2 – Allan Kardec
O Livro dos Médiuns
Ou guia dos médiuns e dos evocadores
Allan Kardec (1804-1869)
Título original em francês:
Le Livre des Médiums ou guide des médiums et des évocateurs
Originalmente publicada em 15 de janeiro de 1861
Paris, França
Tradução: Ery Lopes
com base na 10ª edição francesa, 1867 – ebook
Revisão: José Nunes Pereira Sobrinho
Versão digital: 4.8
Revisado em 4 de março., 2025
São Paulo – SP, Brasil
Não nos importamos com os direitos autorais.
Esta tradução pode ser copiada e reproduzida, impressa e até comercializada,
sem prévia autorização ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
Distribuição gratuita:
Portal Luz Espírita
3 – O Livro dos Médiuns
O LIVRO DOS
MÉDIUNS
OU
GUIA DOS MÉDIUNS E DOS EVOCADORES
Allan Kardec
Tradução:
Ery Lopes
Não nos importamos com os direitos autorais.
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sem prévia autorização ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
4 – Allan Kardec
Nota do tradutor
A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para
aprender e fortalecer nossos aprendizados doutrinários espíritas — o que,
aliás, constitui uma satisfação para nós — serviu de ensejo para cuidarmos
desta tradução, que também é motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma
opção aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo,
especialmente aqueles que não disponham da fluência na leitura em francês,
cumprindo assim o papel essencial do tradutor, qual seja a de ser um
facilitador.
Não se ignora a dificuldade natural no trabalho de verter para outro
idioma qualquer uma obra de fôlego, tal como esta; acrescente-se aí a
gravidade das implicações de uma tradução de O Livro dos Médiuns, posto
que se trata de um livro que contém fundamentos de uma doutrina de cunho
científico, filosófico e religioso, doutrina essa tão complexa quanto importante
para toda a humanidade. Em face disso, não ousaríamos propor uma tradução
perfeita, mas tratamos tanto quanto nos é possível de buscar a máxima
fidelidade da mensagem iluminadora e consoladora contida nesta obra
monumental.
A revisão desta tradução é contínua, portanto, correções e sugestões de
melhorias são bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte
periodicamente a existência de uma edição mais atualizada.
É então ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para
contribuir com a propagação desta doutrina que abraçamos com amor.
Ery Lopes
Observação: as notas de rodapé de autoria do tradutor estão sinalizadas no final com a inscrição “N.
T.”; as demais, sem sinalização, correspondem à tradução das notas de Allan Kardec contidas na obra
original.
5 – O Livro dos Médiuns
Apresentação da obra
Os caminhos até a edição definitiva de O Livro dos Médiuns ou
Guia dos médiuns e dos evocadores
Introdução
Após 160 anos de seu lançamento, O Livro dos Médiuns é o mais
importante guia de estudos para a compreensão e entendimento dos
fenômenos mediúnicos. Obra que desenvolve e aprofunda os ensinamentos
constantes da Parte Segunda de O Livro dos Espíritos: Do mundo espírita ou
mundo dos Espíritos, teve um caminho de muito amadurecimento até a
publicação de sua edição definitiva. Vamos apresentar a trajetória até o
lançamento do livro com os textos que conhecemos atualmente, mostrando
algumas curiosidades e fatos.
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Após o lançamento de O Livro dos Espíritos em 18 de abril de 1857 e da
Revista Espírita em janeiro de 1858, Allan Kardec publica, em julho de 1858, a
obra intitulada Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites ou Instrução
Prática sobre as Manifestações Espíritas,
conforme informado no jornal especializado
de obras publicadas na França: Bibliographie
de la France – Journal Général de l’Imprimerie
et de la Librairie de 31 de julho de 1858 [1].
A curiosidade que merece destaque nesta
publicação do jornal se refere ao nome da
obra como sendo: Instructions Pratiques sur
les Manifestations Spirites (Figura ao lado).
6 – Allan Kardec
Na Revista Espírita de junho de 1858, no artigo “O Espírito Batedor de
Bergzabern” [2, p. 241], encontramos a menção de Kardec sobre uma obra
que seria lançada no mês subsequente. No final das edições originais em
francês de junho a setembro e de novembro e dezembro de 1858 da Revista
Espírita que circularam para os seus assinantes, encontramos páginas extras
com a propaganda do lançamento do livro Instrução Prática sobre as
Manifestações Espíritas [3].
Durante o ano de 1858, encontramos vários
artigos que mencionam o conteúdo de textos com
ensinamentos existentes nesta nova obra: no
número de julho, no artigo “Espíritos Impostores –
O falso padre Ambrósio” [2, p. 298]; em agosto, no
artigo “Contradições na Linguagem dos Espíritos”
[2, p. 332] e em dezembro, no artigo “Variedades”
[2, p. 524].
Segundo a descrição de Kardec, a obra
Instrução Prática publicada com 146 páginas
(Imagem à direita) é uma exposição completa
sobre as condições necessárias à comunicação com
os Espíritos e os meios de desenvolver nos
médiuns a faculdade mediúnica. Jean Meyer, um
dos pioneiros do Espiritismo, quando assumiu a
direção da Revista Espírita nos anos 20 do século
passado, publicou a segunda edição desta obra em
1923 (Figura ao lado).
Este livreto seria uma versão preliminar do
que viria a ser o Livro dos Médiuns, lançado em
- Composto de onze capítulos dedicados aos
estudiosos do fenômeno mediúnico, a obra foi
redigida às pessoas que solicitavam de Kardec
indicações precisas sobre as condições necessárias
a serem preenchidas, com instruções que a
conduzissem a serem médiuns. A obra é composta
7 – O Livro dos Médiuns
de uma Introdução (páginas 1 a 4); um Vocabulário Espírita (páginas 5 a 49)
— com cerca de 160 verbetes abordando o vocabulário utilizado por Kardec;
um Quadro Sinóptico (página 50) — contendo tópicos de uma forma sintética
sobre a Nomenclatura Espírita Especial com onze capítulos (páginas 54 a
146).
Na introdução desta obra, Kardec escreve que as manifestações espíritas
são originárias de uma multidão de ideias novas que não puderam encontrar
representação na linguagem usual e, por este motivo, têm sido expressas por
analogia, como acontece no início de toda ciência. Para evitar a ambiguidade
dos vocábulos, efetuou em primeiro lugar o inventário de todas as palavras
que se referem, direta ou indiretamente, à doutrina espírita, oferecendo, a
respeito delas, explicações sucintas e suficientes para fixar e colocar em
ordem essas ideias novas e ainda confusas. Informa que, para compreender
uma ciência, é preciso, em primeiro lugar, compreender-lhe a terminologia;
eis a primeira coisa que o mestre recomendou àqueles que desejam realizar
um estudo sério do Espiritismo, além da leitura obrigatória de O Livro dos
Espíritos e da Revista Espírita. Instrução Prática sobre as Manifestações
Espíritas é, portanto, um dos mais importantes documentos históricos que
marcam o início do movimento espírita, trazendo também o vocabulário
espírita que é de grande utilidade como fonte de consulta para a compressão
e estudo de toda a codificação.
O que é o Espiritismo? e O Livro dos Espíritos com cinco partes
Entre julho e agosto de 1859, é lançada a obra Qu’est-ce que le Spiritisme
ou O que é o Espiritismo [5]. Na Revista Espírita de julho de 1859 encontramos
o anúncio de seu lançamento. Segundo Kardec, o livro seria a introdução ao
conhecimento do mundo invisível, pelas manifestações dos espíritos,
contendo o resumo dos princípios da Doutrina Espírita e respostas às
principais objeções que pudessem ser apresentadas. A curiosidade constante
deste livro aparece nas páginas 97 a 100, onde encontramos o anúncio de
uma nova edição de O Livro dos Espíritos — não mais formado por três partes
como na 1ª edição de 1857, mas por cinco partes. O quinto livro desta nova
edição de O Livro dos Espíritos era intitulado “Manifestação dos Espíritos” e
8 – Allan Kardec
trazia oito capítulos que tratariam de diversos assuntos relativos à
mediunidade, dentre eles: as diferentes naturezas de manifestações dos
Espíritos; os diferentes modos de comunicação; os médiuns; as evocações etc.
Em resumo, este capítulo trazia ensinamentos já abordados na obra Instrução
Prática sobre as Manifestações Espíritas, mostrando que Kardec pretendia
integrar estes ensinamentos em uma edição mais robusta de O Livro dos
Espíritos.
Este mesmo anúncio sobre O Livro dos Espíritos — contendo cinco partes
ou cinco livros — constou na segunda edição da obra O que é o Espiritismo
lançada em 1860 [5].
Por algum motivo, ainda desconhecido, Allan Kardec mudou de ideia e
lançou a segunda edição de O Livro dos Espíritos em março de 1860 contendo
apenas quatro partes, como hoje as conhecemos. O conteúdo da quinta parte,
ou o chamado quinto livro, passou a integrar uma obra lançada apenas em
1861, que seria chamada de O Livro dos Médiuns.
Encontramos na Revista Espírita de fevereiro de 1860, no artigo “Os
Espíritos Glóbulos” [6, p. 71], uma curiosa informação quando Kardec escreve
sobre a teoria das visões e das aparições. O mestre informa que essa teoria
era perfeitamente conhecida e que já a havia desenvolvido em vários artigos,
especialmente nos números da revista de dezembro de 1858, fevereiro e
agosto de 1859, e no O Livro dos Médiuns, ou Espiritismo Experimental. Temos
aqui a menção à obra que só seria lançada em 1861 e com um nome diferente,
mostrando que Kardec já a estava escrevendo e tinha plano de lançá-la
brevemente.
No número da revista de julho de 1860, em Bibliografia, Kardec anuncia
a continuação de O Livro dos Espíritos através de uma obra que teria o título
de Espiritismo Experimental, e que este deveria ter sido publicado em abril [6,
p. 332]. Na Revista Espírita de agosto daquele ano encontramos a informação
de que a obra Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas estava
inteiramente esgotada e não seria reimpressa, e que ocorreria a substituição
por um novo trabalho — que naquele momento estaria no prelo — que seria
muito mais completo e que iria seguir um outro plano [6, p. 379]. No número
de novembro da revista, encontramos novamente um aviso aos leitores que a
9 – O Livro dos Médiuns
referida obra estava esgotada e seria substituída por outra, bem mais
completa, sob o título de Espiritismo Experimental, que já se encontrava no
prelo e iria aparecer no mês de dezembro daquele ano [6, p. 524].
O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores
O título deste livro, que originalmente seria Espiritismo Experimental, foi
alterado para O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. O
trabalho foi retardado por algumas circunstâncias independentes da vontade
de Kardec e, sobretudo, pela maior importância que ele julgava dever lhe dar.
Apesar dos vários anúncios na Revista Espírita, a obra foi lançada apenas em
janeiro de 1861, conforme a Bibliographie de la France – Journal Géneral de
l’Imprimerie et de la Librairie de 19 de janeiro de 1861 [7].
Assim foi anunciada a chegada da nova obra de Allan Kardec na Revista
Espírita de janeiro de 1861 [9, p. 22]:
“O Livro dos Médiuns – Anunciada há muito tempo, mas com a publicação
retardada em virtude de sua própria importância, esta obra aparecerá entre os dias
5 e 10 de janeiro, na livraria do Sr. Didier, nosso editor, localizada no Quai des
Augustins, 351. Representa o complemento de O Livro dos Espíritos e encerra a
parte experimental do Espiritismo, assim como este último contém a parte
filosófica.”
Segundo descrição de Kardec, a obra contém o ensino especial dos
Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de
comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as
dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática do Espiritismo,
em seguimento do Livro dos Espíritos. Lançado por Didier et Cie, Libraires-
Éditeurs – 35, Quai des Augustins – e comercializado na Ledoyen, Libraire,
Galerie d’Orléans, 31, no Palais-Royal, e no escritório da Revista Espírita – 59,
rue et passage Sainte-Anne. O livro foi impresso com 494 páginas, no tamanho
in-12 pela Imprimerie de P.A. Bourdier et Ce., 30, rue Mazarino, Paris [8]. Esta
primeira edição é composta da seguinte divisão: Introdução; seis capítulos na
Primeira Parte, sendo que o primeiro capítulo é composto do Vocabulário
Espírita, com o detalhamento de cerca de 200 vocábulos com suas respectivas
10 – Allan Kardec
definições; e vinte e oito capítulos na Segunda Parte.
Após esta edição, Kardec deixou de publicar o livreto Instruction
Pratique sur les Manifestations Spirites, lançado em 1858.
O sucesso do lançamento desta obra parece ter sido muito grande, pois,
na Revista Espírita de março de 1861 [9, p. 116], Kardec informa que estava
pensando em preparar uma nova edição de O Livro dos Médiuns, e que o
mesmo já havia sido requisitado na Rússia, na Alemanha, na Itália, na
Inglaterra, na Espanha, nos Estados Unidos, no México, no Brasil, entre outros
lugares. Em novembro de 1861 [9, p. 517], é dada a informação que a
primeira edição havia se esgotado em poucos meses e é anunciada a segunda
edição muito mais completa, com numerosas e importantes instruções e
vários capítulos novos. No mês de dezembro de 1861 [9, p. 528], Kardec
informa que a segunda edição de O Livro dos Médiuns contém observações
importantes sobre a formação das sociedades espíritas. Uma curiosidade é
que a segunda edição, apesar de ter sido anunciada na Revista Espírita de
novembro de 1861, apresenta o ano de 1862 na sua capa [8], com as seguintes
observações: Revue et Corrigée avec le concours des Esprits, et Augmentée d’um
grand nombre d’instructions nouvelles — Revista e corrigida com a
concordância dos Espíritos, e aumentada de uma grande quantidade de novas
instruções.
A segunda edição — tida como a edição definitiva — foi impressa
também no formato in-12, agora contendo 510 páginas. Kardec informa que
toda a parte que concerne mais especialmente aos médiuns, à identidade dos
Espíritos, à obsessão, às questões que podem ser dirigidas aos Espíritos, às
contradições, aos meios de discernir os Espíritos bons dos maus, à formação
de reuniões espíritas, às fraudes em matéria de Espiritismo, recebeu notáveis
desenvolvimentos que foram frutos da experiência. No capítulo das
dissertações espíritas foram adicionadas várias comunicações apócrifas,
acompanhadas de observações pertinentes, de modo a facultar os meios de
descobrir o embuste dos Espíritos enganadores, que se apresentam com
falsos nomes. O mestre escreve que os Espíritos revisaram a obra
inteiramente e trouxeram numerosas observações do mais alto interesse.
A segunda edição é composta de: uma Introdução; uma Primeira Parte
11 – O Livro dos Médiuns
de Noções Preliminares — contendo quatro capítulos; e uma Segunda Parte
de Manifestações Espíritas — contendo trinta e dois capítulos. O Vocabulário
Espírita passou a constar do último capítulo — XXXII — contendo três
páginas e com apenas vinte e cinco vocábulos e definições [8]. A terceira e a
quarta edição de O Livro dos Médiuns, também foram publicadas em 1862 [8],
mostrando o grande sucesso desta obra.
Conclusão
Como podemos constatar, a trajetória percorrida até a elaboração
definitiva de uma das obras mais importantes da codificação espírita,
contendo os fundamentos necessários para os estudos que auxiliam na
compreensão das faculdades e fenômenos mediúnicos, ocorreu de uma forma
gradativa e com mudanças de pensamento sobre sua estruturação por parte
de seu autor. Após a publicação da primeira versão de Instrução Prática, que
podemos afirmar ter sido um embrião do que viria a ser a obra final, Kardec
inicialmente pensou em uma versão mais completa para O Livro dos Espíritos
(com cinco partes), que contivesse também as instruções e um guia para os
estudiosos da mediunidade. Mudou de ideia e lançou a segunda edição de O
Livro dos Espíritos com quatro partes.
Sobre o quinto livro (ou quinta parte) — com o título de “Manifestação
dos Espíritos” — que como vimos iria inicialmente integrar a versão robusta
de O Livro dos Espíritos, Kardec decide utilizar estes ensinamentos e lançar
outra obra em separado, que inicialmente estava recebendo o título de O Livro
dos Médiuns ou Espiritismo Experimental. O título oficial acabou sendo
alterado e passando a: O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos
evocadores.
A primeira edição em português dessa obra é datada de 1875 e foi
traduzida a partir da 12ª edição francesa por Joaquim Carlos Travassos, que
adotou o pseudônimo de Fortúnio, e foi publicada por intermédio da Editora
B. L. Garnier [10].
Fica para reflexão o ensinamento que Kardec nos deixou na introdução
de sua obra inaugural de 1858, que culminou em 1862 como a publicação do
maior tratado já escrito sobre os fenômenos e os estudos envolvendo a
12 – Allan Kardec
mediunidade:
“As regras da poesia, da pintura e da música não fazem poetas, nem pintores,
nem músicos daqueles que não possuem vocação; elas guiam no emprego das
faculdades naturais. O mesmo se dá relativamente ao nosso trabalho. Seu objetivo é
indicar os meios de desenvolver a faculdade mediúnica tanto quanto o permitam as
disposições de cada pessoa e, sobretudo, quando essa faculdade existe, orientar o
seu emprego de maneira útil.”
Adair Ribeiro Jr.
Referências:
[1] Bibliographie de la France – Journal Général de l’Imprimerie et de la Librairie, disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=f_9cOzII8jQC&pg=PA0&redir_esc=y#v=onepage&q&f=f
alse. Acesso em 22/06/2021.
[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos, ano primeiro – 1858, FEB,
tradução de Evandro Noleto Bezerra.
[3] KARDEC, Allan. Revue Spirite de 1858 – pertencente ao acervo do museu AKOL –
AllanKardec.online.
[4] KARDEC, Allan. Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites – Obras que fazem parte
do acervo do museu AKOL – AllanKardec.online. Para download:
https://www.allankardec.online/search?q=instru%C3%A7%C3%B5es;
[5] KARDEC, Allan. Qu’est-ce que le Spiritisme – O que é o Espiritismo, 1ª edição de 1859 e 2ª
edição de 1860 fazem parte do acervo do museu AKOL – AllanKardec.online.
[6] KARDEC, Allan. Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos, ano primeiro – 1860, FEB,
tradução de Evandro Noleto Bezerra.
[7] Bibliographie de la France – Journal Général de l’Imprimerie et de la Librairie. Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=QRcDAAAAYAAJ&pg=PA0&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false,
Acesso em 22/06/2021.
[8] KARDEC, Allan. Le Livre des Médiums 1ª edição de 1861; 2ª edição de 1862; 3ª edição de
1862 e 4ª edição de 1862 fazem parte do acervo do museu AKOL – AllanKardec.online.
[9] KARDEC, Allan. Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos, ano primeiro – 1861, FEB,
tradução de Evandro Noleto Bezerra.
[10] Tradutores históricos de O livro dos espíritos – Antonio Cesar Perri de Carvalho, disponível
em https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=revreform&pagfis=47327, Acesso
em 22/06/2021.
13 – O Livro dos Médiuns
Allan Kardec
(1804-1869)
14 – Allan Kardec
Folha de rosto da 10ª edição francesa, de 1867, obra-base desta tradução
Ebook disponível no portal Gallica
15 – O Livro dos Médiuns
ESPIRITISMO EXPERIMENTAL
O LIVRO DOS
MÉDIUNS
OU
GUIA DOS MÉDIUNS E DOS EVOCADORES
CONTENDO
O ENSINAMENTO ESPECIAL DOS ESPÍRITOS SOBRE A TEORIA DE TODOS OS GÊNEROS
DE MANIFESTAÇÕES, OS MEIOS DE SE COMUNICAR COM O MUNDO INVISÍVEL,
O DESENVOLVIMENTO DA MEDIUNIDADE,
AS DIFICULDADES E OS PERIGOS QUE SE PODE ENCONTRAR NA PRÁTICA DO ESPIRITISMO
EM SEGUIMENTO A
O Livro dos Espíritos
POR ALLAN KARDEC
DÉCIMA EDIÇÃO
PARIS, 1867
16 – Allan Kardec
Índice
INTRODUÇÃO – pág. 20
PRIMEIRA PARTE
NOÇÕES PRELIMINARES
I – HÁ ESPÍRITOS? – pág. 25
II – O MARAVILHOSO E O SOBRENATURAL – pág. 31
III – MÉTODO – pág. 42
Maneira de se proceder com os materialistas; materialistas sistemáticos e materialistas por falta
de coisa melhor — Incrédulos por ignorância, por má vontade, por interesse e má-fé, por
pusilanimidade, por escrúpulos religiosos, por decepções — Três classes de espíritas: espíritas
experimentadores, espíritas imperfeitos, espíritas cristãos ou verdadeiros espíritas — Ordem
nos estudos espíritas
IV – SISTEMAS – pág. 54
Exame dos diferentes modos de encarar o espiritismo — Sistemas de negação: charlatanismo,
loucura, alucinação, músculo estalante, causas físicas, reflexo — Sistemas afirmativos: teoria da
alma coletiva; idem sonambúlico, pessimista, diabólico ou demoníaco, otimista, uniespírita ou
monoespírita, multiespírita ou poliespírita; teoria da alma material
SEGUNDA PARTE
MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS
I – AÇÃO DOS ESPÍRITOS SOBRE A MATÉRIA – pág. 73
II – MANIFESTAÇÕES FÍSICAS – MESAS GIRANTES – pág. 79
III – MANIFESTAÇÕES INTELIGENTES – pág. 83
17 – O Livro dos Médiuns
IV – TEORIA DAS MANIFESTAÇÕES FÍSICAS – pág. 87
Movimentos e suspensões – Ruídos – Aumento e diminuição do peso dos corpos
V – MANIFESTAÇÕES FÍSICAS ESPONTÂNEAS – pág. 100
Ruídos, barulhos e perturbações – Objetos arremessados – Fenômeno de transporte
VI – MANIFESTAÇÕES VISUAIS – pág. 122
Questões sobre as aparições – Ensaio teórico sobre as aparições – Espíritos glóbulos – Teoria da
alucinação
VII – BICORPOREIDADE E TRANSFIGURAÇÃO – pág. 142
Aparições de Espíritos de pessoas vivas – Homens duplos – Santo Afonso de Ligório e Santo
Antônio de Pádua – Vespasiano – Transfiguração – Invisibilidade
VIII – LABORATÓRIO DO MUNDO INVISÍVEL – pág. 151
Vestuário dos Espíritos – Formação espontânea de objetos tangíveis – Modificação das
propriedades da matéria – Ação magnética curadora
IX – LUGARES ASSOMBRADOS – pág. 159
X – NATUREZA DAS COMUNICAÇÕES – pág. 165
Comunicações grosseiras, frívolas, sérias ou instrutivas
XI – SEMATOLOGIA E TIPTOLOGIA – pág. 169
Linguagem dos sinais e das batidas – Tiptologia alfabética
XII – PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA – PNEUMATOFONIA – pág. 175
XIII – PSICOGRAFIA – pág. 181
Psicografia indireta: cestas e pranchetas – Psicografia direta ou manual
XIV – OS MÉDIUNS – pág. 185
Médiuns de efeitos físicos – Pessoas elétricas – Médiuns sensitivos, ou impressionáveis –Médiuns
audientes – Médiuns falantes – Médiuns videntes – Médiuns sonambúlicos – Médiuns curadores
– Médiuns pneumatógrafos
XV – MÉDIUNS ESCRITORES OU PSICÓGRAFOS – pág. 200
Médiuns mecânicos; intuitivos; semimecânicos; inspirados ou involuntários; de pressentimentos
XVI – MÉDIUNS ESPECIAIS – pág. 206
Aptidões especiais dos médiuns – Quadro resumido dos diferentes tipos de médiuns
18 – Allan Kardec
XVII – FORMAÇÃO DES MÉDIUNS – pág. 224
Desenvolvimento da mediunidade – Mudança de caligrafia. – Perda e suspensão da mediunidade
XVIII – INCONVENIENTES E PERIGOS DA MEDIUNIDADE – pág. 240
Influência do exercício da mediunidade sobre a saúde – Idem sobre o cérebro – Idem sobre as
crianças
XIX – PAPEL DOS MÉDIUNS NAS COMUNICAÇÕES ESPÍRITAS – pág. 243
Influência do próprio Espírito do médium – Teoria dos médiuns inertes – Aptidão de certos
médiuns para coisas que eles não conhecem: línguas, música, desenho etc. – Dissertação de um
Espírito sobre o papel dos médiuns
XX – INFLUÊNCIA MORAL DO MÉDIUM – pág. 257
Questões diversas – Dissertações de um Espírito sobre a influência moral
XXI – INFLUÊNCIA DO AMBIENTE – pág. 267
XXII – MEDIANIMIDADE NOS ANIMAIS – pág. 270
XXIII – OBSESSÃO – pág. 277
Obsessão simples – Fascinação – Subjugação – Causas da obsessão – Meios de combatê-la
XXIV – IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS – pág. 294
Provas possíveis de identidade – Distinção dos bons e dos maus Espíritos – Questões sobre a
natureza e identidade dos Espíritos
XXV – EVOCAÇÕES – pág. 314
Considerações gerais – Espíritos que podemos evocar – Linguagem a ser usada com os Espíritos –
Utilidade das evocações particulares – Questões sobre evocações – Evocações de animais –
Evocações de pessoas vivas – Telegrafia humana
XXVI – PERGUNTAS QUE PODEMOS FAZER AOS ESPÍRITOS – pág. 342
Observações preliminares – Perguntas simpáticas ou antipáticas aos Espíritos – Questões sobre o
futuro – Questões sobre as existências passadas e futuras – Questões sobre interesses morais e
materiais – Questões sobre o destino dos Espíritos – Questões sobre saúde – Questões sobre
invenções e descobertas – Questões sobre tesouros escondidos – Questões sobre outros mundos
XXVII – CONTRADIÇÕES E MISTIFICAÇÕES – pág. 359
XXVIII – CHARLATANISMO E EMBUSTE – pág. 370
Médiuns interesseiros – Fraudes espíritas
19 – O Livro dos Médiuns
XXIX – REUNIÕES E SOCIEDADES ESPÍRITAS – pág. 382
Reuniões em geral – Sociedades propriamente ditas – Assuntos para estudos – Rivalidades entre
as sociedades
XXX – REGULAMENTO DA SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITAS – pág. 402
XXXI – DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS – pág. 412
XXXII – VOCABULÁRIO ESPÍRITA – pág. 442
20 – Allan Kardec
INTRODUÇÃO
A experiência confirma todos os dias a nossa opinião de que as
dificuldades e os desapontamentos que se encontram na prática do
espiritismo têm sua fonte na ignorância dos princípios desta ciência, e nós
estamos mesmo felizes por termos podido constatar que o trabalho que
temos feito para precaver os adeptos contra os perigos de um noviciado
produziu seus frutos e que muitas pessoas devem à leitura dessa obra o fato
de terem conseguido evitar tais escolhos.
Um desejo muito natural, entre os que se ocupam com o espiritismo, é o
de poder entrar em comunicação com os Espíritos; é para lhes aplainar o
caminho que esta obra está destinada, fazendo-os tirar proveito do fruto dos
nossos longos e laboriosos estudos, pois disso faria uma ideia muito falsa se
alguém pensasse que, para ser especialista nessa matéria, bastasse saber
colocar os dedos sobre uma mesa para fazê-la se mover, ou pegar um lápis
para escrever.
Igualmente se enganaria quem pensasse em encontrar nesta obra uma
receita universal e infalível para formar médiuns. Se bem que cada pessoa
tenha em si mesma os germes das qualidades necessárias para se tornar um
médium, essas qualidades existem em graus muito diferentes, e o seu
desenvolvimento se deve a determinadas causas que não depende da vontade
da pessoa fazê-las brotar. As regras da poesia, da pintura e da música não
tornam nem poetas, nem pintores, nem músicos aqueles que não têm o
talento para essas artes: as regras apenas orientam a aplicação das
capacidades naturais. É o mesmo que ocorre com o nosso trabalho; seu
objetivo consiste em indicar os meios de desenvolver a aptidão medianímica
tanto quanto as disposições de cada um assim o permitam, e sobretudo
21 – O Livro dos Médiuns
direcionar sua aplicação de uma maneira útil — desde que a faculdade exista.
Mas este não é o único objetivo ao qual nos propusemos.
Ao lado dos médiuns propriamente ditos, há uma multidão que cresce a
cada dia de pessoas que se ocupam com as manifestações espíritas; guiá-las
nas suas observações, apontar-lhes os obstáculos que elas podem e hão de
necessariamente encontrar numa coisa nova, iniciá-las na maneira de
dialogar com os Espíritos, indicar-lhes os meios de conseguirem boas
comunicações, tal é o círculo que temos de abranger, para não corrermos o
risco de fazer um trabalho incompleto. Então, que ninguém fique surpreso ao
encontrar no nosso trabalho ensinamentos que à primeira vista possam lhes
parecer estranhos: a experiência mostrará a utilidade desses ensinamentos.
Quem tiver estudado esta obra cuidadosamente compreenderá melhor os
fatos de que serão testemunhas; a linguagem de certos Espíritos parecerá
menos estranha. Como instrução prática, a nossa obra então não se destina
exclusivamente aos médiuns, mas a todos os que também possam ver e
observar os fenômenos espíritas.
Algumas pessoas gostariam que publicássemos um manual prático
muito sucinto, contendo em poucas palavras a indicação de procedimentos a
serem seguidos para entrar em comunicação com os Espíritos; pensam eles
que um livro pequeno desse tipo — podendo, por um preço modesto, ser
difundido amplamente — seria um poderoso meio de propaganda,
multiplicado os médiuns. Quanto a nós, consideraríamos tal obra mais
prejudicial do que útil, ao menos por enquanto. A prática do espiritismo está
rodeada de muitas dificuldades e nem sempre livre de inconvenientes, que só
um estudo sério e completo pode prevenir. Portanto, seria de se temer que
uma indicação muito resumida provocasse experiências feitas com pressa e
das quais alguém poderia ter do que se arrepender. Estas são coisas com as
quais não é conveniente nem prudente brincar, e nós acreditamos que
prestaríamos um mau serviço colocando-as à disposição do primeiro
insensato que achasse agradável conversar com os mortos. Endereçamo-nos
às pessoas que enxergam no espiritismo um propósito sério, que
compreendem toda a gravidade dele, e não fazem de passatempo as
comunicações com o mundo invisível.
22 – Allan Kardec
Publicamos uma Instrução prática com o objetivo de guiar os médiuns;
essa obra já está esgotada e, embora a tenhamos feito com uma finalidade
eminentemente grave e séria, não a reimprimiremos mais, porque ainda não a
consideramos completa o bastante para esclarecer todas as dificuldades que
possam ser encontradas a respeito. Nós a substituímos por esta, na qual
reunimos todas as informações que uma longa experiência e um estudo
consciencioso nos permitiram adquirir. Ela contribuirá — pelo menos assim o
esperamos — para dar ao espiritismo o caráter sério, que é a sua essência, e
para evitar que o vejam como objeto de ocupação fútil e de divertimento.
A essas considerações ainda acrescentamos outra muito importante, que
é a má impressão que produz nas pessoas novatas ou despreparadas a visão
de experiências feitas levianamente e sem conhecimento de causa; elas
apresentam o inconveniente de dar uma ideia muito falsa do mundo dos
Espíritos e favorecer ensejo à zombaria e a uma crítica às vezes
fundamentada. Eis por que os incrédulos raramente saem dessas reuniões
convertidos e pouco dispostos a reconhecer alguma coisa séria no espiritismo.
A ignorância e a leviandade de determinados médiuns têm feito mais mal do
que se pensa, conforme a opinião de muita gente.
O espiritismo tem realizado grandes progressos nos últimos anos, mas
sobretudo ele faz progressos ainda maiores depois que entrou na via
filosófica, porque passou a ser apreciado por pessoas instruídas. Hoje, já não é
um espetáculo: é uma doutrina de que não mais riem os que zombavam das
mesas girantes. Esforçando-nos para levá-lo e mantê-lo nesse terreno, temos
a convicção de que lhe conquistamos mais adeptos úteis do que provocando a
torto e a direito manifestações de que se poderia abusar. Temos prova disso
todos os dias pelo número dos adeptos resultantes apenas da leitura de O
Livro dos Espíritos.
Após termos exposto em O Livro dos Espíritos a parte filosófica da
ciência espírita, damos nesta obra a parte prática, para uso das pessoas que
queiram se ocupar com as manifestações — seja por elas mesmas, seja para se
inteirarem dos fenômenos que sejam chamadas a testemunhar. Aí verão os
obstáculos que poderão encontrar e assim terão um meio de evitá-los. Estas
duas obras — conquanto uma seja a sequência da outra — são até um certo
23 – O Livro dos Médiuns
ponto independentes uma da outra, mas a quem queira se ocupar seriamente
do assunto, diremos que leia primeiramente O Livro dos Espíritos, porque ele
contém os princípios fundamentais, sem os quais talvez algumas partes deste
livro aqui fiquem dificilmente compreensíveis.
Melhorias relevantes foram feitas nesta segunda edição, que é muito
mais completa do que a primeira. Ela foi corrigida com um cuidado todo
particular pelos Espíritos que lhe aditaram um número muito grande de notas
e de instruções do mais alto interesse. Como eles revisaram tudo, aprovando
ou modificando à sua vontade, podemos dizer que ela é em grande parte obra
deles, pois sua intervenção não se limitou a alguns artigos assinados; nós
indicamos os nomes somente quando isso nos pareceu necessário, para
caracterizar algumas citações um tanto extensas, como emanadas deles
textualmente. De outra forma, teríamos que citá-los quase que a cada página,
especialmente em todas as respostas dadas às perguntas propostas — o que
não nos pareceu útil. Como se sabe, os nomes pouco importam em tais
assuntos; o essencial é que o conjunto do trabalho corresponda ao objetivo
que nos propusemos. O acolhimento dado à primeira edição, ainda que
imperfeita, faz-nos esperar que esta aqui não seja vista com menos apreço.
Como lhe acrescentamos bastante coisas, e vários capítulos inteiros,
suprimimos alguns artigos que teriam dupla aplicação, dentre os quais a
Escala espírita, que já se encontra em O Livro dos Espíritos. Também
suprimimos do Vocabulário o que não entrava especificamente no quadro
desta obra, e que foi providencialmente substituído por coisas mais práticas.
Esse vocabulário, aliás, não era suficientemente completo; nós o publicaremos
mais tarde, em separado, sob o formato de um pequeno dicionário de filosofia
espírita. Conservamos nesta edição somente as palavras novas ou especiais
relativas ao assunto com o qual nos ocupamos.1
1 Pelo que nos consta, essa prometida edição especial do Vocabulário Espírita não chegou a ser
publicada por Allan Kardec. — Nota do Tradutor (doravante: N. T.).
24 – Allan Kardec
PRIMEIRA PARTE
NOÇÕES
PRELIMINARES
25 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO PRIMEIRO
HÁ ESPÍRITOS?
- A dúvida com relação à existência dos Espíritos tem como causa principal a
ignorância quanto à verdadeira natureza deles. Geralmente, imagina-se que
eles sejam seres à parte na criação e cuja necessidade não foi demonstrada.
Muitas pessoas não os conhecem senão pelos contos fantásticos com que
foram acalentadas, tal como conhecemos a História através dos romances;
sem verificar se esses contos — livres dos enfeites ridículos — estariam
fundamentados em alguma verdade, unicamente o lado absurdo toca-as; não
se dando ao trabalho de retirar a casca amarga para descobrir a amêndoa,
elas rejeitam todo o conjunto, como fazem na religião aquele que, chocados
por certos abusos, misturam tudo na mesma reprovação.
Qualquer que seja a ideia que se faça dos Espíritos, essa crença é
necessariamente fundada na existência de um princípio inteligente além da
matéria; ela é incompatível com a negação absoluta deste princípio. Por isso,
tomamos como nosso ponto de partida a existência, a sobrevivência e a
individualidade da alma, da qual o espiritualismo é a demonstração teórica e
dogmática, e o espiritismo é a demonstração patente. Esqueçamos por um
momento as manifestações propriamente ditas e, raciocinando por indução,
vejamos a quais consequências chegaremos.
- Desde que se admita a existência da alma e sua individualidade após a
morte, é preciso admitir também que: 1°) que ela é de uma natureza diferente
da do corpo, porque, uma vez separada, ela deixa de ter as propriedades
deste; 2°) que ela tem consciência de si mesma, pois lhe é atribuída alegria ou
sofrimento, caso contrário seria um ser inerte, e seria melhor para nós não o
26 – Allan Kardec
possuirmos. Admitido isso, essa alma vai para alguma parte; o que será dela e
para onde ela vai? Segundo a crença comum ela vai para o céu ou para o
inferno; mas, onde ficam o céu e o inferno? Dizia-se outrora que o céu era em
cima e o inferno embaixo; porém, o que são o alto e o baixo no Universo, visto
que conhecemos a forma arredondada da Terra, o movimento dos astros que
faz com que aquilo que é o topo em certo instante torne-se a base doze horas
depois, a infinidade do espaço através do qual o olhar mergulhe a distâncias
imensuráveis? É verdade que por lugares baixos também entendemos as
profundezas da Terra; mas, no que se tornou essas profundezas desde que
foram escavadas pela geologia? Além disso, o que aconteceu com essas
esferas concêntricas chamadas céu de fogo, céu das estrelas, já que sabemos
que a Terra não é o centro dos mundos, que o nosso próprio Sol não é mais do
que um dentre milhões de sóis a brilhar no Espaço, e cada um deles constitui
o centro de um turbilhão planetário? Qual a importância da Terra, perdida
nessa imensidade? Por qual privilégio injustificável este grão de areia
imperceptível — que não se distingue nem pelo seu volume, nem pela sua
posição, nem pelo papel particular — seria o único planeta povoado de seres
racionais? A razão se recusa a admitir semelhante inutilidade do infinito, e
tudo nos diz que esses mundos sejam habitados. Se são povoados, então eles
fornecem seu contingente para o mundo das almas; porém, mais uma vez, o
que se sucede com essas almas, já que a astronomia e a geologia destruíram
as moradas que eram demarcadas para elas, e sobretudo depois que a teoria
— tão racional — da pluralidade dos mundos as multiplicou ao infinito? Como
a doutrina da localização das almas não pode se conciliar com os dados da
ciência, outra doutrina mais lógica lhes atribui por domínio, não um lugar
determinado e circunscrito, mas o espaço universal: é todo um mundo
invisível no meio do qual vivemos, que nos cerca e nos abraça sem cessar.
Haverá nisso alguma impossibilidade, alguma coisa que repugne a razão? De
modo alguma; ao contrário, tudo nos diz que não pode ser de outra maneira.
Mas então, o que será das penas e recompensas futuras se lhes tirarem os
lugares específicos? Notem que a descrença quanto ao local dessas penas e
recompensas geralmente é provocada porque elas são apresentadas em
condições inadmissíveis. Mas digam, ao invés disso, que as almas haurem de
27 – O Livro dos Médiuns
si mesmas a sua felicidade ou a sua desgraça; que sua sorte está subordinada
ao seu estado moral; que a reunião das almas simpáticas e boas é uma fonte
de felicidade; que, conforme seu grau de purificação, elas penetram e
entreveem coisas que se ocultam diante de almas grosseiras, e todo mundo
compreenderá sem dificuldade. Digam ainda que as almas não alcançam o
grau supremo senão pelos esforços que façam para se melhorarem, e só
depois de uma série de provações que servem para sua depuração; digam que
os anjos são almas que chegaram ao derradeiro grau da escala, ao qual todos
nós podemos atingir mediante a nossa boa vontade; digam que os anjos são os
mensageiros de Deus, encarregados de velar pela execução de seus desígnios
em todo o Universo, e que eles se sentem felizes com essas missões gloriosas,
e assim vocês darão à felicidade deles um objetivo mais útil e mais atraente
do que aquele de uma contemplação perpétua que não seria outra coisa senão
uma perpétua inutilidade; digam, enfim, que os demônios são simplesmente
as almas dos ímpios, ainda não purificadas, mas que podem se purificar igual
às outras, e isto parecerá mais em conformidade com a justiça e a bondade de
Deus do que a doutrina dos seres criados para o mal e perpetuamente
devotados ao mal. Ainda uma vez mais, eis o que a mais severa razão, a mais
rigorosa lógica e, em uma palavra, o bom senso podem admitir.
Ora, essas almas que povoam o espaço são precisamente aquilo que
chamamos Espíritos; portanto, os Espíritos não são outra coisa senão as
almas dos homens, libertas de sua vestimenta corporal. Se os Espíritos fossem
criaturas à parte, sua existência seria mais hipotética; todavia, se admitirmos
que existem almas, também será preciso admitir que os Espíritos não são
outras coisas a não ser almas; se admitirmos que as almas estão por toda
parte, será preciso admitir igualmente que os Espíritos estão por toda parte.
Logo, não seria possível negar a existência dos Espíritos sem negar a das
almas.
- É certo que isto não passa de uma teoria mais racional do que a outra; mas
já é muito que seja uma teoria que não contradiz nem a razão nem a ciência.
Ademais, se ela é corroborada pelos fatos, ela tem por si mesma a sanção do
raciocínio e da experiência. Esses fatos nós os encontramos no fenômeno das
28 – Allan Kardec
manifestações espíritas, que, assim, constituem a prova evidente da existência
e da sobrevivência da alma. Entretanto, para muitas pessoas, aí se encerra a
crença; elas até admitem a existência das almas e, por consequência, a dos
Espíritos, mas negam a possibilidade de comunicação com eles pela razão de
que — dizem — os seres imateriais não podem agir sobre a matéria. Esta
dúvida é fundada na ignorância da verdadeira natureza dos Espíritos, dos
quais geralmente se faz uma ideia muito falsa, pois se supõe erradamente que
eles sejam seres abstratos, vagos e indefinidos — o que não é o caso.
Primeiramente, imaginemos o Espírito em união com o corpo; o Espírito
é o ser principal, porque é o ser pensante e sobrevivente; o corpo não passa
de um acessório do Espírito, um invólucro, uma veste que ele larga quando
está gasta. Além desse envoltório material, o Espírito possui um segundo,
semimaterial, que o prende ao primeiro; na morte, ele se desprende daquele
envoltório, mas não do segundo, ao qual nós damos o nome de perispírito.
Esse envelope semimaterial, que tem a forma humana, constitui para ele um
corpo fluídico, vaporoso, mas que, por ser invisível para nós, no seu estado
normal, não deixa de ter algumas das propriedades da matéria. Logo, o
Espírito não é um ponto vazio, uma abstração; é um ser demarcado e
circunscrito, ao qual só falta ser visível e palpável para se assemelhar aos
seres humanos. Por que então ele não agiria sobre a matéria? É por que o seu
corpo é fluídico? Ora, não é entre os fluidos mais rarefeitos, até mesmo entre
os que consideramos imponderáveis — a eletricidade, por exemplo —, que o
homem encontra os seus mais possantes motores? Não é exato que a luz
imponderável exerce uma ação química sobre a matéria ponderável? Nós não
conhecemos a natureza íntima do perispírito; mas, suponhamos que ele seja
formado de matéria elétrica, ou qualquer outra igualmente sutil, por que não
teria a mesma propriedade quando fosse dirigida por uma vontade?
- Como a existência da alma e existência de Deus — uma sendo a
consequência da outra — é a base de todo o edifício, antes de travarmos
qualquer discussão espírita, é importante nos assegurarmos se o nosso
interlocutor admite essa base. Quanto a estas questões:
Você acredita em Deus?
29 – O Livro dos Médiuns
Você acredita que tem uma alma?
Você crê na sobrevivência da alma após a morte?
Se ele responder negativamente, ou mesmo se disser simplesmente: Não
sei; desejaria que assim fosse, mas não tenho certeza disso — o que quase
sempre equivale a uma negação polida, disfarçada sob uma forma menos
contundente, para evitar de ferir tão bruscamente aquilo que ele chama de
preconceitos respeitáveis, então seria tão inútil ir adiante com a discussão
quanto querer demonstrar as propriedades da luz a um cego que não
admitisse a existência da luz; porque, definitivamente, as manifestações
espíritas não são mais do que os efeitos das propriedades da alma. Com este
interlocutor, é toda uma nova ordem de ideias, caso não queira perder tempo.
Se a base for admitida, não apenas como probabilidade, mas como algo
comprovado e incontestável, a existência dos Espíritos a acompanha muito
naturalmente.
- Resta agora a questão de saber se o Espírito pode se comunicar com o
homem, quer dizer, se pode trocar ideias com este. E por que não? O que é o
homem, senão um Espírito aprisionado num corpo? Por que o Espírito livre
não poderia se comunicar com o Espírito cativo, tal como o homem livre pode
falar com o encarcerado? Desde que se admite a sobrevivência da alma, seria
racional não admitir a sobrevivência dos afetos? Já que as almas estão por
toda parte, não é natural pensarmos que a alma de um ser que nos amou
durante sua vida venha até nós e que deseje se comunicar conosco, e que para
isso ele se sirva dos meios que estejam a sua disposição? Durante sua vida, ele
não atuava sobre a matéria de seu corpo? Não era ele quem dirigia os
movimentos corporais? Então, por qual razão depois da sua morte, em pleno
acordo com outro Espírito ligado a um corpo, ele não poderia tomar
emprestado esse corpo vivo para manifestar o seu pensamento, como um
mudo pode se servir de uma pessoa falante para se expressar? - Deixemos de lado por um instante os fatos que, para nós, tornam essa
comunicação incontestável e vamos admiti-la como mera hipótese; pedimos
que os incrédulos nos provem — não por uma simples negação, pois suas
30 – Allan Kardec
opiniões pessoais não podem ser lei; mas por razões peremptórias — que tal
coisa não pode acontecer. Nós nos colocamos no lugar deles, e já que eles
querem verificar os fatos espíritas com o auxílio das leis da matéria, que tirem
então desse arsenal qualquer demonstração matemática, física, química,
mecânica ou fisiológica, e provem por a mais b, sempre partindo do princípio
da existência e da sobrevivência da alma:
1° Que o ser que pensa em nós durante a vida não pode mais pensar depois
da morte;
2° Que, se ele pensa, não pode mais pensar naqueles a quem amou;
3° Que, se pensa naqueles a quem amou, ele não pode mais querer se
comunicar com eles;
4° Que, se ele pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado;
5° Que, podendo estar ao nosso lado, não pode se comunicar conosco;
6° Que, através do seu envoltório fluídico ele não pode agir sobre a matéria
inerte;
7° Que, se ele pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser
animado;
8° Que, se pode agir sobre um ser animado, ele não pode dirigir sua mão
para fazê-lo escrever;
9° Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder as suas perguntas
nem lhe transmitir seus pensamentos.
Quando os adversários do espiritismo nos tiverem demonstrado que isso
não é possível, por meio de razões tão patentes quanto aquelas pelas quais
Galileu demonstrou que não é o Sol que gira em torno da Terra, então nós
poderemos dizer que suas dúvidas são fundadas; infelizmente, até hoje toda a
argumentação deles se resume nestas palavras: Não creio, logo isto é
impossível. Eles dirão, com certeza, que cabe a nós provarmos a realidade das
manifestações; nós lhes provamos isso pelos fatos e pelo raciocínio, mas se
não admitem nem um nem outro, e se negam até mesmo o que enxergam,
então é a eles que cabe provar que o nosso raciocínio é falso e que os fatos são
impossíveis.
31 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO II
O MARAVILHOSO E
O SOBRENATURAL
- Se a crença nos Espíritos e nas suas manifestações fossem uma concepção
individual, fruto de um sistema, ela poderia, com uma aparência de razão, ser
suspeita de ilusão; contudo, que nos expliquem ainda por que nós a
encontramos tão vivaz entre todos os povos, antigos e modernos, e nos livros
santos de todas as religiões conhecidas? Alguns críticos dizem que é porque
em todos os tempos o homem tem amado o maravilhoso. — Mas o que é o
maravilhoso para vocês? — Aquilo que é sobrenatural. — O que querem dizer
com sobrenatural? — Aquilo que é contrário às leis da natureza. — Por acaso
vocês conhecem tão bem essas leis, para que possam assinalar um limite ao
poder de Deus? Pois bem! Provem então que a existência dos Espíritos e suas
manifestações são contrárias às leis da natureza; que isso não é e nem pode
ser uma destas leis. Acompanhem a doutrina espírita e vejam se esse
encadeamento não apresenta todas as características de uma admirável lei
que resolve tudo o que as leis filosóficas não puderam resolver até hoje. O
pensamento é um dos atributos do Espírito; a possibilidade de atuar sobre a
matéria, de impressionar os nossos sentidos e, por conseguinte, de transmitir
seus pensamentos — se assim podemos nos expressar — resulta da sua
formação fisiológica: portanto, não há nesse fato nada de sobrenatural, nada
de maravilhoso. Que um homem morto — e bem morto — torne a viver
corporalmente e que seus membros dispersos sejam reunidos para
novamente formar seu corpo, isso sim seria maravilhoso, sobrenatural,
fantástico; aí haveria uma verdadeira derrogação que Deus não poderia
32 – Allan Kardec
operar a não ser por um milagre, mas nisso não há nada de semelhante na
doutrina espírita.
- Alguns dirão: vocês admitem, portanto, que um Espírito pode levantar uma
mesa e mantê-la no espaço sem um ponto de apoio; isto não é uma anulação
da lei de gravidade? — Sim, mas da lei conhecida; contudo, a natureza já disse
a sua última palavra? Antes que tivéssemos experimentado a força
ascensional de certos gases, quem diria que uma pesada máquina, carregando
muitos homens, pudesse superar a força de atração? Aos olhos do ignorante,
isso não deveria parecer maravilhoso e diabólico? Qualquer pessoa que no
século passado tivesse proposto transmitir um despacho a 500 léguas de
distância e de receber a sua resposta em alguns minutos depois, essa pessoa
seria tratada como um louco; se alguém tivesse feito isso, todo o mundo teria
acreditado que essa pessoa teria o diabo às suas ordens, pois somente o diabo
era capaz de andar tão depressa.2 Então por que um fluido desconhecido não
poderia, em dadas circunstâncias, ter a propriedade de contrabalançar o
efeito da gravidade, como o hidrogênio contrabalança o peso do balão? Isso,
diga-se de passagem, é uma comparação, mas não uma assimilação, e só para
mostrar, por analogia, que o fato não é fisicamente impossível. Ora, foi
exatamente quando os estudiosos quiseram — na observação desses tipos de
fenômenos — proceder por meio de assimilação, que eles se perderam. Aliás,
o fato está aí; todas as denegações não poderão fazer com que ele não exista,
porque negar não é provar; para nós, não há nada de sobrenatural. Isso é tudo
o que podemos dizer, para este momento. - Se o fato ficar comprovado — irão dizer — nós o aceitaremos; aceitaríamos
até a causa a que vocês o atribuem, que é aquela de um fluido desconhecido;
mas, quem prova a intervenção dos Espíritos? Aí é que está o maravilhoso, o
sobrenatural.
2 À época de Allan Kardec, todos ainda estavam bastante admirados com a rapidez das mensagens via
telégrafo, razão pela qual ele faz essa comparação, inclusive com boa dose de ironia ao citar a figura do
“Diabo”. E, por extensão, poderíamos figurar quão louco seria quem previsse no século XIX as
maravilhosas possibilidades da televisão, inventada no século seguinte, e ainda mais as facilidades que
hoje dispomos através da internet. — N. T.
33 – O Livro dos Médiuns
Seria preciso fazer aqui toda uma demonstração, que, porém, estaria fora
de lugar e, além disso, ficaria duplicada, pois ela ressalta de todas as outras
partes do ensinamento. Todavia, para resumi-la em algumas palavras,
diremos que, em teoria, ela se fundamenta neste princípio: todo efeito
inteligente há de ter uma causa inteligente; na prática, nesta observação de
que os fenômenos ditos espíritas, tendo dado provas de inteligência, deviam
ter sua causa fora da matéria e que essa inteligência — não sendo a dos
assistentes (e isso é um resultado da experiência) — devia estar fora deles;
como não se enxergava o ser atuante, era então um ser invisível. Foi assim
que de observação em observação se chegou a saber que esse ser invisível —
ao qual deu-se o nome de Espírito — não é outro senão a alma daqueles que
viveram corporalmente e que a morte arrebatou do seu grosseiro invólucro
visível, deixando-lhes apenas um envoltório etéreo e invisível no seu estado
normal. Eis, portanto, o maravilhoso e o sobrenatural reduzidos à sua
expressão mais simples. Uma vez comprovada a existência de seres invisíveis,
a ação deles sobre a matéria resulta da natureza do seu envoltório fluídico;
essa ação é inteligente porque, ao morrerem, eles não perderam mais do que
o seu corpo, mas conservaram a inteligência que é a essência deles. Aí está a
chave de todos esses fenômenos erradamente reputados como sobrenaturais.
Logo, a existência dos Espíritos não é uma teoria preconcebida, uma hipótese
imaginada para explicar os fatos: é um resultado das observações e a
consequência natural da existência da alma; negar essa causa é negar a alma e
seus atributos. Que aqueles que pensam que podem apresentar para esses
efeitos inteligentes uma solução mais racional, e sobretudo capaz de explicar
todos os fatos, que a apresentem, e então poderemos discutir o mérito de
cada uma.
- Para aqueles que consideram a matéria a única força da Natureza, tudo o
que não pode ser explicado pelas leis da matéria é maravilhoso ou
sobrenatural, e, para eles, maravilhoso é sinônimo de superstição. Nesse
sentido, a religião — fundada na existência de um princípio imaterial — seria
um tecido de superstições. Eles não ousam dizer isso em voz alta, mas o dizem
levemente e acreditam manter as aparências admitindo que é preciso que
34 – Allan Kardec
uma religião para o povo e para tornar as crianças educadas. Ora, de duas
coisas, uma: ou o princípio religioso é verdadeiro ou falso. Se for verdadeiro, é
para todo o mundo; se for falso, não é melhor para os ignorantes do que para
os esclarecidos.
- Aqueles que atacam o espiritismo em nome do maravilhoso, portanto,
geralmente se apoiam no princípio materialista, porque, negando qualquer
efeito extramaterial, negam da mesma forma a existência da alma. Examinem
o fundo do pensamento deles, analisem bem o sentido de suas palavras e
encontrarão quase sempre esse princípio — se categoricamente formulado —
emergindo sob o disfarce de uma pretensa filosofia racional com a qual o
cobrem. Colocando na conta do maravilhoso tudo o que decorre da existência
da alma, eles então são consequentes consigo mesmos: não admitindo a causa,
não podem admitir os efeitos. Daí, entre eles, uma opinião preconcebida que
os torna incapazes de julgar corretamente o espiritismo, porque eles partem
do princípio da negação de tudo o que não seja material. Quanto a nós, pelo
fato de admitirmos os efeitos que são a consequência da existência da alma,
será que aceitaríamos todos os fatos qualificados de maravilhosos? Será que
seríamos defensores de todos os sonhadores, adeptos de todas as utopias, de
todas as excentricidades sistemáticas? Teríamos que conhecer muito mal o
espiritismo para pensar assim; mas os nossos adversários não observam isso
muito de perto; a necessidade de conhecer aquilo de que falam é a menor de
suas preocupações. Segundo eles, o maravilhoso é um absurdo; ora, o
espiritismo se apoia em fatos maravilhosos, logo o espiritismo é um absurdo:
isso para eles é um julgamento sem apelação. Acreditam se opor a um
argumento inquestionável quando, depois de terem feito pesquisas eruditas
acerca dos convulsionários de Saint-Médard3, dos camisardos de Cevenas4, ou
3 Referência a um episódio de convulsão coletiva ocorrido em Saint-Médard (França), cuja cura estaria
supostamente condicionada ao contato com o túmulo de um famoso diácono (François Pâris) erguido
naquela localidade, narrados na Revista Espírita de novembro de 1859 (E-book). — N. T.
4 Camisardos (camisards) eram protestantes franceses da linha teológica calvinista (de João Calvino),
também chamados de “huguenotes”, que se concentraram na região francesa de Cevenas (Cevennes).
Conta-se que eles organizavam sua resistência contra as perseguições religiosas mediante instruções
espirituais recebidas por seus mestres, ditos profetas. — N. T.
35 – O Livro dos Médiuns
das religiosas de Loudun5, chegaram à descoberta de flagrantes fraudes, que
ninguém contesta; mas, tais histórias constituem o evangelho do espiritismo?
Por acaso os espíritas negaram que o charlatanismo tem explorado alguns
fatos em proveito próprio? Negaram que a imaginação tem criado fatos
assim? E que o fanatismo tenha exagerado bastante quanto a outros desses
fatos? O espiritismo não é solidário com as extravagâncias que se pode
cometer em seu nome, assim como a verdadeira ciência não é solidária com os
abusos da ignorância, nem a verdadeira religião é solidária com os excessos
do fanatismo. Muitos críticos só julgam o espiritismo pelos contos de fadas e
lendas populares que seriam ficções suas; do mesmo modo poderíamos julgar
a História pelos romances históricos ou pelos dramas literários.
- Em lógica elementar, para se discutir uma coisa, é preciso conhecê-la, pois
a opinião de um crítico não tem valor senão quando ele fala com perfeito
conhecimento de causa; só assim a sua opinião poderá ser levada em
consideração — ainda que esteja errada. Porém, que peso terá sua opinião
sobre um assunto que ele não conhece? O verdadeiro crítico deve demonstrar
não apenas erudição, mas um profundo saber a respeito da matéria de que
está tratando; demonstrar um juízo correto e imparcialidade à toda prova; do
contrário, qualquer menestrel vulgar poderia arrogar-se o direito de julgar
Rossini,6 bem como um aprendiz de ateliê qualquer viria censurar Rafael.7 - Portanto, o espiritismo não aceita todos os fatos reputados maravilhosos
ou sobrenaturais; longe disso, ele demonstra a impossibilidade de um grande
número deles e o ridículo de certas crenças que constituem a superstição
propriamente dita. É verdade que, naquilo que ele admite, há coisas que para
os incrédulos são puramente maravilhas — ou, dito de outro jeito, pura
superstição. Que seja; mas, pelo menos, não discutam além desses pontos,
5 Loudun é uma comuna francesa do departamento de Vienne que se notabilizou pelo
episódio conhecido como “Possessão das freiras de Loudun”, ocorrido em 1634, em que as religiosas
de um convento ursulino daquela localidade estariam endemoniadas. — N. T.
6 Gioachino Antonio Rossini (1792-1868): célebre compositor italiano. – N. T.
7 Rafael Sanzio (1483-1520): pintor italiano, um dos mestres do Renascença. – N. T.
36 – Allan Kardec
pois quanto aos demais não há nada a dizer, e vocês pregam em vão. Ao atacar
aquilo que ele mesmo refuta, vocês estão provando a própria ignorância sobre
o assunto e os vossos argumentos fracassam. Contudo, dirão: até onde vai a
crença do espiritismo? — Leiam, observem e saberão. Não se adquire
nenhuma ciência a não ser com tempo e estudo; ora, o espiritismo — que
trata das questões mais graves de filosofia e de todos os ramos da ordem
social, que abrange ao mesmo tempo o homem físico e o homem moral — é
em si mesmo toda uma ciência, toda uma filosofia, que já não pode ser
compreendida em algumas horas, assim como nenhuma outra ciência. Seria
muita infantilidade querer ver todo o espiritismo numa mesa girante, tanto
quanto ver toda a física em alguns brinquedos de criança. Para quem não quer
ficar na superfície, são necessários, não algumas horas somente, mas sim
meses e anos, para lhe sondar todos os mistérios. Calculemos, com isso, o grau
de saber e o valor da opinião dos que se arrogam o direito de julgar, já que
viram uma ou duas experiências — na maioria das vezes como distração ou
divertimento. Certamente eles dirão que não dispõem de tanto lazer para dar
todo o tempo necessário a tal estudo. Está bem; nada os obriga a fazer isso.
Todavia, quando não temos tempo de aprender uma coisa, então não nos
metemos a falar dela, e ainda menos de julgá-la, se não quisermos ser
acusados de leviandade. Ora, quanto mais elevada seja a posição que alguém
ocupe na ciência, menos desculpável ela será por tratar levianamente de um
assunto que ela não conhece.
- Nós nos resumimos nas seguintes proposições:
1ª Todos os fenômenos espíritas têm por princípio a existência da alma, sua
sobrevivência ao corpo e suas manifestações;
2ª Esses fenômenos, fundando-se numa lei da natureza, não têm nada de
maravilhoso nem de sobrenatural, no sentido comum dessas palavras.
3ª Muitos fatos só são considerados por sobrenaturais porque não se conhece
a causa deles; ao lhes assinalar uma causa, o espiritismo os recoloca no
domínio dos fenômenos naturais;
4ª Entre os fatos qualificados como sobrenaturais, há muitos que o
37 – O Livro dos Médiuns
espiritismo demonstra serem impossíveis, e que os classifica entre as
crenças supersticiosas;
5ª Embora o espiritismo reconheça em muitas crenças populares um fundo
de verdade, de forma alguma ele aceita a solidariedade de todas as
histórias fantásticas criadas pela imaginação;
6ª Julgar o espiritismo pelos fatos que ele não admite é dar prova de
ignorância e tirar todo o valor da sua opinião;
7ª A explicação dos fatos admitidos pelo espiritismo — suas causas e suas
consequências morais — constitui toda uma ciência e toda uma filosofia
que requer um estudo sério, perseverante e aprofundado;
8ª O espiritismo não pode considerar um crítico sério senão aquele que tenha
visto tudo, estudado e aprofundado tudo com a paciência e a perseverança
de um observador consciencioso; aquele que soubesse do assunto tanto
quanto qualquer adepto mais esclarecido; aquele que, por conseguinte,
tivesse adquirido seus conhecimentos de algum lugar que não dos
romances da ciência; aquele a quem não se poderia opor nenhum fato do
qual ele não tivesse conhecimento, e nenhum argumento sobre o qual não
tivesse meditado; que ele refutaria, não por negação, mas por outros
argumentos mais concretos; que ele poderia, enfim, indicar uma causa
mais lógica para os fatos averiguados. Tal crítico ainda não foi encontrado.
- Acabamos de pronunciar a palavra milagre; uma ligeira observação sobre
isso não seria inapropriada, neste capítulo sobre o maravilhoso.
Na sua acepção inicial, e pela sua etimologia, o termo milagre significa
coisa extraordinária, coisa admirável de se ver; mas como tantas outras,
essa palavra se afastou do sentido originário e hoje representa (segundo a
Academia) um ato do poder divino contrário às leis comuns da natureza.
De fato, esse é a sua significação usual, e é apenas por comparação e por
metáfora que a aplicamos às coisas triviais que nos surpreendem e cuja causa
é desconhecida. De forma nenhuma é nossa intenção examinar se Deus
poderia julgar útil em certas circunstâncias revogar as leis estabelecidas por
ele mesmo; nosso objetivo é exclusivamente demonstrar que os fenômenos
38 – Allan Kardec
espíritas — por mais extraordinários que sejam — jamais derrogam essas leis
e que eles não têm nenhum caráter de miraculoso e nem são maravilhosos ou
sobrenaturais. O milagre não se explica; já os fenômenos espíritas, ao
contrário, estes se explicam da maneira mais racional, e, portanto, não são
milagres, mas simples efeitos que têm sua razão de ser nas leis gerais. O
milagre apresenta ainda outra característica, que é o de ser insólito e
excepcional. Ora, desde que um fato se reproduz — por assim dizer — à
vontade e por diversas pessoas, não pode ser um milagre.
Todos os dias a ciência opera milagres aos olhos dos ignorantes; por isso
é que em outros tempos aqueles que sabiam mais do que uma pessoa comum
se passavam por feiticeiros; e como as pessoas acreditavam que toda ciência
sobre-humana vinha do diabo, eles queimavam aqueles outros. Hoje, que já
estamos muito mais civilizados, contentamo-nos em levá-los aos asilos.8
Como dissemos no começo, se um homem realmente morto voltasse à
vida por uma intervenção divina, haveria aí verdadeiro milagre, pois isso é
contrário às leis da Natureza; no entanto, se tal homem só tem as aparências
da morte, se ainda há nele um resto de vitalidade latente que a ciência ou
uma ação magnética pudesse reanimá-lo, para as pessoas instruídas isso seria
um fenômeno natural; entretanto, aos olhos do vulgo ignorante esse fato
passaria por milagroso e, conforme o caráter dos indivíduos, o autor seria
apedrejado ou venerado. Que no meio de um campo um físico lance uma pipa
elétrica e faça cair um raio sobre uma árvore, e esse novo Prometeu9
certamente será visto como alguém dotado de um poder diabólico. E, diga-se
de passagem, Prometeu nos parece especialmente ter antecipado Franklin;10
mas Josué detendo o movimento do Sol, ou melhor, o movimento da Terra, eis
aí o verdadeiro milagre, porque não conhecemos nenhum magnetizador
8 No original, Allan Kardec cita Petites-Maisons, muito provavelmente com referência ao centenário asilo
dos alienados construído em Paris (1557) e transferido em 1863 para a comuna Issy-les-Moulineaux
rebatizado como Hospital Corentin-Celton. Fonte: Wikipédia (em francês). — N. T.
9 Prometeu: personagem da mitologia grega, conhecido por ter roubado o fogo dos deuses para trazê-lo
à humanidade, pelo que, ele passou a ser uma referência de alguém prodigioso, capaz de fazer coisas
extraordinárias; é nesse sentido que Kardec o cita aqui. — N. T.
10 Aqui, o autor faz menção à experiência com a qual o cientista americano Benjamin Franklin (1706-
1790) comprovou a eletricidade, exatamente empinando uma pipa em meio a uma tempestade, para
que ela fossa atingida por um raio. — N. T.
39 – O Livro dos Médiuns
dotado de uma potência tão grande capaz de realizar tal prodígio.11 De todos
os fenômenos espíritas, um dos mais extraordinários é incontestavelmente o
da escrita direta, e um dos que demonstram de maneira mais evidente a ação
das inteligências ocultas; mas, do fato desse fenômeno ser produzido por
seres ocultos, não se segue que ele seja mais miraculoso do que todos os
outros fenômenos oriundos de agentes invisíveis, porque esses seres ocultos
que povoam os espaços são uma das potências da natureza, potências cuja
ação é incessante — tanto no mundo material quanto no mundo moral.
Esclarecendo-nos com relação a essa potência, o espiritismo nos dá a
chave de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer
outro meio, e que nos tempos antigos puderam se passar por prodígios. Do
mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, se não desconhecida,
pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, conhecíamos os efeitos
— pois eles se produziram em todos os tempos —, mas não conhecíamos a lei,
e foi a ignorância dessa lei que gerou a superstição. Uma vez compreendida
essa lei, o maravilhoso desaparece e os fenômenos entram na ordem das
coisas naturais. Eis por que os espíritas não fazem maior milagre ao fazer uma
mesa se mover ou ao fazer os falecidos escreverem, tanto quanto o médico ao
fazer um moribundo voltar à vida, ou o físico ao fazer um raio cair. Aquele que
pretendesse fazer milagres com a ajuda dessa ciência seria ou um ignorante
do assunto ou um enganador.
- Os fenômenos espíritas, do mesmo modo que os fenômenos magnéticos,
tiveram que se passar por prodígios antes que conhecêssemos sua causa. Ora,
como os céticos, os espíritos fortes — quer dizer, aqueles que têm o privilégio
exclusivo da razão e do bom senso — não acreditam que uma coisa seja
possível desde que não a compreendam; eis por que todos os fatos reputados
prodigiosos são alvos da zombaria deles. E como a religião contém grande
número de fatos desse gênero, eles não creem na religião, e daí à
incredulidade absoluta não há mais do que um passo. Ao explicar a maior
11 Segundo a Bíblia (Josué, 10:12-14), Josué liderava o povo de Israel numa batalha contra os amorreus,
quando então Javé, ouvindo as preces daquele servo, fez parar o movimento do Sol até a vitória dos
israelitas, uma vez que a claridade do dia os favorecia. — N. T.
40 – Allan Kardec
parte desses fatos, o espiritismo lhes dá uma razão de ser. Logo, o espiritismo
vem em auxílio da religião, demonstrando a possibilidade de certos fatos que,
não tendo mais o caráter miraculosos, não deixam de ser extraordinários, e
Deus não fica nem menor e nem menos poderoso por não haver anulado suas
leis. De quantas piadas não foram alvos as elevações de São Cupertino! Ora, a
suspensão etérea dos corpos pesados é um fenômeno explicado pela lei
espírita; fomos pessoalmente testemunha ocular dele, e o Sr. Home — assim
como outras pessoas de nosso conhecimento — repetiram muitas vezes o
fenômeno produzido por São Cupertino. Logo, este fenômeno pertence à
ordem das coisas naturais.12
- No número das ocorrências deste gênero, devemos colocar na primeira
linha as aparições, porque são as mais frequentes. A de La Salette — que
divide até mesmo o clero — não tem nada de insólito para nós13. Seguramente
não podemos afirmar que o fato se deu, porque não temos prova material
disso; mas, para nós, ele é possível, visto que conhecemos milhares de casos
recentes semelhantes; acreditamos neles não só porque sua realidade é
averiguada por nós, mas sobretudo porque nos damos conta perfeitamente de
que maneira eles se produzem. Queiram se recorrer à teoria das aparições
que daremos mais adiante e todos verão que este fenômeno se torna tão
simples e plausível quanto um monte de fenômenos físicos que só parecem
prodigiosos por falta de uma chave para sua compreensão. Quanto à
personagem que se apresentou em La Salette, é outra questão; sua identidade
não nos foi demonstrada de nenhum modo; constatamos simplesmente que
pode ter havido uma aparição; o resto não é de nossa competência e cada um
pode guardar suas convicções a respeito; o espiritismo não tem que se ocupar
com isso. Dizemos somente que os fatos produzidos pelo espiritismo nos
revelam novas leis e nos dão a chave para a explicação de uma imensidade de
12 Kardec menciona aqui o fenômeno de levitação registrado na biografia de São José de Cupertino
(1603-1663) e de outros médiuns, como o escocês Daniel Dunglas Home (1833-1886), considerado o
médium de maiores efeitos em seu tempo. — N. T.
13 Menção à aparição de Nossa Senhora da La Salette. Reza a tradição que em 19 de setembro de 1846
Maria, mãe de Jesus, apareceu a um casal de jovens pastores da comuna de La Salette, França,
exortando-os à prática da oração. — N. T.
41 – O Livro dos Médiuns
coisas que pareciam sobrenaturais; se alguns daqueles que se passavam por
miraculosos encontram aí uma explicação lógica, isso é um motivo para que
ninguém se apresse a negar o que não compreende.
Os fenômenos espíritas são contestados por determinadas pessoas
exatamente porque parecem escapar da lei comum e porque não nos damos
conta disso. Deem a eles uma base racional e a dúvida cessa. Neste século, em
que não nos contentamos com palavras, a explicação é então um poderoso
motivo de convicção; por isso, todos os dias vemos pessoas que não
testemunharam nenhum fato e que não observaram nem uma mesa se mover
nem um médium escrever, mas que estão tão convencidas quanto nós,
unicamente porque elas leram e compreenderam. Se devêssemos acreditar
somente no que vemos com os nossos olhos, nossas convicções se reduziriam
a pouquíssimas coisas.
42 – Allan Kardec
CAPÍTULO III
MÉTODO
- O desejo mais natural e louvável de todos os adeptos — e que nunca será
demais encorajar — é o de fazer prosélitos. É visando facilitar a tarefa deles
que nos propomos examinar aqui a caminhada mais segura, conforme nossa
opinião, para alcançar esse objetivo, a fim de lhes pouparmos esforços inúteis.
Dissemos que o espiritismo é toda uma ciência, toda uma filosofia;
portanto, quem queira conhecê-lo seriamente deve, como primeira condição,
comprometer-se a um estudo sério e se convencer de que — não mais do que
qualquer outra ciência — não podemos aprender espiritismo brincando.
Também já dissemos que o espiritismo toca em todas as questões que
interessam à humanidade; seu escopo é imenso e é principalmente nessas
consequências que ele deve ser encarado. Sem dúvida, a crença nos Espíritos
forma a sua base, mas essa crença não é o suficiente para se fazer um espírita
esclarecido, assim como a crença em Deus não basta para se fazer um teólogo.
Vejamos então, de que maneira convém proceder a esse ensinamento para se
conduzir com mais segurança à convicção.
Que os adeptos não se espantem com esta palavra “ensinamento”; não
existe tão somente o ensinamento dado do púlpito ou da tribuna; há também
o da simples conversação. Todo aquele que procura persuadir a outro — seja
por meio de explicações, seja por meio de experiências — já está dando um
ensinamento; o que desejamos é que seu esforço produza frutos, e é por isso
que acreditamos que devemos dar alguns conselhos, que beneficiarão
igualmente aqueles que queiram se instruir por si mesmos; eles encontrarão
aí o meio de chegar mais seguramente e mais prontamente à meta.
43 – O Livro dos Médiuns
- Acredita-se, geralmente, que para convencer basta apresentar os fatos;
realmente, esse parece ser o caminho mais lógico e, entretanto, a experiência
mostra que esse nem sempre é o melhor, porque frequentemente se vê
pessoas que os fatos mais evidentes não as convencem de maneira nenhuma.
A que isso se deve? É o que vamos tentar demonstrar.
No espiritismo, a questão dos Espíritos é secundária e consecutiva; não é
o ponto de partida, e exatamente aqui está o erro no qual caímos, e que
muitas vezes nos leva a fracassar com relação a certas pessoas. Já que os
Espíritos não são outra coisa senão as almas dos homens, o verdadeiro ponto
de partida é então a existência da alma. Ora, como o materialista poderia
admitir que há seres viventes fora do mundo material, se ele acredita que ele
mesmo não é mais do que matéria? Como ele poderia crer nos Espíritos fora
dele, se não acredita ter um dentro de si? Seria em vão acumularmos diante
dos seus olhos as provas mais palpáveis, pois ele contestaria todas, porque
não admite o princípio. Todo ensino metódico deve proceder do conhecido
para o desconhecido; para o materialista, o conhecido é a matéria; pois então,
comecem pela matéria e, antes de tudo, tentem fazê-lo observá-la, de
convencê-lo de que há nele alguma coisa que vai além das leis da matéria;
numa palavra, antes de torná-lo ESPÍRITA cuidem de torná-lo ESPIRITUALISTA.
Mas para isso, existe toda uma outra ordem de fatos, um ensinamento todo
especial pelo qual é preciso proceder por outros meios; falar-lhe dos Espíritos
antes que ele esteja convencido de ter uma alma, é começar por onde se deve
terminar, porque ele não poderia admitir a conclusão sem admitir as
premissas. Assim, antes de tentarmos convencer um incrédulo — mesmo
através dos fatos — convém nos certificarmos de sua opinião referente à
alma, isto é, se ele crê na existência da alma, na sua sobrevivência ao corpo e
na sua individualidade após a morte; se a resposta dele for negativa, seria
perda de tempo lhe falar dos Espíritos. Eis aqui a regra; nós não dizemos que
ela não tenha exceções, mas então provavelmente haverá outra causa que
torna o materialista menos intransigente.
- Entre os materialistas, é preciso distinguir duas classes: na primeira nós
colocamos os que são assim por sistema; nesses não há qualquer dúvida, há a
44 – Allan Kardec
negação absoluta, raciocinada ao modo deles; aos seus olhos o homem é
apenas uma máquina que funciona enquanto está bem ajustada, mas que se
quebra e da qual, após a morte, só resta a carcaça. O número destes
materialistas felizmente é muito pequeno e em nenhum lugar constitui uma
escola altamente reconhecida. Não precisamos insistir sobre os deploráveis
efeitos para a ordem social que resultariam da popularização de uma doutrina
como essa; já nos estendemos o bastante sobre esse assunto em O Livro dos
Espíritos (questão 147 e item III da Conclusão).
Quando dissemos que a dúvida dos incrédulos acaba na presença de uma
explicação racional, de alguma forma devemos fazer exceção dos materialistas
— aqueles que negam qualquer força e qualquer princípio inteligente fora da
matéria. A maioria persiste na própria opinião por orgulho, crendo que seu
amor-próprio fique prejudicado a persistir nisso, e persistem avessos a todas
as provas contrárias, porque não querem dar o braço a torcer. Com essas
pessoas, não há nada o que fazer; não se deve deixar ser iludido pelo falso
semblante de sinceridade daqueles que dizem: “Mostre-me e eu acreditarei”.
Há alguns deles que são mais francos e dizem abertamente: “Mesmo que eu
visse, não acreditaria”.
- A segunda classe de materialistas — e de longe a mais numerosa, pois o
verdadeiro materialismo é um sentimento antinatural — inclui aqueles que
são assim por indiferença, e podemos dizer: por falta de coisa melhor; eles
não são assim por vontade própria e o que mais pedem é para acreditar, pois
a incerteza é um tormento para eles. Neles há uma vaga aspiração ao futuro,
mas esse futuro lhes foi apresentado sob as cores que a razão deles não pode
aceitar; daí a dúvida e, como consequência da dúvida, a descrença. Portanto, a
incredulidade neles não é sistemática; assim sendo, apresentem-lhes alguma
coisa racional e eles a aceitarão ansiosamente; esses, portanto, podem nos
compreender, pois estão tão perto de nós quanto provavelmente nem eles
imaginam. Com o primeiro tipo de materialista, não falem nem de revelação,
nem de anjos, nem do paraíso: eles não os compreenderiam; mas, colocando-
se no terreno deles, provem-lhes primeiramente que as leis da fisiologia são
impotentes para explicar tudo; o resto virá em seguida. Tudo ocorre diferente
45 – O Livro dos Médiuns
quando a incredulidade não é preconcebida, porque então a crença não é
absolutamente nula; há uma semente latente sufocada pelas ervas daninhas,
mas que um impulso pode reanimar; é um cego a quem se restitui a visão e
que se alegra por tornar a ver a luz; é um náufrago a quem se lança uma tábua
de salvação.
- Ao lado dos materialistas propriamente ditos, há uma terceira classe de
incrédulos que, embora espiritualistas, pelo menos de nome, não são menos
intransigentes; são aos incrédulos de má vontade. Estes ficariam zangados se
passassem a acreditar, pois isso perturbaria sua tranquilidade nos prazeres
materiais; eles temem ver a condenação de suas ambições, de seu egoísmo e
das vaidades humanas com que se deliciam, e fecham os olhos para não ver e
tapam os ouvidos para não ouvir. Só podemos ter pena deles. - Falaremos, apenas para registro, de uma quarta categoria, que
chamaremos de incrédulos interesseiros ou de má-fé. Esses indivíduos
sabem muito bem o que devem pensar do espiritismo, mas ostensivamente o
condenam por motivos de interesse pessoal. Não há o que dizer deles, como
também não há o que fazer com eles. Se o materialista puro se engana, pelo
menos ele tem a desculpa da boa-fé, e podemos resgatá-lo demonstrando-lhe
o próprio erro; nestes outros, existe um preconceito contra o qual todos os
argumentos fracassam; o tempo se encarregará de lhe abrir os olhos e de lhe
mostrar — talvez às próprias custas — onde estavam seus verdadeiros
interesses, pois, não podendo impedir a verdade de se expandir, eles serão
arrastados pela torrente e como eles os interesses que julgavam salvaguardar. - Além dessas diversas categorias de opositores, há uma infinidade de
nuances entre as quais podemos incluir os incrédulos por pusilanimidade: a
coragem deles virá quando virem que os outros não se queimam; os
incrédulos por escrúpulos religiosos: um estudo esclarecido lhes ensinará
que o espiritismo se apoia sobre as bases fundamentais da religião, que
respeita todas as crenças e que um dos seus efeitos é semear sentimentos
religiosos naqueles que não os possuem, e os fortalecer naqueles que estejam
46 – Allan Kardec
vacilantes; depois vêm os incrédulos por orgulho, por espírito de contradição,
por negligência, por leviandade etc.
- Não podemos omitir uma categoria que chamaremos de incrédulos por
decepções. Ela é constituída pelas pessoas que passaram de uma confiança
exagerada à descrença porque provaram alguns desenganos; então,
desanimados, elas abandonaram tudo e tudo rejeitaram. Estão na situação
daquele que negaria a boa-fé por ter sido enganado. É também o resultado de
um estudo incompleto do espiritismo e da falta de experiência. Aquele que é
mistificado pelos Espíritos geralmente é por lhes demandar o que eles não
devem ou não podem dizer, ou porque não é bastante instruído sobre o
assunto para discernir a verdade da impostura. Aliás, muitos não veem no
espiritismo senão um novo meio de adivinhação e imaginam que os Espíritos
foram feitos para ler a sorte; ora, os Espíritos levianos e zombeteiros não
perdem a ocasião de se divertir à custa dessas pessoas, e é assim que
anunciarão maridos às moças; ao ambicioso prometerão honras, heranças,
tesouros escondidos etc. Daí muitas vezes vêm desagradáveis decepções, das
quais, entretanto, o homem sério e prudente sempre sabe se precaver. - Uma classe muito numerosa — a mais numerosa mesmo de todas — mas
que não deveria ser classificada entre os opositores, é a dos indecisos;
geralmente eles são espiritualistas por princípio; na maioria deles há uma
vaga intuição das ideias espíritas, uma aspiração a qualquer coisa que eles
não sabem definir; não falta aos pensamentos deles senão serem coordenados
e formulados; o espiritismo é para eles como que um traço de luz: é a
claridade que dissipa o nevoeiro; por isso o acolhem com entusiasmo porque
os livra das angústias da incerteza. - Se desse ponto projetarmos uma olhada sobre as diversas categorias de
crentes, encontraremos inicialmente os que são espíritas sem saber disso;
essa é, propriamente falando, uma variedade, ou uma nuance da classe
precedente. Sem jamais terem ouvido falar da doutrina espírita, eles têm o
sentimento inato dos grandes princípios que dela decorrem e esse sentimento
47 – O Livro dos Médiuns
se reflete em algumas passagens de seus escritos e de seus discursos, a tal
ponto que ao ouvi-los se pensaria que eles são completamente iniciados.
Encontramos numerosos exemplos deles em escritores sagrados e profanos,
poetas, oradores, moralistas, filósofos antigos e modernos.
- Entre os que se convenceram por um estudo direto, podemos destacar:
1° Aqueles que creem pura e simplesmente nas manifestações. Para eles, o
espiritismo é uma simples ciência de observação, uma série de fatos mais
ou menos curiosos; nós os chamaremos de espíritas experimentadores;
2° Aqueles que veem no espiritismo outra coisa além dos fatos; eles
compreendem sua parte filosófica; admiram a moral que dela decorre, mas
não a praticam. Sua influência sobre o caráter deles é insignificante ou
nula; não mudam nada em seus hábitos e não se privariam de um único
prazer: o avarento é sempre mesquinho, o orgulhoso continua cheio de si, o
invejoso e o ciumento permanecem hostis; para eles a caridade cristã não
passa de um belo provérbio; estes são os espíritas imperfeitos;
3° Aqueles que não se contentam em admirar a moral espírita, mas que a
praticam e aceitam todas as suas consequências. Convencidos de que a
existência terrena é uma prova passageira, eles tratam de aproveitar os
seus breves instantes para avançar pela senda do progresso — a única que
pode elevá-los na hierarquia do mundo dos Espíritos — esforçando-se para
fazer o bem e para reprimir suas más tendências; seus relacionamentos são
sempre seguros, porque a convicção deles os afasta de todos os maus
pensamentos. Em todas as coisas a caridade é a regra de conduta deles;
estes são os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos;
4° Finalmente, há os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita se
ela sempre tomasse o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo;
em espiritismo ele dá uma confiança bastante cega e muitas vezes infantil
em relação às coisas do mundo invisível, e faz as pessoas aceitarem com
demasiada facilidade e sem verificação aquilo que a reflexão e o exame
demonstrariam ser absurdo e impossível. Por sua vez, o entusiasmo não
transparece; ele deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais prejudicial do
48 – Allan Kardec
que útil à causa do espiritismo; eles são os menos convincentes porque —
com razão — todos desconfiam dos seus julgamentos; de muita boa-fé, eles
são ludibriados tanto por Espíritos mistificadores quanto por homens que
procuram explorar a sua crença. Se tivessem que sofrer as consequências
sozinhos, isso só seria meio ruim; mas o pior é que, mesmo sem querer,
eles dão armas aos incrédulos que, antes de se convencerem, procuram
uma ocasião para zombar e não deixam de imputar a todos o ridículo de
alguns. Sem dúvidas que isso nem é justo nem racional; mas, como se sabe,
os adversários do espiritismo só reconhecem sua própria razão como
sendo de boa qualidade, e sabem bem que aquilo de que eles falam é a
menor de suas preocupações.
- Os meios de persuasão variam extremamente conforme os indivíduos; o
que convence a uns nada produz em outros; um é convencido por certas
manifestações materiais, outro por comunicações inteligentes, e a maior parte
pelo raciocínio. Podemos até dizer que, para a maioria daqueles que não estão
preparados pela racionalidade, os fenômenos materiais têm pouco peso;
quanto mais extraordinários forem esses fenômenos e quanto mais se
afastem das leis conhecidas, mais eles encontram oposição, e isto por uma
razão muito simples: é que as pessoas são naturalmente inclinadas a duvidar
de algo que não tem aprovação racional. Cada pessoa considera a coisa em
questão do seu ponto de vista e a explica à sua maneira: alguém materialista
vê nela ou uma causa puramente física ou uma fraude; um ignorante e
supersticioso vê uma causa diabólica ou sobrenatural; enquanto uma prévia
explicação tem por efeito deduzir ideias preconcebidas e de mostrar, senão a
realidade, pelo menos a possibilidade da coisa, e assim nós a compreendemos
antes de vê-la. Ora, desde que a possibilidade seja reconhecida, a convicção
fica quase ganha. - Seria útil procurar convencer a um incrédulo teimoso? Já dissemos que
isso depende das causas e do tipo da sua descrença. Com frequência a
insistência em querer persuadi-lo o leva a crer em sua importância pessoal —
o que é razão para ele teimar ainda mais. Se alguém não foi convencido nem
49 – O Livro dos Médiuns
pelo raciocínio nem pelos fatos, é porque este ainda deve sofrer a prova da
incredulidade; é preciso deixar que a Providência forneça para ele as
circunstâncias mais favoráveis; se há tanta gente pedindo para receber a luz,
não há por que perder tempo com quem a rejeita. Portanto, dirijam-se às
pessoas de boa vontade, cujo número é maior do que se pensa, e o exemplo
deles, ao se multiplicar, vencerá as resistências mais do que palavras. O
verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem; está é a sua missão: aliviar
corações aflitos, consolar, acalmar desesperos, operar reformas morais; é
assim que ele encontrará sua verdadeira satisfação. O espiritismo está no ar;
ele se propaga pela força das coisas e porque torna felizes os que o professam.
Quando seus adversários sistemáticos o ouvirem ressoar em torno deles, ou
entre seus amigos, eles compreenderão o próprio isolamento e serão forçados
ou a se calar ou a se render.
- Para proceder no ensino do espiritismo, como se faria nas ciências
convencionais, seria preciso revisar toda a série dos fenômenos que possam
se produzir, começando pelos mais simples até chegar sucessivamente aos
mais complexos; mas é justamente isso o que não pode ser feito, pois seria
impossível fazer um curso de espiritismo experimental como se faz um curso
de física ou de química: nas ciências naturais nós usamos a matéria bruta, que
manipulamos à vontade e quase sempre com a certeza de podermos regular
os efeitos; já no espiritismo, nós estamos lidando com inteligências que têm
sua própria liberdade, e que a cada instante nos provam que elas não estão
submetidas aos nossos caprichos. Logo, devemos observar, aguardar os
resultados e os aproveitar oportunamente; por isso dissemos abertamente
que quem se vangloriar de os obter quando bem queira não poderá ser
mais do que um ignorante ou um impostor. Eis por que o espiritismo
VERDADEIRO jamais se dará em espetáculo nem subirá aos palcos. Há até algo
de ilógico em se supor que Espíritos venham desfilar e se submeter a uma
investigação como objetos de curiosidade. Então, os fenômenos podem ou
falhar quando mais se precisaria deles ou se apresentar de um jeito
totalmente diferente daquele que se desejaria. Acrescentemos ainda que, para
obtê-los, é necessário pessoas dotadas de faculdades especiais e que essas
50 – Allan Kardec
faculdades variam ao infinito, de acordo com as aptidões dos indivíduos;
porém, como é extremamente raro que a mesma pessoa tenha todas as
aptidões, isso é uma dificuldade a mais, pois seria necessário sempre ter à
disposição uma verdadeira coleção completa de médiuns — o que nunca seria
possível.
O meio de se evitar esta inconveniência é bem simples: é começar pela
teoria; assim, todos os fenômenos são revistados, são explicados; pode-se
apreciá-los, compreender sua possibilidade, conhecer as condições nas quais
eles podem se produzir e quais obstáculos podem encontrar. Então, qualquer
que seja a ordem em que as circunstâncias se apresentem, não há nada que
possa surpreender. Este meio ainda oferece outra vantagem, que é livrar de
muitas insatisfações aquele que queira operar os fenômenos; premunido
contra as dificuldades, ele saberá manter-se vigilante e evitar adquirir uma
experiência às próprias custas.
Desde que nos ocupamos com o espiritismo, seria difícil dizermos o
número de pessoas que vieram ter conosco e quantas delas vimos que
permaneceram indiferentes ou incrédulas mesmo diante dos fatos mais
patentes e que só foram convencidas posteriormente mediante uma
explicação racional; quantas outras ficaram predispostas à convicção pelo
raciocínio; quantas, enfim, foram persuadidas sem nunca terem visto nada,
mas unicamente porque haviam compreendido. Por conseguinte, falamos por
experiência e é por isso que também dizemos que a melhor metodologia de
ensino espírita consiste em se dirigir antes à razão do que aos olhos. Este é o
método que seguimos em nossas lições, e só temos que nos felicitar por isso.14
- O estudo prévio da teoria tem outra vantagem: mostrar imediatamente a
grandeza do objetivo e o alcance dessa ciência. Aquele que começa vendo uma
mesa girar ou bater fica mais inclinado ao divertimento, pois dificilmente
imaginará que de uma mesa possa sair uma doutrina regeneradora da
humanidade. Temos notado sempre que aqueles que creem antes de ter visto,
mas porque leram e compreenderam, longe de serem superficiais, são aqueles
que, ao contrário, mais refletem; estão mais interessados pela essência do que
14 Nosso ensinamento teórico e prático é sempre gratuito.
51 – O Livro dos Médiuns
pela forma; para estes a parte filosófica é a principal, os fenômenos
propriamente ditos são o acessório, e declaram então para si mesmos que
mesmo que esses fenômenos não existissem ainda restaria uma filosofia,
sendo a única que resolve os problemas até hoje insolúveis, e que só ela
apresenta a teoria mais racional sobre o passado e o futuro da humanidade. É
claro, eles preferem uma doutrina que explique àquelas que não expliquem ou
que expliquem mal. Qualquer um que reflita compreende perfeitamente bem
que poderia ignorar as manifestações e a doutrina não deixaria de existir; as
manifestações vêm corroborá-la e confirmá-la, mas não constituem a sua base
essencial. O observador sério não a recusa; mas ao contrário, ele aguarda as
circunstâncias favoráveis que lhe permitam testemunhá-las. A prova do que
dissemos é que, antes de ouvirem falar das manifestações, muitas pessoas
tinham a intuição dessa doutrina — que não fez mais do que dar corpo, um
conjunto às suas ideias.
- De resto, não seria exato dizer que aqueles que começam pela teoria
careçam de assuntos para observações práticas; eles têm algumas questões
que, ao contrário, devem ter aos seus olhos um peso até maior do que aqueles
que poderiam ser produzidos diante deles: estão são os numerosos fatos de
manifestações espontâneas, de que falaremos nos próximos capítulos. São
poucas as pessoas que não tenham conhecimento disso ao menos por ouvir
dizer; muitas delas tiveram suas próprias experiências, às quais prestaram
pouca atenção. A teoria tem por efeito lhes dar a explicação dos fatos, e nós
dizemos que esses fatos têm um grande peso enquanto se apoiem nos
testemunhos irrecusáveis, porque não se pode admitir nem premeditação
nem conivência. Se os fenômenos provocados não existissem, os fenômenos
espontâneos não deixariam de existir, e se o único resultado do espiritismo
fosse apenas dar uma solução racional a esses fenômenos, só isso já seria
muito. Ademais, a maioria dos que leem antecipadamente remetem suas
lembranças para esses fatos, que são para eles uma confirmação da teoria. - Estaria estranhamente equivocado quanto à nossa maneira de ver aquele
que supusesse que nós aconselhamos o desprezo dos fatos, pois é pelos fatos
que chegamos à teoria. É verdade que isso nos exigiu um trabalho assíduo de
52 – Allan Kardec
vários anos e de milhares de observações; mas desde que os fatos nos
serviram e nos servem todos os dias, seríamos inconsequentes conosco
mesmo se contestássemos a sua importância, sobretudo quando compomos
um livro para torná-los conhecidos. Dizemos somente que, sem o raciocínio,
eles não bastam para determinar a convicção, e que uma explicação prévia —
destruindo os preconceitos e mostrando que os fatos não têm nada contrário
à razão — dispõe todos a aceitarem esses fatos. Isto é tão verdade que em
cada dez pessoas completamente novatas que assistam a uma sessão de
experimentação, ainda que fosse das mais satisfatórias sob o ponto de vista
dos adeptos, nove delas sairão sem estar convencidas e algumas sairão até
mais incrédulas do que antes, pois as experiências não terão correspondido às
expectativas dessas pessoas. Tudo será diferente com aquelas que puderem
se dar conta dos fatos através de um prévio conhecimento teórico; para estas,
é um meio de comprovação, mas nada as surpreende, nem mesmo o
insucesso, porque elas sabem em que condições os fenômenos se produzem e
que não se deve lhes pedir o que eles não podem dar. Desta forma, o
conhecimento antecipado dos fatos as coloca em condições não só de
perceberem todas as anomalias, como também lhes permite captar uma série
de detalhes, de particularidades às vezes muito sutis, que para essas pessoas
são meios de convicção, e que escapam ao observador ignorante. Tais são os
motivos que nos levam a só admitir em nossas sessões experimentais quem
possua noções preparatórias suficientes para compreender o que ali se faz,
certos de que os outros perderiam ali o seu tempo ou nos fariam desperdiçar
o nosso.
- Aos que quiserem adquirir esses conhecimentos preliminares pela leitura
das nossas obras, aqui está a ordem que lhes aconselhamos:
1ª O que é o espiritismo? – Essa brochura, de apenas uma centena de
páginas, contém uma breve exposição dos princípios da doutrina espírita,
uma visão geral que permite abarcar o conjunto num quadro restrito. Em
poucas palavras se vê o objetivo e é possível avaliar o seu alcance. Nela
também se encontram a resposta para as principais questões ou objeções
que os novatos naturalmente estão propensos a fazer. Essa primeira
53 – O Livro dos Médiuns
leitura, que requer pouquíssimo tempo, é uma introdução que facilita um
estudo mais aprofundado;
2ª O livro dos Espíritos – Contém a doutrina completa ditada pelos próprios
Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas consequências morais; é
a destinação desvelada do homem, a iniciação sobre a natureza dos
Espíritos e os mistérios da vida no além-túmulo. Lendo-o, compreende-se
que o espiritismo tem uma finalidade séria e não um é mero passatempo;
3ª O livro dos médiuns – É destinado a dirigir a prática das manifestações,
pelo conhecimento dos meios apropriados para se comunicar com os
Espíritos; é um guia, tanto para os médiuns quanto para os evocadores, e
o complemento do Livro dos Espíritos.
4ª Revista espírita – É uma coletânea variada de fatos, de explicações
teóricas e de artigos destacados que completam aquilo que é dito nas
duas obras anteriores, e que de certo modo é a sua aplicação. A leitura
pode ser feita a qualquer momento, porém será mais proveitosa e
sobretudo mais compreensível após a leitura do Livro dos Espíritos.15
Eis aqui o que nos concerne. Os que queiram conhecer tudo numa ciência
devem necessariamente ler tudo o que for escrito sobre tal assunto, ou pelo
menos as coisas principais, e não se limitar a um único autor; devem até ler o
pró e o contra, tanto as críticas quanto as apologias, inteirar-se das diferentes
teorias a fim de poder julgar pela comparação. Nesse sentido, não
recomendamos nem criticamos nenhuma obra, não querendo influenciar de
nenhum modo a opinião que se possa formar dela; trazendo nossa pedra ao
edifício, colocamo-nos nas fileiras: não nos cabe ser juiz e júri, nem temos a
ridícula pretensão de ser o único emissor da luz; é ao leitor que cabe fazer a
distinção do bom e do mau, do verdadeiro e do falso.
15 Além destas, recomendamos especialmente as seguintes obras do mesmo autor: O Evangelho
segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o
Espiritismo. E-books disponíveis gratuitamente em www.luzespirita.org.br — N. T.
54 – Allan Kardec
CAPÍTULO IV
SISTEMAS
- Quando os estranhos fenômenos do espiritismo começaram a se produzir,
ou, melhor dizendo, quando se renovaram nestes últimos tempos, o primeiro
sentimento que eles despertaram foi o da dúvida quanto à sua própria
realidade e, mais ainda, quanto à sua causa. Desde que foram averiguados por
testemunhos irrecusáveis e pelas experiências que todos puderam fazer,
aconteceu que cada pessoa os interpretou à sua maneira, de acordo com suas
ideias pessoais, suas crenças ou seus preconceitos; daí as várias teorias que
uma observação mais atenta reduziria ao seu justo valor.
Os adversários do espiritismo acreditaram encontrar um argumento
nessa divergência de opiniões, dizendo que os próprios espíritas não estariam
de acordo entre si. Essa foi uma razão bem pobre, se refletirmos que os passos
de qualquer ciência nascente são necessariamente incertos, até que o tempo
tenha permitido reunir e coordenar os fatos que possam firmar a opinião; à
medida que os fatos se completem e sejam mais bem observados, as ideias
prematuras desaparecem e a unidade se estabelece — pelo menos sobre os
pontos fundamentais, quando não sobre todos os detalhes. Foi o que ocorreu
com o espiritismo; ele não podia fugir da lei comum e, por sua natureza, tinha
mesmo que se prestar, mais do que a qualquer outra coisa, à diversidade das
interpretações. Podemos até dizer que, quanto a isso, ele foi mais rápido do
que outras ciências mais antigas — como a medicina, por exemplo, que ainda
divide os maiores estudiosos.
- Na ordem metódica, para acompanhar a marcha progressiva das ideias,
convém colocar na dianteira aqueles que podemos chamar de sistemas de
55 – O Livro dos Médiuns
negação, ou seja, aqueles dos adversários do espiritismo. Já refutamos suas
objeções na introdução e na conclusão do Livro dos Espíritos, assim como no
opúsculo intitulado O que é o espiritismo? Seria supérfluo insistir nisso aqui;
vamos nos limitar a recordar, em duas palavras, os motivos sobre os quais
eles se fundam.
Os fenômenos espíritas são de duas espécies: efeitos físicos e efeitos
inteligentes. Não admitindo a existência dos Espíritos — pela razão de não
admitirem nada fora da matéria — é compreensível que esses sistemas
neguem os efeitos inteligentes. Quanto aos efeitos físicos, eles comentam a
respeito, do ponto de vista deles, e os seus argumentos podem ser resumidos
nas quatro teorias seguintes:
- Teoria do charlatanismo – Entre os antagonistas, muitos atribuem tais
efeitos à fraude, porque alguns puderam ser imitados. Essa suposição
transformaria todos os espíritas em ludibriados e todos os médiuns seriam
ludibriadores, sem consideração pela posição, pelo caráter, pelo saber e pela
honradez das pessoas. Se isto merecesse resposta, diríamos que certos
fenômenos da física também são imitados pelos ilusionistas, e que isso nada
prova contra a verdadeira ciência. Ademais, há pessoas cujo caráter afasta
toda suspeita de fraude, e seria necessário ser desprovido de todo etiqueta e
de toda educação para ousar vir lhes dizer na cara que elas são cúmplices de
charlatanismo. Num salão muito respeitável, depois de um senhor
supostamente bem-educado se permitir fazer uma reflexão desse tipo, a dona
da casa lhe disse: “Senhor, já que não estais satisfeito, restituiremos vosso
dinheiro na saída”, e com um gesto lhe indicou o que tinha de melhor a fazer.
É de se afirmar com isso que jamais houve qualquer abuso? Para acreditar
nisso, seria preciso admitir que os homens são perfeitos. As pessoas abusam
de tudo, até das coisas mais sagradas; por que não abusariam do espiritismo?
Contudo, o mau uso que se possa fazer de uma coisa não pode fazer nada para
prejudicar a coisa em si; a noção que podemos ter da boa-fé das pessoas está
nos motivos que as fazem agir. Onde não há exploração o charlatanismo não
tem nada a ganhar.
56 – Allan Kardec
- Teoria da loucura – Alguns, por condescendência, até aceitam afastar a
suspeita de fraude, mas afirmam que aqueles que não são enganadores estão
iludindo a si mesmos — o que equivale a dizer que eles são imbecis. Quando
os incrédulos se importam menos com as formalidades, eles simplesmente
dizem que nós somos loucos, atribuindo então a si mesmos, e sem cerimônia,
o privilégio do bom senso. Este é o grande argumento daqueles que não têm
nenhuma boa razão para se opor. De resto, tal modo de ataque tornou-se
ridículo pela sua banalidade e não merece que percamos tempo para lhe
contestar. Os espíritas, aliás, não se alteram com isso e corajosamente tomam
seu partido, consolando-se ao lembrar que eles têm por companheiros de
infortúnio muitas pessoas cujo mérito não pode ser contestado. De fato, é
preciso convir que essa loucura — se loucura existe — tem uma característica
bem singular, que é a de atingir preferencialmente a classe instruída, dentro
da qual, até ao presente momento, o espiritismo conta a imensa maioria de
seus adeptos. Se nesse número encontram-se algumas excentricidades, elas
não provam nada contra a doutrina, assim como os loucos religiosos nada
provam contra a religião, nem os loucos melomaníacos contra a música, ou os
loucos matemáticos contra a matemática. Todas as ideias tiveram fanáticos
exagerados, mas seria preciso ser dotado de um senso muito obtuso para
confundir o exagero de uma coisa com a própria coisa. Para explicações mais
amplas sobre esse assunto, recomendamos a nossa brochura O que é o
espiritismo? e o Livro dos Espíritos (Introdução, questão 15). - Teoria da alucinação – Outra opinião — menos ofensiva, por trazer um
ligeiro colorido científico — consiste em colocar os fenômenos na conta de
ilusão dos sentidos; assim, o observador seria de muita boa-fé, e
simplesmente ele acreditaria estar vendo o que não vê. Quando ele vê uma
mesa se elevar e se manter no ar sem ponto de apoio, não é que a mesa tenha
se mexido de lugar, mas é que o observador a viu no ar por um tipo de
miragem, ou por efeito de uma refração, como a que nos faz ver um astro ou
um objeto qualquer refletido na água, fora da sua posição real. A rigor, isto
seria possível, mas aqueles que presenciaram esse fenômeno puderam
constatar a excepcionalidade do caso passando por baixo da mesa suspensa, o
57 – O Livro dos Médiuns
que parece difícil de se conseguir caso a mesa não tivesse saído do chão. Por
outro lado, muitas vezes tem ocorrido a mesa quebrar-se ao cair: vão dizer
também que isso não é mais do que um efeito de ótica?
Uma causa fisiológica bem conhecida pode indubitavelmente fazer com
que uma pessoa acredite ver mexer-se um objeto que não se moveu, ou crer
que ela própria esteja se movendo, mesmo ela estando imóvel; mas quando
várias pessoas em torno de uma mesa são levadas por um movimento tão
rápido que elas mal conseguem acompanhar, e que algumas delas às vezes são
jogadas no chão, então alguém poderia dizer que todas elas estariam sofrendo
de vertigem, como o bêbedo que acredita estar vendo sua casa passar por ele?
- Teoria do músculo estalante – Sendo assim no caso da visão, não poderia
ser de outro modo para a audição, e quando as pancadas são ouvidas por toda
uma assembleia, não há razoavelmente como atribui-las a uma ilusão.
Excluímos, é claro, qualquer ideia de fraude e presumimos que uma
observação atenta tenha constatado que tais pancadas não se devem a
nenhuma causa fortuita ou material.
É verdade que um sábio médico deu a esse fenômeno uma explicação
categórica, segundo ele, dizendo que: “A causa disso está nas contrações
voluntárias ou involuntárias do tendão do músculo fibular curto”.16 A
propósito desse assunto ele entra nos mais completos detalhes anatômicos
para demonstrar por qual mecanismo esse tendão pode produzir esses ruídos
para imitar os rufos do tambor e até executar árias ritmadas, concluindo daí
que aqueles que acreditam ouvir pancadas numa mesa estão sendo
enganados ou por uma mistificação ou por uma ilusão. O fato em si não é
novo; infelizmente para o autor dessa pretendida descoberta, sua teoria não
pode explicar todos os casos. Digamos, primeiramente, que aqueles que
gozam da estranha faculdade de fazer seu músculo fibular curto — ou
qualquer outro — estalar à vontade, e executar árias por esse meio, são
indivíduos excepcionais, enquanto o meio de produzir batidas nas mesas é
16 Sr. Jobert (de Lamballe). Para sermos justos, é preciso dizer que essa descoberta se deve ao Sr. Schiff;
dela, o Sr. Jobert desenvolveu as consequências, perante a Academia de medicina, para dar o golpe fatal
sobre os Espíritos batedores. Os detalhes disso encontram-se na Revista Espírita [artigo ‘Músculo
estalante’] do mês de junho de 1859 [E-book].
58 – Allan Kardec
mais comum, e que nem todos dispõem deste último modo dispõem do
primeiro outro. Em segundo lugar, o sábio doutor esqueceu-se de explicar
como o estalo muscular de uma pessoa inerte e isolada da mesa pode
produzir nesse móvel vibrações sensíveis ao toque; como pode esse ruído
repercutir à vontade dos assistentes nas diferentes partes da mesa, nos outros
móveis, nas paredes, no teto etc. e, enfim, como a ação desse músculo pode
atingir uma mesa em que ninguém toca, mas a faz se mover. Em suma, essa
explicação — se fosse de fato uma explicação — não invalidaria senão o
fenômeno das pancadas, mas não poderia responder a todos os outros modos
de comunicação. Então vamos concluir que ele julgou sem ter observado, ou
sem ter observado tudo ou observado bem. É sempre lamentável que homens
de ciência se apressem a falar do que não conhecem, explicações que os fatos
podem desmentir. O próprio conhecimento deles deveria torná-los ainda mais
cautelosos em seus juízos, tanto quanto lhes recua os limites do desconhecido.
- Teoria das causas físicas – Aqui, saímos do sistema da negação absoluta.
Sendo averiguada a realidade dos fenômenos, o primeiro pensamento que
naturalmente vem ao espírito daqueles que os reconheceram foi atribuir os
movimentos ao magnetismo, à eletricidade, ou à ação de um fluido qualquer;
numa palavra, a uma causa inteiramente física e material. Esta opinião nada
tem de irracional, e ela teria prevalecido se o fenômeno ficasse limitado aos
efeitos puramente mecânicos. Uma determinada circunstância até parecia
corroborá-la: o crescimento da força por causa do número das pessoas; com
isso, cada uma delas podia ser considerada como um dos elementos de uma
pilha elétrica humana. O que caracteriza uma teoria verdadeira, nós já
dissemos, é poder explicar tudo; mas se um só fato vier lhe contradizer, é que
ela é falsa, incompleta ou bastante autoritária. Ora, foi o que não tardou a
acontecer aqui. Esses movimentos e essas pancadas deram sinais inteligentes,
obedecendo à vontade e respondendo ao pensamento; portanto, deviam vir
de uma causa inteligente. Desde que o efeito deixou de ser puramente físico,
por isso mesmo a causa tinha que ter outra fonte; sendo assim, o sistema da
ação exclusiva de um agente material foi abandonado, e não é reconhecido
senão pelos que julgam a priori e sem ter visto. O ponto capital consiste então
59 – O Livro dos Médiuns
em constatar a ação inteligente, e é disso que pode ficar convencido qualquer
pessoa que quiser se dar ao trabalho de observar.
- Teoria do reflexo – Uma vez reconhecida a ação inteligente, restava saber
qual era a fonte dessa inteligência. Pensou-se que podia ser a do médium ou a
dos assistentes, que refletia como a luz ou os raios sonoros. Isso era possível:
só a experiência poderia dizer a última palavra. Mas, antes de tudo, notemos
que esse sistema já se afasta completamente da ideia puramente materialista;
para que a inteligência dos assistentes pudesse se reproduzir por via indireta,
seria preciso admitir no homem um princípio exterior ao organismo.
Se o pensamento externado fosse sempre o dos assistentes, a teoria da
reflexão estaria confirmada; mas o fenômeno — mesmo que reduzido a essa
proporção — já não seria do mais alto interesse? O pensamento repercutindo
num corpo inerte e se traduzindo pelo movimento e pelo ruído, isso já não
seria uma coisa muito notável? Já não haveria nisso o que atiçar a curiosidade
dos sábios? Por que então teriam desdenhado esse fato, eles que se esgotam à
procura de uma fibra nervosa?
Somente a experiência — nós dizemos — poderia dizer se essa teoria
tem ou não razão, e a experiência a reprovou, pois demonstra a cada instante
e pelos fatos mais positivos que o pensamento expresso pode ser, não apenas
estranho ao dos assistentes, mas que com frequência é totalmente contrário a
eles; que vem contradizer todas as ideias preconcebidas e frustrar todas as
previsões. Com efeito, quando eu penso branco e ele me responde preto, é
difícil acreditar que a resposta venha de mim mesmo. Costuma-se apoiar-se
em alguns casos de semelhança entre o pensamento manifestado e o dos
assistentes; mas, o que isso prova, senão que os assistentes podem pensar
igualmente à inteligência que se comunica? Eles não são obrigados a ter
sempre uma opinião oposta. Quando numa conversação o interlocutor emite
uma opinião semelhante à de vocês, hão de dizer por isso que esse
pensamento venha de vocês? Bastam alguns exemplos contrários bem
observados para comprovar que essa teoria não pode ser absoluta. Como
explicar, aliás, pelo reflexo do pensamento, a escrita produzida por pessoas
que não sabem escrever, respostas do mais alto alcance filosófico obtidas por
60 – Allan Kardec
indivíduos iletrados, aquelas respostas dadas a perguntas mentais ou num
idioma desconhecido do médium, e mil outros fatos que não podem deixar
dúvidas sobre a independência da inteligência que se manifesta? A opinião
contrária só pode ser o resultado de falta de observação.
Se a presença de uma inteligência estranha fica provada moralmente
pela natureza das respostas, também está materialmente provada pelo fato da
escrita direta, isto é, da escrita obtida espontaneamente, sem pena nem lápis,
sem contato e não obstante todas as precauções tomadas para se garantir
contra todo subterfúgio. O caráter inteligente do fenômeno não poderia ser
posto em dúvida; logo, há outra coisa além de uma ação fluídica. Depois, a
espontaneidade do pensamento expresso fora de toda expectativa, de toda
questão formulada, não permite ver nele um reflexo daquele dos assistentes.
O sistema do reflexo é bastante indelicado em certos casos; numa
reunião de pessoas honestas, quando surge repentinamente uma dessas
revoltantes comunicações de grosseria, seria cometer uma grave indelicadeza
para com os assistentes supor que tenha vindo de um deles, e é provável que
cada qual se apressaria em repudiá-la. (Veja Livro dos Espíritos, Introdução,
item XVI.)
