contra aqueles
dos quais ela tinha do que lastimar e que a tinham pago com ingratidão; a
quem ela sempre havia retribuído o mal com o bem, e que deixara a vida
perdoando-os, entregando-se à bondade e à justiça de Deus. Em suma, morreu
com a serenidade que dá uma consciência pura, e a certeza de estar menos
separada de seus filhos que durante a vida corpórea, já que desde então
poderá estar com eles em Espírito, em qualquer lugar do globo onde se
encontrem, para ajudá-los com seus conselhos e cobri-los com a sua proteção.
Logo que soubemos da morte da Sra. Foulon, nosso primeiro desejo foi o
de conversarmos com ela. As relações de amizade e de simpatia que a
Doutrina Espírita fez nascer entre ela e nós explicam algumas de suas
palavras e justificam a familiaridade da linguagem.
I
(Paris, 6 de fevereiro de 1865, três dias após a morte dela)
Estava certa de que vocês teriam a ideia de me evocar logo após a minha
libertação, e fiquei pronta para lhes responder, pois não sofri perturbação; só
os que têm medo são envolvidos por suas trevas espessas.
Pois bem, meu amigo, agora estou feliz. Estes pobres olhos, que estavam
enfraquecidos e que só me deixavam a lembrança dos prismas que tinham
colorido a minha juventude com seu brilho cintilante, aqui estão abertos e
reencontraram os esplêndidos horizontes que, nas suas vagas reproduções,
alguns dos vossos grandes artistas idealizam, mas cuja realidade majestosa —
severa, mas cheia de encantos — está imbuída da mais completa concretude.
Não faz mais do que três dias que estou morta e sinto que sou uma
artista; minhas aspirações para o ideal da beleza na arte não eram mais do
que a intuição de faculdades que eu tinha estudado e adquirido em outras
existências e que se desenvolveram na derradeira. Porém, o que devo fazer
para reproduzir uma obra-prima digna da grande cena que toca o espírito ao
chegar na região da luz? Pincéis! Dê-me pincéis e eu provarei ao mundo que a
arte espírita é o coroamento da arte pagã, da arte cristã que periclita, e que só
ao Espiritismo está reservada a glória de fazê-la reviver com todo o seu brilho
205 – O Céu e o Inferno
neste mundo deserdado de vocês.
Basta para a artista; agora é a vez da amiga.
Por que, querida amiga (madame Allan Kardec83), por que se afetar tanto
assim por causa da minha morte? Sobretudo vocês, que conheceram as
decepções e as amarguras da minha vida, vocês deveriam ao contrário se
alegrarem ao ver que agora eu não devo mais beber no cálice amargo das
dores terrestres que esvaziei até a última gota. Acreditem em mim: os mortos
são mais felizes do que os vivos, e chorar por eles é duvidar da veracidade do
Espiritismo. Vocês me verão novamente, estejam certos disso; eu parti
primeiro porque minha tarefa neste mundo estava finalizada; cada qual tem a
sua tarefa a cumprir na Terra, e quando a sua for concluída, você virá
repousar um pouco perto de mim, para recomeçar em seguida, se for preciso,
já que entendemos que não é da natureza permanecermos inativos. Cada um
tem suas tendências e a elas obedece; essa é uma lei suprema que prova o
poder do livre-arbítrio. Assim, boa amiga, indulgência e caridade, todos nós
necessitamos delas reciprocamente — tanto no mundo visível quanto no
invisível. Com este propósito, tudo vai dar certo.
Vocês não disseram para eu parar; saibam que é a primeira vez que eu
converso longamente! Assim sendo, eu vou deixá-los; agora é a vez do meu
excelente amigo, Sr. Kardec. Quero lhe agradecer pelas afetuosas palavras que
dirigiu à amiga que o precedeu no túmulo; pois nós quase partimos juntos
para o mundo onde me encontro, meu bom amigo! (Alusão àquela enfermidade
de que o Dr. Demeure falou.) O que teria dito a companheira bem-amada dos
teus dias, se os bons Espíritos não tivessem impedido tua morte? Então ela
teria chorado e gemido, e isso eu compreendo; mas também é preciso que ela
cuide para que você não se exponha novamente ao perigo antes de ter
finalizado o teu trabalho de iniciação espírita, sem o que você corre o risco de
chegar cedo demais entre nós e de ver, como Moisés, a Terra Prometida
somente de longe. Portanto, mantenha-se em guarda; é uma amiga quem está
te prevenindo.
Agora, eu vou embora, mas retorno para junto dos meus queridos filhos;
depois, vou ver, para além dos mares, se minha ovelha viajante finalmente
83 O Espírito da viúva Foulon então se dirige a Amélie Gabrielle Boudet, esposa de Allan Kardec. — N. T.
206 – Allan Kardec
chegou ao porto, ou se ela é uma presa da tempestade. (Uma das filhas dela, que
morava na América.) Que os Espíritos bons a protejam; vou me juntar a eles
para isso. Voltarei a conversar convosco, pois sou uma faladora infatigável,
como vocês bem sabem. Então, adeus, bons e caros amigos. Até breve!
Viúva FOULON
II
(8 de fevereiro de 1865.)
P. Caríssima madame Foulon, estou muito contente com a comunicação
que me enviou outro dia, e com a promessa de continuar nossas conversas.
Eu te reconheci perfeitamente na comunicação; ali falava de coisas
desconhecidas do médium e que só podiam vir de você; depois, tua linguagem
afetuosa a nosso respeito é bem aquela de tua alma amorosa. Mas há em tuas
palavras uma segurança, uma postura, uma firmeza que não conhecia em ti
quando estava viva. Você sabe que a este respeito eu me permiti mais de uma
advertência em certas circunstâncias.
R. É verdade, mas desde que me vi gravemente enferma, recobrei minha
firmeza de espírito, perdida pelos desgostos e vicissitudes que por vezes
tinham me tornado medrosa durante a vida. Então, eu disse para mim mesma:
Você é espírita; esqueça a Terra; prepara-se para a transformação do teu ser e
veja, pelo pensamento, a senda luminosa que a tua alma deve seguir ao deixar
teu corpo, e que te conduzirá, feliz e liberta, nas esferas celestes onde você
viverá de agora em diante.
Vocês me dirão que foi um tanto presunçoso da minha parte contar com
a felicidade perfeita ao deixar a Terra; mas eu tinha sofrido tanto que devia
ter expiado minhas faltas desta existência e das anteriores. Esta intuição não
tinha me enganado, e foi ela quem me deu a coragem, a calma e a firmeza nos
instantes finais: essa firmeza aumentou naturalmente quando vi, após minha
libertação, minhas esperanças realizadas.
P. Tenha a bondade de nos descrever agora a tua passagem, o acordar e
as primeiras impressões sentidas.
R. Eu sofri, mas o meu Espírito foi mais forte do que aquele sofrimento
207 – O Céu e o Inferno
material que o desprendimento o fazia experimentar. Encontrei-me, após o
suspiro supremo, como que em estado de síncope, sem nenhuma consciência
de minha situação, sem pensar em nada e numa vaga sonolência, que não era
nem o sono do corpo nem o despertar da alma. Permaneci assim bastante
tempo; depois, como se saísse de um longo desfalecimento, despertei pouco a
pouco no meio de irmãos que não conhecia. Eles me dispensaram cuidados e
carinhos, mostrando-me um ponto no espaço que parecia uma estrela
cintilante e me disseram: “É para lá que você vai conosco; você não pertence
mais à Terra.” Então me recordei; apoiei-me neles e, como um grupo gracioso
que se lança rumo às esferas desconhecidas, mas com a certeza de lá
encontrar a felicidade, nós subimos, subimos, e a estrela crescia. Era um
mundo feliz, um mundo superior, onde a boa amiga de vocês finalmente vai
achar o repouso — quero dizer o repouso em relação às fadigas corporais que
suportei, e às vicissitudes da vida terrena, mas não a indolência do Espírito,
pois a atividade do Espírito é uma satisfação.
P. Significa que você definitivamente deixou a Terra?
R. Ainda tenho aqui muitos seres queridos meus para que eu a deixe
definitivamente. Aqui voltarei, portanto, como Espírito, pois tenho uma
missão a cumprir junto aos meus netos. Aliás, vocês sabem bem que nenhum
obstáculo se opõe a que os Espíritos que estacionam nos mundos superiores à
Terra venham visitá-la.
P. A posição em que está não parece enfraquecer teus relacionamentos
com aqueles que você aqui deixou?
R. Não, meu amigo; o amor aproxima as almas. Creia em mim que é
possível estar na Terra mais próximo daqueles que atingiram a perfeição do
que daqueles que a inferioridade e o egoísmo fizeram gravitar em torno da
esfera terrestre. A caridade e o amor são dois motores de uma poderosa
atração. Esses são o laço que cimenta a união das almas conectadas uma à
outra, e que continua assim, apesar da distância e dos lugares. Não há
distâncias senão para os corpos materiais, mas nunca para os Espíritos.
P. Que ideia ora você faz dos meus trabalhos referentes ao Espiritismo?
R. Acho que você se encarregou de almas e que o fardo é pesado de
208 – Allan Kardec
suportar; mas eu vejo o objetivo e sei que você o atingirá. Vou te ajudar, se eu
puder, com meus conselhos de Espírito, para que possa superar as
dificuldades que te ocorrerão, te orientando a tomar certas medidas
apropriadas para, enquanto estiver vivo, promover o movimento renovador
ao qual o Espiritismo conduz. Teu amigo Demeure, unido ao Espírito de
verdade, te prestará um auxílio mais útil ainda; ele é mais sábio e mais sério
do que eu, mas como sei que a assistência dos bons Espíritos te fortifica e te
sustenta em teu labor, creia que o meu te estará assegurado em toda parte e
para sempre.
P. Poderíamos deduzir de algumas dessas tuas palavras que vocês não
me prestarão uma cooperação pessoal muito ativa na obra do Espiritismo…
R. Está enganado; mas vejo tantos outros Espíritos mais capazes do que
eu para tratar dessa importante questão, que um invencível sentimento de
timidez me impede, nesse momento, de te responder conforme teus desejos.
Isso talvez aconteça; terei mais coragem e ousadia, contudo, é preciso antes
que eu os conheça melhor. Não faz mais do que quatro dias que morri; ainda
estou sob o efeito do deslumbramento que me envolve. Meu amigo, você não
compreende? Mal eu consigo expressar as novas sensações que estou
experimentando. Tive que ralar para me arrancar do fascínio que as
maravilhas que admiro exercem sobre o meu ser. Só posso bendizer e adorar
a Deus em suas obras. Mas isso passará, pois os Espíritos me garantem que
em breve estarei acostumada com todas essas magnificências, e que então
poderei, com minha lucidez de Espírito, tratar de todas as questões relativas à
renovação terrestre. Depois, com tudo isso, imagine que nesse momento eu
tenho principalmente uma família para consolar.
Adeus e até logo; tua boa amiga, que te quer bem e sempre te amará,
meu mestre, pois é a você que ela deve a única consolação durável e
verdadeira que experimentou na Terra.
Viúva FOULON
III
A comunicação seguinte foi dada aos filhos dela em 9 de fevereiro:
209 – O Céu e o Inferno
“Meus filhos, meus queridos filhos. Deus me retirou de vocês, mas a
recompensa que ele se dignou de me conceder é bem maior, em comparação
ao pouco que fiz na Terra. Sejam resignados, meus bons filhos, às vontades do
Altíssimo; de tudo que ele permitiu que vocês recebessem, tirem a força para
suportarem as provações da vida. Seja sempre firme no coração de vocês essa
crença que tanto facilitou minha passagem da vida terrena para a vida que
nos espera ao sairmos deste mundo. Deus estendeu sobre mim, depois da
minha morte, sua inesgotável bondade, tal como ele quis fazer quando eu
estava na Terra. Agradeçam-lhe por todos os benefícios que ele tem
concedido a vocês; louvem-no, meus filhos, louvem-no sempre, a todo
instante. Não percam nunca de vista o propósito que lhes foi indicado, nem a
rota que vocês têm a seguir. Pensem no uso que devem fazer do tempo que
Deus concede a vocês na Terra. Aí serão felizes, meus bem-amados, felizes uns
pelos outros, se a união reinar entre vocês; felizes com seus filhos, se os
levarem ao bom caminho, naquele que Deus permitiu que lhes fosse revelado.
Oh, se não podem me ver, saibam bem que os laços que nos uniam aí não
são rompidos pela morte do corpo, pois não era o envoltório que nos ligava,
mas sim o Espírito. É por isso, meus bem-amados, que ainda poderei, pela
bondade do Todo-Poderoso, guiá-los e os encorajar na sua jornada, para nos
juntarmos novamente mais tarde.
Vão, meus filhos, cultivem com o mesmo amor essa crença sublime;
belos dias estão reservados para vocês que creem. Já lhes disseram isso, mas
eu não os devia ver na Terra; será do alto que apreciarei os tempos felizes
prometidos pelo Deus bom, justo e misericordioso.
Não chorem, minhas crianças; que essas mensagens fortaleçam a vossa
fé, vosso o amor a Deus, que tantos dons derramou sobre vocês, que tantas
vezes enviou o socorro à sua mãe. Orem sempre: a prece fortalece. Sigam,
nesta vida que Deus lhes concede, os ensinos que eu segui com tanto ardor.
Eu voltarei, meus filhos, mas antes é preciso amparar minha pobre filha
que ainda tem tanta necessidade de mim. Adeus, até breve. Creiam na
bondade do Todo-Poderoso; eu peço a ele por vocês. Até mais.”
Viúva FOULON
210 – Allan Kardec
Observação – Todo espírita sério e esclarecido facilmente colherá
dessas comunicações os ensinamentos que delas ressaltam. Então, só
chamaremos a atenção para dois pontos. O primeiro é que esse exemplo nos
mostra a possibilidade de não mais se encarnar na Terra e de passar daqui
para um mundo superior sem, para isso, ficar separado dos seres queridos
que aqui se deixa. Portanto, aqueles que temem a reencarnação, por causa das
misérias da vida, podem se livrar desse temor fazendo o que é preciso, isto é,
trabalhando pelo seu melhoramento. Quem não quiser vegetar nas classes
inferiores deve se instruir e trabalhar para subir de nível.
O segundo ponto é a confirmação desta verdade: depois da morte nós
ficamos menos separados dos seres queridos do que durante a vida. Madame
Foulon, retida pela idade e pela enfermidade numa pequena cidade do Sul,
não tinha perto dela senão uma parte da família; a maioria dos seus filhos e
dos seus amigos estava dispersa e distante, e então os obstáculos materiais
impediam que ela pudesse vê-los tão frequentemente quanto uns e outros
teriam desejado. O grande distanciamento tornava rara e difícil até mesmo a
correspondência com alguns deles. Mal se desembaraçou do seu envoltório,
ela, ligeira, corre atrás de cada um, transpondo as distâncias sem se cansar;
com a rapidez da eletricidade, ela os vê, assiste às suas reuniões íntimas,
envolve-os com a sua proteção e pode, por meio da mediunidade, conversar
com eles a cada instante, como se estivesse viva. E dizer que a esse
pensamento consolador há gente que prefira a ideia de uma separação
indefinida!
UM MÉDICO RUSSO
O Sr. P. era médico em Moscou, tão distinto pelas suas eminentes
qualidades morais quanto pelo seu saber. A pessoa que o evocou o conhecia
só pela fama e não tinha tido relações com ele senão indiretamente. A
comunicação original foi dada na língua russa.
P. (Após a evocação.) O senhor está aqui? – R. Sim. No dia da minha
morte, eu o segui pessoalmente, mas você resistiu a todas as minhas
211 – O Céu e o Inferno
tentativas para fazê-lo escrever. Eu tinha ouvido tuas palavras a meu respeito
e isso me fez te reconhecer; então eu tive o desejo de conversar contigo para
te ser útil.
P. Por que você, já que era tão bom, sofreu tanto? – R. Foi uma graça do
Senhor, que quis com isso me fazer sentir duplamente o preço da minha
libertação e me fazer avançar o máximo possível neste mundo.
P. A ideia da morte te causava algum terror? – R. Não, porque eu tinha
bastante fé em Deus.
P. A separação foi dolorosa? – R. Não; o que vocês chamam de derradeiro
momento não é nada. Senti apenas um estremecimento muito curto, e logo
após me achava todo feliz por estar desprendido da minha mísera carcaça.
P. O que aconteceu em seguida? – R. Tive a felicidade de ver uma grande
quantidade de amigos vindo me reencontrar e dar as boas-vindas —
principalmente aqueles que eu tive a satisfação de ajudar.
P. Em qual região está habitando? Em algum planeta? – R. Tudo que não
seja um planeta constitui o que vocês chamam de espaço; é aí onde estou. Mas
quantos níveis existem nessa imensidade de que o homem não pode fazer
ideia! Quantos degraus nessa escada de Jacó que vai da Terra ao céu, quer
dizer, do aviltamento da encarnação num mundo inferior, como o vosso, até a
depuração completa da alma! Aqui onde estou, só se chega com uma série de
muitas provações — o que significa muitas encarnações.
P. Desse modo, você deve ter tido muitas existências… – R. Como poderia
ser de outro modo? Não há exceção na ordem imutável estabelecida por Deus.
A recompensa só pode vir após a vitória conquistada na luta; e quando a
recompensa é grande, necessariamente a luta também deve ter sido grande.
Mas a vida humana é tão curta que a luta só e real em intervalos, e esses
intervalos são as diferentes existências sucessivas; ora, já que me encontro
num dos degraus elevados, é certo que alcancei essa felicidade por uma série
de combates em que Deus me permitiu algumas vezes conquistar a vitória.
P. Em que consiste a tua felicidade? – R. Isso é mais difícil de fazê-los
212 – Allan Kardec
compreender. A felicidade de que desfruto é um contentamento extremo de
mim mesmo; não dos meus méritos — pois isso seria orgulho, e o orgulho é
coisa de Espíritos detestáveis —, mas um contentamento, digamos, imerso no
amor de Deus, no reconhecimento da sua bondade infinita; é a alegria
profunda de ver o certo, o bem; de dizer a si mesmo: talvez eu tenha
contribuído para o melhoramento de algumas daquelas pessoas que se
elevaram em direção ao Senhor. A pessoa fica como que identificada com o
bem-estar; é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. Temos o
dom de ver os Espíritos mais apurados, de compreendê-los em suas missões,
e de saber que nós também os alcançaremos; penetramos no infinito
incomensurável regiões tão resplandecentes do fogo divino que ficamos
deslumbrados até mesmo quando as contemplamos através do véu que ainda
as cobre. Mas o que estou dizendo?!… Vocês entendem minhas palavras?
Vocês acham que esse fogo de que falo seja parecido com o Sol, por exemplo?
Não, não! É uma coisa indecifrável para o homem, porque as palavras não
exprimem mais do que os objetos, as coisas físicas ou metafísicas das quais ele
conhece pela memória ou pela intuição de sua alma, ao passo que, como o
homem não pode ter essa memória do desconhecido absoluto, não existem
termos que possam lhe dar essa percepção. Mas saibam disso: já é uma
imensa felicidade pensar que podemos nos elevar infinitamente.
P. Você teve a bondade de me dizer que gostaria de ser útil a mim. Em
que, eu te pergunto? – R. Eu posso ajudá-lo nos teus desfalecimentos,
sustentá-lo nas tuas fraquezas, consolá-lo nas tuas tristezas. Se a tua fé for
abalada por qualquer ocorrência que te perturbe e vier a vacilar, chame por
mim: Deus há de me dar as palavras para te fazer se lembrar disso e te
reconduzir a ele. Se você se sentir prestes a sucumbir sob o peso de
inclinações que você mesmo reconhece serem culpáveis, então me chame: eu
te ajudarei a carregar a tua cruz, como outrora Jesus foi ajudado a carregar a
dele — aquela que devia nos proclamar tão alto a verdade e a caridade. Se
você fraquejar sob o peso de teus dissabores, se o desespero se apoderar de ti,
então me chame: eu virei te tirar desse abismo, falando de Espírito para
Espírito, te recolocando nos deveres que te são impostos — não por
considerações sociais ou materiais, mas pelo amor que você sentirá em mim,
213 – O Céu e o Inferno
amor que Deus colocou em meu ser para ser transmitido àqueles que ele pode
salvar.
Com certeza você tem amigos na Terra; eles talvez partilhem das tuas
dores e talvez já te tenham socorrido. Na tristeza, você vai procurá-los, vai
levar até eles os teus lamentos e as tuas lágrimas, e eles, em troca desse sinal
de afeição, te dão conselhos, apoio e carinho; pois bem! Você não acha que um
amigo aqui também seja útil? Imagine como é consolador poder dizer:
Quando eu morrer, meus amigos da Terra estarão à minha cabeceira, orando
por mim e chorando por mim, mas meus amigos do espaço estarão no limiar
da vida e virão sorrindo me levar ao lugar que terei merecido pelas minhas
virtudes.
P. Pelo que eu tenho merecido essa proteção que o amigo quer me
dispensar? – R. Eis por que me afeiçoei a ti desde o dia da minha morte: eu te
vi como espírita, bom médium e adepto sincero; entre os que aí deixei, não vi
outro melhor do que você; então, decidi vir contribuir para o teu avanço, no
teu interesse, sem dúvidas, porém ainda mais no interesse de todos aqueles a
quem você foi chamado a instruir na verdade. Como você vê, Deus te ama o
bastante para fazer de ti um missionário; ao teu redor, pouco a pouco todos
vão compartilhando das tuas crenças; os mais rebeldes pelo menos te
escutam e um dia você os verá acreditar em ti. Não desanime jamais; siga
sempre em frente, a despeito das pedras do caminho: aceite-me como suporte
quando estiver fraquejando.
P. Não ouso me julgar merecedor de tão grande favor… – R. Sem dúvidas
você está longe da perfeição; mas o teu ardor em propagar as santas
doutrinas, em sustentar a fé daqueles que te ouvem, em pregar a caridade, a
bondade e a benevolência — mesmo quando usam de maus procedimentos
contra ti, tua resistência contra os teus instintos de raiva, que você poderia
satisfazer tão facilmente contra os que te afligem ou interpretam mal tuas
intenções — felizmente vêm servir de contrapeso ao que ainda há de mau em
ti; e saiba disso: o perdão é um poderoso contrapeso contra o mal.
Deus te enche com suas graças através da faculdade que ele te dá e que
cabe a você ampliar com teus esforços, a fim de trabalhar eficazmente pela
214 – Allan Kardec
salvação do teu próximo. Vou te deixar agora, mas conte comigo. Trate de
moderar tuas ideias terrenas e de viver mais frequentemente com teus
amigos aqui.
P…
BERNARDIN
(Bordeaux, abril de 1862.)
Sou um Espírito esquecido há muitos séculos; vivi na Terra na miséria e
no opróbrio, trabalhando sem descanso para a cada dia levar à minha família
um pedaço de pão insuficiente; mas eu amava o meu verdadeiro mestre, e
quando aquele que me oprimia na Terra aumentava meu fardo de dor, eu
dizia: Meu Deus, dê-me a força para suportar esse peso sem reclamar. Eu
expiava, meus amigos, porém ao sair dessa rude provação, o Senhor me
recebeu na paz, e o meu desejo mais caro é reunir todos vocês em torno a
mim, meus filhos, meus irmãos, para lhes dizer: Seja qual for o preço que
vocês aí paguem, a felicidade que os espera é ainda muito maior.
Eu não tive status; filho de uma numerosa família, servi a quem podia me
ajudar a sustentar minha vida. Nascido numa época em que a servidão era
cruel, suportei todas as injustiças, todos os trabalhos árduos, todos os fardos
que os subalternos do Senhor tinham o prazer de me impor. Vi minha mulher
ser ultrajada; vi minhas filhas serem levadas e depois rejeitadas, sem poder
me queixar; vi meus filhos serem envolvidos nas guerras de pilhagens e de
crimes, enforcados pelas faltas que eles não tinham cometido! Ah, se vocês
soubessem, pobres amigos, o que sofri na minha tão longa existência! No
entanto, eu esperei, esperei a felicidade que não existe na Terra, e o Senhor
me concedeu essa felicidade. Então, a todos vocês, meus irmãos, coragem,
paciência e resignação.
Meu filho, você pode guardar o que eu te dei; é um ensinamento prático.
Aquele que prega é bem mais escutado quando pode dizer: Eu suportei mais
do que vocês, e suportei sem resmungar.
P. Em que época você viveu? – R. De 1400 a 1460.
215 – O Céu e o Inferno
P. Você teve outra existência depois? – R. Sim, vivi ainda entre vocês
como missionário; sim, missionário da fé; mas da fé verdadeira, da pura,
daquela que sai da mão de Deus, e não daquela que os homens fizeram.
P. Atualmente, como Espírito, você ainda tem ocupações? – R. Seria
possível acreditar que os Espíritos fiquem inativos? A inação e a inutilidade
seriam para eles um suplício. Minha missão consiste em guiar os centros de
trabalhadores no Espiritismo; eu inspiro neles bons pensamentos e me
esforço para neutralizar aqueles que os Espíritos malvados procuram sugerir.
BERNARDIN
CONDESSA PAULA
Era uma jovem, bela e rica, de uma ilustre linhagem — segundo o mundo
— e, por outro lado, um modelo completo de todas as qualidades do coração e
do espírito. Faleceu aos trinta e seis anos, em 1851. Ela foi uma daquelas
pessoas cuja oração fúnebre se resume nestas palavras, na boca de todos:
“Por que Deus tira tão cedo essas pessoas da Terra?” Felizes os que assim
fazem sua memória ser abençoada! Ela era boa, doce e indulgente com todo
mundo, sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em vez de agravá-lo.
Jamais a maledicência manchou seus lábios. Sem arrogância nem austeridade,
ela tratava seus inferiores com uma gentileza que nada tinha de familiaridade
vil, e sem se dirigir a eles com ar de superioridade ou de uma proteção
humilhante. Compreendendo que as pessoas que vivem do próprio trabalho
não são rendeiros e que eles precisam do dinheiro que lhes é devido, seja pela
sua condição, seja para viverem, jamais ela atrasou um salário; a ideia de que
alguém pudesse sofrer com a falta de um pagamento, por sua causa, seria uma
pontada na sua consciência. Ela não era dessas pessoas que sempre
encontram dinheiro para satisfazer suas fantasias e nunca têm com o que
pagar aquilo que devem; também não compreendia que pudesse ser de bom
gosto para um rico ter dívidas, e se sentiria humilhada se alguém pudesse
dizer que seus fornecedores eram obrigados a lhe fazer adiantamentos. Então,
quando ela morreu, não houve senão pêsames e nenhuma reclamação.
216 – Allan Kardec
Sua beneficência era inesgotável, mas não era dessa beneficência
convencional que se exibe em plena luz do dia; nela havia a caridade do
coração, e não aquela que busca a ostentação. Só Deus sabe as lágrimas que
ela enxugou e os desesperos que acalmou, pois essas boas ações só tinham
por testemunhas o próprio Deus e os infelizes que ela auxiliou. Ela sabia
sobretudo descobrir esses infortúnios ocultos, que são os mais pungentes, e
que ela socorria com a delicadeza que eleva o moral em vez de abaixá-lo.
Sua classe e as altas funções do seu marido a obrigavam a uma gestão
doméstica da qual não podia se eximir; mas, satisfazendo plenamente às
exigências de sua posição sem mesquinharia, ela organizou tudo isso de modo
que, evitando desperdícios ruinosos e despesas supérfluas, permitiu que lhe
bastasse a metade do que teria custado aos outros, sem que fizessem melhor.
Com isso, ela pôde doar uma parte maior da sua fortuna para os
necessitados. Ela tinha reservado um grande capital de seus recursos e o
revertido exclusivamente para aquela destinação sagrada para ela,
considerando isso como tendo menos para gastar com sua casa. Ela encontrou
assim a maneira de conciliar os seus deveres para com a sociedade e para com
os infelizes.84
Evocada doze anos após sua morte, por um dos seus parentes, que era
iniciado no Espiritismo, ela deu a seguinte comunicação em resposta a
diversas perguntas que lhe foram endereçadas:85
“Você tem razão, meu amigo, em pensar que sou feliz. Eu realmente sou
feliz, muito acima de tudo o que alguém pode expressar, e não obstante eu
ainda esteja longe da classe mais alta. Estive entre os felizes na Terra, pois não
me lembro de ter experimentado uma desgraça real. Juventude, saúde,
fortuna, consideração, eu tive tudo o que constitui a felicidade para vocês;
mas o que significa essa felicidade, comparada àquela que aqui é desfrutada?
O que são as suas festas mais esplêndidas, em que se exibem os mais caros
adornos, perto dessas assembleias de Espíritos resplendentes de um brilho
84 Pode-se dizer que essa dama era o retrato vivo da mulher benevolente mencionada em O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 4: ‘Infortúnios ocultos’.
85 Extraímos do pensamento do médium essa comunicação, cujo original está na língua alemã, as partes
instrutivas para o assunto que aqui tratamos, suprimindo o que é apenas do interesse da sua família.
217 – O Céu e o Inferno
que as vistas de vocês não poderiam suportar, e que é o apanágio da sua
pureza? Quanto valem seus palácios e salões dourados em comparação com
as moradas aéreas, os vastos campos do espaço, salpicados de cores que
tornariam pálido até o arco-íris? De que valem suas caminhadas de passos
contados nos seus parques, diante dos percursos através da imensidade, mais
rápidos do que o relâmpago? O que significam os horizontes limitados e
nebulosos de vocês, ante o espetáculo grandioso desses mundos que se
movem no universo sem fim sob a poderosa mão do Altíssimo? Quão tristes e
estridentes são os concertos mais melodiosos deste mundo em relação à
suave harmonia que faz vibrar os fluidos do éter e todas as fibras da alma!
Como são tristes e insípidas as alegrias de vocês perto da inefável sensação de
felicidade que penetra incessantemente todo o nosso ser, como um eflúvio
benfazejo, sem qualquer sinal de inquietação, de apreensão, de sofrimento!
Aqui tudo irradia amor, confiança e sinceridade; corações amáveis por toda
parte, amigos por toda parte; em parte alguma invejosos e ciumentos! Tal é o
mundo onde me encontro, meu amigo, e ao qual você chegará infalivelmente,
seguindo caminho certo.
“Todavia, nós logo nos entediaríamos com uma felicidade monótona; não
creiam que a nossa seja isenta de peripécias, pois ela não é nem um concerto
perpétuo, nem uma festa interminável, nem uma beata contemplação pela
eternidade: ela é movimento, vida e atividade. As ocupações — ainda que
isentos de fadiga — trazem consigo uma incessante variedade de aspectos e
de emoções pelos mil incidentes de que estão repletos. Cada qual tem sua
missão a cumprir, tem seus protegidos a ajudar, seus amigos da Terra a
visitar, as engrenagens da natureza a dirigir, almas sofredoras a consolar; um
vai e outro vem, não de uma rua a outra, mas de um mundo a outro; nós nos
juntamos e nos espalhamos, para depois nos reagruparmos; reunimo-nos
num ponto e nos comunicamos sobre o que fizemos, felicitamo-nos pelos
êxitos obtidos; nós nos consultamos e nos auxiliamos reciprocamente nos
casos difíceis; enfim, asseguro a vocês que ninguém tem tempo para ficar
entediado um só segundo.
“Neste momento, a Terra é a nossa grande preocupação. Quanto
movimento entre os Espíritos! Quantas numerosas tropas aí se concentram
218 – Allan Kardec
para colaborar com a sua transformação! Parece um enxame de trabalhadores
ocupados em desbravar uma floresta, sob a condução de chefes experientes;
uns abatem os velhos troncos com o machado, arrancando-lhes as raízes
profundas; outros desobstruem o terreno, aqui arando e semeando, acolá
edificando a nova cidade sobre as ruínas carcomidas do velho mundo.
Durante esse tempo, os chefes se reúnem, recebem conselhos e mandam os
mensageiros distribuírem as ordens em todas as direções. A Terra deve ser
regenerada em um determinado tempo; então é preciso que os desígnios da
Providência se cumpram, e é por isso que cada um está em serviço. Não
pensem que eu seja uma mera expectadora desse grande trabalho; eu teria
vergonha de ficar inativa quando todo mundo está empenhado: uma
importante missão me foi confiada e estou me esforçando para cumpri-la com
o melhor que eu posso fazer.
“Não foi sem luta que cheguei à posição que estou ocupando na vida
espiritual; fiquem bem certos de que minha última existência, por mais
meritória que pareça para vocês, não era suficiente para isso. Durante várias
existências eu passei por provações de trabalho e de miséria que escolhi
voluntariamente para fortalecer e depurar minha alma; tive a felicidade de
sair vitoriosa dessas provas, mas restava uma delas, a mais perigosa de todas:
a prova da fortuna e do bem-estar material, de um bem-estar sem nenhum
sinal de amargura. E lá estava o perigo. Antes de experimentá-la, eu quis me
sentir forte o bastante para não sucumbir. Deus levou em conta as minhas
boas intenções e me concedeu a graça de me sustentar. Muitos outros
Espíritos — seduzidos pelas aparências — se apressam a escolher essa prova,
e, infelizmente, como são fracos demais para encarar o perigo, as seduções
triunfam sobre a inexperiência deles.
“Trabalhadores, eu estive nessas suas fileiras; eu, a nobre dama, assim
como vocês, ganhei meu pão com o suor do meu rosto; enfrentei privações,
sofri intempéries, e foi isso que desenvolveu as forças viris de minha alma,
sem o que eu provavelmente teria sido reprovada na minha experiência mais
recente — o que me teria jogado bem longe para trás. Como eu, vocês também
terão a sua vez na prova da fortuna; mas não se apressem em pedi-la cedo
demais. E vocês que são ricos, tenham sempre presente no pensamento que a
219 – O Céu e o Inferno
verdadeira fortuna — a fortuna imperecível — não existe na Terra, e
compreendam a que preço vocês podem merecer os benefícios do Todo-
Poderoso.”
PAULA, na Terra, Condessa de…
JEAN REYNAUD
(Sociedade Espírita de Paris – Comunicação espontânea)
“Meus amigos, como esta nova vida é magnífica! Semelhante a uma
torrente luminosa, ela carrega no seu curso imenso as almas inebriadas pelo
infinito! Após a ruptura dos laços carnais, meus olhos abraçaram os novos
horizontes que me cercam e eu desfrutei das esplêndidas maravilhas do
infinito! Passei das sombras da matéria à alvorada deslumbrante que anuncia
o Onipotente. Fui salvo, não pelo mérito das minhas obras, mas pelo
conhecimento do princípio eterno que me fez evitar as manchas impressas
pela ignorância na própria humanidade. Minha morte foi abençoada; meus
biógrafos — aqueles cegos! — a julgaram prematura; eles lamentarão alguns
escritos nascidos da poeira e não compreenderão o quanto o pouco ruído
feito em torno do meu túmulo recém-fechado é útil para a santa causa do
Espiritismo. Minha obra estava concluída; meus antecessores abriram o
caminho; eu havia alcançado aquele ponto culminante em que o homem deu o
que tinha de melhor e que não faz mais que recomeçar. Minha morte reaviva a
atração dos letrados e a recoloca sobre a minha obra principal, que toca na
grande questão espírita que eles fingem ignorar, mas que em breve os
envolverá. Glória a Deus! Ajudado pelos Espíritos superiores que protegem a
nova doutrina, serei um dos balizadores que marcarão a sua rota.”
JEAN REYNAUD
(Paris; reunião familiar. Outra comunicação espontânea)
O Espírito responde a uma reflexão feita sobre sua morte inesperada,
numa idade pouco avançada e que surpreendeu muita gente:
“Quem diz que a minha morte não foi um benefício para o Espiritismo,
220 – Allan Kardec
para o seu futuro, para as suas consequências? Você percebeu, meu amigo, a
marcha que segue o progresso, o rumo que toma a fé espírita? Deus
primeiramente deu provas materiais: dança das mesas, batidas e todos os
tipos de fenômenos; era para chamar a atenção; era um prefácio divertido.
Faltava aos homens as provas palpáveis para que eles acreditassem. Agora a
coisa é bem diferente! Após os fatos físicos, Deus fala à inteligência, ao bom
senso, à razão fria; já não se trata mais de atos de força, mas sim de coisas
racionais, que devem convencer e atrair até os incrédulos mais teimosos. E
isso ainda é só o começo. Note bem o que eu te digo: toda uma série de fatos
inteligentes e irrefutáveis vão acontecer, e o número dos adeptos da fé
espírita, já tão grande, vai aumentar ainda mais. Deus vai se impor sobre as
inteligências da elite, as sumidades do conhecimento, do talento e do saber.
Será um raio luminoso que se espalhará por toda a Terra, como um fluido
magnético irresistível, e arrastará os mais recalcitrantes à busca pelo infinito,
ao estudo dessa admirável ciência que nos ensina máximas tão sublimes.
Todos vão se agrupar em torno de vocês, e, abstração feita do diploma de
gênio que lhes havia sido dado, eles vão se fazer humildes e pequenos para
aprenderem e se convencerem. Depois, mais tarde, quando estiverem bem
instruídos e bem convencidos, eles usarão da autoridade e da notoriedade do
nome deles para levar ainda mais longe e atingir os últimos limites da meta
que vocês todos se propuseram: a regeneração da espécie humana através do
conhecimento raciocinado e aprofundado das existências passadas e futuras.
Eis a minha sincera opinião sobre a situação atual do Espiritismo.”
(Bordeaux)
Evocação — Atendo com prazer ao teu apelo, madame. Sim, você tem
razão: a perturbação espiritual, por assim dizer, não existiu para mim (isso
correspondia ao pensamento da médium). Exilado voluntariamente em sua
terra, onde deveria lançar a primeira semente séria das grandes verdades que
envolvem o mundo neste momento, eu sempre tive consciência da pátria e
logo me reconheci no meio dos meus irmãos.
P. Eu te agradeço por ter aceitado vir, mas não acreditava que meu
221 – O Céu e o Inferno
desejo de conversar contigo tivesse alguma influência sobre você. Deve haver
necessariamente uma diferença tão grande entre nós que só penso nisso com
respeito.
R. Obrigado por esse bom pensamento, minha filha; porém, você deve
saber também que, seja qual for a distância estabelecida entre nós pelas
provas acabadas, mais ou menos prontamente, mais ou menos felizes, sempre
há um laço poderoso que nos une: a simpatia; e esse laço você o apertou pelo
teu pensamento constante.
P. Se bem que muitos Espíritos tenham explicado suas primeiras
sensações ao despertar, você poderia fazer a gentileza de me contar o que
experimentou ao se reconhecer aí, e como se operou a separação entre o teu
Espírito e o teu corpo?
R. Foi como acontece com todos. Senti o momento da libertação se
aproximar; entretanto, mais feliz que muitos, a separação não me causou
angústia porque eu conhecia seus resultados, embora fossem ainda maiores
do que eu pensava. O corpo é um entrave às faculdades espirituais e, sejam
quais forem as luzes que se tenha conservado, elas sempre ficam mais ou
menos abafadas pelo contato da matéria. Adormeci esperando um despertar
feliz; o sono foi curto e a admiração imensa! Os esplendores celestes se
desdobraram diante das minhas vistas, brilhavam com toda a sua claridade.
Meu olhar maravilhado mergulhava nas imensidades desses mundos dos
quais eu tinha afirmado a existência e habitabilidade. Era uma miragem que
me revelava a verdade dos meus sentimentos. Mesmo que o homem se sinta
seguro, quando ele fala, frequentemente no fundo do seu coração há aqueles
momentos de dúvida, de incerteza; ele fica desconfiado, se não da verdade
que proclama, pelo menos às vezes dos meios imperfeitos que ele emprega
para demonstrá-la. Convencido da verdade que eu queria que fosse admitida,
com frequência tive que combater contra mim mesmo, contra o desânimo de
ver e, por assim dizer, de tocar a verdade, e de não poder torná-la palpável
àqueles que teriam tanta necessidade de nela crer para marchar com
segurança no caminho que eles devem seguir.
P. Enquanto vivo, você professava o Espiritismo?
222 – Allan Kardec
R. Entre professar e praticar há uma grande diferença. Muita gente
professa uma doutrina que não pratica; eu praticava e não professava. Da
mesma forma que todo homem que segue as leis do Cristo é cristão, ainda que
o faça sem conhecer essas leis, também todo homem pode ser espírita, desde
que creia em sua alma imortal, em suas reexistências, em sua marcha
progressiva incessante, em suas provas terrestres e nas abluções necessárias
para se purificar. Eu acreditava nisto; então, eu era espírita. Compreendi a
erraticidade, esse laço intermediário entre as encarnações, esse purgatório
onde o Espírito culpado se despoja de suas vestes manchadas para revestir
uma nova roupa, em que o Espírito em progresso tece com cuidado o traje
que ele vai usar novamente e que ele deseja conservar pura. Eu entendi, como
já te disse, e sem professar continuei a praticar.
Observação – Essas três comunicações foram obtidas por três médiuns
diferentes, completamente desconhecidos uns dos outros. Pela analogia dos
pensamentos e pela forma da linguagem, podemos admitir pelo menos a
presunção da identidade. A expressão tece com cuidado o traje que ele vai
usar de novo é uma charmosa figura que pinta a solicitude com a qual o
Espírito em progresso prepara a nova existência que ainda deve fazê-lo
progredir. Os Espíritos atrasados tomam menos precauções e algumas vezes
fazem escolhas infelizes que os forçam a recomeçar.
ANTOINE COSTEAU
Membro da Sociedade Espírita de Paris, sepultado em 12 de setembro de
1863 no cemitério de Montmartre, na vala comum. Era um homem de coração
que o Espiritismo reconduziu a Deus; sua fé no futuro era completa, sincera e
profunda. Simples operário de pavimentação, ele praticava a caridade por
pensamentos, palavras e ações, conforme seus poucos recursos, pois sempre
achava um meio de ajudar os que tinham menos do que ele. Se a sociedade
não arcou com os custos de uma sepultura para ele, foi porque tinha uma
destinação mais útil a fazer dos fundos que teriam sido empregados sem
proveito para os vivos, em vez de uma vã satisfação da vaidade, além de que
223 – O Céu e o Inferno
os espíritas, principalmente, sabem que a cova comum é uma porta que
conduz ao céu tanto quanto o mais suntuoso mausoléu.
O Sr. Canu, secretário da Sociedade e outrora profundo materialista,
pronunciou sobre o túmulo a seguinte alocução:
“Caro irmão Costeau, há apenas alguns anos, muitos de nós — e confesso
que eu era o primeiro — não teríamos visto diante desta cova aberta senão o
fim das misérias humanas e, depois, o nada, o apavorante nada, quer dizer,
nada de alma para merecer ou expiar e, consequentemente, nada de Deus
para recompensar, castigar ou perdoar. Hoje, graças à nossa divina doutrina,
nós aqui vemos o fim das provações, e para você, caro irmão, cujos despojos
mortais restituímos à Terra, o triunfo dos teus labores e o começo das
recompensas merecidas por tua coragem, tua resignação, tua caridade e,
numa palavra, pelas tuas virtudes; e acima de tudo, vemos toda a glorificação
de um Deus sábio, todo-poderoso, justo e bom. Portanto, caro irmão, leve
nossos agradecimentos aos pés do Eterno, que quis dissipar em torno de nós
as trevas do erro e da incredulidade, porque, ainda pouco tempo atrás, nós te
teríamos dito nesta circunstância, com a fronte abatida e o desânimo no
coração: ‘Adeus, amigo, para sempre.’ Hoje nós te dizemos, com a cabeça
erguida e radiante de esperança, com o coração cheio de coragem e de amor:
‘Caro irmão, até logo, e ore por nós’.” 86
Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo sobre a cova, ainda não
fechada, a comunicação seguinte, da qual todos os presentes — inclusive os
coveiros — escutaram a leitura de cabeça descoberta e com profunda
emoção. Era, de fato, um espetáculo novo e impressionante ouvir palavras de
um morto, recebidas do seio do próprio túmulo:
“Obrigado, meus amigos, obrigado! Minha cova ainda não está fechada e,
no entanto, um segundo a mais e a terra vai cobrir meus despojos. Porém,
vocês sabem disso, sob essa poeira minha alma não será enterrada, pois ela
vai planar no espaço para subir até Deus!
“E como é consolador poder dizer a si mesmo novamente, apesar do
86 Para mais detalhes, além de outros discursos, ver a Revista Espírita de outubro de 1863: ‘Enterro de
um Espírita na vala comum’ — N. T.
224 – Allan Kardec
invólucro falecido: Oh, não! Não estou morto! Estou vivendo a verdadeira
vida, a vida eterna!
“O enterro do pobre não é seguido por uma multidão, nem pomposas
manifestações ocorrem sobre sua tumba; contudo, amigos, creiam em mim,
imensa multidão aqui não falta, e os bons Espíritos seguiram com vocês e
com essas mulheres piedosas o corpo que aí jaz estendido! Pelo menos todos
vocês acreditam e amam o bom Deus!
“Oh, é certo que não! Não morremos só porque o nosso corpo falece,
esposa bem-amada! E de agora em diante eu estarei sempre perto de ti, para
te consolar e te ajudar a suportar a prova. Ela, a vida, será rude para ti; mas
com a ideia da eternidade e do amor de Deus enchendo teu coração, como
teus sofrimentos serão leves para ti!
“Parentes que cercam minha bem-amada companheira: amem-na,
respeitem-na; sejam para ela irmãos e irmãs. Não se esqueçam de que todos
vocês se devem assistência na Terra, se quiserem entrar na morada do
Senhor.
“E vocês, espíritas, irmãos, amigos, obrigado por terem vindo me dizer
adeus até essa morada de pó e barro; mas vocês, vocês sabem e sabem bem
que a minha alma vive imortal e que ela irá algumas vezes lhes pedir preces,
que não me serão recusadas de modo algum, para me ajudar a trilhar esta via
magnífica que vocês me abriram durante a vida.
“Adeus a todos que aqui estão. Poderemos nos rever noutro lugar
qualquer além deste túmulo. As almas me chamam para o encontro delas. Até
mais, e orem por aqueles que sofrem. Até mais ver.”
COSTEAU
Passados três dias, evocado num grupo particular, o Espírito do Sr.
Costeau ditou o que segue, através de outro médium:
“A morte é a vida; não faço mais do que repetir o que já foi dito, mas para
vocês não há outra expressão senão esta, malgrado o que dizem os
materialistas, aqueles que querem permanecer cegos. Oh, meus amigos, que
bela aparição sobre a Terra é ver tremular as bandeiras do Espiritismo!
Ciência imensa, da qual vocês mal conhecem as primeiras palavras! Quantas
225 – O Céu e o Inferno
claridades ela traz aos homens de boa vontade, aos que quebraram as
terríveis amarras do orgulho, para proclamar bem alto a sua crença em Deus!
Orem, homens, agradeçam a ele por todos esses benefícios. Pobre
humanidade! Ah, se te fosse permitido compreender!… Mas não, ainda não
chegou o tempo em que a misericórdia do Senhor deve se estender sobre
todos os homens, a fim de que eles reconheçam as vontades dele e a elas se
submetam.
“É por teus raios luminosos, ciência bendita, que eles lá chegarão e que
eles compreenderão. É ao teu calor benfazejo que eles virão reaquecer os
corações, no fogo divino que traz a fé e as consolações. É sob os teus raios
vivificantes que o patrão e o operário virão se fundir e se tornarão um só,
porque compreenderão essa caridade fraterna pregada pelo divino Messias.
“Oh, meus irmãos! Pensem na felicidade imensa que vocês possuem por
terem sido os primeiros iniciados na obra regeneradora. Honra a vocês,
amigos! Continuem, e como eu, um dia, chegando na pátria dos Espíritos,
vocês dirão: A morte é a vida, ou melhor, é um sonho, uma espécie de
pesadelo que dura um minuto e do qual você emerge para se vê cercado de
amigos que te parabenizam e ficam felizes por te estenderem os braços.
Minha felicidade foi tão grande que eu não podia compreender que Deus me
concedesse tantas graças por eu ter feito tão pouco. Parecia que eu estava
sonhando, e como algumas vezes acontecia de eu sonhar estar morto, eu
temia por um instante ser obrigado a voltar àquele corpo infeliz; todavia, não
tardou que me desse conta da realidade e rendesse graças a Deus. Eu bendizia
o mestre que tão bem soube despertar em mim os deveres de homem que
pensa na vida futura. Sim, eu o bendizia e lhe agradecia, pois O Livro dos
Espíritos tinha despertado na minha alma os impulsos de amor pelo meu
Criador.
“Obrigado, meus bons amigos, por terem me atraído para perto de vocês.
Digam aos nossos irmãos que eu muitas vezes fico na companhia do nosso
amigo Sanson. Até mais! Tenham coragem! A vitória espera por vocês. Felizes
os que tiverem tomado parte no combate!”
Desde então, o Sr. Costeau se manifestou frequentemente — seja na
226 – Allan Kardec
sociedade, seja noutras reuniões, em que ele sempre deu provas dessa
elevação de pensamentos que caracteriza os Espíritos avançados.
EMMA LIVRY
87
Jovem senhorita morta por consequência de um acidente causado por
fogo, e após cruéis sofrimentos. Alguém se propôs pedir a sua evocação na
Sociedade Espírita de Paris, quando ela se apresentou espontaneamente, no
dia 31 de julho de 1863, pouco tempo após seu falecimento.
“Então aqui estou eu novamente no palco do mundo; eu que me julgava
enterrada para sempre no meu véu da inocência e da juventude. O fogo da
Terra me salvou do fogo do inferno — assim eu pensava, na minha fé católica.
E, se eu não ousava entrever os esplendores do paraíso, minha alma trêmula
se refugiava na expiação do purgatório, enquanto eu orava, sofria e chorava.
Mas quem dava à minha fraqueza aquela força de suportar minhas angústias?
Quem, nas longas noites de insônia e de febre dolorosa, se debruçava sobre o
meu leito de martírio? Quem refrescava meus lábios sedentos? Era você, meu
anjo guardião, cuja auréola branca me cobria; e vocês também, queridos
Espíritos amigos, que vinham sussurrar no meu ouvido palavras de esperança
e de amor.
“As chamas que consumiam meu pobre corpo também me despojaram
da ligação com aquilo que é passageiro; assim, eu morri já vivendo a
verdadeira vida. Não passei pela perturbação, e entrei serena e recolhida no
dia radioso que envolve os que, após terem sofrido bastante, souberam
esperar um pouco. Minha mãe, minha querida mãe, foi a última vibração
terrestre que ressoou na minha alma. Como eu gostaria que ela se tornasse
espírita!
“Desprendi-me da árvore terrestre como um fruto amadurecido antes do
tempo. Eu tinha sido apenas arranhada pelo demônio do orgulho que
contamina as almas infelizes arrastadas pelo sucesso chamativo e
87 No original, este tópico foi intitulado ‘Senhorita Emma’, acrescido de uma nota de rodapé com o nome
e sobrenome, que aqui, para efeito prático de designação, já aparecem no tópico, dispensando assim a
nota do autor para tal finalidade. — N. T.
227 – O Céu e o Inferno
embriagador da juventude. Bendigo o fogo, bendigo os sofrimentos, bendigo a
provação que representava uma expiação. Iguais a esses fios brancos e leves
do outono, eu flutuo, levado na corrente luminosa; já não são mais as estrelas
de diamante que brilham na minha fronte, mas as estrelas douradas do bom
Deus.”
EMMA
Em outro centro, no Havre, o mesmo Espírito deu a comunicação
seguinte, também espontaneamente, no dia 30 de julho de 1863.
“Aqueles que sofrem na Terra são recompensados na outra vida. Deus é
pleno de justiça e de misericórdia para com os que sofrem nesse mundo; ele
concede uma felicidade tão pura, uma felicidade tão perfeita, que ninguém
deveria temer nem os sofrimentos nem a morte, se fosse possível às pobres
criaturas humanas sondar os misteriosos desígnios do nosso Criador. Mas a
Terra é um lugar de provas muitas vezes imensas, muitas vezes semeadas de
dores bem pungentes. Sejam todos resignados, se forem feridos por essas
provas; curvem-se, todos vocês, diante da bondade suprema de Deus, que é
todo-poderoso, se ele lhes der um fardo pesado para carregar. Quando Deus
lhes chamar de volta para ele, depois de grandes sofrimentos, vocês verão na
outra vida — a vida feliz —, o quanto eram insignificantes essas dores e essas
penas da Terra, quando considerarem a recompensa que Deus lhes reserva —
desde que nenhuma queixa e nenhum murmúrio tiverem penetrado nos
corações de vocês. Bem jovem ainda eu deixei a Terra; Deus teve a bondade
de me perdoar e de me dar a vida dos que respeitaram as vontades dele.
Adorem sempre a Deus; amem-no de todo o coração; roguem sobretudo a ele,
roguem-no firmemente; nisso consiste a vossa sustentação neste mundo, a
vossa esperança e a vossa salvação.”
EMMA
DR. VIGNAL
Antigo membro da Sociedade de Paris, falecido em 27 de março de 1865.
Na véspera do enterro, um sonâmbulo muito lúcido, e que enxergava muito
228 – Allan Kardec
bem os Espíritos, tendo sido requisitado para se transportar para junto do Dr.
Vignal e dizer se conseguia vê-lo, então respondeu:
“Vejo um cadáver no qual se opera um trabalho extraordinário: parece
uma massa se agitando, como alguma coisa que faz esforços para se
desprender dessa massa, mas que tem dificuldade para vencer a resistência.
Não consigo distinguir a forma bem determinada do Espírito.”
Então ele foi evocado na Sociedade de Paris, a 31 de março.
