2 – Allan Kardec
Instrução Prática Sobre as Manifestações Espíritas
Allan Kardec (1804-1869)
Tí tulo original em france s:
Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites
Originalmente publicado em julho de 1858
Paris, França
Traduça o: Ery Lopes
Com base da 1ª ediça o – ebook.
Versa o digital 1.1
Atualizada em 22 de junho, 2024
Sa o Paulo – SP, Brasil
Na o nos importamos com os direitos autorais.
Esta traduça o pode ser copiada e reproduzida, impressa e ate comercializada,
sem pre via autorizaça o ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
Distribuiça o gratuita:
Portal Luz Espírita
3 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
INSTRUÇÃO PRÁTICA
SOBRE AS
MANIFESTAÇÕES
ESPÍRITAS
Allan Kardec
Tradução:
Ery Lopes
Na o nos importamos com os direitos autorais.
Esta traduça o pode ser copiada e reproduzida, impressa e ate comercializada,
sem pre via autorizaça o ou mesmo sem citar a fonte.
Apenas pedimos que seja mantida a fidelidade do texto.
4 – Allan Kardec
Nota do tradutor
A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para
aprender e fortalecer nossos aprendizados doutrina rios espí ritas — o que,
alia s, constitui uma satisfaça o para no s — serviu de ensejo para cuidarmos
desta traduça o, que tambe m e motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma
opça o aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo, especialmente
aqueles que na o disponham da flue ncia na leitura em france s, cumprindo assim
o papel essencial do tradutor, qual seja o de ser um facilitador.
Na o se ignora a dificuldade natural no trabalho de verter para outro
idioma qualquer uma obra de fo lego, tal como esta; acrescente-se aí a gravidade
das implicaço es de uma traduça o de Instrução Prática sobre as
Manifestações Espíritas, posto que se trata de um livro que conte m
fundamentos de uma doutrina de cunho cientí fico, filoso fico e religioso,
doutrina essa ta o complexa quanto importante para toda a humanidade. Em
face disso, na o ousarí amos propor uma traduça o perfeita, mas tratamos tanto
quanto nos e possí vel de buscar a ma xima fidelidade da mensagem iluminadora
e consoladora contida nesta obra monumental.
A revisa o desta traduça o e contí nua, portanto, correço es e sugesto es de
melhorias sa o bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte
periodicamente a existe ncia de uma ediça o mais atualizada.
E enta o ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para
contribuir com a propagaça o desta doutrina que abraçamos com amor.
Ery Lopes
Observação: as notas de rodape de autoria do tradutor esta o sinalizadas no final com a inscriça o “N. T.”;
as demais, sem sinalizaça o, correspondem a traduça o das notas de Allan Kardec contidas na obra original.
5 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Apresentação da obra
A publicaça o de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, atendeu
bem ao apelo de uma grande demanda interessada em compreender aquela
extraordina ria fenomenologia que resultou na moda das Mesas Girantes e deu
vida ao chamado Espiritualismo Moderno; ora, repousava naquelas
manifestaço es toda uma filosofia de vida e uma sí ntese histo ria da esse ncia
universal contida numa revelaça o especial, sublime, que passamos a conhecer
pelo nome Espiritismo.
Ocorreu, pois, que o autor daquela obra monumental — Allan Kardec —
enta o se viu diante de novos apelos, de um pu blico cada vez mais motivado a
penetrar no conhecimento da natureza espiritual, especialmente pela
oportunidade de ter contato com os Espí ritos; de toda a parte do mundo eram-
lhe endereças cartas suplicando orientaço es para uma maneira segura e pra tica
de desenvolvimento das faculdades mediu nicas e as devidas instruço es para o
exercí cio das atividades desse ge nero.
Foi a propo sito dessas su plicas gerais, juntamente com o interesse de
propagar a pro pria Doutrina Espí rita, que, enfim, o nosso confrade pioneiro se
debruçou sobre este trabalho, que veio a lume em julho de 1858, sob o tí tulo
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas.
Nesta composiça o ficam evidentes a capacidade editorial de Kardec,
enriquecidas pela experie ncia anterior de publicaço es dida ticas, assinadas
como Prof. Rivail; ele cla ssica muito adequadamente os temas principais e
to picos relativos, estruturando a obra de forma a tornar a leitura ta o agrada vel
quanto instrutiva, objetivando sem rodeios o desiderato da formaça o do
me dium e da u til aplicaça o das sesso es espí ritas.
Ale m das qualidades de escritor, e -nos prazeroso salientar o zelo com a
6 – Allan Kardec
gravidade do assunto, posto os escolhos que a imprude ncia enseja na pra tica
mediu nica, pelo que o autor convida os leitores a se atentarem para a questa o
moral que predomina em todos os aspectos do Espiritismo. E esse cuidado todo
carinho tambe m ilustra o amor que o codificador espí rita alimentou em favor
da causa doutrina ria.
O lançamento, obviamente, foi um sucesso; tanto que sua caixa-postal foi
reforçada com pedidos de novas reimpresso es. Nesse í nterim, pore m, novas
pesquisas e experimentaço es a respeito da mediunidade vinham requisitar o
autor a novos desenvolvimentos teo ricos; estava claro que, embora o volume
de Instrução Prática ja fosse bastante esclarecedor, era preciso pensar num
trabalho maior, que viesse contemplar as novas observaço es acerca na o so do
campo mediu nico, mas da doutrina em geral.
Por esta raza o foi que Allan Kardec abdicou de reeditar aquele pequeno
manual e enta o passou a se dedicar a obra que seria lançada em 1861, sob o
tí tulo O Livro dos Médiuns, da qual hoje se diz comumente que o opu sculo
Instrução Prática e seu proto tipo.
De forma pra tica, o novo livro substitui o trabalho anterior, ate porque ele
abrange todos os temas contidos no anterior, inclusive alguns para grafos
inteiros de Instrução Prática foram aproveitados na obra subintitulada Guia
dos Médiuns e dos Evocadores. Na o obstante, julgamos ser muito interessante
que os estudiosos conheçam este lançamento, com o que aqui nos ocupamos, a
fim de observar, por exemplo, o processo de desenvolvimento da bibliografia
kardequiana, conferindo, de uma ediça o para outra, a evoluça o da pesquisa e
da disposiça o dos conceitos doutrina rios, pois, ao contra rio do que muitos
poderiam pensar, a codificaça o espí rita na o caiu do ce u nem foi ditada
prontinha para a transcriça o de Kardec; na o, absolutamente! Ela e fruto de uma
longa e dedicada elaboraça o, crescendo paulatinamente, passo a passo com as
sequenciais revelaço es que a espiritualidade foi concedendo dia a dia.
Em face disso, empenhamo-nos com satisfaça o em produzir e em colocar
a disposiça o de todos esta ediça o, com os votos para que ela seja u til.
Equipe Luz Espírita
7 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Allan Kardec
(1804-1869)
8 – Allan Kardec
Folha de rosto da ediça o original, 1858.
Ebook disponí vel no Google Books
9 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
CONTENDO
A exposição completa das condições necessárias para se comunicar com os
Espíritos e os meios de desenvolver a faculdade mediatriz nos médiuns,
POR ALLAN KARDEC
AUTOR DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS
E DIRETOR DA REVISTA ESPÍRITA
PARIS
1858
10 – Allan Kardec
Índice
INTRODUÇA O – pa g. 12
VOCABULA RIO ESPI RITA – pa g. 16
QUADRO SINO TICO DA NOMENCLATURA ESPI RITA – pa g. 49
Capí tulo I: ESCALA ESPI RITA – pa g. 50
3ª ordem: ESPI RITOS IMPERFEITOS
2ª ordem: BONS ESPI RITOS
1ª ordem: ESPI RITOS PUROS
Capí tulo II: MANIFESTAÇO ES ESPI RITAS – pa g. 58
Aça o oculta
Evidentes
Fí sicas
Inteligentes
Aparentes, vaporosas ou tangí veis
Esponta neas
Capí tulo III: COMUNICAÇO ES ESPI RITAS – pa g. 68
Capí tulo IV: DIFERENTES MODOS DE COMUNICAÇA O – pa g. 74
Sematologia e Tiptologia
Psicografia
Capí tulo V: OS ME DIUNS – pa g. 85
Me diuns de influe ncias fí sicas – Me diuns naturais e Me diuns facultativos
Me diuns escreventes ou psico grafos
Capí tulo VI: PAPEL E INFLUE NCIA DOS ME DIUNS NAS MANIFESTAÇO ES – pa g. 96
Capí tulo VII: INFLUE NCIA DO AMBIENTE SOBRE AS MANIFESTAÇO ES – pa g. 102
11 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Capí tulo VIII: RELAÇO ES COM OS ESPI RITOS – pa g. 106
As reunio es
O Local
Evocaço es
Espí ritos que podemos evocar
Linguagem a ser usada com os Espí ritos
Questo es a serem endereçadas aos Espí ritos
Me diuns remunerados
Capí tulo IX: TEMAS DE ESTUDO – pa g. 126
Capí tulo X: CONSELHOS AOS NOVATOS – pa g. 129
Capí tulo XI: INFLUE NCIA DO ESPIRITISMO – pa g. 131
12 – Allan Kardec
INTRODUÇÃO
Muitas pessoas nos pediram para lhes indicar as condiço es a cumprir e a
maneira de proceder para ser um me dium. A soluça o desta questa o e mais
complicada do que parece a primeira vista, porque implica em conhecimentos
preliminares de uma certa extensa o; para fazer experie ncias de fí sica e de
quí mica, e preciso primeiramente conhecer a fí sica e a quí mica. As respostas
que temos dado a essas pessoas na o poderiam conter desenvolvimentos
incompatí veis com os limites de uma corresponde ncia; o tempo material, alia s,
na o nos tem permitido satisfazer a todas as solicitaço es; foi isso o que nos
motivou a publicar essa instruça o, necessariamente mais completa do que tudo
o que poderí amos escrever diretamente.
Estaria enganado quem pensasse em encontrar nesta obra uma receita
universal e infalí vel para formar me diuns. Se bem que cada pessoa tenha em si
mesma os germes das qualidades necessa rias para se tornar um me dium, essas
qualidades existem em graus muito diferentes, e o seu desenvolvimento se deve
a determinadas causas que na o depende da vontade da pessoa faze -las brotar.
As regras da poesia, da pintura e da mu sica na o fazem nem poetas, nem
pintores e nem mu sicos daqueles que na o te m o talento para essas artes: as
regras apenas orientam a aplicaça o das faculdades naturais. E o mesmo caso do
nosso trabalho; o seu objetivo consiste em indicar os meios de desenvolver a
faculdade mediatriz tanto quanto as disposiço es de cada pessoa assim o
permitirem, e sobretudo dirigir sua aplicaça o de uma maneira u til — desde que
a faculdade exista. Mas este na o e o u nico objetivo ao qual nos propusemos. Ao
lado dos me diuns propriamente ditos, ha uma multida o que cresce a cada dia
de pessoas que se ocupam com as manifestaço es espí ritas; guia -las nas suas
observaço es, apontar-lhes os obsta culos que elas podem e ha o de
13 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
necessariamente encontrar numa coisa nova, inicia -las na maneira de dialogar
com os Espí ritos, indicar-lhes os meios de conseguirem boas comunicaço es, tal
e o cí rculo que temos de abranger, para na o corrermos o risco de fazer um
trabalho incompleto. Enta o, que ningue m fique surpreso ao encontrar no nosso
trabalho ensinamentos que a primeira vista possam lhes parecer estranhos: a
experie ncia mostrara a utilidade desses ensinamentos. Quem tiver estudado
esta obra cuidadosamente compreendera melhor os fatos de que sera o
testemunhas; a linguagem de certos Espí ritos parecera menos estranha. Como
instruça o pra tica, a nossa obra enta o na o se destina exclusivamente aos
me diuns, mas a todos os que tambe m possam ver e observar os feno menos
espí ritas.
A cie ncia espí rita repousa necessariamente sobre a existe ncia dos
Espí ritos e sua intervença o no mundo corporal. Isso hoje e um fato admitido
por tanta gente que seria desnecessa rio qualquer demonstraça o. Como o nosso
propo sito e o de guiar as pessoas que desejam se ocupar com as manifestaço es,
supomos que elas estejam suficientemente esclarecidas sobre esse ponto e
sobre as verdades fundamentais que decorrem disso, de modo que seja inu til
entrar em qualquer explicaça o sobre esse assunto. E por isso que na o as
discutiremos e na o procuraremos levantar controve rsias, nem refutaremos
objeço es. Endereçamo-nos apenas a s pessoas convencidas ou — com boa
vontade — dispostas a se convencer; quanto a quelas que precisam aprender
tudo, elas na o encontrara o aqui certas demonstraço es que talvez poderiam
desejar, porque no s consideramos o ponto de partida como admitido. Aos que
contestam esse ponto de partido, no s diremos: Vejam e observem quando
surgir a ocasia o para isso. Se, apesar dos fatos e dos raciocí nios, voce s teimarem
na vossa incredulidade, no s considerarí amos como tempo perdido aquele que
passarí amos querendo vos tirar de um erro no qual voce s certamente se
comprazem. Respeitamos vossa opinia o, enta o queiram respeitar a nossa; isso
e tudo o que vos pedimos.
Começaremos essa instruça o pela exposiça o dos princí pios gerais da
doutrina. Embora possa parecer mais racional começar pela pra tica, no s
cremos que na o e o caso aqui; ha uma convicça o moral que so o raciocí nio pode
14 – Allan Kardec
dar; portanto, aqueles que dela adquiriram as primeiras noço es pelo estudo da
teoria compreendera o melhor a necessidade de certos preceitos recomendados
na pra tica, e para isso tera o disposiço es mais favora veis. Ao trazer os indecisos
de volta ao terreno da realidade, no s esperamos destruir os preconceitos que
possam prejudicar o resultado que buscamos, poupar ensaios inu teis, ja que
eles sa o mal direcionados ou direcionados para o impossí vel, ale m de, enfim,
combater as ideias supersticiosas que sempre te m sua fonte na noça o
equivocada ou incompleta das coisas.
As manifestaço es espí ritas sa o a fonte de uma se rie de ideias novas que
na o poderiam encontrar sua representaça o na lí ngua usual; no s as exprimimos
por analogia, como ocorre no princí pio de qualquer cie ncia; daí a ambiguidade
dos termos — causa de inesgota veis discusso es. Com palavras claramente
definidas e uma palavra para cada coisa, enta o nos entendemos mais
facilmente; se discutirmos, nesse caso sera sobre a esse ncia e na o mais sobre a
forma. E em vista de alcançarmos esse objetivo e de ordenar essas ideias novas,
e ainda confusas, que em primeiro lugar no s damos a todas as palavras — que,
por uma ligaça o direta ou indireta, se relacionam com a doutrina — explicaço es
bastante completas, conquanto sucintas, para fixar as ideias. A cie ncia espí rita
deve ter seu vocabula rio, como todas as outras cie ncias. Para compreender uma
cie ncia, e preciso antes de tudo compreender a linguagem; essa e a primeira
coisa que recomendamos a queles que querem fazer um estudo se rio do
espiritismo. Qualquer que fosse futuramente a opinia o particular deles sobre
os diversos pontos da doutrina, eles poderiam discuti-la com conhecimento de
causa. A forma alfabe tica permitira tambe m recorrer mais facilmente a s
definiço es e aos ensinamentos que sa o como a pedra angular do edifí cio, e que
servira o para refutar em poucas palavras determinadas crí ticas e a prevenir um
monte de questo es.
A especialidade do objetivo a que nos propusemos indica os limites
naturais desta obra. Como a cie ncia espí rita toca em todos os pontos da
metafí sica e da moral, e ate — podemos dizer — na maior parte dos
conhecimentos humanos, na o e num quadro ta o restrito que poderí amos
abordar todas as questo es, nem discutir todas as objeço es. Para os
15 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
desenvolvimentos complementares, nos remetemos a O Livro dos Espíritos e
a Revista Espírita. No primeiro, encontraremos a exposiça o completa e
meto dica da doutrina, tal como ela foi ditada pelos pro prios Espí ritos; na
segunda, ale m da listagem e apreciaça o dos fatos, encontraremos uma
variedade de temas que so o formato de uma publicaça o perio dico pode conter.
A coleça o dessa revista constituira o acervo mais completo sobre o assunto, do
triplo ponto de vista: histo rico, dogma tico e crí tico.
16 – Allan Kardec
VOCABULÁRIO ESPÍRITA
Nota do tradutor: a ordem dos vocábulos aqui segue a sequência
alfabética do nosso idioma português e, por conta disso, não corresponde
exatamente à sequência original. Além disso, colocamos em colchete os
termos originais equivalentes ao vocabulário em francês.
Alma [A me] (do latim änima; do grego anemos, sopro, respiraça o): Segundo alguns, e o
princí pio da vida material; segundo outros, e o princí pio da intelige ncia sem
individualidade apo s a morte; segundo as diversas doutrinas religiosas, e um ser
imaterial, distinto, cujo corpo e apenas o envolto rio, que serve ao corpo e conserva a
sua individualidade apo s a morte.
Essa diversidade de acepço es dadas a um mesmo voca bulo e uma fonte
perpe tua de controve rsias que na o existiria se cada ideia tivesse sua representaça o
nitidamente definida. Para evitar toda confusa o sobre os significados que damos a
essa palavra, nos chamaremos:
Alma espírita, ou simplesmente alma, o ser imaterial, distinto e individual,
unido ao corpo que lhe serve de envolto rio tempora rio; quer dizer, o espí rito no
estado da reencarnaça o, e que pertence exclusivamente a espe cie humana;
Princípio intelectual¸ o princí pio geral da intelige ncia comum aos homens e
aos animais; e alma intelectual esse mesmo princí pio individualizado.
Alma universal [A me universelle]: nome que certos filo sofos da o ao princí pio geral da
vida e da intelige ncia. (Veja: Todo universal).
Anjo [Ange] (do latim angelus; do grego aggelos, mensageiro): Segundo a ideia comum, os
anjos sa o seres intermedia rios entre o homem e a divindade, por sua natureza e sua
pote ncia, e podendo se manifestar tanto por aviso ocultos quanto por uma maneira
visí vel. Eles na o foram realmente criados perfeitos, pois a perfeiça o pressupo e
infalibilidade, e alguns dentre eles se revoltaram contra Deus. Diz-se: bons e maus
anjos, anjos das trevas. Contudo, a ideia mais generalizada relacionada a esta palavra
17 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
e a da bondade e da suprema virtude.
De acordo com a doutrina espí rita, os anjos na o sa o seres a parte e de uma
natureza especial; sa o os Espí ritos de primeira ordem, isto e , aqueles que chegaram a
condiça o de Espí ritos puros depois de terem experimentado todas as provaço es.
Nosso mundo na o e de toda a eternidade, e muito tempo antes que ele existisse,
os Espí ritos ja tinham atingido esse grau supremo; enta o os homens acreditaram que
aqueles seres sempre foram dessa maneira.
Alucinação [Hallucination] (do latim hallucinare, errar): “Erro, ilusa o de uma pessoa que
acredita ter percepço es que realmente na o tem.” (Academia) — Os feno menos
espí ritas que prove m da emancipaça o da alma provam que aquilo que e qualificado
como alucinaça o frequentemente e uma percepça o real semelhante a quela da dupla
vista do sonambulismo ou do e xtase, provocada por um estado anormal, um efeito das
faculdades da alma desprendida dos laços corporais. Sem du vidas, algumas vezes e
uma verdadeira alucinaça o no sentido relativo a esse termo; mas a ignora ncia e a
pouca atença o que ate agora se tem prestado a esses tipos de feno menos fizeram
considerar como ilusa o aquilo que muitas vezes e uma visa o real. Quando na o se sabe
explicar um fato psicolo gico, acha-se mais simples qualifica -lo de alucinaça o.
Aparição [Apparition]: feno meno pelo qual os seres do mundo incorpo reo se
manifestam a visa o.
Aparição vaporosa ou etérea: aquela e impalpa vel e inconsistente, e na o
oferece nenhuma resiste ncia ao toque.
Aparição tangível ou estereotite:1 aquela que e palpa vel e apresenta a
consiste ncia de um corpo so lido.
A aparição difere da visão porque ela ocorre no estado de vigí lia, atrave s dos
o rga os visuais, e porque a pessoa tem plena conscie ncia de suas relaço es com o
mundo exterior. A visão ocorre no estado de sono ou de e xtase; ela tambe m ocorre no
estado desperto por efeito da segunda vista. A aparição nos chega pelos olhos do
corpo; ela se produz no mesmo lugar onde nos encontramos; a visão tem por objeto
as coisas ausentes ou distantes, percebidas pela alma no seu estado de emancipaça o,
e enquanto as faculdades sensitivas esta o mais ou menos suspensas. (Veja: Lucidez,
Clarividência.)
Arcanjo [Archange]: anjo de uma ordem superior (Veja: Anjo). A palavra anjo e um termo
gene rico que se aplica a todos os Espí ritos puros. Se admitirmos que entre eles haja
1 Ver Estereotite, neste mesmo Vocabulário. — Nota do Tradutor (N. T).
18 – Allan Kardec
diferentes graus de elevaça o, poderí amos designa -los pelas palavras arcanjos e
serafins, usando os termos conhecidos.
Ateu, ateísmo [Athe e, Athe isme] (do grego atheos, derivado de a privativo e de théos,
Deus: sem Deus; que na o cre em Deus): o ateí smo e a negaça o absoluta da divindade.
Quem acredita na existe ncia de um ser supremo — quaisquer que sejam os atributos
que lhe suponha e o culto que lhe preste — na o e ateu. Toda religia o se fundamenta
necessariamente na crença em uma divindade; essa crença pode ser mais ou menos
esclarecida, mais ou menos conforme a verdade; pore m, uma religia o ateia seria um
contrassenso.
O ateí smo absoluto tem poucos prose litos, pois o sentimento da divindade
existe no coraça o do homem ainda que na ause ncia de qualquer ensinamento. O
ateí smo e o Espiritismo sa o incompatí veis.
Batedor [Frappeur] (Veja: Espírito.)
Céu [Ciel]: no sentido da morada dos bem-aventurados. (Veja: Paraíso.)
Clarividência [Clairvoyance]: propriedade inerente a alma e que da a certas pessoas a
faculdade de ver sem o recurso dos o rga os da visa o. (Veja: Lucidez.)
Classificação dos Espíritos [Classification des Esprits]: (Veja: Escala espírita.)
Comunicação espírita [Communication spirite]: manifestaça o inteligente dos
Espí ritos tendo por objetivo uma troca contí nua de pensamentos entre eles e os
homens. No s as distinguimos entre:
Comunicações frívolas: aquelas que se referem a assuntos fu teis e sem
importa ncia;
Comunicações grosseiras: aquelas que se traduzem por expresso es que
chocam a dece ncia;
Comunicações sérias: aquelas que excluem a banalidade, qualquer que seja o
assunto.
Comunicações instrutivas: aquelas que tem por finalidade principal um
ensinamento dado pelos Espí ritos sobre as cie ncias, a moral, a filosofia etc.
(Sobre os modos de comunicaço es, veja: Sematologia, Tiptologia, Psicografia,
Pneumatografia, Psicofonia, Pneumatofonia, Telegrafia humana.)
Crisíaco [Crisiaque]: aquele que esta num estado momenta neo de crise produzida pela
aça o magne tica. Essa qualificaça o e atribuí da mais particularmente a queles nos quais
esse estado e esponta neo e acompanhado de uma certa superexcitaça o nervosa. Os
crisí acos geralmente desfrutam da lucidez sonambu lica ou da segunda vista.
19 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Deísta [De iste]: aquele que cre em Deus, sem admitir culto exterior. Algumas vezes, o
deísmo e erradamente confundido com o ateísmo. (Veja: Ateu.)
Demônio [De mon] (do latim Dæmo, derivado do grego daïmôn, ge nio, sorte, destino,
manes.): Dæmones, tanto em grego quanto em latim, se diz de todos os seres
incorpo reos, bons ou maus, e que supostamente possuam conhecimentos e poder
superiores ao homem. Nas lí nguas modernas, esse termo e geralmente tomado no
sentido negativo, e sua acepça o esta restrita aos ge nios malfazejos. Segundo a crença
vulgar, os demo nios sa o seres essencialmente maus pela pro pria natureza deles. Os
Espí ritos nos ensinam que Deus, sendo soberanamente justo e bom, na o poderia ter
criado seres devotados ao mal e desgraçados por toda a eternidade. Conforme estes
Espí ritos, na o ha demônios na acepça o absoluta e restrita dessa palavra; o que
realmente ha sa o Espí ritos imperfeitos, que podem se melhorar pelos pro prios
esforços e pela vontade pessoal. Os Espí ritos da nova classe seriam os verdadeiros
demo nios, se esse termo na o implicasse na ideia de uma natureza perpetuamente ma .
Demônio familiar [De mon familier]: (Veja: Espírito familiar.)
Demonologia, Demonografia [De monologie, De monographie]: tratado sobre a
natureza e a influe ncia dos demo nios.
Demonomancia [De monomancie] (do grego daïmôn e mantéia, adivinhaça o): suposto
conhecimento do futuro por inspiraça o dos demo nios.
Demonomania [De monomanie]: variedade de alucinaça o mental que consiste em
acreditar estar possuí do pelo demo nio.
Deus [Dieu]: intelige ncia suprema, causa prima ria de todas as coisas. Ele e eterno,
imuta vel, imaterial, u nico, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e infinito em
todas as suas perfeiço es.
Diabo [Diable] (do grego diabolos, delator, acusador, mentiroso, caluniador): segundo a
crença vulgar, e um ser real, um anjo rebelde, chefe de todos os demo nios, e que tem
um poder bastante extenso para lutar ate mesmo contra Deus. Ele conhece nossos
pensamentos mais secretos, inspira todas as ma s paixo es e assume todas as formas
para nos induzir ao mal. De acordo com a doutrina dos Espí ritos sobre os demo nios,
o diabo e a personificaça o do mal; e um ser alego rico que resume em si todas as ma s
paixo es dos Espí ritos imperfeitos. Assim como os antigos davam a s suas divindades
alego ricas determinados atributos especiais (ao Tempo, uma foice, uma ampulheta,
asas e a figura de um velho; a Fortuna, uma bandeira sobre os olhos e uma roda sob
um pe , e assim por diante), da mesma forma o diabo teve que ser representado sob os
20 – Allan Kardec
traços caracterí sticos da baixeza das inclinaço es. Os chifres e a cauda sa o os emblemas
da bestialidade, quer dizer, da brutalidade das paixo es animais.