- Teoria da alma coletiva – É uma variação da anterior. Segundo este
sistema, somente a alma do médium se manifesta, mas ela se identifica com a
de vários outros indivíduos, presentes ou ausentes, formando um todo
coletivo, reunindo as aptidões, a inteligência e os conhecimentos de cada um.
Apesar da brochura onde esta teoria está exposta seja intitulada a luz,17 ela
nos pareceu de um estilo muito obscuro; confessamos tê-la entendido pouco e
dela falamos unicamente para registro. Além disso, como outras tantas, essa é
uma opinião individual que tem poucos seguidores. O nome de Emah Tirpsé é
aquele que o autor utiliza para designar o ser coletivo que ele representa. Ele
toma por epígrafe: Não há nada de oculto que não deva ser conhecido. Esta
17 Communion. La lumière du phénomène de l’Esprit. Tables parlantes, somnambules, médiums,
miracles. Magnétisme spirituel : puissance de la pratique de la foi [Comunhão. A luz do fenômeno do
Espírito. Mesas falantes, sonâmbulos, médiuns, milagres. Magnetismo espiritual: força da prática da fé].
Por Émah Tirpsé, uma alma coletiva escrevendo pelo intermédio de uma prancheta. Bruxelas, 1858, na
livraria Devroye.
61 – O Livro dos Médiuns
proposição é evidentemente falsa, pois há uma imensidade de coisas que o
homem não pode e não deve saber; bem presunçoso seria aquele que
pretendesse penetrar todos os segredos de Deus.
- Teoria sonambúlica – Este sistema teve mais apoiadores e ainda conta
com alguns deles. Como a teoria anterior, ela admite que todas as
comunicações inteligentes têm sua origem na alma ou Espírito do médium;
mas, para explicar a aptidão do médium ao tratar de assuntos fora do âmbito
de seus conhecimentos, ao invés de supor nele a existência de uma alma
múltipla, atribui essa aptidão a uma sobre-excitação momentânea das
faculdades mentais, a uma espécie de estado sonambúlico ou extático, que
exalta e desenvolve a sua inteligência. Em certos casos, não se pode negar a
influência desta causa; porém, basta ter visto como a maioria dos médiuns
procede para se convencer que ela não pode resolver todas as ocorrências e
que é uma exceção, e não a regra. Poderíamos acreditar que seria assim se o
médium tivesse sempre a aparência de um inspirado ou de um extático,
aparência que aliás ele poderia perfeitamente simular se quisesse representar
uma comédia; mas como crer na inspiração quando o médium escreve como
uma máquina, sem ter a menor noção do que está obtendo, sem a menor
emoção, sem se importar com o que está fazendo, olhando para o outro lado,
rindo e conversando sobre uma coisa ou outra? Concebe-se a sobre-excitação
das ideias, mas não compreendemos que ela possa fazer uma pessoa escrever
sem saber escrever, e menos ainda quando as comunicações são transmitidas
por pancadas ou com o auxílio de uma prancheta ou de uma cesta. No
transcorrer desta obra nós veremos a parte que devemos dar à influência das
ideias do médium, mas os fatos em que a inteligência exterior se revela por
sinais incontestáveis são tão numerosos e evidentes que eles não podem
deixar dúvidas a esse respeito. O erro da maior parte das teorias levantadas
na origem do espiritismo é o de se ter tirado conclusões gerais de alguns fatos
isolados. - Teoria pessimista, diabólica ou demoníaca – Aqui nós entramos numa
outra ordem de ideias. Sendo comprovada a intervenção de uma inteligência
62 – Allan Kardec
estranha, tratava-se de saber qual era a natureza dessa inteligência. O meio
mais simples era sem dúvidas perguntar a ela mesma; contudo, algumas
pessoas não encontraram aí uma garantia suficiente e não quiseram ver em
todas as manifestações nada além de uma obra diabólica; segundo essas
pessoas, só o diabo ou os demônios podem se comunicar. Embora este
sistema encontre pouca repercussão atualmente, mesmo assim ele gozou por
um momento de algum crédito devido ao próprio caráter dos que tentaram
fazê-lo prevalecer. No entanto, faremos notar que os partidários do sistema
demoníaco não devem ser classificados entre os adversários do espiritismo,
mas ao contrário. Que os seres que se comunicam sejam demônios ou anjos,
eles são sempre seres incorpóreos; ora, admitir a manifestação dos demônios
é admitir sempre a possibilidade da comunicação com o mundo invisível, ou
pelo menos com uma parte desse mundo.
A crença na comunicação exclusiva dos demônios — por mais irracional
que ela seja — poderia não parecer impossível senão quando se via os
Espíritos como seres criados fora da humanidade; mas, já que sabemos que os
Espíritos não são outra coisa a não ser as almas daqueles que viveram, esta
crença perdeu todo o seu prestígio e, podemos até dizer, toda a sua
verossimilhança, porque se seguiria que todas essas almas seriam demônios,
fossem elas de um pai, de um filho ou de um amigo, e que nós mesmos ao
morrermos nos tornaríamos demônios — doutrina pouco agradável e pouco
consoladora para muita gente. Será bem difícil persuadir uma mãe de que o
seu filho querido, que ela perdeu e que depois da morte lhe vem dar provas de
sua afeição e de sua identidade, seja um suposto Satanás. É verdade que entre
os Espíritos há alguns muito malignos e que não valem mais do que aqueles
que chamamos de demônios, por uma razão bem simples: é que há homens
muito malignos e que a morte não os torna imediatamente melhores; a
questão é saber se estes são os únicos que podem se comunicar. Aos que
pensem assim, nós dirigimos as seguintes perguntas:
1ª – Há Espíritos bons e malignos?
2ª – Deus é mais poderoso do que os Espíritos malignos — ou demônios, se
assim quiserem lhes chamar?
63 – O Livro dos Médiuns
3ª – Afirmar que apenas os maus Espíritos se comunicam é dizer que os
bons não podem; se fosse assim, de duas coisas uma: isto ocorre pela
vontade ou contra a vontade de Deus. Se for contra a sua vontade, é que
os maus Espíritos são mais poderosos do que Deus; se for por sua
vontade, por que Deus, na sua bondade, não permitiria aos bons
contrabalancearem a influência dos outros?
4ª – Que provas vocês podem apresentar da impossibilidade dos bons
Espíritos de se comunicarem?
5ª – Quando a sabedoria de certas comunicações se opõe a vocês, então
vocês respondem que o demônio usa todas as máscaras para melhor
seduzir. De fato, sabemos que há Espíritos hipócritas que dão à sua
linguagem um falso tom de sabedoria; mas vocês admitiriam que a
ignorância possa falsificar o verdadeiro saber e que uma má natureza
falsifique a verdadeira virtude sem deixar nenhum vestígio que possa
detectar a fraude?
6ª – Se somente o demônio se comunica, já que ele é inimigo de Deus e dos
homens, por que ele recomendaria orar a Deus, submeter-se à vontade
divina, suportar sem murmúrios as tribulações da vida, não ambicionar
nem as honras nem as riquezas, praticar a caridade e todos os preceitos
do Cristo; numa palavra: fazer tudo o que é preciso para destruir o
império demoníaco? Se for o demônio quem dá tais conselhos, será
preciso concordar que, por mais tinhoso que seja, ele é bem atrapalhado
para fornecer armas contra ele mesmo.18
7ª – Já que os Espíritos se comunicam, é que Deus permite isso; vendo as
18 Esse tema foi tratado no Livro dos Espíritos (questão 128 e seguintes) mas, a sobre isso nós
recomendamos, como sobre tudo que toca à parte religiosa, a brochura intitulada Carta de um católico
sobre o espiritismo, do Sr. Dr. Grand, antigo cônsul da França (na livraria Ledoyen. In-18; preço 1
franco) assim como aquela que nós vamos publicar sob o título de: OS CONTRADITORES DO
ESPIRITISMO sob o ponto de vista da religião, da ciência e do materialismo.
[Nota do tradutor: na verdade, ao invés da publicação supramencionada, Allan Kardec
acabou publicando três obras distintas: O Evangelho segundo o Espiritismo, tratando das
contradições quanto à moral do Cristo; O Céu e o Inferno, tratando das contradições dos dogmas
religiosos; e A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, cuidando
especialmente das contradições científicas. Obras disponíveis em www.luzespirita.org.br.]
64 – Allan Kardec
boas e as más comunicações, não é mais lógico pensar que Deus permite
umas para nos experimentar e as outras para nos aconselhar ao bem?
8ª – O que vocês pensariam de um pai que deixasse o filho à mercê dos
exemplos e dos conselhos perniciosos, e que o afastasse de si e o
proibisse de ver as pessoas que pudessem desviá-lo do mal? O que um
bom pai não faria, devemos supor que Deus faça? Ele que é a bondade
por excelência, fazendo menos do que um homem faria?
9ª – A Igreja reconhece como autênticas certas manifestações da Virgem e
de outros santos, em aparições, visões, comunicações orais etc. Esta
crença não é contraditória com a doutrina da comunicação exclusiva dos
demônios?
Acreditamos que algumas pessoas tenham professado essa teoria de
boa-fé, mas também cremos que muitas o fizeram unicamente para evitar de
se ocuparem com tais coisas, por causa das comunicações desagradáveis que
estão expostas a receber; ao dizer que só o diabo se manifesta, elas queriam
assustar, como quando se diz a uma criança diz: Não toques nisto, porque isso
queima. A intenção pode ser louvável, mas o objetivo falhou, pois apenas
proibição excita a curiosidade, e o medo do diabo inibe pouquíssimas pessoas:
todos querem vê-lo, nem que seja para saber como ele é, e muitos ficam
espantados por não o acharem tão feio quanto o imaginavam.
E não se poderia também ver outro motivo nessa teoria exclusiva do
diabo? Há pessoas que acham que todos aqueles que não pensam como elas
estão errados; ora, os que supõem que todas as comunicações são obra do
demônio não seriam movidos pelo medo de não encontrar os Espíritos de
acordo com eles sobre todos os pontos, principalmente sobre aqueles que se
referem mais aos interesses deste mundo do que aos do outro? Não podendo
negar os fatos, quiseram apresentá-los sob uma maneira apavorante; mas
esse meio não produziu melhor resultado do que os outros. Onde o temor do
ridículo é impotente, necessário se faz deixar as coisas passarem.
O muçulmano que ouvisse um Espírito falar contra certas leis do Alcorão
seguramente pensaria que esse é um mau Espírito; aconteceria o mesmo com
um judeu no que diz respeito a certas práticas da lei de Moisés. Quanto aos
65 – O Livro dos Médiuns
católicos, ouvimos um deles afirmar que o Espírito que se comunica não podia
deixar de ser o diabo, por ter se permitido pensar de modo diverso do dele
acerca do poder temporal — se bem que, aliás, o Espírito tivesse pregado a
caridade, a tolerância, o amor ao próximo e a abnegação das coisas deste
mundo, preceitos todos ensinados pelo Cristo.
Como os Espíritos nada mais são do que as almas dos homens, e como os
homens não são perfeitos, isso implica que há Espíritos igualmente
imperfeitos, cujo caráter se reflete nas suas comunicações. É um fato
incontestável que entre eles existem Espíritos malvados, astuciosos,
profundamente hipócritas, e contra os quais devemos estar em guarda; mas
só porque encontramos neste mundo homens perversos, isto é motivo para
fugirmos de toda a sociedade? Deus nos deu a razão e o discernimento para
apreciarmos tanto os Espíritos quanto os homens. O melhor meio de se
prevenir contra os inconvenientes que a prática do espiritismo pode
apresentar não é proibi-la, mas torná-la compreendida. Um medo imaginário
só impressiona por um instante e não afeta todo mundo, enquanto a realidade
claramente demonstrada é compreendida por todos.
- Teoria otimista – Ao lado dos que não enxergam nesses fenômenos nada
além da ação do demônio, há outros que só viram a ação de bons Espíritos;
estes acharam que a alma, estando livre da matéria, não tinha mais nenhum
véu a lhe encobrir, e que, portanto, ela devia dispor da suprema ciência e
sabedoria. A confiança cega nessa superioridade absoluta dos seres do mundo
invisível tem sido para muitos a causa de muitas decepções; eles aprenderam
na prática a desconfiar de alguns Espíritos, como também de alguns homens. - Teoria uniespírita, ou monoespírita – Uma variedade da teoria otimista
consiste na crença de que um único Espírito se comunica com os homens,
sendo esse Espírito o Cristo, que é o protetor da Terra. Quando se vê
comunicações da mais baixa trivialidade, de uma revoltante grosseria,
repletas de malevolência e de maldade, seria profanação e impiedade supor
que elas pudessem emanar do Espírito do bem por excelência. Mesmo que os
que creem nisso só tivessem obtido mensagens irrepreensíveis, ainda assim
66 – Allan Kardec
conceberíamos a sua ilusão; todavia, a maioria deles concorda em que eles
têm recebido algumas comunicações muito ruins — pelo que eles explicam
dizendo ser uma provação a que o bom Espírito os sujeita, ditando-lhes coisas
absurdas: assim, enquanto uns atribuem todas as comunicações ao diabo, que
pode dizer coisas boas para tentar, outros pensam que só Jesus se manifesta, e
que ele pode dizer coisas detestáveis como experimentação. Entre estas duas
opiniões tão inversas, quem decidirá? O bom senso e a experiência. Dizemos a
experiência, pois é impossível que os que professam ideias tão exclusivas
tenham visto tudo e observado bem.
Quando eles são contestados pelos fatos de identidade que atestam a
presença de parentes, amigos ou conhecidos, através de manifestações
escritas, visuais ou outras, então eles respondem que é sempre o mesmo
Espírito — o diabo, segundo alguns; o Cristo, segundo outros — que assume
todas as formas; mas não explicam por que os outros Espíritos não podem se
comunicar, nem explicam com que objetivo o Espírito de verdade viria nos
enganar ao se apresentar sob falsas aparências, abusar de uma pobre mãe lhe
fazendo crer erradamente que ele é o filho dela, por quem essa mãe chora. A
razão se recusa a admitir que o Espírito Santo desça entre todos para
representar tal comédia. A propósito, negar a possibilidade de qualquer outra
comunicação não seria privar o espiritismo daquilo que tem de mais doce, que
é a consolação dos aflitos? Digamos apenas que esta teoria é irracional e não
pode suportar um exame sério.
- Teoria multiespírita ou poliespírita – Sobre os sistemas que revisamos,
sem excluir aqueles que estão no sentido negativo, todos se fundamentam em
algumas observações, porém incompletas ou mal interpretadas. Se uma casa
for vermelha de um lado e branca do outro, aquele que tiver visto apenas um
lado afirmará que ela é vermelha, ou que é branca: ambos estarão certos e
errados ao mesmo tempo, mas aquele que tiver visto esta casa pelos dois
lados dirá que ela é vermelha e branca, e apenas este estará com a verdade. O
mesmo acontece com relação à opinião que se faz do espiritismo: ela pode ser
verdadeira em certos casos e falsa se generalizarmos o que é apenas parcial,
se tomarmos como regra o que não passa de exceção, como o todo por aquilo
67 – O Livro dos Médiuns
que é apenas uma parte. É por isso que nós dizemos que quem queira estudar
seriamente esta ciência deve observar bem e durante muito tempo; só o
tempo lhe permitirá apreender os detalhes, notar os pormenores delicados,
observar um monte de fatos característicos que lhe serão raios de luz; mas se
ele ficar na superfície, estará exposto a formular um julgamento prematuro e,
por consequência, errôneo. Eis as consequências gerais deduzidas de uma
observação completa e que agora formam a crença — pode-se dizer — da
universalidade dos espíritas, visto que os sistemas restritivos não passam de
opiniões insuladas:
1ª – Os fenômenos espíritas são produzidos por inteligências
extracorporais, isto é, por Espíritos;
2ª – Os Espíritos constituem o mundo invisível; eles estão por toda parte;
os espaços são povoados por eles ao infinito; há muitos deles ao nosso
redor com os quais estamos constantemente em contato;
3ª – Os Espíritos reagem incessantemente no mundo físico e no mundo
moral, e são uma das potências da natureza;
4ª – Os Espíritos não são seres à parte da criação, mas sim as almas dos que
viveram na Terra ou em outros mundos, e que deixaram seu invólucro
corporal; donde se conclui que as almas dos homens são Espíritos
encarnados e que, ao morrermos, nós nos tornamos Espíritos;
5ª – Há Espíritos de todos os graus de bondade e de malícia, de saber e de
ignorância;
6ª – Todos eles estão submetidos à lei do progresso e todos podem chegar à
perfeição; mas, como têm seu livre-arbítrio, eles chegam lá em um
tempo mais ou menos longo conforme seus próprios esforços e vontade;
7ª – Eles são felizes ou infelizes de acordo com o bem ou o mal que
praticaram durante a vida e com o grau de avanço que tiverem
percorrido. A felicidade perfeita e sem mescla só é compartilhada pelos
Espíritos que já chegaram ao grau supremo de perfeição;
8ª – Em certas circunstâncias, todos os Espíritos podem se manifestar aos
homens; o número dos que podem se comunicar é infinito;
68 – Allan Kardec
9ª – Os Espíritos se comunicam através dos médiuns, que lhes servem de
instrumentos e intérpretes;
10ª – Reconhecemos a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos pela
linguagem deles; os bons só aconselham o bem e não dizem senão coisas
boas: tudo neles confirma sua elevação; os maus enganam, e todas as
suas palavras trazem o cunho da imperfeição e da ignorância.
Os diferentes graus que os Espíritos percorrem estão indicados na
Escala Espírita (Livro dos Espíritos, parte II, capítulo I, item 100). O estudo
dessa classificação é indispensável para apreciar a natureza dos Espíritos que
se manifestam, assim como suas boas e más qualidades.
- Teoria da alma material – Consiste unicamente numa opinião particular
sobre a natureza íntima da alma. Segundo esta opinião a alma e o perispírito
não seriam duas coisas distintas, ou, melhor dizendo, o perispírito não seria
mais do que a própria alma, a se depurar gradualmente por meio das diversas
transmigrações, como o álcool se depura por meio de diversas destilações, ao
passo que a doutrina espírita considera o perispírito simplesmente como o
envoltório fluídico da alma, ou do Espírito. Como o perispírito é matéria —
conquanto muito etérea — a alma também seria de uma natureza material
mais ou menos essencial na proporção do grau da sua purificação.
Este sistema não desmente nenhum dos princípios fundamentais da
doutrina espírita, pois ele não muda nada com relação à destinação da alma;
as condições de sua felicidade futura são as mesmas; a alma e o perispírito
formando uma unidade, sob o nome de Espírito, como o gérmen e o
perisperma formam um conjunto sob o nome de fruto, então toda a questão se
reduz a considerar a unidade como homogênea, em vez de ser formado de
duas partes distintas.
Como se vê, isto não leva a nenhuma consequência e não teríamos falado
dessa teoria se não tivéssemos encontrado pessoas levadas a ver uma nova
escola no que definitivamente não é mais do que uma simples interpretação
de palavras. Esta opinião — muito restrita, aliás, e ainda que fosse mais aceita
— não constituiria uma cisão entre os espíritas, assim como as duas teorias
da emissão e das ondulações da luz não formam uma cisão entre os físicos. Os
69 – O Livro dos Médiuns
que quisessem formar um grupo à parte por uma questão tão pueril, só por
isso, provariam que dão mais importância ao acessório do que à coisa
principal, e que eles estariam empenhados à desunião por Espíritos que não
podem ser bons, porque os bons Espíritos jamais incentivam a intriga e a
cizânia; daí por que nós convocamos todos os verdadeiros espíritas a se
manterem em guarda contra sugestões desse tipo, e a não darem a
determinadas minúcias mais importância do que elas merecem; o essencial é
o fundamento.
Entretanto, acreditamos ter a obrigação de dizer algumas palavras sobre
em que se apoia a opinião daqueles que consideram a alma e o perispírito
como duas coisas diferentes. Ela está fundada no ensino dos Espíritos que
jamais divergiam a esse respeito; estamos falando dos Espíritos esclarecidos,
porque entre eles há alguns que não sabem mais do que os homens, e alguns
sabem até menos, enquanto a teoria contraria é uma concepção humana. Nós
nem inventamos nem supomos o perispírito para explicar os fenômenos; sua
existência nos foi revelada pelos Espíritos, e ela nos foi confirmada pela
observação (Livro dos Espíritos, questão 93). Ela também se apoia no estudo
das sensações dos Espíritos (Livro dos Espíritos, questão 257) e, sobretudo,
no fenômeno das aparições tangíveis que, segundo a outra opinião, implicaria
na solidificação e na desagregação das partes constitutivas da alma e, por
consequência, na sua desorganização. Além disso, seria preciso admitir que
essa matéria, que pode ser percebida pelos nossos sentidos, é ela própria o
princípio inteligente, o que não nos parece mais racional do que confundir o
corpo com a alma, ou a roupa com o corpo. Quanto à natureza intima da alma,
ela nos é desconhecida. Quando se diz que a alma é imaterial, deve-se
entender isso em sentido relativo, e não em sentido absoluto, porque a
imaterialidade absoluta seria o nada; ora, a alma, ou o Espírito, é alguma
coisa; quer dizer que sua essência é tão superior que ela não tem nenhuma
analogia com o que nós chamamos matéria, e que assim, para nós, ela é
imaterial. (Livro dos Espíritos, questões 23 e 82).
- Eis aqui a resposta que um Espírito deu sobre este assunto:
“Aquilo que alguns nomeiam perispírito não é outra coisa senão o que
70 – Allan Kardec
outros chamam envoltório material fluídico. Eu direi, para me fazer
compreendido de um modo mais lógico, que esse fluido é a perfectibilidade
dos sentidos, a extensão da vista e das ideias; falo aqui dos Espíritos elevados.
Quanto aos Espíritos inferiores, os fluidos terrestres ainda lhe são
completamente inerentes; portanto, é matéria, como vocês podem ver; daí
vêm os sofrimentos da fome, do frio etc., sofrimentos que não podem atingir
os Espíritos superiores, visto que os fluidos terrestres são purificados em
torno do pensamento — isto é, da alma. Para progredir, a alma necessita
sempre de um agente; a alma sem esse agente não é nada para vocês, ou,
melhor dizendo, não pode ser concebida por vocês. O perispírito para nós,
Espíritos errantes, é o agente pelo qual nos comunicamos convosco, seja
indiretamente por vosso corpo ou vosso perispírito, seja diretamente à vossa
alma; donde resultam as infinitas variedades de médiuns e de comunicações.
Agora resta o ponto de vista científico, quer dizer, a própria essência do
perispírito — o que é outra questão. Compreendam primeiro moralmente;
então não resta mais do que uma discussão sobre a natureza dos fluidos, coisa
inexplicável para este momento; a ciência ainda não conhece o bastante, mas
nós chegaremos lá se a ciência quiser caminhar com o espiritismo. O
perispírito pode variar e mudar infinitamente; a alma é o pensamento: não
muda de natureza; neste aspecto, ele não vai mais longe; este é um ponto que
não pode ser explicado. Por acaso vocês pensam que eu também não estou
pesquisando, assim como vocês? Por vossa vez, vocês estão pesquisando o
perispírito; por nossa vez, nós agora pesquisamos a alma. Então, esperem.”
LAMENNAIS
Desta maneira, se os Espíritos que podemos considerar como avançados
ainda não puderam sondar a natureza da alma, como é que nós mesmos
poderíamos conseguir isso? Portanto, é perder vosso tempo querer escrutinar
o princípio das coisas que — como está dito em o Livro dos Espíritos
(questões 17 e 49) — está nos segredos de Deus. Pretender explorar com o
auxílio do espiritismo aquilo que ainda não está ao alcance da humanidade é
desviá-lo do seu verdadeiro objetivo; é fazer como uma criança que quisesse
saber tanto quanto o ancião. Que o homem direcione o espiritismo para o seu
melhoramento moral — isto é o essencial; o restante não passa de uma
71 – O Livro dos Médiuns
curiosidade estéril e muitas vezes orgulhosa, cuja satisfação não o faria
adiantar um passo; o único meio de avançar é o de nos tornarmos melhores.
Os Espíritos que ditaram o livro que traz os seus nomes demonstraram a sua
sabedoria em se mantendo — no que se refere ao princípio das coisas —
dentro dos limites que Deus não permite ultrapassar, deixando aos Espíritos
sistemáticos e presunçosos a responsabilidade das teorias prematuras e
equivocadas, mais sedutoras do que sólidas, e que um dia tombarão diante da
razão, como tantas outras que saíram dos cérebros humanos. Eles só
disseram justamente o que era preciso para fazer o homem compreender o
futuro que o aguarda e, por isso, para encorajá-lo ao bem (Veja mais adiante
nesta obra, 2ª parte, cap. I: Ação dos Espíritos sobre a matéria).
72 – Allan Kardec
SEGUNDA PARTE
MANIFESTAÇÕES
ESPÍRITAS
73 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO PRIMEIRO
AÇÃO DOS ESPÍRITOS
SOBRE A MATÉRIA
- A opinião materialista estando descartada — depreciada tanto pela razão
quanto pelos fatos — tudo se resume em saber se a alma depois da morte
pode se manifestar aos vivos. A questão, sendo assim reduzida à sua
expressão mais simples, fica singularmente esclarecida. De início, nós
poderíamos indagar por que os seres inteligentes — que de certo modo vivem
no nosso meio, embora invisíveis por natureza — não poderiam nos atestar
sua presença de nenhuma maneira. A simples razão diz que não há
absolutamente nada de impossível nisso, e isso já é alguma coisa. Além do
mais, esta crença tem a seu favor a aceitação de todos os povos, pois a
encontramos em toda parte e em todas as épocas; ora, uma intuição qualquer
não poderia ser tão generalizada nem sobreviver ao tempo se não se
fundamentasse sobre alguma coisa. E ela ainda é sancionada pelo testemunho
dos livros sagrados e pelos pais da Igreja, tendo sido necessários o cepticismo
e o materialismo do nosso século para relegá-la entre as ideias supersticiosas;
se estivéssemos errados, aquelas autoridades igualmente estariam.
Mas, isso não vai além de considerações morais. Principalmente uma
causa tem contribuído para fortalecer a dúvida numa época tão positiva como
a nossa, em que se quer estar ciente de tudo, em que se quer saber o porquê e
o como de cada coisa: essa causa é a ignorância da natureza dos Espíritos e
dos meios pelos quais eles podem se manifestar. Uma vez adquirido o
conhecimento, o fato das manifestações nada mais tem de surpreendente e
entra na ordem dos fatos naturais.
74 – Allan Kardec
- A ideia que geralmente se faz dos Espíritos à primeira vista torna o
fenômeno das manifestações incompreensível. Tais manifestações não podem
acontecer a não ser por uma ação do Espírito sobre a matéria; é por isso que
aqueles que acham que o Espírito é a ausência de toda matéria se perguntam,
com certa aparência de razão, como é que ele pode agir materialmente. Ora, aí
está o erro, pois o Espírito não é uma abstração, mas é um ser definido,
limitado e circunscrito. O Espírito encarnado no corpo constitui a alma;
quando deixa o corpo físico após a morte, ele não sai daí despido de todo
envoltório. Todos eles nos dizem que conservam a forma humana e, de fato,
quando nos aparecem, é sob a forma que nós os conhecíamos.
Observemos atentamente no instante em que eles deixam a vida; eles
estão num estado de perturbação e tudo é confuso no entorno deles; olham o
corpo saudável ou mutilado dependendo do gênero da morte, mas por outro
lado eles se veem e se sentem vivos; alguma coisa lhes diz que aquele corpo é
deles, então não compreendem como podem estar separados dele. Continuam
se vendo sob a sua forma anterior e, durante certo tempo, essa visão produz
em alguns uma estranha ilusão: achar que ainda estão vivos. Falta-lhes a
experiência de sua nova situação para se convencerem da realidade. Passado
esse primeiro momento de perturbação, o corpo se torna para eles uma roupa
velha da qual se despiram e da qual não sentem saudades; sentem-se mais
leves e aliviados de um fardo, pois não experimentam mais as dores físicas e
se ficam inteiramente felizes por poderem se elevar, transpor o espaço, assim
como muitas vezes o fizeram enquanto vivos durante seus sonhos.19
Entretanto, apesar da ausência do corpo eles constatam sua personalidade;
eles têm uma forma, mas uma forma que não os incomoda nem os constrange;
têm, enfim, a consciência de seu eu e de sua individualidade. O que podemos
concluir daí? Que a alma não deixa tudo no caixão funerário, mas sim que ela
leva alguma coisa consigo.
19 Se bem quiserem consultar o que dissemos no Livro dos Espíritos sobre os sonhos e o estado do
Espírito durante o sono (questões 400 a 418) então entenderão que esses sonhos que quase tudo o
mundo tem, nos quais a pessoa se vê atravessando o espaço como que voando, não são outra coisa além
de uma lembrança da sensação experimentada pelo Espírito, enquanto, durante o sono, ele havia
deixado momentaneamente seu corpo material, levando consigo apenas seu corpo fluídico, aquele que
conservará após a morte. Portanto, esses sonhos podem nos dar uma ideia da situação do Espírito
quando estiver desprendido dos entraves que o retêm ao chão.
75 – O Livro dos Médiuns
- Numerosas observações e fatos irrecusáveis (dos quais falaremos mais
tarde) levaram a essa consequência, de que há no homem três coisas: 1°) a
alma, ou Espírito, princípio inteligente onde reside o senso moral; 2°) O corpo,
envoltório grosseiro, material, de que ele se revestiu temporariamente para o
cumprimento de certos desígnios providenciais; 3°) o perispírito, envoltório
fluídico, semimaterial, servindo de ligação entre a alma e o corpo.
A morte é a destruição, ou melhor, a desagregação do envoltório
grosseiro, o qual a alma abandona; o outro se desliga deste e acompanha a
alma, que então sempre fica com um envoltório; este último, ainda que
fluídico, etéreo, vaporoso, invisível para nós em seu estado normal, não deixa
de ser matéria, embora até hoje não tenhamos conseguido apanhá-lo para
submetê-lo à análise.
Esse segundo invólucro da alma — o perispírito — existe então durante
a vida corporal; é o intermediário de todas as sensações que o Espírito
percebe e pelo qual o Espírito transmite sua vontade ao exterior e age sobre
os órgãos. Para nos servirmos de uma comparação material, ele é o fio elétrico
condutor que serve para a recepção e a transmissão do pensamento; enfim, é
esse agente misterioso e imperceptível, designado pelo nome de fluido
nervoso, que desempenha tão grande papel no organismo e que ainda não se
leva muito em conta nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Considerando
tão somente o elemento material ponderável, a medicina se priva de uma
causa incessante de ação na apreciação dos fatos. Porém, aqui não é o lugar de
examinar essa questão; somente faremos notar que o conhecimento do
perispírito é a chave de uma ruma de problemas até então inexplicados.
O perispírito não é uma dessas hipóteses das quais algumas vezes se
recorre na ciência para a explicação de um fato; a sua existência não foi
revelada apenas pelos Espíritos, mas é um resultado das observações, como
teremos ocasião de demonstrar. Por ora, e para não nos anteciparmos aos
fatos que havemos de relatar, vamos nos limitar a dizer que, seja durante a
sua união com o corpo, seja após sua desunião, a alma nunca está separada do
seu perispírito.
- Dizemos que o Espírito é uma chama, uma centelha; isto deve ser
76 – Allan Kardec
entendido com relação ao Espírito propriamente dito, como o princípio
intelectual e moral, ao qual não poderíamos atribuir uma forma determinada;
mas, qualquer que seja o grau em que se encontre, ele sempre é revestido de
um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza à medida que ele se
depura e se eleva na hierarquia; de tal sorte que, para nós, a ideia de forma é
inseparável da ideia do Espírito, e que não concebemos uma sem a outra.
Portanto, o perispírito é parte integrante do Espírito, como o corpo faz parte
do homem; mas o perispírito não é o Espírito, assim como o corpo não é o
homem, porque o perispírito não pensa; ele é para o Espírito aquilo que o
corpo é para o homem: é um agente, um instrumento de sua ação.
- A forma do perispírito é a forma humana, e, quando ele nos aparece,
geralmente é sob a forma pela qual conhecíamos o Espírito quando ele estava
encarnado. A partir disso, poderíamos crer que, desprendido de todas as
partes do corpo, o perispírito de certa maneira modela-se pelo corpo e
conserva a sua impressão; mas não parece que seja assim. A forma humana —
salvo algumas nuances de detalhes e salvo as modificações orgânicas
necessárias para o meio no qual o ser é chamado a viver — é encontrada nos
habitantes de todos os globos; pelo menos, é o que dizem os Espíritos; essa é
igualmente a forma de todos os Espíritos não encarnados e que possuem
apenas o perispírito; aquela sob a qual em todos os tempos nós temos
representado os anjos, ou Espíritos puros. Disso devemos concluir que a
forma humana é a forma típica de todos os seres humanos, seja qual for o
grau a que pertençam. Mas a matéria sutil do perispírito não tem a constância
nem a rigidez da matéria compacta do corpo; ela é — se assim podemos nos
exprimir — é flexível e expansível; é por isso que a forma que ela assume,
embora calcada pela forma do corpo, não é absoluta, mas ela obedece à
vontade do Espírito, que lhe pode dar esta ou aquela aparência ao seu gosto,
enquanto o invólucro sólido lhe oferece uma resistência intransponível. Livre
desse entrave que o comprimia, o perispírito se expande ou se contrai,
mudando sua forma; numa palavra, presta-se a todas as metamorfoses de
acordo com a vontade que age sobre ele. Por consequência dessa propriedade
do seu envoltório fluídico é que o Espírito que quer se fazer reconhecido —
77 – O Livro dos Médiuns
quando isso for necessário — então assume a aparência exata que ele tinha
quando estava vivo, até mesmo com os acidentes corporais que possam ser
sinais para o reconhecimento.
Como se vê, os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, formando à
nossa volta toda uma população invisível no estado normal; dizemos no
estado normal porque, conforme veremos, essa invisibilidade não é absoluta.
- Voltemos à natureza do perispírito, porque isso é essencial para a
explicação que temos de dar. Temos dito que, embora fluídico, o perispírito
não deixa de ser uma espécie de matéria, e isso decorre do fato das aparições
tangíveis, a qual voltaremos. Temos visto, sob a influência de certos médiuns,
aparecerem mãos tendo todas as propriedades de mãos vivas, que tem o
calor, que podem ser tocadas, que oferecem a resistência de um corpo sólido,
que se agarram e que de repente desaparecem como uma sombra. A ação
inteligente dessas mãos — que evidentemente obedecem a uma vontade,
executando certos movimentos, tocando até melodias num instrumento
musical — prova que elas são uma parte visível de um ser inteligente
invisível. Sua tangibilidade, sua temperatura e, enfim, a impressão que
causam aos sentidos — pois temos visto elas deixarem marcas na pele, dar
pancadas dolorosas ou acariciar delicadamente — provam que essas mãos
são de uma matéria qualquer. Seu desaparecimento instantâneo prova
também que essa matéria é eminentemente sutil e se comporta como certas
substâncias que podem alternativamente passar do estado sólido ao estado
fluídico e reciprocamente. - A natureza íntima do Espírito propriamente dito, isto é, do ser pensante,
nos é completamente desconhecida; ela só se revela para nós por seus atos, e
seus atos não podem afetar nossos sentidos a não ser por um intermediário
material. Portanto, o Espírito precisa de matéria para atuar sobre a matéria.
Ele tem por instrumento direto o seu perispírito, assim como o homem tem o
seu corpo; ora, seu perispírito é uma matéria, conforme acabamos de ver.
Consequentemente, ele tem por agente intermediário o fluido universal —
espécie de veículo sobre o qual ele atua, como nós atuamos sobre o ar para
78 – Allan Kardec
produzir certos efeitos através da dilatação, da compressão, da propulsão ou
das vibrações.
Encarando dessa maneira, a ação do Espírito sobre a matéria pode ser
concebida facilmente; compreendemos desde então que todos os efeitos que
daí resultam entram na ordem dos fatos naturais e nada têm de maravilhosos.
Eles pareceriam sobrenaturais somente porque não conhecíamos sua causa;
conhecida a causa, o maravilhoso desaparece, e essa causa está inteiramente
nas propriedades semimateriais do perispírito. Essa é uma ordem nova de
fatos que uma nova lei vem explicar e dos quais, em breve, ninguém mais se
admirará, como ninguém hoje se admira de se corresponder à distância em
alguns minutos por meio da eletricidade.
- Talvez alguém pergunte como o Espírito, por meio de uma matéria tão
sutil, pode atuar sobre corpos pesados e compactos, levantar mesas etc.
Seguramente não seria um homem de ciência quem fizesse tal objeção, pois,
sem falar das propriedades desconhecidas que esse novo agente pode ter, nós
não temos sob nossas vistas alguns exemplos parecidos? Não é nos gases mais
rarefeitos e nos fluidos imponderáveis que a indústria encontra os seus
motores mais possantes? Quando vemos o ar derrubando edifícios, o vapor
arrastando massas enormes, a pólvora gaseificada levantando rochas, a
eletricidade lascando árvores e perfurando paredes, então não há mais nada
de estranho em admitirmos que o Espírito — com o auxílio do seu perispírito
— possa levantar uma mesa, e sobretudo quando sabemos que esse
perispírito pode tornar-se visível, tangível e se comportar como um corpo
sólido?
79 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO II
MANIFESTAÇÕES FÍSICAS
– MESAS GIRANTES
- Dá-se o nome de manifestações físicas àquelas que se traduzem por
efeitos sensíveis, tais como ruídos, movimento e deslocamento de corpos
sólidos. Algumas são espontâneas, quer dizer, independentes de qualquer
vontade; outras podem ser provocadas. Primeiramente, só falaremos destas
últimas.
O efeito mais simples e um dos primeiros que foram observados consiste
no movimento circular empregado a uma mesa. Este efeito igualmente se
produz com qualquer outro objeto, mas como a mesa é o que mais foi usado,
porque era o mais cômodo, o nome de mesas girantes prevaleceu para a
designação desse tipo de fenômeno.
Quando dizemos que esse efeito foi um dos primeiros que têm sido
observados, queremos dizer nestes últimos tempos, porque é bem certo que
todos os gêneros de manifestações eram conhecidos desde os tempos mais
remotos — e não poderia ser de outra maneira. Tertuliano20 fala das mesas
girantes e falantes em termos explícitos.
Durante algum tempo esse fenômeno alimentou a curiosidade dos
salões, depois o largaram para passar a outras distrações — pois não passava
de uma distração. Duas causas contribuíram para o abandono das mesas
girantes: a moda das pessoas frívolas, que raramente dedicam dois invernos
ao mesmo divertimento, mas que para tais fenômenos ainda deram três ou
20 Tertuliano (160-220) foi um importante teólogo cristão em Cartago (hoje, Tunísia) que muito
influenciou a doutrina católica. — N. T.
80 – Allan Kardec
quatro meses — uma coisa prodigiosa para eles! Já para as pessoas sérias e
observadoras, dali saiu uma coisa grave que prevaleceu; se eles desprezaram
as mesas girantes, foi porque se ocuparam com as consequências bem mais
importantes em seus resultados: trocaram o alfabeto pela ciência; eis todo o
segredo desse aparente abandono pelo qual os zombadores tanto fazem
barulho.
Seja como for, as mesas girantes não deixam de ser o ponto de partida da
doutrina espírita e, a esse respeito, devemos algumas explicações, ainda mais
que, mostrando os fenômenos na sua maior simplicidade, o estudo das causas
ficará mais fácil e a teoria, uma vez firmada, nos dará a chave dos efeitos mais
complicados.
- Para a realização do fenômeno é preciso a intervenção de uma ou muitas
pessoas dotadas de uma aptidão, a quem designamos pelo nome de médiuns.
O número dos cooperadores é indiferente, a não ser que nessa quantidade
possam se encontrar alguns médiuns desconhecidos. Quanto àqueles cuja
mediunidade seja nula, sua presença é sem nenhum efeito, e às vezes até mais
prejudicial do que útil, pela disposição de espírito que eles trazem.
Nesse aspecto, os médiuns dispõem uma força maior ou menor e por
isso produzem efeitos mais ou menos evidentes; às vezes uma pessoa,
médium poderoso, produzirá sozinha mais do que outros vinte médiuns
juntos; basta-lhe colocar as mãos na mesa para que no mesmo instante ela se
mova, levante, vire-se, dê saltos ou gire com violência.
- Não existe nenhum indício para a capacidade medianímica; só a
experiência pode reconhecê-la. Quando numa reunião alguém quer testá-la,
basta simplesmente todos sentarem-se ao redor da mesa e colocarem as mãos
espalmadas, sem pressão nem contenção muscular. No princípio, como se
ignorava as causas do fenômeno, recomendava-se várias precauções depois
reconhecidas absolutamente inúteis; tal era, por exemplo, a alternação dos
sexos ou também o contato entre os dedos mínimos das diferentes pessoas,
de modo a formar uma corrente ininterrupta. Esta derradeira precaução
parecia necessária quando se acreditava na ação de uma espécie de corrente
81 – O Livro dos Médiuns
elétrica; posteriormente a experiência demonstrou sua inutilidade. A única
prescrição rigorosamente obrigatória é o recolhimento, um silêncio absoluto
e, sobretudo, a paciência caso o efeito demorar. Pode acontecer que ele se
produza em alguns minutos, como pode tardar meia hora ou uma hora; isso
depende da força medianímica dos coparticipantes.
- Digamos ainda que a forma da mesa, a substância da qual ela seja feita, a
presença de metais, da seda nas roupas dos assistentes, os dias, as horas, a
escuridão ou a luz, etc., todas essas coisas são tão indiferentes quanto a chuva
ou o bom tempo. Apenas o volume da mesa tem alguma coisa a ver, mas
somente no caso em que a força medianímica seria insuficiente para vencer a
sua resistência; no caso contrário, uma única pessoa, até uma criança, pode
fazer levantar uma mesa de cem quilos, ao passo que, em condições menos
favoráveis, doze pessoas não fariam mover a menor mesinha de centro.
Estando as coisas nessa situação, quando o efeito começa a se
manifestar, geralmente se ouve um pequeno estalo na mesa; sente-se como
que um tremor, que é o prelúdio do movimento; a mesa parece fazer esforços
para dar partida, e depois o movimento de rotação se anuncia, acelera ao
ponto de adquirir uma rapidez tal que os assistentes têm toda a dificuldade
do mundo para acompanhá-lo. Uma vez estabelecido o movimento, pode-se
até se afastar da mesa, que continua a se mover em diversas direções, sem
contato.
Noutras circunstâncias, a mesa se ergue e fica apoiada ora num pé, ora
em outro, depois retoma suavemente sua posição natural. Noutras vezes ela
balança imitando o movimento do vai e vem de um navio. Doutras vezes,
enfim — conquanto neste caso seja necessária uma força medianímica
considerável — a mesa se destaca completamente do solo e se mantém em
equilíbrio no espaço sem nenhum ponto de apoio, não raro se levantando até
o teto, de tal modo que se possa passar por baixo dela; em seguida ela desce
lentamente, balançando-se como faria uma folha de papel, ou então cai
violentamente e se quebra, o que prova de uma maneira patente que não
somos joguetes de uma ilusão de ótica.
82 – Allan Kardec
- Outro fenômeno que se produz muito habitualmente, de acordo com a
natureza do médium, é o das pancadas no próprio tecido da madeira, sem
nenhum movimento da mesa; essas pancadas — às vezes muito fracas, outras
vezes bastante fortes — se fazem ouvir também nos outros móveis do
apartamento, nas portas, nas paredes e no forro. Voltaremos a esta questão
em breve. Quando acontecem na mesa, elas aí produzem uma vibração muito
perceptíveis pelos dedos, e sobretudo muito distinta quando lhe aplicamos o
ouvido.
83 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO III
MANIFESTAÇÕES
INTELIGENTES
- Pelo que acabamos de ver, é certo que nada revela a intervenção de uma
força oculta, e esses efeitos poderiam perfeitamente ser explicados pela ação
de uma corrente magnética ou elétrica, ou ainda pela de um fluido qualquer.
Realmente, essa foi a primeira solução dada a tais fenômenos e que, com
razão, podia passar por muito lógica. Sem dúvidas ela teria prevalecido se
outros fatos não tivessem vindo demonstrar sua incapacidade; estes fatos são
as provas da inteligência que eles deram. Agora, como todo efeito inteligente
deve ter uma causa inteligente, ficou evidente que — mesmo admitindo que a
eletricidade ou qualquer outro fluido desempenhasse algum papel nesses
fenômenos — havia ali outra causa envolvida. Qual era ela? Qual era essa
inteligência? Foi o que a sequência das observações mostrou. - Para que uma manifestação seja inteligente, não é necessário que ela seja
eloquente, espirituosa ou sábia; basta que ela demonstre um ato livre e
voluntário, expressando uma intenção ou respondendo a um pensamento.
Seguramente, quando vemos uma ventoinha agitada pelo vento, estamos
certos de que ela apenas obedece a uma impulsão mecânica; mas se nós
víssemos nos movimentos dessa ventoinha quaisquer sinais intencionais —
se ela girasse para a direita ou para a esquerda, rápida ou lentamente,
obedecendo a um comando —, então seríamos forçados a admitir, não que a
ventoinha seja inteligente, mas que ela estaria obedecendo a uma inteligência.
Foi isso o que ocorreu com a mesa.
84 – Allan Kardec
- Nós vimos a mesa se mover, levantar-se e dar pancadas sob a influência
de um ou de vários médiuns. O primeiro efeito inteligente observado foi o
desses movimentos obedecerem a um comando; assim, sem mudar de lugar, a
mesa se erguia alternativamente sobre o pé que lhe era indicado; depois,
caindo, ela batia um determinado número de pancadas, respondendo a uma
questão. Doutras vezes, sem o contato de ninguém, a mesa passeava sozinha
pelo aposento, indo para a direita ou para a esquerda, para diante ou para
trás, executando diversos movimentos conforme a ordem dos assistentes.
Está bem evidente que descartamos toda suposição de fraude; que admitimos
a perfeita lealdade das testemunhas, atestada pela honra e absoluto
desinteresse dessas pessoas. Falaremos mais tarde das fraudes contra as
quais é prudente manter-se vigilante. - Por meio de pancadas, e sobretudo por meio dos estalos no interior da
mesa de que acabamos de falar, obtivemos efeitos ainda mais inteligentes,
como a imitação de vários rufos do tambor, da fuzilaria com tiros de fila ou de
pelotão, de canhão; depois, o ranger da serra, golpes de martelo, o ritmo de
diferentes árias etc. Como podemos compreender, era um vasto campo aberto
a ser explorado. Dizia-se que, já que havia ali uma inteligência oculta, ela
devia ser capaz de responder às perguntas, e de fato ela respondeu, com um
sim ou com um não, e por meio de uma série de batidas estabelecidas. Essas
respostas eram muito insignificantes, por isso alguém teve a ideia de designar
as letras do alfabeto para, desse modo, compor palavras e frases. - Estes fatos, repetidos à vontade por milhares de pessoas e em todos os
países, não podiam deixar dúvidas quanto à natureza inteligente das
manifestações. Foi então que surgiu uma nova teoria, segundo a qual essa
inteligência seria a do médium, do interrogador ou mesmo dos assistentes. A
dificuldade era explicar como aquela inteligência podia se refletir na mesa e
se expressar por batidas; desde que se tinha averiguado que estas batidas não
eram desferidas pelo médium, então elas eram pelo pensamento. Ora pois, um
pensamento dando pancadas: isso era um fenômeno ainda mais prodigioso do
que todos aqueles que já se tinha testemunhado. A experiência não tardou em
85 – O Livro dos Médiuns
demonstrar a inadmissibilidade dessa opinião. Com efeito, as respostas
encontravam-se muito frequentemente em oposição formal às ideias dos
assistentes, acima do alcance intelectual do médium e até em línguas que ele
ignorava, além de relatar fatos desconhecidos por todos. Os exemplos são tão
numerosos que é quase impossível que alguém que já tenha se ocupado um
pouco com as manifestações espíritas não tenha sido testemunha disso várias
vezes. Citaremos apenas um, que nos foi relatado por uma testemunha ocular.
- Num navio da marinha imperial francesa, estacionado nos mares da
China, toda a tripulação — desde os marinheiros até o comandante — se
ocupava em fazer as mesas falarem. Tiveram a ideia de evocar o Espírito de
um ex-tenente dessa mesma embarcação, morto há dois anos. Ele veio, e após
várias comunicações que encheram a todos de espanto, disse o que segue,
através de pancadas: “Peço a vocês neste instante que mandem pagar ao
capitão a soma de… (ele indicou o valor) que lhe devo e que lamento não ter
podido lhe reembolsado antes de minha morte.” Ninguém conhecia o fato: o
próprio capitão havia esquecido essa dívida — um valor insignificante, aliás;
mas, consultando nas suas contas, ele encontrou uma nota da dívida do
tenente, cuja cifra indicada era perfeitamente exata. Nós perguntamos então,
do pensamento de quem aquela indicação poderia ser o reflexo? - Aperfeiçoou-se a arte de se comunicar através das pancadas alfabéticas,
mas o processo era sempre muito demorado; entretanto, algumas delas foram
obtidas com uma boa extensão, e com interessantes revelações sobre o
mundo dos Espíritos. Os próprios Espíritos indicaram outros meios, e é a eles
a quem devemos a indicação das comunicações escritas.
As primeiras comunicações desse gênero ocorreram adaptando-se um
lápis ao pé de uma mesa leve colocada sobre uma folha de papel. Posta em
movimento por influência de um médium, a mesa então começou a traçar
caracteres, depois palavras e frases. Simplificou-se sucessivamente esse
processo utilizando-se mesinhas do tamanho de uma mão, encomendadas
para isso; depois, utilizou-se cestas, caixas de papelão e, finalmente, simples
pranchetas. A escrita era tão corrente, tão rápida e tão fácil como se fosse com
86 – Allan Kardec
uma mão; porém, reconheceu-se mais tarde que todos aqueles objetos
definitivamente não passavam de acessórios, verdadeiros porta-lápis de que
poderíamos dispensar simplesmente pegando o lápis com a própria mão;
impulsionada por um movimento involuntário, a mão escrevia sob o impulso
exercido pelo Espírito e sem o concurso da vontade e nem do pensamento do
médium. A partir de então, as comunicações de além-túmulo não tiveram
mais limites do que a correspondência habitual entre os seres vivos.
Voltaremos a tratar desses diferentes meios e os explicaremos em detalhes;
nós os esboçamos rapidamente aqui para mostrar a sucessão dos fatos que
levaram a constatar, nesses fenômenos, a intervenção de inteligências ocultas
— isto é, os Espíritos.
87 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO IV
TEORIA DAS
MANIFESTAÇÕES FÍSICAS
Movimentos e suspensões – Ruídos –
Aumento e diminuição do peso dos corpos
- A existência dos Espíritos sendo demonstrada pelo raciocínio e pelos
fatos, assim como a possibilidade para eles agirem sobre a matéria, agora é
hora de conhecermos como essa ação se realiza e como os Espíritos procedem
para fazer mover as mesas e outros corpos inertes.
Uma ideia nos surgiu muito naturalmente; como ela foi combatida pelos
Espíritos que nos deram outra explicação totalmente diferente e pela qual
estávamos longe de esperar, isso é uma prova clara de que a teoria deles não
veio da nossa opinião. Ora, qualquer um podia ter tido aquela nossa ideia;
quanto à teoria dos Espíritos, não cremos que ela tenha vindo ao pensamento
de ninguém. Reconheceremos sem dificuldades o quanto ela é superior à
nossa, conquanto menos simples, porque dá a solução para uma infinidade de
outros fatos que não encontravam nenhuma explicação satisfatória.
- Do momento em que conhecemos a natureza dos Espíritos, sua forma
humana, as propriedades semimateriais do perispírito, a ação mecânica que
este pode ter sobre a matéria; que, nos casos de aparição, viu-se mãos
fluídicas e até tangíveis pegar objetos e os transportar, então é natural que
acreditemos que o Espírito se servia muito simplesmente de suas próprias
mãos para fazer a mesa girar e que ele a levantasse no espaço manualmente.
Mas então, nesse caso, qual é a necessidade de se ter um médium? O Espírito
88 – Allan Kardec
não poderia agir sozinho? De fato, o médium — que muitas vezes põe as mãos
sobre a mesa em sentido contrário ao do seu movimento, ou até mesmo nem
coloca as mãos nela — realmente não poderia ajudar o Espírito por uma ação
muscular qualquer. Deixemos então que primeiro falem os Espíritos a quem
interrogamos sobre esta questão.
- As respostas seguintes nos foram dadas pelo Espírito de são Luís;21 elas
foram confirmadas depois por muitos outros.
1) O fluido universal é uma emanação da divindade?
“Não.”
2) É uma criação da divindade?
“Tudo é criado, exceto Deus.”
3) O fluido universal é ao mesmo tempo o elemento universal?
“Sim, é o princípio elementar de todas as coisas.”
4) Ele tem alguma relação com o fluido elétrico, cujos efeitos nós
conhecemos?
“É o seu elemento.”
5) Qual é o estado em que o fluido universal se apresenta para nós na
sua maior simplicidade?
“Para o encontrarmos na sua simplicidade absoluta, precisaríamos
remontar aos Espíritos puros; neste mundo ele é sempre mais ou menos
modificado para formar a matéria compacta que lhes cerca. Entretanto, vocês
podem dizer que o estado em que se encontra mais próximo dessa
simplicidade é o do fluido que vocês chamam fluido magnético animal.”
6) Já foi dito que o fluido universal é a fonte da vida; ele é ao mesmo
tempo a fonte da inteligência?
“Não, esse fluido anima apenas a matéria.”
21 São Luiz, que em vida foi Luís IX (1214-1270), rei da França e canonizado pela Igreja Católica, como
Espírito foi um dos que mais colaboraram na obra kardequiana para a codificação do Espiritismo, sendo
inclusive o protetor da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos, criada e presidida por Allan Kardec
justamente para servir de laboratório mediúnico e de centro de colaboração entre os encarnados e os
desencarnados. — N. T.
89 – O Livro dos Médiuns
7) Já que esse é o fluido que compõe o perispírito, não parece que ele
esteja neste numa espécie de estado de condensação que até certo ponto o
aproxima da matéria propriamente dita?
“Até certo ponto, como dizem, porque esse fluido não tem todas as
propriedades da matéria; ele é mais ou menos condensado, conforme os
mundos.”
8) Como um Espírito pode produzir o movimento de um corpo sólido?
“Ele mistura uma parte do fluido universal com o fluido emitido pelo
médium apropriado para esse efeito.”
9) Os Espíritos levantam a mesa com os seus próprios membros de
algum modo solidificados?
“Esta resposta ainda não levará ao que vocês desejam. Quando uma
mesa se mexe sob as vossas mãos, o Espírito evocado vai buscar no fluido
universal o que é necessário para animar essa mesa com uma vida artificial.
estando a mesa assim preparada, o Espírito a atrai e a movimenta sob a
influência do seu próprio fluido, emitido por sua vontade. Quando a massa
que ele deseja pôr em movimento é pesada demais, ele pede ajuda aos
Espíritos que estejam nas mesmas condições que as suas. Em razão de sua
natureza etérea, o Espírito propriamente dito não pode agir sobre a matéria
grosseira sem um intermediário, quer dizer, sem o liame que o une à matéria;
esse liame — que constitui o que chamam de perispírito — lhes dá a chave de
todos os fenômenos espíritas materiais. Creio ter explicado muito claramente
para ser compreendido.”
Nota – Chamamos a atenção para essa primeira frase: Esta resposta AINDA não
levará ao que vocês desejam. O Espírito havia compreendido perfeitamente que
todas as questões precedentes só tinham sido feitas para chegarmos a esta última, e
ele fez alusão ao nosso pensamento que, de fato, esperava por outra resposta
diferente, isto é, pela confirmação da nossa ideia sobre a maneira pela qual o Espírito
faz a mesa se mover.
10) Os Espíritos que aquele chama em seu auxílio são inferiores a ele e
estão sob as suas ordens?
“Iguais, quase sempre; muitas vezes eles vêm espontaneamente.”
90 – Allan Kardec
11) Todos os Espíritos estão aptos a produzir fenômenos desse gênero?
“Os Espíritos que produzem esse tipo de efeitos são sempre inferiores,
que ainda não estão inteiramente livres de toda influência material.”
12) Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupem com
coisas que estejam abaixo deles; mas perguntamos se, por eles serem mais
desmaterializados, teriam força para tal, se tivessem vontade de fazer isso?
“Os Espíritos superiores têm a força moral, como os outros têm a força
física; quando precisam dessa força, eles se servem dos que a possuem. Já não
lhes dissemos que eles empregam os Espíritos inferiores como vocês utilizam
os carregadores?”
Nota – Já foi dito que a densidade do perispírito — se assim podemos nos
exprimir — varia conforme o estado dos mundos; parece que ela também varia no
mesmo mundo conforme os indivíduos. Nos Espíritos avançados moralmente ela é
mais sutil e se aproxima da dos Espíritos elevados; nos Espíritos inferiores, ao
contrário, aproxima-se da matéria e é o que faz com que esses Espíritos de baixo nível
conservem por muito tempo as ilusões da vida terrestre; eles pensam e agem como se
ainda fossem vivos; têm os mesmos desejos e, poderíamos dizer, quase a mesma
sensualidade. Essa grosseria do perispírito, dando-lhe mais afinidade com a matéria,
torna os Espíritos inferiores mais aptos às manifestações físicas. Pela mesma razão é
que um homem do mundo, habituado aos trabalhos da inteligência e cujo corpo é
frágil e delicado, não pode levantar um pesado fardo tal como um carregador. A
matéria nele é de certa maneira menos compacta, os órgãos são menos resistentes; há
menos fluido nervoso. Como o perispírito é para o Espírito o que o corpo é para o
homem, e como sua densidade corresponde à sua inferioridade espiritual, essa
densidade substitui no Espírito a força muscular, isto é, quanto aos fluidos
necessários para as manifestações, ela lhe dá uma potência maior do que a daqueles
cuja natureza é mais etérea. Quando um Espírito elevado quer produzir tais efeitos,
ele faz o que as pessoas delicadas fazem no nosso meio: ele o faz através de um
Espírito especializado nesse tipo de atividade.
13) Se compreendemos bem o que disse, o princípio vital reside no
fluido universal; o Espírito extrai desse fluido o envoltório semimaterial que
constitui o seu perispírito, e é por meio desse fluido que ele atua sobre a
matéria inerte. É assim mesmo?
“Sim; quer dizer que ele anima a matéria com uma espécie de vida
91 – O Livro dos Médiuns
fictícia: a matéria se anima da vida animal. A mesa que se move sob as vossas
mãos vive como um animal; ela obedece por si mesma ao ser inteligente. Não
é este quem a carrega, como um homem carrega um fardo; quando a mesa se
eleva, não é o Espírito quem a levanta com a força do braço: é a própria mesa
animada que obedece à impulsão dada pelo Espírito.”
14) Qual é o papel do médium nesse fenômeno?
“Já dissemos, o fluido próprio do médium se mistura ao fluido universal
acumulado pelo Espírito; é preciso a união desses dois fluidos, isto é, do fluido
animalizado com o fluido universal, para dar vida à mesa. Mas notem bem que
essa vida é apenas momentânea; ela se extingue com a ação — e às vezes
antes do fim da ação — logo que a quantidade de fluido deixa de ser suficiente
para animá-la.”
15) O Espírito pode atuar sem a cooperação de um médium?
“Ele pode agir a contragosto do médium; ou seja, que muitas pessoas
servem de auxiliares aos Espíritos para certos fenômenos sem saber disso.
Como que de uma fonte, o Espírito extrai delas o fluido animalizado de que
necessite; é assim que o auxílio de um médium, tal como vocês entendem,
nem sempre é preciso, o que ocorre sobretudo nos fenômenos espontâneos.”
16) A mesa animada age com inteligência? Ela pensa?
“Ela não pensa mais do que a bengala com a qual vocês fazem um sinal
inteligente, mas a vitalidade com a qual ela está animada lhe permite
obedecer à impulsão de uma inteligência. Portanto, saibam bem que a mesa
que se move não se torna um Espírito e que não tem em si mesma nem
pensamento nem vontade.”
Nota – Muitas vezes nós nos servimos de uma expressão análoga na linguagem
usual; por exemplo, dizemos de uma roda que gira velozmente que ela está animada
de um movimento rápido.
17) Qual é a causa preponderante na produção desse fenômeno: o
Espírito ou o fluido?
“O Espírito é a causa e o fluido é o instrumento, ambos são necessários.”
18) Que papel a vontade do médium desempenha nesse caso?
92 – Allan Kardec
“Atrair os Espíritos e os ajudar na impulsão dada ao fluido.”
— A ação da vontade é sempre indispensável?
“Ela aumenta a força, mas nem sempre é necessária, porque o
movimento pode produzir-se contra essa vontade, e isso é uma prova de
que há alguma causa independente do médium.”
Nota – Nem sempre o contato das mãos é necessário para mover um objeto. Ele
é mais frequentemente usado para dar o primeiro impulso, mas uma vez que o objeto
esteja animado, ele pode obedecer à vontade sem contato material; isto depende ou
da potencialidade do médium ou da natureza dos Espíritos. Até mesmo um primeiro
contato nem sempre é indispensável; temos provas disso pelos movimentos e
deslocamentos espontâneos que ninguém cogitou provocar.
19) Por que nem todo mundo pode produzir o mesmo efeito e por que
nem todos os médiuns têm a mesma potencialidade?
“Isto depende da organização e da maior ou menor facilidade com a qual
a combinação dos fluidos pode se realizar; além disso, o Espírito do médium
simpatiza mais ou menos com os Espíritos estranhos que encontram nele a
força fluídica necessária. Acontece com essa potencialidade como acontece
com a dos magnetizadores, que é de maior ou menor intensidade. Sobre isso,
há pessoas que são totalmente refratárias; há outras com as quais a
combinação não se opera senão por um esforço de sua vontade; noutras,
finalmente, com as quais ela se efetua tão natural e facilmente que essas
pessoas nem sequer suspeitam, e servem de instrumento — como já dissemos
— sem que elas saibam.” (Veja adiante o capítulo das manifestações espontâneas.)
Nota – Sem dúvidas, o magnetismo é o princípio desses fenômenos, mas não
como tal geralmente se entende; a prova é que existem magnetizadores muito
poderosos que não moveriam uma mesinha, e pessoas que não conseguem
magnetizar nem mesmo uma criança e que basta colocar os dedos sobre uma mesa
pesada para fazê-la se agitar; portanto, se a força medianímica não tem relação com a
força magnética, é porque existe outra causa.
20) As pessoas ditas elétricas podem ser consideradas médiuns?
“Essas pessoas tiram delas mesmas o fluido necessário à produção do
fenômeno e podem agir sem o socorro de Espíritos externos. Logo, elas não
93 – O Livro dos Médiuns
são médiuns no sentido correspondente a esta palavra; mas pode ser também
que um Espírito as ajude e se aproveite das disposições naturais delas.”
Nota – Aconteceria com essas pessoas como ocorre com os sonâmbulos que
podem atuar com ou sem a assistência de um Espírito externo. (Veja, no capítulo dos
médiuns, o artigo relativo aos médiuns sonambúlicos.)
21) O Espírito que age sobre os corpos sólidos, para movê-los, fica na própria
substância dos corpos ou exatamente fora dessa substância?
“Numa e numa posição; já dissemos que a matéria não é nenhum
obstáculo para os Espíritos; eles penetram tudo; por assim dizer, uma porção
do perispírito se identifica com o objeto que ele penetra.”
22) Como o Espírito faz para bater? Ele usa algum objeto material?
“Não mais do que os braços para levantar a mesa. Vocês sabem bem que
o Espírito não tem nenhum martelo à disposição. Seu martelo é o fluido
misturado posto em ação pela sua vontade de mover ou de bater. Quando se
move, a luz traz a visão dos movimentos; quando ele bate, o ar traz o som.”
23) Concebemos que seja assim quando o Espírito bate num corpo duro,
mas como ele pode fazer ouvirmos ruídos ou sons articulados no vazio do ar?
“Como ele atua sobre a matéria, ele pode atuar sobre o ar assim como
sobre a mesa. Quanto aos sons articulados, ele pode imitá-los como pode
imitar todos os outros barulhos.”
24) Vocês dizem que o Espírito não se serve de suas mãos para remexer
a mesa; entretanto, em certas manifestações visuais, temos visto aparecer
mãos cujos dedos se movem sobre um teclado, tocando as teclas e produzindo
sons. Neste caso, não parece que o movimento das teclas seja produzido pela
pressão dos dedos? Essa pressão não seria também direta e real quando se faz
sentir sobre nós mesmos quando essas mãos deixam marcas na pele?
“Vocês não podem compreender a natureza dos Espíritos e nem a
maneira deles agirem a não ser por comparações, que lhes dão apenas uma
ideia incompleta, e é sempre um erro querer assimilar os procedimentos
deles aos de vocês. Os procedimentos deles devem estar em conformidade
com a própria organização deles. Nós não já lhes dissemos que o fluido do
94 – Allan Kardec
perispírito penetra a matéria e se identifica com ela, animando-a com uma
vida artificial? Pois bem! Quando um Espírito põe os dedos sobre as teclas, ele
realmente os põe, e de fato movimenta as teclas; mas não é pela força
muscular que ele a pressiona; ele anima a tecla, como o faz com a mesa, e
então a tecla que obedece à vontade dele se mexe e toca a corda. Aqui mesmo
se passa uma coisa que vocês têm dificuldade de compreender: é que alguns
Espíritos estão tão pouco avançados e tão materiais em comparação com os
Espíritos elevados que eles ainda têm as ilusões da vida terrena e julgam agir
como quando tinham seu corpo; eles não percebem a verdadeira causa dos
efeitos que eles produzem, assim como um camponês não compreende a
teoria dos sons que ele articula; perguntem-lhes como é que eles tocam piano
e eles responderão que eles tocam com os dedos, porque julgam tocar; o
efeito se produz instintivamente neles, sem que saibam como, e apesar da
vontade deles. Quando eles fazem ouvir palavras, é a mesma coisa.”
Nota – Resulta destas explicações que os Espíritos podem produzir todos os
efeitos que nós mesmos produzimos, mas por meios apropriados à sua organização;
certas forças que lhes são próprias substituem os músculos que nos são necessários
para agirmos; do mesmo modo que o gesto substitui a palavra que falta em um mudo.
25) Entre os fenômenos citados como provas da ação de uma força
oculta, há alguns que são evidentemente contrários a todas as leis conhecidas
da natureza; a dúvida então não parece admissível?
“É que o homem está longe de conhecer todas as leis da natureza; se
conhecesse todas, ele seria um Espírito superior. Cada dia, pois, desmente os
que, acreditando saber tudo, pretendem impor limites à natureza, e não ficam
menos orgulhosos por isso. Então Deus, ao desvendar novos mistérios
incessantemente, adverte o homem para que desconfie das próprias luzes,
porque chegará o dia em que a ciência do mais sábio será confundida. Vocês
não têm diariamente exemplos de corpos animados de um movimento capaz
de vencer a força da gravidade? Um projétil, atirado no ar, não supera
momentaneamente essa força? Pobres homens, que se consideram muito
sábios e cuja tola vaidade é derrotada a cada instante, fiquem sabendo então
que vocês ainda são muito pequenos.”
95 – O Livro dos Médiuns
- Estas explicações são claras, categóricas e sem ambiguidade; delas
resultam esse ponto capital: o fluido universal — no qual reside o princípio da
vida — é o agente principal das manifestações, e que esse agente recebe seu
impulso do Espírito, esteja este encarnado ou errante. O fluido condensado
constitui o perispírito, ou envoltório semimaterial do Espírito. No estado da
encarnação, o perispírito fica unido à matéria do corpo; já no estado da
erraticidade, ele fica livre. Quando o Espírito está encarnado, a substância do
perispírito está mais ou menos ligada, mais ou menos aderente, se assim
podemos nos expressar. Em certas pessoas há algum tipo de emanação desse
fluido por consequência do organismo delas, e é isso, propriamente falando, o
que constitui o médium de influências físicas. A emissão do fluido animalizado
pode ser mais ou menos abundante, e sua combinação mais ou menos fácil;
daí haver médiuns mais ou menos potentes. Essa emissão não é permanente,
o que explica a intermitência da potência. - Citemos uma comparação: quando se tem vontade de agir materialmente
sobre um ponto qualquer colocado à distância, é o pensamento quem deseja,
mas o pensamento sozinho não irá atingir esse ponto; ele precisa de um
intermediário que ele possa dirigir: uma vara, uma ferramenta, uma corrente
de ar etc. Notem também que o pensamento não atua diretamente sobre a
vara, porque se ninguém a tocar ela não se moverá. O pensamento — que não
é outro senão o Espírito encarnado em nós — está unido ao corpo pelo
perispírito; ora, o pensamento não pode agir sobre o corpo sem o perispírito,
assim como não pode agir sobre a vara sem o corpo; ele age sobre o
perispírito, porque é a substância com a qual ele tem mais afinidade; o
perispírito atua sobre os músculos, os músculos pegam a vara e a vara toca no
objeto. Quando o Espírito não está encarnado, ele requer um auxiliar externo;
esse auxiliar é o fluido com o qual ele torna o objeto apto a seguir a impulsão
da vontade do Espírito. - Desta forma, quando um objeto é posto em movimento, levantado ou
atirado para o ar, não é que o Espírito o pegue, empurre ou o levante, como
nós assim faríamos com a mão. Por assim dizer, ele preenche a coisa com o
fluido dele, misturado com o fluido do médium, e essa coisa — então
96 – Allan Kardec
momentaneamente vivificada — age como faria um ser vivo, com a diferença
que, não tendo vontade própria, ela segue a impulsão da vontade do Espírito.
Já que o fluido vital — que de alguma maneira é impulsionado pelo
Espírito — produz uma vida artificial e momentânea aos corpos inertes, e que
o perispírito não é outra coisa senão esse mesmo fluido vital, segue-se daí que
quando o Espírito está encarnado é ele próprio quem dá vida ao seu corpo,
através do seu perispírito; ele permanece unido a esse corpo enquanto a
organização o permite; quando ele se retira, o corpo morre. Agora, se em vez
de uma mesa nós talhássemos a madeira em uma estátua e agíssemos sobre
essa estátua como agimos sobre a mesa, então teríamos uma estátua que se
moveria, que bateria, que responderia com seus movimentos e pancadas; em
suma, nós teríamos uma estátua momentaneamente animada com uma vida
artificial; dissemos mesas falantes, mas poderíamos dizer estátuas falantes.
Quanta luz esta teoria projeta sobre uma imensidade de fenômenos até então
sem solução! Quantas alegorias e efeitos misteriosos ela explica!
- Os incrédulos ainda objetam que o fato da elevação das mesas sem ponto
de apoio é impossível, porque isso seria contrário à lei de gravidade.
Responderemos primeiramente que a negativa deles não serve de prova; em
segundo lugar, que se o fato existe, pouco importa que ele seja contrário a
todas as leis conhecidas, isso só provaria uma coisa: que ele decorre de uma
lei desconhecida, e que os negadores não podem ter a pretensão de conhecer
todas as leis da natureza. Nós acabamos de explicar esta lei, mas isso não é
razão para que ela seja aceita por eles, precisamente porque ela foi dada pelos
Espíritos que deixaram sua roupa terrena, em vez de ser pelos Espíritos que
ainda vestem a sua e que estão sentados na Academia. De tal modo que, se o
Espírito de Arago22 — enquanto vivo — tivesse formulado essa lei, eles a
teriam aceitado de olhos fechados; mas dada pelo Espírito de Arago, morto,
ela é uma utopia. E por que isso? Porque os acadêmicos acreditam que, Arago
tendo morrido, tudo nele está morto. Não temos a pretensão de dissuadi-los;
entretanto, como essa objeção poderia confundir algumas pessoas, nós vamos
tentar respondê-la colocando-nos no ponto de vista deles, isto é, ignorando
22 François Arago (1786-1853) foi um respeitado físico, astrônomo e político francês. — N. T.
97 – O Livro dos Médiuns
por um instante a teoria da animação artificial.
- Quando se produz um vácuo sob a redoma de uma máquina pneumática,23
esta redoma adere com tanta força que se torna impossível suspendê-la,
devido ao peso da coluna de ar que pesa sobre ela. Mas então, deixem o ar
entrar e a redoma se levanta com a maior facilidade, porque o ar abaixo faz
contrapeso com o ar acima; porém, larguem essa redoma e ela ficará sobre a
travessa, em virtude da lei de gravidade. Agora, se o ar abaixo for comprimido
e tenha uma densidade maior que a do que ar acima, então a redoma se
levantará, apesar da gravidade; se a corrente de ar for rápida e violenta, ela
poderá ficar suspensa no espaço sem nenhum ponto de apoio visível, de
mesma maneira que esses bonecos que flutuam sobre um jato d’água. Por que
então o fluido universal, que é o elemento de toda a matéria, e sendo
acumulado em torno de uma mesa, não teria a propriedade de lhe diminuir ou
aumentar o peso específico relativo, como o ar faz com a redoma da máquina
pneumática e como o gás hidrogênio faz com os balões, sem que para isso seja
anulada a lei de gravidade? Vocês, por acaso, conhecem todas as propriedades
e todo o poder desse fluido? Não. Pois então, não neguem um fato só porque
não sabem explicá-lo. - Voltemos à teoria do movimento da mesa. Pelo processo indicado, se o
Espírito pode levantar uma mesa, igualmente pode levantar qualquer outra
coisa: uma poltrona, por exemplo. Se pode levantar uma poltrona, com uma
força suficiente ele também pode levantar uma pessoa sentada nela. Aqui está
a explicação daquele fenômeno produzido centenas de vezes pelo Sr. Home24
consigo mesmo e com outras pessoas; ele o repetiu durante uma viagem a
Londres e, para provar que os espectadores não eram joguetes de uma ilusão
de ótica, fez uma marca a lápis no forro; além disso as pessoas passavam por
baixo dele. Sabe-se que o Sr. Home é um poderoso médium de efeitos físicos:
23 Máquina pneumática: dispositivo mecânico usado para comprimir o ar e, a partir da liberação desse
ar comprimido, gerar uma força a fim de exercer atividades tais como as de uma bomba de ar, freio,
suspensão etc. — N. T.
24 Menção ao escocês Daniel Dunglas Home (1833-1886), o mais notável médium de efeitos físicos de
seu tempo, especialmente famoso por suas levitações. — N. T.
98 – Allan Kardec
naquele caso, era ao mesmo tempo a causa eficiente e o objeto.
- Nós acabamos de falar do possível aumento de peso; efetivamente, esse é
um fenômeno que se produz diversas vezes e que nada tem de mais anormal
do que a prodigiosa resistência da redoma sob a pressão de uma coluna
atmosférica. Por influência de certos médiuns, temos visto objetos muito leves
oferecerem a mesma resistência e, de repente, cederem ao menor esforço.
Pela experimentação acima, a redoma não pesa nem mais e nem menos do
que ela realmente pesa, mas parece ser mais pesada por efeito da causa
exterior que atual sobre ela; provavelmente o mesmo ocorre aqui: a mesa tem
sempre o peso dela própria, pois sua massa não aumentou; mas uma força
exterior se opõe ao seu movimento, e essa causa pode estar nos fluidos
ambientes que a penetram, como aquele que aumenta ou diminui o peso
aparente da redoma no ar. Façam a experiência da redoma pneumática diante
de uma pessoa ignorante que não compreenda que é o ar que atua, e então
não será difícil de convencê-lo de que é uma ação do diabo.
Talvez digam que, como esse fluido é imponderável, seu acúmulo não
pode aumentar o peso de um objeto: de acordo, mas notem que se nos
servimos da palavra acúmulo, é por comparação, e não por assimilação
absoluta com o ar. Talvez digam que ele é imponderável, porém nada prova
isso; sua natureza íntima nos é desconhecida e nós estamos longe de conhecer
todas as suas propriedades. Antes que se tivesse experimentado a gravidade
do ar, ninguém suspeitava dos efeitos dessa mesma gravidade. A eletricidade
também é classificada entre os fluidos imponderáveis; no entanto, um corpo
pode ser retido por uma corrente elétrica e oferecer grande resistência a
quem queira suspendê-lo; ele tornou-se, portanto, aparentemente mais
pesado. Pelo fato de não se ver o suporte, seria ilógico concluir que ele não
exista. O Espírito pode então ter alavancas que nos sejam desconhecidas; a
natureza nos prova diariamente que sua força não se detém no testemunho
dos sentidos.
Só uma causa semelhante a essa pode explicar o estranho fenômeno —
do qual temos visto tantos exemplos — de um jovem fraco e delicado
levantando com dois dedos, sem esforço, um homem forte e robusto
99 – O Livro dos Médiuns
juntamente com a cadeira em que esteja sentado, como se fosse uma pena. O
que comprova uma causa externa à pessoa são as intermitências da faculdade.
100 – Allan Kardec
CAPÍTULO V
MANIFESTAÇÕES FÍSICAS
ESPONTÂNEAS
Ruídos, barulhos e perturbações – Objetos arremessados
– Fenômeno de transporte
- Os fenômenos de que acabamos de falar são provocados; porém, acontece
às vezes de eles se realizarem espontaneamente, sem a participação da
vontade; longe disso, pois frequentemente eles se tornam muito importunos.
Além disso, o que exclui o pensamento que eles possam ser um efeito da
imaginação sobrexcitada pelas ideias espíritas é que os fenômenos se
produzem com pessoas que nunca ouviram falar disso, e quando menos elas
esperavam por isso. Tais fenômenos, que poderíamos chamar de espiritismo
prático natural, são muito importantes, por não serem suspeitados de
conivência; é por isso que recomendamos às pessoas que se ocupam com os
fenômenos espíritas para que registrem todos os casos desse gênero que
venham ao seu conhecimento, e sobretudo que constatem com cuidado a
realidade deles através de um estudo minucioso das circunstâncias, a fim de
se assegurarem de que não estão sendo joguetes de uma ilusão ou de uma
mistificação. - De todas as manifestações espíritas, as mais simples e as mais frequentes
são os ruídos e as pancadas; é aqui principalmente que se deve temer a ilusão,
pois uma série de causas naturais pode produzi-los: o vento que sibila ou
agita um objeto, algo que nós mesmos movemos sem percebermos, um efeito
101 – O Livro dos Médiuns
acústico, um animal escondido, um inseto etc., ou mesmo as travessuras dos
brincalhões de mau gosto. Aliás, os ruídos espíritas têm uma característica
especial: tudo neles revela uma intensidade e um timbre muito variado que os
tornam facilmente reconhecíveis e não permitem que sejam confundidos com
os estalos da madeira, com as crepitações do fogo ou com o tique-taque
monótono do pêndulo de um relógio; algumas vezes são batidas secas, surdas,
fracas e leves, e noutras vezes claras, distintas e às vezes retumbantes, que
mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade mecânica. De todos
os meios de verificação, o mais eficaz — aquele que não pode deixar dúvida
quanto à origem do fenômeno — é a obediência à vontade. Se as pancadas são
ouvidas num lugar designado, se elas respondem ao pensamento pela
quantidade ou pela intensidade, então não se pode deixar de reconhecer nelas
uma causa inteligente; todavia, a falta de obediência nem sempre significa
uma prova contrária.
- Agora, vamos admitir que, por uma constatação minuciosa, se adquira a
certeza de que os ruídos e todos os outros efeitos sejam manifestações reais:
seria racional ter medo delas? Não, certamente, porque não há em nenhum
caso o menor perigo; somente aqueles que estão convencidos de que é o diabo
podem ser afetados de uma maneira tão lamentável — como as crianças a
quem se mete medo do lobisomem ou do bicho-papão. É preciso convir que
essas manifestações muitas vezes tomam proporções e uma persistência
desagradáveis, das quais temos o desejo muito natural de nos livrarmos. Uma
explicação se faz necessária sobre esta questão. - Temos dito que as manifestações físicas têm por objetivo chamar nossa
atenção para alguma coisa e nos convencer da presença de uma força
superior ao homem. Também dissemos que os Espíritos elevados não se
ocupam com manifestações desse tipo; eles se servem dos Espíritos inferiores
para produzi-las, como nos servimos dos empregados para os trabalhos
pesados, e isso com o propósito que acabamos de indicar. Depois de atingir
esse propósito, a manifestação material cessa, porque ela deixa de ser
necessária. Um ou dois exemplos farão melhor compreender a coisa.
102 – Allan Kardec
- Há alguns anos, no início dos meus estudos sobre o espiritismo, estando
certa noite ocupado com um trabalho referente a esta matéria, pancadas se
fizeram ouvir em torno de mim durante quatro horas consecutivas; era a
primeira vez que tal coisa me acontecia; certifiquei-me de que elas não
tinham nenhuma causa acidental, mas naquele momento, não pude saber
mais a respeito. Nessa época, eu tinha a oportunidade de ver frequentemente
um excelente médium escrevente. Logo no dia seguinte, eu interroguei o
Espírito que comunicava pelo seu intermédio sobre a causa daquelas batidas.
Foi-me respondido: Era o teu Espírito familiar que desejava falar contigo.
— E o que ele queria me dizer? Resposta: Pode perguntar a ele mesmo, pois
ele está aqui. — Tendo então interrogado esse Espírito, ele se apresentou sob
um nome alegórico (eu soube depois, por outros Espíritos, que ele pertence a
uma ordem muito elevada e que tinha desempenhado um importante papel
na Terra); ele me apontou erros no meu trabalho, indicando-me as linhas
onde estavam esses erros; deu-me úteis e sábios conselhos e acrescentou que
estaria sempre comigo e viria ao meu chamado todas as vezes que eu quisesse
interrogá-lo. Desde então, de fato, esse Espírito nunca mais me deixou. Ele me
deu muitas provas de uma grande superioridade e sua intervenção
benevolente e eficaz ficou evidente para mim, tanto nos assuntos da vida
material quanto no que toca às questões metafísicas. Mas desde a nossa
primeira conversa as pancadas cessaram. O que ele realmente desejava?
Entrar em comunicação comigo regularmente; para isso, ele precisava me
avisar. Dado o aviso, depois explicado, e estabelecidas as relações regulares,
as pancadas se tornaram inúteis; eis por que elas pararam. Não se toca mais o
tambor para despertar os soldados uma vez estes já estejam de pé.
Um fato quase semelhante sucedeu com um de nossos amigos. Fazia
algum tempo que seu quarto ressoava com ruídos diversos que já estavam
ficando fatigantes. Tendo se apresentado a ocasião de interrogar o Espírito de
seu pai, através de um médium escrevente, este amigo soube o que queriam
dele, fez o que foi lhe recomendado e depois disso nada mais ouviu. Convém
ressaltar que as pessoas que têm um meio regular e fácil de comunicação com
os Espíritos experimentam muito mais raramente manifestações deste
gênero, e isso é compreensível.
103 – O Livro dos Médiuns
- As manifestações espontâneas nem sempre se limitam a ruídos e batidas;
às vezes elas degeneram em verdadeiro alvoroço e perturbações; móveis e
objetos diversos são revirados, peças de todo tipo são atirados de fora, portas
e janelas são abertas e fechadas por mãos invisíveis, vidraças são quebradas
— o que não pode ser colocado na conta da ilusão.
A perturbação às vezes é por demais efetiva, porém ocasionalmente não
há mais do que aparências da realidade. Ouvem-se gritaria num cômodo
vizinho, barulho de louça que cai e se quebra com estrondo, pedaços de
madeiras que rolam pelo assoalho… Corre-se até lá e tudo se encontra calmo e
em ordem; depois, mal saindo, o tumulto recomeça.
- As manifestações desse gênero não são nem raras nem novas; poucas
crônicas locais não contêm alguma história desse gênero. O medo
indubitavelmente tem exagerado muitas vezes os fatos que, passando de boca
em boca, tomaram proporções gigantescamente ridículas; com a ajuda da
superstição, as casas onde esses fatos têm ocorrido foram reputadas como
assombradas pelo diabo, e daí vêm todos os contos maravilhosos ou
assustadores de fantasmas. Por sua vez, a astúcia não deixou escapar tão bela
ocasião de explorar a credulidade, e isso frequentemente em proveito de
interesses pessoais. De resto, concebemos a impressão que os fatos desse tipo
podem produzir, mesmo reduzidos à realidade, em pessoas de caráter fraco e
predispostas pela instrução às ideias supersticiosas. O meio mais seguro de
prevenir os inconvenientes que esses fatos possam ter — já que não se pode
impedi-los — consiste em ensinar a verdade. As mais simples se tornam
assustadoras quando a causa é desconhecida. Quando todos estiverem
familiarizados com os Espíritos, e quando as pessoas a quem eles se
manifestam já não mais acreditem que ter uma legião de demônios nos seus
calcanhares, então ninguém mais terá medo dos Espíritos.
Podemos ver na Revista espírita a narração de vários fatos autênticos
desse gênero, dentre outros a história do Espírito batedor de Bergzabern,
cujas perturbações duraram mais de oito anos (edições de maio, junho e julho
de 1858); a de Dibbelsdorff (agosto, 1858); a do padeiro de Grandes-Vendas,
perto de Dièppe (março, 1860); a da rua dos Noyers, em Paris (agosto, 1860);
104 – Allan Kardec
a do Espírito de Castelnaudary, sob o título de História de um danado
(fevereiro, 1860); a do fabricante de São Petersburgo (abril, 1860) e muitas
outras.
- Fatos dessa natureza muitas vezes tem o caráter de uma verdadeira
perseguição. Conhecemos seis irmãs que moravam juntas e que durante
vários anos todas as manhãs encontravam suas roupas esparramadas,
escondidas no telhado, rasgadas e cortadas em pedaços — quaisquer que
fossem as precauções que elas tomassem para trancá-las à chave. Algumas
vezes chegou a acontecer que pessoas deitadas, mas perfeitamente
acordadas, viam suas cortinas se sacudirem, seus cobertores e travesseiros
sendo arrancados violentamente, levantados acima do colchão e por vezes
jogados para fora da cama. Esses fatos são muito mais frequentes do que se
imagina; mas na maioria das vezes, as vítimas não ousam contar nada sobre
isso, por medo do ridículo. Até onde sabemos, acreditava-se poder curar
certos indivíduos do que se considerava ser alucinações, submetendo-os ao
tratamento dos alienados — o que os tornava realmente loucos. A Medicina
não consegue compreender essas coisas porque, nas causas, ela não admite
nada além do elemento material, de que resultam equívocos frequentemente
funestos. Um dia, a história contará certos tratamentos do século dezenove
como hoje contamos certos procedimentos da Idade Média.
Admitimos perfeitamente que alguns casos são obra da malícia ou da
malvadez; porém, feitas todas as comprovações, se ficar provado que esses
fatos não são obra dos homens, devemos convir que eles são uma obra: alguns
dirão do diabo, e nós, nós diremos dos Espíritos. Mas de quais Espíritos?
- Os Espíritos superiores, não mais do que os homens importantes e sérios
entre nós, não gostam de dar espetáculos. Nós muitas vezes trouxemos
Espíritos maus para lhes perguntar o motivo que os leva a perturbar assim o
repouso alheio. A maior parte não tem outro objetivo além de se divertir; são
Espíritos mais travessos do que malvados, que riem dos sustos que causam e
das buscas inúteis que se faz para descobrir a causa do tumulto.
Frequentemente eles vão atrás de um indivíduo a quem gostam de irritar,
105 – O Livro dos Médiuns
perseguindo-o de casa em casa; de outras vezes eles se apegam a um lugar,
sem qualquer motivo senão por capricho. Por vezes é também uma vingança
que eles cultivam, como teremos ocasião de ver. Em alguns casos, a intenção
deles é mais louvável: querem chamar a atenção e entrar em comunicação —
seja para dar um aviso útil à pessoa a quem eles se dirigem, seja para pedir
qualquer coisa para si mesmos. Também temos visto muitos pedirem preces,
outros solicitarem o cumprimento em nome deles de promessas que não
puderam cumprir; outros, enfim, no interesse do próprio repouso, querem
reparar uma má ação que praticaram contra aquelas pessoas, enquanto eles
estavam vivos. Em geral, é um erro ter medo dos Espíritos; a presença deles
pode ser importuna, mas não perigosa. Aliás, compreendemos o desejo que se
tem de se livrar deles; mas, para isso, geralmente se faz tudo ao contrário do
que se deveria fazer. Se estes são Espíritos que se divertem, quanto mais se
leva as coisas a sério tanto mais eles persistem — como crianças traquinas,
que implicam ainda mais com aqueles que veem se impacientar e que fazem
medo aos medrosos. Se tomássemos a sábia decisão de também rirmos dos
truques deles, eles acabariam se cansando e ficariam quietos. Conhecemos
alguém que, longe de se irritar, provocava-os, desafiando a fazerem tal ou tal
coisa, tanto que ao fim de poucos dias aqueles Espíritos nunca mais voltaram.
Entretanto, como temos dito, há alguns deles cujo motivo é menos fútil. Daí
vem que é sempre útil saber o que eles querem. Se pedem uma coisa, pode-se
estar certo de que cessarão as visitas quando seu desejo for realizado. O
melhor meio de estar informado a esse respeito é evocar o Espírito através de
um bom médium escrevente; pelas suas respostas se verá imediatamente com
quem se está lidamos e consequentemente como agir; se for um Espírito
infeliz, a caridade quer que ele seja tratado com o respeito que merece; se for
um zombeteiro malicioso, pode-se agir contra ele sem cerimônia; se for
malvado, devemos rogar a Deus que o torne melhor. Qualquer que seja o caso,
a prece nunca deixa de dar bom resultado. No entanto, a gravidade das
fórmulas de exorcismo os faz rir e eles não dão nenhuma importância a isso.
Sendo possível entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar dos
qualificativos grotescos ou apavorantes que dão a si mesmos para se
divertirem da credulidade.
106 – Allan Kardec
Voltaremos com mais detalhes sobre esse assunto, bem como sobre as
causas que muitas vezes tornam as preces ineficazes, nos capítulos dos
lugares assombrados e obsessões.
- Esses fenômenos, embora executados por Espíritos inferiores, muitas
vezes são provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada, com o
propósito de comprovar a existência dos seres incorpóreos e uma potência
superior ao homem. O impacto que daí resulta e o próprio medo que causa
despertam a atenção e acabarão abrindo os olhos dos mais incrédulos. Estes
acham mais simples atribuir esses fenômenos à imaginação — explicação
muito cômoda e que dispensa a necessidade de outras. No entanto, quando
objetos são sacudidos ou jogados na cabeça de vocês, é preciso uma
imaginação bem complacente para imaginar que tais coisas existem quando
elas não existem. Quando notamos um efeito qualquer, esse efeito há de ter
necessariamente uma causa; se uma observação fria e calma nos demonstra
que esse efeito é independente de toda vontade humana e de toda causa
material, e se, além disso, ele nos dá sinais bastante evidentes de inteligência
e de livre vontade — que é o sinal mais característico — então será forçoso
atribuí-lo a uma inteligência oculta. Que seres misteriosos seriam esses? É o
que os estudos espíritas nos ensinam da maneira menos contestável, pelos
meios que nos dá de nos comunicarmos com eles. Esses estudos nos ensinam
também a distinguir o que é real do que é falso ou exagerado nos fenômenos
que não percebemos. Se um efeito incomum se produz (ruído, movimento, até
mesmo aparição), o primeiro pensamento que se deve ter é que ele decorre
de uma causa inteiramente natural, porque é a mais provável; é preciso então
procurar essa causa com o maior cuidado e só admitir a intervenção dos
Espíritos com sensatez; este é o meio de não ser iludido. Aquele que, por
exemplo, sem estar próximo de ninguém, recebesse uma bofetada ou uma
bengalada nas costas, como tem acontecido, não poderia duvidar da presença
de um ser invisível.
Devemos ficar atentos, não somente contra relatos que possam estar
minimamente contaminadas pelo exagero, mas também contra as próprias
impressões, para não atribuirmos uma origem oculta a tudo o que não
107 – O Livro dos Médiuns
compreendemos. Uma infinidade de causas muito simples e muito naturais
pode produzir efeitos estranhos à primeira vista, e seria uma verdadeira
superstição ver por toda parte Espíritos ocupados em revirar móveis, quebrar
louças e, enfim, suscitar as mil e uma importunações domésticas que é mais
racional atribuirmos à falta de jeito.
- A explicação dada para o movimento dos corpos inertes se aplica
naturalmente a todos os efeitos espontâneos que acabamos de ver. Os ruídos
— embora mais fortes do que as pancadas na mesa — têm a mesma causa; os
objetos atirados ou deslocados são movidos pela mesma força que levanta um
objeto qualquer. Aqui vem uma circunstância especial em apoio a esta teoria.
Poderíamos perguntar onde fica o médium nessa circunstância. Os Espíritos
nos têm dito que em tal caso há sempre um alguém cujo poder se exerce sem
o seu conhecimento. As manifestações espontâneas raramente se produzem
em lugares isolados, pois é quase sempre nas casas habitadas onde elas
ocorrem, e pelo fato da presença de certos indivíduos que exercem uma
influência involuntária; esses indivíduos são verdadeiros médiuns, sem
saberem disso, e que por essa razão nós os chamamos de médiuns naturais.
Com relação aos outros médiuns, eles são o que os sonâmbulos naturais são
para os sonâmbulos magnéticos, e igualmente tão curiosos de se observar. - A intervenção voluntária ou involuntária de uma pessoa dotada de uma
aptidão especial para a produção desses fenômenos parece ser necessária na
maioria dos casos, embora haja alguns em que o Espírito pareça agir sozinho;
mas então, poderia ser que ele tirasse o fluido animalizado de outro lugar, e
não de uma pessoa presente. Isto explica por que os Espíritos que nos cercam
constantemente não produzem perturbações a todo instante. Primeiro, é
preciso que o Espírito queira, que tenha um objetivo, um motivo, sem o que
ele não faz nada. Depois, é necessário muitas vezes que ele encontre,
exatamente no lugar onde queira agir, uma pessoa apta a ajudá-lo —
coincidência que só muito raramente acontece. De repente, aparecendo tal
pessoa, o Espírito a aproveita. Malgrado a reunião de todas as circunstâncias
favoráveis, ele ainda poderia ser impedido por uma vontade superior que não
108 – Allan Kardec
lhe permitisse agir como bem quisesse. Pode ser que não lhe seja permitido
produzir fenômenos a não ser dentro de certos limites, e no caso em que tais
manifestações sejam consideradas úteis — seja como meio de convicção, seja
como provação para a pessoa com quem ocorra o fenômeno.
- A este respeito, citaremos apenas o diálogo provocado a propósito dos
fatos que se passaram em junho de 1860, na rua dos Noyers, em Paris.
Encontraremos os detalhes desse caso na Revista espírita, edição de agosto
de 1860.25
1) [A são Luís] Poderia ter a gentileza de nos dizer se os fatos que dizem
ter ocorrido na rua dês Noyers são reais? Quanto à possibilidade, não
duvidamos deles.
“Sim, esses fatos são reais; só a imaginação dos homens os exagerará,
seja por medo, seja por ironia. Mas, repito, eles são verdadeiros. Essas
manifestações são provocadas por um Espírito que se diverte um pouco à
custa dos habitantes do lugar.”
2) Há naquela casa alguém que tenha causado tais manifestações?
“Elas são sempre causadas pela presença da pessoa a quem se ataca; é
que o Espírito perturbador guarda algum rancor contra o habitante daquele
lugar e lhe quer fazer maldades, ou então procura fazê-lo se mudar.”
3) Perguntamos se, entre os moradores da casa, há alguém que seja o
causador desses fenômenos por uma influência medianímica espontânea ou
involuntária?
“Tem que haver sim, pois sem isso o fato não poderia ocorrer. Um
Espírito habita o lugar de sua predileção; ele permanece inativo até que uma
circunstância que lhe seja favorável se apresente nesse lugar; quando essa
pessoa surge, então ele se diverte o quanto pode.”
4) A presença dessa pessoa nesses lugares é realmente indispensável?
“Esse é o caso mais comum, e é o caso do episódio citado; foi por isso que
eu disse que sem isso o fato não poderia ter acontecido. Mas, não pretendi
25 Ebook disponível em www.luzespirita.org.br/index.php?lisPage=livro&livroID=76. — N. T.
109 – O Livro dos Médiuns
generalizar; há casos em que a presença não é necessária.”
5) Sendo esses Espíritos sempre de uma ordem inferior, a aptidão para
lhes servir de auxiliar seria uma indicação desfavorável para a pessoa? Isso
não significaria uma simpatia com os seres dessa natureza?
“Não, não exatamente, porque essa aptidão se liga a uma disposição
física; contudo, muitas vezes denota uma tendência material que seria
preferível que não existisse, pois quanto mais se eleva moralmente mais a
pessoa atrai para si os bons Espíritos, que necessariamente afastam os maus.”
6) Onde o Espírito vai buscar os objetos que ele arremessa?
“Esses diversos objetos são apanhados na maioria das vezes nos
próprios lugares ou na vizinhança; uma força vinda de um Espírito os lança no
espaço e eles caem no ponto designado por esse Espírito.”
7) Já que as manifestações espontâneas costumeiramente são permitidas
e até provocadas com o propósito de convencer, parece-nos que se
determinados incrédulos fossem pessoalmente objeto desses fenômenos,
então eles seriam forçados a se render diante das evidências. Eles se queixam
algumas vezes de não poder testemunhar fatos conclusivos; não caberia aos
Espíritos lhes dar uma prova sensível?
“A todo instante, os ateus e os materialistas não são testemunhas dos
efeitos do poder de Deus e do pensamento? Isso não os impede que negar
Deus e a alma. Por acaso os milagres de Jesus converteram todos os seus
contemporâneos? Os fariseus que lhe disseram ‘Mestre, faça-nos ver algum
prodígio’ não se assemelham àqueles que ora pedem que lhes façam ver
manifestações? Se não se convenceram pelas maravilhas da criação, também
não se convenceriam mesmo que os Espíritos lhes aparecessem da maneira
menos duvidosa, pois o próprio orgulho os torna iguais a jumentos
empacados. Não lhes faltaria ocasião de ver se eles procurassem de boa-fé;
por isso Deus não julga conveniente fazer por eles mais do que faz pelos que
sinceramente buscam instruir-se, porque ele só recompensa os homens de
boa vontade. A incredulidade deles não impedirá que a vontade de Deus se
cumpra; vocês sabem bem que ela não impediu a doutrina de se disseminar.
Portanto, parem de se inquietar com a oposição deles, que é para a doutrina o
110 – Allan Kardec
que a sombra é para o quadro, e lhe dá um maior relevo. Que mérito eles
teriam se fossem convencidos à força? Deus lhes deixa toda a
responsabilidade pela própria teimosia, e essa responsabilidade será mais
terrível do que pensam. Bem-aventurados os que creem sem ter visto — disse
Jesus — porque estes não duvidam do poder de Deus.”
8) Seria útil evocar esse Espírito para lhe pedirmos algumas explicações?
“Evoquem-no, se quiserem; mas esse é um Espírito inferior, que não lhes
dará senão respostas bastante insignificantes.”
- Entrevista com o Espírito perturbador da rua dos Noyers:
1) Evocação.
“Por que me chamaram? Querem umas pedradas também? Aí é que
vocês vão ver um belo salve-se quem puder, apesar do vosso ar de bravura.”
2) Mesmo que nos atirasse pedras aqui, isso não nos amedrontaria; nós
até te pedimos concretamente, se puder, que nos atire algumas.
“Aqui talvez eu não possa, porque têm um guardião que vela por vocês.”
3) Na rua dos Noyers, havia uma pessoa que te servia de auxiliar para
facilitar as peças que você pregava nos moradores daquela casa?
“Certamente; encontrei um bom instrumento, e nenhum Espírito doutor,
sábio ou prudente para me impedir, porque eu sou alegre e às vezes gosto de
me divertir.”
4) Qual foi a pessoa que te serviu de instrumento?
“Uma empregada.”
5) Foi sem querer que essa empregada te auxiliava?
“Ah, sim; coitada da moça! Ela era a mais assustada!”
6) Você estava agindo com algum propósito hostil?
“Não, eu não tinha nenhum propósito hostil, mas os homens que se
apossam de tudo vão tirar bom proveito para eles.”
7) Que quer dizer com isso? Não estamos te compreendendo.
“Eu procurava me divertir, mas vocês, vocês estudarão o caso e terão um
111 – O Livro dos Médiuns
fato a mais para mostrar que nós existimos.”
8) Você diz que não tinha nenhum propósito hostil, mas quebrou todas
as vidraças do apartamento, causando assim um prejuízo real.
“Isso é só um detalhe.”
9) Onde você conseguiu os objetos que atirou?
“Eles são bastante comuns; achei-os no pátio e nos jardins vizinhos.”
10) Achou todos eles ou fabricou algum? (Ver adiante o cap. VIII)
“Não criei nada, não fiz coisa alguma.”
11) E se não os tivesse encontrado, poderia tê-los fabricado?
“Teria sido mais difícil; entretanto, a rigor, mistura-se materiais e faz
qualquer coisa.”
12) Então nos diga como você atirou os objetos?
“Ah! Isto é mais difícil de explicar; eu me servi da natureza elétrica
daquela moça, juntando com a minha, que é menos material; então nós
pudemos mover os diversos objetos, nós dois.”
13) Bem que você poderia — penso eu — nos dar algumas informações
sobre a sua pessoa. Diga-nos então, primeiramente: faz muito tempo que
morreu?
“Faz muito tempo; faz uns cinquenta anos.”
14) Quem era você, quando estava vivo?
“Não era lá grande coisa; eu perambulava por esse bairro, e às vezes as
pessoas me diziam bobagens, porque eu gostava muito do licor vermelho do
bom velho Noé. Por isso eu queria colocar todos pra correr.”
15) Foi por você mesmo e de boa vontade que respondeu às nossas
perguntas?
“Eu tinha um instrutor.”
16) Quem é esse instrutor?
“O vosso bom rei Luís.”
Nota – Essa pergunta foi motivada pela natureza de algumas respostas, que nos
112 – Allan Kardec
pareceram ultrapassar o alcance desse Espírito, pela substância das ideias e mesmo
pela forma da linguagem. Logo, não há nada de se admirar que ele tenha sido ajudado
por um Espírito mais esclarecido que quisesse aproveitar dessa ocasião para nos dar
alguma instrução. Este é um fato muito comum, mas uma notável particularidade
nessa circunstância é que a influência do outro Espírito se reflete na própria escrita; a
das respostas em que ele interveio é mais regular e mais corrente; a do brincalhão é
angulosa, grossa, irregular, às vezes pouco legível, e tem uma letra muito diferente.
17) O que você faz agora? Ocupa-se com o teu futuro?
“Ainda não; eu perambulo. Pensam tão pouco em mim na Terra, que
ninguém reza por mim: como não tenho quem me ajude, eu não trabalho.”
Nota – Veremos mais tarde o quanto podemos contribuir para o adiantamento e
o alívio dos Espíritos inferiores através da prece e dos conselhos.
18) Qual era o teu nome em vida?
“Jeannet.”
19) Está bem, Jeannet! Oraremos por ti. Diga-nos se a nossa evocação te
deu prazer ou se te contrariou?
“Foi um prazer, pois que são bons rapazes, viventes alegres, embora um
pouco sérios; não importa: vocês me ouviram e estou contente.”
JEANNET.
Fenômenos de transporte
- Este fenômeno não difere daquele de que acabamos de falar, a não ser
pela intenção benevolente do Espírito autor da manifestação, pela natureza
dos objetos — quase sempre graciosos — e pela maneira suave e muitas
vezes delicada como são trazidos. Consiste no transporte espontâneo de
objetos que não existem no lugar onde ocorre o fenômeno; geralmente são
flores, algumas vezes frutas, doces, joias etc. - Digamos, antes de tudo, que este fenômeno é um dos que mais se prestam
à imitação e que, por conseguinte, devemos estar atentos contra a fraude.
113 – O Livro dos Médiuns
Sabemos até onde pode ir a arte da prestidigitação26 em se tratando de
experiências desse gênero; contudo, mesmo sem ter que lidar com um
profissional, poderemos ser facilmente iludidos por uma manobra hábil e
interesseira. A melhor de todas as garantias está no caráter, na notória
honestidade e no absoluto desinteresse da pessoa que obtém tais efeitos;
em segundo lugar, no exame atento de todas as circunstâncias nas quais os
fatos se produzem; e, finalmente, no conhecimento esclarecido do espiritismo,
o único que pode descobrir o que fosse suspeito.
- A teoria do fenômeno dos transportes e das manifestações físicas em geral
se acha resumida de uma maneira notável na seguinte dissertação, por um
Espírito cujas todas as comunicações contêm um cunho incontestável de
profundidade e lógica. Encontraremos várias delas no curso desta obra. Ele se
apresentou pelo nome de Erasto, discípulo de são Paulo, e como protetor do
médium que lhe serviu de intérprete:
“Para se obter fenômenos dessa ordem, faz-se necessário ter consigo
médiuns que chamarei de sensitivos, quer dizer, dotados no mais alto grau
das faculdades medianímicas de expansão e de penetrabilidade, porque o
sistema nervoso desses médiuns — facilmente excitável — lhes permite, por
meio de certas vibrações, projetar profusamente em torno deles seu fluido
animalizado.
“As naturezas impressionáveis — as pessoas cujos nervos vibram com a
menor emoção, a mais singela sensação; aquelas que se sensibilizam com a
influência moral ou física, interna ou externa — são indivíduos muito aptos a
se tornarem excelentes médiuns para os efeitos físicos de tangibilidade e de
transporte. Efetivamente, o sistema nervoso dessas pessoas — quase
inteiramente desprovido do invólucro refratário, que na maioria dos outros
encarnados isola esse sistema nervoso — as torna apropriadas para o
desenvolvimento desses diversos fenômenos. Como consequência, com um
26 Prestidigitação: a técnica de iludir o espectador com truques de mágica e ilusionismo. De fato, o
advento do Espiritismo inspirou muitos mágicos e ilusionistas, muitos dos quais se passavam por
médiuns para promover espetáculos e vender consultas particulares, supostamente se valendo de
poderes medianímicos. — N. T.
114 – Allan Kardec
indivíduo de uma natureza como essa e cujas outras faculdades não sejam
hostis à medianimização, nós facilmente obteremos os fenômenos de
tangibilidade, batidas nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes
e até mesmo a suspensão no espaço da mais pesada matéria inerte. A fortiori,
obteríamos esses mesmos resultados se, em vez de um médium, tivéssemos à
nossa disposição vários deles igualmente bem-dotados.
“Mas, da produção desses fenômenos até a obtenção dos de transporte
há um mundo inteiro, pois neste caso não só o trabalho do Espírito é mais
complexo e mais difícil, como ainda mais porque o Espírito apenas consegue
operar por meio de um único aparelho medianímico; quer dizer, vários
médiuns não podem contribuir simultaneamente para a produção do mesmo
fenômeno. Acontece também que, ao contrário, a presença de certas pessoas
antipáticas ao Espírito que realiza o fenômeno pode entravar radicalmente a
operação. A estes motivos que, como podem ver, não deixam de ter
importância, acrescentemos que os transportes requerem sempre uma
concentração maior e ao mesmo tempo uma maior difusão de certos fluidos,
que somente podem ser obtidos com os médiuns mais dotados, enfim, com
aqueles cujo aparelho eletromedianímico é o mais bem condicionado.
“Em geral, os casos de transporte são e continuarão extremamente raros.
Não preciso lhes demonstrar porque eles são e serão menos frequentes do
que os outros casos de tangibilidade; do que estou dizendo, vocês mesmos
podem deduzir. Ademais, estes fenômenos são de uma natureza tal que não
apenas nem todos os médiuns servem para produzi-los, mas que dentre os
Espíritos nem todos podem operá-los. Com efeito, é necessário que exista
entre o Espírito e o médium influenciado uma certa afinidade, uma certa
analogia, em suma, uma certa semelhança que permita à parte expansível do
fluido perispirítico27 do encarnado se misturar, se unir e se combinar com o
do Espírito que queira fazer um transporte. Essa fusão deve ser de um jeito tal
que a força resultante se torne — por assim dizer — uma: do mesmo modo
que uma corrente elétrica, agindo sobre o carvão, produz um só foco, uma
27 Vê-se que, quando se trata de expressar uma ideia nova para a qual falta um termo na língua, os
Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Essas palavras eletromedianímico e perispirítico
não são nossas. Aqueles que têm criticado por nós termos criado as palavras espírita, espiritismo e
perispírito, que não tinham termos equivalentes, poderão então fazer a mesma crítica aos Espíritos.
115 – O Livro dos Médiuns
única claridade. Por que essa união? Por que essa fusão? — vocês
perguntarão. É que, para a produção destes fenômenos, é preciso que as
propriedades essenciais do Espírito motor sejam aumentadas com algumas
das propriedades do medianimizado; é que o fluido vital — indispensável à
produção de todos os fenômenos medianímicos — é privilégio exclusivo do
encarnado e que, por conseguinte, o Espírito operador fica obrigado a se
impregnar dele. Só então é que, mediante certas propriedades do vosso meio
ambiente e que vocês desconhecem, ele pode isolar, tornar invisíveis e fazer
mover determinados objetos materiais e até os próprios encarnados.
“Não me é permitido, por enquanto, lhes desvendar essas leis
particulares que regem os gases e os fluidos que cercam vocês; mas, antes que
alguns anos tenham decorrido, antes que uma existência de homem tenha se
cumprido, a explicação destas leis e destes fenômenos lhes será revelada e
vocês verão surgir e se produzir uma nova variedade de médiuns, que cairão
num estado cataléptico especial desde que sejam medianimizados.
“Vejam quantas dificuldades envolvem a produção dos transportes;
vocês podem concluir daí muito logicamente que os fenômenos desta
natureza são extremamente raros, como eu disse, e com tanto mais razão que
os Espíritos se interessam muito pouco em produzi-los, porque isso exige da
parte deles um trabalho quase material — o que é um tédio e uma fadiga para
eles. Por outro lado, ocorre também isso: apesar da energia e da vontade
deles, muito frequentemente o estado do próprio médium lhes opõe uma
barreira intransponível.
“Portanto, é evidente — e o vosso raciocínio comprovará, eu não duvido
— que os fatos tangíveis das batidas, dos movimentos e das suspensões são
fenômenos simples, que se operam pela concentração e dilatação de certos
fluidos e que podem ser provocados e obtidos pela vontade e pelo trabalho
dos médiuns aptos a isso, quando estes são auxiliados por Espíritos amigos e
benevolentes; ao passo que os fatos de transporte são múltiplos e complexos,
exigindo um conjunto de circunstâncias especiais, não podendo ser operados
senão por um único Espírito e um único médium, e requerem — além da
necessidade da tangibilidade — uma combinação toda particular para isolar e
tornar invisíveis os objetos que são alvos do transporte.
116 – Allan Kardec
“Todos vocês, espíritas, vocês compreendem as minhas explicações e
percebem perfeitamente essa concentração de fluidos especiais, para a
locomoção e a tatilidade da matéria inerte; vocês acreditam nisso como
acreditam nos fenômenos da eletricidade e do magnetismo, com os quais os
fatos medianímicos estão cheios de semelhança e que são, por assim dizer, a
consagração e o desenvolvimento daqueles. Quanto aos incrédulos e aos
doutores, piores do que os incrédulos, não me compete convencê-los e não me
ocupo com eles; um dia eles ficarão convencidos pela força da evidência, pois
será obrigatório que se curvem diante do testemunho unanime dos fatos
espíritas, como eles foram forçados a se curvar diante de tantos outros fatos
que eles a princípio rejeitaram.