P. Caro Sr. Vignal, todos os teus antigos colegas da Sociedade de Paris
conservaram de ti as melhores lembranças, e eu, em particular, conservei a
das excelentes relações que nunca foram interrompidas entre nós. Ao te
chamarmos entre nós, tivemos por objetivo primeiro te dar um testemunho
de simpatia, e ficaremos muito contentes se você quiser, ou se puder, vir
conversar conosco. – R. Caro amigo e digno mestre, tua boa lembrança e teus
testemunhos de simpatia me sensibilizam bastante. Se hoje eu posso vir até
vocês e assistir, livre e desprendido, a esta reunião de todos os nossos bons
amigos e irmãos espíritas, é graças ao teu bom pensamento e à assistência
que tuas preces me trouxeram. Como dizia, com justeza, o meu jovem
secretário, eu estava impaciente para me comunicar; desde o começo desta
noite, eu empreguei todas as minhas forças espirituais para dominar esse
desejo. As conversas e as graves questões que vocês estavam discutindo me
interessaram vivamente e tornaram minha espera menos penosa. Perdoe,
caro amigo, mas o meu reconhecimento pedia para se manifestar.
P. Queira nos dizer, inicialmente, como você se encontra no mundo dos
Espíritos. Ao mesmo tempo, descreva-nos por favor o trabalho da separação,
tuas sensações naquele momento, e diga-nos quanto tempo levou para se
reconhecer. – R. Estou tão feliz o quanto é possível, quando vemos se
confirmarem plenamente todos os pensamentos secretos que se pode ter
emitido sobre uma doutrina consoladora e reparadora. Sou feliz! Sim, sou feliz
porque agora vejo sem nenhum obstáculo se desenrolar diante de mim o
futuro da ciência e da filosofia espíritas.
Porém, descartemos por hoje essas digressões inoportunas; eu virei de
229 – O Céu e o Inferno
novo lhes informar a respeito, sabendo que minha presença lhes dará tanto
prazer quanto eu mesmo experimento em visitá-los. O desligamento foi bem
rápido; mais rápido do que eu esperava, pelo meu pouco mérito. Fui ajudado
valiosamente pela cooperação de vocês, e o sonâmbulo de vocês deu uma
descrição do fenômeno da separação nítida o bastante para que eu não
precise insistir nessa questão. Era um tipo de oscilação descontínua, uma
espécie de envolvimento em dois sentidos opostos; o Espírito triunfou, já que
estou aqui. Só deixei o corpo completamente no momento em que ele foi
depositado na Terra; então eu segui com vocês.
P. O que acha do serviço prestado nos teus funerais? Fiz questão de estar
presente. Naquele momento, o amigo estava desprendido o bastante para ver
tudo aquilo? As preces que fiz em tua intenção (não ostensivamente, claro)
chegaram até você? – R. Sim, como eu te disse, tua assistência teve influência
em tudo; então voltei com vocês, abandonando completamente minha velha
crisálida. As coisas materiais pouco me tocam — vocês sabem disso, aliás. Eu
só pensava na alma e em Deus.
P. Você deve estar lembrado que, a teu pedido, há cinco anos, no mês de
fevereiro de 1860, nós fizemos um estudo a teu respeito, quando ainda estava
vivo.88 Naquele momento, teu Espírito desprendeu-se para vir conversar
conosco. Poderia descrever para nós, tanto quanto possível, a diferença que
existe entre o teu desprendimento atual e aquele outro? – R. Sim, com certeza
eu me lembro; mas quanta diferença entre o meu estado daquela ocasião e o
de hoje! Naquela ocasião, a matéria ainda me reprimia com a sua malha
inflexível; eu queria me desprender de uma maneira mais absoluta, mas não
podia. Hoje eu estou livre; um vasto campo — o do desconhecido — abre-se
para mim e, com a ajuda de vocês e a dos bons Espíritos, aos quais me
entrego, espero avançar e me compenetrar o mais rapidamente possível dos
sentimentos que é preciso experimentar, além das ações que devem ser
realizadas para escalar a senda de provações e então merecer o mundo das
recompensas. Quanta majestade! Quanta grandeza! É quase um sentimento de
temor que predomina até que, fracos como somos, queremos fixar as
88 Veja na Revista Espírita do mês de março de 1860: ‘Estudo sobre o Espírito de pessoas encarnadas’.
230 – Allan Kardec
sublimes claridades.
P. Enfatizamos que ficaremos felizes em continuar esta conversa,
quando o amigo bem quiser vir até nós. – R. Eu respondi sucintamente e sem
sequência às suas perguntas diversas. Não esperem muito, por enquanto, do
seu fiel discípulo, pois ainda não estou inteiramente livre. Conversar e
continuar conversando seria a minha felicidade, mas meu guia modera meu
entusiasmo e eu já pude apreciar a sua bondade e a sua justiça o suficiente
para me submeter inteiramente à decisão dele, por mais que eu lamente ser
interrompido. Eu me consolo pensando que poderei vir frequentemente
assistir incógnito às reuniões de vocês. Falarei convosco algumas vezes, pois
amo todos vocês e quero lhes provar isso; porém, outros Espíritos mais
avançados do que eu estão pedindo prioridade, e eu devo me curvar diante
daqueles que gentilmente permitiram ao meu Espírito dar livre curso à
torrente de pensamentos que já estavam acumulados.
Vou deixá-los, amigos, e devo agradecer duplamente, não somente a
vocês espíritas, que me chamaram, como também ao Espírito que permitiu
que eu tomasse o seu lugar e que, quando estava vivo, portava o nome ilustre
de Pascal.
Aquele que foi e será sempre o mais devotado dos seus adeptos.
DR. VIGNAL
VICTOR LEBUFLE
Jovem portuário, empregado no porto do Havre, falecido na idade dos
vinte anos. Vivia com sua mãe, uma pobre pequena comerciante, a quem ele
dedicava os mais ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o fruto do
seu rude trabalho. Jamais o viram frequentar os cabarés, nem se entregar aos
excessos tão comuns na sua profissão, pois ele não queria desviar a menor
parte do seu salário daquele piedoso objetivo ao qual estava destinado. Todo
o tempo que não era gasto no seu serviço, ele consagrava à sua mãe, para
poupá-la do cansaço. Sofrendo há muito tempo da doença da qual sentia que
iria morrer, ele ocultava seus sofrimentos com medo de causar inquietação na
231 – O Céu e o Inferno
sua mãe, para que ela mesma não quisesse se encarregar da tarefa dele. Era
preciso a esse moço um grande conjunto de qualidades naturais e uma
grandiosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações do meio em
que vivia, bem na idade das paixões. Ele era de uma sincera piedade, e a sua
morte foi edificante.
Na véspera do seu falecimento, ele tinha exigido de sua mãe que ela fosse
repousar um pouco, alegando que ele também precisava dormir. Então ali ela
teve uma visão: ela disse que se achava numa grande escuridão, quando viu
um ponto luminoso que aumentava pouco a pouco, e o quarto ficou iluminado
por uma forte claridade, da qual se destacava a figura do seu filho, radiante,
elevando-se no espaço infinito. Ela compreendeu que seu fim estava próximo;
de fato, no dia seguinte, aquela bela alma deixaria a Terra, enquanto seus
lábios murmuravam uma prece.
Uma família espírita, que conhecia sua bela conduta e se preocupava
com a sua mãe, que ficara sozinha, teve a intenção de evocá-lo pouco tempo
depois da sua morte, sendo que ele se manifestou espontaneamente, com a
seguinte comunicação:
“Vocês desejam saber como estou agora: estou muito feliz! Ah, muito
feliz mesmo! Não levem em conta as aflições e angústias, pois elas são a fonte
das bênçãos e da felicidade no além-túmulo. Felicidade! Vocês não entendem
o que essa palavra significa. Os prazeres da Terra estão longe daquilo que nós
experimentamos quando retornamos para o Mestre com a consciência pura,
com a confiança do servo que bem cumpriu o seu dever e que espera repleto
de alegria a aprovação daquele que é tudo!
“Oh, meus amigos, a vida é penosa e difícil se vocês não olham para a
finalidade; mas eu lhes digo, em verdade, que quando vierem para junto de
nós, se sua vida foi conforme a lei de Deus, vocês serão recompensados além,
mas muito além dos sofrimentos e dos méritos que vocês acham ter
conquistado para o céu. Então, sejam bons, sejam caridosos, dessa caridade
desconhecida por muito dentre os homens; dessa que se chama benevolência.
Sejam úteis aos seus semelhantes; façam por eles mais do que vocês
gostariam que fizessem por vocês, pois vocês ignoram a miséria íntima deles e
conhecem a sua própria. Socorram minha mãe, minha pobre mãe, meu único
232 – Allan Kardec
pesar da Terra. Ela deve passar por outras provas, e é preciso que ela chegue
ao céu. Adeus, eu estou indo até ela.”
VICTOR
O guia do médium – Os sofrimentos experimentados durante uma
encarnação terrestre nem sempre constituem uma punição. Os Espíritos que,
pela vontade de Deus, vem cumprir uma missão na Terra — tal como este que
veio se comunicar com vocês —, ficam felizes por passarem pelos males que
para outros são uma expiação. O sono os revigora perante o Altíssimo e lhes
dá a força para suportarem tudo, em favor de sua maior glória. A missão deste
Espírito, na sua última existência, não era uma missão de destaque; porém,
por mais que ela fosse obscura, nem por isso ele teve menos mérito, porque
ele não permitiu ser estimulado pelo orgulho. Ele tinha o dever, antes de tudo,
de gratidão a cumprir para com aquela que foi sua mãe; depois, ele devia
mostrar que, nos piores ambientes, é possível encontrarmos almas puras, de
sentimentos nobres e elevados, e que através da vontade nós podemos
resistir a todas as tentações. Isso é uma prova de que as qualidades têm uma
causa anterior, e de que o exemplo dele não foi inútil.
ANAÏS GOURDON
Muito jovem e notável pela doçura do seu caráter, além das mais
eminentes qualidades morais, ela morreu em novembro de 1860. Pertencia a
uma família de trabalhadores das minas de carvão nos arredores de Saint-
Étienne, circunstância importante para valorizar sua posição espiritual.
Evocação – R. Estou aqui.
P. Teu marido e teu pai me pediram para que eu te chamasse, e eles
ficarão muito felizes em obter uma comunicação tua. – R. Eu também estou
muito feliz por respondê-los.
P. Por que você foi tirada tão cedo do afeto da tua família? – R. Por eu ter
terminado minhas provações terrenas.
233 – O Céu e o Inferno
P. Você costuma ir vê-los? – R. Sim, estou frequentemente perto deles.
P. Está feliz como Espírito? – R. Estou feliz; eu aguardo, tenho esperança,
amo; os céus não significam terror para mim, e espero com confiança e amor
que as asas brancas me elevem.
P. O que você entende por essas asas? – R. Pretendo me tornar um
Espírito puro e resplandecer como os mensageiros celestes que me
deslumbram.
As asas dos anjos, arcanjos e serafins, que são Espíritos puros, evidentemente
não passam de um atributo imaginado pelos homens para descrever a rapidez com
que eles se transportam, já que a sua natureza etérea os dispensa de qualquer apoio
para percorrer os espaços. Entretanto, um anjo pode aparecer aos homens com esse
acessório, para corresponder ao pensamento deles, assim como outros Espíritos
tomam a aparência que tinham na Terra, para serem reconhecidos.
P. Teus parentes podem fazer algo que seja agradável para ti? – R. Eles
podem, esses seres queridos, não mais me entristecer com a visão de seus
pesares, pois já sabem que não estou perdida para eles; que para eles a minha
memória seja doce, leve e perfumada em suas lembranças. Eu passei como
uma flor, e nada de triste deve restar de minha rápida passagem.
P. Como a tua linguagem pode ser tão poética e tão pouco relacionada
com a posição que você ocupava na Terra? – R. Porque é a minha alma que
está falando. Sim, eu tinha conhecimentos adquiridos e, muitas vezes, Deus
permite que Espíritos delicados se encarnem entre os homens mais rudes
para lhes fazerem pressentir as delicadezas que eles atingirão e que
compreenderão mais tarde.
Sem essa explicação tão lógica e tão conforme à solicitude de Deus para com as
suas criaturas, dificilmente nos daríamos conta do que, à primeira vista, poderia
parecer uma anomalia. Com efeito, o que há de mais gracioso e mais poético do que a
linguagem do Espírito dessa jovem senhora, educada em meio aos mais rudes
trabalhos? O contrário é visto muitas vezes: Espíritos inferiores encarnados entre
homens mais adiantados, mas com um objetivo oposto, sendo que é em vista de seu
próprio adiantamento que Deus os põe em contato com um mundo esclarecido e,
algumas vezes, também para servirem de provação a esse mesmo ambiente. Que
234 – Allan Kardec
outra filosofia pode resolver tais problemas?
MAURICE GONTRAN
Era filho único, falecido aos dezoito anos, devido uma afecção no peito.
Inteligência rara, razão precoce, grande amor ao estudo, caráter doce, amável
e simpático, ele possuía todas as qualidades que dão as mais legítimas
esperanças de um futuro brilhante. Seus estudos foram concluídos
antecipadamente com o maior sucesso e ele trabalhava para a Escola
Politécnica. A sua morte foi para os pais a causa de uma dessas dores que
deixam marcas profundas e tanto mais penosas porque, como ele sempre teve
uma saúde delicada, eles atribuíram o seu fim prematuro ao trabalho ao qual
eles o haviam empurrado, e por isso se martirizavam, dizendo: “De que lhe
serve agora tudo o que aprendeu? Melhor teria sido que ele tivesse
permanecido ignorante, pois não precisava disso para viver, e sem dúvidas ele
ainda estaria entre nós; ele seria o consolo na nossa velhice.” Se eles tivessem
conhecido o Espiritismo, certamente teriam raciocinado de outra forma. Mais
tarde, eles encontraram nele a verdadeira consolação. A comunicação
seguinte foi dada pelo filho deles a um dos seus amigos, alguns meses depois
da morte do rapaz:
P. Meu caro Maurice, o carinhoso apego que você tem pelos teus pais faz
com que eu não duvide do teu desejo de reerguer o ânimo deles, se isso
estiver ao teu alcance. A tristeza — eu diria até desespero — em que a tua
morte os mergulhou está alterando visivelmente a saúde deles e os faz tomar
a vida com desgosto. Com certeza, algumas boas palavras tuas poderão fazer
renascer neles a esperança.
R. Meu velho amigo, esperei com impaciência a ocasião que você está me
oferecendo de me comunicar. A dor de meus pais me aflige, mas ela se
acalmará quando eles tiverem a certeza de que não estou perdido para eles. É
para convencê-los dessa verdade que você deve se esforçar, e por certo você
conseguirá isso. Era preciso esse acontecimento para conduzi-los a uma
crença que lhes trará felicidade, pois ela os impedirá de murmurar contra os
decretos da Providência. Meu pai, como você sabe, era muito cético a respeito
235 – O Céu e o Inferno
da vida futura; então Deus permitiu que passasse por essa aflição para
tirá-lo do seu erro.
Nós nos reencontraremos aqui, neste mundo onde não conhecemos mais
os desgostos da vida, e para onde eu vim de vocês; mas diga mesmo a meus
pais que a satisfação de me reverem aqui poderá ser recusada a eles, como
punição pela falta de confiança deles na bondade de Deus. Eu ficaria até
mesmo proibido, até então, de me comunicar com eles enquanto eles ainda
permanecerem na Terra. O desespero é uma revolta contra a vontade do
Todo-Poderoso, e que é sempre punido pelo prolongamento da causa que
levou a esse desespero, até que finalmente todos sejam submissos. O
desespero é verdadeiro suicídio, porque ele mina as forças do corpo, e quem
abrevia os seus dias com a intenção de escapar mais cedo das garras da dor
prepara para si próprio as mais cruéis decepções; mas, ao contrário, é para
cultivar as forças do corpo que devemos trabalhar, a fim de suportar mais
facilmente o peso das provas.
Meus bondosos pais, é a vocês que eu me dirijo. Desde que deixei meus
despojos mortais, jamais cessei de estar perto de vocês, e aí estou com muito
mais frequência do que quando vivia na Terra. Portanto, consolem-se, pois eu
não estou morto; estou mais vivo do que vocês; só o meu corpo morreu,
enquanto meu Espírito vive sempre. Ele está livre, feliz e agora protegido de
doenças, de enfermidades e da dor. Em lugar de se afligirem, alegrem-se em
saber que estou num ambiente isento de preocupações e de alarmes, onde o
coração fica inebriado de uma alegria pura e sem mancha.
Oh, meus amigos! Não chorem pelos que morrem prematuramente; isso
é uma bênção que Deus concede a eles, poupando-os das tribulações da vida.
A minha existência na Terra desta vez não devia se prolongar por muito mais
tempo, porque eu já tinha adquirido o que devia adquirir em preparação para
cumprir mais adiante uma missão mais importante. Se eu tivesse vivido aí por
longos anos, sabe-se lá a quais perigos, a quais seduções eu teria sido
exposto? Sabia que, não estando ainda forte o bastante para resistir, se eu
teria sucumbido, isso poderia ser para mim um atraso de vários séculos? Por
que então lamentar o que me é vantajoso? Uma dor inconsolável, nesse caso,
acusaria uma falta de fé e não poderia ser legítima senão pela crença no nada.
236 – Allan Kardec
Oh, sim! Eles são dignos de pena, aqueles que conservam essa crença
desesperadora, pois para eles não existe consolação possível; os seus entes
queridos estão perdidos, sem volta; o túmulo levou a sua última esperança!
P. A tua morte foi dolorosa?
R. Não, meu amigo, eu só sofri antes de morrer, devido a doença que me
levou embora; mas esse sofrimento diminuía à medida que o derradeiro
instante se aproximava; então, certo dia, adormeci sem pensar na morte. Eu
tive um sonho, oh, um sonho delicioso! Sonhei que estava curado; já não sofria
mais, eu respirava a plenos pulmões e voluptuosamente um ar embalsamado
e revigorante; então fui transportado através do espaço por uma força
desconhecida, e uma luz cintilante resplandecia em torno de mim, mas sem
cansar minha vista. Eu vi meu avô; ele não tinha mais a fisionomia magricela,
mas sim um aspecto esbelto e jovial; ele me estendia os braços e me abraçava
efusivamente ao coração. Um monte de gente com semblante sorridente o
acompanhava, todos me acolhendo com bondade e gentileza; parecia que eu
os reconhecia, que estava contente por revê-los, e todos juntos trocávamos
palavras e gestos de amizade. Pois bem! O que eu acreditava ser um sonho era
a realidade: eu não deveria mais acordar na Terra, pois eu havia acordado no
mundo dos Espíritos.
P. Tua doença não foi provocada por tua grande assiduidade ao estudo?
R. Oh, não! Estejam bem certos disso. O período que eu deveria viver na
Terra já estava marcado e nada poderia me reter aí por mais tempo. Meu
Espírito, nos momentos de desprendimento, já sabia disso e ficava feliz em
pensar na libertação que se aproximava. Mas o período que aí passei não foi
sem proveito, e hoje me felicito por não o ter desperdiçado. Os estudos sérios
que fiz fortificaram minha alma e aumentaram meus conhecimentos; tantas
coisas aprendi, e se não pude aplicá-los nessa minha curta existência entre
vocês, eu vou aplicá-los mais tarde com maior proveito.
Adeus, caro amigo; agora vou para junto dos meus pais, prepará-los para
receberem esta comunicação.
MAURICE
237 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO III
ESPÍRITOS EM
CONDIÇÕES MEDIANAS
JOSEPH BRE – HELENA MICHEL – MARQUÊS DE SAINT-PAUL
– DR. CARDON – ÉRIC STANISLAS – ANNA BELLEVILLE
JOSEPH BRÉ
Falecido em 1840, evocado em Bordeaux em 1862, por sua neta
O homem honesto segundo Deus ou segundo os homens
1. Querido avô, poderia me dizer como se encontra entre os Espíritos, e me
dar alguns detalhes instrutivos para o nosso avanço? – R. Tudo que quiser,
minha criança querida. Estou expiando minha falta de fé, mas a bondade de
Deus é grande: ele leva em conta as circunstâncias. Estou sofrendo, porém não
como você poderia imaginar: sofro de arrependimento por não ter usado bem
meu tempo na Terra.
2. Como não? O senhor sempre viveu honestamente… – R. Sim, do ponto de
vista dos homens; mas há um abismo entre a pessoa honesta perante os
homens e a pessoa honesta perante Deus. Você quer se instruir, minha
querida, então eu procurarei te demonstrar a diferença.
Entre vocês, é considerado como homem honesto quando o indivíduo
respeita as leis do seu país — um respeito subjetivo, para muitos — e quando
ele não prejudica o seu próximo tomando seus bens de maneira visível;
todavia, sua honra e sua felicidade frequentemente lhe são tiradas sem dó no
238 – Allan Kardec
momento em que o código das leis ou a opinião pública não consegue pegar o
culpado hipócrita. Quando alguém manda gravar na sua lápide uma infinidade
de pretensas virtudes, todos acreditam que ele tenha quitado sua dívida com
a humanidade! Quanto erro! Para ser honesto perante Deus, não basta não ter
desrespeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não ter
transgredido as leis divinas.
Honesto perante Deus é aquele que, pleno de devotamento e de amor,
consagra sua vida ao bem, ao progresso de seus semelhantes. Aquele que,
motivado por um zelo devido à objetividade, for ativo na vida: ativo no
cumprimento dos compromissos materiais que lhe são impostos, pois ele
deve ensinar aos seus irmãos o amor ao trabalho; ativo nas boas obras, pois
ele não deve esquecer que ele não passa de um servo a quem o patrão um dia
pedirá contas da aplicação do seu tempo; ativo no final, pois ele deve pregar
pelo exemplo o amor ao Senhor e ao próximo. O homem honesto perante
Deus deve evitar com cuidado essas palavras mordazes, veneno escondido
sob flores, que destrói reputações e muitas vezes mata o homem moral,
vestindo-o de ridículo. O homem honesto para Deus deve sempre ter o
coração fechado para o menor sinal de orgulho, de inveja e de ambição. Ele
deve ser paciente e gentil para com aqueles que o atacam; deve perdoar do
fundo do seu coração, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer
que o tenha ofendido; deve amar seu criador em todas as suas criaturas; deve,
finalmente, pôr em prática este preceito tão conciso e tão grande dos deveres
do homem: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Aí está, minha cara criança, em poucas palavras, o que deve ser o homem
honesto perante Deus. Pois bem, teria eu feito tudo isso? Não; eu faltei com
muitas dessas condições — aqui confesso sem corar. Não tive a atividade que
um homem deve ter; esquecer o Senhor me levou a outros esquecimentos
que, conquanto não serem punidas pelas leis humanas, nem por isso deixam
de ser prevaricações contra a lei de Deus. Sofri bastante com isso desde
quando o compreendi; é por isso que hoje eu aguardo, mas com a esperança
consoladora na bondade de Deus, que vê o meu arrependimento. Querida
neta, exclame e repita tudo isso àqueles que têm a consciência pesada. Que
eles compensem suas faltas pelo valor das boas obras, e a misericórdia divina
239 – O Céu e o Inferno
se estenderá pela superfície da Terra. Seus olhos paternais contarão as
provações e sua mão poderosa apagará as faltas.
HELENA MICHEL89
Jovem dama de vinte e cinco anos, morta subitamente em sua casa, sem
sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Ela era rica, um pouco frívola
e, por consequência da leviandade de seu caráter, ocupava-se mais com as
futilidades da vida do que com as coisas sérias. Apesar disso, seu coração era
bondoso: era dócil, benévola e caridosa.
Evocada três dias após sua morte, por pessoas que a conheciam, ela
assim se exprimiu:
“Não sei onde estou… que turbação me cerca!… Vocês me chamaram e eu
vim… Não compreendo por que não estou em minha casa… estão chorando a
minha ausência, eu lá estou, mas não consigo fazer com que eles me
reconheçam… Meu corpo não me pertence mais e mesmo assim eu o sinto frio,
gelado… Eu quero deixá-lo, mas estou presa a ele, sempre retorno a ele… Sou
duas pessoas… Oh, quando compreenderei o que está acontecendo comigo?…
Ainda preciso ir lá… meu outro EU, o que seria dele, estando eu ausente?…
Adeus!”
O sentimento de dualidade, que ainda não foi destruído por uma separação
completa, aqui está evidente. De caráter pouco sério, sua posição de fortuna — que
lhe permitia satisfazer seus caprichos — devia favorecer suas tendências à
leviandade. Então, não é de admirar que o seu desprendimento tenha sido lento, e
que, três dias após a morte, ela ainda se sentia ligada ao seu envoltório corporal. Mas
como ela não tinha nenhum vício sério e como seu íntimo era bom, essa situação nada
tinha de muito penosa e não deveria durar muito tempo. Evocada novamente alguns
dias depois daquela primeira conversa, suas ideias já tinham mudado bastante. Eis o
que ela disse:
“Obrigada por ter orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me
poupou de sofrimentos e apreensões do momento da separação do meu corpo
89 No original, Hélène Michel. — N. T.
240 – Allan Kardec
e do meu Espírito. Minha pobre mãe terá muita dificuldade em se resignar,
mas ela será amparada, e aquilo que a seus olhos é um terrível infortúnio era
indispensável, para que as coisas do céu se tornassem para ela o que devem
ser: tudo. Estarei perto dela até o fim da sua prova terrena e eu a ajudarei a
suportá-la. Não sou infeliz, porém, eu ainda tenho muito a fazer para avançar
rumo à morada dos bem-aventurados. Eu rogarei a Deus que me permita
retornar à Terra, porque tenho que reparar o tempo que aí perdi nessa
existência. Que a fé ampare vocês, meus amigos; tenham confiança na eficácia
da prece, desde que ela parta verdadeiramente do coração. Deus é bom.”
P. Levou muito tempo para você se reconhecer? – R. Eu me dei conta da
morte no mesmo dia em que vocês oraram por mim.
P. Esse estado de perturbação foi doloroso? – R. Não, eu não sofria;
acreditava estar sonhando e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta
de dores, mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer; resignei-me à
vontade de Deus e isso me foi levado em conta. Fico agradecida a vocês pelas
preces que me ajudaram no meu despertamento. Obrigado; eu voltarei
sempre com prazer. Adeus.
HELENA
MARQUÊS DE SAINT-PAUL
Falecido em 1860 e evocado a pedido de sua irmã, membro da Sociedade de Paris, em
16 de maio de 1861)
1. Evocação – R. Aqui estou presente.
2. A senhora sua irmã nos pediu te evocarmos, embora seja médium; mas ela
ainda não é bastante experiente para estar tão segura de si. – R. Tentarei
responder da melhor forma que eu puder.
3. Ela deseja saber inicialmente se você está feliz. – R. Eu sou um errante, e
esse estado transitório não proporciona nem felicidade completa nem o
castigo absoluto.
4. Demorou muito para se reconhecer? – R. Fiquei muito tempo em
perturbação e só saí desse estado para abençoar a piedade daqueles que não
241 – O Céu e o Inferno
me esqueceram e por mim oraram. – P. Conseguiria calcular a duração dessa
perturbação? – R. Não.
5. Quais foram os parentes que você reconheceu de pronto? – R. Reconheci
minha mãe e meu pai, quando ambos me receberam ao despertar; eles me
apresentaram à vida nova.
6. Por que é que no final da tua moléstia você parecia estar conversando com
aqueles a quem amava na Terra? – R. Porque, antes de morrer, eu tive a
revelação do mundo onde eu iria habitar. Eu era vidente antes de morrer, e os
meus olhos estavam encobertos na passagem da separação definitiva do
corpo, porque os laços carnais ainda estavam muito vigorosos.
7. Por que parece que preferencialmente você tem recordações da tua
infância? – R. Porque o começo está mais próximo do fim do que o meio da
vida. – Como você entende disso? – R. Isso quer dizer que os moribundos
lembram e veem, como numa miragem de consolação, os anos jovens e
puros.
Provavelmente, é por um motivo providencial semelhante que os idosos, à
medida que se eles aproximam do término da vida, têm algumas vezes uma lembrança
precisa dos mínimos detalhes dos seus primeiros anos de vida.
8. Por que, ao falar do teu corpo, sempre falava na terceira pessoa? — R.
Porque eu era vidente, como já te disse, e sentia claramente as diferenças
entre o físico e o moral; essas diferenças, mescladas entre si pelo fluido da
vida, tornam-se bem definidas aos olhos dos moribundos clarividentes.
Eis aí uma particularidade singular que a morte deste senhor apresenta. Nos
seus derradeiros momentos, ele repetia continuamente: “Ele está com sede, é preciso
lhe dar de beber; ele tem frio, é preciso aquecê-lo; ele está sofrendo em tal posição
etc.” E quando lhe diziam: “Mas é você que está com sede”, ele respondia: “Não, é ele.”
Aqui se distinguem perfeitamente as duas existências: o eu pensante está no Espírito,
e não no corpo; o Espírito, já em parte desprendido, considerava o corpo como outra
individualidade que propriamente falando não era ele; era, portanto, ao seu corpo que
se devia dar de beber, e não ao seu Espírito. Esse fenômeno também é percebido em
alguns sonâmbulos.
9. O que você disse do teu estado errante e da duração da tua perturbação,
242 – Allan Kardec
levaria a crer que você não está muito feliz, e, no entanto, as tuas qualidades
deveriam fazer supor o contrário. Além disso, há Espíritos errantes que são
felizes, assim como há os infelizes… – R. Eu me encontro num estado
transitório; as virtudes humanas adquirem aqui o seu real valor. Sem dúvida,
a minha situação é mil vezes preferível à da encarnação terrestre, mas eu
sempre carreguei comigo as aspirações ao verdadeiro bem e ao verdadeiro
belo, e minha alma não ficará saciada senão quando ela voar até os pés do seu
Criador.
DR. CARDON
O Sr. Cardon havia passado boa parte da sua vida na marinha mercante,
na qualidade de médico de navio baleeiro, onde tinha adquirido habilidades e
ideias um tanto materialistas; retirando-se no vilarejo de J…, ali exercia a
modesta profissão de médico rural. Depois de algum tempo, adquirira a
certeza de que era portador de uma hipertrofia do coração e, sabendo que
essa doença era incurável, o pensamento da morte o mergulhou numa
sombria melancolia, da qual nada podia distraí-lo. Cerca de dois meses antes,
ele predisse o seu fim fixando o dia exato; quando se viu perto de morrer,
reuniu sua família em torno dele para lhe dar o último adeus. Sua esposa, sua
mãe, seus três filhos e outros parentes estavam em volta do seu leito; no
momento em que sua mulher tentava erguê-lo, ele desabou, todo pálido, seus
olhos se fecharam e então foi dado como morto; sua senhora se colocou à
frente para esconder a cena dos seus filhos. Após alguns minutos, ele reabriu
os olhos; seu rosto, por assim dizer iluminado, assumiu uma expressão de
radiosa beatitude e ele exclamou: “Oh, meus filhos, como é belo! Como é
sublime! Oh, a morte! Que bênção! Que coisa doce! Eu estava morto e senti
minha alma se elevar bem alto, bem alto; mas Deus me permitiu voltar para
lhes dizer: Não temam, pois a morte é a libertação… Como eu gostaria de
descrever para vocês a magnificência do que vi e as impressões de que me
senti dominado! Mas vocês não conseguiriam compreender… Oh, meus filhos,
comportem-se sempre de maneira a merecer essa inefável felicidade,
reservada aos homens de bem! Vivam segundo a caridade! Se tiverem alguma
243 – O Céu e o Inferno
coisa, doem uma parte àqueles a quem falta o necessário… Minha querida
esposa, eu te deixo numa posição que não é feliz; há quem nos deva dinheiro,
mas eu te imploro que não atormente aqueles que nos devem; se eles
estiverem em dificuldades, espere até que possam pagar, e aos que não
puderem, perdoe-lhes, e Deus te recompensará por isso. Você, meu filho,
trabalhe para sustentar tua mãe; seja sempre um homem honesto e cuide-se
para não fazer nada que possa desonrar nossa família. Tome essa cruz que
vem de minha mãe; não a largue e que ela te faça lembrar sempre meus
últimos conselhos… Meus filhos, ajudem-se e se amparem mutuamente; que a
boa harmonia reine entre vocês; não sejam nem vaidosos nem orgulhosos;
perdoem seus inimigos, se quiserem que Deus perdoe vocês…” Depois,
mandando seus filhos se aproximarem, estendeu as mãos para eles e
acrescentou: “Meus filhos, eu vos abençoo.” E seus olhos desta vez se
fecharam para sempre; porém, sua fisionomia conservava uma expressão tão
imponente que, até o momento em que foi enterrado, uma grande multidão
veio contemplá-lo com admiração.
Como esses interessantes detalhes nos foram transmitidos por um
amigo da família, então nós tivemos o pensamento de que essa evocação
poderia ser instrutiva para todos, ao mesmo tempo que seria útil para aquele
Espírito.
1. Evocação. – R. Estou perto de vocês.
2. Relataram-nos teus instantes finais, o que nos encheram de admiração.
Teria a bondade de nos descrever, da melhor forma que puder, o que você viu
no intervalo daquilo que poderíamos chamar de tuas duas mortes? – R. O que
eu vi, será que vocês poderiam compreender? Não sei, pois eu não
encontraria expressões capazes de tornar compreensível o que vi durante os
poucos instantes em que me foi possível deixar meus restos mortais.
3. Você se deu conta do lugar onde esteve? É longe da Terra, em outro planeta
ou no espaço? – R. O Espírito não conhece o valor das distâncias, tal como
vocês enxergam. Levado não sei por qual agente maravilhoso, eu vi o
esplendor de um céu como só nossos sonhos poderiam realizá-lo. Essa
excursão através do infinito se fez tão rapidamente que não posso precisar os
244 – Allan Kardec
instantes empregados pelo meu Espírito.
4. Atualmente, você usufrui da felicidade que tinha entrevisto? – R. Não; bem
que eu gostaria, mas Deus não pode me recompensar assim. Várias vezes eu
me revoltei contra os pensamentos abençoados que meu coração ditava, e a
morte me parecia uma injustiça. Médico incrédulo, eu tinha adquirido na arte
de curar uma aversão contra a segunda natureza, que é o nosso movimento
inteligente, divino; a imortalidade da alma era uma ficção própria para
seduzir as naturezas pouco elevadas; entretanto, o vazio me apavorava, pois
eu maldizia muitas vezes esse agente misterioso que fere sempre e sempre. A
filosofia me desencaminhou, sem me fazer compreender toda a grandeza do
Eterno, que sabe distribuir a dor e a alegria para o ensino da humanidade.
5. Após a tua morte verdadeira, você logo se deu conta de si? – R. Não;
reconheci-me durante a transição pela qual meu Espírito passou para
percorrer os lugares etéreos; mas após a morte real, não; foi preciso alguns
dias para o meu despertar.
Deus me concedeu uma graça, e eu vou lhes dizer a razão:
Minha incredulidade inicial não existia mais; antes da minha morte eu já
tinha acreditado, porque depois de ter sondado cientificamente a grave
questão que me fazia definhar, tendo esgotado todas as explicações terrenas,
então só me restava a razão divina; ela tinha me inspirado e me consolado, e a
minha coragem era mais forte do que a dor. Eu bendizia o que havia
amaldiçoado; o fim me parecia a libertação. O pensamento de Deus é grande
como o mundo! Oh, que suprema consolação há na prece que dá inefáveis
enternecimentos; ela é o elemento mais seguro de nossa natureza imaterial;
por ela eu compreendi, eu acreditei firmemente, soberanamente, e é por isso
que Deus, escutando minhas ações benignas, quis por bem me recompensar
antes do fim da minha encarnação.
6. Poderíamos dizer que na primeira vez você estava morto? – R. Sim e não;
tendo o Espírito deixado o corpo, naturalmente a carne se extinguira; mas ao
retomar a posse de minha morada terrena, a vida voltou ao corpo, que havia
passado por uma transição, um sono.
7. Nesse momento, você sentia os laços que te prendiam ao corpo? – R. Fora
245 – O Céu e o Inferno
de dúvida; o Espírito tem um laço difícil de desatar, faltando-lhe um último
estremecimento da carne para retornar à sua vida natural.
8. Como é que, durante a tua morte aparente, e por alguns minutos, o teu
Espírito pudesse se desprender instantaneamente e sem dificuldade, ao passo
que a morte real foi seguida de uma perturbação de vários dias? Parece que
no primeiro caso, como os laços entre a alma e o corpo são mais fortes do que
no segundo, o descolamento deveria ser mais lento; mas o que ocorreu foi o
contrário… – R. Vocês têm feito com frequência a evocação de um Espírito
encarnado e têm recebido respostas reais; eu estava na situação desses
Espíritos. Deus me chamou e seus servidores me disseram: “Vem…”. Eu
obedeci, e agradeço a Deus pela graça especial que ele bem quis me conceder.
Pude ver a infinitude de sua grandeza e dela me dar conta. Obrigado àqueles
que, antes da minha morte real, me permitiu instruir os meus parentes a
serem encarnações boas e justas.
9. De onde vieram as tuas belas e bondosas palavras que, quando do teu
retorno à vida, você dirigiu à tua família? – R. Eram o reflexo do que tinha
visto e ouvido; os Espíritos bons inspiraram a minha voz e animaram o meu
semblante.
10. Que impressão você acha que a tua revelação causou nas pessoas
presentes e particularmente nos teus filhos? – R. Impactante, profunda. A
morte não é mentirosa; os filhos, por mais ingratos que possam ser, curvam-
se diante da encarnação que se vai. Se pudéssemos perscrutar o corações dos
seus filhos, junto a um túmulo entreaberto, sentiríamos bater apenas
sentimentos verdadeiros, profundamente tocados pela mão secreta dos
Espíritos que a todos ditam esses pensamentos: Estremeçam, se estiverem na
dúvida; a morte é a reparação, a justiça de Deus, e eu lhes asseguro isso,
malgrado os incrédulos, meus amigos e minha família acreditarão nas
palavras que minha boca pronunciou antes de eu morrer. Eu era o intérprete
de um outro mundo.
11. Disse não estar desfrutando da felicidade que você entreviu; então se
sente infeliz? – R. Não, porque eu acreditava antes de morrer, e isso em minha
alma e consciência. A dor aperta aqui neste mundo, mas também sobe para o
246 – Allan Kardec
futuro espiritual. Notem que Deus soube levar em conta as minhas preces e a
minha crença absoluta nele; estou na rota da perfeição e chegarei ao objetivo
que me foi permitido entrever. Orem, meus amigos, orem por esse mundo
invisível que preside aos destinos de vocês; este intercâmbio fraternal é
caridade; é uma alavanca potente que põe em comunicação os Espíritos de
todos os mundos.
12. Gostaria de remeter algumas palavras à tua esposa e aos teus filhos? – R.
Eu rogo a todos os meus entes que creiam em Deus poderoso, justo e
imutável; na prece que consola e alivia; na caridade, que é o ato mais puro da
encarnação humana; que eles se lembrem de que é válido doar ainda que
pouco: o óbolo do pobre é o mais meritório diante de Deus, que sabe que um
pobre doa muito mesmo doando pouco. É preciso que o rico dê altos valores e
muitas vezes para merecer tanto quanto o pobre.
O futuro é a caridade, a benevolência em todas as ações; é crer que todos
os Espíritos são irmãos, jamais se gabando de todas as vaidades infantis.
Família bem-amada, você terá rudes provas; contudo, saiba suportá-las
corajosamente, pensando que Deus te assiste.
Diga sempre essa prece:
Deus de amor e de bondade, que dá tudo e sempre, concede-nos essa
força que não recua ante nenhuma dor, torne-nos bons, gentis e caridosos,
pequenos em fortuna e grandes em coração. Que o nosso Espírito seja espírita
na Terra, para melhor te compreender e te amar.”
Que teu nome, ó meu Deus, emblema de liberdade, seja o propósito
consolador de todos os oprimidos, de todos aqueles que têm necessidade de
amar, de perdoar e crer.
CARDON
ÉRIC STANISLAS
(Comunicação espontânea; Sociedade de Paris, agosto de 1863)
“Quanta felicidade nos trazem as emoções sentidas vivamente por
corações calorosos! Ó suaves pensamentos que vêm abrir um caminho de
247 – O Céu e o Inferno
salvação a tudo que vive, a tudo que respira material e espiritualmente! Que o
seu bálsamo consolador jamais cesse de se espalhar em largas ondas sobre
vocês e sobre nós! Que expressão escolher para traduzir a satisfação vivida
por todos vocês, irmãos do além-túmulo, na contemplação do amor puro que
os une!
“Ah, irmãos, quanta bondade em toda parte, quantos sentimentos
suaves, elevados e simples como vocês! Como a sua doutrina, vocês são
convocados a semear pela longa estrada que vocês ainda têm a percorrer; mas
também, o quanto tudo isso lhes será concedido antes mesmo de terem
adquirido o seu direito!
“Eu assisti a toda essa noite; eu ouvi, percebi, entendi e, por minha vez,
também vou poder cumprir o meu dever e instruir a classe dos Espíritos
imperfeitos.
“Escutem: eu estava longe de ser feliz; mergulhado na imensidade, no
infinito, os meus sofrimentos eram tão intensos que eu não tinha uma exata
noção deles. Mas, Deus seja bendito! Ele me permitiu vir a um santuário que
os ímpios não podem atravessar impunemente. Amigos, quanto sou grato a
vocês! Quantas forças eu hauri entre vocês!
“Oh, homens de bem, reúnam-se frequentemente; instruam, pois vocês
não podem imaginar quantos frutos produzem as reuniões sérias que há entre
vocês; os Espíritos que ainda têm muitas coisas a aprender, aqueles que ficam
voluntariamente inativos, preguiçosos e esquecidos dos seus deveres, estes
podem estar presentes entre vocês — seja por uma circunstância fortuita, seja
por outra razão. Tocados por um choque terrível — e isso é o que muitas
vezes acontece — eles podem refletir sobre si mesmos, podem reconhecer
sua situação e enfim entrever o objetivo a alcançar, para então, fortalecidos
pelo exemplo que vocês dão a eles, procurarem os meios que podem fazê-los
sair do penoso estado na qual eles se encontram. Com uma enorme satisfação,
faço-me porta-voz das almas sofredoras, pois é a homens de coração que me
dirijo, e sei que não serei repudiado.
“Queiram mais uma vez, ó homens generosos, receber a expressão do
meu reconhecimento particular, e a gratidão de todos os nossos amigos a
quem vocês têm feito tanto bem, talvez até sem saberem disso.”
ÉRIC STANISLAS
248 – Allan Kardec
O guia do médium – Meus filhos, este é um Espírito que estava muito
infeliz, por ter se transviado durante um longo tempo. Então, ele
compreendeu os seus erros, arrependeu-se e enfim voltou seus olhos para
Deus, que ele ignorava. Sua posição não é a de alguém feliz, mas ele já aspira à
felicidade e não está mais sofrendo. Deus lhe permitiu vir escutar, para depois
ir a uma esfera inferior, a fim de instruir e fazer avançar os Espíritos que,
como ele, transgrediram as leis do Eterno; esta é a reparação que lhe foi
pedida. Doravante ele conquistará a felicidade, porque ele tem vontade de ser
feliz.
ANNA BELLEVILLE
Jovem mulher falecida aos trinta e cinco anos, após longa e cruel
enfermidade. Vivaz, extrovertida, dotada de uma rara inteligência, de grande
retidão de julgamento e eminentes qualidades morais, devotada esposa e mãe
de família, ela possuía além disso uma força de caráter pouco comum e um
espírito fértil em recursos, tanto que ela jamais foi pega desprevenida nas
circunstâncias mais críticas da vida. Sem rancor daqueles de quem ela podia
se queixar, estava sempre pronta a lhes prestar serviço. Estando intimamente
ligado a ela desde muitos anos, nós pudemos acompanhar todas as fases da
sua existência e todos os imprevistos do seu desfecho.
Um acidente provocou a terrível moléstia que a levaria, mas que antes a
manteria três anos acamada, presa dos mais atrozes sofrimentos, que ela
suportou até o último momento com uma coragem heroica, em meio ao qual
sua graça natural não a abandonou. Acreditava firmemente na alma e na vida
futura, mas se preocupava muito pouco com isso; todos os seus pensamentos
se voltavam para a vida presente, à qual ela valorizava bastante, mas sem
temer a morte e sem procurar os gozos materiais, já que sua vida era muito
simples e ela deixava, sem dificuldade, passar aquilo que ela não podia obter.
Entretanto, tinha instintivamente o gosto pelo bom e pelo belo, que ela sabia
aplicar até nas menores coisas. Queria viver menos para ela mesma do que
para os seus filhos, aos quais ela sentia que era necessária; eis por que ela era
apegada à vida. Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo;
249 – O Céu e o Inferno
interessava-se por ele, mas nunca pôde fixar seus pensamentos no futuro;
para ela, isso era uma ideia verdadeira, porém não causava nenhuma
impressão profunda no seu espírito. O que ela fazia de bem resultava de um
impulso natural, espontâneo, e não inspirado pela intenção de uma
recompensa ou de penas futuras.
Já há muito tempo seu estado era desesperador e todo mundo esperava
vê-la partir de um momento para outro; ela própria não tinha mais
esperanças. Certo dia, quando seu marido estava ausente, ela sentiu se
desfalecer e entendeu que sua hora havia chegado; sua vista ficou turva, a
perturbação a invadiu e ela experimentou todas as angústias da separação. No
entanto, ela lamentava morrer antes do retorno do marido; então, fazendo
sobre si mesma um esforço extremo, ela falou consigo: “Não, eu não quero
morrer!” Daí, ela sentiu a vida renascer nela, e recobrou o pleno uso das suas
faculdades. Quando o marido voltou, ela lhe disse: “Eu ia morrer, mas quis
esperar que você estivesse perto de mim, pois ainda tinha algumas
recomendações a te fazer.” A luta entre a vida e a morte se prolongou por
mais três meses — que não foi outra coisa senão uma longa e dolorosa agonia.
Evocação no dia seguinte da sua morte – Meus bons amigos, obrigado
por se preocuparem comigo. Ademais, vocês foram para mim como bons
parentes. Pois bem, regozijem-se, estou feliz. Tranquilizem meu pobre marido
e cuidem dos meus filhos. Eu fui para junto deles tão logo em seguida.
P. Parece que a tua perturbação não foi longa, já que está nos
respondendo com lucidez. – R. Meus amigos, eu sofri tanto, e vocês sabem que
sofri com resignação! Pois bem, a minha prova terminou. Dizer a vocês que eu
esteja completamente libertada, não; mas não estou sofrendo mais, e isso para
mim é um grande alívio! Agora estou radicalmente curada, eu lhes asseguro,
mas preciso de ajuda através de preces para depois vir trabalhar com vocês.
P. Qual poderia ter sido a causa dos teus longos sofrimentos? – R. Um
passado terrível, meu amigo.
P. Poderia nos dizer qual foi esse passado? – R. Oh, deixem-me esquecê-
lo um pouco, pois eu paguei muito caro por ele!
250 – Allan Kardec
Um mês após sua morte – P. Agora que você deve estar completamente
desprendida e que nos reconhece melhor, nós ficaríamos contentes em ter
uma conversa mais explícita contigo. Poderia nos dizer qual a causa da tua
longa agonia? Por que você ficou durante três meses entre a vida e a morte? –
R. Obrigado, meus bons amigos, pela lembrança e pelas preces de vocês!
Como elas foram salutares para mim, e como contribuíram para o meu
desprendimento! Ainda tenho necessidade de ser amparada; então,
continuem a orar por mim. Vocês compreendem o valor da prece. Não são
fórmulas banais as que vocês dizem, como outros tantos que não se dão conta
do efeito que uma boa oração produz.
Sofri enormemente, porém meus sofrimentos me foram largamente
compensados, e muitas vezes me foi permitido estar perto dos meus filhos
queridos que deixei com tanto pesar!
Prolonguei por mim mesma meus sofrimentos; meu ardente desejo de
viver pelos filhos fazia com que me agarrasse de alguma forma à matéria e, ao
contrário dos outros, eu me endureci e não queria abandonar o infeliz corpo
com o qual eu precisava romper, e que ao mesmo tempo era para mim o
instrumento de tantas torturas. Esta é a verdadeira causa da minha longa
agonia. Minha doença, os sofrimentos que padeci, eram expiação do passado,
uma dívida a mais a pagar.
Ó meus amigos, se eu tivesse escutado vocês, quanta mudança haveria
na minha vida presente! Que suavidade eu teria experimentado nos meus
derradeiros instantes, e quanto essa separação teria sido fácil se, em vez de a
contrariar, eu tivesse me entregado com confiança à vontade de Deus, à
corrente que me arrastava! Mas ao invés de lançar meu olhar para o porvir
que me aguardava, eu via apenas o presente que eu ia deixar!
Quando voltar à Terra, eu serei espírita — garanto a vocês! Que ciência
grandiosa! Com muita frequência eu assisto às suas reuniões e aos conselhos
que lhes são transmitidos. Se eu tivesse compreendido isso quando estava na
Terra, meus sofrimentos teriam sido bem suavizados; porém a hora não havia
chegado. Hoje eu compreendo a bondade de Deus e a sua justiça, mas ainda
não estou adiantada o suficiente para deixar de me ocupar com as coisas da
vida; meus filhos principalmente ainda me prendem a ela, não mais para
251 – O Céu e o Inferno
mimá-los, porém para velar por eles e cuidar para que sigam o roteiro que o
Espiritismo traça neste momento. Sim, meus bons amigos, eu ainda tenho
graves preocupações; uma sobretudo, pois o futuro dos meus filhos depende
disso.
P. Poderia nos dar algumas explicações sobre o passado que você
deplora? – R. Ai de mim, meus bons amigos! Estou pronta para lhes fazer uma
confissão. Eu ignorava o sofrimento; vi minha mãe sofrer sem ter piedade
dela; eu a tratava como uma doente imaginária. Como nunca a tinha visto
acamada, presumi que ela não estava sofrendo e eu ri dos seus sofrimentos. É
assim como Deus pune.
Seis meses após sua morte – P. Agora que um tempo bastante longo se
passou desde que você deixou o envoltório terrestre, poderia retratar para
nós a tua situação e tuas ocupações no mundo dos Espíritos? – R. Durante a
minha vida terrena eu era o que geralmente chamamos de uma boa pessoa,
mas antes de tudo eu prezava o meu bem-estar; compassiva por natureza,
talvez eu não fosse capaz de um sacrifício penoso para amenizar um
infortúnio. Hoje, tudo está mudado; continuo sendo eu, mas o eu de outrora
sofreu modificações. Eu progredi, e vejo que não há nem classes nem
condições outras além do mérito pessoal no mundo dos invisíveis, onde um
povo caridoso e bom fica acima do rico orgulhoso que humilhava com a sua
esmola. Eu zelo especialmente pela classe dos afligidos pelos tormentos
familiares, pela perda de parentes ou da fortuna; eu tenho como missão
consolá-los e os encorajar, e sou feliz por fazer isso.
ANNA
Uma importante questão decorre dos fatos citados, que é esta:
Uma pessoa poderia, por um esforço da sua própria vontade, retardar o
momento da separação da alma e do corpo?
Resposta do Espírito de são Luís – Essa questão, resolvida de uma
maneira afirmativa e sem restrições, poderia dar lugar a falsas consequências.
Em determinadas condições, um Espírito encarnado certamente pode
prolongar a existência corpórea para concluir instruções indispensáveis ou
que ele acredita serem como tais; isso lhe pode ser permitido, como no caso
252 – Allan Kardec
aqui tratado, e dos quais temos muitos exemplos. Em todos os casos, esse
prolongamento da vida só pode ser por uma curta duração, pois não pode ser
dado ao homem intervir na ordem das leis da natureza, nem provocar um
retorno real à vida depois que ela tiver chegado ao seu fim; não é mais do que
um adiamento momentâneo. Contudo, não obstante a possibilidade do fato,
não devemos concluir que ele possa se comum, nem crer que dependa de cada
pessoa prolongar assim a sua existência. Como provação para o Espírito ou
no interesse de uma missão a cumprir, os órgãos gastos podem receber um
suplemento de fluido vital que lhes permita acrescentar alguns instantes à
manifestação material do pensamento; os casos semelhantes são exceção, e
não regra. Muito menos devemos ver nesse fato uma derrogação de Deus à
imutabilidade de suas leis, mas sim uma consequência do livre-arbítrio da
alma humana que no derradeiro instante toma consciência da missão que lhe
foi confiada e que gostaria, apesar da morte, de terminar o que não havia
conseguido. Às vezes, isso pode ser também um tipo de punição infligida ao
Espírito que duvida do futuro, permitindo-lhe um prolongamento de
vitalidade com o qual necessariamente ele sofre.
SÃO LUÍS
Alguém ainda poderia estranhar a rapidez do desprendimento deste Espírito,
Anna Belleville, em vista do seu apego à vida carnal; mas é preciso considerar que tal
apego nada tinha de sensual nem de material; tinha até mesmo o seu lado moral, já
que era motivado pelo interesse dos filhos com pouca idade. Era, além disso, um
Espírito adiantado em inteligência e em moralidade: um grau a mais e ele poderia
estar entre os Espíritos muito felizes. Nos laços perispirituais, portanto, não havia a
resistência causada pela identificação com a matéria; pode-se dizer que a vida,
enfraquecida por uma longa enfermidade, só se prendia por alguns fios; eram esses
fios que ele queria impedir que se rompessem. Porém, o Espírito foi punido pela
resistência com o prolongamento dos seus sofrimentos, devido à própria doença, e
não por causa da dificuldade do desprendimento. Eis por que, após a libertação, a
perturbação foi de curta duração.
Um fato igualmente importante decorre desta evocação, assim como da maior
parte das que foram feitas em épocas diversas, mais ou menos distantes da morte: é a
modificação que ocorre gradualmente nas ideias do Espírito, e cujo progresso pode
ser observado. No caso deste Espírito, essa modificação se traduz, não por melhores
253 – O Céu e o Inferno
sentimentos, mas por uma apreciação mais sensata das coisas. O progresso da alma na
vida espiritual é, pois, um fato constatado pela experiência; a vida corporal é a
execução prática desse progresso, a prova de suas resoluções, o crisol em que ele se
depura.