Dríades [Dryades]: (Veja: Hamadríades.)
Duendes [Farfadets] 2 (do latim fadus, fadu, fada): Espí ritos brincalho es; espe cie de
duendes, mais traquinas do que malvados, pertencendo a classe dos Espí ritos
levianos. (Veja: Lutin.)
Emancipação da alma [E mancipation de l’a me]: estado particular da vida humana
durante o qual a alma, desprendendo-se parcialmente de seus laços materiais,
recupera algumas de suas faculdades do Espí rito e entre mais facilmente em
comunicaça o com os seres incorpo reos. Essa situaça o se manifesta principalmente
pelos feno menos dos sonhos, do sonilo quio, da dupla vista, do sonambulismo natural
ou magne tico, e do e xtase. (Veja esses voca bulos.)
Encarnação [Incarnation]: estado dos Espí ritos que revestem um envolto rio corporal.
Diz-se: Espírito encarnado por oposiça o ao Espírito errante. Os Espí ritos sa o
errantes no intervalo de suas diferentes encarnaço es. A encarnaça o pode ocorrer na
Terra ou em outro mundo.
Erraticidade [Erraticite ]: estado dos Espí ritos errantes, isto e , na o encarnados durante
os intervalos de suas diversas existe ncias corporais. A erraticidade na o e exatamente
um sinal absoluto de inferioridade para os Espí ritos. Ha Espí ritos errantes de todas as
classes, salvo da primeira ordem, de Espí ritos puros, que, na o tendo mais que se
submeter a encarnaça o, na o podem ser considerados como errantes. Os Espí ritos
errantes sa o felizes ou infelizes conforme o grau de sua depuraça o. E nesse estado que
o Espí rito, enta o despojado do ve u material do corpo, reconhece suas existe ncias
anteriores e as faltas que o afastam da perfeiça o e da felicidade infinita; e aí tambe m
que ele escolhe novas provaço es a fim de avançar mais rapidamente.
Escala espírita [E chelle spirite]: quadro das diversas ordens de Espí ritos, indicando os
graus que eles percorreram para chegar a perfeiça o. Ela conte m tre s ordens
principais: Espí ritos imperfeitos, bons Espí ritos e Espí ritos puros, subdivididas em
nove classes caracterí sticas para a progressa o dos sentimentos morais e as ideias
intelectuais.3
2 Farfadet às vezes é traduzido como diabrete, também como sinônimo de trasgo e lutin. — N. T.
3 Posteriormente, a partir da segunda edição de O Livro dos Espíritos (1860), Allan Kardec acrescentou
uma classe a essa subdivisão, totalizando então dez classes características de Espíritos. — N. T.
21 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Os pro prios Espí ritos nos ensinam que eles pertencem a diferentes categorias,
conforme o grau de sua depuraça o, mas nos dizem tambe m que essas categorias na o
constituem espe cies distintas, e que todos os Espí ritos sa o chamados a percorre -las
sucessivamente. (Veja: os desenvolvimentos relativos ao cara ter de cada classe de
Espí ritos no capí tulo especial.4)
Esfera [Sphe re]: palavra pela qual alguns Espí ritos designam os diferentes graus da
escala espí rita. Eles dizem que se atingiu a quinta ou sexta esfera, assim como outros
dizem no quinto e no sexto ce u. Da maneira como eles se expressam, poderí amos crer
que a Terra e um ponto central rodeado de esferas conce ntricas nas quais se cumprem
sucessivamente os diversos ní veis de perfeiça o; ha ate quem ainda fale da esfera de
fogo, da esfera das estrelas etc. Como as mais simples noço es de astronomia bastam
para mostrar o absurdo de tal teoria, ela so pode vir ou de uma falsa interpretaça o dos
termos ou de Espí ritos bastante atrasados ainda imbuí dos dos sistemas de Ptolomeu5
e de Tycho Brahe6. Se um homem que voce reputa como sa bio afirmar uma coisa
evidentemente absurda, enta o voce duvidara do conhecimento dele; a mesma coisa
deve ser com os Espí ritos; e pela experie ncia que aprendemos a conhece -los. Portanto,
essas expresso es sa o deturpadas, mesmo tomadas em sentido figurado, porque elas
podem induzir ao erro sobre a verdadeira significaça o pela qual devemos entender a
progressa o dos Espí ritos. (Veja: Reencarnação.)
Espírita [Spirite]: o que tem relaça o com o espiritismo.
Espiritismo [Spiritisme]: doutrina fundada sobre a crença na existe ncia dos Espí ritos e
suas comunicaço es com os homens.
Espiritista [Spiritiste]: aquele que segue a doutrina espí rita.
Espírito [Esprit] (do latim spiritus, derivado de spirare, soprar): no sentido especial da
doutrina espí rita, os Espíritos são os seres inteligentes da criação e que povoam o
Universo fora do mundo material.
A natureza í ntima dos Espí ritos e desconhecida por no s; eles mesmos na o a
podem definir — seja por ignora ncia, seja pela insuficie ncia da nossa linguagem.
Quanto a isso, no s somos como cegos de nascença perante a luz. Segundo o que eles
nos dizem, o Espí rito na o e material no sentido comum do termo, nem exatamente
4 Capítulo I: Escala Espírita, nesta obra. — N. T.
5 Cláudio Ptolomeu (90-168) foi um notável filósofo grego que se notabilizou pelos seus estudos no campo
da matemática, geografia e astronomia. — N. T.
6 Tycho Brahe (1546-1601), célebre astrônomo dinamarquês. — N. T.
22 – Allan Kardec
imaterial no sentido absoluto, pois o Espí rito e alguma coisa e a imaterialidade
absoluta seria o nada. O Espí rito, portanto, e formado de uma substa ncia, mas da qual
a mate ria grosseira que afeta nossos sentidos na o pode nos dar uma ideia. Pode-se
compara -lo a uma chama ou centelha cujo brilho varia conforme o grau de sua
depuraça o. Ele pode assumir todas as formas atrave s do perispí rito, do qual ele e
revestido. (Veja: Perispírito.)
Espírito elementar [Esprit e lementaire]: Espí rito considerado em si mesmo e sem o
seu perispí rito, ou seja, seu envolto rio semimaterial.
Espírito familiar [Esprit familier]: Espí rito que se liga a uma pessoa ou a uma famí lia
— seja para lhe proteger, se for bom, seja para lhe prejudicar, se for mau. O Espí rito
familiar na o precisa ser evocado, pois ele esta sempre presente e responde
instantaneamente ao chamado que lhe e feito. Frequentemente ele manifesta sua
presença por sinais sensí veis.
Espíritos batedores [Esprits frappeurs]: aqueles que revelam sua presença atrave s de
batidas. Eles pertencem a s classes inferiores.
Espiritualismo [Spiritualisme]: crença na existe ncia de uma alma espiritual, imaterial,
que conserva sua individualidade apo s a morte, abstraça o feita da crença nos
Espí ritos; e o oposto do materialismo. (Veja: Materialismo, Espiritismo.) E
espiritualista qualquer um que creia que em no s na o seja tudo mate ria, mas isso na o
quer dizer que ele admita a doutrina dos Espí ritos. Todo espiritista necessariamente
e espiritualista, pore m e possí vel ser espiritualista sem ser espiritista; ja o
materialista na o e num um nem o outro. Como sa o duas ideias essencialmente
distintas, faz-se necessa rio distingui-los por palavras diferentes, para evitar qualquer
equí voco. Ate para aqueles que consideram o espiritismo como uma ideia quime rica,
e preciso ainda lhe designar um voca bulo especial; isso e necessa rio tanto para as
ideias falsas quanto para as ideias verdadeiras, a fim de nos entendermos.
Estereotite [Ste re otite]
7 (do grego stéréos, so lido): qualidade das apariço es que
7 O vocábulo stéréotite não consta nos dicionários tradicionais e provavelmente é um termo criado por
Allan Kardec, como um adjetivo aplicável ao que é físico, materializado, capaz de ser tocado (tangível),
em oposição ao que é etéreo, sem uma forma corporal materializada o suficiente para ser tangível. A
inspiração para este neologismo pode ter sido a palavra stéréotypie (estereotipia), que é o nome dado a
um antigo processo de impressão gráfica a partir de uma chapa metálica (também chamada de clichê,
estereótipo e até estereotipia mesmo) que servia como uma espécie de carimbo para poder reproduzir
cópias daquilo que era moldado nesse chapa e que, portanto, solidificava ou materializava ideias (textos
e imagens). Como consequência, vertemos o termo francês para o nosso português igualmente usando
uma expressão especial: estereotite. — N. T.
23 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
adquirem as propriedades da mate ria resistente e tangí vel; diz-se em oposiça o a s
apariço es vaporosas e ete reas que sa o impalpa veis. A apariça o estereotite apresenta
temporariamente a vista e ao toque as propriedades de um corpo vivo.
Evocação [Evocation] (Veja: Invocação.)
Expiação [Expiation]: castigo que os Espí ritos sofrem em puniça o pelas faltas cometidas
durante a vida corporal. A expiaça o, como sofrimento moral, ocorre no estado errante;
como sofrimento fí sico, ela ocorre no estado corporal. As vicissitudes e as tormentas
da vida corporal sa o ao mesmo tempo provaço es para o futuro e uma expiaça o para o
passado.
Êxtase [Extase] (do grego ekstasis, transbormento do Espí rito; derivado de existêmi,
impressionar pela admiraça o): intensificaça o da emancipaça o da alma durante a vida
corporal, de que resulta a suspensa o momenta nea das faculdades perceptivas e
sensitivas dos o rga os. Nesse estado, a alma na o se prende mais ao corpo sena o por
laços fra geis, que ela procura romper; ela pertence mais ao mundo dos Espí ritos que
ela vislumbra do que ao mundo material.
O e xtase algumas vezes e natural e esponta neo; tambe m pode ser provocado
pela aça o magne tica, e, nesse caso, consiste num grau superior de sonambulismo.
Fadas [Fe es] (do latim fata): segundo a crença vulgar, as fadas sa o seres semimateriais
dotados de um poder sobre-humano; elas sa o boas ou ma s, protetoras ou malvadas;
podem intencionalmente se tornar visí veis e invisí veis, e assumem todos os tipos de
formas. Na Idade Me dia e nos povos modernos, as fadas sucederam a s divindades
subalternas dos antigos. Se extrairmos sua histo ria do maravilhoso que a imaginaça o
dos poetas e a crendice popular lhe empresta, nela no s encontraremos todas as
manifestaço es espí ritas das quais somos testemunhas e que sa o produzidas em todas
as e pocas: e incontestavelmente aos fatos desse ge nero que essa crença deve a sua
origem. Nas fadas encarregadas de presidir o nascimento de uma criança e lhe seguir
no curso da vida, reconhecemos sem esforço os Espí ritos ou ge nios familiares. Suas
inclinaço es mais ou menos boas, e que sa o sempre o reflexo das paixo es humanas, as
colocam naturalmente na categoria de Espí ritos inferiores ou pouco avançados. (Veja:
Politeísmo.)
Fatalidade [Fatalite ] (do latim fatalitas, derivado de fatum, destino): destino inevita vel.
Doutrina que supo e que todos os eventos da vida — e por extensa o todos os nossos
atos — sejam previamente determinados e submetidos a uma lei da qual no s na o
podemos escapar. Existem dois tipos de fatalidade: uma proveniente das causas
24 – Allan Kardec
exteriores que nos atingem e reagem sobre no s, e que podemos chamar de reativa,
externa, fatalidade eventual; a outra, que tem sua fonte em no s mesmos e determina
todas as nossas aço es: e a fatalidade pessoal. A fatalidade, no sentido absoluto do
termo, faz do homem uma ma quina, sem iniciativa nem livre-arbí trio, e, por
conseguinte, sem responsabilidade: e a negaça o de toda moral.
Segundo a doutrina espí rita, o Espí rito, escolhendo sua nova existe ncia e o
ge nero de provaça o a que deve se submeter, faz disso um ato de liberdade. Os eventos
da vida sa o a conseque ncia dessa escolha e esta o em relacionados com a posiça o
social da existe ncia; se o Espí rito deve renascer numa condiça o servil, o ambiente no
qual ele se encontrara acarretara acontecimentos totalmente diferentes do que se ele
devesse ser rico e poderoso; contudo, qualquer que seja essa condiça o, ele conserva
seu livre-arbí trio em todos os atos de sua vontade, e ele nunca e fatalmente levado a
fazer isto ou aquilo, nem a sofrer esse ou aquele acidente. Pelo tipo de luta que
escolheu, ele pode ser levado a determinados atos ou a encontrar determinados
obsta culos; mas na o se diz que isso acontecera inevitavelmente e que, alia s, ele na o o
possa evitar pela sua prude ncia e pela sua vontade; e para isso que Deus lhe deu o
senso crí tico. E assim para com um homem que, para alcançar um objetivo, tivesse
tre s caminhos a seguir: pela montanha, pela planí cie ou pelo mar. Na primeira opça o
ele tem a chance de encontrar pedras e precipí cios; na segunda, pa ntanos; na terceira,
enfrentar tempestades; mas na o se diz que ele se chocara com uma pedra, que
afundara nos pa ntanos ou que naufragara num lugar e na o no outro. A pro pria escolha
da rota nada tem de fatal no sentido absoluto da palavra; por instinto, o homem toma
o caminho pelo qual ele devera encontrar a provaça o escolhida; se tiver que lutar
contra as ondas, seu instinto na o o levara a escolher a rota da montanha.
Dependendo do ge nero das provas escolhido pelo Espí rito, o homem fica
exposto a certas vicissitudes; por causa dessas mesmas vicissitudes, ele e submetido
a perigos dos quais cabe a ele escapar. Aquele que comete um crime na o foi fatalmente
levado a comete -lo; ele escolheu uma vida de desafios que pode incita -lo ao crime;
caso ceda a tentaça o, tera sido por fraqueza de sua vontade. Assim, o livre-arbí trio
existe para o Espí rito no estado errante na escolha que faz quanto a s provas a que se
submete, e no estado de encarnaça o nos atos da vida corporal. De fatal so ha o instante
da morte, pois ate o ge nero da morte tambe m e uma seque ncia da natureza das provas
escolhidas.
Este e o resumo da doutrina dos Espí ritos sobre a fatalidade.
Feiticeiros [Sorciers] (do latim sors, sortis, feitiço): refere-se primeiramente a indiví duos
encarregados de lançar feitiços, e, por extensa o, a todos aqueles a quem se atribui um
25 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
poder sobrenatural. Os feno menos estranhos que se produzem sob a influe ncia de
determinados me diuns provam que o poder atribuí do aos feiticeiros se baseia numa
realidade, mas da qual o charlatanismo abusou, assim como explora tudo. Se no nosso
se culo esclarecido ainda ha pessoas que atribuem esses feno menos ao demo nio, com
mais forte raza o deviam acreditar nisso nos tempos de ignora ncia; o resultou foi que
os indiví duos que possuí am — mesmo sem saber — algumas das faculdades dos
me diuns atuais eram condenadas ao fogo.
Fluídico [Fluidique]: oposto de so lido; qualificaça o dada aos Espí ritos por alguns
escritores para caracterizar sua natureza ete rea; diz-se: Espíritos fluídicos.
Acreditamos que essa expressa o seja impropria; ale m disso, ela representa um tipo
de pleonasmo quase como se disse ssemos ar gasoso. A palavra Espírito diz tudo; ela
conte m em si mesma sua pro pria definiça o, revelando necessariamente a ideia de uma
coisa incorporal; um Espí rito que na o fosse fluí dico na o seria um Espí rito. Esse termo
tem outro inconveniente, que e de assemelhar a natureza dos Espí ritos aos nossos
fluidos materiais; lembra muito a ideia de laborato rio.
Fogo eterno [Feu e ternel]: a ideia do fogo eterno, como castigo, remonta a mais alta
antiguidade e vem da crença dos antigos que colocavam os Infernos nas entranhas da
Terra, cujo fogo central lhes era revelado pelos feno menos geolo gicos. Quando o
homem po de adquirir noço es mais elevadas sobre a natureza da alma, ele
compreendeu que um ser imaterial na o podia ser afetado por um fogo material; mas
nem por isso o fogo deixou de ser um emblema do suplí cio mais cruel, e na o
encontramos uma figura mais ene rgica para retratar os sofrimentos morais da alma;
e nesse sentido que a alta teologia o entende hoje, e e nessa concepça o que tambe m
se diz: arder de amor, ser consumido pelo ciu me, pela ambiça o etc.
Gênio [Ge nie] (do latim genius, formado do grego géinô, engendrar, produzir): e nesse
sentido que se diz que o homem capaz de criar ou de inventar coisas extraordina rias
que e um homem de ge nio. Na linguagem espí rita, gênio e sino nimo de Espírito.
Dizemos sem fazer diferença: Espí rito familiar e ge nio familiar; bom e mau Espí rito,
bom e mau ge nio. A palavra Espí rito conte m um sentido mais vago e menos
circunscrito; o ge nio e um tipo de personificaça o do Espí rito; no s o figuramos sob uma
forma determinada mais ou menos parecida com a forma humana, mas vaporosa e
impalpa vel, a s vezes visí vel e a s vezes invisí vel. Os ge nios sa o os Espí ritos nas suas
relaço es com os homens, agindo sobre eles atrave s de um poder oculto superior.
Gênio familiar (Veja: Espírito familiar).
Gnomos [Gnomes] (do grego gnômon, conhecedor, ha bil, derivado de gnosko, conhecer):
26 – Allan Kardec
ge nios inteligentes que supostamente habitam o interior da Terra. Pelas qualidades
que lhes sa o atribuí das, eles pertencem a ordem dos Espí ritos imperfeitos e a classe
dos Espí ritos levianos.
Hamadríade [Hamadryade] (do grego ama, semelhante, e drûs, carvalho): ninfa dos
bosques, segundo a mitologia paga . As drí ades eram ninfas imortais que cuidavam das
a rvores em geral, e que podiam vagar em liberdade ao redor daqueles que lhes eram
particularmente consagrados. Ja a hamadrí ade na o era imortal; ela nascia e morria
com a a rvore cuja guarda lhe era confiada e que ela jamais podia deixar. Hoje na o ha
du vidas de que a ideia das drí ades e das hamadrí ades teve sua origem nas
manifestaço es ana logas a quelas que testemunhamos. Os antigos, que poetizavam
tudo, divinizaram as intelige ncias ocultas que se manifestam na pro pria substa ncia
dos corpos; para no s, elas na o sa o mais do que Espí ritos batedores.
Ideias inatas [Ide es inne es]: ideias ou conhecimentos na o adquiridos e que parece que
trazemos ao nascer. Ha muito tempo se discute sobre as ideias inatas, das quais muitos
filo sofos combatem a existe ncia, supondo que todas sa o adquiridas. Se fosse assim,
como explicar certas predisposiço es naturais que muitas vezes se revelam desde a
mais tenra idade e com exclusa o de todo ensinamento? Os feno menos espí ritas
lançam uma grande luz sobre essa questa o. Hoje a experie ncia na o deixa nenhuma
du vida sobre esse tipo de ideias que encontram sua explicaça o na sucessa o das
existe ncias. Os conhecimentos adquiridos pelo Espí rito nas existe ncias anteriores se
refletem nas existe ncias posteriores pelo que nomeamos de ideias inatas.
Iluminado [Illumine ]: qualificaça o dada a certos indiví duos que afirmam ser
esclarecidos sobre Deus de uma maneira particular e que geralmente sa o
considerados como visiona rios ou ce rebros transtornados; diz-se: Seita dos
iluminados. Essa denominaça o tem sido aplicada a todos aqueles que recebem
comunicaço es inteligentes e esponta neas da parte dos Espí ritos. Se dentre eles havia
homens superexcitados por uma imaginaça o exaltada, hoje sabemos a parte que deve
ser dada a realidade.
Inferno [Enfer] (do latim inferna, derivado de infernus, inferior, que esta abaixo, embaixo;
subentendido locus, lugar: lugar inferior): assim nomeado porque os antigos
acreditavam que ele estivesse localizado nas entranhas da Terra. Raramente e dito no
plural, exceto na linguagem poe tica ou falando dos lugares subterra neos para onde —
segundo os paga os — as almas iam depois da morte. Os infernos consistiam em duas
partes: os Campos Elísios, morada encantada dos homens de bem, e o Tártaro, lugar
onde os í mpios sofriam o castigo de seus crimes pelo fogo e pelas torturas eternas.
27 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
A crença referente a posiça o subterra nea dos Infernos sobreviveu ao
paganismo. Segundo a Igreja cato lica: Jesus desceu aos Infernos onde as almas dos
justos esperavam sua vinda nos Limbos. As almas dos í mpios foram lançadas nos
Infernos. A significaça o dessa palavra atualmente e restrita ao recinto dos re probos;
mas o progresso das cie ncias geolo gicas e astrono micas ja esclareceu a estrutura do
globo terrestre e sua verdadeira posiça o no espaço; o Inferno foi exilado do seu seio,
e hoje nenhum lugar especí fico lhe e assinalado.
No estado de ignora ncia, o homem e incapaz de compreender as abstraço es e
de abranger as generalidades; ele na o concebe nada que na o esteja localizado e
circunscrito; ele materializa as coisas imateriais e rebaixa ate mesmo a majestade
divina. Todavia, a medida que o progresso da cie ncia positiva vem lhe esclarecer, ele
reconhece seu erro; suas ideias — mesquinhas e estreitas que eram — crescem, e o
horizonte do infinito se desenrola diante dos seus olhos. E assim que, conforme a
doutrina espí rita, os sofrimentos do ale m-tu mulo — que so podem ser morais — sa o
inerentes a natureza impura e imperfeita dos Espí ritos inferiores; na o ha inferno
localizado no sentido comum ligado a essa palavra; cada qual o carrega em si mesmo
pelos sofrimentos que suporta e que na o sa o menos pungentes por na o serem fí sicos;
o Inferno esta em toda parte e onde ha Espí ritos imperfeitos. (Veja: Paraíso, Fogo
eterno, Penas eternas.)
Instinto [Instinct]: espe cie de intelige ncia rudimentar que dirige os seres vivos nas suas
aço es, a despeito de sua vontade e no interesse de sua conservaça o. O instinto se torna
intelige ncia quando ha uma deliberaça o. Por instinto no s agimos sem raciocinar; pela
intelige ncia no s raciocinamos antes de agir. No homem, muitas vezes, confundimos as
ideias instintivas com as ideias intuitivas. Estas u ltimas sa o aquelas que o homem
absorveu, tanto no estado de espí rito quanto nas existe ncias anteriores, e das quais
ele conserva uma vaga lembrança.8
Intuição [Intuition] (Veja: Instinto, Ideias inatas).
8 Posteriormente, no livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (cap. III, desde
o item 11), Allan Kardec irá considerar outras teorias sobre a natureza do instinto, sem fechar a questão;
uma dessas hipóteses — a qual ele considerou concordante com o Espiritismo no tocante às relações do
mundo espiritual com o mundo corpóreo — traz a ideia de que o instinto não seria um atributo da alma
individualizada; ou seja, não pertenceria propriamente ao ser vivo, mas seria um efeito de uma ação
externa, outra inteligência (Espíritos protetores) a zelar pelo indivíduo ora incapacitado de se governar.
A partir disso, evidencia-se que essa inteligência seja antes de tudo a providência divina cuidando de suas
criaturas através do trabalho dos seus ministros, os Espíritos protetores, anjos guardiões e até os
familiares e amigos encarnados, pelo que ele vai dizer, por exemplo: “Por intermédio da mãe, o próprio
Deus vela pelas suas criaturas que nascem.” — N. T.
28 – Allan Kardec
Inteligência [Intelligence]: faculdade de conceber, de compreender e de raciocinar. Seria
injusto negar aos animais algum tipo de intelige ncia e de crer que eles apenas sigam
maquinalmente o impulso cego do instinto. A observaça o demonstra que em muitos
casos eles agem por conta pro pria e conforme as circunsta ncias; mas essa intelige ncia
— por mais admira vel que seja — esta sempre limitada a satisfaça o das necessidades
materiais, enquanto a do homem lhe permite elevar-se acima da condiça o da
humanidade. A linha de demarcaça o entre os animais e o homem e traçada pelo
conhecimento que este u ltimo tem sobre o Ser Supremo. (Veja: Instinto.)
Invisível [Invisible]: nome pelo qual certas pessoas designem os Espí ritos nas suas
manifestaço es. Essa denominaça o na o nos parece apropriada, primeiro porque, se a
invisibilidade e para no s o estado normal dos Espí ritos, sabemos que ela na o e
absoluta, pois eles podem nos aparecer; em segundo lugar, essa qualificaça o nada tem
que caracterize essencialmente os Espí ritos; ela e aplicada igualmente a todos os
corpos inertes na o alcançados pelo sentido da visa o. A palavra Espírito tem em si
mesma uma significaça o que revela a ideia de um ser inteligente e incorpo reo.
Notemos ainda que, falando de um determinado Espí rito — por exemplo, o de
Fe nelon9 — no s costumamos dizer: Foi o Espí rito de Fe nelon que disse tal coisa, e na o
o invisí vel de Fe nelon. E sempre prejudicial para a clareza e para a pureza da
linguagem desviar as palavras do seu pro prio significado.
Invocação [Invocation] (do latim in, em, e vocare, chamar) — Evocação [Evocation] (do
latim vocare, e ou ex, de, de fora): essas duas palavras na o sa o exatamente sino nimos
perfeitos, embora tenham a mesma raiz, vocare: chamar. E um erro lhes empregar uma
no lugar da outra: “Evocar significa chamar, fazer vir para si, fazer aparecer por
cerimonias ma gicas, encantamentos. Evocar almas, Espí ritos, sombras. Os
necromantes pretendiam evocar as almas dos mortos. (Academia)” Entre os antigos,
evocar era tirar as almas dos Infernos para traze -las para si.