“Para resumir: se os casos de tangibilidade são frequentes, os de
transporte são muito raros, porque as condições requeridas são muito
difíceis; por conseguinte, nenhum médium pode dizer: A tal hora e em tal
minuto eu obterei um transporte; pois frequentemente o próprio Espírito se
encontra impedido dessa obra. Devo acrescentar que esses fenômenos são
duplamente difíceis em público, porque aí quase sempre se encontram
elementos energicamente refratários que paralisam os esforços do Espírito e,
com mais forte razão, paralisam a ação do médium. Tenham como certo que,
ao contrário, esses fenômenos se produzem quase sempre em particular,
espontaneamente, e na maioria das vezes sem a percepção dos médiuns e sem
premeditação, e, finalmente, muito raramente quando os médiuns estão
prevenidos; do que vocês devem deduzir que há um legítimo motivo de
suspeita todas as vezes que um médium se gaba de obter esses fenômenos à
vontade, ou, de outra forma, de ditar ordens aos Espíritos como a seus servos
— o que é simplesmente um total absurdo. Tenham também como regra geral
que os fenômenos espíritas não são dados para se oferecer espetáculo e
divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a esse tipo de coisas, só
pode ser para a produção de fenômenos simples, e não para os que exigem
condições excepcionais, tais como os de transporte e outros semelhantes.
“Lembrem-se, espíritas, que se é um absurdo repelir sistematicamente
todos os fenômenos de além-túmulo, também não é sábio aceitar todos eles
cegamente. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição ou de
117 – O Livro dos Médiuns
transporte se manifesta espontaneamente e de um modo instantâneo,
aceitem-no; porém, nunca seria demais repetir que não aceitem nada
cegamente; que cada fato seja submetido a um exame minucioso,
aprofundado e severo; pois, acreditem, o espiritismo — que é tão rico em
fenômenos sublimes e grandiosos — nada tem a ganhar com essas pequenas
manifestações que trapaceiros hábeis podem imitar.
“Eu sei bem o que vão dizer: que esses fenômenos são úteis para
convencer os incrédulos. Mas fiquem sabendo que: se não tivessem outros
meios de convicção, vocês não contariam hoje com a centésima parte dos
espíritas que vocês têm. Falem ao coração; é por aí que farão mais conversões
sérias. Se, para certas pessoas, vocês julgarem conveniente agir pelos fatos
materiais, ao menos apresentem-nos em circunstâncias tais que não possam
dar ensejo a nenhuma interpretação falsa e, sobretudo, não saiam das
condições normais desses fatos, porque, os fatos apresentados em más
condições fornecem argumentos aos incrédulos, em vez de convencê-los.”
ERASTO
- O fenômeno de transporte oferece uma particularidade assaz notável:
certos médiuns só o obtêm em estado sonambúlico, e isso pode ser explicado
facilmente. Há no sonâmbulo um desprendimento natural, uma espécie de
isolamento do Espírito e do perispírito, que deve facilitar a combinação dos
fluidos necessários. Tal é o caso dos transportes que temos testemunhado. As
questões seguintes foram dirigidas ao Espírito que os produzira, mas suas
respostas às vezes refletem sua insuficiência; nós as submetemos ao Espírito
Erasto, que é muito mais instruído do ponto de vista teórico, e ele as
completou com anotações muito judiciosas. Um é o artesão, o outro é o sábio;
a própria comparação dessas inteligências forma um estudo instrutivo, pois
prova que não basta ser um Espírito para saber de tudo.
1) Queira nos dizer, por favor, por que os transportes que você acabou
de fazer não se produzem a não ser com o médium em estado sonambúlico?
“Isto tem a ver com a natureza do médium; os fatos que produzi quando
o meu intermediário está adormecido, eu poderia produzi-los igualmente com
outro médium em estado de vigília.”
118 – Allan Kardec
2) Por que você demora tanto para trazer os objetos e por que atiça a
cobiça do médium, excitando-lhe o desejo de obter o objeto prometido?
“Esse tempo é necessário para eu preparar os fluidos que servem ao
transporte. Quanto à excitação, muitas vezes é só para divertir as pessoas
presentes e o sonâmbulo.”
Nota de Erasto – O Espírito que respondeu não sabe além disso; ele não se dá
conta do motivo dessa cobiça que ele aguça instintivamente sem compreender seu
efeito; acredita estar divertindo, enquanto na realidade ele provoca, sem suspeitar,
uma maior emissão de fluido. Essa é a consequência da dificuldade que o fenômeno
apresenta, dificuldade sempre maior quando não é espontâneo, sobretudo com
determinados médiuns.
3) A produção do fenômeno depende da natureza especial do médium e
poderia se produzir por outros médiuns com mais facilidade e prontidão?
“A produção depende da natureza do médium e não pode se produzir
senão com naturezas correspondentes; quanto à prontidão, o hábito que
adquirimos, correspondendo frequentemente com o mesmo médium, é de
uma grande vantagem para nós.”
4) A influência das pessoas presentes tem alguma coisa a ver com isso?
“Quando há incredulidade nelas, alguma oposição, pode nos prejudicar
muito; preferimos apresentar nossas provas aos crentes e a pessoas versadas
no espiritismo, mas não quero dizer com isso que a má vontade poderia nos
paralisar completamente.”
5) Onde você foi buscar as flores e os doces que transportou?
“As flores eu peguei dos jardins, onde elas me agradam.”
6) E os doces? O comerciante deve ter percebido a falta deles.
“Eu os pego de onde me agrada; o comerciante não percebeu de nada,
porque coloquei outros doces no seu lugar.”
7) Mas os anéis têm algum valor; de onde os tirou? Isso não teria
causado prejuízo àquele de quem você pegou emprestado?
“Tirei-os de lugares que todos desconhecem e de uma maneira que
ninguém possa ter nenhum prejuízo.”
119 – O Livro dos Médiuns
Nota de Erasto – Creio que o fato foi explicado de uma maneira insatisfatória
devido a condição do Espírito que respondeu. Sim, ele pode ter causado um prejuízo
real, mas o Espírito não quis assumir ter desviado o que quer que fosse. Um objeto só
pode ser substituído por outro objeto idêntico, da mesma forma e do mesmo valor;
por conseguinte, se um Espírito tivesse a faculdade de substituir um objeto por outro
parecido com aquele que pega, então ele não teria razão para pegá-lo, e devia dar
aquele que serve de substituto.
8) Seria possível trazer flores de outro planeta?
“Não, isso não seria possível para mim.”
— [A Erasto] Outros Espíritos teria essa capacidade?
“Impossível, em razão da diferença do meio ambiente.”
9) Poderia nos trazer flores de outro hemisfério, por exemplo, dos
trópicos?
“Desde que seja da Terra, eu posso.”
10) Os objetos que transportou, você poderia fazê-los desaparecer e
reaparecer?
“Assim como os trouxe aqui, posso levá-los à vontade.”
11) A produção do fenômeno dos transportes te causa algum transtorno,
um embaraço qualquer?
“Não nos causa nenhum transtorno quando temos permissão para
produzi-los; até poderia nos causar sérios embaraços se quiséssemos
produzir efeitos sem autorização para isso.”
Nota de Erasto – Ele não quer reconhecer que isso lhe é penoso, embora o seja
realmente, porque é forçado a fazer uma operação, por assim dizer, material.
12) Quais são as dificuldades que você encontra?
“Nenhuma outra além das más disposições fluídicas que possam ser
contrárias a nós.”
13) Como você carrega o objeto; segurando-o com as mãos?
“Não; nós o envolvemos em nós mesmos.”
Nota de Erasto – Ele não explica claramente sua operação, pois ele não envolve
o objeto com a sua própria personalidade; mas como o seu fluido pessoal é dilatável,
120 – Allan Kardec
penetrável e expansível, ele combina uma parte desse fluido com uma parte do fluido
animalizado do médium, e é nesta combinação que esconde e transporta o objeto do
transporte. Portanto, não é correto dizer que o envolve em si.
14) Você traria com a mesma facilidade um objeto de um peso
considerável, de 50 quilos, por exemplo?
“O peso não é nada para nós; trazemos flores, porque isso pode ser mais
agradável do que um peso volumoso.”
Nota de Erasto – Está correto; ele pode carregar objetos de cem ou duzentos
quilos, pois a gravidade que existe para vocês é anulada para ele; mas, ainda aqui, ele
não percebe bem o que se passa. A massa dos fluidos combinados é proporcional à
massa dos objetos; numa palavra, a força deve estar em proporção com a resistência;
daí se segue que, se o Espírito traz apenas uma flor, ou um objeto leve, muitas vezes é
porque não encontra no médium, ou em si mesmo, os elementos necessários para um
esforço mais considerável.
15) Haveria algumas vezes desaparições de objetos cuja causa é
desconhecida e que poderiam ser obra de Espíritos?
“Ocorrem muito frequentemente, mais frequente do que vocês pensam, e
poderíamos solucionar isso pedindo ao Espírito para repor o objeto
desaparecido.”
Nota de Erasto – É verdade, mas às vezes o que é subtraído realmente é
subtraído, pois esses objetos que não se encontram mais em casa com frequência são
levados para muito longe. Entretanto, como a retirada dos objetos exige quase que as
mesmas condições fluídicas que a trazida, ela só se pode dar com o auxílio de médiuns
dotados de faculdades especiais. Por isso, quando uma coisa desaparece, é mais
provável que seja o resultado do descuido de vocês do que dos Espíritos.
16) Haveria efeitos que consideramos como fenômenos naturais e que
sejam devido à ação de certos Espíritos?
“Vossos dias são repletos desses fatos que vocês não compreendem, pois
vocês não os sondam, mas que um pouco de reflexão os faria ver claramente.”
Nota de Erasto – Não atribuam aos Espíritos o que é obra da humanidade, mas
creiam na influência deles — oculta e constante — que faz brotar em torno de vocês
mil circunstâncias, mil incidentes necessários ao cumprimento dos vossos atos, da
vossa existência.
121 – O Livro dos Médiuns
17) Entre os objetos transportados, não haveria alguns que poderiam ser
confeccionados pelos Espíritos, isto é, produzidos espontaneamente pelas
modificações que os Espíritos podem fazer no fluido ou no elemento
universal?
“Não, por mim, porque eu não tenho permissão para isso; só um Espírito
elevado o poderia.”
18) Como outro dia você conseguiu introduzir aqueles objetos, já que o
quarto estava fechado?
“Os fiz entrar comigo, por assim dizer, envolvidos na minha substância;
quanto a lhes dizer mais do que isso, não é explicável.”
19) Como tornou visíveis aqueles objetos que antes estavam invisíveis?
“Eu removi a matéria que os envolvia.”
Nota de Erasto – Não é a matéria propriamente dita que os envolve, mas um
fluido tirado metade do perispírito do médium e metade do Espírito que opera.
20) [A Erasto] Um objeto pode ser transportado para um lugar
inteiramente fechado? Numa palavra, o Espírito pode espiritualizar um objeto
material, de maneira que possa penetrar a matéria?
“Esta questão é complexa. Quanto aos objetos transportados, o Espírito
pode torná-los invisíveis, mas não penetráveis; ele não pode romper a
agregação da matéria, o que seria a destruição do objeto. Tornando este
objeto invisível, ele o pode transportar quando bem queira e não o largar
senão no momento oportuno para fazê-lo aparecer. É diferente para aqueles
que nós compomos; como só introduzimos os elementos da matéria, e como
esses elementos são essencialmente penetráveis; que nós mesmos
penetramos e atravessamos os corpos mais condensados com a mesma
facilidade com que os raios solares atravessam uma vidraça, então nós
podemos dizer perfeitamente que introduzimos o objeto num lugar, por mais
fechado que esteja, mas isso somente neste caso.”
Nota – Quanto à teoria da formação espontânea dos objetos, veja adiante o
capítulo intitulado: Laboratório do mundo invisível.
122 – Allan Kardec
CAPÍTULO VI
MANIFESTAÇÕES VISUAIS
Questões sobre as aparições – Ensaio teórico sobre as aparições –
Espíritos glóbulos – Teoria da alucinação
- De todas as manifestações espíritas, sem contradição, as mais
interessantes são aquelas em que os Espíritos podem se tornar visíveis. Pela
explicação deste fenômeno, veremos que ele não é mais sobrenatural do que
os outros. Vamos apresentar primeiramente as respostas que foram feitas aos
Espíritos acerca desse assunto:
1) Os Espíritos podem se tornar visíveis?
“Podem sim, sobretudo durante o sono. Entretanto, algumas pessoas os
veem também durante o estado desperto, mas isso é mais raro.”
Nota – Enquanto o corpo repousa, o Espírito se desprende dos laços materiais; fica
mais livre e pode mais facilmente ver os outros Espíritos, com os quais ele entra em
comunicação. O sonho é exatamente a recordação desse estado; quando as pessoas
não se lembram de nada, elas dizem que não tiveram sonho, mas nem por isso a alma
deixou de ver e de gozar da sua liberdade. Aqui nos ocupamos especialmente com as
aparições no estado de vigília.28
2) Os Espíritos que manifestam à vista pertencem mais a uma categoria
do que a outra?
“Não; eles podem pertencer a todas as classes, desde as mais elevadas
até as mais inferiores.”
28 Para mais detalhes sobre o estado do Espírito durante o sono, ver O Livro dos Espíritos, cap.
Emancipação da alma, questão 409.
123 – O Livro dos Médiuns
3) É permitido a todos os Espíritos se manifestarem visivelmente?
“Todos podem, mas nem sempre eles têm permissão ou vontade de se
manifestar.”
4) Qual é o objetivo dos Espíritos que se manifestam visivelmente?
“Isso depende; de acordo com a sua natureza, o objetivo pode ser bom
ou mau.”
5) Como essa permissão pode lhes ser dada quando o propósito é mau?
“Nesse caso é para pôr em provação aqueles a quem eles aparecem. A
intenção do Espírito pode ser má, mas o resultado pode ser bom.”
6) Qual pode ser a finalidade dos Espíritos que tem uma má intenção ao
se deixar ser visto?
“Amedrontar, e muitas vezes se vingar.”
— Qual a finalidade dos Espíritos que vêm com uma boa intenção?
“Consolar as pessoas que sentem saudades deles, provar que
existem e que estão perto delas, dar conselhos e algumas vezes pedir
assistência para si.”
7) Que inconveniência haveria para os homens se a possibilidade de ver
os Espíritos fosse permanente e generalizada? Essa não seria uma forma de
tirar a dúvida dos mais incrédulos?
“Estando o homem constantemente cercado de Espíritos, vê-los sem
cessar o perturbaria, atrapalharia suas ações e lhe tiraria a iniciativa na
maioria dos casos, ao passo que, acreditando estar sozinho ele age mais
livremente. Quanto aos descrentes, estes já dispõem de meios o bastante para
se convencerem — se quiserem aproveitá-los e se não estiverem cegos pelo
orgulho. Vocês sabem muito bem que há pessoas que têm visto e que nem por
isso creem, porque dizem que são ilusões. Não se inquietem com essas
pessoas; Deus se encarrega delas.”
Nota – Haveria tanta inconveniência em estarmos constantemente na presença
dos Espíritos quanto em vermos o ar que nos rodeia ou as miríades de animais
microscópicos em torno de nós e em nós mesmos. Donde devemos concluir que aquilo
que Deus faz é bem-feito e que ele sabe melhor do que nós o que nos convém.
124 – Allan Kardec
8) Já que a visualização de Espíritos tem inconveniências, por que ela é
permitida em alguns casos?
“É para dar uma prova de que nem tudo morre com o corpo, e que a alma
conserva sua individualidade após a morte. Essa visualização passageira basta
para dar essa prova e para atestar a presença de amigos ao vosso lado; mas
ela não tem os inconvenientes da vidência permanente.”
9) Nos mundos mais adiantados que o nosso, a visualização de Espíritos
é mais frequente?
“Quanto mais o homem se aproxima da natureza espiritual, mais
facilmente ele entra em contato com os Espíritos; é a grosseria do envoltório
de vocês que torna mais difícil e mais rara a percepção dos seres etéreos.”
10) É racional se assustar com a aparição de um Espírito?
“Aquele que reflete deve compreender que um Espírito — qualquer que
seja — é menos perigoso do que uma pessoa viva. Aliás, os Espíritos vão a
toda parte, e você não precisa vê-los para saber que pode ter alguns ao teu
lado. O Espírito que quisesse fazer o mal poderia fazê-lo sem ser visto — e até
com mais segurança; ele não é perigoso por ser um Espírito, mas sim pela
influência que ele pode exercer sobre o pensamento, desviando-o do bem e
levando-o ao mal.”
Nota – As pessoas que têm medo de ficar sozinhas ou da escuridão raramente
percebem a causa de seu pavor; elas não seriam capazes de dizer do que têm medo,
mas certamente elas deveriam temer mais o encontro com os homens do que com os
Espíritos, porque um malfeitor é bem mais perigoso vivo do que morto. Certa noite,
uma senhora de nosso conhecimento teve no seu quarto uma aparição tão bem
caracterizada que ela acreditou estar na presença de alguém, e o seu primeiro
movimento foi de medo. Certificando-se de que não havia ninguém, ela disse: Parece
que é apenas um Espírito; então, posso dormir tranquila.
11) Aquele a quem um Espírito apareça poderia conversar com ele?
“Perfeitamente e é isso mesmo o que sempre se deve fazer em tal caso,
perguntando ao Espírito quem ele é, o que deseja e o que se poderia fazer
para lhe ser útil. Se o Espírito estiver infeliz e sofrendo, a compaixão que lhe
dedicarmos o aliviará; se for um Espírito bondoso, pode vir na intenção de dar
bons conselhos.”
125 – O Livro dos Médiuns
— Nesse caso, como o Espírito poderia responder?
“Algumas vezes ele responde por sons articulados, como o faria
uma pessoa viva; mas, na maioria dos casos, acontece uma transmissão
de pensamentos.”
12) Os Espíritos que aparecem com asas têm realmente essas asas, ou
elas não passam de uma aparência simbólica?
“Os Espíritos não têm asas; eles não precisam delas, porque podem se
transportar para qualquer lugar como Espíritos. Eles aparecem na forma com
a qual queiram impressionar a pessoa a quem se mostram: uns aparecerão
com uma roupa comum, outros aparecerão cobertos de lençóis, alguns com
asas, como atributo da categoria de Espíritos à qual pertençam.”
13) As pessoas que vemos em sonho são sempre aquelas de quem elas
têm o aspecto?
“Quase sempre são as mesmas pessoas que vosso Espírito vai encontrar
ou as que vêm encontrar vocês.”
14) Os Espíritos zombeteiros não poderiam tomar a aparência das
pessoas que nos são queridas para nos induzir ao erro?
“Eles tomam aparências fantásticas só para se divertirem às custas de
vocês; mas há coisas com as quais não lhes é permitido brincar.”
15) Sendo o pensamento uma espécie de evocação, compreendemos que
ele provoque a presença do Espírito; entretanto, como é que muitas vezes as
pessoas em quem mais pensamos e que ardentemente desejamos rever
jamais se apresentam em nosso sonho, enquanto vemos outras indiferentes e
nas quais nunca pensamos?
“Nem sempre os Espíritos têm a possibilidade de se manifestarem
visivelmente, mesmo em sonho, e malgrado o desejo que se tenha de vê-los;
causas acima da vontade deles podem impedir sua manifestação. Muitas vezes
também é uma provação da qual o mais ardente desejo não consegue se
livrar. Quanto às pessoas indiferentes, se vocês não pensam nelas, é possível
que elas pensem em vocês. Ademais, vocês não fazem ideia das relações no
mundo dos Espíritos; vocês aqui encontram uma série de conhecimentos
126 – Allan Kardec
íntimos, antigos ou recentes, de que não têm ideia enquanto estão acordados.”
Nota – Quando não há nenhum meio de verificar as visões ou aparições, sem
dúvida podemos colocá-las na conta da alucinação; porém, quando elas são
confirmadas pelos fatos, não seria o caso de atribuí-las à imaginação. Tais são, por
exemplo, as aparições no momento da morte — em sonho ou em estado de vigília —
de pessoas em quem não pensávamos de forma algum e que, por diversos sinais, vêm
revelar as circunstâncias totalmente inesperadas do seu fim. Têm-se visto muitas
vezes cavalos empinarem e recusarem a avançar diante de aparições que assustam
aqueles que os conduzem. Se a imaginação tem alguma coisa a ver com os homens,
seguramente não tem nada a ver com os animais. Além disso, se as imagens que se vê
em sonho fossem sempre um efeito das preocupações de véspera, nada explicaria por
que normalmente nós nunca sonhamos com as coisas nas quais mais pensamos.
16) Por que algumas visões são mais frequentes na situação de doença?
“Elas ocorrem igualmente no perfeito estado de saúde, mas na doença os
laços materiais são afrouxados; a fraqueza do corpo dá mais liberdade ao
Espírito, que mais facilmente entra em comunicação com os outros Espíritos.”
17) As aparições espontâneas parecem ser mais frequentes em certos
países. Será que alguns povos são mais dotados do que outros para receber
esse tipo de manifestações?
“Por acaso vocês têm um registro histórico de cada aparição? As
aparições, como os ruídos e todas as manifestações, enfim, estão igualmente
espalhadas sobre toda a Terra, mas elas apresentam características distintas
conforme os povos entre os quais elas se realizam. Por exemplo, naqueles
onde a escrita está pouco disseminada, não há médiuns escreventes; noutros
povos eles são abundantes; entre outros lugares geralmente há mais ruídos e
movimentos do que manifestações inteligentes, porque estas manifestações
são menos apreciadas e procuradas ali.”
18) Por que as aparições normalmente acontecem à noite? Isso não seria
um efeito do silêncio e da escuridão sobre a imaginação?
“É pela mesma razão que faz vocês enxergarem as estrelas durante a
noite e não as enxergarem em pleno dia. A grande claridade pode ofuscar uma
aparição leve, mas é um erro acreditar que a noite tenha alguma coisa a ver
127 – O Livro dos Médiuns
com isso. Interroguem todos aqueles que tiveram visões e vocês verão que a
maioria delas acontece de dia.”
Nota – Os casos de aparições são muito mais frequentes e generalizados do que
se pensa, mas muitas pessoas não as assumem por receio do ridículo, e outras as
atribuem à ilusão. Se parecem mais numerosas entre alguns povos, isso é porque ali
se conservam mais atentamente as tradições, verdadeiras ou falsas, quase sempre
exageradas pela atração do maravilhoso, ao qual mais ou menos se preste o aspecto
das localidades; a credulidade então faz ver efeitos sobrenaturais nos fenômenos mais
simples: o silêncio da solidão, o escarpamento dos barrancos, o rugido da floresta, as
rajadas da tempestade, o eco das montanhas, a forma fantástica das nuvens, as
sombras, as miragens, tudo enfim se presta à ilusão para imaginações simples e
ingênuas, que narram de boa-fé o que viram ou o que acreditaram ver. Porém, ao lado
da ficção há a realidade; é para o desprendimento de todos esses acessórios ridículos
da superstição que conduz o estudo sério do espiritismo.
19) A visualização de Espíritos se produz no estado normal ou apenas
num estado extático?
“Ela pode ser produzida nas condições perfeitamente normais, embora
as pessoas que veem os Espíritos se encontram muitas vezes num estado
especial, próximo do êxtase, que lhes dá uma espécie de dupla vista.” (Ver O
Livro dos Espíritos, questão 447.)
20) Aqueles que veem os Espíritos os veem com os olhos?
“Eles acreditam que sim, mas na realidade é a alma que vê, e o que prova
isso é que eles podem ver os Espíritos mesmo com os olhos fechados.”
21) Como o Espírito pode se tornar visível?
“O princípio é o mesmo que aquele de todas as manifestações: tem a ver
com as propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas modificações
conforme a vontade do Espírito.”
22) O Espírito propriamente dito pode se tornar visível ou somente com
a ajuda do perispírito?
“No estado material de vocês, os Espíritos não podem se manifestar a
não ser com a ajuda do envoltório semimaterial deles; é o intermediário pelo
qual eles afetam vossos sentidos. Sob esse envoltório é que eles aparecem às
128 – Allan Kardec
vezes com uma forma humana ou outra qualquer, seja nos sonhos ou no
estado de vigília, tanto em plena luz como na escuridão.”
23) Poderíamos dizer que é pela condensação do fluido do perispírito
que o Espírito se torna visível?
“Condensação não é a palavra exata: trata-se de uma comparação que
pode lhes ajudar a compreender o fenômeno, porque não há de fato uma
condensação. Pela combinação dos fluidos, produz-se no perispírito uma
disposição particular que não se parece com nada do que vocês conhecem, e
que o torna perceptível.”
24) Os Espíritos que aparecem são sempre inapreensíveis e
imperceptíveis ao tato?
“Inapreensíveis como num sonho, no seu estado normal; entretanto, eles
podem produzir uma impressão ao tato e deixar vestígios de sua presença, e
até mesmo se tornar momentaneamente tangíveis em certos casos — o que
prova que entre eles e vocês há uma matéria.”
25) Todo mundo está apto a ver os Espíritos?
“Durante o sono sim, mas não em estado de vigília. Durante o sono, a
alma vê sem intermediário; no estado de vigília, ela sempre está mais ou
menos influenciada pelos órgãos: é por isso que as condições não são
totalmente as mesmas.”
26) A que se deve a capacidade de ver os Espíritos durante o estado
desperto?
“Essa capacidade depende do organismo; ela tem a ver com a maior ou
menor facilidade com que o fluido do vidente tem de se combinar com o fluido
do Espírito. Assim, não basta ao Espírito querer se mostrar; é preciso também
que ele encontre a aptidão necessária na pessoa pela qual ele quer ser visto.”
— Essa faculdade pode ser desenvolvida pelo exercício?
“Pode, como todas as outras faculdades; mas essa é uma daquelas
pelas quais é melhor esperar o desenvolvimento natural do que provocá-
lo, para não excitar demais a imaginação. A capacidade generalizada e
129 – O Livro dos Médiuns
permanentemente de ver os Espíritos é excepcional e não faz parte das
condições normais do homem.”
27) Nós podemos provocar a aparição dos Espíritos?
“Isso algumas vezes é possível, mas muito raramente; ela é quase
sempre espontânea. Para provocar tal aparição, é preciso ser dotado de uma
faculdade especial.”
28) Os Espíritos podem se tornar visíveis sob outra aparência que não a
forma humana?
“A forma humana é a forma normal; o Espírito pode variar sua
aparência, mas é sempre do tipo humano.”
— Não podem se manifestar sob a forma de uma chama?
“Eles podem produzir chamas, clarões, como todos os outros
efeitos, para atestar sua presença; mas essas coisas não são os próprios
Espíritos. A chama muitas vezes não passa de uma miragem ou uma
emanação do perispírito; em todos os casos, é apenas uma parte deste: o
perispírito não aparece inteiramente senão nas visões.”
29) Que devemos pensar da crença que atribui os fogos-fátuos à
presença de almas ou Espíritos?
“Superstição produzida pela ignorância. A causa física dos fogos-fátuos é
bem conhecida.”
29
— A chama azul que, segundo dizem, apareceu sobre a cabeça de
Sérvio Túlio,30 quando ele era uma criança, é uma fábula, ou foi real?
“Foi real; ela foi produzida por um Espírito familiar que queria
advertir a mãe. Essa mãe — que era médium vidente — percebeu uma
irradiação do Espírito protetor de seu filho. Nem todos os médiuns
videntes veem num mesmo grau, assim como nem todos os médiuns
escreventes escrevem a mesma coisa. Enquanto aquela mãe não viu mais
29 Fogo-fátuo: fenômeno natural que produz uma luminosidade, geralmente emanada de superfícies
aquosas ou de sepulturas, cuja causa é atribuída à combustão de gases provenientes da decomposição
de matérias orgânicas. — N. T.
30 Servius Tullius: sexto rei de Roma, cujo reinado durou entre 578 a.C. e 539 a.C. — N. T.
130 – Allan Kardec
do que uma centelha, outro médium teria conseguido ver o próprio
corpo do Espírito.”
30) Os Espíritos poderiam se apresentar sob a forma de animais?
“Isso pode acontecer, mas são sempre Espíritos muito inferiores que
tomam essas aparências. Em todos os casos, isso não seria mais do que uma
aparência momentânea, pois seria um absurdo acreditar que um animal
verdadeiro qualquer pudesse ser a encarnação de um Espírito. Os animais são
sempre animais e nada mais do que isso.”31
Nota – Somente a superstição pode fazer crer que certos animais sejam
animados por Espíritos; é preciso uma imaginação bem complacente ou muito
impressionada para ver qualquer coisa de sobrenatural nas circunstâncias um pouco
bizarras em que eles se apresentam algumas vezes; o medo normalmente faz ver o
que não existe. Mas o medo nem sempre é a fonte dessa ideia; conhecemos uma
senhora — muito inteligente, aliás — que estimava demasiadamente um gatão preto,
porque acreditava que ele era de uma natureza superanimal; entretanto, essa
senhora jamais tinha escutado falar do espiritismo; se ela o tivesse conhecido, ele lhe
teria feito compreender o ridículo da causa de sua predileção, provando-lhe a
impossibilidade de tal metamorfose.
Ensaio teórico sobre as aparições
- As manifestações aparentes mais comuns ocorrem durante o sono, pelos
sonhos: são as visões. Não está no nosso programa examinar todas as
particularidades que os sonhos podem apresentar; resumiremos tudo
dizendo que eles podem ser: uma visão atual das coisas presentes ou
ausentes, uma visão retrospectiva do passado e, em alguns casos
excepcionais, um pressentimento do futuro. Muitas vezes também são
31 O entendimento sobre a natureza e a destinação da alma animal passou por um processo de revisão
ao longo da obra kardequiana, culminando com a abertura para a compreensão de que ela constitui uma
fase evolutiva do princípio inteligente individualizado que, ao adquirir um determinado grau de
desenvolvimento de certas faculdades intelectuais (senso moral e livre-arbítrio, especialmente), deixa a
condição animal e ingressa no reino hominal, tornando-se um Espírito, e desde então passa a
reencarnar na forma humana (Ver especialmente em A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o
Espiritismo, de Allan Kardec, cap. XI: ‘Gênese espiritual’). — N. T.
131 – O Livro dos Médiuns
quadros simbólicos que os Espíritos fazem passar sob nossos olhos para nos
dar avisos úteis e conselhos salutares — caso sejam Espíritos bons; ou para
nos induzir ao erro e incitar nossas paixões — se forem Espíritos imperfeitos.
A teoria a seguir se aplica tanto aos sonhos como a todos os outros casos de
aparições. (Ver em O Livro dos Espíritos, questão 400 e seguintes).
Acreditamos que seria um insulto ao bom senso dos nossos leitores
refutar aquilo que há de absurdo e de ridículo no que vulgarmente se chama
de interpretação dos sonhos.
- As aparições propriamente ditas se dão em estado de vigília e quando se
goza da plenitude e inteira liberdade das suas capacidades. Geralmente elas se
apresentam sob uma forma vaporosa e transparente, algumas vezes vaga e
imprecisa; à primeira vista, quase sempre ela consiste num brilho
esbranquiçado cujos contornos se desenham pouco a pouco. Doutras vezes, as
formas são nitidamente acentuadas e nós identificamos os mínimos traços da
fisionomia, a ponto de podermos fazer uma descrição muito precisa dela. As
aparências, o aspecto, tudo é semelhante ao que o Espírito era quando vivo.
Como o Espírito pode tomar todas as aparências, ele se apresenta sob a
forma que melhor possa torná-lo reconhecido, se este for o seu desejo. Sendo
assim, se bem que como Espírito ele não tenha nenhum defeito físico, ele se
mostrará estropiado, coxo, corcunda, ferido ou com cicatrizes, se isso for
necessário para constatar sua identidade. Por exemplo, como Espírito,
Esopo32 não é deformado; porém, se o evocarem como sendo Esopo, ainda
que ele tenha tido muitas existências depois, ele aparecerá feio e corcunda,
com sua vestimenta tradicional. Uma coisa curiosa é que, salvo em
circunstâncias particulares, as partes menos definidas são os membros
inferiores, enquanto a cabeça, o tronco, os braços e as mãos são sempre
claramente delineados: daí quase nunca os vemos andando, mas deslizando
como sombras. Quanto ao traje, compõem-se muito comumente de um lençol,
terminando em longas pregas esvoaçantes; com uma cabeleira ondulante e
graciosa, esta é a aparência pelo menos dos Espíritos que não conservaram
32 Esopo: escritor grego, considerado o pai da fábula (gênero literário). Diz-se que ele viveu por volta do
século VI a.C., e que era gago e corcunda. — N. T.
132 – Allan Kardec
nada das coisas terrestres; mas os Espíritos comuns, aqueles que nós
conhecemos, geralmente têm o traje que usavam no último período de sua
existência. Eles frequentemente carregam atributos característicos da sua
elevação, como uma auréola, ou asas, para aqueles que possam ser
considerados como anjos, ao passo que outros trazem aquilo que lembra suas
ocupações terrestres: dessa forma, um guerreiro poderá aparecer com a sua
armadura, um sábio com livros, um assassino com um punhal etc. Os Espíritos
superiores têm uma figura bela, nobre e serena; os mais inferiores têm
qualquer coisa de feroz e bestial, e algumas vezes ainda portam os vestígios
dos crimes que cometeram ou dos suplícios que sofreram. A questão da
vestimenta e de todos esses objetos acessórios talvez seja a que mais
surpreenda; voltaremos a essa questão num capítulo especial, porque ela está
ligada a outros fatos muito importantes.
- Nós temos dito que as aparições têm algo de vaporoso; em certos casos,
poderíamos compará-las à imagem refletida num espelho unidirecional, e
que, apesar da sua nitidez, não impede que se veja através dele os objetos que
estão por detrás. Geralmente é assim que os médiuns videntes as percebem;
tais médiuns as veem ir e vir, entrar num aposento ou sair dele, andar entre a
multidão dos vivos, tendo a aparência — pelo menos para os Espíritos
comuns — de fazer parte ativa de tudo o que se faz ao redor deles, de se
interessarem por tudo, de escutarem o que se diz. Muitas vezes eles são vistos
se aproximando de uma pessoa, para lhe insuflar ideias, influenciá-la, consolá-
la, se forem bons Espíritos; ou para perturbá-la, se forem malignos, a se
mostrar tristes ou contentes com os resultados obtidos. Numa palavra: é
como uma outra versão do mundo corpóreo. Tal é esse mundo oculto que nos
cerca, no meio do qual nós vivemos sem suspeitar dele, assim como vivemos,
também sem saber disso, no meio da imensidão do mundo microscópico. O
microscópio nos revelou o mundo dos seres infinitamente pequenos do qual
não suspeitávamos; o espiritismo, auxiliado pelos médiuns videntes, nos tem
revelado o mundo dos Espíritos, que, também esse mundo, constitui uma das
forças ativas da natureza. Com a ajuda dos médiuns videntes, nós estamos
podendo estudar o mundo invisível, conhecer os seus costumes, como um
133 – O Livro dos Médiuns
povo de cegos poderia estudar o mundo visível com o auxílio de alguns
homens que gozassem da visão. (Veja adiante, no capítulo dos médiuns, o
artigo referente aos médiuns videntes.)
- O Espírito que quer ou pode aparecer às vezes se reveste com uma
forma ainda mais nítida, tendo todas as aparências de um corpo sólido, ao
ponto de causar uma ilusão completa e de fazer crer que se tenha diante de si
um ser corpóreo. Em alguns casos, finalmente, e sob a força de certas
circunstâncias, a tangibilidade pode se tornar real, isto é, que se possa tocar,
palpar, sentir a mesma resistência e o mesmo calor que de um corpo vivo — o
que não impede que a tangibilidade se desvaneça com a rapidez do
relâmpago. Então, já não é somente pelos olhos que se constata a presença
dos Espíritos, mas também pelo tato. Com relação a uma aparição
simplesmente visual, ainda que pudéssemos atribui-la a uma ilusão ou a uma
espécie de fascinação, a mesma dúvida já não é permitida quando se consegue
segurá-la, apalpá-la, quando ela própria te toca e te abraça. Os casos de
aparições tangíveis são os mais raros, mas aqueles que têm acontecido nestes
últimos tempos, pela influência de alguns médiuns potentes33 e que foram
totalmente autenticados por testemunhas irrecusáveis, provam e explicam o
que a História relata acerca de pessoas que se mostraram depois de sua morte
com todas as aparências da realidade. De resto, conforme temos dito, por
mais extraordinários que sejam esses fenômenos, todo o maravilhoso
desaparece quando se conhece a maneira pela qual eles se produzem e
quando se compreende que, longe de ser uma derrogação das leis da
natureza, eles não são mais do que uma nova aplicação dessas leis. - Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisível, e isso
ele tem em comum com uma série de fluidos que nós sabemos que existem
sem que, entretanto, jamais os tenhamos visto. Mas, do mesmo modo que
alguns desses fluidos, ele também pode sofrer modificações que o tornem
perceptível à vista — seja por uma espécie de condensação, seja por uma
33 Entre outros, o Sr. Home.
[Menção ao médium escocês Daniel Dunglas Home (1833-1886). — N. T.]
134 – Allan Kardec
mudança na disposição de suas moléculas; é então que ele nos aparece sob
uma forma vaporosa. A condensação (é preciso não tomar esta palavra ao pé
da letra; nós aqui a empregamos apenas por falta de outra e a título de
comparação), a condensação — dizemos — pode ser de tal maneira que o
perispírito adquira as propriedades de um corpo sólido e tangível; mas ele
pode retomar instantaneamente seu estado etéreo e invisível. Podemos nos
dar conta desse efeito por aquele do vapor, que pode passar da invisibilidade
ao estado enevoado, depois líquido, depois sólido e vice-versa. Esses
diferentes estados do perispírito resultam da vontade do Espírito e não de
uma causa física exterior, como ocorre com os gases no nosso mundo. Quando
o Espírito nos aparece, é que ele pôs o seu perispírito na condição necessária
para se tornar visível; mas, para isso, não basta a sua vontade, porque a
modificação do perispírito se opera pela sua combinação com o fluido
particular do médium; ora, nem sempre essa combinação é possível, o que
explica por que a visibilidade dos Espíritos não é generalizada. Assim, não
basta que o Espírito queira se mostrar; não basta tampouco que uma pessoa
queira vê-lo: é necessário que os dois fluidos possam se combinar, que entre
eles tenha havido uma espécie de afinidade; talvez também que a emissão do
fluido da pessoa seja abundante o bastante para operar a transformação do
perispírito, e ainda, provavelmente, outras condições que desconhecemos;
enfim, é preciso que o Espírito tenha a permissão de se fazer visível a tal
pessoa — o que nem sempre lhe é concedido ou só é permitido em certas
circunstâncias, por motivos que não podemos apreciar.
- Outra propriedade do perispírito, e que tem a ver com a sua natureza
etérea, é a penetrabilidade. Nenhuma matéria lhe impõe obstáculo: ele
atravessa todas as matérias, como a luz atravessa os corpos transparentes. É
por isso que não há barreira que possa se opor à penetração dos Espíritos;
eles vão visitar o prisioneiro no seu cárcere tão facilmente quanto visitam
uma pessoa que esteja no meio do campo. - As aparições no estado de vigília não são nem raras nem novas; elas têm
se manifestado em todos os tempos, e a História registra um grande número
delas. Mas, sem ir tão longe no tempo, nos dias de hoje elas são tão frequentes
135 – O Livro dos Médiuns
e tantas pessoas já as viram que, num primeiro momento, elas foram tomadas
pelo que se convencionou chamar de alucinações. Elas são comuns sobretudo
nos casos de morte de pessoas ausentes que vêm visitar seus parentes ou
amigos. Muitas vezes, as aparições não têm um objetivo bem determinado,
mas pode se dizer que, em geral, os Espíritos que assim aparecem são
atraídos pela simpatia. Que cada um interrogue bem suas lembranças e
veremos que são poucas as pessoas que não tenham conhecimento de alguns
fatos desse gênero, cuja autenticidade não se poderia pôr em dúvida.
Espíritos glóbulos34
- Às considerações precedentes nós acrescentaremos o exame de alguns
efeitos de ótica que deram ensejo à singular teoria dos Espíritos glóbulos.
O ar nem sempre é de uma limpidez absoluta, e há circunstâncias em que
as correntes das moléculas aeriformes e sua agitação produzida pelo calor são
perfeitamente visíveis. Algumas pessoas tomaram isto por aglomerações de
Espíritos se agitando no espaço; basta citar esta opinião para refutá-la. Mas
eis aqui outro gênero de ilusão, não menos bizarra, contra a qual é bom
igualmente estarmos precavidos.
O humor aquoso do olho contém pontos quase imperceptíveis que têm
perdido sua transparência. Esses pontos são como corpos opacos em
suspensão no líquido cujos movimentos eles acompanham. Eles produzem no
ar ambiente e à distância, por efeito do aumento e da refração, a aparência de
pequenos discos, variando de um a dez milímetros de diâmetros e que
parecem nadar na atmosfera. Temos visto pessoas tomando esses discos por
Espíritos que as seguiam e as acompanhavam por toda parte, e, no seu
entusiasmo, tomar como figuras os matizes da irisação, o que é quase tão
racional como ver uma figura na Lua. Uma simples observação, fornecida por
essas mesmas pessoas, vai reconduzi-las ao terreno da realidade.
34 Na obra original, este subtítulo aparece tanto no índice quanto no cabeçalho do capítulo, mas não
neste ponto, na parte interna do conteúdo; ainda assim, julgamos ser útil inseri-lo, a fim de demarcar o
início deste tópico desenvolvido pelo autor. — N. T.
136 – Allan Kardec
Esses discos, ou medalhões — dizem elas — não só as acompanham,
como também lhes seguem em todos os movimentos; vão para a direita, para
a esquerda, para cima, para baixo, ou param conforme o movimento da
cabeça. Isso não é surpreendente; uma vez que a sede da aparência está no
globo ocular, então ela deve acompanhar todos os movimentos do olho. Se
fossem Espíritos, seria preciso admitirmos que eles estariam forçados a um
papel mecânico demais para seres inteligentes e livres — papel bem
fastidioso, até mesmo para Espíritos inferiores e, portanto, com mais forte
razão, incompatível com a ideia que fazemos dos Espíritos superiores. É
verdade que alguns confundem Espíritos maus com os pontos escuros ou
moscas volantes.35 Esses discos, do mesmo modo que as manchas negras, têm
um movimento ondulatório que jamais se desvia da amplitude de um certo
ângulo, e o que aumenta a ilusão é que eles não acompanham imediatamente
os movimentos da linha visual. A razão disso é bem simples: os pontos opacos
do humor aquoso — que é a causa primária do fenômeno — ficam mantidos
em suspensão, como dissemos, e têm sempre uma tendência a descer: quando
eles sobem, é que foram solicitados pelo movimento do olho, de baixo para
cima; mas chegando a uma certa altura, se o olho se fixa, nota-se que os discos
descem por si mesmos e depois estacionam. A mobilidade deles é extrema,
pois basta um movimento imperceptível do olho para fazê-los mudar de
direção e percorrer rapidamente toda a amplitude do arco no espaço onde se
produz a imagem. Enquanto não ficar provado que uma imagem possui um
movimento próprio, espontâneo e inteligente, ninguém pode enxergar nisso
mais do que um simples fenômeno ótico ou fisiológico.
O mesmo acontece com as faíscas que se produzem algumas vezes em
um feixe ou em feixes mais ou menos compactos pela contração do músculo
do olho, e que provavelmente se devem à eletricidade fosforescente da íris, já
que elas geralmente ficam circunscritas à circunferência do disco desse órgão.
Semelhantes ilusões não podem ser senão o resultado de uma
observação incompleta. Quem tenha estudado seriamente a natureza dos
Espíritos, por todos os meios fornecidos pela ciência prática, então
35 Mosca volantes, esvoaçantes ou amauróticas (no original, em francês: mouches amaurotiques); pontos
cegos produzidos pela condensação de partículas do humor vítreo do olho. — N. T.
137 – O Livro dos Médiuns
compreenderá tudo o que essas ilusões têm de infantil. Por mais que
combatamos as teorias fortuitas com as quais se atacam as manifestações,
quando essas teorias se fundamentam na ignorância dos fatos, mais ainda
devemos procurar destruir as ideias falsas que demonstram mais entusiasmo
do que reflexão, e que, por isso mesmo, fazem mais mal do que bem para os
incrédulos — já tão dispostos a procurar o lado ridículo.
- Como se vê, o perispírito é o princípio de todas as manifestações; o
conhecimento dele deu a chave de uma série de fenômenos; ele deu um passo
imenso para a ciência espírita, colocando-a numa nova senda, tirando-lhe
todo o caráter maravilhoso. Pelos próprios Espíritos — pois, notem bem que
foram eles que nos colocaram no caminho — tivemos a explicação da ação do
Espírito sobre a matéria, do movimento dos corpos inertes, dos ruídos e das
aparições. Também no perispírito encontraremos a solução de vários outros
fenômenos que nos restam examinar antes de passarmos ao estudo das
comunicações propriamente ditas. Nós as entenderemos melhor quanto mais
nos dermos conta das causas primárias. Se compreendermos bem esse
princípio, facilmente faremos a aplicação dele nos diversos fatos que possam
se apresentar ao observador. - Estamos longe de considerar a teoria que apresentamos como absoluta e
como sendo a última palavra; sem dúvidas ela será completada ou retificada
mais tarde através de novos estudos, mas por mais incompleta ou imperfeita
que ainda seja hoje, ela sempre pode ajudar a reconhecer a possibilidade dos
fatos pelas causas que nada têm de sobrenatural; se for uma hipótese, não se
pode contudo lhe negar o mérito da racionalidade e da probabilidade, e ela
pelo menos vale por todas as explicações que os negadores dão, para provar
que não é tudo ilusão, fantasmagoria e subterfúgios nos fenômenos espíritas.
Teoria da alucinação
- Aqueles que não admitem o mundo incorpóreo e invisível creem explicar
tudo com a palavra alucinação. A definição desta palavra é conhecida; é esta:
138 – Allan Kardec
um erro, uma ilusão de uma pessoa que crê ter percepções que realmente não
tem (do latim hallucinari, errar, que vem de ad lucem); mas pelo que sabemos,
os sábios ainda não apresentaram a sua razão fisiológica.
Como a ótica e a fisiologia parecem não ter mais segredos para eles,
como é que ainda não explicaram a natureza e a origem das imagens que se
apresentam ao Espírito em certas circunstâncias?
Querem explicar tudo pelas leis da matéria; que seja! Que eles então
ofereçam por essas leis uma teoria sobre a alucinação! Boa ou ruim, pelo
menos será uma explicação.
- A causa dos sonhos nunca foi explicada pela ciência; ela lhes atribui a um
efeito da imaginação, mas não diz o que é a imaginação, nem como esta
produz essas imagens tão claras e tão nítidas que às vezes nos aparecem. Isso
é explicar uma coisa que não é conhecida por outra que é menos conhecida
ainda. Então a questão continua. Dizem que é uma recordação das
preocupações da véspera; porém, mesmo que se admita esta solução — que
não é uma solução — ainda restaria saber qual o espelho mágico que
conserva assim a impressão das coisas. Como se explicarão sobretudo essas
visões de coisas reais que a pessoa jamais viu enquanto despertada, e nas
quais jamais sequer havia pensado? Só o espiritismo poderia nos dar a chave
desse estranho fenômeno, que passa despercebido por causa da sua própria
normalidade, como todas as maravilhas da natureza que menosprezamos.
Os estudiosos deixaram de se ocupar com a alucinação; que ela seja ou
não real, não deixa de ser um fenômeno que a fisiologia tem que saber
explicar, sob pena de admitir sua incapacidade. Se um dia algum sábio se
lançar a lhe dar, não uma definição — entendamo-nos bem —, mas uma
explicação fisiológica, veremos se a sua teoria resolve todos os casos; que ele
não omita principalmente os fatos tão comuns de aparições de pessoas no
momento da sua morte; que ele diga donde vem a coincidência da aparição
com a morte da pessoa. Se fosse um fato isolado, poderíamos atribuí-lo ao
acaso; mas como é muito frequente, o acaso não tem dessas recorrências. Se
ao menos aquele que visse a aparição tivesse a imaginação afetada pela ideia
de que a pessoa estava para morrer, vá lá; mas aquele que aparece quase
139 – O Livro dos Médiuns
sempre é em quem menos ele pensa: logo, a imaginação não tem nada a ver
com isso. Ainda menos podemos explicar pela imaginação as circunstâncias
da morte, das quais não se tinha nenhuma ideia. Por acaso, os alucinacionistas
dirão que a alma (se é que eles admitem uma alma) tem momentos de
superexcitação em que suas potencialidades ficam exaltadas? Estamos de
acordo; mas quando o que a alma vê é real, então não é uma ilusão. Se, na sua
exaltação, a alma vê algo que não está presente, é porque ela se transporta;
porém, se nossa alma pode se transportar para junto de uma pessoa ausente,
por que então a alma dessa pessoa não poderia se transportar para junto de
nós? Que eles, na sua teoria da alucinação, queiram por bondade levar em
conta estes fatos, e não esqueçam que uma teoria à qual se possam opor fatos
contrários é necessariamente falsa ou incompleta.
Enquanto aguardamos a explicação deles, vamos tentar emitir algumas
ideias a esse respeito.
- Os fatos provam que há aparições verdadeiras que a teoria espírita
explica perfeitamente, e que só podem ser negadas pelos que não admitem
nada fora do organismo; todavia, ao lado das visões reais, haveria alucinações
no sentido relativo a esta palavra? Quanto a isso não há dúvida. Qual é a fonte
disso? São os Espíritos que vão nos esclarecer sobre isso, pois nos parece que
a explicação está toda nas respostas dadas às questões seguintes:
— As visões são sempre reais? Elas não seriam algumas vezes um efeito
da alucinação? Por exemplo, quando, em sonho ou de outro modo qualquer, se
vê o diabo ou outras coisas fantásticas que não existem, isso não seria um
produto da imaginação?
“Algumas vezes sim, quando a pessoa está afetada por certas leituras ou
por estórias de feitiçaria que impressionam, então ela se recorda dessas
coisas e acredita ver o que não existe. Mas nós também temos dito que o
Espírito, sob o seu envoltório semimaterial, pode tomar todos os tipos de
formas para se manifestar. Portanto, um Espírito zombeteiro pode aparecer
com chifres e garras, se isso lhe agrada, para zombar da credulidade, do
mesmo modo que um bom Espírito pode se mostrar com asas e uma figura
radiosa.”
140 – Allan Kardec
— Poderíamos considerar como aparições as figuras e outras imagens
que muitas vezes se manifestam quando cochilamos ou simplesmente quando
fechamos os olhos?
“Desde que os sentidos se entorpecem, o Espírito se desprende e pode
ver ao longe ou perto aquilo que ele não poderia ver com os olhos. Muito
frequentemente essas imagens são visões, mas também podem ser um efeito
de impressões que a vista de certos objetos tenha deixado no cérebro, que
conserva os seus vestígios como conserva os dos sons. Desprendido, o
Espírito então vê no seu próprio cérebro aquelas impressões que ali se
fixaram, como numa chapa de daguerreótipo.36 A variedade e a mistura das
impressões formam os conjuntos estranhos e fugazes que se apagam quase
imediatamente, apesar dos esforços que se faça para retê-los. É a uma causa
semelhante que devemos atribuir certas aparições fantásticas que nada têm
de real e que muitas vezes se produzem em estado de enfermidade.”
É consenso que a memória é resultado das impressões conservadas pelo
cérebro; mas, por qual singular fenômeno essas impressões tão variadas e tão
múltiplas não se confundem? Eis aqui um mistério impenetrável, porém não
mais estranho do que o das ondulações sonoras que se cruzam no ar e que
não permanecem menos distintas. Num cérebro sadio e bem organizado,
essas impressões são nítidas e precisas; num estado menos favorável, elas se
enfraquecem e se confundem; daí a perda da memória ou a confusão das
ideias. Isto parece ainda menos extraordinário caso se admita — como se
admite na frenologia37 — uma destinação especial para cada parte, e mesmo
para cada fibra do cérebro.
As imagens que chegam ao cérebro através dos olhos então deixam lá
uma impressão, que faz com que a pessoa se lembre de um quadro, como se
ela o tivesse diante de si, mas que é sempre uma questão de memória, pois ela
não vê o quadro realmente; agora, em um certo estado de emancipação a alma
36 Relativo ao daguerreótipo, o primeiro processo fotográfico usado largamente e com grande êxito
comercial; foi inventado pelo físico e pintor francês Louis Daguerre (1787-1851), consistindo em fixar
as imagens obtidas na câmara escura numa folha de prata sobre uma placa de cobre. — N. T.
37 Teoria segundo a qual cada faculdade mental se localiza em uma parte do córtex cerebral e o tamanho
de cada parte é diretamente proporcional ao desenvolvimento da faculdade correspondente, sendo este
tamanho indicado pela configuração externa do crânio. — N. T.
141 – O Livro dos Médiuns
vê o que está no cérebro e reencontra aquelas imagens, sobretudo as que mais
a afetaram, segundo a natureza das preocupações ou as disposições de
espírito; é assim que ela reencontra lá a impressão de cenas religiosas,
diabólicas, dramáticas, mundanas, figuras de animais esquisitos que ela tenha
visto noutra época, em pinturas ou mesmo em narrações, pois também as
narrativas deixam impressões. Dessa forma a alma realmente vê, mas só vê
uma imagem fotografada no cérebro. No estado normal essas imagens são
frágeis e passageiras, porque todas as partes cerebrais funcionam livremente;
mas no estado de doença o cérebro sempre está mais ou menos enfraquecido,
não existe equilíbrio entre todos os órgãos, alguns deles conservando
somente a sua atividade, enquanto outros ficam de certa forma paralisados;
daí a permanência de determinadas imagens que, como no estado normal, não
são mais apagadas pelas preocupações da vida exterior. Essa é a verdadeira
alucinação e a causa primária das ideias fixas.
Como se vê, nós explicamos esta anomalia por uma lei inteiramente
fisiológica muito bem conhecida: a das impressões cerebrais; mas sempre
tivemos que envolver a alma. Ora, se os materialistas ainda não puderam
apresentar uma solução satisfatória deste fenômeno, é porque eles não
querem admitir a alma; por isso, dirão que a nossa explicação é ruim, porque
postulamos em princípio aquilo que é contestado. Contestado por quem? Por
eles, mas admitido pela imensa maioria desde que existem homens na Terra, e
a negação de alguns não pode representar a lei.
Nossa explicação é boa? Damo-la pelo que possa valer na falta de outra, e
se a quiserem, a título de simples hipótese, na espera de outra melhor. Do
jeito que está, ela dá conta de todos os casos de visão? Certamente que não,
mas convocamos todos os fisiologistas ao desafio de apresentar uma única, do
seu ponto de vista exclusivo, que resolva todos os casos, pois quando eles
pronunciam suas palavras sacramentais de superexcitação e exaltação, eles
não disseram nada. Portanto, se todas as teorias de alucinação forem
insuficientes para explicar todos os fatos, é que há outra coisa além da
alucinação propriamente dita. Nossa teoria seria falsa se a aplicássemos a
todos os casos de visão, porque há alguns que a contradizem; ela pode ser
justa se for restringida a alguns efeitos.
142 – Allan Kardec
CAPÍTULO VII
BICORPOREIDADE
E TRANSFIGURAÇÃO
Aparições de Espíritos de pessoas vivas – Homens duplos
– Santo Afonso de Ligório e santo Antônio de Pádua –
Vespasiano – Transfiguração – Invisibilidade
- Estes dois fenômenos são variedades daquele das manifestações visuais
e, por mais maravilhosos que eles pareçam à primeira vista, pela explicação
que deles se pode dar, nós reconheceremos facilmente que eles não saem da
ordem dos fenômenos naturais. Ambos se fundamentam sobre esse princípio,
que tudo o que foi dito das propriedades do perispírito após a morte se aplica
ao perispírito dos vivos. Sabemos que durante o sono o Espírito readquire
parcialmente a sua liberdade, isto é, isola-se do corpo, e é nesse estado que
em muitas ocasiões temos a oportunidade de observá-lo. Mas o Espírito —
quer o homem esteja morto ou vivo — sempre traz o envoltório semimaterial,
que, pelas mesmas causas que já descrevemos, pode adquirir a visibilidade e a
tangibilidade. Fatos muito evidentes não podem deixar nenhuma dúvida a
esse respeito; não citaremos mais do que alguns exemplos que são do nosso
conhecimento pessoal e cuja exatidão podemos garantir, cada um podendo
colher outros casos similares ao consultar suas próprias memórias. - A esposa de um de nossos amigos viu durante a noite — quer houvesse
luz ou não — repetidas vezes entrar no seu quarto uma vendedora de frutas
da vizinhança, que ela conhecia de vista, mas com quem ela jamais havia
143 – O Livro dos Médiuns
falado. Essa aparição lhe causou um pavor muito maior porque naquela época
essa senhora ainda não tinha nenhum conhecimento do espiritismo, e porque
esse fenômeno repetiu-se com muita frequência. Ora, a comerciante estava
perfeitamente viva, e provavelmente estava dormindo naquela hora;
enquanto seu corpo material estava em sua casa, seu Espírito e seu corpo
fluídico estavam na casa daquela senhora. Por qual motivo? Isso é o que não
sabemos. Em casos parecidos com este, um espírita iniciado nesse tipo de
coisas teria perguntado a ela; mas ela não tinha nenhuma ideia disso. Toda
vez a aparição sumia sem que ela soubesse como, e toda vez também, após a
desaparição, ela ia se certificar de que todas as portas estavam perfeitamente
fechadas e que ninguém poderia ter entrado no seu quarto. Essa precaução
lhe provou que ela estava bem acordada e que não tinha sido joguete de um
sonho. De outras vezes, ela viu da mesma maneira um homem que lhe era
desconhecido, mas um dia ela viu seu próprio irmão, que então estava na
Califórnia; tanto ele tinha a aparência de uma pessoa real que no primeiro
momento ela acreditou que ele tivesse retornado e quis lhe dirigir a palavra;
mas ele se foi sem lhe dar tempo. Uma carta recebida posteriormente lhe
provou que seu irmão não estava morto. Essa senhora era o que se pode
chamar um médium vidente natural, mas naquela época, como já dissemos,
ela nunca tinha ouvido falar em médiuns.
- Outra senhora que habita a província, estando gravemente enferma,
certa noite, por volta das dez horas, viu um senhor idoso, habitante da mesma
cidade, e que ela tinha visto algumas vezes na sociedade, porém sem qualquer
relação próxima. Esse senhor estava sentado numa poltrona, perto da cama, e
de vez em quando inalava uma pitada de rapé; parecia vigiá-la. Surpresa com
a tal visita àquela hora, ela quis lhe perguntar o motivo, mas o senhor fez um
sinal para ela não falar e ir dormir; por várias vezes ela quis lhe dirigir a
palavra, e toda vez era a mesma recomendação. Ela acabou adormecendo.
Alguns dias depois, estando restabelecida, ela recebeu a visita daquele mesmo
senhor, mas numa hora mais conveniente, e dessa vez era realmente ele;
estava com a mesma roupa, a mesma tabaqueira e exatamente os mesmos
gestos. Convencida de que ele a tinha visitado durante sua enfermidade, ela
144 – Allan Kardec
lhe agradeceu pelo esforço que ele fizera. O homem, bastante surpreso, disse
que há muito tempo não tinha a satisfação de vê-la. A senhora — que conhecia
os fenômenos espíritas — compreendeu o que se passava; mas, não querendo
se explicar a ele, contentou-se em dizer que provavelmente havia sonhado.
Isso é o mais provável — dirão os incrédulos, os espíritos fortes, o que
para eles é sinônimo de gente de espírito; mas o certo é que essa senhora não
estava totalmente adormecida, não mais do que a anterior. — Então foi
porque ela estava sonhando acordada; noutras palavras, ela havia tido uma
alucinação. — Aqui está a grande solução, a explicação universal de tudo o
que se não compreende. Como nós já rebatemos suficientemente essa
objeção, prosseguiremos nos dirigindo àqueles que conseguem nos entender.
- Eis, entretanto, outro fato ainda mais característico, e nós teríamos
curiosidade de ver como se poderia explicá-lo só pelo jogo da imaginação:
Um determinado senhor habitante da província jamais quis se casar,
apesar da insistência de família. Insistia-se principalmente em favor de uma
pessoa residente numa cidade próxima, mas que ele nunca havia visto. Um
dia, estando no seu quarto, ele ficou todo espantado ao se ver na presença de
uma jovem donzela, vestida de branco e com a cabeça ornada com uma coroa
de flores. Ela lhe disse que era sua noiva, estendeu-lhe a mão, que ele tomou
com a sua, na qual ele viu um anel. Ao final de alguns instantes tudo
desapareceu. Surpreso com aquela aparição, e se assegurando que estava bem
acordado, ele perguntou se alguém tinha vindo ali durante o dia; mas lhe
disseram que não tinham visto ninguém. Um ano depois, cedendo a novos
apelos de uma parenta, ele decidiu ir ver aquela moça que estavam lhe
indicando. Chegou lá no dia de Corpus Christi; todos voltavam da procissão e
uma das primeiras pessoas que surgiram diante dos seus olhos ao entrar na
casa foi uma jovem donzela que ele reconheceu como sendo aquela que lhe
havia aparecido; ela estava vestida do mesmo jeito, pois o dia da aparição
também era numa festa de Corpus Christi. Ele ficou paralisado, e a moça, por
sua vez, soltou um grito de surpresa e passou mal. Voltando a si, ela disse já
ter visto aquele senhor na mesma data um ano antes. O casamento foi
concretizado. Isso foi em 1835; nessa época ainda não se falava em Espíritos,
145 – O Livro dos Médiuns
além disso ele e ela são pessoas de um positivismo38 extremo e de uma
imaginação menos exaltada que haja no mundo.
Alguém pode dizer que ambos tinham o espírito impressionado pela
ideia da união proposta e que essa preocupação causou uma alucinação; mas
é preciso não esquecer que o marido estava tão indiferente a isso que deixou
passar um ano sem ir ver a sua pretendida. Mesmo admitindo esta hipótese,
ainda restaria explicar a aparição dupla, a coincidência do traje com o dia de
Corpus Christi e, enfim, o reconhecimento físico entre pessoas que nunca
tinham se visto — circunstâncias que não podem ser produto da imaginação.
- Antes de irmos mais adiante, devemos responder imediatamente a uma
questão que não deixará de ser feita, que é a de saber como o corpo pode
viver enquanto o Espírito está ausente. Poderíamos dizer que o corpo vive da
vida orgânica, que é independente da presença do Espírito, e a prova é que as
plantas vivem e não têm Espírito; mas devemos acrescentar que durante a
vida o Espírito nunca fica completamente separado do corpo. Do mesmo
modo que alguns médiuns videntes, os Espíritos reconhecem o Espírito de
uma pessoa viva por um rastro luminoso que conduz ao seu corpo — um
fenômeno que nunca ocorre quando o corpo está morto, porque então a
separação está completa. É por essa comunicação que, a qualquer distância
que esteja, o Espírito é avisado instantaneamente da necessidade que o corpo
possa ter de sua presença, e então ele retorna ao corpo com a rapidez do
relâmpago. Disso resulta que o corpo jamais pode morrer durante a ausência
do Espírito e que nunca pode acontecer que este, em seu retorno, encontre a
porta fechada, assim como dizem alguns romancistas nas histórias escritas
para entreter. (Livro dos Espíritos, questão 400 e seguintes). - Voltemos ao nosso assunto. Isolado do corpo, o Espírito de uma pessoa
viva pode aparecer como o corpo de uma pessoa morta e ter todas as
aparências da realidade; além do mais, pelas mesmas causas que temos
exposto, o Espírito pode adquirir uma tangibilidade momentânea. Foi este
fenômeno, designado pelo nome de bicorporeidade, que deu ensejo às
38 Positivismo: ideia que propõe que tudo seja explicado a partir da experiência prática (concreta)
humana e conforme as regras das ciências, excluindo qualquer alternativa espiritual e teológica. — N. T.
146 – Allan Kardec
histórias de homens duplos, isto é, de indivíduos cuja presença simultânea foi
constatada em dois lugares diferentes. Aqui vão dois exemplos tirados, não
das lendas populares, mas da história eclesiástica.
Santo Afonso de Ligório foi canonizado antes do tempo previsto por ter
se mostrado simultaneamente em dois lugares — o que passou por milagre.
Santo Antônio de Pádua estava na Espanha, e enquanto ali pregava, seu
pai, que estava em Pádua, foi a suplício acusado de um assassinato. Nesse
momento, Santo Antônio aparece, demonstra a inocência de seu pai e aponta
o verdadeiro criminoso, que, mais tarde, sofreu o castigo. Foi comprovado que
naquele momento santo Antônio não havia deixado a Espanha.
Evocado e interrogado por nós a respeito do fato mencionado, eis as
respostas que santo Afonso deu:
1) Poderia nos dar a explicação desse fenômeno?
“Sim; quando o homem está completamente desmaterializado, por suas
virtudes, tendo elevado sua alma a Deus, ele pode aparecer em dois lugares ao
mesmo tempo. Eis como: o Espírito encarnado, ao sentir o sono chegar, então
pode pedir a Deus para se transportar a um lugar qualquer. Seu Espírito —
ou, sua alma, como quiserem chamar — abandona o corpo, acompanhado de
uma parte do seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado próximo
do da morte. Digo próximo do da morte, porque ficou no corpo um liame que
liga o perispírito e a alma à matéria, liame este que não pode ser definido. O
corpo então aparece no lugar desejado. Creio que isso seja tudo o que querem
saber.”
2) Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do
perispírito…
“Estando desprendido da matéria, conforme o seu grau de elevação, o
Espírito pode se tornar tangível à matéria.”
3) O sono do corpo é indispensável para que o Espírito apareça em
outros lugares?
“A alma pode se dividir quando se sinta atraída para um lugar diferente
daquele onde seu corpo se encontra. Pode acontecer que o corpo não esteja
adormecido, conquanto isto seja muito raro; mesmo assim o corpo nunca fica
147 – O Livro dos Médiuns
num estado perfeitamente normal, pois ele sempre está num estado mais ou
menos extático.”
Nota – A alma não se divide, no sentido literal do termo: ela se irradia para
diversos lados e pode assim se manifestar em muitos pontos sem ser fragmentada;
ocorre o mesmo com a luz, que pode refletir-se simultaneamente em vários espelhos.
4) Estando um homem mergulhado no sono enquanto seu Espírito
aparece noutra parte, o que aconteceria se ele fosse despertado subitamente?
“Isso não aconteceria, porque se alguém tivesse a intenção de despertá-
lo, o Espírito retornaria ao corpo e preveria a intenção, já que o Espírito lê os
pensamentos.”
Uma explicação inteiramente idêntica nos foi dada várias vezes por
Espíritos de pessoas mortas ou vivas. Santo Afonso explica o fato da presença
dupla, mas não deu a teoria da visibilidade e da tangibilidade.
- Tácito39 conta um caso semelhante:
Durante os meses que o imperador Vespasiano passou em Alexandria,
aguardando o retorno periódico dos ventos de verão e a estação em que o mar
se torna seguro, vários prodígios ocorreram, pelos quais se manifestaram a
proteção do céu e o interesse que os deuses pareciam ter por aquele
príncipe…
Esses prodígios redobraram em Vespasiano o desejo de visitar a sagrada
morada do deus, para consultá-lo acerca do império. Então ele ordenou que o
templo fosse fechado a todo mundo; tendo entrado nele e todo atento ao que
o oráculo iria pronunciar, ele percebeu atrás de si um dos principais Egípcios,
chamado Basílides, que ele sabia ter ficado doente há vários dias distante de
Alexandria. Ele perguntou aos sacerdotes se Basílides viera naquele dia ao
templo; perguntou aos transeuntes se o tinham visto na cidade; enfim, enviou
alguns homens a cavalo, e se certificou de que naquele momento ele estava a
oitenta milhas de distância. Então não duvidou mais de que a visão fosse
sobrenatural e o nome de Basílides ficou sendo para ele um oráculo. (TÁCITO.
Histórias, livro IV, caps. LXXXI e LXXXII. Tradução de Burnouf.)
39 Tácito (55 – 120): famoso político, orador e historiador romano. — N. T.
148 – Allan Kardec
- Portanto, o indivíduo que se mostra simultaneamente em dois lugares
diferentes tem dois corpos; mas, desses dois corpos, só um é real, e o outro é
apenas uma aparência. Podemos dizer que o primeiro tem a vida orgânica e
que o segundo tem a vida da alma; ao despertar, os dois corpos se reúnem e a
vida da alma volta ao corpo material. Não parece possível — pelo menos não
conhecemos nenhum exemplo disso, e a razão parece assim demonstrar —
que no estado de separação os dois corpos possam, simultaneamente e no
mesmo nível, desfrutar da vida ativa e inteligente. Aliás, ressalta do que
acabamos de dizer que o corpo real não poderia morrer enquanto o corpo
aparente estivesse visível: a aproximação da morte sempre chama o Espírito
para o corpo, nem que seja por um instante. Daí resulta igualmente que o
corpo aparente não poderia ser morto, porque não é orgânico e nem formado
de carne e osso; ele desapareceria, no momento em que quisessem matá-lo.40 - Passemos ao segundo fenômeno, o da transfiguração. Ele consiste na
mudança do aspecto de um corpo vivo. A esse respeito, aqui está um fato do
qual nós podemos garantir a perfeita autenticidade, e que se passou nos anos
1858 e 1859 nos arredores de Saint-Etienne. Uma mocinha de uns quinze
anos de idade gozava da singular faculdade de se transfigurar, quer dizer, de
algumas vezes tomar todas as aparências de certas pessoas mortas; a ilusão
era tão completa que se acreditava ter a pessoa diante de si, tal era a
semelhança dos traços do rosto, do olhar, do som da voz e até o jeito de falar.
Esse fenômeno se repetiu centenas de vezes sem que a vontade da jovem
tivesse nada a ver com isso. Várias vezes ela tomou a aparência de seu irmão,
morto alguns anos antes; ela não apenas tinha o semblante dele, mas também
a estatura e o volume do corpo. Um médico do lugar muitas vezes
testemunhou esses efeitos estranhos, e querendo se certificar de que não
estava sendo vítima de uma ilusão, fez a experiência seguinte. Tomamos os
fatos narrados por ele mesmo, pelo pai da moça e por diversas outras
40 Veja a Revista Espírita, janeiro de 1859: O Duende de Baiona; fevereiro de 1859: Os agêneres: meu
amigo Hermann; maio de 1859: O laço entre o Espírito e o corpo; novembro de 1859: A alma errante;
janeiro de 1860: O Espírito de um lado e o corpo do outro; março de 1860: Estudos sobre o Espírito de
pessoas vivas: o doutor V. e a senhorita I; abril de 1860: O Fabricante de São Petersburgo: aparições
tangíveis; novembro de 1860: História de Marie d’Agreda; julho de 1861: Uma aparição providencial.
149 – O Livro dos Médiuns
testemunhas oculares muito honradas e dignas de crédito. Veio a esse médico
a ideia de pesar a mocinha no seu estado normal e depois no seu estado de
transfiguração, quando ela apresentava a aparência do irmão, que tinha vinte
e tantos anos, e era muito mais alto do que ela. Pois bem! Constatou-se que
nesse segundo estado o peso era quase o dobro. A experiência foi conclusiva,
e era impossível atribuir aquela aparência a uma simples ilusão de ótica.
Tentemos explicar esse fato — que noutro tempo seria chamado milagre, e
que nós chamamos tão somente de fenômeno.
- A transfiguração, em certos casos, pode ter como causa uma simples
contração muscular, capaz de dar à fisionomia uma expressão toda diferente,
ao ponto de tornar a pessoa quase irreconhecível. Temos observado isso
frequentemente em alguns sonâmbulos, mas nesse caso a transformação não
é radical; uma mulher poderá parecer jovem ou idosa, bela ou feia, mas será
sempre uma mulher e, sobretudo, seu peso não aumentará nem diminuirá. No
caso em questão, é evidente que há alguma coisa a mais; a teoria do
perispírito vai nos colocar no caminho certo.
Admite-se, em princípio, que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas
as aparências; que por uma modificação na disposição molecular ele pode lhe
dar a visibilidade, a tangibilidade e conseguintemente a opacidade; que o
perispírito de uma pessoa viva, isolado do corpo, pode ser submetido às
mesmas transformações; que essa alteração de estado se dá pela combinação
dos fluidos. Imaginemos agora o perispírito de uma pessoa viva, não isolado,
mas se irradiando em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo com uma
espécie de vapor; nessa situação, ele pode sofrer as mesmas modificações que
sofreria se estivesse separado do corpo; se ele perde sua transparência, o
corpo pode desaparecer, tornar-se invisível e ficar oculto, como se estivesse
mergulhado numa bruma. O perispírito poderá até mudar de aspecto, fazer-se
brilhante, se essa for a vontade do Espírito, e se o Espírito tiver esse poder.
Outro Espírito, combinando seus fluidos com os do primeiro, poderá aí
substituir sua própria aparência, de tal modo que o corpo verdadeiro
desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar
conforme a vontade do Espírito. Esta parece ser a verdadeira causa daquele
150 – Allan Kardec
estranho e raro fenômeno — que devemos dizer, da transfiguração. Quanto à
diferença de peso, ela se explica da mesma maneira que dos corpos inertes. O
peso intrínseco do corpo não variou, porque a quantidade de matéria não
aumentou; ele sofreu a influência de um agente exterior, que pode aumentar
ou diminuir o seu peso relativo, conforme já explicamos no item 78 e
seguintes. Portanto, é provável que se a transformação tivesse ocorrido sob o
aspecto de uma criança pequena, o peso diminuísse proporcionalmente.
- Compreende-se que o corpo possa tomar outra aparência de dimensão
maior ou igual, mas como poderia tomar uma dimensão menor — como a de
uma criancinha — como acabamos de dizer? Neste caso, o corpo real não
deveria ultrapassar os limites do corpo aparente? Também nós não dissemos
que o fato tenha se produzido; apenas, reportando-nos à teoria do peso
específico, quisemos mostrar que o peso aparente pudesse diminuir. Quanto
ao fenômeno em si, não afirmamos nem a sua possibilidade nem a sua
impossibilidade; mas, caso ele tivesse ocorrido, só porque não poderíamos
oferecer uma solução satisfatória isso não anularia a coisa; não devemos
esquecer que estamos nos primórdios da ciência e que ela está longe de ter
dito sua última palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros. E mais,
as partes excedentes poderiam perfeitamente ficar invisíveis.
A teoria do fenômeno da invisibilidade decorre muito naturalmente das
explicações precedentes e das que foram fornecidas a respeito do fenômeno
dos transportes, nos itens 96 e seguintes.
- Resta-nos falar do estranho fenômeno dos agêneres que, por muito
extraordinário que pareça à primeira vista, não é mais sobrenatural do que os
outros. Mas como o explicamos na Revista Espírita (fevereiro de 1859),
julgamos inútil reproduzir aqui seus detalhes; diremos apenas que é uma
variedade da aparição tangível; é o estado de certos Espíritos que podem
revestir momentaneamente as formas de uma pessoa viva, ao ponto de causar
completamente uma ilusão. (Do grego a privativo, e gèine, gèinomaï, gerar: o
que não foi gerado).
151 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO VIII
LABORATÓRIO DO
MUNDO INVISÍVEL
Vestuário dos Espíritos – Formação espontânea de objetos tangíveis
– Modificação das propriedades da matéria –
Ação magnética curadora
- Temos dito que os Espíritos se apresentam vestidos de túnicas, de
lençóis ou até mesmo com roupas comuns. Os lençóis parecem ser um traje
habitual no mundo dos Espíritos; mas, pergunta-se, onde eles vão buscar
roupas semelhantes em tudo às que vestiam quando vivos, com todos os
acessórios do vestuário. Muito certamente que não levaram consigo esses
objetos, pois os objetos reais ainda estão aqui sob os nossos olhos. Então, de
onde vêm os que eles usam no outro mundo? Essa questão sempre foi muito
intrigante, e para muita gente isso era um simples caso de curiosidade;
porém, ela confirmava uma questão de princípio de grande importância, pois
sua solução nos colocou no caminho de uma lei geral que também encontra
aplicação no nosso mundo corporal. Vários fatos vieram complicar a questão e
demonstrar a insuficiência das teorias que tentaram explicá-la.
Até certo ponto, poderíamos compreender o traje, porque podemos
considerá-lo como de algum modo fazendo parte do indivíduo; mas não é o
mesmo caso dos objetos acessórios, como por exemplo a caixa de rapé do
visitante da senhora doente, de quem falamos no item 116.41 Notemos, a
41 No original, consta o número 117, porém o item respectivo é de fato este que apontamos: 116. — N. T.
152 – Allan Kardec
respeito disso, que não se tratava de um morto, mas de um vivo, e que aquele
senhor, quando voltou em pessoa, tinha uma caixa de rapé semelhante em
tudo. Portanto, onde seu Espírito havia encontrado a que ele tinha consigo
quando estava sentado ao pé da cama da enferma? Poderíamos citar vários
casos em que Espíritos — de mortos ou de vivos — apareceram com diversos
objetos, tais como bengalas, armas, cachimbos, lanternas, livros etc.
Então nos veio uma ideia, que os corpos inertes poderiam ter seus
correspondentes etéreos no mundo invisível; que a matéria condensada que
forma os objetos poderia ter uma parte quintessenciada oculta aos sentidos.
Esta teoria não era desprovida de verossimilhança, mas era impotente para
explicar todos os fatos. Havia um caso em particular que parecia desafiar
todas as interpretações. Até então, não se tratava senão de imagens ou
aparências; vimos claramente que o perispírito pode adquirir as propriedades
da matéria e se tornar tangível, mas essa tangibilidade é apenas momentânea
e o corpo sólido se desvanece como uma sombra. Isso já é um fenômeno
muito extraordinário, mas outro que é ainda mais extraordinário é o de ver se
produzir a matéria sólida persistente, assim comprovado por numerosos
fatos autênticos, e principalmente o da escrita direta, de que falaremos em
detalhes num capítulo especial. Todavia, como este fenômeno se liga
intimamente ao assunto de que agora tratamos, e que ele constitui uma de
suas aplicações mais concretas, anteciparemos a ordem em que deveria vir.
- A escrita direta, ou pneumatografia, é aquela que se produz
espontaneamente, sem a ajuda nem da mão do médium nem do lápis. Basta
pegar uma folha de papel em branco — o que se pode fazer com todas as
precauções necessárias para se certificar de não ser enganado por nenhuma
fraude —, dobrá-la e depositá-la em algum lugar, numa gaveta ou
simplesmente sobre um móvel, e se tudo estiver nas devidas condições, ao fim
de um período mais ou menos longo se encontrarão traçados no papel: letras,
sinais diversos, palavras, frases e até dissertações, muitas vezes com uma
substância acinzentada igual a grafite, e doutras vezes com lápis vermelho,
tinta comum e até tinta de imprimir. Eis o fato em toda a sua simplicidade e
cuja reprodução, se bem pouco comum, também não é muito rara, pois há
153 – O Livro dos Médiuns
quem a obtenha com bastante facilidade. Se colocássemos um lápis junto do
papel, poderíamos crer que o Espírito o usaria para escrever; porém, a partir
do momento em que o papel esteja inteiramente só, é evidente que a escrita
seja formada por um material depositado; de onde o Espírito tirou esse
material? Esta é a questão para cuja solução nós fomos levados pela caixa de
rapé a que há pouco nos referíamos.
- Foi o Espírito de são Luís quem nos deu essa solução, pelas respostas
seguintes:
1) Citamos um caso de aparição do Espírito de uma pessoa viva. Esse
Espírito tinha uma tabaqueira e tomava pitadas. Ele realmente experimentava
a sensação que uma pessoa experimenta cheirando rapé?
“Não.”
2) Aquela caixa de rapé tinha a forma da que ele habitualmente usava e
que estava na casa dele. Que tabaqueira era aquela nas mãos desse homem?
“Uma aparência; era para que a circunstância fosse notada, como foi, e
que a aparição não fosse tomada como uma alucinação produzida pelo estado
de saúde da vidente. O Espírito queria que essa senhora acreditasse na
realidade da sua presença, e tomou todas as aparências da realidade.”
3) Disse que era uma aparência, mas uma aparência nada tem de real, é
como uma ilusão de ótica; desejáramos saber se essa tabaqueira era apenas
uma imagem sem realidade, ou se havia nela alguma coisa de material?
“Certamente; é com o apoio desse princípio material que o perispírito
toma a aparência de trajes iguais aos que o Espírito usava quando vivo.”
Nota – É evidente que precisamos entender aqui a palavra aparência no sentido
de aspecto, imitação. A tabaqueira real não estava lá; a que o Espírito tinha era apenas
a representação daquela: era, portanto, uma aparência comparada à original, embora
formada de um princípio material.
A experiência nos ensina que nem sempre devemos tomar ao pé da letra certas
expressões empregadas pelos Espíritos; interpretando-as de acordo com as nossas
ideias, nós nos expomos a grandes equívocos; por isso é necessário aprofundar o
sentido de suas palavras todas as vezes que se apresente a menor ambiguidade. É esta
uma recomendação que os próprios Espíritos constantemente nos fazem. Sem a
154 – Allan Kardec
explicação que provocamos, o vocábulo aparência — constantemente reproduzido
nos casos semelhantes — poderia ocasionar uma interpretação falsa.
4) Seria isso um desdobramento da matéria inerte? Haveria no mundo
invisível uma matéria essencial que revestiria a forma dos objetos que vemos?
Resumindo, esses objetos teriam o seu duplo etéreo no mundo invisível,
como os homens ali são representados pelos Espíritos?
“Não é assim que acontece; o Espírito tem um poder sobre os elementos
materiais dispersos por toda a parte no espaço na atmosfera de vocês, poder
esse que vocês estão longe de suspeitar. Ele pode — conforme a própria
vontade — concentrar esses elementos e lhes dar a forma aparente
apropriada aos seus propósitos.”
Nota – Como podemos ver, essa questão era a tradução do nosso pensamento,
isto é, da ideia que tínhamos formado sobre a natureza desses objetos. Se as
respostas, como alguns pretendem, fossem o reflexo do pensamento, nós teríamos
obtido a confirmação da nossa teoria, em vez de uma teoria contrária.
5) Eu coloco novamente a questão, de uma maneira categórica, a fim de
evitar qualquer equívoco:
As roupas com as quais os Espíritos se cobrem constituem alguma coisa?
“Parece-me que a minha resposta precedente resolve a questão. Vocês
não sabem que o próprio perispírito é alguma coisa?”
6) Resulta desta explicação que os Espíritos submetem a matéria etérea
às transformações segundo a vontade deles, e que assim, por exemplo com a
tabaqueira, o Espírito não a encontrou pronta, mas que ele mesmo a fez para
o momento em que ele precisou dela, por um ato de sua vontade; e que ele
pôde desfazê-la. Deve ser da mesma maneira com todos os outros objetos,
como roupas, joias etc…
“Evidentemente que sim.”
7) Essa tabaqueira era tão visível a essa senhora, a ponto de lhe produzir
uma ilusão. O Espírito conseguiria tornar aquele objeto tangível para ela?
“Conseguiria.”
8) Se fosse o caso, essa senhora poderia pegar esse objeto nas mãos,
155 – O Livro dos Médiuns
crendo ter uma caixa de rapé verdadeira?
“Sim.”
9) Se ela a abrisse, provavelmente teria encontrado fumo ali; então se ela
tivesse cheirado esse rapé, ele a faria espirrar?
“Sim.”
10) Então o Espírito pode dar não só a forma, mas também as
propriedades especiais do objeto?
“Se ele quiser, pode; é em virtude deste princípio que eu respondi
afirmativamente às perguntas anteriores. Vocês terão provas da poderosa
ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, e que vocês estão longe de
suspeitar, como eu já disse.”
11) Suponhamos então que ele quisesse fazer uma substância venenosa
e que uma pessoa a tomasse; ela seria envenenada?
“Ele poderia, mas não o faria; isso não lhe seria permitido.”
12) Ele teria o poder de fazer uma substância saudável e apropriada a
curar em caso de enfermidade? Já aconteceu um caso assim?
“Sim, muitas vezes.”
13) Então ele também poderia fazer uma substância alimentar; vamos
supor que tenha feito uma fruta, uma comida qualquer: alguém poderia comer
essa iguaria e ficar saciado?
“Ficaria, sim; mas não procure tanto para encontrar o que é tão fácil de
compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos seus órgãos
grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço no meio do qual
vocês vivem; não sabem que o ar contém vapores d’água? Condensem essas
partículas e os farão voltar ao estado normal; privem-nas de calor e eis que
essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido, e bem
sólido, e com isso muitas outras substâncias de que os químicos tirarão
maravilhas ainda mais espantosas. Só que o Espírito possui instrumentos
mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus.”
Nota – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode ser que uma
substância cuja existência e propriedades sejam apenas temporárias, por algum tipo
156 – Allan Kardec
de convenção, consiga produzir a saciedade? Essa substância, pelo seu contato com o
estômago, produz a sensação de saciedade, mas não a saciedade resultante da
plenitude. Desde que tal substância possa agir sobre o organismo e modificar um
estado mórbido, também pode perfeitamente agir sobre o estômago e produzir ali a
sensação de saciedade. Rogamos aos senhores farmacêuticos e donos de restaurantes
que não fiquem enciumados, nem creiam que os Espíritos venham lhes fazer
concorrência: esses casos são raros, excepcionais, e não dependem jamais da vontade;
doutro modo, todo mundo se alimentaria e se curaria por um preço baixo demais.
14) Os objetos, tornados tangíveis pela vontade do Espírito, poderiam
ter um caráter de permanência e estabilidade, e se tornar usuais?
“Seria possível, mas não se faz isso; está fora das leis.”
15) Todos os Espíritos têm o mesmo grau de poder para produzir
objetos tangíveis?
“É certo que quanto mais o Espírito for elevado, mais facilmente ele
obtém o fenômeno; porém, isso depende também das circunstâncias: os
Espíritos inferiores podem dispor desse poder.”
16) O Espírito sempre se dá conta da maneira pela qual produz suas
roupas e objetos que ele torna visível?
“Não; muitas vezes ele contribui para a formação delas por um ato
instintivo que ele próprio não compreende, se não for bastante esclarecido
para isso.”
17) Já que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais
para fazer todas essas coisas e pode dar a elas uma realidade temporária com
suas propriedades, ele também pode muito bem tirar dali o que é necessário
para escrever, e por conseguinte isso parece nos dar a explicação do
fenômeno da escrita direta, não é?
“Até que enfim vocês chegaram ao ponto.”
Nota – Com efeito, era aí que queríamos chegar com todas as nossas questões
preliminares; a resposta prova que o Espírito havia lido nosso pensamento.
18) Se a matéria de que o Espírito se serve não tem persistência, como é
que os traços da escrita direta não desaparecem?
“Não tirem conclusões das palavras. Primeiramente, eu não disse: nunca;
157 – O Livro dos Médiuns
lá se tratava de um objeto material volumoso e aqui se trata de sinais traçados
que é útil conservar, e então eles são conservados. O que eu quis dizer foi que
os objetos assim compostos pelos Espíritos não poderiam se tornar objetos
usuais, pois na realidade não havia neles uma agregação material como nos
vossos corpos sólidos.”
- A teoria aqui oferecida pode ser resumida assim: o Espírito atua sobre a
matéria; ele tira da matéria cósmica universal os elementos necessários para
formar, como bem queiram, objetos com a aparência dos diversos corpos
existentes na Terra. Ele também pode, por sua vontade, operar na matéria
elementar uma transformação íntima que lhe dá determinadas propriedades.
Esta capacidade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce
como um ato instintivo quando se faz necessário, e sem se dar conta disso. Os
objetos formados pelo Espírito têm uma existência temporária, subordinada à
vontade ou à necessidade do Espírito, que pode fazê-los e desfazê-los à
vontade. Em certos casos, esses objetos podem ter aos olhos de pessoas vivas
todas as aparências da realidade, ou seja, tornar-se momentaneamente
visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação, mas não criação, já que o
Espírito não pode tirar nada do nada. - A existência de uma matéria elementar única é quase geralmente
admitida hoje em dia pela ciência42, e confirmada pelos Espíritos — como nós
vimos. Essa matéria gera todos os corpos da natureza; pelas transformações
que recebe, ela também produz as diversas propriedades desses mesmos
corpos; é assim que uma substância saudável pode se tornar venenosa por
uma simples modificação; a química nos oferece numerosos exemplos disso.
Todo mundo sabe que duas substâncias inocentes misturadas em
determinadas proporções podem gerar uma que seja deletéria. Um átomo de
oxigênio e dois de hidrogênio — ambos inofensivos — formam a água;
42 Em 1964, foi apresentada a teoria de uma partícula elementar universal necessária para dar massa à
matéria, que foi batizada como Bóson de Higgs, como referência a Peter Higgs, o físico britânico que a
concebeu. Finalmente em 2013, um experimento científico com o Grande Colisor de Hádrons (LHC)
demonstrou concretamente a existência do campo de Higgs e a partícula elementar de todos os corpos
físicos, então apelidada de “A partícula-Deus”, ou “A Partícula de Deus”. Portanto, a ciência confirma a
revelação espírita da matéria cósmica elementar. — N. T.
158 – Allan Kardec
acrescente um átomo de oxigênio e você terá um líquido corrosivo. Sem
mudar as proporções, basta às vezes uma simples alteração no modo da
agregação molecular para mudar as propriedades; assim é que um corpo
opaco pode se tornar transparente e vice-versa. Já que o Espírito tem, apenas
através da sua vontade, uma ação tão poderosa sobre a matéria elementar,
concebe-se que ele possa não somente formar substâncias, mas também
desnaturar as propriedades — a vontade fazendo aqui o efeito de um reativo.
- Esta teoria nos dá a solução de um fato bem conhecido em magnetismo,
mas inexplicado até hoje: o da mudança das propriedades da água através da
vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador, quase sempre ajudado por
outro Espírito; ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético
que, como dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica,
ou elemento universal. Se ele pode operar uma modificação nas propriedades
da água, também pode produzir um fenômeno igual nos fluidos do organismo,
e daí o efeito curativo da ação magnética, convenientemente dirigida.
Todos conhecem o papel capital que a vontade desempenha em todos os
fenômenos do magnetismo; porém, como explicar a ação material de um
agente tão sutil? A vontade não é um ser, uma substância qualquer; não é
sequer uma propriedade da matéria mais etérea; a vontade é o atributo
essencial do Espírito, isto é, do ser pensante. Através dessa alavanca, ele age
sobre a matéria elementar e, por uma ação consecutiva, reage sobre seus
componentes, cujas propriedades íntimas podem assim ser transformadas.
A vontade é um atributo do Espírito encarnado bem como do Espírito
errante; daí o poder do magnetizador, e nós sabemos que esse poder é
proporcional à força de vontade. Podendo o Espírito encarnado agir sobre a
matéria elementar, pode igualmente variar as propriedades dela, dentro de
certos limites; é assim que se explica a faculdade de curar pelo contato e pela
imposição das mãos, capacidade que algumas pessoas possuem em grau mais
ou menos elevado. (Veja, no capítulo dos médiuns, o artigo referente aos
médiuns curadores. Veja também a Revista espírita de julho de 1859: O zuavo
de Magenta; Um oficial do exército da Itália.)
159 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO IX
LUGARES ASSOMBRADOS
- As manifestações espontâneas produzidas em todos os tempos e a
persistência de alguns Espíritos em dar mostras ostensivas de sua presença
em certas localidades constituem a fonte da crença em locais assombrados. As
respostas seguintes foram dadas às perguntas feitas sobre este assunto:
1) Os Espíritos só se apegam às pessoas ou também se apegam às coisas?
“Isso depende da elevação deles. Alguns Espíritos podem se apegar a
objetos terrenos; os avarentos, por exemplo, que esconderam seus tesouros e
que ainda não estão bastante desmaterializados, podem ainda ficar a vigiar e
guardar esses bens.”
2) Os Espíritos errantes têm lugares prediletos?
“Ainda aqui o princípio é o mesmo. Os Espíritos que não estão mais
apegados à Terra vão aonde eles encontram amor, e são atraídos mais pelas
pessoas do que pelos objetos materiais; entretanto, pode ser que alguns deles
tenham momentaneamente uma preferência por determinados lugares, mas
estes são sempre Espíritos inferiores.”
3) Já que o apego dos Espíritos a um determinado local é um sinal de
inferioridade, seria igualmente uma prova de que sejam Espíritos maus?
“Seguramente que não; um Espírito pode ser pouco avançado sem que
por isso seja mau. Não é o mesmo caso dos homens?”
4) A crença de que os Espíritos frequentam preferencialmente as ruínas
tem algum fundamento?
“Nenhum; os Espíritos vão a esses lugares como vão a todos os outros,
160 – Allan Kardec
mas a imaginação fica impressionada pelo aspecto lúgubre de certos locais e
atribui à presença dos Espíritos aquilo que quase sempre não passa de um
efeito muito natural. Quantas vezes o medo não fez alguém confundir a
sombra de uma árvore com um fantasma, e confundir um grito de um animal
ou o sopro do vento com uma assombração? Os Espíritos gostam da presença
dos homens e por isso eles preferem lugares habitados a lugares desertos.”
— Porém, pelo que sabemos da diversidade das características dos
Espíritos, deve haver misantropos dentre eles, e que prefiram a solidão…
“Por isso que não respondi à questão de maneira absoluta; eu disse
que eles podem ir aos lugares desertos como a toda parte, e é bem óbvio
que se alguns se mantêm isolados, é porque isso lhes agrada — o que
não é uma razão para que as ruínas sejam forçosamente lugares de
predileção para eles, pois, com certeza, há muito mais deles nas cidades
e nos palácios do que no interior das matas.”
5) As crenças populares geralmente têm um fundo de verdade; qual
pode ser a fonte da crença em lugares assombrados?
“O fundo de verdade é a manifestação dos Espíritos na qual o homem
tem acreditado instintivamente desde todos os tempos; mas, como já disse, o
aspecto dos lugares lúgubres afeta a sua imaginação e o homem naturalmente
coloca ali seres que ele considera como sobrenaturais. Essa crença
supersticiosa é alimentada pelas narrativas dos poetas e pelos contos
fantásticos com os quais acalentamos a infância.”
6) Os Espíritos que se reúnem têm dias e horas prediletas para reuniões?
“Não; os dias e as horas são controles do tempo para uso dos homens e
para a vida corporal: são coisas do que os Espíritos não têm nenhuma
necessidade e com o que eles não se preocupam.”
7) Qual é a origem da ideia de que os Espíritos vêm preferencialmente
durante a noite?
“A impressão produzida na imaginação pelo silêncio e pela escuridão.
Todas essas crenças são superstições que o conhecimento racional do
espiritismo deve destruir. É o mesmo caso dos dias e das horas que as pessoas
161 – O Livro dos Médiuns
acreditam serem mais propícias para os Espíritos. Estejam certos de que a
influência da meia-noite jamais existiu a não ser nos contos.”
— Sendo assim, por que então alguns Espíritos anunciam sua
chegada e suas manifestações exatamente para aquela hora e para
determinados dias, como a sexta-feira, por exemplo?
“São Espíritos que se aproveitam da credulidade para se divertirem
com isso. É pela mesma razão que há Espíritos que dizem ser o diabo ou
se dão nomes infernais. Mostrem-lhes que vocês não são suas presas e
eles não voltarão mais.”
8) Os Espíritos preferem voltar aos túmulos onde jazem seus corpos?
“O corpo não era mais do que uma roupa; os Espíritos não ligam para o
envoltório que os fez sofrer mais do que o prisioneiro para as suas correntes.
A lembrança das pessoas queridas é a única coisa a que eles dão valor.”
— Para os Espíritos, as preces feitas sobre os túmulos deles são
mais agradáveis e os atraem para lá mais do que a outros lugares?
“A prece é uma evocação que atrai os Espíritos, vocês sabem bem
disso. Tanto maior ação terá a prece quanto mais ela for fervorosa e
sincera; ora, diante de um túmulo venerado as pessoas ficam mais
concentradas, e a conservação de estimadas relíquias é um testemunho
de carinho que se oferece ao Espírito, e ao qual ele sempre é sensível. É
sempre o pensamento que age sobre o Espírito, e não os objetos
materiais; esses objetos têm mais influência sobre aquele que ora,
fixando sua atenção, do que sobre o Espírito.”
9) À vista disso, a crença em lugares mal-assombrados não parece
absolutamente falsa?
“Nós temos dito que certos Espíritos podem ser atraídos por coisas
materiais; eles podem ser atraídos por determinados lugares onde parecem
fixar domicílio, até que cessem as circunstâncias que ali os levaram.”
— Quais são as circunstâncias que podem levá-los a esses lugares?
“A simpatia deles por algumas das pessoas que frequentam tais
lugares ou o desejo de se comunicar com elas. No entanto, nem sempre
162 – Allan Kardec
suas intenções são tão louváveis; quando são Espíritos maus, eles podem
querer exercer uma vingança contra as pessoas de quem eles tiveram do
que se queixar. Para alguns, a permanência em um determinado lugar
pode ser também uma punição que lhes é infligida, sobretudo se ali eles
cometeram um crime, a fim de que constantemente tenham esse crime
diante dos olhos43.”
10) Os lugares mal-assombrados são sempre assombrados por seus
antigos habitantes?
“Às vezes, mas não sempre, porque se o antigo habitante for um Espírito
elevado, ele não se apegará à sua habitação terrena mais do que ao seu corpo.
Os Espíritos que assombram determinados lugares muitas vezes não têm
outro motivo além de um capricho, a menos que eles sejam atraídos até lá
pela sua simpatia por certas pessoas.”
— Eles podem se fixar num lugar desses com o propósito de
proteger uma pessoa ou a própria família?
“Seguramente, se forem Espíritos bons; porém, neste caso, eles
nunca manifestam sua presença com coisas desagradáveis.”
11) Há alguma coisa de real na história da dama Branca?
“Isso é um conto tirado de mil fatos que são verdadeiros.” 44
12) É racional temermos lugares assombrados pelos Espíritos?
“Não; os Espíritos que assombram certos lugares e neles fazem alvoroço
procuram muito mais se divertir às custas da credulidade e da covardia do
que mesmo fazer o mal. Aliás, imaginem que há Espíritos em toda parte e que
onde quer que vocês estejam, vocês terão incessantemente Espírito ao vosso
lado — ainda que nas casas mais tranquilas. Muitas vezes eles aparecem para
assombrar certas casas só porque encontram nelas uma ocasião para
manifestar a presença deles.”
43 Veja a Revista Espírita de fevereiro de 1860; ‘História de um danado’.
44 Dama Branca (Dame Blanche) é uma típica personagem do folclore francês, geralmente caracterizada
como uma espécie de fada-madrinha, um tipo de guardiã familiar; esta lenda tem inspirado de
superstições a obras de arte e de ficção, por exemplo, a ópera La Dame Blanche, de Eugène Scribe e
François Adrien Boieldieu, estreada em Paris no ano de 1825. — N. T.
163 – O Livro dos Médiuns
13) Existe algum meio de expulsá-los?
“Sim, mas normalmente o que se faz para isso os atrai em vez de os
afastar. O melhor meio de afugentar os maus Espíritos é atrair os bons.
Portanto, atraiam os bons Espíritos fazendo o máximo do bem possível e os
maus irão embora, pois o bem e o mal são incompatíveis. Sejam sempre bons
e vocês só terão bons Espíritos ao vosso lado.”
— No entanto, não há pessoas muito boas que estão sujeitas às
perseguições dos maus Espíritos?
“Se essas pessoas forem realmente boas, isso talvez seja uma prova
para exercitar a paciência delas e para as estimular a se tornarem ainda
melhores; mas creiam bem que não são aqueles que falam
constantemente das virtudes os que mais as possuem. Aquele que tem
qualidades verdadeiras muitas vezes desconhece propriamente isso ou
nunca fala delas.”
14) No que devemos acreditar com relação à eficácia dos exorcismos
para expulsar os maus Espíritos dos lugares assombrados?
“Já viram esse meio realmente dar algum resultado? Mas, ao contrário,
vocês não têm visto o estardalhaço redobrar após as cerimônias de
exorcismo? É que os Espíritos se divertem ao serem tomados como o diabo.
“Os Espíritos que vêm não com uma má intenção também podem
manifestar sua presença por ruídos, e até se tornando visíveis, mas jamais
fazem uma travessura incômoda. Quase sempre, são Espíritos sofredores, que
vocês podem aliviar orando por eles; outras vezes, são até Espíritos bondosos,
que querem lhes provar que estão convosco; ou, enfim, são Espíritos
brincalhões que estão vadiando. Já que quem perturba o repouso com um
alarido quase sempre são Espíritos que se divertem, o melhor a fazer é rir;
eles se cansarão quando perceberem que não conseguem nem amedrontar
nem tirar a paciência de ninguém.” (Veja, lá atrás, o cap. V: Manifestações físicas
espontâneas.)
Das explicações anteriores resulta que existem Espíritos que se prendem
a certas localidades e nelas permanecem preferencialmente, mas que nem por
isso tenham necessidade de manifestar sua presença por efeitos sensíveis.
164 – Allan Kardec
Qualquer lugar pode ser uma morada forçada ou predileta de um Espírito,
mesmo maligno, sem que ali jamais seja produzida qualquer manifestação.
Os que se ligam a localidades ou a coisas materiais nunca são Espíritos
superiores; mas, mesmo sem serem superiores, pode ser que não sejam
malvados e que não tenham nenhuma má intenção; algumas vezes são até
companheiros mais úteis do que nocivos, porque se eles se interessam pelas
pessoas, então eles podem protegê-las.
165 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO X
NATUREZA DAS COMUNICAÇÕES
Comunicações grosseiras, frívolas, sérias ou instrutivas
- Dissemos que todo efeito que revela na sua causa um ato de livre
vontade — por mais insignificante que seja este ato — por isso mesmo acusa
uma causa inteligente. Assim, um simples movimento de mesa que responda
ao nosso pensamento ou apresente um caráter intencional pode ser
considerado como uma manifestação inteligente. Se o resultado tivesse se
limitado a isso, ele não teria para nós senão um interesse muito secundário;
todavia, isso já seria alguma coisa a nos dar a prova de que nesses fenômenos
há mais do que uma ação puramente material. Mas a utilidade prática que daí
decorreria para nós seria nula, ou pelo menos muito restrita; tudo se modifica
quando essa inteligência adquire um desenvolvimento tal que permite uma
troca de ideias regular e contínua: então, já não são simples manifestações
inteligentes, mas verdadeiras comunicações. Os meios de que hoje nós
dispomos permitem obtê-las tão extensas, tão explícitas e tão rápidas quanto
as que mantemos com os homens.
De acordo com a escala espírita (Livro dos Espíritos, questão n° 100),
quem tiver entendido bem sobre a variedade infinita que existe entre os
Espíritos, sob o duplo aspecto da inteligência e da moralidade, então
facilmente conceberá a diferença que deve existir nas suas comunicações; elas
hão de refletir a elevação ou a baixeza de suas ideias, sua sabedoria e sua
ignorância, seus vícios e suas virtudes; em suma, elas devem se assemelhar às
dos homens, desde os selvagens até o europeu mais esclarecido. Todas as
nuances que elas apresentam podem ser agrupadas em quatro categorias
166 – Allan Kardec
principais; segundo suas características mais acentuadas, elas são:
grosseiras, frívolas, sérias e instrutivas.
- As comunicações grosseiras são aquelas que se traduzem por
expressões que chocam a decência. Elas não podem vir senão de Espíritos de
baixa categoria, ainda repletos de todas as impurezas da matéria, e em nada
diferem das que os homens viciosos e grosseiros poderiam oferecer. Elas
causam repugnância a qualquer pessoa que tenha a mínima delicadeza de
sentimentos, porque elas são, segundo o caráter dos Espíritos, triviais,
ignóbeis, obscenas, insolentes, arrogantes, malévolas e mesmo ímpias. - As comunicações frívolas emanam de Espíritos levianos, zombeteiros e
brincalhões, mais travessos do que perversos, e que não dão nenhuma
importância ao que dizem. Como não há nada de impróprio neles, essas
comunicações agradam a certas pessoas que se divertem com elas e
encontram prazer nas conversações fúteis em que muito se fala e nada se diz.
Esses Espíritos algumas vezes atacam com tiradas sarcásticas e mordazes,
mas no meio de gracejos banais frequentemente dizem duras verdades que
quase sempre atingem o alvo certo. Esses Espíritos levianos pululam em
torno de nós e aproveitam todas as ocasiões para se intrometer nas
comunicações; a verdade é a menor das suas preocupações e por isso eles
sentem um prazer maligno em mistificar aqueles que têm a fraqueza, e por
vezes a presunção, de crer na palavra deles. As pessoas que se deleitam com
esses tipos de comunicações naturalmente dão acesso aos Espíritos levianos e
enganadores; já os Espíritos sérios se afastam delas, assim como entre nós os
homens sérios se afastam dos círculos dos tolos. - As comunicações sérias são importantes quanto ao assunto e à maneira
como são feitas. Toda comunicação que exclui a frivolidade e a grosseria, e
que tem um objetivo útil — mesmo que seja de interesse particular — é,
portanto, uma comunicação séria; mas nem por isso ela está isenta de erros.
Os Espíritos sérios não são todos igualmente esclarecidos; há muita coisa que
eles ignoram e sobre as quais eles podem se enganar de boa-fé, e é por isso
167 – O Livro dos Médiuns
que os Espíritos verdadeiramente superiores sempre nos recomendam
submeter todas as comunicações ao controle da razão e da mais severa lógica.
É preciso então distinguir as comunicações sérias e verdadeiras das
comunicações sérias e falsas — o que nem sempre é fácil, pois é exatamente
graças à seriedade da linguagem que certos Espíritos presunçosos ou
pseudossábios procuram fazer prevalecer as ideias mais falsas e as mais
absurdas teorias; e para se darem mais créditos e importância eles não se
envergonham de enfeitarem com os mais respeitáveis nomes e até com os
mais venerados. Eis aqui um dos maiores desafios da ciência prática; dele
trataremos mais adiante com todos os desenvolvimentos que um assunto tão
importante como esse necessita, ao mesmo tempo em que ensinaremos os
meios de se prevenir contra o perigo das falsas comunicações.
- As comunicações instrutivas são as comunicações sérias que têm por
objetivo principal um ensinamento qualquer dado pelos Espíritos sobre as
ciências, a moral, a filosofia etc. Elas são mais ou menos profundas, conforme
o grau de elevação e de desmaterialização do Espírito. Para se retirar dessas
comunicações um fruto positivo, é preciso que elas sejam regulares e
praticadas com perseverança. Os Espíritos sérios se apegam aos que querem
se instruir e os ajudam, enquanto deixam aos Espíritos levianos a tarefa de
divertir aqueles que não veem nessas manifestações mais do que uma
distração passageira. É somente pela regularidade e frequência dessas
comunicações que podemos apreciar o valor moral e intelectual dos Espíritos
com quem dialogamos e o nível de confiança que eles merecem. Se é preciso
experiência para julgar os homens, certamente é preciso ainda muito mais
para julgar os Espíritos.
Ao dar a essas comunicações a qualificação de instrutivas, supomos que
sejam verdadeiras, pois uma coisa que não fosse verdadeira não poderia ser
instrutiva, ainda que seja dita na mais imponente linguagem. Logo, não
poderíamos classificar nessa categoria certos ensinamentos que de sério só
têm a forma, muitas vezes empoladas e enfática, com a qual os Espíritos que
os ditam — mais presunçosos do que cultos — pretendem iludir; mas esses
Espíritos, não podendo repor a substância que lhes falta, não conseguiriam
168 – Allan Kardec
sustentar por muito tempo o seu papel; eles logo traem o seu lado fraco, por
pouco que suas comunicações tenham de continuidade ou que saibamos levá-
los aos seus últimos limites.
- Os meios de comunicação são bastante variados. Agindo sobre os nossos
órgãos e sobre todos os nossos sentidos, os Espíritos podem se manifestar à
visão, nas aparições; ao tato, pelas impressões tangíveis ocultas ou visíveis; à
audição pelos ruídos; ao olfato, pelos odores sem causa conhecida. Este último
modo de manifestação, se bem que muito real, é incontestavelmente o mais
incerto, pelas múltiplas causas que podem induzir em erro; então, nós não
vamos parar por aí. O que devemos examinar com cuidado são os diversos
meios de se obter comunicações, quer dizer, é uma troca regular e continuada
de pensamentos. Esses meios são: as pancadas, a palavra e a escrita. Nós
vamos estudá-los em capítulos especiais.
169 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XI
SEMATOLOGIA E TIPTOLOGIA
Linguagem dos sinais e das batidas – Tiptologia alfabética
- As primeiras comunicações inteligentes foram obtidas por batidas, ou a
tiptologia45. Esse meio primitivo, que parecia a infância da arte, não oferecia
mais do que recursos limitadíssimos, e com ele, as comunicações ficavam
reduzidas a respostas monossilábicas, para sim ou para não, mediante um
número convencionado de batidas. Depois o sistema foi aperfeiçoado, como já
dissemos. As pancadas eram obtidas de duas maneiras através de médiuns
especiais; para esse modo de operar geralmente é preciso uma certa aptidão
para as manifestações físicas. A primeira, que poderíamos chamar tiptologia
por básculo, consiste no movimento da mesa, que se levanta de um lado e
desce novamente batendo um pé.46 Basta para isso que o médium ponha as
mãos na borda da mesa; caso queira conversar com um determinado Espírito,
é necessário evocá-lo; no caso contrário, manifesta-se o primeiro que chegar
ou aquele que tenha o hábito de vir. Estando convencionado, por exemplo:
uma batida para sim e duas para não, isso é indiferente, e então se dirige ao
Espírito as perguntas que se deseja; nós veremos adiante quais das questões
devemos nos abster. O inconveniente está na abreviação das respostas e na
45 Tiptologia, ou Tipologia (do grego tipto: pancada, batida + logos: linguagem): método de comunicação
obtida por expressões representadas por certa sequência de batidas (no caso em questão, batidas
provocadas por Espíritos); o termo se inspira no sistema de caracteres tipográficos (tipos, de letras,
numerais, pontuação etc.) que as antigas gráficas (tipografias) usavam para montar as placas de
impressão. — N. T.
46 Para fazer um de seus pés bater, a mesa se apoia em outro pé, estabelecendo assim uma espécie de
alavanca, ou seja, um básculo; daí a designação tiptologia por básculo, ou basculante. — N. T.
170 – Allan Kardec
dificuldade de formular a interrogação de modo a resultar em um sim ou a um
não. Suponhamos que se pergunte ao Espírito: O que deseja? Ele não poderia
responder senão com uma frase; é preciso então dizer: deseja isto? — Não. —
Aquilo? — Sim. E assim por diante.