Desde o instante em que a alma progride após a morte, a sua sorte não pode ser
irrevogavelmente fixada, pois a fixação definitiva do destino é — como já dissemos
outras vezes — a negação do progresso. E como as duas coisas não podem existir
simultaneamente, resta aquela que tem a sanção dos fatos e da razão.
254 – Allan Kardec
CAPÍTULO IV
ESPÍRITOS SOFREDORES
O CASTIGO – NOVEL – AUGUSTE MICHEL –
LAMENTAÇÕES DE UM BOÊMIO – LISBETH – PRÍNCIPE OURAN –
PASCAL LAVIC – FERDINAND BERTIN – FRANÇOIS RIQUIER – CLAIRE
O CASTIGO
(Exposição geral do estado dos culpados em sua entrada no mundo dos Espíritos,
ditada à Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860)
Os Espíritos malvados, egoístas e endurecidos, logo após a morte ficam
entregues a uma dúvida cruel sobre a sua destinação presente e futura; eles
olham em torno de si e a princípio não veem nada sobre o que possam exercer
sua personalidade maligna, e então o desespero toma conta deles, porque o
isolamento e a inércia são intoleráveis aos Espíritos maus. Eles não erguem
seu olhar para os lugares habitados pelos Espíritos puros, pois reconhecem o
que os cerca e então, atentos ao abatimento dos Espíritos fracos e punidos,
agarram-se a eles como a uma presa, armando-se da lembrança de suas faltas
passadas, que eles colocam incessantemente em ação pelos seus gestos
irrisórios. Não lhes sendo suficiente essa zombaria, eles se atiram à Terra
iguais a abutres famintos, procurando entre os homens a alma que lhes abrirá
acesso mais facilmente às tentações; apoderam-se dela e atiçam sua cobiça,
tratando de acabar com a fé dela em Deus, até que finalmente, senhores de
uma consciência, vendo sua presa garantida, eles estendem o contágio fatal a
tudo o que se aproxime de sua vítima.
O Espírito mau que exerce sua raiva fica quase feliz; só sofre nos
momentos em que ele deixa de agir e quando o bem triunfa sobre o mal.
255 – O Céu e o Inferno
No entanto, os séculos se passam; de repente o mau Espírito sente as
trevas invadirem-no; seu círculo de ação se restringe e sua consciência, até
então silenciosa, lhe faz sentir as pontas afiadas do remorso. Inativo e tomado
pelo turbilhão, ele vagueia e, como dizem as Escrituras, sente os pelos da sua
carne se arrepiarem de pavor. Logo mais, um grande vazio se faz nele e em
torno dele; chega o momento em que ele deve expiar; a reencarnação está
bem ali, ameaçadora. Ele vê, como num espelho, as provas terríveis que o
aguardam; ele gostaria de recuar, mas avança e, precipitado no abismo
escancarado da vida, então ele rola assustado, até que o véu da ignorância
recaia sobre os seus olhos. Ele vive, age, ainda é culpado; ele sente nele
mesmo sabe-se lá que lembrança inquieta, pressentimentos que o fazem
tremer, mas não o fazem recuar na via do mal. Cansado das forças e dos
crimes, ele vai morrer. Estendido num catre ou sobre uma cama — que
importa isso?! —, o homem culpado sente, sob sua aparente imobilidade,
remoer-se e viver um mundo de sensações esquecidas. Sob as pálpebras
fechadas, ele vê despontar uma réstia, ele ouve estranhos sons; sua alma,
prestes a deixar seu corpo, agita-se impacientemente, enquanto as mãos
crispadas tentam se agarrar aos lençóis; ele desejaria falar, de gritar àqueles
que o rodeiam: Retenham-me! Eu vejo o castigo! Mas ele não consegue; a
morte se fixa em seus lábios pálidos e os assistentes dizem: Descanse em paz!
Todavia, ele escuta tudo; ele flutua em torno do seu corpo, que ele não
queria abandonar. Uma força misteriosa o atrai; ele vê e reconhece aquilo que
ele já tinha visto. Desesperado, ele se lança no espaço onde desejaria se
esconder. Nada de descanso, chega de repouso! Outros Espíritos lhe devolvem
o mal que ele fez e, castigado, ridicularizado e confuso, por sua vez ele vagueia
e vagueará até que um facho da luz divina penetre no seu endurecimento e o
esclareça, para lhe mostrar o Deus vingador, o Deus triunfante sobre todo o
mal, que ele não poderá apaziguar senão à força de gemidos e de expiações.
GEORGES
Jamais foi traçado um quadro mais eloquente, mais terrível e mais verdadeiro
sobre a destinação da pessoa malvada. Será que ainda é necessário recorrermos à
fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?
256 – Allan Kardec
NOVEL
(O Espírito se dirige ao médium que ele tinha conhecido enquanto estava vivo)
Vou te contar o que eu sofri quando morri. Meu Espírito, retido ao meu
corpo por laços materiais, teve grande dificuldade para se desprender — o
que já foi uma primeira e rude angústia. A vida que eu estava deixando aos
vinte e quatro anos ainda era tão intensa em mim que eu não podia crer na
sua perda. Eu procurava meu corpo e fiquei atônito e assustado ao me ver
perdido no meio dessa multidão de sombras. Por fim, a consciência do meu
estado e a revelação das faltas que eu havia cometido em todas as minhas
encarnações me atingiram abruptamente; uma luz implacável iluminava os
recônditos mais secretos da minha alma, que se sentia nua e depois tomada
de uma acabrunhante vergonha. Tentei escapar disso interessando-me por
objetos novos — novos, porém conhecidos — que me cercavam; os Espíritos
radiantes, flutuando no éter, me davam a ideia de uma felicidade à qual eu não
podia aspirar; formas sombrias e desoladas — algumas delas mergulhadas
num mórbido desespero, outras irônicas ou furiosas — deslizavam em torno
de mim e por sobre o chão ao qual eu permanecia atado. Eu via os humanos se
agitarem, cuja ignorância eu invejava; toda uma ordem de sensações
desconhecidas — ou redescobertas — invadiu-me de uma só vez. Impelido
como que por uma força irresistível, procurando fugir dessa dor feroz, então
atravessei distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as
belezas da natureza nem os esplendores celestes pudessem acalmar um
instante sequer o dilaceramento da minha consciência, nem o terror que me
causava a revelação da eternidade. Um mortal é capaz de pressentir as
torturas materiais pelos arrepios da carne, mas as suas frágeis dores,
suavizadas pela esperança, temperadas pelas distrações, mortas pelo
esquecimento, nunca poderão fazer vocês compreenderem as agonias de uma
alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Passei um
tempo, cuja duração não posso precisar, invejando os eleitos de quem eu via o
esplendor, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com as suas
chacotas, desprezando os humanos dos quais eu via as torpezas, passando de
um profundo desânimo para uma revolta insensata.
257 – O Céu e o Inferno
Finalmente você me evocou e, pela primeira vez, um sentimento doce e
terno me acalmou; escutei os ensinamentos que os teus guias te dão, a
verdade me penetrou e eu orei: Deus me ouviu; ele se revelou a mim por sua
clemência, assim como havia se revelado por sua justiça.
NOVEL
AUGUSTE MICHEL
(Le Havre, março de 1863)
Era um rapaz rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida
material. Conquanto inteligente, a indiferença pelas coisas sérias era a base do
seu caráter. Sem maldade, antes bom que mau, ele era estimado por seus
companheiros de farra e requisitado na alta sociedade por suas qualidades de
homem mundano. Ainda que não tenha praticado a maldade, também não fez
o bem. Morreu de uma queda da carruagem durante um passeio. Evocado
alguns dias depois do seu passamento por um médium que o conhecia
indiretamente, ele deu sucessivamente as seguintes comunicações:
8 de março de 1863 – Mal acabo de me livrar do meu corpo; assim
sendo, dificilmente posso falar com você. A terrível queda que matou meu
corpo colocou meu Espírito num estado de grande perturbação. Estou
inquieto com o que vai acontecer comigo e essa incerteza é cruel. O doloroso
sofrimento que o meu corpo experimentou não representa nada em
comparação com a perturbação pela qual estou passando. Ore para que Deus
me perdoe. Oh, que dor! Oh, meu Deus, tenha misericórdia! Quanta dor!
Adeus.
18 de março – Já estive com você, mas só pude falar com muita
dificuldade; ainda nesse momento eu mal posso me comunicar contigo. Você é
o único médium a quem eu posso pedir orações para que a bondade de Deus
me tire da perturbação em que me encontro. Por que sofrer ainda, se o meu
corpo não sofre mais? Por que essa dor horrível, essa angústia terrível
persistindo sempre?! Ore! Oh, ore para que Deus me conceda repouso… Oh,
258 – Allan Kardec
que incerteza cruel! Ainda estou ligado ao meu corpo. Só com dificuldade eu
posso ver onde estou; meu corpo lá está, e por que eu continuo lá também?
Venha orar sobre ele para que eu fique livre dessa cruel opressão. Deus há de
me perdoar, eu espero. Vejo os Espíritos que estão junto de ti e através deles
eu posso falar contigo. Ore por mim.
6 de abril – Sou eu quem vem te pedir que ore por mim. É preciso ir até
o lugar onde jaz o meu corpo, para rogar ao Todo-Poderoso que acalme os
meus sofrimentos! Estou sofrendo! Oh, como sofro! Vá até lá, porque isso é
necessário, e dirija ao Senhor uma prece para que ele me dê o perdão. Sinto
que eu poderei ficar mais tranquilo, porém volto incessantemente ao lugar em
que depositaram o que me pertencia.
Como o médium não tinha dado importância à insistência do Espírito, que lhe
solicitara ir orar sobre o seu túmulo, então tinha negligenciado aquele pedido. Porém,
mais tarde ele foi até lá, e naquele local ele recebeu a comunicação adiante:
11 de maio – Estava esperando por você; eu aguardava o momento em
que viesse ao local onde meu Espírito parece grudado ao seu envoltório, a fim
de implorar ao Deus de misericórdia para que sua bondade suavize os meus
sofrimentos. Você pode fazer o bem por mim com preces, não esmoreça, eu te
suplico. Eu vejo o quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ter sido;
vejo os erros que cometi. Fui um ser inútil no mundo; não fiz nenhum bom
uso das minhas capacidades; minha fortuna não serviu senão para satisfazer
às minhas paixões, aos meus prazeres luxuosos e à minha vaidade; só pensei
nos gozos do corpo, e não na minha alma. Será que a misericórdia de Deus
descerá sobre mim, pobre Espírito que ainda sofre pelas faltas terrenas? Ore
para que ele me perdoe, e que eu fique livre das dores que ainda sinto.
Agradeço por você ter vindo aqui orar por mim.
8 de junho – Agora posso falar, e agradeço a Deus por me permitir isso.
Eu vi minhas faltas e creio que Deus me perdoará. Siga teu caminho sempre
de acordo com a crença que te anima, porque ela te reserva para mais tarde
um repouso que eu ainda não tenho. Obrigado pelas tuas preces. Até mais ver!
A insistência desse Espírito para que fossem orar sobre o seu túmulo é uma
particularidade marcante, mas que tinha sua razão de ser se considerarmos o quanto
259 – O Céu e o Inferno
eram tenazes os laços que o retinham ao corpo, e o quanto a separação foi longa e
difícil, por consequência da materialidade da sua existência. Compreende-se que,
sendo feita mais próxima do corpo, a prece podia exercer uma espécie de ação
magnética mais poderosa para ajudar no desprendimento. Será que o costume quase
universal de orar perto do corpo dos defuntos não vem da intuição inconsciente que
nós temos desse efeito? Nesse caso, a eficácia da oração teria um resultado ao mesmo
tempo moral e material.
LAMENTAÇÕES DE UM BOÊMIO
(Bordeaux, 19 de abril de 1862)
30 de julho – Estou menos infeliz agora, pois não sinto mais a corrente
que me atava ao corpo; estou livre, enfim, mas ainda não completei a
expiação: preciso reparar o tempo perdido, se eu não quiser ver meus
sofrimentos se prolongarem. Deus — assim espero — verá meu sincero
arrependimento e certamente virá me conceder seu perdão. Continue orando
por mim, eu te suplico.
Homens, irmãos meus, eu vivi só para mim e hoje eu expio e sofro! Que
Deus lhes dê a graça de evitarem os espinhos nos quais me dilacero.
Caminhem na via larga do Senhor e orem por mim, porque eu abusei dos
benefícios que Deus empresta às suas criaturas!
Aquele que sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons
sentimentos que Deus coloca nele assemelha-se ao animal que o homem
muitas vezes maltrata. O homem deve usar com sobriedade os bens de que ele
é depositário; ele deve se habituar a viver só em vista da eternidade que o
aguarda, e, por consequência, deve se desapegar dos gozos materiais. Sua
alimentação não deve ter outro fim além da sua vitalidade; seu luxo deve estar
subordinado às necessidades estritas da sua posição; seus gostos, seus
pendores — mesmo os naturais — devem ser regidos pela mais forte razão,
pois sem isso ele se materializa em vez de se depurar. As paixões humanas
constituem um vínculo estreito que se infiltram na carne: então, não estreitem
ainda mais esse vínculo. Vivam, mas não sejam boêmios. Vocês não sabem o
quanto isso nos custa quando retornamos à pátria! As paixões terrenas os
260 – Allan Kardec
espoliam antes mesmo de os largarem, e aí vocês chegam ao Senhor nus,
inteiramente nus. Ah! Cubram-se de boas obras, porque elas ajudarão vocês a
franquear o espaço que os separa da eternidade; como um manto brilhante,
elas escondem as torpezas humanas de vocês. Vistam-se da caridade e do
amor, vestes divinas que ninguém pode remover.
Instruções do guia do médium – Este Espírito está num bom caminho,
pois ao arrependimento ele acrescenta conselhos para que se fique atento
quanto aos perigos da rota que ele seguiu. Reconhecer os erros já é um mérito
e um passo dado para o bem; eis por que a sua situação, mesmo sem ser feliz,
nem por isso é a de um Espírito sofredor. Ele está arrependido; resta-lhe a
reparação, que ele cumprirá numa outra existência de provações. Mas antes
de lá chegar: será que vocês percebem qual é a situação desses homens de
vida toda sensual que não deram ao próprio espírito outra atividade além da
de inventar incessantemente novos prazeres? A influência da matéria os
segue no além-túmulo e a morte não põe fim aos seus apetites que a sua vista
— tão limitada como na Terra — procura em vão os meios de os saciar. Jamais
tendo procurado o alimento espiritual, a alma deles vagueia no vazio, sem
rumo, sem esperança, presa à ansiedade do homem que não tem diante de si
nada além da perspectiva de um deserto sem fronteiras. A nulidade de suas
ocupações intelectuais durante a vida do corpo leva naturalmente à nulidade
do trabalho espiritual depois da morte; não podendo mais satisfazer o corpo,
nada lhes restará para satisfazer o Espírito. Daí, um tédio mortal do qual eles
não preveem o término, e ao qual eles prefeririam o nada. Mas o nada não
existe; eles puderam matar o corpo, porém não podem matar o Espírito. É
preciso, portanto, que eles vivam nessas torturas morais até que, vencidos
pelo desgaste, se decidam lançar um olhar para Deus.
LISBETH
(Bordeaux, 13 de fevereiro de 1862)
Um Espírito sofredor se inscreve com o nome de Lisbeth.
1. Poderia nos dar alguns detalhes a respeito da tua situação e a causa dos
261 – O Céu e o Inferno
teus sofrimentos? – R. Seja humilde de coração, submisso à vontade de Deus,
paciente nas provas, caridoso para com o pobre, encorajador para com o
fraco, caloroso de coração para com todos os sofrimentos e você não sofrerá
as torturas que eu enfrento.
2. Se você foi arrastado pelos erros contrários às qualidades que você aponta,
por outro lado, parece que você se arrepende deles. Esse arrependimento
consegue te aliviar? – R. Não; o arrependimento é inútil quando é apenas a
consequência do sofrimento. O arrependimento produtivo é aquele que tem
por base o remorso por ter ofendido Deus e o desejo ardente de reparar o
erro. Ainda não cheguei a esse ponto, infelizmente. Recomende-me às preces
de todos aqueles que se preocupam com os sofrimentos alheios, pois eu
preciso delas.
Aqui está uma grande verdade; o sofrimento às vezes provoca um grito de
arrependimento, mas que não é a expressão sincera do remorso por ter feito o mal,
porque, se o Espírito não estivesse sofrendo, ele estaria pronto para recomeçar suas
faltas. É por isso que o arrependimento nem sempre leva à imediata libertação do
Espírito; ele predispõe o remorso, só isso; porém, falta-lhe provar a sinceridade e a
firmeza de suas resoluções por meio de novas provações que formam a reparação do
mal que ele praticou. Se meditarmos cuidadosamente sobre todos os exemplos que
citamos, encontraremos nas palavras dos Espíritos — até mesmo dos mais inferiores
— sérios temas de instrução, porque elas nos apresentam os detalhes mais íntimos da
vida espiritual. Enquanto a pessoa superficial não verá nesses exemplos mais do que
narrativas mais ou menos curiosas, a pessoa séria e sensata encontrará neles uma
fonte abundante de estudos.
3. Farei o que você deseja. Poderia me dar alguns pormenores da tua última
existência? Isso pode resultar em algum ensinamento útil para nós, e assim
você tornaria o teu arrependimento produtivo.
(O Espírito demonstra uma grande indecisão ao responder a essa pergunta e
algumas outras seguintes.)
R. Nasci numa condição elevada. Eu tinha tudo o que os homens
consideram como a fonte da felicidade. Rica, fui egoísta; bela, fui vaidosa,
insensível, falsa; nobre, fui ambiciosa. Esmaguei com o meu poder todos os
que não se prostraram o bastante diante de mim, e esmaguei também aqueles
262 – Allan Kardec
que se encontravam sob meus pés, sem pensar que a cólera do Senhor
também esmaga, cedo ou tarde, as cabeças mais erguidas.
4. Em que época você viveu? – R. Há 150 anos, na Prússia.
5. Desde esse tempo, você não fez nenhum progresso como Espírito? – R. Não;
a matéria se revoltava sempre. Você não pode entender a influência que ela
ainda exerce, apesar da separação do corpo e do Espírito. O orgulho, veja só,
enlaça o indivíduo em correntes de bronze, cujos anéis apertam cada vez mais
o miserável que lhe entrega o coração. Orgulho, essa hidra de cem cabeças
sempre renascentes, que sabe modular seus assobios venenosos de tal
maneira que são interpretados como sendo uma música celestial! Orgulho,
esse demônio múltiplo que se curva a todas as aberrações do Espírito, que se
esconde em todos os refolhos do coração, que penetra nas veias, que envolve,
que absorve e em seguida arrasta às trevas da geena eterna!… sim, eterna!
O Espírito diz que não fez nenhum progresso, certamente porque sua situação é
sempre penosa; mas a maneira como descreve o orgulho e deplora as suas
consequências é incontestavelmente um progresso, pois seguramente, enquanto
estava encarnado, e mesmo logo após sua morte, ele não poderia raciocinar assim. Ele
compreende o mal e isso já é alguma coisa; a coragem e a determinação de evitá-lo lhe
virão em seguida.
6. Deus é bom demais para condenar suas criaturas a penas eternas; confie na
sua misericórdia. – R. Pode haver um fim para isso, dizem, mas onde? Eu o
procuro há muito tempo e só vejo sofrimento sempre! Sempre, sempre!
7. Como veio parar hoje aqui? – R. Um Espírito que às vezes me acompanha
me trouxe aqui. — Desde quando você vê esse Espírito? – R. Não faz muito
tempo. — E desde quando você se deu conta das faltas que cometeu? – R.
(após uma longa reflexão.) Sim, você tem razão; só então eu percebi.
8. Compreende agora a relação que há entre o teu arrependimento e a ajuda
visível prestada pelo teu Espírito protetor? Veja como origem desse apoio o
amor de Deus, e veja como objetivo seu perdão e sua misericórdia infinita. –
R. Oh, como eu desejaria isso! — Creio que posso te prometer isso pelo nome
sagrado daquele que jamais foi surdo à voz dos filhos em sofrimento. Chame-o
263 – O Céu e o Inferno
do fundo do teu arrependimento e ele te ouvirá. – R. Não posso; tenho medo.
9. Oremos juntos; ele nos escutará. (Depois da prece.) Você ainda está aqui? – R.
Sim. Obrigada! Não se esqueça de mim.
10. Venha e compareça aqui todos os dias. – R. Sim, sim, eu voltarei sempre.
O guia do médium. – Não esqueçam jamais os ensinamentos que vocês
colhem nos sofrimentos dos seus protegidos, e sobretudo nas causas desses
sofrimentos; não esqueçam que elas servem de lição para todos, a fim de
protegê-los dos mesmos perigos e dos mesmos castigos. Purifiquem seus
corações, sejam humildes, amem-se, ajudem-se, e que seus corações
agradecidos não esqueçam jamais a fonte de todas as graças, fonte inesgotável
na qual cada um de vocês pode se saciar em abundância; fonte de água viva
que mata a sede e ao mesmo tempo nutre; fonte de vida e felicidade eterna.
Vão até ela, meus bem-amados, bebam dela com fé; lancem ali as suas redes, e
elas sairão dessas ondas carregadas de bênçãos. Compartilhem-na com seus
irmãos, advertindo-os dos perigos que eles podem encontrar. Repartam as
bênçãos do Senhor; elas renascem sem cessar; quanto mais as despejarem ao
seu redor, mais elas se multiplicarão. Vocês as têm em suas mãos, pois, ao
dizer aos seus irmãos: “Ali estão os perigos, ali estão os escolhos; venham
conosco para os evitar; imitem-nos, nós que damos o exemplo”, então vocês
espalham as bênçãos do Senhor sobre aqueles que os escutam.
Benditos sejam seus esforços, meus bem-amados. O Senhor ama os
corações puros; sejam merecedores do amor dele.
SANTO PAULINO
PRINCIPE OURAN
(Bordeaux, 1862)
Um Espírito sofredor apresentou-se com o nome de Ouran, ex-príncipe
russo:
P. Gostaria de nos dar alguns detalhes sobre a tua situação? – R. Oh,
bem-aventurados os humildes de coração, porque a eles pertence o reino dos
264 – Allan Kardec
céus! Orem por mim. Felizes são aqueles que, humildes de coração, escolhem
passar suas provações numa posição modesta. Vocês não sabem — vocês
todos que são devorados pela inveja — a que estado é reduzido aqueles a
quem vocês chamam de felizardos na Terra; vocês não sabem das brasas
ardentes que eles amontoam sobre suas cabeças; não sabem dos sacrifícios
que a riqueza impõe quando se quer aproveitá-la para a salvação eterna! Que
o Senhor me permita — a mim, um déspota orgulhoso — vir expiar, entre
aqueles a quem oprimi com a minha tirania, os crimes que o orgulho me fez
cometer! Orgulho! Repita essa palavra constantemente para jamais esquecer
que ele é a fonte de todos os sofrimentos que nos envergonham. Sim, eu
abusei do poder e dos favores de que eu dispunha; fui duro e cruel para com
meus inferiores, que deviam se curvar a todos os meus caprichos, satisfazer
todas as minhas depravações. Eu quis para mim a nobreza, as honras e a
fortuna; então sucumbi sob o peso que assumi acima das minhas forças.
Os Espíritos que fracassam geralmente tendem a dizer que eles tinham uma
carga superior às suas forças; isso é uma forma de se desculparem aos próprios olhos,
e mais um resquício de orgulho: eles não querem ter falido por erro deles. Deus não
dá a ninguém mais do que se possa suportar; ele não pede a ninguém mais do que se
possa dar; não exige que a árvore nascente produza os frutos da árvore já totalmente
crescida. Deus dá aos Espíritos a liberdade; o que ele lhes pede é vontade, e a vontade
só depende deles. Com a vontade, não existem tendências viciosas que não possam ser
vencidas; mas quando alguém se satisfaz com um vício, é natural que ele não faça
esforços para superá-lo. Portanto, é preciso culpar somente a si mesmo pelas
consequências que daí resultam.
P. Você tem consciência dos teus erros; isso já é um primeiro passo para o
melhoramento. – R. Essa consciência ainda é um sofrimento. Para muitos
Espíritos o sofrimento é um efeito quase material, porque, ainda presos à
humanidade da sua derradeira existência, eles não percebem as sensações
morais. Meu Espírito se libertou da matéria e o sentimento moral aumentou
de tudo o que as cruéis sensações físicas tinham de horrível.
P. Consegue prevê um término para os teus sofrimentos? – R. Sei que eles não
serão eternos; mas o fim, ainda não o concebo; falta-me antes recomeçar a
provação.
265 – O Céu e o Inferno
P. Você espera recomeçar em breve? – R. Ainda não sei.
P. Tem lembrança dos teus antecedentes? Pergunto isso com a intenção de
aprendizado. – R. Sim, aqui estão teus guias que sabem do que você precisa.
Vivi no tempo de Marco Aurélio.90 Já nessa época, então poderoso, sucumbi ao
orgulho, causa de todas as quedas. Após ter errado por séculos, quis tentar
uma vida obscura. Pobre estudante, mendiguei o pão, mas o orgulho sempre
esteve presente; o Espírito tinha adquirido ciência, mas não virtude. Sábio e
ambicioso, vendi minha alma às ofertas maiores, servindo a todas as
vinganças, a todos os ódios. Sentia-me culpado, porém a sede das honras e das
riquezas abafava os gritos da minha consciência. A expiação também foi longa
e cruel. Enfim, na minha última encarnação, eu desejei recomeçar uma vida de
luxo e de poder; achando que podia dominar os perigos, não escutei as
advertências: o orgulho conduziu-me de novo a confiar mais no meu próprio
julgamento do que no dos protetores amigos que não cessam de velar por nós.
Você sabe o resultado dessa última tentativa.
Hoje, enfim compreendi e espero a misericórdia do Senhor. Coloco a
seus pés o meu orgulho esmagado e lhe peço para carregar meus ombros com
o seu mais pesado fardo de humildade, ajudado por sua graça, o peso me
parecerá leve. Ore comigo e por mim; peça também para que esse demônio de
fogo não devore em você os instintos que o levam em direção a Deus. Irmãos
em sofrimentos, que o meu exemplo sirva para vocês, e não se esqueçam
jamais de que o orgulho é o inimigo da felicidade, pois dele decorrem todos os
males que assolam a humanidade e a perseguem até nas regiões celestes.
O guia do médium. – Você tem alimentado dúvidas sobre esse Espírito,
porque a linguagem dele não te parece de acordo com o estado de sofrimento
que sua inferioridade demonstra; Não tema: você recebeu uma mensagem
séria. Por mais sofredor que seja esse Espírito, ele é bastante elevado em
inteligência para falar o que ele disse. Só lhe faltava a humildade, sem a qual
nenhum Espírito pode chegar a Deus. Essa humildade, ele a conquistou agora,
e nós esperamos que, com perseverança, ele saia triunfante de uma nova
provação.
90 Marco Aurélio (121 – 180), imperador romano entre os anos 161 e 180. — N. T.
266 – Allan Kardec
Nosso Pai celestial é pleno de justiça em sua sabedoria; ele leva em conta
os esforços feitos pelo homem para domar seus maus instintos. Cada vitória
conquistada sobre si mesmo é um degrau alcançado nessa escada em que uma
extremidade se apoia na Terra e a outra se apoia nos pés do Juiz supremo.
Portanto, subam seus degraus confiantemente; eles são fáceis de escalar para
quem tem uma vontade firme. Olhem sempre para cima a fim de se
encorajarem, pois ai daquele que se detém e vira a cabeça! Este, logo é
atingido pela vertigem; o vazio que o cerca o apavora; então ele se acha sem
forças e exprime: para que querer seguir adiante, se eu caminhei tão pouco?!
Não, meus amigos, não virem a cabeça! O orgulho está incorporado no
homem. Pois bem! Usem esse orgulho para lhes dar força e coragem de
completar sua ascensão. Usem-no para dominar suas fraquezas e subam ao
cume da montanha eterna.
PASCAL LAVIC
(Le Havre, 9 de agosto de 1863)
Esse Espírito se comunicou espontaneamente ao médium, sem que este
o tivesse conhecido em vida, nem mesmo de nome:
“Creio na bondade de Deus, que bem quis ter misericórdia do meu
Espírito. Eu sofri, sofri muito, e meu corpo se perdeu no mar. Meu Espírito
ficou sempre atado ao meu corpo, e por muito tempo ele vagou sobre as
ondas. Deus…”
(A comunicação foi interrompida; no dia seguinte, o Espírito continuou:)
“[…] teve a bondade de permitir que as preces dos que ficaram na Terra
me tirassem do estado de perturbação e de incerteza em que meu Espírito
estava mergulhado. Eles me esperaram por muito tempo e então puderam
encontrar meu corpo; ele agora repousa, enquanto meu Espírito, desprendido
com dificuldade, vê as faltas cometidas. Consumada a provação, Deus julga
com justiça e a sua bondade se estende sobre os arrependidos.
“Se, por muito tempo, meu Espírito vagou junto com meu corpo, é que eu
tinha o que expiar. Sigam o caminho certo, se vocês quiserem que Deus retire
prontamente o Espírito de vocês do seu invólucro. Vivam no amor dele, orem,
267 – O Céu e o Inferno
e a morte, que apavora alguns, lhes será doce, porque vocês sabem da vida
que os espera. Eu caí no mar, e por muito tempo me esperaram. Não poder me
desligar do corpo era para mim uma terrível prova; por isso preciso das suas
preces, de vocês que foram introduzidos na crença que salva, de vocês que
podem pedir por mim ao Deus justo. Arrependo-me e espero que ele bem
queira me perdoar. Foi em 6 de agosto que meu corpo foi achado; eu era um
pobre marinheiro e estava morto há muito tempo. Orem por mim!”
PASCAL LAVIC
P. Onde você foi encontrado? – R. Perto de vocês.
O Journal du Havre de 11 de agosto de 1863 continha o artigo seguinte,
do qual o médium não podia ter conhecimento:
“Tínhamos anunciado que havia sido encontrado, no dia 6 deste mês,
um resto de cadáver encalhado entre Bléville e La Hève. A cabeça, os braços e
o busto estavam removidos, no entanto, sua identidade pôde ser constatada
pelo sapato ainda preso aos pés. Reconheceu-se assim que o corpo era do
pescador Lavic, falecido em 11 de dezembro a bordo do barco L’Alerte,
levado de Trouville por uma tempestade. Nascido em Calais, Lavic tinha a
idade de 49 anos. Foi a viúva do defunto que reconheceu a identidade dele.”
A 12 de agosto, como se tratasse desse acontecimento no centro onde o
Espírito tinha se manifestado pela primeira vez, ele se comunicou de novo,
espontaneamente:
“Sou realmente Pascal Lavic, e tenho necessidade das suas preces. Vocês
podem me fazer o bem, pois a provação que sofri foi terrível. A separação
entre o meu Espírito e o meu corpo só foi feita depois que eu reconheci as
minhas faltas; e nem assim eles se desligaram inteiramente; o corpo seguiu no
mar que o havia engolido. Por isso, peçam a Deus para me perdoar; roguem
para que ele me dê repouso. Orem, eu imploro a vocês. Que esse terrível fim
de uma infeliz existência terrestre seja para vocês um ensinamento muito
grande! Vocês devem pensar na vida futura e nunca deixar de pedir a Deus
pela sua misericórdia. Rezem por mim; eu preciso que Deus tenha piedade de
mim.”
PASCAL LAVIC
268 – Allan Kardec
FERDINAND BERTIN
Um médium, morando no Havre, evocou o Espírito de uma pessoa que
ele tinha conhecido. Esse Espírito respondeu: “Quero me comunicar, mas não
consigo vencer o obstáculo que existe entre nós; sou obrigado a deixar esses
infelizes que sofrem a se aproximarem de você.” Depois, ele recebeu
espontaneamente a comunicação seguinte:
“Estou num abismo horrível! Ajude-me… Ó meu Deus! Quem me tirará
desse precipício?… Quem estenderá uma mão socorrista ao infeliz tragado
pelo mar?… A noite é tão escura que tenho medo… Por toda parte o marulho
das ondas, e nenhuma palavra amiga para me consolar e me ajudar neste
momento extremo; pois esta noite profunda é a morte em todos os seus
horrores, e eu não quero morrer!… Oh, meu Deus! Não é a morte futura, é a
passada!… Estou separado para sempre dos que amo… Vejo o meu corpo, e o
que há pouco eu sentia era apenas a lembrança da horrenda angústia da
separação… Tenham piedade de mim, vocês que conhecem o meu sofrimento;
orem por mim, pois não quero mais sentir todas aquelas dilacerações da
agonia, como tem sido desde aquela noite fatal!… É essa, portanto, a minha
punição; eu a pressinto… Rezem, eu imploro!… Oh, o mar… o frio… vou ser
engolido… Socorro!… Tenham piedade! Não me rejeitem!… Nós dois nos
salvaremos sobre estes destroços!… Oh, estou sufocando; as águas vão me
engolir e os meus parentes não terão nem a triste consolação de me rever!…
Mas não; eu vejo que meu corpo não está mais sendo chacoalhado pelas
ondas… As preces de minha mãe serão atendidas. Minha pobre mãe! Se ela
pudesse imaginar seu filho tão miserável como de fato ele é, ela rezaria mais;
mas ela crê que a causa da minha morte santificou o passado; ela chora por
mim martirizado, e não infeliz e castigado!… Oh, vocês que sabem, será que
são impiedosos? Não, vocês rezarão…
FRANÇOIS BERTIN
Esse nome, completamente desconhecido do médium, não lhe sugeriu
nenhuma lembrança; então ele achou que fosse provavelmente o Espírito de
algum infeliz náufrago que viesse se manifestar espontaneamente a ele, assim
como já lhe havia acontecido várias vezes. Ele soube mais tarde que se tratava
269 – O Céu e o Inferno
de fato, do nome de uma das vítimas de um grande desastre marítimo
ocorrido nessas paragens em 2 de dezembro de 1863. A comunicação foi dada
em 8 do mesmo mês, seis dias após a catástrofe. O indivíduo tinha morrido
fazendo tentativas incomuns para salvar a tripulação e no momento em que
acreditava que sua segurança estava garantida.
Esse indivíduo não tinha qualquer parentesco com o médium, nem
sequer conhecimento dele; então, por que ele teria se manifestado a ele em
vez de a qualquer membro da sua família? É que os Espíritos não encontram
em qualquer pessoa as condições fluídicas requeridas para tal efeito; além
disso, na perturbação em que estava, ele não tinha a liberdade de escolher,
mas foi conduzido instintivamente e por atração para esse médium que, ao
que parece, era dotado de uma aptidão especial para as comunicações
espontâneas desse gênero. Sem dúvidas, ele pressentia também que nele
encontraria uma simpatia particular, como outros a encontraram em
circunstâncias parecidas. Sua família — estranha ao Espiritismo, talvez até
antipática a essa crença — não teria acolhido sua revelação, como esse
médium acolheu.
Embora a morte tivesse ocorrido já há alguns dias, o Espírito ainda sofria
todas as suas angústias. Era evidente que ele não tinha nenhuma consciência
da sua situação; acreditava ainda estar vivo, lutando contra as ondas, e ainda
assim ele fala do seu corpo como se estivesse separado dele; pede socorro, diz
que não quer morrer e um instante depois ele fala da causa da sua morte, que
ele reconhece ser um castigo. Tudo isso denota a confusão de ideias que quase
sempre segue as mortes violentas.
Dois meses mais tarde, a 2 de fevereiro de 1864, ele se comunica de novo
espontaneamente com o mesmo médium e lhe dita o que se segue:
“A piedade que você teve dos meus sofrimentos tão horríveis me aliviou.
Compreendo a esperança, entrevejo o perdão, mas após o castigo da falta
cometida. Estou sempre sofrendo, e se Deus permite que por alguns
momentos eu vislumbre o fim da minha infelicidade, não é senão às preces
das almas caridosas, sensibilizadas pela minha situação, que eu devo esse
abrandamento. Ó esperança, raio do céu, como é bendita quando te sinto
brotar na minha alma!… Mas, infelizmente, o abismo se abre, o terror e o
270 – Allan Kardec
sofrimento enfraquecem essa lembrança da misericórdia. A noite, sempre a
noite!… a água, o bramir das ondas que tragaram meu corpo, não passam de
uma pálida imagem do horror que envolve o meu pobre Espírito… Fico mais
calmo quando posso ficar com você, pois assim como um terrível segredo
depositado no peito amigo alivia aquele que por isso era oprimido, assim
também a tua piedade, motivada pela confidência da minha miséria, acalma
meu mal, tranquiliza meu Espírito… Tuas preces me fazem bem; não as recuse
a mim. Não quero tombar nesse horrível sonho que se torna realidade quando
o vejo… Tome o lápis com mais frequência; comunicar-me contigo me faz
tanto bem!”
Daí a alguns dias, esse mesmo Espírito tendo sido evocado numa reunião
espírita em Paris, a ele foram dirigidas as seguintes perguntas, às quais ele
respondeu numa única comunicação e por outro médium:
Quem te levou a se manifestar espontaneamente ao primeiro médium,
ao qual você se comunicou? — Há quanto tempo você estava morto quando se
manifestou? — Quando se comunicou, você parecia incerto se ainda estava
vivo ou se estava morto, experimentando todas as angústias de uma morte
terrível; você agora tem uma melhor compreensão da tua situação? — Você
tinha dito positivamente que a tua morte era uma expiação; gostaria de nos
dizer a causa dela? Isso será um aprendizado para nós e um alívio para você.
Por essa confissão sincera você atrairia a misericórdia de Deus, a qual nós
solicitaremos em nossas preces.
R. Parece impossível à primeira vista que uma criatura possa sofrer tão
cruelmente. Deus! Como é penoso se ver constantemente em meio às ondas
furiosas, sentindo sem cessar essa amargura, esse frio glacial que sobe e
aperta o estômago!
Mas qual é o sentido de sempre entretê-los com tais espetáculos? Não
deveria eu começar obedecendo às leis da gratidão, agradecendo-lhes, a vocês
todos que se tanto importam com meus tormentos? Vocês perguntam se eu
me comuniquei muito tempo depois da morte? Não posso responder
facilmente. Pensem e avaliem em que horrível situação ainda estou. Contudo,
fui trazido para junto do médium — creio eu — por uma vontade estranha à
minha, e, coisa impossível para eu perceber, eu me servi do braço dele com a
271 – O Céu e o Inferno
mesma facilidade com que me sirvo deste braço neste momento,
convencido de que ele me pertence. Estou sentido agora mesmo um
grandíssimo prazer, assim como que um alívio particular que, infelizmente,
cessará em breve. Mas, ó meu Deus, será que eu terei uma confissão a fazer?
Será que eu terei forças para isso?
Depois de muitos encorajamentos, o Espírito acrescenta: Eu era muito
culpado! O que mais me dói é que achavam que eu era um mártir; não sou
nada disso! Numa precedente existência eu mandei colocar num saco várias
vítimas e jogar no mar… Orem por mim!
Comentários de são Luís sobre esta comunicação:
Esta confissão será uma causa de grande lenitivo para esse Espírito. Sim,
ele era muito culpável; mas a existência que ele acaba de deixar foi honrosa,
tendo sido amado e estimado pelos seus patrões, como fruto do seu
arrependimento e das boas resoluções que ele havia tomado antes de voltar à
Terra, onde quis ser tão humano quanto tinha sido cruel. A dedicação da qual
ele deu provas era uma reparação, mas lhe faltava redimir as faltas passadas
por uma derradeira expiação: a da morte cruel pela qual ele passou; ele
mesmo quis se purificar submetendo-se às torturas que outrora impusera a
outras pessoas. E notem que uma ideia o persegue: o remorso de ver que ele
seja considerado um mártir. Saibam que lhe será levado em conta esse
sentimento de humildade. Desde então, ele deixou a via da expiação para
entrar na da reabilitação. Através de suas preces, vocês podem sustentá-lo,
fazendo-o caminhar com passos mais firmes e seguros.
FRANÇOIS RIQUIER
François Riquier, bastante conhecido, era um velho solteirão e avarento,
falecido em C…, em 1857, deixando uma considerável fortuna aos parentes
colaterais. Ele era proprietário de um imóvel onde em uma determinada
época morava uma senhora, que depois já tinha se esquecido dele
completamente, e nem mesmo sabia se ele ainda estava nesse mundo. Em
1862, uma filha dessa senhora — que é suscetível a crises de catalepsia
272 – Allan Kardec
seguidas de um sono magnético espontâneo, e que também é uma excelente
médium escrevente — viu num dos seus sonos o Sr. Riquier, que, dizia ele,
queria se dirigir à mãe dela. Alguns dias depois, tendo ele se manifestado
espontaneamente e confirmando o desejo de falar com aquela senhora, foi-lhe
perguntado o seguinte:
P. O que você quer de nós? – R. Meu dinheiro, que aqueles miseráveis se
apossaram para o repartirem entre si! Venderam minhas fazendas, minhas
casas, tudo, para dividirem entre eles. Dilapidaram meu patrimônio, como se
não me pertencesse. Façam-me justiça, pois, a mim, eles não me escutam e
não quero ver tais infâmias. Eles dizem que eu era mesquinho, e guardam
meu dinheiro! Por que eles não o querem me devolver? Porventura eles
acham que foi mal ganho?
P. Mas você está morto, meu bom senhor! Você não precisa mais de
dinheiro. Peça a Deus para ter uma nova existência, como pobre, para expiar a
avareza desta última existência. – R. Não, eu não poderia viver sendo pobre.
Preciso do meu dinheiro para viver. Além disso, não tenho necessidade de
outra vida, já que estou vivo no presente.
P. (A pergunta seguinte foi feita no intuito de o trazer à realidade.) Você está
sofrendo? – R. Oh, sim! Estou sofrendo torturas piores do que a doença mais
cruel, pois é minha alma que sofre essas torturas. Sempre tenho presente no
pensamento a iniquidade da minha vida, que foi um motivo de escândalo para
muita gente. Eu bem sei que sou um miserável indigno de piedade; mas eu
sofro tanto que é preciso vocês me ajudarem a sair desse estado miserável.
P. Rezaremos por você. – R. Obrigado! Rezem para que eu esqueça
minhas riquezas terrenas, sem o que eu jamais poderei me arrepender. Adeus
e obrigado!
FRANÇOIS RIQUIER, Rua da Caridade, nº 14
É bastante curioso ver esse Espírito indicar seu endereço, como se ainda
estivesse vivo. A senhora, que o ignorava, apressou-se em verificar a indicação
e ficou bastante espantada por saber que a casa indicada tinha sido
exatamente a última habitação dele. Assim, após cinco anos, ele não se
273 – O Céu e o Inferno
considerava morto, e ainda se achava na ansiedade — o que é terrível para
um avarento — de ver seus bens repartidos entre seus herdeiros. A evocação,
certamente provocada por algum bom Espírito, teve como resultado lhe fazer
compreender sua situação, além de o predispor ao arrependimento.
CLAIRE
(Sociedade de Paris, 1861)
O Espírito que ditou as comunicações seguintes é o de uma mulher que o
médium conheceu quando ela estava viva e cuja conduta e caráter justificam
muito bem os tormentos que está enfrentando. Ela era dominada sobretudo
por um sentimento excessivo de egoísmo e de personalidade, que se reflete na
terceira comunicação, por sua pretensão em querer que o médium só se
ocupe com ela. Essas comunicações foram obtidas em diversas épocas; as três
últimas denotam um sensível progresso nas disposições do Espírito, graças ao
cuidado do médium, que empreendera a sua educação moral.
I. Eis-me aqui, eu, a infeliz Claire; o que você quer que eu te diga? A resignação
e a esperança não passam de palavras para quem sabe que, incontáveis como
os cascalhos da praia, seus sofrimentos durarão pela sucessão dos séculos
intermináveis. Posso atenuá-los, você diz?… Que discurso vago! Onde
encontrar coragem e esperança para isso? Portanto, seu tapado, trate de
entender o que é um dia que jamais se acaba. Seria um dia, um ano ou um
século?… O que eu sei sobre isso? As horas não o dividem, as estações não
variam; eterno e lento como a água que brota da rocha, este dia execrável,
este dia maldito, que pesa sobre mim como uma urna de chumbo… Eu sofro!…
Nada vejo em torno de mim além das sombras silenciosas e indiferentes…
Como eu sofro!
Eu sei, no entanto, que acima desta miséria reina Deus, o Pai, o mestre,
aquele para o qual tudo se encaminha. Quero pensar nele, quero lhe implorar.
Debato-me e me arrasto como um estropiado que rasteja ao longo do
caminho. Não sei que poder me atrai a você; será você a salvação? Depois que
falo contigo, fico um pouco mais calma, mais reanimada; como uma velha
274 – Allan Kardec
frienta reaquecida por um raio de sol, minha alma gélida ganha nova vida ao
se aproximar de você.
II. Meu infortúnio aumenta a cada dia; ele aumenta à medida que o
conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria! Quanto eu
amaldiçoo as horas de culpas, de egoísmo e de esquecimento, em que,
ignorando toda a caridade, todo o devotamento, eu não pensava senão no meu
bem-estar! Malditos sejam os negócios humanos! Vãs preocupações em
interesses materiais! Malditas sejam essas coisas que me cegaram e me
levaram à perdição! Estou consumida pelo incessante remorso do tempo
desperdiçado. O que direi a você que me ouve? Cuide sempre de si mesmo;
ame os outros mais do que a si próprio; não se retarde nos caminhos da
bonança material; não engorde o teu corpo às custas da tua alma; vigie, como
dizia o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeça por esses conselhos,
pois meu Espírito os concebe, mas meu coração nunca os escutou. Igual a um
cão açoitado, o medo me fez rastejar, mas ainda não conheço o amor
voluntário; sua divina aurora tarda muito a se levantar! Ore por minha alma
ressequida e tão miserável!
III. Venho até aqui te procurar porque você me esqueceu. Acha então que
preces isoladas pronunciando meu nome bastarão para o apaziguamento da
minha penúria? Não, cem vezes não. Estou rugindo de dor; perambulo sem
repouso, sem abrigo, sem esperança, sentindo o eterno aguilhão do castigo a
perfurar minha alma revoltada. Dou risada quando ouço teus lamentos,
quando o vejo abatido. O que significam essas tuas pálidas misérias, essas
tuas lágrimas, esses teus tormentos que o sono suspende?! Por acaso eu
durmo? Eu quero — está ouvindo? —, eu quero que deixe tuas dissertações
filosóficas e cuide de mim; faça com que os outros se ocupem com elas. Não
encontro expressões para descrever a agonia desse tempo que se escoa, sem
que as horas marquem seus períodos. Eu mal vejo um tímido raio de
esperança, e essa esperança foi você quem me deu; então não me abandone!
IV. O Espírito são Luís – Este quadro é todo verdadeiro; ele não é nada
exagerado. Talvez alguém possa perguntar o que essa mulher fez para ser tão
275 – O Céu e o Inferno
miserável. Teria ela cometido algum crime horrível? Roubou? Assassinou?
Não; ela nada fez que merecesse a justiça dos homens. Ao contrário, ela se
divertia com o que vocês chamam de felicidade terrestre; beleza, fortuna,
prazeres, adulações, tudo lhe sobrava e nada lhe faltava, e as pessoas diziam
ao vê-la: Que mulher felizarda! E todos invejavam a sorte dela. Então, o que
ela fez? Foi egoísta; ela possuía tudo, exceto um bom coração. Se ela não
violou a lei dos homens, violou a de Deus, pois desprezou a caridade — a
primeira das virtudes. Ela só amou a si mesma, e agora não é amada por
ninguém; ela não deu nada, então nada lhe é dado; ela está isolada, largada,
abandonada, perdida no espaço onde ninguém pensa nela, ninguém se
preocupa com ela: isso é o que constitui o seu suplício. Como ela não procurou
além dos prazeres mundanos, e que agora esses prazeres não existem mais, o
vazio se fez em torno dela; ela só vê apenas o nada, e o nada lhe parece eterno.
Ela não está sofrendo torturas físicas: os diabos não vêm atormentá-la, mas
isso não é necessário, pois ela atormenta a si mesma, e assim ela sofre bem
mais, porque os tais diabos ao menos seriam seres que pensariam nela. O
egoísmo foi a sua alegria na Terra: ele a persegue e é atualmente o verme que
lhe consome o coração — seu verdadeiro demônio.
SÃO LUÍS
V. Vou lhes falar da importante diferença que existe entre a moral divina e a
moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abandono e diz
aos pecadores: “Arrependam-se e o reino dos céus será aberto para vocês.” A
moral divina, enfim, aceita todo arrependimento e todas as faltas confessadas,
ao passo que a moral humana rejeita tudo isso e admite, sorrindo, aos
pecados ocultos que — diz ela — são parcialmente perdoados. Para uma, a
graça do perdão; para a outra, a hipocrisia. Escolham, Espíritos ávidos da
verdade! Escolham entre os céus abertos ao arrependimento e a tolerância
que admite o mal sem reprimir seu egoísmo e seus falsos arranjos, mas que
repulsa a paixão e os soluços das faltas confessadas em plena luz do dia.
Arrependam-se todos vocês que pecam; renunciem ao mal, e acima de tudo
renunciem à hipocrisia, que encobre a feiura, a máscara risonha e mentirosa
das conveniências.
276 – Allan Kardec
VI. Agora estou calma e resignada à expiação das faltas que cometi. O mal está
em mim, e não fora; sou eu, portanto, que me devo modificar, e não as coisas
exteriores. Nós trazemos conosco o nosso céu e o nosso inferno; logo, nossas
faltas, gravadas na consciência, podem ser lidas correntemente no dia da
ressurreição; então, somos nós os nossos próprios juízes, já que o estado da
alma nos eleva ou nos afunda. Eu me explico: um Espírito sujo e
sobrecarregado de erros não pode conceber nem desejar uma elevação que
ele não seria capaz de suportar. Acreditem bem nisso: assim como as
diferentes espécies de seres vivem cada qual na esfera que lhe é própria, da
mesma forma os Espíritos, segundo o grau do seu avanço, se movem no meio
que é semelhante às suas faculdades; eles não concebem outro meio senão
quando o progresso — instrumento da lenta transformação das almas — os
afasta de suas tendências vulgares e lhes faz depurar a crisálida do pecado, a
fim de que possam voar antes de se lançarem, rápidos como flechas, para
Deus — o objetivo único e desejado. Infelizmente, ainda estou rastejando, mas
não odeio mais, e já concebo a inefável felicidade do amor divino. Por isso,
orem sempre por mim, que espero e aguardo.
Na comunicação adiante, Claire fala de seu marido, a quem ela muito fez sofrer
quando estava viva; fala também da posição em que hoje ele se encontra no mundo
espiritual. Esse quadro, que ela não pôde completar por si mesma, foi completado
pelo guia espiritual do médium.
VII. Venho a você, que me deixa por tanto tempo no esquecimento; porém, eu
tenho adquirido paciência e não estou mais desesperada. Você quer saber
qual é a situação do pobre Félix; ele vagueia nas trevas, preso ao profundo
desnudamento da alma. Seu ser superficial e leviano, contaminado pelo
prazer, sempre ignorou o amor e a amizade. A paixão nem sequer o iluminou
com suas luzes sombrias. Eu comparo sua situação presente com a de uma
criança inapta para as funções da vida e privada de todo o socorro daqueles
que a assistem. Félix vaga com medo nesse mundo estranho onde tudo
resplandece com o brilho de Deus, que ele negou…
VIII. O guia do médium – Claire não pode continuar a análise dos sofrimentos
277 – O Céu e o Inferno
do seu marido sem também sentir a mesma coisa; então, vou falar por ela.
Félix — que era superficial tanto nas ideias como nos sentimentos,
violento porque era fraco, depravado porque era frio — entrou no mundo dos
Espíritos nu tanto na condição moral quanto fisicamente. Passando pela vida
terrestre, ele nada adquiriu, e por isso tem de recomeçar tudo. Como um
homem que acorda de um sono prolongado e que reconhece quão vã era a
agitação dos seus nervos, esse pobre ser, ao sair da perturbação, reconhecerá
que viveu de quimeras que desvirtuaram sua vida; amaldiçoará o
materialismo que o fez abraçar o vazio, enquanto achava estar agarrando a
realidade; amaldiçoará o positivismo que o fez chamar as ideias de uma vida
futura de devaneios; chamar as aspirações de tolices, e a crença em Deus de
fraqueza. O infeliz, ao despertar, verá que esses nomes, zombados por ele,
eram a fórmula da verdade e que, ao contrário da fábula, a caça à presa foi
menos proveitosa que a da sombra.
GEORGES
Estudo sobre as comunicações de Claire
Estas comunicações são instrutivas sobretudo naquilo que elas nos
mostram uma das faces mais vulgares da vida: a do egoísmo. Não se trata
desses grandes crimes que horrorizam até mesmo os homens perversos, mas
sim a condição de um monte de gente que neste mundo vive honrada e
bajulada, por ter um certo verniz e porque não cai na malha das leis sociais.
Nem se trata também, no mundo dos Espíritos, desses castigos excepcionais,
cuja imagem faz tremer, mas sim de uma situação simples, natural,
consequência da sua maneira de viver e do estado da sua alma; trata-se do
isolamento, do desprezo e do abandono: eis a punição daquele que só viveu
para si. Como foi visto, Claire era um Espírito muito inteligente, porém um
coração seco; na Terra, sua posição social, sua fortuna, seus atributos físicos
lhe atraíam elogios que lisonjeavam sua vaidade, e isso lhe bastava. No mundo
espiritual, ela só encontra indiferença, e o vazio se faz em torno dela: punição
mais pungente do que a dor, porque é mortificante, visto que a dor inspira dó,
compaixão: esse é também um meio de atrair atenção, de fazer com que se
278 – Allan Kardec
ocupem com ela, de se interessarem com seu destino.