Invocar e chamar em si, ou para o seu auxí lio, uma força superior ou
sobrenatural. No s invocamos Deus atrave s da oraça o. Na religia o cato lica, invoca-se
os Santos. Toda prece e uma invocaça o. A invocaça o esta no pensamento; a evocaça o
e um ato. Na invocaça o o ser ao qual nos endereçamos nos ouve; na evocaça o, ele sai
do lugar onde estava para vir nos manifestar a presença dele. A invocaça o so e
endereçada aos seres que supomos bastante elevadas para nos ajudar; podemos
evocar tanto os Espí ritos inferiores quanto os Espí ritos superiores. “Moise s proibiu,
9 Menção a François Fénelon (1651-1715), famoso teólogo, poeta e escritor francês que, então
desencarnado, foi um dos Espíritos que muito contribuíram com a obra espírita de Allan Kardec. — N. T.
29 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
sob pena de morte, a evocaça o das almas dos mortos — pra tica sacrí lega que era usual
entre os cananeus. O capí tulo 22 do livro II Reis fala da evocaça o da sombra de Samuel
pela pitonisa.”
Como podemos ver, a arte das evocaço es remonta a mais alta antiguidade; no s
a encontramos em todas as e pocas e em todos os povos. Outrora a evocaça o era
acompanhada de pra ticas mí sticas, seja porque eram consideradas necessa rias, seja
para se dar o prestí gio de um poder superior — o que era mais prova vel. Hoje sabemos
que o poder de evocar na o e um privile gio, que pertence a todo mundo e que todas as
cerimo nias ma gicas e cabalí sticas na o passavam de va o aparato.
Segundo os antigos, todas as almas evocadas ou eram errantes ou vinham dos
Infernos, que incluí am — como no s sabemos — os Campos Elí sios assim tambe m
como o Ta rtaro; na o lhe havia nenhuma ma interpretaça o. Na linguagem moderna, o
significado do termo inferno tendo sido restrita a morada dos re probos, ocorreu que,
para certas pessoas, a ideia de evocaça o estava associada a de maus Espí ritos, ou
demo nios; mas essa crença cai a medida que se adquire um conhecimento mais
aprofundado dos fatos; com isso, ela e a menos difundida entre todos aqueles que
creem na realidade das manifestaço es espí ritas; ela na o pode prevalecer diante da
experie ncia e de um raciocí nio isento de preconceitos.
Lares [Lares] (Veja: Manes, Penates.)
Livre-arbítrio [Libre arbitre]: liberdade moral do homem; faculdade que ele tem de se
guiar conforme sua vontade na realizaça o dos seus atos. Os Espí ritos nos ensinam que
a alteraça o das faculdades mentais, por uma causa acidental ou natural, e o u nico caso
em que o homem seja privado de seu livre-arbí trio; fora isso ele e o senhor de si
mesmo para agir ou na o agir. Ele desfruta dessa liberdade no estado de Espí rito, e e
em virtude dessa faculdade que ele escolhe livremente a existe ncia e as provas que
ele acredita que sejam apropriadas para o seu desenvolvimento; conserva essa
liberdade no estado corporal a fim de poder lutar contra essas mesmas provas. Os
Espí ritos que ensinam essa doutrina na o podem ser maus Espí ritos. (Veja:
Fatalidade.)
Lucidez [Lucidite ]: clarividência, faculdade de ver sem o auxí lio dos o rga os da vista. E
uma faculdade inerente a pro pria natureza da alma ou do Espí rito, e que reside em
todo o seu ser; eis por que, em todos os casos em que haja emancipaça o da alma, o
homem tem percepço es independentes dos sentidos. No estado corporal normal, a
faculdade de ver e limitada pelos o rga os materiais; livre deste obsta culo, ela na o fica
circunscrita; ela se estende por toda parte onde a alma exerce sua aça o; tal e a causa
30 – Allan Kardec
da visa o a dista ncia de que alguns sona mbulos dispo em. Elas se veem do mesmo local
que observam, mesmo que seja a milhares de quilo metros, porque, se o corpo na o esta
la , a alma de fato esta . Pode-se dizer enta o que o sona mbulo ve pela luz da alma.
A palavra clarividência e mais popular; diz-se lucidez mais particularmente da
clarivide ncia sonambu lica. Um sona mbulo e mais ou menos lu cido, conforme a
emancipaça o da alma seja mais ou menos completa.
Lutin [Lutin]: da antiga palavra luicter, lutar, segundo alguns, da qual derivam
sucessivamente luicton, luiton, luits, e finalmente lutin. Conforme outros, luicton seria
substituí do por nuicton, derivado de nuict, noite, pois segundo a crença popular os
lutins ve m principalmente a noite para atormentar os vivos.
Podemos entender por essa mesma denominaça o alguns Espí ritos ligeiros, mais
travessos e traquinos do que malvados; eles se comprazem em provocar pequenos
aborrecimentos e pequenas contrariedades; sa o ignorantes, mentirosos e
zombadores; sa o as crianças malinas do mundo espí rita. Sua linguagem muitas vezes
e gozadora, mordaz e satí rica, mas raramente grosseira; eles se divertem com
brincadeiras e simpatizam com as pessoas de um cara ter brincalha o; seria perder
tempo e se expor a ridí culos enganos dirigir questo es se rias a eles.10
Magia, Mago [Magie, Magicien] (do grego magos, sa bio, instruí do, formado em mageia,
conhecimento profundo da natureza, de que derivou mage, mago, sacerdote, erudito
e filo sofo entre os antigos persas): A magia, no original, era a cie ncia dos sa bios; todos
aqueles que conheciam a astrologia, que se orgulhavam de predizer o futuro, que
faziam coisas extraordina rias e incompreensí veis para as pessoas comuns eram
magos ou sa bios que, mais tarde, chamarí amos de magos; mas todos os feno menos
que no s reproduzimos hoje pelo magnetismo, pelo sonambulismo e pelo espiritismo
provam que a magia na o era uma arte puramente quime rica, e que entre muitos
absurdos certamente havia coisas reais. A popularizaça o desses feno menos tem por
efeito destruir o prestí gio daqueles que outrora os operavam sob o ve u do segredo, e
abusavam da credulidade ao atribuir para si mesmo um pretenso poder sobrenatural.
Graças a essa popularizaça o, hoje no s sabemos que na o ha nada de sobrenatural neste
mundo, e que determinadas coisas so parecem derrogar as leis da natureza porque
na o conhecemos a sua causa.
10 Segundo a crença popular da cultura de vários povos da Europa, o lutin é um tipo de demônio caseiro
que supostamente provoca fenômenos físicos (derruba objetos, móveis, louças, vidros, faz ruídos e outras
diabruras) para se divertir com o pavor que causam nas pessoas. No nosso português, eles são chamados
também de trasgos, duende, diabretes, fradinho da mão furada etc. — N. T.
31 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Magnetismo animal [Magne tisme animal] (do grego e do latim magnes, í ma ): assim
nomeado por analogia com o magnetismo mineral. Tendo a experie ncia demonstrado
que essa analogia na o existe, ou que e apenas aparente, essa denominaça o na o e exata,
mas como ela esta consagrada pelo uso universal, e que inclusive o epí teto que lhe foi
acrescentado na o permite o equí voco, mudar esse nome seria mais inconveniente do
que u til. Algumas pessoas o substituem pela palavra mesmerismo,11 mas ate agora
essa troca ainda na o prevaleceu.
O magnetismo animal pode ser assim definido: aça o recí proca de dois seres
vivos pelo interme dio de um agente especial chamado fluido magnético.
Magnetizador, Magnetista [Magne tiseur, Magne tiste]: esta u ltima palavra e
empregada por algumas pessoas para designar os adeptos do magnetismo, aqueles
que acreditam em tais efeitos. O magnetizador e o praticante, aquele que exerce; o
magnetista e o teo rico. E possí vel ser magnetista sem ser magnetizador, mas na o se
pode ser magnetizador sem ser magnetista. Essa distinça o nos parece u til e lo gica.
Manes [Ma nes] (do latim manere, permanecer, segundo uns; de manes, manium, derivado
de manus, bom, segundo outros): na mitologia romana e etrusca, os manes eram as
almas ou as sombras dos mortos. Os antigos tinham um grande respeito pelos manes
de seus ancestrais, a quem eles acreditavam agradar atrave s de sacrifí cios. Eles os
imaginam sob sua forma humana, pore m vaporosa e invisí vel, vagando ao redor de
seus tu mulos ou de suas reside ncias, visitando seus familiares. Quem na o
reconheceria nesses manes os Espí ritos sob o envolto rio semimaterial do perispí rito
e que eles pro prios nos dizem que esta o entre no s sob a forma que eles tinham quando
vivos? (Veja: Penates.)
Manifestação [Manifestation]: ato pelo qual um Espí rito revela sua presença. As
manifestaço es sa o:
Ocultas: quando elas na o te m nada de ostensividade e que o Espí rito se limite
a agir sobre o pensamento;
Patentes: quando elas sa o captadas pelos sentidos;
Físicas: quando elas se traduzem por feno menos materiais, tais como barulhos,
movimento e deslocamento de objetos;
Inteligentes: quando elas revelam uma ideia (Veja: Comunicação.);
Espontâneas: quando elas sa o independentes da vontade e ocorrem sem que
nenhum Espí rito tenha sido chamado;
11 Mesmerismo: referência a Franz Anton Mesmer (1734-1815), célebre médico suábio que desenvolveu
a teoria do Magnetismo Animal. — N. T.
32 – Allan Kardec
Provocadas: quando elas sa o o efeito da vontade, do desejo ou de uma evocaça o
especí fica;
Aparentes: quando o Espí rito se apresenta a visa o (Veja: Aparição.)
Materialismo [Mate rialisme]: teoria daqueles que pensam que tudo seja mate ria no
homem, e que por isso nada sobreviva nele apo s a destruiça o do corpo. Parece-nos
u til refutar essa opinia o, que alia s e particular a alguns indiví duos e em parte alguma
e estabelecida como uma doutrina. Se e possí vel demonstrar a existe ncia da alma pelo
raciocí nio, as manifestaço es espí ritas sa o a prova patente disso; por elas no s vemos
de alguma forma todas as peripe cias da vida do ale m-tu mulo. O materialismo — que
so se baseia pela negaça o — na o pode resistir contra a evide ncia dos fatos; e por isso
que a doutrina espí rita muitas vezes triunfou ate mesmo entre aqueles que tinham
teimado contra todos os outros argumentos. A popularizaça o do espiritismo e o meio
mais eficaz para extirpar essa chaga das sociedades civilizadas.
Médiuns [Me diums] (do latim medium, meio, intermedia rio): pessoas acessí veis a
influe ncia dos Espí ritos, e mais ou menos dotadas da faculdade de receber e de
transmitir suas comunicaço es. Para os Espí ritos, o me dium e um intermedia rio; e um
agente, um instrumento relativamente co modo, conforme a natureza ou o grau da
faculdade mediatriz. Esta faculdade depende de uma disposiça o orga nica especial
suscetí vel de desenvolvimento. Existem muitas variedades de me diuns. De acordo
com sua aptida o particular para esse ou aquele modo de transmissa o, ou esse ou
aquele ge nero de comunicaça o.
Médiuns de influência física [Me diums a influence physique]: aqueles que tem o
poder de provocar manifestaço es ostensivas. Eles compreendem as seguintes
variedades:
Médiuns motores: aqueles que provocam o movimento e o deslocamento dos
objetos;
Médiuns tiptólogos: aqueles que provocam barulhos e batidas;
Médiuns de aparição:12 aqueles que provocam apariço es (Veja: Aparição.);
Entre os me diuns de influe ncia fí sica, distinguimos:
Médiuns naturais: aqueles que produzem feno menos esponta neos e sem
12 A forma literal do texto original (Médiums appariteurs) sugere como tradução algo semelhante a
“Médiuns aparecedores” ou “Médiuns aparecentes”, no sentido de que os médiuns fazem aparecer
Espíritos. Entretanto, preferimos traduzir esta especificação mediúnica pela locução “Médiuns de
aparição”, por nos parecer uma forma mais prática, e que condiz perfeitamente com a definição que Allan
Kardec iria adotar posteriormente, em O Livro dos Médiuns: Médiums à apparitions, ou seja, “Médiuns de
aparições”. — N. T.
33 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
nenhuma participaça o de sua vontade;
Médiuns facultativos: aqueles que tem o poder de provocar os feno menos pelo
ato da vontade.
Médiuns de influências morais [Me diums a influences morales]: aqueles que sa o
principalmente mais propensos a receber e a transmitir comunicaço es inteligentes;
no s os distinguimos conforme sua aptida o especial:
Médiuns escreventes ou psicógrafos: aqueles que te m a faculdade de escrever
propriamente pela influe ncia dos Espí ritos (Veja: Psicografia);
Médiuns pneumatógrafos: aqueles que tem a faculdade de obter a escrita
direta dos Espí ritos (Veja: Pneumatografia);
Médiuns desenhistas: os que desenham sob a influe ncia dos Espí ritos;
Médiuns musicistas: aqueles que executam, compo em ou escrevem mu sica sob
a influe ncia dos Espí ritos;
Médiuns falantes: eles transmitem pela palavra o que os me diuns escreventes
transmitem pela escrita;
Médiuns comunicantes:13 pessoas que tem o poder de desenvolver nos outros,
por sua vontade, a faculdade da escrita, que elas mesmas sejam ou na o me diuns
escreventes;
Médiuns inspirados: aqueles que, tanto no estado normal quanto no estado de
e xtase, recebem pelo pensamento comunicaço es ocultas, diferentes das suas ideias
originais;
Médiuns de pressentimentos: pessoas que, em certas circunsta ncias, te m uma
vaga intuiça o das coisas futuras;
Médiuns videntes: pessoas que dispo em da faculdade da segunda vista, ou a de
ver os Espí ritos (Veja: Vista);
Médiuns sensitivos ou impressionáveis: pessoas capazes de sentir a presença
dos Espí ritos por uma vaga impressa o, da qual elas na o podem dar conta. Essa
variedade na o tem uma caracterí stica bem traçada; todos os me diuns sa o
necessariamente impressiona veis; a impressionabilidade e , portanto, uma qualidade
mais geral do que especí fica; e a faculdade rudimentar indispensa vel para o
desenvolvimento de todas as outras; ela difere da impressionabilidade puramente
fí sica e nervosa com a qual na o pode ser confundida.
13 Ainda nesta obra, tanto no Quadro Sinóptico quanto no capítulo V (ao discorrer sobres os Médiuns
escreventes ou psicógrafos) o autor vai se referir a esta categoria como “médiuns formadores”. Ao revisar
a classificação dos tipos de mediunidade em O Livro dos Médiuns, o autor vai renomear esta
especialidade para “Médiuns excitadores” (Médiums excitateurs). — N. T.
34 – Allan Kardec
Nota — Algumas pessoas dizem no plural mídia, como dizem errata. Na o vemos
nenhuma vantagem em multiplicar sem necessidade as exceço es ja ta o numerosas da
nossa lí ngua. Todos os grama ticos hoje esta o de acordo em dar a maioria das palavras
estrangeiras usadas na lí ngua atual o sinal france s do plural. Alia s, va rios voca bulos
com a terminaça o latina esta o nesse caso; diz-se: muséums, factums, pensums,
mémorandums etc.; enta o por que na o dirí amos médiuns? Dizer mídia seria um tipo
de artificialidade pedante.
Metempsicose [Me tempsychose] (do grego meta, mudança; en, em; e psukê, alma):
transmigraça o da alma de um corpo para outro. “O dogma da metempsicose e de
origem indiana. Da I ndia, essa crença passou para o Egito, de onde mais tarde
Pita goras importa para a Gre cia. Os discí pulos desse filo sofo ensinam que o Espí rito,
quando liberto das amarras do corpo, vai ao impe rio dos mortos para esperar, num
estado intermedia rio de uma duraça o mais ou menos longa, para depois animar
outros corpos — de homens ou de animais — ate que se complete o tempo de sua
purificaça o e do seu retorno a fonte da vida.” — O dogma da metempsicose, como se
ve , e baseado na individualidade e imortalidade da alma; nele encontramos a doutrina
dos Espí ritos quanto a reencarnaça o; esse estado intermedia rio de uma duraça o mais
ou menos longa entre as diversas existe ncias na o e outra coisa sena o o estado errante
no qual se encontram os Espí ritos entre duas encarnaço es. Pore m, entre a
metempsicose indiana e a doutrina da reencarnaça o, tal como ela nos e ensinada hoje,
ha uma diferença capital: primeiro que a metempsicose admite a transmigraça o da
alma para o corpo dos animais — o que seria uma degradaça o; em segundo lugar, que
essa transmigraça o so se opera na Terra. Os Espí ritos, ao contra rio, dizem que a
reencarnaça o e um progresso incessante, que o homem e uma criaça o a parte da qual
a alma na o tem nada em comum com o princí pio vital dos animais, que as va rias
existe ncias podem se realizar tanto na Terra como — por uma lei progressiva — num
mundo de uma ordem superior, e isso, como disse Pita goras, “ate que se complete o
tempo da purificaça o”.
Mitologia [Mythologie] (do grego muthos, fa bula, e logos, discurso): histo ria fabulosa das
divindades paga s. Entende-se tambe m sob esse nome a histo ria de todos os seres
extra-humanos que, sob diversas denominaço es, sucederam aos deuses paga os na
Idade Me dia; e assim que temos mitologia escandinava, teuto nica, ce ltica, escocesa,
irlandesa etc.
Morte [Mort]: aniquilamento das forças vitais do corpo pelo esgotamento dos o rga os. O
corpo sendo privado do princí pio da vida orga nica, a alma se desprende dele e entra
35 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
no mundo dos Espí ritos.
Mundo corporal [Monde corporel]: conjunto de seres inteligentes que te m um corpo
material.
Mundo espírita ou Mundo dos Espíritos [Monde spirite ou Monde des Esprits]:
conjunto de seres inteligentes despidos de seu envolto rio corporal. O mundo espí rita
e o mundo normal, primordial, preexistente e sobrevivente a tudo. O estado corporal
na o e — para os Espí ritos — mais do que transito rio e passageiro. Eles mudam de
envolto rio como no s mudamos de roupa; eles largam o envolto rio que esta gasto,
como no s largamos uma roupa velha.
Necromancia [Ne cromancie] (do grego nekros, morto, e mantéia, adivinhaça o): arte de
evocar as almas dos mortos para se obter revelaça o atrave s delas. Por extensa o, essa
palavra foi aplicada a todos os meios de adivinhaça o, e e qualificado de necromante
qualquer um que siga a profissa o de dizer o futuro. Sem du vidas isso se deve ao fato
da necromancia — na verdadeira acepça o do termo — deve ter sido um dos primeiros
meios empregados nesse sentido; em segunda lugar que, conforme a crença comum,
as almas dos mortos deveriam ser os principais agentes nos outros meios de
adivinhaça o, tal como a quiromancia, adivinhaça o pela leitura da ma o, a
cartomancia etc. O abuso e o charlatanismo desacreditaram a necromancia, assim
como a magia.
Noctâmbulo, Noctambulismo [Noctambule, Noctambulisme] (do latim nox, noctis,
noite, e ambulare, caminhar, passear): aquele que anda ou vaga durante a noite
enquanto dorme; sino nimo de sonambulismo. Este u ltimo termo e preferí vel, ja que
noctâmbulo, noctambulismo na o implicam de forma alguma a ideia de sono.
Oráculo [Oracle] (do latim os, oris, boca): conforme as crenças paga s, resposta dos deuses
a s questo es dirigidas a eles; assim nomeado porque as respostas geralmente eram
transmitidas pela boca das Pitonisas (Vejas: Pitonisas). Por extensa o, dizia-se
oráculo ao mesmo tempo para a resposta, para a pessoa que o pronunciava, assim
como para os diversos meios empregados para conhecer o futuro. Todo feno meno
extraordina rio, pro prio a impressionar a imaginaça o, era considerado a expressa o da
vontade dos deuses e se tornava um ora culo. Os sacerdotes paga os — que na o
perdiam a oportunidade de explorar a credulidade — se faziam de inte rpretes dos
deuses e solenemente dedicavam a esse ofí cio os templos para onde os fie is vinham
trazer suas oferendas, na quime rica esperança de conhecer o futuro. A crença nos
ora culos evidentemente tem a sua origem nas comunicaço es espí ritas, que o
36 – Allan Kardec
charlatanismo, a gana ncia e o amor pela dominaça o cercaram de prestí gio, e que hoje
no s vemos em toda a sua simplicidade.
Paraíso [Paradis]: morada dos bem-aventurados. Os antigos o colocaram na parte dos
Infernos chamada Campos Elí seos (Veja: Inferno); ja os povos modernos o colocaram
nas regio es elevadas do espaço. Esta palavra e sino nimo de céu, tomado no mesmo
sentido, com a diferença que o voca bulo céu se refere a uma ideia de beatitude infinita,
enquanto a de paraíso e mais circunscrita e lembra um pouco mais os gozos
materiais. Diz-se tambe m subir ao ce u, descer ao inferno. Essas opinio es sa o baseadas
nessa crença primitiva, fruto da ignora ncia, de que o Universo fosse formado de
esferas conce ntricas das quais a Terra ocupasse o centro; foi nessas esferas chamadas
de céus que colocaram a morada dos justos; daí a expressa o quinto e sexto ce u, para
designar os diversos graus de beatitude. Mas desde enta o a cie ncia tem colocado seu
olhar investigador ate as profundezes ete reas; ela nos mostra o espaço universal sem
limites, pontilhado de um nu mero infinito de globos, entres os quais circula o nosso,
o qual na o esta assinalada nenhum lugar de destaque, e sem que haja para ele nem
alto nem baixo. O erudito — vendo em toda parte a infinidade do espaço e os mundos
inconta veis, la onde lhe haviam indicado o ce u, e so encontrando nas entranhas da
Terra, em vez do lugar do Inferno, as camadas geolo gicas sobre as quais sua formaça o
esta escrita em caracteres irrecusa veis — enta o se po s a duvidar do Ce u e do Inferno,
e a partir daí ate a du vida absoluta na o houve mais do que um passo.
A doutrina ensinada pelos Espí ritos superiores esta de acordo com a cie ncia; ela
na o tem nada que fira a raza o e que esteja em contradiça o com os conhecimentos
exatos. Ela nos mostra a morada dos Bons, na o num lugar recluso ou nas supostas
esferas de que a ignora ncia tinha rodeado nosso planeta, mas em toda parte onde haja
bons Espí ritos, no espaço para aqueles que sa o errantes e nos mundos mais perfeitos
para os que esta o encarnados: aí esta o Paraí so Terrestre, aí esta o os Campos Elí seos,
cuja ideia primordial vem do conhecimento intuitivo que tinha sido dado ao homem
nesse estado de coisas, e que a ignora ncia e os preconceitos reduziram a s mesquinhas
proporço es. Essa doutrina nos mostra que os í mpios encontram o castigo de suas
faltas na sua pro pria imperfeiça o, nos seus sofrimentos morais, na presença inevita vel
de suas ví timas — castigos mais terrí veis que as torturas fí sicas incompatí veis com a
doutrina da imaterialidade da alma; mostra-nos esses í mpios expiando seus erros
pelas tribulaço es de novas existe ncias corporais que eles cumprem nos mundos
imperfeitos, e na o num lugar de eternos suplí cios de onde a esperança esta banida
para sempre. Aí esta o Inferno. Quantas pessoas nos dizem: Se nos tivessem ensinado
isso desde a nossa infa ncia, no s jamais terí amos duvidado!
37 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
A experie ncia nos ensina que os Espí ritos na o suficientemente
desmaterializados ainda esta o sobe o impe rio das ideias e dos preconceitos da
existe ncia corporal; aqueles que utilizam em suas comunicaço es uma linguagem
coerente com as ideias cujo erro mate ria esta demonstrado provam por isso mesmo
sua ignora ncia e sua inferioridade. (Paraíso, do grego paradeizos, jardim, pomar.)
Penas eternas [Peines e ternelles]: os Espí ritos superiores nos ensinam que so o bem e
eterno, porque ele e a esse ncia de Deus, e que o mal tera um fim. Por conseque ncia
desse princí pio, eles combatem a doutrina da eternidade das penas, como sendo
contra ria a ideia de que Deus nos da de sua justiça e de sua bondade. Mas a luz na o
chega para os Espí ritos sena o em raza o da elevaça o deles; nas faixas inferiores, suas
ideias ainda sa o obscurecidas pela mate ria; o futuro para eles e coberto por um ve u;
eles na o veem ale m do presente. Eles esta o na situaça o de um homem que sobe uma
montanha; no fundo do vale a neblina e as curvas da estrada limitam sua vista; ele
precisa chegar ao cume para descobrir todo o horizonte, para julgar o caminho que
percorreu e aquele que lhe resta a fazer. Na o percebendo o te rmino de seus
sofrimentos, os Espí ritos imperfeitos acreditam sofrer para sempre, e ate mesmo esse
pensamento e um castigo para eles. Enta o, se alguns Espí ritos nos falam das penas
eternas, e que eles mesmos acreditam nisso, por causa de sua inferioridade.
Penates [Pe nates] (do latim penitus, interior, que esta dentro; formado por penus, lugar
reservado, escondido): deuses dome sticos dos antigos, assim denominados porque
eram colocados nos lugares mais reservados da casa. — Lares [Lares] (do nome da
ninfa Lara, porque se acreditava que eles fossem filhos dessa ninfa e do deus
Mercu rio): assim como os penates, eram deuses ou ge nios dome sticos, com a
diferença que, em sua origem, os penates eram os manes [sombras] dos ancestrais,
cujas imagens eram guardadas em um lugar secreto, protegidos da profanaça o. Os
lares — ge nios benfazejos, protetores das famí lias e das casas — eram considerados
heredita rios, pois, uma vez ligados a uma famí lia, eles continuavam a proteger os seus
descendentes. Na o somente cada indiví duo, cada famí lia e cada casa tinha seus lares
particulares, mas tambe m havia alguns deles para as cidades, para as vilas, para as
ruas, para os edifí cios pu blicos etc., que eram colocados sob a invocaça o desses ou
daqueles lares, como ha crista os aos cuidados deste ou daquele santo padroeiro.