- É notável que para o emprego desse meio o Espírito também use de um
tipo de mímica, isto é, que ele exprime a energia da afirmação ou da negação
pela força das pancadas. Ele igualmente expressa a natureza dos sentimentos
que o animam: a violência, pela brutalidade dos movimentos; a cólera e a
impaciência, batendo com força repetidos golpes, como uma pessoa que bate
o pé com raiva, às vezes atirando a mesa ao chão. Quando o Espírito é amável
e educado, no começo e no fim da sessão ele inclina a mesa em forma de
saudação; quando quer se dirigir diretamente a uma pessoa da reunião,
encaminha a mesa para ele com doçura ou violência, conforme queira lhe
testemunhar sua afeição ou antipatia. Essa é, propriamente falando, a
sematologia47, ou linguagem dos sinais, como a tiptologia é a linguagem das
batidas. Eis aqui um exemplo notável do emprego espontâneo da sematologia:
Um senhor que conhecemos, estando certo dia no seu salão, onde várias
pessoas se ocupavam com as manifestações, recebeu ele naquele momento
uma carta nossa. Enquanto a lia, o gueridom48 que servia para as experiências
veio repentinamente em sua direção. Concluída a leitura da carta, ele foi
colocá-la numa mesa na outra extremidade do salão; o gueridom o seguiu e se
dirigiu à mesa onde estava a carta. Surpreso com essa coincidência, ele
pensou que havia alguma relação entre aquele movimento e a carta; ele
interroga o Espírito, que respondeu ser o nosso Espírito familiar. Quando este
senhor nos informou essa ocorrência, por nossa vez, rogamos a esse Espírito
que nos dissesse o motivo da visita que havia feito àquele senhor; ele
respondeu: “É natural que eu venha ver as pessoas com quem você tem
47 Sematologia (do grego semat ou semato: sinal + logos: linguagem): linguagem por meio de sinais (no
caso aqui, sinais produzidos pelos Espíritos); a tiptologia é uma variante da sematologia cujos sinais a
serem interpretados são caracterizados por pancadas. — N. T.
48 Gueridom (guéridon, em francês): espécie de mesa pequena, com tampo arredondado (geralmente de
mármore) e sustentada por um único pé central, tipicamente usado para exposição de objetos (um vaso
de flores, por exemplo) ou para serviço de buffet (iguarias e bebidas). — N. T.
171 – O Livro dos Médiuns
relações, a fim de, quando for preciso, poder dar avisos necessários, tanto a ti
quanto a elas.”
Portanto, é evidente que o Espírito queria chamar a atenção daquele
senhor, e procurava uma ocasião de lhe demonstrar que estava lá. Um mudo
não teria se saído melhor.
- A tiptologia não tardou para ser aperfeiçoada, e se enriqueceu com um
meio de comunicação mais completo: o da tiptologia alfabética, que consiste
em designar as letras do alfabeto de acordo com as batidas; podemos então
obter palavras, frases e até discursos inteiros. Segundo certo método, a mesa
dá quantas batidas forem necessárias para indicar cada letra; quer dizer, uma
pancada para a, duas para b e assim por diante; durante esse tempo uma
pessoa escreve as letras à medida que elas forem designadas. Quando o
Espírito finaliza, ele avisa através de algum sinal combinado.
Como se vê, este modo de proceder é muito lento e demanda um tempo
enorme para comunicações de certa extensão; entretanto, há pessoas que têm
tido a paciência de se servirem dele para obter ditados de várias páginas.
Porém, a prática levou à descoberta de meios abreviativos, que permitiam
fluir com certa rapidez. Dentre eles, o mais usado consiste em ter diante de si
um alfabeto inteiro escrito, assim como a série de números marcando as
unidades. Enquanto o médium esteja à mesa, outra pessoa percorre
sucessivamente as letras do alfabeto, quando se tratar de obter uma palavra,
ou a série dos algarismos, quando se trata de um número; chegando na letra
necessária, a mesa por si mesma bate uma pancada, e então a letra é escrita;
depois, recomeça-se, para a segunda letra, para a terceira e daí por diante. Se
alguma letra estiver errada, o Espírito adverte por repetidas pancadas ou por
um movimento com a mesa, e tudo se recomeça. Com o hábito, vai-se bem
depressa; mas é possível acelerar bastante sobretudo adivinhando o fim de
uma palavra iniciada, e que o sentido da frase a revela; na dúvida, pergunta-se
ao Espírito se ele quis dizer tal palavra, e ele responde sim ou não.
- Todos os efeitos que acabamos de indicar podem ser obtidos de uma
maneira ainda mais simples através de pancadas produzidas na própria
172 – Allan Kardec
madeira da mesa, sem nenhuma espécie de movimento, e que já descrevemos
no capítulo das manifestações físicas, item 64: é a tiptologia interna. Nem
todos os médiuns são igualmente apropriados a este último gênero de
comunicação, pois alguns deles só obtêm as batidas por básculo; não obstante,
com o exercício, a maioria dos médiuns pode desenvolvê-lo, e esse sistema
tem a dupla vantagem de ser mais rápido e menos sujeito a suspeitas do que o
básculo, que pode ser atribuída a uma pressão voluntária. É verdade que as
batidas internas também podem ser imitadas por médiuns de má-fé. As
melhores coisas podem ser falsificadas — o que não prova nada contra elas.
(Veja no fim deste volume o capítulo intitulado: Fraudes e mistificações.49)
Quaisquer que sejam os aperfeiçoamentos que se possam introduzir
nessa maneira de proceder, ela jamais conseguirá alcançar a rapidez e a
facilidade que tem a escrita, e por isso a empregamos tão pouco atualmente;
contudo, às vezes ela é muito interessante do ponto de vista do fenômeno,
principalmente para os novatos, e sobretudo ela tem a vantagem de provar de
uma maneira peremptória a absoluta independência do pensamento do
médium. Assim, obtêm-se respostas normalmente tão inesperadas e tão
surpreendentemente apropriadas que seria preciso um preconceito bastante
determinado para não se render à evidência; portanto, para muitas pessoas é
um motivo forte de convicção. Mas, por esse sistema, mais do que pelos
outros, os Espíritos não gostam de se prestar aos caprichos dos curiosos que
querem colocá-los à prova por questões inapropriadas.
- Com a finalidade de melhor assegurar a independência do pensamento
do médium, imaginou-se diversos instrumentos consistindo em mostradores
sobre os quais são traçadas as letras, à maneira dos mostradores dos
telégrafos elétricos:50 as letras são indicadas por uma agulha móvel, posta em
movimento pela influência do médium com a ajuda de um fio condutor e uma
polia. Nós não conhecemos esses instrumentos senão pelos desenhos e pelas
descrições que foram publicados na América; por conta disso, não podemos
49 Veja os capítulos XXVII: Contradições e mistificações e XXVIII: Charlatanismo e embuste. — N. T.
50 Um exemplo bem comum de um mostrador é o de um relógio analógico, sobre o qual giram os
ponteiros indicando as horas e minutos mediante a numeração gravada no mostrador. — N. T.
173 – O Livro dos Médiuns
dizer nada de sua eficiência, mas pensamos que a sua própria complicação é
um inconveniente; que a independência do médium é tão bem comprovada
pelas pancadas internas, e ainda bem mais pelo imprevisto das respostas do
que por todos os meios materiais. Por outro lado, os incrédulos — sempre
dispostos a ver truques e arranjos por toda parte — estão ainda mais
inclinados a supô-los num mecanismo especial do que na primeira mesa vinda
desprovida de qualquer acessório.
- Um aparelho mais simples, mas do qual a má-fé pode abusar facilmente,
conforme veremos no capítulo das Fraudes, é o que designaremos sob o nome
de Mesa-Girardin, em lembrança do uso que fazia dele a senhora Émile de
Girardin51 nas numerosas comunicações que ela obteve como médium;
porque, embora fosse uma mulher de personalidade, madame de Girardin
tinha a fraqueza de crer nos Espíritos e nas suas manifestações.52 Esse
instrumento consiste num tampo móvel de gueridom, de trinta a quarenta
centímetros de diâmetro, girando livre e facilmente sobre seu eixo, como uma
roleta. Na superfície em circunferência, como num mostrador, são traçadas as
letras do alfabeto, a numeração e as palavras sim e não. Ao centro fica uma
agulha fixa. Quando o médium põe seus dedos na borda deste disco, este gira
e para, se a letra desejada estiver sob a agulha. Toma-se nota das letras
indicadas e assim se formam muito rapidamente as palavras e as frases.
É interessante notar que não é que o disco desliza sob os dedos do
médium, mas que os seus dedos ali apoiados acompanham o movimento do
tampo. Talvez um médium poderoso conseguiria obter um movimento
independente; acreditamos que seja possível, mas nunca testemunhamos isso.
Se a experiência pudesse ser feita dessa maneira, ela seria infinitamente mais
51 Delphine Gay (1804-1855) foi uma extraordinária poetisa, escritora e jornalista francesa, mais
conhecida como Delphine de Girardin, por ser a esposa do também famoso Émile de Girardin, jornalista
e político da França. Amiga íntima de Victor Hugo, foi Madame Girardin que o apresentou às sessões de
Mesas Girantes e à crença na mediunidade. — N. T.
52 Aqui o autor usa o atributo “fraqueza” como recurso linguístico da ironia para ressaltar que, ao
contrário do que alguns críticos pensavam, os adeptos do Espiritismo não eram ignorantes, loucos e
fanáticos; ele então toma Madame de Girardin (de reconhecida intelectualidade e perspicácia) como
exemplo de notável personalidade que tinha, sim, a grandeza de reconhecer a realidade dos fenômenos
mediúnicos, que só poderiam mesmo ser negado pelos cegos orgulhosos, os sistemáticos e os
preconceituosos. — N. T.
174 – Allan Kardec
conclusiva, porque descartaria toda possibilidade de mistificação.
- Resta-nos corrigir um erro bastante divulgado e que consiste em
confundir todos os Espíritos que se comunicam por meio de pancadas com os
Espíritos batedores. A tiptologia é um meio de comunicação como qualquer
outro, e que não é mais indigno dos Espíritos elevados do que a escrita ou a
palavra. Portanto, todos os Espíritos — bons e maus — podem se servir dele
tanto quanto de outros modos. O que caracteriza os Espíritos superiores é a
elevação do pensamento, e não o instrumento de que eles se sirvam para
transmiti-lo. Sem dúvida, eles preferem os meios mais cômodos e sobretudo
os mais rápidos; mas, na falta de lápis e papel, eles usarão sem cerimônia da
vulgar mesa falante, e a prova disso é que já foram obtidas por esse modo as
coisas mais sublimes. Se não nos servimos dele, não é porque então o
desprezamos, porém unicamente porque, como fenômeno, ele já nos ensinou
tudo o que poderíamos saber, porque ele não poderia acrescentar mais nada
às nossas convicções, e porque a extensão das comunicações que recebemos
exige uma rapidez incompatível com a tiptologia.
Nem todos os Espíritos que batem são, portanto, batedores; este nome
deve ser reservado para aqueles que poderíamos chamar batedores
profissionais e que, por este meio, se deleitam em pregar peças para divertir
uma assembleia, ou para atormentar com as suas importunações. Da parte
deles, podemos esperar coisas engraçadas, mas nunca coisas profundas; logo,
seria perder tempo lhes dirigir questões de certo cunho científico ou
filosófico, pois a ignorância e a inferioridade deles fariam jus ao título, da
parte de outros Espíritos, a qualificação de Espíritos palhaços ou de
saltimbancos do mundo espírita. Acrescentemos que, se muitas vezes eles
agem por conta própria, muitas vezes eles também são instrumentos usados
pelos Espíritos superiores, quando estes querem produzir efeitos materiais.
175 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XII
PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA
DIRETA – PNEUMATOFONIA
Escrita direta
- A pneumatografia
53 é a escrita produzida diretamente pelo Espírito,
sem nenhum intermediário; difere da psicografia por esta ser a transmissão
do pensamento do Espírito mediante a escrita através da mão do médium.
O fenômeno da escrita direta é sem contradição um dos mais
extraordinários do espiritismo; mas, por mais anormal que pareça à primeira
vista, ele hoje é um fato averiguado e incontestável. Se a teoria é necessária
para nos inteirarmos da possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, ela
talvez seja ainda mais necessária neste caso — que é, incontestavelmente, um
dos mais estranhos que se possam apresentar, mas que deixa de parecer
sobrenatural desde que se compreenda o seu princípio.
Na primeira revelação desse fenômeno, a impressão dominante foi a da
dúvida; a ideia de uma mistificação veio logo ao pensamento. De fato, todo
mundo conhece a ação das tintas chamadas simpáticas, cujos traços, a
princípio completamente invisíveis, aparecem ao fim de algum tempo. Podia
ser então que alguém tivesse abusado da credulidade, e nós não afirmaríamos
que isso nunca tenha acontecido; estamos até convencidos de que algumas
pessoas — seja com um objetivo mercenário, seja apenas por orgulho e para
fazer acreditar nas suas capacidades — têm empregado trapaças. (Veja o
capítulo das Fraudes.)
53 Pneumatografia vem do grego: pneuma = espírito + graphein = grafia, escrita; portanto: escrita
espiritual, quer dizer, escrita produzida diretamente por um Espírito. — N. T.
176 – Allan Kardec
Porém, de se poder imitar uma coisa, seria um absurdo concluir que a
coisa não exista. Nestes últimos tempos, já não encontraram um meio de
imitar a lucidez sonambúlica ao ponto de criar uma ilusão? E pelo fato dessa
prática de escamoteador ter percorrido todas as feiras, deveríamos concluir
que não haja sonâmbulos verdadeiros? Por que certos comerciantes vendem
vinho falsificado, seria uma razão para que não exista vinho puro? É a mesma
coisa da escrita direta; aliás, as precauções para garantir a realidade do fato
eram bem simples e bem fáceis, e graças a essas precauções hoje ele já não
pode mais ser objeto de nenhuma dúvida.
- Visto que a possibilidade de escrever sem intermediário é um dos
atributos do Espírito, que os Espíritos existiam desde todos os tempos e que
em todos os tempos eles também produziram os diversos fenômenos que
conhecemos, eles puderam igualmente produzir a escrita direta tanto na
Antiguidade quanto nos nossos dias; e é assim que se pode explicar o
aparecimento das três palavras na sala do banquete de Baltazar.54 A Idade
Média — tão fértil em prodígios ocultos, mas que eram sufocados pelas
fogueiras55 — também pôde conhecer a escrita direta, e é até possível que na
teoria das modificações que os Espíritos podem operar na matéria, e que nós
desenvolvemos no capítulo III, nós pudéssemos encontrar o princípio da
crença na transmutação dos metais.
Quaisquer que sejam os resultados obtidos em diversas épocas, somente
depois da popularização das manifestações espíritas a escrita direta foi
seriamente questionada. O primeiro que parece ter tido conhecimento dela
em Paris nestes últimos anos foi o Sr. barão de Guldenstubbe,56 que publicou
54 O banquete de Baltazar (às vezes denominado Belsazar) é um episódio bíblico narrado no livro
Daniel, cap. 5, em que uma mão se materializou e escreveu uma mensagem ao rei babilônico (Baltazar)
por estas palavras: Mene, Mene, Tequel, Ufarsim, que o profeta judeu Daniel interpretou como uma
advertência da soberba que havia se apoderado do reino da Babilônia, então fadado a ser dividido; o rei
foi morto naquela noite e seu reinado foi tomado por Dario. – N. T.
55 Referência ao Tribunal da Inquisição, pelo qual os médiuns (e outros ditos hereges) eram
processados e geralmente sentenciados à morte, acusados pela Igreja de bruxaria e satanismo, e então
eram queimados vivos numa fogueira, em praça pública. – N. T.
56 Ludwig von Guldenstubbe. (1820-1873) foi um proeminente pesquisador do Magnetismo
(Mesmerismo) e dos fenômenos espirituais. — N. T.
177 – O Livro dos Médiuns
sobre esse assunto uma obra muito interessante, contendo uma grande
quantidade de fac-símiles das escritas que ele obteve.57 O fenômeno já era
conhecido na América desde algum tempo. A posição social do Sr. de
Guldenstubbe, sua independência e a consideração de que ele goza no mundo
mais elevado descartam incontestavelmente toda suspeita de fraude
voluntária, pois ele não podia ser movido por nenhum motivo de interesse.
Poderíamos até crer, no máximo, que ele próprio fosse vítima de uma ilusão;
mas, quanto a isto, um fato responde peremptoriamente: a obtenção do
mesmo fenômeno por outras pessoas, rodeando-se de todas as precauções
necessárias para evitar qualquer trapaça e qualquer causa de erro.
- A escrita direta é — como em geral a maior parte das manifestações
espíritas não espontâneas — obtida pelo recolhimento, pela prece e pela
evocação. Ela tem sido obtida muitas vezes nas igrejas, sobre os túmulos, no
pé de estátuas ou de imagens das pessoas evocadas; mas é evidente que o
local não tem nenhuma outra influência exceto permitir um maior
recolhimento espiritual e maior concentração do pensamento, porque está
provado que o fenômeno é obtido igualmente sem esses acessórios e nos
lugares mais comuns, sobre um simples móvel doméstico — desde que se
esteja nas devidas condições morais e que se possua a faculdade medianímica
necessária.
No início, achava-se que fosse preciso depositar um lápis com um papel;
o fato então podia ser explicado até certo ponto. Sabemos que os Espíritos
operam o movimento e a deslocação dos objetos, que os agarram e algumas
vezes os atiram no espaço; logo, eles bem poderiam também pegar o lápis e
usá-lo para traçar os caracteres. Já que eles dão ao lápis a impulsão através da
mão do médium, de uma prancheta etc., eles também poderiam fazer de uma
maneira direta. Não tardou, porém, para se reconhecer que a presença do
lápis não era necessária, e que bastava um simples pedaço de papel —
dobrado ou não — sobre o qual, depois de alguns minutos, podem ser
57 La réalité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phénomène de l’écriture directe [A
realidade dos Espíritos e de suas manifestações, demonstrada pelo fenômeno da escrita direta]. Pelo barão
de Guldenstubbe. 1 vol. in-8°, com 15 estampas e 93 fac-símiles. Preço: 8 francos, na livraria Franz, rua
Richelieu. Também disponível na livraria Ledoyen.
178 – Allan Kardec
encontrados caracteres traçados. Aqui o fenômeno muda completamente de
face e nos leva a uma ordem inteiramente nova de coisas: essas letras foram
traçadas com uma substância qualquer e, a partir do momento em que
ninguém tenha fornecido essa substância ao Espírito, é então que ele próprio
a constituiu. De onde ele a tirou? Esse era o problema.
Quem quiser se reportar às explicações dadas no capítulo VIII, itens 127
e 128, ali encontrará a teoria completa desse fenômeno. Nessa escrita, o
Espírito não se serve das nossas substâncias, nem dos nossos instrumentos;
ele mesmo fabrica a matéria e os instrumentos de que precisa, pegando esses
materiais no elemento primitivo universal que, pela sua vontade, ele faz
passar pelas modificações necessárias para produzir o efeito que deseja.
Portanto, ele pode muito bem fabricar tanto o lápis vermelho, a tinta de
imprimir ou a tinta comum, assim como o lápis preto, ou até caracteres
tipográficos bastante resistentes para dar um relevo à impressão, conforme
temos visto alguns exemplos. A filha de um senhor que conhecemos, uma
criança de 12 a 13 anos, obteve páginas inteiras escritas com uma substância
igual ao pastel.
- Tal é o resultado ao qual nos conduziu o fenômeno da tabaqueira,
descrito no capítulo VII, n° 116, e sobre o qual nos estendemos longamente,
porque nele nós encontramos a ocasião para sondar uma das leis mais
importantes do espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de
um mistério, até mesmo do mundo visível. É assim que de um fato
aparentemente vulgar pode sair a luz; tudo consiste em observar com cuidado
e é isso o que cada qual pode fazer, como nós, desde que não se limite a
observar os efeitos sem procurar as suas causas. Se a nossa fé se fortalece dia
a dia, é porque compreendemos; então, tratem de compreender, se quiserem
fazer prosélitos sérios. A compreensão das causas tem outro resultado, que é
o de traçar uma linha divisória entre a verdade e a superstição.
Se encararmos a escrita direta sob o ponto de vista das vantagens que
ela possa oferecer, diremos que, até o presente, a sua principal utilidade foi a
constatação material de um fato sério: a intervenção de uma potência oculta
que encontra nesse fenômeno uma nova forma de se manifestar. Todavia, as
179 – O Livro dos Médiuns
comunicações que se obtêm por esse modo raramente são extensas;
geralmente elas são espontâneas e reduzidas a algumas palavras ou frases, às
vezes a sinais ininteligíveis. Elas têm sido obtidas em todas as línguas: em
grego, em latim, em sírio, em caracteres hieroglíficos etc., mas ainda se não
prestaram a essas conversações seguidas e rápidas, como permite a
psicografia, ou escrita através de um médium.
Pneumatofonia
- Podendo produzir ruídos e batidas, os Espíritos também podem muito
bem fazer que se ouça gritos de todo tipo, assim como sons vocais imitando a
voz humana, ao nosso lado ou no vazio do ar; é este fenômeno que
designamos pelo nome de pneumatofonia. Pelo que sabemos da natureza dos
Espíritos, podemos pensar que alguns dentre eles — quando são de uma
ordem inferior — se iludem e acreditam falar como quando estavam vivos.
(Ver Revista espírita, fevereiro de 1858: História do fantasma da senhorita
Clairon).
Por isso, devemos nos preservar de tomar por vozes ocultas todos os
sons que não tenham causa conhecida, ou simples zumbidos nos ouvidos, e
sobretudo de acreditar que haja a menor verdade na crença vulgar de que o
ouvido que zumbe nos adverte que estejam falando de nós em algum lugar.
Aliás, esses zumbidos — cuja causa é puramente fisiológica — não têm
nenhum significado, ao passo que os sons pneumatofônicos exprimem
pensamentos e é somente por isso que podemos reconhecer que eles tenham
uma causa inteligente e não acidental. Podemos estabelecer em princípio que
os efeitos notoriamente inteligentes são os únicos capazes de atestar a
intervenção dos Espíritos; quanto aos outros, existem no mínimo cem chances
contra uma de que eles sejam devidos a causas fortuitas.
- Acontece muito frequentemente que quando estamos meio adormecidos
nós escutamos distintamente pronunciarem palavras, nomes, às vezes até
frases inteiras, e tão alto a ponto de nos despertar de susto. Embora possa ser
180 – Allan Kardec
que em certos casos isso seja realmente uma manifestação, não há nada de
bastante concreto nesse fenômeno para que se possa atribuí-lo também a
uma causa análoga àquela que estudamos na teoria da alucinação, capítulo VI,
itens 111 e seguintes. O que escutamos dessa maneira não resulta em
nenhuma consequência; contudo, não é a mesma coisa quando se está
inteiramente acordado, porque então, se for um Espírito que se faz ouvir,
quase sempre é possível trocar ideias com ele e manter uma conversação
regular.
Os sons espíritas, os pneumatofônicos, têm duas maneiras bem distintas
de se produzir: às vezes é uma voz íntima que ressoa no foro interior; mas, se
bem que as palavras sejam claras e distintas, elas não têm nada de material;
de outras vezes elas são exteriores e tão nitidamente articuladas, como se
viessem de uma pessoa que estivesse ao nosso lado.
Qualquer que seja o modo como ele se produza, o fenômeno da
pneumatofonia é quase sempre espontâneo e só muito raramente pode ser
provocado.
181 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XIII
PSICOGRAFIA
Psicografia indireta: cestas e pranchetas
– Psicografia direta ou manual
- A ciência espírita tem progredido como todas as outras, e mais
rapidamente do que estas; apenas alguns anos nos separam daqueles meios
primitivos e incompletos que trivialmente chamavam de mesas falantes, e já
podemos nos comunicar com os Espíritos tão fácil e rapidamente como os
homens o fazem entre si, e pelos mesmos meios: a escrita e a palavra.
Sobretudo a escrita tem a vantagem de demonstrar mais materialmente a
intervenção de uma força oculta, e de deixar traços que podemos conservar,
como o fazemos pela nossa própria correspondência. O primeiro método
empregado foi o das pranchetas e das cestas equipadas com um lápis.
Vejamos aqui o formato delas. - Já dissemos que uma pessoa dotada de uma aptidão especial pode
provocar um movimento de rotação a uma mesa ou a outro objeto qualquer;
tomemos, no lugar de uma mesa, uma pequena cesta de quinze a vinte
centímetros de diâmetro (seja ela de madeira ou de vime, pouco importa, o
material é indiferente). Agora, se pelo fundo dessa cesta fizermos passar um
lápis bem preso, com a ponta de fora e para baixo, e se mantivermos tudo em
equilíbrio sobre a ponta do lápis, ele próprio colocado sobre uma folha de
papel, então, apoiando os dedos nas bordas da cesta, ela fará seu movimento;
mas em vez de girar, ela conduzirá o lápis em diversos sentidos sobre o papel,
182 – Allan Kardec
de maneira a formar desde riscos insignificantes a caracteres de um texto. Se
um Espírito for evocado, e se ele quiser se comunicar, ele responderá não
mais por meio de pancadas — como na tiptologia —, mas sim palavras
escritas. O movimento da cesta já não é automático como no caso das mesas
girantes; ele se torna inteligente. Nesse sistema, o lápis, ao chegar à
extremidade da linha, não volta sobre si mesmo para começar outra linha; ele
continua circularmente, de tal sorte que a linha escrita forma uma espiral, e é
necessário virar o papel várias vezes para se ler o que está escrito. O texto
obtido assim nem sempre é muito legível, pois as palavras não ficam bem
separadas; entretanto, por uma espécie de intuição, o médium facilmente
decifra a escrita. Por uma questão de economia, pode-se substituir o papel e o
lápis comum por uma lousa e um lápis respectivo. Designaremos essa cesta
pelo nome de cesta-pião. A cesta às vezes é substituída por um papelão muito
semelhante às caixas de pastilhas; o lápis forma o seu eixo, como no
brinquedo chamado carrapeta.
- Muitos outros dispositivos foram imaginados para atender ao mesmo
objetivo. O mais conveniente é aquele que chamaremos de cesta de bico e
que consiste em adaptar à cesta uma haste de madeira inclinada,
ultrapassando de dez a quinze centímetros de um lado, na posição do mastro
de gurupés de um navio. Por um buraco aberto na extremidade dessa haste,
ou bico, passa-se um lápis bastante comprido para que a ponta se apoie sobre
o papel. Estando o médium com os dedos nas bordas da cesta, o aparelho todo
se agita e o lápis escreve como no caso anterior, mas com a diferença de que
geralmente a escrita é mais legível, com as palavras separadas e as linhas não
mais em espiral, agora seguindo como na escrita comum, já que o médium
pode facilmente conduzir o lápis de uma linha a outra. Obtêm-se assim
dissertações de várias páginas tão rapidamente como se fossem escritas à
mão. - A inteligência que age muitas vezes se manifesta por outros sinais
inequívocos. Chegando ao fim da página, o lápis faz espontaneamente um
movimento para revirar a folha; quando quer se reportar a um trecho
183 – O Livro dos Médiuns
anterior na mesma página ou noutra, ele o procura com a ponta do lápis —
como nós assim faríamos com o dedo — e depois a sublinha. Se, enfim, o
Espírito quer se dirigir a um dos assistentes, a extremidade da haste de
madeira vira-se para esse alguém. Por abreviar, frequentemente ele exprime
as palavras sim e não pelos sinais de afirmação e de negação que fazemos
com a cabeça; quando quer expressar raiva ou impaciência, ele bate repetidas
pancadas com a ponta do lápis — e às vezes até quebra o lápis.
- No lugar de cesta, algumas pessoas usam um tipo de mesa pequenina,
feita por encomenda, de doze a quinze centímetros de comprimento por cinco
a seis de altura, com três pés, e um dos quais carrega o lápis; os outros dois
são arredondados ou servidos de uma bolinha de marfim, para deslizar
facilmente sobre o papel. Outras pessoas se servem simplesmente de uma
prancheta de quinze a vinte centímetros quadrados, triangular, alongada ou
oval; numa das bordas fica um orifício oblíquo onde se coloca o lápis; postada
para escrever, ela fica inclinada e se apoia por um dos seus lados sobre o
papel; o lado que se apoia no papel é algumas vezes guarnecido de dois
pequenos rolamentos, para facilitar o movimento. Em suma, concebe-se que
todos esses dispositivos não têm nada de absoluto; o mais cômodo é o melhor.
Com todos esses aparatos, quase sempre é preciso estar em dupla; mas
não é necessário que a segunda pessoa seja dotada da aptidão medianímica:
ela serve unicamente para manter o equilíbrio e diminuir a fadiga do médium.
- Chamamos psicografia indireta a escrita assim obtida em oposição à
psicografia direta ou manual, obtida pelo próprio médium. Para entender
este último processo, é preciso se dar conta do que se passa nessa operação. O
Espírito exterior que se comunica age sobre o médium; este, sob aquela
influência, conduz maquinalmente o braço e a mão para escrever, sem ter
(pelo menos é o caso mais comum) a menor consciência do que escreve; a
mão atua sobre a cesta e a cesta sobre o lápis. Assim, não é a cesta que se
torna inteligente, pois ela é um instrumento guiado por uma inteligência; na
realidade, ela não passa de um porta-lápis, um apêndice da mão, um
intermediário entre a mão e o lápis. Suprimam esse intermediário e coloquem
184 – Allan Kardec
o lápis na mão, e vocês terão o mesmo resultado, com um mecanismo muito
mais simples, já que o médium escreve como o faz nas condições normais;
então, toda pessoa que escreve com o auxílio de uma cesta, prancheta ou
qualquer outro objeto, pode escrever diretamente. De todos os meios de
comunicação, a escrita à mão, designada por algumas pessoas pelo nome
escrita involuntária, é, sem contradição, a mais simples, a mais fácil e a mais
cômoda, porque não exige nenhuma preparação e que, como a escrita
corrente, serve para os trabalhos mais extensos. Voltaremos a ela quando
falarmos dos médiuns.
- No início das manifestações, quando não tínhamos ideias precisas sobre
esse assunto, muitos textos foram publicados com esta designação:
Comunicações de uma cesta, de uma prancheta, de uma mesa etc. Hoje,
compreendemos o tanto que tais expressões têm de impróprias ou errôneas,
além do seu caráter pouco sério. Com efeito, como acabamos de ver, as mesas,
pranchetas e cestas não são mais do que instrumentos sem inteligência,
embora animados momentaneamente de uma vida fictícia, e que nada podem
comunicar por si mesmos — o que seria tomar o efeito pela causa, ou tomar
instrumento pelo princípio, pois tanto faz um autor dizer no título da sua obra
que ele a escreveu com uma pena metálica ou com uma pena de ganso. Esses
instrumentos, aliás, não são absolutos; conhecemos alguém que em vez da
cesta-pião, que já descrevemos, se servia de um funil por cujo gargalo ele
passava o lápis. Poderíamos então ter tido comunicações de um funil, assim
como de uma caçarola ou de uma saladeira. Se elas ocorrem por meio de
batidas, e essas batidas são desferidas por uma cadeira ou uma bengala, então
já não é mais uma mesa falante, mas uma cadeira ou uma bengala falante. O
que importa saber não é a natureza do instrumento, e sim o modo de
obtenção. Se a comunicação for por escrita, não importa o que seja o porta-
lápis, para nós isso é psicografia; se for por batidas, é tiptologia. Tomando as
proporções de uma ciência, o espiritismo precisa de uma linguagem científica.
185 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XIV
OS MÉDIUNS
Médiuns de efeitos físicos – Pessoas elétricas
– Médiuns sensitivos, ou impressionáveis – Médiuns audientes –
Médiuns falantes – Médiuns videntes – Médiuns sonambúlicos
– Médiuns curadores – Médiuns pneumatógrafos
- Toda pessoa que sente num grau qualquer a influência dos Espíritos é —
por isso mesmo — um médium. Esta faculdade é inerente ao homem e, por
conseguinte, não é um privilégio exclusivo; logo, são poucas as pessoas entre
as quais não encontramos rudimentos dessa faculdade. Pode-se então dizer
que quase todo mundo é médium; todavia, na prática, esta qualificação só se
aplica àqueles em quem a faculdade medianímica é nitidamente caracterizada
e se traduz por efeitos evidentes de certa intensidade, o que depende então de
um organismo mais ou menos sensitivo. É notável também que essa faculdade
não se revela em todos da mesma maneira; os médiuns geralmente têm uma
aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos — o que estabelece
tantas variedades de médiuns quanto existe de espécies de manifestações. Os
principais são: médiuns de efeitos físicos; médiuns sensitivos ou
impressionáveis; audientes; falantes; videntes; sonambúlicos; curadores;
pneumatógrafos e escreventes, ou psicógrafos.
Médiuns de efeitos físicos
- Os médiuns de efeitos físicos são mais especialmente aptos a produzir
fenômenos materiais, tais como movimentos de corpos inertes, ruídos etc.
186 – Allan Kardec
Podemos dividi-los em médiuns facultativos e médiuns involuntários. (Veja
a 2ª parte, caps. II e IV.)
Os médiuns facultativos são os que têm consciência do seu poder e que
produzem fenômenos espíritas por ato da própria vontade. Esta faculdade —
se bem que seja inerente à espécie humana, como já dissemos — está longe de
existir em todos no mesmo grau; mas se há poucas pessoas em quem ela seja
absolutamente nula, ainda mais raras são aquelas que estão aptas a produzir
grandes efeitos, tais como a suspensão de corpos pesados no espaço, a
translação aérea e sobretudo as aparições. Os efeitos mais simples são a
rotação de um objeto, batidas pelo levantamento desse objeto ou na sua
própria substância. Mesmo sem darmos uma importância capital a esses
fenômenos, recomendamos não os desprezar, pois eles podem proporcionar
observações interessantes e ajudar à convicção. Porém é de se notar que a
capacidade de produzir efeitos materiais raramente existe nos que dispõem
de meios de comunicação mais perfeitos, como a escrita e a palavra;
geralmente ela diminui num sentido à medida que se desenvolve em outro.
- Os médiuns involuntários ou naturais são aqueles cuja influência se
exerce sem o conhecimento deles. Eles não têm nenhuma consciência do seu
poder e muitas vezes o que se passa de anormal em torno deles não lhes
parece de modo algum extraordinário; isso faz parte deles, exatamente como
as pessoas dotadas da segunda vista e que nem suspeitam disso. Esses
indivíduos são muito dignos de observação e não podemos deixar de
coletarmos e estudarmos os fatos desse gênero que possam vir ao nosso
conhecimento; eles se manifestam em todas as idades e frequentemente em
crianças muito pequenas. (Veja lá atrás, capítulo V, Manifestações espontâneas.)
Esta faculdade não é em si mesma o indício de um estado patológico,
pois não é incompatível com uma saúde perfeita. Se aquele que a possui está
sofrendo, isso é devido a uma causa estranha; sendo assim, os meios
terapêuticos são impotentes para fazê-la parar. Em alguns casos, ela pode ser
consequência de uma debilidade orgânica, porém nunca é uma causa efetiva.
Não seria razoável, pois, conceber qualquer preocupação com ela do ponto de
vista da saúde; esta faculdade só poderia ser inconveniente se o sujeito,
187 – O Livro dos Médiuns
tornando-se médium facultativo, fizesse dela um uso abusivo, porque então
haveria nele uma emissão excessivamente abundante de fluido vital e,
consequentemente, o enfraquecimento dos órgãos.
- A razão se revolta à ideia das torturas morais e corporais a que a ciência
algumas vezes submetia os seres fracos e delicados para se certificar de que
não havia mistificação da parte deles; essas experimentações — na maioria
das vezes feitas com malvadeza — são sempre nocivas aos organismos
sensitivos; isso poderia resultar em graves desordens no organismo; fazer
semelhantes experiências é brincar com a vida. O observador de boa-fé não
precisa empregar tais meios; aliás, aquele que está familiarizado com esses
tipos de fenômenos sabe que eles pertencem mais à ordem moral do que à
ordem física, e que seria inútil procurar uma solução para eles nas nossas
ciências exatas.
Já que esses fenômenos têm relação com a ordem moral, deve-se evitar
com um cuidado não menos escrupuloso tudo o que possa superexcitar a
imaginação. Conhecemos os acidentes que o medo pode causar e seria menos
imprudente se conhecêssemos todos os casos de loucura e de epilepsia que se
originam dos contos de lobisomem e do bicho-papão; como seria então se
estivéssemos convencidos de que é o diabo? Os que apoiam tais ideias não
sabem a responsabilidade que assumem: eles podem matar. Ora, o perigo
não é só para o sujeito, mas também para os que o cercam e que podem ficar
aterrorizados com a ideia de que sua casa seja um covil de demônios. Foi esta
crença funesta que causou tantos atos de atrocidade nos tempos de
ignorância. Com um pouco mais de discernimento, pois, teria sido possível
imaginar que ao queimar corpos supostamente possuídos pelo diabo não
estariam queimando o próprio diabo. Se queriam se livrar do diabo, era ele
quem deveria ser morto. Esclarecendo-nos sobre a verdadeira causa de todos
esses fenômenos, a doutrina espírita lhe dá o golpe final. Portanto, longe de
promover essa ideia, devemos então — e este é um dever de moralidade e
de humanidade — combatê-lo onde quer que exista.
O que é preciso fazer quando uma faculdade semelhante se desenvolve
espontaneamente num indivíduo é deixar o fenômeno seguir seu curso
188 – Allan Kardec
natural: a natureza é mais prudente do que os homens; além disso, a
Providência tem seus desígnios, e o pequenino pode ser o instrumento dos
maiores propósitos. Porém, é preciso convir, esse fenômeno algumas vezes
assume proporções fatigantes e importunas para todo mundo;58 então, aqui
está o que deve ser feito em todos os casos. No capítulo V, Manifestações
físicas espontâneas, já demos alguns conselhos a este respeito dizendo ser
preciso entrar em contato com o Espírito para sabermos dele o que ele quer.
O meio seguinte também se funda na observação.
Os Seres invisíveis que revelam sua presença por efeitos sensíveis são
geralmente Espíritos de uma ordem inferior e que podem ser dominados pelo
ascendente moral; é essa ascendência que devemos buscar adquirir.
Para obter essa superioridade, é preciso que o sujeito passe do estado de
médium natural ao de médium facultativo. Produz-se então o efeito igual ao
que acontece no sonambulismo. Sabe-se que o sonambulismo natural cessa
geralmente quando é substituído pelo sonambulismo magnético. Não se
bloqueia a faculdade emancipadora da alma; dá-se outro curso a ela. É a
mesma coisa da faculdade medianímica. Para tanto, ao invés de entravar os
fenômenos — coisa que raramente se consegue e que nem sempre deixa de
ser um perigo — é preciso encorajar o médium a produzi-los à vontade,
impondo-se ao Espírito; dessa forma, ele consegue controlá-lo e, de um
dominador às vezes tirânico, faz dele um ser subordinado e por vezes muito
dócil. Um fato digno de nota e confirmado pela experiência é que num caso
assim uma criança tem igual e às vezes até mais autoridade do que um adulto:
mais uma prova em apoio a este ponto capital da doutrina, que o Espírito só é
58 Um dos acontecimentos mais extraordinários dessa natureza, pela variedade e estranheza dos
fenômenos, é incontestavelmente o que ocorreu em 1852 no Palatinado (Baviera renana), em
Bergzabern, perto de Wissembourg. É tanto mais notável porque reúne num mesmo sujeito quase todos
os gêneros de manifestações espontâneas: ruídos a sacudir a casa, reviravoltas nos móveis, objetos
atirados ao longe por uma mão invisível, visões e aparições, sonambulismo, êxtase, catalepsia, atração
elétrica, gritos e sons aéreos, instrumentos tocando sem contato, comunicações inteligentes etc., e, o que
não é de pouca importância, a constatação desses fatos, durante quase dois anos, por inúmeras
testemunhas oculares dignas de crédito pelo seu conhecimento e pela sua posição social. O relato
autêntico foi publicado naquela época em vários jornais alemães e, em particular, numa brochura hoje
esgotada e muito rara. A tradução completa desta brochura encontra-se na Revista espírita de 1858,
com os comentários e explicações necessárias. Pelo que sabemos, esta é a única publicação francesa que
foi feita sobre o caso. Além do notável interesse ligado a estes fenômenos, eles são eminentemente
instrutivos do ponto de vista do estudo prático do espiritismo.
189 – O Livro dos Médiuns
infantil pelo corpo, e que ele tem por si mesmo um desenvolvimento
necessariamente anterior à sua encarnação atual, desenvolvimento que pode
lhe dar ascendência sobre os Espíritos que lhe são inferiores.
A moralização do Espírito pelos conselhos de uma terceira pessoa
influente e experiente — se o médium não estiver em condições de fazer isso
— é com frequência um meio muito eficaz; voltaremos a tratar disso depois.
- Pessoas elétricas59
- É a essa categoria de médiuns que parece pertencer as pessoas dotadas
de uma certa dose de eletricidade natural, verdadeiros torpedos humanos,
produzindo pelo simples contato todos os efeitos de atração e repulsão. Mas
seria errado considerá-las como médiuns, pois a verdadeira mediunidade
supõe a intervenção direta de um Espírito; ora, no caso de que falamos,
experiências concludentes têm provado que a eletricidade é o único agente
desses fenômenos. Esta estranha faculdade — que quase se poderia chamar
uma enfermidade — pode às vezes se aliar à mediunidade, como podemos
verificar na história do Espírito batedor de Bergzabern; porém, muitas das
vezes ela é completamente independente. Assim como temos dito, a única
prova da intervenção dos Espíritos é a característica inteligente das
manifestações; todas as vezes que não houver esta característica, é uma razão
para lhes atribuir a uma causa puramente física. A questão é saber se as
pessoas elétricas teriam uma aptidão maior para se tornarem médiuns de
efeitos físicos; cremos que sim, mas isso será um resultado da experiência. - Médiuns sensitivos, ou impressionáveis
- Designa-se assim as pessoas capazes de sentir a presença dos Espíritos
por uma vaga impressão, uma sensação de toque em todos os membros, o que
59 Este subtítulo não consta na edição original, embora apareça tanto no índice como no cabeçalho deste
capítulo. Ficando claramente entendido que os parágrafos seguintes correspondem ao tópico
previamente listado, julgamos ser muito útil inscrevê-lo aqui, para especificar a referida temática (das
Pessoas elétricas) supondo que sua omissão no texto tenha sido um lapso tipográfico. — N. T.
190 – Allan Kardec
elas não conseguem explicar. Esta variedade não tem uma característica bem
definida; todos os médiuns são necessariamente impressionáveis, e essa
impressionabilidade é então mais uma qualidade geral do que específica: é a
faculdade rudimentar indispensável ao desenvolvimento de todas as outras;
ela difere da impressionabilidade puramente física e nervosa, com a qual não
se pode confundir, pois há pessoas que não têm nervos delicados e que
sentem mais ou menos o efeito da presença dos Espíritos, do mesmo modo
que outras muito irritáveis absolutamente não os pressentem.
Esta faculdade se desenvolve pelo hábito e pode adquirir sutileza tal que
aquele que é dela dotado, pela impressão que sente, reconhece não só a
natureza boa ou má do Espírito que está ao seu lado, mas também sua
individualidade, como o cego reconhece, por um certo não sei o que, a
aproximação dessa ou daquela pessoa; ele se torna um verdadeiro sensitivo
com relação aos Espíritos. Um bom Espírito sempre causa uma impressão
suave e agradável; a de um mau Espírito, ao contrário, é penosa, angustiosa e
desagradável; há como que um odor de impureza.
- Médiuns audientes
- Estes escutam a voz dos Espíritos; como dissemos ao falar da
pneumatofonia, às vezes é uma voz interior que se faz ouvir no foro íntimo;
doutras vezes é uma voz exterior, clara e distinta igual a de uma pessoa viva.
Os médiuns audientes podem então conversar com os Espíritos. Quando têm
o hábito de se comunicar com determinados Espíritos, eles os reconhecem
imediatamente pela característica da voz. Quem não for dotado desta
faculdade também pode comunicar com um Espírito através de um médium
audiente que cumpra a função de intérprete.
Esta habilidade é muito agradável quando o médium só escuta Espíritos
bons, ou unicamente aqueles por quem ele chama; entretanto, não é o mesmo
caso quando um Espírito mau teima em lhe seguir e o faz ouvir a todo minuto
as coisas mais desagradáveis, e por vezes as mais inconvenientes. Ele deve
então procurar se livrar desses Espíritos pelos meios que indicaremos no
capítulo da Obsessão.
191 – O Livro dos Médiuns
- Médiuns falantes
- Os médiuns audientes que não fazem além do que transmitir aquilo que
escutam não são exatamente médiuns falantes; estes últimos, na maioria das
vezes, não ouvem nada; neles, o Espírito age sobre os órgãos da palavra como
agem sobre a mão dos médiuns escreventes. Quando quer se comunicar, o
Espírito se serve do órgão que acha mais flexível no médium; em um ele toma
da mão, no outro ele toma a palavra e num terceiro o ouvido. O médium
falante geralmente se expressa sem ter consciência do que diz, e muitas vezes
ele diz coisas completamente fora de suas ideias habituais, dos seus
conhecimentos e até mesmo fora do alcance de sua inteligência. Embora
esteja perfeitamente acordado e num estado normal, ele raramente guarda a
lembrança do que disse. Resumindo, nele a fala é um instrumento de que o
Espírito se serve e com o qual uma pessoa exterior pode entrar em
comunicação, como o faria através de um médium audiente.
Porém, nem sempre a passividade do médium falante é completa; há
alguns que têm a intuição do que dizem no mesmo momento em que
pronunciam as palavras. Nós voltaremos a esta variedade quando tratarmos
dos médiuns intuitivos.
- Médiuns videntes
- Os médiuns videntes são dotados da capacidade de ver os Espíritos.
Alguns dispõem dessa faculdade no estado normal, quando estão
perfeitamente acordados, e conservam uma lembrança exata disso; outros só
a dispõem num estado sonambúlico ou próximo do sonambulismo. Esta
disposição raramente é permanente; quase sempre ela é o efeito de um transe
momentâneo e breve. Podemos colocar na categoria dos médiuns videntes
todas as pessoas dotadas da segunda vista. A possibilidade de ver os Espíritos
em sonho sem dúvidas resulta de uma espécie de mediunidade, mas,
propriamente falando, não constitui os médiuns videntes. Explicamos esse
fenômeno no capítulo VI, das Manifestações visuais.
192 – Allan Kardec
O médium vidente crê enxergar com os olhos, como aqueles que têm a
dupla vista; mas na realidade é a alma que vê e esta é a razão pela qual eles
veem tão bem com os olhos fechados quanto com os olhos abertos; daí se
conclui que um cego pode ver os Espíritos, igual a quem tem a vista intacta.
Sobre este último ponto, haveria um estudo interessante a fazer, que seria o
de saber se essa faculdade é mais frequente nos cegos. Alguns Espíritos que
foram cegos nos disseram que, quando vivos, eles tinham, pela alma, a
percepção de certos objetos, e que não estavam imersos na escuridão total.
- Cabe-nos distinguir as aparições acidentais e espontâneas da capacidade
propriamente dita de ver os Espíritos. As primeiras são frequentes, sobretudo
no momento da morte de pessoas amadas ou conhecidas, e que vêm informar
que já não são deste mundo. Há numerosos exemplos de fatos desse gênero,
sem falar das visões durante o sono. Doutras vezes, também são parentes ou
amigos que, mesmo mortos há mais ou menos tempo, aparecem para advertir
sobre um perigo, para dar um conselho ou para pedir um favor. O favor que
um Espírito pode solicitar geralmente consiste no cumprimento de uma coisa
que ele não pôde fazer quando estava vivo, ou consiste no auxílio das preces.
Essas aparições são fatos isolados que sempre têm um caráter individual e
pessoal, e não constitui uma faculdade propriamente dita. A faculdade
consiste na possibilidade, senão permanente, pelo menos muito frequente de
enxergar qualquer Espírito que apareça, mesmo aquele que nos seja o mais
estranho. É esta capacidade que constitui propriamente os médiuns videntes.
Entre os médiuns videntes, há alguns que só veem os Espíritos evocados
e dos quais podem fazer a descrição com uma minuciosa exatidão; descrevem
nos mínimos detalhes os gestos, a expressão da fisionomia, os traços do rosto,
a roupa e até os sentimentos de que eles parecem animados. Há outros em
quem essa faculdade é ainda mais ampla: eles veem toda a população espírita
ambiente indo e vindo, e — poderíamos dizer — cuidando de seus afazeres.
- Certa noite nós assistimos à representação da ópera Oberon
60 com um
60 Oberon, ópera romântica em três atos do compositor alemão Carl Maria von Weber para um libreto de
James Robinson Planche, inspirado no poema de Christoph Martin Wieland. Sua estreia ocorreu no
Covent Garden, Londres em 12 de abril de 1826. — N. T.
193 – O Livro dos Médiuns
médium vidente muito bom. Havia na sala uma grande quantidade de lugares
vazios, mas muitos dos quais estavam ocupados por Espíritos que pareciam
fazer parte do espetáculo; alguns iam para junto de certos espectadores e
pareciam escutar a conversa deles. No palco se passava outra cena: atrás dos
atores vários Espíritos de humor jovial se divertiam ao contracenar com eles,
imitando os gestos de uma maneira grotesca; outros, mais sérios, pareciam
inspirar os cantores e fazer esforços por lhes dar energia. Um deles ficou
constantemente perto de uma das principais cantoras; achamos que suas
intenções eram um tanto frívolas e então nós o evocamos após as cortinas
baixarem; ele veio até nós e com certa severidade repreendeu nosso
julgamento precipitado: Não sou o que vocês pensam — disse ele —; eu sou o
guia e o Espírito protetor dela; sou eu que estou encarregado de dirigi-la.
Depois de alguns minutos de um discurso muito sério, ele nos deixou dizendo:
Adeus; ela está em seu camarim; é preciso que eu vá velar por ela. Em seguida,
evocamos o Espírito Weber — o autor da ópera — e lhe perguntamos o que
ele pensava da execução da sua obra. “Não tão ruim; porém, fraca; os atores
cantam, e é só; não há inspiração.” Acrescentou ele: “Espere, vou tentar lhes
dar um pouco de fogo sagrado.” Então nós o vimos no palco, pairando acima
dos atores; um eflúvio parecia partir dele e se derramava sobre os atores;
nesse momento, houve neles um notável recrudescimento de energia.
- Eis aqui outro fato que prova a influência que os Espíritos exercem sobre
os homens, ocultamente: Igual àquela outra noite, nós estávamos numa
representação teatral com outro médium vidente. Travando conversação com
um Espírito espectador, este nos disse: Vejam bem aquelas duas damas sós,
naquele camarote das primeiras filas; pois bem, estou me esforçando para
fazê-las deixar a sala. Dito isso, viu-se o Espírito ir se colocar no referido
camarote e falar às duas damas; subitamente, elas, que estavam muito atentas
ao espetáculo, se entreolharam, parecendo discutir entre si, e depois se vão e
não mais voltaram. O Espírito nos fez então um gesto cômico para mostrar
que tinha cumprido a palavra; mas nós não o tornamos a ver para lhe pedir
explicações mais amplas. É assim que muitas vezes fomos testemunhas do
papel que os Espíritos desempenham entre os vivos; nós os observamos em
194 – Allan Kardec
diversos lugares de reunião, em bailes, concertos, sermões, funerais,
casamentos etc., e por toda parte os encontramos atiçando as más paixões,
insuflando a discórdia, incitando rixas e se rejubilando com suas proezas;
outros, ao contrário, combatiam essa influência perniciosa, porém raramente
eles eram levados em conta.
- Sem dúvida, a faculdade de ver os Espíritos pode ser desenvolvida, mas
essa é uma daquelas que convém esperar pelo desenvolvimento natural, sem
provocá-la, se ninguém quiser se expor a ser um joguete da própria
imaginação. Quando o germe de uma faculdade já existe, ela se manifesta por
si mesma; em princípio, devemos nos contentar com as que Deus nos
concedeu, sem procurarmos o impossível; por isso, querendo ter demais,
corremos o risco de perder o que já temos.
Quando dissemos que os casos de aparições espontâneas são frequentes
(item 107), não quisemos dizer que eles sejam muito comuns. Quanto aos
médiuns videntes propriamente ditos, eles são mais raros ainda, e há muito o
que desconfiar dos que afirmam gozar dessa faculdade; é prudente não lhes
dar crédito, a não ser diante de provas concretas. Não estamos nem falando
dos que se prestam à ridícula ilusão dos Espíritos glóbulos, que descrevemos
no item 108, mas apenas dos que dizem ver os Espíritos de uma maneira
racional. Algumas pessoas indubitavelmente podem se enganar de boa-fé,
mas outras podem também simular esta faculdade por orgulho ou por
interesse. Neste caso, é preciso particularmente levar em conta o caráter, a
moralidade e a sinceridade habituais; porém, é sobretudo nas circunstâncias
do detalhe que podemos encontrar a prova mais certa, pois há alguns que não
podem deixar dúvidas, como por exemplo a exatidão da descrição dos
Espíritos que o médium jamais conheceu quando eles estavam vivos. O fato
seguinte faz parte dessa categoria:
Uma senhora viúva, cujo marido se comunica frequentemente com ela,
estava certa vez na companhia de um médium vidente que não a conhecia, e
nem conhecia a família dela; o médium lhe disse: — Vejo um Espírito perto da
senhora. — Ah! Com certeza é o meu marido que quase nunca me deixa —
respondeu ela. O médium retrucou: — Não, é uma mulher de certa idade; ela
195 – O Livro dos Médiuns
está penteada de um modo diferente; tem uma faixa branca na testa.
Por esta particularidade e por outros detalhes descritos, a senhora
reconheceu a sua avó, sem sombra de dúvidas, e em quem ela nem pensava
naquele momento. Se o médium quisesse simular a faculdade, seria fácil para
ele pender para o pensamento da dama, ao passo que no lugar do marido, com
quem ela estava preocupada, ele viu uma mulher com uma peculiaridade no
penteado da qual ele podia fazer nenhuma ideia. Este fato prova outra coisa:
que a vidência no médium não era reflexo de qualquer pensamento externo.
(Veja o item 102.)
- Médiuns sonambúlicos
- O sonambulismo pode ser considerado uma variedade da faculdade
medianímica, ou para dizer melhor, existem duas ordens de fenômenos que
frequentemente se encontram reunidas. O sonâmbulo age sob a influência do
seu próprio Espírito; é sua alma que nos momentos de emancipação vê, ouve
e percebe além dos limites dos sentidos; o que ele expressa ele tira de si
mesmo; em geral, suas ideias são mais justas do que no estado normal, seus
conhecimentos mais abrangentes, já que sua alma está livre. Numa palavra,
ele vive por antecipação a vida dos Espíritos. O médium, ao contrário, é o
instrumento de uma inteligência exterior; é passivo, e o que diz não vem de si.
Em resumo, o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium
exprime o pensamento de outrem. Mas o Espírito que se comunica com um
médium comum também pode fazer o mesmo com um sonâmbulo; muitas
vezes, durante o sonambulismo, até mesmo o estado de emancipação da alma
torna essa comunicação mais fácil. Muitos sonâmbulos enxergam os Espíritos
perfeitamente e os descrevem com tanta precisão quanto os médiuns
videntes; podem conversar com eles e nos transmitir seus pensamentos; com
frequência, o que eles dizem além do limite de seus conhecimentos pessoais
lhes é sugerido por outros Espíritos. Aqui está um exemplo notável, em que a
dupla ação do Espírito do sonâmbulo e de outro Espírito se revela da maneira
mais inequívoca:
196 – Allan Kardec
- Um de nossos amigos tinha um jovem rapaz sonâmbulo de 14 a 15 anos,
de uma inteligência bem comum e de uma instrução extremamente limitada.
Entretanto, em sonambulismo, ele deu provas de uma lucidez extraordinária e
de uma grande perspicácia. Excedia sobretudo no tratamento de
enfermidades e operou uma grande quantidade de curas consideradas
impossíveis. Certo dia, ele atendia a uma consulta de um doente cujo mal ele
descreveu com uma perfeita exatidão. Disseram a ele: — Isso não é tudo,
agora trate de indicar o remédio. Ele respondeu: — Não posso, meu anjo
doutor não está aqui. — A quem você chama de anjo doutor? — Aquele que
me dita os remédios. — Então não é você que vê os remédios? — Oh, não; por
isso é que eu lhe digo que é o meu anjo doutor quem os prescreve.
Assim, nesse sonâmbulo, a ação de ver a doença era feita pelo seu
próprio Espírito, que para isso não precisava de nenhuma assistência; mas a
indicação dos remédios lhe era dada por outro; como este outro Espírito não
estava presente, ele não podia dizer nada. Sozinho, ele não era mais do que
um sonâmbulo; assistido por aquele a quem chamava seu anjo doutor, ele era
sonâmbulo-médium.
- A lucidez sonambúlica é uma capacidade relacionada ao organismo e
que é totalmente independente da elevação, do adiantamento e até mesmo do
estado moral do sujeito. Logo, um sonâmbulo pode ser muito lúcido e ser
incapaz de resolver certas questões se seu Espírito for pouco adiantado.
Portanto, aquele que fala por si próprio pode dizer coisas boas ou más, exatas
ou falsas, demonstrar mais ou menos delicadeza e escrúpulo nos seus
procedimentos, conforme o grau de elevação ou de inferioridade do seu
próprio Espírito; então é aí que a assistência de outro Espírito pode suprir a
sua insuficiência. Mas um sonâmbulo pode ser ajudado por um Espírito
mentiroso, leviano ou mesmo mau — assim como os médiuns; é aqui
principalmente que as qualidades morais têm uma grande influência para
atrair os bons Espíritos. (Veja O Livro dos Espíritos, Sonambulismo, questão
425, e neste livro, o capítulo sobre a Influência moral do médium).
197 – O Livro dos Médiuns
- Médiuns curadores
- Não falaremos aqui desta variedade de médiuns senão para deixar
registrado, porque esse assunto exigiria desenvolvimentos extensos demais
para a estrutura desta nossa obra; além do mais, sabemos que um médico
amigo nosso se propõe a tratar disso numa obra especial sobre a medicina
intuitiva. Diremos unicamente que este gênero de mediunidade consiste
principalmente no dom que certas pessoas possuem de curar pelo simples
toque, pelo olhar ou até por um gesto, sem o auxílio de nenhuma medicação.
Dirão certamente que isso não é outra coisa a não ser magnetismo. É evidente
que o fluido magnético desempenha aqui um importante papel; porém,
quando se examina esse fenômeno com cuidado, reconhece-se sem
dificuldade que há algo a mais. A magnetização comum é um verdadeiro
tratamento consecutivo, regular e metódico; mas aqui as coisas se passam de
modo todo diferente. Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a
curar, se eles souberem se encarregar disso convenientemente, ao passo que
nos médiuns curadores a faculdade é espontânea, e alguns até a possuem sem
jamais terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção de uma potência
oculta — o que constitui a mediunidade — torna-se evidente em certas
circunstâncias, sobretudo quando consideramos que, dentre as pessoas que
realmente podem ser qualificadas de médiuns curadores, a maioria recorre à
prece — que é uma verdadeira evocação. (Veja, lá atrás, o item 131.) - Eis aqui as respostas que nos foram dadas, sobre este assunto, para as
seguintes perguntas endereçadas aos Espíritos:
1) Podemos considerar que as pessoas dotadas da força magnética
formam uma variedade de médiuns?
“Não tenham a menor dúvida disso.”
2) No entanto, o médium é um intermediário entre os Espíritos e o
homem; ora, o magnetizador, tirando sua força de si mesmo, não parece ser o
intermediário de nenhuma potência exterior.
“Isso é um erro; a força magnética certamente reside no homem, mas ela
198 – Allan Kardec
é aumentada pela ação dos Espíritos que ele chama em seu auxílio. Se
magnetiza com o propósito de curar, por exemplo, e então evoca um bom
Espírito que se interessa por ti e pelo teu paciente, ele aumenta a tua força e a
tua vontade, e dirige o teu fluido e lhe dá as qualidades necessárias.”
3) Mas, não existem bons magnetizadores que não creem nos Espíritos?
“Você pensa então que os Espíritos só agem sobre os que creem neles?
Os que magnetizam para o bem são auxiliados por bons Espíritos. Todo
homem que tem o desejo do bem os atrai sem perceber; do mesmo modo,
pelo desejo do mal e pelas más intenções, ele atrai os maus Espíritos.”
4) Será que, tendo a força magnética, quem acreditasse na intervenção
dos Espíritos agiria mais eficazmente?
“Ele faria coisas que vocês considerariam como milagres.”
5) Certas pessoas realmente possuem o dom de curar pelo simples
toque, sem aplicar passes magnéticos?
“Seguramente; vocês não têm inúmeros exemplos disso?”
6) Nesse caso, há uma ação magnética ou só a influência dos Espíritos?
“As duas coisas. Estas pessoas são verdadeiros médiuns, porque agem
sob a influência dos Espíritos; mais isso não quer dizer que elas sejam
médiuns escreventes,61 conforme o entendem.”
7) Esse poder pode ser transmitido?
“O poder não, mas sim o conhecimento das coisas necessárias para
exercê-lo, se a pessoa o tiver. Tal pessoa não suspeitaria que tem esse poder
se não acreditasse que ele lhe foi transmitido.”
8) Pode-se obter curas somente através da prece?
“Sim, algumas vezes, quando Deus permite; mas pode ser que o melhor
para o doente seja continuar a sofrer, e aí vocês pensam que a vossa prece não
foi ouvida.”
61 Traduzimos “médiuns escreventes” conforme o original (médiums écrivains), mas, pelo contexto,
muito provavelmente a intenção era a de que o texto se referisse a “médiuns curadores”. — N. T.
199 – O Livro dos Médiuns
9) Para isso, há fórmulas de prece mais eficazes do que outras?
“Só a superstição pode atribuir alguma virtude a certas palavras, e
apenas os Espíritos ignorantes ou mentirosos podem alimentar tais ideias,
prescrevendo fórmulas. Todavia, pode acontecer que, para pessoas pouco
esclarecidas e incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, o
uso de uma determinada fórmula contribua para lhes dar confiança; neste
caso, não é a fórmula que é eficaz, mas a fé que é aumentada pela ideia
associada ao emprego da fórmula.”
- Médiuns pneumatógrafos
- Dá-se este nome aos médiuns aptos a obter a escrita direta, o que não é
dado a todos os médiuns escreventes. Até o presente momento, essa
faculdade é bastante rara; ela se desenvolve provavelmente pelo exercício,
mas, como dissemos, sua utilidade prática se limita a uma constatação patente
da intervenção de uma força oculta nas manifestações. Só a experiência pode
mostrar se pessoa a possui; pode-se então experimentar, como também, a
respeito disso, perguntar a um Espírito protetor, por outros meios de
comunicação. Conforme seja maior ou menor o poder do médium, obtêm-se
simples traços, sinais, letras, palavras, frases e até páginas inteiras. Basta
normalmente colocar uma folha de papel dobrada num lugar qualquer ou
indicado pelo Espírito, durante dez ou quinze minutos, às vezes mais. A prece
e o recolhimento são condições essenciais; é por isso que podemos considerar
impossível se obter alguma coisa numa reunião de pessoas pouco sérias ou
não animadas de sentimentos simpáticos e benevolentes. (Veja a teoria da
escrita direta, capítulo VIII, Laboratório do mundo invisível, item 127 e
seguintes, e capítulo XII, Pneumatografia).
Trataremos de uma maneira especial dos médiuns escreventes nos
capítulos adiantes.
200 – Allan Kardec
CAPÍTULO XV
MÉDIUNS ESCREVENTES
OU PSICÓGRAFOS
Médiuns mecânicos; intuitivos; semimecânicos; inspirados ou
involuntários; de pressentimentos.
- De todas as formas de comunicação, a escrita manual é a mais simples, a
mais cômoda e sobretudo a mais completa. É para ela que devemos dedicar
todos os esforços, pois ela permite estabelecer com os Espíritos relações tão
consecutivas e tão regulares quanto as que existem entre nós. Devemos nos
apegar a ela ainda mais porque é dessa forma que os Espíritos revelam
melhor sua natureza e seu grau de perfeição ou inferioridade. Pela facilidade
que eles têm de se exprimir, eles nos revelam seus pensamentos mais íntimos
e assim nos permitem julgar e apreciar o seu valor. A faculdade de escrever,
para o médium, é também a mais possível de ser desenvolvida pelo exercício.
Médiuns mecânicos
- Se examinarmos certos efeitos que se produzem nos movimentos da
mesa, da cesta, ou da prancheta que escreve, então não poderemos duvidar de
uma ação exercida diretamente pelo Espírito sobre esses objetos. A cesta se
agita às vezes com tanta violência que ela escapa das mãos do médium;
algumas vezes ela até se dirige a certas pessoas da reunião para bater nelas;
em outras ocasiões, seus movimentos demonstram um sentimento afetuoso. A
201 – O Livro dos Médiuns
mesma coisa acontece quando o lápis está na mão do médium; com
frequência é atirado longe com força, ou então a própria mão, assim como a
cesta, agita-se convulsivamente e bate na mesa com raiva, mesmo quando o
médium está na maior calma, e fica admirado de não ser senhor de si.
Digamos, de passagem, que esses efeitos denotam sempre a presença de
Espíritos imperfeitos; os Espíritos realmente superiores são constantemente
calmos, dignos e benévolos; se não são escutados convenientemente, eles se
retiram, e outros tomam o lugar deles. Portanto, o Espírito pode expor suas
ideias diretamente, seja pelo movimento de um objeto para o que a mão do
médium não passa de apoio, seja pela sua ação sobre a própria mão do
médium.
Quando o Espírito aciona diretamente a mão, ele dá a esta mão uma
impulsão completamente independente da vontade do médium. Ela se move
sem interrupção e sem interferência do médium, enquanto o Espírito tenha
alguma coisa a dizer; quando termina, ele cessa o movimento.
Nessa circunstância, o que caracteriza o fenômeno é que o médium não
tem a menor consciência do que escreve; a inconsciência absoluta nesse caso
constitui o que chamamos de médiuns passivos ou mecânicos. Esta
faculdade é preciosa por não deixar nenhuma dúvida sobre a independência
do pensamento daquele que escreve.
Médiuns intuitivos
- A transmissão do pensamento também se efetua através do Espírito do
médium, ou melhor, da sua alma, porque designamos por esse nome o
Espírito encarnado. Neste caso, o outro Espírito não atua sobre a mão para
fazê-la escrever; ele não a toma e nem a guia, mas atua sobre a alma com a
qual ele se identifica. A alma, sob essa impulsão, dirige a mão e esta mão
dirige o lápis. Notemos aqui uma coisa importante a saber: é que o outro
Espírito não substitui a alma, pois ele não pode deslocá-la; ele a domina,
independentemente da vontade dela, e lhe imprime a sua vontade. Nessa
circunstância, o papel da alma não é absolutamente passivo; é ela que recebe
202 – Allan Kardec
o pensamento do outro Espírito e o transmite. Em tal situação, o médium tem
consciência do que escreve, embora não seja o seu próprio pensamento; isso é
o que chamamos médium intuitivo.
Mas, se assim for, irão dizer que nada prova que seja mesmo um Espírito
exterior quem escreve e não o Espírito do médium. De fato, a distinção às
vezes é bastante difícil de ser feita, mas pode ser que isso tenha pouca
importância. Todavia, podemos reconhecer o pensamento sugerido em
virtude de ele nunca ser preconcebido; ele surge à medida que se escreve, e
muitas vezes é contrário à ideia anteriormente formulada; inclusive ele pode
estar fora dos conhecimentos e das capacidades do médium.
O papel do médium mecânico é o de uma máquina; o médium intuitivo
procede como faria um intermediário, ou um intérprete. Este, para transmitir
o pensamento, deve compreendê-lo, apropriar-se dele de alguma forma, para
então o traduzir fielmente, e, no entanto, esse pensamento não é seu: ele só
passa pelo seu cérebro. Este é exatamente o papel do médium intuitivo.
Médiuns semimecânicos
- No médium puramente mecânico, o movimento da mão é independente
da vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e facultativo. O
médium semimecânico participa dos dois casos; ele sente uma impulsão dada
à sua mão, fora de sua vontade, mas ao mesmo tempo ele tem consciência
daquilo que escreve à medida que as palavras se formam. No primeiro, o
pensamento vem depois do ato da escrita; no segundo, ele o precede; no
terceiro, ele o acompanha. Estes últimos médiuns são os mais numerosos.
Médiuns inspirados
- Toda pessoa que recebe pelo pensamento comunicações exteriores às
suas ideias preconcebidas — seja no estado normal, seja em estado de êxtase
— pode ser colocada na categoria dos médiuns inspirados; esta é, como
podemos ver, uma variedade da mediunidade intuitiva, com a diferença de
203 – O Livro dos Médiuns
que a intervenção de uma força oculta aqui é bem menos sensível, pois, no
médium inspirado, é ainda mais difícil distinguir o próprio pensamento
daquele que é sugerido. O que caracteriza este último é principalmente a
espontaneidade. A inspiração nos vem dos Espíritos que nos influenciam para
o bem ou para o mal, porém ela é mais obra daqueles que querem o nosso
bem, e cujos conselhos quase sempre cometemos o erro de não seguir; essa
inspiração se aplica a todas as circunstâncias da vida em que devamos tomar
decisões. A respeito disso, podemos dizer que todo mundo é médium, pois
não há ninguém que não tenha seus Espíritos protetores e familiares que
façam todos os esforços para sugerir ideias proveitosas aos seus protegidos.
Se estivéssemos bem compenetrados desta verdade, nós recorreríamos com
mais frequência à inspiração do nosso anjo guardião nos momentos em que
não sabemos o que dizer ou fazer. Então, que o invoquemos com fervor e
confiança em caso de necessidade, e muito frequentemente ficaremos
admirados com as ideias que surgirão como que por encantamento — seja
porque temos uma decisão a tomar, seja porque temos alguma coisa a
realizar. Se nenhuma ideia vier, é porque é preciso esperar. A prova de que a
ideia que surge é de fato um pensamento externo ao nosso é que, se ela fosse
nossa, nós a teríamos a qualquer momento e não haveria razão para que ela
não se manifestasse à vontade. Quem não é cego não precisa mais do que
abrir os olhos para ver quando quiser; do mesmo modo, aquele que tem ideias
próprias, sempre as tem à disposição; se elas não lhes vêm quando ele bem
queira, é que ele é obrigado a ir buscá-las em algum lugar que não seja no seu
íntimo.
Podemos ainda incluir nesta classe as pessoas que, sem serem dotadas
de uma inteligência fora do comum e sem saírem do estado normal, têm
flashes de uma lucidez intelectual que lhes dá momentaneamente uma
incomum facilidade de concepção e de elocução, e em certos casos o
pressentimento de coisas futuras. Nesses momentos que justamente
chamamos de inspiração, as ideias transbordam, sucedem-se e se encadeiam
por assim dizer por si mesmas e por uma impulsão involuntária e quase
febril; parece que uma inteligência superior vem nos ajudar e que o nosso
espírito está desembaraçado de um fardo.
204 – Allan Kardec
- Os homens geniais de todas as espécies (artistas, sábios, literatos etc.)
sem dúvida são Espíritos avançados, capazes por eles mesmos de
compreender e de conceber grandes coisas; ora, é precisamente porque eles
são considerados capazes que os Espíritos que querem o cumprimento de
certos trabalhos lhes sugerem as ideias necessárias, e é assim que na maioria
das vezes eles são médiuns sem saberem disso. No entanto, eles têm uma
vaga intuição de uma assistência externa, pois quem apela à inspiração não
faz outra coisa senão uma evocação; se ele não esperasse ser atendido, não
exclamaria tão frequentemente: Meu bom gênio, venha em meu auxílio!
As respostas seguintes confirmam esta asserção:
— Qual é a causa originária da inspiração?
“O Espírito que se comunica pelo pensamento.”
— A inspiração tem por objeto somente a revelação das grandes coisas?
“Não, muitas vezes ela está relacionada com as circunstâncias mais
comuns da vida. Por exemplo, você quer ir a algum lugar: uma voz secreta te
diz que não vá porque haveria perigo para ti; ou então ela te diz para fazer
uma coisa na qual você não pensava: isso é inspiração. Há poucas pessoas que
não tenham sido mais ou menos inspiradas em determinados momentos.”
— Por exemplo, um autor, um pintor ou um músico, nos momentos de
inspiração, poderia ser considerado médium?
“Sim, porque nesses momentos a alma dele fica mais livre e como que
desprendida da matéria; ela recobra uma parte das suas faculdades de
Espírito e recebe mais facilmente as comunicações dos outros Espíritos que a
inspiram.”
Médiuns de pressentimentos
- O pressentimento é uma intuição vaga das coisas futuras. Algumas
pessoas têm essa capacidade mais ou menos desenvolvida; elas podem ser
devido a uma espécie de dupla vista, que lhes permite entrever as
consequências das coisas atuais e a correlação dos acontecimentos; mas
205 – O Livro dos Médiuns
muitas vezes também é fruto de comunicações ocultas, e é neste caso
sobretudo que podemos dar àqueles que são dotados desta faculdade o nome
de médiuns de pressentimentos, que são uma variedade dos médiuns
inspirados.
206 – Allan Kardec
CAPÍTULO XVI
MÉDIUNS ESPECIAIS
Aptidões especiais dos médiuns –
Quadro resumido dos diferentes tipos de médiuns
- Além das categorias de médiuns que acabamos de enumerar, a
mediunidade apresenta uma variedade infinita de nuances que constituem o
que chamamos de médiuns especiais, e que dizem respeito a aptidões
particulares ainda não definidas, abstração feita das qualidades e dos
conhecimentos do Espírito que se manifesta.
A natureza das comunicações é sempre relativa à natureza do Espírito e
traz a marca de sua elevação ou de sua inferioridade, de seu saber ou de sua
ignorância; mas com igual mérito, do ponto de vista hierárquico, há nele
incontestavelmente uma propensão a se ocupar mais com uma coisa do que
com outra; os Espíritos batedores, por exemplo, dificilmente saem das
manifestações físicas, e entre aqueles que dão comunicações inteligentes há
Espíritos poetas, músicos, desenhistas, moralistas, sábios, médicos etc.
Falamos dos Espíritos de uma ordem mediana, porque, quando eles chegam a
um determinado estágio, as aptidões se misturam na unidade da perfeição.
Porém, ao lado da aptidão do Espírito há a do médium, que é para ele um
instrumento mais ou menos cômodo, mais ou menos flexível, e no qual ele
descobre qualidades particulares que nós não podemos apreciar.
Façamos uma comparação: um músico muito hábil dispõe em suas mãos
de vários violinos que, para alguém comum, seriam todos bons instrumentos,
mas entre os quais um artista consagrado faria uma grande diferença, e
notaria neles nuances de uma extrema delicadeza que o levariam a escolher
207 – O Livro dos Médiuns
uns e rejeitar outros, nuances que ele percebe por intuição antes que ele as
pudesse definir. É a mesma coisa a respeito dos médiuns: havendo igualdade
na força medianímica, o Espírito dará preferência a um ou a outro conforme o
gênero da comunicação que queira transmitir. Assim, por exemplo, vemos
pessoas que como médiuns escrevem admiráveis poesias, enquanto em
condições normais elas jamais puderam ou souberam fazer dois versos; há
outros, ao contrário, que são poetas e que como médiuns nunca puderam
escrever a não ser prosas, malgrado o desejo delas. É o mesmo caso do
desenho, da música etc.; há alguns que, sem terem em si mesmos
conhecimentos científicos, possuem uma aptidão mais específica para receber
comunicações eruditas; outros para os estudos históricos; outros servem mais
facilmente de intérpretes para os Espíritos moralistas; numa palavra,
qualquer que seja a flexibilidade do médium, as comunicações que ele recebe
com mais facilidade geralmente tem um cunho especial; existem até alguns
que não saem de um certo círculo de ideias e quando se afastam delas eles só
conseguem comunicações incompletas, curtas e às vezes incorretas. Além das
causas de aptidão, os Espíritos também se comunicam mais ou menos
preferentemente por este ou aquele intermediário, segundo a sua simpatia.
Assim, sendo todas as coisas iguais, o mesmo Espírito será muito mais
explícito com certos médiuns unicamente porque estes lhe convêm melhor.
- Estaria em erro, portanto, aquele que — só porque tem ao seu alcance
um bom médium e porque este tivesse a maior facilidade para escrever —
quisesse obter através deste médium boas comunicações de todos os gêneros.
A primeira condição é, sem dúvidas, assegurar-se da fonte donde elas
emanam, quer dizer, das qualidades do Espírito que as transmite; porém, não
menos necessário é ter em vista as qualidades do instrumento fornecido ao
Espírito; é preciso então estudar a natureza do médium como se estuda a
natureza do Espírito, pois são esses os dois fatores essenciais para se obter
um resultado satisfatório. Há um terceiro fator, que desempenha um papel
igualmente importante: é a intenção, o pensamento íntimo, o sentimento mais
ou menos louvável daquele que interroga; e isso é compreensível: para que
uma comunicação seja boa, ela deve emanar de um Espírito bom; para
208 – Allan Kardec
que esse bom Espírito POSSA transmiti-la, ele carece de um bom
instrumento; para que ele a QUEIRA transmitir, é necessário que o objetivo
lhe convenha. O Espírito — que pode ler o pensamento — julga se a questão
que lhe foi proposta merece uma resposta séria, e se a pessoa que lhe dirige
essa questão é digna de receber a resposta; em caso contrário, ele não perde
seu tempo em lançar boas sementes sobre pedras, e é aí que os Espíritos
levianos e zombeteiros aproveitam, porque, pouco se importando com a
verdade, eles não a levam em consideração e são geralmente pouco
escrupulosos quanto aos fins e quanto aos meios.
Vamos resumir aqui as principais variedades de mediunidade, a fim de
apresentar, de alguma forma, o seu quadro resumido, contendo as que já
descrevemos nos capítulos precedentes, indicando o número dos itens em
que elas foram tratadas com mais detalhes.
Agrupamos as diferentes categorias de médiuns por analogia de causas e
efeitos, sem que esta classificação tenha nada de absoluto. Algumas são
encontradas frequentemente; outras, ao contrário, são raras e até mesmo
excepcionais, o que tivemos o cuidado de indicar. Estas últimas indicações
foram todas fornecidas pelos Espíritos que, aliás, revisaram esse quadro com
um cuidado todo especial e o completaram com numerosas observações e
novas categorias, de tal sorte que, por assim dizer, é uma obra inteiramente
deles. Indicamos suas observações textuais com aspas quando achamos
necessário destacá-las. Elas são, na sua maioria, de Erasto e de Sócrates.
- Podemos dividir os médiuns em duas grandes categorias:
- MÉDIUNS DE EFEITOS FÍSICOS: aqueles que têm o poder de provocar
efeitos materiais ou manifestações ostensivas. (Item 160.) - MÉDIUNS DE EFEITOS INTELECTUAIS: os que são mais especialmente
dedicados a receber e a transmitir comunicações inteligentes. (Item 65 e
seguintes.)
Todas as outras variedades se relacionam mais ou menos diretamente com
uma ou outra dessas duas categorias; algumas têm relações com ambas. Se
analisarmos os diferentes fenômenos produzidos sob a influência
209 – O Livro dos Médiuns
medianímica, veremos que há em todos eles um efeito físico e que aos efeitos
físicos quase sempre se junta um efeito inteligente. Muitas vezes é difícil
estabelecer o limite entre os dois, mas isso não leva a nenhuma consequência.
Nós chamamos pela denominação de médiuns de efeitos intelectuais aqueles
que mais especialmente podem servir de intermediários para as
comunicações regulares e contínuas. (Item 133.)
- Variedades comuns a todos os gêneros de mediunidade:
Médiuns sensitivos: pessoas suscetíveis de sentir a presença dos
Espíritos por uma impressão geral ou local, vaga ou material. A maioria
dessas pessoas distingue os Espíritos bons dos maus pela natureza da
impressão. (Item 164.)
“Os médiuns delicados e bastante sensitivos devem se abster das
comunicações dos Espíritos violentos ou cuja impressão é penosa, devido à
fadiga que daí resulta.”
Médiuns naturais ou inconscientes: os que produzem os fenômenos
espontaneamente, sem nenhuma participação da própria vontade e, as mais
das vezes, sem conhecimento disso. (Item 161.)
Médiuns facultativos ou voluntários: os que têm a capacidade de
provocar os fenômenos por um ato de sua própria vontade. (Item 160.)
“Qualquer que seja essa vontade, eles nada podem fazer enquanto os
Espíritos se recusam a se manifestar, o que prova a intervenção de uma força
externa.”
- Variedades especiais para efeitos físicos:
Médiuns tiptólogos: aqueles sob cuja influência se produzem ruídos e
batidas. Variedade bem comum, com ou sem intenção.
Médiuns motores: os que produzem o movimento dos corpos inertes.
Bastante comuns. (Item 61.)
Médiuns de translações e de suspensões: aqueles que produzem a
translação aérea e a suspensão dos corpos inertes no espaço sem ponto de
210 – Allan Kardec
apoio. Entre eles há os que podem elevar a si mesmos. Mais ou menos raros,
conforme o desenvolvimento do fenômeno; muito raros no último caso. (Item
75 e seguintes; item 80.)
Médiuns de efeitos musicais: provocam a execução de determinados
instrumentos musicais sem contato. Muito raros. (Item 74, pergunta 24.)
Médiuns de aparições: os que podem provocar aparições fluídicas ou
tangíveis, visíveis para os assistentes. Bastante raros. (Item 100, pergunta 27;
item 104.)
Médiuns de transporte: os que podem servir de auxiliares aos Espíritos
para o transporte de objetos materiais. Variedade dos médiuns motores e de
translações. Excepcionais. (Item 96.)
Médiuns noturnos: os que só obtêm certos efeitos físicos na escuridão.
Aqui está a resposta de um Espírito à questão sobre se podemos considerar
esses médiuns como formando uma variedade:
“Pode-se certamente fazer disso uma especialidade, mas esse fenômeno
é devido mais às condições ambientes do que à natureza do médium ou dos
Espíritos. Devo acrescentar que alguns deles escapam a essa influência do
meio e que a maior parte dos médiuns noturnos poderia conseguir, através do
exercício, a atuar tanto na claridade quanto no escuro. Esta variedade de
médiuns é pouco numerosa e, é bom que se diga, é graças a essa condição —
que deixa plena liberdade para o emprego dos truques, da ventriloquia e dos
tubos acústicos — que os charlatões têm fartamente abusado da credulidade
fazendo-se passar por médiuns, a fim de coletar moedas. Mas, que importa?
Os mágicos de salão, como os mágicos da praça pública, serão cruelmente
desmascarados e os Espíritos lhes provarão que não faz bem se imiscuir nos
trabalhos deles. Sim, eu repito: alguns charlatões receberão o castigo de um
modo tão rude que perderão o gosto da profissão de falsos médiuns. Aliás,
tudo isso vai durar pouco.”
ERASTO
Médiuns pneumatógrafos: os que obtêm a escrita direta. Fenômeno
raríssimo e sobretudo muito fácil de ser imitado pelos ilusionistas. (Item 177.)
211 – O Livro dos Médiuns
Nota – Os Espíritos insistiram, contra nossa opinião, em classificar a escrita
direta entre os fenômenos de ordem física, pela razão de que, disseram eles: “Os
efeitos inteligentes são aqueles pelos quais o Espírito se serve dos materiais cerebrais
do médium, o que não é o caso da escrita direta; a ação do médium aqui é toda
material, enquanto no médium escrevente, ainda que completamente mecânico, o
cérebro desempenha sempre um papel ativo.”
Médiuns curadores: aqueles que têm o poder de curar ou de aliviar pela
imposição das mãos ou pela prece.
“Esta faculdade não é essencialmente medianímica; ela pertence a todos
os verdadeiros crentes, que eles sejam médiuns ou não; muitas vezes ela não
é senão uma exaltação da potência magnética fortalecida pelo auxílio de bons
Espíritos, quando necessário.” (Item 175.)
Médiuns excitadores: pessoas que, por sua influência, têm o poder de
desenvolver nas outras a faculdade de escrever.
“Trata-se aqui mais de um efeito magnético do que um caso de
mediunidade propriamente dita, pois nada prova a intervenção de um
Espírito. Em todo o caso, pertence à ordem dos efeitos físicos.” (Veja o
capítulo da Formação dos médiuns.)
- Médiuns especiais para efeitos intelectuais. Aptidões diversas:
Médiuns audientes: os que ouvem Espíritos. Muito comuns. (Item 165.)
“Há muitos que imaginam ouvir o que só existe na sua imaginação.”
Médiuns falantes: aqueles que falam sob a influência dos Espíritos.
Bastante comuns. (Item 166.)
Médiuns videntes: os que enxergam os Espíritos no estado desperto. A
visão acidental e fortuita de um Espírito numa circunstância particular é bem
frequente; mas a visão habitual ou intencional de Espíritos, sem distinção, é
rara. (Item 167.)
“Esta é uma aptidão à qual se opõe o estado atual dos órgãos; por isso é
útil nem sempre acreditar na palavra dos que dizem ver os Espíritos.”
Médiuns inspirados: aqueles cujos pensamentos são sugeridos pelos
212 – Allan Kardec
Espíritos, quase sempre sem que eles saibam — seja para os atos comuns da
vida, seja para os grandes trabalhos da inteligência. (Item 182.)
Médiuns de pressentimentos: pessoas que em dadas circunstâncias têm
uma vaga intuição de coisas comuns do futuro. (Item 184.)
Médiuns proféticos: variedade de médiuns inspirados ou de
pressentimentos; eles recebem, com a permissão de Deus e com mais precisão
do que os médiuns de pressentimentos, a revelação de coisas futuras de um
interesse geral, e de que eles são incumbidos de transmitir aos homens, para a
instrução destes.
“Se há verdadeiros profetas, há ainda mais os falsos, e que tomam os
sonhos da própria imaginação como revelações, quando não são enganadores
que, por ambição, se apresentam como tais.” (Veja em O Livro dos Espíritos,
questão 624, Características do verdadeiro profeta.)
Médiuns sonâmbulos: aqueles que são assessorados por Espíritos em
estado de sonambulismo. (Item 172.)
Médiuns extáticos: os que, em estado de êxtase, recebem revelações da
parte dos Espíritos.
“Muitos extáticos são joguetes da própria imaginação e dos Espíritos
zombeteiros que se aproveitam da sua exaltação. Os que merecem uma inteira
confiança são raríssimos.”
Médiuns pintores e desenhistas: quem pinta ou desenha sob a
influência dos Espíritos. Falamos daqueles que obtêm coisas sérias, pois não
podemos dar esse nome a certos médiuns a quem os Espíritos brincalhões
levam a fazer coisas grotescas que o aprendiz mais atrasado recusaria a fazer.
Os Espíritos levianos são imitadores. Na época em que apareceram os
notáveis desenhos de Júpiter, surgiu uma grande quantidade de pretensos
médiuns desenhistas, com os quais os Espíritos levianos se divertiram
levando-os a fazer as coisas mais ridículas. Um deles, entre outros —
querendo superar os desenhos de Júpiter, ao menos pelas dimensões, se não
pela qualidade —, fez um médium desenhar um monumento que ocupava
213 – O Livro dos Médiuns
muitas folhas para chegar à altura de dois andares. Muitos outros fizeram que
se desenhasse supostos retratos que eram verdadeiras caricaturas. (Revista
espírita, agosto de 1858.)
Médiuns músicos: aqueles que executam, compõem ou escrevem
músicas sob a influência dos Espíritos. Há médiuns músicos mecânicos,
semimecânicos, intuitivos e inspirados, como há para as comunicações
literárias. (Veja: Médiuns de efeitos musicais.)
VARIEDADES DOS MÉDIUNS ESCREVENTES
- 1º) Segundo o modo de execução:
Médiuns escreventes ou psicógrafos: aqueles que têm a faculdade de
escrever por si mesmos sob a influência dos Espíritos.
Médiuns escreventes mecânicos: aqueles cuja mão recebe um impulso
involuntário e que não têm nenhuma consciência do que escrevem. Muito
raros. (Item 179.)
Médiuns semimecânicos: aqueles cuja mão se move involuntariamente,
mas que têm consciência instantânea das palavras ou das frases à medida que
eles escrevem. São os mais comuns. (Item 181.)
Médiuns intuitivos: aqueles com quem os Espíritos se comunicam pelo
pensamento e cuja mão é guiada voluntariamente. Eles diferem dos médiuns
inspirados pelo fato destes últimos não terem necessidade de escrever,
enquanto o médium intuitivo escreve o pensamento que lhe é sugerido
instantaneamente sobre um assunto determinado e proposto. (Item 180.)
“Eles são muito comuns, mas também muito sujeitos a erro, porque
muitas vezes não podem discernir o que vêm dos Espíritos e o que emana
deles próprios.”
Médiuns polígrafos: aqueles cuja caligrafia muda conforme o Espírito
que se comunica ou que são aptos a reproduzir a caligrafia que o Espírito
214 – Allan Kardec
tinha em vida. O primeiro caso é bem comum; o segundo, o da identidade da
caligrafia, é mais raro. (Item 219.)
Médiuns poliglotas: os que têm a capacidade de falar ou escrever em
línguas que lhe são desconhecidas. Bem raros.
Médiuns iletrados: os que escrevem, como médiuns, sem saber ler nem
escrever no estado comum.
“Mais raros do que os anteriores, pois há uma maior dificuldade material
a ser vencida.”
- 2º) Segundo o desenvolvimento da faculdade:
Médiuns novatos: aqueles cujas capacidades ainda não estão
completamente desenvolvidas e que carecem da experiência necessária.
Médiuns improdutivos: os que não chegam a obter mais do que coisas
insignificantes, monossílabos, traços ou letras sem conexão. (Veja o capítulo
da Formação dos médiuns.)
Médiuns feitos ou formados: são aqueles cujas aptidões medianímicas
estão completamente desenvolvidas, que transmitem as comunicações que
recebem com facilidade e prontidão, sem hesitação. Concebe-se que este
resultado só pode ser alcançado pelo hábito, tanto que, nos médiuns novatos,
as comunicações são lentas e difíceis.
Médiuns lacônicos: aqueles cujas comunicações, embora fáceis, são
breves e sem desenvolvimento.
Médiuns explícitos: as comunicações que estes recebem têm toda a
amplitude e a extensão que podemos esperar de um escritor consagrado.
“Esta aptidão resulta da expansão e da facilidade de combinação dos
fluidos; os Espíritos os procuram para tratar de assuntos que requerem
grandes desenvolvimentos.”
Médiuns experimentados: a facilidade de execução é uma questão de
hábito que muitas vezes se adquire em pouco tempo, enquanto a experiência
215 – O Livro dos Médiuns
é o resultado de um estudo sério de todas as dificuldades que se apresentam
na prática do espiritismo. A experiência dá ao médium o tato necessário para
apreciar a natureza dos Espíritos que se manifestam, para julgar suas
qualidades boas ou más pelos sinais mais minuciosos, para discernir a
falsidade dos Espíritos brincalhões que se acobertam com as aparências da
verdade. Compreende-se facilmente a importância desta qualidade, sem a
qual todas as outras ficam sem uma real utilidade; o problema é que muitos
médiuns confundem a experiência (fruto do estudo) com a aptidão (produto
do organismo); eles se julgam mestres elevados porque escrevem facilmente;
repudiam todos os conselhos e se tornam presas de Espíritos mentirosos e
hipócritas que os seduzem lisonjeando o orgulho deles. (Veja adiante o
capítulo da Obsessão.)
Médiuns flexíveis: aqueles cuja faculdade se presta mais facilmente aos
diversos gêneros de comunicações e pelos quais todos os Espíritos — ou
quase todos — podem manifestar-se, espontaneamente ou por evocação.
“Esta variedade de médiuns parece muito com a dos médiuns
sensitivos.”
Médiuns exclusivos: aqueles por quem um Espírito se manifesta de
preferência, até mesmo com a exclusão de todos os demais, e responde por
aqueles que chamamos através do médium.
“Isto resulta sempre de falta de flexibilidade; quando o Espírito é bom,
ele pode se apegar ao médium por simpatia e por uma intenção louvável;
quando ele é mau, é sempre à vista de pôr o médium sob sua dependência. É
mais um defeito do que uma qualidade, e muito próximo da obsessão.” (Veja o
capítulo da Obsessão.)
Médiuns para evocações: os médiuns flexíveis são naturalmente os
mais apropriados para este gênero de comunicação, e para as questões de
detalhes que podemos endereçar aos Espíritos. Sob este aspecto, há médiuns
inteiramente específicos.
“Suas respostas se limitam quase sempre a um quadro restrito,
incompatível com o desenvolvimento dos assuntos generalizados.”
216 – Allan Kardec
Médiuns para ditados espontâneos: estes recebem preferencialmente
comunicações espontâneas da parte dos Espíritos que se apresentam sem
serem chamados. Quando esta faculdade é especial num médium, é difícil —
às vezes até impossível — fazer uma evocação por ele.
“Entretanto, eles são mais bem aparelhados que os da variedade
anterior. Saibam que o aparelhamento aqui tratado é o de materiais do
cérebro, pois frequentemente se faz necessário — eu diria até sempre — uma
maior soma de inteligência para os ditados espontâneos do que para as
evocações. Aqui, entendam por ditados espontâneos aqueles que merecem
verdadeiramente essa denominação, e não algumas frases incompletas ou
pensamentos banais que se encontram em todos os escritos humanos.”
- 3º) Segundo o gênero e a especialidade das comunicações:
Médiuns versificadores: mais facilmente do que os outros, estes obtêm
comunicações em verso. Muito comuns para versos ruins e raríssimos para
bons versos.
Médiuns poéticos: sem obter versos, as comunicações que eles recebem
têm qualquer coisa de sutileza, de sentimental; nada neles cheira a rudeza;
mais do que os outros, eles são próprios para a expressão de sentimentos
ternos e afetuosos. Tudo neles é vago, e seria inútil lhes pedir algo preciso.
Muito comuns.
Médiuns positivos: suas comunicações geralmente têm um caráter de
clareza e de exatidão que se presta espontaneamente aos detalhes
circunstanciados e informações exatas. Muito raros.
Médiuns literários: aqueles cujas comunicações não têm nem a
imprecisão das de médiuns poéticos nem a trivialidade das de médiuns
positivos; porém, dissertam com sagacidade e seu estilo é correto, elegante e
frequentemente de uma notável eloquência.
Médiuns incorretos: podem obter coisas excelentes, pensamentos de
uma moralidade impecável, mas seu estilo é difuso, incorreto, sobrecarregado
de repetições e de termos impróprios.
217 – O Livro dos Médiuns
“A incorreção material do estilo decorre geralmente de falta de cultura
intelectual do médium que, sob esse aspecto, não é um bom instrumento para
o Espírito, que, aliás, dá pouca importância a isso; para ele o pensamento é a
coisa essencial, então o Espírito deixa o médium livre para dar a forma que
lhe convenha. O mesmo não acontece com relação às ideias falsas e ilógicas
que uma comunicação possa conter; elas são sempre um indício de
inferioridade do Espírito que se manifesta.”
Médiuns historiadores: aqueles que têm uma aptidão especial para os
desenvolvimentos históricos. Esta faculdade, como todas as outras, independe
dos conhecimentos do médium, porque vemos pessoas sem instrução, e até
crianças, a tratar de temas bem acima do seu alcance. Variedade rara dos
médiuns positivos.
Médiuns científicos: não dizemos sábios porque eles podem ser muito
ignorantes, e apesar disso eles são mais especialmente aptos a comunicações
relativas às ciências.
Médiuns médicos: sua especialidade é a de servirem mais facilmente de
intérpretes aos Espíritos para as prescrições médicas. É importante não os
confundir com os médiuns curadores, pois eles absolutamente não fazem mais
do que transmitir o pensamento do Espírito, e não exercem por si mesmos
nenhuma influência. Bastante comuns.
Médiuns religiosos: estes recebem mais particularmente comunicações
de um caráter religioso, ou que tratam de questões de religião, não obstante
suas crenças ou seus hábitos.
Médiuns filósofos e moralistas: suas comunicações têm geralmente
como objetivo as questões de moral e de alta filosofia. Muito comuns para as
questões morais.
“Todas essas nuances constituem variedades de aptidões de bons
médiuns. Quanto aos que têm uma aptidão especial para determinadas
comunicações científicas, históricas, médicas e outras — acima de seu alcance
atual — fiquem certos de que eles possuíram esses conhecimentos numa
218 – Allan Kardec
outra existência, e que esses conhecimentos ficaram neles em estado latente,
fazendo parte dos materiais cerebrais necessários para o Espírito que se
manifesta; são elementos que lhe facilitam o caminho para comunicar suas
próprias ideias, já que esses médiuns são para ele instrumentos mais
inteligentes e mais flexíveis do que um ignorante poderia ser.”
ERASTO
Médiuns de comunicações triviais e obscenas: estas palavras indicam o
gênero de comunicações que determinados médiuns recebem habitualmente
e a natureza dos Espíritos que as dão. Qualquer um que tenha estudado o
mundo espírita, com todos os graus da escala, sabe que há Espíritos cuja
perversidade iguala à dos homens mais depravados e que se comprazem em
expor seus pensamentos nos mais grosseiros termos. Outros, menos
detestáveis, contentam-se com expressões triviais. Compreende-se que esses
médiuns devam ter o desejo de se livrarem da preferência que esses Espíritos
lhes dão, e que devam espelhar aqueles que jamais tiveram uma palavra
inconveniente nas comunicações que recebem. Seria preciso uma estranha
aberração de ideias e estar divorciado do bom senso para acreditar que uma
linguagem como essa possa ser obra dos Espíritos bons.
- 4º) Segundo as qualidades físicas do médium:
Médiuns calmos: estes escrevem sempre com certa lentidão e sem
experimentar a menor agitação.
Médiuns velozes: escrevem com uma rapidez maior do que poderiam
voluntariamente no estado normal. Os Espíritos se comunicam por meio deles
com a prontidão de um relâmpago; diríamos que há neles uma
superabundância de fluido que lhes permite se identificar instantaneamente
com o Espírito. Esta qualidade às vezes tem sua desvantagem, que é a de que a
celeridade da escrita a torna muito difícil de ser lida por outra pessoa que não
seja o médium.
“Ele é mesmo muito fatigante, porque gasta muito fluido inutilmente.”
219 – O Livro dos Médiuns
Médiuns convulsivos: estes ficam num estado de superexaltação quase
febril; a mão, e algumas vezes toda a pessoa, fica agitada com um tremor que
eles não conseguem dominar. A causa primária disso, sem dúvidas, está no
organismo, mas ela também depende muito da natureza dos Espíritos que se
comunicam por eles; os Espíritos bons e benévolos produzem sempre uma
impressão suave e agradável; os maus, ao contrário, produzem uma penosa.
“É preciso que esses médiuns não utilizem sua faculdade medianímica a
não ser raramente, porque seu uso muito frequente poderia afetar o sistema
nervoso.” (Capítulo da Identidade dos Espíritos, diferenciação dos bons e dos
maus Espíritos).
- 5º) Segundo as qualidades morais dos médiuns:
Vamos mencioná-las rapidamente, para registro e para completar o
quadro, posto que elas serão desenvolvidas adiante, nos capítulos específicos:
Influência moral do médium, Obsessão, Identidade dos Espíritos e outros, para
os quais pedimos uma atenção especial; neles veremos a influência que as
qualidades e os defeitos dos médiuns podem exercer sobre a segurança das
comunicações, e quais são os que podemos com razão considerar médiuns
imperfeitos ou bons médiuns.
- Médiuns imperfeitos:
Médiuns obsidiados: aqueles que não podem se desembaraçar de
Espíritos importunos e enganadores, mas que não se iludem com eles.
Médiuns fascinados: os que são iludidos por Espíritos enganadores e se
iludem quanto à natureza das comunicações que recebem.
Médiuns subjugados: quem sofrem uma dominação moral e muitas
vezes material da parte de maus Espíritos.
Médiuns levianos: os que não levam sua faculdade a sério e só se
servem dela para divertimento ou para coisas fúteis.
Médiuns indiferentes: os que não tiram nenhum proveito moral das
instruções que recebem e não modificam em nada sua conduta e seus hábitos.
220 – Allan Kardec
Médiuns presunçosos: aqueles que têm a pretensão de estar em contato
somente com Espíritos superiores. Eles creem na própria infalibilidade e
consideram inferior e errôneo tudo o que não venha deles.
Médiuns orgulhosos: os que se envaidecem das comunicações que
recebem; eles acham que não têm mais nada a aprender sobre espiritismo e
não tomam para si as lições que colhem frequentemente da parte dos
Espíritos. Não se contentam com as faculdades que têm; querem todas elas.
Médiuns suscetíveis: variedade dos médiuns orgulhosos; irritam-se com
as críticas de que suas comunicações possam ser alvo; zangam-se com a
menor contradição e, quando mostram o que obtêm, é para causar admiração
e não para pedir a opinião de ninguém. Geralmente eles tomam aversão às
pessoas que não os aplaudem sem restrições e fogem das reuniões em que
não possam se impor e dominar.
“Deixem-lhes irem se exibir noutros lugares e procurar ouvidos mais
complacentes, ou se retirarem ao isolamento; as reuniões que se privam da
presença deles não sofrem nenhuma grande perda.”
ERASTO
Médiuns mercenários: aqueles que comercializam suas faculdades.
Médiuns ambiciosos: os que, embora não vendam suas faculdades,
esperam tirar quaisquer vantagens dela.
Médiuns de má-fé: são os que, possuindo algumas aptidões verdadeiras,
simulam aquelas que eles não têm para se darem importância. Não podemos
conceder o título de médium às pessoas que, não possuindo nenhuma
faculdade medianímica, só produzem efeitos por meio da enganação.
Médiuns egoístas: aqueles que não utilizam suas faculdades a não ser
para seu interesse pessoal e guardam para si as comunicações que recebem.
Médiuns ciumentos: os que veem com inveja outros médiuns mais
admirados e que são superiores a eles.
Todas estas más qualidades têm necessariamente sua contraparte boa.
221 – O Livro dos Médiuns
- Bons médiuns:
Médiuns sérios: aqueles que só se servem de suas faculdades para o
bem e para as coisas realmente úteis; estes acreditam que seria uma
profanação usá-las para satisfação dos curiosos e dos indiferentes, ou para
futilidades.
Médiuns modestos: os que não atribuem a si mesmos nenhum mérito
das comunicações que recebem, por mais belas que elas sejam; reconhecem
que elas não lhes pertencem e não se julgam a salvo das mistificações. Longe
de fugir das opiniões sinceras, eles as solicitam.
Médiuns devotados: são aqueles que compreendem que o verdadeiro
médium tem uma missão a cumprir e deve, quando for necessário, sacrificar
seus gostos, seus hábitos, seus prazeres, seu tempo e até seus interesses
materiais em favor dos outros.
Médiuns seguros: os que, além da facilidade de execução, merecem toda
a confiança, pelo seu caráter, pela natureza elevada dos Espíritos que os
auxiliam, e que são os menos expostos a serem iludidos. Veremos mais tarde
que esta segurança não depende de modo algum dos nomes mais ou menos
respeitáveis que os Espíritos adotam.
“É incontestável, vocês bem sabem, que resumindo assim as qualidades e
os defeitos dos médiuns, isto suscitará contrariedades e até a adversidade de
alguns deles; mas que importa? A mediunidade se espalha cada dia mais, e o
médium que levasse a mal estas reflexões provaria uma coisa: que ele não é
um bom médium, isto é, que ele é assistido por maus Espíritos. De resto, como
eu já disse, tudo isto não vai durar muito, e os maus médiuns — os que
abusam ou mal-usam suas faculdades — sofrerão tristes consequências, como
já aconteceu com alguns deles; eles aprenderão às próprias custas o quanto
lhes custa reverterem em proveito de suas paixões terrenas um dom que Deus
lhes tinha concedido para o adiantamento moral deles. Se vocês não puderem
reconduzi-los ao bom caminho, lamentem por eles, porque — eu posso
garantir — eles serão reprovados por Deus.”
ERASTO
222 – Allan Kardec
“Este quadro é de uma grande importância, não só para os médiuns
sinceros que, lendo-o, procurarem de boa-vontade se preservar dos perigos a
que estão expostos, mas também para todos aqueles que se servem dos
médiuns, porque lhes dará a medida do que eles racionalmente podem
esperar. Ele deverá estar constantemente sob os olhos de todo aquele que se
ocupa com as manifestações, do mesmo modo que a escala espírita, da qual
ele é o complemento; esses dois quadros resumem todos os princípios da
doutrina, e contribuirão — mais do que vocês imaginam — para reconduzir o
espiritismo ao verdadeiro caminho.”
SÓCRATES
- Todas essas variedades de médiuns apresentam graus infinitos em sua
intensidade; há várias delas que, propriamente falando, não constituem mais
do que nuances, mas que nem por isso deixam de ser aptidões especiais.
Cremos que deva ser bastante raro que a faculdade de um médium esteja
rigorosamente circunscrita a um só gênero; sem dúvida um médium pode ter
diversas aptidões, mas sempre há uma que seja dominante, e é esta que ele
deve cultivar, se ela for útil. Seria um grave erro alguém querer forçar de todo
modo o desenvolvimento de uma faculdade que ele não possui; deve-se
cultivar todas aquelas de que se reconheça possuir o princípio; mas perseguir
as outras é, em primeiro lugar, perder tempo, e em segundo lugar, perder
talvez — e com certeza enfraquecer — aquelas das quais a pessoa já é dotada.
“Quando existe o princípio — o gérmen de uma faculdade —, ela se
manifesta sempre por sinais inequívocos. Limitando-se à sua especialidade, o
médium pode se sobressair e obter coisas grandes e belas; ocupando-se de
tudo, ele não conseguirá nada de bom. Notem, a propósito, que o desejo de
ampliar indefinidamente o âmbito de suas capacidades é uma pretensão
orgulhosa que os Espíritos nunca deixam impune: os bons sempre
abandonam o presunçoso, que então se torna joguete dos Espíritos
mentirosos. Infelizmente não é raro vermos médiuns não se contentarem com
os dons que receberam e, por orgulho ou ambição, aspirarem possuir
aptidões excepcionais capazes de chamar a atenção para eles. Essa pretensão
lhes tira a qualidade mais preciosa: a de médiuns seguros.”
SÓCRATES
223 – O Livro dos Médiuns
- O estudo da especialidade dos médiuns é necessário, não só para eles,
mas também para o evocador. Conforme a natureza do Espírito que se deseja
chamar e as perguntas que se quer dirigir a eles, convém escolher o médium
mais apto ao objetivo; dirigir-se ao primeiro que apareça é se expor a
respostas incompletas ou errôneas. Façamos uma comparação com os fatos
usuais: ninguém confiará uma redação — mesmo que seja uma simples cópia
— ao primeiro que apareça só porque ele sabe escrever. Imaginemos que um
músico queira executar uma peça de canto de sua composição, e que ele tenha
à sua disposição vários cantores, todos hábeis; mesmo assim, ele não decidirá
ao acaso, mas escolherá para seu intérprete aquele cuja voz, expressão e todas
as qualidades enfim correspondam melhor à natureza da peça. Os Espíritos
fazem o mesmo com relação aos médiuns, e nós devemos fazer como os
Espíritos.
Além disso, devemos notar que as nuances que a mediunidade apresenta
e às quais outras mais poderíamos acrescentar, nem sempre têm relação com
o caráter do médium. Assim, por exemplo, um médium naturalmente alegre e
jovial pode obter normalmente comunicações sérias, até mesmo severas, e
vice-versa. Essa é também uma prova evidente de que ele age sob a impulsão
de uma influência externa. Voltaremos a este assunto no capítulo que trata da
Influência moral do médium.
224 – Allan Kardec
CAPÍTULO XVII
FORMAÇÃO DOS MÉDIUNS
Desenvolvimento da mediunidade – Mudança de caligrafia
– Perda e suspensão da mediunidade
Desenvolvimento da mediunidade
- Vamos nos ocupar aqui especialmente com os médiuns escreventes,
porque esse é o gênero de mediunidade mais popular e, além disso, porque é
ao mesmo tempo o mais simples, o mais cômodo e aquele que dá os
resultados mais satisfatórios e completos; é também aquele que todo mundo
almeja. Infelizmente, até agora, não existe nenhum diagnóstico que possa
indicar — ainda que aproximadamente — que alguém possua essa faculdade;
os sinais físicos pelos quais certas pessoas acreditam ver indícios nada têm de
exatos. Ela está presente nas crianças e nos idosos, nos homens e nas
mulheres, quaisquer que sejam o temperamento, o estado de saúde, o grau de
desenvolvimento intelectual e moral. Só há um meio de constatar a sua
existência: é experimentar.
Como já vimos, podemos obter a escrita por meio das cestas e das
pranchetas ou diretamente com a mão; este último meio sendo o mais fácil e
— podemos dizer — o único empregado atualmente, é aquele ao qual
recomendamos que se dê a preferência. O processo é dos mais simples:
consiste unicamente em se pegar lápis e papel e se colocar na posição de uma
pessoa que escreve, sem qualquer outra preparação; no entanto, para ter
sucesso, várias recomendações são indispensáveis.
- Como disposição material, recomendamos evitar tudo aquilo que possa
225 – O Livro dos Médiuns
dificultar o livre movimento da mão; é até preferível que ela não fique
totalmente apoiada sobre o papel. A ponta do lápis deve encostar o suficiente
para rabiscar, mas não o bastante para oferecer resistência. Todas essas
precauções se tornam inúteis uma vez que se tenha chegado a escrever
fluentemente, pois então nenhum obstáculo pode mais detê-lo; são só
preliminares para o aprendiz.
- É indiferente usar pena ou lápis; alguns médiuns preferem a pena, mas
ela só é adequada para os que já estejam acostumados e escrevem
pausadamente; há outros que escrevem com tanta velocidade que o uso da
pena seria quase impossível, ou pelo menos muito incômodo. É o mesmo caso
quando a escrita é entrecortada e irregular, ou quando se trata de Espíritos
violentos, que batem com a ponta do lápis e a quebram, rasgando o papel.62 - O desejo de todo médium aspirante é naturalmente poder conversar
com o Espírito das pessoas queridas, mas ele deve moderar a sua impaciência,
porque a comunicação com um determinado Espírito muitas vezes oferece
dificuldades materiais que a tornam impossível para o principiante. Para que
um Espírito possa se comunicar é preciso haver entre ele e o médium relações
fluídicas que nem sempre se estabelecem instantaneamente; só à medida que
a faculdade se desenvolve é que o médium adquire pouco a pouco a aptidão
necessária para entrar em comunicação com o primeiro Espírito que
aparecer. Portanto, pode ser que aquele com quem o médium deseja se
comunicar não esteja em condições propícias para isso, embora esteja
presente, como pode ser também que ele não tenha nem a possibilidade nem
a permissão para responder ao chamado que lhe seja feito. Por isso, convém
inicialmente não insistir em chamar um determinado Espírito com exclusão
de qualquer outro, pois muitas vezes acontece que não seja com este que as
relações fluídicas se estabeleçam com mais facilidade — por mais simpatia
que se tenha por ele. Então, antes de pensar em obter comunicações de este
62 A escrita à pena (escrita com caneta bico de pena) ainda era uma forma comum de escrever e de
desenhar no século XIX, época de Allan Kardec, cujos recursos eram tão simples quanto caros, em
comparação com os aparatos do século seguinte, quando surgiram as canetas esferográficas, que então
dominaram o mercado e o gosto popular. — N. T.
226 – Allan Kardec
ou aquele Espírito, deve-se impulsionar o desenvolvimento da faculdade, e
para isso é preciso fazer um chamado generalizado e se dirigir sobretudo ao
próprio anjo guardião.
Não há aqui nenhuma fórmula sacramental; qualquer um que
pretendesse receitar alguma, seguramente, pode ser tachado de mistificador,
pois para os Espíritos a forma não vale nada. Todavia, a evocação sempre
deve ser feita em nome de Deus; ela pode ser feita nos termos seguintes, ou
em outros termos equivalentes: Rogo a Deus todo-poderoso que permita
que um bom Espírito se comunique comigo e me faça escrever; peço
também ao meu anjo guardião que bem queira me ajudar e afastar os
maus Espíritos. Então, deve-se esperar que um Espírito se manifeste e
escreva alguma coisa. Pode ser que seja aquele Espírito pretendido, como
também pode ser um desconhecido ou o anjo guardião; em todo o caso, ele se
revelará geralmente escrevendo o próprio nome. Mas então surge a questão
da identidade, uma das quais exigem mais experiência, porque há poucos
principiantes que não estejam expostos a ser enganados. Trataremos disso
adiante num capítulo especial.