A sexta comunicação contém uma ideia perfeitamente verdadeira, no
que ela explica a obstinação de certos Espíritos no mal. É espantoso ver que
alguns deles sejam insensíveis ao pensamento e até o espetáculo da felicidade
de que os bons Espíritos desfrutam. Eles estão exatamente na posição dos
homens degradados que se comprazem na lama e nas delícias grosseiras e
sensuais. Aqui, esses homens estão de alguma forma no seu próprio ambiente;
eles não concebem as gratificações delicadas; preferem seus trapos sujos a
vestes limpas e brilhantes, pois aí eles estão mais à vontade; preferem suas
festas bacanais, ao sabor da boa companhia. Eles se sentem tão identificados
com esse gênero de vida, que isso se tornou para eles uma segunda natureza;
julgam-se até mesmo incapazes de se elevarem acima da sua esfera, razão
pela qual eles aí permanecem até que uma transformação do ser abra a
inteligência deles, desenvolvendo neles o senso moral e os torne acessíveis a
sensações mais sutis.
Esses Espíritos, quando estão desencarnados, não podem adquirir
instantaneamente a delicadeza do sentimento e, durante um tempo mais ou
menos longo, eles ocuparão as profundezas do mundo espiritual, tal como
ocupavam as do mundo corporal. Eles lá ficarão enquanto forem rebeldes ao
progresso; porém, a longo prazo, através da experiência, das tribulações e
misérias das encarnações sucessivas, chega um momento em que eles
concebem algo melhor do que aquilo que eles têm; suas aspirações se elevam
e com isso eles começam a compreender o que lhes falta; é a partir daí que se
esforçam para adquirir esse algo melhor e para se elevar. Uma vez que
tiverem entrado nessa via, eles a trilharão com rapidez, porque já degustaram
de uma satisfação que lhes parece bem superior, e, comparada com a qual, as
outras — não sendo mais do que grosseiras sensações — acabam por lhes
provocar repugnância.
Pergunta (A são Luís) – O que devemos entender por trevas onde estão
mergulhadas certas almas sofredoras? Seriam elas daquelas trevas muitas vezes
mencionadas nas Escrituras? – R. As trevas de que estamos tratando são, na
realidade, aquelas que foram designadas por Jesus e pelos profetas, falando
do castigo dos ímpios. Mas isso ainda não passa de uma figura simbólica,
279 – O Céu e o Inferno
destinada a tocar os sentidos materiais dos seus contemporâneos, que não
poderiam conceber a punição de uma maneira espiritual. Certos Espíritos
estão mergulhados nas trevas; porém, é preciso entender isso como uma
verdadeira noite da alma, comparável à obscuridade pela qual a inteligência
do idiota é atingida. Não é uma loucura da alma, mas sim uma inconsciência
de si mesma e daquilo que a rodeia, que se faz tanto na presença da luz
material quanto na sua ausência. Essa é a punição principalmente dos que
duvidaram da destinação do seu ser; eles acreditavam no nada, e as
aparências desse nada vêm efetivar o suplício deles até que a alma, voltando
para si mesma, chegue a quebrar energicamente a rede do nervosismo moral
que a tomava; da mesma forma, um homem oprimido por um pesadelo luta,
em dado momento, com toda a força de suas faculdades contra os terrores
pelos quais inicialmente ele se deixou dominar. Essa redução momentânea da
alma a um nada fictício, com o sentimento de sua existência, é um sofrimento
mais cruel do que se pode imaginar, por causa dessa aparência de repouso
que a atinge; é esse repouso forçado, essa nulidade do seu ser e essa incerteza
que formam o seu tormento; é esse tédio que a invade o que constitui o
castigo mais terrível, pois ela não percebe nada em torno dela, nem coisas,
nem pessoas; essas são, para ela, as verdadeiras trevas.
SÃO LUÍS
(Claire) – Aqui estou eu. Também posso responder à questão levantada
sobre as trevas, pois vaguei e sofri longo tempo nesses limbos onde tudo é
soluço e misérias. Sim, as trevas visíveis de que as Escrituras falam existem, e
os infelizes que, tendo terminado suas provas terrestres, deixam a vida,
ignorantes ou culpados, estão imersos na fria região, inconscientes de si
mesmos e do seu destino. Eles acreditam na eternidade de sua situação, eles
ainda balbuciam as palavras da vida que os seduziu, eles se admiram e se
assustam com sua profunda solidão; isso é que é escuridão, esse lugar vazio e
povoado, esse espaço onde Espíritos pálidos, dominados e gemendo,
vagueiam sem consolação, sem afeições e sem nenhum socorro. A quem
recorrer?… Aí eles sentem a eternidade pesando sobre eles; eles tremem e
lamentam os interesses mesquinhos que pontuaram suas horas; eles
280 – Allan Kardec
lamentam a falta da noite que, sucedendo o dia, muitas vezes levou suas
preocupações num sonho feliz. Para os Espíritos, as trevas são a ignorância, o
vazio, o horror ao desconhecido… Não consigo continuar…
CLAIRE
Ainda sobre essa obscuridade, foi dada a explicação seguinte:
“Por sua natureza, o perispírito possui uma propriedade luminosa que se
desenvolve sob a influência da atividade e das qualidades da alma.
Poderíamos dizer que essas qualidades estão para o fluido perispiritual como
a fricção está para o fósforo. O brilho da luz depende da pureza do Espírito; as
menores imperfeições morais a mancham e a enfraquecem. A luz que irradia
de um Espírito é tanto mais vivaz quanto mais ele for avançado. Sendo o
Espírito, de algum modo, o seu próprio farol, ele vê mais ou menos conforme
a intensidade da luz que ele produz; disso resulta que aqueles Espíritos que
não a produzem acabam ficando na escuridão.”
Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação do fluido luminoso
dos Espíritos superiores, o que é confirmado pela observação; mas aqui não
parece ser a causa verdadeira — ou, pelo menos, a única causa do fenômeno
em questão; visto que: 1º) nem todos os Espíritos inferiores estão nas trevas;
2º) o mesmo Espírito pode se encontrar alternadamente na luz e na
obscuridade; 3º) a luz é um castigo para determinados Espíritos muito
imperfeitos. Se a escuridão em que certos Espíritos estão envoltos fosse
inerente à personalidade deles, essa escuridão seria permanente e
generalizada para todos os Espíritos maus — o que não ocorre, porque
Espíritos da mais inferior perversidade veem perfeitamente, enquanto outros
que não podem ser qualificados de perversos ficam temporariamente em
trevas profundas. Portanto, tudo prova que além da luz que lhes é própria, os
Espíritos também recebem uma luz exterior que lhes falta mediante certas
circunstâncias. Disso nós devemos concluir que essa obscuridade depende de
uma causa ou de uma vontade externa, e que ela constitui uma punição
especial para esses casos determinados pela soberana justiça.
P. [a são Luís] – Como se explica que a educação moral dos Espíritos
desencarnados é mais fácil do que a dos encarnados? As relações
281 – O Céu e o Inferno
estabelecidas pelo Espiritismo entre os homens e os Espíritos fizeram notar
que estes últimos se corrigem mais rapidamente sob a influência dos
conselhos salutares do que as pessoas encarnadas, assim como se vê nas
curas de obsessões.
R. (Sociedade de Paris) – O Encarnado, por sua própria natureza, está
numa luta incessante em razão dos elementos contrários dos quais ele é
composto, e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo um
sobre o outro. A matéria sofre facilmente a predominação de um fluido
exterior; se a alma não vier reagir com todo o vigor moral do qual ela é capaz,
então ela se deixa ser dominada por intermédio do seu corpo, e seguindo o
impulso das influências perversas às quais ela está rodeada — e isso com uma
facilidade tanto maior quanto os invisíveis que a oprimem preferencialmente
atacam os pontos mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante.
Com o Espírito desencarnado, acontece de outra forma; é verdade que
ele ainda está sob uma influência semimaterial, mas esse estado não é nada
comparável ao do encarnado. O respeito humano — tão preponderante no
homem — não existe para o Espírito, e esse pensamento não consegue fazê-lo
resistir por muito tempo às razões que o seu próprio interesse lhe mostra
serem boas razões. Ele pode lutar, e geralmente ele o faz com mais violência
do que o encarnado, já que ele está mais livre; porém, nenhuma visão
mesquinha de interesse material, nem de posição social, consegue entravar
seu julgamento. Ele luta por amor ao mal, mas logo ele adquire o sentimento
de sua impotência, em face da superioridade moral que o domina; a
perspectiva de um futuro melhor tem mais persuasão sobre ele, porque ele
está na própria vida em que ele deve se completar, e porque essa perspectiva
não é apagada pelo turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, não
estar mais sob a influência da carne é o que torna a conversão mais fácil,
sobretudo quando se tem adquirido um certo desenvolvimento através das
provações vividas. Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível
ao raciocínio, mas o mesmo não ocorre com aquele que já tem experiência de
vida. Aliás, tanto no encarnado quanto no desencarnado, é sobre a alma, é
pelo sentimento que se deve agir. Toda ação material pode suspender
momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso, mas nenhuma ação
282 – Allan Kardec
material pode destruir o princípio mórbido que está na alma; todo ato que
não tende a melhorar a alma não pode desviá-la do mal.
SÃO LUÍS
283 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO V
SUICIDAS
O SUICIDA DA SAMARITANA – O PAI E O CONSCRITO
– FRANÇOIS-SIMON LOUVET – UMA MÃE E SEU FILHO –
DUPLO SUICÍDIO POR AMOR E POR DEVER
– LUÍS E A COSTUREIRA DE BOTINAS – UM ATEU –
FELICIANO – ANTÔNIO BELL
O SUICIDA DA SAMARITANA
No dia 7 de abril de 1858, por volta das 7 horas da noite, um homem de
cerca de cinquenta anos e convenientemente trajado apresentou-se no
estabelecimento Banhos da Samaritana, em Paris, e mandou preparar um
banho para ele. Após um intervalo de duas horas, o atendente, achando
estranho que aquele indivíduo não pedia nada, decidiu entrar na cabine de
banho para ver se o cliente não estaria indisposto; então, ele testemunhou
uma hedionda cena: aquele infeliz tinha cortado a própria garganta com uma
navalha, e todo o seu sangue misturara-se à água da banheira. Como a sua
identidade não pôde ser certificada, o cadáver foi transportado para o
necrotério.
O Espírito desse homem, evocado na Sociedade de Paris seis dias após
sua morte, deu as respostas seguintes:
1. Evocação (Resposta do guia do médium) – Espere… ele está aqui.
2. Onde se encontra agora? – R. Eu não sei… Diga-me, onde estou.
3. Você está numa assembleia de pessoas que se ocupam com estudos
espíritas e que são benevolentes contigo. – R. Diga-me se estou vivo… Estou
284 – Allan Kardec
sufocado no caixão.
Embora separada do corpo, sua alma ainda está completamente imersa naquilo
que poderíamos chamar de turbilhão da matéria corporal; as ideias terrenas
permanecem vivas e ele não acredita estar morto.
4. Quem te convenceu a vir até nós? – R. Senti-me aliviado.
5. Qual motivo te levou a se suicidar? – R. Estou morto?… Não… pois eu habito
meu corpo… Vocês não sabem o quanto estou sofrendo!… Estou sufocando…
Que uma mão compassiva trate logo de acabar comigo!
6. Por que você não deixou nenhuma pista que pudesse identificá-lo? – R.
Estou abandonado; fugi do sofrimento para cair na tortura.
7. Você tem agora os mesmos motivos para continuar desconhecido? – R. Sim;
não metam um ferro candente na ferida que sangra!
8. Poderia nos dizer o teu nome, tua idade, profissão e domicílio? – R. Não… de
jeito nenhum!
9. Você tinha uma família, mulher, filhos? – R. Fui abandonado; ninguém me
amava.
10. O que você fez para não ser amado por ninguém? – R. Quantos são iguais a
mim!… Um homem pode viver abandonado no meio da sua família, quando
ninguém o ama.
11. No momento de efetuar o teu suicídio, não teve nenhuma hesitação? – R.
Eu tinha sede de morte… Esperava o repouso.
12. Como é que a ideia do futuro não te fez renunciar ao teu projeto? – R. Eu já
não acreditava mais nele; estava sem expectativa. O futuro é a esperança.
13. Que reflexões você fez no instante em que sentiu a vida se extinguir? – R.
Não refleti; eu senti… Mas a minha vida não se extinguiu… minha alma está
atada ao meu corpo… Eu sinto os vermes que me corroem.
14. Que sensação experimentou no momento em que a morte estava
completa? – R. Ela está completa?
15. Quando a tua vida se extinguiu, foi doloroso? – R. Menos doloroso que
285 – O Céu e o Inferno
depois. Só o corpo sofreu.
16. (Ao Espírito de são Luís) – O que o Espírito pretende dizer ao afirmar que o
momento da morte foi menos doloroso do que depois? – R. O Espírito
descarregou o fardo que o oprimia; ele ressentia a volúpia da dor.
17. Esse estado é sempre a consequência do suicídio? – R. Sim; o Espírito do
suicida fica preso ao corpo até o fim da sua vida; a morte natural é a libertação
da vida: o suicídio a rompe inteiramente.
18. Tal situação é a mesma em toda morte acidental, involuntariamente, mas
que abrevia a duração natural da vida? – R. Não… O que você entende por
suicídio? O Espírito só é culpável pelos seus atos.
Essa dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente falecidas, e
sobretudo naquelas que, durante sua vida, não elevaram a alma acima da matéria.
Esse é um fenômeno estranho à primeira vista, mas que se explica muito
naturalmente. Se perguntarmos a um indivíduo posto em sonambulismo pela
primeira vez se ele está dormindo, ele quase sempre responderá que não, e sua
resposta é lógica: é o interlocutor que coloca mal a questão ao se servir de um termo
inapropriado. Na nossa linguagem usual, a ideia do sono está ligada à suspensão de
todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê, que sente e que
tem consciência da sua liberdade moral não acredita que esteja dormindo, e de fato
ele não está, na acepção comum da palavra. Eis por que ele responde não, até que
esteja familiarizado com essa maneira de entender a coisa. O mesmo acontece com o
homem que acaba de morrer; para ele a morte era o aniquilamento do ser. Ora, igual
ao sonâmbulo, ele vê, ele sente, ele fala; então, em seu entendimento, ele não está
morto, e ele afirma isto até que tenha adquirido a intuição do seu novo estado. Essa
ilusão é sempre mais ou menos penosa, por jamais ser completa, e porque deixa o
Espírito numa certa ansiedade. No exemplo aqui dado, ela é um verdadeiro suplício
por causa da sensação dos vermes corroendo o corpo, além da sua duração, que deve
ser igual à que teria sido a vida daquele homem se ele não a tivesse abreviado. Esse
estado é frequente nos suicidas, mas não se apresenta sempre em condições idênticas;
a situação varia principalmente na duração e na intensidade, conforme as
circunstâncias agravantes ou atenuantes da falta. A sensação dos vermes e da
decomposição do corpo não é mais particular aos suicidas; ela também é frequente
nos que viveram mais da vida material do que da vida espiritual. Em princípio, não
existe falta impune; mas não há uma regra uniforme e absoluta nos meios de punição.
286 – Allan Kardec
O PAI E O CONSCRITO
No começo da guerra da Itália, em 1859,91 um negociante de Paris, pai de
família, gozando da estima geral de todos os seus vizinhos, tinha um filho cuja
sorte o tinha convocado para o serviço militar; estando ele, pela sua condição,
na impossibilidade de exonerar esse filho da convocação, ocorreu-lhe a ideia
de se suicidar, a fim de isentá-lo, como filho único de viúva. Um ano depois,
ele foi evocado na Sociedade de Paris, a pedido de uma pessoa que o conhecia
e que desejava saber do seu paradeiro no mundo dos Espíritos.
(A são Luís) – Poderia nos dizer se podemos fazer a evocação do homem
sobre o qual acabamos de falar? – R. Sim; ele ficará bastante feliz com isso,
pois será um pouco aliviado.
1. Evocação – R. Oh, obrigado! Sofro muito, mas… é justo; entretanto, ele me
perdoará.
O Espírito escreve com grande dificuldade; as letras são irregulares e
malformadas; depois da palavra mas, ele para e, tentando em vão escrever, não
consegue mais do que alguns rabiscos e pontos indecifráveis. É evidente que foi a
palavra Deus que ele não pôde escrever.
2. Preencha a lacuna que você acabou deixando. – R. Não sou digno disso.
3. Você disse que sofre; sem dúvida, foi errado se suicidar, mas o motivo que
te levou a esse ato não mereceu qualquer indulgência? – R. Minha punição
será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má.
4. Poderia nos descrever a punição que você está sofrendo? – R. Sofro
duplamente, na minha alma e no meu corpo; sofro neste último, embora não o
possua mais, como o amputado sofre com a falta do membro ausente.
5. Tua ação foi motivada unicamente em favor do teu filho, e por nenhuma
outra causa? – R. Somente o amor paterno me guiou, mas me guiou mal; por
causa desse motivo, minha pena será encurtada.
91 Segunda Guerra de Independência Italiana, envolvendo a Itália e a França, sua aliada, contra o
Império Austríaco, motivada principalmente por uma disputa de terras do Reino da Sardenha,
culminando com a vitória da aliança ítalo-francesa e desencadeando o desfecho do processo de
unificação da Itália. — N. T.
287 – O Céu e o Inferno
6. Consegue prever o fim dos teus sofrimentos? – R. Não prevejo o fim deles,
mas tenho certeza de que esse fim existe, o que já é um conforto para mim.
7. Agora há pouco, você não pôde escrever o nome de Deus, porém, temos
visto Espíritos muito sofredores escrevê-lo; isso faz parte de tua punição? – R.
Poderei escrevê-lo com grandes esforços de arrependimento.
8. Pois bem! Faça grandes esforços e tente escrevê-lo; estamos convencidos
de que conseguirá fazer isso, o que será um alívio para você.
O Espírito acabou por escrever com letras irregulares, trêmulas e grossas: “Deus
é muito bom.”
9. Ficamos gratos por ter atendido ao nosso chamado, e rogaremos a Deus por
você, para pedir a ele misericórdia em teu favor. – R. Façam isso, por favor!
10. (A são Luís) – Queira nos dar a tua apreciação pessoal sobre o ato desse
Espírito que acabamos de evocar. – R. Esse Espírito sofre justamente, pois lhe
faltou confiança em Deus, o que é uma falta sempre punível. A punição seria
terrível e mais longa se ele não tivesse a seu favor um motivo louvável, que
era aquele de impedir o filho de ir ao encontro da morte. Deus, que vê o fundo
dos corações e que é justo, não o pune senão conforme suas obras.
Observação – Inicialmente, esse suicídio parecia desculpável, porque
poderia ser considerado como um ato de devotamento; de fato, é um
devotamento, mas não completamente. Como disse o Espírito de são Luís,
esse homem faltou com a confiança em Deus. devido a sua ação, talvez ele
tenha impedido que o destino do seu filho se cumprisse; primeiro, não era
certeza que o filho fosse morrer na guerra, e talvez essa carreira militar
devesse fornecê-lo a oportunidade de fazer algo útil para o seu adiantamento.
Sua intenção era boa, indubitavelmente, tanto que lhe é levada em conta; a
intenção atenua o mal e merece indulgência, mas ela não impede o que é mau
de ser mau; se não fosse assim, em favor do pensamento, poderíamos
desculpar todos os delitos, e poderíamos até matar, sob o pretexto de prestar
algum serviço. Uma mãe que mata o filho com a ideia de enviá-lo direto para o
céu seria menos culpada por ela ter feito isso com uma boa intenção? Com
esse sistema, poderíamos justificar todos os crimes que um fanatismo cego
288 – Allan Kardec
pudesse cometer nas guerras de religião.
Em princípio, o homem não tem o direito de dispor da sua vida, porque
ela lhe foi dada visando os deveres que ele tem a cumprir na Terra; é por
isso que ele não deve abreviá-la voluntariamente sob nenhum pretexto. Como
ele tem seu livre-arbítrio, ninguém pode impedi-lo, mas disso ele sempre
sofre as consequências. O suicídio punido mais severamente é aquele
praticado por desespero e em vista de se safar das misérias da vida; sendo
essas misérias ao mesmo tempo provas e expiações, fugir delas significa
recuar diante da tarefa aceita e, às vezes, diante da missão que deveria ser
completada.
O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte
instantânea, mas também em tudo que se faz com conhecimento de causa
para apressar prematuramente a extinção das forças vitais.
Não se pode equiparar com o suicídio o devotamento daquele que se
expõe a uma morte iminente para salvar o seu semelhante; primeiro porque,
nesse caso, não há qualquer intenção premeditada de se tirar a vida, e, em
segundo lugar, porque não há perigo do qual a Providência não possa nos
livrar, se a hora de deixar a Terra não tiver chegado. Quando a morte ocorre
em tais circunstâncias, é um sacrifício meritório, pois é uma abnegação em
proveito de outrem. (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, itens
14, 28, 29 e 3092)
FRANÇOIS-SIMON LOUVET
(Do Havre)
A próxima comunicação foi dada espontaneamente numa reunião
espírita no Havre, em 12 de fevereiro de 1863:
“Tenham piedade de um pobre miserável que desde há muito tempo
92 No original, as referências são 53, 65, 66 e 67, correspondentes aos itens assim numerados na
primeira edição da obra (então sob o título Imitação do Evangelho); aqui nós renumeramos os
respectivos itens conforme a edição definitiva de O Evangelho segundo o Espiritismo, a partir da 3º
edição. — N. T.
289 – O Céu e o Inferno
sofre de tão cruéis torturas! Oh, o vácuo… o espaço… eu caio, caio… Socorro!…
Meu Deus, eu tive uma vida tão miserável!… Era um pobre coitado; passei
tanta fome na velhice! Foi por isso que me pus a beber e que tive vergonha e
desgosto de tudo… Eu queria morrer e me atirei… Oh, meu Deus! Que
momento!… Por que então desejar dar fim a tudo, quando estava tão perto do
término? Orem para que eu não mais veja esse vazio sempre debaixo de
mim… Vou me despedaçar nessas pedras!… Eu imploro a vocês, a vocês que
têm conhecimento das misérias dos que não estão mais neste mundo; eu me
dirijo a vocês, apesar de não me conhecerem, mas eu sofro tanto… Para que
querer comprovações? Estou sofrendo, isso não é o bastante! Se eu tivesse
fome, em vez desse sofrimento mais terrível e invisível para vocês, então não
hesitariam em me dar um pedaço de pão. Peço a vocês que rezem por mim…
Não posso continuar por mais tempo… Perguntem a qualquer desses
felizardos que estão aqui e então saberão quem fui eu. Rezem por mim.”
FRANÇOIS-SIMON LOUVET
O guia do médium – Esse que acaba de se dirigir a você, meu filho, é um
pobre infeliz que teve uma provação de misérias na Terra, mas o desgosto o
tomou; faltou a ele coragem, e o desafortunado, em vez de olhar para cima
como devia fazer, entregou-se à embriaguez; ele desceu aos últimos limites do
desespero e pôs um fim à sua triste provação, atirando-se da Torre de
Francisco I, no dia 22 de julho de 1857. Tenham piedade de sua pobre alma,
que não é avançada, mas que tem conhecimento suficiente da vida futura para
sofrer e desejar uma nova provação. Orem a Deus para que lhes conceda essa
graça, e vocês farão uma boa ação.
Tendo sido feito algumas pesquisas, encontrou-se no Journal du Havre
de 23 de julho de 1857, um artigo cujo conteúdo é este:
“Ontem, às quatro horas da tarde, os transeuntes do cais ficaram
dolorosamente impressionados com um horrível acidente: um homem se
atirou da torre e veio a se despedaçar nas pedras. Era um velho puxador de
barcos, cujo pendor à embriaguez o conduzira ao suicídio. Ele se chamava
François Victor Simon Louvet. Seu corpo foi transportado para a casa de uma
de suas filhas, na rua da Corderie. Ele tinha a idade de sessenta e sete anos.”
290 – Allan Kardec
Desde que esse homem morreu, já faz seis anos, ele sempre se vê caindo da torre
e indo se despedaçar nas pedras; ele fica aterrorizado com o vácuo diante dele,
permanecendo apreensivo com a queda… e isso já há seis anos! Quanto tempo isso vai
durar? Ele não sabe, e essa indefinição aumenta suas angústias. Isso não equivale ao
inferno e suas chamas? Quem revelou esses castigos? Eles foram inventados? Não! São
aqueles mesmos que passam por isso que vêm descrevê-los, como outros descrevem
suas alegrias. Muitas vezes eles fazem isso espontaneamente, sem que estejamos
pensando neles, o que exclui toda ideia de que somos joguete da própria imaginação.
UMA MÃE E SEU FILHO
No mês de março de 1865, o Sr. C…, negociante numa pequena cidade
perto de Paris, tinha em sua casa, gravemente adoentado, um filho de vinte e
um anos. Esse rapaz, sentindo-se a ponto de expirar, chamou sua mãe e ainda
teve forças para abraçá-la. Esta, derramando lágrimas abundantes, disse-lhe:
“Vá, meu filho, antes de mim; eu não tardarei a te seguir.” Na mesma hora, ela
partiu escondendo o rosto com as mãos.
As pessoas que presenciaram essa cena comovente consideravam as
palavras da Sra. C… como uma simples explosão de dor que o tempo e a razão
deveriam apaziguar. Entretanto, tendo o enfermo falecido, procuraram-na por
toda a casa e a encontraram enforcada no sótão. O cortejo da mãe ocorreu ao
mesmo que o do filho.
Evocação do filho vários dias depois o passamento – P. Você soube da
morte da tua mãe, que se suicidou, cedendo ao desespero causado pela tua
perda? – R. Sim, e se não fosse o desgosto que ela me causou com essa sua
resolução fatal, eu estaria perfeitamente feliz. Pobre e excelente mãe! Ela não
pôde suportar a prova dessa separação momentânea, e, para ficar junto do
filho que tanto amava, tomou o caminho que a afastaria para longe dele, e
infelizmente, por muito tempo! Com isso ela retardou indefinidamente essa
reunião que teria sido tão logo, se a submissão às vontades do Senhor tivesse
preenchido a sua alma, e se ela fosse resignada, humilde e penitente diante da
provação que ela ia enfrentar e da expiação que ia purificá-la!
Orem! Oh, orem por ela!… e acima de tudo não a imitem, mães que se
291 – O Céu e o Inferno
comovem com a triste história da sua morte. Não creiam que ela amava mais
do que as outras mães o filho que era sua alegria e seu orgulho. Não, ela não
amava mais; porém, faltaram-lhe a coragem e a resignação. Mães que me
escutam, quando virem a agonia cobrir os olhos apagados dos seus filhos,
lembrem-se de que, tal como Cristo, eles sobem ao cume do Calvário, de onde
deverão se elevar à glória eterna.
BENJAMIN C…
Evocação da mãe – Quero ver meu filho! Vocês podem devolvê-lo para
mim? Seus cruéis!… Eles tomaram meu filho para o levarem à luz e me
deixaram na escuridão!… Quero meu filho… eu o quero… ele me pertence!…
Será que o amor materno não vale nada? O quê?! Ter carregado por nove
meses, nutrir com seu leite a carne da sua carne, sangue do seu sangue; ter
guiado seus primeiros passos; ter ensinado a balbuciar o nome sagrado de
Deus e o doce nome da sua mãe; ter feito dele um homem pleno de atividade,
de inteligência, de honestidade, de amor filial, e depois perdê-lo quando ele
realizava as esperanças que dele havíamos concebido, quando um futuro
brilhante se abria diante dele?! Não, Deus não é justo; esse não é o Deus das
mães; ele não compreende o desespero e a dor delas… E quando eu me mato
para não me separar do meu filho, então ele é tirado de mim novamente!…
Meu filho! Meu filho, onde está você?
O evocador – Pobre mãe, nós compartilhamos da tua dor, mas você
buscou um triste meio para se reunir com o teu filho. O suicídio é um crime
aos olhos de Deus, e você deveria pensar que ele pune toda infração das suas
leis. A proibição de ver o teu filho é a tua punição.
A mãe – Não; eu pensava que Deus fosse melhor do que os homens; não
acreditava no seu inferno, mas na reunião eterna das almas que se amaram
como nós nos amávamos… Eu estava enganada… Ele não é o Deus justo e bom,
pois ele não compreendeu a imensidão da minha dor e do meu amor!… Oh,
quem devolverá meu filho? Será que o perdi para sempre? Piedade! Piedade,
meu Deus!
Evocador – Vamos, acalme o teu desespero; imagine que, se há um meio
de rever teu filho, não é blasfemando de Deus, como está fazendo agora. Em
292 – Allan Kardec
vez de torná-lo favorável para você, está atraindo para si uma maior
severidade.
Mãe – Disseram-me que eu não o veria mais; entendi que foi ao paraíso
que levaram. E eu, por acaso estou no inferno?… No inferno das mães?… Ele
existe, eu o vejo muito bem.
Evocador – Teu filho não está perdido para sempre, acredite em mim;
você o verá, certamente, mas é preciso merecê-lo pela tua submissão à
vontade de Deus, ao passo que por tua revolta você retardará esse momento
indefinidamente. Ouça-me: Deus é infinitamente bom, mas ele é infinitamente
justo. Ele jamais pune sem razão, e se ele te infligiu com grandes dores na
Terra, é porque você as mereceu. A morte do teu filho era uma prova para a
tua resignação; lamentavelmente, você aí fracassou quando estava viva, e eis
que após a tua morte você fracassou de novo. Como é que você quer que Deus
recompense os filhos rebeldes? Mas ele não é inexorável e sempre acolhe o
arrependimento do culpado. Se você tivesse aceitado sem murmurar e com
humildade a prova que ele te enviou por essa separação, e se tivesse esperado
pacientemente até que ele te retirasse desta Terra, ao entrar no mundo onde
você está agora, então imediatamente teria reencontrado teu filho, que teria
vindo te receber e te estender os braços; você teria tido a alegria de vê-lo
radiante após esse tempo de ausência. O que você fez e o que ainda faz neste
momento coloca entre você e ele uma barreira. Não creia que ele esteja
perdido nas profundezas do espaço; não, ele está mais perto de você do que
você imagina; mas um véu impenetrável o esconde à tua vista. Ele te vê, ele te
ama sempre e geme com a triste situação na qual a tua falta de confiança em
Deus te afundou; ele aguarda todo ansioso o momento afortunado em que lhe
será permitido se tornar visível a você; só depende de você adiantar ou
atrasar esse momento. Ore a Deus e diga comigo:
“Meu Deus, perdoe-me por ter duvidado da tua justiça e da tua bondade;
se me puniu, reconheço que mereci. Por favor, aceite o meu arrependimento e
a minha submissão à tua santa vontade.”
A mãe – Que raio de esperança você acaba de acender na minha alma! É
um clarão na noite que me envolve. Obrigada, vou orar… Adeus.
C…
293 – O Céu e o Inferno
A morte, mesmo por suicídio, não produziu nesse Espírito a ilusão de se achar
ainda vivo, pois ele tem perfeitamente a consciência do seu estado; é que para outros
a punição consiste até nessa ilusão, nos laços que os prendem ao corpo. Esta mulher
quis deixar a Terra para seguir o filho no mundo onde ia entrar: foi preciso que ela
soubesse que ali estava para ser punida, não o revendo. Sua punição é exatamente
saber que não vê mais corporalmente, e na própria consciência que ela tem de sua
situação. Assim é que cada erro é punido pelas circunstâncias que a acompanham, e
que não há punições uniformes e constantes para as faltas do mesmo gênero.
DUPLO SUICÍDIO POR AMOR E POR DEVER
Um certo jornal de 13 de junho de 1862 contém o relato seguinte:
“A jovem senhora Palmira,93 modista, morando com seus pais, era dotada
de uma aparência encantadora, ao qual se juntava o mais amável caráter; com
isso, era cortejada para o matrimônio. Entre os pretendentes à sua mão, ela
preferiu o Sr. B…, que sentia por ela uma forte paixão. Entretanto, embora o
amasse muito, ela achava que, por respeito filial, devia obedecer à vontade dos
pais e se casar com o Sr. D…, cuja posição social lhes parecia mais vantajosa do
que a do rival.
“Os senhores B… e D… eram amigos íntimos. Conquanto não tivessem
nenhum interesse comum, eles não deixaram de se ver. O amor mútuo de B… e
de Palmira — que se tornou a Sra. D… — não tinha diminuído e, como eles se
esforçavam por reprimi-lo, aumentava em razão da própria violência com que
faziam isso. Para tentar apagá-lo, B… tomou a decisão de se casar, e desposou
uma jovem de eminentes qualidades, fazendo todo o possível para amá-la. Mas
ele não tardou a perceber que esse meio heroico era impotente para curá-lo. No
entanto, durante quatro anos, nem B… nem a Sra. D… faltaram aos seus deveres.
O que eles viriam a sofrer é indizível, pois D…, que verdadeiramente estimava o
seu amigo, o atraía sempre para a sua casa e, quando B… queria se retirar, D…
insistia para que B… ficasse.
“Os dois amantes, certo dia reunidos por uma circunstância fortuita que
eles não procuraram, confessaram-se o estado de suas almas e concordaram
entre si que a morte era o único remédio aos males que eles experimentavam;
então resolveram se matarem juntos e executar seu plano na data seguinte,
93 No original, Palmyre. — N. T.
294 – Allan Kardec
quando o Sr. D… deveria estar ausente do seu domicílio grande parte do dia.
Após terem feito os últimos preparativos, escreveram uma longa e tocante carta,
explicando a causa da morte que eles haviam escolhido para não faltar em seus
deveres. A carta terminava com um pedido de perdão e rogando para eles serem
enterrados no mesmo túmulo.
“Quando o Sr. D… retornou, ele os encontrou asfixiados. Respeitou o desejo
final deles e quis que eles não fossem separados no cemitério.”
Este fato tendo sido levado à Sociedade de Paris como objeto de estudo,
um Espírito respondeu:
“Os dois amantes que se suicidaram ainda não podem lhes responder. Eu
os vejo; eles estão mergulhados na perturbação e amedrontados pela
perspectiva da eternidade. As consequências morais da falta deles os
castigarão durante sucessivas migrações, em que suas almas separadas se
buscarão sem parar e sofrerão o duplo suplício do mútuo pressentimento e do
desejo. Terminada a expiação, eles ficarão reunidos para sempre no seio do
amor eterno. Dentro de oito dias, na próxima sessão, vocês poderão evocá-los;
os dois virão, mas eles não se verão: uma noite profunda oculta um do outro
por muito tempo.”
1. Evocação da mulher. – Você vê o teu amado, ao lado do qual se suicidou? –
R. Não vejo nada, nem mesmo os Espíritos que rondam comigo neste lugar
onde estou. Que noite! Quanta escuridão! E que véu espesso sobre meu rosto!
2. Que sensação você experimentou quando acordou após a morte? – R. Que
estranho! Eu sentia frio e queimava; o gelo corria nas minhas veias e o fogo
estava no meu rosto! Que coisa estranha, essa mistura incrível! Gelo e fogo
parecendo me sufocar! Pensei que ia sucumbir uma segunda vez.
3. Você sentiu alguma dor física? – R. Todo o meu sofrimento está aqui, e
aqui… — O que quer dizer com aqui e aqui? – R. Aqui, no meu cérebro; e aqui,
no meu coração.
É provável que, se pudéssemos ver o Espírito, nós o veríamos levar a mão à
cabeça e ao coração.
4. Acredita que ficará para sempre nessa situação? – R. Oh, sempre, sempre!
295 – O Céu e o Inferno
Às vezes escuto risadas infernais, vozes apavorantes que gritam estas
palavras: “Sempre assim!”
5. Pois bem! Podemos te dizer, com toda segurança, que não será sempre
assim; com o teu arrependimento, você obterá o perdão. – R. O que estão
dizendo? Não compreendo.
6. Repito que os teus sofrimentos terão um fim, que você pode adiantar pelo
arrependimento, e nós te ajudaremos por meio da prece. – R. Não ouvi mais
do que uma palavra e sons vagos; essa palavra é graça! Foi mesmo graça o
que você quis dizer? Você falou em graça: sem dúvida, deve ter sido para a
alma que passou ao meu lado, aquela pobre criança que chora e que tem
esperança…
Uma senhora da nossa assembleia disse que tinha acabado de dirigir a Deus uma
prece por aquela infeliz, e que sem dúvida foi isso que a comoveu; que ela de fato
havia implorado mentalmente a graça de Deus em favor dela.
7. Disse que está nas trevas; então você não nos vê? – R. É-me permitido ouvir
algumas palavras que você pronuncia, mas só vejo um crepe preto sobre o
qual em certas horas se desenha um semblante que chora.
8. Se você não vê o teu amado, também não sente a presença dele por perto, já
que ele está aqui? – R. Ah, não me fale dele! Devo esquecê-lo por enquanto, se
eu quiser que seja apagada desse crepe a imagem que aí vejo desenhada.
9. Que imagem é essa? – R. A de um homem que sofre, cuja existência moral
na Terra eu aniquilei por muito tempo.
Lendo-se esse relato, logo ficamos totalmente dispostos a encontrar
circunstâncias atenuantes para esse suicídio, e até mesmo a encará-lo como um ato
heroico, já que foi provocado pelo sentimento do dever. Porém, vemos que o ato foi
julgado de outra forma, e que a pena dos culpados deva ser longa e terrível, por se
refugiarem voluntariamente na morte a fim de fugir da luta. A intenção de não faltar
com seus deveres era nobre, sem dúvida, e isso lhes será levada em conta mais tarde;
mas o verdadeiro mérito teria consistido em vencer a tentação, ao passo que eles
agiram como um desertor que se esquiva no momento do perigo.
A pena dos dois culpados consistirá, como se vê, em procurarem um pelo outro
296 – Allan Kardec
durante muito tempo sem se encontrarem — seja no mundo dos Espíritos, seja em
outras encarnações terrenas. Essa pena é momentaneamente agravada pela ideia de
que o seu estado atual deva durar para sempre. Como tal pensamento faz parte do
castigo, não lhes foi permitido ouvir as palavras de esperança que lhes foram
endereçadas. Aos que acharem essa pena muito terrível e longa — principalmente
porque ela não deve cessar senão depois de várias encarnações — nós diremos que
sua duração não é absoluta, e que dependerá da maneira como eles suportarão suas
provas futuras, no que poderemos ajudá-los através de preces. Eles serão, como todos
os Espíritos culpados, os árbitros de seu próprio destino. Isso, portanto, não é ainda
melhor do que a condenação eterna e sem esperança, à qual estão irremediavelmente
condenados segundo a doutrina da Igreja, que os considera tal como eternos
relegados ao inferno, recusando-lhes as últimas preces, sem dúvida, por serem
inúteis?
LUÍS E A COSTUREIRA DE BOTINAS
Durante sete ou oito meses, um homem chamado Luís G…, sapateiro,
cortejava uma jovem, Victorina R…, costureira de botinas, com a qual deveria
se casar muito em breve, pois os proclamas do casamento já estavam em
processo de publicação. Estando as coisas nesse ponto, os jovens se
consideravam quase definitivamente unidos e, por medida de economia, o
sapateiro vinha todos os dias fazer suas refeições na casa da noiva.94
Um dia, Luís tendo vindo, como de costume, jantar com a costureira de
botinas, surgiu uma controvérsia a propósito de uma futilidade, cada parte
teimando em sua opinião, até que as coisas chegaram ao ponto de Luís sair da
mesa e partir jurando não mais voltar ali.
No dia seguinte, porém, o sapateiro veio pedir perdão: a noite é uma boa
conselheira, como se sabe. Todavia, a operária, talvez prejulgando pela cena
da noite anterior o que poderia acontecer quando não desse mais tempo de
desistir, negou-se a se reconciliar; nem protestos, nem lágrimas, nem
desesperos nem nada mais puderam comovê-la. Vários dias se passaram
depois daquela confusão; esperando que a sua amada fosse mais flexível, Luís
quis fazer uma última tentativa: ele então chega e bate na porta de modo a ser
94 Nesta tradução, aportuguesamos os nomes originais Louis e Victorine para Luís e Victorina. — N. T.
297 – O Céu e o Inferno
reconhecido, mas a porta não foi aberta; em seguida, novas súplicas da parte
do pobre rejeitado, novos apelos através da porta, mas nada foi capaz de
sensibilizar a implacável pretendida. “Então, adeus, sua malvada!” — gritou
enfim o pobre rapaz — “Adeus para sempre! Trate de procurar um marido
que te ame tanto quanto eu!” Na mesma hora a moça ouviu uma espécie de
gemido abafado, seguido de um barulho como que de um corpo que cai
escorregando pela porta, e tudo ficou em silêncio. Então a moça achou que
Luís tinha se sentado na soleira da porta para esperar que ela saísse; mas
Victorina prometeu a si mesma não colocar os pés lá fora enquanto ele
estivesse ali.
Havia apenas um quarto de hora que isso tinha acontecido, quando uma
pessoa local, passando pela calçada com uma lanterna, soltou um grito e pediu
socorro. Os vizinhos chegaram depressa e a senhorita Victorina, também
abrindo sua porta, deu um grito de horror ao perceber seu pretendido
estendido no chão, pálido e sem vida. Todos se apressaram em socorrê-lo,
mas logo viram que tudo era inútil, pois ele deixara de existir. O infeliz moço
tinha enfiado sua faca na região do coração e a lâmina ficou cravada na ferida.
(Sociedade Espírita de Paris, agosto de 1858)
1. Ao Espírito de são Luís. – Será que a moça, causa involuntária da morte do
seu amado, tem alguma responsabilidade nisso? – R. Sim, porque ela não o
amava.
2. Para prevenir essa desgraça, ela deveria desposá-lo, apesar da sua
repugnância? – R. Ela procurava uma ocasião para se separar dele, e fez no
começo da união aquilo que teria feito mais tarde.
3. Nisso, sua responsabilidade consiste em ter alimentado nele os sentimentos
dos quais ela não compartilhava, sentimentos esses que foram a causa da
morte do rapaz, certo? – R. Certo, foi isso.
4. Sua responsabilidade, nesse caso, deve ser proporcional à sua falta; então
não deve ser tão grande quanto se ela tivesse provocado voluntariamente
aquela morte, correto? – R. Correto; isso salta aos olhos!
5. O suicídio de Luís encontra alguma desculpa na desorientação causada pela
298 – Allan Kardec
obstinação de Victorina? – R. Sim, pois seu suicídio, que provinha do amor, é
menos criminoso aos olhos de Deus do que o suicídio de quem quer se livrar
da vida por um motivo de covardia.
Tendo o Espírito de Luís G…, sido evocado numa outra vez, foram-lhe
endereçadas as perguntas seguintes:
1. O que pensa dessa ação que você cometeu? – R. Victorina é uma ingrata; eu
fiz errado em me matar por sua causa, pois ela não merecia isso.
2. Então ela não te amava? – R. Não; no começa ela achava que sim e se iludia;
mas a discussão que tivemos lhe abriu os olhos; então ela ficou contente com
esse pretexto para se livrar de mim.
3. E você a amava sinceramente? – R. Eu tinha paixão por ela; isso era tudo, eu
acho. Se eu a tivesse amado com um amor puro, eu jamais teria pretendido
magoá-la.
4. Se ela soubesse que você realmente pretendia se matar, será que ela teria
persistido em te recusar? – R. Não sei; creio que não, pois ela não é má; mas
ela teria ficado infeliz; foi ainda melhor para ela que tenha acontecido assim.
5. Ao chegar à porta dela, você já tinha a intenção de se matar, em caso de
recusa? – R. Não; eu não pensei nisso; não acreditava que ela seria tão
obstinada. Foi só quando vi a resistência dela que então uma vertigem tomou
conta de mim.
6. Parece que você não se arrepende do suicídio senão pelo fato de Victorina
não o merecer… Esse é o único sentimento que você experimenta? – R. Neste
momento, sim; ainda estou muito perturbado; parece que ainda estou à porta
dela; também sinto outra coisa que eu não sei definir.
7. Acha que vai compreendê-la mais tarde? – R. Sim, quando estiver
desembaraçado… Foi o mal que eu fiz; deveria tê-la deixado em paz… Fui fraco
e agora eu carrego o castigo. Vejam só, a paixão cega o homem e o faz cometer
muitas loucuras; ele só compreende isso quando é tarde demais.
8. Você disse que carrega um castigo; que castigo você está sofrendo? – R. Eu
errei em abreviar minha vida; eu não deveria ter feito isso. Eu deveria
suportar tudo, em vez de dar um fim a tudo antes do tempo, e agora, estou
299 – O Céu e o Inferno
desgraçado; estou sofrendo; é sempre ela quem me faz sofrer. Parece que
ainda estou lá, à sua porta; ingrata!… Não me falem mais dela; não quero mais
pensar nela; isso me faz muito mal. Adeus.
Nisso também se vê uma prova da justiça distributiva que preside a punição dos
culpados, conforme o grau de responsabilidade. Na presente circunstância, a primeira
falta cabe àquela jovem, que alimentou em Luís um amor do qual ela não
compartilhava e com o qual ela estava brincando; ela, portanto, carrega a maior parte
da responsabilidade. Quanto ao moço, ele já é punido pelo sofrimento que está
enfrentando; mas a sua pena é leve, porque não fez mais do que ceder a um impulso
irrefletido e num momento de exaltação, em vez da fria premeditação daqueles que se
suicidam para se subtraírem das provas da vida.
UM ATEU
O Senhor J.-B. D… era um homem instruído, mas imbuído até o último
grau das ideias materialistas, não acreditando nem em Deus nem na própria
alma. Ele foi evocado dois anos após sua morte, na Sociedade Espírita de
Paris, a pedido de um de seus parentes.
1. Evocação – R. Estou sofrendo! Eu sou um réprobo.
2. Fomos solicitados para te chamar em nome de teus parentes, que desejam
conhecer tua destinação; poderia nos dizer se a nossa evocação é agradável
ou penosa para você? – R. Penosa.
3. Tua morte foi voluntária? – R. Sim.
O Espírito escreve com extrema dificuldade; a letra é bem grossa, irregular,
tremida e quase ilegível. Ao começar, ele mostra sua cólera, quebra o lápis e rasga o
papel.
4. Fique mais calmo; nós todos pediremos a Deus por você. – R. Sou forçado a
crer em Deus.
5. Que motivo poderia te ter levado a se destruir? – R. Tédio de uma vida sem
esperança.
Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança; a pessoa quer escapar do
300 – Allan Kardec
infortúnio a todo custo. Com o Espiritismo, o futuro se desdobra e a esperança se
legitima: então o suicídio deixa de ter objetivo; e tem mais, reconhece-se que por meio
do suicídio a pessoa só escapa de um mal para cair noutro cem vezes pior. Eis por que
o Espiritismo já tem tirado tanta gente da morte voluntária. São imensamente
culpadas aquelas pessoas que se esforçam para acreditar — através de sofismas
científicos e supostamente em nome da razão — nessa ideia desesperadora, fonte
de tantos males e crimes, de que tudo acaba com a vida! Essas pessoas serão
responsáveis não apenas pelos seus próprios erros, mas também por todos os males
dos quais elas foram a causa.
6. Você quis fugir das dificuldades da vida; ganhou alguma coisa com isso?
Está mais feliz agora? – R. Por que o nada não existe?
7. Teria a gentileza de nos descrever a tua situação, o melhor que puder? – R.
Sofro por ser obrigado a crer em tudo que eu negava. Minha alma está
como que em um braseiro; ela está terrivelmente atormentada.
8. De onde vinham as ideias materialistas que você tinha quando estava vivo?
– R. Em outra existência eu tinha sido malvado, e meu Espírito foi condenado
a sofrer os tormentos da dúvida durante minha vida; então eu me matei.
Há aqui toda uma ordem de ideias. Pergunta-se frequentemente como pode
haver materialistas, já que, tendo passado para o mundo espiritual, eles deveriam ter
a intuição das coisas. Ora, é precisamente essa intuição que é recusada a alguns
Espíritos que conservaram seu orgulho e que não se arrependeram das suas faltas. A
provação deles consiste em adquirir durante a vida corpórea, e através de sua
própria razão, a prova da existência de Deus e da vida futura que eles têm
incessantemente diante dos olhos. Mas, muitas vezes, a presunção de não admitirem
nada acima de si os domina e eles sofrem a pena até que, tendo domado seu orgulho,
finalmente se rendam à evidência.
9. Quando você se afogou, o que pensava que ia te acontecer? Que reflexões
fazia naquele momento? – R. Nenhuma; era o nada para mim. Depois eu vi
que, ainda não tendo passado por toda a minha condenação, eu teria de sofrer
muito mais.
10. Agora, está bem convencido da existência de Deus, da alma e da vida
futura? – R. Ai de mim! Estou atormentado demais para isso!
301 – O Céu e o Inferno
11. Tornou a ver o teu irmão? – R. Oh, não!
12. E por que não? – R. Por que unir nossos tormentos? Nós nos exilamos na
desgraça e nos reunimos na felicidade; ai de mim!
13. Gostaria de rever o teu irmão? Nós poderíamos chamá-lo aqui, ao teu
lado… – R. Não, não! Estou muito abaixo.
14. Por que você não quer que o chamemos? – R. Porque ele também não está
feliz.
15. Você teme vê-lo, mas isso não poderia te fazer bem? – R. Não; mais tarde…
16. Deseja mandar algum recado para os teus parentes? – R. Que orem por
mim.
17. Parece que na sociedade que você frequentava algumas pessoas
compartilham das suas opiniões de quando era vivo; você teria algo a lhes
dizer sobre esse assunto? – R. Ah, aqueles infelizes! Que eles creiam em outra
vida! isso é o melhor que eu posso lhes desejar. Se pudessem entender a
minha triste situação, isso os faria refletir bem.
(Evocação do irmão do Espírito anterior; ele professava as mesmas ideias, mas
que não se suicidou. Embora infeliz, ele está mais calmo; a sua escrita é clara e legível.
18. Evocação – R. Que o quadro dos nossos sofrimentos possa ser uma lição
útil para vocês, para os persuadir que existe uma outra vida, na qual expiamos
nossos erros e nossa incredulidade.
19. Vocês se veem reciprocamente, você e teu irmão com quem acabamos de
evocar? – R. Não; ele foge de mim.
Alguém poderia perguntar como é que os Espíritos conseguem fugir um do
outro no mundo espiritual, onde não existem obstáculos materiais nem refúgios
escondidos da vista. Tudo é relativo nesse mundo e de acordo com a natureza fluídica
dos seres que o habitam. Só os Espíritos superiores têm percepções irrestritas; nos
Espíritos inferiores elas são limitadas, e para estes os obstáculos fluídicos têm o efeito
das barreiras materiais. Os Espíritos furtam-se da vista uns dos outros por efeito da
sua vontade, que atua sobre o seu envoltório perispiritual e sobre os fluidos
302 – Allan Kardec
ambientes. Mas a Providência, que vela por cada um individualmente, como seus
filhos, deixa-lhes ou lhes recusa essa faculdade conforme as disposições morais de
cada qual. Dependendo das circunstâncias, isso é uma punição ou uma recompensa.
20. Você é mais calmo do que ele; poderia nos dar uma descrição mais precisa
dos teus sofrimentos? – R. Na Terra, você não sofre por causa do teu orgulho,
do teu amor-próprio, quando é obrigado a reconhecer teus equívocos? Teu
espírito não se revolta com a ideia de se humilhar diante de quem te prova
que você está errado? Pois bem! Quanto você acha que sofre o Espírito que
durante toda uma existência se convenceu de que nada existe além dele e que
tem razão acima de todos? Quando de repente ele se encontra diante de uma
radiante verdade, ele fica arrasado, ele se sente humilhado. A isso ainda vem
se juntar o remorso de ter esquecido por tanto tempo a existência de um Deus
tão bom, tão indulgente. Sua situação é insuportável; ele não encontra nem
calma nem descanso; só encontrará um pouco de tranquilidade quando a
santa graça — quer dizer, o amor de Deus — o tocar, pois o orgulho se apossa
de tal modo de nosso pobre espírito que o envolve por inteiro; daí é preciso
ainda muito tempo para nos livrarmos dessa vestimenta fatal. Somente a
prece dos nossos irmãos pode nos ajudar a nos desembaraçarmos disso.
21. Você quer dizer dos irmãos vivos ou dos Espíritos? – R. De ambos.
22. Enquanto conversávamos com teu irmão, uma pessoa aqui presente orou
por ele; essa prece lhe foi útil? – R. Ela não será perdida. Se ele repulsa a graça
agora, ela lhe retornará quando ele estiver em condições de recorrer a essa
divina panaceia.
Nós vemos aqui um outro gênero de castigo, mas que não é o mesmo em todos
os incrédulos. Para este Espírito, independentemente do sofrimento e da necessidade,
o castigo é reconhecer as verdades que ele renegou na sua vida. Suas ideias atuais
denotam um certo progresso, em comparação às de outros Espíritos que persistem na
negação de Deus. já é alguma coisa e um princípio de humildade concordar que está
errado. É mais do que provável que, na sua próxima encarnação, sua incredulidade dê
lugar ao sentimento inato da fé.