Os lares e os penates — cujo culto podemos dizer que era universal, conquanto
sob variados nomes — na o eram outros sena o os Espí ritos familiares cuja existe ncia
hoje nos e revelada; mas os antigos fizeram deles deuses, para quem a superstiça o
levantou altares, ao passo que para no s eles sa o simplesmente Espí ritos que
animaram homens como no s, algumas vezes nossos parentes e amigos, e que se
38 – Allan Kardec
apegam a no s por simpatia. (Veja: Politeísmo.)
Perispírito [Pe risprit] (de peri, ao redor, e spiritus, espí rito): envolto rio semimaterial do
Espí rito apo s sua separaça o do corpo. O Espí rito o extrai no mundo onde se encontra
e o modifica ao passar de um para outro mundo; ele e mais ou menos sutil ou grosseiro
conforme a natureza de cada globo. O perispí rito pode assumir todas as formas ao
gosto do Espí rito; normalmente ele apresenta a imagem que o Espí rito tinha na sua
u ltima existe ncia corporal.
Embora seja de uma natureza ete rea, a substa ncia do perispí rito e capaz de
algumas modificaço es que o tornam perceptí vel pela nossa visa o; e o que ocorre nas
apariço es. Por sua unia o com o fluido de certas pessoas, ele pode ser tornar tangí vel
temporariamente, isto, oferecer resiste ncia ao toque de um corpo so lido, assim como
o vemos nas apariço es estereotites14 ou palpa veis.
A natureza í ntima do perispí rito ainda nos e desconhecida; pore m, poderí amos
supor que a mate ria dos corpos e composta de uma parte so lida e grosseira, e de uma
parte sutil e ete rea; que somente a primeira sofre a decomposiça o produzida pela
morte, enquanto a segunda persiste e segue o Espí rito. Dessa forma, o Espí rito teria
um duplo envolto rio; a morte so o despojaria do mais grosseiro; o segundo, que
constitui o perispí rito, conservaria a marca e a forma do primeiro envolto rio, do qual
ele e como a sombra; mas sua natureza essencialmente vaporosa permitiria ao
Espí rito modificar essa forma conforme sua vontade, e torna -lo visí vel ou invisí vel,
palpa vel ou impalpa vel.
O perispí rito esta para o Espí rito aquilo que o perisperma esta para o germe do
fruto. A ame ndoa despojada do seu envolto rio lenhoso, conte m o germe sob o delicado
invo lucro do perisperma.
Pítia, Pitonisa [Pythie, Pythonisse]: sacerdotisa de Apolo Pí tia, em Delfos, assim
nomeada em refere ncia a serpente Pí ton, que Apolo havia matado. A Pí tia pronunciava
os ora culos, mas como eles nem sempre eram inteligí veis, os sacerdotes se
encarregavam de interpreta -los de acordo com as circunsta ncias. (Veja: Sibila.)
Pneumatofonia [Pneumatophonie] (do grego pneuma, ar, sopro, vento, espí rito; e de
phoné, som ou voz): comunicaça o verbal e direta dos Espí ritos sem o auxí lio dos
o rga os da voz. Som ou voz que eles fazem ouvir no vazio do ar e que parece ressoar
nos nossos ouvidos. (Veja: Psicofonia.)
Nota — No s na o empregamos a palavra pneumatologia, porque ela ja tem uma
14 Ver Estereotite, neste mesmo Vocabulário. — N. T.
39 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
acepça o cientí fica determinada, e, em segundo lugar, porque esse termo seria
improprio quando se referisse somente a sons vagos e na o articulados.
Pneumatografia [Pneumatographie] (do grego pneuma, ar, sopro, vento, espí rito; e
grafo, escrevo): escrita direta dos Espí ritos sem o auxí lio da ma o do me dium. (Veja:
Psicografia.)
Politeísmo [Polythe isme] (do grego polus, va rios; e théos, Deus): religia o que admite
va rios deuses. Nos povos antigos a palavra deus revelava a ideia de poder; para eles,
todo poder superior ou vulgar era um deus; os pro prios homens que tinham feito
grandes coisas se tornavam deuses para eles. Manifestando-se por efeitos que lhes
pareciam sobrenaturais, os Espí ritos eram a seus olhos tambe m divindades, entre as
quais e impossí vel na o reconhecermos nossos Espí ritos, de todos os graus, desde
Espí ritos batedores ate os Espí ritos superiores. Nos deuses de forma humana,
transportando-se atrave s do espaço e mudando de forma para se tornarem visí veis e
invisí veis conforme sua vontade, no s reconhecemos todas as propriedades do
perispí rito. Nas paixo es que lhes eram emprestadas, reconhecemos os Espí ritos ainda
na o desmaterializados. Nos manes, lares e penates, reconhecemos nossos Espí ritos
familiares, nossos ge nios tutelares. O conhecimento das manifestaço es espí ritas e ,
portanto, a fonte do politeí smo; desde a mais alta Antiguidade, os homens
esclarecidos julgaram esses pretensos deuses pelo seu devido valor e reconheceram
neles criaturas de um Deus supremo, soberano mestre do mundo. Confirmando a
doutrina da unicidade de Deus e esclarecendo os homens pela sublime moral do
Evangelho, o cristianismo marcou uma nova era na marcha do progresso da
humanidade. Entretanto, como os Espí ritos na o cessaram de se manifestar, ao inve s
de deuses, os homens os transformaram em ge nios e fadas.
Possesso [Posse de ]: segundo a ideia ligada a essa palavra, o possesso e aquele em quem
o demo nio veio se alojar. O demônio o possui significa o demônio assumiu o controle
do seu corpo (Veja: Demônio). Ao pegar o demônio — na o no seu sentido vulgar, mas
no sentido de Espí ritos maus, Espí rito impuro, Espí rito malvado, Espí rito imperfeito
—, seria o caso de sabermos se um Espí rito dessa natureza ou de qualquer outra pode
fixar moradia no corpo de um homem conjuntamente com aquele que ali esta
encarnado, ou se este poderia ser substituí do por aquele. Neste u ltimo caso,
poderí amos perguntar o que acontece com a alma assim expulsa. A doutrina espí rita
diz que o Espí rito unido ao corpo na o pode ser definitivamente separado deste a na o
ser pela morte; que nenhum outro Espí rito poderia tomar o seu lugar nem se unir ao
corpo simultaneamente com ele; mas ela diz tambe m que um Espí rito imperfeito pode
40 – Allan Kardec
se ligar ao Espí rito encarnado, comanda -lo, dominar seu pensamento, e — se ele na o
tiver forças para lhe resistir — obriga -lo a fazer isso ou aquilo, a agir nesse ou naquele
sentido; ele o envolve, por assim dizer, com sua influe ncia. Desta forma, na o ha
possessão no sentido absoluto do termo; o que ha e uma subjugação. Na o se trata de
desalojar um Espí rito mau, mas — para usarmos uma comparaça o material — de
faze -lo largar a presa, o que sempre e possí vel quando o queremos seriamente.
Contudo, tem gente que se contenta com um ví cio que satisfaz seus gostos e seus
desejos.
A superstiça o vulgar atribuiu a possessa o do demo nio certas doenças que na o
te m outra causa sena o uma alteraça o dos o rga os. Essa crença era bastante difundida
entre os judeus; para eles, curar essas enfermidades significava expulsar demo nios.
Qualquer que fosse a causa da doença, desde que a cura ocorresse, isso na o tira o
poder daquele que a opera. Portanto, Jesus e seus discí pulos poderiam dizer que
expulsavam demo nios para usar a linguagem atual. Se eles falassem de outra forma,
na o teriam sido compreendidos, e talvez nem mesmo acreditados. Uma coisa pode ser
verdadeira ou falsa dependendo do sentido que se de a s palavras. As maiores
verdades podem parecer absurdas quando consideramos apenas a forma.
Prece [Prie re]: a prece e uma invocaça o e, em alguns casos, uma evocaça o pela qual
chamamos este ou aquele Espí rito. Quando ela e endereçada a Deus, ele nos envia seus
mensageiros — os Bons Espí ritos. A oraça o na o pode derrogar os decretos da
Provide ncia; mas, por ela, os Bons Espí ritos podem vir nos ajudar — seja nos dando a
força moral que nos falte, seja nos sugerindo ideias necessa rias: daí vem o alí vio que
sentimos quando oramos com fervor. Daí tambe m vem o alí vio que experimentam os
Espí ritos sofredores quando oramos por eles; estes mesmos pedem essas preces sob
a forma que lhes for mais familiar e que estiver mais em acordo com as ideias que eles
conservam de sua existe ncia corporal; mas a raza o — conforme a dos Espí ritos — nos
diz que a prece dos la bios e uma fo rmula va quando o coraça o na o participa dela.
Provações [E preuves]: vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espí ritos se depuram
segundo a maneira pela qual eles as suportam. De acordo com a doutrina espí rita, o
pro prio Espí rito desprendido do corpo, reconhecendo sua imperfeiça o, por um ato do
seu livre-arbí trio, escolhe o ge nero das provas que ele imagina ser o mais apropriado
para o seu avanço, e que ele experimentara numa nova existe ncia. Se tiver escolhido
uma provaça o acima de suas forças, ele sucumbira , e seu avanço ficara atrasado.
Psicofonia [Psychophonie] (do grego psuké, alma; e phonê, som ou voz): transmissa o do
pensamento dos Espí ritos atrave s da voz de um me dium falante.
41 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Psicografia [Psychographie] (do grego psuké, borboleta, alma; e graphô, escrevo):
transmissa o do pensamento dos Espí ritos por meio da escrita atrave s das ma os de um
me dium. No me dium escrevente a ma o e o instrumento, mas sua alma (ou seja, o
Espí rito encarnado nele) e o intermedia rio ou o inte rprete do outro Espí rito que se
comunica; na pneumatografia, e o outro Espí rito quem escreve sem intermedia rio.
(Veja: Pneumatografia.)
Psicografia imediata ou direta: quando o pro prio me dium escreve, segurando
a caneta como na escrita comum.
Psicografia mediata ou indireta: quando a caneta e adaptada a um objeto
qualquer que lhe serve de alguma maneira como uma extensa o da ma o, tal como uma
cesta, uma prancheta etc.
Psicologia [Psychologie]: dissertaça o sobre a alma; cie ncia que trata da natureza da
alma. Essa palavra seria para um me dium falante o que a psicografia e para um
me dium escrevente, isto e , a transmissa o do pensamento dos Espí ritos pela voz do
me dium; mas como ja existe uma concepça o consagrada e bem definida, conve m na o
lhe dar outra. (Veja: Psicofonia.)
Pureza absoluta [Purete absolue]: estado dos Espí ritos da primeira ordem, ou Espí ritos
puros; aqueles que ja percorreram todos os graus da escala e que na o precisam mais
que se submeter a encarnaça o.
Purgatório [Purgatoire] (do latim purgatorium, composto de purgare, purgar; da raí z
purus, puro, que deriva do grego pyr, pyros, fogo, antigo emblema da purificaça o):
conforme a Igreja cato lica, lugar de expiaça o tempora ria para as almas que ainda te m
que se purificar de algumas impurezas. A Igreja na o define de uma maneira precisa o
local onde se encontra o Purgato rio; ela o coloca em toda a parte, no espaço, talvez ao
nosso lado. Muito menos ela explica claramente a natureza das penas sofridas ali; sa o
sofrimentos mais morais do que fí sicos; entretanto existe fogo, embora a alta teologia
reconheça que essa palavra deva ser tomada no sentido figurado e como sí mbolo da
purificaça o. O ensinamento dos Espí ritos e muito mais explí cito a esse respeito; eles
rejeitam — e verdade — o dogma da eternidade das penas (Veja: Inferno, Penas
eternas), eles admitem uma expiaça o tempora ria, mais ou menos longa, que, exceto
pelo nome, na o e outra coisa sena o o purgato rio. Essa expiaça o se da pelos
sofrimentos morais da alma no estado errante; os Espí ritos errantes esta o em todo
lugar: no espaço, ao nosso derredor, assim como a Igreja afirma. Ela admite certas
penas fí sicas no purgato rio; a doutrina espí rita diz que o Espí rito se depura e se purga
de suas impurezas nas existe ncias corporais; os sofrimentos e as tribulaço es da vida
42 – Allan Kardec
sa o as expiaço es e as provaço es pelas quais ele se eleva; disso resulta que aqui na
Terra no s estamos em pleno purgato rio. O que a doutrina cato lica deixa vago os
Espí ritos esclarecem precisamente e tornam perceptí vel ao dedo e ao olho. Os
Espí ritos que sofrem podem dizer enta o que — para usarmos nossa linguagem — eles
esta o no purgato rio. Se, devido sua inferioridade moral, na o lhes for permitido ver o
fim de seus sofrimentos, eles dira o que esta o no Inferno. (Veja: Inferno.)
A igreja admite a efica cia das preces em favor das almas do purgato rio; os
Espí ritos nos dizem que pela oraça o no s chamamos os bons Espí ritos que da o aos
fracos a força moral que lhes falta para suportar as provas. Portanto, os Espí ritos
sofredores podem pedir preces, sem que nisso haja qualquer contradiça o com a
doutrina espí rita; ora, pelo que sabemos dos diferentes graus dos Espí ritos, no s
compreendemos que eles possam pedi-las conforme a forma que lhes era familiar
quando estavam vivos. (Veja: Prece.)
A igreja na o admite mais do que uma existe ncia corporal, apo s a qual a sorte do
homem e irrevogavelmente determinada para a eternidade. Os Espí ritos nos dizem
que uma u nica existe ncia — cuja duraça o, frequentemente abreviada por acidentes,
na o e mais passa de um ponto na eternidade — na o basta para a alma se purificar
completamente, e que Deus, na sua justiça, na o condena sem remissa o aquele de
quem muitas vezes na o dependeu ser suficientemente esclarecido sobre o bem a ser
praticado; a doutrina dos Espí ritos reserva a alma a faculdade de cumprir numa se rie
de existe ncias aquilo que ela na o poderia realizar em apenas uma: eis aqui a principal
diferença; mas se examina ssemos cuidadosamente todos os princí pios dogma ticos, e
se sempre coloca ssemos a parte aquilo que deve ser tomado no sentido figurado,
muitas das aparentes contradiço es desapareceriam sem du vidas.
Reencarnação [Re incarnation]: retorno do Espí rito a vida corporal.
A reencarnaça o pode acontecer imediatamente apo s a morte ou depois de um
lapso de tempo mais ou menos longo durante o qual o Espí rito e errante. Pode ocorrer
nesta Terra ou em outras esferas, mas sempre em corpos humanos, e jamais no de um
animal. A reencarnaça o e progressiva ou estaciona ria; jamais e retro grada. Nas suas
novas existe ncias corporais o Espí rito pode decair como posiça o social, mas na o como
Espí rito; quer dizer, o mestre pode ser rebaixado a serviçal, o prí ncipe a artesa o, o rico
a misera vel, enquanto sempre progredindo em cie ncia e moralidade; assim, o
criminoso pode se tornar um homem de bem, mas o homem de bem na o pode se
tornar um criminoso.
Os Espí ritos imperfeitos, que ainda esta o sob a influe ncia da mate ria, nem
sempre te m uma ideia perfeita sobre a reencarnaça o; a maneira como eles a explicam
refletem sua ignora ncia e seus preconceitos terrestres, como talvez faria um
43 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
campone s a quem fosse perguntado se e a Terra ou o Sol que gira. De suas existe ncias
anteriores eles so te m uma lembrança confusa, e o futuro para eles e vago (Sabe-se
que a recordaça o das existe ncias passadas e elucidada a medida que o Espí rito se
depura). Alguns deles ainda falam das esferas conce ntricas que circundam a Terra e
nas quais, elevando-se gradualmente, o Espí rito chega ao se timo ce u — que para eles
e o apogeu da perfeiça o. Todavia, mesmo em meio a diversidade de expresso es e a
bizarrice da simbologia, uma observaça o atenta revela facilmente um pensamento
dominante: as provas sucessivas que o Espí rito deve cumprir, e os diversos ní veis que
ele deve percorrer para chegar a perfeiça o e a suprema felicidade. Com freque ncia as
coisas so nos parecem contradito rias porque na o sondamos seu significado interior.
Satanás [Satan] (do hebreu chaitân, adversa rio, inimigo de Deus): chefe dos demo nios.
Esse voca bulo e sino nimo de diabo, com a diferença que esta u ltima palavra, mais do
que a primeira, pertence a linguagem popular. Em segundo lugar, conforme a ideia
relacionada a essa palavra, Satana s e um ser u nico: o ge nio do mal, o rival de Deus;
diabo e um termo mais gene rico, que se aplica a todos os demo nios; so ha um Satana s,
mas ha va rios diabos. De acordo com a doutrina espí rita, Satana s na o e um ser
distinto, pois Deus na o tem um rival que possa competir com ele de poder em poder;
e a personificaça o alego rica do mal e de todos os Espí ritos maus. (Veja: Diabo,
Demônio.)
Sematologia [Se matologie] (do grego sema, semato, sinal; e logos, discurso):
transmissa o do pensamento dos Espí ritos por meio de sinais, tais como batidas,
movimentos de objetos etc. (Veja: Tiptologia.)
Sefatim [Se raphin] (Veja: Anjos.)
Sibila [Sibylles] (do grego eo lico sios, usado para théos, Deus; e de léouli, conselho;
conselho divino): profetisas que pronunciavam ora culos e que os antigos acreditavam
serem inspiradas pela Divindade. Deixando de lado o charlatanismo e o prestí gio de
com que eram envolvidas por aqueles que as exploravam, reconhecemos nas sibilas e
nas pitonisas todas as faculdades dos sona mbulos, dos exta ticos e de certos me diuns.
Silfos, Sílfides [Sylphes, Sylphides]: segundo a mitologia da Idade Me dia, os silfos eram
os ge nios do ar, assim como os gnomos eram os da terra e as ondinas eram das a guas.
Eram representados sob uma forma humana semivaporosa, com traços graciosos; as
asas transparentes eram o emblema da rapidez com a qual eles percorriam o espaço;
foi-lhes atribuí do o poder de se tornarem visí veis e invisí veis a vontade; seu cara ter
era gentil e benevolente. “Voce s na o imaginam a multida o de silfos a geis que voce s
44 – Allan Kardec
te m a s vossas ordens; continuamente ocupados em recolher vossos pensamentos, ta o
logo pronunciem uma palavra eles a pegam e va o repeti-la em torno de voce s. A
rapidez deles e ta o grande que eles percorrem mil passos em um segundo; sa o os silfos
de Paracelso15 e de Gabalis16.” (A. Martin17)
A crença nos silfos tem sua origem evidente nas manifestaço es espí ritas. Eles
sa o os Espí ritos de uma ordem inferior, brincalho es, mas bene volos.
Sonambulismo [Somnambulisme] (do latim somnus, sono; e ambulare, andar, passear):
estado de emancipaça o da alma mais completo que o sonho. (Veja: Sonho.)
O sonho e um sonambulismo imperfeito. No sonambulismo, a lucidez da alma
— quer dizer, a faculdade de ver, que e um dos atributos da sua natureza — e mais
desenvolvido; a alma pode ver as coisas com mais precisa o e nitidez, e o corpo pode
agir sob o impulso da vontade da alma.
O total esquecimento ao acordar e um dos sinais caracterí sticos do verdadeiro
sonambulismo, porque enta o a independe ncia da alma e do corpo e mais completa do
que no sonho.
Sonambulismo natural [Somnabulisme naturel]: aquele que e esponta neo e se
produz sem ser provocado e sem a influe ncia de nenhum agente externo.
Sonambulismo magnético ou artificial [Somnambulisme magne tique ou artificiel]:
aquele que e provocado pela aça o que uma pessoa exerce sobre outra atrave s do fluido
magne tico que ela derrama sobre a outra.
Sonhos [Re ves]: afeito da emancipaça o da alma durante o sono. Quando os sentidos esta o
enfraquecidos, os laços que unem o corpo e a alma se afrouxam; tornando-se mais
livre, a alma recupera parcialmente suas faculdades de Espí rito e entra mais
facilmente em comunicaça o com os seres do mundo incorpo reo. Ao acordar, a
lembrança que ela conserva do que viu em outros lugares e em outros mundos, ou nas
suas existe ncias passadas, constitui o sonho propriamente dito. Sendo essa lembrança
15 Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541): médico suíço, alquimista
e teólogo de grande influência para a Renascença alemã. — N. T.
16 Referência à obra Conde de Gabalis, um clássico da literatura francesa do século XVII, cujo teor é um
romance ocultista; foi publicada anonimamente em 1670 e depois atribuída ao abade Montfaucon de
Villars (1635-1673). — N. T.
17 André Martin (1621-1679) foi um padre e filósofo francês, membro da Congregação do Oratório, da
qual foi expulso por ter adotado ideias de Descartes. Ganhou notoriedade principalmente ao publicar a
obra Philosophia moralis Christiana [Filosofia Moral Cristã], pela qual sintetiza o pensamento de Santo
Agostinho sobre diversas questões filosóficas, sendo então censura pela igreja católica. — N. T.
45 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
apenas parcial, quase sempre incompleta e misturada com as memo rias de quando
estava acordado, disso resulta em situaço es de continuidade que quebram a ligaça o
na seque ncia dos acontecimentos e produzem esses quadros bizarros que parecem
na o ter sentido, semelhante a uma histo ria na qual aqui e ali tive ssemos fragmentos
truncados de linhas e frases.
Sonilóquio [Somniloquie] (do latim somnus, sono; e loqui, falar): estado de emancipaça o
da alma intermedia rio entre o sonho e o sonambulismo natural. Aqueles que falam
enquanto sonham sa o soní loquos.
Sono magnético [Sommeil magne tique]: agindo sobre o sistema nervoso, o fluido
magne tico produz em determinadas pessoas um efeito que foi comparado com o sono
natural, mas que difere deste essencialmente em va rios aspectos. A principal
diferença consiste em que, nesse estado, o pensamento e inteiramente livre, que o
indiví duo tem uma perfeita conscie ncia de si mesmo, e que o corpo pode agir como
no estado normal, e isso porque a causa fisiolo gica do sono magne tico na o e a mesma
da causa do sono natural; mas o sono natural e um estado transito rio que sempre
precede o sono magne tico; a passagem de um para o outro estado e um verdadeiro
despertar da alma. E por isso que aqueles sa o submetidos pela primeira vez ao
sonambulismo quase sempre respondem não a pergunta: Você está dormindo? E, de
fato, como eles veem e pensam livremente, para eles isso na o e dormir no sentido
comum da palavra.
Sono natural [Sommeil naturel]: suspensa o momenta nea da vida comum;
entorpecimento dos sentidos durante o qual ficam interrompidas as relaço es da alma
com o mundo exterior atrave s dos o rga os.
Superstição [Superstition]: por mais absurda que seja uma ideia supersticiosa, quase
sempre ela se baseia num fato, mas que a ignora ncia a desnaturou, exagerou ou
interpretou falsamente. Seria um erro acreditar que popularizar o conhecimento das
manifestaço es espí ritas significa propagar as superstiço es. De duas coisas, uma: ou
esses feno menos sa o uma quimera ou sa o reais; no primeiro caso, terí amos raza o em
combate -los; mas se eles existirem — tal como a experie ncia demonstra —, nada os
impedira de se reproduzirem. Ja que seria uma infantilidade atacar fatos positivos, o
que precisa ser combatido na o sa o os fatos, mas sim a falsa interpretaça o que a
ignora ncia lhes pode dar. Sem du vidas, nos se culos longí nquos, eles foram a fonte de
uma se rie de superstiça o, como todos os feno menos naturais cuja causa era
desconhecida; o progresso das cie ncias positivas fez pouco a pouco desaparecer
alguns deles; a cie ncia espí rita, mais bem conhecida, fara desaparecer os demais.
46 – Allan Kardec
Os adversa rios do espiritismo se apoiam no perigo para a raza o que esses
feno menos apresentam. Todas as causas que podem assustar as imaginaço es fra geis
podem produzir a loucura; o que e preciso, antes de tudo, e curar o mal do medo.
Agora, a maneira de alcançar isso na o exagerar o perigo, fazendo crer que todas essas
manifestaço es sejam obra do diabo. Aqueles que propagam essa crença com o objetivo
de desacreditar a coisa esta o errando completamente o alvo, primeiro porque atribuir
qualquer coisa aos feno menos espí ritas e reconhecer a existe ncia destes feno menos;
segundo, ao pretender convencer que o diabo seja o seu u nico agente, afronta-se
perigosamente a moral de certos indiví duos. Como na o poderemos impedir que as
manifestaço es se produzam, mesmo com aqueles que na o querem lidar com isso, eles
so vera o diabos e demo nios ao seu redor, ate nos efeitos mais simples, que tomara o
como manifestaço es; realmente ha algo aí que pode perturbar o ce rebro. Acreditar
nesse medo e propagar o mal do medo, ao inve s de cura -lo; aí esta o verdadeiro perigo;
aí esta a superstiça o.
Taumaturgo [Thaumaturge] (do grego thauma, thaumatos, maravilha; e ergon, obra):
fazedor de milagres: sa o Grego rio Taumaturgo18. Diz-se a s vezes (numa conotaça o
pejorativa) daqueles que a torto e a direito se gaba de ter o poder de produzir
feno menos fora das leis da natureza; e nesse sentido que algumas pessoas qualificam
Swedenborg19 de taumaturgo.