Quando se quer chamar determinados Espíritos, realmente é essencial
começar se dirigindo somente àqueles que sabemos serem bons e simpáticos,
e que possam ter um motivo para vir — como parentes ou amigos. Neste caso,
a evocação pode ser formulada assim: Em nome de Deus todo-poderoso,
peço que tal Espírito se comunique comigo; ou então: Peço a Deus todo-
poderoso que permita que tal Espírito se comunique comigo; ou qualquer
outro modelo que corresponda ao mesmo pensamento. Não menos necessário
é que as primeiras perguntas sejam feitas de tal maneira que a resposta seja
simplesmente sim ou não, como por exemplo: Você está aqui? — Poderia me
responder? — Poderia me fazer escrever? Etc. Mais tarde essa precaução se
torna inútil; trata-se inicialmente de estabelecer uma relação, e o essencial é
que a questão não seja fútil, que não trate de coisas de interesse particular e,
sobretudo, que seja a expressão de um sentimento de bondade e simpatia
para com o Espírito a quem se dirige. (Veja adiante o capítulo especial sobre
as Evocações.)
227 – O Livro dos Médiuns
- Uma coisa ainda mais importante a ser observada do que o modo de
chamar é a calma e o recolhimento juntos a um desejo ardente e à firme
vontade de alcançar o objetivo; e por vontade, não entendemos aqui uma
vontade passageira que age esporadicamente e que a cada minuto é
interrompida por outras preocupações; mas sim uma vontade séria,
perseverante, contínua, sem impaciência nem desejo febril. A concentração
é favorecida pelo recolhimento, pelo silêncio e o afastamento de tudo o que
possa causar distrações. Logo, só resta uma coisa a fazer: renovar todos os
dias as suas tentativas, durante dez ou quinze minutos no máximo a cada vez,
e isso durante quinze dias, um mês, dois meses ou mais, se for preciso.
Conhecemos médiuns que não se formaram senão depois de seis meses de
exercício, enquanto outros escrevem fluentemente desde a primeira vez. - Para evitar tentativas inúteis, é possível interrogar um Espírito sério e
adiantado, através de outro médium; porém, devemos lembrar que, quando
levamos aos Espíritos a questão de saber se alguém é médium ou não, eles
respondem quase sempre afirmativamente — o que não impede que os
ensaios muitas vezes sejam infrutíferos. Isso se explica naturalmente: ao
fazermos uma pergunta genérica a um Espírito, ele responde de uma maneira
genérica; ora, como nós sabemos, nada é mais flexível do que a faculdade
medianímica, pois ela pode se apresentar sob as mais variadas formas e em
graus muito diferentes. Portanto, uma pessoa pode ser médium sem se
aperceber disso e num sentido que não é aquele que imaginamos. A esta
pergunta vaga: “Será que eu sou médium?”, o Espírito pode responder que
sim; a esta outra mais precisa: “Eu sou um médium escrevente?”, ele pode
responder que não. É preciso ter em conta também a natureza do Espírito a
quem interrogamos; há os que são tão levianos e ignorantes que respondem a
torto e a direito, como verdadeiros atordoados. Por isso nós aconselhamos a
se dirigir aos Espíritos esclarecidos, que geralmente respondem a essas
perguntas de boa vontade e indicam o melhor caminho a seguir — se houver
uma possibilidade de sucesso. - Um método que muito frequentemente é bem-sucedido consiste em
228 – Allan Kardec
empregar como um auxiliar temporário um bom médium escrevente, flexível
e experiente. Quando ele põe a mão ou os dedos sobre a mão de quem deseja
escrever, é raro que este último não escreva imediatamente. Compreende-se o
que acontece em tal circunstância: a mão que segura o lápis de alguma forma
se torna uma extensão da mão do médium, como se fosse uma cesta ou uma
prancheta; mas isso não impede que esse exercício seja muito útil, quando se
pode empregá-lo, no sentido de que, repetido sequencial e regularmente, ele
ajuda a superar o obstáculo físico e provoca o desenvolvimento da faculdade.
Algumas vezes, basta apenas que ele magnetize fortemente com essa intenção
o braço e a mão daquele que quer escrever; não raro o magnetizador se limita
mesmo a colocar sua mão no ombro dele, e então temos visto o principiante
escrever prontamente sob essa influência. O mesmo efeito pode ser
produzido igualmente sem nenhum contato, só pelo ato da vontade. Concebe-
se sem dificuldade que a confiança do magnetizador na sua própria força para
produzir tal resultado deva aqui desempenhar um papel importante, e que
um magnetizador incrédulo teria pouca, senão nenhuma ação.
Além disso, o auxílio de um guia experimentado às vezes é muito útil
para apontar ao iniciante uma porção de pequenas precauções que ele
frequentemente negligencia em detrimento da rapidez do progresso,
sobretudo para esclarecê-lo sobre a natureza das primeiras questões e a
maneira de propô-las. Seu papel é o de um professor que o aprendiz dispensa
quando já está hábil o bastante.
- Outro meio que também pode contribuir substancialmente para o
desenvolvimento da faculdade consiste em reunir um certo número de
pessoas, todas animadas com o mesmo desejo e com a comunhão de intenção;
dessa forma, num absoluto silêncio e com um religioso recolhimento, que
todas elas tentem simultaneamente escrever, cada qual fazendo um apelo ao
seu anjo guardião ou a qualquer Espírito simpático. Uma delas também pode
fazer — sem designação especial e por todos os membros da reunião — um
apelo geral aos bons Espíritos, dizendo, por exemplo: Em nome de Deus todo-
poderoso, rogamos aos bons Espíritos que se disponham a se comunicar
pelas pessoas aqui presentes. É raro que entre estas não haja algumas que
229 – O Livro dos Médiuns
prontamente mostrem sinais de mediunidade ou mesmo que escrevam
correntemente em pouco tempo.
Compreende-se facilmente o que se passa em tal circunstância: as
pessoas unidas por uma comunhão de intenções formam um todo coletivo,
cuja força e sensibilidade se encontram robustecidas por uma espécie de
influência magnética, que ajuda no desenvolvimento da faculdade. Entre os
Espíritos atraídos por esse concurso de vontades, há alguns que encontram
nos assistentes o instrumento que lhes convém; se não for um, será outro, e
então eles o aproveitam.
Este meio deve ser empregado principalmente nos grupos espíritas que
careçam de médiuns ou que não os possuam em número suficiente.
- Procura-se procedimentos para a formação dos médiuns como se têm
procurado diagnósticos; mas, até hoje, não conhecemos nenhum mais eficaz
do que aqueles que indicamos. Convencidas de que o obstáculo para o
desenvolvimento da faculdade é uma resistência totalmente material,
algumas pessoas pretendem vencê-la através de um tipo de ginástica que
quase desloca o braço e a cabeça. Não descreveremos esse processo, que vem
do outro lado do Atlântico, não somente porque não temos nenhuma prova de
sua eficácia, mas por estarmos convictos de que ele pode oferecer perigo para
os organismos delicados, devido ao estremecimento do sistema nervoso. Se
não houver rudimentos da faculdade, nada poderia produzi-los, nem mesmo a
eletrização — que já foi empregada sem êxito com o mesmo objetivo. - A fé do médium aprendiz não é uma condição rigorosa; ela sem dúvida
auxilia os esforços, mas não é indispensável: a pureza de intenção, o desejo e a
boa vontade bastam. Têm-se visto pessoas inteiramente incrédulas ficarem
espantadas de escrever a contragosto, enquanto crentes sinceros não
conseguem o mesmo — o que prova que esta capacidade depende de uma
predisposição orgânica. - O primeiro indício de uma disposição para escrever é uma espécie de
estremecimento no braço e na mão; pouco a pouco, a mão é tomada por uma
230 – Allan Kardec
impulsão que ela não pode conter. Muitas vezes ela inicialmente não rabisca
senão traços insignificantes; depois, os caracteres se desenham cada vez mais
nitidamente e a escrita acaba adquirindo a rapidez da escrita comum. Em
todos os casos, deve-se entregar a mão ao seu movimento natural e não
fornecer nem resistência nem propulsão.
Alguns médiuns escrevem fluentemente e com facilidade desde o início,
às vezes até já na primeira sessão — o que é muito raro. Outros, durante
longo tempo, fazem rabiscos e verdadeiros exercícios caligráficos; os Espíritos
dizem que é para destravar a mão. Se esses exercícios se prolongarem demais
ou degenerarem em sinais ridículos, não há dúvidas de que se trata de um
Espírito que está se divertindo, pois os bons Espíritos nunca fazem nada de
inútil; nesse caso, é preciso redobrar o fervor para apelar à assistência destes.
Se, apesar disso, não houver mudança, deve-se parar, desde que se reconheça
que não consegue obter nada de sério. A tentativa pode ser recomeçada todos
os dias, mas convém parar a partir dos primeiros sinais duvidosos, a fim de
não dar satisfação aos Espíritos zombeteiros.
A essas observações, um Espírito acrescenta: “Há médiuns cuja
faculdade não pode ir além desses sinais; quando, ao fim de alguns meses, eles
não obtêm nada mais do que coisas insignificantes, um sim ou um não, ou
letras sem conexão, é inútil persistir em gastar papel à toa; eles são médiuns,
mas médiuns improdutivos. De resto, as primeiras comunicações obtidas só
devem ser consideradas como meros exercícios, confiados apenas a Espíritos
secundários; isso é porque não se deve lhes dar muita importância, devido aos
Espíritos que — por assim dizer — são empregados como instrutores da
escrita, para desembaraçarem o médium debutante. Portanto, não creiam que
sejam sempre Espíritos elevados os que aplicam aos médiuns esses exercícios
preparatórios; só acontece que, se o médium não tem um objetivo sério, esses
Espíritos continuam e se ligam a ele. Quase todos os médiuns passaram por
essa prova para se desenvolverem; cabe-lhes fazer o que for preciso para
conquistar a simpatia dos Espíritos verdadeiramente superiores.”
- O problema da maioria dos médiuns novatos é ter de lidar com Espíritos
inferiores, e devem se considerar felizes quando se trata apenas de Espíritos
231 – O Livro dos Médiuns
levianos. Toda a sua atenção deve tender em não lhes deixar tomar conta,
pois, uma vez ancorados, nem sempre é fácil se livrar deles. Este é um ponto
tão importante, sobretudo no começo, que, sem as precauções necessárias,
pode-se perder os frutos das mais belas faculdades.
A primeira coisa consiste em colocar-se com uma fé sincera sob a
proteção de Deus e solicitar a assistência do anjo guardião; este é sempre
bom, enquanto os Espíritos familiares — simpatizando-se com as boas ou as
más qualidades do médium — podem ser levianos ou até mesmo maus.
O segundo ponto é procurar, com um rigoroso cuidado, reconhecer por
todos os indícios que a experiência fornece a natureza dos primeiros Espíritos
que se comunicam, e dos quais a prudência sempre manda desconfiar. Se
esses indícios forem suspeitos, é necessário fazer um apelo fervoroso ao anjo
guardião e repelir com todas as forças o Espírito maldoso, provando-lhe que
não é sua presa, a fim de lhe desencorajar. Eis por que o estudo prévio da
teoria é indispensável, quando se quer evitar os inconvenientes inseparáveis
da inexperiência; a este respeito, encontramos instruções bem desenvolvidas
nos capítulos da Obsessão e da Identidade dos Espíritos. Vamos nos limitar
aqui a dizer que, além da linguagem, podemos considerar como
comprovações infalíveis da inferioridade dos Espíritos: todos os sinais,
figuras, emblemas inúteis ou pueris; toda escrita bizarra, irregular,
intencionalmente torta, de dimensões exageradas ou apresentando formas
ridículas e incomuns; a escrita pode ser horrível, até mesmo pouco legível, o
que tem a ver mais com o médium do que com o Espírito, sem que isso nada
tenha de estranho. Temos visto médiuns tão enganados que eles medem a
superioridade dos Espíritos pelas dimensões dos caracteres, e que dão grande
importância às letras bem moldadas, como os caracteres de impressão —
infantilidade evidentemente incompatível com uma real superioridade.
- Se é importante não cair, sem querer, na dependência dos maus
Espíritos, ainda mais importante é não cair nisso voluntariamente, e o desejo
imoderado de escrever não deve levar a crer que seja indiferente se dirigir ao
primeiro que apareça, a não ser para mais tarde se livrar dele, caso ele não
seja conveniente, porque — seja para o que for — não se pede gratuitamente
232 – Allan Kardec
a assistência de um Espírito mau, o qual pode cobrar caro pelos seus serviços.
Algumas pessoas, ansiosas para verem se desenvolver nelas a faculdade
medianímica — lento demais para o seu gosto —, tiveram a ideia de apelar à
ajuda de um Espírito qualquer, mesmo que fosse mau, contando despedi-lo
logo em seguida. Muitas delas foram atendidas conforme desejavam e
escreveram imediatamente; porém o Espírito, não se incomodando em ter
sido chamado na pior condição, foi menos dócil para ir embora do que para
vir. Conhecemos pessoas que foram punidas por causa da presunção de se
acharem bastante fortes para afastá-los quando bem quisessem, por anos de
obsessões de todo tipo, pelas mais ridículas mistificações, por uma fascinação
persistente e até por desgraças materiais e as mais cruéis decepções. A
princípio o Espírito se mostra abertamente mau, e depois hipócrita, a fim de
fazer crer na sua conversão, ou na pretendida força do seu subjugado para
expulsá-lo à vontade.
- A escrita algumas vezes é bem legível, as palavras e as letras
perfeitamente destacadas; mas com determinados médiuns ela é difícil de ser
decifrada por outro que não seja aquele que escreve: é preciso se acostumar
com ela. Muito frequentemente ela é formada de grandes traços; os Espíritos
são pouco econômicos com papel. Quando uma palavra ou uma frase é quase
toda ilegível, pede-se ao Espírito a bondade de recomeçar, o que geralmente
ele faz com boa vontade. Quando a escrita é habitualmente ilegível mesmo
para o médium, este quase sempre consegue obter uma mais nítida através de
exercícios frequentes e sucessivos, colocando nisso uma forte vontade e
rogando com fervor ao Espírito que ele escreva mais legível. Às vezes, alguns
Espíritos adotam sinais convencionais que passam a ser usados nas reuniões
habituais. Para indicar que uma questão lhes desagrada e que não a querem
responder, eles fazem, por exemplo, um risco longo ou algo equivalente.
Quando o Espírito termina o que tinha a dizer ou não quer mais
responder, a mão fica imóvel e o médium — quaisquer que sejam sua força e
sua vontade — não consegue obter nenhuma palavra a mais. Ao contrário,
enquanto o Espírito não terminar, o lápis se move sem que a mão consiga
pará-lo. Se o Espírito quer espontaneamente dizer alguma coisa, a mão toma
233 – O Livro dos Médiuns
convulsivamente o lápis e se põe a escrever sem poder fazer oposição. O
médium, inclusive, quase sempre sente em si mesmo alguma coisa que lhe
indica se houve só uma pausa ou se o Espírito já terminou. É raro que o
médium não sinta quando o Espírita já partiu.
Estas são as explicações mais essenciais que temos a dar no tocante ao
desenvolvimento da psicografia; a experiência mostrará na prática alguns
detalhes que seria inútil relatar aqui, e para os quais nos guiaremos através
dos princípios gerais. Que muitos experimentem, e teremos mais médiuns do
que se pensa.
- Tudo o que acabamos de dizer se aplica à escrita mecânica; esta é a que,
com razão, todos os médiuns procuram obter. Mas o mecanismo puro é
raríssimo, e muito frequentemente ela se mistura mais ou menos com a
intuição. Tendo consciência do que escreve, o médium é naturalmente levado
a duvidar da sua faculdade; ele não sabe se o texto vem dele ou de outro
Espírito. Ele não tem que se inquietar com nada disso e deve continuar do
mesmo jeito; que ele observe a si mesmo com cuidado e facilmente descobrirá
naquilo que escreve um monte de coisas que não estava na sua mente, quando
não lhes eram contrárias; prova evidente que elas não vêm dele. Portanto, que
ele continue, e a dúvida se dissipará com a experiência. - Se não é permitido ao médium ser exclusivamente mecânico, todas as
tentativas para obter esse resultado serão infrutíferas e, consequentemente,
seria errado se julgar deserdado; se ele é dotado apenas da mediunidade
intuitiva, que se contente com isso e ela não deixará de lhe render grandes
serviços, se ele souber aproveitar e não a rejeitar.
Se, após tentativas inúteis sucessivas durante algum tempo, nenhum
indício de movimento involuntário se produzir ou se esses movimentos forem
fracos demais para dar resultados, ele não deve hesitar em escrever a
primeira ideia que lhe for sugerida, sem se preocupar se ela vem dele ou de
uma fonte diferente: a experiência lhe ensinará a fazer a distinção. Aliás,
acontece muitíssimo que o movimento mecânico se desenvolva mais tarde.
Dissemos ainda há pouco que há casos em que é indiferente o médium
234 – Allan Kardec
saber se o pensamento vem dele mesmo ou de um outro Espírito; isso ocorre
especialmente quando um médium puramente intuitivo ou inspirado faz um
trabalho de imaginação por si mesmo; pouco importa que ele atribua a si
próprio um pensamento que lhe foi sugerido; se lhe vierem boas ideias, que
ele agradeça ao seu bom gênio, e ele lhe serão sugeridas outras. Tal é a
inspiração dos poetas, dos filósofos e dos sábios.
- Suponhamos agora a faculdade medianímica totalmente desenvolvida;
que o médium escreva com facilidade; que ele seja, enfim, o que chamamos
um médium feito, seria um grande erro de parte dele crer-se dispensado de
novas instruções, pois ele teria vencido apenas uma resistência material, mas
aí então é que começariam para ele as verdadeiras dificuldades, e quando ele
mais do que nunca iria precisar dos conselhos da prudência e da experiência,
se não quisesse cair nas mil armadilhas que lhe serão preparadas. Se ele
pretender voar muito cedo com as suas próprias asas, então não tardará para
ele ser uma presa de Espíritos mentirosos que procurarão explorar a sua
presunção. - Uma vez desenvolvida a faculdade no médium, é essencial que ele não
abuse dela. A satisfação que ela dá a alguns principiantes lhes incita um
entusiasmo que é importante moderar; eles devem lembrar que ela lhes foi
dada para o bem e não para satisfação de vã curiosidade. Portanto, convém
que não se utilizem dela senão nos momentos oportunos, e não a todo
instante; como os Espíritos não estão constantemente ao seu dispor, eles
correm o risco de ser enganados por mistificadores. Para tais fins, é bom
adotar determinados dias e horas, porque assim trazem mais condições de
recolhimento e para que os Espíritos que quiserem vir estejam prevenidos e
se preparem adequadamente. - Se — malgrado todas as tentativas — a mediunidade não se revelar de
nenhuma forma, é preciso desistir dela, como se renuncia ao canto quando a
pessoa não tem voz. Aquele que não sabe uma língua se serve de um tradutor;
então, devemos fazer o mesmo, isto é, recorrer a outro médium. Na falta de
235 – O Livro dos Médiuns
um médium, nem por isso devemos nos considerar privados da assistência
dos Espíritos. A mediunidade para eles é um meio de se expressarem, mas não
um meio exclusivo de atração; os que nos têm afeição estão perto de nós —
que sejamos ou não médiuns. Um pai nunca abandona um filho porque este é
surdo e cego e não pode ouvi-lo e nem o ver; ao contrário; ele o envolve com
toda a sua solicitude, como os bons Espíritos fazem conosco: se eles não
podem nos transmitir seus pensamentos materialmente, eles vêm nos ajudar
através da inspiração.
Mudança de caligrafia
- Um fenômeno muito comum nos médiuns escreventes é a mudança de
caligrafia de acordo com os Espíritos que se comunicam, e o que há de mais
notável nisso é que a mesma caligrafia se reproduz constantemente com o
mesmo Espírito, e algumas vezes ela é idêntica àquela que este tinha em vida.
Veremos mais tarde as consequências que podemos tirar daí com relação à
identidade. A mudança de letra só acontece com os médiuns mecânicos ou
semimecânicos, porque neles o movimento da mão é involuntário e guiado
pelo Espírito; não ocorre o mesmo com os médiuns puramente intuitivos,
visto que, neste caso, o Espírito atua somente sobre o pensamento, e a mão é
dirigida pela vontade do médium, como nas circunstâncias comuns. Mas,
mesmo num médium mecânico, a uniformidade da caligrafia não prova
absolutamente nada contra a sua faculdade, já que a mudança da letra não é
uma condição absoluta na manifestação dos Espíritos; ela depende de uma
aptidão especial de que nem sempre os médiuns mais mecânicos são dotados
— nem mesmo os mais mecânicos. Designamos aqueles que possuem essa
aptidão como médiuns polígrafos.
Perda e suspensão da mediunidade
- A faculdade medianímica está sujeita a intervalos e a suspensões
temporárias — seja para as manifestações físicas, seja para a escrita. Aqui
236 – Allan Kardec
estão as respostas dos Espíritos a algumas perguntas feitas a respeito disso:
1) Os médiuns podem perder a sua faculdade?
“Isso acontece às vezes, qualquer que seja o gênero dessa faculdade; mas
também, frequentemente não passa de uma interrupção momentânea, que
cessa junto com a causa que a produziu.”
2) A causa da perda da mediunidade estaria no esgotamento do fluido?
“Qualquer que seja a faculdade de que o médium seja dotado, ele não
pode nada sem a cooperação simpática dos Espíritos, e quando ele nada
obtém, nem sempre é porque lhe falta a faculdade: são os Espíritos que às
vezes não querem ou não podem mais se servir dele.”
3) Que causa pode levar os Espíritos a abandonarem o médium?
“O uso que os médiuns fazem da sua faculdade é a causa mais
importante para os bons Espíritos. Podemos abandoná-lo quando ele se serve
dela para coisas banais ou para fins ambiciosos, e quando ele se recusa a
transmitir as nossas palavras ou nossas ações aos encarnados que clamam ou
precisam ver para se convencerem. Esse dom de Deus não é concedido ao
médium para seu bel-prazer, e menos ainda para satisfazer sua ambição, mas
para sua própria melhoria e para revelar a verdade aos homens. Se o Espírito
vê que o médium já não corresponde aos seus propósitos e não aproveita
mais as instruções e as advertências que ele lhe dá, então se retira, para
procurar um protegido mais digno.”
4) O Espírito que se retira não pode ser substituído? E neste caso, não se
conceberia a suspensão da mediunidade?
“Não faltam Espíritos que não desejam nada melhor do que se comunicar
e que, portanto, estão sempre prontos a substituir os que se retiram; mas
quando é um bom Espírito que larga o médium, ele pode muito bem deixá-lo
apenas momentaneamente e lhe privar por um certo tempo de toda
comunicação, a fim de servir como lição e lhe provar que a sua faculdade não
depende dele, e que não deve se envaidecer disso. Essa impossibilidade
temporária também é para dar ao médium a prova de que ele escreve sob
uma influência externa, caso contrário não haveria intermitência.
“Além disso, a interrupção da faculdade nem sempre é uma punição;
237 – O Livro dos Médiuns
muitas vezes ela demonstra o cuidado do Espírito para com o médium a quem
se afeiçoa, querendo lhe propiciar um repouso material que ele julgou
necessitado, e nesse caso ele não permite que outros Espíritos o substituam.”
5) No entanto, vemos médiuns de muito mérito — moralmente falando
— que não sentem nenhuma necessidade de repouso e que ficam muito
contrariados com interrupções, cuja finalidade eles não compreendem.
“É para pôr à prova a paciência e a perseverança do médium; por isso os
Espíritos geralmente não demarcam nenhum término para essa suspensão;
eles querem ver se o médium vai desanimar. De outras tantas vezes é para lhe
dar tempo para meditar as instruções que lhe foram dadas, e é por essa
meditação sobre os nossos ensinamentos que nós reconhecemos os espíritas
verdadeiramente sérios; não podemos dar essa denominação àqueles que na
realidade não passam de amadores de comunicações.”
6) Nesse caso, é necessário que o médium prossiga suas tentativas para
escrever?
“Se o Espírito lhe aconselhar isto, sim; se lhe disser para se abster, ele
deve acatar.”
7) Há algum meio de abreviar essa prova?
“A resignação e a prece. De resto, basta fazer todo dia uma tentativa de
alguns minutos, pois seria inútil perder tempo em ensaios infrutíferos. A
tentativa não tem outro objetivo senão verificar se a faculdade já retornou.”
8) A suspensão implica no distanciamento dos Espíritos que se
comunicam habitualmente?
“De jeito nenhum; o médium fica então na posição de uma pessoa que
perdesse momentaneamente a visão e nem por isso deixaria de estar rodeada
de seus amigos, embora ela não pudesse vê-los. Portanto, o médium pode e
até mesmo deve continuar a se comunicar pelo pensamento com os seus
Espíritos familiares, e ficar certo de que é ouvido por eles. Se a falta da
mediunidade pode privar as comunicações materiais com determinados
Espíritos, não pode privar das comunicações morais.”
9) Assim, a interrupção da faculdade medianímica nem sempre implica
238 – Allan Kardec
numa reprovação da parte do Espírito?
“Não, sem dúvida, pois ela pode ser uma prova de benevolência.”
10) Por qual sinal podemos reconhecer reprovação nesta interrupção?
“Que o médium interrogue sua consciência e avalie a utilização que tem
feito da sua faculdade, o bem que ela tem resultado para os outros, o proveito
que ele tem tirado dos conselhos que lhe deram, e então terá a resposta.”
11) O médium que não pode mais escrever poderia recorrer a outro
médium?
“Depende da causa da interrupção, que muitas vezes tem por motivo
deixar vocês algum tempo sem comunicações após lhes darmos conselhos, a
fim de que vocês não fiquem habituados a não fazer nada sem nós; neste caso,
o Espírito não ficará mais satisfeito se servindo de outro médium, e isso
também tem uma finalidade: provar a vocês que eles são livres e que não
depende de vocês fazê-los caminhar como vocês queiram. É ainda por esta
razão que os que não são médiuns nem sempre recebem todas as
comunicações que desejam.”
Nota – De fato, deve-se observar que aquele que recorre a terceiros em favor de
comunicações, não obstante a qualidade do médium, muitas vezes nada consegue de
satisfatório, ao passo que doutras vezes as respostas são muito explícitas. Isso
depende tanto da vontade do Espírito que não adianta nada mudar de médium;
parece que os próprios Espíritos dão a palavra de ordem a esse respeito, pois o que
não obtivermos de um, não obteremos de mais nenhum outro. Devemos então evitar
de insistir e de nos impacientar, se não quisermos ser vítimas dos Espíritos
enganadores, que responderão, se quisermos uma resposta à toda a força, e os bons
deixarão que eles o façam, para nos punirem pela nossa insistência.
12) Com que intuito a Providência concedeu a determinados indivíduos
o dom da mediunidade de uma maneira especial?
“É uma missão da qual eles se encarregaram e com a qual estão felizes;
eles são os intérpretes entre os Espíritos e os homens.”
13) Mas não há médiuns que só empregam sua faculdade com relutância?
“São médiuns imperfeitos; eles não sabem o preço do favor que lhes foi
concedido.”
239 – O Livro dos Médiuns
14) Se é uma missão, como pode ser que ela não seja um privilégio dos
homens de bem e que essa faculdade seja dada a pessoas que não merecem
nenhuma estima e que podem abusar dela?
“Ela lhes é dada porque eles carecem dela para o seu próprio
melhoramento, e a fim de que também estejam em condições de receber bons
ensinamentos; se não a aproveitam, então sofrerão as consequências. Jesus
não pregava de preferência aos pecadores, dizendo ser preciso dar àquele que
não tem?”
15) As pessoas que têm um grande desejo de escrever como médiuns e
que não conseguem poderiam concluir disso que há alguma coisa contra elas,
no tocante à benevolência dos Espíritos para com elas?
“Não, pois Deus podes lhes ter negado essa faculdade como poderia ter
negado o dom da poesia ou da música; porém, se elas não gozam desse favor,
podem gozar de outros.”
16) Como um homem pode se aperfeiçoar através do ensino dos
Espíritos desde que ele não tenha — nem por si mesmo, nem por outros
médiuns — os meios de receber diretamente esse ensinamento?
“Ele não tem os livros, como os cristãos têm o Evangelho? Para praticar a
moral de Jesus, os cristãos não precisam ter ouvido suas palavras saírem da
própria boca dele.”
240 – Allan Kardec
CAPÍTULO XVIII
INCONVENIENTES E PERIGOS
DA MEDIUNIDADE
Influência do exercício da mediunidade sobre a saúde –
Idem sobre o cérebro – Idem sobre as crianças
- 1) A faculdade medianímica seria um indício de algum estado patológico
ou simplesmente anormal?
“Anormal às vezes, mas não patológico, pois existem médiuns de uma
saúde robusta; aqueles que são doentes estão assim por outras causas.”
2) O exercício da faculdade medianímica pode causar fadiga?
“O exercício muito prolongado de qualquer faculdade causa fadiga; a
mediunidade está no mesmo caso, principalmente a que se aplica aos efeitos
físicos; ela ocasiona necessariamente um gasto de fluido que leva à fadiga,
mas se repara pelo repouso.”
3) A prática da mediunidade pode ter inconvenientes em si mesma, do
ponto de vista da saúde, com exceção do abuso?
“Há casos em que é prudente — e até necessário — abster-se dela, ou
pelo menos moderar a sua utilização; isso depende do estado físico e moral do
médium. Aliás, geralmente o médium percebe isso, e quando sente a fadiga,
ele deve parar.”
4) Há pessoas para quem esse exercício tenha mais inconvenientes do
que para outras?
“Eu já disse que isso depende do estado físico e moral do médium.
Existem pessoas para as quais é preciso evitar toda causa de superexcitação, e
241 – O Livro dos Médiuns
este é um desses casos.” (Item 188 e 194.)
5) A mediunidade poderia produzir a loucura?
“Não mais que qualquer outra coisa, quando não há predisposição para
isso, pela fraqueza do cérebro. A mediunidade não produzirá loucura desde
que não haja um princípio dela; mas se o princípio já existe — o que é fácil de
reconhecer, pelo estado moral —, o bom senso diz que é preciso ter cautela
sob todos os sentidos, pois toda causa de abalo pode ser prejudicial.”
6) Há inconveniente em desenvolver a mediunidade nas crianças?
“Certamente, e eu defendo que isso é muito perigoso, porque esses
organismos frágeis e delicados seriam bastante abalados e suas imaginações
juvenis ficariam superexcitadas demais. Sendo assim, os pais prudentes
deverão afastá-las dessas ideias, ou pelo menos só falarão com elas do ponto
de vista das consequências morais.”
7) Porém, há crianças que são médiuns naturalmente — seja para efeitos
físicos, seja para a escrita e para visões; isto tem o mesmo inconveniente?
“Não; quando a faculdade é espontânea numa criança, é que está na sua
natureza e que a sua constituição se presta a isso; não é a mesma coisa
quando ela é estimulada e superexcitada. Notem que a criança que tem visões
geralmente fica pouco impressionada; isso lhe parece uma coisa bem natural,
à qual ela dá pouquíssima atenção e muitas vezes esquece; mais tarde, o fato
volta à sua memória e ela entende facilmente, quando conhece o espiritismo.”
8) Com que idade se pode praticar a mediunidade sem inconvenientes?
“Não existe uma idade exata; isso dependendo inteiramente do
desenvolvimento físico e ainda mais do desenvolvimento moral. Há crianças
de doze anos que são menos afetadas com isso do que pessoas adultas. Falo
da mediunidade em geral, mas a que se aplica aos efeitos físicos é mais
fatigante corporalmente; a escrita tem outro inconveniente, que diz respeito à
inexperiência da criança, no caso em que ela quisesse praticá-la sozinha e
quisesse fazer disso uma brincadeira.”
- Como veremos mais adiante, a prática do espiritismo demanda muito
tato para bloquear as artimanhas dos Espíritos enganadores; se pessoas
242 – Allan Kardec
maduras são enganadas por eles, a infância e a juventude ficam ainda mais
expostas a isso, por sua inexperiência. Ademais, sabemos que o recolhimento
é uma condição sem a qual não se pode trabalhar com Espíritos sérios;
evocações feitas desordenadamente e por brincadeira são uma verdadeira
profanação que abre um acesso fácil aos Espíritos zombeteiros ou malfazejos;
como não podemos esperar de uma criança a seriedade necessária em tal ato,
é de se temer que ela faça disso um brinquedo se ela for deixada por conta
própria. Mesmo nas condições mais favoráveis, é de se desejar que uma
criança dotada da faculdade medianímica não a exercite senão sob os olhos de
pessoas experientes que lhe ensinem, pelo exemplo, o respeito que devemos
às almas dos viveram. A partir disso, vemos que a questão de idade está
subordinada às circunstâncias tanto de temperamento como de caráter.
Todavia, o que ressalta claramente das respostas anteriores é que não se deve
forçar o desenvolvimento dessa faculdade nas crianças quando ela não é
espontânea, e que em todos os casos é preciso usá-la com grande
circunspecção; que não se pode nem a excitar e nem a estimular nas pessoas
débeis. Devemos, por todos os meios possíveis, desviar aquelas que tenham
dado os menores sintomas de excentricidade nas ideias ou de
enfraquecimento das capacidades mentais, porque há nessas pessoas uma
predisposição evidente para a loucura, que toda causa superexcitante pode
desenvolver. Sobre esse aspecto, as ideias espíritas não têm uma influência
maior, mas surgindo a loucura, ela assumirá a questão da preocupação
dominante, como uma questão religiosa assumiria se a pessoa se entregasse
em excesso às práticas de devoção, e então iriam atribuir ao espiritismo a
responsabilidade. O que há de melhor a se fazer com todo indivíduo que
demonstre uma tendência à ideia fixa é direcionar suas preocupações para
outro lado, a fim de proporcionar repouso aos órgãos enfraquecidos.
Sobre isso, chamamos a atenção dos nossos leitores para o item XV da
introdução de O Livro dos Espíritos .63
63 No original, a menção equivocadamente diz respeito a um “parágrafo XII” (“paragraphe XII”), mas o
trecho da introdução que trata do assunto em questão é com certeza o item XV, distribuído em cinco
parágrafos, aliás muito elucidativos. — N. T.
243 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XIX
PAPEL DOS MÉDIUNS NAS
COMUNICAÇÕES ESPÍRITAS
Influência do próprio Espírito do médium
– Teoria dos médiuns inertes – Aptidão de certos médiuns para
coisas que eles não conhecem: línguas, música, desenho etc.
– Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns.
- 1) No momento em que pratica a sua faculdade, o médium está em
estado perfeitamente normal?
“Às vezes, ele está num estado mais ou menos acentuado de crise.64 É
isso o que o fadiga e é por isso que ele necessita de repouso; porém, quase
sempre seu estado não difere significativamente do estado normal, sobretudo
nos médiuns escreventes.”
2) As comunicações escritas ou verbais também podem vir do próprio
Espírito encarnado no médium?
“A alma do médium pode se comunicar como qualquer outra; se ela
desfruta de um certo grau de liberdade, então ela recobra suas qualidades de
Espírito. Vocês têm a prova disso na alma de pessoas vivas que vem lhes
visitar e que se comunicam convosco pela escrita, muitas vezes sem que vocês
as chamem. Fiquem sabendo, pois, que entre os Espíritos que vocês evocam,
64 Segundo sua definição clássica, o termo crise (mesma escrita em francês) refere-se a um estado de
choque emocional vindo de forma repentina e forte, capaz de alterar o estado de consciência do
indivíduo. No sentido aplicado ao que acontece no fenômeno mediúnico, representa o que atualmente
nós chamamos normalmente de estado de transe, simplesmente transe. — N. T.
244 – Allan Kardec
há alguns que estão encarnados na Terra; então eles lhes falam como
Espíritos, e não como homens. Por que não poderia ser da mesma forma com
um médium?”
— Esta explicação não parece confirmar a opinião daqueles que
creem que todas as comunicações venham do Espírito do médium, e não
de Espíritos exteriores?
“Eles só estão errados por entenderem que tudo seja absoluto,
porque é certo que o Espírito do médium pode agir por si mesmo; mas
isso não é razão para que outros não ajam igualmente por seu
intermédio.”
3) Como saber se o Espírito que responde é o do médium ou de outro
Espírito?
“Pela natureza das comunicações. Estudem as circunstâncias e a
linguagem e vocês distinguirão. É sobretudo no estado de sonambulismo ou
de êxtase que o Espírito do médium se manifesta, porque então ele está mais
livre; no estado normal é mais difícil. Aliás, há respostas que não podem ser
atribuídas a ele; por isso eu digo que estudem e observem.”
Nota – Quando uma pessoa nos fala, nós distinguimos facilmente o que vem dela
ou aquilo de que ela é apenas o eco. Acontece o mesmo com os médiuns.
4) Já que o Espírito do médium pôde, em existências anteriores, adquirir
os conhecimentos que esqueceu sob o envoltório corporal, mas do que ele se
lembra como Espírito, ele não poderia buscar no seu próprio íntimo as ideias
que parecem ultrapassar o limite de sua instrução?
“Isso acontece frequentemente no estado de crise sonambúlica ou de
extático; porém, mais uma vez, há circunstâncias que não permitem dúvida:
estudem bastante e meditem.”
5) As comunicações provenientes do Espírito do médium são sempre
inferiores às que possam ser dadas por outros Espíritos?
“Sempre não, pois o outro Espírito pode até ser de uma ordem inferior à
do médium e então falar menos sensatamente. Vemos isso no sonambulismo;
lá, é quase sempre o Espírito do sonâmbulo quem se manifesta e que às vezes
diz coisas muito boas.”
245 – O Livro dos Médiuns
6) O Espírito que se comunica através de um médium transmite
diretamente seu pensamento, ou este pensamento teria como intermediário o
Espírito encarnado no médium?
“É o Espírito do médium que é o intérprete, porque ele está ligado ao
corpo que serve para falar, e porque é preciso uma corrente entre vocês e os
Espíritos exteriores que se comunicam, como é preciso um fio elétrico para
transmitir uma notícia ao longe e, na extremidade do fio, uma pessoa
inteligente que a receba e a transmita.”
7) O Espírito encarnado no médium exerce alguma influência sobre as
comunicações que deva transmitir e que venham de outros Espíritos?
“Sim, porque se o médium não simpatizar com os Espíritos, ele pode
alterar as respostas deles e misturá-las com as suas próprias ideias e
tendências; mas o médium não influencia diretamente os Espíritos: ele não
é mais do que um mau intérprete.”
8) Essa é a causa da preferência dos Espíritos por certos médiuns?
“Não há outra causa; os Espíritos procuram o intérprete que mais
simpatize com eles e que transmita com mais exatidão os pensamentos deles.
Se não existir simpatia entre eles, o Espírito do médium seria um antagonista
a oferecer uma certa resistência e se tornaria um intérprete de má vontade e
muitas vezes infiel. É o que ocorre entre vocês quando o ensino de um sábio é
transmitido pela voz de um estonteado ou de uma pessoa de má-fé.”
9) Compreende-se que seja assim com os médiuns intuitivos, mas não
com aqueles que sejam médiuns mecânicos.
“Vocês ainda não entenderam bem o papel que o médium desempenha;
existe aí uma lei que vocês ainda não assimilaram. Lembrem-se de que para
produzir o movimento de um corpo inerte, o Espírito precisa de uma porção
de fluido animalizado que ele pega do médium para animar a mesa
momentaneamente, a fim de que esta mesa lhe obedeça. Pois bem,
compreendam também que para uma comunicação inteligente ele precisa de
um intermediário inteligente, e que esse intermediário é o Espírito do
médium.”
— Isso não parece aplicável ao que chamamos de mesas falantes, pois
246 – Allan Kardec
quando os objetos inertes (como as mesas, pranchetas e cestas) dão
respostas inteligentes, parece que o Espírito do médium não tem nada a ver
com isso.
“Isso é um erro; o Espírito pode dar ao corpo inerte uma vida fictícia
momentânea, mas não a inteligência; jamais um corpo inerte foi inteligente.
Então, é o Espírito do médium que involuntariamente recebe o pensamento e
o transmite pouco a pouco com a ajuda de diversos intermediários.”
10) Parece resultar dessas explicações que o Espírito do médium nunca
é completamente passivo, não parece?
“É passivo quando o médium não mistura suas próprias ideias com as do
Espírito comunicante, mas nunca é absolutamente nulo; sua participação é
sempre necessária como intermediário, mesmo naqueles que vocês chamam
de médiuns mecânicos.”
11) Não há mais garantia de independência no médium mecânico do que
no médium intuitivo?
“Sem dúvida alguma, e para certas comunicações é preferível um
médium mecânico; mas quando se conhece as capacidades de um médium
intuitivo, isso se torna indiferente, conforme as circunstâncias. Quero dizer
que há comunicações que exigem menos exatidão.”
12) Entre as diferentes teorias que se tem emitido para explicar os
fenômenos espíritas há uma que consiste em crer que a verdadeira
mediunidade esteja num corpo completamente inerte (na cesta ou no
papelão, por exemplo) que serve de instrumento; que o Espírito exterior se
identifica com esse objeto e o torna não somente vivo, mas também
inteligente; daí o nome de médiuns inertes dado a esses objetos. O que
pensam dessa teoria?
“Só há uma palavra a dizer sobre isso: é que, se o Espírito transmitisse ao
papelão inteligência ao mesmo tempo que vida, o papelão escreveria tudo
sozinho, sem a ajuda do médium. Seria estranho que o homem inteligente se
tornasse máquina e que um objeto inerte se tornasse inteligente. Esse é um
dos numerosos sistemas nascidos de uma ideia preconcebida e que — como
tantos outros — tombam diante da experiência e da observação.”
247 – O Livro dos Médiuns
13) Um fenômeno bem conhecido poderia dar crédito à opinião de que
nos corpos inertes animados haveria mais do que vida: também haveria
inteligência; seria o fenômeno das mesas, das cestas etc., que, pelos seus
movimentos, exprimem raiva ou afeição.
“Quando um homem agita uma bengala com raiva, não é a bengala que
está com raiva, nem mesmo a mão que segura a bengala, mas sim o
pensamento que move a mão. As mesas e as cestas não são mais inteligentes
do que a bengala; elas não têm nenhum sentimento inteligente, mas apenas
obedecem a uma inteligência. Resumindo, não é que o Espírito se transforma
numa cesta, nem que a defina como domicílio.”
14) Se não é racional atribuir inteligência a esses objetos, poderíamos
considerá-los como uma variedade de médiuns designando-lhes pelo nome de
médiuns inertes?
“Isso é uma questão de palavras que pouco nos importa, desde que vocês
se entendam. Vocês são livres para chamar o homem de marionete.”
15) Os Espíritos só têm a linguagem do pensamento; eles não têm uma
linguagem articulada, e por isso só há um idioma para eles. De acordo com
isso, um Espírito poderia se expressar por via medianímica numa língua que
ele jamais falou quando vivo? E nesse caso, de onde ele tira as palavras de que
se serve?
“Você mesmo acabou de responder a vossa pergunta ao dizer que os
Espíritos só têm uma língua — que é a do pensamento. Essa língua é
compreendida por todos, tanto pelos homens como pelos Espíritos. O Espírito
errante, dirigindo-se ao Espírito encarnado do médium, não lhe fala em
francês nem em inglês, mas na língua universal que é a do pensamento. Para
traduzir suas ideias numa língua articulada, transmissível, ele usa as palavras
do vocabulário do médium.”
16) Sendo assim, o Espírito só deveria poder se expressar no idioma do
médium; entretanto, temos visto ele escrever em línguas desconhecidas do
médium. Não há aqui uma contradição?
“Notem primeiramente que nem todos os médiuns são igualmente aptos
248 – Allan Kardec
a esse gênero de exercício e, por conseguinte, que os Espíritos só se
manifestam assim raramente, quando julgam que isso pode ser útil; mas, para
as comunicações comuns e de uma certa extensão, eles preferem se servir de
uma língua familiar ao médium, porque ela lhe oferece menos dificuldades
materiais a serem vencidas.”
17) A aptidão de certos médiuns para escrever numa língua que lhes é
estranha não viria do fato de que essa língua era familiar para eles em outra
existência e que eles tenham conservado a intuição dela?
“Isso certamente pode acontecer, mas não é uma regra. Com alguns
esforços, o Espírito pode superar momentaneamente a resistência material
que encontra; é o que acontece quando o médium escreve, no seu próprio
idioma, palavras que ele não conhece.”
18) Uma pessoa que não saiba escrever poderia escrever como médium?
“Sim, mas é compreensível que isso teria também uma grande
dificuldade mecânica a ser vencida, já que a mão não tem o hábito do
movimento necessário para formar as letras. É o mesmo caso dos médiuns
desenhistas que não sabem desenhar.”
19) Um médium muito pouco inteligente poderia transmitir
comunicações de uma ordem elevada?
“Sim, pela mesma razão que um médium pode escrever numa língua que
ele desconhece. A mediunidade propriamente dita é independente da
inteligência, bem como das qualidades morais, e na falta de instrumento
melhor o Espírito pode se servir daquele que ele tem à disposição. Mas é
natural que, para as comunicações de uma certa ordem, ele prefira o médium
que lhe ofereça menos obstáculos físicos. E tem mais um detalhe: a pessoa
com deficiência mental muitas vezes só é assim pela imperfeição de seus
órgãos, mas seu Espírito pode ser mais adiantado do que vocês pensam. A
prova disso está em certas evocações dessas pessoas — mortas ou vivas.”
Nota – Este é um fato comprovado pela experiência; várias vezes nós temos
evocado pessoas com deficiência mental que estão vivas e que têm dado provas
patentes de sua identidade e que responderam de um modo muito sensato e até
249 – O Livro dos Médiuns
mesmo superior. Essa situação é uma punição para o Espírito, que sofre com o
constrangimento em que se encontra. Logo, um médium com deficiência mental pode
algumas vezes oferecer ao Espírito que queira se manifestar mais recursos do que se
imagina. (Ver na Revista espírita, julho de 1860, o artigo sobre a Frenologia e a
Fisiognomia.)
20) De onde vem a aptidão de alguns médiuns para escrever em verso,
apesar de sua ignorância em matéria de poesia?
“A poesia é uma linguagem; eles podem escrever em verso como podem
escrever num idioma que eles não conheçam. Além disso, pode ser que eles
tenham sido poetas em outra existência e, como já te dissemos, os
conhecimentos adquiridos jamais são perdidos pelo Espírito, que deve chegar
à perfeição em todas as coisas. Então, o que eles aprenderam lhes dá — sem
que percebam — uma facilidade que eles não têm no estado comum.”
21) Acontece o mesmo com aqueles que têm uma aptidão especial para o
desenho e para a música?
“Sim; o desenho e a música também são maneiras de expressar o
pensamento; os Espíritos se servem dos instrumentos que mais oferecem
facilidade para eles.”
22) A expressão do pensamento pela poesia, pelo desenho ou pela
música depende unicamente da aptidão especial do médium ou da do Espírito
que se comunica?
“Algumas vezes do médium, outras vezes do Espírito. Os Espíritos
superiores têm todas as aptidões; os Espíritos inferiores têm conhecimentos
limitados.”
23) Por que um homem que tem um extraordinário talento numa
existência não a tem numa existência seguinte?
“Nem sempre é assim, pois comumente ele aperfeiçoa numa existência
aquilo que começou numa precedente; mas pode ser que uma faculdade
transcendente fique adormecida durante um certo tempo para deixar outra
mais livre para se desenvolver; é um gérmen latente que retornará mais tarde
e do qual sempre ficam alguns traços, ou pelo menos uma vaga intuição.”
250 – Allan Kardec
- Sem dúvida, o Espírito comunicante compreende todas as línguas, pois
as línguas são a expressão do pensamento, e que o Espírito compreende pelo
pensamento; mas, para exprimir esse pensamento, falta-lhe um instrumento:
esse instrumento é o médium. A alma do médium que recebe a comunicação
exterior não pode transmiti-la senão pelos órgãos do corpo; ora, esses órgãos
não podem ter para uma língua desconhecida a flexibilidade que eles têm
para uma língua que lhes é familiar. Um médium que só saiba francês poderia
ocasionalmente dar uma resposta em inglês, por exemplo, se o Espírito assim
quiser fazer; mas os Espíritos — que já acham a linguagem humana muito
lenta, em comparação à rapidez do pensamento, tanto que eles a abreviam o
quanto podem — ficam impacientes com a resistência mecânica que eles
enfrentam; daí por que nem sempre o fazem. Essa também é a razão pela qual
um médium noviço — que escreve mal e lentamente, mesmo na sua língua
nativa — geralmente não obtém mais do que respostas breves e sem
desenvolvimento; por isso os Espíritos recomendam que só façam perguntas
simples por seu intermédio. Para aquelas de um grande alcance, é preciso um
médium experiente que não ofereça nenhuma dificuldade mecânica ao
Espírito. Nós não tomaríamos para ser nosso leitor um estudante que mal
sabe soletrar. Um bom operário não gosta de se servir de maus instrumentos.
Acrescentemos outra consideração de uma gravidade muito grande no que se
refere às línguas estrangeiras: os ensaios deste gênero são sempre feitos com
um objetivo de curiosidade e de experimentação; ora, nada mais antipático
aos Espíritos do que as provas às quais tentem submetê-los. Os Espíritos
superiores jamais se sujeitam a isso, e se afastam logo que se pretenda entrar
por esse caminho. Tanto eles se comprazem com as coisas úteis e sérias
quanto eles repugnam ter que se ocuparem com coisas fúteis e sem finalidade.
Os incrédulos dirão que é para se convencerem, e que esse propósito é útil, já
que isso pode ganhar adeptos para a causa dos Espíritos. A isto os Espíritos
respondem: “A nossa causa não precisa dos que têm orgulho o bastante para
se suporem indispensáveis; nós chamamos para o nosso lado aqueles que
nós queremos, e estes são quase sempre os mais pequeninos e os mais
humildes. Jesus fez os milagres que os escribas lhe pediam? E de que homens
ele se serviu para revolucionar o mundo? Se quiserem se convencer, vocês
251 – O Livro dos Médiuns
têm outros meios que não o de façanhas; comecem primeiramente por se
submeterem: não é correto que o discípulo imponha sua vontade ao mestre.”
Daí decorre que, salvo algumas exceções, o médium repassa o
pensamento dos Espíritos pelos meios mecânicos que estão a sua disposição,
e que a expressão desse pensamento pode — e deve, na maioria das vezes —
ser afetada pela imperfeição desses meios; sendo assim, o homem inculto, o
camponês65, poderia dizer as mais belas coisas, expressar as mais elevadas e
as mais filosóficas ideias, falando como camponês, porque, como nós
sabemos, para os Espíritos o pensamento domina tudo. Isso responde às
objeções de alguns críticos a respeito das incorreções de estilo e de ortografia
que podem ser atribuídas aos Espíritos, mas que podem vir tanto do médium
como do Espírito. Só há futilidade em se apegar a essas coisas. Não menos
pueril é insistir em reproduzir essas incorreções com uma exatidão
minuciosa, como o temos visto fazerem algumas vezes. Portanto, podemos
corrigi-las sem nenhum constrangimento, a menos que essas incorreções
sejam um tipo característico do Espírito que se comunica — caso em que é
útil conservá-las, como prova de identidade. É assim, por exemplo, que temos
visto um Espírito escrever constantemente Jule (sem o s), falando de seu neto,
porque quando vivo ele escrevia dessa maneira, embora o neto, que lhe servia
de médium, soubesse escrever perfeitamente seu próprio nome.
- A dissertação seguinte, dada espontaneamente por um Espírito superior
que se revelou por comunicações de uma ordem das mais elevadas, resume
da maneira mais clara e completa a questão do papel dos médiuns:
“Qualquer que seja a natureza dos médiuns escreventes, que eles sejam
mecânicos, semimecânicos ou simplesmente intuitivos, nossos procedimentos
de comunicação com eles não variam essencialmente. De fato, nós nos
comunicamos com os próprios Espíritos encarnados assim como com os
Espíritos propriamente ditos, somente pela irradiação do nosso pensamento.
65 O autor aqui toma a figura do camponês como exemplo de alguém iletrado, um analfabeto,
obviamente que não por preconceito, mas porque era o exemplo típico usado naquela época (século
XIX), em razão das mínimas condições que o homem do campo tinha de acesso à escola, especialmente
em comparação com quem vivia na zona urbana. — N. T.
252 – Allan Kardec
“Os nossos pensamentos não têm necessidade do revestimento da
palavra para serem compreendidos pelos Espíritos, e todos os Espíritos
percebem o pensamento que desejamos lhes comunicar, bastando para isso
que dirijamos esses pensamentos até eles, e isso em razão de suas faculdades
intelectuais; quer dizer, que tal pensamento pode ser compreendido por
todos eles, de acordo com o avanço deles, enquanto em outros tais — como
esse pensamento não desperta nenhuma lembrança, nenhum conhecimento
no fundo do seu coração ou do seu cérebro — ele não lhes é perceptível. Neste
caso, o Espírito encarnado que nos serve de médium é mais apto a exprimir o
nosso pensamento para os outros encarnados, embora ele não o compreenda,
do que poderia um Espírito desencarnado e pouco avançado fazer, se
fôssemos forçados a recorrer à sua mediação; porque o ser terreno põe seu
corpo como instrumento à nossa disposição, o que o Espírito errante não
pode fazer.
“Assim, quando encontramos em um médium o cérebro munido de
conhecimentos adquiridos na sua vida atual e seu Espírito rico de
conhecimentos anteriores latentes, adequados a facilitar as nossas
comunicações, então nos servimos preferencialmente dele, porque com ele o
fenômeno da comunicação se torna para nós muito mais fácil do que com um
médium cuja inteligência fosse limitada e cujos conhecimentos anteriores se
mostrassem insuficientes. Vamos nos fazer compreender através de algumas
explicações nítidas e precisas.
“Com um médium cuja inteligência atual ou anterior se ache
desenvolvida, nosso pensamento se comunica instantaneamente de Espírito
para Espírito por uma capacidade da própria essência do Espírito. Nesse caso,
encontramos no cérebro do médium os elementos apropriados para dar ao
nosso pensamento a vestidura da palavra correspondente a esse pensamento,
e isso, que o médium seja intuitivo, semimecânico ou puramente mecânico. É
por isso que, qualquer que seja a diversidade de Espíritos que se comunicam
com um médium, os ditados obtidos por ele — embora procedendo de
Espíritos diferentes — trazem um cunho da forma e do estilo pessoal desse
médium. Sim, ainda que o pensamento lhe seja totalmente estranho, ainda
que o assunto saia do quadro no qual o médium habitualmente se mova, ainda
253 – O Livro dos Médiuns
que queiramos dizer que de alguma forma não provenha dele, ele não deixa
de influenciar a forma, pelas qualidades e propriedades que são adequadas ao
seu indivíduo. É exatamente como quando vocês observam diferentes
horizontes com lentes coloridas, verdes, brancas ou azuis; ainda que os
horizontes, ou objetos observados, sejam totalmente opostos e totalmente
independentes uns dos outros, nem por isso deixam de ser afetados por uma
tonalidade que vem da cor das lentes. Ou melhor: comparemos os médiuns a
esses potes cheios de líquidos coloridos e transparentes que vemos nos
mostruários dos laboratórios farmacêuticos; pois bem, nós somos como luzes
que clareiam certos pontos de vista morais, filosóficos e internos, através dos
médiuns azuis, verdes ou vermelhos, de tal sorte que nossos raios luminosos,
obrigados a passar através de vidros mais ou menos bem lapidados, mais ou
menos transparentes, isto é, através de médiuns mais ou menos inteligentes,
só chegam aos objetos que desejamos iluminar tomando a tonalidade, ou
melhor, a forma própria e particular desses médiuns. Enfim, para terminar
com uma última comparação, nós, os Espíritos, somos como compositores de
música que compuseram ou querem improvisar uma ária e que só dispõem de
um piano, um violino, uma flauta, um fagote ou um apito barato. É
incontestável que com o piano, a flauta ou o violino nós executaremos nossa
peça musical de um modo muito compreensível para os ouvintes; embora os
sons vindos do piano, do fagote ou do clarinete sejam essencialmente
diferentes uns dos outros, nem por isso nossa composição deixará de ser
identicamente a mesma, exceto pelos timbres dos instrumentos. Mas, se só
tivermos à nossa disposição um apito barato ou um funil, aí ficaremos em
dificuldade.
“Com efeito, quando somos obrigados a nos servir de médiuns pouco
avançados, nosso trabalho se torna bem mais demorado e bem mais penoso
porque nos vemos obrigados a recorrer a formas incompletas, o que é uma
complicação para nós, pois então somos forçados a decompor nossos
pensamentos e a ditar palavra por palavra, letra por letra, o que para nós é
um aborrecimento e uma fadiga, além de um entrave real à prontidão e ao
desenvolvimento das nossas manifestações.
“É por isso que ficamos felizes em encontrar médiuns bem preparados,
254 – Allan Kardec
bem equipados, munidos de materiais prontos a serem utilizados; bons
instrumentos, numa palavra, porque então o nosso perispírito, agindo sobre o
perispírito daquele que nós medianimizamos, não tem mais do que dar o
impulso à mão que nos serve de porta-lápis, ou porta-caneta; enquanto com
os médiuns insuficientes, somos obrigados a fazer um trabalho igual ao que
fazemos quando nos comunicamos por batidas, quer dizer, designando letra
por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que formam a tradução
dos pensamentos que queiramos comunicar a vocês.
“É por estas razões que preferencialmente nos endereçamos às classes
esclarecidas e instruídas, para a divulgação do Espiritismo e para o
desenvolvimento das faculdades medianímicas escreventes — se bem que
seja nessas classes que se encontrem os indivíduos mais incrédulos, os mais
rebeldes e os mais imorais. É que, assim como hoje nós largamos o exercício
das comunicações tangíveis de pancadas e de transportes aos Espíritos
brincalhões e pouco avançados, assim também os homens pouco sérios entre
vocês preferem o espetáculo dos fenômenos que impressionam os olhos ou os
ouvidos aos fenômenos puramente espirituais, puramente psicológicos.
“Quando queremos proceder por ditados espontâneos, nós agimos sobre
o cérebro, sobre os arquivos do médium, e montamos nossos materiais com
os elementos que ele nos fornece, e isso tudo feito sem o conhecimento dele; é
como se pegássemos da sua carteira as somas que ele ali tivesse e
organizássemos as diferentes moedas conforme a ordem que nos parecesse
mais útil.
“Mas quando o próprio médium quiser nos interrogar desse ou daquele
modo, é bom que ele reflita seriamente sobre isso a fim de nos questionar de
um jeito metódico, facilitando-nos assim o trabalho de resposta. Porque, como
já te dissemos numa instrução anterior, o vosso cérebro está frequentemente
numa desordem inextricável, e para nós é tão penoso quanto difícil nos mover
no labirinto dos vossos pensamentos. Quando as questões devam ser feitas
por terceiros, é bom e útil que a série de perguntas seja comunicada
previamente ao médium, para que este se identifique com o Espírito do
evocador e fique — por assim dizer — impregnado dele, porque então nós
teremos mais facilidade para responder, pela afinidade existente entre nosso
255 – O Livro dos Médiuns
perispírito e o do médium que nos serve de intérprete.
“Certamente, podemos falar de matemática através de um médium a
quem essa matéria pareça totalmente estranha; porém, com frequência o
Espírito desse médium possui conhecimento dessa matéria em estado latente,
ou seja, pertencente ao ser fluídico e não ao ser encarnado, porque seu corpo
atual é um instrumento rebelde ou contrário a esse conhecimento. É o mesmo
caso da astronomia, da poesia, da medicina e das diversas línguas, assim como
de todos os outros conhecimentos particulares da espécie humana. Enfim, nós
ainda dispomos do meio penoso de elaboração em uso com médiuns
completamente estranhos ao assunto tratado, juntando letras e palavras,
como numa tipografia.66
“Conforme já dissemos, os Espíritos não precisam revestir os seus
pensamentos; eles percebem e transmitem o pensamento pelo simples fato de
que ele existe neles. Os seres corporais, ao contrário, não podem perceber os
pensamentos senão quando revestidos. Enquanto a letra, a palavra, o
substantivo, o verbo — a frase em suma — são necessários para vocês
perceberem, mesmo mentalmente, para nós não é necessária nenhuma forma
visível ou tangível.”
ERASTO e TIMÓTEO.
Nota – Esta análise sobre o papel dos médiuns e sobre os processos pelos quais
os Espíritos se comunicam é tão clara quanto lógica. Daí decorre este princípio que o
Espírito extrai do médium, não suas ideias, mas os materiais necessários para
expressá-las no cérebro do médium, e que, quanto mais esse cérebro for rico em
materiais, mais a comunicação será fácil. Quando o Espírito se expressa num idioma
familiar ao médium, ele encontra neste as palavras todas formadas para revestir a
ideia; se for numa língua estranha ao médium, o Espírito não encontrará as palavras,
mas apenas as letras. É por isso que o Espírito é obrigado a ditar, por assim dizer,
letra a letra, exatamente como se nós quiséssemos fazer que uma pessoa escrevesse
em alemão sem que ela conhecesse uma só palavra desse idioma. Se o médium não
sabe nem ler nem escrever, então ele não possui sequer as letras; portanto, será
66 A mensagem espiritual faz alusão ao processo pelo qual, naquela época, as tipografias (gráficas)
montavam as placas de impressão ao juntar os tipos (caracteres: letras, números, sinais de pontuação),
peça por peça, como que formando um quebra-cabeça, até completar a página a ser impressa. — N. T.
256 – Allan Kardec
preciso guiar a sua mão, como se faz com um analfabeto, e isso é uma dificuldade
material ainda maior a ser vencida. Estes fenômenos são possíveis sim, e nós temos
numerosos exemplos disso; no entanto, compreende-se que essa maneira de proceder
combina pouco com a extensão e a rapidez das comunicações, e que os Espíritos
devam preferir os instrumentos mais práticos, ou, como eles dizem, os médiuns bem
aparelhados do ponto de vista deles.
Se as pessoas que pedem esses fenômenos como meio de convencimento
tivessem previamente estudado a teoria, elas saberiam em que condições
excepcionais esses fenômenos se produzem.
257 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XX
INFLUÊNCIA MORAL DO MÉDIUM
Questões diversas
– Dissertações de um Espírito sobre a influência moral
- 1) Será que o desenvolvimento da mediunidade é proporcional ao
desenvolvimento moral dos médiuns?
“Não, a mediunidade propriamente dita é inerente ao organismo e é
independente da moral; o mesmo não ocorre com o seu uso, que pode ser
mais ou menos bom, conforme as qualidades do médium.”
2) Sempre foi dito que a mediunidade é um dom de Deus, uma graça, um
favor; por que então ela não é um privilégio dos homens de bem e por que
vemos pessoas indignas que são dotadas de mediunidade no mais alto grau e
que fazem mau uso dela?
“Todas as faculdades são favores pelos quais devemos render graças a
Deus, pois que há pessoas que estão privadas delas. Vocês igualmente
poderiam perguntar por que Deus concede uma boa visão a malfeitores,
destreza aos ladrões, eloquência aos que se servem dela para dizer coisas
malignas. É o mesmo caso da mediunidade; pessoas indignas são dotadas dela
porque elas a necessitam mais do que as outras para se melhorarem. Vocês
acham que Deus recusa os meios de salvação aos culpados? Não, ele os
multiplica no caminho deles; coloca nas mãos deles, e cabe a eles
aproveitarem esses meios. Judas, o traidor, não fez milagres e curou doentes
como apóstolo? Deus permitiu que ele tivesse esse dom para tornar sua
traição mais odiosa.”
258 – Allan Kardec
3) Os médiuns que fazem mau uso da sua faculdade, que não a utilizam
para o bem, ou que não a aproveitam para sua própria instrução, sofrerão as
consequências disso?
“Se a usarem mal, eles serão duplamente punidos, porque eles desfrutam
de um meio a mais para se esclarecerem e não o aproveitam. Aquele que vê
claramente e tropeça é mais culpado do que o cego que cai no fosso.”
4) Há médiuns a quem são dadas espontaneamente — e quase
constantemente — comunicações sobre um mesmo assunto, sobre certas
questões morais, por exemplo, sobre determinados defeitos; isso tem algum
propósito?
“Sim, e esse propósito é o de lhes esclarecer sobre um assunto
frequentemente repetido, ou de corrigi-los de certos defeitos; é por isso que a
uns se falará sem cessar do orgulho e a outros se falará da caridade; é que só a
abundância poderá enfim lhes abrir os olhos. Não há nenhum médium que
faça mau uso da sua faculdade — por ambição ou interesse, ou que a
comprometa por causa de um defeito capital, como o orgulho, o egoísmo, a
leviandade etc. — e que fique sem receber, de tempos a tempos, advertências
da parte dos Espíritos; o pior é que na maioria das vezes eles não tomam isso
para si mesmos.”
Nota – Os Espíritos muitas vezes são reservados em suas lições; eles as ensinam
de uma maneira indireta para deixarem mais mérito àquele que souber aplicá-las a si
mesmo e as aproveitar; mas a cegueira e o orgulho são tais em algumas pessoas que
elas não se reconhecem no quadro que se põe diante dos seus olhos. Ainda mais: se o
Espírito lhes dá a entender que é delas de que se trata, então elas se zangam e tratam
o Espírito como mentiroso ou zombeteiro. Isso só prova que o Espírito tem razão.
5) Nas lições que são ditadas ao médium de uma maneira geral e sem
aplicação pessoal, ele não atua como um instrumento passivo para servir à
instrução dos outros?
“Muitas vezes esses avisos e conselhos não são ditados para ele
pessoalmente, mas sim para os outros a quem não podemos nos dirigir a não
ser através desse médium; entretanto ele deve tomar sua parte nisso, se não
estiver cego pelo egoísmo.
259 – O Livro dos Médiuns
“Não creiam que a faculdade medianímica tenha sido dada para corrigir
somente uma ou duas pessoas; não, o objetivo é bem maior: trata-se de
corrigir a humanidade. Um médium é um instrumento muito pouco
importante como indivíduo; por isso é que, quando damos instruções que
devam beneficiar à generalidade, nós nos servimos daqueles que possuem as
facilidades necessárias. Mas, tenham como certo que virá o tempo em que os
bons médiuns serão bastante comuns, para que os bons Espíritos não
precisem se servir de instrumentos ruins.”
6) Já que as qualidades morais do médium afastam os Espíritos
imperfeitos, como é que um médium dotado de boas qualidades transmite
respostas falsas ou grosseiras?
“Por acaso você conhece todos os recantos da alma dele? Aliás, ele pode
ser leviano e frívolo sem ser vicioso, e algumas vezes ele também necessita de
uma lição, a fim de se manter em guarda.”
7) Por que os Espíritos superiores permitem que pessoas dotadas de um
grande poder como médiuns, e que poderiam fazer muita coisa boa, sejam
instrumentos de erro?
“Eles procuram influenciá-las, mas quando as pessoas se deixam ser
arrastadas para um mau caminho eles as deixam ir. Eis por que eles se servem
delas com repugnância, pois a verdade não pode ser interpretada pela
mentira.”
8) Será absolutamente impossível ter boas comunicações através de um
médium imperfeito?
“Um médium imperfeito algumas vezes pode obter coisas boas, porque
se ele tem uma bela faculdade, na falta de um outro, os bons Espíritos podem
utilizá-lo em circunstâncias especiais; mas isso é sempre momentaneamente,
porque quando os Espíritos encontram um que lhes convenha mais, eles lhes
dão preferência.”
Nota – É de se observar que quando os bons Espíritos julgam que um médium
deixa de ser bem assistido e, pelas suas imperfeições, se torna presa dos Espíritos
enganadores, eles quase sempre provocam circunstâncias que desvendam os seus
defeitos e o distancia das pessoas sérias e bem-intencionadas, cuja boa-fé poderia ser
abusada. Neste caso, quaisquer que sejam suas faculdades, não há o que lamentar.
260 – Allan Kardec
9) Qual seria o médium que poderíamos chamar de perfeito?
“Perfeito? Ah! Vocês bem sabem que a perfeição não existe na Terra,
senão vocês não estariam nela. Portanto, digam bom médium e isso já é
demais, por isso que eles são raros. O médium perfeito seria aquele contra o
qual os maus Espíritos jamais ousassem fazer uma tentativa para enganá-lo.
O melhor é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido
o menos enganado.”
10) Se ele só simpatiza com os bons Espíritos, por que estes permitem
que o médium possa ser enganado?
“Os bons Espíritos permitem que isso às vezes aconteça com os melhores
médiuns para lhes exercitar o julgamento e para ensiná-los a discernir o
verdadeiro do falso; e mais, por melhor que um médium seja, ele jamais é tão
perfeito que não possa ser pego por algum ponto fraco; isso deve lhe servir de
lição. As comunicações falsas que ele recebe de tempos a tempos são
advertências para que ele não se considere infalível e não se envaideça, pois o
médium que obtém as coisas mais notáveis não deve se glorificar disso mais
do que o tocador de realejo67 que obtém belas árias movendo a manivela do
seu instrumento.”
11)68 Quais são as condições necessárias para que a mensagem dos
Espíritos superiores chegue pura até nós, sem qualquer alteração?
“Querer o bem; afastar o egoísmo e o orgulho: estas duas condições são
necessárias.”
12) Se a mensagem dos Espíritos superiores não chega pura até nós
senão em condições difíceis de ocorrer, isso não é um obstáculo à propagação
da verdade?
“Não, pois a luz sempre chega àquele que a deseja receber. Quem quiser
se iluminar deve fugir das trevas, e as trevas estão na impureza do coração.
67 Realejo é uma espécie de caixa de música automática que é executada à medida que se gira uma
manivela. A comparação aqui é feita para ressaltar que quem executa o realejo não está realmente
tocando a música, no sentido de executar as notas musicais; está apenas acionando o mecanismo que faz
reproduzir mecanicamente a melodia pré-configurada. — N. T.
68 No original, esta pergunta foi equivocadamente enumerada como sendo a 12, repetindo o número da
pergunta seguinte. Nesta tradução, fizemos a correção, obedecendo a sequência lógica. — N. T.
261 – O Livro dos Médiuns
“Os Espíritos que vocês consideram como a personificação do bem não
atendem de boa vontade ao apelo daqueles cujo coração estiver manchado
pelo orgulho, pela ganância e pela falta de caridade.
“Portanto, que aqueles que desejem se esclarecer despojem-se de toda
vaidade humana e humilhem sua razão perante o poder infinito do Criador, e
esta será a melhor prova de sua sinceridade; e esta condição qualquer pessoa
pode cumprir.”
- Do ponto de vista da execução, se o médium não é mais do que um
instrumento, do ponto de vista moral ele exerce uma influência muito grande.
Já que para se comunicar o Espírito manifestante se identifica com o Espírito
do médium, esta identificação não pode acontecer até que haja entre eles uma
simpatia e — se assim podemos dizer — afinidade. A alma exerce sobre o
Espírito comunicante um tipo de atração ou de repulsão, conforme o grau da
semelhança ou dissemelhança entre eles; ora, os bons têm afinidade com os
bons e os maus com os maus, donde se segue que as qualidades morais do
médium têm uma influência capital sobre a natureza dos Espíritos que se
comunicam por seu intermédio. Se o médium é vicioso, os Espíritos inferiores
vêm se agrupar em torno dele e ficam sempre prontos a tomar o lugar dos
bons Espíritos evocados. As qualidades que preferencialmente atraem os
bons Espíritos são: a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o
amor ao próximo e o desprendimento das coisas materiais; os defeitos que os
repulsam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a
sensualidade e todas as paixões pelas quais o homem se prende à matéria. - Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas que dão
acesso aos maus Espíritos; mas a que eles exploram com mais habilidade é o
orgulho, porque esta é a imperfeição que as pessoas menos admitem ter. O
orgulho pôs a perder numerosos médiuns dotados das mais belas faculdades
e que, se não fosse isso, poderiam se tornar sujeitos notáveis e muito úteis, ao
passo que, tendo se tornado presas de Espíritos mentirosos, suas capacidades
primeiro foram pervertidas, depois foram aniquiladas, e mais de um médium
se viu humilhado pelas mais amargas decepções.
262 – Allan Kardec
O orgulho se manifesta nos médiuns por sinais inequívocos, para os
quais é muito necessário que se chame a atenção, porque é um dos defeitos
que mais deve inspirar desconfiança da veracidade de suas comunicações.
Começa com uma confiança cega na superioridade dessas comunicações e na
infalibilidade do Espírito que lhes dita; daí um certo desdém por tudo que não
venha deles, porque eles creem ter o privilégio da verdade. O prestígio dos
grandes nomes com os quais se enfeitam os Espíritos encarregados de lhes
proteger os deslumbra, e como o seu amor-próprio sofreria ao confessar que
eles estão sendo enganados, então rejeitam todo tipo de conselho; até os
evitam, afastando-se de seus amigos e de qualquer um que possa lhes abrir os
olhos; quando fazem o favor de escutá-los, não dão nenhuma importância às
suas admoestações, pois duvidar da superioridade do seu Espírito seria quase
uma profanação. Eles se ofendem com a menor contradição, com uma simples
observação crítica, e às vezes vão ao ponto de tomar ódio das próprias
pessoas que lhes prestaram serviço. Graças a esse isolamento provocado
pelos Espíritos que não querem ter contraditores, esses mesmos Espíritos se
comprazem em mantê-los em suas ilusões, por isso eles facilmente os fazem
considerar os mais grosseiros absurdos como coisas sublimes. Portanto, estas
são as características dos médiuns orgulhosos: confiança absoluta na
superioridade daquilo que eles obtêm, menosprezo pelo que não venha deles,
consideração irrefletida pelos grandes nomes, rejeição aos conselhos, má
aceitação de crítica, distanciamento daqueles que podem dar opiniões
imparciais, crédito em suas capacidades, apesar da sua falta de experiência.
É preciso admitir também que o orgulho muitas vezes é despertado no
médium pelos que estão à sua volta. Se ele tem potencialidades um pouco
extraordinárias, então é procurado e admirado; daí ele se julga indispensável,
e logo assume um ar de presunção e desdém quando presta serviço. Mais de
uma vez nós já tivemos motivo de lamentar os elogios que fizemos a
determinados médiuns com o intuito de lhes incentivar.
- Ao lado disso, coloquemos em evidência a figura do médium
verdadeiramente bom, aquele em que podemos depositar confiança. Vamos
supor antes de tudo uma facilidade de execução suficientemente grande para
263 – O Livro dos Médiuns
permitir aos Espíritos comunicarem-se livremente e sem serem prejudicados
por nenhuma dificuldade material. Dito isto, o mais importante a considerar é
a natureza dos Espíritos que o auxiliam habitualmente, e para isso não é ao
nome que precisamos reportar, mas sim à linguagem. O médium jamais deve
perder de vista que a simpatia que ele conquistar dos bons Espíritos será
proporcional ao que ele fará para afastar os maus. Convencido de que a sua
faculdade é um dom que lhe foi concedida para o bem, ele não procura tirar
vantagem dela de forma alguma, e não atribui a si mesmo nenhum mérito por
isso. Aceita as boas comunicações que lhe são transmitidas como uma graça
da qual ele deve se esforçar para tornar-se digno pela sua bondade, pela sua
benevolência e pela sua modéstia. O primeiro se orgulha de suas relações com
os Espíritos superiores; este aqui se humilha, por se considerar sempre
abaixo desse favor.
- A seguinte instrução sobre esse assunto nos foi dada por um Espírito de
quem já reproduzimos várias comunicações:
“Nós já dissemos: os médiuns, exatamente como médiuns, têm apenas
uma influência secundária nas comunicações dos Espíritos; seu papel é o de
uma máquina elétrica, que transmite os despachos telegráficos de um ponto
distante a outro ponto distante na Terra. Assim, quando queremos ditar uma
comunicação, nós agimos sobre o médium como o empregado do telégrafo
age sobre o seu aparelho, isto é, do mesmo modo que o tique-taque do
telégrafo, a milhares de léguas, traça numa tira de papel os sinais
reprodutores do despacho, do mesmo modo nós nos comunicamos através
das distâncias incomensuráveis que separam o mundo visível do mundo
invisível, o mundo imaterial do mundo carnal, aquilo que queremos ensinar a
vocês, por meio do aparelho medianímico. Mas também, assim como as
influências atmosféricas atuam e muitas vezes perturbam as transmissões do
telégrafo elétrico, igualmente a influência moral do médium age e às vezes
perturba a transmissão dos nossos despachos de além-túmulo, porque somos
obrigados a fazê-los passar por um meio que lhes é contrário. Entretanto, na
maioria das vezes essa influência é anulada pela nossa energia e nossa
264 – Allan Kardec
vontade, e nenhum ato perturbador se manifesta. Com efeito, os ditados de
um alto teor filosófico — as comunicações de uma perfeita moralidade — são
transmitidos às vezes por médiuns pouco propícios a esses ensinamentos
superiores; enquanto, por outro lado, comunicações pouco edificantes
também chegam algumas vezes por médiuns completamente envergonhados
de terem servido como seus condutores.
“Em tese geral, pode-se afirmar que os Espíritos similares atraem
Espíritos similares, e que raramente os Espíritos das plêiades elevadas se
comunicam por aparelhos maus condutores quando eles têm à disposição
bons aparelhos medianímicos — ou seja, bons médiuns.
“Os médiuns levianos e pouco sérios atraem então Espíritos da mesma
natureza; é por isso que suas comunicações são cheias de banalidades,
frivolidades, ideias desconexas e muitas vezes bastante heterodoxas,
espiriticamente falando. Com certeza, eles podem dizer — e às vezes dizem —
coisas boas; mas é principalmente nesse caso que precisamos fazer um exame
severo e escrupuloso, pois no meio dessas coisas boas, alguns Espíritos
hipócritas insinuam, com habilidade e calculada perfídia, fatos controversos,
asserções mentirosas, a fim de iludir a boa-fé dos seus seguidores. Devemos
então eliminar sem piedade toda palavra, toda frase equívoca, e só conservar
do ditado aquilo que a lógica aceita ou o que a doutrina já ensinou. As
comunicações desta natureza só devem ser temidas para os espíritas isolados,
para os grupos recentes ou pouco esclarecidos, pois, nas reuniões em que os
adeptos estão mais adiantados e já adquiriram experiência, a gralha pode até
se enfeitar com as penas do pavão, mas ela sempre é impiedosamente
desmascarada.
“Não falarei dos médiuns que se comprazem em solicitar e ouvir
comunicações obscenas; deixemos que se satisfaçam na companhia dos
Espíritos cínicos. Aliás, as comunicações dessa ordem procuram por si só a
solidão e o isolamento; em qualquer situação, elas só poderiam despertar
desprezo e nojo entre os membros dos grupos filosóficos e sérios. Porém,
onde a influência moral do médium realmente se faz sentir, é quando ele
substitui suas ideias pessoais por aquelas que os Espíritos se esforçam para
lhe sugerir; é também quando ele tira da sua imaginação teorias fantásticas
265 – O Livro dos Médiuns
que ele mesmo, de boa-fé, acredita resultarem de uma comunicação intuitiva.
Então, muitas vezes há mil a apostar contra um que isso não passa de reflexo
do Espírito pessoal do médium, e chega até a esse fato curioso: a mão do
médium se move algumas vezes quase que mecanicamente, possuída como
ela está por um Espírito de segunda classe e zombeteiro. É contra essa pedra
de toque que imaginações ardentes acabam se quebrando, porque, levados
pelo ímpeto de suas próprias ideias e pelo verniz de seus conhecimentos
literários, os médiuns interpretam mal o ditado modesto de um Espírito sábio
e, deixando a presa pela sombra, o substituem por uma versão empolada. É
contra este temível escolho que igualmente acabam se chocando as
personalidades ambiciosas que, na falta das comunicações que os bons
Espíritos lhes recusam, apresentam suas próprias obras como sendo desses
mesmos Espíritos. É por isso que é preciso que os dirigentes de grupos
espíritas sejam dotados de um fino tato e uma rara sagacidade, para discernir
as comunicações autênticas das que não o são, e para não magoar os que
iludem a si mesmos.
“Na dúvida, abstenha-se — diz um dos vossos antigos provérbios.
Portanto, não admitam senão o que seja para vocês uma evidência certa.
Desde que uma opinião nova venha a ser levantada, por pouco que lhes
pareça duvidosa, submetam-na ao crivo da razão e da lógica; aquilo que a
razão e o bom senso reprovarem, rejeitem sem medo. Vale mais repelir dez
verdades do que admitir uma única falsidade, uma única teoria errada. De
fato, sobre essa teoria vocês poderiam edificar todo um sistema que
desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento edificado
sobre areia movediça, ao passo que, se rejeitarem hoje algumas verdades —
porque não lhes são demonstradas clara e logicamente —, logo mais um fato
brutal ou uma demonstração irrefutável virá lhes afirmar a sua autenticidade.
“Lembrem-se, no entanto, ó espíritas, de que para Deus e para os bons
Espíritos não há o impossível, a não ser a injustiça e a iniquidade.
“O espiritismo já está bastante difundido entre os homens e tem
moralizado suficientemente os adeptos sinceros da sua santa doutrina, para
que os Espíritos já não estejam mais constrangidos a usar maus instrumentos,
os médiuns imperfeitos. Todavia, se agora um médium, qualquer que seja ele,
266 – Allan Kardec
der um motivo legítimo de suspeita, pela sua conduta ou seus costumes, pelo
seu orgulho, pela sua falta de amor e de caridade, então rejeitem, rejeitem
suas comunicações, porque aí haverá uma serpente oculta entre as ervas.
Aqui está a minha conclusão sobre a influência moral dos médiuns.”
ERASTO
267 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XXI
INFLUÊNCIA DO AMBIENTE
- 1) O meio no qual o médium encontra exerce alguma influência sobre as
manifestações?
“Todos os Espíritos que rodeiam o médium o auxiliam tanto para o bem
quanto para o mal.”
2) Os Espíritos superiores não poderiam triunfar sobre a má vontade do
Espírito encarnado que lhes serve de intérprete e sobre os que o cercam?
“Podem sim, quando julgam útil e conforme a intenção da pessoa que se
dirige a eles. Nós já dissemos: os Espíritos mais elevados podem algumas
vezes se comunicar por uma graça especial, apesar da imperfeição do médium
e do ambiente, mas então estes ficam completamente alheios a isso.”
3) Os Espíritos superiores procuram conduzir as reuniões fúteis para as
de ideias mais sérias?
“Os Espíritos superiores não vão às reuniões em que sabem que a
presença deles é inútil. Nos ambientes pouco instruídos, mas onde há
sinceridade, nós vamos de boa vontade, mesmo que neles só encontremos
instrumentos medíocres; todavia, nos ambientes eruditos onde a ironia
domina, aí nós não vamos. Nestes meios, é preciso falar aos olhos e aos
ouvidos: esse é o papel dos Espíritos batedores e zombeteiros. É bom que as
pessoas que se orgulham da sua ciência sejam humilhadas pelos Espíritos
menos instruídos e menos adiantados.”
4) O acesso às reuniões sérias é interditado aos Espíritos inferiores?
“Algumas vezes eles comparecem a elas com a finalidade de aproveitar
268 – Allan Kardec
os ensinamentos que são dados a vocês; mas eles ficam calados, como
ignorantes numa assembleia de sábios.”
- Seria um erro acreditar que é preciso ser médium para atrair a si os
seres do mundo invisível. O espaço é repleto deles; nós os temos
constantemente em torno de nós, ao nosso lado, vendo-nos, observando-nos,
participando das nossas reuniões, seguindo-nos ou nos evitando conforme os
atraímos ou os repelimos. A faculdade medianímica nada tem a ver com isto:
ela não é mais do que um meio de comunicação. De acordo com o que vimos a
respeito das causas de simpatia ou antipatia dos Espíritos, facilmente
compreenderemos que devemos estar cercados daqueles que têm afinidade
com o nosso próprio Espírito conforme este seja elevado ou degradado.
Agora, vamos considerar o estado moral do nosso planeta e entenderemos
qual é o gênero de Espíritos que deve predominar entre os Espíritos errantes.
Se tomarmos cada povo em particular, poderemos julgar — pelo caráter
predominante dos habitantes, pelas suas preocupações e seus sentimentos
mais ou menos morais e humanitários — os tipos de Espíritos que ali
preferencialmente se encontram.
Partindo deste princípio, suponhamos uma reunião de homens levianos,
inconsequentes, ocupados com seus prazeres; quais seriam os Espíritos que
os cercariam de preferência? Com certeza não seriam Espíritos superiores,
muito menos os sábios e filósofos do nosso mundo iriam gastar o seu tempo
aí. Assim, todas as vezes que os homens se reúnem, eles têm com eles uma
assembleia oculta que simpatiza com suas qualidades ou com seus defeitos, e
isto independentemente de toda e qualquer ideia de evocação. Admitamos
agora que estes homens tenham a possibilidade de conversar com os seres do
mundo invisível por meio de um intérprete, ou seja, por um médium; quais
são os que vão responder ao chamado deles? Evidentemente, aqueles que
estão lá, bem próximos, e que não perdem uma ocasião para se comunicar. Se
um Espírito superior for chamado numa assembleia fútil, ele poderá vir e até
mesmo proferir algumas palavras razoáveis, como um bom pastor que vem
para o meio de suas ovelhas desgarradas; mas desde que ele não se veja nem
compreendido nem ouvido, ele vai embora dali, como vocês o fariam no lugar
269 – O Livro dos Médiuns
deles, e os outros ficam com o campo livre.
- Nem sempre basta que uma assembleia seja séria para receber
comunicações de uma ordem elevada; há pessoas que não riem jamais e cujo
coração nem por isso é mais puro. Ora, é principalmente o coração que atrai
os bons Espíritos. Nenhuma condição moral impede as comunicações
espíritas, mas se estivermos em más condições, estaremos em contato com os
nossos semelhantes, que não deixam de nos enganar, e muitas vezes
lisonjeando nossos preconceitos.
Por aí se vê a enorme influência do ambiente sobre a natureza das
manifestações inteligentes; entretanto, essa influência não se exerce como
algumas pessoas afirmaram, quando ainda não se conhecia o mundo dos
Espíritos igual conhecemos hoje, e antes que experiências mais conclusivas
viessem esclarecer as dúvidas. Quando as comunicações concordam com a
opinião dos assistentes, não é que essa opinião se reflita no Espírito do
médium como num espelho, mas porque há Espíritos simpáticos — tanto para
o bem quanto para o mal — e que se sintonizam com o mesmo sentido; e a
prova disso é que se você tiver força para atrair outros Espíritos além
daqueles que te cercam, esse mesmo médium vai usar uma linguagem
totalmente diferente contigo e te dirá as coisas mais distantes dos teus
pensamentos e convicções. Em resumo, as condições do meio serão tanto
melhores quanto mais houver homogeneidade para o bem, mais sentimentos
puros e elevados, e mais desejo sincero de se instruir sem ideias
preconcebidas.
270 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXII
MEDIANIMIDADE NOS ANIMAIS
- Os animais podem ser médiuns? Muitas vezes tem sido levantada essa
questão, e alguns fatos parecem respondê-la afirmativamente. O que poderia
dar crédito a essa opinião são principalmente os notáveis sinais de
inteligência de alguns pássaros domésticos que parecem adivinhar o
pensamento e tiram de um maço de cartas aquelas que podem dar a resposta
exata a uma pergunta formulada. Temos observado essas experiências com
um cuidado todo especial e do que mais ficamos admirados foi a arte que
precisou ser empregada para a instrução desses pássaros. Sem dúvidas, não
podemos recusar neles uma certa dose de inteligência relativa, mas é preciso
convir que nesta circunstância a perspicácia deles ultrapassaria e muito a do
homem, pois não há ninguém que possa se gabar de fazer o que eles fazem;
seria necessário até mesmo lhes supor, para determinadas experiências, um
dom de segunda vista superior ao dos sonâmbulos mais clarividentes. Com
efeito, sabe-se que a lucidez é essencialmente variável e sujeita a frequentes
intervalos, enquanto nesses animais ela seria permanente e funcionaria, nesse
caso, com uma regularidade e uma precisão que não se vê em nenhum
sonâmbulo; numa palavra, ela nunca estaria em falta neles. A maior parte das
experiências que nós vimos é do tipo das que os prestidigitadores fazem, e
não podiam nos deixar em dúvida sobre o emprego de alguns dos seus
artifícios, notadamente o das cartas marcadas. A arte da prestidigitação
consiste em dissimular esses truques, sem o que o efeito não teria graça. O
fenômeno, mesmo reduzido a estas proporções, não é menos interessante e
há sempre que se admirar o talento do instrutor, tanto quanto a inteligência
do aluno, pois a dificuldade a ser vencida é bem maior do que seria se o
271 – O Livro dos Médiuns
pássaro agisse apenas em virtude de suas próprias capacidades; agora, levá-lo
a fazer coisas que excedem o limite do possível para a inteligência humana,
isso por si só é provar o emprego de um procedimento secreto. Aliás, é um
fato constante que esses pássaros só chegam a tal grau de habilidade ao fim
de um certo tempo e através de cuidados particulares e perseverantes, o que
não seria necessário se bastasse apenas a inteligência deles para realizar tal
feito. Não é mais extraordinário treiná-los para tirar cartas do que os adestrar
a repetir canções ou palavras.
Aconteceu o mesmo quando a prestidigitação quis imitar a segunda
vista; exigia-se bastante do sujeito para que a ilusão tivesse longa duração.
Desde a primeira vez que assistimos a uma sessão deste gênero, não vimos
nada mais do que uma imitação muito imperfeita do sonambulismo,
revelando a ignorância das condições essenciais desta faculdade.
- Quaisquer que sejam as experiências referidas, a questão principal
permanece sem solução de outro ponto de vista; pois, assim como a imitação
do sonambulismo não impede que a faculdade exista, também a imitação da
mediunidade por meio dos pássaros nada prova contra a possibilidade de
uma faculdade análoga neles ou em outros animais. Trata-se, portanto, de
saber se os animais, assim como os homens, são aptos a servir de
intermediários aos Espíritos para suas comunicações inteligentes. Parece até
bastante lógico supor que um ser vivo, dotado de uma certa dose de
inteligência, seja mais apropriado a esse efeito do que um corpo inerte, sem
vitalidade, como uma mesa, por exemplo; no entanto, não é o que acontece. - A questão da medianimidade dos animais se acha completamente
resolvida na dissertação seguinte, dada por um Espírito de quem podemos
apreciar a profundeza e sagacidade pelas citações que já tivemos a ocasião de
fazer. Para bem apreendermos o valor da sua demonstração, é essencial nos
reportarmos à explicação que ele deu sobre o papel do médium nas
comunicações, e que nós reproduzimos lá atrás. (Item 225.)
Esta comunicação foi dada após uma discussão ocorrida sobre esse
assunto na Sociedade parisiense de estudos espíritas:
272 – Allan Kardec
“Abordarei hoje a questão da medianimidade dos animais, levantada e
sustentada por um dos vossos mais fervorosos adeptos. Em virtude deste
ditado: Quem pode o mais pode o menos, ele pretende que podemos
medianimizar os pássaros e os outros animais para nos servirmos deles nas
nossas comunicações com a espécie humana. É o que em filosofia — ou antes,
em lógica — vocês chamam pura e simplesmente de um sofisma. Diz ele:
‘Vocês podem animar a matéria inerte, ou seja, uma mesa, uma cadeira, um
piano; consequentemente vocês devem poder animar a matéria já animada e
particularmente os pássaros.’ Pois bem! No estado normal do espiritismo, não
é assim, não pode ser assim.
“Primeiramente, vamos entender bem os fatos. O que é um médium? É o
ser, é o indivíduo que serve de traço de união com os Espíritos para que estes
possam se comunicar facilmente com os homens — que são Espíritos
encarnados. Por conseguinte, sem médium, não há comunicações tangíveis,
mentais, escritas, físicas nem de qualquer tipo que seja.
“Estou certo de que há um princípio que é admitido por todos os
espíritas: que os semelhantes agem com seus semelhantes e como seus
semelhantes. Então, quais são os semelhantes dos Espíritos senão os
Espíritos, encarnados ou não? Será preciso lhes repetir incessantemente? Pois
bem! Repetirei ainda: vosso perispírito e o nosso são tirados do mesmo meio,
são de uma natureza idêntica, quer dizer: são semelhantes; eles possuem uma
propriedade de assimilação mais ou menos desenvolvida, de imantação mais
ou menos vigorosa que nos permite — Espíritos e encarnados — nos
colocarmos em contato muito pronta e facilmente. Enfim, o que é próprio nos
médiuns, o que é da essência íntima da sua individualidade, é uma afinidade
especial e, ao mesmo tempo, uma força de expansão particular que anula
neles toda refratariedade e estabelecem entre eles e nós uma espécie de
corrente, uma espécie de fusão que facilita nossas comunicações. De resto, é
essa refratariedade da matéria que se opõe ao desenvolvimento da
medianimidade na maior parte dos que não são médiuns.
“Os homens sempre são inclinados a exagerar tudo; uns (não falo aqui
dos materialistas) negam uma alma aos animais, enquanto outros querem
lhes dar uma — por assim dizer — igual à nossa. Por que querer assim
273 – O Livro dos Médiuns
confundir o perfectível com o imperfectível? Não, não, fiquem certos disso; o
fogo que anima as feras, o sopro que os faz agir, mover e falar na linguagem
deles, não tem quanto ao presente nenhuma aptidão para se misturar, se unir,
se fundir com o sopro divino, a alma etérea, isto é, o Espírito, que anima o ser
essencialmente perfectível: o homem, o rei da criação. Ora, não é essa
condição essencial de perfectibilidade que dá a superioridade da espécie
humana sobre as outras espécies terrestres? Portanto, reconheçam que ao
homem — o único perfectível em si mesmo e nas suas obras — não se pode
assimilar nenhum indivíduo das outras raças que vivem na Terra.69
“Será que o cão — cuja inteligência superior entre os animais o
transformou em amigo e companheiro do homem — é perfectível por si
mesmo e por sua iniciativa pessoal? Ninguém ousaria defender isso, pois o
cão não faz o cão progredir, e aquele dentre eles que é o mais adestrado
sempre foi adestrado pelo seu dono. Desde que o mundo é mundo, a lontra
sempre construiu sua cabana sobre as águas, seguindo as mesmas proporções
e uma regra invariável; os rouxinóis e as andorinhas jamais construíram seus
ninhos de modo diferente daquele que seus pais fizeram. Um ninho de pardais
de antes do dilúvio, como um ninho de pardais dos tempos modernos, é
sempre um ninho de pardais, edificado nas mesmas condições e com o mesmo
sistema de entrelaçamento das palhas e detritos apanhados na primavera, na
época do acasalamento. As abelhas e as formigas, essas pequeninas repúblicas
organizadas, jamais variaram seus hábitos de abastecimento, seus afazeres,
seus costumes, suas produções. A aranha, finalmente, tece a sua teia sempre
da mesma maneira.
“Por outro lado, se procurarem as cabanas de folhagens e as tendas das
primeiras eras da Terra, em lugar de umas e outras, vocês encontrarão os
palácios e os castelos da civilização moderna; às vestes de peles brutas
69 Num primeiro entendimento, cogitava-se que o desenvolvimento da alma animal jamais ultrapassaria
o próprio escopo da animalidade: os animais seriam sempre animais; posteriormente, Allan Kardec
começa a sondar a hipótese de progressão da alma animal para a condição de Espírito. Em A Gênese, os
Milagres as Predições segundo o Espiritismo, cap. X, item 28, ele vai dizer: “acompanhando passo a
passo a série dos seres, diríamos que cada espécie é um aperfeiçoamento, uma transformação da espécie
imediatamente inferior. Visto que o corpo do homem está nas condições idênticas às dos outros corpos,
na sua química e constituição física, e que ele nasce, vive e morre da mesma maneira, ele há de ter sido
formado nas mesmas condições.” — N. T.
274 – Allan Kardec
sucederam os tecidos de ouro e seda. Enfim, a cada passo vocês acham a
prova dessa marcha incessante da humanidade rumo ao progresso.
“Desse progresso constante, invencível e irrecusável da espécie humana
e dessa estagnação indefinida das outras espécies animais, vocês concluirão
comigo que se existem princípios comuns ao que vive e se move na Terra — o
sopro e a matéria — não é menos certo que somente vocês, Espíritos
encarnados, estão submetidos a essa inevitável lei do progresso que os leva
fatalmente adiante e sempre avante. Deus colocou os animais ao lado de vocês
como auxiliares para lhes nutrirem, para lhes vestirem e para lhes ajudarem.
Foi dada a eles uma certa dose de inteligência porque, para servirem a vocês,
eles precisavam compreender, proporcionando a inteligência deles aos
serviços que são chamados a prestar. Mas, em sua sabedoria, Deus não quis
que os animais fossem submetidos à mesma lei do progresso; assim como
foram criados, eles se conservaram e se conservarão até a extinção de suas
raças.
“Disseram: os Espíritos medianimizam e fazem mover a matéria inerte,
cadeiras, mesas, pianos; fazem mover sim, mas medianimizam não! Portanto,
mais uma vez: sem médium, nenhum desses fenômenos pode se produzir. O
que há de extraordinário em que, com a ajuda de um ou de vários médiuns,
façamos mover a matéria inerte, passiva, que justamente em virtude da sua
passividade e de sua inércia é apropriada para realizar os movimentos e
impulsões que queiramos lhes imprimir? Para isso precisamos de médiuns, é
fato; mas não é necessário que o médium esteja presente ou consciente, pois
podemos operar com os elementos que ele nos fornece, malgrado sua vontade
e sem a sua presença, sobretudo nos casos de tangibilidade e o de transportes.
O nosso envoltório fluídico — que é mais imponderável e mais sutil do que o
mais sutil e o mais imponderável dos gases do vosso mundo — unindo-se,
casando-se, misturando-se com o envoltório fluídico, porém animalizado, do
médium, e cuja propriedade de expansão e de penetrabilidade é inapreciável
para os vossos sentidos grosseiros e quase inexplicável para vocês, nos
permite mover móveis e até quebrá-los em aposentos desabitados.
“Certamente os Espíritos podem se tornar visíveis e tangíveis para os
animais, e muitas vezes o medo súbito que eles tomam, e que parece sem
275 – O Livro dos Médiuns
motivo para vocês, é causado pela visão de um ou de diversos desses Espíritos
mal-intencionados para com os indivíduos presentes ou para com os donos
dos animais. Muito frequentemente vocês percebem cavalos que não querem
nem avançar nem recuar, ou que empinam diante de um obstáculo
imaginário. Pois bem! Tenham como certo que o obstáculo imaginário é quase
sempre um Espírito ou um grupo de Espíritos que se divertem impedindo-os
de prosseguir. Lembrem-se da mula de Balaão que, vendo um anjo diante dela
e temendo a sua espada flamejante, teimava em não se mexer; é que antes de
se manifestar visivelmente a Balaão, o anjo quis se tornar visível somente
para o animal.70 Mas repito, não medianimizamos diretamente nem os
animais nem a matéria inerte; precisamos sempre da assistência consciente
ou inconsciente de um médium humano, porque carecemos da união de
fluidos similares — o que não encontramos nem nos animais nem na matéria
bruta.
“Dizem que o Sr. T… magnetizou o seu cão; a que resultado chegou? Ele o
matou, pois esse infeliz animal morreu depois de cair numa espécie de atonia,
de languidez, em consequência de sua magnetização. De fato, inundando-o de
um fluido extraído de uma essência superior à essência particular da sua
natureza de cão, ele o esmagou, agindo sobre o animal como um raio, embora
mais lentamente. Portanto, como não há assimilação possível entre o nosso
perispírito e o envoltório fluídico dos animais propriamente ditos, nós os
aniquilaríamos instantaneamente ao lhes medianimizar.
“Estabelecido isto, reconheço perfeitamente que nos animais existem
aptidões diversas; que certos sentimentos, certas paixões idênticas às paixões
e aos sentimentos humanos se desenvolvem neles; que eles são sensíveis e
gratos, vingativos e odientos, conforme se age bem ou mal com eles. É que
Deus — que não faz nada de incompleto — deu aos animais companheiros ou
servidores do homem qualidades de sociabilidade, que faltam inteiramente
aos animais selvagens que habitam a solidão. Mas daí a poder servir de
intermediários para a transmissão do pensamento dos Espíritos há um
abismo: a diferença das naturezas.
70 Episódio narrado no livro bíblico Números, 22. — N. T.
276 – Allan Kardec
“Vocês sabem que nós pegamos no cérebro do médium os elementos
necessários para dar ao nosso pensamento uma forma sensível e apreensível
para vocês; é com a ajuda dos materiais que possui que o médium traduz o
nosso pensamento numa linguagem comum; pois bem! Quais elementos
encontraríamos no cérebro de um animal? Ele teria ali palavras, números,
letras, sinais quaisquer semelhantes aos que existem no homem, mesmo o
menos inteligente? Entretanto, dirão que os animais entendem o pensamento
do homem, e até o adivinham; sim, os animais domesticados compreendem
certos pensamentos, mas vocês já os viram alguma vez reproduzi-los? Não!
Então, concluam que os animais não podem nos servir de intérpretes.
“Para resumir: os fatos medianímicos não podem se manifestar sem a
cooperação consciente ou inconsciente dos médiuns; e é somente entre os
encarnados — Espíritos como nós — que podemos encontrar aqueles que
podem nos servir de médiuns. Quanto a adestrar cães, pássaros ou outros
animais, para fazerem este ou aquele exercício, isso é trabalho de vocês e não
nosso.”
ERASTO
Nota — Encontramos na Revista espírita de setembro de 1861 os detalhes de
um processo empregado pelos adestradores de pássaros sábios, para fazê-los tirar de
um baralho as cartas desejadas.
277 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XXIII
OBSESSÃO
Obsessão simples – Fascinação – Subjugação
– Causas da obsessão – Meios de combatê-la
- Entre os obstáculos que a prática do espiritismo apresenta, devemos
colocar na primeira linha a obsessão, quer dizer, o domínio que alguns
Espíritos tomam sobre certas pessoas. Ela nunca surge a não ser através dos
Espíritos inferiores que procuram dominar; os bons Espíritos não causam
nenhum constrangimento, mas aconselham e combatem a influência dos
maus, e se não os escutamos, eles se retiram. Os maus, ao contrário, se
agregam àqueles em quem eles encontram apoio; quando conseguem assumir
o controle de alguém, eles se identificam com o Espírito deste e o conduzem
como se ele fosse uma verdadeira criança.
A obsessão apresenta diversos tipos que precisamos distinguir bem, e
que resultam do grau do constrangimento e da natureza dos efeitos que ela
produz. De certo modo, a palavra obsessão é um termo genérico pelo qual se
designa essa espécie de fenômeno cujas principais variedades são: a obsessão
simples, a fascinação e a subjugação.
- A obsessão simples ocorre quando um Espírito malfazejo se impõe ao
médium e, a contragosto deste, intromete-se nas comunicações que ele
recebe, impedindo-o de se comunicar com outros Espíritos e toma o lugar
daqueles que são evocados.
Ninguém está obsidiado apenas por ser enganado por um Espírito
mentiroso; até mesmo o melhor médium está exposto a isso, sobretudo no
278 – Allan Kardec
início, quando ainda lhe falta a experiência necessária, do mesmo modo que,
entre nós, as pessoas mais honestas podem ser enganadas por canalhas.
Podemos então ser ludibriados sem estarmos obsidiados; a obsessão consiste
na perseguição de um Espírito do qual não se consegue desembaraçar-se.
Na obsessão simples o médium sabe muito bem que se trata de um
Espírito mentiroso, e este não se disfarça; ele não esconde de forma alguma as
suas más intenções e o seu desejo de contrariar. O médium reconhece sem
dificuldade a falsidade e, como se mantém em guarda, raramente é enganado.
Este gênero de obsessão é, portanto, apenas desagradável e não tem outro
inconveniente além de oferecer um obstáculo às comunicações que
desejaríamos receber dos Espíritos sérios ou de quem gostamos.
Podemos incluir nessa categoria os casos de obsessão física, isto é,
aquela que consiste nas manifestações barulhentas e obstinadas de alguns
Espíritos que nos fazem ouvir pancadas ou outros ruídos espontaneamente.
Sobre este fenômeno, vejamos novamente o capítulo das Manifestações físicas
espontâneas. (Item 82.)
- A fascinação tem consequências muito mais graves. É uma ilusão
produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium, e que
de certa maneira paralisa o seu julgamento a respeito das comunicações. O
médium fascinado não acredita que esteja sendo iludido: o Espírito tem a arte
de lhe inspirar uma confiança cega que o impede de ver a mistificação e de
compreender o absurdo daquilo que ele escreve, ainda quando esse absurdo
salte aos olhos de todo mundo; a ilusão pode até mesmo fazê-lo ver algo
sublime na linguagem mais ridícula. Estaríamos em erro se acreditássemos
que esse tipo de obsessão só atinge as pessoas simples, ignorantes e
desprovidas de raciocínio; nem os homens mais espiritualizados, os mais
instruídos e os mais inteligentes sob outros aspectos não estão isentos dela —
o que prova que tal aberração é efeito de uma causa externa de cuja influência
eles sofrem.
Já dissemos que as consequências da fascinação são muito mais graves;
realmente, através dessa ilusão que decorre dela, o Espírito conduz aquele
que conseguiu dominar como conduziria um cego, e pode levá-lo a aceitar as
279 – O Livro dos Médiuns
doutrinas mais bizarras e as teorias mais falsas como se fossem a única
expressão da verdade; ainda mais, ele pode colocá-lo em situações ridículas,
comprometedoras e até perigosas.
Compreende-se facilmente toda a diferença que existe entre a obsessão
simples e a fascinação; compreende-se também que os Espíritos que
produzem esses dois efeitos devem diferir de caráter. Na primeira, o Espírito
que se agarra à pessoa não passa de um ser importuno pela sua tenacidade e
de quem aquela se impacienta por se desembaraçar. Na segunda, a coisa é
totalmente diferente; para chegar a tais fins, é preciso um Espírito esperto,
astuto e profundamente hipócrita, porque não pode enganar e fingir ser
aceito senão com a ajuda da máscara que ele sabe pôr e de um falso semblante
de virtude. As grandes palavras caridade, humildade, amor de Deus são para
ele como que carta de crédito; porém, através de tudo isso, ele deixa escapar
sinais de inferioridade que é preciso estar fascinado para não perceber.
Assim, ele teme acima de tudo as pessoas que veem muito claramente; é por
isso que a sua tática é quase sempre inspirar no seu intérprete o afastamento
de qualquer um que poderia lhe abrir os olhos; por esse meio, evitando toda
contradição, ele fica certo de ter sempre razão.
- A subjugação é uma opressão que paralisa a vontade daquele que a
sofre e o faz agir a contragosto. Em suma: ele está sob um verdadeiro jugo.
A subjugação pode ser moral ou corporal. No primeiro caso, a pessoa
subjugada é obrigada a tomar decisões frequentemente absurdas e
comprometedoras que, por uma espécie de ilusão, ele julga sensatas: é um
tipo de fascinação. No segundo caso, o Espírito afeta os órgãos materiais e
provoca movimentos involuntários. Ela se manifesta no médium escrevente
como uma necessidade incessante de escrever, mesmo nos momentos mais
inoportunos. Temos visto alguns que, na falta de uma pena ou de um lápis,
simulavam escrever com o dedo, em toda parte onde se encontrassem,
mesmo nas ruas, nas portas e nas paredes.
A subjugação corporal algumas vezes vai ainda mais longe; ela pode
levar a atos mais ridículos. Conhecemos um homem que não era jovem nem
belo e que, sob o domínio de uma obsessão dessa natureza, encontrava-se
280 – Allan Kardec
constrangido por uma força irresistível a pôr-se de joelhos diante de uma
jovem, de quem não tinha a menor ideia, e a pedir em casamento. Doutras
vezes, ele sentia nas costas e nas pernas uma pressão enérgica que o forçava a
se ajoelhar e a beijar o chão nos lugares públicos e na presença da multidão —
apesar da sua vontade de se opor a esses constrangimentos. Esse homem era
tido como louco entre os seus conhecidos, mas nós estamos convencidos de
que ele não era totalmente louco, pois tinha plena consciência do ridículo
daquilo que fazia contra a sua vontade, e sofria horrivelmente com isso.
- Antigamente, dava-se o nome de possessão ao domínio exercido por
maus Espíritos, quando a influência deles ia até a aberração das faculdades. A
possessão seria para nós um sinônimo da subjugação. Se nós não adotamos
esse termo, é por dois motivos: primeiro, porque implica a crença de seres
criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal, enquanto realmente
só há seres mais ou menos imperfeitos, e que todos podem se melhorar;
segundo, porque requer igualmente a ideia da tomada de posse de um corpo
por outro Espírito, de uma espécie de coabitação, ao passo que ocorre apenas
um constrangimento. A palavra subjugação traduz perfeitamente essa ideia.
Assim, para nós, não há possessos no sentido comum do termo; há somente
obsidiados, subjugados e fascinados.71
71 No artigo “Um caso de possessão”, publicado na Revista Espírita, de dezembro de 1863, Allan Kardec
analisa um grave caso de obsessão e então passa a considerar que um Espírito obsessor possa atuar
diretamente sobre sua vítima, como que a possuí-la, uma vez que a vítima não dispunha de forças para
resistir ao ataque. Depois, desenvolveu mais ideias sobre essa questão na obra A Gênese, os Milagres e
as Predições segundo o Espiritismo, cap. XIV, do qual extraímos o seguinte recorte (item 47):
Na possessão, em vez de agir exteriormente, por assim dizer, o Espírito livre substitui o Espírito
encarnado; toma o seu corpo como domicílio sem que, no entanto, o encarnado abandone seu corpo
definitivamente — o que só acontece na morte. Portanto, a possessão é sempre temporária e intermitente,
pois um Espírito desencarnado não pode tomar e ocupar definitivamente o lugar de um Espírito
encarnado, visto que a união molecular entre o perispírito e o corpo não pode se efetivar senão no
momento da concepção.
Na posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se fosse o seu: fala
pela boca dele, vê pelos seus olhos e age com seus braços conforme o faria se estivesse vivo. Não é como
na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um
desencarnado; é este último mesmo quem fala e quem age, e quem o tiver conhecido em vida reconhecerá
nele a sua linguagem, a sua voz, os seus gestos e até a expressão da fisionomia.
De fato, o que não se verifica mesmo é a crença vulgar de possessão demoníaca, visto que o
demônio (ou diabo) — tal qual sua concepção clássica — não passa de uma figura de linguagem, não
validando assim a ideia vulgar de alguém estar realmente possesso, possuído, endemoniado. — N. T.