Depois que o resultado dessas duas evocações foi transmitido à pessoa
que nos havia feito essa solicitação, nós recebemos dela a seguinte resposta:
303 – O Céu e o Inferno
“O senhor não pode imaginar, meu caro, o grande benefício produzido
pela evocação do meu sogro e do meu tio. Nós os reconhecemos
perfeitamente; em especial, a letra do primeiro apresenta uma semelhança
impressionante com a caligrafia que ele tinha em vida, e mais ainda porque,
nos derradeiros meses que ele passou conosco, essa letra era torta e
indecifrável; nela é reconhecível a mesma forma das pernas, da rubrica e de
certas letras. Quanto às palavras, às expressões e ao estilo, a analogia é ainda
mais marcante; para nós, a comparação é perfeita, exceto pelo fato de que ele
é mais esclarecido sobre Deus, a alma e a eternidade — que outrora ele
negava tão veementemente. Portanto, estamos absolutamente convencidos
de sua identidade. Deus será glorificado por nossa crença mais firme no
Espiritismo, e os nossos irmãos — os Espíritos e os encarnados — irão se
tornar melhores. A identidade de seu irmão também não é menos evidente;
apesar da imensa diferença entre o ateu e o crente, nós reconhecemos o seu
caráter, seu estilo e as reviravoltas típicas de suas frases; mas principalmente
uma palavra nos chamou a atenção: panaceia; essa era uma palavra que ele
costumava usar, e a repetia para todo mundo e a todo o instante.
“Mostrei essas duas evocações a várias pessoas, que ficaram admiradas
com a veracidade delas; porém os incrédulos, aqueles que compartilham das
opiniões dos meus parentes, desejariam respostas ainda mais categóricas:
eles queriam, por exemplo, que o Sr. D… especificasse onde ele foi enterrado,
onde se afogou, de que maneira foi encontrado etc. Para os satisfazer e os
convencer, será que vocês poderiam evocá-lo novamente, e nesse caso, bem
que vocês poderiam lhe perguntar onde e como ele realizou o seu suicídio;
quanto tempo permaneceu na água, em que lugar seu corpo foi achado; em
que lugar ele foi enterrado; de que maneira — civil ou religiosa — foi feito
seu sepultamento etc.
“Rogo, meu senhor, que tenha a bondade de perguntar categoricamente
essas questões, que são essenciais para aqueles que ainda duvidam. Tenho
certeza de que isso produzirá um bem imenso. Providenciarei para que
minha carta chegue na sexta-feira de manhã, a fim de que possam fazer essa
evocação na sessão da Sociedade desse mesmo dia… etc.”
Nós reproduzimos esta carta por causa da identidade que ela constata;
aqui anexamos a resposta que a ela demos, para a instrução das pessoas que
304 – Allan Kardec
não estão familiarizadas com as comunicações de além-túmulo.
“As perguntas que nos pediram para serem novamente endereçadas ao
Espírito de teu sogro foram indubitavelmente ditadas com uma intenção
louvável, qual a de convencer os incrédulos, pois em vocês não se mistura
nenhum sentimento de dúvida ou de curiosidade. Porém, um conhecimento
mais aperfeiçoado da ciência espírita teria feito com que compreendessem
que essas perguntas são supérfluas. Primeiramente, ao me solicitar que eu
obtenha respostas categóricas de teus parentes, sem dúvidas o senhor ignora
que não podermos governar os Espíritos ao nosso bel-prazer; eles respondem
quando e como eles querem, e muitas vezes conforme eles podem; a
liberdade de ação deles é ainda maior do que quando estavam vivos, tendo
agora mais meios de escaparem do constrangimento moral que queiramos
exercer sobre eles. As melhores provas de identidade são as que eles dão
espontaneamente, por vontade própria, ou que surjam de determinadas
circunstâncias, e na maioria das vezes é inútil procurarmos provocá-las. Teu
parente provou a própria identidade de um modo irrecusável, conforme você
mesmo afirmou; portanto, é mais do que provável que ele se recusaria a
responder às perguntas que, com toda razão, ele pode considerar como
supérfluas e levantadas com vista a satisfazer à curiosidade de gente que lhe
era indiferente. Ele poderia, como tantos outros Espíritos já fizeram em casos
semelhantes, responder assim: ‘Para que perguntar coisas que vocês já
sabem?’ Acrescento inclusive que o estado de perturbação e de sofrimento
em que ele se encontra se torna ainda mais penoso para ele com
investigações desse gênero; é exatamente como se alguém quisesse obrigar
um enfermo que mal consegue pensar e falar a contar os detalhes de sua vida;
seguramente, isso seria faltar com o devido respeito mediante a situação dele.
“Quanto ao resultado que espera disso, fique certo de que seria nulo. As
provas de identidade fornecidas têm um valor bem maior por terem sido
espontâneas e porque nada pode se opor a elas; se os incrédulos não se
deram por satisfeitos com elas, então não se dariam com mais nada — talvez
até menos com questões previstas e das quais eles poderiam suspeitar de
conveniência. Há pessoas a quem nada pode convencer; ainda que vissem o
teu parente com os próprios olhos, eles iriam achar que estariam sendo
vítimas de uma alucinação.
“Duas palavras mais, meu senhor, sobre o pedido que me fez para
305 – O Céu e o Inferno
efetuar essa evocação no mesmo dia em que eu receberia tua carta. As
evocações não são feitas assim de repente; os Espíritos nem sempre
correspondem ao nosso apelo; para isso, é preciso que eles possam e que eles
queiram; além disso, é preciso um médium que lhes convenha, possuindo as
aptidões especiais necessárias; que esse médium esteja disponível em dado
momento; que o ambiente seja simpático ao Espírito etc. Todas essas
circunstâncias nem sempre podem ser satisfeitas, e é importante que se saiba
disso quando se queira fazer a coisa seriamente.”
FELICIANO95
Era um homem rico, instruído, poeta espirituoso, de caráter bom,
prestativo e muito amável, de uma perfeita honorabilidade. Investimentos
equivocados comprometeram a sua fortuna e, como sua idade não lhe
permitia mais recuperá-la, ele cedeu ao desânimo e se suicidou em dezembro
de 1864, enforcando-se no seu quarto. Não era nem materialista nem ateu,
mas um homem de temperamento um tanto superficial, pouco se importando
com a vida futura. Como o conhecemos intimamente, nós o evocamos quatro
meses após sua morte, por simpatia pela sua pessoa.
Evocação – R. Sinto falta da Terra; tive aí algumas decepções, mas
menos do que aqui. Eu que sonhava maravilhas, e estou abaixo da realidade
ideal que esperava delas. O mundo dos Espíritos é bem misto, e para torná-lo
suportável seria preciso uma boa triagem. Nem posso acreditar! Quantos
esboços de costumes espíritas se poderia fazer aqui! Balzac96 deveria estar
trabalhando; ele seria rude. Mas eu não o vi; então, onde estarão esses
grandes Espíritos que tão fortemente flagelaram os vícios da humanidade?
Eles deveriam, assim como eu, morar aqui por algum tempo antes de irem às
regiões mais elevadas. É pandemônio curioso que me agrada observar, e eu
aqui permaneço.
Se bem que esse Espírito declare se encontrar numa sociedade bastante
95 No original em francês: Félicien. — N. T.
96 Honoré de Balzac (1799-1850): célebre escritor francês, considerado o fundador do Realismo na
literatura moderna, notável por sua perspicácia em descrever comportamentos. — N. T.
306 – Allan Kardec
diversificada e, por conseguinte, composta de Espíritos inferiores, a sua linguagem
acabou nos surpreendendo, em razão do gênero de sua morte, da qual ele não faz
qualquer menção, pois de outra forma era bem o reflexo do seu caráter. Isso nos
deixou algumas dúvidas quanto à sua identidade.
P. Queira nos dizer, por favor, como você morreu? – R. Como morri? Pela
morte que escolhi, a que me agradou. Meditei por muito tempo sobre qual
modo eu deveria escolher para me livrar da vida. E, honestamente, confesso
que não ganhei grande coisa com isso, exceto por ter me libertado das minhas
preocupações materiais, só que para encontrar outras mais graves e mais
penosas na minha condição de Espírito, cujo fim eu não prevejo.
P. (Ao guia do médium) – Será que é mesmo o Espírito do Sr. Feliciano
quem respondeu? Essa linguagem quase despreocupada em um suicida nos
espanta. – R. Sim; mas por um sentimento justificável na sua posição, e que
vocês compreenderão: ele não queria revelar o seu gênero de morte ao
médium; foi por isso que ele dissimulou frases, mas acabou admitindo —
levado por tua pergunta direta — embora esteja muito afetado com isso. Ele
sofre muito por ser suicida e afasta tanto quanto pode tudo que o faça
recordar esse fim funesto.
P. (Ao Espírito) – Tua morte nos sensibilizou ainda mais porque nós
previmos tristes consequências para você, e em razão principalmente da
estima e apego que compartilhamos contigo. Pessoalmente, não me esqueci
do quanto você era bom e prestativo para comigo. Ficarei feliz em expressar
minha gratidão, fazendo alguma coisa que te seja útil. – R. E, portanto, eu não
podia escapar de outro modo dos embaraços da minha posição material.
Agora, não preciso mais do que de preces; orem sobretudo para que eu seja
liberto desses horríveis companheiros que estão aqui perto de mim,
obsediando-me com suas risadas, gritos e zombarias infernais. Eles me
chamam de covarde, e eles têm razão; é covardia abandonar a vida. Essa é a
quarta vez que caio nessa provação. Eu tinha prometido para mim mesmo
que não ia falir… Que fatalidade!… Ah, orem por mim; que suplício, esse meu!
Estou muito infeliz! Você fará por mim, apenas orando, mais do que eu fiz por
você quando eu estava na Terra; mas a provação na qual eu fracassei tantas
307 – O Céu e o Inferno
vezes se apresenta diante de mim com traços indeléveis; terei que passar por
isso de novo em algum momento; será que terei forças para isso? Ah,
recomeçar a vida tantas vezes! Lutar por tanto tempo e ser arrastado pelos
acontecimentos até cair, é desesperador, mesmo aqui! É por isso que
necessito de forças. Dizem que podemos hauri-la na prece; então, rezem por
mim; eu também quero rezar.
Este caso particular de suicídio, conquanto realizado em circunstâncias muito
comuns, apresenta também uma feição especial: ele nos mostra um Espírito que
sucumbiu várias vezes a essa prova que se renova a cada existência e que se renovará
até que ele tenha tido forças para resistir. É a confirmação daquele princípio de que,
quando o objetivo de melhoramento para o qual nós encarnamos não é alcançado,
então teremos sofrido sem proveito, porque nos cabe recomeçar até que saiamos
vitoriosos da luta.
Ao Espírito de Feliciano – Ouça, eu te peço, ouça o que eu vou te dizer e
queira meditar as minhas palavras. O que chama de fatalidade não é outra
coisa senão a tua própria fraqueza, pois não existe fatalidade; de outro modo,
o homem não seria responsável pelos seus atos. O homem sempre é livre e
nisso consiste o seu mais belo privilégio. Deus não quis fazer dele uma
máquina agindo e obedecendo cegamente. Se essa liberdade torna o homem
falível, também o torna perfectível, e somente pela perfeição ele chega à
felicidade suprema. Somente o orgulho o leva a acusar o destino dos seus
infortúnios na Terra, quando na maioria das vezes eles se devem à sua
própria incúria. Você tem um exemplo flagrante disso na tua última
existência, quando tinha tudo o que precisava para ser feliz conforme o
mundo: inteligência, talento, fortuna, meritória consideração, e não tinha
nenhum vício ruinoso, mas ao contrário, tinha qualidades estimáveis. Como é
que a tua posição ficou tão radicalmente comprometida? Unicamente pelo teu
descuido. Admita que se você tivesse agido com mais prudência, se tivesse
sabido se contentar com a bela parte que já possuía, em vez de procurar
aumentá-lo sem necessidade, você não teria se arruinado. Portanto, não
houve nenhuma fatalidade, pois você podia evitar o que aconteceu.
Tua provação consistia num encadeamento de circunstâncias que
deveriam te dar, não a necessidade, mas a tentação do suicídio; para você,
308 – Allan Kardec
infelizmente, malgrado tua inteligência e tua educação, você não soube
dominar essas circunstâncias e agora carrega a penalidade da tua fraqueza.
Essa prova, tal como a pressentia com razão, deve se renovar ainda; na tua
próxima existência, terá de enfrentar eventos que provocarão de novo o
pensamento do suicídio, e assim acontecerá de novo até que tenha triunfado.
Longe de acusar a sorte — que é a tua própria obra —, admire a
bondade de Deus, que em vez de te condenar irremissivelmente pela primeira
falta, sempre te oferece os meios de repará-la. Desse modo, você sofrerá, não
eternamente, mas por tanto tempo quanto a reparação não tiver sido
concluída. Depende de você, na condição de Espírito, tomar a decisão
realmente firme de apresentar a Deus um arrependimento bem sincero e de
solicitar com a mesma perseverança o apoio dos bons Espíritos, para que
venha à Terra protegido contra todas as tentações. Uma vez alcançada essa
vitória, você caminhará na estrada da felicidade com muito mais rapidez, pois,
sob outros aspectos, o teu progresso já é bem grande. Então, esse ainda é um
passo a ser dado; nós te ajudaremos nisso com nossas orações, mas elas serão
impotentes se você mesmo não nos auxiliar com teus esforços.
R. Obrigado! Muito obrigado por tuas belas exortações! Tenho muita
necessidade desses incentivos, pois estou mais infeliz do que eu deixo
parecer. Vou aproveitar essas exortações, eu garanto a vocês, e vou me
preparar para a minha próxima encarnação, quando então dessa vez farei
tudo para não sucumbir. Mal posso esperar para sair desse lugar ignóbil no
qual fui aqui relegado.
FELICIANO
ANTÔNIO BELL97
Contador numa instituição bancária no Canadá, ele se suicidou no dia 28
de fevereiro de 1865. Um dos nossos correspondentes, médico e farmacêutico
na mesma cidade, nos deu sobre esse caso as seguintes informações:
“Eu conhecia Bell já tem mais de vinte anos. Ele era um homem
97 No original, Antoine Bell. — N. T.
309 – O Céu e o Inferno
inofensivo e pai de uma numerosa família. Há algum tempo, ele imaginou ter
comprado de mim um veneno e que o teria usado para envenenar alguém.
Muitas vezes ele vinha me suplicar para que eu lhe dissesse em que época eu
lhe tinha vendido aquele veneno, e então ele caia em terríveis alucinações.
Perdia o sono, acusando-se e batendo no peito. Sua família vivia numa
constante ansiedade, das quatro horas da tarde até às nove da manhã —
período em que ele prestava expediente no banco, onde ele organizava seus
livros de uma maneira bem regular, sem jamais cometer nenhum erro. Tinha
o costume de dizer que sentia dentro de si um ser que o fazia manter sua
contabilidade com ordem e regularidade. Quando parecia estar convencido do
absurdo dos seus pensamentos, ele bradava: “Não, não, você quer me
enganar… eu me lembro… isso é a verdade…”
Antônio Bell foi evocado em Paris no dia 17 de abril de 1865, a pedido do
seu amigo.
1. Evocação – R. O que querem de mim? Querem me submeter a um
interrogatório? É inútil; confessarei tudo!
2. Longe de nosso pensamento querer te atormentar com perguntas
indiscretas; apenas desejamos saber qual é a tua situação no mundo em que
está e se nós podemos fazer algo útil por você. – R. Ah, se puderem, eu ficaria
muito grato a você! Tenho horror ao meu crime e estou muito infeliz!
3. Nossas preces, assim esperamos, vão aliviar tua tristeza. Além do mais,
parece que você está em boas condições; existe arrependimento em teu ser e
isso já constitui um começo de reabilitação. Deus, que é infinitamente
misericordioso, sempre tem compaixão do pecador arrependido. Ore conosco.
(Neste momento, foi feita a prece pelos suicidas, que se encontra em O Evangelho
segundo o Espiritismo.)
Agora, tende a bondade de nos dizer de qual crime você se reconhece
culpado. Será levada em conta a teu favor essa confissão, feita com humildade.
– R. Deixem-me primeiro agradecer pela esperança que vocês vêm fazer
brotar no meu coração. Ah, já faz muito tempo que eu vivia numa cidade cujas
muralhas eram banhadas pelo Mar do Mediterrâneo. Eu amava uma bela e
jovem donzela que correspondia ao meu amor; mas eu era pobre, e fui
310 – Allan Kardec
rejeitado pela família dela. Ela me contou que ia desposar o filho de um
negociante, cujo comércio se estendia para além de dois mares; então fui
recusado. Louco de dor, resolvi tirar a própria vida — só que depois de
realizar minha vingança assassinando meu odioso rival. No entanto, os meios
violentos me repugnavam; eu estremecia ao pensar na ideia desse crime, mas
o meu ciúme prevaleceu. Na véspera do dia em que a minha amada devia ser
dele, ele morreu envenenado devido minhas providências, achando eu esse
meio mais fácil. Isso explica minhas reminiscências do passado. Sim, eu já vivi,
e é preciso que eu reviva ainda… Oh, meu Deus! Tenha piedade da minha
fraqueza e das minhas lágrimas.
4. Nós deploramos essa infelicidade que retardou teu avanço e sinceramente
lamentamos por você; todavia, já que se arrepende, Deus terá piedade de ti.
Diga-nos, por gentileza, se você executou o teu plano de suicídio. – R. Não;
para vergonha minha, confesso que a esperança retornou no meu coração,
pois eu desejava aproveitar o prêmio do meu crime. Entretanto, meus
remorsos me traíram e assim eu expiei aquele momento de loucura pelo
último suplício: eu fui enforcado.
5. Você tinha consciência daquela má ação praticada na existência anterior? –
R. Somente nos últimos anos da minha vida, e eis como: eu era bom por
natureza, e depois de ter sido submetido — como todos os Espíritos
homicidas — ao tormento da visão contínua da minha vítima, que me
perseguia como um remorso vivo, dela me libertei depois de muitos anos,
através de minhas preces e do meu arrependimento. Recomecei outra vez a
vida, esta mais recente, e a atravessei pacífico e tímido. Tinha em mim uma
vaga intuição da minha fraqueza natural e da minha anterior, cuja lembrança
eu sempre conservava em estado latente. Porém, um Espírito obsessor e
vingativo — que não era outro senão o pai da minha vítima — não teve
dificuldades de se apoderar de mim, fazendo reviver no meu coração, como se
fosse num espelho mágico, as lembranças do passado.
Alternadamente influenciado por ele e pelo meu guia, que me protegia,
eu era às vezes o envenenador e às vezes o pai de família que ganhava o pão
dos seus filhos pelo seu trabalho. Fascinado por esse demônio obsessor, fui
311 – O Céu e o Inferno
levado ao suicídio.
Sou muito culpado, é verdade, mas menos do que se eu tivesse resolvido
isso por mim mesmo. Os suicidas da minha categoria, e que são bastante
frágeis para resistir aos Espíritos obsessores, são menos culpados e menos
punidos do que quem tira a vida por efeito exclusivo do seu livre-arbítrio.
Rezem comigo pelo Espírito que tão fatalmente me influenciou, a fim de que
ele abdique de seus sentimentos de vingança, e rezem também por mim, para
que eu adquira a energia necessária para não falir na prova do suicídio por
livre vontade, prova à qual eu serei submetido, dizem-me, na minha
próxima encarnação.
6. Ao guia do médium – Um Espírito obsessor realmente pode levar o
obsediado ao suicídio? – R. Seguramente, pois a obsessão — que por si mesma
já é um gênero de prova — pode se revestir de todas as formas; mas isso não
é uma desculpa. O homem sempre tem o seu livre-arbítrio e, por conseguinte,
ele é livre para ceder ou resistir às sugestões a que está exposto. Quando ele
fracassa, é sempre por causa da sua vontade. De resto, esse Espírito tem razão
quando diz que aquele que cometeu o mal por incentivo de outro é menos
repreensível e menos punível do que quando ele o comete voluntariamente;
mas nem por isso ele é inocente, visto que, desde o instante em que ele se
deixa ser afastado do caminho reto, é que o bem ainda não está fortemente
enraizado nele.
7. Como é possível que, apesar da oração e do arrependimento que tinham
livrado esse Espírito do tormento que ele experimentava ao ver sua vítima,
ele ainda fosse perseguido pela vingança do Espírito obsessor na sua última
encarnação? – R. Como vocês sabem, o arrependimento não passa de uma
preliminar indispensável para a reabilitação, mas só isso não basta para
isentar o culpado de toda a punição. Deus não se contenta com promessas; é
preciso provar, pelos atos pessoais, a solidez do retorno ao bem. É por isso
que o Espírito é submetido a novas provações que o fortalecem, ao mesmo
tempo em que elas lhe permitem adquirir um merecimento ainda maior
quando delas a pessoa sai vitoriosa. A pessoa fica exposta às perseguições dos
Espíritos malignos até que ela se sinta forte o bastante para resistir aos
312 – Allan Kardec
perseguidores; daí em diante, eles a deixarão livre, porque sabem que suas
tentativas seriam infrutíferas.
Esses dois últimos exemplos nos mostram a mesma prova se renovando a cada
encarnação, toda vez que a pessoa caia nessa prova. Antônio Bell nos exemplifica,
aliás, o fato não menos instrutivo de um homem perseguido pela lembrança de um
crime cometido numa existência precedente, tal como um remorso e uma advertência.
Por aí nós vemos que todas as existências são solidárias umas com as outras; a justiça
e a bondade de Deus brilham na capacidade que ele concede ao homem para se
melhorar gradualmente, sem jamais lhe fechar a porta do resgate das próprias falhas;
o culpado é punido pelo seu erro pessoal e a punição, em vez de ser uma vingança de
Deus, representa o meio empregado para fazer o homem progredir.
313 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO VI
CRIMINOSOS ARREPENDIDOS
VERGER – LEMAIRE – BENOIST –
O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY – JACQUES LATOUR
VERGER
Assassino do Arcebispo de Paris
A 3 de janeiro de 1857, o monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, ao sair
da igreja de Saint-Étienne-du-Mont, foi mortalmente ferido por um jovem
padre chamado Verger. O culpado foi condenado à morte e executado no dia
30 de janeiro. Até o último instante ele não demonstrou nem pesar, nem
arrependimento, nem sensibilidade.
Evocado no mesmo dia da sua execução, ele deu as seguintes respostas:
1. Evocação – R. Ainda estou retido no corpo.
2. Então a tua alma ainda não está inteiramente desligada do teu corpo? – R.
Não… tenho medo… não sei… Esperem até que eu me reconheça… Não estou
morto, não é mesmo?
3. Você se arrepende do que fez? – R. Estava errado em matar, mas fui levado
a isso pelo meu caráter, que não podia suportar as humilhações… Evoquem-
me uma outra vez.
4. Por que você já vai? – R. Eu ficaria com muito medo se o visse; eu temeria
que ele me fizesse a mesma coisa.
5. Mas não há o que você temer, pois a tua alma está separada do teu corpo;
livre-se de toda preocupação: isso não é razoável. – R. O que querem? Será
314 – Allan Kardec
que vocês estão sempre certos de suas impressões?… Não sei onde estou…
estou louco!
6. Trate de se refazer. – R. Não posso mais, porque estou louco… Esperem!…
Vou recobrar toda a minha lucidez.
7. Será que se você orasse, isso não poderia te ajudar a concentrar tuas ideias?
– R. Tenho medo… não me atrevo a orar.
8. Ore, pois a misericórdia de Deus é grande! Nós vamos orar contigo. – R.
Sim, a misericórdia de Deus é infinita; sempre acreditei nela.
9. Agora, compreende melhor a tua situação? – R. Ela é tão extraordinária que
ainda não posso compreendê-la.
10. Está vendo a tua vítima? – R. Parece que eu escuto uma voz semelhante à
dele, dizendo-me: Não te quero mais… Mas deve ser um efeito da minha
imaginação!… Estou louco, garanto a vocês, pois vejo meu próprio corpo de
um lado e minha cabeça de outro… e, no entanto, parece que estou vivo, só
que no Espaço, entre a Terra e o que chamam de céu… Sinto até o frio de uma
faca caindo no meu pescoço… Mas isso é o medo que eu tenho de morrer…
Parece que estou vendo uma multidão de Espíritos à minha volta, olhando
para mim com compaixão… Eles falam comigo, mas eu não os compreendo.
11. Entre esses Espíritos, há algum cuja presença te humilhe por causa do teu
crime? – R. Direi que só há um deles que me amedronta: aquele que eu matei.
12. Lembra-se das tuas existências anteriores? – R. Não; tudo é vago… acho
que estou sonhando… Mais uma vez, preciso me encontrar…
13. (Três dias depois) – Você se reconhece melhor agora? – R. Agora já sei que
não sou mais desse mundo, e não sinto falta dele. Lamento pelo que fiz, mas
meu Espírito está mais livre; eu sei melhor que há uma série de existências
que nos dão os conhecimentos úteis para nos tornarmos tão perfeitos quanto
uma criatura pode ser.
14. Está sendo punido pelo crime que cometeu? – R. Sim; eu lamento o que fiz
e sofro por isso.
15. De que maneira você é punido? – R. Sou punido porque tenho consciência
315 – O Céu e o Inferno
da minha falta e peço perdão a Deus por isso; sou punido pela consciência da
minha falta de fé em Deus e porque sei agora que não devemos abreviar a
vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso em razão de eu ter retardado
o meu progresso ao tomar o caminho errado e não escutando o clamor da
minha consciência, que me dizia que não seria matando que eu chegaria ao
meu objetivo. Porém, deixei ser dominado pelo orgulho e pelo ciúme;
enganei-me e disso me arrependo, pois o homem sempre deve fazer esforços
para controlar suas más paixões — e eu não controlei as minhas.
16. Que sentimento você experimenta quando te evocamos? – R. Um prazer e
um temor, pois não sou mau.
17. Em que consiste esse prazer e esse temor? – R. Um prazer em conversar
com as pessoas e de poder em parte reparar minha falta confessando-a;
quanto ao temor, eu não saberia definir… É uma espécie de vergonha por ter
sido assassino.
18. Gostaria de estar reencarnado na Terra? – R. Sim, eu peço isso, e desejo
ficar constantemente exposto a ser assassinado e ter medo disso.
Sendo evocado, Monsenhor Sibour disse que perdoava seu assassino e orava
para que ele retornasse ao bem. Acrescentou que, embora presente, não tinha se
mostrado a ele para não aumentar o sofrimento do algoz; o temor de vê-lo — que era
um sinal de remorso — já bastava como castigo.
P. O homem que comete um assassínio, ao escolher sua existência, já
sabe que irá se tornar um assassino? – R. Não; ele sabe que, escolhendo uma
vida de luta, há a chance de matar um de seus semelhantes, mas ele não sabe
se fará isso, porque quase sempre houve uma luta dentro dele.
A situação de Verger, no momento de sua morte, é a de quase todos que
perecem de morte violenta. Como a separação da alma não se opera de uma maneira
brusca, eles ficam como que aturdidos e não sabem se estão mortos ou vivos. A
presença do arcebispo lhe foi poupada, por ela não ser necessária a fim de incitar nele
o remorso, ao passo que outros, ao contrário, são constantemente perseguidos pelo
olhar das suas vítimas.
À gravidade do seu crime, Verger acrescentava o fato de não ter se arrependido
316 – Allan Kardec
ainda de morrer; portanto, ele tinha todas as condições requeridas para sofrer a
condenação eterna. Entretanto, mal ele deixou a Terra e o arrependimento penetrou a
sua alma; ele repudia seu passado e pede sinceramente para repará-lo. Não é o
excesso de sofrimento que o motiva a isso, porque ele nem teve tempo para sofrer;
mas é exatamente o grito da sua consciência, que ele tinha desprezado em vida e que
agora ele está escutando. Por que então isso não seria levado em conta a favor dele?
Por que aquilo que o teria salvo do inferno deixaria de valer alguns dias depois? Por
que Deus, que teria sido misericordioso antes da morte, haveria de ser impiedoso
algumas horas mais tarde?
Alguém poderia ficar admirado da rapidez da mudança que às vezes se opera
nas ideias de um criminoso endurecido até o derradeiro momento e naquele em quem
um instante na outra vida basta para lhe fazer compreender a iniquidade da sua
conduta. Esse efeito está longe de ser generalizado, pois sem isso não haveria maus
Espíritos; o arrependimento quase sempre é muito tardio, então a pena é prolongada
por consequência disso.
A obstinação no mal durante a vida às vezes é uma consequência do orgulho que
recusa ceder e admitir seus próprios erros; isso é porque o homem está sob a
influência da matéria — que lança um véu sobre suas percepções espirituais e o
fascina. Depois que esse véu cai, uma luz súbita o esclarece e ele se encontra como que
sóbrio. O pronto retorno a melhores sentimentos é sempre o indício de um certo
progresso moral realizado, que não pede mais do que uma circunstância favorável
para se revelar, enquanto quem persiste no mal mais ou menos por um longo tempo
depois da morte é, incontestavelmente, um Espírito mais atrasado, em quem o
instinto material sufoca a semente do bem e a quem ainda são necessárias novas
provações para se corrigir.
LEMAIRE
Condenado à pena de morte pelo júri do Aisne e executado em 31 de dezembro de
1857; evocado em 29 de janeiro de 1858
1. Evocação – R. Aqui estou.
2. Que sentimento você experimenta diante de nós? – R. Vergonha.
3. Conservou tua consciência até o último momento? – R. Sim.
4. Imediatamente após a tua execução, você teve consciência da tua nova
317 – O Céu e o Inferno
existência? – R. Fiquei mergulhado numa imensa perturbação, da qual ainda
não saí. Senti uma grande dor e parecia que meu coração a sofria. Vi rolar não
sei o que aos pés do cadafalso; vi sangue correr, e a minha dor se tornou ainda
mais pungente. — Era uma dor puramente física, semelhante à que seria
causada por um grave ferimento, a dor de uma amputação de um membro,
por exemplo? – R. Não; imaginem um remorso, uma grande dor moral. —
Quando você começou a sentir essa dor? – R. Desde que fiquei livre.
5. Essa dor física causada pelo suplício, era sentida pelo corpo ou pelo
Espírito? – R. A dor moral estava no meu Espírito; o corpo sentia a dor física;
mas o Espírito separado ainda se ressentia dessa dor física.
6. Viu o teu corpo mutilado? – R. Vi alguma coisa disforme, que me parecia
partido; porém, eu ainda me sentia inteiro: era eu mesmo. — Que impressão
essa cena te causou? – R. Eu sentia bastante a minha dor; eu estava perdido
nela.
7. É verdade que o corpo vive ainda alguns instantes após a decapitação, e que
o supliciado tem consciência das suas ideias? – R. O Espírito se retira pouco a
pouco; quanto mais os laços materiais estão enlaçados, menos rápida é a
separação.
8. Há quem diga ter notado na fisionomia de determinados supliciados a
expressão de cólera e de movimentos, como se eles quisessem falar; isso seria
o efeito de uma contração nervosa ou de um ato voluntário? – R. Voluntário,
pois o Espírito ainda não tinha se retirado do corpo.
9. Qual é o primeiro sentimento que você experimentou ao entrar na tua nova
existência? – R. Um sofrimento intolerável, uma espécie de remorso pungente
cuja causa eu ignorava.
10. Você ficou reunido com os teus cúmplices, executados junto contigo? – R.
Para a nossa tristeza, sim; nossa presença mútua é uma desgraça contínua;
cada qual culpando os outros pelos seus crimes.
11. Reencontrou tuas vítimas? – R. Eu as vejo… estão todos felizes… o olhar
delas me perseguem… sinto que penetram até o fundo do meu ser… em vão eu
tento fugir… — Que sentimento o olhar delas provoca em você? – R. Vergonha
318 – Allan Kardec
e remorso. Eu causei isso com as minhas próprias mãos, e as odeio também
por isso. — O que eles sentem diante de você? – R. Piedade.
12. Será que eles têm ódio e desejo de vingança? – R. Não; o olhar deles clama
pela minha expiação. Vocês não poderiam imaginar o horrível suplício que é
dever tudo a quem odiamos.
13. Você lamenta pela vida terrestre? – R. Só lamento os meus crimes. Se
dependesse de mim, eu não sucumbiria novamente.
14. A tendência para o mal era da tua natureza, ou será que você foi
influenciado pelo meio em que vivia? – R. A tendência para o crime era da
minha natureza, pois eu não passava de um Espírito inferior. Quis me elevar
rapidamente, porém pedi mais do que minhas forças; acreditei ser forte e
escolhi uma prova rude, daí cedi às tentações do mal.
15. Se tivesse recebido bons princípios de educação, será que você poderia ter
sido desviado da via criminosa? – R. Sim; mas eu escolhi a condição em que
nasci. — Poderia ter se tornado um homem de bem? – R. Um homem fraco,
incapaz tanto de fazer o bem quanto de fazer o mal. Eu poderia corrigir o mal
da minha natureza durante a minha existência, mas não me elevar a ponto de
fazer o bem.
16. Enquanto vivo, acreditava em Deus? – R. Não. — No entanto, dizem que no
momento de morrer a pessoa se sente arrependida; isso é verdade? – R. Eu
acreditei num Deus vingativo… Eu tive medo da sua justiça. — Neste
momento, o teu arrependimento é mais sincero? – R. Ah, eu vejo o que fiz. —
O que você pensa de Deus agora? – R. Eu o pressinto, mas não o compreendo.
17. Acha justo o castigo que te infligiram na Terra? – R. Sim.
18. Espera obter o perdão dos teus crimes? – R. Não sei. — Como espera
repará-los? – R. Através de novas provações, mas me parece que existe uma
eternidade entre elas e eu.
19. Onde você se encontra agora? – R. Estou dentro do meu sofrimento. —
Perguntamos em que lugar você está. – R. Perto do médium.
20. Já que está aqui, se nós pudéssemos te ver, sob qual forma você apareceria
319 – O Céu e o Inferno
para nós? – R. Sob a minha forma corpórea: a cabeça separada do tronco. —
Poderia aparecer para nós? – R. Não; deixem-me!
21. Gostaria de nos dizer como conseguiu fugir da prisão de Montdidier? – R.
Eu não sei mais… meu sofrimento é tão grande que só tenha lembrança do
crime… Deixem-me!
22. Poderíamos levar algum alívio para os teus sofrimentos? – R. Façam votos
para que chegue a minha expiação.
BENOIST
(Bordeaux, março de 1862)
Um Espírito se apresenta espontaneamente ao médium sob o nome de
Benoist, dizendo ter morrido em 1704 e que está padecendo de horríveis
sofrimentos.
1. Quem foi quando estava vivo? – R. Um monge sem fé.
2. A falta de fé foi o teu único erro? – R. Basta ela para arrastar os demais.
3. Poderia nos dar alguns detalhes da tua vida? A sinceridade da tua confissão
será levada em conta a teu favor. – R. Sem fortuna e preguiçoso, ordenei-me
frade, não por vocação, mas para ter uma boa posição. Inteligente, eu consegui
um lugar; influente, abusei do poder; vicioso, atraí para as desordens aqueles
a quem eu tinha a missão de salvar; cruel, persegui aqueles que pareciam
culpar meus excessos; os pacíficos foram incomodados devido minhas
providências. A fome torturou muitas vítimas e seus gritos muitas vezes eram
abafados pela violência. Agora, eu expio todas as torturas do inferno; minhas
vítimas ateiam o fogo que me devora. A luxúria e a fome insaciáveis me
perseguem; a sede irrita meus lábios ardentes sem nunca deixar cair sobre
eles uma gota refrescante; todos os elementos se encalçam contra mim.
Rezem por mim!
4. As preces feitas pelos falecidos devem ser atribuídas a você assim como aos
outros? – R. Vocês acham que elas sejam muito edificantes, mas para mim
320 – Allan Kardec
elas têm o mesmo valor daquelas que eu fingia fazer. Como não completei
minha tarefa, não recebo salário por elas.
5. Você jamais se arrependeu? – R. Há muito tempo; mas só através do
sofrimento. Como eu era surdo ao clamor de vítimas inocentes, o Mestre
também é surdo aos meus clamores. Justiça!
6. Você reconhece a justiça do Senhor; então, confie na bondade dele e peça
pelo seu auxílio. – R. Os demônios berram mais forte do que eu; meus gritos
ficam engasgados; eles enchem a minha boca de piche fervente!… Eu consegui,
grande… (O Espírito não pôde escrever a palavra Deus.)
7. Você não está suficientemente separado das ideias terrenas para entender
que as torturas pelas quais está passando são todas morais? – R. Sofro-as,
sinto-as, vejo os meus carrascos; todos eles têm um rosto conhecido; todos
eles têm um nome que repercute em meu cérebro.
8. O que foi que te levou a todas essas infâmias? – R. Os vícios dos quais eu
estava repleto; a brutalidade das paixões.
9. Nunca implorou a assistência dos bons Espíritos para te ajudarem a sair
dessa situação? – R. Não vejo senão os demônios do inferno.
10. Tinha medo deles, quando estava vivo? – R. Não, medo nenhum; o nada,
essa era a minha fé. Prazeres a todo custo, isso constituía o meu culto.
Divindades do inferno, elas nunca me deixaram; consagrei minha vida a elas e
elas não me abandonaram mais!
11. Não vislumbra um fim para os teus sofrimentos? – R. Infinito não tem fim.
12. Deus é infinito na sua misericórdia; tudo pode ter um término quando ele
assim o queira. – R. Ah, se ele quisesse!
13. Por que veio se apresentar aqui? – R. Não sei como, mas eu queria falar e
gritar como que para desabafar.
14. Teus demônios não te impedem de escrever? – R. Não, mas eles ficam na
minha frente, me esperando; é por isso que eu não queria terminar.
15. É a primeira vez que você escreve desse modo? – R. Sim. — Sabia que os
Espíritos podem se aproximar dos homens assim? – R. Não. — Então, como
321 – O Céu e o Inferno
você conseguiu compreendê-lo? – R. Não sei.
16. O que sente ao chegar perto de mim? – R. Uma dormência nos meus
temores.
17. Como percebeu que você estava aqui? – R. Como alguém que acorda.
18. Como fez para se comunicar comigo? – R. Nem sei, mas você não sentiu?
19. Não se trata de mim, mas de você; tente se dar conta do que você faz neste
momento em que eu escrevo. – R. Você é o meu pensamento, eis tudo.
20. Quer dizer que não sentiu vontade de me fazer escrever? – R. Não, sou eu
quem está escrevendo, e você pensa por mim.
21. Tente se dar conta disso; os Espíritos bons que nos rodeiam te ajudarão
nisso. – R. Não, os anjos não vêm ao inferno. — Olha ao teu redor. – R. Sinto
que alguém me ajuda a pensar por você… tua mão me obedece… não te toco,
mas eu te seguro… Eu não entendo…
22. Peça a assistência dos teus protetores; nós vamos pedir juntos. – R. Quer
me deixar? Fique comigo; eles vão me pegar de novo! Por favor, fique! Fique!
23. Não posso ficar por mais tempo. Volte aqui todos os dias; nós rezaremos
juntos e os bons Espíritos te ampararão. – R. Sim, desejo meu perdão. Peçam
por mim; quanto a mim, eu não consigo.
O guia do médium – Coragem, meu filho; aquilo que você pede te será
concedido, mas a expiação ainda está longe de terminar. As atrocidades que
ele cometeu são incontáveis e a culpa dele é ainda maior porque ele tinha
inteligência, instrução e a luz para se guiar. Portanto, ele falhou com
conhecimento de causa; sendo assim, seus sofrimentos são terríveis. Porém,
com o socorro e o exemplo da prece, suas dores serão amenizadas, porque ele
verá a possibilidade do fim delas, e a esperança o sustentará. Deus o vê na
rota do arrependimento, e já lhe concedeu a graça de poder se comunicar, a
fim de ser encorajado e amparado. Dessa maneira, pense sempre nele; nós o
entregamos a você para fortalecê-lo nas boas resoluções que ele poderá tomar
ajudado pelos teus conselhos. Ao arrependimento sucederá nele o desejo da
reparação; a partir de então ele mesmo pedirá uma nova existência na Terra,
322 – Allan Kardec
para praticar o bem em lugar do mal que ele fez. E quando Deus estiver
satisfeito com ele, o perceber bem firme, Deus o fará pressentir as divinas
claridades que o conduzirão à porta da salvação, recebendo-o no seu seio qual
o filho pródigo. Tenha confiança! Nós te ajudaremos a realizar a tua obra.
PAULINO
Colocamos este Espírito entre os criminosos, se bem que ele não foi atingido
pela justiça humana, porque o crime consiste nos atos, e não no castigo aplicado pelos
homens. É a mesma situação do caso seguinte.
O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY
Numa pequena casa, perto de Castelnaudary, ocorriam barulhos
estranhos e diversas manifestações que a fizeram ser considerada como mal-
assombrada por algum gênio mau. Por esse fato, ela foi exorcizada em 1848,
sem resultado. O proprietário, o Sr. D…, querendo habitá-la, lá morreu
subitamente alguns anos depois; seu filho, que em seguida também quis lá
morar, ao entrar num dos cômodos, recebeu certo dia um forte tapa dado por
uma mão desconhecida; como ele estava perfeitamente sozinho, não pôde
duvidar que o golpe tinha vindo de uma fonte oculta — razão pela qual ele
resolveu sair de lá definitivamente. Há naquela região uma tradição segundo a
qual um grande crime havia sido cometido naquela casa.
O Espírito que tinha dado a bofetada, tendo sido evocado na Sociedade
de Paris, em 1859, manifestou-se com sinais de violência; todos os esforços
para acalmá-lo foram inúteis. São Luís, interrogado a respeito disso,
respondeu: “Trata-se de um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro:
nós o trouxemos aqui, mas não conseguimos obrigá-lo a escrever, apesar de
tudo o que lhe foi dito, pois ele tem seu livre-arbítrio, e o infeliz faz um triste
uso disso.”
P. Esse Espírito é passivo de melhoria? – R. Por que não? Não são todos
eles capazes, este assim como os outros? No entanto, é certo que para isso vai
haver dificuldades; mas, por mais perverso que ele seja, o bem sendo aplicado
em lugar do mal acabará por sensibilizá-lo. Em primeiro lugar, oremos por
ele, e depois, daqui a um mês, vamos evocá-lo: vocês poderão ver a mudança
323 – O Céu e o Inferno
que se realiza nele.
Evocado novamente mais tarde, o Espírito mostra-se mais tratável, e
pouco a pouco mais submisso e arrependido. Das explicações posteriores
fornecidas por ele e por outros Espíritos, resulta que em 1608 ele morava
naquela casa, onde tinha assassinado seu irmão por suspeitas de uma
ciumenta rivalidade, golpeando-o na garganta enquanto sua vítima dormia;
passados alguns anos, também matou aquela que havia se tornado sua esposa,
após a morte do seu irmão. Ele faleceu em 1659, com a idade de oitenta anos,
sem ter sido incomodado por essas mortes, às quais se dava pouca atenção
naqueles tempos de confusões. Depois da sua morte, ele não parou de
procurar fazer o mal, provocando vários acidentes ocorridos naquela casa.
Um médium vidente que assistiu à primeira evocação, visualizou-o quando
pretendiam forçá-lo a escrever; ele sacudia bruscamente o braço do médium:
seu aspecto era medonho; estava vestido com uma camisa coberta de sangue
e carregando um punhal.
1. Pergunta a são Luís. – Queira nos descrever o gênero de suplício desse
Espírito. – R. É atroz para ele, que foi condenado a permanecer na casa onde o
crime foi cometido, sem poder dirigir seu pensamento para outra coisa que
não o seu crime, sempre diante dos olhos dele, e crendo estar fadado a essa
tortura por toda a eternidade. Ele se vê constantemente no momento em que
cometeu seu crime; qualquer outra lembrança lhe foi retirada e toda
comunicação com qualquer outro Espírito lhe é proibida. Na Terra, ele só
pode permanecer naquela casa, e quando ele está no Espaço só existe trevas e
solidão.
2. Haveria algum meio de fazê-lo desalojar dessa casa? E qual seria? – R. Caso
se queira desembaraçar-se de obsessões de semelhantes Espíritos, isso é fácil:
orem por eles. Mas isso é exatamente o que todo mundo sempre esquece de
fazer; prefere-se intimidá-los com fórmulas de exorcismos — o que os
divertem bastante.
3. Sugerindo às pessoas interessadas a ideia de orar por ele, e nós mesmos
também orando, conseguiríamos fazê-lo desalojar aquela casa? – R. Sim, mas
reparem bem que eu disse para orar, e não para mandar orar.
324 – Allan Kardec
4. Eis que se passaram dois séculos com ele nessa situação; será que ele
percebe esse tempo como teria percebido se fosse vivo? Quer dizer, o tempo
lhe pareceria tão longo ou menos longo do que quando estava vivo? – R. Para
ele parece ser mais longo, pois o sono não existe para ele.
5. Disseram-nos que para os Espíritos o tempo não existe e que um século
para eles não passa de um ponto na eternidade; então o tempo não é o mesmo
para todos? – R. Não, certamente; o tempo só é o mesmo para os Espíritos que
já chegaram a um grau muito elevado de adiantamento, enquanto para os
Espíritos inferiores o tempo às vezes é bem longo, sobretudo quando sofrem.
6. De onde vinha esse Espírito antes da sua encarnação? – R. Ele teve uma
existência entre os povos dos mais ferozes e selvagens e, precedentemente,
veio de um planeta inferior à Terra.
7. Esse Espírito está sendo punido bem severamente pelo crime que cometeu;
já que ele vivia entre povos bárbaros, ele deve ter cometido lá atos não menos
atrozes que os dessa última encarnação; será que lá ele era punido da mesma
forma? – R. Ele era menos punido lá, porque, sendo mais ignorante, ele
compreendia menos a extensão dos seus crimes.
8. O estado em que esse Espírito se encontra é o dos seres vulgarmente
chamados de danados? – R. Absolutamente não; há Espíritos ainda mais
hediondos. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, mesmo
que para crimes semelhantes, pois eles variam conforme o culpado seja mais
ou menos acessível ao arrependimento. Para esse Espírito aqui, a casa onde
ele cometeu seus crimes é o seu inferno; outros carregam o seu inferno em si
mesmos, pelas paixões que os atormentam e que eles não podem saciar.
9. Apesar da sua inferioridade, esse Espírito ressente os bons efeitos da prece;
já vimos a mesma coisa com outros Espíritos igualmente perversos e de
natureza mais bruta. Como é possível que Espíritos mais esclarecidos e de
uma inteligência mais desenvolvida, possam demonstrar completa ausência
de bons sentimentos e que até riem de tudo o que há de mais sagrado e,
enfim, que nada os comova, sem haver nenhuma trégua no seu cinismo? – R. A
prece só tem eficácia em favor do Espírito que se arrepende; aquele que,
325 – O Céu e o Inferno
dominado pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste nos seus equívocos,
exagerando-os ainda mais, tal como o fazem os Espíritos infelizes, então sobre
esses a prece não adianta nada, e nem poderá adiantar senão no dia em que
um facho de arrependimento tenha se manifestado neles. A ineficácia da
prece é também para eles um castigo; a prece só alivia os que não estão
totalmente endurecidos.
10. Quando vemos um Espírito insensível aos bons efeitos da prece, isso seria
uma razão para deixarmos de orar por ele? – R. Sem dúvidas que não! Pois
cedo ou tarde a prece poderá vencer o endurecimento dele, fazendo germinar
nele pensamentos salutares.
É o mesmo que acontece com determinados enfermos sobre os quais os
remédios só agem a longo prazo, cujo efeito não é apreciável no momento; sobre
outros, ao contrário, os medicamentos afetam imediatamente. Se nos
compenetrarmos dessa verdade de que todos os Espíritos são perfectíveis e que
nenhum está fatal e eternamente fadado ao mal, então compreenderemos que, cedo
ou tarde, a prece fará seu efeito e que aquilo que à primeira vista parece ineficaz, na
verdade, deposita sementes salutares que predispõem o Espírito ao bem — quando
não o afetam imediatamente. Seria, pois, um erro ficar desanimado porque não se
obteve um sucesso de imediato.
11. Quando esse Espírito reencarnar, em qual categoria de indivíduos ele se
encontrará? – R. Isso depende dele e do arrependimento que ele sentir.
Várias conversas com esse Espírito lhe renderam uma notável modificação no
seu estado moral. Eis aqui algumas das suas respostas:
12. Ao Espírito. – Por que você não pôde escrever da primeira vez que te
chamamos? – R. Eu não queria escrever. — Por que não? – R. Ignorância e
embrutecimento.
13. Então agora você pode deixar a casa de Castelnaudary quando bem
quiser? – R. Tenho essa permissão, uma vez que estou aproveitando os bons
conselhos de vocês. — Sente algum alívio com isso? – R. Começo a ter
esperança.
14. Se pudéssemos te ver, sob qual aparência nós te enxergaríamos? – R.
326 – Allan Kardec
Iriam me ver com a camisa, mas sem o punhal. — Por que você não carrega
mais o teu punhal? O que fez dele? – R. Eu o maldigo; Deus me livre de vê-lo!
15. Se o filho do Sr. D… (aquele que tinha recebido a bofetada) retornasse
àquela casa, você lhe faria algum mal? – R. Não, porque estou arrependido. —
E se ele ainda quisesse te desafiar? – R. Oh, não me pergunte isso! Eu não me
dominaria, isso está acima das minhas forças, pois não passo de um miserável.
16. Consegue ver o fim das tuas aflições? – R. Oh, ainda não; graças à tua
intercessão, eu sei que elas não durarão para sempre, e isso já é muito mais
do que eu mereço saber.
17. Tenha a bondade de descrever para nós a situação em que você estava
antes de te evocarmos pela primeira vez. Você deve saber que nós te pedimos
isso por termos um meio de te ajudar, e não por mera curiosidade. – R. Eu já
disse a vocês: eu não tinha consciência de nada, nem do mundo nem do meu
crime, e não podia sair da casa onde o cometi, a não ser para vagar no espaço,
onde tudo em torno de mim era solidão e escuridão; eu não saberia te dar
uma ideia disso, porque nunca consegui compreender nada disso. Desde que
subi acima do ar, tudo era escuro, tudo era vazio; nem sei o que era… Hoje eu
sinto muito mais remorsos, mas não sou mais constrangido a ficar naquela
casa fatal; tenho permissão para vagar na Terra e procurar me esclarecer
pelas minhas observações; mas então estou compreendendo melhor a
enormidade das minhas responsabilidades; e se por um lado estou sofrendo
menos, por outro aumentam as torturas do remorso. Mas, pelo menos tenho
esperanças.
18. Se você pudesse retomar uma existência corporal, qual escolheria? – R.
Ainda não vi nem refleti o bastante para saber.
19. Durante teu longo isolamento — e podemos até dizer cativeiro —, você
sentiu algum remorso? – R. Nem o menor remorso, e foi por isso que eu sofri
por tanto tempo. Só quando comecei a senti-lo foi que surgiram, sem que eu
soubesse, as circunstâncias que ocasionaram a minha evocação, à qual eu
devo o princípio da minha libertação. Então, obrigado a vocês, que tiveram
piedade de mim e me esclareceram.
327 – O Céu e o Inferno
De fato, nós temos visto avarentos sofrerem ao ver o ouro, que para eles se
tornou uma verdadeira quimera; vemos orgulhosos atormentados pela inveja das
honrarias que eles viam serem prestadas, mas não dirigidas a eles; homens que
mandavam na Terra, humilhados pela força invisível que os constrangia a obedecer,
assim como pela presença de seus subordinados, que não se curvavam mais diante
deles; vemos ateus sofrerem as angústias da incerteza, encontrando-se num absoluto
isolamento no meio da imensidade, sem ter nenhum ser que possa esclarecê-los. No
mundo dos Espíritos, se há alegrias para todas as virtudes, há também penalidades
para todas as faltas, e aqueles que não são afetados pelas leis dos homens são
responsabilizados pela lei de Deus.
É de se notar, além disso, que as mesmas faltas, embora cometidas em condições
idênticas, são punidas com castigos às vezes bem diferentes, segundo o grau de
adiantamento intelectual do Espírito. Aos Espíritos mais atrasados e de uma natureza
bruta — como este, com que estamos tratando aqui —, são infligidas penas de alguma
forma mais materiais do que morais, enquanto ocorre o contrário com aqueles cuja
inteligência e sensibilidade sejam mais desenvolvidas. Para os primeiros é preciso um
castigo apropriado à rudeza da sua brutalidade, a fim de fazê-los compreender os
desajustamentos de sua situação e lhes inspirar o desejo de sair dessa posição. É
assim que até mesmo a vergonha, por exemplo, que causaria pouca ou nenhuma
impressão sobre eles, será intolerável para os outros.
Nesse código penal divino, a sabedoria, a bondade e a previdência de Deus para
com as suas criaturas revelam-se até nas menores coisas; tudo é proporcionado, tudo
é combinado com uma admirável solicitude para facilitar aos culpados os meios de se
reabilitar; em favor deles, são levadas em consideração todas as boas aspirações da
alma. Segundo o dogma das penas eternas no inferno, ao contrário, os maiores e os
menores culpados são igualados — os culpados de um dia e os cem vezes
reincidentes, os endurecidos e os arrependidos; tudo é calculado para os manter no
fundo do abismo. Nenhuma tábua de salvação lhes é oferecida; um único pecado pode
precipitar sua alma para sempre nesse abismo, sem que seja levado em conta o bem
que eles tenham feito. De que lado está a verdadeira justiça e a verdadeira bondade?
Essa evocação nada tem de casual; como ela deveria ser útil a esse infeliz, os
Espíritos que velavam por ele — vendo que ele já começava a compreender a
enormidade de seus crimes — julgaram que havia chegado o momento de lhe dar um
socorro eficaz, e foi então que conduziram as circunstâncias propícias. Isso é algo que
temos visto se reproduzir muitas vezes.
A esse respeito, alguém nos perguntou o que aconteceria com ele se não pudesse
328 – Allan Kardec
ter sido evocado, e o que acontece com todos os Espíritos sofredores que não podem
ser evocados ou com os quais ninguém se importa. A isso, foi respondido que os meios
de Deus para a salvação das criaturas são inumeráveis; a evocação é um meio de
ajudá-los, mas certamente não o único, e Deus não deixa nenhuma de suas criaturas
no esquecimento. Ademais, as preces coletivas devem exercer sua parte de influência
sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento.