Telegrafia humana [Te le graphie humaine]: comunicaça o a dista ncia entre duas
pessoas vivas que se evocam reciprocamente. Essa evocaça o provoca a emancipaça o
da alma (ou, Espí rito encarnado) que vem se manifestar e pode comunicar seu
pensamento pela escrita ou por outro meio. Os Espí ritos nos dizem que a telegrafia
humana um dia sera uma forma comum de comunicaça o — isso quando os homens
forem mais moralizados, menos egoí stas e menos apegados a s coisas materiais; ate la ,
trata-se de um privile gio das almas de elite.20
Tiptologia [Typtologie] (do grego typto, golpe; e logos, discurso): comunicaça o
inteligente dos Espí ritos por meio de batidas.
18 Gregório de Neocesareia (213-270), bispo cristão do século III, na Anatólia (atual Turquia), conhecido
como o fazedor de milagres. — N. T.
19 Menção a Emanuel Swedenborg (1688-1772), reputado polímata sueco que, depois de se destacar
devido importantes invenções e trabalhos científicos, notabilizou-se pelos seus dons mediúnicos. — N. T.
20 Para a denominação de telegrafia humana, Allan Kardec tomou como analogia a telegrafia elétrica, o
processo de telecomunicações que transmite textos escritos (telegramas) por meio de um código de sinais
(código Morse) através de fios. Posteriormente, os parapsicólogos passariam a chamar essa faculdade
psíquica de telepatia. — N. T.
47 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Tiptologia alfabética: quando os golpes designam as letras do alfabeto cuja
unia o forma as palavras e as frases. Ela pode ser produzida pelos dois processos
descritos logo a seguir:
Tiptologia por movimento: quando os golpes sa o desferidos por um objeto
qualquer que se move, por exemplo, uma mesa que bate com seus pe s por um
movimento bascular.
Tiptologia interna ou passiva: quando os golpes sa o ouvidos na pro pria
substa ncia do objeto completamente imo vel.
A tiptologia e um processo de comunicaça o muito imperfeito em raza o de sua
lentida o, que na o permite desenvolvimentos ta o extensos quanto aqueles que podem
ser obtidos pela psicografia ou pela psicofonia. (Veja: Psicografia, Psicofonia.)
Todo universal, o [Tout universel, le]: o grande conjunto. Segundo a opinia o de alguns
filo sofos, ha uma alma universal da qual cada um de no s possui uma parcela; com a
morte, todas essas almas particulares retornariam a fonte geral sem conservar sua
individualidade, como os pingos de chuva se confundem nas a guas do Oceano. Essa
fonte comum e para eles o grande conjunto, o todo universal. Essa doutrina seria ta o
desesperadora quanto o materialismo, pois, sem individualidade apo s a morte, seria
absolutamente como se na o existisse. O espiritismo e a prova patente do contra rio.
Mas a ideia do grande todo na o implica necessariamente na da fusa o dos seres em um
so . Um soldado que retorna ao seu regimento faz parte de um tudo coletivo e na o deixa
de conservar sua individualidade. E o mesmo caso das almas que retornam ao mundo
dos Espí ritos, que para eles tambe m e um todo coletivo: o conjunto universal. E nesse
sentido que deve ser entendido essa expressa o na linguagem de certos Espí ritos.
Transmigração [Transmigration] (Veja: Reencarnação, Metempsicose.)
Vidente [Voyant, Voyante]: aquele ou aquela e dotado da segunda vista. Algumas pessoas
designam sob esse nome os sona mbulos magne ticos para melhor caracterizar a sua
lucidez. Essa palavra, nesta u ltima acepça o, na o e muito melhor do que o termo
invisível aplicado aos Espí ritos; ela tem o inconveniente de na o ser especí fica para o
estado sonambu lico. Quando ja temos um voca bulo para representar uma ideia, e
supe rfluo criar outro. E preciso evitar principalmente deturpar as palavras do
significado habitual.
Visão [Vision] (Veja: Aparição.)
Visionário [Visionnaire]: quem erroneamente acredita ter viso es, revelaço es; no sentido
figurado: quem tem ideias loucas e quime ricas (Academia). Essa palavra serviria
perfeitamente para designar as pessoas dotadas da segunda vista, e que te m viso es
48 – Allan Kardec
verdadeiras, se ela na o fosse consagrada a tomar numa conotaça o pejorativa.
Entretanto, a necessidade de uma palavra especial para definir tais pessoas e
evidente. (Veja: Vidente.)
Vista, segunda [Vue, segunda]: efeito da emancipaça o da alma que se manifesta em
estado desperto; faculdade de ver as coisas ausentes como se elas estivessem
presentes. Aqueles que sa o dotados dessa capacidade na o veem pelos olhos, mas sim
pela alma, que capta a imagem dos objetos de qualquer lugar para onde a alma se
transporta, e como por um tipo de miragem. Essa aptida o na o e permanente; certas
pessoas a possuem sem saber; para estas, parece um efeito natural, e produz aquilo
que chamamos de viso es.
49 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
DOUTRINA
Espiritismo
Espiritista
Espí rita
Espiritualismo
Espiritualista
ESPÍRITOS
Natureza íntima dos Espíritos
Espí rito elementar
Perispí rito
Estado dos Espíritos
Encarnaça o
Erraticidade
Pureza absoluta
Escala espírita,
ou diferentes ordens dos Espíritos
1ª ordem: = 1ª classe: Espí ritos puros
2ª classe: Espí ritos superiores
2ª ordem: 3ª classe: Espí ritos sa bios
Bons Espí ritos 4ª classe: Espí ritos instruí dos
5ª classe: Espí ritos benevolentes
6ª classe: Espí ritos neutros
3ª ordem: 7ª classe: Espí ritos pseudossa bios
Espí ritos imperfeitos 8ª classe: Espí ritos levianos
9ª classe: Espí ritos impuros
EMANCIPAÇÃO DA ALMA
Ou do Espírito encarnado
Sonho
Sonambulismo natural
Sonambulismo artificial ou magne tico
E xtase
Visa o ou segunda vista
MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS
Ocultas
Patentes
Fí sicas
Inteligentes
Aparentes
Esponta neas
Provocadas
COMUNICAÇÕES
Comunicaço es frí volas
Comunicaço es grosseiras
Comunicaço es se rias
Comunicaço es instrutivas
Modos de comunicações
Sematologia
Por movimento
Tiptologia Interna
Alfabe tica
Psicografia
Pneumatografia
Pneumatofonia
Psicofonia
Telegrafia humana
MÉDIUNS
Ou agentes das manifestações
Me diuns
Me diuns motores
de influe ncias tipto logos
fí sicas de apariço es
escreventes ou psico grafos
pneumato grafos
desenhistas
Me diuns musicistas
de falantes
Influe ncias videntes
Morais formadores
Inspirados
de pressentimentos
sensitivos ou impressiona veis
QUADRO SINÓPTICO
DA NOMENCLATURA ESPECIAL ESPÍRITA
Vaporosas ou ete reas
Tangí veis ou estereotites
Direta
Indireta
Naturais
Facultativos
CAPÍTULO PRIMEIRO
ESCALA ESPÍRITA
De todos os princí pios fundamentais da doutrina espí rita, um dos mais
importantes e sem du vidas o que estabelece as diferentes ordens de Espí ritos.
No começo das manifestaço es, imaginava-se que um ser — pelo pro prio fato de
ser um Espí rito — devia ter a cie ncia infusa e a suprema sabedoria, e muita
gente acreditava ter um meio infalí vel de adivinhaça o; esse erro deu origem a
va rios equí vocos. A experie ncia logo revelou que o mundo invisí vel esta longe
de ter so Espí ritos superiores; eles mesmos nos ensinaram que na o sa o todos
iguais nem em conhecimento nem em moralidade, e que sua elevaça o depende
do grau de perfeiça o ao qual chegaram; eles traçaram as caracterí sticas
distintivas desses diferentes ní veis que constituem no que no s chamamos de
Escala espírita. Desde enta o, a diversidade e as contradiço es de sua linguagem
foram esclarecidas, e compreendemos que, tanto entre os Espí ritos como entre
os homens, para se saber algo na o basta se dirigir ao primeiro que apareça.
Esta escala nos da enta o a chave de uma se rie de feno menos e de
anomalias aparentes que seria difí cil — sena o impossí vel — entendermos sem
ela. Esta escala tambe m nos interessa pessoalmente porque, por nossa alma,
no s pertencemos ao mundo espí rita, ao qual retornaremos ao deixar a vida
corporal, e porque assim ela nos mostra o caminho a seguir para chegarmos a
perfeiça o e ao bem supremo.
Do ponto de vista da cie ncia pra tica, ela nos da um meio de julgar os
Espí ritos que se apresentam nas manifestaço es, e de apreciar o grau de
confiança que a sua linguagem deve nos inspirar. Esse estudo requer uma
observaça o atenta e continuada; se e preciso tempo e experie ncia para
aprendermos e conhecer os homens, na o e preciso menos para aprendermos a
51 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
conhecer os Espí ritos.
A escala espí rita conte m tre s ordens principais indicadas pelos Espí ritos
e perfeitamente caracterizadas. Como cada uma dessas ordens apresenta
diversas nuances, no s as subdividimos em va rias classes designadas pela
peculiaridade dominante dos Espí ritos que delas fazem parte. A propo sito, essa
classificaça o na o tem nada de absoluta; cada categoria na o oferece mais do que
um traço marcante no seu conjunto, mas de um ní vel para outro a gradaça o vais
se esmaecendo como nos reinos da natureza, como nas cores do arco-í ris, ou
ainda como nos diferentes perí odos da vida. De vinte a quarenta anos o homem
experimenta uma mudança nota vel; aos vinte anos, ele e um jovem; aos
quarenta, e um adulto feito; mas entre essas duas fases da vida, seria impossí vel
estabelecer uma linha de demarcaça o, e dizer onde acaba um e onde começa a
outra. Acontece o mesmo com os graus da escala espí rita. Destacaremos
tambe m que os Espí ritos na o pertencem sempre exclusivamente a esta ou
a quela classe; o progresso deles so se realiza gradualmente e muitas vezes mais
num aspecto do que noutro. Eles podem reunir caracterí sticas de va rias
categorias, o que e fa cil de reconhecer pela sua linguagem e pelos seus atos.
Iniciaremos a escala pelas ordens inferiores, porque esse e o ponto de
partida dos Espí ritos que se elevam paulatinamente das u ltimas faixas ate as
primeiras.
TERCEIRA ORDEM – ESPÍRITOS IMPERFEITOS
Características gerais — Predomina ncia da mate ria sobre o Espí rito.
Propensa o ao mal. Ignora ncia, orgulho, egoí smo e todas as ma s paixo es que daí
resultam.
Eles te m a intuiça o de Deus, mas na o o compreendem.
Nem todos sa o essencialmente maus; alguns dentre eles te m mais de
leviandade, de inconseque ncia e de malí cia do que de verdadeira maldade.
Alguns na o fazem nem o bem nem o mal; mas so em na o fazendo o bem, eles ja
denotam sua inferioridade. Outros, ao contra rio, se comprazem com o mal e
ficam satisfeitos quando encontram a oportunidade de praticar a maldade. Eles
52 – Allan Kardec
podem aliar intelige ncia com a malvadeza ou com a malí cia; pore m, qualquer
que seja seu desenvolvimento intelectual, suas ideias sa o pouco elevadas e seus
sentimentos sa o mais ou menos desprezí veis.
Seus conhecimentos sobre as coisas do mundo espí rita sa o limitados, e o
pouco que eles sabem se confunde com as ideias e os preconceitos da vida
corporal. Eles na o podem nos dar sena o noço es erro neas e incompletas sobre
essas coisas; mas o observador atento frequentemente encontra nas
comunicaço es desses Espí ritos — mesmo que sejam imperfeitas — a
confirmaça o das grandes verdades ensinadas pelos Espí ritos superiores.
O cara ter deles se revela pela sua linguagem. Todo Espí rito que nas suas
comunicaço es trai um mau pensamento, pode ser colocado na terceira ordem;
como conseque ncia, todo mau pensamento que nos e sugerido vem de um
Espí rito dessa ordem.
Eles guardam a lembrança e a percepça o dos sofrimentos da vida
corporal, e essa impressa o muitas vezes e mais dolorosa que a realidade.
Portanto, eles sofrem verdadeiramente, tanto pelos males que sofreram quanto
pelos males que fizeram outros sofrerem; e como sofrem por um longo tempo,
eles acreditam que va o sofrer para sempre. Deus, para puni-los, quer que eles
pensem assim.
Podemos dividi-los em quatro grupos principais:21
Nona classe: ESPÍRITOS IMPUROS — Sa o inclinados ao mal, de que fazem
o objeto de suas preocupaço es. Como Espí ritos, eles da o conselhos traiçoeiros,
sopram a disco rdia e a desconfiança, e se mascaram de todas as maneiras para
melhor enganar. Ligam-se aos homens de cara ter bastante fraco para cederem
a s suas sugesto es a fim de leva -los a perdiça o, satisfeitos de poderem retardar
o seu adiantamento, fazendo-os cair nas provas a que se submetem.
Nas manifestaço es, no s os reconhecemos pela sua linguagem; a
21 Posteriormente, o autor editou essa divisão acrescentando uma classe à terceira ordem dos Espíritos
e, com isso, renumerando as classes desta versão anterior: a nona passaria a ser a décima, a oitava classe
passou a ser a nona, a sétima ficou sendo a oitava e a sexta passou a ser a sétima; para a sexta posição (a
nova classe) Allan Kardec colocou os “Espíritos batedores e perturbadores”. As classes seguintes
permanecerem sem alteração, e desta forma concretizou-se a versão definitiva da Escala Espírita, que
aparece a partir da segunda edição de O Livro dos Espíritos (1860). — N. T.
53 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
banalidade e a grosseria das expresso es — tanto nos Espí ritos quanto nos
homens — e sempre um indí cio de inferioridade moral, quando na o intelectual.
Suas comunicaço es denotam a baixeza de suas inclinaço es e, se tentam iludir,
falando de uma maneira sensata, na o conseguem sustentar por muito tempo o
seu papel e acabam sempre traindo sua origem.
Alguns povos fizeram deles divindades male ficas, outros os designam
pelos nomes de demo nios, maus ge nios e Espí ritos do mal.
Quando esta o encarnados, os seres viventes que eles animam sa o
propensos a todos os ví cios que geram as paixo es vis e degradantes:
sensualidade, crueldade, falsidade, hipocrisia, gana ncia, avareza desprezí vel.
Eles fazem o mal por prazer, muitas das vezes sem motivo, e por o dio ao bem
quase sempre escolhem suas ví timas entre as pessoas honestas. Sa o flagelos
para a humanidade, qualquer que seja a faixa social a que pertençam, e o verniz
da civilizaça o na o os livra da vergonha e da desonra.
Oitava classe: ESPÍRITOS LEVIANOS — Sa o ignorantes, maliciosos,
inconsequentes e zombeteiros. Metem-se em tudo e respondem a tudo sem se
importarem com a verdade. Deleitam-se em causar pequenos males e pequenos
gozos, em causar aborrecimentos, em induzir maliciosamente ao erro por meio
de mistificaço es e de travessuras. A esta classe pertencem os Espí ritos
vulgarmente designados pelos nomes de diabretes, lutins, gnomos, duendes.
Eles esta o sob a depende ncia de Espí ritos superiores, que muitas vezes se
servem deles, como fazemos com os nossos empregados.
Eles parecem, mais do que os outros, apegados a mate ria, e parecem ser
os principais causadores das transformaço es dos elementos do globo — quer
habitem o ar, a a gua, o fogo, os corpos so lidos ou as entranhas da Terra.
Manifestam sua presença pelos efeitos sensí veis, tais como batidas, movimento
e deslocamento anormal de objetos so lidos, agitaça o do ar etc. — o que deu a
eles o nome de Espí ritos batedores ou perturbadores. Reconhecemos que esses
feno menos na o se devem a uma causa fortuita e natural, quando eles te m um
cara ter intencional e inteligente. Todos os Espí ritos podem produzir esses
feno menos, mas os Espí ritos elevados geralmente os entregam aos cuidados
dos Espí ritos inferiores, mais aptos a s coisas materiais do que a s coisas
54 – Allan Kardec
intelectuais.22
Em suas comunicaço es com os homens, a linguagem deles e muitas vezes
espirituosa e jocosa, mas quase sempre sem profundidade; aproveitam-se das
esquisitices e das tolices que eles expressam em traços mordazes e satí ricos.
Quando usam supostos nomes, e mais por malí cia do que por maldade.
Sétima classe: ESPÍRITOS PSEUDOSSÁBIOS — Seus conhecimentos sa o
bastante amplos, pore m creem saber mais do que realmente sabem. Tendo
realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles
aparenta um cara ter se rio que pode iludir quanto a s suas capacidades e luzes;
mas na maioria das vezes isso na o passa de um reflexo dos preconceitos e ideias
sistema ticas da vida terrestre; e uma mistura de algumas verdades com os
erros mais absurdos, no meio dos quais penetram a presunça o, o orgulho, o
ciu me e a obstinaça o de que ainda na o puderam se livrara.
Sexta classe: ESPÍRITOS NEUTROS — Estes na o sa o nem bastante bons
para fazer o bem, nem bastante maus para fazer o mal; pendem tanto para um
como para o outro e na o ultrapassam a condiça o comum da humanidade, seja
para a moral, seja para a intelige ncia. Apegam-se a s coisas deste mundo, dentre
as quais eles sentem falta das grosseiras alegrias.
SEGUNDA ORDEM – BONS ESPÍRITOS
Características gerais — Predomina ncia do Espí rito sobre a mate ria;
desejo do bem. Suas qualidades e seu poder de fazer o bem sa o proporcionais
ao grau que tenham alcançado: uns te m a cie ncia, outros a sabedoria e a
bondade; os mais avançados reu nem o saber a s qualidades morais. Na o estando
ainda completamente desmaterializados, conforme sua categoria, eles
conservam mais ou menos os traços da existe ncia corporal, assim na forma da
linguagem como nos seus ha bitos, entre os quais se encontram mesmo algumas
22 Justamente as características definidas neste parágrafo acabaram compondo o aspecto geral da
categoria de “Espíritos batedores e perturbadores” que futuramente, na versão definitiva da Escala
Espírita, iria figurar a sexta classe, dentro da Terceira Ordem de Espíritos. — N. T.
55 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
de suas manias; de outro modo, eles seriam Espí ritos perfeitos.
Compreendem Deus e o infinito e ja gozam da felicidade dos bons. Sa o
felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une e para
eles a fonte de uma indescrití vel felicidade que na o e alterada nem pela inveja,
nem pelos remorsos, nem por nenhuma das ma s paixo es que sa o o tormento
dos Espí ritos imperfeitos; mas todos ainda te m que passar por provas, ate que
atinjam a perfeiça o absoluta.
Como Espí ritos, eles inspiram bons pensamentos, desviam os homens da
senda do mal, protegem na vida aqueles que se mostram dignos dessa proteça o
e neutralizam a influe ncia dos Espí ritos imperfeitos naqueles que na o se
comprazem em se submeterem a ela.
Dentre estes, os que esta o encarnados sa o bondosos e benevolentes para
com os seus semelhantes; na o sa o movidos nem pelo orgulho, nem pelo
egoí smo, nem pela ambiça o; na o experimentam nem o o dio, nem o rancor, nem
a inveja e nem o ciu me; eles fazem o bem pelo bem.
A esta ordem pertencem os Espí ritos designados nas crenças comuns
pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em e pocas
de superstiço es e de ignora ncia, eles sa o tomados como divindades benfeitoras.
Podemos dividi-los em quatro grupos principais:
Quinta classe: ESPÍRITOS BENEVOLENTES — Sua qualidade dominante e a
bondade; eles se alegram em prestar serviço aos homens e lhes proteger, pore m
seu saber e limitado: seu progresso e mais desenvolvido no sentido moral do
que no sentido intelectual.
Quarta classe: ESPÍRITOS INSTRUÍDOS — O que principalmente os
distingue e a amplitude de seus conhecimentos. Estes se preocupam menos
com as questo es morais do que com as questo es cientí ficas, para as quais eles
te m maior aptida o; entretanto, so encaram a cie ncia do ponto de vista da sua
utilidade e jamais dominados por quaisquer paixo es que sa o pro prias dos
Espí ritos imperfeitos.
Terceira classe: ESPÍRITOS SÁBIOS — As qualidades morais da ordem
mais elevada formam seu cara ter distintivo. Sem possuí rem conhecimentos
56 – Allan Kardec
ilimitados, eles sa o dotados de uma capacidade intelectual que lhes permite um
julgamento correto a respeito dos homens e das coisas.
Segunda classe: ESPÍRITOS SUPERIORES — Eles reu nem a cie ncia, a
sabedoria e a bondade. Sua linguagem so exala benevole ncia; e uma linguagem
constantemente digna, elevada e por vezes sublime. Sua superioridade lhes
torna mais aptos do que os outros a nos dar noço es mais justas sobre as coisas
do mundo incorpo reo, dentro dos limites do que e permitido ao homem saber.
Comunicam-se voluntariamente com aqueles que procuram a verdade de boa-
fe e cuja alma ja esta bastante desprendida das ligaço es terrenas para
compreende -la; pore m, afastam-se daqueles que sa o animados apenas pela
curiosidade ou que, por influe ncia da mate ria, transviam-se da pra tica do bem.
Quando excepcionalmente se encarnam na Terra, e para nela cumprir uma
missa o de progresso e enta o nos oferecem o tipo da perfeiça o a qual a
humanidade pode aspirar neste mundo.
PRIMEIRA ORDEM – ESPÍRITOS PUROS
Características gerais — Nenhuma influe ncia da mate ria. Absoluta
superioridade intelectual e moral em relaça o aos Espí ritos das outras ordens.
Primeira classe: Classe única — Eles ja percorreram todos os graus da
escala e se depuraram de todas as impurezas da mate ria. Tendo alcançado a
soma de perfeiça o de que a criatura e capaz, estes na o te m mais que sofrer nem
provas nem expiaço es. Na o estando mais sujeitos a reencarnaça o em corpos
perecí veis, realizam a vida eterna no seio de Deus.
Desfrutam de uma felicidade inaltera vel, porque na o esta o sujeitos nem
a s necessidades nem a s vicissitudes da vida material; contudo, essa felicidade
na o e aquela de uma ociosidade monótona passada em uma perpétua
contemplação. Eles sa o os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens
eles executam para manutença o da harmonia universal. Comandam a todos os
Espí ritos que lhes sa o inferiores, ajudam-lhes a se aperfeiçoarem e lhes
designam suas misso es. Auxiliar os homens nas suas afliço es, incentiva -los ao
57 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
bem ou a expiaça o das faltas que os distanciam da suprema felicidade: eis para
eles uma grata ocupaça o. Sa o chamados a s vezes pelos nomes de anjos,
arcanjos ou serafins.
Os homens podem entrar em comunicaça o com eles, mas seria muito
presunçoso aquele que pretendesse te -los constantemente a s suas ordens.
Algumas pessoas erroneamente os designam pela expressa o Espí ritos
incriados. Os Espí ritos incriados seriam desde toda a eternidade, como Deus;
ora, se os seres pudessem existir no universo sem a vontade de Deus, enta o
Deus na o teria a onipote ncia. Os Espí ritos usaram essa expressa o, mas na o
neste sentido; com isso, eles queriam dizer Espí ritos que na o mais encarnara o
e que, desse ponto de vista, na o mais sera o criados como homens. O termo e
impro prio, porque da origem a uma interpretaça o falsa; esta e a desvantagem
de se apegar a letra sem examinar o conceito. (Veja. Anjo.)
58 – Allan Kardec
CAPÍTULO II
MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS
Ação oculta
Os Espí ritos normalmente agem sobre o nosso pensamento sem sabermos
disso; eles nos induzem a fazer isto ou aquilo; no s achamos que estamos agindo
por nossa pro pria vontade, mas na o fazemos mais do que ceder a uma sugesta o
estranha.
Na o devemos inferir daí que no s na o temos iniciativa, longe disso: o
Espí rito encarnado sempre teu o seu livre-arbí trio; no final das contas cada um
faz o que bem quer e frequentemente segue o seu impulso pessoal. Para
entendermos como as coisas se passam, precisamos imaginar nossa alma
desprendida dos laços pela emancipaça o, o que sempre ocorre durante o sono,
que haja sonhos ou na o; todas as vezes que aconteça um afrouxamento dos
sentidos, e algumas vezes ate mesmo enquanto acordados. Enta o a alma entre
em comunicaça o com os outros Espí ritos, como qualquer que saí sse de casa
para ir visitar os vizinhos (queiram nos permitir essa comparaça o comum).
Assim se estabelece entre eles um tipo de conversa, ou, falando mais
precisamente, uma troca de pensamentos. A influe ncia do outro Espí rito na o e
exatamente uma coaça o, mas uma espe cie de conselho que ele da a nossa alma,
conselho esse que pode ser mais ou menos sa bio conforme a natureza do
Espí rito, e o qual a alma e livre para seguir ou rejeitar, mas que ela pode melhor
avaliar quando na o esta mais sob o impe rio das ideias que a vida de
relacionamentos suscita; e por isso que — dizem — a noite e uma boa
conselheira.
59 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Nem sempre e fa cil distinguir o pensamento sugerido do pensamento
pessoal, porque com freque ncia eles se confundem; no entanto, acredita-se que
ele nos vem de uma fonte externa quando e esponta neo, quando surge em no s
como inspiraça o e quando esta em oposiça o ao nosso modo de ver. Nosso senso
crí tico e a nossa conscie ncia nos permitem saber se ele e bom ou ruim.
Manifestações patentes
As manifestaço es patentes diferem-se das manifestaço es ocultas porque
elas sa o captadas pelos nossos sentidos; constituem, propriamente falando,
todos os feno menos espí ritas que se apresentam a no s sob variadas formas.
Manifestações físicas
Nomeamos desta maneira as manifestaço es que se limitam aos
feno menos materiais, tais como os ruí dos e o movimento e deslocamento de
objetos. Na maioria das vezes eles na o te m nenhum sentido direto; seu
propo sito e chamar nossa atença o para alguma coisa e para nos convencer da
presença de uma pote ncia superior ao homem. Para muitas pessoas, esse tipo
de manifestaço es e so um objeto de curiosidade; para o observador, e no
mí nimo a revelaça o de uma força desconhecida, em todo caso, digna de um
estudo se rio.