281 – O Livro dos Médiuns
- A obsessão, como temos dito, é um dos maiores escolhos da
mediunidade, e é também um dos mais frequentes; assim sendo, nunca será
demais tomar todos os cuidados para combatê-la, porque além dos
inconvenientes pessoais que resultam dela, é um obstáculo absoluto à
bondade e à veracidade das comunicações. A obsessão, qualquer grau que
seja, sendo sempre o efeito de um constrangimento, e esse constrangimento
não podendo jamais ser exercido por um bom Espírito, segue-se que toda
comunicação dada por um médium obsidiado é de origem suspeita e não
merece nenhuma confiança. Se alguma vez houver algo de bom numa dessas
comunicações, devemos recolhê-lo e rejeitar tudo o que for simplesmente
duvidoso. - Reconhece-se a obsessão pelas seguintes características:
1ª) Insistência de um Espírito em se comunicar, de boa ou de má vontade,
pela escrita, pela audição, pela tiptologia etc., opondo-se a que outros
Espíritos também possam se comunicar;
2ª) Ilusão que, não obstante a inteligência do médium, o impede de
reconhecer a falsidade e o ridículo das comunicações que recebe;
3ª) Crença na infalibilidade e na identidade absoluta dos Espíritos que se
comunicam e que, sob nomes respeitáveis e venerados, dizem coisas
falsas ou absurdas;
4ª) Confiança do médium nos elogios recebidos dos Espíritos que por ele se
comunicam;
5ª) Intenção de se afastar de pessoas que podem dar conselhos úteis;
6ª) Levar a mal as críticas a respeito das comunicações que recebe;
7ª) Necessidade incessante e inoportuna de escrever;
8ª) Constrangimento físico qualquer, dominando-lhe a vontade e o forçando
a agir ou a falar contra sua vontade;
9ª) Ruídos e transtornos persistentes em torno de si, dos quais o médium é
a causa ou o alvo.
282 – Allan Kardec
- Diante do perigo da obsessão, pergunta-se: não é uma coisa lamentável
ser médium? Não é a faculdade que provoca isso tudo? Portanto, isso não é
uma prova de inconveniência das comunicações espíritas? Nossa resposta é
fácil, e pedimos que a meditem com cuidado.
Não foram nem os médiuns e nem os espíritas que criaram os Espíritos,
mas, ao contrário, foram os Espíritos que fizeram que houvesse espíritas e
médiuns. Como os Espíritos não são mais do que as almas dos homens, então
há Espíritos desde quando há homens, e consequentemente em todos os
tempos eles têm exercido uma influência saudável ou perniciosa sobre a
humanidade. A faculdade medianímica não é para eles senão um meio de se
manifestar; na falta desse recurso, eles se manifestam de mil outras maneiras,
mais ou menos ocultas. Logo, seria um erro crer que os Espíritos exercem sua
influência só por meio das comunicações escritas ou verbais; essa influência é
constante e mesmo os que não se ocupam com os Espíritos ou até não
acreditam neles estão sujeitos a ela, igual aos outros, e até mais do que os
outros, porque não têm um contrapeso. A mediunidade é para o Espírito um
meio de se fazer conhecido; quando ele é mau, ele sempre se trai, por mais
hipócrita que seja, e então podemos dizer que a mediunidade permite ver o
inimigo face a face — se assim nos podemos exprimir — e combatê-lo com
suas próprias armas. Sem essa faculdade, ele age na sombra e, graças à sua
invisibilidade, ele pode fazer e realmente faz muito mal. A quantos atos o
homem é levado à sua desgraça, e que ele teria evitado se tivesse um meio de
se esclarecer! Os incrédulos não imaginam dizer uma grande verdade quando
eles dizem de um homem que se transvia com teimosia: “É o seu mau gênio
que o leva à sua perdição”. Então, o conhecimento do espiritismo, longe de dar
domínio aos maus Espíritos, como resultado, num tempo mais ou menos
próximo e quando estiver propagado, há de destruir esse império, dando a
cada um os meios de se pôr em guarda contra as sugestões desses maus
Espíritos, e aquele que sucumbir só poderá se queixar de si mesmo.
Regra geral: quem quer que receba más comunicações espíritas —
escritas ou verbais — está sob uma má influência; essa influência é exercida
sobre ele, quer ele escreva ou não, isto é, quer ele seja ou não um médium,
quer ele creia ou não. A mensagem fornece um meio de se verificar a natureza
283 – O Livro dos Médiuns
dos Espíritos que agem sobre ele, e de combatê-los, se forem maus, o que se
consegue ainda com mais êxito quando se chega a conhecer os motivos que os
faz agir. Se ele for cego o bastante para não compreender, outros podem lhe
abrir os olhos.
Em resumo: o perigo não está propriamente no espiritismo, já que este
pode, por sua vez, servir de controle e nos preservar do risco que
constantemente nós corremos sem sabermos; o perigo está na orgulhosa
propensão de certos médiuns em achar muito levianamente que sejam
instrumentos exclusivos de Espíritos superiores, e nessa espécie de
fascinação que não lhes permite compreender as tolices de que são
intérpretes. Mesmo aqueles que não são médiuns podem se deixar levar por
isso. Façamos uma comparação: um homem tem um inimigo secreto a quem
não conhece, mas que espalha secretamente contra ele a calúnia e tudo o que
a mais sombria maldade possa inventar; ele vê a sua fortuna se perder, seus
amigos se afastarem e seu bem-estar íntimo ser perturbado; não podendo
descobrir a mão que o fere, não pode se defender e sucumbe; mas um belo
dia, esse inimigo secreto lhe escreve e, apesar de sua astúcia, ele se trai. Eis
então o seu inimigo descoberto; daí ele pode desmascará-lo e se reabilitar. Tal
é o papel dos maus Espíritos que o espiritismo nos dá a possibilidade de
conhecer e frustrar.
- As causas da obsessão variam conforme o caráter do Espírito; às vezes é
uma vingança que ele exerce sobre um indivíduo de quem teve algo de que se
queixar durante a sua vida ou numa outra existência; com frequência também
não há outra razão senão o desejo de fazer mal: já que ele sofre, quer fazer os
outros sofrerem, e descobre uma espécie de prazer em atormentá-los e
perturbá-los; além disso, a impaciência que se demonstra o incita ainda mais,
porque esse é o objetivo dele, ao passo que o cansamos pela paciência; ao se
irritar, mostrando ressentimento, faz-se exatamente o que ele quer. Esses
Espíritos agem às vezes por ódio e inveja do bem; é por isso que eles lançam
suas críticas maldosas sobre as pessoas mais honestas. Um deles se apegou
como uma traça a uma honrada família do nosso conhecimento, à qual, aliás,
não teve a satisfação de conseguir enganar; interrogado acerca do motivo pelo
284 – Allan Kardec
qual tinha atacado pessoas sérias, em vez de homens maus como ele, o
Espírito respondeu: Esses outros não me causam inveja. Outros são guiados
por um sentimento de covardia que os induz a se aproveitarem da fraqueza
moral de certos indivíduos que eles sabem que são incapazes de lhes resistir.
Um destes últimos, que subjugava um rapaz de inteligência muito limitada,
interrogado sobre os motivos dessa escolha, respondeu: Tenho uma
necessidade muito grande de atormentar alguém; uma pessoa racional
me rejeitaria; atrelo-me a um idiota, que não me opõe nenhuma virtude.
- Há Espíritos obsessores sem maldade, que até têm algo de bom, mas que
têm orgulho do falso saber; eles têm suas ideias e suas teorias sobre ciências,
economia social, moral, religião, filosofia, e querem fazer prevalecer suas
opiniões; para isso, eles procuram médiuns bastante crédulos para lhes
aceitar de olhos fechados, e a quem eles fascinam para lhes impedir de
discernir o verdadeiro do falso. São os mais perigosos, porque os sofismas não
lhes custam nada, e porque podem dar crédito às mais ridículas utopias. Como
conhecem o prestígio dos grandes nomes, eles não se envergonham de se
passar por eles diante dos quais todos se inclinam, e não recuam sequer ante
o sacrilégio de se denominarem Jesus, a Virgem Maria, ou um santo venerado.
Tentam impressionar através de uma linguagem pomposa, mais pretensiosa
do que profunda, cheia de termos técnicos e enfeitada de palavras fortes de
caridade e de moral. Eles evitarão dar um mau conselho, porque bem sabem
que seriam rechaçados; então aqueles que eles enganam os defendem
exageradamente, dizendo: Vocês vejam bem que eles não dizem nada de mal.
Porém, a moral para eles não é mais do que um passaporte, é a menor de suas
preocupações; o que querem acima de tudo é dominar e impor suas ideias,
por mais irracionais que sejam. - Os Espíritos dados a teorias geralmente são bastante escrevinhadores; é
por isso que procuram os médiuns que escrevem com facilidade e os quais
eles tratam de fazer instrumentos dóceis e principalmente entusiastas,
fascinando-os. São quase sempre verbosos, muito prolixos, procurando
compensar a qualidade pela quantidade. Comprazem-se em ditar aos seus
285 – O Livro dos Médiuns
intérpretes volumosos textos indigestos e por vezes pouco compreensíveis,
que felizmente têm por antídoto a impossibilidade material de serem lidos
pelas multidões. Os Espíritos verdadeiramente superiores são sóbrios de
palavras; eles dizem muita coisa em poucas palavras; então, essa fecundidade
prodigiosa deve sempre ser suspeita.
Nunca será prudência demais quando se trata de publicar semelhantes
textos; as utopias e as excentricidades de que muitas vezes estão cheios, e que
chocam o bom senso, causam uma desagradável impressão nas pessoas
novatas, dando-lhes uma ideia falsa do espiritismo, sem contar que são armas
de que seus inimigos se servem para torná-lo ridículo. Entre tais publicações,
há algumas que, sem serem más e sem provirem de uma obsessão, podem ser
consideradas como imprudentes, intempestivas ou desajeitadas.
- Acontece muito frequentemente que um médium só possa se comunicar
com um único Espírito, que se liga a ele e responde pelos que são chamados
por seu intermédio. Isso nem sempre é uma obsessão, porque isso pode vir da
falta de flexibilidade do médium e de uma afinidade especial da sua parte com
determinado Espírito. Somente há obsessão propriamente dita quando o
Espírito se impõe e intencionalmente afasta os outros — o que jamais é obra
de um bom Espírito. Geralmente, o Espírito que se apodera do médium para
dominá-lo não suporta o exame crítico das suas comunicações; quando vê que
elas não são aceitas e discutidas, então ele não se retira, mas inspira ao
médium o pensamento de se isolar, e às vezes até o ordena que assim faça.
Todo médium que se melindra com a crítica das comunicações que obtém
torna-se eco do Espírito que o domina, e esse Espírito não pode ser bom a
partir do momento em que lhe inspira um pensamento ilógico — o de se
negar ao exame. O isolamento do médium é sempre algo desagradável para
ele, porque fica sem um controle para as suas comunicações. Não somente ele
deve se esclarecer através da opinião de terceiros como também lhe é
necessário estudar todos os gêneros de comunicações para compará-las;
restringindo-se àquelas que ele obtém, por melhores que lhes pareçam, ele se
expõe a se iludir sobre o valor delas, sem considerar que ele não pode saber
de tudo, e que elas quase sempre rondam num mesmo círculo. (Item 192:
286 – Allan Kardec
Médiuns exclusivos).
- Os meios de se combater a obsessão variam de acordo com o caráter que
ela reveste. O perigo realmente não existe para todo médium bem convencido
de que está lidando com um Espírito mentiroso, como ocorre na obsessão
simples; para ele, isso não passa de uma coisa desagradável. Mas, justamente
por lhe ser desagradável, é uma razão a mais para o Espírito se encarniçar
contra ele para perturbá-lo. Há duas coisas essenciais a se fazer nesse caso:
provar ao Espírito que não estamos iludidos por ele e que é impossível ele
nos enganar; e segundo, esgotar sua paciência mostrando-se mais paciente do
que ele. Quando ele estiver bem convencido de que está perdendo tempo,
acabará se retirando, como fazem os importunos a quem não damos ouvidos.
Mas nem sempre isso basta, e pode durar muito tempo, porque há
Espíritos que são teimosos, para os quais os meses e os anos significam pouca
coisa. Além do mais, o médium deve fazer um apelo fervoroso ao seu bom
anjo, assim como aos bons Espíritos que sejam simpáticos a ele, pedindo-lhes
que o ajudem. Quanto ao Espírito obsessor, por mais malvado que seja, é
preciso tratá-lo com severidade, porém com benevolência, e vencê-lo pelos
bons procedimentos, orando por ele. Se ele for realmente perverso, a
princípio zombará disso, mas em se moralizando com perseverança, ele
acabará por se emendar: é uma conversão a ser empreendida — tarefa muitas
vezes penosa, ingrata, até desagradável, mas cujo mérito está na dificuldade, e
que, se for bem desempenhada, sempre traz a satisfação de se ter cumprido
um dever de caridade e, quase sempre, a de ter-se reconduzido ao bom
caminho uma alma perdida.
Convém igualmente interromper toda comunicação escrita desde que se
reconheça que ela vem de um Espírito mau, que não quer ouvir a razão a fim
de não lhe dar o prazer de ser ouvido. Em certos casos, pode até ser útil parar
de escrever por algum tempo, regulando-se segundo as circunstâncias. Mas se
o médium escrevente pode evitar esses contatos ao se abster de escrever, já
não é o mesmo caso do médium audiente, que o Espírito obsessor às vezes
persegue a todo instante com as suas proposições grosseiras e obscenas, e
que nem sequer tem o recurso de tapar os ouvidos. De resto, devemos admitir
287 – O Livro dos Médiuns
que algumas pessoas se divertem com a linguagem trivial desse tipo de
Espíritos, e que os incentivam e os provocam rindo de suas tolices, em vez de
lhes impor silêncio e de os moralizar. Nossos conselhos não podem se aplicar
àqueles que desejam se afogar.
- Portanto, só há dissabor, mas não perigo para todo médium que não se
deixe iludir, porque ele não poderá ser enganado. Tudo é muito diferente com
a fascinação, pois então o domínio que o Espírito assume sobre aquele de
quem ele se apodera não tem limites. A única coisa a fazer é tentar convencer
o médium de que está sendo usado e reverter sua obsessão ao caso da
obsessão simples; mas isso nem sempre é fácil, se não for algumas vezes até
impossível. A influência do Espírito pode ser tal que torne o fascinado surdo a
todo tipo de raciocínio, podendo chegar até a fazê-lo duvidar se não é a
ciência que está errada quando o Espírito comete alguma grave heresia
científica. Como já dissemos, ele geralmente acolhe muito mal os conselhos; a
crítica o aborrece, o irrita e o faz tomar ira daqueles que não compartilham da
sua admiração. Suspeitar do seu obsessor é quase uma profanação aos seus
olhos e isso é tudo o que o Espírito pede, pois tudo o que ele quer é que todos
se curvem diante da sua palavra. Um deles exercia uma fascinação
extraordinária sobre uma pessoa do nosso conhecimento; nós o evocamos e
depois de algumas fanfarrices, vendo que não conseguia nos tapear quanto à
sua identidade, ele findou por confessar que não era aquele de quem havia
tomado o nome. Perguntando-lhe por que enganava desse modo aquela
pessoa, ele respondeu com estas palavras, que ilustram claramente o caráter
desse tipo de Espírito: Eu procurava um homem que eu pudesse manejar;
eu o encontrei e ficarei com ele. — Mas se nós lhe fizermos ver claramente,
ele largará vocês: — Isso é o que nós veremos! Como não há cego pior do que
aquele que não quer ver, quando nós reconhecemos a inutilidade de toda
tentativa para abrir os olhos do fascinado, o que há de melhor a fazer é lhe
deixar com as suas ilusões. Não se pode curar um doente que teima em
conservar a sua doença e se contenta com ela. - A subjugação corporal muitas vezes tira do obsidiado a energia
288 – Allan Kardec
necessária para dominar o mau Espírito; por isso, é preciso a intervenção de
uma terceira pessoa, agindo pelo magnetismo ou pela força da sua vontade.
Na falta da cooperação do obsidiado, essa pessoa deve tomar o domínio do
Espírito; mas como essa ascendência só pode ser moral, ela não pode ser
exercida senão por um ser moralmente superior ao Espírito, e seu poder
será tanto maior quanto maior for a sua superioridade moral, porque então
ele se impõe ao Espírito, que se vê forçado a se inclinar diante dele. Por isso é
que Jesus tinha um poder tão grande para expulsar aqueles a quem naquela
época se chamavam demônios, ou seja, maus Espíritos obsessores.
Não podemos aqui dar mais do que conselhos gerais, pois não há
nenhum procedimento material, sobretudo nenhuma fórmula, nem qualquer
palavra sacramental que tenha o poder de afastar os Espíritos obsessores. O
que às vezes falta ao obsidiado é uma força fluídica suficiente; nesse caso, a
ação magnética de um bom magnetizador pode vir utilmente a ajudar.
Ademais, é sempre bom tomar os conselhos de um Espírito superior ou do
anjo guardião, através de um médium confiável.
- As imperfeições morais do obsidiado frequentemente são um obstáculo
à sua libertação. Aqui vai um exemplo notável que pode servir para a
instrução de todos:
Várias irmãs eram vítimas desde alguns anos de depredações muito
desagradáveis. Suas roupas eram incessantemente espalhadas por todos os
cantos da casa e até pelos telhados; eram cortadas, rasgadas e crivadas de
furos, por mais cuidado que elas tivessem em guardá-las à chave. Essas
senhoras, relegadas numa pequena localidade de província, jamais tinham
ouvido falar de espiritismo. O primeiro pensamento foi naturalmente o de que
crer que eram alvo de brincalhões de mau gosto, mas a persistência e as
precauções que elas tomavam afastaram essa ideia. Só muito tempo depois foi
que, devido alguns indícios, elas acharam que deviam nos procurar para saber
a causa desses transtornos e os meios de remediá-los, se isso fosse possível.
Não havia dúvida quanto à causa, mas o remédio era mais difícil. O Espírito
que se manifestava por tais atos era evidentemente malvado. Durante a
evocação, ele se mostrou de uma grande perversidade e inacessível a
289 – O Livro dos Médiuns
qualquer sentimento bom. Mesmo assim, a prece pareceu exercer uma
influência salutar; contudo, após algum tempo de descanso, as depredações
recomeçaram. Eis aqui, a propósito, o conselho que um Espírito superior deu:
“O que essas senhoras têm de melhor a fazer é rogar aos seus Espíritos
protetores que não as abandonem, e não tenho nenhum conselho melhor a
lhes dar senão o de descer à própria consciência para se confessarem a si
mesmas e examinarem se elas sempre praticaram o amor ao próximo e à
caridade; não falo da caridade de dar e distribuir, mas da caridade da língua,
pois infelizmente elas não sabem conter a língua delas, e não demonstram por
atos de piedade o desejo que têm de se libertarem daquele que as atormenta.
Elas gostam muito de caluniar o próximo, e o Espírito que as obsidia está se
vingando, porque ele foi seu bode expiatório quando estava vivo. Elas só
precisam vasculhar a memória, e logo descobrirão com o que estão lidando.
“Entretanto, se conseguirem se melhorar, seus anjos guardiões se
aproximarão delas e a simples presença deles bastará para afugentar o mau
Espírito, que só se agarrou a uma delas em particular porque o seu anjo
guardião teve que se afastar diante de atos repreensíveis ou maus
pensamentos. O que lhes faltam são preces fervorosas pelos que sofrem e
principalmente a prática das virtudes impostas por Deus a cada um, de acordo
com a sua condição.”
Sobre a observação que essas palavras nos pareciam um tanto severas e
que talvez fosse necessário adoçá-las para serem transmitidas, o Espírito
acrescentou:
“Devo dizer o que digo, e como digo, porque as pessoas em questão têm
o hábito de supor que elas não fazem mal com a língua, quando o fazem
muitíssimo. Eis por que é preciso ferir o Espírito delas, de maneira que lhes
sirva de advertência séria.”
Disso resulta um ensinamento de um grande alcance, o de que as
imperfeições morais dão ensejo aos Espíritos obsessores, e que o método
mais seguro de se desembaraçar deles é atrair os bons, pela prática do bem.
Os bons Espíritos sem dúvidas têm mais poder do que os maus, e a vontade
290 – Allan Kardec
deles é o suficiente para afastar estes últimos; porém, eles só auxiliam os que
colaboram, pelos esforços que fazem para se melhorar; do contrário, eles se
afastam e deixam o campo livre para os maus, que se tornam assim, em certos
casos, instrumentos de punição, pois os bons lhes deixam agir para esse fim.
- Nós devemos também ter o cuidado de não atribuir à ação direta dos
Espíritos todos os desagrados que possam ocorrer; esses desagrados muitas
vezes são as consequências da incúria e da imprevidência. Um agricultor nos
escreveu um dia que há doze anos lhe ocorria todo tipo de infortúnio em
relação aos seus animais; ora eram suas vacas que morriam ou não davam
mais leite; ora morriam seus cavalos, ovelhas ou porcos. Ele fez várias
novenas, que não remediaram o mal, assim como as missas que mandou
celebrar, nem os exorcismos que encomendou. Então, seguindo o preconceito
rural, ele ficou convencido de que haviam lançado um feitiço contra os
animais. Ele — acreditando que nós fôssemos dotados de um poder de
exorcizar maior do que o do sacerdote da sua vila — pediu-nos um conselho.
Aqui está a resposta que obtivemos:
“A mortalidade ou enfermidades dos animais desse homem decorre de
seus currais estarem infetados, e ele não cuida porque isso tem um custo.”
- Terminaremos este capítulo com as respostas dadas pelos Espíritos a
algumas questões, e que vêm em apoio ao que temos dito.
1) Por que alguns médiuns não podem se desembaraçar de Espíritos
maus que se ligam a eles, e como é que os bons Espíritos que eles chamam não
sejam bastante poderosos para afastar os outros e se comunicar diretamente?
“Não é que falte poder ao bom Espírito; é o médium que muitas vezes
não é bastante forte para ajudá-lo; sua natureza se presta melhor a
determinadas relações; seu fluido se identifica mais com um Espírito do que
com outro; é isso o que dá um domínio tão grande àqueles que querem abusar
dele.”
2) Parece-nos, todavia, que há pessoas muito meritórias, de uma
impecável moralidade e que, não obstante, são impedidas de se comunicar
291 – O Livro dos Médiuns
com os bons Espíritos.
“Isso é uma provação; e quem te diz, aliás, que o coração não esteja
manchado de um pouco de maldade? Que o orgulho não domine um pouco a
aparência de bondade? Essas provações, mostrando ao obsidiado a sua
fraqueza, devem fazê-lo se inclinar para a humildade.
“Haverá alguém na Terra que possa se dizer perfeito? E algum que tenha
todas as aparências da virtude pode ter ainda muitos defeitos ocultos, um
velho fermento de imperfeição. Assim, por exemplo, vocês dizem daquele que
não faz nada de mal, que é leal em suas relações sociais: é um homem bom e
digno; mas, será que vocês sabem se nele as boas qualidades não estejam
mascaradas pelo orgulho? Se não há nele um fundo de egoísmo? Se ele não é
avarento, ciumento, rancoroso, maledicente e cem outras coisas que vocês
não percebem, só porque as relações entre vocês e ele não colocaram vocês
nessa situação? O meio mais poderoso de combater a influência dos maus
Espíritos é se aproximar o mais possível da natureza dos bons.”
3) A obsessão que impede que um médium obtenha as comunicações
que deseja é sempre um sinal de indignidade da sua parte?
“Eu não disse que era um sinal de indignidade, mas que um obstáculo
pode se opor a certas comunicações; cabe a ele se esforçar para remover o
obstáculo nele próprio; sem isso, suas preces e suas súplicas não servirão
para nada. Não basta a um enfermo dizer ao seu médico: Dê-me saúde que eu
quero ficar bom. O médico não pode fazer nada se o doente não faz o que é
necessário.”
4) A privação de se comunicar com os bons Espíritos seria então uma
espécie de punição?
“Em certos casos, isso pode ser uma verdadeira punição, como a
possibilidade de se comunicar com eles é uma recompensa que vocês devem
se esforçar para merecer.” (Veja: Perda e suspensão da mediunidade, nº 220.)
5) Nós não poderíamos também combater a influência dos maus
Espíritos moralizando-os?
“Sim, mas isso é o que não tem sido feito e o que não podemos
negligenciar, porque muitas vezes isso é uma tarefa que lhes é confiada, e que
292 – Allan Kardec
vocês devem realizar caridosa e religiosamente. Através de sábios conselhos,
podemos estimulá-los ao arrependimento e acelerar o progresso deles.”
— Como pode, a esse respeito, um homem ter mais influência do
que os próprios Espíritos?
“Os Espíritos perversos se aproximam mais dos homens que eles
procuram atormentar do que dos Espíritos dos quais se distanciam o
máximo possível. Nessa aproximação com os humanos, quando eles
encontram quem os moralizem, a princípio eles não lhes escutam e até
riem deles; depois, se souberem cativá-los, eles acabam se deixando
sensibilizar. Os Espíritos elevados só podem falar com eles em nome de
Deus, e isso os apavora. O homem com certeza não tem mais poder do
que os Espíritos superiores, mas sua linguagem se identifica melhor com
a natureza dos Espíritos inferiores e, vendo a superioridade que pode
exercer sobre estes, então ele compreende melhor a solidariedade que
existe entre o céu e a terra.
“Além disso, a ascendência que o homem pode exercer sobre os
Espíritos é proporcional à sua superioridade moral. Ele não domina os
Espíritos superiores, nem mesmo os que — sem serem superiores — são
bons e benevolentes, mas ele pode dominar os Espíritos que lhe são
inferiores em moralidade.” (Veja o item 279.)
6) Levada a um determinado grau, a subjugação corporal poderia ter
como consequência a loucura?
“Sim, a uma espécie de loucura cuja causa é desconhecida no mundo,
mas que não tem nada a ver com a loucura comum. Entre os que são tratados
como loucos há muitos que estão apenas subjugados; eles precisariam de um
tratamento moral, ao passo que os tratamentos corporais os tornam loucos de
verdade. Quando os médicos conhecerem bem o espiritismo, eles saberão
fazer essa distinção e curarão mais doentes do que com as duchas.” (Item 221.)
7) O que devemos pensar daqueles que, vendo um perigo qualquer no
espiritismo, acham que o meio de o prevenir seria proibir as comunicações
espíritas?
“Se eles podem proibir certas pessoas de se comunicar com os Espíritos,
293 – O Livro dos Médiuns
não podem impedir as manifestações espontâneas feitas a essas mesmas
pessoas, pois não podem suprimir os Espíritos, nem impedir a influência
oculta deles. Parece aquelas crianças que tapam os olhos e acham que não as
vemos. Seria loucura querer suprimir uma coisa que oferece grandes
vantagens só porque alguns imprudentes podem abusar dela; a maneira de
prevenir esses inconvenientes é, ao contrário, fazer que se conheça
profundamente essa coisa.”
294 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXIV
IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS
Provas possíveis de identidade
– Distinção dos bons e dos maus Espíritos –
Questões sobre a natureza e identidade dos Espíritos
Provas possíveis de identidade
- A questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas,
mesmo entre os adeptos do espiritismo; é que, na prática, os Espíritos não nos
trazem um documento de identidade, e sabemos com que facilidade alguns
dentre eles tomam determinados nomes emprestados; assim, depois da
obsessão, esta é uma das maiores dificuldades do espiritismo prático; além do
mais, em muitos casos a identidade concreta é uma questão secundária e sem
real importância.
A identidade do Espírito de personagens antigas é a mais difícil de
constatar, e muitas vezes até impossível, limitando-se a uma apreciação
puramente moral. julga-se os Espíritos, assim como se julga os homens, pela
sua linguagem; se um Espírito se apresenta com o nome de Fénelon72, por
exemplo, e não diz nada além de trivialidades e infantilidades, fica claro que
não pode ser ele; porém, se ele diz somente coisas dignas do caráter de
Fénelon e que este não recusaria, então há, senão uma prova material, pelo
menos toda a probabilidade moral de que deva ser ele. É nesse caso
sobretudo que a identidade real se torna uma questão secundária; do
momento em que o Espírito só diz coisas boas, pouco importa o nome sob o
72 Menção a François Fénelon (1651-1715), foi um importante teólogo, poeta, escritor francês que então
desencarnado também contribui com a obra do Espiritismo. — N. T.
295 – O Livro dos Médiuns
qual elas sejam dadas.
Questionarão, sem dúvida, que o Espírito que tomasse um suposto nome,
mesmo que só para dizer coisas boas, não deixaria de cometer uma fraude, e
por isso não poderia ser um bom Espírito. Aqui há delicadezas de nuances
bastante difíceis de determinar, mas que tentaremos desenvolver.
- À medida que os Espíritos se purificam e se elevam na hierarquia, as
características distintivas de sua personalidade de algum modo se apagam na
uniformidade da perfeição e, no entanto, nem por isso eles conservam menos
sua individualidade; é o que acontece com os Espíritos superiores e os
Espíritos puros. Nessa posição, o nome que tiveram na Terra, numa das mil
existências corporais efêmeras pelas quais eles passaram, é uma coisa
totalmente insignificante. Notemos ainda que os Espíritos são atraídos uns
para os outros pela semelhança de suas qualidades, e assim formam grupos
ou famílias simpáticas. Por outro lado, se considerarmos o número imenso de
Espíritos que desde a origem dos tempos devem ter chegado às primeiras
fileiras, e se o compararmos com o número tão restrito dos homens que
deixaram um nome importante na Terra, então compreenderemos que entre
os Espíritos superiores que podem se comunicar a maioria não deve ter
nomes para nós; mas como precisamos de nomes para fixar as nossas ideias,
eles podem tomar o de um personagem conhecido, cuja natureza se identifica
mais com a deles; é por isso que os nossos anjos guardiões normalmente se
apresentam sob o nome de um dos santos que nós veneramos, e geralmente
sob o nome daquele pelo qual temos mais simpatia. Segue-se daí que se o anjo
guardião de uma pessoa se revela como sendo são Pedro, por exemplo, não há
nenhuma prova material de que seja exatamente o apóstolo desse nome;
tanto pode ser ele como pode ser um Espírito completamente desconhecido,
pertencente à família de Espíritos de que são Pedro faça parte. Segue-se ainda
que, seja qual for o nome sob o qual se invoque o anjo guardião, este atenderá
ao apelo que lhe é feito, porque ele é atraído pelo pensamento, e o nome é
indiferente para ele.
O mesmo ocorre todas as vezes que um Espírito superior se comunica
espontaneamente sob o nome de um personagem famoso; nada prova que
296 – Allan Kardec
seja precisamente o Espírito desse personagem; mas se ele não diz nada que
desminta a elevação do caráter deste nome, existe o indício de que seja ele, e
em todos os casos podemos dizer que, se não for ele, deve ser um Espírito do
mesmo padrão, ou talvez até alguém enviado por ele. Em resumo, a questão
de nome é de segunda ordem, já que o nome pode ser considerado como um
simples indicativo da classe que o Espírito ocupa na escala espírita.
A situação é totalmente diferente quando um Espírito de uma ordem
inferior se disfarça de um nome respeitável para dar crédito às suas palavras,
e este caso é tão frequente que nunca será demais se precaver contra esses
tipos de substituições, pois é graças a esses nomes emprestados, e com o
apoio sobretudo da fascinação, que alguns Espíritos sistemáticos — mais
orgulhosos do que sábios — procuram validar as ideias mais ridículas.
Como dissemos, a questão da identidade é, portanto, quase indiferente
quando se trata de instruções gerais, já que os melhores Espíritos podem se
substituir mutuamente sem que isso tenha consequências. Por assim dizer, os
Espíritos superiores formam um conjunto coletivo cujas individualidades nos
são — salvo raras exceções — completamente desconhecidas. O que nos
interessa não é a própria pessoa, mas o seu ensinamento; ora, desde que esse
ensinamento seja bom, pouco importa que aquele que o deu se chame Pedro
ou Paulo; ele deve ser julgado pela sua qualidade e não pela sua assinatura. Se
um vinho for ruim, não será a etiqueta que o tornará melhor. Porém não é o
caso das comunicações íntimas, porque aqui é o indivíduo — a sua pessoa
mesma — que nos interessa, e é com razão que nessas circunstâncias nós
procuramos nos assegurar se o Espírito que atende ao nosso chamado é
realmente aquele que desejamos.
- A identidade é muito mais fácil de ser comprovada quando se trata de
Espíritos contemporâneos, de quem conhecemos as características e os
hábitos, pois é exatamente através desses hábitos — dos quais eles ainda não
tiveram tempo de se desfazer — que eles se tornam reconhecíveis, e vamos
dizer desde já que este é mesmo um dos sinais mais certos de identidade. Sem
dúvidas o Espírito pode dar provas disso mediante um pedido que for feito,
mas ele só faz isso quando lhe convém, e geralmente tal pedido o constrange;
297 – O Livro dos Médiuns
é por isso que devemos evitá-lo. Logo ao deixar o seu corpo, o Espírito não
terá perdido sua suscetibilidade; ele se ofende com toda questão que tenha
por objetivo colocá-lo à prova. Há perguntas que não ousaríamos lhe
dirigir se ele estivesse vivo, pelo receio de faltar com a delicadeza; por que
então poderíamos ter menos consideração por ele depois da sua morte?
Vamos supor que um homem que se apresente num salão declarando o seu
nome; será que alguém iria lhe pedir à queima-roupa para provar ser quem
ele diz que é, sob o pretexto de haver impostores? Esse homem seguramente
teria o direito de lembrar ao interrogador as regras de boas maneiras. É o que
fazem os Espíritos, não respondendo ou se retirando. Tomemos um exemplo
para comparação: suponhamos que o astrônomo Arago, quando vivo, se
apresentasse numa casa onde sua pessoa não fosse conhecida, e que o
tratassem assim: Você diz que é Arago, mas como não o conhecemos, tenha a
bondade de nos provar sua identidade respondendo às nossas perguntas;
resolva tal problema de astronomia; diga-nos o seu nome, sobrenome, os de
seus filhos, o que fazia em tal dia, a tal hora etc. O que ele responderia? Pois
bem: como Espírito, ele fará o que teria feito em vida, e os outros Espíritos
fazem a mesma coisa.
- Embora os Espíritos se recusem a responder perguntas tolas e absurdas
que teríamos vergonha de remeter à sua pessoa viva, eles normalmente dão
por si mesmos, espontaneamente, provas irrecusáveis de sua identidade,
pelas características que se revelam na linguagem deles, pelo emprego das
palavras que lhes eram familiares, pela citação de certos fatos, de
particularidades de suas vidas às vezes desconhecidas dos assistentes e cuja
exatidão pode ser verificada. As provas de identidade surgem também de uma
série de circunstâncias imprevistas que nem sempre se apresentam à
primeira vista, mas sim com a sequência das conversas. Portanto, convém
esperá-las sem provocar, observando cuidadosamente todas as que possam
decorrer da natureza das comunicações. (Veja o fato referido no item 70.) - Um meio empregado às vezes com sucesso para verificar a identidade,
quando o Espírito que se comunica é suspeito, consiste em lhe fazer afirmar,
298 – Allan Kardec
em nome de Deus todo-poderoso, que é de fato quem ele diz ser. Acontece
normalmente que aquele que usurpou um nome então recue diante de tal
sacrilégio e que, após ter começado a escrever: Afirmo, em nome de…, ele
pare e, irado, rabisque traços sem sentido ou quebre o lápis; se for mais
hipócrita, ele disfarça a questão mediante uma restrição mental, escrevendo,
por exemplo: Certifico a vocês que digo a verdade, ou então: Atesto, em
nome de Deus, que sou eu mesmo quem fala com vocês etc. Entretanto, há
alguns que não são nada escrupulosos, e que juram tudo o que se queira. Um
desses se comunicou com um médium se dizendo ser Deus, e o médium,
muito honrado com tão alta graça, não hesitou em acreditar nele. Evocado por
nós, ele não ousou sustentar sua impostura, e disse: Não sou Deus, mas sou
seu filho. — Então você é Jesus? Isto não é possível, porque Jesus é muito
elevado para empregar um subterfúgio. Então, você ousa afirmar em nome de
Deus que é o Cristo? — Não digo que sou Jesus; digo que sou o filho de Deus,
porque sou uma de suas criaturas.
Devemos concluir com isso que a recusa da parte de um Espírito em
afirmar a sua identidade em nome de Deus é sempre uma prova evidente de
que o nome que ele tomou é uma impostura, mas que a afirmação não passa
de uma presunção, e não uma prova certa.
- Podemos também incluir entre as provas de identidade a semelhança da
caligrafia e da assinatura, mas, além de que não é dado a todos os médiuns
obter esse resultado, isso nem sempre é uma garantia suficiente; há falsários
no mundo dos Espíritos como há neste mundo; então isso é apenas uma
presunção de identidade, que só adquire valor pelas circunstâncias que a
acompanhem. O mesmo ocorre com todos os sinais materiais que alguns dão
como talismãs inimitáveis pelos Espíritos mentirosos. Para os que ousam
perjurar ao nome de Deus, ou falsificar uma assinatura, nenhum sinal
material poderia lhe oferecer um obstáculo maior. A melhor de todas as
provas de identidade está na linguagem e nas circunstâncias fortuitas. - Com certeza, vão dizer que se um Espírito pode imitar uma assinatura,
também pode perfeitamente imitar a linguagem. Isso é verdade; temos visto
299 – O Livro dos Médiuns
alguns que tomaram afrontosamente o nome do Cristo e, para enganar,
simularam o estilo evangélico e proferiram a torto e a direito estas expressões
bem conhecidas: Em verdade, em verdade eu digo a vocês; mas quando
estudamos o conjunto da mensagem sem preconceito, quando analisando o
fundo das ideias e o alcance das expressões, quando ao lado de belas máximas
de caridade nós vemos as recomendações pueris e ridículas, seria preciso
estar fascinado para se enganar com isso. Sim, certas partes da forma
material da linguagem podem ser imitadas, mas não o pensamento; jamais a
ignorância imitará a verdadeira sabedoria, e jamais o vício imitará a
verdadeira virtude. Em algum momento, a farsa sempre será descoberta. É
então que o médium, assim como o evocador, precisa de toda a perspicácia e
de todo o discernimento para separar a verdade da falsidade. Eles devem se
convencer de que os Espíritos perversos são capazes de todas as artimanhas,
e que quanto mais elevado for o nome com o qual o Espírito se anuncie, mais
deve inspirar desconfiança. Quantos médiuns têm recebido comunicações
apócrifas assinadas por Jesus, Maria, ou um santo venerado!
Distinção dos bons e dos maus Espíritos
- Se a identidade absoluta dos Espíritos em muitos casos é uma questão
acessória e sem importância, já não ocorre o mesmo com a distinção dos bons
e dos maus Espíritos; para nós, a individualidade deles pode ser indiferente,
mas suas qualidades jamais. Em todas as comunicações instrutivas, é então
sobre este ponto que se deve concentrar toda a atenção, porque só ele nos
pode dar a medida da confiança que podemos conceder ao Espírito que se
manifesta — seja qual for o nome sob o qual o faça. O Espírito que se
comunica é bom ou mau? A qual grau da escala espírita ele pertence? Eis a
questão capital. (Veja: Escala espírita, em O Livro dos Espíritos, questão 100.) - Como já foi dito, nós julgamos os Espíritos, assim como julgamos os
homens, pela sua linguagem. Suponhamos que um homem receba vinte cartas
de pessoas que lhe são desconhecidas; pelo estilo, pelas ideias, por uma série
de indícios, enfim, ele julgará se aquelas pessoas são instruídas ou ignorantes,
300 – Allan Kardec
polidas ou mal-educadas, superficiais, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias,
levianas, sentimentais etc. Da mesma forma é com os Espíritos: devemos
considerá-los como correspondentes que nós nunca vimos, e se perguntar o
que pensar da sabedoria e do caráter de um homem que dissesse ou
escrevesse tais coisas. Podemos estabelecer como regra invariável e sem
exceção que a linguagem dos Espíritos é sempre proporcional ao grau da
elevação deles. Os Espíritos realmente superiores não só dizem unicamente
coisas boas como também as dizem em termos que excluem da maneira mais
absoluta toda trivialidade; por melhores que sejam essas coisas, se elas
estiverem manchadas por uma única expressão que denote baixeza, isto seria
um sinal inquestionável de inferioridade, ainda mais se o conjunto da
mensagem ferisse a decência por sua grosseria. A linguagem sempre revela a
sua origem, seja pelo pensamento que expressa, seja pela forma, e até mesmo
quando um Espírito queira nos ludibriar quanto à sua pretensa superioridade,
bastará conversar algum tempo com ele para o avaliarmos.
- A bondade e a gentileza são também atributos essenciais dos Espíritos
depurados; eles não têm ódio nem aos homens nem aos outros Espíritos;
lamentam as fraquezas e criticam os erros, mas sempre com moderação, sem
fel e sem rancor. Caso se admita que os Espíritos verdadeiramente bons não
possam querer senão o bem e dizer senão coisas boas, então se concluirá que
tudo o que denote na linguagem dos Espíritos qualquer falta de bondade e de
gentileza não pode emanar de um bom Espírito. - A inteligência está longe de ser um sinal certo de superioridade, porque
a inteligência e a moral nem sempre andam lado a lado. Um Espírito pode ser
bom, gentil e ter conhecimentos limitados, ao mesmo tempo em que outro
Espírito, inteligente e instruído, pode ser muito inferior em moralidade.
Muito frequentemente, acredita-se que interrogando o Espírito de um
homem que foi sábio numa determinada especialidade na Terra seja possível
obter a verdade com mais segurança; isto é lógico, mas nem sempre está
correto. A experiência demonstra que os sábios, assim como os outros
homens — sobretudo os que deixaram a Terra há pouco tempo — ainda estão
301 – O Livro dos Médiuns
sob o império dos preconceitos da vida corporal; eles não se despojam
imediatamente de suas ideias sistemáticas. Portanto, pode ser que, sob a
influência das ideias que eles acalentaram em vida, e das quais fizeram para si
um título de glória, eles então vejam menos claramente do que imaginamos.
Não damos este princípio como uma regra, longe disso: dizemos apenas que
isso ocorre e que, por consequência, a sua ciência humana nem sempre é uma
prova da sua infalibilidade como Espíritos.
- Ao submeter todas as comunicações a um exame escrupuloso, ao
averiguar e ao analisar o pensamento e as expressões como se faz quando se
trata de julgar uma obra literária, rejeitando sem hesitar tudo o que peca pela
lógica e pelo bom senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se
supunha manifestar-se, então desencorajamos os Espíritos mentirosos, que
acabam por se retirar, desde que estejam bem convencidos de que não
conseguem nos enganar. Nós repetimos: este meio é o único, mas é infalível,
pois não há comunicação má que possa resistir a uma crítica rigorosa. Os bons
Espíritos nunca se ofendem com ela, já que eles próprios a aconselham e
porque eles nada têm que temer do exame; somente os maus se melindram
com isso e procuram evitar as críticas, porque eles tudo têm a perder e
porque elas provam aquilo que eles são.
A propósito, aqui está o conselho dado por são Luís:
“Qualquer que seja a confiança legítima que em vós inspirem os Espíritos
que presidem os vossos trabalhos, há uma recomendação que nós nunca
cansaremos de repetir e que vocês deveriam ter sempre presente na mente ao
se entregar aos estudos: é a de pesar e medir, de submeter ao controle da
razão mais severa todas as comunicações que receberem; de não deixar de
pedir as explicações necessárias — desde que um ponto lhes pareça suspeito,
duvidoso ou obscuro — até ficarem seguros.”
- Podemos resumir os meios de se reconhecer a qualidade dos Espíritos
nos princípios seguintes:
1°) Não existe outro critério para discernir o valor dos Espíritos além do
bom senso. Qualquer fórmula dada a esse respeito pelos próprios
302 – Allan Kardec
Espíritos é absurda e não pode vir dos Espíritos superiores.
2°) Julgamos os Espíritos pela sua linguagem e pelas suas ações. As ações
dos Espíritos são os sentimentos que eles inspiram e os conselhos que
oferecem.
3°) Sendo admitido que os bons Espíritos só podem dizer e fazer o bem,
então tudo o que é mau não pode vir de um Espírito bom.
4°) Os Espíritos superiores têm uma linguagem sempre digna, nobre,
elevada, sem mistura com nenhuma trivialidade; eles dizem tudo com
simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam nem se gabam de sua
sabedoria ou de sua posição entre os outros. Já a linguagem dos
Espíritos inferiores ou vulgares sempre trazem um reflexo das paixões
humanas; toda expressão que tenha baixeza, pretensão, arrogância,
fanfarronice, grosseria, é um indício característico de inferioridade —
ou de falsidade, se o Espírito se apresentar com um nome respeitável e
venerado.
5°) Não se deve julgar os Espíritos pela forma material e pela correção do
estilo, mas sim sondar o seu significado íntimo, escrutinar suas
palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem preconceito. Todo
desvio da lógica, da razão e da sabedoria não permite deixar dúvida
quanto à sua origem, seja qual for o nome com o qual o Espírito se
enfeite. (Item 224.)
6°) A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica — senão na
forma, pelo menos na essência. As ideias são as mesmas, em qualquer
tempo e lugar; elas podem ser mais ou menos desenvolvidas, conforme
as circunstâncias, as necessidades e as facilidades para se comunicar;
mas não serão contraditórias. Se duas comunicações que trazem o
mesmo nome estiverem em oposição uma com a outra, uma delas é
evidentemente falsa, e a verdadeira será aquela em que NADA desminta
o caráter conhecido do personagem. Entre duas comunicações
assinadas, por exemplo, por são Vicente de Paulo e que uma delas
pregasse a união e a caridade, enquanto a outra tendesse a semear a
discórdia, não há ninguém sensato que pudesse se confundir a respeito.
303 – O Livro dos Médiuns
7°) Os bons Espíritos só dizem o que sabem; eles se calam ou confessam
sua ignorância sobre o que desconhecem. Os maus falam de tudo com
confiança, sem se preocupar com a verdade. Toda heresia científica
flagrante e todo princípio que choca o bom senso revela a fraude
quando o Espírito se considera um Espírito esclarecido.
8°) Reconhecemos ainda os Espíritos levianos pela facilidade com a qual
eles predizem o porvir e especificam fatos materiais que não nos é
permitido conhecer. Os bons Espíritos podem fazer pressentir as coisas
futuras, quando esse pressentimento pode ser útil, porém nunca
determinam datas; qualquer anúncio de eventos para uma certa época
é um indício de mistificação.
9°) Espíritos superiores se expressam com simplicidade, sem prolixidade;
seu estilo é conciso, sem excluir a poesia das ideias e das expressões,
claro, compreensível para todos e não demandar esforço para ser
entendido; eles têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras,
porque cada palavra tem a sua aplicação. Os Espíritos inferiores, ou
falsos sábios, escondem sob o enfeite e a ênfase o vazio de suas ideias.
Sua linguagem comumente é pretensiosa, ridícula ou obscura, à força de
querer parecer sofisticada.
10°) Os bons Espíritos nunca ordenam: eles não se impõem, mas
aconselham, e se não são escutados, retiram-se. Os maus são
imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e persistem de toda
forma. Todo Espírito que se impõe trai a sua procedência. Eles são
exclusivistas e absolutos em suas opiniões, e pretendem que só eles
tenham o privilégio da verdade. Exigem uma crença cega e não
recorrem à razão, porque sabem que a razão os desmascararia.
11°) Os bons Espíritos não bajulam ninguém; aprovam quando fazemos o
bem, mas sempre com reserva; já os maus fazem elogios exagerados,
estimulam o orgulho e a vaidade, embora pregando a humildade, e
procuram exaltar a importância pessoal dos que eles querem cooptar.
12°) Os Espíritos superiores estão acima da infantilidade da forma em
todas as coisas. Só os Espíritos vulgares dão importância a detalhes
304 – Allan Kardec
mesquinhos, incompatíveis com as ideias verdadeiramente elevadas.
Toda prescrição meticulosa é um sinal certo de inferioridade e de
misticismo da parte de um Espírito que tome um nome imponente.
13°) É preciso desconfiar dos nomes estranhos e ridículos que alguns
Espíritos adotam quando querem se impor à fé; seria extremamente
absurdo levar tais nomes a sério.
14°) Devemos igualmente desconfiar daqueles Espíritos que se apresentam
muito facilmente sob nomes extremamente venerados, e não aceitar
suas mensagens senão com bastante cuidado; é aí sobretudo que se faz
indispensável uma verificação severa, pois isso muitas vezes não passa
de uma máscara que eles usam para fazer as pessoas acreditarem em
alegadas relações íntimas com os Espíritos extraordinários. Por esse
meio, eles bajulam a vaidade do médium e se aproveitam disso para
induzi-lo com frequência a atitudes lamentáveis e ridículas.
15°) Os bons Espíritos são bastante zelosos quanto às atitudes que eles
possam aconselhar; em todos os casos, eles não têm nada além de um
objetivo sério e eminentemente útil. Por isso, devemos olhar como
suspeitas todas as atitudes que não tenham esse caráter ou que sejam
condenáveis pela razão, e então refletir maduramente antes de as
adotar, senão ficaríamos expostos a mistificações desagradáveis.
16°) Também reconhecemos os bons Espíritos pelo seu prudente cuidado
com todas as coisas que possam comprometer; eles repugnam expor o
mal, ao passo que os Espíritos levianos ou maliciosos gostam de os
exibir. Enquanto os bons buscam atenuar os erros e pregam a
indulgência, os maus exageram os erros e sopram a discórdia com
insinuações traiçoeiras.
17°) Os bons Espíritos só sugerem o bem. Qualquer máxima ou qualquer
conselho que não for estritamente conforme a mais pura caridade
evangélica não pode ser obra de bons Espíritos.
18°) Jamais os bons Espíritos aconselham algo que não seja perfeitamente
racional; qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom
senso ou das leis imutáveis da natureza revela um Espírito limitado e,
305 – O Livro dos Médiuns
por conseguinte, pouco digno de confiança.
19°) Os Espíritos maus ou simplesmente imperfeitos se traem também por
sinais materiais com os quais ninguém poderia se confundir. A sua ação
sobre o médium algumas vezes é violenta e provoca, no médium,
movimentos bruscos e intermitentes, uma agitação febril e convulsiva
que contrasta com a calma e a doçura dos bons Espíritos.
20°) Os Espíritos imperfeitos se aproveitam bastante dos meios de
comunicação de que eles dispõem para dar conselhos traiçoeiros; eles
excitam a desconfiança e a ira contra aqueles que lhes são antipáticos;
sobretudo os que podem lhes desmascarar as imposturas são objeto de
sua maior repulsa.
Os homens fracos são seus alvos, para lhes induzir ao mal.
Empregando alternadamente sofismas, sarcasmos, injúrias e até sinais
materiais do seu poder oculto, para melhor convencê-los, eles tratam de
desviá-los da senda da verdade.
21°) Os Espíritos dos homens que na Terra tiveram uma única preocupação
— material ou moral —, se não tiverem se desprendido da influência da
matéria, ainda continuam sob o império das ideias terrenas e trazem
consigo uma parte dos preconceitos, das predileções e até das manias
que tinham neste mundo. É isso o que é fácil de reconhecer pela sua
linguagem.
22°) Os conhecimentos de que alguns Espíritos se enfeitam — às vezes com
uma espécie de ostentação — não são um sinal da superioridade deles.
A inalterável pureza dos sentimentos morais a esse respeito é a
referência verdadeira.
23°) Não basta interrogar um Espírito para conhecer a verdade;
precisamos antes de tudo saber a quem nos dirigimos, pois os Espíritos
inferiores — ignorantes como eles são — tratam com frivolidade as
questões mais sérias.
Também não basta que um Espírito tenha sido um grande homem
na Terra para ter no mundo espírita a suprema ciência. Só a virtude,
purificando-o, pode aproximá-lo de Deus e ampliar sua sabedoria.
306 – Allan Kardec
24°) Da parte dos Espíritos superiores, o humor muitas vezes é fino e
agudo, porém nunca vulgar. Nos Espíritos gaiatos que não são
grosseiros, a sátira mordaz é frequentemente muito apropriada.
25°) Ao estudar cuidadosamente o caráter dos Espíritos que se apresentam
— sobretudo do ponto de vista moral —, reconhecemos sua natureza e
o grau de confiança que podemos lhe conceder. O bom senso não
poderia enganar.
26°) Para julgar os Espíritos, assim como para julgar os homens, é preciso
primeiramente saber julgar-se a si mesmo. Infelizmente, há muita gente
que toma sua própria opinião como parâmetro exclusivo do bem e do
mal, do verdadeiro e do falso; tudo o que contradiga sua maneira de
ver, suas ideias e a teoria que conceberam ou adotaram é mau aos olhos
deles. Para essas pessoas falta evidentemente a qualidade primordial
para uma correta apreciação: a retidão do julgamento. Mas eles nem
suspeitam disso; esse é o defeito com o qual os homens mais se iludem.
Todas estas instruções decorrem da experiência e do ensino dado pelos
Espíritos; nós as completamos com as próprias respostas que eles deram
sobre os pontos mais importantes.
- Questões sobre a natureza e a identidade dos Espíritos:
1ª) Por quais sinais nós podemos reconhecer a superioridade ou a
inferioridade dos Espíritos?
“Pela sua linguagem, como vocês distinguem um tolo de um homem
sensato. Já dissemos que os Espíritos superiores não se contradizem nunca e
só dizem coisas boas; só querem o bem; esta é a sua preocupação.
“Os Espíritos inferiores ainda se encontram sob o império das ideias
materiais; seus discursos se ressentem de sua ignorância e sua imperfeição.
Somente aos Espíritos superiores é permitido conhecer todas as coisas e as
julgar sem paixão.”
2ª) A ciência é sempre um sinal certo da elevação de um Espírito?
“Não, pois ele ainda está sob a influência da matéria e pode ter os vícios
e os preconceitos de vocês. Há pessoas que neste mundo são excessivamente
307 – O Livro dos Médiuns
invejosas e orgulhosas; vocês acham que elas perdem esses defeitos logo que
deixam a Terra? Depois que partem daqui, resta-lhes — sobretudo naquelas
que tiveram paixões bem definidas — um tipo de atmosfera que lhes envolve
e lhes deixa todas essas coisas más.
“Esses Espíritos semi-imperfeitos são mais temíveis do que os maus
Espíritos, porque a maioria deles combina a astúcia e o orgulho com a
inteligência. Pelo seu pretenso saber, eles se impõem às pessoas simples e aos
ignorantes, que aceitam suas teorias absurdas e mentirosas sem verificação.
Embora essas teorias não possam prevalecer contra a verdade, nem por isso
deixam de produzir um mal momentâneo, pois entravam a marcha do
espiritismo, e os médiuns cegam-se voluntariamente quanto ao mérito do que
lhes é comunicado. Esse é o ponto que demanda um estudo muito profundo
da parte dos espíritas esclarecidos e dos médiuns; é para distinguir o
verdadeiro do falso que se deve direcionar toda a atenção.”
3ª) Muitos Espíritos protetores se designam pelos nomes de santos ou
de personagens conhecidos; o que devemos pensar disso?
“Todos os nomes de santos e de personagens conhecidos não bastariam
para fornecer um protetor a cada homem; entre os Espíritos, há poucos que
tenham um nome conhecido na Terra: é por isso que com muita frequência
eles não se dão nenhum nome, mas na maioria das vezes vocês querem um
nome e então, para lhes satisfazer, os Espíritos adotam o de um homem que
vocês conheceram e respeitam.”
4ª) Esse nome emprestado não poderia ser considerado uma fraude?
“Seria uma fraude da parte de um Espírito mau que quisesse enganar,
mas quando é para o bem, Deus permite que seja assim entre os Espíritos da
mesma ordem, pois entre eles há solidariedade e igualdade de pensamentos.”
5ª) Assim, quando um Espírito protetor diz ser são Paulo, por exemplo,
não é certo que seja o Espírito mesmo ou a alma do apóstolo desse nome?
“De modo algum, pois vocês podem encontrar milhares de pessoas a
quem foi dito que seu anjo guardião é são Paulo, ou qualquer outro. Mas, que
importa isso, se o Espírito que os protege é tão elevado quanto são Paulo? Eu
já o disse: como vocês precisam de um nome, eles adotam um para ser
308 – Allan Kardec
chamado e reconhecido, assim como vocês tomam os nomes de batismo para
se distinguirem dos outros membros da família. Também os Espíritos podem
usar os nomes dos arcanjos (Rafael, são Miguel etc.), sem que isso tenha
consequências.
“Além do mais, quanto mais elevado é o Espírito, maior é sua irradiação.
Portanto, creiam que um Espírito protetor de uma ordem muito elevada pode
ter sob sua tutela centenas de encarnados. Entre vocês na Terra, vocês têm
pessoas notáveis que se encarregam dos negócios de cem e de duzentas
famílias; por que, espiritualmente falando, vocês haveriam de querer que nós
fôssemos menos aptos para a direção moral dos homens, do que os homens
para a direção material dos seus próprios interesses?”
6ª) Por que os Espíritos que se comunicam frequentemente usam nomes
dos santos?
“Eles se identificam com os hábitos daqueles a quem falam e adotam os
nomes mais apropriados para causar uma maior impressão nos homens em
razão de suas crenças.”
7ª) Certos Espíritos superiores que nós evocamos vêm sempre
pessoalmente ou, como algumas pessoas acreditam, eles enviam um
representante encarregado de transmitir o pensamento deles?
“Por que não viriam pessoalmente, se puderem? Mas se o Espírito não
puder vir, obviamente será um mensageiro.”
8ª) O mensageiro é sempre suficientemente esclarecido para responder
como faria o Espírito que o envia?
“Os Espíritos superiores sabem a quem eles confiam o cuidado de lhes
substituir. Aliás, quanto mais os Espíritos são elevados, mais eles se fundem
num pensamento comum, de tal sorte que para eles a personalidade é uma
coisa indiferente — e deve ser o mesmo para vocês. Então vocês acham que
no mundo dos Espíritos superiores só há aqueles que vocês conheceram na
Terra capazes de os instruírem? Vocês são tão inclinados a se considerarem
como os protótipos do universo que sempre supõem que fora do vosso
mundo não haja mais nada. Vocês realmente se assemelham a esses selvagens
que nunca saíram de sua ilha e acreditam que o mundo não vai além dela.”
309 – O Livro dos Médiuns
9ª) Compreendemos que seja assim quando se trata de um ensinamento
sério; mas como os Espíritos elevados podem permitir que Espíritos de baixo
nível se enfeitem com nomes respeitáveis para induzir os homens ao erro por
meio de máximas geralmente perversas?
“Não é com a permissão dos Espíritos superiores que eles fazem isso; o
mesmo não ocorre entre vocês? Aqueles que assim enganam serão punidos
também, acreditem, e a punição deles será proporcional à gravidade da
impostura. Ademais, se vocês não fossem imperfeitos, teriam ao vosso redor
somente bons Espíritos, e se são enganados, devem se queixar só de vocês
mesmos. Deus permite que seja assim para provar vossa perseverança e
vosso discernimento, ensinando-lhes a distinguir a verdade do erro; se não o
fazem, é que não estão bastante elevados e ainda têm necessidade das lições
da experiência.”
10ª) Espíritos pouco adiantados, porém animados de boas intenções e
do desejo de progredir, podem às vezes ser designados para substituir um
Espírito superior, a fim de lhes fornecer a ocasião de exercer o ensino?
“Jamais nos grandes centros; quero dizer, nos centros sérios e para um
ensino geral. Os que aí se apresentam o fazem sempre por conta própria, e
como vocês dizem, para se exercitar. Eis por que suas comunicações — ainda
que boas — trazem sempre os traços de sua inferioridade. Quando eles são
designados, é somente para as comunicações pouco importantes e para
aquelas que podemos chamar de pessoais.”
11ª) As comunicações espíritas ridículas algumas vezes se mostram
entremeadas de citações muito boas; como conciliar essa anormalidade, que
parece indicar a presença simultânea de bons e maus Espíritos?
“Os Espíritos malvados ou levianos também se metem a enunciar
sentenças sem perceberem bem o alcance ou a significação delas. Todos
aqueles que entre vocês fazem isso, por acaso são homens superiores? Não; os
bons e os maus Espíritos não andam juntos; é pela uniformidade constante
das boas comunicações que reconhecerão a presença dos bons Espíritos.”
12ª) Espíritos que induzem ao erro sempre o fazem conscientemente?
“Não; há Espíritos bons, mas ignorantes, que podem se iludir de boa-fé;
310 – Allan Kardec
quanto eles têm consciência de sua incapacidade, eles a admitem e só dizem o
que sabem.”
13ª) Quando um Espírito dá uma comunicação falsa, ele faz isso sempre
com uma intenção maléfica?
“Não; se for um Espírito leviano, ele apenas se diverte a mistificar, e não
tem outro intuito.”
14ª) Já que alguns Espíritos podem enganar pela sua linguagem, eles
também poderiam tomar uma falsa aparência aos olhos de um médium
vidente?
“Isso acontece, porém muito dificilmente. Em todo o caso, isso nunca
ocorreu senão com uma finalidade que nem os próprios Espíritos maus
conhecem. Eles servem de instrumentos para dar uma lição. O médium
vidente pode ver Espíritos levianos e mentirosos como outros os ouvem ou
escrevem sob a influência deles. Os Espíritos levianos podem se aproveitar
dessa disposição para enganá-lo por aparências enganosas; isso depende das
qualidades do Espírito do próprio médium.”
15ª) Para não ser enganado, basta estar cheio de boas intenções? E os
homens sérios, que não misturam nenhum sentimento de vã curiosidade com
os seus estudos; também eles estão sujeitos a ser enganados?
“Menos do que os outros, evidentemente; mas o homem tem sempre
alguns pontos fracos que atraem os Espíritos brincalhões; ele se julga forte e
muitas vezes não o é; portanto, ele deve desconfiar da fraqueza que nasce do
orgulho e dos preconceitos. Ninguém leva bastante em conta estas duas
causas de que os Espíritos se beneficiam; lisonjeando as manias, eles estão
certos do sucesso.”
16ª) Por que Deus permite que maus Espíritos se comuniquem e digam
coisas más?
“Mesmo naquilo que há de mais maligno, sempre há um ensinamento;
cabe a vocês saber colhê-lo. Faz-se necessário que haja comunicações de
todos os tipos para vocês aprenderem a distinguir os bons Espíritos dos maus,
e para que se sirvam de espelho a vocês mesmos.”
311 – O Livro dos Médiuns
17ª) Os Espíritos podem, por meio de comunicações escritas, inspirar
injustas desconfianças contra determinadas pessoas e separar amigos?
“Espíritos perversos e invejosos podem fazer tudo de mal que os homens
fazem; é por isso que se deve estar atento. Os Espíritos superiores são sempre
prudentes e reservados quando têm o que censurar; eles não dizem por mal:
eles advertem cautelosamente. Se querem, no seu interesse, que duas pessoas
deixem de se ver, eles farão surgir incidentes que as separarão de uma
maneira natural. Uma linguagem própria para semear a discórdia e a
desconfiança é sempre obra de um Espírito mau, qualquer que seja o nome
que adote. Então, não aceitem senão com muita cautela quando um Espírito
falar mal de um de vocês, sobretudo quando um bom Espírito já tiver falado
bem dessa pessoa, e desconfiem também de si mesmos e de vossas próprias
prevenções. Das comunicações dos Espíritos, recebam apenas o que houver
de bom, de elevado, de racional e o que a vossa consciência aprova.”
18ª) Pela facilidade com a qual os maus Espíritos se intrometem nas
comunicações, não parece que nunca temos certeza da verdade?
“Não é bem assim, pois vocês têm um senso crítico para analisar as
comunicações. Pela leitura de uma carta, vocês sabem muito bem reconhecer
se foi um mal-educado ou um cavalheiro, um tolo ou um sábio que a escreveu;
por que não poderiam fazer o mesmo quando são os Espíritos quem lhes
escreve? Se vocês receberem uma carta de um amigo ausente, o que lhes
provaria que a carte vem dele? Sua caligrafia, vocês dirão; mas, não há
falsificadores que imitam todas as letras e malandros que podem conhecer os
assuntos de vocês? Entretanto, há sinais com os quais vocês não se
confundirão; é o mesmo caso com relação aos Espíritos. Então, imaginem que
é um amigo quem escreve, ou que vocês estejam lendo a obra de um escritor,
e julguem pelos mesmos meios.”
19) Os Espíritos superiores poderiam impedir os maus Espíritos de
tomarem falsos nomes?
“Certamente que eles podem; porém, quanto mais os Espíritos forem
maldosos, mais teimosos eles serão, e muitas vezes eles resistem às injunções.
Também é preciso que vocês saibam que há pessoas pelas quais os Espíritos
312 – Allan Kardec
superiores se interessam mais do que por outras, e quando eles julgam
necessário, eles sabem protegê-las do alcance da mentira; contra essas
pessoas os Espíritos enganadores são impotentes.”
20ª) Qual é o motivo dessa parcialidade?
“Não é questão de parcialidade, mas sim de justiça; os bons Espíritos se
interessam pelos que aproveitam os seus conselhos e trabalham seriamente
para o seu próprio melhoramento; os Espíritos preferem estes e os ajudam;
mas pouco se preocupam com aqueles com os quais perdem tempo com belas
palavras.”
21ª) Por que Deus permite que os Espíritos cometam o sacrilégio de
usarem falsamente nomes venerados?
“Vocês também poderiam perguntar por que Deus permite que os
homens mintam e blasfemem. Assim como os homens, os Espíritos têm o seu
livre-arbítrio para o bem tanto quanto para o mal; mas nem aos Espíritos nem
aos homens faltará a justiça de Deus.”
22ª) Há fórmulas eficazes para afastar os Espíritos enganadores?
“Fórmula é matéria; pensamento bom dirigido a Deus vale muito mais.”
23ª) Alguns Espíritos dizem possuir sinais gráficos inimitáveis, espécies
de emblemas, que podem revelar e comprovar sua identidade; isso é verdade?
“Os Espíritos superiores não têm nenhum outro sinal para serem
reconhecidos além da superioridade das suas ideias e da sua linguagem.
Todos os Espíritos podem imitar um sinal material. Quanto aos Espíritos
inferiores, esses se traem de tantas maneiras que seria preciso ser cego para
se deixar enganar.”
24ª) Espíritos enganadores também não podem imitar o pensamento?
“Imitam o pensamento como os cenários do teatro imitam a natureza.”
25ª) Será que é sempre tão fácil descobrir a fraude por um estudo atento?
“Não duvidem disso; os Espíritos só enganam os que se deixam enganar.
Mas é preciso ter olhos de mercador de diamantes para distinguir a pedra
verdadeira da falsa. Ora, aquele que não sabe diferenciar a pedra preciosa da
pedra falsa se dirige ao lapidário.”
313 – O Livro dos Médiuns
26ª) Há pessoas que se deixam seduzir por uma linguagem enfática, que
valorizam as palavras mais do que as ideias, que até tomam ideias falsas e
vulgares por sublimes; como essas pessoas, que não estão aptas a julgar nem
as obras dos homens, podem julgar as dos Espíritos?
“Quando essas pessoas têm modéstia o bastante para reconhecer a sua
incapacidade, elas não respondem por si mesmas; quando por orgulho elas se
julgam mais capazes do que são, acabam pagando o preço da sua tola vaidade.
Os Espíritos trapaceiros sabem bem a quem se dirigem; há pessoas simples e
pouco instruídas mais difíceis de enganar do que outras que têm pose e saber.
Ao lisonjear as paixões, os Espíritos fazem do homem tudo o que querem.”
27ª) Na escrita, algumas vezes os maus Espíritos se traem por sinais
materiais involuntários?
“Os hábeis, não; mas os desajuizados se perdem. Todo sinal inútil e
infantil é um indício certo de inferioridade; já os Espíritos elevados, estes não
fazem nada de inútil.”
28ª) Muitos médiuns reconhecem os bons e os maus Espíritos pela
impressão agradável ou penosa que sentem ao se aproximar deles.
Perguntamos se a impressão desagradável, a agitação convulsiva, o mal-estar,
enfim, sempre são indícios da má natureza dos Espíritos que se manifestam?
“O médium experimenta as sensações do estado em que se encontra o
Espírito que vem até ele. Quando o Espírito está feliz, ele fica tranquilo, leve,
calmo; quando está infeliz, ele fica agitado, febril, e essa agitação passa
naturalmente para o sistema nervoso do médium. Aliás, é assim também com
o homem na Terra: aquele que é bom vive calmo e tranquilo; aquele que é
mau vive constantemente agitado.”
Nota – Existem médiuns de maior ou menor impressionabilidade nervosa e por isso
a agitação não poderia ser considerada como uma regra absoluta; aqui, como em tudo,
devemos levar em conta as circunstâncias. O caráter doloroso e desagradável da
impressão é um efeito de contraste, pois se o Espírito do médium simpatiza com o mau
Espírito que se manifesta, ele será pouco ou nada afetado. De resto, é preciso não
confundir a rapidez da escrita — que depende da extrema flexibilidade de certos
médiuns — com a agitação convulsiva que os médiuns mais lentos podem experimentar
ao contato dos Espíritos imperfeitos.
314 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXV
EVOCAÇÕES
Considerações gerais – Espíritos que podemos evocar
– Linguagem a ser usada com os Espíritos –
Utilidade das evocações particulares – Questões sobre evocações
– Evocações de animais – Evocações de pessoas vivas –
Telegrafia humana.
Considerações gerais
- Os Espíritos podem se comunicar espontaneamente ou atender ao nosso
chamado, ou seja, por evocação. Algumas pessoas pensam que todos devem
evitar evocar este ou aquele Espírito e que é preferível esperar aquele que
bem queira se comunicar. Elas se baseiam naquela opinião que, chamando um
determinado Espírito, não se pode ter certeza de que seja ele quem se
apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente e por sua própria
ação prova melhor a sua identidade, pois assim mostra o desejo que tem de
estar em contato conosco. Na nossa opinião, isso é um erro: primeiramente
porque sempre há em torno de nós Espíritos — na maioria das vezes de baixo
nível — que não querem outra coisa senão se comunicar; em segundo lugar e
até por esta última razão, não chamar nenhum em particular é abrir a porta
para todos os que queiram entrar. Numa reunião, não dar a palavra a ninguém
é deixá-la livre a todo mundo, e nós sabemos o que isso resulta. O chamado
direto feito a um determinado Espírito representa um laço entre ele e nós:
nós o chamamos pelo nosso desejo e assim impomos uma espécie de barreira
aos intrusos. Sem um chamado direto, um Espírito normalmente não teria
nenhum motivo para vir até nós, se não for um Espírito familiar nosso.
315 – O Livro dos Médiuns
Cada uma destas duas maneiras de proceder tem suas vantagens, e a
desvantagem estaria apenas na exclusão absoluta de uma delas. As
comunicações espontâneas não trazem nenhum inconveniente quando se tem
controle sobre os Espíritos e a certeza de não deixar nenhuma brecha aos
maus; então, muitas vezes é útil esperar a boa vontade dos que desejam se
comunicar, porque seu pensamento não sofre nenhum constrangimento, e
dessa maneira podemos obter coisas admiráveis; enquanto pode ser que o
Espírito chamado não esteja disposto a falar ou não seja capaz de fazê-lo no
sentido desejado. O exame cuidadoso que temos aconselhado é, aliás, uma
garantia contra as más comunicações. Nas reuniões regulares, sobretudo
naquelas onde se realiza um trabalho contínuo, sempre há Espíritos assíduos,
que comparecem sem serem chamados e que, exatamente por causa da
regularidade das sessões, já ficam preparados: muitas vezes eles tomam a
palavra espontaneamente para tratar de um assunto qualquer, desenvolver
uma proposição ou recomendar o que se deva fazer, e então eles são
facilmente reconhecidos, seja pela forma da linguagem que é sempre idêntica,
seja pela escrita, seja por certos hábitos que lhes são familiares.
- Quando desejamos nos comunicar com um determinado Espírito, é
absolutamente necessário evocá-lo (Item 203). Se ele pode vir, geralmente
nós obtemos como resposta: Sim; ou: Eu estou aqui; ou ainda: O que querem
de mim? Às vezes ele entra diretamente no assunto, respondendo por
antecipação às questões que queríamos lhes propor.
Quando um Espírito é evocado pela primeira vez, convém distingui-lo
com alguma precisão. Nas perguntas que lhe são endereçadas, é preciso evitar
as formas secas e imperativas, que seriam para ele um motivo de afastamento.
Essas formas devem ser afetuosas e respeitosas, conforme o Espírito, e em
todos os casos devem demonstrar a gentileza do evocador.
- Muitas vezes ficamos surpresos com a prontidão com que um Espírito
evocado se apresenta — mesmo na primeira vez: é como se ele já estivesse
preparado; de fato, é o que acontece quando preparamos de antemão a sua
evocação. Essa preparação é uma espécie de evocação antecipada, e como nós
316 – Allan Kardec
sempre temos conosco os nossos Espíritos familiares que se identificam com
o nosso pensamento, eles preparam os caminhos de tal sorte que, se não se
opuser, o Espírito que desejamos chamar já se acha presente. Em caso
contrário, é o Espírito familiar do médium, do interrogador ou ainda o de um
dos frequentadores que vai buscá-lo — o que não leva muito tempo. Quando o
Espírito evocado não pode vir imediatamente, o mensageiro (os pagãos
diriam Mercúrio73) marca um prazo, às vezes de cinco minutos, quinze
minutos, uma hora e meia ou até vários dias; quando ele chega, o mensageiro
diz: Ele está aqui; e então podemos começar as perguntas que queremos lhe
fazer.
O mensageiro nem sempre é um intermediário necessário, pois o
chamado do evocador pode ser escutado diretamente pelo Espírito, assim
como será dito adiante (item 282, 5ª pergunta) sobre o modo de transmissão
do pensamento.
Quando dizemos para que se faça a evocação em nome de Deus,
esperamos que a nossa recomendação seja levada a sério e não levianamente;
aqueles que não vissem nisso nada mais do que uma fórmula sem
consequências fariam melhor abstendo-se.
- Frequentemente, as evocações oferecem mais dificuldades aos médiuns
do que os ditados espontâneos, sobretudo quando se trata de obter respostas
precisas a questões circunstanciadas. Para isto, precisamos de médiuns
especiais, ao mesmo tempo flexíveis e positivos, e já vimos (item 193) que
estes últimos são bastante raros, pois, assim como nós dissemos, as relações
fluídicas nem sempre se estabelecem instantaneamente com o primeiro
Espírito que apareça. Daí por que é útil que os médiuns não se entreguem às
evocações detalhadas senão depois de estarem seguros do desenvolvimento
de sua faculdade e da natureza dos Espíritos que os auxiliam, visto que com
aqueles que são mal auxiliados as evocações podem não ter nenhum caráter
de autenticidade. - Os médiuns são geralmente muito mais procurados para as evocações de
73 Mercúrio: menção ao personagem da mitologia latina designado como o mensageiro dos deuses,
equivalente a Hermes, na mitologia grega. — N. T.
317 – O Livro dos Médiuns
interesse particular do que para comunicações de um interesse geral; isto se
explica pelo desejo muito natural que nós temos de conversar com os nossos
entes queridos. Quanto a isso, acreditamos que devemos fazer algumas
recomendações importantes aos médiuns. Primeiramente, que não atendam a
esse desejo — senão com muita reserva — diante de pessoas de cuja
sinceridade não estejam completamente seguros, e que tomem cuidado com
as armadilhas que pessoas malvadas posam lhes preparar. Em segundo lugar,
que não utilizem tais evocações sob nenhum pretexto se perceberem um
objetivo de simples curiosidade ou de interesse, e não uma intenção séria da
parte do evocador; que se recusem a fazer qualquer pergunta inútil ou que
saia do âmbito daquelas que podemos racionalmente remeter aos Espíritos.
As perguntas devem ser feitas com clareza, com honestidade e sem segundas
intenções, caso se queira respostas categóricas. Portanto, é necessário rejeitar
todas aquelas que tenham um caráter insidioso, porque sabemos que os
Espíritos não gostam das que têm por finalidade lhes pôr à prova; insistir em
questões desta natureza é querer ser enganado. O evocador deve ir direto ao
ponto de forma franca e aberta, sem subterfúgios e sem rodeios; se receia se
explicar, será melhor que se abstenha.
E ainda, na ausência das pessoas que pedem evocações, convém só fazer
essas evocações com muita prudência, e muitas vezes é até preferível abster-
se totalmente de fazê-las, já que só essas pessoas são aptas a analisar as
respostas, a julgar a identidade, a pedir esclarecimentos se for oportuno, e a
formular questões ocasionais suscitadas pelas circunstâncias. Além disso, a
presença delas é um laço que atrai o Espírito, por vezes pouco disposto a se
comunicar através de estranhos com quem ele não tem nenhuma intimidade.
O médium, enfim, deve evitar tudo o que possa transformá-lo em agente de
consulta, o que, aos olhos de muita gente, é sinônimo de cartomante.
Espíritos que podemos evocar
- Podemos evocar todos os Espíritos, qualquer que seja o grau da escala a
que eles pertençam: tanto os bons quanto os maus, desde os que deixaram a
318 – Allan Kardec
vida a pouco tempo como aqueles que viveram nas épocas mais antigas, dos
homens ilustres até os anônimos, os nossos parentes e amigos, assim como os
que não conhecemos; mas isto não quer dizer que sempre eles queiram ou
possam atender ao nosso chamado. Independente da própria vontade deles
ou da permissão — que lhes pode ser recusada por uma força superior — eles
podem ser impedidos de atender à evocação, por motivos que nem sempre
nos é permitido saber. Queremos dizer que não há impedimento absoluto que
se oponha às comunicações, salvo o que diremos adiante; os obstáculos que
podem impedir um Espírito de se manifestar são quase sempre individuais e
muitas vezes têm a ver com as circunstâncias.
- Entre as causas que podem se opor à manifestação de um Espírito,
algumas têm a ver com ele e outras são questões externas. Entre as primeiras,
devemos colocar suas ocupações ou as missões que ele esteja cumprindo e
das quais ele não pode se afastar para ceder aos nossos desejos; neste caso,
sua visita é apenas adiada.
Há também a sua própria situação. Se bem que o estado de encarnação
não seja um obstáculo absoluto, pode ser um impedimento em certos
momentos, sobretudo quando essa encarnação ocorre nos mundos inferiores
e quando o próprio Espírito está pouco desmaterializado. Nos mundos
superiores, naqueles em que os laços entre o Espírito e a matéria são muito
fracos, a manifestação é quase tão fácil quanto no estado errante, e em todos
os casos mais fácil do que nos mundos onde a matéria corporal é mais
compacta.
As causas externas têm a ver principalmente com a natureza do médium,
com a da pessoa que evoca, com o meio no qual se faz a evocação e, enfim,
com a finalidade a que se propõem. Alguns médiuns recebem mais
particularmente comunicações de seus Espíritos familiares, que podem ser
mais ou menos elevados; outros são aptos a servir de intermediários a todos
os Espíritos; isso depende da simpatia ou da antipatia, da atração ou da
repulsão que o Espírito pessoal do médium exerce sobre o outro Espírito, que
pode tomá-lo por intérprete com prazer ou com repugnância. Isso também
depende — apesar das qualidades íntimas do médium — do desenvolvimento
319 – O Livro dos Médiuns
da faculdade medianímica. Os Espíritos vêm mais voluntariamente e
sobretudo são mais explícitos com um médium que não lhes ofereça nenhum
obstáculo físico. Aliás, havendo total igualdade de condições morais, quanto
mais facilidade tenha o médium para escrever ou para se expressar mais suas
relações com o mundo espírita se generalizam.
- É preciso ainda levar em conta a facilidade que deve proporcionar o
hábito de ser comunicar com esse ou aquele Espírito; com o tempo, o Espírito
estranho se identifica com o do médium e ainda com aquele que o chama.
Fora a questão da simpatia, estabelecem-se entre eles relações fluídicas que
tornam as comunicações mais rápidas; é por isso que um primeiro encontro
nem sempre é tão satisfatório quanto poderíamos desejar, e é por isso
também que os próprios Espíritos pedem frequentemente para serem
chamados de novo. O Espírito que vem habitualmente se sente em casa:
familiariza-se com seus ouvintes e intérpretes; ele fala e age mais livremente. - Resumindo, do que acabamos de dizer, resulta que a faculdade de evocar
todo e qualquer Espírito não significa que o Espírito seja obrigado a ficar às
nossas ordens; que ele pode vir num momento e não vir em outro, com um
médium ou um evocador que lhe agrade e não com outro; que ele pode dizer o
que quiser sem ser constrangido a dizer o que ele não queira; que ele pode ir
embora quando lhe agradar; que, finalmente, por causas dependentes ou não
da sua vontade, depois de se mostrar assíduo durante algum tempo, ele de
repente pode deixar de vir.
É por todos esses motivos que, quando se deseja chamar um novo
Espírito, é necessário perguntar ao seu guia protetor se a evocação é possível;
caso não seja, ele geralmente explica os motivos, e então é inútil insistir.
- Uma questão importante se apresenta aqui: a de saber se existe ou não
alguma inconveniência em evocar maus Espíritos. Isso depende do objetivo
almejado e da superioridade que se possa ter sobre eles. A inconveniência é
nula quando os chamamos com um propósito sério, instrutivo e tendo em
vista melhorá-los; mas, ao contrário, a inconveniência é muito grande quando
320 – Allan Kardec
se trata de mera curiosidade ou divertimento, e ainda quando nos colocamos
sob a dependência deles, pedindo-lhes um serviço qualquer. Neste caso, os
bons Espíritos podem muito bem lhes dar o poder de fazer o que pedimos,
embora eles possam mais tarde punir severamente o temerário que tivesse
ousado invocar o auxílio dos maus Espíritos acreditando que estes fossem
mais poderosos do que Deus. Seria em vão prometer a si mesmo fazer dali em
diante bom uso desses auxílios e despedir o servidor depois do serviço
prestado; esse mesmo serviço solicitado — por mínimo que seja — é um
verdadeiro pacto firmado com o mau Espírito e este não larga facilmente a
sua presa. (Veja o item 212.)
- A ascendência não pode ser exercida sobre os Espíritos inferiores a não
ser pela superioridade moral. Os Espíritos perversos reconhecem os homens
de bem como seus superiores; diante daquele que os enfrenta apenas com a
energia da vontade, com uma espécie de força bruta, eles lutam e muitas
vezes são os mais fortes. Alguém assim já procurou domar um Espírito
rebelde, pela sua vontade, e o Espírito lhe respondeu: Então me deixe em
paz, com teus ares de valentão, você que não vale mais do que eu; não
pareceria um ladrão dando sermão a outro ladrão?
É de se espantar que o nome de Deus, invocado contra eles, muitas vezes
seja impotente; são Luís nos deu razão na resposta seguinte:
“O nome de Deus só tem influência sobre os Espíritos imperfeitos na
boca daquele que possa se servir desse nome com autoridade por suas
próprias virtudes; na boca de quem não teria sobre tais Espíritos nenhuma
superioridade moral, é um nome como qualquer outro. O mesmo acontece
com as coisas santas que opomos contra aqueles Espíritos. A mais terrível das
armas é inofensiva em mãos inábeis para usá-la ou incapazes de carregá-la.”
Linguagem a ser usada com os Espíritos
- O grau de superioridade ou inferioridade dos Espíritos naturalmente
indica o tom que devemos usar com eles. É evidente que quanto mais eles
sejam elevados mais eles têm direito ao nosso respeito, às nossas
321 – O Livro dos Médiuns
considerações e à nossa submissão. Então não devemos lhes demonstrar
menos respeito do que demonstraríamos se estivessem vivos, mas por outros
motivos: na Terra, nós levaríamos em consideração a categoria e a posição
social deles; no mundo dos Espíritos, a nossa deferência visa só a
superioridade moral. A própria elevação deles os põe acima das infantilidades
das nossas formas de adulação. Não é com palavras que podemos cativar a
benevolência deles, mas pela sinceridade dos sentimentos. Portanto, seria
ridículo lhes dar os títulos que os nossos padrões consagram à distinção das
classes, e que, se vivos, pudessem inflamar a vaidade deles; como eles são
realmente superiores, não somente eles não dão importância a isso como
também deploram tal coisa. Um bom pensamento é mais agradável para eles
do que os epítetos mais elogiosos; se fosse de outro modo, eles não estariam
acima da humanidade. O Espírito de um venerável eclesiástico que foi na
Terra um príncipe da Igreja, homem de bem e um praticante da lei de Jesus,
certa vez respondeu a alguém que o tinha evocado dando-lhe o título de
Monsenhor: “Você deveria dizer pelo menos ex-monsenhor, porque aqui só
tem Deus como Senhor. Saiba bem que eu vejo muitos que se ajoelhavam
diante de mim na Terra, diante dos quais hoje eu mesmo me inclino.”
Quanto aos Espíritos inferiores, o caráter deles nos indica a linguagem
que devemos ter com eles. Há alguns dentre os quais que, conquanto sejam
inofensivos e até sejam gentis, são levianos, ignorantes, estouvados; tratá-los
igual aos Espíritos sérios, assim como certas pessoas fazem, seria o mesmo
que ajoelhar-se diante de um colegial ou de um asno trajado de doutor. O tom
de familiaridade não seria descabido para com eles, e eles não se aborrecem
com isso; eles, ao contrário, aceitam esse tratamento de boa vontade.
Entre os Espíritos inferiores existem muitos que são infelizes. Quaisquer
que sejam as faltas que eles estejam expiando, seus sofrimentos são razões
ainda maiores para nossa comiseração tanto quanto é certo que ninguém
pode se orgulhar de escapar destas palavras do Cristo: “Que atire a primeira
pedra aquele que estiver sem pecado”. A bondade que lhes devotamos
significa um alívio para eles; na falta de simpatia, eles devem encontrar a
indulgência que nós gostaríamos que todos tivessem para conosco.
Os Espíritos que revelam sua inferioridade pelo cinismo da sua
322 – Allan Kardec
linguagem, suas mentiras, a baixeza dos seus sentimentos e a perfídia dos
seus conselhos são seguramente menos dignos do nosso interesse do que
aqueles cujas palavras demonstram arrependimento; nós lhes devemos pelo
menos a piedade que devotamos aos maiores criminosos, e o meio de os
reduzir ao silêncio consiste em mostrar-se superiores a eles: eles só se
familiarizam com as pessoas de quem eles acreditam não ter nada a temer;
pois os Espíritos perversos reconhecem como seus superiores os homens de
bem — tal como os Espíritos elevados.
Em resumo, seria tão desrespeitoso tratar de igual para igual os
Espíritos superiores quanto seria ridículo ter a mesma veneração por todos
sem exceção. Tenhamos veneração para com aqueles que a merecem,
reconhecimento pelos que nos protegem e nos auxiliam, e para todos os
demais uma benevolência de que talvez um dia nós mesmos tenhamos
necessidade. Ao penetrar no mundo incorpóreo nós aprendemos a conhecê-lo
e esse conhecimento deve nos guiar nas nossas relações com os que lá
habitam. Os Antigos, na sua ignorância, levantaram altares para eles; para nós
eles são apenas criaturas mais ou menos perfeitas, e nós só levantamos
altares a Deus.
Utilidade das evocações particulares
- As comunicações que obtemos dos Espíritos muito superiores ou dos
que animaram os grandes personagens da Antiguidade são preciosas pelos
altos ensinamentos que elas contêm. Esses Espíritos adquiriram um grau de
perfeição que lhes permite abranger uma esfera de ideias mais ampla e
penetrar mistérios que ultrapassam o escopo comum da humanidade e, por
isso, nos iniciar melhor do que outros em certas coisas. Não se segue daí que
as comunicações dos Espíritos de uma ordem menos elevada sejam inúteis: o
observador colhe delas muita instrução. Para conhecermos os costumes de
um povo, é preciso estudá-lo em todos os graus da escala. Quem o tenha visto
apenas por uma face o conhece mal. A história de um povo não é a dos seus
reis, nem a das suas sumidades sociais; para julgá-lo, faz-se necessário vê-lo
323 – O Livro dos Médiuns
na vida íntima, nos seus hábitos particulares. Ora, os Espíritos superiores são
as sumidades do mundo espírita; sua própria elevação os coloca bem acima
de nós, que ficamos espantados com a distância que nos separa. Espíritos
mais burgueses (nos perdoem por esta expressão) tornam mais palpáveis
para nós as circunstâncias de sua nova existência. Neles, a ligação entre a vida
corporal e a vida espírita é mais íntima, e a compreendemos melhor, porque
ela está mais perto de nós. Aprendendo por eles mesmos em que se tornaram,
o que pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de
todos os caráteres, tanto os homens de bem como os viciosos, os grandes e os
pequenos, os felizes e os desafortunados do século, numa palavra: os homens
que viveram entre nós, os que vimos e conhecemos, dos quais sabemos a vida
real, as virtudes e as fraquezas, então nós compreendemos suas alegrias e
sofrimentos, nos associamos a eles e deles tiramos um ensinamento moral
tanto mais proveitoso quanto mais íntimas forem as nossas relações com eles.
Nós nos colocamos no lugar daquele que foi nosso igual mais facilmente do
que no lugar de outro que apenas vemos através da miragem de uma glória
celeste. Os Espíritos comuns nos mostram a aplicação prática das grandes e
sublimes verdades, das quais os Espíritos superiores nos ministram a teoria.
A propósito, no estudo de uma ciência nada é inútil: Newton descobriu a lei
das forças do Universo no mais simples dos fenômenos.74
A evocação dos Espíritos comuns tem como outra vantagem nos pôr em
contato com Espíritos sofredores, a quem nós podemos aliviar e cujo
adiantamento pode ser facilitado através de bons conselhos. Então, todos
podem se tornar úteis enquanto se instruem; é egoísmo procurar no contato
com os Espíritos somente a própria satisfação, e aquele que deixa de estender
uma mão socorrista aos que estão infelizes demonstra ao mesmo tempo uma
prova de orgulho. De que lhe serve obter belas recomendações dos Espíritos
de elite se isso não o torna melhor para si mesmo, nem mais caridoso e
benevolente para com seus irmãos deste mundo e do outro? O que seria dos
pobres doentes se os médicos se recusassem a tratar de suas chagas?
74 Allan Kardec aqui se refere ao cientista inglês Isaac Newton (1643-1727) que, de acordo com a versão
histórica tradicional, chegou ao estudo da Lei de Gravidade através do simples fenômeno da queda de
uma maçã que o atingiu enquanto ele estudava sob a sombra da uma macieira. – N. T.
324 – Allan Kardec
- Questões sobre evocações:
1ª) Podemos evocar os Espíritos sem ser médium?
“Todo mundo pode evocar os Espíritos, e se aqueles que vocês
chamarem não puderem se manifestar materialmente, nem por isso eles
deixarão de estar junto de vocês e de escutá-los.”
2ª) O Espírito evocado sempre atende ao chamado feito a ele?
“Isso depende das condições nas quais ele se encontre, porque há
circunstâncias em que o Espírito não pode atender.”
3ª) Quais são as causas que podem impedir um Espírito de atender ao
nosso chamado?
“Primeiro, a sua própria vontade; depois, o seu estado corporal, se
estiver encarnado, as missões de que possa estar encarregado, ou ainda a
permissão que lhe pode ser recusada.
“Há Espíritos que jamais podem se comunicar; são aqueles que, por sua
natureza, ainda pertencem aos mundos inferiores à Terra. Muito menos os
que estão nas esferas de punição — a menos que com uma permissão
superior, que não é concedida a não ser para uma utilidade geral. Para que um
Espírito possa se comunicar é necessário que ele tenha atingido o grau de
avanço do mundo ao qual é chamado, pois do contrário ele será estranho às
ideias desse mundo e não terá nenhuma base de comparação. Não é o mesmo
caso dos que são enviados em missão ou em expiação nos mundos inferiores:
esses têm as ideias necessárias para responder.”
4ª) Por quais motivos a permissão para se comunicar pode ser negada a
um Espírito?
“Pode ser uma prova ou uma punição para ele ou para quem o chama.”
5ª) Como os Espíritos dispersos no espaço ou nos diferentes mundos
podem ouvir as evocações que lhes são feitas de todos os pontos do Universo?
“Muitas vezes, eles são avisados pelos Espíritos familiares que cercam
vocês e que vão procurá-los; mas aqui se passa um fenômeno que é difícil de
explicar a vocês, porque vocês ainda não podem compreender o modo de
transmissão do pensamento entre os Espíritos. O que posso dizer é que o
325 – O Livro dos Médiuns
Espírito evocado, por mais distante que esteja, por assim dizer recebe o
impulso do pensamento como uma espécie de choque elétrico que lhe chama
a atenção para o lado de onde vem o pensamento endereçado a ele. Podemos
dizer que ele escuta o pensamento, como na Terra vocês escutam a voz.”
— O fluido universal é o veículo do pensamento, como o ar é o do som?
“Sim, com a diferença de que o som não pode se fazer ouvir senão
dentro de um raio muito limitado, enquanto o pensamento alcança o
infinito. O Espírito no espaço é como um viajante em meio a uma vasta
planície, e que de repente, ouvindo seu nome ser pronunciado, dirige-se
para o lado de onde o chamam.”
6ª) Sabemos que a distância não é nada para os Espíritos; contudo, nos
admiramos de vê-los algumas vezes responder tão prontamente ao chamado,
como se estivessem muito perto.
“É que de fato às vezes eles realmente estão perto. Se a evocação é
premeditada, o Espírito é avisado de antemão e normalmente fica por perto
antes do momento em que o chamem.”
7ª) O pensamento do evocador pode ser captado de forma mais ou
menos fácil conforme certas circunstâncias?
“Sem nenhuma dúvida; o Espírito chamado por um sentimento
simpático e afetuoso fica tocado mais vivamente: é como uma voz amiga que
ele reconhece; sem isso, acontece muitas vezes que a evocação não sirva. O
pensamento que brota da evocação toca o Espírito; se for mal dirigido, fica
perdido no vazio. Ocorre com os Espíritos o que ocorre com os homens; se
aquele que os chama é indiferente ou antipático para eles, os Espíritos podem
ouvi-lo, mas muitas vezes não o atendem.”
8ª) O Espírito evocado vem voluntariamente ou é constrangido a vir?
“Ele obedece à vontade de Deus, ou seja, à lei geral que rege o Universo e,
portanto, a palavra constrangido não é o termo certo, pois o Espírito julga se é
útil vir: e nesse caso ele ainda tem o livre-arbítrio. O Espírito superior vem
sempre quando é chamado com um propósito útil; não se recusa a responder
a não ser a pessoas pouco sérias e que tratam as coisas como divertimento.”
326 – Allan Kardec
9ª) O Espírito evocado pode se negar a atender ao apelo que lhe é feito?
“Perfeitamente; onde estaria o seu livre-arbítrio se não fosse assim?
Vocês pensam que todos os seres do Universo estejam às vossas ordens? E
quanto a vocês mesmos? Consideram-se obrigados a responder a todos os que
pronunciam vossos nomes? Quando digo que o Espírito pode se recusar,
refiro-me ao pedido do evocador, pois um Espírito inferior pode ser forçado a
vir por um Espírito superior.”
10ª) Existe para o evocador algum meio de obrigar um Espírito a vir a
contragosto?
“Nenhum, se tal Espírito for igual ou superior a vocês em moralidade —
digo em moralidade, e não em inteligência — porque então vocês não têm
nenhuma autoridade sobre ele; mas se ele for inferior, vocês podem obrigá-lo,
desde que seja para o bem dele, pois nesse caso outros Espíritos auxiliarão
vocês.” (Item 279.)
11ª) Há algum mal em evocar Espíritos inferiores, e podemos temer, ao
chamá-los, nos colocar sob o domínio deles?
“Eles não dominam senão os que se deixam dominar. Aquele que é
assistido por bons Espíritos nada tem a temer; ele se impõe aos Espíritos
inferiores, e estes não se impõem a ele. No isolamento, os médiuns devem
evitar esses tipos de evocação — sobretudo os médiuns que estejam
começando.” (Item 278.)
12ª) É necessário trazer algumas disposições especiais nas evocações?
“Quando se deseja ter contato com os Espíritos sérios, a mais essencial
de todas as disposições é o recolhimento. Com fé e o desejo do bem, tem-se
mais força para evocar os Espíritos superiores. Elevando sua alma por alguns
instantes de recolhimento no momento da evocação, a pessoa se identifica
com os bons Espíritos e os dispõe a virem.”
13ª) A fé é necessária para as evocações?
“A fé em Deus, sim; a fé virá para o resto se vocês desejarem o bem e se
tiverem o desejo de se instruir.”
14ª) Reunidos numa comunhão de pensamentos e de intenções, os
327 – O Livro dos Médiuns
homens têm mais poder para evocar os Espíritos?
“Quando todos estão reunidos pela caridade e para o bem, eles obtêm
grandes coisas. Nada é mais prejudicial ao resultado das evocações do que a
divergência de pensamentos.”
15ª) O cuidado de formar uma corrente, dando-se as mãos durante
alguns minutos antes de começar a reunião, é útil?
“A corrente é um meio material que não estabelece a união entre vocês
se esta união não existir no pensamento; o que é mais útil do que tudo isso é
se unirem num pensamento comum, cada um chamando do seu lado os bons
Espíritos. Vocês não imaginam tudo o que se poderia obter numa reunião
séria, de onde estivesse banido todo sentimento de orgulho e de vaidade, e
onde reinasse um perfeito sentimento de mútua cordialidade.”
16ª) Evocações em dias e horas determinados são preferíveis?
“Sim, e se for possível no mesmo lugar: os Espíritos aí comparecem mais
voluntariamente; é o desejo constante que vocês têm que ajuda os Espíritos a
virem se colocar em comunicação convosco. Os Espíritos têm ocupações que
não podem deixar de improviso em favor da vossa satisfação pessoal. Digo no
mesmo lugar, mas não creiam que isso seja uma obrigação absoluta, pois os
Espíritos vão a toda parte; quero dizer que um lugar reservado para isso é
preferível, porque nele o recolhimento é mais perfeito.”
17ª) Certos objetos (como medalhas e talismãs) têm a propriedade de
atrair ou afastar os Espíritos assim como alguns acreditam?
“Esta pergunta é inútil, pois vocês bem sabem que a matéria não exerce
nenhuma ação sobre os Espíritos. Fiquem bem certos de que nunca um bom
Espírito aconselhará semelhantes absurdos; a virtude dos talismãs — de
qualquer natureza que eles sejam — jamais existiu senão na imaginação das
pessoas crédulas.”
18ª) O que pensar dos Espíritos que marcam encontros em lugares
lúgubres e a horas indevidas?
“Esses Espíritos se divertem à custa dos que lhes dão ouvidos. É sempre
inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões: inútil, porque não se
328 – Allan Kardec
ganha absolutamente nada além de ser mistificado; perigoso, não pelo mal
que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode exercer
sobre as mentes fracas.”
19ª) Há dias e horas mais propícios para as evocações?
“Para os Espíritos isso é completamente indiferente, como tudo o que é
material, e seria uma superstição acreditar na influência dos dias e das horas.
Os momentos mais propícios são aqueles em que o evocador possa estar
menos distraído com suas ocupações habituais, e quando seu corpo e seu
espírito estejam mais calmos.”
20ª) Para os Espíritos, a evocação é uma coisa agradável ou penosa? Eles
vêm de boa vontade quando os chamamos?
“Isso depende do caráter deles e do motivo pelo qual são chamados.
Quando o objetivo for louvável e quando o meio lhes for simpático, a evocação
será para eles uma coisa agradável e até mesmo atraente; os Espíritos sempre
ficam contentes com a afeição que lhes for dedicada. Há alguns para os quais é
uma grande felicidade se comunicar com os homens e que sofrem com o
abandono em que são deixados. Mas, como eu já disse, isso depende também
do caráter deles; entre os Espíritos ainda há misantropos, que não gostam de
ser incomodados e cujas respostas se ressentem do seu mau humor,
principalmente quando são chamados por pessoas indiferentes, pelas quais
eles não se interessam. Muitas vezes, um Espírito não tem nenhum motivo
para vir ao chamado de um desconhecido, que lhe é indiferente e que quase
sempre age por curiosidade; quando vem, em geral ele faz aparições curtas, a
menos que tenha havido um objetivo sério e instrutivo na evocação.”
Nota – Vemos pessoas que evocam seus parentes só para lhes perguntar as
coisas mais vulgares da vida material, por exemplo: um, para saber se deve alugar ou
vender sua casa; outro, para saber que lucro tirará da sua mercadoria, o lugar em que
o dinheiro foi depositado ou se tal negócio será ou não vantajoso. Nossos parentes de
além-túmulo só se interessarão por nós em razão da afeição que tivermos por eles. Se
todo o nosso pensamento se limitar a achar que eles sejam feiticeiros e se pensarmos
neles apenas para lhes pedir informações, eles não poderão ter uma grande simpatia
por nós, e não se deve estranhar a pouca benevolência que eles demonstrem.
329 – O Livro dos Médiuns
21ª) Há alguma diferença entre os bons e os maus Espíritos, com relação
à disponibilidade para atender ao nosso chamado?
“Há uma diferença, e bem grande: os Espíritos malignos não vêm de boa
vontade senão quando pretendem dominar e fazer alguém de tolo; mas eles
experimentam uma viva contrariedade quando são forçados a vir para
confessar suas faltas, e só pedem para ir embora, como um estudante
chamado para correção. Eles podem ser constrangidos a isso por Espíritos
superiores, como castigo, e para a instrução dos encarnados. A evocação é
penosa para os bons Espíritos quando eles são chamados inutilmente, por
futilidades; então, ou eles não vêm ou logo se retiram.
“Vocês podem dizer que em princípio os Espíritos — sejam quem forem
— não gostam de servir de distração para os curiosos, assim como vocês
também não gostam. Frequentemente, vocês não têm outra intenção ao
evocar um Espírito senão ver o que ele lhes dirá, ou interrogá-lo sobre
particularidades da vida dele, que ele não quer revelar, pois ele não tem
nenhum motivo para lhes fazer confidências. E vocês acham que ele vai se
expor para lhes dar prazer? Desenganem-se; o que ele não faria em vida
muito menos fará como Espírito.”
Nota – A experiência prova que de fato a evocação é sempre agradável aos
Espíritos quando ela é feita com um objetivo sério e útil; os bons vêm com prazer nos
instruir; os que sofrem encontram alívio na simpatia demonstrada para com eles; os
que conhecemos ficam satisfeitos com a nossa lembrança. Os levianos gostam de ser
evocados pelas pessoas frívolas, porque isso lhes proporciona uma ocasião de se
divertirem à custa delas, mas se sentem desconfortáveis com pessoas sérias.
22ª) Para se manifestarem, os Espíritos sempre têm necessidade de ser
evocados?
“Não; eles se apresentam muitas vezes sem serem chamados, e isso
prova que eles vêm de boa vontade.”
23ª) Quando um Espírito se apresenta por si mesmo, podemos estar
mais certos de sua identidade?
“De maneira alguma, pois os Espíritos enganadores muitas vezes
empregam esse meio para melhor mistificar.”
330 – Allan Kardec
24ª) Quando evocamos pelo pensamento o Espírito de uma pessoa, esse
Espírito vem a nós, mesmo que não haja manifestação pela escrita ou por
outro modo?
“A escrita é um meio material para o Espírito atestar a sua presença, mas
é o pensamento que o atrai e não o fato da escrita.”
25ª) Quando um Espírito inferior se manifesta, podemos obrigá-lo a se
retirar?
“Sim, não lhe dando atenção. Mas como vocês querem que ele se retire
enquanto se divertem com as torpezas dele? Os Espíritos inferiores se ligam
aos que os escutam com complacência, como os tolos entre vocês.”
26ª) A evocação feita em nome de Deus é uma garantia contra a
intromissão dos maus Espíritos?
“O nome de Deus não é um freio para todos os Espíritos perversos, mas
retém muitos deles; por esse meio vocês sempre afastarão alguns, e afastarão
muitos mais se ela for feita do fundo do coração e não como fórmula banal.”
27ª) Poderíamos evocar nominalmente vários Espíritos de uma só vez?
“Não há nenhuma dificuldade nisso, e se vocês tivessem três ou quatro
mãos para escrever, então três ou quatro Espíritos lhes responderiam ao
mesmo tempo; é o que ocorre quando existem diversos médiuns.”
28ª) Quando vários Espíritos são evocados simultaneamente e só tem
um médium disponível, qual é aquele que responde?
“Um deles responde por todos e exprime o pensamento coletivo.”
29ª) O mesmo Espírito poderia se comunicar ao mesmo tempo, na
mesma sessão, por dois médiuns diferentes?
“Tão facilmente quanto, entre vocês, têm pessoas que ditam várias cartas
de uma só vez.”
Nota – Nós vimos um Espírito responder ao mesmo tempo através de dois
médiuns, às perguntas que lhe foram dirigidas, para um em inglês e para o outro em
francês, e as respostas sendo idênticas quanto ao sentido; algumas eram até a
tradução literal uma da outra.
Dois Espíritos evocados simultaneamente por dois médiuns podem estabelecer
331 – O Livro dos Médiuns
entre si uma conversação; esse modo de comunicação não sendo necessário para eles,
já que liam reciprocamente o pensamento, eles se prestam a isso às vezes para nossa
instrução. Se forem Espíritos inferiores, como ainda estão imbuídos das paixões
terrenas e das ideias corporais, pode acontecer que disputem e se discutam com
palavras pesadas, que se acusem mutuamente os erros e até que atirem um contra o
outro os lápis, as cestas, as pranchetas, etc.
30ª) O Espírito evocado ao mesmo tempo em vários lugares pode
responder simultaneamente às questões que lhe são endereçadas?
“Pode sim, se for um Espírito elevado.”
— Nesse caso, o Espírito se divide ou ele tem o dom da ubiquidade?
“O Sol é um só e, no entanto, irradia a todo o seu redor, levando ao
longe seus raios sem se dividir; é o mesmo caso dos Espíritos. O
pensamento do Espírito é como uma centelha que projeta longe a sua
claridade e pode ser vista de todos os pontos do horizonte. Quanto mais
o Espírito for puro mais o seu pensamento irradia e se estende como a
luz. Os Espíritos inferiores são bastante materiais; eles não podem
responder senão a uma única pessoa de cada vez, nem podem vir se
foram chamados em outro lugar.
“Um Espírito superior, chamado ao mesmo tempo em diferentes
pontos, responderá às duas evocações se ambas forem igualmente sérias
e fervorosas; em caso contrário, ele dará preferência à mais séria.”
Nota – É assim que acontece com um homem que, sem mudar de lugar, pode
transmitir seu pensamento por sinais vistos de diferentes lados.
Numa sessão da Sociedade parisiense de estudos espíritas, na qual a questão da
ubiquidade havia sido discutida, um Espírito ditou espontaneamente a comunicação
seguinte:
“Vocês perguntaram esta noite qual seria a hierarquia dos Espíritos
quanto à ubiquidade. Comparem-nos a um aeróstato75 que se eleva pouco a
pouco nos ares. Enquanto ele rasteja na terra, somente um círculo muito
pequeno pode percebê-lo, mas à medida que ele se eleva o círculo se alarga
75 Aeróstato: veículo que se eleva e se mantém no espaço por efeito da ação da força ascensional de um
gás mais leve que o ar, como os balões e dirigíveis. – N. T.
332 – Allan Kardec
para ele e, quando chega a uma certa altura ele aparece a um número infinito
de pessoas. É assim conosco; um mau Espírito que ainda esteja preso à Terra
permanece num círculo restrito, no meio das pessoas que o veem. Que ele
cresça em virtudes e poderá conversar com muitas pessoas; e quando tiver se
tornado um Espírito superior, ele poderá irradiar como a luz do Sol,
mostrando-se a várias pessoas e em diversos lugares ao mesmo tempo.”
CHANNING
31ª) Podemos evocador os Espíritos puros, aqueles que terminaram a
série de suas encarnações?
“Sim, mas muito raramente; eles só se comunicam com os corações
puros e sinceros, e não com os orgulhosos e egoístas; por isso, é preciso
desconfiar dos Espíritos inferiores que fingem essa qualidade para se darem
mais importância aos vossos olhos.”
32ª) Como é que os Espíritos dos homens mais ilustres vêm tão
facilmente e tão familiarmente ao chamado dos homens mais obscuros?
“Os homens julgam os Espíritos por si mesmos — e isso é um erro.
Depois da morte do corpo, as classes terrenas não existem mais; não há
distinção entre os Espíritos senão pela bondade, e os que são bons vão a toda
parte onde haja um bem a se fazer.”
33ª) Quanto tempo depois da morte podemos evocar um Espírito?
“Pode-se fazer até no instante da morte, mas como nesse momento o
Espírito ainda está em perturbação, ele só responde imperfeitamente.”
Nota – Como a duração da perturbação é muito variável, não pode haver um
prazo fixo para fazer a evocação; entretanto, é raro que ao fim de oito dias o Espírito
ainda não se reconheça o suficiente para poder responder; algumas vezes ele pode
muito bem responder dois ou três dias depois da morte. Em todos os casos, pode-se
experimentar com cuidado.
34ª) A evocação no instante da morte é mais penosa para o Espírito do
que algum tempo depois?
“Algumas vezes; é como se arrancássemos vocês do sono antes que
estivessem completamente acordados. Todavia, há alguns que de nenhum
333 – O Livro dos Médiuns
modo ficam contrariados com isso, e a evocação até os ajuda a sair da
perturbação.”
35ª) Como pode o Espírito de uma criança morta com pouca idade
responder com conhecimento de causa, se quando encarnado ainda não tinha
consciência de si mesmo?
“A alma da criança é um Espírito ainda envolvido nas faixas da
matéria; porém, desprendido da matéria, ele desfruta de suas faculdades de
Espírito, pois os Espíritos não têm idade — o que prova que o Espírito da
criança já viveu. Entretanto, até que esteja completamente desligado, ele pode
conservar na linguagem alguns traços do caráter da criança.”
Nota – A influência corpórea que se faz sentir por mais ou menos tempo sobre o
Espírito da criança é igualmente notada às vezes no Espírito dos que morreram em
estado de loucura. O Espírito em si mesmo não é louco, mas sabemos que certos
Espíritos acreditam durante algum tempo que ainda pertencem a este mundo;
portanto, não é de se admirar que o Espírito do louco ainda se ressinta dos entraves
que, durante a vida, se opunham à sua livre manifestação até que fique
completamente desprendido. Este efeito varia conforme as causas da loucura, pois há
loucos que recobram toda a sua lucidez de suas ideias imediatamente após a morte.
- Evocação de animais:
36ª) Podemos evocar o Espírito de um animal?
“Depois da morte do animal, o princípio inteligente que havia nele fica
num estado latente; ele é logo utilizado por certos Espíritos encarregados
dessa tarefa para animar novos seres nos quais ele continua a obra de sua
elaboração. Assim, no mundo dos Espíritos, não há Espíritos de animais
errantes, mas somente Espíritos humanos. Isso responde à vossa questão.”
— Como é então que, tendo evocado animais, algumas pessoas têm
obtido resposta?
“Evoquem uma rocha e ela lhes responderá. Há sempre uma
multidão de Espíritos pronta a tomar a palavra para tudo.”
Nota – É pela mesma razão que se evocarmos um mito ou um personagem
alegórico, ele responderá; quer dizer, que responderão por ele, e o Espírito que se
334 – Allan Kardec
apresentar tomará o caráter e as maneiras. Certo dia alguém teve a ideia de evocar
Tartufo e Tartufo veio prontamente; mais ainda: ele falou de Orgon, de Elmira, de
Dâmis e de Valéria, de quem deu notícias76. Quanto a si próprio, imitou o hipócrita
com tanta arte como se Tartufo fosse um personagem de verdade. Mais tarde ele disse
ser o Espírito de um ator que havia encarnado esse papel. Os Espíritos levianos se
aproveitam sempre da inexperiência dos interrogadores, mas evitam se dirigir
àqueles que eles reconhecem serem bastante esclarecidos para descobrir suas fraudes
e que não dariam crédito aos contos. O mesmo acontece com os homens.