Deus não subordinaria a sorte dos Espíritos sofredores aos conhecimentos e à
boa vontade dos homens. Desde que estes possam estabelecer relações regulares com
o mundo invisível, um dos primeiros resultados do Espiritismo foi lhes ensinar os
serviços que, por meio dessas relações, podem auxiliar os seus irmãos desencarnados.
Deus assim quis, por esse meio, provar a eles a solidariedade que existe entre todos os
seres do Universo e dar uma lei da natureza como base ao princípio da fraternidade.
Abrindo esse novo campo ao exercício da caridade, ele lhes mostra o lado
verdadeiramente útil e sério das evocações, até então desvirtuadas de sua finalidade
providencial pela ignorância e pela superstição. Portanto, os Espíritos sofredores
jamais sentiram falta de socorro em nenhuma época, e se as evocações lhes abriram
uma nova via de salvação, os encarnados talvez ganhem mais ainda com isso, no que
elas são para os homens novas oportunidades de fazer o bem, ao mesmo tempo em
que aprendem sobre o verdadeiro estado da vida futura.
JACQUES LATOUR
Assassino condenado pelo júri de Foix e executado em setembro de 1864
Numa reunião espírita íntima de sete a oito pessoas, ocorrida em
Bruxelas, em 13 de setembro de 1864, e à qual nós assistimos, uma senhora
médium foi requisitada para escrever; não sendo feita nenhuma evocação
especial, ela começa a rabiscar com extraordinária agitação e com letras
muito grossas, e depois de ter riscado violentamente o papel essas palavras:
“Eu me arrependo! Estou arrependido! Latour.”
Surpresos com essa comunicação inesperada — que nada havia
provocado, pois ninguém havia pensado nesse infeliz, cuja morte era ignorada
pela maior parte dos participantes —, dirigimos ao Espírito algumas palavras
de comiseração e encorajamento; então lhe perguntamos:
Que motivo pôde te trazer até nós, e não em outro lugar, já que não te
329 – O Céu e o Inferno
chamamos?
Aquela dama, que também é médium falante, respondeu de viva voz:
“Eu vi que vocês tinham almas compassivas e que teriam piedade de
mim, já que outros me evocam mais por curiosidade do que por verdadeira
caridade, ou se afastam de mim com horror.”
Então começou uma cena indescritível, que não durou menos de meia
hora: a médium juntando gestos e a expressão da fisionomia à fala, ficou
evidente que o Espírito se identificava com a sua pessoa; por vezes suas
manifestações de desespero eram muito comoventes, exibindo suas angústias
e seus sofrimentos com um tom dilacerante, suas súplicas tão veementes, que
todos os presentes ficaram profundamente compungidos.
Alguns ficaram até mesmo aterrorizados com a superexcitação da
médium, mas nós pensamos que a comunicação de um Espírito que se
arrepende e que implora misericórdia não poderia oferecer nenhum perigo.
Se ele apoderou-se dos órgãos da médium, foi para melhor expressar sua
situação e chamar mais atenção para a sua destinação, mas não como os
Espíritos obsessores e possessores, que visam se apoderar do médium para
dominá-lo. Sem dúvidas, isso lhe foi permitido no seu próprio interesse, e
talvez também para a instrução das pessoas presentes.
Ele grita:
“Oh, sim, piedade! Eu necessito muito dela, pois vocês não sabem o que
eu estou sofrendo!… Não, vocês não sabem; não podem compreender… É
horrível!… A guilhotina!… O que ela significa, em comparação com o que eu
passo agora?! Ela não é nada, é só um instante. Mas esse fogo que me devora,
oh, é pior, é uma morte contínua, é um sofrimento que não dá nem trégua nem
repouso… que não tem fim!…
“E as minhas vítimas que estão aqui, ao meu redor… que me mostram
suas feridas… que me perseguem com seus olhares!… Elas estão aqui, diante
de mim… Eu vejo todas elas… sim, todas… Eu vejo todas elas e não posso fugir
delas!… E esse mar de sangue!… E esse ouro sujo de sangue!… Está tudo aqui,
sempre diante de mim!… Não estão sentindo o fedor de sangue? Sangue,
sempre sangue!… E eis as pobres vítimas, elas me imploram… e eu, impiedoso,
machuco e machuco… machuco sempre!… O sangue me enerva!
330 – Allan Kardec
“Eu acreditava que depois da morte tudo terminaria; foi por isso que
esnobei o suplício, que eu desafiei Deus, que o neguei!… E vejam só que,
quando me julgava aniquilado para sempre, um despertar terrível se fez… Oh,
terrível!… Fiquei cercado de cadáveres, de figuras ameaçadoras… caminhando
no sangue… Eu achava que estava morto, mas estou vivo!… Isso é medonho!… é
horrível! Mais horrendo que todos os suplícios da Terra!
“Ah se todos os homens pudessem saber o que existe além da vida! Eles
saberiam o quanto lhes custa fazer o mal! Não haveria mais assassínios, nem
criminosos, nem malfeitores! Quisera que todos os assassinos pudessem ver o
que eu vejo e o que eu enfrento… Oh, não! Não haveria mais criminosos… É
muito terrível sofrer o que eu sofro!
“Eu bem sei que o mereci, oh meu Deus! Pois eu não tive pena das
minhas vítimas; eu rejeitei suas mãos suplicantes quando elas me pediam
para poupá-las. Sim, eu mesmo fui cruel; eu as matei covardemente para
tomar seu ouro!… Oh, meu Deus! Eu fui um ímpio e te reneguei; blasfemei teu
santo nome… Eu quis me iludir; foi por isso que eu queria me persuadir de
que o Senhor não existia… Oh, meu Deus! Eu sou um grande criminoso!
Agora eu compreendo. Mas, o Senhor não teria piedade de mim? O Senhor é
Deus, ou seja, bondade, misericórdia! O Senhor é o todo-poderoso!
“Piedade, Senhor! Oh, piedade! Piedade! Eu imploro, não seja inflexível;
livre-me dessa vista odiosa, dessas imagens horríveis… desse sangue… das
minhas vítimas, cujos olhares me perfuram até o coração iguais a golpes
de punhal.
“Vocês que estão aqui, vocês que me escutam, que são boas almas, almas
caritativas; sim, eu vejo isso, vocês têm piedade de mim, não é verdade? Orem
por mim… Oh, eu suplico a vocês: não me rejeitem! Peçam a Deus para me
tirar esse horrível espetáculo da minha frente! Ele ouvirá vocês, porque vocês
são bons… Eu imploro a vocês, não me repulsem, como os outros me
repulsaram… Orem por mim!”
Os participantes, sensibilizados com essas lamentações, dirigiram-lhe
palavras de encorajamento e consolação, dizendo-lhe: Deus não é inflexível; o
que ele pede ao culpado é um arrependimento sincero e o desejo de reparar o
mal que praticou. Uma vez que o teu coração não mais esteja endurecido e
331 – O Céu e o Inferno
que peça a ele o perdão dos teus crimes, Deus estenderá sua misericórdia até
você, se você perseverar nas boas resoluções para reparar o mal que tenha
feito. É certo que não há como restituir às suas vítimas a vida que você tirou
delas, porém, se você pedir com fervor, Deus te permitirá reencontrá-las
numa nova existência, na qual você poderá lhes demonstrar tanto
devotamento quanto tenha sido cruel. E quando Deus julgar que a reparação
for suficiente, você entrará na graça diante dele. Assim, a duração do teu
castigo está nas tuas mãos; só depende de você abreviá-la. Prometemos te
auxiliar com nossas preces e clamar em teu favor pela assistência dos bons
Espíritos. Vamos recitar em tua intenção a prece contida em O Evangelho
segundo o Espiritismo, para os Espíritos sofredores e arrependidos. Não
recitaremos a que se refere aos maus Espíritos porque, desde que você se
arrependeu, que implora a Deus e que renuncia a fazer o mal, então, aos
nossos olhos você é apenas um Espírito infeliz, e não mau.
Recitada aquela prece, e depois de alguns instantes de calma, o Espírito
retoma a palavra:
“Obrigado, meu Deus!… Oh! Obrigado! Vocês tiveram piedade de mim;
aquelas horríveis imagens estão se afastando… Não me abandonem… Enviem
os seus bons Espíritos para me ampararem… Obrigado.”
Após essa cena, a médium fica alquebrada e arrasada por algum tempo;
seus membros ficam doloridos. Ela tem uma lembrança, a princípio confusa,
do que tinha acabado de se passar; em seguida, pouco a pouco, ela recorda
algumas das palavras que pronunciou, ditas inconscientemente, sentindo que
não era ela quem falava.
No dia seguinte, numa nova reunião, o Espírito se manifestou de novo,
recomeçando, durante apenas alguns minutos, aquela mesma cena da
véspera, com a mesma pantomima expressiva, só que menos violenta. Depois
ele escreve, pela mesma médium e com uma agitação febril, estas palavras:
“Obrigado pelas preces de vocês; uma sensível melhora já se produz em
mim. Rezei a Deus com tanto fervor que ele consentiu que, por um momento,
meus sofrimentos fossem aliviados; mas ainda terei de ver minhas vítimas…
Ei-las! Ei-las!… Conseguem ver esse sangue?…”
332 – Allan Kardec
(A prece da véspera é repetida. O Espírito continua, dirigindo-se à médium:)
“Perdão por me apossar de você. Obrigado pelo reconforto que trouxe
aos meus sofrimentos. Perdão por todo o desconforto que te causei; mas
tenho necessidade de me manifestar; só você consegue…
“Obrigado! Obrigado! Já sinto um pouco de alívio, mas ainda não cheguei
ao fim das minhas provações. Muito em breve minhas vítimas retornarão. Eis
a punição, e eu fiz por merecê-la, meu Deus, mas seja indulgente!
“Vocês todos, orem por mim, tenham compaixão por mim!”
LATOUR
Um membro da Sociedade Espírita de Paris, que tinha orado por esse
infeliz, evocando-o, obteve as comunicações adiante, em diferentes intervalos:
I
Fui evocado quase imediatamente após a minha morte, mas não pude
me comunicar de pronto, sendo que muitos Espíritos levianos tomaram meu
nome e a vez. Em Bruxelas, aproveitei a presença do presidente da Sociedade
de Paris e, com a permissão de Espíritos superiores, consegui me comunicar.
Voltarei a me manifestar a esta Sociedade e farei revelações que serão
um começo de reparação das minhas faltas, e que poderão servir de
ensinamento a todos os criminosos que me lerem e que refletirem sobre a
narração dos meus sofrimentos.
Os discursos sobre as penas do inferno fazem pouco efeito sobre o
Espírito dos culpados, que não creem em todas essas imaginações —
apavorantes para as crianças e homens fracos. Ora, um grande malfeitor não é
um Espírito pusilânime; para ele, o medo da polícia funciona mais do que a
narrativa dos tormentos do inferno. Eis por que todos aqueles que me lerem
ficarão tocados com as minhas palavras e meus sofrimentos, que não são
suposições. Não há um só padre que possa dizer: “Eu vi o que estou dizendo,
eu testemunhei as torturas dos condenados.” Mas quando eu disser: “Eis o
que se passou após a morte do meu corpo; eis qual foi o meu desencanto ao
reconhecer que não estava morto, como eu esperava estar, e o que eu tinha
tomado como o fim dos meus suplícios era apenas o começo de torturas
333 – O Céu e o Inferno
indescritíveis!”, então, muitos se deterão à beira do precipício onde estavam
prestem a cair, e assim, cada infeliz que eu tirar da carreira do crime servirá
para redimir uma das minhas faltas. É desse modo que o bem surge do mal e
que a bondade de Deus se manifesta por toda a parte, na Terra e no espaço.
Foi-me permitido ser libertado do olhar das minhas vítimas, que se
tornaram meus carrascos, a fim de me comunicar com vocês; todavia, ao
deixá-los, eu as verei de novo, e só esse pensamento já me faz sofrer mais do
que eu posso dizer. Fico feliz quando me evocam, porque então eu saio do
meu inferno por alguns instantes. Orem sempre por mim; peçam ao Senhor
para que ele me liberte do olhar das minhas vítimas.
Sim, oremos juntos, a prece faz tanto bem!… Sinto-me mais leve; já não
sinto tanto o peso do fardo que me envergonha. Vejo um lampejo de
esperança luzindo meus olhos e, pleno de contrição, eu exclamo: Bendita seja
a mão de Deus; que seja feita a sua vontade!
II
O MÉDIUM – Em vez de pedir a Deus para te livrar do olhar das tuas
vítimas, eu te convido a rezar comigo para pedir em teu favor a força de
suportar essa tortura expiatória.
LATOUR – Eu preferiria ficar livre do olhar das minhas vítimas. Será que
você sabe o que eu sofro? O homem mais insensível ficaria comovido se
pudesse ver, impressos no meu rosto como que a fogo, os sofrimentos da
minha alma. Farei o que você está me aconselhando, pois compreendo que
isso seja esse um meio mais rápido de expiar minhas faltas. É como uma
operação dolorosa que deve restituir a saúde do meu corpo muito enfermo.
Ah se os culpados da Terra pudessem me ver! Como ficariam apavorados
com as consequências de seus crimes, que, ocultos aos olhos dos homens, são
vistos pelos Espíritos! Como a ignorância é fatal para tanta gente!
Que responsabilidade assumem os que recusam a instrução às classes
pobres da sociedade! Eles acham que com guardas e a polícia eles podem
prevenir os crimes… Como estão errados!
334 – Allan Kardec
III
Os sofrimentos que enfrento são terríveis, mas desde as orações de
vocês eu me sinto amparado pelos bons Espíritos, que me dizem para ter
esperança. Compreendo a eficácia do remédio milagroso que vocês me
aconselharam e peço ao Senhor que me dê a força para suportar essa dura
expiação. Ela é igual — até posso dizer — ao mal que pratiquei. Não quero
procurar me desculpar dos meus desacertos; mas pelo menos, para cada uma
das minhas vítimas, salvo alguns instantes de terror que precederam o
momento da morte, a sua dor cessou, e as que tinham terminado a provação
terrena foram receber a recompensa que as aguardava. Contudo, desde o meu
retorno ao mundo dos Espíritos, exceto por momentos bem curtos quando eu
estava me comunicando, não parei de sofrer as dores do inferno.
Os padres — apesar dos seus quadros assustadores das penas sofridas
pelos condenados — não têm mais do que uma ideia muito falha dos
verdadeiros sofrimentos que a justiça divina inflige aos seus filhos que
violaram sua lei de amor e de caridade. Como fazer com que pessoas racionais
creiam que uma alma — isto é, uma coisa que não é material — possa sofrer
ao contato do fogo material? Isso é um absurdo, e por isso tantos criminosos
debocham dessas pinturas fantásticas do inferno. Mas não é a mesma coisa
quanto à dor moral suportada pelo condenado, após a morte física.
Rezem por mim, para que o desespero não se aposse de mim.
IV
Agradeço a vocês pelo objetivo que me fizeram entrever, objetivo
glorioso ao qual eu sei que alcançarei quando estiver purificado. Sofro muito,
mas parece que os sofrimentos diminuem. Não posso acreditar que no mundo
dos Espíritos a dor diminua só porque a pessoa pouco a pouco se acostume a
ela. Não! O que eu entendo é que as boas preces de vocês aumentaram as
minhas forças, e se as minhas dores são as mesmas, minha força sendo
ainda maior, então eu sofro menos.
Meu pensamento se reporta à minha última existência, sobre as faltas
que eu poderia ter evitado se soubesse orar. Hoje eu compreendo a eficácia da
335 – O Céu e o Inferno
prece; compreendo a força dessas mulheres honestas e piedosas, fracas
segundo a carne, mas fortes pela fé que elas têm; compreendo esse mistério
de que os falsos sábios da Terra não se compenetram. Prece! Essa palavra que
por si só provoca a risada dos Espíritos fortes. Eu os espero no mundo
espiritual, e quando o véu que lhes encobre a verdade for rasgado diante
deles, então eles, por sua vez, irão se ajoelhar aos pés do Eterno que
ignoraram, e eles ficarão felizes em se humilhar e se levantar dos seus
pecados e crimes! Aí compreenderão a virtude da prece.
Orar é amar, e amar é orar! Logo, eles amarão o Senhor e lhe dirigirão
preces de amor e de reconhecimento, enfim regenerados pelo sofrimento,
pois deverão sofrer, pedirão como eu peço para ter a força de expiar e de
sofrer. E quando deixarem de sofrer, vão orar para agradecer ao Senhor pelo
perdão que tiverem merecido por sua submissão e resignação. Oremos, irmão,
para me fortalecer ainda mais…
Oh! obrigado, irmão, por tua caridade, pois eu fui perdoado. Deus me
liberta do olhar das minhas vítimas. Oh, meu Deus! Bendito seja por toda a
eternidade, pela graça que me concedeu! Oh, meu Deus! Eu sei da enormidade
dos meus crimes e me curvo diante a tua onipotência. Senhor, eu te amo de
todo o meu coração e te imploro a graça de me permitir — quando a tua
vontade me enviar à Terra para passar por novas provações na Terra — que
eu venha, como um missionário da paz e da caridade, ensinar às crianças a
pronunciarem teu nome com respeito. Eu te peço que me permita ensinar a
todos a te amar, o Senhor, que é o Pai de todas as criaturas. Oh, obrigado, meu
Deus! Sou um Espírito arrependido, e o meu arrependimento é sincero. Eu te
amo, tanto quanto meu coração tão impuro pode entender esse sentimento,
que é pura emanação da tua divindade. Irmão, vamos orar, pois meu coração
transborda de reconhecimento. Estou livre, quebrei meus grilhões, não sou
mais um réprobo; sou um Espírito sofredor, mas arrependido, e gostaria que
o meu exemplo pudesse deter no limiar do crime todas essas mãos criminosas
que vejo prestes a se levantarem. Oh! Parem, irmãos, parem! Pois as torturas
que preparam para si mesmos serão atrozes! Não creiam que o Senhor
sempre se deixará se comover tão prontamente pela prece dos seus filhos. São
séculos de torturas que esperam por vocês.
336 – Allan Kardec
O guia do médium – Você disse que não compreende as palavras do
Espírito. Tente se dar conta da emoção e do reconhecimento dele
direcionados ao Senhor; ele acha que não pode expressar e dar testemunho
disso melhor do que tentando parar todos esses criminosos que ele vê e que
você não pode ver. Ele queria que suas palavras chegassem aos outros; mas o
que ele não te disse — porque ele ainda ignora — é que ele terá permissão
para começar missões reparadoras. Ele ficará perto dos seus cúmplices para
inspirar neles o arrependimento, introduzindo em seus corações o germe do
remorso. Algumas vezes se vê na Terra pessoas consideradas honestas vindo
aos pés de um padre confessar um crime. É o remorso que lhes dita a
confissão de culpa. E se o véu que te separa do mundo invisível se levantasse,
então você veria frequentemente um Espírito que foi cúmplice, ou o
instigador de um crime, vindo tentar reparar seu erro inspirando o remorso
ao Espírito encarnado, assim como Jacques Latour fará um dia.
Teu guia protetor
A médium de Bruxelas, aquela que tinha recebido a primeira
manifestação de Latour, obteve mais tarde a comunicação a seguir:
“Não se preocupe mais comigo; estou mais tranquilo, embora ainda
esteja sofrendo. Deus teve piedade de mim, pois viu o meu arrependimento.
Agora, eu sofro desse arrependimento, que me mostra a enormidade dos
meus erros.
“Se eu tivesse sido bem guiado na vida, não teria feito todo o mal que fiz;
mas como meus instintos não foram repreendidos, eu obedeci a eles, sem
conhecer nenhum freio. Se todos os homens pensassem mais em Deus, ou se
ao menos acreditassem nele, não seriam mais cometidos semelhantes
desacertos.
“Mas a justiça dos homens é mal compreendida; por uma falta, muitas
vezes leve, um homem é trancado numa prisão que, sempre, é um lugar de
perdição e de perversão. Ele sai dali completamente corrompido pelos maus
conselhos e os maus exemplos que tenha recebido. Mesmo que a sua índole
seja bastante boa e forte para resistir ao mau exemplo, ao sair da prisão todas
as portas estarão fechadas para ele, todas as mãos lhe serão negadas, todos os
337 – O Céu e o Inferno
corações honestos o repulsarão. O que lhe resta? O desprezo e a miséria; o
abandono e o desespero, se sentir dentro de si boas resoluções para retornar
ao bem; a pobreza o induz tudo. Então ele também despreza seu semelhante,
odeia-o e perde toda a noção do bem e do mal, porque se sente rejeitado, justo
ele, que tinha tomado a decisão de se tornar um homem honesto. Para se
proporcionar o necessário, então ele rouba e às vezes mata; por fim, nós o
guilhotinamos!
“Meu Deus, no momento em que minhas alucinações estão prestes a
tomar conta de mim novamente, sinto tua mão se estender sobre mim; sinto
tua bondade me envolver e proteger. Obrigado, meu Deus! Na minha próxima
existência eu empregarei toda a minha inteligência e minha bondade no
socorro aos infelizes que sucumbiram, para os preservar da queda.
“Obrigado a vocês que não se repugnaram ao se comunicar comigo; não
temam; vocês veem que já não sou mais malvado. Quando pensarem em mim,
não imaginem o retrato que viram de mim, mas imaginem uma pobre alma
desolada que lhes agradece pela indulgência.
“Adeus; evoquem-me novamente, e orem a Deus por mim.”
LATOUR
Estudo sobre o Espírito de Jacques Latour
Não se pode ignorar a profundeza e o alto alcance de algumas das frases
contidas nessa comunicação; ela oferece inclusive um dos aspectos do mundo
dos Espíritos castigados, acima do qual também se vislumbra a misericórdia
de Deus. A alegoria mitológica das Eumênides98 não é tão ridícula quanto se
imagina, e os demônios — carrascos oficiais do mundo invisível, que
substituem os carrascos da crença moderna — com seus chifres e tridentes,
são menos racionais do que essas próprias vítimas servindo de castigo para o
culpado.
98 Referência à tragédia grega contada na peça Eumênides, da autoria de Ésquilo (século VI a.C.), que
narra um drama envolvendo uma série de mortes motivadas por vingança, resultando no julgamento de
Orestes, que matou a própria mãe mais o amante dela, por eles terem matado seu pai. Segundo a
mitologia, o castigo recomendado para casos desse gênero era o tormento eterno fustigado pelas erínias
(fúrias, na mitologia romana), espécies de deusas (ou demônios) da vingança, sendo elas: Tisífone
(Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Inominável). N. T.
338 – Allan Kardec
Admitindo-se a identidade desse Espírito, talvez se estranhe uma
mudança tão rápida no seu senso moral; mas, assim como já ressaltamos
noutra ocasião, isso acontece porque às vezes há mais recursos num Espírito
brutalmente mau do que naquele que está dominado pelo orgulho ou que
esconda seus vícios sob a máscara da hipocrisia. Esse pronto retorno aos
melhores sentimentos indica uma natureza mais selvagem do que perversa, à
qual faltava apenas um bom direcionamento. Comparando sua linguagem com
a de outro criminoso, mencionado logo a seguir, sob o título de: Castigo pela
luz, é fácil perceber qual dos dois está mais avançado moralmente, não
obstante a diferença de instrução e a posição social: um obedece ao instinto
natural de ferocidade, a uma espécie de superexcitação, enquanto o outro
trazia na perpetração dos seus crimes a calma e a frieza de uma lenta e
pertinaz combinação, afrontando mesmo depois de morto o castigo, por
orgulho; este sofre, mas não quer admitir isso; aquele outro está prontamente
domado. Dessa forma também podemos prever qual dos dois sofrerá mais.
Diz o Espírito de Latour: “Sofro por causa desse arrependimento, que me
mostra a enormidade das minhas faltas.” Aqui há um pensamento profundo. O
Espírito só compreende realmente a gravidade dos seus malfeitos quando se
arrepende; o arrependimento traz o pesar, o remorso, um sentimento
doloroso que é a transição do mal para o bem, da enfermidade moral para a
sanidade moral. É para escapar disso que os Espíritos perversos se
recrudescem contra a voz da sua consciência, como os doentes que repulsam
o remédio que deve curá-los; eles procuram se iludir e se aturdir, teimando
no mal. Latour chegou a esse período em que o endurecimento acaba por
ceder; o remorso entrou no seu coração e o arrependimento o segue; ele
compreende a extensão do mal que fez, vê sua abjeção e sofre com isso. Eis
por que ele diz: “Eu sofro desse arrependimento”. Na precedente existência,
ele devia ter sido pior do que naquela outra, porque se ele tivesse se
arrependido como agora, sua vida teria sido melhor. As resoluções que ele
toma agora influenciarão na sua futura existência terrestre; e esta que ele
acaba de deixar, por mais criminosa que tenha sido, marcou para ele uma
etapa de progresso. É mais do que provável que antes de iniciá-la ele fosse, na
erraticidade, um desses Espíritos rebeldes malvados e obstinados no mal,
339 – O Céu e o Inferno
como se vê tantos outros.
Muitas pessoas têm perguntado qual proveito podemos tirar dessas
existências passadas, já que não nos lembramos delas, nem de quem fomos
nem do que fizemos.
Essa questão está completamente resolvida pelo fato de que, se o mal
que cometemos fosse apagado e se não restasse nenhum vestígio dele no
nosso coração, então tal lembrança seria inútil, já que não temos com o que
nos preocupar a respeito. Quanto à questão de não estarmos inteiramente
corrigidos, nós sabemos disso pelas nossas tendências atuais; é para essas
tendências que devemos direcionar toda a nossa atenção. Basta saber o que
somos, sem que seja necessário saber o que fomos.
Quando se considera, durante a vida, a dificuldade da reabilitação do
culpado mais arrependido e a reprovação pela qual esse passa, devemos
bendizer a Deus por ter lançado um véu sobre o seu passado. Se Latour
tivesse sido condenado a tempo, e mesmo que tivesse sido absolvido, seus
antecedentes o teriam levado a ser rejeitado pela sociedade. Porventura,
apesar do arrependimento dele, quem o teria acolhido na sua intimidade?
Ora, os sentimentos que hoje ele manifesta como Espírito nos dão a esperança
de que, na sua próxima encarnação, ele será um homem honesto, estimado e
acolhido; mas, vamos supor que todos saibam quem foi Latour: então a
reprovação continuará a persegui-lo. O véu lançado sobre o seu passado lhe
abre a porta da reabilitação e ele poderá se sentar, sem medo e sem
acanhamento, entre as pessoas mais honestas. Quantos não desejariam a
qualquer preço poder apagar da memória dos homens certos anos de sua
existência!
Que apresentem uma doutrina que se concilie melhor isso com a justiça
e a bondade de Deus! De resto, essa doutrina não é uma teoria, mas sim o
resultado de observações. Não foram os espíritas que a imaginaram; eles
viram e observaram as diferentes situações nas quais os Espíritos se
apresentam; eles buscaram explicá-las, e dessa explicação saiu a doutrina. Se
eles a aceitaram, foi porque ela resulta dos fatos, e porque ela lhes pareceu
mais racional do que todas aquelas emitidas até hoje sobre o futuro da alma.
Será possível recusar a essas comunicações um elevado ensinamento
340 – Allan Kardec
moral? O Espírito pôde ser — e deve ter sido mesmo — auxiliado por
Espíritos mais adiantados nessas reflexões, e sobretudo na escolha das suas
expressões; mas, em semelhante caso, esses outros Espíritos auxiliam mais na
forma do que na essência, e jamais colocam o Espírito inferior em contradição
consigo mesmo. Eles poderiam ter poetizado em Latour a maneira do
arrependimento, mas não o teriam feito expressar o arrependimento contra
sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio; eles viram em Latour
a semente de bons sentimentos, e desse modo o ajudaram a se expressar,
contribuindo assim para desenvolver esses sentimentos ao mesmo tempo em
que pediram comiseração para ele.
Existe algo de mais sensacional e mais moral capaz de impressionar mais
vivamente do que o quadro desse grande criminoso arrependido exalando
seu desespero e seus remorsos? Ele que, em meio a torturas, perseguido pelo
olhar incessante de suas vítimas, eleva seu pensamento a Deus para implorar
misericórdia? Por acaso isso não é um salutar exemplo para os culpados?
Compreende-se a natureza de suas angústias; elas são racionais, terríveis,
embora simples e sem fazer encenações fantasmagóricas.
Alguém talvez vá estranhar uma transformação tão grande num homem
como Latour; mas por que ele não poderia ter se arrependido? Por que não
haveria nele uma corda sensível vibrando? Será então que o culpado deva ser
sempre devotado ao mal? Não chega para ele um momento em que a luz se
faça em sua alma? Pois esse momento chegou para Latour. Aí está
precisamente o lado moral das suas comunicações; é a consciência que ele
tem de sua situação, são seus lamentos, seus projetos de reparação que são
eminentemente instrutivos. O que haveria de extraordinário no fato de ele ter
se arrependido sinceramente antes de morrer? Ou que ele tivesse dito antes
da morte o que disse depois? Não há inúmeros exemplos disso?
Um retorno ao bem antes de sua morte, aos olhos da maioria dos seus
pares, teria parecido fraqueza; sua voz do além-túmulo é a revelação do
porvir que os espera. Latour está com a verdade absoluta quando diz que o
seu exemplo é mais apropriado para reconduzir os culpados do que a
perspectiva das chamas do inferno, e até mesmo do que a guilhotina. Por que
então não levar esses sentimentos às prisões? Isso faria muitos criminosos
341 – O Céu e o Inferno
refletirem, assim como nós já temos vários exemplos disso. Porém, como crer
na eficácia das palavras de um morto, quando se acha que ao morrer tudo se
acaba? Entretanto, virá um dia em que será conhecida esta verdade: que os
mortos podem vir instruir os vivos.
Há diversas outras instruções importantes a tirar dessas comunicações;
a primeira delas é a confirmação daquele princípio de eterna justiça de que o
arrependimento não é o suficiente para colocar o culpado na classe dos
eleitos. O arrependimento é o primeiro passo rumo à reabilitação que atrai a
misericórdia de Deus; é o prelúdio do perdão e do abrandamento dos
sofrimentos; mas Deus não absolve incondicionalmente: é preciso a expiação
e sobretudo a reparação. É isso o que Latour está compreendendo, e é para
isso que ele está se preparando.
Em segundo lugar, se compararmos esse criminoso com aquele de
Castelnaudary, encontraremos uma enorme diferença no castigo que os aflige.
Neste último o arrependimento foi tardio e consequentemente a pena é mais
longa. Ademais, essa pena é quase material, enquanto na de Latour o
sofrimento é antes moral; isso ocorre porque, como dissemos há pouco, num
deles a inteligência era bem menos desenvolvida do que no outro; faltava
alguma coisa que pudesse afetar os seus sentidos obtusos; mas as penas
morais não serão menos cruciantes para aquele que atingiu o devido grau
para compreendê-las. Podemos perceber isso pelas queixas exaladas por
Latour; não é cólera, mas sim a expressão dos remorsos, logo seguida pelo
arrependimento e pelo desejo de reparação, a fim de avançar.
342 – Allan Kardec
CAPÍTULO VII
ESPÍRITOS ENDURECIDOS
LAPOMMERAY – ÂNGELA, nulidade sobre a Terra
– UM ESPÍRITO ENTEDIADO – A RAINHA DE OUDE – XUMÈNE
LAPOMMERAY
Castigo pela luz
Em uma das sessões da Sociedade de Paris em que havíamos discutido a
questão da perturbação que geralmente segue a morte, um Espírito ao qual
ninguém fizera alusão e tampouco pensávamos em evocar manifestou-se
espontaneamente pela comunicação seguinte; embora ela não tenha sido
assinada, reconheceu-se sem dificuldade sua autoria como sendo de um
grande criminoso que a justiça humana tinha acabado de abater:
“O que estão falando da perturbação? Por que essas palavras vãs? Vocês
são sonhadores e utopistas. Vocês ignoram completamente as coisas de que
pretendem tratar. Não, senhores; a perturbação não existe, exceto talvez nos
seus cérebros! Estou realmente tão morto quanto possível e vejo claro em
mim, em torno de mim, por toda parte!… A vida é uma lúgubre comédia!
Insensatos, aqueles que se retiram de cena antes que do cair da cortina!… A
morte é um terror, um castigo ou um desejo, conforme a fraqueza ou a força
dos que a temem, a afrontam ou a imploram. Para todos, ela é uma amarga
irrisão!… A luz me ofusca e penetra, como uma flecha aguda, a sutileza do
meu ser… Castigaram-me com as trevas da prisão e acreditavam me castigar
com as trevas do túmulo, ou aquelas sonhadas pelas superstições católicas.
Pois bem! São vocês, senhores, que sofrem da obscuridade, e eu, o degredado
343 – O Céu e o Inferno
social, eu pairo acima de vocês… Eu quero permanecer — eu mesmo!… —
forte pelo pensamento, desdenhando os conselhos que ressoam à minha
volta… Eu vejo claramente… Um crime! Eis uma palavra! O crime existe em
toda parte. Quando ele é executado pelas massas, os o glorificam; quando
executado individualmente, ele é odiado. Que absurdo!
“Não quero que tenham pena de mim… não estou pedindo nada… Eu sou
autossuficiente e saberei lutar sozinho contra esta luz odiosa.
“Aquele que ontem era um homem.”
Sendo essa comunicação analisada na sessão seguinte, reconheceu-se no
próprio cinismo da linguagem um grande ensinamento, e vemos na situação
desse infeliz uma nova fase do castigo que aguarda o culpado. De fato,
enquanto alguns ficam mergulhados nas trevas ou num isolamento absoluto,
outros enfrentam por longos anos as angústias da sua derradeira hora ou
acreditam ainda viver nesse mundo; a luz brilha para este, seu Espírito goza
da plenitude das suas faculdades, ele sabe perfeitamente que está morto e não
se lastima por nada; ele não pede nenhuma assistência e ainda menospreza as
leis divinas e as leis humanas. Então quer dizer que ele escapará da punição?
Não, mas que a justiça de Deus se cumpre de todas as formas e o que faz a
alegria para uns é um tormento para outros; essa luz faz seu suplício contra o
qual ele se enrijeceu, e a despeito do seu orgulho, ele o confessa quando diz:
“Eu sou autossuficiente e saberei lutar sozinho contra essa luz odiosa”; e
nessa outra frase: “A luz me ofusca e penetra, como uma flecha aguda, a
sutileza do meu ser.” Essas palavras: sutileza do meu ser são características;
ele reconhece que seu corpo é fluídico e penetrável à luz, da qual ele não pode
escapar, e essa luz o transpassa qual uma flecha aguda.
Esse Espírito aqui está colocado entre os endurecidos porque ele levou
muito tempo para manifestar o menor arrependimento. É um exemplo dessa
verdade que o progresso moral nem sempre acompanha o progresso
intelectual. Pouco a pouco, porém, ele se foi corrigindo e mais tarde deu
comunicações sabiamente racionais e instrutivas. Hoje, ele pode ser colocado
entre os Espíritos arrependidos.
Nossos guias espirituais, chamados a dar um parecer sobre esse assunto,
ditaram as três seguintes comunicações, que merecem uma séria atenção:
344 – Allan Kardec
I
Os Espíritos na erraticidade, sob o ponto de vista das existências, ficam
evidentemente inativos e à espera; mesmo assim eles podem expiar, desde
que o seu orgulho e a incrível tenacidade dos seus erros não os retenham no
momento de sua progressiva ascensão. Um terrível exemplo disso está na
última comunicação desse criminoso endurecido debatendo-se contra a
justiça divina que o atinge depois da justiça dos homens. logo, nesse caso a
expiação, ou melhor, o sofrimento fatal que os oprime, em vez de lhes
beneficiar e de lhes fazer sentir a profunda significação de suas penas,
exacerba-os na rebeldia e os faz proferir aqueles murmúrios que a Escritura,
na sua eloquência poética, chama de ranger de dentes — uma imagem por
excelência, um sinal do sofrimento abatido, porém insubmisso, perdido na
dor, mas cuja revolta ainda é bastante forte para recusar admitir a verdade do
castigo e a verdade da recompensa!
Os grandes erros, às vezes — e até quase sempre —, continuam no
mundo espiritual, assim como as consciências muito criminosas. Ser assim
mesmo, apesar de tudo, e desfilar diante do infinito, assemelha-se àquela
cegueira do homem que contempla as estrelas e que as toma como arabescos
de um teto, tal como acreditavam os gauleses do tempo de Alexandre.99
Existe um infinito moral! Miserável e medíocre é aquele que, sob o
pretexto de continuar as lutas e as fanfarrices abjetas da Terra, não vê mais
longe no outro mundo do que neste. Para uma pessoa assim, resta a cegueira,
o desprezo pelos outros, a personalidade egoísta e mesquinha, bem como o
atraso do seu progresso. Homem! Não há uma verdade mais pura, ó homens,
de que há um acordo secreto entre a imortalidade de um nome puro deixado
na Terra e a imortalidade realmente conservada pelos Espíritos nas suas
sucessivas provações.
LAMENNAIS
II
Atirar um homem nas trevas ou nas ondas da claridade: o resultado não
99 Menção a Alexandre III da Macedônia, dito “o Grande”, também conhecido como Alexandre Magno
(356 a.C. – 323 a.C.), cujo império foi o maior já conquistado em seu tempo, tendo sido Rei da Macedônia,
Rei da Pérsia e Faraó do Egito. — N. T.
345 – O Céu e o Inferno
é o mesmo? Tanto em um como no outro caso, ele não vê nada além do que o
cerca e ficará habituado até mesmo mais rapidamente à sombra do que à
triste claridade elétrica na qual ele pode estar imerso. Com isso, o Espírito que
se comunicou na última sessão exprime bem a verdade da sua posição quando
exclama: “Oh, eu me libertarei dessa odiosa luz.” Com efeito, essa luz é ainda
mais terrível e ainda mais assustadora porque ela atravessa completamente
esse indivíduo, tornando visíveis e claramente expostos seus pensamentos
mais secretos. Aí está um dos aspectos mais severos do seu castigo espiritual.
Ele se encontra, por assim dizer, internado na casa de vidro que Sócrates
demandava, e aí está também um ensinamento, porque o que seria alegria e
consolo para o sábio transforma-se em uma punição infame e contínua para o
perverso, para o criminoso, para o parricida, aterrorizado em sua própria
personalidade.
Será que vocês compreendem isso, meus filhos? A dor e o terror devem
oprimir aquele que, durante uma existência sinistra, se comprazia em tramar
e maquinar as transgressões mais tristes no íntimo do seu ser, onde ele se
refugiava igual a uma fera na sua caverna, mas que hoje encontra-se expulso
desse covil íntimo em que se escondia do olhar e da investigação dos seus
contemporâneos. Agora sua máscara da impassibilidade lhe foi arrancada e
cada um dos seus pensamentos, um após o outro, se reflete na sua fronte!
Sim, doravante, nada de repouso, nada de asilo para esse terrível
criminoso. Cada pensamento maldoso — e Deus sabe se sua alma exprime
algum pensamento desse tipo — se trai por fora e por dentro dele, como que
por um choque elétrico superior. Ele quer se esconder da multidão; mas a luz
odiosa o devassa continuamente à vista de todos. Ele quer fugir, lançando-se
numa carreira ofegante desesperada através dos espaços incomensuráveis;
mas por todo lado há luz! Por todo lado há olhares que penetram nele! Então
ele dispara novamente em busca da escuridão, à procura da noite; mas a
escuridão e a noite não mais existem para ele! Ele apela que a morte o ajude;
mas a morte não é mais do que uma palavra sem sentido. E o desafortunado
foge sempre! Ele marcha rumo à loucura espiritual — um castigo horrível,
uma dor medonha! Daí ele vai se debater consigo para se desembaraçar de si
mesmo. Pois então, esta é a lei suprema para além da Terra: é o culpado que
346 – Allan Kardec
se torna para si mesmo o seu castigo mais inexorável.
Quanto tempo isso vai durar? Até a hora em que a sua vontade, enfim
vencida, se curve sob o pungente aperto do remorso, e quando sua fronte
soberba se humilhe perante suas vítimas apaziguadas e diante dos Espíritos
da justiça. Notem também a grande lógica das leis imutáveis, no que ela ainda
realizará o que foi escrito naquela altiva comunicação, tão nítida, tão lúcida e
tão tristemente cheia de si mesmo, que ele deu na sexta-feira passada, ao se
libertar por um ato da sua própria vontade.
ERASTO
III
A justiça humana não faz distinção da individualidade dos seres que ela
castiga; medindo o crime pelo próprio crime, ela fere indistintamente aqueles
que o cometem e a mesma pena afeta o culpado sem distinção de sexo,
qualquer que seja a sua educação. A justiça divina procede de outro modo; as
punições correspondem ao grau de adiantamento dos seres aos quais elas
são infligidas; a igualdade do crime não significa igualdade entre os
indivíduos; dois homens culpados pelo mesmo delito podem ser separados
pela distância das provações que imerge um deles na opacidade intelectiva
dos primeiros círculos iniciáticos, enquanto o outro, tendo-os ultrapassado,
possui a lucidez que isenta o Espírito da perturbação. Então, já não são as
trevas que castigam, mas sim a agudeza da luz espiritual; ela transpassa a
inteligência terrena e a faz sentir a angústia de uma ferida aberta.
Os seres desencarnados que persistem na representação material do seu
crime sentem o choque da eletricidade física: eles padecem pelos sentidos;
aqueles que já estão desmaterializados pelo Espírito sentem uma dor muito
superior, que aniquila, em suas ondas amargas, a lembrança dos fatos, para
daí deixar restar somente a noção de suas causas.
Em suma, malgrado a criminalidade de suas ações, o homem pode ter
um progresso interno e, embora suas paixões o façam agir como um bruto,
suas faculdades aguçadas o elevam acima da espessa atmosfera das camadas
inferiores. A ausência de ponderação e de equilíbrio entre o progresso moral
e o intelectual produz as anomalias tão frequentes em épocas de materialismo
347 – O Céu e o Inferno
e transição.
A luz que tortura o Espírito culpado é, pois, exatamente o raio espiritual
inundando de claridades os secretos recintos do seu orgulho, descobrindo
nele o vazio do seu ser fragmentado. Aí estão os primeiros sintomas e as
primeiras angústias da agonia espiritual que anunciam a separação ou
dissolução dos elementos intelectuais e materiais que compõem a primitiva
dualidade humana, e que devem desaparecer na grande unidade do ser
acabado.
JEAN REYNAUD
Essas três comunicações, obtidas simultaneamente, se completam uma pela
outra, e apresentam o castigo sob um novo aspecto eminentemente filosófico e
racional. É provável que os Espíritos — querendo tratar dessa questão por meio de
um exemplo — tivessem provocado, com esse objetivo, a comunicação espontânea do
Espírito culpado.
Ao lado desse quadro tirado de um fato, eis aqui, para estabelecer um
paralelo, o quadro que um pregador traçou do inferno, durante a quaresma de
1864, em Montreuil-sur-Mer:
“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se
um dos corpos que lá estão queimando, sem ser consumido, viesse a ser
devolvido ao nosso planeta, ele ficaria empesteado de um extremo a outro! O
inferno é uma caverna vasta e sombria, eriçada de pregos pontiagudos, de
lâminas de espadas bem cortantes, de navalhas muito afiadas, nas quais são
precipitadas as almas dos condenados.” (Veja a Revista espírita de julho de 1864:
‘A religião e o progresso’)
ÂNGELA, nulidade sobre a Terra
(Bordeaux, 1862)
Um Espírito se apresentou espontaneamente ao médium com o nome de
Ângela.100
1. Arrepende-se das tuas faltas? – R. Não. — Então por que veio atrás de mim?
100 No original, Angèle. — N. T.
348 – Allan Kardec
– R. Para experimentar. — Então não está feliz? – R. Não. — Está sofrendo? –
R. Não. — O que é então que está te faltando? – R. A paz.
Alguns Espíritos não consideram como sofrimento senão aqueles que lhes
lembra as dores físicas, tudo indicando, porém, que o seu estado moral é intolerável.
2. Como é que pode te faltar paz na vida espiritual? – R. Uma mágoa do
passado. — Mágoa do passado é um remorso; então está arrependida? – R.
Não; é por medo do futuro. — Do que você tem medo? – R. Do desconhecido.
3. Gostaria de me dizer o que você fez na tua última existência? Isso talvez me
ajudaria a te orientar. – R. Nada.
4. Em qual posição social você estava? – R. Mediana. — Era casada? – R.
Casada e mãe. — Você cumpriu com zelo as obrigações dessa dupla posição? –
R. Não; meu marido me entediava, e meus filhos também.
5. E como foi sua vida? – R. A me divertir quando jovem e a me entediar
quando senhora. — Quais eram tuas ocupações? – R. Nenhuma. — E quem
cuidava da tua casa? – R. A empregada doméstica.
6. Será que não é nessa inutilidade que se deve procurar a causa das tuas
mágoas e teus temores? – R. Você talvez tenha razão. — Não basta concordar
com isso. Para reparar essa existência inativa, gostaria de ajudar os Espíritos
culpados que sofrem ao teu redor? – R. Como? — Ajudando-os a se
melhorarem pelos teus conselhos e tuas preces. – R. Eu não sei rezar. — Nós
rezaremos juntos e você aprenderá; está disposta? – R. Não. — Por que não? –
R. A fadiga.
Instruções do guia do médium
Nós te damos as instruções colocando sob os teus olhos os diversos
níveis de sofrimento e da posição dos Espíritos condenados à expiação em
consequência das próprias faltas.
Ângela era uma dessas criaturas sem iniciativa, cuja vida é tão inútil aos
outros quanto a ela mesma. Amando apenas o prazer, incapaz de procurar no
estudo, no cumprimento dos deveres da família e da sociedade essas
satisfações do coração que só podem dar charme à vida, porque são de todas
349 – O Céu e o Inferno
as épocas, então ela não empregou a juventude senão para as distrações
frívolas; depois, quando os deveres sérios chegaram, o mundo já tinha
criado um vácuo em torno dela, porque ela também tinha criado um vazio
no seu coração. Sem defeitos sérios, mas sem qualidades, ela trouxe
infelicidade ao marido, comprometeu o futuro de seus filhos e arruinou o
bem-estar deles com sua incúria e sua indiferença. Ela lhes corrompeu o juízo
e o coração, primeiro pelo seu exemplo, depois lhes abandonando aos criados
dos empregados, que ela nem sequer se preocupava em escolher. Sua vida foi
nula ao bem e, por isso mesmo culpável, pois o mal nasce quando o bem é
negligenciado. Compreendam bem, todos vocês, que não basta se abster dos
erros: é preciso praticar as virtudes que são opostas aos erros. Estudem os
ensinamentos do Senhor; meditem sobre eles e se convençam de que, se eles
lhes impõem uma barreira que impedem vocês de seguir o mal caminho, ao
mesmo tempo eles forçam vocês a retomar a rota oposta, que conduz ao bem.
O mal é contrário ao bem; então, quem quiser evitar o primeiro deve seguir o
sentido oposto, sem o que a sua vida fica nula e suas obras são mortas, pois
Deus nosso Pai não é o Deus dos mortos, mas o Deus dos vivos.
Pergunta – Posso saber qual foi a existência anterior de Ângela? A
última deveria ter sido consequência da anterior.
R. Ela viveu numa indolente beatice e na nulidade da vida monástica.
Preguiçosa e egoísta, com gosto, ela quis experimentar a vida em família, mas
o Espírito tinha progredido muito pouco. Ela sempre rejeitou a voz íntima que
lhe mostrava tal perigo; a tentação era doce e ela achou melhor se entregar a
essa tentação do que fazer um esforço para barrar desde o começo. Ainda hoje
ela compreende o perigo que há em se manter nessa neutralidade, mas não se
sente com forças para fazer o menor esforço no sentido de sair disso. Ore por
ela, desperte-a; force os olhos dela a se abrirem para a luz: isso é um dever,
não negligenciar ninguém.
O homem foi criado para a atividade: atividade do Espírito, essa é tua
essência; atividade do corpo, essa é uma necessidade. Portanto, preencha as
condições da tua existência, como Espírito destinado à paz eterna. Como
corpo destinado ao serviço do Espírito, o teu não passa de uma máquina
350 – Allan Kardec
submissa à tua inteligência; então trabalhe e cultive a inteligência, a fim de
que ela dê um impulso salutar ao instrumento que deve te auxiliar a cumprir
tua tarefa. Não lhe conceda nem repouso nem trégua, e lembre-se de que essa
paz à qual você aspira não te será dada a não ser pelo trabalho. logo, quanto
mais você tiver descuidado do trabalho, mais ainda durará para você a
ansiedade da espera.
Trabalhe, trabalhe sem cessar; complete todos os teus deveres sem
exceção; realize-os com zelo, com coragem e com perseverança, e então tua fé
te sustentará. Quem cumpre conscientemente a tarefa mais ingrata, a tarefa
mais vil na nossa sociedade, este é cem vezes mais elevado aos olhos do
Altíssimo do que aquele que impõe essa tarefa aos outros e não cuida da sua
tarefa. Tudo serve de degraus para subir ao céu: então não quebre os degraus
sob teus pés e saiba que você está cercado de amigos que te estendem a mão e
que amparam aqueles que depositam suas forças no Senhor.
MONOD
UM ESPÍRITO ENTEDIADO
(Bordeaux, 1862)
Esse Espírito se apresenta espontaneamente ao médium e pede preces.
1. O que te leva a pedir preces? – R. Estou farto de vagar sem objetivo. —Há
quanto tempo você está nessa situação? – R. Cem anos, aproximadamente. —
O que fazia na Terra? – R. Nada de bom.
2. Qual é a tua posição entre os Espíritos? – R. Estou entre os entediados. —
Isso não forma categoria. – R. Qualquer coisa forma uma categoria entre nós.
Cada sensação encontra suas semelhanças ou suas simpatias que se reúnem.
3. Se você não foi condenado ao sofrimento, por que permaneceu tanto tempo
sem progredir? – R. Eu fui condenado ao tédio, que é um sofrimento entre
nós; tudo que não é alegria é dor. — Então você foi forçado a permanecer
errante a contragosto? – R. São coisas sutis demais para a inteligência
material de vocês. — Tente me fazer entender essas coisas; isso seria um
351 – O Céu e o Inferno
começo de utilidade para você. – R. Eu não conseguiria, pois eu não teria
termos de comparação. Uma vida infértil na Terra deixa ao Espírito que nada
aproveitou dela aquilo que o fogo deixa ao papel que consumiu: fagulhas, que
lembram às cinzas ainda unidas entre elas o que elas foram e a causa de seu
nascimento, ou, se você preferir, da destruição do papel. Essas faíscas são a
recordação dos laços terrestres que percorrem o Espírito até que ele tenha
dispersado as cinzas do seu corpo. Somente então ele se reconhece, essência
eterizada, e deseja o progresso.
4. O que pôde te ocasionar o tédio do qual você se queixa? – R. Consequência
da existência. O tédio é filho da desocupação; eu não soube empregar os
longos anos que passei na Terra, então as consequências se fizeram sentir
neste mundo.
5. Os Espíritos que, igual você, vagam presos ao tédio não podem encerrar
essa situação quando quiserem? – R. Não, nem sempre eles podem, porque o
enfado paralisa a vontade deles. Então eles sofrem as consequências da sua
existência; foram improdutivos, não tiveram nenhuma iniciativa e assim eles
não encontram nenhuma cooperação entre eles. ficam largados a si mesmos
até que o cansaço desse estado neutro os faça desejar mudar a situação; desta
feita, a partir da menor vontade despertada neles, eles encontram apoio e
bons conselhos para ajudar seus esforços e a perseverança.
6. Poderia me dizer algo da tua vida terrena? – R. Ah, pouquíssima coisa! Você
deve compreender. O tédio, a inutilidade e a ociosidade provêm da preguiça; a
preguiça é mãe da ignorância.
7. Tuas existências anteriores não te fizeram progredir? – R. Sim, todas, mas
muito pouco, pois cada uma foi o reflexo das outras. Sempre há progresso,
mas tão pouco sensível que nós nem notamos.
8. Já que está esperando uma nova existência, poderia vir mais algumas vezes
até mim? – R. Evoque-me para me forçar a vir; você me fará um favor.
9. Pode me dizer por que a tua caligrafia muda com frequência? – R. Porque
você pergunta demais; isso me cansa e daí eu preciso de ajuda.
O guia do médium – É o trabalho intelectual que o fatiga e nos obriga a
352 – Allan Kardec
lhe prestar nosso auxílio para que ele possa responder às tuas indagações. Ele
é um desocupado no mundo espiritual, assim como foi no mundo terrestre.
Nós o trouxemos até você para tentar tirá-lo dessa apatia, desse tédio, que é
um verdadeiro sofrimento, às vezes mais penoso do que os sofrimentos
agudos, pois isso pode se prolongar indefinidamente. Consegue imaginar a
tortura da perspectiva de um tédio sem fim? Na maior parte das vezes são os
Espíritos dessa categoria que procuram uma existência terrena só como
distração e para interromper a insuportável monotonia da sua existência
espiritual; assim, eles chegam aí tantas vezes sem resoluções tomadas para o
bem, e é por isso que lhes é necessário recomeçar, até que finalmente o
progresso real se faça sentir neles.
A RAINHA DE OUDE101
Falecida na França, em 1858
1. Qual sensação você experimentou ao deixar a vida terrestre? – R. Eu não
saberia dizer; ainda estou passando pela perturbação. — Sente-se feliz? – R.
Sinto saudades da vida… Não sei… Sinto uma dor profunda; a vida teria me
livrado disso… Gostaria que o meu corpo se levantasse do sepulcro…
2. Você lamenta o fato de não ter sido sepultada no teu país e de estar entre
cristãos? – R. Sim, a terra indiana pesaria menos sobre o meu corpo. — O que
pensa das honras fúnebres prestadas aos teus restos mortais? – R. Foi uma
coisa insignificante; eu era rainha e nem todos se prostraram diante de mim…
Deixem-me… Estou sendo forçada a falar… Não quero que saibam como estou
agora… Eu era uma rainha… fiquem sabendo disso!