Os efeitos mais simples desse ge nero sa o as batidas sem uma causa
evidente conhecida e o movimento circular de uma mesa, ou de um objeto
qualquer, com ou sem a imposiça o das ma os; mas eles podem tomar
proporço es bem mais estranhas: as pancadas algumas vezes sa o ouvidas por
todo lado e com uma intensidade que acabam em um verdadeiro alvoroço;
mo veis sa o deslocados, revirados e levantados; objetos sa o transportados de
um lugar para outro a vista de todo mundo, cortinas sa o puxadas, cobertas
arrancadas das camas, campainhas sa o tocadas… Compreendemos que quando
60 – Allan Kardec
tais feno menos se produzem, certas pessoas tenham lhes atribuí do uma origem
diabo lica; pore m, um estudo atento fez justiça a essa crença supersticiosa.
Voltaremos a este tema logo mais.
Manifestações inteligentes
Se os feno menos de que acabamos de falar tivessem se limitado aos efeitos
materiais, na o ha du vida de que eles poderiam ter sido atribuí dos a uma causa
puramente fí sica, a aça o de algum fluido cujas propriedades ainda na o sa o
conhecidas para no s. Ja na o seria o mesmo quando eles dessem sinais
incontesta veis de intelige ncia; ora, se todo efeito tem uma causa, todo efeito
inteligente deve ter uma causa inteligente. Num objeto que se mexe, e fa cil
reconhecer entre um movimento meramente meca nico e um movimento
intencional. Se — por ruí do ou por movimento — esse objeto faz um sinal, e
evidente que ha intervença o de uma intelige ncia. Ja que a raza o nos diz que na o
e o objeto material em si que e inteligente, enta o concluí mos que ele e movido
por uma causa inteligente estranha; e o caso dos feno menos que estudamos.
Se as manifestaço es puramente fí sicas de que acabamos de falar sa o
capazes de cativar o nosso interesse, sa o muito mais ainda quando elas nos
revelam a presença de uma intelige ncia oculta, pois enta o na o e mais
simplesmente um corpo inerte que temos diante de no s, mas um ser capaz de
nos entender e com o qual podemos fazer uma troca de ideias. Desde enta o se
concebe que o modo de experimentaça o deve ser totalmente diferente daquele
que se tratasse de um feno meno puramente material, e que os procedimentos
comuns de laborato rio sa o incapazes de dar conta dos fatos que pertencem a
uma ordem intelectual. Aqui na o se trata mais de uma questa o de ana lises nem
de ca lculos matema ticos de forças; ora, e exatamente nesse erro que a maior
parte dos estudiosos cai; eles acreditavam estar na presença de um desses
feno menos que a cie ncia reproduz a qualquer momento e sob o qual poderiam
agir como se fosse um sal ou um ga s; isso na o diminui em nada o saber deles;
no s apenas dizemos que eles se equivocaram ao crer que podiam meter os
61 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Espí ritos num tubo de laborato rio, o espí rito do vinho, e que os feno menos
espí ritas na o sa o da alçada da cie ncia mais do que as questo es de teologia ou
da metafí sica.
Manifestações aparentes
As manifestaço es aparentes mais comuns ocorrem durante o sono,
atrave s dos sonhos: sa o as viso es. Os sonhos jamais foram explicados pela
cie ncia; ela acreditava ter dito tudo ao atribuí -los a um efeito da imaginaça o,
mas na o nos diz o que e a imaginaça o, nem como ela produz essas imagens ta o
claras e ta o ní tidas que a s vezes nos aparecem; isso e explicar uma coisa que
na o e conhecida por outra que tambe m e desconhecida; portanto, a questa o
permanece insolu vel. Dizem que e uma lembrança das preocupaço es da
ve spera; mas, mesmo admitindo essa soluça o — que na o e uma soluça o —,
restaria ainda saber qual e esse espelho ma gico que desse modo conserva a
impressa o das coisas; como explicar sobretudo essas viso es das coisas reais
que jamais vimos em estado desperto e nas quais no s nunca sequer pensamos?
Somente o espiritismo poderia nos dar a chave desse feno meno bizarro que
passa desapercebido por causa de sua pro pria simplicidade, como todas as
maravilhas da natureza que temos sob nossos pe s.23 Na o esta no escopo dessa
obra examinar todas as particularidades que os sonhos podem apresentar;
resumiremos tudo dizendo que eles podem ser: uma visa o atual das coisas
presentes ou ausentes; uma visa o retrospectiva do passado, e, em alguns casos
excepcionais, um pressentimento do futuro. Muitas vezes tambe m sa o quadros
simbo licos que os Espí ritos fazem passar sob nossos olhos para nos dar avisos
u teis e conselhos salutares — caso sejam Espí ritos bons; ou para nos induzir ao
erro e incitar nossas paixo es — se forem Espí ritos imperfeitos.
As pessoas que no s vemos nos sonhos sa o, portanto, verdadeiras viso es;
se sonhamos mais frequentemente com aqueles com quem nos preocupamos,
23 Ver a palavra sonho no vocabulário.
62 – Allan Kardec
e porque o pensamento e um modo de evocaça o, e porque atrave s dele
chamamos ate no s o Espí rito dessas pessoas — estejam elas mortas ou vivas.
Acreditamos que seria um insulto ao bom senso dos nossos leitores
refutar tudo aquilo que ha de absurdo e de ridí culo no que vulgarmente se
chama de interpretaça o dos sonhos.
As apariço es propriamente ditas se da o em estado de vigí lia e quando se
goza da plenitude e inteira liberdade das suas faculdades. E sem du vidas o
ge nero de manifestaça o mais apropriada a despertar a curiosidade, mas e
tambe m a menos fa cil de ser obtida. Os Espí ritos podem se manifestar
ostensivamente de va rias maneiras; a s vezes e sob a forma de chamas sutis ou
de luzes mais ou menos brilhantes que na o te m nenhuma semelhança — nem
pelo seu aspecto nem pelas circunsta ncias nas quais elas se produzem — com
os fogos-fa tuos24 ou com outros feno menos fí sicos cuja causa ja esta
perfeitamente explicada. Doutras vezes, eles assumem as feiço es de uma
pessoa conhecida ou desconhecida, sobre cuja individualidade podemos nos
confundir conforme as ideias de que estamos imbuí dos. E enta o uma imagem
vaporosa, ete rea, que na o encontra nenhum obsta culo nos corpos so lidos. Os
fatos desse tipo sa o numerosos; mas antes de atribui-los a imaginaça o ou a
fraude, e preciso levar em conta as circunsta ncias nas quais eles sa o
produzidos, da posiça o e principalmente do cara ter do narrador.
Em determinados casos, a apariça o se torna tangí vel, isto e , ela adquire
momentaneamente, e sob a força de certas circunsta ncias, as propriedades da
mate ria so lida. Na o e mais pelos olhos que se entra em contato com a realidade,
mas pelo toque. Se era possí vel atribuir a apariça o puramente visual a ilusa o ou
a um tipo de fascinaça o, a du vida ja na o e mais permitida desde quando voce
pode toca -la, pega -la, apalpa -la; quando ela mesma te agarra e te abraça.25
24 Fogo-fátuo: fenômeno natural que produz uma luminosidade, geralmente emanada de superfícies
aquosas ou de sepulturas, cuja causa é atribuída à combustão de gases provenientes da decomposição de
matérias orgânicas. — N. T.
25 Veja na Revista Espírita do mês de março, abril e maio de 1858, a narração e as explicações das
manifestações desse gênero.
63 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Manifestações espontâneas
A maioria dos feno menos de que acabamos de falar — principalmente as
que pertencem ao ge nero das manifestaço es fí sicas e aparentes — podem se
reproduzir espontaneamente, quer dizer, sem que a vontade tenha participaça o
neles. Em outras circunsta ncias, eles podem ser provocados pela vontade de
indiví duos ditos me diuns, dotados de um poder especial para isso.
As manifestaço es desse ge nero na o sa o nem raras nem novas; poucas
cro nicas locais na o conte m alguma histo ria desse ge nero. O medo
indubitavelmente tem exagerado muitas vezes os fatos que, passando de boca
em boca, tomaram proporço es gigantescamente ridí culas; com a ajuda da
superstiça o, as casas onde esses fatos te m ocorrido foram reputadas como
assombradas pelo diabo, e daí todos vem os contos maravilhosos ou
assustadores de fantasmas. Por sua vez, a astu cia na o deixou escapar ta o bela
ocasia o de explorar a credulidade, e isso frequentemente em proveito de
interesses pessoais. De resto, concebemos a impressa o que os fatos desse tipo
podem produzir, mesmo reduzidos a realidade, em pessoas de cara ter fraco e
predispostas pela instruça o a s ideias supersticiosas. O meio mais seguro de
prevenir os inconvenientes que esses fatos possam ter — ja que na o se pode
impedi-los — consiste em ensinar a verdade. As mais simples se tornam
assustadoras quando a causa e desconhecida. Quando todos estiverem
familiarizados com os Espí ritos, e quando as pessoas a quem eles se
manifestam ja na o mais acreditem que ter uma legia o de demo nios nos seus
calcanhares, enta o ningue m mais tera medo dos Espí ritos.
As manifestaço es esponta neas raramente se produzem em lugares
isolados, pois e quase sempre nas casas habitadas onde elas ocorrem, e pelo
fato da presença de certos indiví duos que exercem uma influe ncia involunta ria;
esses indiví duos sa o verdadeiros me diuns, sem saberem disso, e que por essa
raza o no s os chamamos de médiuns naturais. Com relaça o aos outros
me diuns, eles sa o o que os sona mbulos naturais sa o para os sona mbulos
magne ticos, e igualmente ta o curiosos de se observar: e por isso que
incentivamos as pessoas que lidam com os feno menos espí ritas a recolherem
64 – Allan Kardec
todos os fatos desse ge nero que venham ao seu conhecimento, mas sobretudo
a constatarem com cuidado a realidade deles, para evitar de serem ví timas da
ilusa o ou da fraude — o que evitara o por uma observaça o cuidadosa.
Devemos ficar atentos, na o somente contra relatos que possam estar
minimamente contaminadas pelo exagero, mas tambe m contra as pro prias
impresso es, para na o atribuirmos uma origem oculta a tudo o que na o
compreendemos. Uma infinidade de causas muito simples e muito naturais
pode produzir efeitos estranhos a primeira vista, e seria uma verdadeira
superstiça o ver por toda parte Espí ritos ocupados em revirar mo veis, quebrar
louças e, enfim, suscitar as mil e uma importunaço es dome sticas que e mais
racional atribuirmos a falta de jeito. O que e preciso fazer em tal caso e
investigar a causa, e pode apostar cem contra um que descobrirí amos uma
causa bem simples onde se pensaria ter relaça o com algum Espí rito
perturbador. Quando ocorre um feno meno inexplica vel, a primeira ideia que
devemos ter e que ele se deve a uma causa material, porque e a mais prova vel,
e so admitir a intervença o dos Espí ritos com sensatez. Aquele que, por exemplo,
sem estar pro ximo de ningue m, recebesse uma bofetada ou uma bengalada nas
costas, como tem acontecido, na o poderia duvidar da presença de um ser
invisí vel.
De todas as manifestaço es espí ritas, as mais simples e as mais frequentes
sa o os ruí dos e as pancadas; e aqui principalmente que se deve temer a ilusa o,
pois uma se rie de causas naturais pode produzi-los: o vento que sibila ou agita
um objeto, algo que no s mesmos movemos sem percebermos, um efeito
acu stico, um animal escondido, um inseto etc., ou mesmo as travessuras dos
brincalho es de mau gosto. Alia s, os ruí dos espí ritas te m uma caracterí stica
especial: tudo neles revela uma intensidade e um timbre muito variado que os
tornam facilmente reconhecí veis e na o permitem que sejam confundidos com
os estalos da madeira, com as crepitaço es do fogo ou com o tique-taque
mono tono do pe ndulo de um relo gio; algumas vezes sa o batidas secas, surdas,
fracas e leves, e noutras vezes claras, distintas e a s vezes retumbantes, que
mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade meca nica. De todos
os meios de verificaça o, o mais eficaz — aquele que na o pode deixar du vida
65 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
quanto a origem do feno meno — e a obedie ncia a vontade. Se as pancadas sa o
ouvidas num lugar designado, se elas respondem ao pensamento pela
quantidade ou pela intensidade, enta o na o se pode deixar de reconhecer nelas
uma causa inteligente; todavia, a falta de obedie ncia nem sempre significa uma
prova contra ria.
Agora, vamos admitir que, por uma constataça o minuciosa, se adquira a
certeza de que os ruí dos e todos os outros efeitos sejam manifestaço es reais:
seria racional ter medo delas? Na o, certamente, porque na o ha em nenhum caso
o menor perigo; somente aqueles que esta o convencidos de que e o diabo
podem ser afetados de uma maneira ta o lamenta vel — como as crianças a quem
se mete medo do lobisomem ou do bicho-papa o. E preciso convir que essas
manifestaço es a s vezes tomam proporço es e uma persiste ncia desagrada veis,
das quais temos o desejo muito natural de nos livrarmos. Uma explicaça o se faz
necessa ria sobre esta questa o.
Temos dito que as manifestaço es fí sicas te m por objetivo chamar nossa
atença o para alguma coisa e nos convencer da presença de uma força superior
ao homem. Tambe m dissemos que os Espí ritos elevados na o se ocupam com
manifestaço es desse tipo; eles se servem dos Espí ritos inferiores para produzi-
las, como nos servimos dos empregados para os trabalhos pesados, e isso com
o propo sito que acabamos de indicar. Depois de atingir esse propo sito, a
manifestaça o material cessa, porque ela deixa de ser necessa ria. Um ou dois
exemplos fara o melhor compreender a coisa. No iní cio dos meus estudos sobre
o espiritismo, estando certa noite ocupado com um trabalho referente a esta
mate ria, pancadas se fizeram ouvir em torno de mim durante quatro horas
consecutivas; era a primeira vez que tal coisa me acontecia; certifiquei-me de
elas na o tinham nenhuma causa acidental, mas naquele momento, na o pude
saber mais a respeito. Nessa e poca, eu tinha a oportunidade de ver
frequentemente um excelente me dium escrevente. Logo no dia seguinte, eu
interroguei o Espí rito que comunicava pelo seu interme dio sobre a causa
daquelas batidas. Foi-me respondido: Era o teu Espírito familiar que desejava
falar contigo. — E o que ele queria me dizer? Resposta: Pode perguntar a ele
mesmo, pois ele esta aqui. — Tendo enta o interrogado esse Espí rito, ele se
66 – Allan Kardec
apresentou sob um nome alego rico (eu soube depois, por outros Espí ritos, que
era aquele de um ilustre filo sofo da Antiguidade); ele me apontou erros no meu
trabalho, indicando-me as linhas onde estavam esses erros; deu-me u teis e
sa bios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e viria ao meu
chamado todas as vezes que eu quisesse interroga -lo. Desde enta o, de fato, esse
Espí rito nunca mais me deixou. Ele me deu muitas provas de uma grande
superioridade e sua intervença o benevolente e eficaz ficou evidente para mim,
tanto nos assuntos da vida material quanto no que toca a s questo es metafí sicas.
Mas desde a nossa primeira conversa as pancadas cessaram. O que ele
realmente desejava? Entrar em comunicaça o comigo regularmente; para isso,
ele precisava me avisar. Com certeza na o foi ele mesmo quem veio produzir as
batidas em minha casa; para isso, ele provavelmente enviou um emissa rio sob
suas ordens. Dado o aviso, depois explicado, e estabelecidas as relaço es
regulares, as pancadas se tornaram inu teis; eis por que elas pararam. Na o se
toca mais o tambor para despertar os soldados uma vez estes ja estejam de pe .
Um fato quase semelhante sucedeu com um de nossos amigos. Fazia
algum tempo que seu quarto ressoava com ruí dos diversos que ja estavam
ficando fatigantes. Tendo se apresentado a ocasia o de interrogar o Espí rito de
seu pai, atrave s de um me dium escrevente, este amigo soube o que queriam
dele, fez o que foi lhe recomendado e depois disso nada mais ouviu. Conve m
ressaltar que as pessoas que te m um meio regular e fa cil de comunicaça o com
os Espí ritos experimentam muito mais raramente manifestaço es deste ge nero,
e isso e compreensí vel.
Os Espí ritos que assim se manifestam podem igualmente agir por conta
pro pria. Muitas vezes sa o Espí ritos sofredores que solicitam uma assiste ncia
moral (Veja: Prece no Vocabula rio). Quando podem expressar seu pensamento
de uma maneira mais inteligí vel, eles pedem essa assiste ncia de acordo com a
forma que lhe era familiar quando estavam vivos, ou que esteja nas ideias e
ha bitos daqueles a quem eles se dirigem, pois pouco importa essa forma, desde
que a intença o venha do coraça o.
Em resumo, o meio de fazer as manifestaço es importunas cessarem e
procurar entrar em comunicaça o inteligente com o Espí rito que vem nos
67 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
perturbar, a fim de saber quem e e o que ele quer; satisfeito o seu desejo, ele
nos deixa em paz. E como algue m que bate a porta ate que ela seja aberta para
ele. Mas, algue m dira : O que fazer quando na o temos um me dium? — O que um
enfermo faz quando na o tem um me dico? — Segue em frente sem ele. Mas aqui
no s temos outro recurso: o enfermo na o pode se fazer de me dico, pore m de
cada dez pessoas ha nove que podem ser me diuns escreventes; basta enta o
tornar-se um, se na o encontrar nenhum entre as pessoas pro ximas. Na falta de
um me dium escrevente, e possí vel ainda interrogar diretamente o Espí rito que
bate, e que pode responder pelo mesmo modo, ou seja, pelas batidas
convencionadas. Retornaremos a esse assunto nos capí tulos seguintes.
68 – Allan Kardec
CAPÍTULO III
COMUNICAÇÕES ESPÍRITAS
Como temos dito, toda manifestaça o que revele uma intença o ou uma
vontade e , por isso mesmo, inteligente — em qualquer grau que seja. Esta e ,
portanto, uma qualificaça o gene rica que diferencia esses tipos de
manifestaço es daquelas que sa o puramente materiais. Quando o
desenvolvimento dessa intelige ncia permite uma troca mu tua e contí nua de
pensamentos, enta o se obte m comunicações regulares cujo cara ter permite
julgar o Espí rito que se manifesta; conforme sua natureza e seu objetivo, elas
podem ser: frívolas, grosseiras, sérias ou instrutivas (Veja o item
Comunicações no Vocabula rio). Esta distinça o e aqui de grande importa ncia,
pois e por ela que os Espí ritos nos revelam sua superioridade ou sua
inferioridade. Conhecemos os homens pela sua linguagem; e a mesma coisa
com os Espí ritos. Ora, quem estiver bem convencido das qualidades distintivas
de cada uma das classes da escala espí rita podera sem dificuldade assinalar a
qualquer Espí rito que se apresente a categoria a qual pertence, assim como o
grau de estima e de confiança que ele merece; se a experie ncia na o viesse apoiar
esse princí pio, o simples bom senso seria suficiente para demonstra -lo.
Coloquemos enta o como regra invaria vel e sem exceça o que a linguagem dos
Espíritos é sempre proporcional ao nível de sua elevação. A dos Espí ritos
realmente superiores e constantemente se ria, digna e nobre; ela e sublime
quando o assunto assim o exige; na o apenas eles nos dizem unicamente coisas
boas como tambe m as dizem em termos que excluem da maneira mais absoluta
toda trivialidade; por melhores que sejam essas coisas, se elas estiverem
manchadas por uma u nica expressa o que denote baixeza, isto e um sinal
69 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
inquestiona vel de inferioridade, ainda mais se o conjunto da mensagem fere a
dece ncia por sua grosseria. A linguagem sempre revela a sua origem, seja pelo
pensamento que expressa, seja pela forma, e ate mesmo quando um Espí rito
queira nos ludibriar quanto a sua pretensa superioridade, bastara conversar
algum tempo com ele para o avaliarmos. O fato seguinte se repetiu muitas vezes
no curso dos nossos longos e volumosos estudos: conversamos com um
Espí rito cujo cara ter e linguagem no s conhecemos; um outro Espí rito mais ou
menos elevado estava presente e, sem que lhe pedíssemos, entrou na conversa.
Ora, antes que ele dissesse seu nome, a diferença de estilo ficou ta o evidente
que imediatamente todo mundo pensou de uma so vez: na o e mais fulano quem
esta falando. Na o julgarí amos os homens de outra forma; para isso, bastaria
ouvi-los sem os ver. Suponham que numa sala ao lado onde voce s estejam haja
va rios indiví duos que voce s na o conhecem e a quem na o podem ver; pela
conversa deles voce s podera o julgar prontamente se sa o pessoas rudes ou de
boas, ignorantes ou educados, malfeitores ou honestos.
A bondade e a gentileza tambe m sa o atributos essenciais dos Espí ritos
depurados; eles na o te m o dio nem dos homens nem dos outros Espí ritos; te m
pena das fraquezas, criticam os erros, mas sempre com moderaça o, sem rancor
e sem aversa o. Isto quanto a moral. Podemos igualmente julga -los pela natureza
de sua intelige ncia. Um Espí rito pode ser bom, gentil, so ensinar o bem e
possuir conhecimentos limitados, porque nele o desenvolvimento ainda esta
incompleto. Na o estamos falando dos Espí ritos notoriamente inferiores; a estes
seria perda de tempo pedir explicaço es sobre certas coisas, tanto quanto
perguntar a um colegial o que ele pensa de Aristo teles ou do sistema do
Universo. Mas ha alguns que, em alguns aspectos, parecem esclarecidos, ao
passo que sobre outras questo es eles demonstram uma completa ignora ncia
pelas heresias cientí ficas mais absurdas. Este raciocinara muito sensatamente
sobre um ponto, mas sera irracional sobre outro. Tambe m e assim entre no s:
um astro nomo e instruí do naquilo que diz respeito aos astros, mas pode ser
muito ignorante em arquitetura, em mu sica, pintura, agricultura etc. Tudo isso
denota claramente um desenvolvimento imperfeito, o que na o quer dizer que
ele seja um mau Espí rito.
70 – Allan Kardec
Para julgar os Espí ritos, assim como para julgar os homens, e preciso
primeiramente saber julgar-se a si mesmo. Infelizmente, ha muita gente que
toma sua pro pria opinia o como para metro exclusivo do bem e do mal, do
verdadeiro e do falso; tudo o que contradiga sua maneira de ver, suas ideias e a
teoria que conceberam ou adotaram e mau aos olhos deles. Para essas pessoas
falta evidentemente a qualidade primordial para uma correta apreciaça o: a
retida o do julgamento. Mas eles nem suspeitam disso; esse e o defeito com o
qual os homens mais se iludem.
Acredita-se geralmente que interrogando o Espí rito de um homem que foi
sa bio numa determinada especialidade na Terra seja possí vel obter a verdade
com mais segurança; isto e lo gico, mas nem sempre esta correto. A experie ncia
demonstra que os instruí dos, assim como os outros homens — sobretudo os
que deixaram a Terra ha pouco tempo — ainda esta o sob o impe rio dos
preconceitos da vida corporal; eles na o se despojam imediatamente do espí rito
de sistema. Portanto, pode ser que, sob a influe ncia das ideias que eles
acalentaram em vida, e das quais fizeram para si um tí tulo de glo ria, eles enta o
vejam menos claramente do que imaginamos. Na o damos este princí pio como
uma regra, longe disso: dizemos somente que isso ocorre e que, por
conseque ncia, a sua cie ncia humana nem sempre e uma prova da sua
infalibilidade como Espí ritos. Aqueles que — como muitas vezes acontece —
condenam na condiça o de Espí rito as doutrinas que tinham sustentados como
homens, sempre da o com isso uma prova de elevaça o. Regra geral: o Espírito é
tanto menos perfeito quanto menos ele for desapegado da matéria. Todas
as vezes que nele encontramos a persiste ncia das ideias falsas que o
preocupavam durante sua vida — que elas sejam de ordem fí sica ou de ordem
moral — enta o isso e um sinal infalí vel de que ele na o esta completamente
desmaterializado.
O apega a s ideias terrestres e tanto maior quanto mais recente for a morte.
No instante da morte a alma esta sempre num estado de perturbaça o durante
o qual ela mal se reconhece; é um despertar que não está completo; Eu não
sei onde estou; tudo está confuso para mim, essa e a resposta constante deles;
alguns se queixam de serem incomodados ta o cedo; outros dizem sem rodeios
71 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
para deixa -los tranquilos, e, segundo seu cara ter, expressam essa ideia em
termos mais ou menos urbanos. Muitos na o acreditam que estejam mortos,
principalmente os torturados, os suicidas e em geral aqueles que sofreram uma
morte violenta. Eles veem o corpo deles, sabem que esse corpo lhes pertence e
na o compreendem que estejam separados dele; isso os surpreende; precisam
de algum tempo para se darem conta da sua nova situaça o. Dessa forma, a
evocaça o na o pode ser feita nesse momento a na o ser como objeto de estudos
psicolo gicos, pore m na o e o caso de lhes pedir informaço es.
Semelhante estado de confusa o — que podemos comparar ao estado de
transiça o do sono para a vigí lia — continua por um tempo mais ou menos
longo. Vimos alguns que ficaram completamente desprendidos ao fim de tre s
ou quatro dias, outros que demoraram va rios meses para se desprenderem.
Acompanhamos com interesse a marcha progressiva deles e, de alguma forma,
assistimos ao despertar de sua alma; as questo es que lhes endereçamos — se
forem feitas com moderaça o, prude ncia, ponderaça o e gentileza — ate os
ajudam a se libertarem. Se eles estiverem sofrendo e algue m tem compaixa o de
sua dor, isso os reconforta. Quando a morte e natural — isto e , quando ela chega
pela extinça o gradual das forças vitais — a alma ja esta parcialmente livre antes
da ruptura completa da vida orga nica, e ela se reconhece mais prontamente. E
o mesmo que acontece com os homens que, durante a sua vida, se elevaram
atrave s do pensamento acima das coisas materiais; desde esse mundo, de
alguma forma eles pertencem ao mundo dos Espí ritos; a passagem de um para
o outro mundo se faz rapidamente e a perturbaça o e de curta duraça o.