Um senhor tinha em seu jardim um ninho de pintassilgos pelos quais se
interessava bastante; certo dia o ninho desapareceu; certificando-se de que ninguém
de casa era culpado do delito, como esse senhor era médium, ele teve a ideia de
evocar a mãe dos passarinhos; ela veio e lhe disse em muito bom francês: “Não acuse
ninguém e fique tranquilo quanto ao destino de meus pequeninos; foi o gato que, ao
saltar, derrubou o ninho; o encontrará debaixo dos arbustos, assim como os filhotes,
que não foram comidos.” Feita a verificação, tudo foi encontrado exatamente como
dito. Deveríamos concluir daí que foi o pássaro quem respondeu? Não, certamente;
mas simplesmente que um Espírito conhecia a história. Isso prova o quanto se deve
desconfiar das aparências e o quanto é preciosa a resposta acima: Evoquem uma
rocha e ela lhes responderá. (Veja lá atrás o capítulo da Medianimidade nos animais,
item 234.)
- Evocação de pessoas vivas:
37ª) A encarnação do Espírito é um obstáculo absoluto à sua evocação?
“Não, mas é necessário que o estado do corpo permita ao Espírito se
desprender no momento da evocação. O Espírito encarnado vem tanto mais
facilmente quanto mais o mundo onde ele se encontre for de uma ordem mais
elevada, porque os corpos nesses mundos são menos materiais.”
38ª) Podemos evocar o Espírito de uma pessoa viva?
“Sim, visto que se pode evocar um Espírito encarnado. Em seus
momentos de liberdade, o Espírito de um vivo também pode se apresentar
sem ser evocado; isso depende da sua simpatia pelas pessoas com quem se
comunica.” (Ver o item 116, História do homem da tabaqueira.)
76 Tartufo, Orgon, Dâmis e Valéria: personagens da peça Tartuffe, do famoso dramaturgo francês
Moliére (1622-1673). — N. T.
335 – O Livro dos Médiuns
39ª) Em qual estado fica o corpo da pessoa cujo Espírito é evocado?
“Ele dorme ou cochila; é então que o Espírito fica livre.”
— O corpo poderia despertar enquanto o Espírito está ausente?
“Não; o Espírito é forçado a reentrar no seu corpo; se nesse
momento ele estiver conversando com vocês, ele vai embora, e às vezes
diz o motivo.”
40ª) Como é que o Espírito ausente do corpo é avisado da necessidade
da sua presença?
“O Espírito jamais é completamente separado de um corpo vivo; a
qualquer distância que ele se transporte, ele fica ligado ao corpo por um laço
fluídico que serve para chamá-lo, quando isso se faz necessário; esse laço só é
rompido com a morte.”
Nota – Esse laço fluídico tem sido muitas vezes percebido por médiuns videntes.
É uma espécie de cauda fosforescente que se perde no Espaço e na direção do corpo.
Alguns Espíritos dizem que é dessa forma que eles reconhecem os que ainda
pertencem ao mundo corporal.
41ª) O que aconteceria se durante o sono e na ausência do Espírito o
corpo fosse ferido mortalmente?
“O Espírito seria avisado e voltaria antes que a morte fosse consumada.”
— Assim, não poderia ser que o corpo morra na ausência do
Espírito e que este, ao voltar, não pudesse retornar?
“Não; isso seria contrário à lei que rege a união da alma e do corpo.”
— Mas, e se o golpe fosse dado subitamente e de improviso?
“O Espírito seria prevenido antes que o golpe mortal fosse dado.”
Nota – Interrogado sobre este fato, o Espírito de um vivo respondeu: “Se o corpo
pudesse morrer na ausência do Espírito, isso seria um meio muito cômodo de se
cometerem suicídios hipócritas.”
42ª) O Espírito de uma pessoa evocada durante o sono é tão livre para se
comunicar quanto o de uma pessoa morta?
“Não; a matéria sempre o influencia mais ou menos.”
Nota – Uma pessoa nesse estado, a quem foi feita essa pergunta, respondeu:
336 – Allan Kardec
Estou sempre acorrentado à grilheta que arrasto comigo.
— Nesse estado, o Espírito poderia ser impedido de vir, por estar
em outro lugar?
“Sim, pode acontecer que o Espírito esteja num lugar onde ele
queira permanecer, e então não responde à evocação, sobretudo quando
ela é feita por quem não o interesse.”
43ª) É absolutamente impossível evocar o Espírito de uma pessoa
acordada?
“Conquanto seja difícil, isso não é absolutamente impossível, pois se a
evocação funcionar, pode ser que a pessoa adormeça; mas o Espírito não
pode se comunicar como Espírito, senão nos momentos em que a sua
presença não seja necessária para a atividade inteligente do corpo.”
Nota – A experiência prova que a evocação feita durante o estado de vigília pode
provocar o sono, ou pelo menos uma absorção próxima do sono, mas esse efeito não
pode se produzir senão por uma vontade muito enérgica e se existirem laços de
simpatia entre as duas pessoas; de outro modo, a evocação não funciona. Mesmo no
caso em que a evocação pudesse provocar o sono, se o momento é inoportuno, a
pessoa não querendo dormir resistirá e, se caindo no sono, seu Espírito ficará
perturbado e dificilmente responderá. Disso resulta que o momento mais favorável
para a evocação de uma pessoa viva é o do sono natural, porque, estando livre, seu
Espírito pode vir até aquele que o chama, assim como poderia ir a outro lugar.
Quando a evocação for feita com consentimento da pessoa e quando esta pessoa
tenta dormir com esse objetivo, pode acontecer que essa preocupação retarde o sono
e perturbe o Espírito; é por isso que o sono não forçado é sempre preferível.
44ª) Uma pessoa viva evocada tem consciência disso ao despertar?
“Não; vocês mesmos frequentemente são mais evocados do que pensam.
Só o Espírito sabe, e às vezes ele pode deixar uma vaga impressão disso, como
se fosse um sonho.”
— Quem poderia nos evocar, já que nós somos seres obscuros?
“Em outras existências vocês podem ter sido pessoas conhecidas,
neste mundo ou em outros; além de vossos pais e vossos amigos,
igualmente neste mundo ou em outros. Suponhamos que teu Espírito
tenha animado o corpo do pai de outra pessoa; pois bem, quando essa
337 – O Livro dos Médiuns
pessoa evocar seu pai, é teu Espírito que será evocado e quem
responderá.”
45ª) O Espírito de uma pessoa viva, sendo evocado, responde como
Espírito ou com as ideias que tem no estado de vigília?
“Isso depende da sua elevação; porém ele sempre julga mais
sensatamente e com menos preconceitos, exatamente como os sonâmbulos; é
um estado quase semelhante.”
46ª) Se o Espírito de um sonâmbulo fosse evocado no estado de sono
magnético, ele seria mais lúcido do que o de qualquer outra pessoa?
“Sem dúvidas ele responderia mais facilmente, por ele estar mais
desprendido; tudo depende do grau de independência do Espírito e do corpo.”
— O Espírito de um sonâmbulo poderia responder a uma pessoa
que o evocasse à distância, ao mesmo tempo em que respondesse
verbalmente a outra pessoa?
“A faculdade de se comunicar simultaneamente em dois pontos
diferentes só pertence aos Espíritos completamente livres da matéria.”
47ª) Poderíamos modificar as ideias de uma pessoa no estado de vigília,
agindo sobre o seu Espírito durante o sono?
“Sim, algumas vezes. Não estando mais preso à matéria por laços tão
íntimos, o Espírito fica mais acessível às impressões morais, e essas
impressões podem influenciar sua maneira de ver no estado normal.
Infelizmente, acontece com frequência que, ao despertar, a natureza corporal
predomine e lhe faça esquecer as boas resoluções que possa ter recebido.”
48ª) O Espírito de uma pessoa viva é livre para dizer ou não dizer aquilo
que ele queira?
“Ele tem as suas faculdades de Espírito, e consequentemente tem o seu
livre-arbítrio; então, como tem mais perspicácia, ele é até mais reservado do
que no estado desperto.”
49ª) Poderíamos obrigar uma pessoa, ao evocá-la, a dizer o que ela
quisesse guardar em segredo?
“Eu disse que o Espírito tem o seu livre-arbítrio; porém, pode ser que,
338 – Allan Kardec
como Espírito, a pessoa dê menos importância a certas coisas do que no
estado comum; sua consciência pode falar mais livremente. Aliás, se ela não
quiser falar, ela poderá sempre fugir das importunações indo embora, pois
não podemos reter seu Espírito como poderíamos reter o seu corpo.”
50ª) O Espírito de uma pessoa viva poderia ser forçado por outro
Espírito a vir e falar, assim como ocorre com os Espíritos errantes?
“Entre os Espíritos — estejam mortos ou vivos — só existe supremacia
pela superioridade moral, e vocês devem compreender bem que um Espírito
superior jamais prestaria apoio a uma indiscrição covarde.”
Nota – Este abuso de confiança seria efetivamente uma má ação, mas que não
poderia ter nenhum resultado, pois não se pode arrancar um segredo que o Espírito
queira guardar, a menos que, dominado por um sentimento de justiça, ela admitisse o
que esconderia em outras circunstâncias.
Por esse modo, uma pessoa quis saber de um de seus parentes se o testamento
feito por este parente a beneficiava. O Espírito respondeu: “Sim, minha cara sobrinha,
e em breve você terá a prova disso.” O fato era verdadeiro; mas poucos dias depois o
parente destruiu seu testamento e teve a maldade de avisar à pessoa, sem que,
entretanto, ele soubesse que tinha sido evocado. Com certeza, um sentimento
instintivo o levou a cumprir a decisão que seu Espírito havia tomado com base na
pergunta que lhe foi feita. É uma covardia perguntar ao Espírito de um morto ou de
um vivo aquilo que não ousaríamos perguntar à sua pessoa, e essa covardia nem
mesmo tem por compensação o resultado que se pretende.
51ª) Podemos evocar um Espírito cujo corpo ainda esteja no ventre da
mãe?
“Não; vocês sabem muito bem que nesse momento o Espírito está em
uma completa perturbação.”
Nota – A encarnação só ocorre definitivamente no momento em que a criança
respira, mas desde a concepção o Espírito designado para animá-lo é tomado por uma
perturbação que aumenta à medida que se aproxima o nascimento e lhe tira a
consciência de si mesmo — e consequentemente a capacidade de responder. (Veja em
O Livro dos Espíritos: Retorno à vida corporal; União da alma e do corpo, questão 344.)
52ª) Um Espírito mistificador poderia tomar o lugar de uma pessoa viva
339 – O Livro dos Médiuns
que nós evocássemos?
“Não há dúvidas, e isso acontece muito frequentemente, sobretudo
quando a intenção do evocador não é pura. No mais, a evocação das pessoas
vivas só é interessante como estudo psicológico; convém evitá-la sempre que
não possa ter um resultado instrutivo.”
Nota – Se a evocação dos Espíritos errantes nem sempre dá resultado, para nos
servir da expressão deles, isso é muito mais frequente para aqueles que estão
encarnados; é aí principalmente que os Espíritos mistificadores tomam o lugar dos
evocados.
53ª) A evocação de uma pessoa viva tem algum inconveniente?
“Ela nem sempre é sem perigo; isso depende da posição da pessoa,
porque se ela estiver doente, pode-se aumentar seus sofrimentos.”
54ª) Em que situação a evocação de uma pessoa viva pode ter mais
inconveniências?
“Deve-se abster-se de evocar crianças de pouca idade, pessoas
gravemente doentes e os velhos enfermos; em suma, ela pode ter
inconvenientes todas as vezes que o corpo estiver muito enfraquecido.”
Nota – A brusca suspensão das qualidades intelectuais durante o estado de
vigília também poderia oferecer perigo se a pessoa estivesse nesse momento
precisando de toda a sua presença de espírito.
55ª) Durante a evocação de uma pessoa viva, seu corpo experimenta
fadiga por efeito do trabalho a que se entrega seu Espírito, ainda que ausente?
Uma pessoa nesse estado, e que afirmava que seu corpo estava ficando
cansado, respondeu a essa pergunta:
“Meu Espírito é como um balão cativo amarrado a um poste; meu corpo
é o poste, que é abalado pelas sacudidas do balão.”
56ª) Visto que a evocação de pessoas vivas pode ter inconvenientes
quando feita sem precaução, haveria algum perigo em evocarmos um Espírito
que não sabemos se ele está encarnado e que poderia não se encontrar em
340 – Allan Kardec
condições favoráveis?
“Não, as circunstâncias não são as mesmas; ele só virá se estiver em
condições de vir, e aliás, eu já não disse para perguntar, antes de fazer uma
evocação, para saber se ela é possível?”
57ª) Quando sentimos uma vontade irresistível de dormir nas horas
mais inoportunas, seria por estarmos sendo evocados em algum lugar?
“Isso pode acontecer, sem dúvidas; porém, o mais comum é que seja um
efeito puramente físico — seja porque o corpo tenha necessidade de repouso,
seja porque o Espírito tenha necessidade da sua liberdade.”
Nota – Uma senhora de nosso conhecimento, médium, teve um dia a ideia de
evocar o Espírito do seu neto que dormia no mesmo quarto. A identidade foi
comprovada pela linguagem, pelas expressões familiares da criança e pela narração
exatíssima de várias coisas que lhe tinham acontecido na pensão; mas outra
circunstância veio confirmá-la: de repente, a mão da médium se deteve no meio de
uma frase, sem que fosse possível obter mais nada; nesse momento, semiadormecida,
a criança fez diversos movimentos na sua cama; alguns instantes depois, tendo
novamente adormecido, a mão moveu-se outra vez, continuando aquela conversa
interrompida. Feita em boas condições, a evocação das pessoas vivas prova da
maneira menos contestável a ação distinta do Espírito e do corpo, e por conseguinte a
existência de um princípio inteligente independente da matéria. (Ver na Revista
espírita de 1860, páginas 11 e 81, vários exemplos notáveis de evocação de pessoas
vivas.)
- Telegrafia humana:77
58ª) Duas pessoas, evocando-se reciprocamente, poderiam transmitir de
uma para outra seus pensamentos e se corresponder?
“Certamente, e essa telegrafia humana será um dia um meio
universal de correspondência.”
77 Para esta denominação, Allan Kardec tomou como analogia a telegrafia elétrica, o processo de
telecomunicações que transmite textos escritos (telegramas) por meio de um código de sinais (código
Morse) através de fios. Posteriormente, os parapsicólogos passariam a chamar essa faculdade psíquica
de telepatia. — N. T.
341 – O Livro dos Médiuns
— Por que ela não é praticada desde o presente?
“Ela já é praticada por certas pessoas, mas não para todo mundo; é
preciso que os homens se depurem para que seu Espírito se liberte da
matéria, e isso ainda é uma razão a mais para fazer a evocação em nome
de Deus. Até lá, ela fica limitada às almas de elite e desmaterializadas, o
que raramente se encontra no estado atual dos habitantes da Terra.”
342 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXVI
PERGUNTAS QUE PODEMOS
FAZER AOS ESPÍRITOS
Observações preliminares – Perguntas simpáticas ou antipáticas aos
Espíritos – Questões sobre o futuro – Questões sobre as existências
passadas e futuras – Questões sobre interesses morais e materiais –
Questões sobre o destino dos Espíritos – Questões sobre saúde –
Questões sobre invenções e descobertas – Questões sobre tesouros
escondidos – Questões sobre outros mundos
Observações preliminares
- Nunca será demais dar importância à maneira de fazer as perguntas e,
ainda mais, ao tipo de perguntas. Duas coisas devem ser consideradas nas que
endereçamos aos Espíritos: a forma e a essência. Com relação à forma, as
perguntas devem ser redigidas com clareza e precisão, evitando as questões
complexas. Mas há outro ponto não menos importante: a ordem que deve
presidir a sua disposição. Quando um assunto requer uma série de questões, é
essencial que elas se encadeiem metodicamente de modo a decorrerem
naturalmente umas das outras; nessa ordem, os Espíritos respondem muito
mais facilmente e mais claramente do que quando elas são colocadas ao acaso,
passando sem transição de um assunto para outro. É por esta razão que é
sempre muito útil prepará-las antes, salvo inserir durante a sessão aquelas
que decorram das circunstâncias. Além de que a redação será melhor quando
feita com a cabeça tranquila, esse trabalho preparatório, como já dissemos, é
uma espécie de evocação antecipada, à qual o Espírito pode ter assistido e
343 – O Livro dos Médiuns
estar disposto a responder. É notável que muito frequentemente o Espírito
responda por antecipação a algumas perguntas — o que prova que ele já as
conhecia.
A essência da questão exige uma atenção ainda mais séria, pois muitas
vezes é a natureza da pergunta que provoca uma resposta correta ou falsa; há
algumas às quais os Espíritos não podem ou não devem responder, por
motivos que desconhecemos: logo, seria inútil insistir. Porém, o que devemos
evitar acima de tudo são as perguntas feitas com o fim de pôr a perspicácia
deles à prova. Dizem que quando uma coisa existe, eles a conhecem. Ora,
precisamente porque a coisa é conhecida de vocês, ou porque vocês têm os
meios de verificá-la, é que eles não se dão ao trabalho de responder; essa
suspeita os ofende, e então não se obtém nada de satisfatório. Não temos
todos os dias exemplos disso entre nós? Homens superiores, e conscientes do
seu valor, gostariam de responder a todas as perguntas tolas que tentassem
submetê-los a um exame como se fossem escolares? O desejo de conquistar
um adepto nessa ou naquela pessoa não é, para os Espíritos, um motivo de
satisfazer a uma vã curiosidade; eles sabem que a convicção chegará cedo ou
tarde, e os métodos que eles empregam para conduzi-la nem sempre são os
que nós pensamos.
Vamos supor um homem sério, ocupado com coisas úteis e importantes,
incessantemente importunado por perguntas bobas de uma criança, e assim
vocês terão uma ideia do que os Espíritos superiores devem pensar de todas
as bobagens que lhes são contadas. Não se segue daí que não possamos obter
da parte dos Espíritos esclarecimentos úteis e principalmente bons conselhos,
mas eles respondem mais ou menos bem, conforme os conhecimentos que
eles próprios possuem, o interesse que deles merecemos e a afeição que nos
dedicam e, finalmente, o objetivo a que nos propomos e a utilidade que eles
veem na coisa; mas se todo o nosso pensamento se limita a crer que eles
sejam mais capazes do que outros a nos esclarecerem melhor sobre as coisas
deste mundo, então eles não poderão ter por nós uma simpatia profunda;
desde então, eles só fazem aparições curtas e muitas vezes, conforme o grau
da imperfeição deles, mostrarão mau humor por terem sido inutilmente
incomodados.
344 – Allan Kardec
- Algumas pessoas pensam que é preferível se abster de fazer perguntas, e
que convém esperar o ensinamento dos Espíritos sem pedi-lo; isso é um erro.
É indubitável que os Espíritos dão instruções espontâneas de um altíssimo
nível, e que seria errado desprezar; mas há muitas explicações pelas quais
esperaríamos por um longo tempo se não as solicitássemos. Sem as questões
que propusemos, O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns ainda estariam
por serem escritos, ou pelo menos estariam muito incompletos, e uma série
de problemas de grande importância ainda estaria sem solução. Longe de
causarem qualquer inconveniente, as questões são de grandíssima utilidade
do ponto de vista da instrução, quando se sabe mantê-las nos devidos limites.
Elas ainda têm outra vantagem, que é a de ajudar a desmascarar os Espíritos
mistificadores que, sendo mais vaidosos do que sábios, raramente suportam
em seu proveito a provação de perguntas com uma lógica precisa, pelas quais
os leva aos seus últimos redutos. Como os Espíritos verdadeiramente
superiores nada têm a temer de tal provação, eles são os primeiros a provocar
explicações sobre os pontos obscuros; os outros, ao contrário, temendo ter
que lidar com coisas mais sérias, então tomam muito cuidado para as evitar.
Por isso, recomenda-se geralmente àqueles médiuns que os Espíritos
enganadores desejam dominar e a quem querem impor suas utopias que se
abstenham de toda controvérsia a respeito de seus ensinamentos.
Quem tiver compreendido bem o que temos dito até aqui nesta obra já
pode fazer uma ideia do círculo no qual convém manter as questões que
podemos fazer aos Espíritos; de qualquer forma, para maior segurança,
colocamos adiante as respostas que foram dadas para os assuntos principais
sobre os quais as pessoas pouco experientes geralmente estão dispostas a
interrogar os Espíritos.
- Perguntas simpáticas ou antipáticas aos Espíritos:
1ª) Os Espíritos respondem de boa vontade às perguntas que lhes são
endereçadas?
“Depende das perguntas. Os Espíritos sérios sempre respondem com
prazer às perguntas que têm por objetivo o bem e os meios de fazer vocês
progredirem. Eles não atendem às questões fúteis.”
345 – O Livro dos Médiuns
2ª) Basta que uma pergunta seja séria para obter uma resposta séria?
“Não, isso depende do Espírito que responde.”
— Mas, uma questão séria não afasta os Espíritos levianos?
“Não é a questão que afasta os Espíritos levianos, é o caráter
daquele que levanta a questão.”
3ª) Quais as perguntas particularmente antipáticas aos bons Espíritos?
“Todas aquelas que sejam inúteis ou que sejam feitas só por curiosidade
e experimentação; então eles não respondem e se afastam.”
— Há questões que sejam antipáticas aos Espíritos imperfeitos?
“Há aquelas que possam revelar a ignorância deles ou a fraude,
quando eles procuram enganar; de outra forma, eles respondem a tudo
sem se preocuparem com a verdade.”
4ª) O que pensar das pessoas que veem nas manifestações espíritas
apenas uma distração e um passatempo, ou uma maneira de obter revelações
interesseiras?
“Essas pessoas agradam muito aos Espíritos inferiores que, do mesmo
modo que elas, querem se divertir, e ficam contentes quando as enganam.”
5ª) Quando os Espíritos não respondem a certas perguntas, é por que
eles não querem ou por que uma força superior se opõe a certas revelações?
“Por uma coisa ou por outra; existem coisas que não podem ser
reveladas e outras que o próprio Espírito não conhece.”
— Insistindo-se fortemente, o Espírito acabaria respondendo?
“Não; o Espírito que não quer responder sempre tem a facilidade de
ir embora. É por isso que se faz necessário esperar quando dizemos para
vocês esperarem, e principalmente para não insistirem em querer nos
fazer responder. Insistir para obter uma resposta que não queremos lhes
dar é um meio certo de ser enganado.”
6ª) Todos os Espíritos estão aptos a compreender as questões que lhes
são propostas?
“Bem longe disso; os Espíritos inferiores são incapazes de compreender
346 – Allan Kardec
certas questões, o que não os impede de responder bem ou mal, como
acontece entre vocês.”
Nota – Em certos casos, e quando seja útil, ocorre com frequência que um
Espírito mais esclarecido venha em auxílio do Espírito ignorante e lhe sopre o que ele
deva dizer. Reconhece-se isso facilmente pelo contraste de certas respostas e, além do
mais, porque o próprio Espírito muitas vezes concorda com o que foi dito. Isso só
ocorre com os Espíritos ignorantes de boa-fé, mas nunca com os que fazem alarde de
um falso saber.
- Perguntas sobre o futuro:
7ª) Os Espíritos podem nos revelar o futuro?
“Se o homem conhecesse o futuro, ele negligenciaria o presente.
“Esse também é um ponto sobre o qual vocês sempre insistem para
obter uma resposta precisa; isso é um grande erro, pois a manifestação dos
Espíritos não é um meio de adivinhação. Se realmente quiserem uma
resposta, ela lhes será dada por um Espírito tolo, como temos dito a todo o
instante.” (Ver O Livro dos Espíritos, Conhecimento do futuro, questão 868.)
8ª) Algumas vezes, porém, não há certos eventos futuros que são
anunciados pelos Espíritos, espontaneamente e com exatidão?
“Pode ser que o Espírito preveja coisas que ele julgue útil revelar, ou que
ele tenha por missão tornar conhecidas de vocês; mas há ainda mais motivos
para desconfiar dos Espíritos enganadores, que se divertem fazendo
previsões. Só o conjunto das circunstâncias permite apreciar o grau de
confiança que elas merecem.”
9ª) Qual é o tipo das predições de que mais devemos desconfiar?
“Todas as que não tiverem um propósito de utilidade geral. As predições
pessoais podem quase sempre ser consideradas como apócrifas.”
10ª Qual é o objetivo dos Espíritos que anunciam espontaneamente
eventos que não se realizam?
“Na maioria das vezes, é para se divertir com a fé, o medo ou a alegria
que eles causam; depois, eles riem do desapontamento. No entanto, essas
predições mentirosas às vezes trazem um fim sério, que é o de pôr à prova
347 – O Livro dos Médiuns
aquele a quem elas são feitas, para ver a maneira pela qual ele a recebe e para
ver a natureza dos sentimentos bons ou maus que ela faz brotar nele.”
Nota – Tal seria, por exemplo, o anúncio daquilo que possa lisonjear a cupidez
ou a ambição, como a morte de uma pessoa, a perspectiva de uma herança etc.
11ª) Por que os Espíritos sérios, quando fazem pressentir um evento,
geralmente não fixam a sua data? Por não poderem ou por falta de vontade da
parte deles?
“Por uma coisa ou por outra; em certos casos eles podem fazer
pressentir um acontecimento: nesse caso é um aviso que dão a vocês. Quanto
a especificar a época, muitas vezes eles não devem fazer isso; também
acontece com frequência eles não poderem dizer, por eles próprios não
saberem. O Espírito pode prever que algo acontecerá, mas o momento preciso
pode depender de eventos que ainda se não cumpriram e que só Deus
conhece. Os Espíritos levianos, que não se importam em enganar vocês, esses
indicam os dias e as horas, sem se preocuparem com o resultado. Por isso,
toda predição detalhada deve ser suspeita para vocês.
“Mais uma vez: nossa missão consiste em fazer vocês progredirem; para
isso auxiliamos o tanto que podemos. Aquele que pedir sabedoria aos
Espíritos superiores jamais será enganado; porém, não creiam que vamos
perder o nosso tempo ouvindo todas as vossas futilidades e a ler a sorte para
vocês; nós deixamos isso para os Espíritos levianos, que se divertem com isso,
como crianças travessas.
“A Providência pôs limite às revelações que podem ser feitas ao homem.
Os Espíritos sérios guardam silêncio sobre tudo aquilo que lhes é proibido
revelar. Insistindo em ter uma resposta, a pessoa se expõe às mistificações
dos Espíritos inferiores, sempre prontos a se aproveitarem das ocasiões que
tenham de explorar a vossa credulidade.”
Nota – Os Espíritos veem ou pressentem os eventos futuros por indução; eles os
veem se realizar num tempo que eles não medem como nós. Para especificar a sua
época, seria preciso que eles se identificassem com a nossa maneira de calcular a
duração, o que nem sempre consideram necessário; daí vem muitas vezes uma causa
de erros aparentes.
348 – Allan Kardec
12ª) Não há homens dotados de uma faculdade especial que os faz
antever o futuro?
“Sim, aqueles cuja alma se desprende da matéria; então, é o Espírito que
vê, e quando isso é útil, Deus lhes permite revelarem certas coisas para o bem;
mas entre eles existem ainda mais impostores e charlatães. Essa faculdade
será mais comum futuramente.”
13ª) O que pensar dos Espíritos que gostam de predizer a alguém sua
morte, com dia e hora fixados?
“São Espíritos de mau gosto, de muito mau gosto mesmo, que não têm
outro pretexto a não ser se divertir com o medo que eles causam. Ninguém
deve se preocupar com isso.”
14ª) Como é então que certas pessoas são avisadas por pressentimento
da época de sua morte?
“Muitas vezes, é o próprio Espírito delas que fica sabendo disso em seus
momentos de liberdade e que conservam sua intuição ao acordar. É porque
essas pessoas, estando preparadas para isso, não se amedrontam nem se
comovem. Elas não veem nessa separação do corpo e da alma mais do que
uma mudança de situação ou, se preferirem e para sermos mais simples, a
troca de uma roupa de pano grosseiro por uma roupa de seda. O temor da
morte diminuirá na medida em que se propaguem as crenças espíritas.”
- Questões sobre as existências passadas e futuras:
15ª) Os Espíritos podem nos revelar nossas existências passadas?
“Deus permite algumas vezes que elas sejam reveladas, conforme o
objetivo; se for para a vossa edificação e instrução, as revelações serão
verdadeiras e, nesse caso, a revelação quase sempre é feita espontaneamente
e de uma maneira inteiramente imprevista; mas ele nunca a permite para
satisfazer uma vã curiosidade.”
— Por que é que alguns Espíritos nunca se recusam a fazer
revelações desse tipo?
“São Espíritos brincalhões, que se divertem às custas de vocês. Em
geral, vocês devem considerar como falsas, ou pelo menos suspeitas,
349 – O Livro dos Médiuns
todas as revelações dessa natureza que não tenham um propósito
eminentemente sério e útil. Os Espíritos zombeteiros gostam de inflar o
orgulho por pretensas procedências. Há médiuns e crentes que aceitam
como coisa valiosa o que lhes é dito a respeito disso, e que não enxergam
que o estado atual do seu Espírito em nada justifica a categoria que
pretendem ter ocupado; pequena vaidade da qual se divertem tanto os
Espíritos brincalhões quanto os homens. Seria mais lógico e mais de
acordo com a marcha progressiva dos seres que eles tivessem subido,
em vez de terem descido — o que seria mais honroso para eles. Para que
pudéssemos acreditar nessa espécie de revelações, seria necessário que
elas fossem feitas espontaneamente, por diversos médiuns estranhos
uns aos outros e àquele que tivesse sido revelado anteriormente; então,
nesse caso, haveria razão evidente para crermos.”
— Se não podemos conhecer nossa individualidade anterior, será
que também não podemos saber o gênero de existência que tivemos, da
posição social que ocupamos, das qualidades e dos defeitos que
predominaram em nós?
“Isso pode ser revelado, porque vocês podem tirar proveito disso
para o vosso melhoramento; mas, aliás, estudando a vossa situação atual,
vocês mesmos podem deduzir o passado.” (Ver O Livro dos Espíritos,
Esquecimento do passado, questão 392.)
16ª) Alguma coisa nos poderia ser revelada sobre as nossas existências
futuras?
“Não; tudo o que alguns Espíritos lhes disserem a respeito disso não
passará de uma brincadeira, e isso é compreensível: a existência futura de
vocês não pode ser definida antecipadamente, porque ela será conforme o
que tiverem feito através da vossa conduta na Terra e das resoluções que
tomarem quando forem Espíritos. Quanto menos tiverem que expiar tanto
mais ela será feliz; mas, saber onde e como será essa existência, repetimos: é
impossível, salvo o caso especial e raro dos Espíritos que só estão na Terra
para cumprir uma missão importante, porque então, de certo modo, o
caminho deles está traçado de antemão.”
350 – Allan Kardec
- Questões sobre interesses morais e materiais:
17ª) Podemos pedir conselhos aos Espíritos?
“Sim, certamente; os bons Espíritos jamais recusam ajudar aqueles
que os evocam com confiança, principalmente no que se refere à alma;
mas eles têm aversão aos hipócritas, aqueles que simulam pedir a luz e
se comprazem nas trevas.”
18ª) Os Espíritos podem dar conselhos sobre coisas de interesse privado?
“Algumas vezes, conforme o motivo. Isso também depende daqueles a
quem se pede conselhos. Os conselhos referentes à vida privada são dados
com mais exatidão pelos Espíritos familiares, porque eles se ligam à pessoa e
se interessam pelo que diz respeito a ela: é o amigo, o confidente dos seus
pensamentos mais secretos; mas muitas vezes vocês os cansam com questões
tão banais que eles acabam abandonando vocês. Seria tão absurdo perguntar
coisas íntimas a Espíritos estranhos quanto perguntá-las ao primeiro
indivíduo que encontrar no seu caminho. Vocês jamais deveriam esquecer
que a puerilidade das perguntas é incompatível com a superioridade dos
Espíritos. É necessário ainda levar em conta as qualidades do Espírito
familiar, que pode ser bom ou mau, segundo sua simpatia pela pessoa a quem
se ligue. O Espírito familiar de um homem mau é um Espírito mau, cujos
conselhos podem ser perniciosos, mas que se afasta e cede o lugar a um
Espírito melhor, se o próprio homem se melhorar. Os semelhantes se atraem.”
19ª) Os Espíritos familiares podem favorecer os interesses materiais
através de revelações?
“Podem, e o fazem algumas vezes, de acordo com as circunstâncias; mas
tenham certeza de que os bons Espíritos nunca se prestam a servir à ganância.
Os maus fazem cintilar diante dos seus olhos mil atrativos para lhes incitar, e
depois mistificar vocês pela decepção. Fiquem sabendo também que se a
prova de vocês for passar por essa ou aquela dificuldade, vossos Espíritos
protetores poderão ajudar a suportá-la com mais resignação, e às vezes até
suavizá-la; mas, no próprio interesse do futuro de vocês, não lhes é permitido
isentá-los dessa provação. É assim que um bom pai não concede ao filho tudo
o que este deseja.”
351 – O Livro dos Médiuns
Nota – Em muitas circunstâncias os nossos Espíritos protetores podem nos
indicar o melhor caminho, entretanto, sem nos carregar nos braços, caso contrário,
perderíamos toda a iniciativa e não ousaríamos dar um passo sem recorrermos a eles
— e isso, com prejuízo para o nosso aperfeiçoamento. Para progredir, o homem tem
que muitas vezes adquirir experiência às suas próprias custas; é por isso que os
Espíritos sábios, sempre nos aconselhando, frequentemente nos deixam livres às
nossas próprias forças, como um educador hábil faz com os seus alunos. Nas
circunstâncias comuns da vida, eles nos aconselham através da inspiração e assim nos
deixam todo o mérito do bem, como também deixam toda a responsabilidade pelas
más escolhas.
Seria abusar da condescendência dos Espíritos familiares e se equivocar quanto
à sua missão interrogá-los a cada instante sobre as coisas mais vulgares, como certos
médiuns fazem. Há alguns que, por um sim ou por um não, tomam o lápis e pedem
conselho para a coisa mais simples. Esta mania revela a pequenez nas ideias; ao
mesmo tempo, há nisso uma presunção de acreditar que sempre temos um Espírito
servindo às suas ordens, não tendo outra coisa a fazer senão cuidar de nós e dos
nossos pequenos interesses. Além disso, isso significa aniquilar a própria consciência
e se reduzir a um papel passivo, sem proveito para a vida presente e certamente
prejudicial ao progresso futuro. Se há infantilidade em interrogar os Espíritos sobre
coisas fúteis, não há menos infantilidade da parte dos Espíritos que se ocupam
espontaneamente com o que se pode chamar de detalhes caseiros; estes Espíritos
podem ser bons, mas seguramente ainda são muito terrestres.
20ª) Se, ao morrer, uma pessoa deixar seus negócios embaraçados,
poderíamos pedir ao seu Espírito que ajude a resolvê-los? Poderíamos
também interrogá-lo sobre o quanto de bens tenha deixado, no caso em que
essa quantidade não seja conhecida, se isso for no interesse da justiça?
“Vocês esquecem que a morte é a libertação das preocupações terrenas.
Então vocês acreditam que o Espírito que está feliz com a própria liberdade
venha de boa vontade retomar sua prisão e se ocupar com coisas que já não o
interessam mais, apenas para satisfazer à ambição de seus herdeiros, que
talvez tenham se alegrado com a sua morte, na esperança de que ela lhes
fosse lucrativa? Vocês falam de justiça, mas a justiça para esses herdeiros está
na decepção da sua cobiça; é o começo das punições que Deus reserva para a
sua avidez pelos bens da Terra. Além do mais, os embaraços em que às vezes
a morte de uma pessoa deixa fazem parte das provas da vida, e não está no
352 – Allan Kardec
alcance de nenhum Espírito libertar vocês disso, porque esses embaraços
estão nos decretos de Deus.”
Nota – Esta resposta sem dúvida desapontará os que imaginam que os Espíritos
não têm nada de melhor a fazer do que nos servir de auxiliares clarividentes para nos
ajudarem, não rumo ao céu, mas sobre a Terra. Outra consideração vem em apoio a
essa resposta: se um homem, durante a vida, deixou seus negócios em desordem por
descuido, não é verossímil que depois da morte ele tenha mais cuidado com eles,
porque deve estar feliz por se livrar das inquietações que os negócios lhe causavam, e
por pouco elevado que seja, ainda menos importância lhes dará como Espírito do que
como homem. Quanto aos bens desconhecidos que ele pudesse deixar, não haveria
nenhuma razão para se interessar por herdeiros gananciosos que provavelmente não
pensariam mais nele se não esperassem lucrar alguma coisa, e se o Espírito ainda for
imbuído das paixões humanas, poderá sentir um malicioso prazer no desapontamento
dos herdeiros.
Se um Espírito considera útil fazer revelações deste gênero, no interesse da
justiça e das pessoas com quem ele se preocupa, ele o faz espontaneamente, e para
isso ninguém precisa ser médium, nem recorrer a um médium; ele revela as coisas
por meio de circunstâncias fortuitas, mas nunca a pedido de quem o faça, visto que
esse pedido não pode mudar a natureza das provas que se deva sofrer e
provavelmente as agravaria ainda mais, pois quase sempre é um indício de cupidez e
demonstra ao Espírito que só se ocupam com ele por interesse. (Veja o item 295.)
- Questões sobre o destino dos Espíritos:
21ª) Podemos pedir aos Espíritos informações sobre a situação deles no
mundo espiritual?
“Sim, e eles dão essas informações de boa vontade quando o pedido é
feito por simpatia ou por desejo de ser útil, e não por curiosidade.”
22ª) Os Espíritos podem descrever a natureza dos sofrimentos ou da
felicidade deles?
“Perfeitamente e revelações desse tipo são um grande ensinamento para
vocês, pois elas iniciam vocês na verdadeira natureza das penalizações e das
recompensas futuras; ao destruir as falsas ideias que vocês formaram sobre
essa questão, elas tendem a reanimar a fé e confiança de vocês na bondade de
Deus. Os bons Espíritos ficam jubilosos em lhes descrever a felicidade dos
353 – O Livro dos Médiuns
eleitos; já os maus Espíritos, estes podem ser forçados a descrever seus
sofrimentos, a fim de provocar neles o arrependimento. Nisso, às vezes eles
encontram até um tipo alívio: é o infeliz que lamenta seu pranto na esperança
de compaixão.
“Não esqueçam que a finalidade essencial e exclusiva do espiritismo é o
vosso melhoramento, e é para que alcancem isso que é permitido aos
Espíritos introduzirem vocês na vida futura, oferecendo exemplos dos quais
vocês podem se beneficiar. Quanto mais se identificarem com o mundo que os
espera, tanto menos sentirão falta deste mundo onde estão agora. Em suma,
eis o objetivo atual da revelação.”
23ª) Evocando uma pessoa cujo destino seja desconhecido, poderíamos
saber dela mesma se ainda está viva?
“Sim, se a incerteza de sua morte não for uma necessidade ou uma
provação para aqueles que tenham interesse em saber dela.”
— Se estiver morta, ela poderia revelar as circunstâncias do seu
falecimento, de maneira a poder provar sua morte?
“Se ela der alguma importância a isso, então revelará; de outro
modo, pouco se interessará pelo ocorrido.”
Nota – A experiência prova que nesse caso o Espírito não fica de nenhum modo
empolgado com os motivos do interesse que se possa ter para conhecer as
circunstâncias de sua morte; se as quiser revelar, então fará por si mesmo, seja por via
medianímica ou por meio de visões ou aparições, e assim pode dar as informações
mais precisas. Caso contrário, um Espírito mistificador pode perfeitamente enganar e
se divertir levando as pessoas a fazerem buscas inúteis.
Acontece frequentemente que o desaparecimento de uma pessoa, cuja morte
não pode ser oficialmente constatada, traz entraves aos negócios da família. Só em
casos muito raros e muito excepcionais é que vimos os Espíritos indicarem o caminho
da verdade, de acordo com o pedido que lhes foi feito; se eles quisessem, sem dúvidas
que eles poderiam indicar; porém muitas vezes isso não lhes é permitido, quando tais
embaraços forem provas para aqueles que estariam interessados em se livrar deles.
Portanto, é se enganar com uma esperança quimérica prosseguir por esse meio
de obtenção de heranças, cujo exemplo mais concreto é o de dinheiro desperdiçado
com isso.
354 – Allan Kardec
O que não faltam são Espíritos dispostos a alimentar tais esperanças e que não
têm nenhum escrúpulo em induzir os interessados a buscas das quais muitas vezes é
de se contentar bastante em sair com um pouco de ridículo.
- Questões sobre saúde:
24ª) Os Espíritos podem dar conselhos sobre saúde?
“A saúde é uma condição necessária para o trabalho que se deve cumprir
na Terra, e é por isso que os Espíritos se ocupam de boa vontade com ela;
mas, como entre eles há ignorantes e sábios, convém que para isso, como para
qualquer outra coisa, ninguém se dirija ao primeiro que apareça.”
25ª) Em se dirigindo ao Espírito de uma celebridade médica, estaríamos
mais certos de obter um bom conselho?
“As celebridades terrenas não são infalíveis e muitas vezes têm ideias
sistemáticas que nem sempre são justas e das quais a morte não as liberta
imediatamente. A ciência terrestre é insignificante em comparação à ciência
celeste; só os Espíritos superiores dominam esta última ciência: sem terem
nomes conhecidos para vocês, eles podem saber sobre todas as coisas muito
mais do que os sábios humanos. Só ciência não faz os Espíritos se tornarem
superiores, e vocês ficarão espantados com a categoria que alguns doutores
ocupam entre nós. O Espírito de um sábio pode então não saber mais do que
quando estava na Terra, se não tiver progredido como Espírito.”
26ª) O doutor, ao se tornar Espírito, reconhece seus erros científicos?
“Se tiver chegado a um grau bastante elevado para estar livre de sua
vaidade e compreender que o seu desenvolvimento não está completo, então
ele reconhece e os confessa sem constrangimento; mas se ainda não estiver
desmaterializado o bastante, ele pode conservar alguns dos preconceitos de
que estava imbuído na Terra.”
27ª) Poderia um médico, evocando seus pacientes que morreram, obter
esclarecimentos sobre a causa da morte deles, sobre as faltas que ele possa
ter cometido no tratamento e assim ganhar um pouco mais de experiência?
“Pode, e isso lhe seria muito útil, sobretudo se ele fosse assistido por
Espíritos esclarecidos, que suprissem a falta de conhecimentos sobre
355 – O Livro dos Médiuns
determinados doentes. Mas para isso seria preciso que ele fizesse esse estudo
de um modo sério, assíduo, com um fim humanitário e não como uma maneira
de adquirir conhecimento e fortuna sem sacrifício.”
- Questões sobre as invenções e descobertas:
28ª) Os Espíritos podem guiar pesquisas científicas e descobertas?
“A ciência é obra do gênio; ela não deve ser adquirida senão pelo
trabalho, pois é só pelo trabalho que o homem avança no seu caminho. Que
mérito ele teria se bastasse só interrogar os Espíritos para saber de tudo?
Qualquer imbecil poderia se tornar sábio por esse preço. O mesmo ocorre
com as invenções e descobertas da indústria. Ainda tem outra consideração: é
que cada coisa tem que vir a seu tempo e quando as ideias estejam maduras
para recebê-la; se o homem tivesse esse poder, ele subverteria a ordem das
coisas, fazendo os frutos brotarem antes da estação.
“Deus disse ao homem: colherás teu alimento da terra com o suor do teu
rosto; admirável ilustração que pinta a condição na qual ele se encontra neste
mundo. Ele deve progredir em tudo pelo esforço no trabalho; se lhe déssemos
as coisas inteiramente prontas, de que lhe serviria a inteligência? Seria como
o escolar para quem um outro estudante faria o dever de casa.”
29ª) Os doutores e os inventores nunca são auxiliados pelos Espíritos
em suas pesquisas?
“Ah, isto é bem diferente! Quando é chegado o tempo de uma descoberta,
os Espíritos encarregados de dirigir o seu progresso procuram o homem
capaz de levá-la a efeito e lhe inspiram as ideias necessárias, de maneira a lhe
deixar todo o mérito da obra, pois é preciso que ele elabore essas ideias e as
ponha em prática. É assim com todos os grandes trabalhos da inteligência
humana. Os Espíritos deixam cada homem na sua esfera; daquele que só é
apto a cavar a terra eles não farão depositários dos segredos de Deus; mas
eles sabem tirar da obscuridade o homem capaz de realizar os seus desígnios.
Portanto, não deixem a curiosidade ou a ambição arrastar vocês por um
caminho que não representa o propósito do espiritismo, e que os levaria às
mais ridículas mistificações.”
356 – Allan Kardec
Nota – O conhecimento mais esclarecido do espiritismo acalmou a febre das
descobertas que no princípio as pessoas se vangloriavam de poder fazer por meio
dele. Chegou-se até a pedir aos Espíritos receitas para tingir e fazer brotar cabelos,
curar os calos dos pés etc. Vimos gente que acreditou que sua fortuna estava feita, e
não conseguiram nada além de resultados mais ou menos ridículos. O mesmo
acontece quando se pretende penetrar os mistérios de origem das coisas com a ajuda
dos Espíritos; sobre essas questões, alguns Espíritos têm suas teorias, que muitas
vezes não valem mais do que as teorias dos homens e que é prudente não acolher a
não ser com a maior reserva.
- Questões sobre tesouros escondidos:
30ª) Os Espíritos podem revelar tesouros escondidos?
“Os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas; mas os
Espíritos zombeteiros frequentemente indicam tesouros que não existem, ou
então podem fazer que se veja um em algum lugar, enquanto o tesouro esteja
no lado oposto; e isso tem a sua utilidade, para mostrar que a verdadeira
riqueza está no trabalho. Quando a Providência destina riquezas ocultas a
alguém, este as encontrará naturalmente; caso contrário, não.”
31ª) O que pensar da crença nos Espíritos guardiães de tesouros
escondidos?
“Os Espíritos que não estão desmaterializados se apegam às coisas. Os
avarentos que esconderam seus tesouros ainda podem vigiá-los e guardá-los
após a morte, e a perplexidade deles em ver esses bens serem levados é um de
seus castigos, até que compreendam a sua inutilidade para eles. Também há
os Espíritos da Terra responsáveis por dirigirem as suas transformações
interiores, e então, por alegoria, fez-se deles guardiões das riquezas naturais.”
Nota – A questão dos tesouros escondidos está na mesma categoria da das
heranças desconhecidas; seria bem louco aquele que contasse com as pretendidas
revelações que os brincalhões do mundo invisível lhe possam fazer. Nós já dissemos
que, quando os Espíritos querem ou podem fazer semelhantes revelações, eles fazem
espontaneamente, sem necessidade de médiuns para isso. Aqui vai um exemplo:
Uma dama tinha acabado de perder o marido após trinta anos de casamento, e
se encontrava sem nenhum recurso e prestes a ser despejada do seu domicílio pelos
357 – O Livro dos Médiuns
enteados, para os quais ela tinha sido uma mãe. Seu desespero chegou ao ápice
quando seu marido lhe apareceu certa noite e disse que ela o acompanhasse até seu
escritório; lá, ele lhe mostrou a escrivaninha, que ainda estava selada, e por um efeito
de segunda vista, o Espírito fez a mulher ver o interior da escrivaninha, indicando-lhe
uma gaveta secreta que ela não conhecia e cujo chave ele lhe explicou, acrescentando:
Eu previ o que está acontecendo e quis assegurar a tua sorte; nessa gaveta estão
minhas últimas disposições; deixei para ti os direitos desta casa e uma renda de…, e
depois desapareceu. No dia de levantar os selos, ninguém pôde abrir a gaveta; então a
senhora narrou o que lhe tinha acontecido. Ela abriu a gaveta seguindo as indicações
de seu marido, e lá estava o testamento, conforme o que ele lhe tinha anunciado.
- Questões sobre outros mundos:
32ª) Que grau de confiança podemos ter nas descrições que os Espíritos
fazem dos vários mundos?
“Depende do grau de avanço verdadeiro dos Espíritos que dão essas
descrições, pois vocês bem devem compreender que os Espíritos vulgares são
tão incapazes de dar informações a esse respeito tanto quanto entre vocês um
ignorante é incapaz de descrever todos os países da Terra. Sobre esses
mundos, vocês muitas vezes formulam questões científicas que tais Espíritos
não podem resolver; se eles forem de boa-fé, falarão deles conforme suas
ideias pessoais; se forem Espíritos levianos, eles vão se divertir dando a vocês
descrições bizarras e fantásticas; tanto melhor que esses Espíritos — que na
erraticidade não são menos providos de imaginação do que na Terra — vocês
extraem dessa faculdade a narração de tantas coisas que nada têm de real.
Entretanto, não creiam na impossibilidade absoluta de terem sobre esses
mundos alguns esclarecimentos, pois os bons Espíritos até se alegram em
descrever os que eles habitam, a fim de servir de instrução para lhes melhorar
e incentivá-los a seguir o caminho que os conduzirá até lá; este é um meio de
fixar ideias de vocês sobre o futuro e de não lhes deixarem na incerteza.”
— Que comprovação podemos ter da exatidão dessas descrições?
“A melhor verificação consiste na concordância que possa haver entre
elas; porém, lembrem-se de que essas descrições têm por objetivo o vosso
melhoramento moral e que, por conseguinte, é através do estado moral dos
358 – Allan Kardec
habitantes que vocês podem ser mais bem informados, e não pelo estado
físico ou geológico desses globos. Com os vossos conhecimentos atuais, vocês
não poderiam mesmo compreender; tal estudo de nada serviria para o vosso
progresso na Terra, e vocês terão toda a possibilidade de fazer esse estudo
quando estiverem nesses mundos.”
Nota – As questões sobre a constituição física e os elementos astronômicos dos
mundos pertencem ao âmbito das pesquisas científicas, das quais os Espíritos não
devem nos poupar o trabalho; sem isso, um astrônomo acharia muito cômodo pedir
que os Espíritos lhe fizessem seus cálculos — o que, sem dúvida, ele teria o cuidado de
não confessar. Se os Espíritos pudessem poupar o trabalho de uma descoberta por
meio de uma revelação, é provável que eles fariam isso através de um sábio bastante
modesto que reconhecesse abertamente a fonte, e não em proveito dos orgulhosos
que negam os Espíritos, e para quem, ao contrário, os Espíritos frequentemente
reservam as decepções da vaidade.
359 – O Livro dos Médiuns
CAPÍTULO XXVII
CONTRADIÇÕES E MISTIFICAÇÕES
Contradições
- Os adversários do espiritismo não deixam de objetar que seus adeptos
não estão de acordo entre si; que nem todos partilham das mesmas crenças;
numa palavra: que se contradizem. Dizem: se o ensinamento lhes é dado pelos
Espíritos, como é que ele não é idêntico? Só um estudo sério e aprofundado da
ciência pode reduzir esse argumento ao seu justo valor. Apressemo-nos em
dizer primeiramente que essas contradições — de que algumas pessoas fazem
um grande alarde — são geralmente mais aparentes do que reais; que elas
muitas vezes têm mais a ver com a superfície do que mesmo com o fundo das
coisas, e que, consequentemente, elas não têm importância. As contradições
vêm de duas fontes: dos homens e dos Espíritos. - As contradições de origem humana já foram suficientemente explicadas
no capítulo dos Sistemas, item 36, ao qual nos reportamos. Todo mundo
compreenderá que no início, quando as observações ainda eram incompletas,
surgiram opiniões divergentes sobre as causas e as consequências dos
fenômenos espíritas, opiniões das quais três quartos já caíram diante de um
estudo mais sério e mais aprofundado. Com pouquíssimas exceções, e fora
aquelas pessoas que não se desprendem facilmente das ideias que elas
acalentaram ou mesmo geraram, podemos dizer que hoje há uma unidade na
imensa maioria dos espíritas, ao menos quanto aos princípios gerais, com
exceção talvez de alguns detalhes insignificantes. - Para compreender a causa e o valor das contradições de origem espírita,
360 – Allan Kardec
é preciso estar familiarizado com a natureza do mundo invisível e tê-lo
estudado por todas as faces. À primeira vista, pode parecer estranho que os
Espíritos não pensem todos da mesma maneira, mas isso não pode
surpreender a quem quer que tenha percebido o número infinito de degraus
que eles devem percorrer antes de chegar ao alto da escada. Supor que eles
tivessem uma apreciação igual das coisas seria imaginar que todos estivessem
num mesmo nível; pensar que todos devam ver com justeza seria supor que
todos já tivessem atingido a perfeição — o que não é verdade, e nem pode ser,
se considerarmos que eles não são mais do que a humanidade despida do
envoltório corporal. Já que Espíritos de todas as classes podem se manifestar,
o resultado é que as suas comunicações trazem o cunho de sua ignorância ou
de seu saber, de sua inferioridade ou de sua superioridade moral. É para
distinguir o verdadeiro do falso, o bom do mau, que devem conduzir as
instruções que nós temos dado.
Não devemos esquecer que há entre os Espíritos — assim como há entre
os homens — os falsos sábios e os semissábios, os orgulhosos, os presunçosos
e os sistemáticos. Como o conhecimento de tudo só é dado aos Espíritos
perfeitos, há para os outros — como há para nós — mistérios que eles
explicam à sua maneira, segundo suas próprias ideias, e sobre as quais eles
podem formar opiniões mais ou menos corretas, que por orgulho eles se
metem a fazer prevalecer e que gostam de reproduzir em suas comunicações.
O erro está em alguns de seus intérpretes terem abraçado muito rapidamente
opiniões contrárias ao bom senso e terem feito de si mesmos seus editores
responsáveis. Assim, as contradições de origem espírita não têm outra causa a
não ser a diversidade de inteligência, conhecimentos, senso crítico e
moralidade de alguns Espíritos que ainda não estão aptos a conhecer tudo e
nem compreender tudo. (Ver O Livro dos Espíritos, Introdução, item XIII;
Conclusão, item IX.)
- De que serve o ensinamento dos Espíritos — dirão algumas pessoas —
se ele não nos oferece mais certeza do que o ensinamento humano? A
resposta é fácil: nós não aceitamos com igual confiança o ensino de todos os
homens e, entre duas doutrinas, damos preferência àquela cujo autor nos
361 – O Livro dos Médiuns
pareça mais esclarecido, mais capaz, mais judicioso, menos sujeito às paixões;
logo, é preciso agir do mesmo modo com os Espíritos. Se entre eles há os que
não estão acima da humanidade, também há muitos que a ultrapassaram e
estes podem nos dar instruções que em vão procuraríamos entre os homens
mais instruídos. É em distingui-los da turba dos Espíritos inferiores que
devemos nos concentrar, se queremos nos esclarecer, e é para essa distinção
que conduz o conhecimento aprofundado do espiritismo. Mas mesmo essas
instruções têm um limite, e se não é dado aos Espíritos saberem de tudo, com
mais forte razão deve ser assim entre os homens. Portanto, há coisas sobre as
quais será inútil interrogar os Espíritos — seja porque lhes seja proibido
revelá-las, seja porque eles próprios as ignoram e sobre as quais eles só
podem nos dar suas opiniões pessoais; então, são essas opiniões pessoais que
os Espíritos orgulhosos apresentam como verdades absolutas. É justamente
acerca do que deva permanecer oculto (como o futuro e o princípio das
coisas) que eles mais insistem, a fim de darem a impressão de ter a posse dos
segredos de Deus; também é sobre esses pontos que há mais contradições.
(Veja o capítulo anterior.)
- Eis as respostas dadas pelos Espíritos para as questões seguintes, com
relação às contradições:
1ª) O mesmo Espírito, comunicando-se em dois centros diferentes,
poderia transmitir sobre um mesmo assunto respostas contraditórias?
“Se os dois centros diferirem entre si em opiniões e pensamentos, a
resposta poderá chegar deformada, porque eles estariam sob a influência de
diferentes colunas de Espíritos: não é a resposta que é contraditória, mas a
forma como ela é reproduzida.”
2ª) É compreensível que uma resposta possa ser alterada; mas quando
as qualidades do médium excluem toda ideia de má influência, como é que os
Espíritos superiores tenham uma linguagem diferente e contraditória sobre o
mesmo assunto com pessoas perfeitamente sérias?
“Os Espíritos realmente superiores não se contradizem jamais, e sua
linguagem é sempre a mesma com as mesmas pessoas. Ela pode ser
362 – Allan Kardec
diferente conforme as pessoas e os lugares, mas aqui é preciso prestar
atenção: a contradição muitas vezes é apenas aparente, estando mais nas
palavras do que nas ideias, pois, refletindo, veremos que a ideia fundamental
é a mesma. E mais: o mesmo Espírito pode responder a mesma questão de
diversas formas, segundo o grau de perfeição daqueles que o evocam, pois
nem sempre é bom que todos recebam a mesma resposta, já que não estão
todos igualmente avançados. É exatamente como se uma criança e um sábio te
fizessem a mesma pergunta; com certeza você responderia a um e ao outro de
modo a ser compreendido e a satisfazer a ambos; cada resposta, embora
diferente, também teria o mesmo significado.”
3ª) Com que objetivo os Espíritos sérios parecem defender junto de
certas pessoas ideias e até preconceitos que eles combatem junto de outras?
“Devemos nos fazer compreensíveis: se uma pessoa tem uma convicção
bem firmada sobre uma doutrina, mesmo falsa, precisamos afastá-la dessa
convicção, mas pouco a pouco; é por isso que muitas vezes nos servimos dos
seus termos e então damos a entender que concordamos com as ideias dela,
para que ela não se ofenda subitamente, e para que ela não deixe de aprender
conosco.
“Aliás, não é bom atacar bruscamente os preconceitos; esse seria o
melhor meio de não ser ouvido, e essa é a razão pela qual os Espíritos muitas
vezes falam no sentido da opinião daqueles que os ouvem, para conduzi-los
pouco a pouco à verdade. Eles apropriam sua linguagem às pessoas, como
você mesmo faz, se for um orador minimamente hábil; eis por que eles não
falarão a um chinês ou a um maometano como falarão a um francês ou a um
cristão, pois estariam certos de serem repelidos.
“Não se deve tomar como contradição aquilo que normalmente é apenas
uma parte da elaboração da verdade. Todos os Espíritos têm a sua tarefa
marcada por Deus; eles a cumprem nas condições que julgam convenientes
para o bem dos que recebem as suas comunicações.”
4ª) As contradições, mesmo aparentes, podem lançar dúvidas no Espírito
de algumas pessoas; qual controle podemos ter para conhecer a verdade?
“Para discernir o erro da verdade é preciso aprofundar as respostas e as
363 – O Livro dos Médiuns
meditar seriamente por um longo tempo; é todo um estudo a ser feito. É
necessário tempo para isso, como para estudar todas as coisas.
“Estudem, comparem, aprofundem! Nós dizemos incessantemente a
vocês: o conhecimento da verdade custa esse preço. E como é que vocês
querem chegar à verdade se vocês interpretam tudo segundo as vossas ideias
estreitas e tomadas como grandes ideias? Porém, não está longe o dia em que
o ensinamento dos Espíritos será igual em toda parte, tanto nos detalhes
quanto nas coisas principais. A missão deles é destruir o erro, mas isso não
acontecerá senão progressivamente.”
5ª) Há pessoas que não têm nem tempo e nem a aptidão necessária para
um estudo sério e aprofundado, e que aceitam sem exame o que lhes é
ensinado. Não haveria para elas o inconveniente em acreditar nos erros?
“Que eles pratiquem o bem e não façam o mal, isso é o essencial; para
tanto, não há duas doutrinas: o bem é sempre o bem, que vocês o façam em
nome de Alá ou de Jeová, porque só existe um mesmo Deus para o Universo.”
6ª) Como é que os Espíritos, que parecem desenvolvidos em inteligência,
podem ter ideias claramente falsas sobre certas coisas?
“Eles têm sua doutrina. Os que não são bastante avançados, e que
acreditam que sejam, tomam suas ideias como verdade. É como entre vocês.”
7ª O que pensar de doutrinas segundo as quais um só Espírito poderia se
comunicar, e que esse Espírito seria Deus ou Jesus?
“O Espírito que ensina isso é um Espírito que quer dominar, e por isso
procura fazer com que acreditem que ele seja o único; mas o infeliz que ousa
tomar o nome de Deus pagará caro pelo seu orgulho. Quanto a essas
doutrinas, elas se refutam a si mesmas, porque estão em contradição com os
fatos mais comprovados; elas não merecem exame sério, pois não têm raízes.
“A razão diz que o bem procede de uma fonte boa, e o mal de uma fonte
má; por que haveriam de querer que uma boa árvore produzisse maus frutos?
Por acaso vocês já colheram uvas de uma macieira? A diversidade das
comunicações é a prova mais evidente da variedade de sua origem. Aliás, os
Espíritos que pretendem ser os únicos a se comunicar esquecem de dizer por
que os outros não poderiam se manifestar. A pretensão deles é a negação do
364 – Allan Kardec
que o espiritismo tem de mais belo e de mais consolador: as relações do
mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhe são
caros e que estariam ainda mais perdidos para eles, sem volta. São essas
relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do
mundo material; suprimir essas relações, significa remergulhá-lo na dúvida
que constitui o seu tormento; significa alimentar o seu egoísmo. Ao examinar
com cuidado a doutrina desses Espíritos, nela encontramos a cada passo
contradições injustificáveis, traços de sua ignorância sobre as coisas mais
evidentes e, por conseguinte, sinais certos da sua inferioridade.”
O ESPÍRITO DE VERDADE.
8ª) De todas as contradições que notamos nas comunicações dos
Espíritos, uma das mais marcantes é a que se refere à reencarnação. Se a
reencarnação é uma necessidade da vida espírita, como se explica que nem
todos os Espíritos a ensinem?
“Vocês não sabem que há Espíritos cujas ideias são limitadas ao
presente, assim como tantos homens na Terra? Eles creem que a situação em
que se encontram deve durar para sempre; não enxergam nada além do
círculo de suas percepções e não se perguntam nem de onde vêm nem para
onde vão, e, portanto, eles devem sofrer a ação da lei da necessidade. A
reencarnação é para eles uma necessidade na qual não pensam senão quando
ela chega; eles sabem que o Espírito progride, mas de que maneira? Isso para
eles é um problema. Então, se vocês os interrogarem a respeito, eles lhes
falarão dos sete céus superpostos como andares; há alguns que até falarão da
esfera do fogo, da esfera das estrelas, depois da cidade das flores, da dos
eleitos.”
9ª) Concebemos que os Espíritos pouco adiantados possam não
compreender essa questão; mas então como é que os Espíritos de uma
inferioridade moral e intelectual notória falam espontaneamente de suas
diferentes existências e do desejo que têm de reencarnar para resgatarem o
passado?
“Passam-se no mundo dos Espíritos coisas bem difíceis de vocês
365 – O Livro dos Médiuns
compreenderem. Não existem entre vocês pessoas tão ignorantes sobre certas
coisas e que são esclarecidas sobre outras? E pessoas que têm mais juízo do
que instrução e outras que têm mais inteligência que juízo? Não sabem
também que alguns Espíritos gostam de conservar os homens na ignorância
ao mesmo tempo em que parecem instruí-los, e que aproveitam da facilidade
com que dão crédito às suas palavras? Eles podem seduzir os que não vão até
o fundo das coisas, mas quando são levados ao limite pelo raciocínio, não
sustentam por muito tempo o seu fingimento.
“É preciso também ter em conta a prudência que geralmente os Espíritos
têm na promulgação da verdade: uma luz muito viva e muito súbita ofusca e
não ilumina. Então, em certos casos eles podem julgar útil a espalharem
gradualmente, conforme os tempos, os lugares e as pessoas. Moisés não
ensinou tudo o que o Cristo ensinou, e o próprio Cristo disse muitas coisas
cuja compreensão estava reservada às gerações futuras. Vocês falam da
reencarnação e ficam admirados que este princípio não tenha sido ensinado
em determinados países; lembrem-se, porém, de que num país onde o
preconceito da cor reina soberano, onde a escravidão se enraizou nos
costumes, o espiritismo teria sido repelido só por proclamar a reencarnação,
pois a ideia de que aquele que é patrão pudesse se tornar escravo, e vice-
versa, pareceria monstruosa. Não era mais válido semear primeiro o princípio
geral e deixar para mais tarde tirar as suas consequências? Oh, homens! Como
é curta a vista de vocês para julgar os desígnios de Deus! Saibam bem que
nada se faz sem a permissão divina, e sem um objetivo que nem sempre vocês
podem entender.78 Eu já lhes disse que a unidade se faria na crença espírita;
fiquem certos de que assim será, e que as dissidências — já menos profundas
— se apagarão pouco a pouco na medida em que os homens se esclareçam e
que elas acabarão por desaparecer completamente, pois essa é a vontade de
Deus, contra a qual o erro não pode prevalecer.”
O ESPÍRITO DE VERDADE.
10ª) As doutrinas errôneas que podem ser ensinadas por determinados
78 Referência implícita ao movimento espiritualista americano, que promoveu com bom êxito as
manifestações mediúnicas modernas, mas que resistiu ao conceito espírita da reencarnação. N. T.
366 – Allan Kardec
Espíritos não teriam por efeito retardar o progresso da verdadeira ciência?
“Vocês gostariam de obter tudo sem trabalho; então, saibam que não há
campo onde não cresçam ervas daninhas que o lavrador precise extirpar.
Essas doutrinas errôneas são uma consequência da inferioridade do vosso
mundo; se os homens fossem perfeitos, só aceitariam o que é verdadeiro; os
erros são como as pedras falsas, que só um olhar experiente pode distinguir.
Portanto, falta a vocês um aprendizado para distinguir o verdadeiro do falso.
Pois bem! As doutrinas falsas têm como utilidade exercitar em vocês a
distinção entre o erro e a verdade.”
— Os que adotam o erro não estariam atrasados no seu progresso?
“Se eles adotam o erro, é porque não estão bastante avançados para
compreender a verdade.”
- Esperando até que a unidade se faça, cada um acha que tem a verdade do
seu lado e defende ser o único certo, ilusão que os Espíritos enganadores não
deixam de alimentar; então, para fazer o seu julgamento, em que poderia se
basear o homem imparcial e desinteressado?
“A luz mais pura não é obscurecida por nenhuma nuvem; o diamante
sem mácula é aquele que tem mais valor; portanto, julguem os Espíritos pela
pureza de seus ensinamentos. A unidade se fará do lado onde o bem jamais
seja misturado com o mal; é desse lado que os homens se ligarão, pela força
das coisas, porque eles julgarão que aí está a verdade. Ademais, notem que os
princípios fundamentais por toda parte são os mesmos e devem unir vocês
numa ideia comum: o amor de Deus e a prática do bem. Logo, qualquer que
seja o modo de progressão que se imagine para as almas, o objetivo final e o
meio de alcançá-lo é também o mesmo: fazer o bem. Ora, não há duas
maneiras de fazê-lo. Se divergências capitais se levantarem quanto ao próprio
princípio da doutrina, vocês terão uma regra certa para julgá-las, e a regra é
esta: a melhor doutrina é aquela que melhor satisfaz ao coração e à razão, e
aquela que tem mais elementos para conduzir os homens ao bem; eu garanto
a vocês que essa é a doutrina que prevalecerá.”
O ESPÍRITO DE VERDADE.
367 – O Livro dos Médiuns
Nota – As contradições que se apresentam nas comunicações espíritas podem
derivar das seguintes causas: da ignorância de certos Espíritos; da mistificação dos
Espíritos inferiores que, por malícia ou maldade, dizem o contrário daquilo que foi
dito noutro lugar pelo Espírito de quem eles usurpam o nome; da vontade do próprio
Espírito que fala conforme as épocas, os lugares e as pessoas, e que pode julgar
conveniente não dizer tudo a todo mundo; da insuficiência da linguagem humana para
expressar as coisas do mundo espiritual; da insuficiência dos meios de comunicação,
que nem sempre permitem ao Espírito reproduzir todo o seu pensamento; enfim, da
interpretação que cada um pode dar a uma palavra ou a uma explicação, segundo suas
ideias, seus preconceitos, ou o ponto de vista do qual encare o assunto. Só o estudo, a
observação, a experiência e a abnegação de todo sentimento de vaidade podem
ensinar a distinguir essas diversas variações.
Mistificações
- Se é desagradável equivocar-se, ainda mais desagradável é ser
mistificado; aliás, esse é um dos inconvenientes mais fáceis de se proteger. Os
meios de frustrar as armadilhas dos Espíritos enganadores vêm de todas as
instruções precedentes; é por isso que não falaremos senão pouca coisa sobre
isso. Aqui estão as respostas que os Espíritos nos deram a respeito:
1ª As mistificações são um dos escolhos mais desagradáveis do
espiritismo prático; haverá algum meio de nos preservarmos deles?
“Parece-me que vocês podem encontrar a resposta em tudo o que já lhes
foi ensinado. Sim, certamente que há um meio simples para isso: o de não
pedirem ao espiritismo senão o que ele possa dar a vocês; seu objetivo é o
melhoramento moral da humanidade; contanto que não se afastem desse
propósito, vocês jamais serão enganados, porque não há duas maneiras de
compreender a verdadeira moral, a moral que todo homem de bom senso
pode admitir.
“Os Espíritos vêm instruir e guiar vocês para o caminho do bem e não
para o das honras e da fortuna, nem vêm para servir vossas paixões
mesquinhas. Se nunca lhes pedissem nada de fútil ou que estivesse fora de
suas atribuições, jamais dariam ensejo aos Espíritos enganadores; disso vocês
368 – Allan Kardec
devem concluir que aquele que é mistificado só tem o que merece.
“O papel dos Espíritos não é lhes informar sobre as coisas deste mundo,
mas o de guiá-los com segurança no que possa ser útil a vocês no outro
mundo. Quando eles falam das coisas daqui de baixo é que julgam necessário,
mas não por causa que o peçam. Se vocês acham nos Espíritos os substitutos
dos adivinhos e dos feiticeiros, então é certo que serão enganados.
“Se os homens só precisassem se dirigir aos Espíritos para saber de tudo,
então eles não teriam mais livre-arbítrio e sairiam do caminho traçado por
Deus para humanidade. O homem deve agir por si mesmo; Deus não envia os
Espíritos para aplainar a sua estrada material da vida, mas para preparar a
estrada do futuro.”
— Mas, não há pessoas que não perguntam nada e que são
enganadas indignamente por Espíritos que vêm espontaneamente sem
serem chamados?
“Elas não perguntam nada, mas sentem prazer em ouvir, o que dá
no mesmo. Se elas acolhessem com reserva e desconfiança tudo o que se
afasta do objetivo essencial do espiritismo, os Espíritos levianos não as
enganariam tão facilmente.”
2ª) Por que Deus permite que pessoas sinceras e que aceitam o
espiritismo de boa vontade sejam mistificadas? Isso não poderia ter por
inconveniência abalar a crença delas?
“Se isso abalasse a sua crença, seria porque a fé delas não era bastante
sólida; os que renunciassem ao espiritismo por um simples desapontamento,
provariam que não o compreenderam e que não se apegaram à parte séria.
Deus permite as mistificações para provar a perseverança dos verdadeiros
adeptos e para punir os que fazem disso um objeto de divertimento.”
O ESPÍRITO DE VERDADE.
Nota – A esperteza dos Espíritos mistificadores às vezes ultrapassa tudo o que
se possa imaginar; a arte com que armam as suas baterias e combinam os meios de
persuadir seria uma coisa curiosa se nunca passasse de brincadeiras inocentes, mas
essas mistificações podem ter consequências desagradáveis para os que não estejam
prevenidos. Estamos bastante felizes por termos podido abrir a tempo os olhos de
369 – O Livro dos Médiuns
várias pessoas que bem quiseram nos pedir o nosso conselho e por lhes ter poupado
de ações ridículas e comprometedoras. Entre os métodos que esses Espíritos
empregam, é necessário colocar na primeira linha, como sendo os mais frequentes, os
que têm por fim tentar a cobiça, como a revelação de supostos tesouros escondidos, o
anúncio de heranças ou outras fontes de riquezas. Além disso, devemos considerar
como suspeitas em primeiro lugar as predições com hora determinada, assim como
todas as indicações precisas no tocante a interesses materiais. Devemos também ter
cuidado com todo despacho prescrito ou aconselhado pelos Espíritos quando a
finalidade não for eminentemente racional; jamais se deixar deslumbrar pelos nomes
que os Espíritos adotam para dar uma aparência de veracidade às suas palavras;
desconfiar das teorias e sistemas científicos ousados; enfim, desconfiar de tudo o que
se afaste do propósito moral das manifestações. Nós preencheríamos um volume dos
mais curiosos com a história de todas as mistificações que já chegaram ao nosso
conhecimento.
370 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXVIII
CHARLATANISMO E EMBUSTE
Médiuns interesseiros – Fraudes espíritas
Médiuns interesseiros
- Como tudo pode se tornar objeto de exploração, não há nada de
espantoso em que alguém também quisesse explorar os Espíritos; resta saber
como eles encarariam a questão, se algum dia tentassem apresentar tal
especulação. Nós diremos primeiramente que nada se prestaria melhor ao
charlatanismo e ao embuste do que uma profissão como essa. Se temos visto
falsos sonâmbulos, veremos ainda muito mais falsos médiuns, e só isso já
seria motivo de desconfiança. O desinteresse, ao contrário, é a resposta mais
peremptória que podemos oferecer aos que não enxergam nos fatos nada
mais do que um truque hábil. Não existe charlatanismo desinteressado; qual
seria então a intenção das pessoas que usassem da mistificação sem proveito
e ainda mais quando sua reconhecida honestidade os coloca acima de
qualquer suspeita?
Se o lucro que um médium pode obter com a sua faculdade constitui um
motivo de suspeita, isso jamais seria uma prova de que tal suspeita fosse
fundamentada; logo, ele poderia ter uma verdadeira aptidão e agir de muito
boa-fé ao mesmo tempo em que se beneficiasse; neste caso, vejamos se é
razoavelmente possível esperar algum resultado satisfatório.
- Quem compreendeu bem o que dissemos das condições necessárias para
servir de intérprete dos bons Espíritos, das numerosas causas que podem
371 – O Livro dos Médiuns
afastá-los, das circunstâncias independes da vontade deles e que muitas vezes
são um obstáculo à sua vinda, enfim, de todas as condições morais que
podem exercer uma influência sobre a natureza das comunicações, como
poderíamos supor que um Espírito — por menos elevado que fosse —
estivesse a qualquer hora do dia às ordens de um empresário de sessões e
submisso às suas exigências para satisfazer à curiosidade do primeiro que
aparecesse? Sabemos da aversão dos Espíritos por tudo o que cheira a cobiça
e egoísmo, do pouco caso que eles fazem das coisas materiais; e ainda querem
que eles ajudem a traficar a presença deles! Isso é repugnante ao pensamento,
e seria preciso conhecer muito pouco a natureza do mundo espírita para
acreditar que pudesse ser assim. Mas como os Espíritos levianos são menos
escrupulosos e só procuram ocasião para se divertirem às nossas custas,
ocorre que, o resultado é que se não for mistificado por um falso médium,
tem-se toda a chance de ser mistificado por alguns de tais Espíritos. Só estas
reflexões dão a medida do grau de confiança que devemos depositar nas
comunicações desse gênero. De resto, para que serviriam hoje médiuns
remunerados, já que, se a própria pessoa não possui essa faculdade, ela pode
encontrá-la na sua família, entre seus amigos ou entre conhecidos?
- Médiuns interesseiros não são unicamente aqueles que poderiam exigir
uma retribuição fixa; o interesse nem sempre se traduz pela espera de um
ganho material, mas também pelas pretensões ambiciosas de qualquer tipo,
sobre as quais podem se fundar esperanças particulares; esse também é um
defeito que os Espíritos zombeteiros sabem muito bem explorar e do qual eles
se aproveitam com habilidade, uma astúcia verdadeiramente marcante,
embalando com enganosas ilusões aqueles que assim se colocam sob a
dependência deles. Em resumo, a mediunidade é uma faculdade concedida
para o bem, e os bons Espíritos se distanciam de todo aquele que pretenda
fazer dela um degrau para chegar ao que quer que seja e que não corresponda
aos desígnios da Providência. O egoísmo é a chaga da sociedade; os bons
Espíritos a combatem, então não podemos supor que eles venham servi-lo.
Isso é tão racional que seria inútil insistir mais sobre esse assunto. - Os médiuns de efeitos físicos não estão na mesma categoria, pois esses
372 – Allan Kardec
efeitos geralmente são produzidos pelos Espíritos inferiores menos
escrupulosos. Não estamos dizendo que tais Espíritos sejam necessariamente
maus por isso: um ignorante pode ser um homem muito honesto; um médium
desta categoria, que quisesse explorar a sua faculdade, poderia então ter
quem o ajudassem sem grande repugnância; mas ainda nesse caso outro
inconveniente se apresenta: o médium de efeitos físicos — não mais do que
aquele de comunicações inteligentes — não recebeu sua faculdade para seu
prazer; ela lhe foi dada sob a condição de fazer dela um bom uso, e se ele
abusar dela, ela pode ser retirada dele ou ser revertida em seu detrimento,
porque definitivamente os Espíritos inferiores estão sob às ordens dos
Espíritos superiores.
Os Espíritos inferiores gostam muito de mistificar, mas não gostam de
ser mistificados; se eles se entregam voluntariamente à brincadeira e às
coisas de curiosidade, porque gostam de se divertir, por outro lado eles não
gostam — mais do que os outros — de ser explorados, nem servir de
comparsas para fazer o lucro aumentar, e a todo instante eles provam que
têm vontade própria, que agem quando e como bem lhes parece, o que faz
com que o médium de efeitos físicos esteja ainda menos seguro da
regularidade das manifestações do que o médium escrevente. Pretender
produzi-los em dias e horas determinados seria dar prova da mais profunda
ignorância. O que resta a fazer então para ganhar seu dinheiro? Simular os
fenômenos; é isso o que pode acontecer não somente aos que fazem disso
uma profissão declarada, mas também às pessoas aparentemente simples que
acham esse meio mais fácil e mais cômodo do que trabalhar. Se o Espírito não
dá, pode-se compensá-lo: como a imaginação é fértil quando se trata de
ganhar dinheiro! O interesse sendo um motivo legítimo de suspeita, ele dá
direito a um rigoroso exame, com o qual ninguém poderá se ofender sem
justificar as suspeitas. Porém, quanto mais a desconfiança for legítima neste
caso, tanto mais ofensiva ela será perante pessoas honradas e
desinteressadas.
- A faculdade medianímica — mesmo restrita aos limites das
manifestações físicas — não foi dada para desfilar nos palcos, e quem
373 – O Livro dos Médiuns
pretendesse ter os Espíritos às suas ordens para os exibir em público, com
razão, pode estar sob suspeita de charlatanismo ou de prestidigitação mais ou
menos hábil. Que estejamos avisados todas as vezes que virmos anúncios de
supostas sessões de espiritismo ou de espiritualismo a um preço para cada
lugar, e que nos lembremos da taxa que se paga ao entrar.
De tudo o que foi dito, concluímos que o mais absoluto desinteresse é a
melhor garantia contra o charlatanismo; se ele nem sempre assegura o
altruísmo das comunicações inteligentes, ao menos priva os maus Espíritos de
um poderoso meio de ação e fecha a boca de certos detratores.
- Restaria o que poderíamos chamar embuste dos amadores, quer dizer,
as fraudes inocentes de alguns brincalhões de mau gosto. Sem dúvida, o
embuste pode ser praticado como passatempo nas reuniões levianas e
frívolas, mas não nas assembleias sérias onde só são permitidas pessoas
sérias. Além disso, é possível que alguém se dê o prazer de uma mistificação
momentânea; mas seria preciso ser dotado de uma estranha paciência para
representar esse papel por meses e anos, e a cada vez durante várias horas
consecutivas. Só um interesse qualquer poderia dar essa perseverança, mas o
interesse — repetimos — pode fazer tudo se tornar suspeito. - Talvez digam que um médium que dedica todo o seu tempo ao público,
no interesse da causa, não pode fazer isso de graça porque ele precisa viver.
Mas, é ao interesse da causa ou ao seu próprio interesse que ele se dedica?
Não seria antes por que ele vê nisso uma profissão lucrativa? Por esse preço,
sempre haverá gente dedicada. Ele só tem esse ramo de atividade à sua
disposição? Não nos esqueçamos de que os Espíritos — qualquer que seja a
sua superioridade ou inferioridade — são as almas dos mortos e que,
enquanto a moral e a religião consideram um dever respeitar os restos
mortais, a obrigação de respeitar o seu Espírito é maior ainda.
O que diriam daquele que tirasse um corpo do túmulo e o exibisse por
dinheiro, já que esse corpo serviria para provocar curiosidade? Seria menos
desrespeitoso exibir o Espírito do que exibir o corpo sob o pretexto de que é
curioso ver como um Espírito age? Notemos bem que o preço dos lugares será
374 – Allan Kardec
proporcional aos truques que ele poderá fazer e da atratividade do
espetáculo. Certamente, se ele tivesse sido um ator quando era vivo, não
suspeitaria que depois de morto encontraria um diretor que, em seu proveito
particular, o fizesse representar a peça de graça.
Não podemos esquecer que as manifestações físicas — assim como as
inteligentes — só são permitidas por Deus para nossa instrução.
- Considerações morais à parte, não contestamos de nenhum modo que
possa haver médiuns interesseiros honrados e conscienciosos, porque há
gente honesta em todas as profissões; estamos falando apenas do abuso. Mas,
pelos motivos que expusemos, devemos convir que há mais razão para o
abuso entre os médiuns remunerados do que entre os que, considerando sua
faculdade uma dádiva, não a empregam a não ser para prestar serviço.
O grau da confiança ou de desconfiança que podemos depositar em um
médium pago depende antes de tudo da estima que o seu caráter e a sua
moralidade impõem — além das circunstâncias. O médium que, com um
objetivo eminentemente sério e útil, fosse impedido de empregar o seu tempo
de outra maneira e, por essa razão, se visse exonerado, não pode ser
confundido com o médium interesseiro, aquele que, com um desígnio
premeditado, faz da sua mediunidade um negócio. Conforme o motivo e o
objetivo, os Espíritos podem então condenar, absolver e até favorecer; eles
julgam mais a intenção do que o fato material.
- Os sonâmbulos que utilizam sua faculdade de um modo lucrativo não
estão no mesmo caso. Embora essa exploração esteja sujeita a abusos, e o
desinteresse seja a maior garantia de sinceridade, a situação é diferente,
tendo-se em vista que é o seu próprio Espírito que atua; consequentemente,
ele está sempre à sua disposição, e na realidade eles só exploram a si mesmos,
porque eles são livres para dispor de sua pessoa como bem o entendem, ao
passo que os médiuns especuladores exploram as almas dos mortos. (Veja o
item 172, Médiuns sonambúlicos.) - Não ignoramos que a nossa severidade com relação aos médiuns
375 – O Livro dos Médiuns
interesseiros desperta contra nós todos aqueles que exploram ou seriam
tentados a explorar essa nova indústria, e faz deles nossos inimigos ferozes, a
exemplo dos seus amigos, que naturalmente agem em sua defesa; nós nos
consolamos ao nos lembrarmos de que os mercadores expulsos do templo por
Jesus também não o viam com bons olhos. Assim, temos contra nós pessoas
que não consideram a questão com a mesma gravidade; entretanto,
acreditamos que temos o direito de ter uma opinião e de emiti-la; não
obrigamos ninguém a adotá-la. Se uma imensa maioria a apoia é porque
aparentemente a acharam justa, pois, de fato, não vemos como alguém
poderia provar que não há mais chances de encontrarmos fraudes e abusos
no interesse financeiro do que no desinteresse. Quanto a nós, se os nossos
textos têm contribuído para lançar descrédito sobre a mediunidade
interesseira, na França e em outros países, cremos que isso não será um dos
menores serviços que teremos prestado ao espiritismo sério.
Fraudes espíritas
- Os que não admitem a realidade das manifestações físicas geralmente
atribuem os efeitos produzidos à fraude. Eles se baseiam no fato de que os
prestidigitadores habilidosos fazem coisas que parecem prodígios, quando
não se conhece seus segredos; donde eles concluem que os médiuns não
passam de escamoteadores. Nós já rebatemos este argumento, ou melhor,
esta opinião, principalmente nos nossos artigos sobre o Sr. Home e nos
números da Revista espírita de janeiro e fevereiro de 1858. Por isso, não
diremos mais do que algumas palavras a respeito, antes de falarmos de uma
coisa mais séria.
Aliás, há uma consideração que não escapará a qualquer um que reflita
um pouco. Sem dúvidas, existem prestidigitadores de uma prodigiosa
habilidade, mas eles são raros. Se todos os médiuns praticassem a
escamoteação, seria preciso reconhecer que essa arte teria feito em pouco
tempo incríveis progressos, e que teria se tornado subitamente muito comum,
já que se encontraria em estado inato em pessoas que nem suspeitavam dela
376 – Allan Kardec
— até mesmo em crianças.
Do fato de haver charlatães que vendem remédio nas praças públicas, e
de haver até mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a
confiança, será que todos os médicos são charlatães e que a classe médica seja
afetada na sua consideração? Do fato de haver gente que vende tintura por
vinho, resulta que todos os comerciantes de vinho sejam falsificadores e que
não há vinho puro? As pessoas abusam de tudo, até mesmo das coisas mais
respeitáveis, e bem se pode dizer que a fraude também tem o seu gênio. Mas a
fraude sempre tem uma finalidade, um interesse material qualquer; onde não
se tem nada a ganhar, não há interesse em enganar. Então, a propósito dos
médiuns mercenários, nós temos dito que a melhor de todas as garantias é o
desinteresse absoluto.
- De todos os fenômenos espíritas, os que mais se prestam à fraude são os
fenômenos físicos, pelos motivos que é útil levar em consideração. Primeiro,
já que eles se dirigem mais aos olhos do que à inteligência, esses são os
fenômenos que a prestidigitação pode imitar com mais facilidade. Em
segundo lugar porque, despertando a curiosidade mais do que os outros, eles
são mais apropriados a atrair as multidões, e por isso são os mais produtivos.
Desse duplo ponto de vista, portanto, os charlatães têm todo interesse em
simular esses tipos de manifestações; os espectadores, que na sua maioria são
estranhos à ciência, geralmente vão buscar nisso muito mais uma distração do
que uma instrução séria, e nós sabemos que sempre se paga melhor pelo que
diverte do que pelo que instrui. Porém, fora isso, existe outro motivo não
menos decisivo: se a prestidigitação pode imitar efeitos materiais para os
quais basta apenas destreza, até ao presente não conhecemos nele o dom de
improvisação, que requer uma dose de inteligência pouco comum, nem o dom
de produzir esses belos e sublimes ditados, frequentemente tão repletos de
propósitos que os Espíritos ditam em suas comunicações. Isto nos faz lembrar
o fato seguinte:
Um intelectual bastante conhecido veio um dia ter conosco e nos disse
que ele era um excelente médium escrevente intuitivo e que se colocava à
377 – O Livro dos Médiuns
disposição da sociedade espírita79. Como nós temos por hábito só admitir na
sociedade aqueles médiuns cujas faculdades nós conhecemos, então lhe
pedimos que antes ele tivesse a bondade de nos dar suas provas em uma
reunião particular. Ele compareceu à reunião, de fato; na ocasião, vários
médiuns experimentados deram dissertações e respostas de notável precisão
a respeito das questões propostas e de assuntos desconhecidos para eles.
Quando chegou a vez daquele senhor, ele escreveu algumas palavras
insignificantes, dizendo que estava indisposto nesse dia, e depois nunca mais
o vimos; com certeza ele achou que o papel de médium de efeitos inteligentes
fosse mais difícil de representar do que acreditava.
- Em todas as coisas, as pessoas mais fáceis de se enganar são as que não
são do ramo; acontece o mesmo com o espiritismo: aqueles que não o
conhecem são mais facilmente iludidas pelas aparências; porém, um estudo
preliminar, feito com atenção, não só lhes apresenta a causa dos fenômenos
como também apresenta as condições normais em que esses fenômenos
podem se produzir, e assim, esse estudo lhe fornece os meios de reconhecer a
fraude, se ela existir. - Os médiuns enganadores foram estigmatizados — como merecem — na
seguinte carta que reproduzimos na Revista espírita de agosto de 1861:
Paris, 21 de julho de 1861.
Senhor.
Podemos estar em desacordo sobre alguns pontos, e estar em perfeito acordo
sobre outros. Acabo de ler, na página 213 do último número do vosso jornal, as
reflexões sobre a fraude em matéria de experiências espiritualistas (ou espíritas),
as quais eu tenho a satisfação de me associar com todas as minhas forças. Aqui,
toda dissidência em matéria de teorias e de doutrinas desaparecem como que por
encanto.
Talvez eu não seja tão severo quanto o senhor, com relação aos médiuns que,
de forma digna e conveniente, aceitem uma remuneração como indenização do
tempo que dedicam a experiências muitas vezes longas e fatigantes; porém eu sou
79 Referência à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada e presidida por Allan Kardec. — N. T.
378 – Allan Kardec
rigoroso tanto quanto o senhor — e nunca o seríamos o bastante — com relação
aos que nessa ocasião suprem a ausência ou a insuficiência dos resultados
prometidos e esperados pela trapaça e pela fraude. (Ver o item 311.)
Quando se trata de fenômenos obtidos pela intervenção dos Espíritos,
misturar o falso com o verdadeiro é absurdamente uma infâmia, e haveria
obliteração do senso moral no médium que julgasse poder fazer isso sem
escrúpulo.
Assim como o senhor perfeitamente observou, isso significa lançar
descrédito sobre a causa na consciência dos indecisos, já que a fraude está
reconhecida. Acrescentarei que isso é comprometer do modo mais deplorável os
homens honrados que prestam aos médiuns o apoio desinteressado de seus
conhecimentos e de suas luzes, que fazem de si fiadores de sua boa-fé e que de
alguma forma os patrocinam; isso é cometer contra eles uma verdadeira traição.
Todo médium que fosse flagrado com truques fraudulentos; que fosse
apanhado com a boca na botija — para me servir de uma expressão um tanto
trivial — mereceria ser banido ao esquecimento por todos os espiritualistas ou
espíritas do mundo, para quem seria um rigoroso dever desmascará-los e excluí-lo.
Se for conveniente, Senhor, inserir estas breves linhas no seu jornal, elas
estão à sua disposição.
Aceite-as!
MATEUS
- Nem todos os fenômenos espíritas são igualmente fáceis de imitar e
existem alguns deles que evidentemente desafiam toda a habilidade da
prestidigitação, são eles principalmente: o movimento dos objetos sem
contato, a suspensão dos corpos pesados no ar, as pancadas de diferentes
lados, as aparições etc., salvo o emprego de truques e de cumplicidade; é por
isso que dizemos que o é que necessário em tal caso é observar atentamente
as circunstâncias e sobretudo ter em conta o caráter e a posição das pessoas,
o objetivo e o interesse que elas possam ter em enganar: esse é o melhor de
todos os controles, pois há circunstâncias que excluem todos os motivos de
suspeita. Pensamos então, em princípio, que devemos desconfiar de quem
quer que fizesse desses fenômenos um espetáculo ou objeto de curiosidade e
de divertimento, e que pretendesse produzi-los à sua vontade e na hora
marcada, assim como já explicamos. Nunca será demais repetir que as
379 – O Livro dos Médiuns
inteligências ocultas que se manifestam para nós têm suas suscetibilidades, e
querem nos provar que elas também têm seu livre-arbítrio e que não se
submetem aos nossos caprichos. (Ver item 38.)
Basta-nos assinalar alguns subterfúgios usados, ou que possam ser
empregados em certos casos, para prevenirmos os observadores de boa-fé
contra as fraudes. Quanto às pessoas que teimam em julgar sem aprofundar,
seria tempo perdido procurar desiludi-las.
- Um dos fenômenos mais comuns é o das pancadas no interior da própria
substância da madeira — com ou sem o movimento da mesa ou de outro
objeto usado. Esse efeito é um dos mais fáceis de ser imitado, seja pelo
contato dos pés, seja provocando-se pequenos estalidos no móvel; mas há
uma pequena artimanha especial que é útil desvendarmos. Basta pôr as duas
mãos espalmadas sobre a mesa e bastante aproximadas para que as unhas
dos polegares se apoiem fortemente uma contra a outra; então, por um
movimento muscular inteiramente imperceptível, faz-se produzir nelas um
atrito que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande semelhança com o da
tiptologia interna. Esse ruído repercute na madeira e produz uma completa
ilusão. Nada mais fácil do que fazer que se ouçam quantas pancadas se
queiram, um rufo do tambor etc., responder a certas perguntas com sim ou
não, com números, ou até mesmo pela indicação das letras do alfabeto.
Uma vez prevenido, o modo de descobrir a fraude é muito simples. Ela
deixa de ser possível se as mãos estiverem afastadas uma da outra e se
estivermos seguros de que nenhum outro contato possa produzir o ruído.
Além disso, as pancadas verdadeiras apresentam esta característica: elas
mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ser quando for devido
à causa que indicamos ou a qualquer outra causa parecida; essas pancadas
também saltam da mesa para se produzirem em outro móvel qualquer em
que ninguém esteja tocando, nas paredes, no forro etc., e que enfim
respondem a questões não previstas. (Veja o item 41.)
- A escrita direta é ainda mais facilmente imitável; sem falar dos agentes
químicos bem conhecidos para fazer depois de algum tempo a escrita
380 – Allan Kardec
aparecer no papel em branco — o que podemos impedir com as mais simples
precauções —, pode acontecer que por uma hábil trapaça se substitua um
papel por outro. Poderá ser também que aquele que quisesse fraudar tenha a
arte de desviar as atenções enquanto escreva rapidamente algumas palavras.
Já nos foi dito também que viram alguém escrever assim com um pedaço de
ponta de lápis escondido debaixo da unha.
- O fenômeno do movimento de objetos não é menos usado para embuste,
e facilmente se pode ser enganado por um escamoteador mais ou menos
esperto, sem que ele tenha necessidade de ser um prestidigitador de
profissão. No parágrafo especial que publicamos anteriormente (Item 96) os
próprios Espíritos determinaram as condições excepcionais nas quais ele se
produz, donde podemos concluir que a obtenção fácil e facultativa deve no
mínimo ser considerada suspeita. A escrita direta está no mesmo caso. - No capítulo dos Médiuns especiais, nós mencionamos, segundo os
Espíritos, as aptidões medianímicas comuns e as que são raras. Com isso,
convém desconfiar de médiuns que pretendam ter estas últimas com muita
facilidade, ou que ambicionem ter uma multiplicidade de faculdades —
pretensão que só muito raramente se justifica. - Conforme as circunstâncias, as manifestações inteligentes são as que
oferecem mais garantias, mas ainda assim elas não estão livres da imitação,
pelo menos no que se refere às comunicações banais e vulgares. Alguns
acreditam ter mais segurança com os médiuns mecânicos, não só pela
independência das ideias como também contra as mistificações; é por essa
razão que certas pessoas preferem os intermediários materiais. Pois bem!
Isso é um erro. A fraude se infiltra por toda parte, e nós sabemos que, com
habilidade, podemos dirigir à vontade até mesmo uma cesta ou uma
prancheta que escreve e lhe dar todas as aparências dos movimentos
espontâneos. O que pode afastar todas as dúvidas são os pensamentos
expressos, que eles venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente,
falante ou vidente. Há comunicações que são tão além das ideias, dos
381 – O Livro dos Médiuns
conhecimentos e até mesmo do alcance intelectual do médium, que seria
necessário iludir-se absurdamente para atribuí-las a ele. Reconhecemos no
charlatanismo uma grande habilidade e vastos recursos, mas ainda não
conhecemos nele o dom de dar sabedoria a um ignorante, nem inteligência a
quem não a tenha.
Em resumo, nós repetimos, a melhor garantia está na moralidade
notória dos médiuns e na ausência de todas as causas de interesse material ou
de orgulho, que poderia estimular neles o exercício das faculdades
medianímicas que ele possua, porque essas mesmas causas poderiam induzi-
los a simular aquelas que ele não tem.
382 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXIX
REUNIÕES E
SOCIEDADES ESPÍRITAS
Reuniões em geral – Sociedades propriamente ditas
– Assuntos para estudos – Rivalidades entre as sociedades
Reuniões em geral
- As reuniões espíritas podem ter muitíssimas vantagens naquilo que elas
permitem esclarecer pela troca de ideias, pelas questões e pelas observações
que cada qual pode fazer e das quais todo mundo se beneficia; mas, para
colhermos todos os seus frutos desejáveis, elas requerem condições especiais
que nós vamos examinar, pois seria errado igualá-las às sociedades comuns.
Além do mais, sendo as reuniões um conjunto coletivo, o que lhes diz respeito
é a consequência natural das instruções anteriores e elas têm que tomar as
mesmas precauções e se proteger dos mesmos perigos que os indivíduos; é
por isso que colocamos esse capítulo por último.
As reuniões espíritas têm características muito diferentes, conforme o
objetivo que lhes propomos e, por isso mesmo, sua condição de ser também
deve se diferenciar. Segundo sua natureza, elas podem ser frívolas,
experimentais ou instrutivas.
- As reuniões frívolas se compõem de pessoas que só enxergam o lado
divertido das manifestações, que se entretém com as brincadeiras dos
Espíritos levianos, que gostam bastante desses tipos de assembleias, onde
eles têm toda a liberdade para se exibirem e às quais eles não faltam. É nessas
383 – O Livro dos Médiuns
reuniões que se pergunta banalidades de toda qualidade, que se pede para os
Espíritos lerem o futuro, que se põe à prova a perspicácia deles para
adivinhar a idade ou o que cada um tem no bolso, para revelar segredinhos e
mil outras coisas dessa importância.
Essas reuniões não trazem resultado, mas como às vezes os Espíritos
levianos são muito inteligentes e, em geral, têm um humor descontraído e
jovial, nelas frequentemente acontecem coisas bem curiosas de que o
observador pode tirar proveito; aquele que só tivesse visto isso e julgasse o
mundo dos Espíritos por essa amostra faria uma ideia tão falsa do mundo
espiritual tanto quanto quem julgasse toda a sociedade de uma grande cidade
pela amostra de alguns quarteirões. O simples bom senso diz que os Espíritos
elevados não podem vir em tais reuniões, nas quais os espectadores não são
mais sérios do que os atores. Quem queira se ocupar com coisas fúteis deve
francamente chamar os Espíritos levianos, assim como chamaria comediantes
para divertir um público; mas seria uma profanação convidar nomes
venerados para misturar o sagrado com o profano.
- As reuniões experimentais têm mais particularmente por objetivo a
produção das manifestações físicas. Para muitas pessoas, elas são um
espetáculo mais curioso do que instrutivo; os incrédulos saem delas mais
intrigados do que convencidos quando não tiverem visto nada excepcional, e
todo o seu pensamento estará voltado para a procura de truques, pois, não
entendendo nada, eles naturalmente passam a suspeitar de fraudes. De
maneira totalmente diferente ocorre com aqueles que estudaram o fenômeno,
porque compreendem previamente a possibilidade, e a partir dos fatos
positivos eles encaminham sua convicção, ou já a alcançam. Se tivesse
acontecido alguma falcatrua, eles estariam em condições de descobri-la.
Não obstante isso, esses tipos de experiências trazem uma utilidade que
ninguém poderia ignorar, pois foram elas que revelaram as leis que regem o
mundo invisível — e para muita gente, sem dúvidas elas são um poderoso
meio de convicção. Mas, continuamos defendendo que elas por si só não
podem iniciar ninguém na ciência espírita, assim como a amostragem de um
engenhoso mecanismo não torna conhecida a mecânica para quem não
384 – Allan Kardec
conheça suas leis; contudo, se essas reuniões fossem dirigidas com
metodologia e prudência, então nós obteríamos delas resultados muito
melhores. Voltaremos em breve a este assunto.
- As reuniões instrutivas têm um caráter muito diferente, e como são
destas que podemos tirar o verdadeiro ensinamento, nós insistiremos mais
nas condições que elas devem cumprir.
A primeira de todas é que continuem sérias, na definição integral da
palavra. É preciso estar convencido de que os Espíritos a quem queremos nos
dirigir sejam de uma natureza toda especial; que, o sublime não podendo se
aliar ao trivial, nem o bem ao mal, se quisermos obter coisas boas, então
precisamos nos dirigir aos bons Espíritos. Mas não basta chamar bons
Espíritos; é preciso — como condição expressa — estar em condições
propícias para que eles queiram realmente vir; ora, Espíritos superiores não
virão nas assembleias de homens levianos e superficiais, como não viriam
quando eram vivos.
Uma sociedade não é verdadeiramente séria a não ser com a condição de
se ocupar com objetivos úteis, com exclusão dos demais; se ela aspira obter
fenômenos extraordinários por mera curiosidade ou por passatempo, os
Espíritos que os produzam poderão vir, mas os outros se afastarão. Numa
palavra, qualquer que seja o caráter de uma reunião, haverá sempre Espíritos
dispostos a assistir as suas tendências. Portanto, uma reunião séria se afasta
de seu objetivo se ela troca o ensinamento pelo divertimento. Como dissemos,
as manifestações físicas têm sua utilidade; quem quiser ver, que vá nas
reuniões experimentais; quem quiser compreender, que vá nas reuniões de
estudos. É assim que uns e outros poderão completar sua instrução espírita,
tal como no estudo de medicina uns vão às aulas e outros vão à clínica.
- O aprendizado espírita não abrange apenas o ensinamento moral dado
pelos Espíritos, mas também o estudo dos fatos; cabe a este a teoria de todos
os fenômenos, a pesquisa das causas e consequentemente a constatação do
que é possível e do que não é; em suma, a observação de tudo o que possa
contribuir para o avanço da ciência. Ora, seria um engano acreditarmos que
385 – O Livro dos Médiuns
os fatos estejam limitados aos fenômenos extraordinários; que aqueles que
impressionam mais os sentidos sejam os únicos dignos de atenção; nós os
encontramos a cada passo nas comunicações inteligentes e que os homens
reunidos para estudar não poderiam negligenciar; esses fatos, que seria
impossível enumerar, surgem de uma série de circunstâncias casuais; embora
menos salientes, nem por isso eles são menos dignos do mais alto interesse
para o observador que neles encontra ou a confirmação de um princípio
conhecido ou a revelação de um princípio novo que o faz penetrar um pouco
mais nos mistérios do mundo invisível; é assim também com a filosofia.
- Além disso, as reuniões de estudo são de uma imensa utilidade para os
médiuns de manifestações inteligentes, principalmente para aqueles que têm
um desejo sério de se aperfeiçoar e que não comparecem a elas com uma tola
presunção de infalibilidade. Como já dissemos, um dos grandes desafios da
mediunidade está na obsessão e na fascinação, pois os médiuns podem se
iludir de muita boa-fé quanto ao mérito daquilo que receberam, e nós
entendemos que os Espíritos enganadores têm o caminho aberto quando
apenas lidam com um cego; é por isso que eles afastam o seu médium de toda
verificação; que se for preciso eles chegam até mesmo a fazê-lo tomar aversão
a qualquer pessoa que pudesse esclarecê-lo, e graças ao isolamento e à
fascinação eles podem facilmente levá-lo a aceitar tudo o que eles queiram.
Nunca será demais repetir: aí se encontra não somente um desafio, mas
também um perigo; sim — nós afirmamos —, um verdadeiro perigo. O único
meio de escapar dele é pelo controle de pessoas desinteressadas e benévolas
que, julgando as comunicações com sangue frio e imparcialidade, possam lhe
abrir os olhos e fazê-lo perceber o que ele não pode ver por si mesmo. Ora,
todo médium que teme esse julgamento já está no caminho da obsessão;
aquele que acredita que a luz foi feita só para ele está completamente
subjugado; se ele leva a mal as observações, se as rejeita, se ele se irrita com
elas, então não há dúvida sobre a má natureza do Espírito que o auxilia.
Como nós temos dito, um médium pode carecer dos conhecimentos
necessários para perceber os erros; ele pode se deixar iludir por palavras
fortes e por uma linguagem pretensiosa, ser seduzido por sofismas, e isso com
386 – Allan Kardec
a maior boa-fé do mundo; isso é porque, na falta de luzes próprias, ele deve
modestamente recorrer à dos outros, segundo aqueles dois ditados, que
quatro olhos enxergam melhor do que dois e que ninguém é bom juiz em causa
própria. É desse ponto de vista que as reuniões são de uma grande utilidade
para o médium, se ele for bastante sensato para ouvir as opiniões, já que nelas
se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que perceberão as
nuances — muitas vezes tão delicadas — pelas quais o Espírito trai a sua
inferioridade.
Todo médium que sinceramente deseje não ser joguete da mentira deve
então procurar participar das reuniões serias, trazendo a elas o que estiver
obtendo em particular; deve aceitar com gratidão, e até mesmo solicitar o
exame crítico das comunicações que ele recebe. Se estiver no alvo de Espíritos
enganadores, essa será a maneira mais segura de se desembaraçar deles,
provando-lhes que não podem enganá-lo. Aliás, o médium que se irrita com a
crítica tem muito menos razão quanto mais seu amor-próprio estiver
envolvido, porque o que ele diz não vem dele, e ele não é responsável por isso
mais do que se ele lesse os versos de um mau poeta.
Insistimos nesse ponto porque, se isso é um desafio para os médiuns,
também é para as reuniões nas quais é importante não dar a menor confiança
a todos os intérpretes dos Espíritos. A cooperação de qualquer médium
obsidiado ou fascinado seria mais nocivo do que útil; então elas não devem
aceitá-lo. Cremos que já relatamos os argumentos suficientes para que seja
impossível que eles se equivoquem acerca das características da obsessão, se
o médium não a puder reconhecer por si mesmo; um dos mais salientes é,
sem dúvidas, a pretensão de ser o único a ter razão contra todo mundo. Os
médiuns obsidiados que não querem concordar com isso se assemelham a
aqueles doentes que se iludem sobre a própria saúde e se perdem por não se
submeterem a um regime saudável.
- O que uma reunião séria deve ter como propósito é afastar os Espíritos
mentirosos; ela cairia em erro se acreditasse estar livre do julgo deles só por
causa do seu propósito e da qualidade de seus médiuns; ela só conseguirá isso
enquanto ela própria estiver em condições favoráveis.
387 – O Livro dos Médiuns
Para compreender bem o que se passa nessas circunstâncias, pedimos
que todos confiram o que dissemos no item 231, sobre a Influência do
ambiente. É preciso imaginar cada indivíduo como que cercado de certo
número de acólitos invisíveis que se identificam com o seu caráter, com seus
gostos e com seus pendores. Assim sendo, toda pessoa que entra numa
reunião traz consigo Espíritos que lhe são simpáticos. Dependendo do
número e da natureza deles, esses auxiliares podem exercer sobre a
assembleia e sobre as comunicações uma influência boa ou má. Uma reunião
perfeita seria aquela em que todos os participantes, animados por um igual
amor ao bem, trouxessem consigo somente bons Espíritos; na falta da
perfeição, a melhor será aquela onde o bem prevalece sobre o mal. Isso é
bastante lógico para que seja necessário insistir.
- Uma reunião é um ser coletivo cujas qualidades e particularidades são a
resultante de todas as qualidades e particularidades dos seus membros,
formando como que um feixe; ora, esse feixe terá mais força quanto mais ele
for homogêneo. Quem entendeu bem o que foi dito (Item 282, pergunta 5)
sobre a maneira como os Espíritos são avisados do nosso chamado então
compreenderá facilmente a força da associação de pensamentos dos
participantes. Se o Espírito é de algum modo afetado pelo pensamento, como
nós somos pela voz, vinte pessoas se unindo numa mesma intenção terão
necessariamente mais força do que uma só; mas para que todos esses
pensamentos contribuam com o mesmo propósito, é preciso que vibrem em
uníssono; que eles se confundam, por assim dizer, em um só — o que não
pode acontecer sem concentração.
Por outro lado, chegando a um meio completamente simpático, o
Espírito aí se sentirá mais à vontade; encontrando só amigos, ele virá mais
voluntariamente e estará mais disposto a responder. Quem acompanhar com
atenção as manifestações espíritas inteligentes poderá se convencer dessa
verdade. Se os pensamentos forem divergentes, o resultado será um choque
de ideias desagradável para o Espírito e, por conseguinte, prejudicial à
manifestação. É o mesmo que acontece com um homem que deva falar numa
assembleia: se ele sentir que todos os pensamentos lhes são simpáticos e
388 – Allan Kardec
benévolos, a impressão que ele receberá vai então reagir sobre as suas
próprias ideias e lhes dar mais vivacidade; a unanimidade dessa assistência
exerce sobre ele uma espécie de ação magnética que multiplica seus recursos,
ao passo que a indiferença ou a hostilidade o perturba e o paralisa; é assim
que os atores ficam eletrizados com os aplausos. Ora, como os Espíritos são
muito mais sensíveis que os humanos, eles devem sentir ainda mais a
influência do meio.
Desta forma, toda reunião espírita deve tender para a homogeneidade o
máximo possível. Está bem entendido aqui que falamos daquelas reuniões
que querem chegar a resultados sérios e verdadeiramente úteis; se o que se
quer é meramente obter comunicações, sem se preocupar com a qualidade de
quem as dita, é evidente que todas essas precauções deixam de ser
necessárias; mas então, ninguém poderá se queixar da qualidade do produto.
- Já que o recolhimento e a comunhão dos pensamentos são as condições
essenciais de toda reunião séria, então é compreensível que o número muito
grande de participantes é uma das causas mais contrarias para a
homogeneidade. Certamente não há nenhum limite absoluto para esse
número, e concebemos que cem pessoas suficientemente concentradas e
atentas estarão em melhores condições do que dez pessoas que estivessem
distraídas e bulhentas; mas também é evidente que, quanto maior for o
número, mais essas condições serão difíceis de se cumprir. Aliás, é um fato
provado pela experiência que os pequenos círculos íntimos são sempre mais
favoráveis para belas comunicações, e isso pelos motivos que expomos. - Existe ainda outro ponto que não é menos necessário: a regularidade das
reuniões. Em todas elas sempre há aqueles Espíritos que poderíamos chamar
de frequentadores assíduos, e não estamos nos referindo aos que se
encontram em toda a parte e que se metem em tudo; estamos falando tanto de
Espíritos protetores quanto daqueles que são interrogados mais
assiduamente. Não devemos supor que esses Espíritos não tenham outra
coisa a fazer senão nos ouvir; eles têm suas ocupações e, além disso, podem
estar em condições desfavoráveis para serem evocados. Quando as reuniões
389 – O Livro dos Médiuns
são realizadas em dias e horários fixos eles se organizam de acordo e é raro
que faltem a elas. Há até alguns que levam a pontualidade ao excesso; eles
ficam ofendidos com um atraso de quinze minutos, e se eles mesmos
marcarem o horário do encontro, seria em vão chamá-los alguns minutos
antes. Acrescentemos, todavia, que embora os Espíritos prefiram a
regularidade, aqueles que são realmente superiores não são meticulosos a tal
ponto. A exigência de uma pontualidade rigorosa é sinal de inferioridade,
como tudo o que é pueril. Sem dúvidas, eles podem vir fora das horas
determinadas, e vêm com muita boa vontade — se o objetivo for útil. Porém,
nada é mais prejudicial às boas comunicações do que chamá-los a torto e a
direito, quando a fantasia nos domina, e sobretudo sem motivo sério; como
eles não são forçados a se submeterem aos nossos caprichos, eles podem
muito bem não nos atender, e é principalmente nessa hora que outros podem
tomar o lugar e o nome deles.