3. Respeitamos a tua classe e te pedimos que tenha a bondade de nos
responder, para nosso aprendizado. Acha que teu filho algum dia vai
101 Localizado entre o rio Ganges e o Himalaia, o reino de Oude, ou Aúde, especialmente enquanto
província do Império Mongol, foi um reinado opulento e estratégico para o comércio da Índia.
Atualmente, pertence ao estado indiano de Utar Pradexe, cuja capital é Lucknow. A mencionada rainha
se chamava Janab-i-Alia (Malika-iKishwar Bahadur), falecida em Paris, em 24 de janeiro de 1858, tendo
ido à Europa para interceder em favor do filho, que havia perdido seu reinado para os ingleses. — N. T.
353 – O Céu e o Inferno
recuperar os Estados do pai dele? – R. Certamente, meu sangue reinará; ele é
digno disso. — A essa reintegração de teu filho, você atribui a mesma
importância de quando era viva? – R. Meu sangue não pode ser misturado
com o do povo.
4. Não foi possível registrar na tua certidão de óbito o teu local de
nascimento; poderia informá-lo para nós agora? – R. Sou descendente do mais
nobre sangue da Índia. Creio que nasci em Déli.
5. Já que viveu nos esplendores do luxo e que foi cercada de honras, o que
acha disso agora? – R. Era meu direito. — A classe que você ocupou na Terra
te conferiu uma posição mais elevada no mundo onde hoje você se encontra?
– R. Ainda sou uma rainha… Que me providenciem escravos para me
servirem!… Não sei… Parece que ninguém se preocupa comigo aqui… e, no
entanto, eu continuou sendo eu mesma…
6. Você pertencia à religião muçulmana ou a alguma religião hindu? – R.
Muçulmana; mas eu era muito importante para me ocupar com Deus. — Que
diferença fazia para você a tua religião e a religião cristã, com relação à
felicidade da humanidade? – R. A religião cristã é absurda; ela diz que todos
são irmãos. — E qual a tua opinião sobre Maomé? – R. Ele não era filho de um
rei. — Acredita que ele teve uma missão divina? – R. Que me importa isso?! —
Qual a tua opinião sobre o Cristo? – R. O filho de um carpinteiro não é digno
de ocupar meu pensamento.
7. O que acha do costume de esconder as mulheres muçulmanas dos olhares
dos homens? – R. Penso que as mulheres foram feitas para dominar: eu
mesmo era uma mulher. — Alguma vez você teve inveja da liberdade
desfrutada pelas mulheres da Europa? – R. Não; que me importaria a
liberdade delas? Por acaso elas são servidas de joelhos?
8. Lembra-se de ter tido outras existências na Terra, antes desta que acaba de
deixar? – R. Devo ter sido sempre rainha.
9. Por que você veio tão prontamente ao nosso chamado? – R. Eu não queria
vir, mas fui forçada… Você acha então que eu me dignaria a responder? Quem
354 – Allan Kardec
é você, comparado a mim? — Quem te forçou a vir? – R. Não sei… Contudo,
não deve haver aqui ninguém maior do que eu.
10. Sob que forma você está aqui? – R. Sou sempre uma rainha… Então você
imagina que eu tenha deixado de ser uma realeza?… Você é pouco respeitoso…
Fique sabendo que é de outro modo que se fala com as rainhas!
11. Se pudéssemos te ver, nós te veríamos com teus adornos e tuas joias? – R.
Certamente! — Como é que, tendo deixado tudo isso, teu Espírito tenha
conservado tal aparência, sobretudo a dos adornos? – R. Meus pertences não
me deixaram. Sou tão bela quanto eu era… Não sei qual ideia você faz de mim!
A verdade é que você nunca me viu!
12. Que impressão você teve ao se encontrar no meio de nós? – R. Se eu
pudesse, eu não estaria aqui; vocês me tratam com tão pouco respeito!
São Luís – Deixem-na, a pobre está perturbada. Tenham compaixão da
sua cegueira. Que ela lhes sirva de exemplo; vocês não sabem o quanto ela
sofre com o próprio orgulho.
Ao evocarmos essa grandeza decaída, agora mesmo no túmulo, nós não
esperávamos resposta de uma grande profundidade, visto o gênero da educação das
mulheres naquele país; mas pensávamos encontrar nesse Espírito, se não filosofia,
mas pelo menos um sentimento mais verdadeiro da realidade, bem como ideias mais
sensatas sobre as vaidades e grandezas deste nosso mundo. Longe disso: nesse
Espírito, as ideias terrestres foram conservadas com toda a sua força; é o orgulho que
não perdeu nada das suas ilusões; que luta contra sua própria fraqueza e que deve, de
fato, sofrer muito com sua impotência.
XUMÈNE
(Bordeaux, 1862)
Com esse nome, um Espírito se apresenta espontaneamente a uma
médium, habituada a esse gênero de manifestações, pois sua missão parece
ser a de auxiliar os Espíritos inferiores enviados pelo seu guia espiritual, no
duplo objetivo da própria instrução da médium e do avanço desses Espíritos.
355 – O Céu e o Inferno
P. Quem é você? Esse nome é de homem ou de mulher? – R. Homem, e
tão infeliz quanto possível. Estou sofrendo todos os tormentos do inferno.
P. Se o inferno não existe, como é que você sofre seus tormentos? – R.
Pergunta inútil. — P. Se percebo isso, outros podem precisar de explicações…
– R. Não me importo com isso.
P. Será que o egoísmo não está entre as causas dos teus sofrimentos? –
R. Pode ser que sim.
P. Se quiser ser aliviado, comece repudiando tuas más tendências. – R.
Não te incomode com isso, pois não é da tua conta; comece a rezar por mim,
como faz pelos outros, e depois veremos. — Se não me ajudar com o teu
arrependimento, a prece terá pouca eficácia. – R. Se você falar, em vez de
rezar, você terá pouca serventia para mim.
P. Então deseja progredir? – R. Talvez; não sei… Vejamos se a prece alivia
os sofrimentos; isso é o essencial! — Pois então, junte-se a mim com a
vontade firme de obter esse alívio. – R. Vá em frente!
P. (Depois da prece da médium) – Está satisfeito? – R. Não como eu
gostaria. — Um remédio aplicado pela primeira vez não pode curar de
imediato uma enfermidade antiga. – R. É possível. — Quer voltar? – R. Sim, se
você me chamar.
O guia da médium – Minha filha, você terá muito trabalho com esse
Espírito endurecido, mas não haveria mérito algum em salvar quem não está
perdido. Coragem! Tenha perseverança e você conseguirá! Não há culpado
que não possa ser reconduzido pela persuasão e pelo exemplo, pois os
Espíritos mais perversos acabam se corrigindo com o tempo; se não
conseguimos levar até eles bons sentimentos imediatamente — o que muitas
vezes é impossível —, o esforço que fizermos não será perdido. As ideias que
lhes oferecemos mexem com eles e os forçam a refletir; são sementes que
cedo ou tarde darão seus frutos. Não se arrebenta uma rocha com a primeira
marretada.
O que estou te dizendo aqui, minha filha, também se aplica aos
encarnados, e você deve entender por que o Espiritismo — mesmo entre os
356 – Allan Kardec
crentes convictos — não faz imediatamente homens perfeitos. A crença é um
primeiro passo; a fé vem em seguida, e a transformação terá sua vez. Para
muitos, porém, será preciso vir se retemperar no mundo dos Espíritos.
Entre os endurecidos, não existem apenas Espíritos perversos e malignos;
também é grande o número daqueles que, sem procurar fazer o mal, permanecem no
atraso pelo orgulho, indiferença ou apatia. Nem por isso eles são menos infelizes, pois
sofrem tanto mais pela própria inércia quanto por não terem como compensação as
distrações do mundo. A perspectiva do infinito torna a posição deles intolerável, e
ainda assim eles não têm nem força nem vontade de sair dessa situação. São estes que,
nas encarnações, passam essas existências desocupadas, inúteis para eles mesmos e
para os outros, e que quase sempre terminam por se suicidar, sem motivos sérios, por
mero desgosto da vida.
Esses Espíritos geralmente são mais difíceis de serem reconduzidos ao bem, em
comparação com aqueles que são francamente malvados, já que nestes últimos há
energia; uma vez esclarecidos, eles se tornam tão fervorosos ao bem quanto o foram
para o mal. Será preciso, sem dúvida, muitas existências aos outros, para progredirem
consideravelmente; mas pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como os outros o serão
pelo sofrimento, eles procurarão uma distração numa ocupação qualquer que, mais
tarde, se tornará para eles uma necessidade.
357 – O Céu e o Inferno
CAPÍTULO VIII
EXPIAÇÕES TERRESTRES
MARCEL, o menino do nº 4 – SZYMEL SLIZGOL
– JULIANA MARIA, a pobrezinha – MAX, o mendigo –
HISTÓRIA DE UM CRIADO – ANTONIO B…
– LETIL – UM ESTUDIOSO AMBICIOSO –
CHARLES DE SAINT-G…, deficiente mental
– ADELAIDE MARGARIDA GOSSE – CLARA RIVIER –
FRANÇOISE VERNHES – ANNA BITTER – JOSÉ MESTRE, o cego
MARCEL, o menino do nº 4
Num hospício do interior, havia um menino entre oito e dez anos numa
situação difícil de se descrever. Ele era designado apenas pelo nº 4.
Inteiramente contorcido — seja por deformidade natural, seja pela doença —,
suas pernas tortas tocavam até seu pescoço; sua magreza era tal que a pele se
partia sobre a saliência dos ossos; seu corpo todo era uma chaga e seus
sofrimentos eram atrozes. Pertencia a uma pobre família israelita, e essa sua
triste condição já durava quatro anos. Mas sua inteligência era notável para a
sua idade; sua doçura, sua paciência e sua resignação eram edificantes. O
médico do departamento no qual ele se tratava, tomado de compaixão por
esse pobre — que de alguma forma estava largado, pois parecia que seus pais
não vinham vê-lo com frequência — interessou-se por ele, e gostava de
conversar com ele, encantado com o seu bom senso precoce. Não somente
este médico tratava o menino com bondade, mas também vinha, quando suas
ocupações assim lhe permitiam, para ler para ele, admirando-se da retidão do
seu julgamento sobre coisas que pareciam acima da sua idade.
358 – Allan Kardec
Certo dia, o menino lhe disse: “Doutor, tenha a bondade de me dar mais
daquelas pílulas que me receitou da última vez.” Respondeu o médico: “E para
que, meu garoto? Já te dei a dose suficiente, e creio que uma quantidade maior
te faria mal.” O menino replicou: “É que, veja bem, eu sofro tanto, a ponto de
precisar me esforçar muito para não gritar, e peço a Deus que me dê forças, a
fim de não incomodar os outros pacientes que estão ao meu lado; mas muitas
vezes tenho dificuldades para me conter. Essas pílulas me adormecem, e pelo
menos durante esse tempo eu não perturbo ninguém.”
Estas palavras bastam para mostrar a elevação dessa alma contida nesse
corpo disforme. Onde essa criança teria colhido tais sentimentos? Não
poderia ter sido no meio onde cresceu; além disso, na idade em que começou
a sofrer, ele ainda não conseguia entender nenhum raciocínio. Portanto, esses
sentimentos eram inatos nele. Mas então, com tão nobres instintos, por que
Deus o condenava a uma vida tão miserável e tão dolorosa, admitindo-se que
tivesse criado a alma ao mesmo tempo que o corpo, instrumento de tão cruéis
sofrimentos? Ou devemos negar a bondade de Deus ou devemos admitir uma
causa anterior, quer dizer, a preexistência da alma e a pluralidade das
existências. Este menino está morto, e seus derradeiros pensamentos foram
para Deus e para o médico caridoso que teve piedade dele.
Algum tempo depois, ele foi evocado na Sociedade de Paris, onde deu a
comunicação que segue (1863):
“Vocês me chamaram e eu vim fazer com que a minha voz se estenda
para além desse recinto, para tocar todos os corações; que o eco que ela fará
vibrar seja ouvido até mesmo na sua solidão; essa voz lhes lembrará que a
agonia da Terra prepara as alegrias do céu, e que esse tormento não é mais do
que a casca amarga de uma fruta deliciosa que dá coragem e resignação. Ela
lhes dirá que sobre o catre onde jaz a miséria estão os enviados de Deus, cuja
missão é ensinar à humanidade que não há dor que não se possa encarar com
a ajuda do Todo-Poderoso e dos bons Espíritos. Ela também lhes dirá para
que ouçam os prantos se misturando com as orações, e para que
compreendam a harmonia piedosa — tão diferente dos sotaques culpáveis do
pranto se misturando com blasfêmias.
“Um dos bons Espíritos de vocês, um grande apóstolo do Espiritismo,
359 – O Céu e o Inferno
teve a gentileza de me ceder o lugar esta noite.102 Por minha vez, também
devo lhes dizer algumas palavras sobre o progresso da doutrina de vocês. Ela
deve ajudar na missão daqueles que encarnam no seu meio para aprender a
sofrer. O Espiritismo será o sinal indicador, com o qual eles terão o exemplo e
a voz; é aí então que os prantos serão transformados em gritos de alegria e
em lágrimas de satisfação.”
P. Pelo que acaba de dizer, parece que os teus sofrimentos não eram por
expiação de faltas anteriores…
R. Não eram uma expiação direta, mas estejam seguros de que toda dor
tem uma causa justa. Aquele que vocês conheceram tão miserável foi belo,
grande, rico e adulado; tive bajuladores e cortesãos, por isso fui vaidoso e
orgulhoso. Outrora fui bem culpado; reneguei Deus e fiz mal ao meu próximo,
mas expiei cruelmente, primeiro no mundo dos Espíritos e depois na Terra. O
que passei durante alguns anos só nesta última existência, tão curtíssima, já
tinha sofrido durante uma vida inteira, inclusive na extrema velhice. Devido
ao meu arrependimento, encontrei graça diante do Senhor, que se dignou de
me confiar várias missões, dentre as quais a última vocês conheceram. Eu a
solicitei para completar minha depuração.
Adeus, meus amigos; voltarei algumas vezes entre vocês. Minha missão é
a de consolar, e não a de instruir; mas aqui há tantos cujas feridas estão
escondidas, que eles ficarão contentes com a minha vinda.
MARCEL
Instrução do guia do médium
Pobrezinho desse ser sofredor, franzino, ulceroso e disforme! Quantos
gemidos ele fez ouvir nesse asilo de misérias e de lágrimas! E apesar da sua
pouca idade, como ele era resignado e como sua alma já compreendia o
propósito dos sofrimentos! Ele já sentia que no além-túmulo uma recompensa
o aguardava, por tantos prantos reprimidos! Ah, como ele orava por aqueles
que, diferentes dele, não tinham a coragem de suportar seus males, sobretudo
102 Santo Agostinho, pela médium com a qual ele costuma se comunicar com a Sociedade.
360 – Allan Kardec
pelos que dirigiam blasfêmias contra o céu em lugar de orações!
Se a agonia foi longa, de outra forma a hora da morte não foi nada
terrível; sem dúvidas os membros convulsionados se contorciam e exibiam
aos presentes um corpo deformado se revoltando contra a morte, a lei da
carne que quer viver mesmo assim; mas um anjo bom pairava acima do leito
do moribundo e cicatrizava seu coração; em seguida, ele arrebatou nas suas
asas brancas essa alma tão bela, que escapou desse corpo disforme enquanto
pronunciava essas palavras: Glória te seja rendida, ó meu Deus! E essa alma
subiu rumo ao Todo-Poderoso, feliz, exclamando: Eis-me aqui, Senhor, que me
deu como missão ensinar a sofrer; será que suportei dignamente a provação?
E agora o Espírito do pobre menino retomou as suas proporções; ele
plana no espaço, indo ao fraco e ao humilde, dizendo a todos: Tenham
esperança e coragem! Desgarrado de toda matéria e de toda impureza, ele aí
está perto de vocês, falando a vocês, não mais com sua voz doentia e
lamentosa, mas sim com voz máscula, dizendo-lhes: Aqueles que me viram,
enxergaram a criança que não murmurava; colheram disso a calma para os
seus males, e seus corações se fortaleceram na doce confiança em Deus. Este
foi o propósito da minha curta passagem na Terra.
SANTO AGOSTINHO
SZYMEL SLIZGOL
Era um pobre israelita de Vilna,103 falecido em maio de 1865. Durante
trinta anos ele mendigou, tendo uma bandeja na mão. Por toda parte em sua
cidade, seu grito era conhecido: “Lembrem-se dos pobres, das viúvas e dos
órfãos!” Nesse tempo, Slizgol tinha juntado 90.000 rublos, do qual não
guardou um só centavo de kopek para si. Ele sustentava os enfermos, que ele
mesmo tratava; pagava o ensino de crianças pobres e distribuía aos
necessitados a comida que lhe davam. A noite era consagrada ao preparo do
rapé, que o mendigo vendia para prover suas próprias necessidades. O que
lhe restava pertencia aos pobres. Szymel vivia sozinho no mundo, mas no dia
103 Vilna, ou Vilnius, então anexada à Rússia, na época de Kardec, atualmente é a capital da República da
Lituânia. — N. T.
361 – O Céu e o Inferno
do seu enterro uma grande parte da população de Vilna acompanhou seu
cortejo e as lojas ficaram fechadas.
(Sociedade Espírita de Paris, 15 de junho de 1865)
Evocação – Muito feliz e finalmente chegando à plenitude da minha
ambição, pela qual paguei muito caro, aqui estou no meio de vocês, desde o
começo dessa noite. Agradeço-lhes por se interessarem pelo Espírito do pobre
mendigo que, com alegria, vai procurar responder às perguntas de vocês.
P. Uma carta, vinda de Vilna, nos informou as particularidades mais
notáveis da tua existência. Foi pela simpatia que elas nos inspiram que
tivemos o desejo de conversar contigo. Nós te agradecemos por ter atendido
ao nosso chamado e, uma vez que gentilmente quer nos responder, para
nosso aprendizado, ficaríamos felizes em saber da tua posição como Espírito,
e as causas que motivaram o gênero da tua última existência.
R. Antes de tudo, concedam ao meu Espírito — que compreende sua
verdadeira posição — o favor de dizer a vocês uma opinião sobre o
pensamento que lhes ocorreu a respeito da minha pessoa, e peço que a
corrijam, se esta opinião estiver errada.
Vocês acham estranho que a manifestação pública tenha tido um alcance
tão grande para render homenagem ao homem insignificante que soube, por
meio de sua caridade, atrair tal simpatia. Não me refiro a você, caro mestre,
nem a você, caro médium, nem a vocês todos que são espíritas verdadeiros e
sinceros, mas sim às pessoas indiferentes à crença. Não há nada de
surpreendente nisso. A força da pressão moral que a prática do bem exerce
sobre a humanidade é tal que, por mais materialista que a pessoa seja, ela
sempre se inclina; nós saudamos o bem, a despeito da tendência que temos
para o mal.
Agora, vamos às perguntas que, da parte de vocês, não são ditadas pela
curiosidade, mas simplesmente formuladas com vistas à instrução geral. Vou
lhes contar então, já que tenho a liberdade para isso, dizendo da forma mais
breve possível, quais as causas que motivaram e determinaram minha última
existência.
Há vários séculos, eu vivi com o título de rei, ou pelo menos como
362 – Allan Kardec
príncipe soberano. Dentro do círculo do meu poder, relativamente estreito em
comparação com os Estados atuais, eu era o senhor absoluto do destino dos
meus súditos; então agia como um tirano, ou — digamos a palavra certa —
como um carrasco. Sendo eu de um caráter imperioso, violento, avarento e
sensualista, daí vocês podem ver qual devia ter sido a sorte dos pobres seres
que viviam sob as minhas leis. Abusei do poder para oprimir o fraco, para
subordinar toda espécie de ofícios, de trabalhos, de paixões e dores, para o
serviço das minhas próprias paixões. Assim, eu impus um tributo sobre o
produto da mendicidade: ninguém podia mendigar sem que eu antes tirasse a
minha parte do que a piedade humana deixasse cair na sacola da miséria.
Mais do que isso: a fim de não diminuir o número de mendigos entre os meus
súditos, eu proibia aos infelizes de dar aos seus amigos, seus pais e seus
demais parentes a pequena parte que sobrava para esses pobres seres. Em
suma, eu fui tudo o que havia de mais implacável com o sofrimento e a
miséria.
Enfim, o que chamam de vida, eu perdi em tormentos e sofrimentos
horríveis. Minha morte foi um modelo de terror para todos que, como eu,
embora numa escala menor, compartilhavam da minha maneira de ver.
Demorei-me na condição de Espírito errante durante três séculos e meio, e ao
fim desse lapso de tempo eu compreendi que o objetivo da encarnação era
totalmente diferente daquilo que os meus sentidos grosseiros e obtusos me
fizeram cobiçar; pela força das preces, da resignação e dos pesares, eu obtive
a permissão de tomar a tarefa material de suportar os mesmos sofrimentos
que eu tinha causado, e ainda mais. Obtive essa permissão e Deus me
concedeu — pelo meu livre-arbítrio — ampliar meus sofrimentos morais e
físicos. Graças ao socorro dos bons Espíritos que me assistiram, eu persisti na
resolução de praticar o bem e a eles sou grato, por me terem impedido de
sucumbir diante da tarefa que eu tinha assumido.
Finalmente, completei uma existência que, pela abnegação e caridade,
redimiu aquilo que a outra tinha sido de cruel e injusta. Nasci de pais pobres,
tornei-me órfão muito cedo e aprendi a me sustentar na idade em que muitos
ainda se consideram incapazes de entender. Vivi sozinho, sem amor, sem
afetos, e ainda assim, desde o começo da minha vida, suportei a brutalidade
363 – O Céu e o Inferno
que eu havia exercido sobre os outros. Dizem que as somas por mim
recolhidas foram todas destinadas ao alívio dos meus semelhantes; isso é um
fato, ao qual, sem ostentação e sem orgulho, eu acrescento que muitíssimas
vezes, ao preço de privações relativamente fortes, muito fortes, eu aumentava
o benefício que me permitia fazer a caridade pública.
Morri com calma, confiando no prêmio que eu tinha obtido com a
reparação feita na minha derradeira existência, e estou sendo recompensado
acima das minhas secretas aspirações. Hoje eu sou feliz, muito feliz, por poder
lhes dizer que todo aquele que se eleva será rebaixado, e todo aquele que se
humilha será elevado.
P. Por favor, queira nos dizer em que consistiu a tua expiação no mundo
dos Espíritos, e quanto tempo ela durou, desde tua morte até o momento em
que a tua sorte foi suavizada por efeito do arrependimento e das boas
resoluções que você tomou. Diga-nos também o que foi que provocou em você
a mudança nas tuas ideias, no estado espiritual.
R. Vocês me fazem trazer de novo à memória recordações bem
dolorosas! Ah, como eu sofri!… Mas não me queixo disso; apenas recordo!…
Vocês querem saber de que natureza foi a minha expiação; então, ei-la em
todo o seu terrível horror:
Como eu disse, sendo carrasco contra toda espécie de bons sentimentos,
demorei muito tempo, muito tempo mesmo, preso pelo perispírito ao corpo
em decomposição. Até que essa putrefação se completasse, eu me sentia
corroído pelos vermes, que me faziam sofrer muito! Quando fui desligado dos
liames que me atavam ao instrumento do meu suplício, então comecei a sofrer
uma ainda mais cruel. Após a tortura física, vem o sofrimento moral — e isso
demandou um tempo bem mais longo do que o primeiro sofrimento. Fui posto
na presença de todas as vítimas que eu havia torturado. Periodicamente, eu
era levado, por uma força muito maior do que a minha, a encarar as minhas
culpáveis ações. E percebia fisicamente e moralmente todas as dores que eu
tinha causado. Oh, meus amigos, como é terrível o olhar constante daqueles a
quem fizemos mal! Vocês têm um tímido exemplo disso entre vocês através
da confrontação entre o acusado e a sua vítima.
Aqui está, em resumo, o que sofri durante dois séculos e meio, até que
364 – Allan Kardec
Deus, tocado pela minha dor e pelo meu arrependimento, sendo solicitado
pelos guias que me assistiam, enfim permitiu que eu assumisse a vida de
expiação que vocês conheceram.
P. Algum motivo particular te convenceu a escolher tua última existência
na religião israelita? – R. Não escolhi isso por mim mesmo, mas aceitei o
conselho dos meus guias. A religião de Israel juntou uma pequena humilhação
a mais à minha vida de expiação, pois em certos países a maioria dos
encarnados menospreza sobretudo os israelitas, e principalmente os judeus
mendicantes.
P. Na tua derradeira existência, com que idade começou a colocar em
execução as resoluções que você tinha tomado? Como esse pensamento te
ocorreu? À medida que exercia tanta abnegação, com tanta caridade, você
tinha alguma intuição da causa que o levara a isso?
R. Eu nasci de pais pobres, mas inteligentes e avarentos. Ainda jovem, fui
privado da afeição e dos carinhos de minha mãe. Perdê-la me fez sentir um
desgosto muito mais forte, porque meu pai, dominado pela paixão pelos
ganhos, me abandonou inteiramente. Meus irmãos e minhas irmãs, todos com
mais idade do que eu, não pareciam perceber meus tormentos. Um outro
judeu, movido por um pensamento mais egoísta do que caridoso, me adotou e
me colocou a trabalhar. Com o lucro dos meus trabalhos, que muitas vezes
excedia minhas forças, ele recuperou o que eu lhe tinha custado. Mais tarde,
libertei-me desse jugo e trabalhei por minha conta. No entanto, em toda parte,
tanto na atividade quanto no repouso, eu era perseguido pela lembrança dos
carinhos da minha mãe, e à medida que avançava em idade, sua lembrança
ficava gravada cada vez mais profundamente na minha memória, e mais eu
sentia falta dos seus cuidados e do seu amor.
Em pouco tempo, da minha família só restava eu; a morte ceifou em
poucos meses todos os meus parentes. Foi então que começou a se revelar a
forma com a qual eu devia passar o resto da minha existência. Dois dos meus
irmãos tinha deixado órfãos; comovido pela recordação de que como órfão
havia sofrido, eu quis preservar aqueles seres pobrezinhos de uma juventude
semelhante à minha; mas como o meu trabalho não era o suficiente para
sustentar a todos nós, comecei a estender a mão, pedindo não para mim, mas
365 – O Céu e o Inferno
para os outros. Deus não me deixaria o consolo de usufruir dos meus esforços;
então os pobrezinhos me deixaram para sempre. Eu sabia muito bem o que
lhes faltava: era a sua mãe. Com isso, resolvi recorrer à caridade em favor das
viúvas infelizes que, não podendo sustentar nem a si nem aos seus filhos, se
impunham privações que as conduziam ao túmulo, deixando pobres órfãos
que ficavam assim abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo
enfrentava.
Eu tinha trinta anos quando, cheio de força e de saúde, viram-me
mendigar pela viúva e pelo órfão. Os primeiros dias foram penosos, e eu tive
que aguentar muitas palavras humilhantes. Porém, quando viram que eu
realmente distribuía tudo o que recebia em nome dos pobres; quando me
viram acrescentar às esmolas também as sobras do meu trabalho, eu adquiri
uma espécie de consideração que de alguma forma me encantava.
Vivi sessenta e poucos anos e jamais faltei com a tarefa que me impus.
Jamais também uma advertência da consciência veio me fazer supor que um
motivo anterior à minha existência fosse a causa da minha maneira de agir.
Somente um dia, antes de começar a estender a mão, eu ouvi estas palavras:
“Não faça aos outros o que você não gostaria que os outros te fizessem.”
Fiquei impressionado com a moralidade geral contida nessas poucas palavras,
e muitíssimas vezes me peguei acrescentando estas outras: “Mas, pelo
contrário, faça a eles o que você gostaria que eles fizessem por você.” A
lembrança de minha mãe e a dos meus sofrimentos me ajudando, continuei a
marchar numa carreira que a minha consciência me dizia ser boa.
Vou terminar esta longa comunicação lhes dizendo: obrigado! Ainda não
sou perfeito, mas, sabendo que o mal só leva ao mal, eu farei o bem de novo,
como já o fiz, para colher felicidade.
SZYMEL SLIZGOL
JULIANA MARIA, a pobrezinha
Na comuna de Villate, perto de Nozai (Loire-Inférieure), havia uma
pobre mulher chamada Juliana Maria,104 velha, enferma e que vivia da
104 No original em francês, Julienne-Marie. — N. T.
366 – Allan Kardec
caridade pública. Um dia, ela caiu num lago, de onde foi retirada por um
morador da região, o Sr. A…, que habitualmente a socorria. Levada até seu
domicílio, ela morreu pouco tempo depois por consequência do acidente. A
opinião geral era a de que ela queria se suicidar. No mesmo dia do seu
falecimento, aquele que a tinha socorrido — que aliás é espírita e médium —
sentiu por todo o corpo como que um toque de alguém que estivesse perto
dele, porém sem saber explicar a causa; quando ele soube da morte de Juliana
Maria, ele logo pensou que talvez o Espírito dela tivesse vindo visitá-lo.
Seguindo o conselho de um de seus amigos, membro da Sociedade
Espírita de Paris, ao qual ele havia contado o que tinha se passado, o Sr. A… fez
a evocação dessa mulher, com o objetivo de lhe ser útil; porém, previamente,
ele pediu um conselho aos seus guias protetores, dos quais recebeu a resposta
seguinte:
“Você pode evocá-la, e isto a fará feliz, embora o serviço que você
pretende prestar a ela seja desnecessário, pois ela é feliz e inteiramente
devotada aos que lhe foram compassivos. Você mesmo é um dos bons amigos
dela; ela quase não te deixa e muitas vezes fala contigo sem que você perceba.
Cedo ou tarde os serviços prestados são recompensados — se não pelo
favorecido, será por aqueles que se interessam por ele, tanto antes da sua
morte como depois. Quando um Espírito não teve tempo de se reconhecer,
são os outros Espíritos simpáticos que, em seu nome, testemunham toda a sua
gratidão. É isso o que explica aquilo que você sentiu no dia do óbito dela.
Agora é ela quem te ajuda no bem que você quer fazer. Lembre-se do que
Jesus disse: “Aquele que se rebaixar será exaltado”. Você terá a medida dos
serviços que ela pode te prestar, se, por sua vez, você lhe pedir assistência
para ser útil ao teu próximo.”
Evocação – Bondosa Juliana Maria, você está feliz; isso é tudo que eu
queria saber. Isso não me impedirá de pensar muitas vezes em você; jamais
vou te esquecer em minhas preces.
R. Tenha confiança em Deus; inspira aos teus enfermos uma fé sincera e
quase sempre você triunfará. Jamais se preocupe com a recompensa que virá
disso, pois ela será acima da tua expectativa. Deus sempre sabe recompensar
conforme merece aquele que se dedica ao alívio dos seus semelhantes e traz
367 – O Céu e o Inferno
nas suas ações um desinteresse completo; sem isso, tudo não passa de
ilusão e quimera. É preciso fé, antes de tudo; de outro modo, nada adianta.
Lembre-se dessa máxima e você ficará admirado dos resultados que vai obter.
Os dois adoentados que você curou são a prova disso; nas circunstâncias em
que eles se encontravam, com os remédios comuns você teria falhado.
Quando pedir a Deus que permita aos bons Espíritos derramarem sobre
você os fluidos benéficos deles, se esse pedido não te fizer sentir um
estremecimento involuntário, é que tua prece não foi bastante fervorosa para
ser ouvida; ela só será ouvida nas condições que te assinalo. É o que você tem
experimentado quando diz do fundo do coração: “Deus todo–Poderoso, Deus
misericordioso, Deus de bondade sem limite, acolha a minha prece e permita
aos bons Espíritos me assistirem na cura de…; tenha misericórdia dele, meu
Deus, e restitua a sua saúde; sem o Senhor, eu nada posso. Que seja feita a tua
vontade.”
Você fez bem em não desdenhar os humildes; a voz daquele que sofreu e
suportou com resignação as misérias deste mundo é sempre ouvida, e como
você pode ver, um serviço prestado sempre recebe a sua recompensa.
Agora, uma palavra a meu respeito, e isso te confirmará o que já foi dito.
O Espiritismo te explica minha linguagem como Espírito: eu não preciso
entrar em detalhes sobre esse assunto. Creio que também seja inútil te revelar
minha existência anterior. A posição em que você me conheceu na Terra deve
te fazer compreender e sondar minhas outras existências, que nem sempre
foram irrepreensíveis. Devotada a uma vida de miséria, doente e não podendo
trabalhar, eu mendiguei por toda a minha vida. Não enriqueci; nos dias da
minha velhice, minhas pequenas economias se limitavam a uma centena de
francos, que reservava para quando minhas pernas não pudessem mais me
carregar. Deus julgou que a minha provação e a minha expiação já eram
suficientes, e pôs um fim a elas, livrando-me sem sofrimento da vida terrestre;
pois eu não me suicidei, como a princípio todos pensaram. Morri subitamente
na beira do lago, enquanto dirigia minha última oração a Deus; a inclinação do
terreno foi a causa da presença do meu corpo na água.
Não sofri; estou feliz por ter podido cumprir minha missão sem entraves
e com resignação. Tornei-me útil, na medida das minhas forças e das minhas
368 – Allan Kardec
possibilidades, evitando fazer o mal ao meu próximo. Hoje, eu recebo a
recompensa e dou graças a Deus, nosso divino Mestre, que adoçou a amargura
das provações ao nos fazer esquecer durante a vida as nossas antigas
existências, e que colocou no nosso caminho almas caridosas, para nos ajudar
a suportar o fardo dos nossos erros passados.
Persevere também você, e, como eu, será recompensado por isso.
Agradeço as tuas boas preces e o serviço que me prestou; não o esquecerei
jamais. Um dia nós nos veremos de novo e muitas coisas te serão explicadas;
para este momento, isso seria supérfluo. Saiba apenas que te quero muito
bem, e que sempre estarei por perto, quando tiver necessidade de mim para
suavizar alguém que esteja sofrendo.
A boa e pobrezinha JULIANA MARIA
Tendo sido evocado na Sociedade de Paris, em 10 de junho de 1864, o
Espírito de Juliana Maria ditou a comunicação que segue:
“Obrigada por me admitir no meio de vocês, caro presidente. Vocês bem
sabem que minhas existências anteriores foram mais elevadas na posição
social; se voltei a sofrer essa provação da pobreza, foi para me punir de um
orgulho mesquinho que me fazia repulsar quem fosse pobre e miserável.
Então fui submetida a essa lei justa de talião, que me tornou a pobretona mais
horrível dessa região; mas, para me provar a bondade de Deus, não fui
rejeitada por todos: esse era todo o meu receio. Sendo assim, suportei minha
prova sem murmurar, pressentindo uma vida melhor, pelo que eu não devia
mais voltar a esta Terra de exílio e de calamidade.
“Que felicidade o dia em que a nossa alma, ainda jovem, pode entrar na
vida espiritual para rever os seres amados! Pois eu também amei e estou feliz
por ter encontrado aqueles que me precederam. Obrigado a esse bom homem,
o Sr. A…, que me abriu a porta da gratidão; sem a sua mediunidade eu não
poderia lhe agradecer e lhe provar que minha alma não esquece as felizes
influências do seu bom coração e lhe recomendar que propague sua divina
crença. Ele é chamado a resgatar as almas perdidas; que ele se convença bem
do meu apoio. Sim, eu lhe posso retribuir ao cêntuplo o que ele fez por mim,
instruindo-o na estrada que vocês seguem. Agradeçam ao Senhor por ter
369 – O Céu e o Inferno
permitido que os Espíritos possam lhes dar as instruções para encorajar o
pobre em suas lutas e deter o rico no seu orgulho. Tratem de compreender a
vergonha que há em repudiar um infeliz; que eu lhes sirva de exemplo, a fim
de evitar vir, como eu, a expiar suas faltas nessas dolorosas condições sociais,
que os colocam tão baixo e que fazem de vocês a escória da sociedade.”
JULIANA MARIA
Depois que essa comunicação foi transmitida ao Sr. A…, ele por sua vez
obteve esta outra, que aqui segue, e que é a confirmação da anterior:
P. Bondosa Juliana Maria, já que quer me ajudar com os teus bons
conselhos, a fim de me fazer progredir na estrada da nossa divina doutrina,
por gentileza, queira se comunicar comigo; farei todos os esforços para
aproveitar bem os teus ensinamentos.
R. Lembre-se da recomendação que vou te fazer, e jamais se afaste dela:
seja sempre caridoso, na medida de tuas possibilidades; você entende
bastante de caridade tal como ela deve ser praticada em todas as classes da
vida terrena. Portanto, eu não preciso vir te dar qualquer ensinamento sobre
esse tema; você mesmo será o melhor juiz, desde que siga a voz da tua
consciência, que nunca te enganará, quando a escutar com sinceridade.
Não te iluda quanto às missões que você tem a cumprir; pequenos e
grandes têm as suas; a minha foi muito penosa, mas eu merecia semelhante
punição por causa das minhas existências precedentes, conforme já confessei
ao bom presidente da Sociedade-mãe de Paris, à qual vocês todos se juntarão
um dia. Esse dia não está tão longe quanto você pensa, pois o Espiritismo
marcha a passos de gigante, apesar de tudo o que se faz para entravá-lo.
Então, marchem todos destemidamente, fervorosos adeptos da doutrina, e
seus esforços serão coroados de sucesso. Não se importem com o que
disserem de vocês! Coloquem-se acima de uma crítica irrisória, que cairá
sobre os adversários do Espiritismo.
Esses orgulhosos! Eles se acham fortes e pensam que podem abater
vocês facilmente; mas vocês, meus bons amigos, fiquem tranquilos e não
temam enfrentá-los, pois eles são mais fáceis de serem derrotados do que se
imagina. Muitos dentre eles têm medo e temem que a verdade finalmente
370 – Allan Kardec
venha ofuscar os olhos deles. Esperem, e eles — na vez deles — virão ajudar
no coroamento do edifício.
JULIANA MARIA
Este ocorrido está repleto de ensinamentos para quem meditar sobre as
palavras desse Espírito nessas três comunicações; todos os grandes princípios do
Espiritismo se encontram aqui reunidos. Desde a primeira, o Espírito demonstra sua
superioridade através da sua linguagem; semelhante a uma fada benevolente, como
que transformada e agora resplandecente, essa mulher vem proteger aquele que não a
rejeitou quando estava sob os trapos de miséria. Tal fato, é uma aplicação daquelas
máximas do Evangelho: “Os grandes serão rebaixados e os pequenos serão elevados;
bem-aventurados os humildes e bem-aventurados os aflitos, porque eles serão
consolados; não menosprezem os pequenos, pois quem é pequeno neste mundo talvez
seja maior do que vocês imaginam.”
MAX, o mendigo
Num vilarejo da Baviera, por volta do ano 1850, morreu um idoso quase
centenário, conhecido como pai Max. Ninguém conhecia exatamente a sua
origem, pois ele não tinha família. Durante quase meio século, acabrunhado
por enfermidades que o impossibilitavam de ganhar a vida pelo trabalho, ele
não tinha outros recursos além da caridade pública, que ele dissimulava indo
vender nas fazendas e casarões seus almanaques e outras miudezas. Deram a
ele o apelido de conde Max, e as crianças só o chamavam de senhor conde —
ao que ele sorria sem se ofender. Por que esse título? Ninguém saberia dizer;
isso tinha se tornado um hábito. Talvez fosse por causa de sua fisionomia e de
suas maneiras, cuja distinção contrastava com seus farrapos. Vários anos após
sua morte, ele apareceu em sonho à filha do proprietário de um dos casarões
onde ele era hospedado no estábulo, pois ele não tinha domicílio próprio. Ele
disse à menina: “Obrigado por você ter se lembrado do pobre Max em tuas
orações, pois elas foram ouvidas pelo Senhor. Você deseja saber quem sou eu,
ó alma caridosa, interessado pelo infeliz mendigo! Eu vou te satisfazer; isso
será para todos uma grande lição.”
Ele então fez para ela o relato seguinte, mais ou menos nesses termos:
371 – O Céu e o Inferno
“Há um século e meio, aproximadamente, eu era um rico e poderoso
senhor desta região; mas eu era mesquinho, orgulhoso e envaidecido da
minha nobreza. Minha imensa fortuna não servia senão para os meus
prazeres e mal dava para isso, porque eu era viciado em jogo, um debochado,
e passava a vida nas orgias. Meus vassalos — que eu acreditava terem sido
criados para meu uso, como animais de fazenda — eram oprimidos e
maltratados para subsidiar minhas extravagâncias. Eu era surdo com relação
aos prantos deles, como aos de todos os desafortunados, e, na minha opinião,
eles deviam se considerar muito honrados em servir aos meus caprichos.
Morri numa idade pouco avançada, esgotado pelos excessos, mas sem ter
experimentado nenhuma infelicidade verdadeira; ao contrário, tudo parecia
sorrir para mim, de sorte que aos olhos de todos eu era um dos felizardos do
mundo: meu prestígio me rendeu um suntuoso funeral e os meus colegas
devassos lamentaram minha morte pela perda de um senhor faustoso, mas
nenhuma lágrima foi derramada sobre a minha catacumba, nem uma prece de
coração foi endereçada a Deus por mim, e minha memória foi amaldiçoada
por todos aqueles cuja miséria eu havia aumentado. Ah, como é terrível a
maldição dos infelizes que nós criamos! Ela não cessou de retinir em meus
ouvidos durante longos anos, que me pareciam uma eternidade! E por ocasião
da morte de cada uma de minhas vítimas, era uma nova figura ameaçadora ou
irônica que surgia diante de mim a me perseguir sem trégua, sem que eu
pudesse encontrar um canto escuro para me esconder da sua vista! Nem um
olhar amigo! Meus antigos companheiros de devassidão, desgraçados como
eu, fugiam de mim e pareciam me dizer com desdém: ‘Você não pode mais
proporcionar nossos prazeres!’ Oh, como eu teria pago caro naquela hora por
um instante de repouso! Pagaria caro por um copo d’água para estancar a
sede ardente que me devorava! Mas eu não possuía mais nada, e todo o ouro
que tinha semeado de mãos cheias na Terra não havia produzido uma
única bênção! Nem uma só, escute bem, minha filha!
“Enfim, farto de cansaço, exausto como um viajante esgotado que não vê
o término de sua jornada, exclamei: ‘Meu Deus, tenha piedade de mim!
Quando então vai acabar essa horrível situação?’ Então uma voz, a primeira
que escutei desde que tinha deixado a Terra, me disse: ‘Quando quiser!’ — ‘E
372 – Allan Kardec
o que eu devo fazer, grande Deus?’, eu respondi; ‘Diga! Eu me submeto a tudo.’
— ‘É preciso se arrepender e se humilhar diante aqueles a quem você
humilhou; é preciso lhes pedir que intercedam por ti, porque a prece do
ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor.’ Então eu me humilhei,
eu pedi aos meus vassalos e aos meus servos que estavam diante de mim, e
cujas fisionomias, cada vez mais benevolentes, terminaram por desaparecer.
Então isso foi para mim como uma nova vida; a esperança substituiu o
desespero e eu agradeci a Deus com todas as forças de minha alma. A voz me
disse, em seguida: ‘Príncipe!’ e eu respondi: ‘Não há aqui outro príncipe senão
o Deus onipotente que humilha os soberbos. Perdoe-me, Senhor, pois eu
pequei; faça de mim o servo dos meus servos, se essa for a tua vontade.’
“Alguns anos mais tarde eu nasci de novo, mas dessa vez numa família
de pobres aldeões. Meus pais morreram quando eu ainda era criança e fiquei
só no mundo, sem apoio. Ganhei a vida como pude, ora como operário e ora
como ajudante na fazenda, mas sempre honestamente, porque dessa vez eu
acreditava em Deus. Na idade dos quarenta anos, uma moléstia me deixou
aleijado de todos os membros e eu precisei mendigar durante mais de
cinquenta anos nessas mesmas terras das quais eu tinha sido o senhor
absoluto. Receber um pedaço de pão nas mesmas fazendas que eu tinha
possuído e onde, por uma amarga ironia, fui apelidado senhor conde, muito
feliz muitas vezes por encontrar um abrigo na estrebaria do casarão que tinha
sido meu. No meu sonho, eu me deleitava em percorrer esse mesmo casarão
onde eu reinara como um déspota. Quantas vezes, nos meus sonhos, me via
novamente no meio da minha antiga riqueza! Ao despertar, essas visões me
deixavam um indefinível sentimento de amargura e de pesar; mas jamais uma
reclamação escapou de minha boca; então, quando agradou a Deus me
chamar até ele, eu o louvei por me ter dado a coragem de sofrer sem
murmúrio essa longa e penosa prova, cuja recompensa eu recebo hoje. E você,
minha filha, eu te abençoo por ter rezado por mim.”
Nós recomendamos esse caso àqueles que afirmam que as pessoas não teriam
mais freio se não tivessem diante de si o pavor das penas eternas, e perguntamos se a
perspectiva de um castigo como o do pai Max é menos apropriada para nos tirar do
mal caminho do que a perspectiva de torturas sem-fim, nas quais ninguém mais crê.
373 – O Céu e o Inferno
HISTÓRIA DE UM CRIADO
Numa família da alta classe, havia um criado muito jovem cuja
personalidade inteligente e fina nos surpreendia pelo seu ar de distinção;
nada nas suas maneiras refletia baixeza; sua presteza para o serviço dos
patrões não tinha nada dessa obsequiosidade servil, própria das pessoas
dessa condição. Visitando novamente aquela família no ano seguinte, nós não
vimos mais aquele rapaz e perguntamos se o haviam despedido. “Não”, nos
responderam: “ele foi passar alguns dias na terra dele e lá morreu. Nós
lamentamos muito por ele, pois era um excelente sujeito e tinha sentimentos
verdadeiramente acima de sua posição. Ele era muito apegado a nós e nos
deu as maiores provas de devotamento.”
Mais tarde, tivemos a ideia de evocar aquele moço, e aqui está o que ele
nos disse:
“Na minha última encarnação eu era, como se diz na Terra, de uma
família muito boa, porém arruinada pela gastança de meu pai. Fiquei órfão,
muito jovem e sem recursos. Um amigo do meu pai me acolheu; ele me criou
como seu filho e me deu uma bela educação, da qual eu realmente fiquei um
pouco orgulhoso. Esse amigo hoje é o Sr. de G…, a serviço de quem você me
viu. Na minha última existência, eu quis expiar meu orgulho nascendo numa
condição servil e ali encontrei a ocasião de provar meu devotamento ao meu
benfeitor. Até salvei a vida dele sem que ele jamais desconfiasse disso. Era ao
mesmo tempo uma prova, da qual aproveitei para o meu avanço, já que tive
bastante força para não me deixar corromper pelo contato com um ambiente
quase sempre vicioso; malgrado os maus exemplos, eu continuei puro, e dou
graças a Deus por isso, porque fui recompensado pela felicidade de que
desfruto.”
P. Em que circunstâncias você salvou a vida do Sr. G…? – R. Num passeio
a cavalo, quando eu o seguia sozinho, eu percebi uma grande árvore que caía
ao seu lado, sem que ele a visse; eu chamei por ele com um grito terrível; ele
recuou de repente e nesse instante a árvore tombou aos seus pés. Sem o
movimento que eu provoquei, ele teria sido esmagado.
O Sr. G…, a quem o fato foi relatado, lembrou-se dele perfeitamente.
374 – Allan Kardec
P. Por que morreu tão jovem? – R. Deus julgou minha prova suficiente.
P. Como você pôde aproveitar essa prova, já que não tinha nenhuma
lembrança da causa que a tinha motivado? – R. Na minha humilde posição,
restava-me um instinto de orgulho, o qual eu tive a felicidade de poder
controlar, o que fez com que a provação se tornasse proveitosa para mim; se
não fosse assim, eu ainda teria de recomeçá-la. Meu Espírito se lembrava, em
seus momentos de liberdade, e ao despertar ele me deixava um desejo
intuitivo de resistir às minhas tendências, que eu sentia serem más. Assim, eu
tive mais mérito em lutar do que se me lembrasse claramente do passado. A
recordação de minha antiga situação teria exaltado o meu orgulho e isso me
perturbaria, ao passo que eu tive apenas que combater os arrastamentos da
minha nova posição.
P. Você recebeu uma brilhante educação; mas para que isso te serviu na
tua última existência, visto que você não se recordava dos conhecimentos que
tinha adquirido? – R. Esses conhecimentos teriam sido inúteis, até mesmo um
contrassenso na minha nova posição; eles ficaram latentes e hoje eu os
recupero. Entretanto, eles não me foram inúteis, pois desenvolveram minha
inteligência; instintivamente eu tinha o gosto pelas coisas elevadas, o que me
inspirava repulsa pelos exemplos baixos e ignóbeis que tinha sob os olhos.
Sem essa formação, eu não teria sido mais do que um simples criado.
P. Os exemplos de empregados dedicados aos seus patrões, até com
abnegação, resultam de anteriores relações? – R. Não tenha dúvidas disso; no
mínimo, esse é o caso mais comum. Algumas vezes esses empregados são os
próprios membros da família, ou, como eu, favorecidos que pagam uma dívida
de gratidão, e cuja dedicação os ajuda a avançar. Vocês ainda não conhecem
todos os efeitos das simpatias e antipatias que essas relações anteriores
produzem no mundo! Não, a morte não interrompe essas relações, que
frequentemente se perpetuam de século em século.
P. Por que esses exemplos de dedicação dos empregados são tão raros
atualmente? – R. É preciso aí acusar o espírito de egoísmo e de orgulho deste
século, desenvolvido pela incredulidade e pelas ideias materialistas. A fé
verdadeira é desprezada pela cupidez e pelo desejo de ganho, e com ela se vão
375 – O Céu e o Inferno
os devotamentos. O Espiritismo, reconduzindo os homens ao sentimento da
verdade, fará renascer as virtudes esquecidas.
Nada melhor do que esse exemplo para ressaltar o benefício do esquecimento
das existências anteriores. Se o Sr. G… tivesse a lembrança de quem tinha sido seu
jovem criado, ele teria ficado muito constrangido e nem mesmo o teria mantido
naquela condição; com isso, teria entravado a prova que era proveitosa para ambos.
ANTONIO B…
Enterrado vivo – A pena de talião
O Sr. Antonio B…, escritor de mérito e estimado por seus concidadãos,
tendo desempenhado com distinção e integridade funções públicas na
Lombardia, por volta do ano 1850 caiu num estado de morte aparente, em
consequência de um ataque de apoplexia, que infelizmente foi tomado —
como às vezes acontece — como uma morte real. Esse equívoco foi ainda mais
fácil porque acreditava-se perceber no corpo alguns sinais de decomposição.
Quinze dias depois do enterro, uma circunstância fortuita levou a família a
pedir a exumação; isso foi devido a um medalhão esquecido por descuido no
caixão. Mas o espanto dos assistentes foi grande quando, ao abrir a urna
funerária, perceberam que o corpo tinha mudado de posição, estando ele de
bruços e — que coisa horrível! — uma das mãos tinha sido parcialmente
comida pelo defunto. Ficou evidente, então, que o infeliz Antonio B… tinha
sido enterrado vivo; ele devia ter sucumbido sob as garras do desespero e da
fome.
Tendo sido evocado na Sociedade de Paris em agosto de 1861, a pedido
de um dos seus parentes, o Sr. Antonio B… deu as seguintes explicações:
1. Evocação – O que querem de mim?
2. Um dos teus parentes nos pediu para te evocar; nós o fazemos com prazer e
ficaremos felizes se você bem quiser nos responder. – R. Sim, ficarei feliz em
responder.
3. Lembra-se das circunstâncias da tua morte? – R. Ah, é claro que sim! Eu
lembro de tudo! Mas por que despertar a lembrança desse castigo?
376 – Allan Kardec
4. É verdade que você foi enterrado vivo por engano? – R. Deve ter sido isso,
pois a morte aparente teve todas as características de uma morte real; eu
estava quase exangue.105 Não se deve imputar a ninguém um fato previsto
desde antes do meu nascimento.
5. Já que essas perguntas são do tipo que te incomoda, devemos parar com
elas? – R. Não, continuem.
6. Gostaríamos de saber que está feliz, pois você deixou a reputação de um
homem de bem. – R. Fico muito agradecido; eu sei que rezarão por mim. Vou
tentar responder, mas se eu falhar, um dos guias de vocês responderão por
mim.
7. Poderia descrever para nós as sensações que você experimentou naquele
momento terrível? – R. Oh, que dolorosa provação é se sentir trancafiado
entre quatro tábuas, de maneira a não poder se mexer! Não é possível gritar,
pois a voz não ressoa mais num ambiente sem ar! Oh, que tortura é a de um
infeliz que se esforça inutilmente para respirar numa atmosfera insuficiente e
desprovida de oxigênio! Ai de mim! Eu era como um condenado na boca de
um forno sem calor. Oh, eu não desejaria a ninguém tais torturas! Não; a
ninguém eu desejaria um fim como o meu. Oh! Que cruel punição para uma
existência cruel e feroz! Não me perguntem no que eu estava pensando, mas
eu estava mergulhando no passado e vislumbrando vagamente o futuro.
8. Você disse: cruel punição para uma feroz existência; mas a tua reputação,
até hoje intacta, não parece supor nada disso. Poderia nos explicar isso? – R. O
que significa a duração de uma existência carnal comparada à eternidade?!