Uma vez liberta dos seus despojos corporais, a alma se encontra no seu
estado normal: so enta o e que podemos julga -la, porque aí ela mostra
verdadeiramente o que ela e ; suas qualidades e seus defeitos, suas
imperfeiço es, seus preconceitos, suas prevenço es e suas ideias falsas,
mesquinhas ou ridí culas persistem sem modificaça o durante todo o perí odo da
sua vida errante, mesmo que ela seja de mil anos; falta-lhe atravessar uma nova
fase na vida corporal para deixar para tra s algumas de suas impurezas e subir
alguns degraus a mais. No s conhecemos alguns Espí ritos que, apo s 200 anos de
vida errante, ainda te m as manias e mesquinharias de que se conhecia em vida,
72 – Allan Kardec
enquanto outros demonstram quase imediatamente uma grande
superioridade.
A propo sito do estado de transiça o que acabamos de descrever, falamos
de Espí ritos sofredores. Va o perguntar, naturalmente, se esse momento e
doloroso. Na o faz parte do escopo desta obra tratar da questa o do sofrimento
dos Espí ritos, nem tampouco examinar a natureza desse sofrimento; essa
questa o tera o seu lugar na Revista.26 Enta o nos limitaremos a dizer que para o
homem de bem, para quem adormece na paz de uma conscie ncia pura e na o
teme nenhum olhar escrutinador, o despertar e sempre calmo, doce e tranquilo;
ja para aquele cuja conscie ncia esta carregada de ma s aço es, para o homem
material que depositou todas as suas alegrias na satisfaça o de seu corpo, para
quem abusou dos favores que a Provide ncia lhe concedeu, o despertar e
terrí vel. Sim, esses Espí ritos sofrem no instante em que deixam a vida; sofrem
muito e esse sofrimento pode durar tanto quanto sua vida errante; embora esse
sofrimento seja apenas moral, e ainda mais pungente, porque nem sempre lhes
e permitido ver o seu te rmino; eles sofrem ate que um raio de esperança venha
brilhar aos seus olhos, e no s podemos fazer nascer essa esperança conversando
com eles. Boas palavras e demonstraça o de simpatia sa o para eles um alí vio
para o qual podem contribuir os bons Espí ritos que chamamos em nosso
auxí lio para apoiar nossas intenço es. Um suicida evocado pouco tempo depois
da sua morte nos detalhou suas torturas. Perguntaram-lhe: Quanto tempo isso
vai durar? — Eu na o sei de nada, e e isso o que me deixa desesperado! Um
Espí rito superior, que estava presente, disse espontaneamente: “Isso durara ate
o fim natural da vida que ele interrompeu voluntariamente.” O outro
respondeu: — Obrigado, pelo que este que está aí acabou de me ensinar!
Finalizaremos este capí tulo com uma nota essencial: o quadro que
acabamos de traçar na o e o resultado de uma teoria, nem de um sistema
filoso fico mais ou menos engenhoso. Tudo o que dissemos no s o recebemos dos
pro prios Espí ritos; foram eles a quem interrogamos e que muitas vezes nos
responderam de uma maneira contra ria a s nossas convicço es iniciais. Fizemos
com os Espí ritos o que os anatomistas fazem com o corpo humano: pusemos o
26 Referência à Revista Espírita, editada também por Allan Kardec. — N. T.
73 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
escalpelo da investigaça o sobre inu meros assuntos. Na o nos contentamos em
faze -los falar; no s sondamos todos os refolhos de sua existe ncia, pelo menos
tanto quanto isso nos foi possí vel; no s os seguimos desde o instante em que eles
exalaram o u ltimo suspiro da vida corporal, ate o momento em que a ela
retornaram; estudamos sua linguagem, seus comportamentos, seus ha bitos,
suas ideias e seus sentimentos, como o me dico escuta as pulsaço es de um
paciente, e nessa clinica moral onde todas as fases da vida espí rita passaram
sob os nossos olhos, observamos e comparamos; de um lado, vimos feridas
hediondas, mas do outro, vimos tambe m grandes motivos de consolaça o.
Enfatizamos: na o fomos no s que imaginamos todas essas coisas, mas foram os
Espí ritos que se pintaram por eles mesmos. Ora, para quem deseja entrar em
contato com eles, e importante conhece -los bem, a fim de estar em condiço es
de avaliar a situaça o deles e de melhor compreender a sua linguagem, que, sem
isso, poderia a s vezes parecer contradito ria; foi por isso que nos demoramos
um tanto neste capí tulo.
74 – Allan Kardec
CAPÍTULO IV
DIFERENTES MODOS DE
COMUNICAÇÃO
Os Espí ritos podem se comunicar conosco por diversos meios. No s os
definimos no Vocabula rio; aqui, daremos a cada um desses meios as
explicaço es necessa rias para a sua pra tica:
Sematologia e Tiptologia
Inicialmente, usava-se uma mesa para esse meio de corresponde ncia,
apenas porque esse e um objeto conveniente pela facilidade que se tem de
sentar-se ao seu redor e porque foi o primeiro sobre o qual foram produzidos
os movimentos que deram origem a expressa o comum de dança das mesas;
mas e importante saber que, para tal finalidade, uma mesa na o tem mais
influe ncia do que qualquer outro objeto mo vel. Vamos considerar o feno meno
em seu aspecto mais simples.
Se uma pessoa coloca a ponto dos seus dedos sobre a borda de um objeto
circular, mo vel, tal como uma xí cara, um prato, um chape u ou um copo, e que
nessa situaça o ela concentra sua vontade sobre esse objeto para faze -lo se
mover, pode ocorrer que esse objeto se mexa em um movimento rotato rio, a
princí pio lento, depois cada vez mais ra pido, ao ponto de ser difí cil segui-lo. O
objeto virara para a direita ou para a esquerda, conforme a direça o indicada
pela pessoa, verbalmente ou mentalmente. Uma vez estabelecida a ligaça o
75 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
fluí dica entre a pessoa e o objeto, este pode produzir o movimento sem contato,
agindo somente pelo pensamento. Dissemos que isso pode ocorrer porque, de
fato, na o ha uma certeza absoluta desse resultado. Certas pessoas sa o dotadas
de uma tal força nesse sentido que o movimento se produz logo apo s alguns
segundos; outras na o o obte m sena o depois de cinco ou dez minutos; e, enfim,
ha aquelas que nunca obte m absolutamente nada. Fora a experiencia, na o ha
nenhum diagno stico que possa revelar a aptida o para a produça o desse
feno meno; a força fí sica nada tem a ver com isso: as pessoas fra geis e sensí veis
muitas vezes o obte m mais dos que os homens vigorosos. E um teste que cada
um pode fazer sem qualquer perigo, embora a s vezes resulte numa fatiga
muscular muito grande e um tipo de agitaça o febril.
Se a pessoa for dotada de uma pote ncia suficiente, ela podera virar
sozinha uma mesa leve; algumas vezes agir ate sobre uma mesa pesada e
maciça; mas isso requer um poder excepcional.
Para operar mais seguramente sobre uma mesa de um peso considera vel,
coloca-se va rias pessoas ao seu redor; o nu mero e indiferente; na o e necessa rio
alternar os sexos, nem estabelecer um contato entre os dedos dos
participantes; basta po r a ponta dos dedos estirados na borda da mesa, como
nas teclas de um piano; tudo isso na o leva a nenhuma conseque ncia. Por outro
lado, ha outras condiço es essenciais mais difí ceis a cumprir: a concentraça o do
pensamento de todo mundo em vista de se obter um movimento numa direça o
ou em outra, um recolhimento e um sile ncio absoluto, ale m de, sobretudo, uma
enorme pacie ncia. O movimento a s vezes ocorre em cinco ou dez minutos, mas
com freque ncia e preciso se resignar a esperar uma meia-hora ou mais. Se
depois de uma hora na o for obtido nada, sera inu til continuar.
Devemos acrescentar que algumas pessoas sa o antipa ticas ao feno meno,
e que sua influe ncia negativa pode ser exercida somente pelo fato da sua
presença; outras sa o completamente neutras. Em geral, quanto menos
espectadores, melhor sera — seja porque ha menos chances de aí se encontrar
antipatias, seja porque sera mais fa cil haver sile ncio e concentraça o.
O feno meno sempre e provocado pelo efeito da aptida o especial de
algumas pessoas atuantes cuja força e multiplicada pelo nu mero dessas
76 – Allan Kardec
pessoas. Quando a força e suficientemente grande, a mesa na o se limita a girar;
ela se move, se levanta, fica num pe so , se balança como um navio, e chega ate a
se erguer do cha o sem nenhum ponto de apoio. Uma coisa admira vel e que, seja
qual for a inclinaça o da mesa, os objetos que esta o sobre ela permanecem ali, e
que nem mesmo uma lumina ria corre algum risco. Um fato na o menos singular
e que, estando inclinada e enta o apoiada num u nico pe , a mesa pode oferecer
uma resiste ncia tal que o peso de uma pessoa na o e suficiente para baixa -la.
Quando se chega a produzir um movimento ene rgico, o contato das ma os
deixa de ser necessa rio; todos podem se afastar da mesa e ela se dirige a direita,
a esquerda, para frente, para tra s, em direça o a uma determinada pessoa,
levantando-se com um pe ou outro, de acordo com o comando que lhe for dado.
Ate enta o esses feno menos na o te m nenhum cara ter essencialmente
inteligente; mas nem por isso eles deixam de ser curiosos de se observar, como
um produto de uma força desconhecida. Alia s, eles sa o capazes de convencer
certas pessoas que na o seriam convencidas por provas filoso ficas. E o primeiro
passo na cie ncia espí rita que nos conduz muito naturalmente aos meios de
comunicaça o.
O mais simples de todos esses meios e — como no homem privado da fala
ou da escrita — a linguagem dos sinais. Um Espí rito pode comunicar seu
pensamento atrave s do movimento de um objeto qualquer. No s conhecemos
algue m que dialoga com seu Espí rito familiar (o Espí rito de uma pessoa de
quem ele gostava bastante) por meio do primeiro objeto que aparece: uma
re gua, um estilete colocado sobre uma mesa… Ele po e os dedos em cima, e
depois de ter evocado esse Espí rito, a re gua se move a direita ou a esquerda
para dizer sim ou na o, mediante a convença o; indica os nu meros etc. O mesmo
resultado e obtido com uma mesa ou um gueridom;27 estando os dedos
colocados na borda, que seja um so ou va rios, e um tendo sido chamado um
Espí rito, se este estiver presente e se estiver disposto a se revelar, a mesa sobe,
desce, se agita e, por seus movimentos a direita ou a esquerda, ou de ba sculo,
27 Gueridom (guéridon, em francês): espécie de mesa pequena, com tampo arredondado (geralmente de
mármore) e sustentada por um único pé central, tipicamente usado para exposição de objetos (um vaso
de flores, por exemplo) ou para serviço de buffet (iguarias e bebidas). — N. T.
77 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
ela respondera afirmativa ou negativamente. Pela sua trepidaça o, ela expressa
alegria, impacie ncia e ate raiva; algumas vezes ela se vira violentamente ou se
joga sobre um dos assistentes, como se tivesse sido empurrada por uma ma o
invisí vel, e nesses movimentos pode-se reconhecer a expressa o de um
sentimento de afeto ou de antipatia. Um de nossos amigos estava certa noite
num sala o que promovia manifestaço es desse ge nero; ele recebeu uma carta e
enquanto a lia, o gueridom avançou na direça o dele e se aproximou da carta
espontaneamente, sem a influe ncia de ningue m. Terminada a leitura, ele foi
colocar a carta sobre uma mesa no outro lado do sala o; o gueridom o seguiu e
foi se jogar sobre a carta. Ele concluiu daí tratar-se da presença de um Espí rito
rece m-chegado, simpa tico ao autor da carta e que queria se comunicar com ele.
Interrogando-o por meio do seu gueridom, ele confirmou suas previso es. Isso
e o que chamamos de sematologia, ou linguagem dos sinais.
A tiptologia, ou linguagem das batidas, oferece mais precisa o. Ela e obtida
por dois modos diferentes. O primeiro, que chamamos tiptologia por
movimento, consiste em golpes desferidos pela pro pria mesa com um dos seus
pe s. As batidas podem responder sim ou na o, de acordo com o nu mero de
golpes combinados para exprimir um ou o outro. Como podemos imaginar, as
respostas sa o muito incompletas, sujeitas a equí vocos e pouco convincentes
para os novatos, porque sempre podem ser atribuí das ao acaso.
A tiptologia interna e produzida de uma forma totalmente diferente. Ja
na o e mais a mesa que bate; ele permanece completamente imo vel, mas as
batidas ressoam na pro pria substa ncia da madeira, da pedra ou de qualquer
outro objeto, e muitas vezes com bastante força para serem ouvidos de um
co modo vizinho. Se encostarmos o ouvido ou a ma o numa parte qualquer da
mesa, poderemos senti-la vibrar desde os pe s ate a superfí cie. Esse feno meno
e obtido agindo da mesma maneira que para faze -la mover, com a diferença que
o movimento puro e simples pode ocorrer sem evocaça o, ao passo que, para as
batidas, quase sempre e necessa rio chamar um Espí rito.
Reconhece-se nessas pancadas a intervença o de uma intelige ncia porque
elas obedecem ao pensamento. Assim, segundo o desejo exprimido verbal ou
mentalmente, elas mudam de lugar, se fazem ouvir na direça o dessa ou daquela
78 – Allan Kardec
pessoa indicada, fazem uma volta na mesa, batem forte ou fracamente, imitam
o eco, o som da serra, do martelo, do tambor, dos tiros do pelota o, marcando o
ritmo de uma mu sica designada, indicam a hora, o nu mero de pessoas
presentes etc., ou ainda, deixam a mesa e va o se fazer ouvir contra a parede ou
contra a porta, no local determinado; enfim, respondem com sim ou na o a s
perguntas que lhe sa o feitas. Essas experie ncias sa o mais objeto de curiosidade,
que na o trazem comunicaço es se rias. Os Espí ritos que se assim se manifestam
sa o geralmente de uma ordem inferior. Os Espí ritos se rios na o se prestam a
façanhas, assim como entre no s os homens graves na o se prestam a s
brincadeiras dos palhaços. Quando no s os interrogamos a esse respeito, eles
respondem com essa questa o: Sera que, entre voce s, sa o os homens superiores
quem fazem os ursos dançarem? 28
A tiptologia alfabética nos oferecer um meio de corresponde ncia mais
fa cil e mais completo. Ela consiste na designaça o das letras do alfabeto por um
nu mero de batidas correspondente a classificaça o de cada letra, e dessa
maneira se formam as palavras e as frases. Entretanto, por sua lentida o, esse
meio tem o grande inconveniente de na o servir para longas produço es. Mas e
possí vel abreviar um monte de casos: basta muitas vezes conhecer as primeiras
letras para adivinhar o restante da palavra, e enta o na o se deixa termina -la; na
du vida, pergunta-se se e a palavra e a que se supo e, e o Espí rito responde sim
ou na o pelo sinal combinado.
A tiptologia alfabe tica pode ser obtida pelos dois meios que acabamos de
indicar: os golpes batidos na mesa e aqueles que sa o ouvidos na substa ncia do
corpo duro. Para as comunicaço es pouco se rias, preferimos o primeiro, por
duas razo es: uma, e que de alguma forma esse meio e mais maneja vel e esta ao
alcance de um nu mero maior de pessoas; a outra raza o tem a ver com a
natureza dos Espí ritos. Na tiptologia interna, os Espí ritos que se manifestam
28 Pelo contexto, podemos entender que a expressão “fazer ursos dançarem” equivale a algo semelhante
a “divertir os brutos e os ignorantes”, provavelmente inspirada numa famosa citação contida no romance
Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert: “A palavra humana é como um caldeirão rachado no qual
tocamos melodias próprias para fazer os ursos dançarem, quando desejaríamos enternecer as estrelas.”
(“La parole humaine est comme un chaudron fêlé où nous battons des mélodies à faire danser les ours, quand
on voudrait attendrir les étoiles.”). — N. T.
79 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
geralmente sa o aqueles que denominamos batedores: Espí ritos levianos, por
vezes bastante divertidos, pore m sempre muito ignorantes. Eles podem ser os
agentes de Espí ritos se rios conforme as circunsta ncias, mas na maioria das
vezes eles agem espontaneamente e por conta pro pria; enquanto isso, a
experie ncia prova que os Espí ritos das outras ordens se comunicam mais
voluntariamente pelo movimento.
Em todo o caso, a tiptologia alfabe tica e um modo de comunicaça o pelo
qual os Espí ritos superiores se servem a contragosto e unicamente por falta de
um recurso melhor; eles gostam do que se prestam a rapidez do pensamento e,
por causa dessa lentida o, que os impacienta, abreviam suas respostas. Eles ja
acham nossa linguagem demasiadamente lenta, ainda mais quando o meio
contribui para essa lentida o.
Psicografia
A cie ncia espí rita progrediu como todas as outras, e mais rapidamente do
que as outras, pois apenas alguns anos nos separam desses meios primitivos e
incompletos que trivialmente chama vamos de mesas falantes, e agora no s ja
estamos podendo nos comunicar com os Espí ritos ta o fa cil e rapidamente como
os homens o fazem entre si, e isso pelos mesmos meios: a escrita e a fala. A
escrita sobretudo tem a vantagem de mostrar mais materialmente a
intervença o de uma força oculta e de deixar os traços que podem ser
conservados, como no s o fazemos atrave s da nossa pro pria corresponde ncia. O
primeiro modo empregado foi o das pranchetas e das cestas munidas de um
la pis; foram os pro prios Espí ritos que o indicaram. Aqui esta o procedimento.
No s dissemos, no começo deste capí tulo, que uma pessoa dotada de uma
aptida o especial pode provocar um movimento de rotaça o a um objeto
qualquer; tomemos, por exemplo, uma pequena cesta de 15 a 20 centí metros
de dia metro (seja ela de madeira ou de vime, pouco importa, o material e
indiferente). Agora, se pelo fundo dessa cesta fizermos passar um la pis bem
preso, com a ponta de fora e para baixo, e se mantivermos tudo em equilí brio
80 – Allan Kardec
sobre a ponta do la pis, ele pro prio colocado sobre uma folha de papel, enta o,
apoiando os dedos na cesta, ela fara seu movimento; mas em vez de girar como
um pia o, ela conduzira o la pis em diversos sentidos sobre o papel de maneira a
formar desde riscos insignificantes a caracteres de um texto. Se um Espí rito for
evocado e se ele quiser se comunicar, ele respondera , na o mais com sim e na o,
mas por palavras e frases completas. Nesse sistema, o la pis, ao chegar a
extremidade da linha, na o volta sobre si mesmo para começar outra linha; ele
continua circularmente, de tal sorte que a linha escrita forma uma espiral, e e
necessa rio virar o papel va rias vezes para se ler o que esta escrito. O texto
obtido assim nem sempre e muito legí vel, pois as palavras na o ficam bem
separadas; entretanto, por uma espe cie de intuiça o, o me dium facilmente
decifra a escrita. Por uma questa o de economia, pode-se substituir o papel e o
la pis comum por uma lousa e um la pis respectivo. Designaremos essa cesta
pelo nome de cesta-pião.
Diversos outros dispositivos foram imaginados para atender ao mesmo
objetivo. O mais conveniente e aquele que chamaremos de cesta de bico e que
consiste em adaptar a cesta uma haste de madeira inclinada, ultrapassando de
10 a 15 centí metros de um lado, na posiça o do mastro de gurupe s de um navio.
Por um buraco aberto na extremidade dessa haste, ou bico, passa-se um la pis
bastante comprido para que a ponta se apoie sobre o papel. Estando o me dium
com os dedos nas bordas da cesta, o aparelho todo se agita e o la pis escreve
como no caso anterior, mas com a diferença de que geralmente a escrita e mais
legí vel, com as palavras separadas e as linhas na o mais em espiral, agora
seguindo como na escrita comum, ja que o me dium pode facilmente conduzir o
la pis de uma linha a outra. Obte m-se assim dissertaço es de va rias pa ginas ta o
rapidamente como se fossem escritas a ma o.
A intelige ncia que age muitas vezes se manifesta por outros sinais
inequí vocos. Chegando ao fim da pa gina, o la pis faz espontaneamente um
movimento para revirar a folha; quando quer se reportar a um trecho anterior
na mesma pa gina ou noutra, ele o procura com a ponta do la pis — como no s
assim farí amos com o dedo — e depois a sublinha. Se, enfim, o Espí rito quer se
dirigir a um dos assistentes, a extremidade da haste de madeira vira-se para
81 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
esse algue m. Por abreviar, frequentemente ele exprime as palavras sim e não
pelos sinais de afirmaça o e de negaça o que fazemos com a cabeça. De todos os
procedimentos empregados, este e o que da a escrita a maior variaça o, de
acordo com o Espí rito que se manifesta, e frequentemente com a caligrafia igual
a que ele tinha quando era vivo, caso tenha deixado a Terra ha pouco tempo.
No lugar de cesta, algumas pessoas usam um tipo de mesa pequenina,
feita por encomenda, de 12 a 15 centí metros de comprimento por 5
a 6 de altura, com tre s pe s, e um dos quais carrega o la pis. Outras pessoas se
servem simplesmente de uma prancheta sem pe s; numa das bordas fica um
orifí cio para se colocar o la pis; postada para escrever, ela fica inclinada e se
apoia por um dos seus lados sobre o papel; Em suma, concebe-se que todos
esses dispositivos na o te m nada de absoluto; o mais pra tico e o melhor.
Com todos esses aparatos, quase sempre e preciso estar em dupla; mas
na o e necessa rio que a segunda pessoa seja dotada da faculdade mediatriz: ela
serve unicamente para manter o equilí brio e diminuir a fadiga do me dium.
Chamamos psicografia indireta a escrita assim obtida em oposiça o a
psicografia direta ou manual, obtida pelo pro prio me dium. Para entender este
u ltimo processo, e preciso se dar conta do que se passa nessa operaça o. O
Espí rito exterior que se comunica age sobre o me dium; este, sob aquela
influe ncia, conduz maquinalmente o braço e a ma o para escrever, sem ter (pelo
menos e o caso mais comum) a menor conscie ncia do que escreve; a ma o atua
sobre a cesta e a cesta sobre o la pis. Assim, não é a cesta que se torna
inteligente, pois ela e um instrumento guiado por uma intelige ncia; na
realidade, ela na o passa de um porta-la pis, um ape ndice da ma o, um
intermedia rio entre a ma o e o la pis. Suprimam esse intermedia rio e coloquem
o la pis na ma o, e voce s tera o o mesmo resultado, com um mecanismo muito
mais simples, ja que o me dium escreve como o faz nas condiço es normais;
enta o, toda pessoa que escreve com o auxí lio de uma cesta, prancheta ou
qualquer outro objeto, pode escrever diretamente. De todos os meios de
comunicaça o, a escrita a ma o, designada por algumas pessoas pelo nome
escrita involunta ria, e , sem contradiça o, a mais simples, a mais fa cil e a mais
co moda, porque na o exige nenhuma preparaça o e que, como a escrita corrente,
82 – Allan Kardec
serve para os trabalhos mais extensos. Voltaremos a ela quando falarmos dos
me diuns.
A pneumatografia e a escrita direta dos Espí ritos. Quando esse feno meno
apareceu pela primeira vez (pelo menos na nossa e poca, pois nada prova que
ele na o fosse conhecido na Antiguidade e na Idade Me dia, como todos os outros
ge neros de manifestaço es) ele suscitou du vidas muito naturais; mas hoje ele e
um fato patente. Uma pessoa muito confia vel nos afirmou que um co nego de
seus pais, de acordo com o abade Faria,29 obtinha esse tipo de escrita em Paris,
desde o ano de 1804. O Sr. bara o de Guldenstube30 acaba de publicar sobre esse
tema uma obra muito interessante, acompanhada de numerosos auto grafos
dessa escrita.31 De certa forma, foi ele quem a po s em evide ncia, e muitas outras
pessoas depois dele conseguirem os mesmos resultados. No iní cio, colocava-se
uma folha de papel e um la pis sobre um tu mulo, sob a esta tua ou retrato de um
personagem qualquer e, no dia seguinte — muitas vezes, algumas horas depois
— sobre o papel achava-se inscrito um nome, uma frase, por vezes traços
ininteligí veis. Obviamente que nem o tu mulo, nem a esta tua nem o retrato
tiveram qualquer influe ncia por eles mesmos; era simplesmente um meio de
evocaça o pelo pensamento. Agora, basta colocar o papel, com ou sem o la pis,
em uma gaveta ou numa caixa que possa ser fechada a chave, tomando todas as
precauço es necessa rias para evitar qualquer fraude, e assim se obte m o mesmo
resultado evocando o Espí rito.
Esse feno meno e indubitavelmente um dos mais extraordina rios que as
manifestaço es espí ritas apresentam e e um dos que atestam de uma maneira
perempto ria a intervença o de uma intelige ncia oculta; mas ele na o poderia
substituir a psicografia (pelo menos ate agora) para trabalhos que envolvem
certos assuntos. Obte m-se assim a expressa o de um pensamento esponta neo,
29 José Custódio de Faria (1756-1819), conhecido na França como abade Faria, foi um monge de origem
indo-portuguesa que participou de importantes eventos da Revolução Francesa e que mais tarde se
notabilizou como magnetizador. — N. T.
30 Ludwig von Guldenstubbe. (1820-1873) foi um proeminente pesquisador do Magnetismo Animal
(Mesmerismo) e dos fenômenos espirituais. — N. T.
31 La réalité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phénomène de l’écriture directe [A
realidade dos Espíritos e de suas manifestações, demonstrada pelo fenômeno da escrita direta]. — N. T.
83 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
mas nos parece que ele dificilmente va servir para conversaço es e troca ra pida
de ideias que o outro meio proporciona. Esse modo, alia s, e mais raro ser
obtido, ao passo que os me diuns escreventes sa o mais numerosos.