Sociedades propriamente ditas
- Tudo o que dissemos sobre as reuniões em geral se aplica naturalmente
às sociedades regularmente constituídas; estas, entretanto, têm que lutar
contra algumas dificuldades especiais que surgem dos próprios vínculos que
unem seus membros. Como várias vezes nos foram solicitados alguns
conselhos sobre a organização das sociedades, então nós a resumiremos aqui.
O espiritismo — que apenas acaba de nascer — ainda é diversamente
apreciado e muito pouco compreendido em sua essência por grande parte de
seus adeptos para oferecer um laço poderoso entre os membros daquilo que
poderíamos chamar de associação. Esse vínculo não pode existir a não ser
entre aqueles que viram nele o objetivo moral, que o compreendem e o
aplicam a si mesmos. Entre aqueles que veem nele somente fatos mais ou
menos curiosos, não pode existir nenhum laço sério; colocando os fatos acima
dos princípios, basta uma simples divergência quanto à maneira de encará-los
para dividi-los. O mesmo já não se dá com os primeiros, pois quanto à questão
moral, não pode haver duas maneiras de vê-la. Também é notável que onde
390 – Allan Kardec
quer que eles se encontrem, uma confiança mútua os atrai uns para os outros;
a gentileza mútua que reina entre eles exclui o acanhamento e o
constrangimento que nascem da suscetibilidade, do orgulho que se irrita com
a menor contradição e do egoísmo que reclama tudo para si. Uma Sociedade
onde tais sentimentos reinassem completamente, onde as pessoas se
reunissem com o propósito de se educarem pelos ensinos dos Espíritos e não
na expectativa de verem coisas mais ou menos interessantes, ou para fazer
prevalecer a sua opinião, então essa sociedade — nós afirmamos — seria não
só viável, mas também indissolúvel. A dificuldade de ainda reunir numerosos
elementos homogêneos sob esse ponto de vista nos leva a dizer que, no
interesse dos estudos e mesmo pelo bem da causa, as reuniões espíritas
devem antes visar se multiplicar em pequenos grupos em vez de procurar
formar grandes aglomerações. Esses grupos, correspondendo entre si,
visitando-se e trocando observações, podem desde já formar o núcleo da
grande família espírita, que um dia juntará todas as opiniões e unirá os
homens num mesmo sentimento de fraternidade, selado pela caridade cristã.
- Nós já vimos de quanta importância é a uniformidade de sentimentos
para a obtenção de bons resultados; essa unidade é necessariamente tanto
mais difícil de se obter quanto maior for o número. Nas pequenas comissões
todos se conhecem melhor e estão mais seguros quanto aos elementos que
nela são introduzidos; o silêncio e a concentração aí são mais fáceis e tudo se
passa como em família. As grandes assembleias excluem a intimidade pela
variedade dos elementos que as compõem; elas exigem locais especiais,
recursos financeiros e um aparelho administrativo inútil nos pequenos
grupos; a divergência de caracteres, de ideias e de opiniões ficam mais bem
definidas nelas, e isso oferece aos Espíritos perturbadores mais facilidade
para semear a discórdia. Quanto mais a reunião for numerosa, mais será
difícil contentar a todos; cada um vai querer que os trabalhos sejam dirigidos
ao seu gosto, que sejam tratados preferencialmente os assuntos que mais lhe
interessam; alguns creem que o título de sócio lhes dá o direito de impor sua
maneira de ver. Daí vem as tensões, a causa de mal-estar que cedo ou tarde
traz a desunião e depois a dissolução — destino de todas as associações,
391 – O Livro dos Médiuns
qualquer que seja o seu objetivo. Os grupos pequenos não estão sujeitos a
essas divergências; a queda de uma grande sociedade seria um fracasso
aparente para a causa do espiritismo, e seus inimigos não deixariam de tirar
vantagem disso; já a dissolução de um pequeno grupo passa despercebido e,
ademais, quando um se dispersa, vinte outros se formam ao lado. Ora, vinte
grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão muito mais pela
propagação do que uma assembleia de trezentas ou quatrocentas pessoas.
Provavelmente vão falar que os membros de uma associação que
agissem como acabamos de dizer não seriam verdadeiros espíritas, já que o
primeiro dever que a doutrina impõe é o da caridade e da tolerância. Isto é
perfeitamente justo, pois aqueles que pensam assim também são espíritas
mais de nome do que de fato; eles seguramente não pertencem à terceira
categoria (Veja o item 28). Mas, quem disse que sequer eles são espíritas?
Aqui se apresenta uma consideração que não é sem gravidade.
- Não esqueçamos que o espiritismo tem inimigos interessados em
combatê-lo e que assistem aos seus triunfos com desgosto; os mais perigosos
não são os que o atacam abertamente, mas sim os que agem na sombra:
aqueles que o acariciam com uma mão e o apunhalam com a outra. Esses
seres malvados se enfiam onde quer que possam fazer mal; como eles sabem
que a união é uma potência, tratam de destruí-la lançando os princípios da
discórdia. Então, quem disse que aqueles que semeiam problemas e cizânia
nas reuniões não sejam agentes provocadores interessados na desordem?
Com certeza, nem são verdadeiros nem bons espíritas; eles jamais podem
fazer o bem, mas podem fazer muito mal. É compreensível que eles tenham
infinitamente mais facilidade de se insinuarem nas reuniões numerosas do
que nos grupos pequenos, onde todos se conhecem; graças a artimanhas sutis
que passam despercebidas, eles disseminam a dúvida, a desconfiança e a
desafeição; sob a aparência de um hipócrita interesse pela causa, eles criticam
tudo, formam conspirações e panelinhas que logo quebram a harmonia do
conjunto: isso é o que eles querem. Em se tratando de gente dessa espécie,
apelar para os sentimentos de caridade e fraternidade é falar a surdos
voluntários, pois o objetivo deles é exatamente destruir esses sentimentos —
392 – Allan Kardec
que formam o maior obstáculo às suas artimanhas. Esse estado de coisas,
desagradável em todas as associações, é ainda mais desagradável nas
sociedades espíritas porque, se não leva a uma ruptura, causa uma
preocupação incompatível com o recolhimento e com a concentração.
- Mas — eles dirão — se a reunião estiver num mau caminho, será que as
pessoas sensatas e bem-intencionadas não terão o direito de criticá-la? Ou
deverão deixar o mal passar sem dizer nada e aprová-lo pelo silêncio? Sem
nenhuma dúvida, isso é um direito deles: é, além disso, um dever; mas se a
intenção for realmente boa, eles emitirão seus conselhos com conveniência e
gentileza, abertamente e não às escondidas; se ninguém os seguir, eles se
retiram, pois não conceberíamos que quem não tenha segundas intenções
teime em permanecer numa sociedade onde se façam coisas que ele considere
inconvenientes.
Então, podemos estabelecer como regra que, numa reunião espírita,
quem provocar de alguma forma qualquer desordem ou desunião — de
maneira visível ou disfarçadamente — é ou um agente provocador ou pelo
menos um péssimo espírita do qual nunca será cedo demais se livrar. Porém,
os próprios vínculos que ligam todos os membros muitas vezes põem
obstáculos nisso; eis por que é conveniente evitar os vínculos indissolúveis;
os homens de bem sempre estão bastante vinculados: os mal-intencionados
sempre estão vinculados demais.
- Além das pessoas notoriamente malignas que se imiscuem nas reuniões,
existem outras que, pelo caráter, levam a perturbação com elas para toda
parte onde estejam: portanto, nunca seria demais todo o cuidado com os
novos membros introduzidos nas reuniões. Os mais prejudiciais, nesse caso,
não são os que desconhecem a doutrina, nem mesmo os que não creem: a
convicção só é adquirida pela experiência, e há pessoas que desejam se
esclarecer de boa-fé. Aquelas de quem nós devemos nos proteger são
principalmente as pessoas de ideias preconcebidas, os incrédulos que
duvidam de tudo — até mesmo de uma evidência; os orgulhosos que
pretendem ter exclusivamente a luz interior, querendo em tudo impor a sua
393 – O Livro dos Médiuns
opinião e olhando com desdém os que não pensam como eles. Não se deixem
enganar pelo suposto desejo deles de se instruírem; há muitos deles que
ficariam muito aborrecidos se fossem forçados a admitir que estavam
errados. Tenham cuidado sobretudo com esses oradores insípidos que
querem sempre dizer a última palavra, e com aqueles que só se deleitam com
a contradição; ambos fazem perder tempo, sem nenhum proveito para eles
mesmos; os Espíritos não gostam de palavras inúteis.
- Visto a necessidade de evitar toda causa de perturbação e de distração,
uma sociedade espírita que esteja sendo organizada deve dedicar toda a sua
atenção às medidas apropriadas para tirar dos causadores de desordem os
meios de agirem, e para oferecer as formas mais fáceis de afastá-los. As
pequenas reuniões precisam apenas de um regulamento disciplinar muito
simples para a boa ordem das sessões; já as sociedades regularmente
constituídas exigem uma organização mais complexa; a melhor será aquela
que cujo funcionamento seja menos complicado; todas poderão buscar o que
lhes for aplicável, ou o que julgarem útil, no regulamento da Sociedade
parisiense de estudos espíritas, que apresentamos a seguir. - As associações pequenas ou grandes e todas as reuniões — qualquer que
seja a sua importância — ainda têm que lutar contra outro obstáculo: os
causadores de problemas não estão somente no meio delas, mas também no
mundo invisível. Assim como há Espíritos protetores para as sociedades, para
as cidades e para os povos, há Espíritos malfeitores que se ligam aos grupos,
bem como aos indivíduos; eles atacam primeiramente os mais fracos, os mais
acessíveis, procurando fazer deles seus instrumentos, e de pouco em pouco
eles tentam envolver as massas, pois seu prazer maligno é proporcional ao
número daqueles que eles mantêm sob o jugo deles. Portanto, todas as vezes
que num grupo uma pessoa cai na armadilha, é preciso se convencer que há
um inimigo em campo, um lobo no redil, e que todos devem se colocar em
guarda, pois é mais que provável que ele multiplicará suas ofensivas; se o
inimigo não for desencorajado por uma resistência enérgica, a obsessão se
tornará um mal contagioso, que se manifestará nos médiuns pela perturbação
394 – Allan Kardec
da mediunidade e nos outros pela hostilidade dos sentimentos, pela
perversão do senso moral e pela quebra da harmonia. Como o antídoto mais
forte para esse veneno é a caridade, é a caridade o que eles procuram sufocar.
Então, não devemos esperar que o mal tenha se tornado incurável para
remediá-lo; não devemos sequer esperar os primeiros sintomas; devemos
sobretudo cuidar de preveni-lo; para isso há dois mecanismos eficazes, se
forem bem empregados: a prece de coração e o estudo atento dos menores
sinais que revelam a presença de Espíritos ludibriadores; o primeiro
mecanismo atrai os bons Espíritos, que só ajudam com zelo aqueles que
cooperam com eles, pela sua confiança em Deus; o outro prova aos maus que
eles estão lidando com gente bastante esclarecida e bastante sensata para não
se deixar enganar. Se um dos membros do grupo sofrer a influência da
obsessão, todos os esforços devem tender desde os primeiros indícios para
lhe abrir os olhos, antes que o mal não se agrave, a fim de levá-lo à convicção
de que foi enganado e ao desejo de apoiar aqueles que querem libertá-lo.
- A influência do ambiente é a consequência da natureza dos Espíritos e
do seu modo de ação sobre os seres vivos; dessa influência, cada um pode
deduzir por si mesmo as condições mais favoráveis para uma sociedade que
aspira se conciliar com a simpatia dos bons Espíritos e a só obter boas
comunicações afastando os maus. Estas condições estão todas nas disposições
morais dos participantes, e se resumem nos pontos seguintes:
- Perfeita comunhão de opiniões e de sentimentos;
- Benevolência recíproca entre todos os membros;
- Abnegação de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã;
- Desejo único de se instruir e de se melhorar pelo ensinamento dos bons
Espíritos e de aproveitar seus conselhos. Quem estiver persuadido de
que os Espíritos superiores se manifestam com o propósito de nos fazer
progredir, e não para nos divertir, então compreenderá que deve se
afastar dos que se limitam a admirar seu estilo sem colher nenhum
proveito disso, e que só são atraídos pelas sessões mediante o maior ou
menor interesse que elas lhes oferecem, segundo os gostos particulares;
395 – O Livro dos Médiuns
- Exclusão de tudo o que, nas comunicações solicitadas aos Espíritos, só
tivesse por intenção uma mera curiosidade; - Recolhimento e silêncio respeitoso durante os diálogos com os Espíritos;
- União de todos os participantes, através do pensamento, ao apelo feito
aos Espíritos que forem evocados;
- Cooperação dos médiuns da assembleia, com a abnegação de todo
sentimento de orgulho, de amor-próprio e de supremacia, e pelo único
desejo de serem úteis.
Será que essas condições são tão difíceis que não as possamos cumprir?
Nós não pensamos assim; ao contrário, nós esperamos que as reuniões
verdadeiramente sérias — como elas já existem em diversas localidades — se
multiplicarão, e não hesitamos em dizer que é a elas que o espiritismo deverá
a sua mais forte propagação; reunindo os homens honestos e conscienciosos,
elas farão calar a crítica e, quanto mais suas intenções forem puras, mais elas
serão respeitadas, até mesmo pelos seus adversários; quando a zombaria
ataca o bem, ela deixa de provocar o riso, e se torna desprezível. É entre as
reuniões desse gênero que se estabelecerá uma verdadeira ligação de
simpatia, uma solidariedade mútua, pela força das coisas, contribuindo para o
progresso geral.
- Seria um erro acreditar que as reuniões dedicadas mais especialmente
às manifestações físicas estejam de fora desse concerto fraternal, e que elas
excluam toda ideia séria; se elas não requerem condições tão rigorosas, não
será impunemente que alguém participe delas com leviandade, e estaria
enganado quem achasse que a cooperação dos participantes dessas reuniões
fosse absolutamente nula; temos a prova do contrário no fato de que muitas
vezes as manifestações desse tipo — ainda quando provocadas por médiuns
poderosos — não podem se produzir em determinados ambientes. Portanto,
também nesse caso, há influências contrárias, e essas influências só podem
estar na divergência ou na hostilidade dos sentimentos que paralisam os
esforços dos Espíritos.
Como foi dito, as manifestações físicas têm uma grande utilidade; elas
396 – Allan Kardec
abrem um vasto campo ao observador, pois é toda uma ordem de fenômenos
incomuns que se desdobram aos seus olhos e cujas consequências são
incalculáveis. Então, uma assembleia pode se ocupar com esses fenômenos
com intenções muito sérias, mas não alcançaria seu objetivo — seja como
estudo, seja como meio de convicção — se ela não for realizada em condições
favoráveis; a primeira de todas é, não a fé dos participantes, mas sim o desejo
de se esclarecer, sem segundas intenções e sem tendência de rejeitar até
mesmo a evidência; a segunda condição é a restrição do número de
participantes, para evitar a mistura de elementos heterogêneos. Se as
manifestações físicas são produzidas geralmente por Espíritos menos
avançados, nem por isso elas deixam de ter uma finalidade providencial, e os
bons Espíritos as favorecem sempre que elas possam ter um resultado útil.
Assuntos para estudos
- Quando evocamos parentes, amigos e alguns personagens famosos, para
comparar suas opiniões de além-túmulo com as que eles tinham quando
vivos, às vezes ficamos embaraçados em manter as conversas sem cair nas
banalidades e futilidades. Muita gente, aliás, pensa que O Livro dos Espíritos
esgotou a série das questões de moral e de filosofia; isso é um erro; eis por
que pode ser útil indicar a fonte de onde podemos tirar assuntos para estudo
por assim dizer ilimitados. - Se a evocação de homens ilustres, dos Espíritos superiores, é
eminentemente útil pelos ensinamentos que eles nos dão, a evocação dos
Espíritos comuns não é menos — se bem que eles sejam incapazes de resolver
as questões de alto porte. Pela sua inferioridade eles mesmos se revelam, e
quanto menor for a distância que os separa de nós, mais reconhecemos neles
semelhanças com a nossa própria situação, sem contar que frequentemente
eles nos dão traços característicos do mais alto interesse, assim como
explicamos no item 281, falando da utilidade das evocações particulares. É,
portanto, uma mina inesgotável de observações, mesmo pegando só os
397 – O Livro dos Médiuns
homens cuja vida apresente alguma particularidade com relação ao gênero da
morte, da idade, das boas e más qualidades, da posição feliz ou infeliz na
Terra, dos hábitos, do estado mental etc.
Com os Espíritos elevados o quadro de estudos se alarga; além das
questões psicológicas, que têm um limite, podemos lhes propor uma
imensidade de problemas morais que se estendem ao infinito sobre todas as
posições da vida, sobre a melhor conduta a seguir nessa ou naquela
determinada circunstância, sobre os nossos deveres recíprocos etc. O valor da
instrução que podemos receber sobre um assunto qualquer (moral, histórico,
filosófico ou científico) depende inteiramente do estado do Espírito que
interrogamos; cabe a nós julgar.
- Além das evocações propriamente ditas, os ditados espontâneos
oferecem uma infinidade de assuntos para estudos. Tudo consiste em
aguardarmos o assunto que os Espíritos gostam de tratar. Nesse caso, vários
médiuns podem trabalhar simultaneamente. Algumas vezes, podemos fazer
um apelo a um Espírito específico, porém o mais comum é esperarmos aquele
que queira se apresentar, e muitas vezes ele vem da maneira mais imprevista.
Depois, esses ditados podem proporcionar um monte de questões cujo tema
esteja devidamente preparado. Eles devem ser comentados com cuidado, para
estudar todas as ideias que contêm, julgando se eles trazem algum cunho da
verdade. Esse exame, feito com severidade, é — como temos dito — a melhor
garantia contra a intromissão de Espíritos enganadores. Por esse motivo, bem
como para a instrução de todos, também poderão ser apresentadas
comunicações obtidas fora das sessões. Como se vê, existe aí uma fonte
inesgotável de elementos eminentemente sérios e instrutivos. - As atividades de cada sessão podem ser organizadas assim:
1º) Leitura das comunicações espíritas obtidas na sessão anterior,
depois de passadas a limpo.
2º) Assuntos diversos: correspondência, leitura das comunicações
obtidas fora das sessões, relatos de fatos que interessem ao espiritismo.
3º) Trabalho de estudo: ditados espontâneos, questões diversas,
398 – Allan Kardec
problemas morais propostos aos Espíritos e evocações.
4º) Conferência: exame crítico e analítico das diversas comunicações,
debate sobre os diferentes pontos da ciência espírita.
- Os grupos recentes às vezes ficam parados em seus trabalhos pela falta
de médiuns. Certamente os médiuns são um dos elementos essenciais para as
reuniões espíritas, mas eles não são indispensáveis e estaria errado quem
acreditasse que sem eles não há nada a fazer. Sem dúvida, aqueles que se
reúnem apenas com a finalidade de realizar experimentações não podem
fazer sem os médiuns mais do que os músicos numa orquestra fariam sem
seus instrumentos; mas aqueles que visam o estudo sério têm mil assuntos
para ocupação, todos tão úteis e proveitosos quanto se pudessem operar por
si mesmos. Além disso, as reuniões que dispõem de médiuns podem a
qualquer momento ficar sem eles, e seria lamentável que se pensasse que
nesse caso não haveria nada a fazer senão se retirar. De tempo em tempo, os
próprios Espíritos podem levá-los a essa situação, para lhes ensinar a ficar
sem eles. Diremos mais: para o proveito dos seus ensinamentos, é necessário
dedicar algum tempo para meditar sobre eles. As sociedades científicas nem
sempre dispõem dos instrumentos de observação sob seus olhos e, no
entanto, elas não deixam de encontrar assuntos para discussão; na ausência
de poetas e de oradores, as sociedades literárias leem e comentam as obras
dos autores antigos e modernos; as sociedades religiosas meditam sobre as
Escrituras; as sociedades espíritas devem fazer o mesmo, e então tirarão um
grande proveito para seu progresso estabelecendo conferências em que seja
lido e comentado tudo o que possa tratar de espiritismo — a favor ou contra.
Dessa discussão em que cada qual dá a contribuição de suas reflexões, brotam
traços de luz que passam despercebidos numa leitura individual. Ao lado das
obras especiais, os jornais estão repletos de fatos, de relatos, de eventos, de
traços de virtudes ou de vícios que levantam graves problemas morais que
somente o espiritismo pode resolver, e isso é ainda um meio de provar que
ele se conecta a todos os ramos da ordem social. Nós realmente acreditamos
que uma sociedade espírita que organizasse seus trabalhos nesse sentido,
procurando os materiais necessários, não encontraria tempo bastante para se
399 – O Livro dos Médiuns
dedicar às comunicações diretas dos Espíritos; daí porque, sobre esse ponto,
chamarmos a atenção das reuniões verdadeiramente sérias, daquelas que
cuidam mais de se instruir do que procurar um passatempo. (Veja o item 207,
no capítulo da Formação dos médiuns.)
Rivalidades entre as sociedades
- As reuniões que se ocupam exclusivamente com as manifestações
inteligentes e as que se dedicam ao estudo das manifestações físicas têm cada
qual a sua missão; nem umas nem outras estariam no sentido verdadeiro do
espiritismo se elas se vissem com maus olhos, e aquela que atirasse pedra na
outra provaria com isso mesmo a má influência que a domina, pois todas elas
— ainda que por vias diferentes — devem contribuir para o objetivo comum,
que é a busca e a propagação da verdade; seu antagonismo, que não é mais do
que um efeito de orgulho superexcitado, fornecendo armas aos opositores, só
poderia prejudicar a causa que eles pretendem defender. - Estas últimas reflexões se aplicam igualmente a todos os grupos que
poderiam divergir sobre quaisquer pontos da doutrina. Conforme dissemos
no capítulo das Contradições, na maioria das vezes essas divergências só
tratam de detalhes, às vezes só sobre simples palavras; então seria uma
infantilidade criar um grupo à parte por todos não pensarem exatamente do
mesmo modo. Seria pior ainda do que isso se os diferentes grupos ou
associações de uma mesma cidade se olhassem com ciúmes. Compreende-se o
ciúme entre pessoas que fazem concorrência umas contra as outras e que
podem causar prejuízos materiais entre si; mas quando não há especulação, o
ciúme só pode ser uma mesquinha rivalidade do orgulho. Como não há
definitivamente nenhuma sociedade que possa reunir no seu meio todos os
adeptos, aquelas que estiverem animadas pelo desejo sincero de propagar a
verdade — cujo propósito é unicamente moral — devem ver com prazer a
multiplicação das reuniões, e se houver alguma concorrência entre elas, essa
competição deverá ser sobre quem fará o bem mais vezes. As que pretendam
400 – Allan Kardec
estar com a verdade, excluindo as outras, deverão provar isso tomando como
medida: Amor e Caridade — que é a medida de todo verdadeiro espírita.
Querem prevalecer da superioridade dos Espíritos que auxiliam as reuniões?
Então provem pela superioridade dos ensinos que recebam e pela aplicação
que façam deles a si mesmas: eis aqui um critério infalível para definir as
associações que estejam no melhor caminho.
Alguns Espíritos, mais presunçosos do que lógicos, às vezes tentam
impor teorias estranhas e impraticáveis, usando veneráveis nomes com que
se enfeitam. O bom senso logo faz justiça contra essas ilusões, mas enquanto
isso, elas podem semear a dúvida e a incerteza entre os adeptos; daí muitas
vezes vem a causa de desavenças passageiras. Além dos meios que temos
indicado para apreciá-las, há outro critério que dá a medida do seu valor: o
número dos partidários que tais teorias recrutam. A razão diz que o sistema
que encontra maior aceitação nas multidões deve estar mais próximo da
verdade do que aquele que é repelido pela maioria e vê suas fileiras se
diminuírem. Assim, tenham como certo que, quando os Espíritos recusam a
discussão do seu próprio ensinamento, é que eles sabem da falibilidade deste.
- Se o espiritismo — como foi anunciado — deve realizar a transformação
da humanidade, isso só pode ser feito pelo melhoramento dos povos, o que
não acontecerá senão gradualmente, pouco a pouco, pelo melhoramento dos
indivíduos. Que importa crer na existência dos Espíritos se essa crença não
torna a pessoa melhor, mais benevolente e mais indulgente com os seus
semelhantes, mais humilde e mais paciente na adversidade? De que serve ao
avarento ser espírita, se continua avarento? Ao orgulhoso, se ele está sempre
cheio de si? Ao invejoso, se ele está sempre com inveja? Todos os homens
poderiam então crer nas manifestações e a humanidade ficar estacionada;
mas não são esses os desígnios de Deus. É para o objetivo providencial que
todas as sociedades espíritas sérias devem trabalhar, agrupando no entorno
delas todos aqueles que estiverem com os mesmos sentimentos; com isso,
haverá entre elas união, simpatia e fraternidade, em vez de um antagonismo
inútil e infantil da vaidade, mais de palavras do que de ações; então elas serão
fortes e poderosas, porque se apoiarão sobre uma base inabalável: o bem para
401 – O Livro dos Médiuns
todos; logo, elas serão respeitadas e silenciarão à zombaria tola, pois falarão
em nome da moral evangélica respeitada por todos.
Esse é o caminho no qual nos esforçamos para colocar o espiritismo. A
bandeira que hasteamos bem alto é a do espiritismo cristão e humanitário,
em torno da qual estamos felizes por ver tantos homens já reunidos em todas
as partes do globo, porque eles compreendem que aqui se encontra a âncora
de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma era nova para a
humanidade. Convidamos todas as sociedades espíritas a colaborar com essa
grande obra; que de um extremo ao outro do mundo elas se estendam as
mãos fraternas, e então elas enredarão o mal em redes inextricáveis.
402 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXX
REGULAMENTO DA
SOCIEDADE PARISIENSE DE
ESTUDOS ESPÍRITAS
Fundada em 1° de abril de 1858
E autorizada por decreto do Sr. Prefeito de Polícia, na data de 13 de abril de 1858,
de acordo com o despacho do Exmo. Sr. Ministro do Interior e da Segurança Geral.
Nota – Embora este regulamento seja fruto da experiência, não o apresentamos
como uma regra absoluta, mas unicamente para facilitar as sociedades que queiram se
formar, e que poderiam nele encontrar as disposições que considerem úteis e
aplicáveis às suas circunstâncias específicas. Por mais simplificada que seja a sua
organização, ela poderá ser ainda mais quando se tratar não de associações
regularmente constituídas, mas de simples reuniões íntimas, que apenas necessitem
estabelecer medidas de ordem, de precaução e de regularidade nos trabalhos.
Nós o apresentamos também para a orientação das pessoas que desejariam
manter contato com a Sociedade parisiense — seja como correspondentes, seja a
título de membros da Sociedade.
CAPÍTULO PRIMEIRO – Objetivo e formação da Sociedade
ARTIGO 1º – A Sociedade tem por objetivo o estudo de todos os fenômenos
relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais,
físicas, históricas e psicológicas. Nela as questões políticas, de controvérsia
religiosa e de economia social estão proibidas.
Ela toma como título: Sociedade parisiense de Estudos espíritas.
403 – O Livro dos Médiuns
Art. 2º – A Sociedade se compõe de membros titulados, de associados livres e
de membros correspondentes.
Ela pode conferir o título de sócio honorário às pessoas residentes na
França ou no estrangeiro que, pela sua posição ou por seus trabalhos, possam
lhe prestar serviços significativos.
Os sócios honorários ficam submetidos a uma reeleição todos os anos.
Art. 3º – A Sociedade só admite pessoas que simpatizem com seus princípios
e com o objetivo de seus trabalhos, aquelas que já sejam iniciadas nos
princípios fundamentais da ciência espírita ou que estejam seriamente
animadas com o desejo de se instruírem nesses princípios. Em consequência,
ela exclui qualquer um que poderia trazer elementos de perturbação para as
suas reuniões — seja por um espírito de hostilidade e de oposição
sistemática, seja por qualquer outra causa — e assim faça perder tempo em
discussões inúteis.
Todos os associados devem reciprocamente benevolência e bom
comportamento; em todas as circunstâncias, eles devem colocar o bem geral
acima das questões pessoais e de amor-próprio.
Art. 4º – Para ser admitido como associado livre, é preciso encaminhar ao
Presidente um pedido por escrito, apoiado por dois membros titulares que se
tornam fiadores das intenções do postulante.
O pedido deve relatar resumidamente: 1) se o postulante já possui
conhecimentos em matéria de espiritismo; 2) o estado de suas convicções
sobre os pontos fundamentais da ciência; 3) o compromisso de cumprir todo
o regulamento.
O pedido é submetido à comissão que examina e propõe — se for o caso
— a admissão, o adiamento ou a rejeição.
A rigor, o adiamento é para todo candidato que ainda não tenha nenhum
conhecimento da ciência espírita e que não simpatize com os princípios da
Sociedade.
Os associados livres têm o direito de assistir a todas as sessões, de
participar dos trabalhos e das discussões que tenham por objetivo o estudo;
404 – Allan Kardec
mas eles não têm — em nenhum caso — voz deliberativa no que concerne aos
negócios da Sociedade.
Os associados livres só permanecem ativos durante o período de um ano
a partir de sua admissão, e sua permanência na Sociedade deve ser ratificada
no fim desse período.
Art. 5º – Para ser sócio titular, é preciso ter sido um associado livre por pelo
menos um ano, ter assistido a mais de metade das sessões e, durante esse
tempo, ter dado provas notórias de seus conhecimentos e de suas convicções
em matéria de espiritismo, de sua adesão aos princípios da Sociedade e da sua
vontade de proceder, em todas as circunstâncias, com relação aos seus
colegas, de acordo com os princípios da caridade e da moral espírita.
Os associados livres que tenham assistido regularmente durante seis
meses às sessões da Sociedade poderão ser admitidos como membros
titulares se, além disso, eles tiverem preenchido as demais condições.
A admissão é proposta por escrito pela comissão, com o consentimento
do associado, se ele também for apoiado por três outros sócios titulares. Se
assim for, a admissão é então pronunciada pela Sociedade, por votação
secreta, após um parecer verbal da comissão.
Somente os membros titulares têm voz deliberativa e desfrutam da
prerrogativa conferida pelo art. 25.
Art. 6º – Se a Sociedade julgar conveniente, ela limitará o número dos
associados livres e dos membros titulares.
Art. 7º – Os membros correspondentes são aqueles que, não residindo em
Paris, estejam em contato com a Sociedade e lhe forneçam informações úteis
para seus estudos. Eles podem ser nomeados mediante a apresentação de um
único membro titular.
CAPÍTULO II – Administração
Art. 8º – A Sociedade é administrada por um Presidente-diretor, auxiliado
pelos membros de uma diretoria e de uma comissão.
405 – O Livro dos Médiuns
Art. 9º – A diretoria se compõe de:
1 Presidente, 1 Vice-Presidente, 1 Secretário principal, 2 Secretários
adjuntos e 1 Tesoureiro.
Além desses, um ou mais presidentes honorários poderão ser nomeados.
Na falta do Presidente e do Vice-Presidente, as sessões poderão ser
presididas por um dos membros da comissão.
Art. 10º – O Presidente-diretor deve dedicar todo o seu cuidado aos
interesses da Sociedade e da ciência espírita. A ele cabe a direção geral e a alta
supervisão da administração, assim como a conservação dos arquivos.
O Presidente é nomeado por três anos e os outros membros da diretoria
por um ano, indefinidamente reelegíveis.
Art. 11º – A comissão é formada pelos membros da diretoria e de outros
cinco sócios titulares, escolhidos preferencialmente entre aqueles que
tiverem trazido uma contribuição ativa nos trabalhos da Sociedade, prestado
serviços à causa do espiritismo ou dado provas de seu espírito benevolente e
conciliador. Estes cinco membros, assim como os da diretoria, são nomeados
por um ano e reelegíveis.
Por direito, a comissão é presidida pelo Presidente-diretor ou, na falta
deste, pelo Vice-Presidente, ou ainda por algum dos seus membros que seja
designado para tal função.
A comissão fica encarregada do exame prévio de todas as questões e
proposições administrativas, e outras que sejam submetidas à Sociedade; ela
fiscaliza as receitas e as despesas da Sociedade e as contas do Tesoureiro; ela
autoriza as despesas ordinárias e toma todas as medidas de ordem que sejam
julgadas necessárias.
Além disso, ela examina os trabalhos e temas de estudo propostos pelos
diversos membros; ela mesma, por sua vez, prepara e determina a ordem das
sessões, de acordo com o Presidente.
O Presidente sempre pode se opor a que certos assuntos sejam tratados
e inscritos na ordem do dia, cabendo-lhe remetê-los à Sociedade, que então
decidirá.
406 – Allan Kardec
A comissão deve se reunir regularmente antes da abertura das sessões
para o exame das coisas ocorrentes e ainda sempre que julgar conveniente.
Os membros da diretoria e da comissão que estiverem ausentes durante
três meses consecutivos sem apresentar uma justificativa, são considerados
como tendo renunciado às suas funções e será providenciada a substituição.
Art. 12º – As decisões — seja da Sociedade, seja da comissão — são tomadas
pela maioria absoluta dos membros presentes; em caso de empate, o voto do
Presidente é preponderante.
A comissão pode deliberar quando quatro de seus membros estiverem
presentes.
A votação secreta é obrigatória se reclamada por cinco membros.
Art. 13º — A cada três meses, seis membros escolhidos entre os titulares e os
associados livres são designados para desempenhar as funções de
comissários.
Os comissários são encarregados de velar pela ordem e o bom
andamento das sessões, além de verificar o direito de entrada de toda pessoa
estranha que se apresenta para assistir às reuniões.
Para tanto, os membros designados combinarão entre si para que um
deles esteja presente na abertura das sessões.
Art. 14º — O ano social começa em 1º de abril.
As nomeações da diretoria e da comissão serão feitas na primeira sessão
do mês de maio. Os membros em exercício continuarão nas suas funções até
essa data.
Art. 15º — Para cobrir as despesas da Sociedade, é cobrada uma cota anual
de 24 francos dos titulares e de 20 francos dos associados livres.
Além disso, os membros titulares, quando da sua admissão, pagam uma
taxa de adesão de 10 francos, paga uma única vez.
A cota é paga integralmente pelo ano corrente.
Os membros admitidos no decorrer do ano só terão que pagar, nesse
407 – O Livro dos Médiuns
primeiro ano, pelos trimestres a decorrer, incluído o trimestre de sua
admissão.
Quando marido e mulher são aceitos como associados livres ou titulares,
só é exigida uma cota e meia pelos dois.
A cada seis meses, em 1º de abril e 1º de outubro, o Tesoureiro prestará
conta à comissão da aplicação e da situação dos recursos.
Uma vez pagas as despesas correntes de aluguéis e outros custos
obrigatórios, caso haja um excedente, a Sociedade determinará sua aplicação.
Art. 16º – É emitido a todos os membros aceitos (associados livres ou
titulares) um cartão de admissão indicando seu título. Esse cartão fica
depositado na Tesouraria, de onde o novo membro pode retirá-lo ao pagar a
sua cota e a taxa de adesão. O novo membro não pode assistir às sessões antes
de ter retirado o seu cartão. Na falta de ele retirá-lo um mês após a sua
nomeação, ele será considerado demissionário.
Será igualmente considerado demissionário todo membro que não tiver
quitado sua cota anual no primeiro mês da renovação do ano social, após uma
notificação do Tesoureiro ficar sem resultado.
CAPÍTULO III — Das sessões
Art. 17º – As sessões da Sociedade serão realizadas todas as sextas-feiras, às
8 horas da noite, salvo modificação, caso seja necessário.
As sessões são particulares ou gerais; elas nunca são públicas.
Cada pessoa que faça parte da Sociedade, de qualquer título, deve
assinar seu nome numa lista de presença em cada sessão.
Art. 18º – O silêncio e a concentração são rigorosamente exigidos durante as
sessões e principalmente durante os estudos. Ninguém pode tomar a palavra
sem a ter obtido do Presidente.
Todas as questões endereçadas aos Espíritos devem ser feitas por
intermédio do Presidente, que pode recusar colocá-las, conforme as
circunstâncias.
408 – Allan Kardec
Ficam proibidas principalmente todas as questões fúteis, de interesse
pessoal, de pura curiosidade ou feitas com o objetivo de submeter os Espíritos
a provações, assim como todas aquelas que não tenham um objetivo de
utilidade geral do ponto de vista dos estudos.
São igualmente interditadas todas as discussões que desviariam o
objetivo especial do que esteja sendo tratado.
Art. 19º – Todo membro tem o direito de reclamar uma advertência contra
qualquer um que se afaste das conveniências nas discussões ou que de
alguma maneira perturbe as sessões. A reclamação é imediatamente posta em
votação; se for aprovada, ela fica inscrita na ata.
Três advertências no espaço de um ano resultam automaticamente na
destituição do membro que as tenha provocado, qualquer que seja seu título.
Art. 20º – Nenhuma comunicação espírita obtida fora da Sociedade pode ser
lida antes de ter sido submetida ou ao Presidente ou à comissão, que podem
admitir ou recusar a leitura dessa comunicação.
Uma cópia de toda comunicação externa cuja leitura tenha sido
autorizada deve permanecer depositada nos arquivos.
Todas as comunicações obtidas durante as sessões pertencem à
Sociedade; os médiuns que as escreveram podem ficar com uma cópia delas.
Art. 21º – As sessões particulares são reservadas aos membros da Sociedade;
elas são realizadas na 1ª, na 3ª e (quando houver) na 5ª sexta-feira de cada
mês.
A Sociedade reserva para as sessões particulares todas as questões
relativas aos assuntos administrativos, assim como os temas de estudo que
exigem mais tranquilidade e concentração, ou que ela julgue conveniente
aprofundar antes de tratá-los diante de pessoas estranhas.
Além dos membros titulares e dos associados livres, têm direito de
assistir às sessões particulares os membros correspondentes que estiverem
em Paris, assim como os médiuns que prestam sua cooperação à Sociedade.
Nenhuma pessoa estranha à Sociedade é admitida nas sessões
409 – O Livro dos Médiuns
particulares, salvo os casos excepcionais e com o consentimento prévio do
Presidente.
Art. 22º – As sessões gerais ocorrem na 2ª e na 4ª sexta-feira de cada mês.
Nas sessões gerais, a Sociedade autoriza a admissão de ouvintes
estranhos que podem assisti-las temporariamente sem fazer parte delas. A
Sociedade pode suspender essa autorização quando bem julgar conveniente.
Ninguém pode assistir às sessões como ouvinte sem ser apresentado ao
Presidente por um membro da Sociedade, que fica responsável para que ele
não cause nem perturbação nem interrupção.
A Sociedade só admite como ouvintes pessoas que aspirem a se tornar
membros ou que simpatizem com suas atividades e que já estejam
suficientemente iniciadas na ciência espírita para compreendê-las. A
admissão deve ser recusada de maneira absoluta a qualquer um que esteja
atraído por um motivo de mera curiosidade ou cujas opiniões sejam hostis.
A palavra está interditada aos ouvintes, salvo os casos excepcionais
apreciados pelo Presidente. Aquele que perturbasse a ordem de alguma
maneira, ou que manifestasse má vontade para com os trabalhos da
Sociedade poderá ser convidado a se retirar e, em todos os casos, será feita
menção disso na lista de admissão, e a sua entrada será proibida no futuro.
Como o número de ouvintes deve estar limitado ao número de lugares
disponíveis, aqueles que puderem assistir às sessões deverão ser inscritos
previamente num registro destinado a essa finalidade, com menção do seu
endereço e da pessoa que os recomenda. Consequentemente, todo pedido de
entrada deverá ser dirigido alguns dias antes da sessão ao Presidente, que é o
único que entrega os cartões de introdução até o fechamento da lista.
Os cartões de introdução só podem servir para o dia indicado e para as
pessoas designadas.
A entrada não pode ser concedida ao mesmo ouvinte para mais de duas
sessões, salvo por uma autorização do Presidente e em casos excepcionais. O
mesmo membro não pode apresentar mais de duas pessoas por vez. As
entradas dadas pelo Presidente são ilimitadas.
Os ouvintes não são mais admitidos após a abertura da sessão.
410 – Allan Kardec
CAPÍTULO IV – Disposições diversas
Art. 23º – Todos os membros da Sociedade lhe devem cooperação. Como
consequência disso, eles são convidados a recolher no seu respectivo círculo
de observações os fatos antigos ou recentes que possam ter relação com o
espiritismo, e a relatar esses fatos à Sociedade. Ao mesmo tempo, eles
cuidarão de se informar, tanto quanto possível, da importância desses fatos.
Eles são igualmente convidados a lhe dar conhecimento de todas as
publicações que possam ter uma ligação mais ou menos direta com o objeto
de suas atividades.
Art. 24º – Quando a Sociedade julga apropriado, ela faz um exame crítico das
diversas obras publicadas sobre o espiritismo. A respeito disso, ela encarrega
um de seus membros — associado livre ou titular — de lhe apresentar um
relatório que, se for o caso, será impresso na Revista espírita.
Art. 25º – A Sociedade criará uma biblioteca especial composta das obras que
lhe forem ofertadas e das que ela adquirir.
Os membros titulares poderão vir na sede da Sociedade consultar tanto a
biblioteca como os arquivos, nos dias e horas que forem fixados para isso.
Art. 26º – Uma vez que a Sociedade considera que a sua responsabilidade
pode estar moralmente comprometida pelas publicações particulares de seus
associados, ninguém poderá usar do título de membro da Sociedade em
qualquer escrito sem que esteja autorizado a isso por ela e sem que
previamente ela tenha tomado conhecimento do manuscrito. A comissão será
encarregada de lhe informar a esse respeito. Se a Sociedade julgar que o texto
é incompatível com seus princípios, o autor, depois de ouvido, será convidado
ou a modificá-lo, ou a renunciar à sua publicação, ou finalmente a não se
apresentar como membro da Sociedade. Caso ele não se submeta à decisão
que for tomada, seu afastamento poderá ser anunciado.
Todo artigo publicado por um membro da Sociedade em anonimato e
sem nenhuma menção que possa revelá-lo como autor se enquadra na
411 – O Livro dos Médiuns
categoria de publicações ordinárias para as quais a Sociedade reserva para si
a apreciação. Todavia, sem querer entravar a livre emissão de opiniões
pessoais, a Sociedade convida aqueles de seus membros que esteja com a
intenção de fazer publicações desse gênero a pedir previamente seu parecer
oficial, no interesse da ciência.
Art. 27º – Querendo manter no seu seio a unidade de princípios e o espírito
de uma benevolência recíproca, a Sociedade poderá pronunciar a expulsão de
qualquer membro que seja causa de perturbação ou que se mostre
abertamente em hostilidade com ela mediante textos comprometedores para
a doutrina, por opiniões subversivas ou por uma maneira de agir que ela não
possa aprovar. Porém, a expulsão não será decretada senão depois de um
prévio aviso oficial ficar sem eficácia e depois de ouvir o membro indiciado, se
ele julgar conveniente se explicar. A decisão será tomada por votação secreta
e pela maioria de três quartos dos membros presentes.
Art. 28º – Todo membro que voluntariamente se retira no correr do ano não
pode reclamar a diferença das cotas pagas por ele; essa diferença será
reembolsada no caso de expulsão decretada pela Sociedade.
Art. 29º – O presente regulamento poderá ser modificado, se for necessário.
As propostas de modificação só poderão ser feitas à Sociedade através do
órgão de seu Presidente, ao qual elas deverão ser transmitidas e no caso de
terem sido admitidas pela comissão.
A Sociedade pode, sem modificar seu regulamento nos pontos essenciais,
adotar todas as medidas complementares que ela julgar úteis.
412 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXXI
DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS
Reunimos neste capítulo alguns ditados espontâneos que podem
completar e confirmar os princípios contidos nesta obra. Poderíamos ter
citado um número muito maior deles, mas nos limitamos aos que dizem
respeito mais particularmente ao futuro do espiritismo, aos médiuns e às
reuniões. Nós os colocamos também como instrução e como modelos do
gênero de comunicações verdadeiramente sérias. Terminamos com algumas
comunicações apócrifas seguidas de notas apropriadas para o seu
reconhecimento.
Sobre o espiritismo
I
Tenham confiança na bondade de Deus e sejam bastante esclarecidos
para compreenderem os preparativos da nova vida que ele reserva para
vocês. É verdade que não será permitido a vocês desfrutarem-na nesta
existência; mas, mesmo se não voltarem a viver neste globo, vocês não ficarão
felizes em apreciar do alto a obra que começaram e que se desenvolverá sob
os vossos olhos? Cubram-se com uma fé firme e sem hesitação contra os
obstáculos que parecem se levantar contra o edifício no qual vocês puseram
os fundamentos. As bases sobre as quais ele se assenta são sólidas: o Cristo
colocou a primeira pedra nesta base. Então, tenham coragem, arquitetos do
divino mestre! Trabalhem, edifiquem e Deus coroará a vossa obra. Mas,
413 – O Livro dos Médiuns
lembrem-se bem de que o Cristo nega que seja seu discípulo todo aquele que
só tem a caridade nos lábios. Não basta crer; é preciso sobretudo dar o
exemplo da bondade, da gentileza e da abnegação, pois sem isso a vossa fé
será infrutífera para vocês.
SANTO AGOSTINHO
II
O próprio Cristo preside aos trabalhos de toda natureza que estão sendo
realizados para lhes abrir a era de renovação e de aperfeiçoamento que os
vossos guias espirituais predizem. Se, de fato, vocês lançarem os olhos sobre
os acontecimentos contemporâneos, sem nenhuma hesitação, além das
manifestações espíritas vocês reconhecerão os sinais precursores que vão
provar de uma maneira irrefutável que os tempos preditos já chegaram. As
comunicações estão se estabelecendo entre todos os povos e, com as barreiras
materiais sendo derrubadas, os obstáculos morais que se opõem à sua união,
assim como os preconceitos políticos e religiosos desaparecerão rapidamente,
e então o reino da fraternidade se estabelecerá afinal, de uma maneira sólida
e durável. Observem que hoje os próprios soberanos, motivados por uma mão
invisível — que coisa curiosa para vocês —, estão tomando a iniciativa das
reformas; e as reformas que partem de cima e espontaneamente são muito
mais rápidas e duráveis do que aquelas que partem de baixo e que são
arrancadas à força. Eu já tinha previsto a época atual, apesar dos prejuízos da
infância e da educação, apesar do culto à lembrança; por isso eu sou feliz e
mais feliz ainda por ter vindo lhes dizer: Irmãos, coragem! Trabalhem por
vocês e pelo futuro dos seus semelhantes; trabalhem sobretudo para o seu
melhoramento pessoal, e desfrutarão na sua próxima existência de uma
felicidade de que é tão difícil para vocês imaginarem, tanto quanto é para mim
explicá-la a vocês.
CHATEAUBRIAND
III
Eu penso que o espiritismo é um estudo todo filosófico sobre as causas
414 – Allan Kardec
secretas, os movimentos interiores da alma até agora pouco ou nada
definidos. Muito mais do que descobre, ele explica novos horizontes. A
reencarnação e as provas sofridas antes de chegar ao objetivo supremo não
são revelações, mas sim uma confirmação importante. Fico impressionado
com as verdades que esse meio esclarece. Digo meio intencionalmente pois, a
meu ver, o espiritismo é uma alavanca que afasta as barreiras da cegueira. A
preocupação com as questões morais está toda por ser criada; discute-se a
política, que agita os interesses gerais; discutem-se os interesses particulares;
apaixona-se pelo ataque ou pela defesa das personalidades; os sistemas têm
seus partidários e seus detratores; mas as verdades morais — aquelas que
são o pão da alma, o pão de vida — são abandonadas sob a poeira acumulada
pelos séculos. Todos os aperfeiçoamentos são úteis aos olhos das multidões,
exceto o da alma; sua educação e sua elevação não passam de quimeras boas
quando muito para ocupar os lazeres dos padres, dos poetas, das mulheres —
seja como forma de moda, seja como forma de ensino.
Se o espiritismo ressuscitar o espiritualismo, então ele devolverá à
sociedade o impulso que dá a uns a dignidade interior, a resignação aos
outros e a todos a necessidade de se elevar para o Ser supremo esquecido e
desconhecido pelas suas ingratas criaturas.
J.-J. ROUSSEAU
IV
Se Deus envia os Espíritos para instruir os homens, é para lhes
esclarecer sobre os seus deveres, para lhes mostrar a rota que pode abreviar
suas provações e assim adiantar o seu progresso. Ora, do mesmo modo que o
fruto amadurece, também o homem chegará à perfeição. Porém, ao lado dos
bons Espíritos que querem o bem de vocês, existem igualmente os Espíritos
imperfeitos que querem o mal de vocês; enquanto uns os empurram para
frente, outros os puxam para trás; é para distingui-los que vocês devem
prestar toda a vossa atenção! O método é fácil: basta somente compreender
que o que vem de um bom Espírito não pode prejudicar a quem quer que seja,
e que tudo o que seja mal só pode vir de um Espírito mau. Se não escutarem
os sábios conselhos dos Espíritos que lhes querem bem, se vocês se
415 – O Livro dos Médiuns
ofenderem com as verdades que eles possam dizer, então é óbvio que são os
maus Espíritos que inspiram vocês; só o orgulho pode impedir que vocês
vejam quem realmente vocês são; mas se vocês mesmos não enxergarem isso,
outros o enxergarão por vocês; de maneira que serão censurados tanto pelos
homens, que riem de vocês por detrás, quanto pelos Espíritos.
UM ESPÍRITO FAMILIAR
V
Vossa doutrina é bela e santa; o primeiro marco está plantado — e
solidamente plantado. Agora vocês só precisam caminhar; a estrada que vos é
aberta é grande e majestosa. Bem-aventurado aquele que chegar ao seu
destino; quanto mais ele fizer prosélitos, mais lhe será creditado. Mas para
isso, não basta abraçar a doutrina friamente; é preciso ser com ardor e esse
ardor será duplicado, pois Deus está convosco sempre que vocês fazem o bem.
Todos aqueles que vocês atraírem serão outras tantas ovelhas devolvidas ao
aprisco; pobres ovelhas quase perdidas! Tenham certeza de que o mais cético,
o mais ateu, enfim, o mais incrédulo sempre tem um cantinho no coração que
ele desejaria poder esconder de si mesmo. Pois bem! É esse cantinho que
precisamos procurar, que precisamos encontrar; esse é o lado vulnerável que
devemos atacar; é uma pequena brecha deixada aberta expressamente por
Deus para facilitar à sua criatura o meio de voltar ao seu lar.
SÃO BENTO
VI
Não tenham medo de certos obstáculos, de certas controvérsias.
Não atormentem ninguém com qualquer insistência; a convicção só virá
aos incrédulos pelo vosso desinteresse, pela vossa tolerância e pela vossa
caridade para com todos — sem exceção.
Evitem principalmente violentar a opinião, mesmo por vossas palavras
ou por demonstrações públicas. Quanto mais forem modestos, mais vocês
serão apreciados. Que nenhum interesse pessoal vos faça agir, então
encontrarão na própria consciência uma força de atração que só o bem
proporciona.
416 – Allan Kardec
Por ordem de Deus, os Espíritos trabalham pelo progresso de todos, sem
exceção; vocês, espíritas, façam o mesmo.
SÃO LUÍS
VII
Qual é a instituição humana — mesmo divina — que não teve obstáculos
a superar, e cismas contra as quais teve que lutar? Se vocês tivessem apenas
uma existência triste e mórbida, ninguém vos atacaria, sabendo perfeitamente
que haveriam de sucumbir de um momento para outro; mas como a vossa
vitalidade é forte e ativa, como a árvore espírita tem raízes fortes, presume-se
que ela poderá viver longo tempo, e então tentam golpeá-la. O que esses
invejosos conseguirão? Eles cortarão no máximo alguns galhos, que
renascerão com uma nova seiva e serão mais robustos do que nunca.
CHANNING
VIII
Falarei a vocês sobre a firmeza que devem ter nos vossos trabalhos
espíritas. Uma citação sobre este assunto já vos foi feita; eu aconselho que a
estudem de coração e que apliquem a essência dela em vocês mesmos, porque
serão perseguidos, da mesma forma que são Paulo, não em carne e em osso,
mas sim em espírito; os incrédulos, os fariseus da atualidade, hão de vos
acusar e vos ridicularizar; mas não temam nada: será uma prova que vos
fortalecerá se souberem entregá-la a Deus, e vocês verão mais tarde os vossos
esforços coroados pelo sucesso; será um grande triunfo para vocês no dia da
eternidade, sem esquecer que isso já é um consolo neste mundo, para as
pessoas que perderam parentes e amigos; saber que eles estão felizes e que
podem se comunicar com eles é uma felicidade. Então, marchem adiante!
Cumpram a missão que Deus vos dá e ela vos será creditada no dia em que
comparecerem diante do Todo-Poderoso.
CHANNING
IX
Eu venho — eu, o teu Salvador e o teu juiz —, venho, como outrora entre
417 – O Livro dos Médiuns
os filhos transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas.
Escutem-me! O espiritismo, como a minha palavra outrora, deve relembrar
aos materialistas que acima deles reina a imutável verdade: Deus bom, o Deus
grande que faz germinar a planta e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina
divina; como o ceifador, juntei em feixes o bem esparso na humanidade e
disse: Venham a mim, todos vocês que sofrem!
Mas os homens ingratos se desviaram do caminho reto e largo que
conduz ao reino de meu Pai, e se perderam nas ásperas veredas da impiedade.
Meu Pai não quer exterminar a raça humana; ele quer, não mais por meio dos
profetas, não mais por meio de apóstolos, ele quer que vocês se ajudem, uns
aos outros, mortos e vivos — isto é, mortos segundo a carne, pois a morte não
existe —, que vocês se socorram, e que a voz dos que já não estão mais vivos
continue sendo ouvida, para vos clamar: Orem e creiam! Pois a morte é a
ressurreição, e a vida é a prova escolhida durante a qual vossas virtudes
cultivadas devem crescer e se desenvolver como o cedro.
Creiam nas vozes que vos respondem: são as próprias almas dos que
vocês evocam. Eu não me manifesto senão raramente; meus amigos, aqueles
que assistiram à minha vida e à minha morte são os intérpretes divinos das
vontades de meu Pai.
Homens fracos que acreditam no erro das vossas obscuras inteligências,
não apaguem a chama que a clemência divina vos coloca nas mãos para
alumiar a vossa estrada e reconduzi-los, filhos perdidos, ao regaço do Pai.
Em verdade eu digo a vocês, creiam na diversidade, na multiplicidade
dos Espíritos que os cercam. Estou muito tocado de compaixão pelas vossas
misérias, pela vossa imensa fraqueza, o bastante para não deixar de estender
a mão socorrista aos infelizes transviados que, vendo o céu, tombam no
abismo do erro. Acreditem, amem, compreendam as verdades que lhes são
reveladas; não misturem o joio com o trigo e as teorias com as verdades.
Espíritas, amem-se! — este é o primeiro ensinamento; instruam-se! —
eis o segundo. Todas as verdades se encontram no cristianismo; os erros que
nele se enraizaram são de origem humana; eis que do além-túmulo, que vocês
achavam ser o nada, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece; Jesus Cristo é o
vencedor do mal, sejam os vencedores da impiedade.
418 – Allan Kardec
Nota – Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da sociedade
espírita de Paris, foi assinada com um nome que o respeito não nos permite
reproduzir senão com todas as precauções, tal seria a insigne graça da sua
autenticidade, e porque muitas vezes se tem abusado desse nome em comunicações
evidentemente falsas; esse nome é o de Jesus de Nazaré. Nós não duvidamos de modo
algum que ele possa se manifestar, mas se os Espíritos verdadeiramente superiores
não se manifestam a não ser em circunstâncias excepcionais, a razão nos proíbe de
acreditar que o Espírito puro por excelência responda ao chamado do primeiro que
apareça. Em todo caso, haveria profanação em lhe atribuir uma linguagem que não
fosse digna dele.
É por estas considerações que sempre nos recusamos a publicar tudo o que
traga esse nome, e nós acreditamos que ninguém seria demasiado cauteloso em
publicações deste gênero, que só têm autenticidade para o amor-próprio, e cujo
menor inconveniente é o de fornecer armas aos adversários do espiritismo.
Como temos dito, quanto mais os Espíritos sejam elevados na hierarquia, mais o
nome deles deve ser recebido com desconfiança; seria preciso ser dotado de uma dose
bem grande de orgulho para se vangloriar de ter o privilégio das comunicações dadas
por eles, e para se considerar digno de conversar com eles como conversa com os
semelhantes. Nesta última comunicação, notamos apenas uma coisa: a superioridade
incontestável da linguagem e das ideias, deixando a cada um o cuidado de julgar por si
mesmo se aquele de quem ela traz o nome a renegaria.80
Sobre os médiuns
X
Todos os homens são médiuns; todos têm um Espírito que lhes dirige
para o bem — quando eles sabem escutá-lo. Ora, que alguns se comuniquem
diretamente com ele por uma mediunidade especial e que outros só o ouçam
pela voz do coração e da inteligência, pouco importa: não deixa de ser o seu
80 Em O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), também de Allan Kardec, encontramos no capítulo
VI, item 5, uma comunicação intitulada “Advento do Espírito de Verdade” semelhante a esta mesma
comunicação, salvo algumas pequenas modificações, e desta vez assinada por O Espírito de Verdade,
então recebida em Paris e datada de 1860. Essa reprodução endossa a ideia de que Kardec continuou
acreditando na autenticidade desta mensagem atribuída a Jesus de Nazaré, e ainda reforça a tese de que
o próprio Cristo seja a entidade que normalmente assina como Espírito de Verdade (ou simplesmente
Espírito Verdade), já que a referida mensagem reproduzida recebeu tal assinatura. — N. T.
419 – O Livro dos Médiuns
Espírito familiar quem lhes aconselha. Chamem-lhe espírito, razão ou
inteligência; é sempre uma voz que responde à vossa alma e vos dita boas
palavras. Só que nem sempre vocês as compreendem. Não são todos que
sabem agir de acordo com os conselhos da razão — não daquela razão que
antes se arrasta e rasteja em vez de caminhar, nem daquela razão que se
perde no meio dos interesses materiais e grosseiros, mas sim desta razão que
eleva o homem acima de si mesmo, que o transporta a regiões desconhecidas;
chama sagrada que inspira o artista e o poeta, pensamento divino que eleva o
filósofo, impulso que arrebata os indivíduos e os povos, razão que o homem
vulgar não pode compreender, mas que eleva o homem e o aproxima de Deus,
mais do que qualquer outra criatura, entendimento que sabe conduzi-lo do
conhecido ao desconhecido e lhe faz realizar as coisas mais sublimes.
Portanto, escutem essa voz interior, esse bom gênio que vos fala sem cessar, e
então chegarão progressivamente a ouvir o vosso anjo guardião, que vos
estende as mãos do alto de céu; eu repito: a voz íntima que fala ao coração é a
dos bons Espíritos, e é deste ponto de vista que todos os homens são médiuns.
CHANNING
XI
O dom da mediunidade é tão antigo quanto o mundo; os profetas eram
médiuns; os mistérios de Elêusis81 eram fundados na mediunidade; os
Caldeus e os Assírios tinham médiuns; Sócrates era dirigido por um Espírito
que lhe inspirava os admiráveis princípios da sua filosofia e ele ouvia a sua
voz. Todos os povos tiveram seus médiuns, e as inspirações de Joana d’Arc
não eram outras senão as vozes de Espíritos benfeitores que a guiavam. Esse
dom que se espalha agora tornou-se mais raro nos séculos medievais, porém
nunca cessou. Swedenborg82 e seus adeptos tiveram uma numerosa escola. A
França dos últimos séculos — zombadora e ocupada com uma filosofia que,
querendo destruir os abusos da intolerância religiosa, extinguiu através do
81 Os mistérios de Elêusis, ou mistérios eleusinos: rituais de iniciação ao culto dos deuses agrícolas
Demeter e Persêfone, na Antiga Grécia (equivalentes a Ceres e Proserpina, nos mitos Romanos). — N. T.
82 Emanuel Swedenborg (1688-1772): polímata espiritualista sueco. — N. T.
420 – Allan Kardec
ridículo tudo o que era ideal — tinha que afastar o espiritismo que não parava
de progredir no Norte. Deus permitiu essa luta das ideias positivas83 contra as
ideias espiritualistas, porque o fanatismo havia se transformado em uma
arma dos espiritualistas; agora que o progresso da indústria e das ciências
desenvolveu a arte do bem-estar a tal ponto que as tendências materiais se
tornaram dominantes, Deus quer que os Espíritos sejam reconduzidos aos
interesses da alma; ele quer que o aperfeiçoamento do homem moral se torne
o que deve ser, quer dizer, a finalidade e o objetivo da vida. O Espírito humano
segue em marcha necessária, imagem da graduação sofrida por tudo o que
povoa o Universo visível e invisível; todo progresso chega na sua hora: a hora
da elevação moral chegou para a humanidade; ela ainda não se completará
nos vossos dias, mas agradeçam ao Senhor por assistirem a essa aurora
bendita.
PIERRE JOUTY (pai do médium)
XII
Deus me encarregou de desempenhar uma missão junto aos crentes a
quem ele favorece com o mediunato. Quanto mais graça eles recebem do
Altíssimo mais eles correm perigos, e esses perigos são muito maiores porque
partem dos próprios favores que Deus lhes concede. As faculdades de que os
médiuns desfrutam atraem para eles os elogios dos homens; felicitações e
adulações: eis o perigo para eles. Esses mesmos médiuns que deveriam
sempre ter presente na memória a sua incapacidade primitiva a esquecem. E
fazem mais: atribuem a seus próprios méritos aquilo que eles só devem a
Deus. O que acontece então? Os bons Espíritos os abandonam e eles se tornam
joguete dos maus, ficando sem bússola para se guiarem; quanto mais eles se
tornam capazes, mais ficam inclinados a se atribuírem um mérito que não
lhes pertence, até que enfim Deus os puna, retirando-lhes uma aptidão que
então pode ser fatal para eles.
83 O termo positivo aqui é um derivado da corrente filosófica materialista chamada de Positivismo, que
propunha ordenar todo o conhecimento humana com base exclusivamente nas experiências científicas
e, portanto, excluindo toda ideia metafísica, teológica e espiritualista. — N. T.
421 – O Livro dos Médiuns
Nunca será demais lembrá-los de pedir assistência ao seu anjo guardião
para que ele os ajude a estar sempre atentos contra o vosso mais cruel
inimigo, que é o orgulho. Lembrem-se bem — vocês que têm a felicidade de
ser os intérpretes entre os Espíritos e os homens — de que, sem o apoio do
nosso divino mestre, vocês serão punidos mais severamente, porque vocês
foram mais favorecidos.
Espero que esta comunicação dê seus frutos, e desejo que ela possa
ajudar os médiuns a se manterem vigilantes contra a armadilha em que
possam cair; essa armadilha, eu já disse, é o orgulho.
JOANA D’ARC
XIII
Quando quiserem receber comunicações de bons Espíritos, vocês devem
se preparar para esse favor através do recolhimento, de saudáveis intenções e
do desejo de fazer o bem à vista do progresso geral; então, lembrem-se de que
o egoísmo é uma causa de atraso a todo progresso. Lembrem-se de que, se
Deus permite que alguns dentre vocês recebam o sopro daqueles de seus
filhos que, pela sua conduta, souberam merecer a felicidade de compreender
sua infinita bondade, é que ele quer — por nossa solicitação e em vista das
vossas boas intenções — vos dar os meios de avançar no seu caminho. Então
assim, médiuns, aproveitem essa faculdade que Deus bem quis conceder a
vocês. Tenham fé na mansidão do nosso mestre; tenham a caridade sempre
em prática; não deixem jamais de praticar essa sublime virtude, assim como a
tolerância. Que vossas ações estejam sempre em harmonia com a própria
consciência, pois isso é um meio certo de centuplicar a vossa felicidade nessa
vida passageira, assim como de preparar para vocês uma existência mil vezes
ainda mais suave.
Que o médium dentre vós que não sinta em si mesmo a força para
perseverar no ensinamento espírita se abstenha; porque, não aproveitando a
luz que o ilumina, será menos desculpável do que qualquer outro, e deverá
expiar a sua cegueira.
PASCAL
422 – Allan Kardec
XIV
Hoje falarei a vocês sobre o desinteresse, o qual deve ser uma das
qualidades essenciais nos médiuns, tanto quanto a modéstia e o devotamento.
Deus lhes concedeu essa faculdade a fim de que eles ajudem a propagar a
verdade, e não para fazerem dela um comércio. E, quanto a isso, não me refiro
somente aos que pretendessem explorá-la como fariam com um talento
qualquer, aos que se fizessem médiuns como outros se fazem dançarinos ou
cantores; refiro-me também a todos que pretendessem se servir da faculdade
com quaisquer fins interesseiros. Será racional crer que os Espíritos bons — e
ainda menos os Espíritos superiores, que condenam a cobiça — consintam em
se prestar a espetáculos e, como comparsas, se colocassem à disposição de um
empresário de manifestações espíritas? Muito menos racional é supor que os
Espíritos bons possam favorecer intenções do orgulho ou da ambição. Deus
permite que eles se comuniquem com os homens para tirá-los do lamaçal
terrestre, e não para servirem de instrumentos às paixões mundanas. Logo,
ele não pode ver com prazer aqueles que desviam do seu verdadeiro objetivo
o dom que lhes concedeu, e eu vos asseguro que eles serão punidos, neste
mundo mesmo, pelas mais amargas decepções.
DELFINA DE GIRARDIN
XV
Todos os médiuns são incontestavelmente chamados a servir à causa do
espiritismo na medida de suas capacidades, mas são bem poucos os que não
caem na armadilha do amor-próprio; essa é uma prova que raramente fica
sem efeito. Assim, de cada cem médiuns, vocês dificilmente encontrarão um
— por menor que seja — que, no início de sua mediunidade, não tenha se
considerado chamado a obter coisas superiores e predestinado a grandes
missões. Os que caem nessa vaidosa esperança — e o número deles é grande
— tornam-se inevitavelmente vítimas de Espíritos obsessores, que não
tardam a subjugá-los, inflando o seu orgulho e lhes dominando pelo seu ponto
fraco. Quanto mais quiserem se elevar, mais sua queda será ridícula, quando
não desastrosa para eles. As grandes missões só são confiadas aos homens de
423 – O Livro dos Médiuns
elite, e Deus mesmo as coloca — e sem que eles procurem — no meio e na
posição em que a cooperação deles possa ser eficaz. Nunca será demais
recomendar aos médiuns inexperientes que desconfiem do que determinados
Espíritos possam lhes dizer com relação ao suposto papel que eles são
chamados a desempenhar, pois se eles o levarem a sério, só colherão
desapontamentos nesse mundo, e um severo castigo no outro. Que fiquem
bem convencidos de que, na esfera modesta e obscura onde se achem
colocados, eles podem prestar grandes serviços, auxiliando a conversão dos
incrédulos ou produzindo consolação aos aflitos; se tiverem que sair daí, eles
serão conduzidos por uma mão invisível que preparará os caminhos, e serão
colocados em evidência, por assim dizer, sem que eles saibam. Que eles se
lembrem destas palavras: “Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que
se humilhar será exaltado.”
O ESPÍRITO DE VERDADE
Sobre as sociedades espíritas
Nota – Dentre as comunicações seguintes, algumas foram dadas na Sociedade
parisiense de estudos espíritas ou em sua intenção; outras, que nos foram transmitidas
por diversos médiuns, contêm conselhos gerais sobre as associações, sua formação e
os obstáculos que elas podem encontrar.
XVI
Por que não começam vossas sessões com uma evocação geral, um tipo
de prece que predisponha ao recolhimento? Pois, fiquem sabendo, sem o
recolhimento vocês só terão manifestações levianas; os bons Espíritos só vão
aonde são chamados com fervor e sinceridade. Isso é o que não é bastante
compreendido. Então, cabe a vocês dar o exemplo, a vocês que, se quiserem,
poderão se tornar uma das colunas do edifício novo. Nós observamos os
vossos trabalhos com prazer e vos ajudamos, mas com a condição de que, da
parte de vocês, também nos ajudem, e que se mostrem à altura da missão que
foram chamados a cumprir. Portanto, formem uma equipe e vocês serão
424 – Allan Kardec
fortes, e os maus Espíritos não prevalecerão contra vocês. Deus ama os
simples de espírito — o que não quer dizer os tolos —, mas aqueles que
renunciam a si mesmos e que vêm a ele sem orgulho. Vocês podem se tornar
um foco de luz para a humanidade; saibam, pois, distinguir o bom grão do
joio; não semeiem além do trigo, e evitem espalhar o joio, pois o joio impedirá
o trigo de germinar, e serão responsáveis por todo o mal que ele venha a
fazer; da mesma forma vocês serão responsáveis pelas doutrinas más que
possam propagar. Lembrem-se de que um dia o mundo poderá ter os olhos
sobre vocês. Então, façam que nada apague o brilho das boas coisas que
saírem do vosso meio; é por isso que nós vos recomendamos rogar a Deus que
vos auxilie.
SANTO AGOSTINHO
Santo Agostinho, convidado a ditar uma fórmula de evocação geral,
respondeu:
Vocês sabem que não há fórmula absoluta: Deus é grande demais para
dar mais importância às palavras do que ao pensamento. Ora, não creiam que
basta pronunciar algumas palavras para afastar os maus Espíritos; fujam
sobretudo de utilizar uma dessas fórmulas banais recitados por desencargo
da consciência; sua eficácia está na sinceridade do sentimento com que elas
são ditadas e principalmente na unanimidade da intenção, pois aqueles que se
associassem a essas fórmulas, sem ser de coração, não poderiam se beneficiar
dela, nem fazer que outros se beneficiassem. Então, escrevam-na vocês
mesmos, e a enviem para mim, se quiserem, que eu vos ajudarei.
Nota – O seguinte modelo de evocação geral foi redigido com a assistência do
Espírito que o completou em vários pontos:
“Rogamos a Deus Todo-Poderoso que nos envie bons Espíritos para nos
ajudar, e para afastar aqueles que possam nos induzir ao erro; dá-nos a luz
necessária para distinguir a verdade da impostura.
“Afasta também os Espíritos malvados que possam lançar a desunião entre
nós ao suscitar a inveja, o orgulho e o ciúme. Se alguns deles tentarem se infiltrar
aqui, em nome de Deus nós pedimos que eles se retirem.
“Bons Espíritos que presidem nossos trabalhos, dignem-se de vir nos instruir
425 – O Livro dos Médiuns
e nos tornem dóceis aos vossos conselhos. Façam com que todo sentimento pessoal
desapareça de nós, ante o pensamento do bem de todos.
“Pedimos particularmente a…, nosso protetor especial, que tenha a bondade
de nos dar a sua assistência hoje.”
XVII
Meus amigos, deixem-me dar um conselho a vocês, pois vocês marcham
sobre um terreno novo, e se trilharem a rota que indicamos, vocês não vão se
perder. Nós vos temos dito uma coisa muito verdadeira e que desejamos
relembrar: que o espiritismo não é outra coisa senão uma moral, e que ele não
deve sair nem um pouco dos limites da filosofia, se não quiser cair no domínio
da curiosidade. Deixem de lado as questões da ciência: a missão dos Espíritos
não é resolvê-las, poupando vossos trabalhos de pesquisas, mas sim procurar
torná-los melhores, porque é assim que vocês realmente progredirão.
SÃO LUÍS
XVIII
Zombaram das mesas girantes, mas nunca zombarão da filosofia, da
sabedoria e da caridade que brilham nas comunicações sérias. Esse foi o
vestíbulo da ciência; é lá que, ao entrar, deve-se deixar os preconceitos, como
onde se tira o casaco. Jamais seria demais convencê-los a fazer de vossas
reuniões um centro sério. Que em outra parte se façam demonstrações físicas,
que em outra parte se observe, que em outra parte se ouça; mas, entre
vocês, que se compreenda e que se ame. O que vocês pensam ser aos olhos
dos Espíritos superiores quando vocês fazem uma mesa girar ou levantar?
Alunos! Por acaso o sábio passa o tempo a repetir o abc da ciência?
Entretanto, enquanto vocês forem vistos buscando comunicações sérias,
serão considerados como homens sérios à procura da verdade.
SÃO LUÍS
Tendo perguntado a São Luís se ele pretendia com essas palavras
condenar as manifestações físicas, ele respondeu:
426 – Allan Kardec
“Eu não poderia condenar as manifestações físicas, porque se elas têm o
seu lugar, é com a permissão de Deus e para um objetivo útil. Ao dizer que
elas foram o vestíbulo da ciência, eu estou atribuindo a elas a sua verdadeira
categoria e confirmo a sua utilidade. Eu só condeno aqueles que fazem disso
um objeto de divertimento e de curiosidade, sem tirar dessas manifestações o
ensinamento que decorrem delas; elas são para a filosofia do espiritismo o
que a gramática é para a literatura, e quem chegou a determinado grau numa
ciência já não perde tempo repassando os elementos.”
XIX
Meus amigos e fiéis crentes, sinto-me feliz sempre que posso guiar vocês
pela estrada do bem; é uma doce missão que Deus me deu e da qual me
orgulho, porque ser útil sempre é uma recompensa. Que o espírito de
caridade vos reúna — tanto a caridade que dá, como a que ama. Mostrem-se
pacientes perante as injúrias dos vossos detratores; sejam firmes no bem, e
sobretudo sejam humildes diante de Deus, pois somente a humildade eleva:
esta é a única grandeza que Deus reconhece. Só então os bons Espíritos virão
a vocês; caso contrário, os Espíritos do mal poderão se apossar de vossa alma.
Sejam benditos em nome do Criador e vocês crescerão aos olhos dos homens,
ao mesmo tempo em que crescerão aos olhos de Deus.
SÃO LUÍS
XX
A união faz a força; então, estejam unidos, para serem fortes. O
espiritismo germinou e plantou raízes profundas; ele vai estender sobre a
terra seus ramos benditos. É preciso que se tornem invulneráveis contra os
dardos envenenados da calúnia e da tenebrosa falange dos Espíritos
ignorantes, egoístas e hipócritas. Para alcançar isso, que uma indulgência e
uma benevolência recíprocas presidam as vossas relações; que os vossos
defeitos passem despercebidos; que somente vossas qualidades sejam
notórias; que a chama da santa amizade reúna, ilumine e aqueça os vossos
427 – O Livro dos Médiuns
corações, e então vocês resistirão aos ataques impotentes do mal, como o
rochedo inabalável à onda furiosa.
SÃO VICENTE DE PAULO
XXI
Meus amigos, vocês querem formar um grupo espírita e eu aprovo, pois
os Espíritos não podem ver com satisfação os médiuns que se conservam no
isolamento. Deus não lhes concedeu essa sublime faculdade para eles
exclusivamente, mas sim para o bem de todos. Ao se comunicar com outros,
eles têm mil oportunidades de se esclarecer sobre o mérito das comunicações
que eles recebem, ao passo que isolados eles ficam muito mais sob o controle
dos Espíritos mentirosos, que ficam contentes por não terem obstáculos. Isto
é para vocês, e se não estiverem dominados pelo orgulho, então vocês
compreenderão e disto se beneficiarão. Agora, aqui vai para os outros:
Vocês têm uma boa noção do que deve ser uma reunião espírita? Não,
porque no vosso zelo vocês acham que o que há de melhor a fazer é reunir o
maior número possível de pessoas a fim de convencê-las. Desenganem-se!
Quanto menos forem, mais conseguirão. É principalmente pela ascendência
moral que vocês conseguem atrair os incrédulos, muito mais do que pelos
fenômenos que obtiverem; se atraírem só pelos fenômenos, todos virão vê-los
só por curiosidade e vocês encontrarão curiosos que não acreditarão em
vocês e que zombarão de vocês. Se houver entre vocês somente pessoas
dignas de estima, talvez muitos não acreditem imediatamente, mas lhes
respeitarão, e o respeito sempre inspira a confiança. Vocês estão convencidos
de que o espiritismo deve produzir uma reforma moral; então, que o vosso
grupo seja o primeiro a dar exemplo das virtudes cristãs, pois nesta época de
egoísmo, é nas sociedades espíritas que a verdadeira caridade deve encontrar
refúgio.84 Tal deve ser, meus amigos, uma reunião de verdadeiros espíritas.
De outra vez, eu vos darei mais conselhos.
FÉNELON
84 Nós conhecemos um senhor que foi aceito para um emprego de confiança numa casa importante
porque ele era um espírita sincero, e porque acreditaram encontrar uma garantia de moralidade nas
crenças desse homem.
428 – Allan Kardec
XXII
Vocês me perguntaram se a multiplicação dos grupos em uma mesma
localidade não poderia causar rivalidades prejudiciais para a doutrina. Quanto
a isso, responderei que aqueles que estiverem imbuídos dos verdadeiros
princípios desta doutrina enxergarão irmãos em todos os espíritas, e não
rivais; os que encarassem outros grupos com um olhar ciumento provariam
que neles há uma segunda intenção com sentimento do egoísmo, e que eles
não são guiados por amor à verdade. Eu vos afirmo que se essas pessoas
estivessem entre vocês, elas logo semeariam aí a perturbação e a desunião. O
verdadeiro espiritismo tem como emblema benevolência e caridade,
excluindo qualquer rivalidade que não seja a do bem que se possa fazer; todos
os grupos que inscreverem na sua bandeira esse emblema poderão se
estender as mãos como bons vizinhos, que não deixam de ser amigos por não
morarem na mesma casa. Os que pretenderem ter os melhores Espíritos como
guias deverão provar isso mostrando os melhores sentimentos; então, que
haja luta entre eles, mas luta de grandeza de alma, de abnegação, de bondade
e de humildade; quem atirasse pedra no outro provaria com isso que é
influenciado por maus Espíritos. A natureza dos sentimentos que dois
homens manifestem reciprocamente é a medida que revela a natureza dos
Espíritos que os auxiliam.
FÉNELON
XXIII
O silêncio e o recolhimento são condições essenciais para todas as
comunicações sérias. Vocês jamais obterão isso daqueles que fossem atraídos
às vossas reuniões somente pela curiosidade; então, mandem os curiosos
irem se divertir noutros lugares, pois a distração deles seria uma causa de
problemas.
Vocês não devem tolerar nenhuma conversa enquanto os Espíritos estão
sendo interrogados. Às vezes, existem comunicações que exigem de vocês
réplicas sérias, assim como respostas não menos sérias da parte dos Espíritos
evocados, que — acreditem — ficam descontentes com cochichos constantes
429 – O Livro dos Médiuns
de certos participantes; daí em diante, nada de completo nem de
verdadeiramente sério; até o médium que escreve, também ele, experimenta
distrações muito prejudiciais ao seu ministério.
SÃO LUÍS
XXIV
Falarei da necessidade de observarem uma maior organização nas
vossas sessões, isto é, de evitarem toda confusão e toda divergência de ideias.
A divergência favorece a entrada dos Espíritos maus no lugar dos bons, e
quase sempre eles são os primeiros que se apoderam das questões propostas.
Por outro lado, em uma reunião composta por elementos diversos e
desconhecidos uns dos outros, como evitar as ideias contraditórias, a
distração, ou — pior ainda — uma indiferença vaga e zombeteira? Quisera eu
encontrar esse meio eficaz e certo. Talvez ele esteja na concentração dos
fluidos em torno dos médiuns. Só estes, mas sobretudo os que são queridos,
seguram os bons Espíritos na assembleia. Porém, a influência deles mal é
suficiente para dissipar a turba dos Espíritos levianos. O trabalho de revisão
das comunicações é excelente; nunca será demais aprofundar as questões e
principalmente as respostas; o erro é fácil, mesmo para os Espíritos animados
das melhores intenções; a lentidão da escrita, durante a qual o Espírito foge
do assunto que ele esgota, logo que o concebeu, a instabilidade e a indiferença
para com certas formas estabelecidas, todas essas razões e muitas outras
criam para vocês o dever de só depositar uma limitada confiança, e sempre
subordinada à revisão — mesmo quando se trate das comunicações mais
autênticas.
GEORGES (Espírito Familiar)
XXV
Com que propósito na maioria das vezes vocês pedem comunicações aos
Espíritos? Para ter belos trechos que vocês exibem aos vossos conhecidos
como amostras do nosso talento; então vocês as conservam preciosamente
nos álbuns, mas no vosso coração não há lugar para elas. Por acaso vocês
430 – Allan Kardec
acham que nós ficamos muito lisonjeados por comparecer nas vossas
assembleias como se estivéssemos num concurso, e gastar eloquência para
que vocês possam dizer que a sessão foi muito interessante? O que lhes resta
quando encontram uma comunicação admirável? Acham que nós viemos
buscar vossos aplausos? Desenganem-se! Nós não gostamos de diverti-los
mais de um modo do que doutro; da parte de vocês, ainda é a curiosidade que
dissimulam em vão; nosso propósito é vos tornar melhores. Ora, quando
vemos que as nossas palavras não produzem nenhum fruto, e que da parte de
vocês tudo se resume numa estéril aprovação, então nós vamos procurar
almas mais dóceis; com isso nós deixamos vir no nosso lugar os Espíritos que
não querem mais do que falar, e nunca faltam. Vocês se admiram de que nós
os deixamos usar nossos nomes; mas, já que ele não vale nem mais nem
menos par vocês, que importa? Fiquem sabendo, porém, que não o
permitimos em relação a àqueles por quem realmente nos interessamos, ou
seja, aqueles que não nos fazem perder tempo; esses são os nossos preferidos,
e nós os preservamos da mentira. Portanto, não culpem senão a vocês
mesmos se são tão frequentemente enganados. Para nós, o homem sério não é
aquele que se abstém de rir, mas aquele cujo coração é afetado por nossas
palavras, aquele que as medita e tira proveito delas. (Veja o item 268,
questões 19 e 20.)
MASSILLON
XXVI
O espiritismo deverá ser uma égide contra o espírito de discórdia e de
dissensão; mas esse espírito vem desde todos os tempos empunhando sua
tocha sobre os humanos, porque ele tem ciúmes da felicidade que a paz e a
união proporcionam. Espíritas, esse espírito pode facilmente penetrar nas
vossas assembleias e aí, não duvidem, ele procurará semear a desafeição; mas
ele será impotente contra os que são motivados pela verdadeira caridade.
Pois então, estejam em guarda e vigiem sem cessar à porta do coração, como à
das vossas reuniões, para não deixar o inimigo penetrá-la. Se vossos esforços
forem inúteis contra o de fora, sempre dependerá de vocês lhe impedir o
acesso em vossa alma. Se surgirem discórdias entre vocês, elas só poderão ter
431 – O Livro dos Médiuns
sido inspiradas por maus Espíritos; então, que aqueles que tiverem no mais
alto grau o sentimento dos deveres, exigidos pela urbanidade e pelo
espiritismo verdadeiro, se mostrem mais pacientes, mais dignos e mais
decentes; os bons Espíritos algumas vezes podem permitir essas lutas para
fornecer aos bons e aos maus sentimentos a oportunidade de se revelar, a fim
de se separar o trigo do joio, e eles estarão sempre do lado onde houver mais
humildade e verdadeira caridade.
SÃO VICENTE DE PAULO
XXVII
Repulsem implacavelmente todos esses Espíritos que pretendem ser os
únicos a dar conselhos, pregando a divisão e o isolamento. São quase sempre
Espíritos vaidosos e medíocres, que tendem a se impor aos homens fracos e
crédulos, esbanjando-lhes elogios exagerados, a fim de lhes fascinar e tê-los
sob sua dominação. Geralmente são Espíritos sedentos de poder, que — como
eram tiranos, públicos ou particulares, quando eram vivos — ainda querem
fazer vítimas para tiranizar depois da morte. Em geral, desconfiem de
comunicações que tragam um caráter de misticismo e de estranheza, ou que
recomendem cerimônias e atos bizarros; nesses casos, sempre há um motivo
legítimo de suspeita.
Por outro lado, acreditem que quando uma verdade deva ser revelada à
humanidade, ela é comunicada — por assim dizer — instantaneamente em
todos os grupos sérios que disponham de médiuns sérios, e não a estes ou
aqueles, com exclusão dos demais. Ninguém é um médium perfeito se estiver
obsidiado, e há uma evidente obsessão quando um médium só é apto a
receber comunicações de um determinado Espírito, por mais alto que este
procure se colocar. Como consequência disso, qualquer médium ou qualquer
grupo que se considere privilegiado de comunicações que só ele pode receber,
e que, por outro lado, esteja sujeito a práticas que beiram a superstição, sem
dúvidas estão sob a influência de uma das obsessões mais bem caracterizadas,
sobretudo quando o Espírito dominador se cobre com um nome que todos —
Espíritos e encarnados — devemos honrar e respeitar, e não consentir que
seja profanado sob nenhum propósito.
432 – Allan Kardec
É incontestável que, ao submeter ao crivo da razão e da lógica todos os
ditados e todas as comunicações dos Espíritos, será fácil repelir o absurdo e o
erro. Um médium pode ser fascinado, um grupo pode ser mistificado; porém,
o controle severo dos outros grupos, o conhecimento adquirido e a alta
autoridade moral dos diretores de grupos, mais as comunicações vindas pelos
principais médiuns e que recebem um cunho de lógica e de autenticidade dos
melhores Espíritos, então, rapidamente farão justiça a esses ditados
mentirosos e astuciosos emanados de uma turba de Espíritos enganadores e
malignos.
ERASTO (discípulo de são Paulo)
Nota – Uma das características marcantes desses Espíritos que querem se impor
e fazer que aceitem suas ideias bizarras e sistemáticas é a de afirmar — mesmo que
sejam os únicos com tal opinião — que eles têm razão contra todo mundo. A tática
deles consiste em evitar a discussão, e quando se veem vitoriosamente combatidos
com as armas irresistíveis da lógica, eles se recusam desdenhosamente a responder, e
recomendam a seus médiuns que se afastem dos centros onde suas ideias não são
aceitas. Esse isolamento é o que há de mais fatal para os médiuns, porque, sem
contrapeso, eles sofrem o jugo desses Espíritos obsessores que os conduzem, como
cegos, e os levam frequentemente aos caminhos perniciosos.
XXVIII
Os falsos profetas não estão apenas entre os encarnados; eles estão
também — e em número muito maior — entre os Espíritos orgulhosos que,
sob falsas aparências de amor e de caridade, semeiam a desunião e retardam
a obra emancipadora da humanidade, lançando essa desunião através de
sistemas absurdos que fazem aceitar pelos seus médiuns. E, para melhor
fascinar os que eles querem enganar, para dar mais peso às suas teorias, eles
inescrupulosamente tomam nomes que os homens só pronunciam com muito
respeito, tais como os de santos justamente venerados, o de Jesus, o de Maria
e até o de Deus.
São eles que espalham o fermento do antagonismo entre os grupos, que
os impõe a se isolarem uns dos outros e a se olharem com antipatia. Só isso
bastaria para desmascará-los, pois agindo assim eles próprios dão o mais
433 – O Livro dos Médiuns
formal desmentido ao que pretendem ser. Portanto, cegos são os homens que
se deixam cair em uma armadilha tão grosseira.
Mas há muitos outros meios de reconhecê-los. Espíritos da ordem a que
eles dizem pertencer devem ser não só bons, mas também eminentemente
lógicos e racionais. Pois bem! Submetam suas teorias pela peneira da razão e
do bom senso e vocês verão o que restará. Então, convenham comigo em que
todas as vezes que um Espírito indica como remédio aos males da
humanidade, ou como meio de chegar à sua transformação, coisas utópicas e
impraticáveis, providências infantis e ridículas, que e formula um sistema
contradito pelas mais simples noções da ciência, então esse Espírito não pode
ser mais do que um ignorante e mentiroso.
De outra forma, tenham a certeza de que se a verdade nem sempre é
apreciada pelos indivíduos, sempre é apreciada pelo bom senso das massas, e
isso é mais um critério. Se dois princípios se contradizem, vocês têm a medida
do valor intrínseco deles ao procurar aquele que encontra mais aceitação e
simpatia; de fato, seria ilógico admitir que uma doutrina que visse diminuir o
número de seus partidários fosse mais verdadeira do que aquela outra que vê
seus adeptos aumentarem. Deus, querendo que a verdade chegue a todos, não
a confina num círculo estreito e restrito: ele a faz surgir em diferentes pontos,
a fim de que, em toda parte, a luz esteja ao lado das trevas.
ERASTO
Nota – A melhor garantia de que um princípio é a expressão da verdade é quando
ele é ensinado e revelado por diferentes Espíritos, através de médiuns desconhecidos
uns dos outros e em lugares vários, e, além disso, quando é confirmado pela razão e
sancionado pela adesão da maioria. Só a verdade pode dar raízes a uma doutrina; um
sistema errôneo bem pode recrutar alguns aderentes; mas como lhe falta a primeira
condição de vitalidade, ele tem uma existência efêmera. É por isso que não há motivo
para se inquietar com isso: ele se destrói por seus próprios erros e tombará
inevitavelmente diante da arma poderosa da lógica.
Comunicações apócrifas
Há muitas comunicações tão absurdas que, embora assinadas com os mais
434 – Allan Kardec
respeitáveis nomes, o senso comum mais simples já demonstra a sua falsidade;
mas existem algumas delas em que o erro fica dissimulado por baixo de coisas boas
que criam a ilusão e às vezes impedem de pegá-lo à primeira vista; no entanto, elas
não podem resistir a um exame sério. Vamos citar algumas delas aqui, como
amostra.85
XXIX
A criação perpétua e incessante dos mundos é para Deus como um
prazer perpétuo, porque ele vê incessantemente seus raios se tornarem cada
dia mais luminosos em felicidade. Não há número para Deus, também não há
tempo. Eis por que centenas ou milhares não são nem mais nem menos para
ele. É um pai, cuja felicidade é formada pela felicidade coletiva dos seus filhos,
e a cada segundo da criação ele vê uma nova felicidade vir se fundir na
felicidade geral. Não há parada nem suspensão nesse movimento perpétuo,
nessa grande alegria incessante que fecunda a terra e o céu. Do mundo, não se
conhece mais do que uma pequena fração, e vocês têm irmãos que vivem nas
latitudes aonde o homem ainda não chegou a penetrar. O que significam esse
calor de torrar e esse frio mortal que detêm os esforços dos mais ousados?
Vocês acham simplesmente que aí seja o limite do vosso mundo, quando não
podem mais avançar com os vossos insignificantes recursos? Poderiam então
medir exatamente o vosso planeta? Não creiam isso! Há sobre o vosso planeta
mais lugares ignorados do que lugares conhecidos. Porém, como é inútil
propagar ainda mais todas as vossas instituições más, todas as vossas leis
más, ações e existências, há um limite que vos detém aqui e ali, e que vos
deterá até que tenham de transportar as boas sementes que tem feito o vosso
livre-arbítrio. Oh, não! Vocês não conhecem esse mundo que chamam de
Terra. Vocês verão na vossa existência um grande começo de provas desta
comunicação. Eis que vai soar a hora em que haverá outra descoberta além da
última que foi feita; eis que se alargará o círculo da vossa Terra conhecida, e
quando toda a imprensa cantar esse Hosana em todas as línguas, vocês,
85 Destacaremos com uma cor mais avermelhada estas comunicações apócrifas, para diferenciá-las
daquelas sancionadas pelo bom senso de Allan Kardec. — N. T.
435 – O Livro dos Médiuns
pobres filhos, que amam a Deus e que procuram a sua voz, vocês saberão
antes daqueles mesmos que darão seu nome à nova Terra.
VICENTE DE PAULO
Nota – Do ponto de vista do estilo, esta comunicação não resiste à crítica; as
incorreções, os pleonasmos e as voltas viciosas saltando aos olhos de qualquer, por
menos letrado que seja; mas isso não provaria nada contra o nome com o qual a
mensagem está assinada, visto que essas imperfeições poderiam decorrer da
incapacidade do médium — conforme já demonstramos. O que de fato é do Espírito é
a ideia; ora, quando ele diz que há sobre o nosso planeta mais lugares ignorados do
que lugares conhecidos, que um novo continente vai ser descoberto, isso é — para um
Espírito que diz superior — dar prova da mais profunda ignorância. Sem dúvida,
podemos descobrir para além das regiões glaciais alguns cantos de terra
desconhecidos, mas dizer que essas terras são povoadas e que Deus as escondeu dos
homens a fim de que eles não levem para lá suas más instituições, isso é ter fé demais
na confiança cega daqueles que recebem semelhantes absurdos.
XXX
Meus filhos, nosso mundo material e o mundo espiritual — que tão
poucos ainda conhecem — formam como que dois pratos da balança
perpétua. Até aqui, nossas religiões, nossas leis, nossos costumes e as nossas
paixões têm pendido tanto para o lado do mal, em vez de pender para o do
bem, que então vemos o mal reinar soberano sobre a Terra. Desde os séculos,
é sempre a mesma queixa que se exala da boca do homem, e a conclusão fatal
é a injustiça de Deus. Há mesmo os que vão até a negação da existência de
Deus. Vocês veem tudo aqui e nada lá; veem o supérfluo que atinge a
necessidade, o ouro que brilha junto da lama; todos os mais chocantes
contrastes que deveriam vos provar a dupla natureza de vocês. Donde vem
isto? De quem é a culpa? Eis o que é preciso procurar com tranquilidade e
com imparcialidade; quando sinceramente desejamos encontrar um bom
remédio, nós o encontramos. Pois bem! Malgrado essa dominação do mal
sobre o bem — por vossa própria culpa —, por que vocês não enxergam o
restante seguindo direito pela linha traçada por Deus? Veem as estações se
436 – Allan Kardec
desarranjarem? O calor e o frio se colidirem inconsideradamente? Por acaso
vocês veem a luz do Sol se esquecer de iluminar a Terra? A terra esquecer em
seu seio as sementes que o homem ali depositou? Veem a interrupção dos mil
milagres perpétuos que se produzem sob os nossos olhos, desde o nascimento
do arbusto até o nascimento da criança, o futuro homem? Mas, como tudo vai
bem do lado de Deus, tudo vai mal do lado do homem. Qual é o remédio para
isso? É muito simples: aproximarem-se de Deus, amarem-se, unirem-se,
entenderem-se e seguirem tranquilamente a rota da qual nós vemos as
sinalizações com os olhos da fé e da consciência.
VICENTE DE PAULO
Nota – Esta comunicação foi obtida no mesmo círculo; mas quanta diferença
com relação à anterior, não só pelas ideias, mas também pelo estilo! Tudo nela é justo,
profundo, sensato e certamente são Vicente de Paulo não a negaria, pelo que nós
podemos — sem receio — lhe atribuir esta mensagem.
XXXI
Vamos, filhos, fechem vossas fileiras! Quero dizer, que vossa boa união
faça a vossa força. Vocês que trabalham na fundação do grande edifício,
vigiem e trabalhem sempre para lhe consolidar a sua base, e então poderão
subir bem alto, bem alto! A progressão é imensa sobre todo o nosso globo;
uma quantidade inumerável de prosélitos se enfileira sob a nossa bandeira;
muitos cépticos e até dos mais incrédulos também estão se aproximando, se
aproximando também.
Vão, filhos; marchem com o coração elevado, cheio de fé; a rota que
percorrem é bela; não se esmoreçam; sigam sempre a linha reta, sirvam de
guias aos que vêm atrás de vocês, eles serão felizes, muito felizes!
Marchem, filhos; vocês não precisam da força das baionetas para
sustentar a vossa causa, vocês não precisam de nada além de fé; a crença, a
fraternidade e a união, eis as vossas armas; com elas vocês são fortes, mais
‘poderosos do que todos os grandes potentados do Universo reunidos, apesar
de suas forças vivas, de suas frotas, de seus canhões e de sua metralha!
Vocês que combatem pela liberdade dos povos e a regeneração da
437 – O Livro dos Médiuns
grande família humana, vão, filhos, coragem e perseverança, Deus vos
ajudará. Boa noite; adeus.
NAPOLEÃO
Nota – Durante a sua vida, Napoleão86 era um homem grave e sério, como
jamais existiu alguém assim; todo mundo conhece seu estilo breve e conciso. Teria ele
estranhamente degenerado se, após sua morte, ele tivesse se tornado falador e
burlesco. Esta comunicação talvez seja do Espírito de algum soldado que se chamava
Napoleão.
XXXII
Não, não se pode mudar de religião quando não se tem uma que possa
satisfazer ao mesmo tempo ao senso comum e à inteligência que se tem, e que
possa sobretudo dar ao homem consolações presentes. Não, não se muda de
religião, cai-se da inépcia e da dominação na sabedoria e na liberdade. Vão,
vão, nosso pequeno exército! Vão e não temam as balas inimigas: as que
devem lhes matar ainda não foram feitas, se estiverem do fundo do coração
sempre na senda de Deus, quer dizer, se quiserem sempre combater
pacificamente e vitoriosamente pelo bem-estar e pela liberdade.
VICENTE DE PAULO
Nota – Quem reconheceria são Vicente de Paulo por esta linguagem e por estes
pensamentos desconexos e desprovidos de senso? Que significam estas palavras: Não,
não se muda de religião, cai-se da inépcia e da dominação na sabedoria e na
liberdade? Com as suas balas, que ainda não estão feitas, nós suspeitamos fortemente
que esse Espírito é o mesmo que acima se assinou Napoleão.
XXXIII
Filhos da minha fé, cristãos da minha doutrina esquecida pelos
interesses das ondas da filosofia dos materialistas, sigam-me no caminho da
Judeia, sigam a paixão da minha vida, contemplem meus inimigos agora,
86 Referência a Napoleão Bonaparte (1769-1821), célebre imperador francês. — N. T.
438 – Allan Kardec
vejam os meus sofrimentos, meus tormentos e meu sangue derramado pela
minha fé.
Filhos, espiritualistas da minha nova doutrina, estejam prontos a
suportar, a enfrentar as ondas da adversidade, os sarcasmos dos vossos
inimigos. A fé caminhará sem cessar seguindo a vossa estrela, que vos
conduzirá ao caminho da felicidade eterna, tal como a estrela conduziu pela fé
os magos do Oriente à manjedoura. Quaisquer que sejam vossas adversidades,
quaisquer que sejam vossas penas e as lágrimas que tiverem derramado nesta
esfera de exílio, tomem coragem, fiquem certos de que a alegria que vos
inundará no mundo dos Espíritos estará muito acima dos tormentos da vossa
existência passageira. O vale de lágrimas é um vale que há de desaparecer
para dar lugar à brilhante morada de alegria, de fraternidade e de união,
aonde chegarão pela vossa boa obediência à santa revelação. A vida, meus
caros irmãos desta esfera terrestre, toda preparatória, não pode durar senão
o tempo necessário para se viver bem-preparado para essa vida que não
poderá jamais acabar. Amem-se, amem-se como eu vos amei e como amo
ainda; irmãos, coragem, irmãos! Eu lhes abençoo; no céu espero por vocês.
JESUS
Dessas brilhantes e luminosas regiões onde o pensamento humano mal
pode chegar, o eco de vossas palavras e das minhas veio tocar o meu coração.
Oh! De que alegria me sinto inundado ao vê-los, vocês, os continuadores
da minha doutrina. Não, nada se compara ao testemunho dos vossos bons
pensamentos! Vocês veem, filhos, a ideia regeneradora lançada por mim
outrora no mundo, perseguida, detida um momento sob a pressão dos tiranos,
vai desde agora sem obstáculos, iluminando os caminhos da humanidade por
tanto tempo mergulhada nas trevas.
Todo grande e desinteressado sacrifício, meus filhos, cedo ou tarde deu
seus frutos. Meu martírio vos provou isso; meu sangue derramado pela minha
doutrina salvará a humanidade e apagará as faltas dos grandes culpados!
Sejam benditos, vocês que hoje tomam lugar na família regenerada! Vão,
coragem, filhos!
JESUS
439 – O Livro dos Médiuns
Nota – Não há, sem dúvida, nada de mau nestas duas comunicações; porém,
alguma vez o Cristo teve essa linguagem pretensiosa, enfática e grandiloquente?
Quem as comparar com aquela que nós citamos lá atrás87 e que traz o mesmo nome
então verá de que lado está a marca da autenticidade.
Todas estas comunicações foram obtidas no mesmo círculo. Nota-se no estilo
um ar familiar, de rodeio de frases idêntico, as mesmas expressões repetidas com
frequência, como, por exemplo, vão, vão, filhos etc., do que podemos concluir que é o
mesmo Espírito que ditou todas elas sob nomes diferentes. Entretanto, nesse círculo
— muito consciencioso, aliás, mas um tanto crédulo demais — não se fazia nem
evocações nem perguntas; esperava-se todas as comunicações espontâneas — e nós
vemos que isso certamente não é nenhuma garantia de identidade. Com algumas
perguntas um pouco insistentes e carregadas de lógica, facilmente teríamos
recolocado esse Espírito no seu lugar; mas ele sabia que não tinha nada a temer, pois
não lhe perguntavam nada, e aceitavam sem questionamento, e de olhos fechados,
tudo o que ele dizia. (Veja o item 269.)
XXXIV
Como é bela a natureza! Como a Providência é prudente na sua
previdência! Mas vossa cegueira e vossas paixões humanas impedem que
tirem paciência na prudência e na bondade de Deus. Vocês se lamentam da
menor nuvem, do menor atraso nas vossas previsões; saibam bem,
impacientes duvidosos, que nada acontece sem um motivo sempre previsto,
sempre premeditado em proveito de todos. A razão do que precede é, homens
de temores hipócritas, para reduzir a nada todas as vossas previsões de um
ano ruim para as vossas colheitas.
Deus muitas vezes inspira a inquietação do futuro nos homens para lhes
induzir à previdência; e vejam como são grandes os meios para aperfeiçoar
vossos temores semeados de propósito, e que na maioria das muitas vezes
ocultam pensamentos mais gananciosos do que uma ideia de cautelosa
provisão inspirada por um sentimento de humanidade em favor dos
pequenos. Vejam as relações de nações a nações que resultarão daí; vejam
quantas transações deverão surgir; quantos meios virão contribuir para
87 Veja a dissertação IX. — N. T.
440 – Allan Kardec
reprimir os vossos temores! Então, como sabem, tudo se encadeia; por isso,
grandes e pequenos virão à obra.
Então, vocês não veem já em todo esse movimento uma fonte de um
certo bem-estar para a classe mais trabalhadora dos Estados, classe
verdadeiramente interessante que vocês, os grandes, vocês, os onipotentes
dessa terra, consideram como gente manipulável à vontade, criada para as
vossas satisfações?
Pois, o que acontece depois de todo esse vaivém de um polo a outro? É
que, uma vez bem providos, muitas vezes esse tempo mudou; o Sol,
obedecendo ao pensamento de seu criador, amadureceu em alguns dias as
vossas colheitas; Deus pôs a abundância onde a vossa cobiça meditava sobre a
escassez e, apesar de vocês, os pequenos poderão viver; e sem suspeitarem
disso, vocês foram involuntariamente a causa de uma abundância.
Entretanto, acontece — Deus assim permitir algumas vezes — que os
maus consigam êxito em seus projetos traiçoeiros; mas então é um
ensinamento que Deus quer dar a todos; é a previdência humana que ele quer
estimular; é a ordem infinita que reina na natureza, é a coragem contra os
eventos que os homens devem imitar, que devem suportar com resignação.
Quanto aos que, por interesse, se aproveitam dos desastres, podem crer,
eles serão punidos por isso. Deus quer que todos os seus seres vivam; o
homem não deve brincar com a necessidade, nem traficar com o supérfluo.
Justo em seus benefícios, grande na sua demência, demasiado bom para com a
nossa ingratidão, Deus, em seus desígnios, é impenetrável.
BOSSUET. ALFREDO DE MARIGNAC
Nota – Esta comunicação certamente nada contém de mau; traz até ideias
filosóficas profundas e conselhos muito sábios que, quanto à identidade do autor,
poderiam confundir as pessoas pouco versadas em literatura. O médium que a obteve
então a submeteu ao exame da sociedade espírita de Paris, e a voz unânime foi para
declarar que tal comunicação não podia ser de Bossuet. Consultado, são Luís
respondeu: “Esta comunicação por si mesma é boa, mas não acreditem que tenha sido
Bossuet quem a tenha ditado. Um Espírito a escreveu, talvez um pouco sob a
inspiração dele, e assinou em baixo o nome do grande bispo para torná-la mais
facilmente aceitável; mas, pela linguagem vocês devem reconhecer a substituição. Ela
441 – O Livro dos Médiuns
é do Espírito que colocou o nome após o de Bossuet.” Interrogado sobre o motivo que
o levara a agir assim, esse Espírito disse: Eu desejava escrever alguma coisa a fim de
ser lembrado pelos homens; vendo que era fraco, eu quis me valer do prestígio de um
grande nome. — Mas não lhe ocorreu que nós reconheceríamos que ela não poderia
ser de Bossuet? — Quem sabe lá, ao certo? Vocês poderiam se enganar. Outros menos
esclarecidos a teriam aceitado.
Na verdade, a facilidade com a qual algumas pessoas aceitam aquilo que vem do
mundo invisível sob o manto de um grande nome é o que encoraja os Espíritos
enganadores. É para frustrar as artimanhas destes que devemos prestar toda a nossa
atenção, e nós só conseguiremos isso com a ajuda da experiência adquirida através de
um estudo sério. Por isso, repetirmos sem cessar: Estudem, antes de praticar, pois
este é o único meio de adquirir experiência sem ser às próprias custas.
442 – Allan Kardec
CAPÍTULO XXXII
VOCABULÁRIO ESPÍRITA
Nota do tradutor: a ordem dos vocábulos aqui segue a sequência
alfabética do nosso idioma português e, por conta disso, não corresponde
exatamente à sequência original. Além disso, colocamos em colchete os
termos originais equivalentes ao vocabulário em francês.
Agênere [Agénère] (do grego a, privativo; e géiné, géinomaï, gerar; que não foi gerado):
Variedade da aparição tangível; estado de certos Espíritos que podem revestir
temporariamente as formas de uma pessoa viva, ao ponto de produzir
completamente uma ilusão.
Batedor [Frappeur]: Qualidade de certos Espíritos. Os Espíritos batedores são aqueles
que revelam sua presença através de batidas e de ruídos de diversos tipos.
Erraticidade [Erraticité]: Estado dos Espíritos errantes, ou erráticos, quer dizer, não
encarnados, durante o intervalo de suas existências corporais.
Espírita [Spirite]: O que se refere ao espiritismo; adepto do espiritismo; aquele que crê
nas manifestações dos Espíritos. Um bom, um mau espírita; a doutrina espírita.
Espiritismo [Spiritisme]: Doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos
e em suas manifestações.
Espiritista [Spiritiste]: Esta palavra, empregada a princípio para designar os adeptos
do espiritismo, não foi consagrada pelo uso; o termo espírita prevaleceu.
Espírito [Esprit]: No sentido especial da doutrina espírita, os Espíritos são os seres
inteligentes da criação, que povoam o Universo fora do mundo material, e que
formam o mundo invisível. Não são seres de uma criação especial, mas as almas
daqueles que viveram na Terra ou nas outras esferas, e que deixaram o seu
invólucro corporal.
Espiritualismo [Spiritualisme]: Diz-se no sentido oposto ao de materialismo (sentido
443 – O Livro dos Médiuns
acadêmico); crença na existência da alma espiritual e imaterial. O espiritualismo é
a base de todas as religiões.
Espiritualista [Spiritualiste]: O que se refere ao espiritualismo; partidário do
espiritualismo. Qualquer um que acredite que nem tudo em nós seja matéria é um
espiritualista, o que não implica de modo algum na crença nas manifestações dos
Espíritos. Todo espírita é necessariamente um espiritualista, mas é possível ser
espiritualista sem ser espírita; o materialista não é nem um nem o outro. Diz-se: a
filosofia espiritualista. — Uma obra escrita segundo as ideias espiritualistas. — As
manifestações espíritas são produzidas pela ação dos Espíritos sobre a matéria. —
A moral espírita decorre do ensino dado pelos Espíritos. — Há espiritualistas que
zombam das crenças espíritas.
Nestes exemplos, a substituição da palavra espiritualista pelo termo espírita
produziria uma evidente confusão.
Estereotite [Stéréotite]
88 (do grego stéréos, sólido): — Qualidade das aparições
tangíveis.
Medianímico [Médianimique]: Qualidade da potência dos médiuns. Faculdade
medianímica.
Medianimidade [Médianimité]: Faculdade dos médiuns. Sinônimo de mediunidade.
Estas duas palavras muitas vezes são empregadas indiferentemente; se quiséssemos
fazer uma distinção, poderíamos dizer que mediunidade tem um sentido mais
amplo e medianimidade um sentido mais restrito. Ele tem o dom de mediunidade.
A medianimidade mecânica.
Médium [Médium] (do latim medium, meio, intermediário.): Pessoa que pode servir de
intermediária entre os Espíritos e os homens.
Mediunato [Médiumat]: Missão providencial dos médiuns. Esta palavra foi criada pelos
Espíritos (Veja: cap. XXXI, comunicação XII.)
88 O vocábulo stéréotite não consta nos dicionários tradicionais e provavelmente é um termo criado por
Allan Kardec, como um adjetivo aplicável ao que é físico, materializado, capaz de ser tocado (tangível),
em oposição ao que é etéreo, sem uma forma corporal materializada o suficiente para ser tangível. A
inspiração para este neologismo pode ter sido a palavra stéréotypie (estereotipia), que é o nome dado a
um antigo processo de impressão gráfica a partir de uma chapa metálica (também chamada de clichê,
estereótipo e até estereotipia mesmo) que servia como uma espécie de carimbo para poder reproduzir
cópias daquilo que era moldado nesse chapa e que, portanto, solidificava ou materializava ideias (textos
e imagens). Como consequência, vertemos o termo francês para o nosso português igualmente usando
uma expressão especial: estereotite. Em Instrução Prática Sobre as Manifestações Espíritas, Kardec
usará este adjetivo para especificar as aparições tangíveis. — N. T.
444 – Allan Kardec
Mediunidade [Médiumnité]: Veja: Medianimidade.
Perispírito [Périsprit] (do grego peri, entorno): Envoltório semimaterial do Espírito.
Nos encarnados, serve de ligação ou de intermediário entre o Espírito e a matéria;
nos Espíritos errantes, ele constitui o corpo fluídico do Espírito.
Pneumatofonia [Pneumatophonie] (do grego pneuma e phoné, som ou voz.): Voz dos
Espíritos; comunicação oral dos Espíritos sem o auxílio da voz humana.
Pneumatografia [Pneumatographie] (do grego pneuma, ar, sopro, vento, espírito; e
graphó, escrita): Escrita direta dos Espíritos sem o auxílio da mão de um médium.
Psicofonia [Psychophonie]: Comunicação dos Espíritos pela voz de um médium
falante.
Psicografia [Psychographie]: Escrita dos Espíritos pela mão de um médium.
Psicógrafo [Psychographe] (do grego psiké, borboleta, alma; e graphó, escrita): Aquele
que faz psicografia; médium escrevente.
Reencarnação [Réincarnation]: Retorno do Espírito à vida corpórea, pluralidade das
existências.
Sematologia [Sématologie] (do grego sema, sinal; e logos, discurso): Linguagem dos
sinais. Comunicação dos Espíritos pelo movimento dos corpos inertes.
Tiptologia [Typtologie] (do grego tipto, bater): Linguagem por batidas; modo de
comunicação dos Espíritos. Tiptologia alfabética.
Tiptólogo [Typteur]: Variedade de médiuns aptos à tiptologia. Médium tiptólogo.
445 – O Livro dos Médiuns
Participe do curso online
KLM – Estudo de O Livro dos Médiuns
promovido pela
PEADE – Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espírita
www.luzespirita.org.br/peade/
446 – Allan Kardec