Certamente, eu procurei agir bem na minha última encarnação, mas aquele
desfecho tinha sido aceito por mim, antes de entrar na humanidade. Ah! Por
que me interrogar sobre esse passado doloroso que só eu conheço, além dos
Espíritos ministros do Onipotente? Saibam então, já que eu preciso lhes dizer,
que numa existência anterior eu havia sepultado uma mulher — minha
própria esposa — ainda viva, numa cova. É a pena de talião que a mim devia
ser aplicada. Olho por olho, dente por dente.
105 Privado de sangue. Descoloração da pele pela privação de sangue.
377 – O Céu e o Inferno
9. Nós te agradecemos por ter aceitado responder às nossas questões, e
pedimos a Deus que te perdoe o passado, em favor do mérito da tua mais
recente existência. – R. Voltarei mais tarde; a propósito, o Espírito de Erasto
deseja fazer um complemento.
Ensinamento do guia do médium
O que vocês devem colher desse ensinamento é que todas as suas
existências se correlacionam e que nenhuma delas é independente das outras;
as preocupações, os problemas, assim como as grandes dores que ferem os
homens, são sempre as consequências de uma vida anterior criminosa ou
mal-empregada. Entretanto, devo lhes dizer que desfechos parecidos com
esse de Antonio B… são raros, e se esse homem — cuja derradeira existência
foi isenta de culpa — terminou desse jeito, foi porque ele mesmo tinha
solicitado uma morte assim, com o propósito de abreviar a sua erraticidade e
alcançar mais rapidamente as esferas superiores. Com efeito, depois de um
período de perturbação e de sofrimento moral para expiar também seu crime
abominável, ele será perdoado e subirá para um mundo melhor, onde
reencontrará sua vítima, que o aguarda e que já o perdoou desde há muito
tempo. Portanto, meus queridos espíritas, saibam tirar proveito desse
exemplo cruel, para suportarem com paciência os sofrimentos corporais, os
sofrimentos morais, assim como todas as pequenas misérias da vida.
P. Que proveito a humanidade pode tirar de punições como essa? – R. Os
castigos não são aplicados para desenvolver a humanidade, mas para castigar
o indivíduo culpável. Com efeito, a humanidade não tem nenhum interesse em
ver um dos seus semelhantes sofrer. No presente caso, a punição foi
apropriada à falta. Por que há loucos? Por que há cretinos? Por que há
paralíticos? Por que alguns morrem no fogo? Por que há aqueles que passam
anos nas torturas de uma longa agonia, sem poder nem viver nem morrer? Ah,
acreditem em mim; respeitem a vontade soberana e não procurem sondar a
razão dos decretos providenciais! Fiquem sabendo que Deus é justo e tudo
que ele faz é bom.
ERASTO
378 – Allan Kardec
Não há neste fato um grande e terrível ensinamento? Assim, a justiça de Deus
sempre alcança o culpado e, mesmo que às vezes seja tardia, nem por isso ela deixa de
seguir o seu curso. Não é eminentemente moral saber que, se grandes culpáveis
acabam sua existência tranquilamente e muitas vezes na abundância dos bens
terrestres, a hora da expiação soará para eles, cedo ou tarde? Penas dessa natureza
são compreensíveis, não somente por estarem de alguma forma diante dos nossos
olhos, mas por serem lógicas; nós acreditamos nelas, porque a razão as admite.
Por conseguinte, uma existência honrável não exclui as provações da vida, pois
são escolhidas ou aceitas como complemento da expiação; é o pagamento de uma
dívida que se quita antes de receber o prêmio pelo progresso realizado.
Se considerarmos quão frequentes foram, nos séculos passados, mesmo nas
classes mais elevadas e mais esclarecidas, os atos de barbárie que tanto nos revoltam
hoje, e quantos assassinatos foram cometidos nessas épocas em que se brincava com a
vida do semelhante e em que os fortes esmagavam os fracos sem escrúpulo, então nós
compreenderemos bem quantos deve haver, dentre os homens de nossos dias, os que
precisam lavar seu passado; ninguém mais ficará admirado com o número tão
considerável de pessoas que morrem vítimas de acidentes isolados ou de catástrofes
generalizadas. O despotismo, o fanatismo, a ignorância e os preconceitos da Idade
Média e dos séculos que se seguiram legaram às gerações futuras um débito imenso,
que ainda não foi liquidado. Muitas desgraças só nos parecem imerecidas porque nós
não enxergamos mais do que o momento atual.
LETIL
O Sr. Letil, um fabricante perto de Paris, morreu em abril de 1864 de
uma maneira medonha: uma caldeira de verniz fervente pegou fogo e caiu
sobre ele, que num piscar de olhos ficou coberto de um material ardente,
compreendendo de imediato que estava perdido. Estando ele, naquele
momento, sozinho na oficina com um jovem aprendiz, ele teve a coragem de
voltar ao seu domicílio, distante mais de duzentos metros. Quando foi possível
lhe prestar os primeiros socorros, as carnes já estavam queimadas e caíam em
pedaços; os ossos de uma parte do corpo e da face ficaram à nu. Ele
permaneceu assim por doze horas, nos mais terríveis sofrimentos, mantendo,
apesar disso, toda sua presença de espírito até o momento final e colocando
379 – O Céu e o Inferno
em ordem os seus negócios com uma perfeita lucidez. Durante essa cruel
agonia, não se ouviu dele uma só queixa, um só murmúrio, e morreu orando a
Deus. Era um homem muito honorável, de um caráter meigo e benevolente,
amado e estimado por todos que o conheciam. Ele havia abraçado as ideias
espíritas com entusiasmo, mas sem a devida reflexão, e por essa razão —
sendo ele próprio uma espécie de médium — ele era alvo de numerosas
mistificações que, no entanto, não abalavam sua fé. Sua confiança no que os
Espíritos lhe diziam foi, em certas circunstâncias, levada até a ingenuidade.
Evocado na Sociedade de Paris, em 29 de abril de 1864, poucos dias após
sua morte e ainda sob a impressão da cena terrível que o vitimou, ele deu a
comunicação adiante:
“Uma tristeza profunda me acabrunha! Ainda totalmente aterrorizado
pela minha morte trágica, sinto-me como se estivesse sob a espada de um
carrasco. Eu realmente sofri! Oh, como eu sofri! Estou todo trêmulo; parece
que ainda sinto o cheiro fétido que minhas carnes queimadas exalavam ao
meu redor. Doze horas de agonia que você passou, ó Espírito culpado! Sofreu
sem reclamar, então Deus dará o seu perdão.
“Ó minha bem-amada, não chore mais por mim! Minhas dores vão se
acalmar. Não estou mais sofrendo de verdade, porém a lembrança equivale à
realidade. Meus conhecimentos em Espiritismo me ajudam bastante; vejo
agora que sem essa doce crença eu teria ficado no delírio em que fui lançado
por essa morte horrenda.
“Mas eu tenho um consolador que não me abandonou desde o meu
último suspiro; eu ainda estava falando quando o vi já pertinho de mim:
parecia-me que era um reflexo das minhas dores que me davam vertigem e
me mostravam fantasmas… Mas não; era o meu anjo protetor que, silencioso e
mudo, me consolava pelo coração. Logo que eu disse adeus à Terra, ele me
disse: ‘Venha, meu filho, e veja de novo o dia.’ Respirei mais livremente,
achando que estava saindo de um sonho terrível; falei da minha amada
esposa, do filho corajoso que a mim tinha se dedicado, e ele me disse: ‘Estão
todos na Terra, e você, meu filho, você está entre nós.’ Procurei minha casa; o
anjo me deixou entrar nela, sempre me acompanhando. Vi todo mundo em
lágrimas; tudo era triste e em luto nessa morada que outrora era de paz. Não
380 – Allan Kardec
podia aguentar por mais tempo a vista daquele doloroso espetáculo; então,
muito emocionado, eu disse ao meu guia: ‘Ó meu bom anjo, vamos sair daqui!’
O anjo respondeu: ‘Sim, vamos sair e procurar repouso.’
“Desde então eu sofro menos; se não fosse minha esposa inconsolável e
meus amigos tão tristes, eu estaria quase feliz.
“Meu bom guia, meu querido anjo, teve a gentileza de me dizer por que
eu havia tido uma morte tão dolorosa, e para o aprendizado de vocês, meus
filhos, eu vou lhes fazer uma confissão:
“Há dois séculos, eu mandei queimar numa fogueira uma jovem,
inocente como qualquer moça na sua idade, entre doze e quatorze anos. De
que ela foi acusada? Ah! De ter sido cúmplice numa ação contra a sacerdotal.
Eu era italiano e juiz inquisidor; como os carrascos não ousavam tocar o
corpo da pobre criança, eu mesmo fui o juiz e o carrasco. Ó justiça, justiça de
Deus, como você é grandiosa! A você estou submetido; tanto prometi não
vacilar no dia do combate que ainda tive a força para manter a palavra, pois
eu não murmurei, e você me perdoou, ó meu Deus! Quando então será que a
lembrança da minha pobre e inocente vítima se apagará da minha memória?
Essa lembrança é que me faz sofrer! É preciso, pois, que ela me perdoe.
“Oh, vocês, filhos da nova doutrina, vocês dizem às vezes: Não nos
lembramos do que já fizemos, portanto não podemos evitar os males aos
quais nos expomos pelo esquecimento do passado! Ó meus irmãos, bendigam
a Deus! Se ele tivesse deixado a vocês essa lembrança, não haveria descanso
nenhum para vocês na Terra. Será que, perseguidos constantemente pelo
remorso e pela vergonha, vocês poderiam ter um só instante de paz?
“O esquecimento é um benefício; a lembrança aqui é uma tortura. Mais
alguns dias e, como recompensa pela paciência com a qual eu suportei as
minhas dores, Deus vai me dar o esquecimento da minha falta. Eis a promessa
que o meu bom anjo acaba de fazer para mim.”
O caráter do Sr. Letil, na sua última existência, prova o quanto seu
Espírito melhorou. Sua conduta foi o resultado do seu arrependimento e das
boas resoluções que ele tomou; mas isso não bastava: faltava-lhe selar suas
resoluções com uma grande expiação; faltava-lhe enfrentar como homem o
que ele tinha feito aos outros; a resignação, nessa terrível circunstância, era
381 – O Céu e o Inferno
para ele o maior teste, e felizmente para ele, não falhou. O conhecimento do
Espiritismo sem dúvidas contribuiu muito para sustentar sua coragem,
através da fé sincera que esse conhecimento lhe dava sobre o futuro; ele sabia
que as dores da vida são provações e expiações, e então se submeteu a elas
sem contestar, dizendo: Deus é justo; certamente eu mereci essas dores.”
UM ESTUDIOSO AMBICIOSO
Madame B…, de Bourdeaux, nunca provou as pungentes angústias da
miséria, mas ela foi, por toda sua vida, uma mártir das dores físicas devido às
inúmeras doenças graves das quais ela padeceu durante setenta anos, desde
os cinco meses de idade, e que quase todo ano a colocava na porta da
sepultura. Três vezes ela foi envenenada pelos testes feitos pela ciência
incerta, e seu temperamento, arruinado tanto pelos remédios quanto pelas
enfermidades, a deixou entregue, até o fim da vida, a sofrimentos intoleráveis,
que nada podia acalmar. Sua filha, espírita cristã e médium, pedia a Deus em
suas orações para suavizar as cruéis provações da mãe; porém, seu guia
espiritual lhe disse para pedir simplesmente a força para ela suportar as
provas com paciência e resignação, e então lhe ditou as seguintes instruções:
“Tudo tem a sua razão de ser na existência humana: não existe nenhum
sofrimento que tenha afetado vocês que não encontre um eco nos
sofrimentos que vocês causaram; não há nenhum dos seus excessos que não
encontre correspondência em uma de suas privações; nenhuma lágrima cai
dos olhos de vocês sem ter que lavar uma falta, um crime qualquer. Portanto,
suportem com paciência e resignação suas dores físicas ou morais, por mais
cruéis que elas pareçam, e pensem no lavrador cujo cansaço afeta os
membros, mas que continua sua obra sem parar, pois ele sempre tem diante
de si as espigas douradas que serão os frutos da sua perseverança. Tal é a
sorte do infeliz que sofre neste mundo; a aspiração à felicidade — que deve
ser o fruto de sua paciência — vai torná-lo forte contra as dores passageiras
da humanidade.
“Assim ocorre com a tua mãe: cada dor que ela aceita como expiação é
uma mancha apagada do passado dela, e quanto mais cedo essas manchas
382 – Allan Kardec
forem apagadas, mais cedo ela será feliz. A falta de resignação só torna o
sofrimento estéril, pois então as provas têm que reiniciar. O que é mais útil
para ela, portanto, é a coragem e a submissão; é isso que devemos pedir que
Deus e os bons Espíritos lhe concedam.
“Tua mãe foi outrora um bom médico, envolvido numa classe em que
nada custa para assegurar o bem-estar, e na qual ele foi coberto de presentes
e honrarias. Ambicioso por glória e riquezas, querendo atingir o apogeu da
ciência, não em vista de aliviar seus irmãos — pois não era filantropo —, mas
sim para aumentar a própria reputação e com isso sua clientela, nada lhe
custava para levar a efeito seus estudos. A mãe era martirizada no seu leito de
sofrimento, porque ele previa um estudo nas convulsões que ele provocava; o
filho era submetido às experiências que deviam lhe dar a solução para
determinados fenômenos; o velho via seu fim se aproximar; o homem
vigoroso se sentia enfraquecido com os testes que deviam constatar a ação de
tal ou qual beberagem, e todos esses experimentos eram feitos sem que o
infeliz desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, assim como a sede
do ouro e de fama: esses eram os motivos de sua conduta. Foram necessários
séculos e terríveis provações para domar esse Espírito orgulhoso e ambicioso;
depois, o arrependimento começou sua obra de regeneração, e a reparação se
completa, porque as provas dessa última existência são suaves perto daquelas
que ele já suportou. Assim sendo, coragem! Se a pena foi longa e cruel,
também será grande a recompensa reservada à paciência, à resignação e à
humildade.
“Coragem, a vocês todos que sofrem; pensem no pouco tempo que dura
sua existência material; pensem nas alegrias da eternidade; apelem à sua
esperança, essa devotada amiga de todo coração sofredor; apelem à sua fé,
irmã da esperança, fé que lhes mostra o céu, onde a esperança faz vocês
penetrarem bem antes do tempo. Atraiam até vocês também esses amigos que
o Senhor lhes concede, que os rodeiam, que os apoiam e os amam, e cuja
constante solicitude os reconduz até aquele a quem vocês têm ofendido,
transgredindo suas leis.”
Após sua morte, a Sra. B… deu muitas comunicações, tanto à sua filha como à
Sociedade Espírita de Paris, nas quais se refletem as mais eminentes qualidades e
383 – O Céu e o Inferno
confirmando o que havia sido dito dos seus antecedentes.
CHARLES DE SAINT-G…, deficiente mental
(Sociedade Espírita de Paris, 1860)
Charles de Saint-G… é um jovem deficiente mental de treze anos, ainda
vivo, cujas faculdades intelectuais são tão nulas que ele nem mesmo
reconhece os pais e mal é capaz de se alimentar. Há nele uma paralização
completa do desenvolvimento em todo o sistema orgânico.
1. A são Luís – Poderia nos dizer se nós podemos fazer a evocação do Espírito
desse garoto? – R. Vocês podem evocá-lo como se evocassem o Espírito de um
morto.
2. Essa resposta nos faz supor que a evocação poderia ser feita a qualquer
momento… – R. Sim; a alma dele está ligada ao corpo por laços materiais, mas
não por laços espirituais; ela sempre pode se desprender.
3. Evocação de Charles de Saint-G… – R. Sou um pobre Espírito atado à
Terra, como um pássaro preso pelo pé.
4. Em teu estado atual, como Espírito, você tem consciência de tua nulidade
neste mundo? – R. Com certeza; conheço bem o meu cativeiro.
5. Quando teu corpo dorme e teu Espírito se desprende, você tem ideias tão
lúcidas quanto se estivesse em estado normal? – R. Quando meu infeliz corpo
repousa, eu fico um pouco mais livre para me elevar ao céu a que aspiro.
6. Você experimenta, como Espírito, um sentimento penoso desse estado
corporal? – R. Sim, pois é uma punição.
7. Lembra-se da tua existência anterior? – R. Oh, sim! Ela é a causa do meu
exílio no presente.
8. Qual foi essa existência? – R. Um jovem libertino ao tempo de Henrique
III.106
106 Henrique III da França (1551–1589) foi o quarto filho do rei Henrique II e de Catarina de Médicis;
reinou em seu país de 1574 a 1589. — N. T.
384 – Allan Kardec
9. Você disse que tua condição atual é uma punição; então não foi escolha tua?
– R. Não.
10. Como essa existência atual pode servir para o teu avanço, no estado de
nulidade em que você se encontra? – R. Ela não é nula para mim perante Deus,
que me impôs tal punição.
11. Consegue prever a duração da tua existência atual? – R. Não; alguns anos
mais e eu retornarei à minha pátria.
12. Desde tua precedente existência até essa encarnação atual, o que você tem
feito como Espírito? – R. Foi porque eu era um Espírito leviano que Deus me
aprisionou.
13. No estado de vigília, você tem consciência do que se passa ao teu redor, e
isso apesar da imperfeição dos teus órgãos? – R. Eu vejo e escuto, mas meu
corpo não compreende nem vê nada.
14. Podemos fazer alguma coisa que te seja útil? – R. Nada.
15. A são Luís – As preces por um Espírito reencarnado podem ter a mesma
eficácia que por Espírito errante? – R. As preces são sempre boas e agradáveis
a Deus. Na situação desse pobre Espírito, elas não podem servi-lo para nada,
mas servirão mais tarde, pois Deus as levará em conta.
Essa evocação confirma o que sempre tem sido dito sobre os deficientes
mentais. Sua nulidade moral não tem relação com a nulidade do seu Espírito, que,
abstração feita dos órgãos, goza de todas as suas faculdades. A imperfeição dos órgãos
não passa de um obstáculo à livre manifestação dos pensamentos: ela não os aniquila
absolutamente. É o caso de um homem vigoroso cujos membros estivessem
amarrados.
Ensinamento de um Espírito sobre os deficientes mentais,
dada na Sociedade de Paris
Os deficientes mentais são seres punidos na Terra pelo mau uso que
fizeram de poderosas faculdades; a alma deles fica aprisionada num corpo
cujos órgãos impotentes não podem expressar seus pensamentos. Esse
385 – O Céu e o Inferno
mutismo moral e físico é uma das mais cruéis punições terrestres; muitas
vezes essa condição é escolhida pelos Espíritos arrependidos que querem
resgatar suas faltas. Essa provação não é estéril, pois o Espírito não fica
estacionário na sua prisão carnal: seus olhos hebetados veem e seu cérebro
deprimido percebe, mas nada pode ser traduzido, nem pela palavra nem pelo
olhar, e, exceto pelo movimento, eles estão moralmente no estado dos
letárgicos e dos catalépticos que veem e ouvem o que se passa em torno deles,
mas sem poderem exprimi-lo. Quando em sonho vocês têm esses terríveis
pesadelos em que vocês querem fugir de um perigo e que gritam para pedir
socorro, enquanto a língua fica presa no céu da boca e os pés preso ao chão,
então vocês provam por um instante o que um deficiente mental prova o
tempo todo: paralisia do corpo junto com a vivência espiritual.
Quase todas as enfermidades têm assim sua razão de ser; nada se faz
sem causa, e o que vocês chamam injustiça da sorte é a aplicação da mais alta
justiça. A loucura também é uma punição pelo abuso de altas faculdades; o
louco tem duas personalidades: uma que é extravagante e outra que tem a
consciência de seus atos, sem poder dirigi-los. Nos deficientes mentais, a vida
contemplativa e isolada da sua alma — que não tem as distrações do corpo —
também pode ser tão agitada quanto as existências mais complicadas pelos
eventos; alguns se revoltam contra seu suplício voluntário, lamentando por
terem escolhido e sentido um desejo furioso de retornar a uma outra vida,
desejo esse que lhes faz esquecer a resignação na vida presente e o remorso
da vida passada, da qual eles têm consciência, pois os débeis mentais e os
loucos sabem mais do que vocês, e sob a incapacidade física deles se esconde
uma potência moral da qual vocês não fazem a menor ideia. Os atos de furor
ou de imbecilidade a que seus corpos se entregam são julgados pelo ser
interior que sofre com isso e disso se envergonha. Desse modo, desprezá-los,
insultá-los ou mesmo maltratá-los, como se faz às vezes, é aumentar os
sofrimentos deles, pois é fazê-los sentir mais duramente a própria fraqueza e
abjeção; se eles pudessem, acusariam de covardia aqueles que assim agem
dessa forma somente porque sabem que sua vítima não pode se defender.
A deficiência mental não é uma lei de Deus, e a ciência pode fazê-la
desaparecer, pois isso é o resultado material da ignorância, da miséria e da
386 – Allan Kardec
impureza. Os novos meios de higiene que a ciência — que tem se tornado
mais prática — colocou ao alcance de todos, tendem a destruir essa
enfermidade. Sendo o progresso a condição expressa da humanidade, as
provações impostas se modificarão e seguirão a marcha dos séculos; elas vão
se tornar todas morais, e quando esta Terra de vocês — que ainda é jovem —
tiver cumprido todas as fases de sua existência, então se tornará uma morada
de felicidade, como outros planetas mais avançados.
PIERRE JOUTY, pai do médium
Houve um tempo em que foi colocada em dúvida a alma dos deficientes mentais
e que se perguntava se eles realmente pertenciam à espécie humana. A maneira como
o Espiritismo os encara não é de uma alta moralidade e de um grande ensinamento?
Não há motivo para sérias reflexões ao sondar que esses corpos desgraçados contêm
almas que talvez tenham brilhado no mundo, que são tão lúcidas e tão inteligentes
quanto as nossas, sob o espesso envoltório que sufoca suas manifestações e que um
dia a mesma coisa pode acontecer conosco, caso nós abusemos das faculdades que a
Providência nos concedeu?
Como poderíamos explicar de outra forma a deficiência mental? Como fazê-la
estar em harmonia com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das
existências? Se a alma não tinha vivido antes disso, é que foi criada ao mesmo tempo
que o corpo; nessa hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas como
as dos deficientes, vindas da parte de um Deus justo e bom? Porque aqui não se trata
de um desses acidentes — como a loucura, por exemplo — que se pode prevenir ou
curar; esses seres nascem e morrem na mesma condição. Não tendo nenhuma noção
do bem e do mal, qual será a sorte deles na eternidade? Serão felizes igual aos homens
inteligentes e trabalhadores? Mas por que esse favor, já que eles nada fazem de bom?
Será que eles ficarão naquilo a que chamam de limbo, isto é, num estado misto que
nem é felicidade nem é infelicidade? Mas por que essa inferioridade eterna? Terá sido
culpa deles se Deus os criou deficientes? Nós desafiamos todos aqueles que rejeitam a
doutrina da reencarnação a saírem desse impasse. Com a reencarnação, ao contrário,
o que parece uma injustiça torna-se uma admirável justiça; o que é inexplicável
explica-se da maneira mais racional.
De resto, não sabemos se os que rejeitam essa doutrina já a combateram com
outros argumentos além da sua repugnância pessoal em voltar à Terra. Quanto a isso,
nós lhes respondemos: para mandá-los aí de volta, Deus não pede a permissão de
vocês, assim como o juiz não consulta a vontade do condenado para enviá-lo à prisão.
387 – O Céu e o Inferno
Cada qual tem a possibilidade de aqui não retornar, caso se melhore o bastante para
merecer passar para uma esfera mais elevada. Porém, nessas esferas felizes, o
egoísmo e o orgulho não são admitidos; logo, é no intuito de se despojar dessas
enfermidades morais que é preciso trabalhar, caso alguém queira subir de grau.
Sabe-se que, em certas regiões, longe de serem objetos de desprezo, os
deficientes mentais são tratados com cuidados benevolentes. Será que esse
sentimento não se deve a uma intuição do verdadeiro estado desses desafortunados,
tanto mais dignos de respeito quanto mais deve sofrer seu Espírito, que compreende
sua posição, ao se ver marginalizado na sociedade? Lá, considera-se até mesmo como
um favor e uma bênção ter um desses seres numa família. Isso seria uma superstição?
É possível, porque nos ignorantes a superstição se confunde com as ideias mais
sensatas, das quais eles não se dão conta. Em todo caso, para os parentes, isso é uma
ocasião de exercerem uma caridade, ainda mais meritória para eles — sendo
geralmente pobres — porque é um fardo sem compensação material. Há mais mérito
em envolver com cuidados afetuosos um filho desgraçado do que cuidar daquele cujas
qualidades ofereçam alguma compensação. Ora, sendo a caridade de coração uma das
virtudes mais agradáveis a Deus, quem a pratica sempre atrai a sua bênção. Esse
sentimento inato nos caridosos equivale a essa prece: “Obrigado, meu Deus, por nos
ter dado como prova um ser fraco para ser sustentado, um aflito para ser consolado.”
ADELAIDE MARGARIDA GOSSE107
Era uma humilde e pobre criada que vivia perto de Harfleur, na
Normandia. Aos onze anos, ela começou a trabalhar para ricos horticultores
da sua região. Poucos anos depois, uma enchente do rio Sena levou embora e
afogou todo o gado! Surgem outros infortúnios e os seus patrões caem em
apuros! Adelaide solidariza-se com a sorte deles, abafa a voz do egoísmo e, só
escutando o generoso coração, ela faz com que eles aceitem quinhentos
francos juntados por ela, além de continuar a servi-los sem qualquer ganho.
Após a morte dos patrões, ela se apegou à filha deles, deixada viúva e sem
recursos. Trabalha nos campos e traz seu ganho para casa. Casa-se, juntando
sua jornada com a do marido, eis agora os dois sustentando a pobre mulher, a
quem ela sempre chama de “sua patroa”. Esse sublime sacrifício durou cerca
107 No original, em francês: Adélaïde-Marguerite Gosse. — N. T.
388 – Allan Kardec
de meio século.
A Sociedade de Emulação de Rouen não deixou no esquecimento essa
mulher, tão digna de respeito e de admiração, e lhe concedeu uma medalha de
honra junto com uma recompensa em dinheiro; as lojas maçônicas do Havre
se uniram a esse testemunho de estima e lhe ofereceram uma pequena soma,
para contribuir com o seu bem-estar. Finalmente, a administração local se
interessou por ela com delicadeza, sem lhe constranger.
Num instante e sem sofrimento, um ataque de paralisia arrebatou esse
ser benevolente. As últimas homenagens lhe foram prestadas de uma maneira
simples, mas decente; o secretário da prefeitura seguiu à frente do cortejo.
(Sociedade de Paris, 27 de dezembro de 1861)
Evocação – Rogamos a Deus onipotente que permita ao Espírito de
Margarida Gosse comunicar-se conosco. – R. Sim, Deus quer me conceder essa
graça.
P. Estamos felizes por te demonstrar a nossa admiração pela conduta
que você teve durante tua existência terrestre, e esperamos que tua
abnegação tenha recebido a sua recompensa. – R. Sim, Deus foi pleno de amor
e de misericórdia para com a sua serva. O que eu fiz — o que lhes parece bom
— foi completamente natural.
P. Para o nosso aprendizado, poderia nos dizer qual foi a causa da
humilde condição que ocupou na Terra? – R. Em duas existências sucessivas,
eu ocupei uma posição bastante elevada; o bem era fácil para mim; eu o
praticava sem sacrifício, porque eu era rica, mas me parecia que eu avançava
lentamente e por isso pedi para retornar numa condição mais modesta em
que eu tivesse que lutar pessoalmente contra as privações; então me preparei
para isso durante um longo tempo. Deus sustentou minha coragem e eu pude
alcançar o objetivo ao qual eu tinha proposto para mim, graças ao socorro
espiritual que Deus me deu.
P. Você já reencontrou teus antigos patrões? Diga-nos, por favor, qual é a
tua posição com relação a eles, e se você ainda se considera como sua
389 – O Céu e o Inferno
subalterna. – R. Sim, eu os revi; quando cheguei, eles já estavam nesse mundo.
Vou lhes dizer, com toda humildade, que eles me consideram como sendo
muito superior a eles.
P. Você tinha um motivo particular para se apegar a eles, mais do que a
outras pessoas? – R. Nenhum motivo obrigatório; eu teria alcançado o meu
objetivo em qualquer outro lugar. Eu os escolhi para quitar com eles uma
dívida de reconhecimento, pois noutros tempos eles foram bons comigo e me
prestaram serviço.
P. Que futuro você pressente para si mesmo? – R. Eu espero estar
reencarnada num mundo onde a dor seja desconhecida. Talvez me achem
bem presunçosa, mas eu lhes respondo com a vivacidade do meu caráter. De
resto, eu me submeto à vontade de Deus.
P. Nós te agradecemos por ter vindo ao nosso apelo e não duvidamos
que Deus te cubra com sua bondade. – R. Obrigada. Que Deus os abençoe e
permita que todos vocês, ao morrerem, provem das alegrias tão puras que me
foram concedidas.
CLARA RIVIER
Clara Rivier era uma garotinha de dez anos, pertencente a uma família
de camponeses num vilarejo do sul da França; estava gravemente enferma
desde os quatro anos de idade. Durante toda a sua vida, jamais deixou que
ouvissem dela uma única lamentação, nem deu qualquer sinal de impaciência;
conquanto desprovida de instrução, ela consolava sua família aflita ao falar da
vida futura e da felicidade que lá ela iria encontrar. Morreu em setembro de
1862, passados quatro dias de tormentos e convulsões, durante as quais ela
não cessava de orar a Deus. Ela dizia: “Não tenho medo da morte, porque
depois uma vida de felicidade está reservada para mim.” Ao seu pai, que
chorava, ela dizia: “Console-se; eu voltarei para te visitar. Minha hora está
próxima, eu sinto isso, mas quando ela chegar eu saberei e te avisarei antes.”
De fato, quando o momento fatal estava a ponto de se cumprir, ela chamou
todos os seus parentes e disse: “Não tenho mais do que cinco minutos de vida;
390 – Allan Kardec
vamos nos dar as mãos.” Então ela expirou, conforme havia anunciado.
Desde então, um Espírito batedor veio visitar a casa do casal Rivier, onde
ele bagunça tudo: bate na mesa como se tivesse um porrete, agita os lençóis e
as cortinas, mexe na louça etc. Esse Espírito aparece sob a forma de Clara para
a irmãzinha dela, que não tem mais do que cinco anos. De acordo com essa
criança, sua irmã lhe falou muitas vezes, e essas aparições frequentemente a
fazem soltar gritos de alegria e dizer: “Mas vejam só como Clara está bonita!”
1. Evocação de Clara Rivier – R. Estou perto de vocês, disposta a responder.
2. De onde você, mesmo sendo tão jovem e sem instrução, tirava as ideias
elevadas que expressava sobre a vida futura antes da tua morte? – R. Do
pouco tempo que devia passar no vosso globo e de minha precedente
encarnação. Eu era médium quando deixei a Terra, e era médium ao voltar
entre vocês. Era uma predestinação; eu sentia e via o que eu dizia.
3. Como é possível que uma criança da tua idade não tenha feito uma só
reclamação durante quatro anos de sofrimentos? – R. Porque o sofrimento
físico era dominado por uma força maior, a do meu anjo guardião, que eu via
continuamente perto de mim; ele conseguia aliviar tudo o que eu sentia, e
tornava minha vontade mais forte que a dor.
4. Como você foi informada do instante da tua morte? – R. Meu anjo guardião
me contou isso; ele jamais me enganou.
5. Você disse ao teu pai: “Console-se; eu virei te visitar.” Como pode ser que,
animada de tão bons sentimentos para com teus pais, você tenha vindo
atormentá-los após tua morte, fazendo barulho na casa deles? – R. Sem
dúvidas, eu tinha uma provação, ou melhor, uma missão a cumprir. Se eu
venho rever meus pais, vocês acham que seja por nada? Esses ruídos, essa
perturbação, esses problemas causados pela minha presença são um aviso.
Sou ajudada por outros Espíritos, cuja turbulência tem um propósito, como eu
tenho o meu propósito ao aparecer à minha irmã. Graças a nós, muitas
convicções vão surgir. Meus pais tinham que passar por uma prova; ela
cessará logo, mas só depois de ter levado convicção a um monte de gente.
6. Sendo assim, não é você pessoalmente que causa essa perturbação? – R.
391 – O Céu e o Inferno
Sou auxiliada por outros Espíritos que servem à prova reservada aos meus
queridos pais.
7. Como é que a tua irmã te reconheceu, se não foi você quem produziu as
manifestações? – R. Minha irmã nada viu além de mim. Ela dispõe agora de
uma segunda vista, e essa não será a última vez que a minha presença virá
consolá-la e encorajá-la.
8. Por que, tão jovem, você foi afligida por tantas enfermidades? – R. Eu tinha
faltas anteriores a expiar; tinha abusado da saúde e da posição privilegiada
que gozava na minha precedente encarnação. Então Deus me disse: “Você já
desfrutou bastante, excessivamente, e por isso sofrerá o mesmo tanto; você
era orgulhosa e agora será humilde, era vaidosa da tua beleza e agora será
deformada; em vez de vaidade, você vai se esforçar para adquirir a caridade e
a bondade.” Fiz conforme a vontade de Deus e meu anjo guardião me ajudou.
9. Gostaria de mandar dizer algo aos teus pais? – R. A pedido de um médium,
meus pais têm feito muita caridade; eles estavam certos em não rezar só com
os lábios: é preciso rezar com a mão e com o coração. Dar aos que sofrem é
rezar, é ser espírita.
Deus deu a todas as almas o livre-arbítrio, quer dizer, a faculdade de
progredir; a todas elas Deus deu a mesma aspiração, e é por isso que a roupa
de pano de saco está mais perto da roupa bordada a ouro do que
geralmente se pensa. Então, aproximem as distâncias através da caridade;
introduzam o pobre na casa de vocês, encorajem-no, levantem-no, e não o
humilhem. Se soubéssemos praticar em toda a parte essa grande lei da
consciência, não haveria, em determinadas épocas, essas grandes misérias
que desonram os povos civilizados e que Deus envia para os castigar e lhes
abrir os olhos.
Queridos pais, orem a Deus, amem-se, pratiquem a lei do Cristo: não
façam aos outros o que não gostariam que lhes fosse feito. Implorem a Deus
que põe vocês à prova, mostrando que a vontade dele é santa e grande como
ele. Preparando-se para o futuro, saibam se armar de coragem e de
perseverança, pois vocês ainda estão sendo chamados a sofrer: é preciso
saber merecer uma boa posição num mundo melhor, onde a compreensão da
392 – Allan Kardec
justiça divina se torna a punição dos maus Espíritos.
Eu sempre estarei perto de vocês, caros pais. Adeus, ou melhor, até logo.
Tenham resignação, caridade e o amor para com os semelhantes e um dia
vocês serão felizes.
CLARA
Este é um belo pensamento: “A roupa de pano de saco está mais perto do que se
pensa da roupa bordada a ouro.” Isso é uma alusão aos Espíritos que, de uma
existência a outra, passam de uma posição privilegiada a uma posição humilde ou
miserável, porque muitas vezes eles expiam num ambiente ínfimo o abuso que
cometeram dos dons que Deus lhes tinha concedido. Esta é uma justiça que todo
mundo compreende.
Outro pensamento — não menos profundo — é aquele que atribui as
calamidades dos povos à infração da lei de Deus, pois Deus castiga os povos como
castiga os indivíduos. É certo que se a lei de caridade fosse praticada, não haveria nem
guerras nem grandes misérias. É à prática dessa lei que o Espiritismo conduz; será
então que é por isso que ele encontra inimigos tão aferrados? Será que as palavras
dessa mocinha para seus pais são as de um demônio?
FRANÇOISE VERNHES
Cega de nascença e filha de um arrendatário dos arredores de Toulouse,
faleceu em 1855, com a idade de quarenta e cinco anos. Ela se ocupava
constantemente em ensinar o catecismo às crianças, para prepará-las para a
primeira comunhão. Tendo sido mudado o catecismo, ela não teve nenhuma
dificuldade em lhes ensinar o novo, pois conhecia os dois de cor. Numa noite
de inverno, retornando de uma longa excursão em companhia de uma tia, era
preciso atravessar uma floresta por caminhos sinuosos e cheios de lama, em
que as duas mulheres deviam andar com precaução à beira dos buracos. Sua
tia queria conduzi-la pela mão, ela respondeu: Não se preocupe comigo; não
corro nenhum risco de cair, pois eu vejo sobre meus ombros uma luz que me
guia. Siga-me; sou eu quem vai te conduzir. Com isso elas chegaram em casa
sem incidentes: uma cega conduzindo quem tinha olhos para enxergar.
Evocação em Paris, em maio de 1865.
393 – O Céu e o Inferno
P. Teria a bondade de nos dar a explicação da luz que te guiava naquela
noite escura e que só era visível para você? – R. Como assim?! Pessoas como
vocês, que estão em contínua relações com os Espíritos, precisam de uma
explicação para tal fato?! Era o meu anjo guardião quem me guiava.
P. Essa também era a nossa opinião, mas nós desejávamos ter a sua
confirmação. Naquele momento, você tinha consciência de que era o teu anjo
guardião quem te servia de guia? – R. Confesso que não; entretanto, eu
acreditava numa proteção celeste. Eu rezava por muito tempo ao nosso Deus
bom e clemente para que tivesse piedade de mim!… É tão cruel ser cega!… Sim,
é muito cruel, mas eu também reconheço que faz parte da justiça. Aqueles que
pecam pelos olhos devem ser punidos pelos olhos, da mesma forma como
todas as faculdades de que os homens são dotados e das quais eles abusam.
Não procurem, pois, para os numerosos infortúnios que afligem a
humanidade, outra causa senão aquela que lhe é natural: a expiação; expiação
que só é meritória quando suportada com submissão, e que pode ser
abrandada se, através da prece, atrairmos as influências espirituais que
protegem os culpáveis da penitenciária humana, e derramam esperança e
consolação nos corações aflitos e padecentes.
P. Você era dedicada ao ensino religioso das crianças pobres; teve
alguma dificuldade para adquirir os conhecimentos necessários para o
ensinamento do catecismo, que você sabia decorado, apesar da tua cegueira, e
mesmo que ele tivesse sido modificado? – R. Os cegos geralmente têm outros
sentidos duplos, por assim dizer. A observação não é uma das menores
faculdades da sua natureza. A memória deles é como um armário onde são
colocados em ordem — e para daí jamais desaparecerem — os ensinamentos
dos quais eles têm tendências e aptidões; já que nada do exterior é capaz de
perturbar essa faculdade, disso resulta que ela pode ser desenvolvida de uma
maneira notável, por meio da educação. Não era o caso em que eu me
encontrava, pois eu não havia recebido nenhuma educação. Agradeço
somente a Deus por ter permitido que isso fosse o suficiente para que eu
pudesse cumprir minha missão de devoção a essas criancinhas. Ao mesmo
tempo, isso constituía uma reparação pelo mau exemplo que eu lhes tinha
394 – Allan Kardec
dado na minha precedente existência. Tudo é assunto sério para os espíritas;
para tanto, basta-lhes olhar ao redor deles, e isso lhes será mais útil do que se
deixassem levar pelas sutilezas filosóficas de certos Espíritos que zombam
deles ao lhes lisonjear o orgulho com frases de grande efeito, porém vazias de
significado.
P. Pela tua linguagem, nós te julgamos avançada intelectualmente, da
mesma forma que a tua conduta na Terra é uma prova do teu adiantamento
moral. – R. Ainda tenho muito a aprender; mas tem muita gente na Terra que
passa por ignorante só porque sua inteligência é encoberta pela expiação;
contudo, depois da morte, esses véus caem, e frequentemente esses pobres
ignorantes tornam-se mais instruídos do que aqueles por quem eram
desdenhados. Acreditem em mim, o orgulho é a pedra-chave pela qual os
homens são reconhecidos. Todos aqueles cujo coração é acessível à bajulação
ou que têm demasiada confiança na sua própria ciência estão no mau
caminho e, em geral, não são sinceros; desconfiem deles! Sejam humildes
como o Cristo e, como ele, carreguem sua cruz com amor, a fim de terem
acesso ao reino dos céus.
FRANÇOISE VERNHES
ANNA BITTER
Ser atingido pela perda de um filho adorado é uma dor cruciante; mas
ver um filho único — que dava as mais belas esperanças, e sobre quem
concentrávamos todas as afeições — definhar diante dos nossos olhos e
morrer sem sofrer de uma causa desconhecida, por uma dessas aberrações da
natureza que desorientam a sagacidade da ciência, e ter esgotado inutilmente
todos os recursos da medicina, com a certeza de que não há nenhuma
esperança, e enfrentar essa angústia de cada dia durante longos anos sem
prever o seu fim… ah, isso é um suplício cruel que a fortuna só agrava, em vez
de suavizar, porque as pessoas têm esperança de ver um ente querido
desfrutar de sua vida.
Tal era a situação do pai de Anna Bitter: um sombrio desespero
395 – O Céu e o Inferno
igualmente se apoderou da alma dele e seu caráter se amargurava cada vez
mais diante desse espetáculo inquietante, cujo desfecho só poderia ser fatal,
conquanto indeterminado. Um amigo da família, iniciante no Espiritismo,
achou que devia interrogar seu Espírito protetor a respeito disso, e então
recebeu a resposta seguinte:
“Quero muito te dar a explicação do estranho fenômeno que você tem
diante dos teus olhos, porque sei que ao me perguntar dele você não foi
movido por uma indiscreta curiosidade, mas sim pelo interesse que você tem
por aquela pobre criança, e porque, crendo na justiça de Deus, isso te renderá
num proveitoso ensinamento. Aqueles que o Senhor quer atingir devem
curvar a cabeça e não o maldizer nem se revoltar contra ele, pois ele jamais
castiga sem uma razão. A pobre menina — de quem o Todo-Poderoso tinha
suspendido a sentença de morte — deve retornar em breve para nós, já que
Deus teve compaixão dela, e seu pai, esse homem infeliz, deve ser atingido na
única afeição da sua vida, por ter brincado com o coração e a confiança das
pessoas que o rodeiam. Em dado momento, seu arrependimento tocou o
Todo-Poderoso e a morte pendurou a espada sobre aquela cabeça tão
querida; mas a revolta voltou, e o castigo sempre acompanha a revolta. Que
bênção quando é nesse mundo que vocês são castigados! Orem, meus amigos,
por essa pobre criança, cuja juventude tornará difíceis seus derradeiros
momentos; a seiva é tão abundante nesse pobre ser, malgrado seu estado de
definhamento, que a alma se desprenderá dela penosamente. Oh, orem! Mais
tarde ela os ajudará e ela mesma os consolará, pois o Espírito dela é mais
elevado do que o das pessoas que a cercam.
“Foi por uma permissão especial do Senhor que eu pude responder ao
que me foi indagado, porque é necessário que esse Espírito seja ajudado para
que o seu desprendimento seja mais fácil.”
O pai morreu após ter sofrido o vazio do isolamento causado pela perda
da filha. Aqui estão as primeiras comunicações que cada um deu depois de
morrerem:
A filha – Obrigada, meu amigo, por se interessar pela pobre criança, e
por ter seguido os conselhos do teu bom guia. Sim, graças às tuas preces eu
396 – Allan Kardec
pude deixar mais facilmente o meu envoltório terreno, porque meu pai — Ah!
—, ele não rezava: ele maldizia! Mas eu não o culpo: foi por causa da sua
grande ternura por mim. Peço a Deus que lhe conceda a graça de ser
esclarecido antes de morrer; eu o animo, eu o encorajo; minha missão é
suavizar os seus últimos instantes. Às vezes um raio de luz divina parece
penetrar nele; mas não passa de um clarão passageiro, e meu pai logo recai
nas suas primeiras ideias. Não há nele senão uma semente de fé, sufocada
pelos interesses do mundo, e que somente novas e mais terríveis provações
poderão desenvolver — é o que eu temo de menos. Quanto a mim, eu só tinha
um resto de expiação a sofrer, e é por isso que ela não foi nem muito dolorosa
nem muito difícil. Durante minha singular enfermidade, eu não sofria; eu era
mais um instrumento da provação para o meu pai, pois ele sofria mais ao me
ver naquele estado do que eu mesma sofria com a doença; eu era resignada, e
ele não. Hoje sou recompensada, pois Deus me deu a graça de encurtar minha
estadia na Terra, pelo que agradeço muito a ele. Estou feliz no meio dos bons
Espíritos que me cercam; todos nós cuidamos das nossas obrigações com
prazer, porque a inatividade seria um cruel suplício.
O pai (aproximadamente um mês depois da morte) – P. Nosso
objetivo, em te chamar, é de nos inteirarmos da tua situação no mundo dos
Espíritos e para te sermos úteis, se isso estiver ao nosso alcance. – R. O mundo
dos Espíritos? Eu não o vejo. Eu só vejo os homens que eu conhecia e dos
quais nenhum pensa em mim, nem sentem a minha falta; ao contrário, parece
que eles estão contentes por estarem livres de mim.
P. Você já se deu conta da tua situação? – R. Perfeitamente. Por algum
tempo eu acreditei ainda ser do seu mundo, mas agora eu sei muito bem que
não sou mais daí.
P. Como é então que você não consegue ver outros Espíritos ao teu
redor? – R. Isso eu não sei, mas tudo é claro à minha volta.
P. Não reencontrou tua filha? – R. Não; ela está morta; eu a procuro e a
chamo inutilmente. Que vazio horrível sua morte me deixou na Terra! Ao
morrer, eu não tinha dúvidas de que a reencontraria; mas nada: é sempre o
isolamento em torno de mim; ninguém me dirige uma palavra de consolação e
397 – O Céu e o Inferno
de esperança. Adeus; vou procurar minha filha.
O guia do médium – Este homem não era ateu nem materialista, mas ele
era daqueles que creem vagamente, sem se preocuparem com Deus nem com
o futuro, daqueles que são absorvidos pelos interesses do mundo.
Profundamente egoísta, sem dúvidas ele teria sacrificado tudo para salvar sua
filha, mas indubitavelmente ele também teria sacrificado sem escrúpulos
todos os interesses alheios no proveito pessoal dele. Fora sua filha, ele não
tinha apego a ninguém. Deus o puniu por isso, como vocês sabem; foi tirado
dele sua única consolação na Terra, e como ele não se arrependeu, ela foi
tirada dele igualmente no mundo espiritual. Como ele não se interessava por
ninguém na Terra, ninguém aqui se interessa por ele; ele está solitário,
abandonado: esta é a sua punição. No entanto, sua filha está perto dele, mas
ele não a vê; se a visse, ele não seria punido. O que ele faz? Ele se dirige a
Deus? Ele se arrepende? Não; ele sempre reclama e até blasfema; em resumo,
ele faz o que fazia na Terra. Ajudem-no, pela prece e pelos conselhos, para que
ele saia da sua cegueira.
JOSÉ MESTRE, o cego
José Mestre108 pertencia à classe média da sociedade; ele gozava de um
moderado conforto que sustentava suas necessidades. Seus pais lhe deram
uma boa educação e o destinaram à indústria, porém aos vinte anos ele ficou
cego. Morreu em 1845, perto dos cinquenta anos. Uma segunda enfermidade
veio a atingi-lo: mais ou menos dez anos antes de sua morte, ele se tornou
completamente surdo, de modo que suas relações com as pessoas só podiam
ocorrer pelo tato. Não ver já era bem penoso, mas além disso não ouvir era
um cruel suplício para ele que, tendo desfrutado de todas as suas faculdades,
tinha que sentir mais ainda os efeitos dessa dupla privação. Por qual razão ele
teria merecido esse triste destino? Não foi por causa dessa sua última
existência, pois sua conduta tinha sido sempre exemplar: ele era um bom
filho, de um caráter doce e benevolente, além de que quando se viu privado da
108 Nome original: Joseph Maître. — N. T.
398 – Allan Kardec
audição, ele aceitou essa nova prova com resignação e jamais o viram
murmurar uma queixar disso. Seus discursos denotavam uma perfeita lucidez
de espírito e uma inteligência pouco comum.
Uma pessoa que o conhecia, presumindo que poderíamos colher
instruções úteis de uma conversa com seu Espírito, ao chamá-lo, recebeu dele
a comunicação seguinte, em resposta às perguntas que lhe foram dirigidas:
(Paris, 1863)
“Meus amigos, agradeço a vocês por terem lembrado de mim, embora
talvez não tivessem pensado nisso se não esperassem em tirar algum proveito
da minha comunicação; mas eu sei que um motivo mais sério os anima e é por
isso que atendo com prazer ao seu chamado, já que me é permitido, feliz em
poder servir ao aprendizado de vocês. Tomara que o meu exemplo possa se
somar às provas tão numerosas que os Espíritos lhes dão a respeito da justiça
de Deus.
Vocês me conheceram cego e surdo, então se perguntaram o que eu
tinha feito para merecer uma sorte dessas; eu vou lhes dizer. Saibam, antes de
tudo, que era a segunda vez que eu estava privado da visão. Na minha
precedente existência, ocorrida no começo do século XVIII, eu fiquei cego aos
trinta anos, por consequência de excessos de todos os gêneros, que
arruinaram a minha saúde e enfraqueceram meus órgãos; isso já era uma
punição por ter abusado dos dons recebidos da Providência — uma vez que
eu era largamente favorecido. Todavia, em vez de reconhecer que a primeira
causa da minha enfermidade estava em mim, eu acusei a própria Providência,
na qual, aliás, eu pouco acreditava. Blasfemei contra Deus, eu o reneguei e o
acusei, dizendo que, se ele existisse, ele devia ser injusto e malvado, posto que
assim ele fazia suas criaturas sofrerem. Eu deveria, ao contrário, me
considerar feliz por não ser obrigado a mendigar meu pão de cada dia, como
tantos outros cegos miseráveis. Mas não; eu só pensava em mim e na privação
dos prazeres que me era imposta. Sob a influência dessas ideias e da minha
falta de fé, tornei-me rabugento, exigente e, enfim, insuportável para aqueles
que me cercavam. A vida já não tinha mais qualquer objetivo para mim; eu
não pensava no futuro, pois o considerava como uma quimera. Após ter
399 – O Céu e o Inferno
esgotado inutilmente todos os recursos da ciência, vendo que minha cura era
impossível, eu resolvi dar um fim à vida mais cedo, e então me suicidei.
Ao meu despertar — ah! — eu estava mergulhado nas mesmas trevas de
quando estava vivo! Entretanto, não tardei a reconhecer que não pertencia
mais ao mundo corpóreo, mas que era um Espírito cego. Portanto, a vida de
além-túmulo era uma realidade! Em vão eu tentava fugir para me lançar no
nada: eu batia no vácuo. Se essa vida devia ser eterna, como eu ouvia dizer,
então eu ficaria por toda a eternidade nessa situação? Esse pensamento era
aterrorizante! Eu não estava mais sofrendo; porém, descrever a vocês os
tormentos e as angústias da minha mente é uma coisa impossível. Quanto
tempo isso duraria? Eu não sei; mas, ah como esse tempo me parecia longo!
Exausto, atormentado, finalmente eu pude retornar a mim mesmo;
compreendi que uma força superior estava pesando sobre mim e me convenci
de que se essa potência podia me abater, ela também poderia me aliviar, e
então implorei por sua piedade. À medida que eu orava e que meu fervor
aumentava, alguma coisa me dizia que essa cruel situação teria um término. A
luz finalmente se acendeu; meu arrebatamento foi extremo quando entrevi as
claridades celestes e quando distingui os Espíritos que me cercavam, sorrindo
com benevolência, bem como aqueles que volitavam radiosos no espaço. Eu
quis seguir seus passos, mas uma força invisível me reteve. Então um deles
me disse: “Deus, que você desprezou, levou em conta o teu retorno a ele e nos
permitiu te devolver a luz; mas você só cedeu pelo constrangimento e pelo
cansaço. Se de agora em diante você quiser participar desta felicidade que
aqui nós desfrutamos, você deve provar a sinceridade do teu arrependimento
e dos teus bons sentimentos, recomeçando tua provação terrestre nas
condições em que você ficará exposto a cair nas mesmas faltas, porque
essa nova provação será mais rude ainda do que a primeira.” Eu aceitei
ansiosamente, me prometendo não falhar de novo.
Com isso, retornei à Terra na existência que vocês conhecem. Não tive
dificuldade em ser bom, pois eu não era mau por natureza; estava revoltado
contra Deus e Deus me puniu. Voltei com uma fé inata, razão pela qual não
murmurei mais contra ele, e aceitei minha dupla enfermidade com resignação
e como uma expiação que devia ter sua origem na soberana justiça. O
400 – Allan Kardec
isolamento no qual me encontrei durante meus derradeiros anos nada tinha
de desesperador, porque eu tinha fé no futuro e na misericórdia de Deus.
aquele retiro me foi bastante proveitoso, pois durante essa longa noite, em
que tudo era silêncio, minha alma — agora mais livre — se alçava rumo ao
Eterno, entrevendo o infinito pelo pensamento. Quando chegou o fim do meu
exílio, o mundo espiritual só reservava para mim esplendores e inefáveis
alegrias.
A comparação com o passado me faz considerar minha situação
relativamente muito feliz, e eu rendo graças a Deus por isso; mas, quando
olho adiante, vejo o quanto ainda estou longe da perfeita felicidade. Eu já
expiei, mas agora me falta passar pela reparação. Minha última existência
foi proveitosa unicamente para mim; espero recomeçar logo uma existência
em que eu possa ser útil aos outros; assim será a reparação da minha
inutilidade anterior. Somente então avançarei no bom caminho, aberto a
todos os Espíritos de boa vontade.
Eis a minha história, meus amigos; se o meu exemplo puder esclarecer
alguns dos meus irmãos encarnados e lhes prevenir do atoleiro em que caí,
terei iniciado a pagar a minha dívida.”
JOSÉ
401 – O Céu e o Inferno
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402 – Allan Kardec