A primeira vista, parece difí cil perceber um fato ta o anormal. Na o cabe em
nosso plano desenvolve -lo aqui, porque para isso seria preciso remontar a fonte
de outros feno menos dos quais ele e uma conseque ncia. Sua explicaça o
completa encontra-se na Revista espírita, e veremos que, por uma deduça o
lo gica, chegamos a ela como um resultado totalmente natural.
Finalmente, os Espí ritos nos transmitem seu pensamento pela voz de
certos me diuns dotados para isso de uma faculdade especial; e o que no s
chamamos de psicofonia. Esse meio tem todas as vantagens da psicografia pela
rapidez e extensa o dos desenvolvimentos. Ele agrada bastante aos Espí ritos
superiores; pore m, para as pessoas que duvidam, tem a desvantagem de na o
demonstrar de uma maneira bastante evidente a intervença o de uma
intelige ncia exterior. Ele e conveniente sobretudo para os que, ja
suficientemente instruí das sobre a realidade dos fatos, o utilizam para o
complemento de seus estudos e na o precisam reforçar sua convicça o.
Acabamos de esboçar os diversos meios de comunicaça o direta com os
Espí ritos; no s os designamos pelos nomes caracterí sticos que abrangem todas
as variedades e ate mesmos todas as nuances, e que assim permitem nos
entendermos, melhor do que com perí frases, que nada tem de exato nem de
meto dico. No começo das manifestaço es, quando tí nhamos ideias menos
precisas sobre esse assunto, va rios textos foram publicados com essa
designaça o:
Comunicaço es de uma cesta, por uma prancheta, pelas mesas falantes etc.
Hoje se compreende o quanto essas expresso es te m de insuficie ncia ou de
erro neo, exceça o feita do seu cara ter pouco se rio. De fato, como acabamos de
ver, as mesas, pranchetas e cestas na o sa o mais do que instrumentos inertes
que na o podem comunicar nada por si so — o que seria tomar o efeito pela
causa, ou tomar o instrumento pelo princí pio, pois tanto faz um autor dizer no
tí tulo da sua obra que ele a escreveu com uma pena meta lica ou com uma pena
de ganso. Esses instrumentos, alia s, na o sa o absolutos; conhecemos algue m que
84 – Allan Kardec
em vez da cesta-pião, que ja descrevemos, se servia de um funil por cujo
gargalo ele passava o la pis. Poderí amos enta o ter tido comunicaço es de um
funil, do assim como de uma caçarola ou de uma saladeira. Se elas ocorrem por
meio de batidas, e essas batidas sa o desferidas por uma cadeira ou uma
bengala, enta o ja na o e mais uma mesa falante, mas uma cadeira ou uma
bengala falante. O que importa saber na o e a natureza do instrumento, e sim o
modo de obtença o. Se a comunicaça o for por escrita, na o importa o que seja o
porta-la pis, para no s isso e psicografia; se for por batidas, e tiptologia. Tomando
as proporço es de uma cie ncia, o espiritismo precisa de uma linguagem
cientí fica.
85 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
CAPÍTULO V
OS MÉDIUNS
Toda pessoa que sente num grau qualquer a influe ncia dos Espí ritos e —
por isso mesmo — um me dium. Esta faculdade e inerente ao homem e, por
conseguinte, na o e um privile gio exclusivo; logo, sa o poucas as pessoas entre as
quais na o encontramos rudimentos dessa faculdade. Pode-se enta o dizer que
quase todo mundo e me dium; todavia, na pra tica, esta qualificaça o na o se aplica
a na o ser a queles em quem a faculdade mediatriz e nitidamente caracterizada
e se traduz por efeitos evidentes de certa intensidade, o que depende enta o de
um organismo mais ou menos sensitivo. E nota vel tambe m que essa faculdade
na o se revela em todos da mesma maneira; os me diuns geralmente te m uma
aptida o especial para esta ou aquela ordem de feno menos — o que estabelece
tantas variedades de me diuns quanto existe de espe cies de manifestaço es
(Veja: Médiuns, no vocabula rio). Entraremos em alguns detalhes sobre aqueles
que podem dar ensejo a observaço es essenciais.
Médiuns de influência física.
Médiuns naturais e Médiuns facultativos
Os me diuns de influe ncia fí sica sa o aqueles que te m uma aptida o mais
especial para a produça o dos feno menos materiais. E nessa classe que se
encontram principalmente os Médiuns naturais, aqueles cuja influe ncia e
exercida sem que eles saibam. Eles na o te m nenhuma conscie ncia do pro prio
poder e muitas vezes o que se passe de anormal ao redor deles na o lhes parece
86 – Allan Kardec
nada extraordina rio; faz parte deles mesmos, absolutamente como as pessoas
dotadas da segunda vista e que na o se da o conta disso. Sa o sujeitos muito
dignos de observaça o e na o podemos deixar de coletar e estudar os fatos desse
ge nero que possam vir ao nosso conhecimento; eles se manifestam em todas as
idades e frequentemente em crianças muito pequenas.
Esta faculdade na o e em si mesma o indí cio de um estado patolo gico, pois
na o e incompatí vel com uma sau de perfeita. Se aquele que a possui esta
sofrendo, isso e devido a uma causa estranha; sendo assim, os meios
terape uticos sa o impotentes para faze -la parar. Em alguns casos, ela pode ser
conseque ncia de uma debilidade orga nica, pore m nunca e uma causa efetiva.
Na o seria razoa vel, pois, conceber qualquer preocupaça o com ela do ponto de
vista da sau de; esta faculdade so poderia ser inconveniente se o sujeito,
tornando-se me dium facultativo, fizesse dela um uso abusivo, porque enta o
haveria nele uma emissa o excessivamente abundante de fluido vital e,
consequentemente, o enfraquecimento dos o rga os.
E preciso se precaver sobretudo contra qualquer experimentação física,
sempre prejudicial aos organismos sensitivos, pois e aí que esta o perigo: isso
poderia resultar em graves desordens na sau de. A raza o se revolta a ideia das
torturas morais e corporais a s quais algumas vezes eram submetidos os seres
fracos e delicados para se certificar de que na o havia fraude da parte deles;
fazer semelhantes experie ncias e brincar com a vida. O observador de boa-fe
na o tem necessidade de empregar esses meios; aquele que esta familiarizado
com esses tipos de feno menos sabe ale m disso que eles pertencem mais a
ordem moral do que a ordem fí sica, e que seria inu til procurar uma soluça o
para eles nas nossas cie ncias exatas.
Ja que esses feno menos te m relaça o com a ordem moral, deve-se evitar
com um cuidado na o menos escrupuloso tudo o que possa superexcitar a
imaginaça o. Conhecemos os acidentes que o medo pode causar e seria menos
imprudente se conhece ssemos todos os casos de loucura e de epilepsia que se
originam dos contos de lobisomem e do bicho-papa o; como seria enta o se
estive ssemos convencidos de que e o diabo? Os que apoiam tais ideias na o
sabem a responsabilidade que assumem: eles podem matar. Ora, o perigo na o
87 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
e so para o sujeito, mas tambe m para os que o cercam e que podem ficar
aterrorizados com a ideia de que sua casa seja um covil de demo nios. Foi esta
crença funesta que causou tantos atos de atrocidade nos tempos de ignora ncia.
Com um pouco mais de discernimento, pois, teria sido possí vel imaginar que ao
queimar corpos supostamente possuí dos pelo diabo na o estariam queimando
o pro prio diabo. Se queriam se livrar do diabo, era ele quem deveria ser morto.
Esclarecendo-nos sobre a verdadeira causa de todos esses feno menos, a
doutrina espí rita lhe da o golpe final. Portanto, longe de promover essa ideia,
devemos enta o — e este e um dever de moralidade e de humanidade —
combate -lo onde quer que exista.
O que e preciso fazer quando uma faculdade semelhante se desenvolve
espontaneamente num indiví duo e deixar o feno meno seguir seu curso natural:
a natureza e mais prudente do que os homens; ale m disso, a Provide ncia tem
seus desí gnios, e o pequenino pode ser o instrumento dos maiores propo sitos.
Pore m, e preciso convir, esse feno meno algumas vezes assume proporço es
fatigantes e importunas para todo mundo; enta o, aqui esta o que deve ser feito
em todos os casos.32 Partindo desse princí pio de que as manifestaço es fí sicas
esponta neas tiveram como objetivo chamar nossa atença o para alguma coisa,
devemos procurar conhecer esse objetivo, e para isso e preciso interrogar o Ser
invisí vel que quer se comunicar. No s ja demos uma explicaça o sobre esse
assunto no capí tulo das manifestaço es. Ele pode querer alguma coisa para si
mesmo ou para a pessoal a qual ele se manifesta; em ambos os casos, e prova vel
que, como ja dissemos, se ele estiver satisfeito, cessara suas visitas. Eis, enfim,
32 Um dos acontecimentos mais extraordinários dessa natureza, pela variedade e estranheza dos
fenômenos, é incontestavelmente o que ocorreu em 1852 no Palatinado (Baviera renana), em Bergzabern,
perto de Wissembourg. É tanto mais notável porque reúne num mesmo sujeito quase todos os gêneros
de manifestações espontâneas: ruídos a sacudir a casa, reviravoltas nos móveis, objetos atirados ao longe
por uma mão invisível, visões e aparições, sonambulismo, êxtase, catalepsia, atração elétrica, gritos e sons
aéreos, instrumentos tocando sem contato, comunicações inteligentes etc., e, o que não é de pouca
importância, a constatação desses fatos, durante quase dois anos, por inúmeras testemunhas oculares
dignas de crédito pelo seu conhecimento e pela sua posição social. O relato autêntico foi publicado
naquela época em vários jornais alemães e, em particular, numa brochura hoje esgotada e muito rara. A
tradução completa desta brochura encontra-se na Revista espírita de 1858, com os comentários e
explicações necessárias. Pelo que sabemos, esta é a única publicação francesa que foi feita sobre o caso.
Além do notável interesse ligado a estes fenômenos, eles são eminentemente instrutivos do ponto de vista
do estudo prático do espiritismo.
88 – Allan Kardec
outro meio — igual ao precedente — fundamentado nas observaço es dos fatos.
Os Seres invisí veis que revelam sua presença por efeitos sensí veis sa o
geralmente Espí ritos de uma ordem inferior e que podem ser dominados pelo
ascendente moral; e essa ascende ncia que devemos buscar adquirir. Longe de
nos mostrarmos submissos aos caprichos deles, devemos nos opor a s suas
vontades e lhes obrigar a obedecer — o que na o nos impede de sermos
condescendentes com todos os pedidos justos e legí timos que eles possam
fazer. Tudo depende enta o da natureza do Espí rito que se comunica; ele pode
ser inferior e ao mesmo tempo gentil e vir com uma boa intença o; e disso que
precisamos nos assegurar, e o que facilmente reconheceremos atrave s das
comunicaço es dele; mas na o lhe perguntem se ele e um bom Espí rito; seja como
for, a resposta e certa; teria o mesmo valor que perguntar a um patife se ele e
um homem honesto.
Para obter essa superioridade, e preciso que o sujeito passe do estado de
médium natural ao de médium facultativo. Produz-se enta o o efeito igual ao
que acontece no sonambulismo. Sabe-se que o sonambulismo natural cessa
geralmente quando e substituí do pelo sonambulismo magne tico. Na o se
bloqueia a faculdade emancipadora da alma; da -se outro curso a ela. E a mesma
coisa da faculdade mediatriz. Para tanto, ao inve s de entravar os feno menos —
coisa que raramente se consegue e que nem sempre deixa de ser um perigo —
e preciso encorajar o me dium a produzi-los a vontade, impondo-se ao Espí rito;
dessa forma, ele consegue controla -lo e, de um dominador a s vezes tira nico, faz
dele um ser subordinado e por vezes muito do cil. Um fato digno de nota e
confirmado pela experie ncia e que num caso assim uma criança tem igual e a s
vezes ate mais autoridade do que um adulto: mais uma prova em apoio a este
ponto capital da doutrina, que o Espí rito so e infantil pelo corpo, e que ele tem
por si mesmo um desenvolvimento necessariamente anterior a sua encarnaça o
atual, desenvolvimento que pode lhe dar ascende ncia sobre os Espí ritos que lhe
sa o inferiores.
89 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Médiuns facultativos
Os me diuns facultativos sa o aqueles que te m a conscie ncia de seu poder e
que produzem feno menos espí ritas pela aça o de sua vontade. Essa faculdade
— embora seja inerente a espe cie humana, como ja dissemos — esta longe de
existir em todos no mesmo grau; mas se ha poucas pessoas em quem ela seja
absolutamente nula, ainda mais raras sa o aquelas que esta o aptas a produzir
grandes efeitos, tais como a suspensa o de corpos pesados no espaço, a
translaça o ae rea e sobretudo as apariço es. Os efeitos mais simples sa o a rotaça o
de um objeto, batidas pelo levantamento desse objeto ou na sua pro pria
substa ncia. Mesmo sem darmos uma importa ncia capital a esses feno menos,
recomendamos na o os desprezar, pois eles podem proporcionar a observaço es
interessantes e ajudar a convicça o.33 Pore m e de se notar que a capacidade de
produzir efeitos materiais raramente existe nos que dispo em de meios de
comunicaça o mais perfeitos, tais como a escrita e a palavra; geralmente ela
diminui num sentido a medida que se desenvolve em outro.
Médiuns escreventes ou psicógrafos
De todas as formas de comunicaça o, a escrita e a mais simples, a mais
co moda e sobretudo a mais completa. E para ela que devemos dedicar todos os
esforços, pois ela permite estabelecer com os Espí ritos relaço es ta o
consecutivas e ta o regulares quanto as que existem entre no s. Devemos nos
apegar a ela ainda mais porque e dessa forma que os Espí ritos revelam melhor
sua natureza e seu grau de perfeiça o ou inferioridade. Pela facilidade que eles
te m de se exprimir, eles nos revelam seus pensamentos mais í ntimos e assim
nos permitem julgar e apreciar o seu valor.
A faculdade de escrever, para o me dium, e tambe m a mais possí vel de ser
desenvolvida pelo exercí cio. No capí tulo sobre os modos de comunicaça o, no s
33 A explicação dessa teoria encontra-se na Revista espírita, edições de maio e junho de 1868.
90 – Allan Kardec
explicamos as diversas maneiras de se obter a escrita; no s vimos que a cesta e
a prancheta apenas representam o papel da extensa o da ma o: e um porta-la pis
mais alongado, eis tudo; conseguirí amos tudo isso simplesmente colocando o
la pis na ponta de um basta o. Aqueles aparelhos te m a vantagem de dar uma
escrita mais caracterí sticas do que a que fosse obtida com a ma o, mas eles te m
a desvantagem de quase sempre exigir a cooperaça o de uma pessoa — o que
pode ser um incomodo. E por isso que encorajamos todos a se dedicarem
preferencialmente a escrita imediata. O procedimento e mais simples: consiste
unicamente em pegar la pis e papel, e se colocar na posiça o de uma pessoa que
escreve, sem outra preocupaça o; mas, para ter sucesso, va rias recomendaço es
sa o indispensa veis:
Como definitivamente e pela influe ncia de um Espí rito que se escreve, esse
Espí rito na o vira ta o logo for chamado. Portanto, e necessa rio evoca -lo pelo
pensamento, em nome de Deus, e lhe pedir que tenha a bondade de vir se
comunicar. Na o ha aqui nenhuma fo rmula sacramental; qualquer um que
pretendesse receitar uma alguma seguramente pode ser tachado de
mistificador: o pensamento e tudo; a forma na o vale nada. Na o menos
necessa rio e chamar um Espí rito que seja simpa tico, e isso por duas razo es:
uma e que ele vira com mais boa vontade se tiver afeiça o por no s; a outra e que,
em raza o dessa afeiça o, ele estara mais disposto a ajudar nossos esforços para
se comunicar conosco; enta o, preferencialmente sera um parente ou um amigo;
mas pode acontecer que esse parente ou amigo na o esteja numa posiça o de
poder atender ao nosso apelo, ou que na o tenha força o bastante para nos fazer
escrever; eis por que e sempre u til evocar juntamente o Espí rito familiar, seja
quem for, sem a necessidade de saber seu nome, porque este sempre esta ao
nosso lado. Logo, de duas, uma: ou e ele quem responde ou ele vai buscar o
outro, e em todos os casos ele presta seu apoio.
Uma coisa negligenciada por quase todos os iniciantes e fazer uma
pergunta; e o bvio que o Espí rito evocado na o pode responder se nada lhe for
perguntado. Sem du vidas ele poderia dizer qualquer coisa espontaneamente,
como acontece a todo instante com os me diuns experientes; mas com aquele
que esta nos seus primo rdios, o Espí rito tem primeiro uma dificuldade
91 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
meca nica a vencer. Devemos, pois, simplificar tanto quanto possí vel; esse e o
efeito produzido por uma pergunta que leva a uma resposta precisa. Para
começar terí amos o cuidado de formular a questa o de tal maneira que a
resposta seja simplesmente sim ou não; mais tarde, esta precauça o deixa de
ser u til. A natureza da questa o e indiferente; na o e necessa rio que ela tenha em
si mesma uma importa ncia real; ao contra rio, quanto mais simples ela for,
melhor. A princí pio, trata-se ta o somente de se estabelecer uma relaça o; o
essencial e que a pergunta na o seja fu til, que na o trate de coisas de interesse
privado e sobretudo que ela seja a expressa o de um sentimento benevolente e
simpa tico com o Espí rito ao que e endereçada.
Uma coisa na o menos necessa ria e a calma e a concentraça o unidas a um
desejo ardente e a uma firme vontade de alcançar o objetivo; e por vontade, na o
entendemos aqui uma vontade passageira que age esporadicamente e que a
cada minuto e interrompida por outras preocupaço es; mas sim uma vontade
paciente, perseverante, sustentada pela prece que dirigimos ao Espí rito
evocado. A concentraça o e favorecida pelo recolhimento, pelo sile ncio e o
afastamento de tudo o que possa causar distraço es. Logo, so resta uma coisa a
fazer: esperar sem desanimar e renovar todos os dias as suas tentativas,
durante dez ou quinze minutos no ma ximo a cada vez, e isso durante quinze
dias, um me s, dois meses ou mais, se for preciso; por isso dissemos que era
preciso uma vontade firme e perseverante; eis por que tambe m os Espí ritos
consultados sobre a aptida o dessa ou daquela pessoa quase sempre dizem: com
vontade voce s conseguira o. E possí vel, pois, que se consiga na primeira vez,
como e possí vel tambe m que demore mais ou menos um longo tempo; pore m,
em todos os casos, se ao fim de tre s meses na o for obtido absolutamente nada,
sera praticamente inu til insistir.
E nota vel que, quando se interroga os Espí ritos sobre a questa o de saber
se algue m e me dium ou na o, eles respondem quase sempre afirmativamente —
o que na o impede que os ensaios muitas vezes sejam infrutí feros. Isso se explica
naturalmente: ao fazermos uma pergunta gene rica a um Espí rito, ele responde
de uma maneira gene rica; ora, como no s sabemos, nada e mais flexí vel do que
a faculdade mediatriz, pois ela pode se apresentar sob as mais variadas formas
92 – Allan Kardec
e em graus muito diferentes. Portanto, uma pessoa pode ser me dium sem se
aperceber disso e num sentido que na o e aquele que imaginamos. A esta
pergunta vaga: “Sera que eu sou me dium?”, o Espí rito pode responder que sim;
a esta outra mais precisa: “Eu sou um me dium escrevente?”, ele pode responder
que na o. E preciso ter em conta tambe m a natureza do Espí rito a quem
interrogamos; ha os que sa o ta o levianos e ignorantes que respondem a torto e
a direito, como verdadeiros atordoados.
Um me todo que geralmente da muito certo — seja para acelerar o
resultado, seja mesmo para fazer uma pessoa escrever, sendo que sem isso ela
na o conseguiria — consiste em empregar como um auxiliar tempora rio um
bom me dium escrevente ou um outro, ja experiente. Quando ele po e a ma o ou
os dedos sobre a ma o de quem deseja escrever, e raro que este u ltimo na o
escreva imediatamente. Compreende-se o que acontece em tal circunsta ncia: a
ma o que segura o la pis de alguma forma se torna uma extensa o da ma o do
me dium, como se fosse uma cesta ou uma prancheta; mas isso na o impede que
esse exercí cio seja muito u til, quando se pode emprega -lo, no sentido de que,
repetido sequencial e regularmente, ele ajuda a superar o obsta culo fí sico e
provoca o desenvolvimento da faculdade. Algumas vezes, basta apenas que ele
magnetize fortemente com essa intença o o braço e a ma o daquele que quer
escrever; na o raro o magnetizador se limita mesmo a colocar sua ma o no ombro
dele, e enta o temos visto o principiante escrever prontamente sob essa
influe ncia. O mesmo efeito pode se produzir igualmente sem nenhum contato,
so pelo ato da vontade; nesse caso, e preciso estimular os esforços do Espí rito,
encorajando-o pela palavra. Concebe-se sem dificuldade que a confiança do
magnetizador na sua pro pria força para produzir tal resultado deva aqui
desempenhar um papel importante, e que um magnetizador incre dulo teria
pouca, sena o nenhuma aça o.
A força que permite desenvolver nos outros a faculdade de escrever
constitui uma variedade de me diuns que denominamos médiuns formadores;
e o que talvez va parecer estranho e que ela existe nas pessoas que na o
escrevem por si mesmas. Seu auxí lio muitas vezes e u til aos iniciantes, mesmo
com relaça o a queles que te m uma aptida o natural; ha uma porça o de pequenas
93 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
precauço es que ele frequentemente negligencia em detrimento da rapidez do
seu progresso, e que um guia experimentado aponta — seja pela disposiça o
fí sica, seja sobretudo pela natureza das primeiras questo es e a maneira de as
formular. Seu papel e o de um professor que o aprendiz dispensa quando ja esta
ha bil o bastante.34
A fe do me dium aprendiz na o e uma condiça o rigorosa; ela sem du vida
auxilia os esforços, mas na o e indispensa vel: o desejo e a boa vontade bastam.
Te m-se visto pessoas inteiramente incre dulas ficarem espantadas de escrever
a contragosto, enquanto crentes sinceros na o conseguem o mesmo — o que
prova que esta capacidade depende de uma predisposiça o orga nica.
Como disposiça o material, no s recomendamos evitar tudo o que possa
dificultar a livre movimentaça o da ma o; e ate preferí vel que ela na o fique
totalmente apoiada sobre o papel. A ponta do la pis deve encostar o suficiente
para rabiscar, mas na o o bastante para oferecer resiste ncia. Todas essas
precauço es se tornam inu teis uma vez que se tenha chegado a escrever
fluentemente, pois enta o nenhum obsta culo pode mais dete -lo; sa o so
preliminares para o aprendiz.
O primeiro indí cio de uma disposiça o para escrever e uma espe cie de
estremecimento no braço e na ma o; pouco a pouco, a ma o e tomada por uma
impulsa o que ela na o pode conter. Muitas vezes ela inicialmente na o rabisca
sena o traços insignificantes; depois, os caracteres se desenham cada vez mais
nitidamente e a escrita acaba adquirindo a rapidez da escrita comum. Em todos
os casos, deve-se entregar a ma o ao seu movimento natural e na o fornecer nem
resiste ncia nem propulsa o.
A escrita algumas vezes e bem legí vel, as palavras e as letras perfeitamente
destacadas; mas com determinados me diuns ela e difí cil de ser decifrada por
outro que na o seja aquele que escreve: e preciso se acostumar com ela. Muito
frequentemente ela e formada de grandes traços; os Espí ritos sa o pouco
econo micos com papel. Quando uma palavra ou uma frase e quase toda ilegí vel,
34 Teremos o prazer em dar pessoalmente, e sem interesse, todas as vezes que nos for possível, os
conselhos de nossa experiência às pessoas que desejarem se formar como médiuns escreventes, quando
eles já tiverem adquirido previamente o conhecimento teórico da ciência espírita, e isso a fim de não ter
que lhes ensinar os fundamentos desta ciência.
94 – Allan Kardec
pede-se ao Espí rito a bondade de recomeçar, o que geralmente ele faz com boa
vontade. Quando a escrita e habitualmente ilegí vel mesmo para o me dium, este
quase sempre consegue obter uma mais ní tida atrave s de exercí cios frequentes
e sucessivos, colocando nisso uma forte vontade e rogando com fervor ao
Espí rito que ele escreva mais legí vel. Se quiser guardar as respostas, e bom
transcreve -las imediatamente, assim como as questo es, enquanto ainda
estiverem na memo ria, porque mais tarde provavelmente isso se torne
impossí vel. Certos Espí ritos, antes de começar uma resposta, executam a ma o
diversos desenvolvimentos e traçam um monte de riscos insignificantes; eles
dizem que e para treinar, para desatar a ma o ou para estabelecer a conexa o; a s
vezes sa o emblemas, alegorias das quais em seguida eles da o a explicaça o. Com
freque ncia eles adotam sinais convencionais para expressar certas ideias, que
passam a ser usados nas reunio es habituais. Para indicar que uma questa o lhes
desagrada e que na o a querem responder, eles fazem, por exemplo, um risco
longo ou algo equivalente.
Quando o Espí rito termina o que tinha a dizer ou na o quer mais responder,
a ma o fica imo vel e o me dium — quaisquer que sejam sua força e sua vontade
— na o consegue obter nenhuma palavra a mais; e um sinal de que o Espí rito se
foi. Ao contra rio, enquanto o Espí rito na o terminar, o la pis se move sem que a
ma o consiga para -lo. Se o Espí rito quer espontaneamente dizer alguma coisa, a
ma o toma convulsivamente o la pis e se po e a escrever sem poder fazer
oposiça o.
Estas sa o as explicaço es mais essenciais que temos a dar no tocante ao
desenvolvimento da psicografia; a experie ncia mostrara na pra tica alguns
detalhes que seria inu til relatar aqui, e para os quais nos guiaremos atrave s dos
princí pios gerais. Que muitos experimentem, e dificilmente se encontrara uma
famí lia que na o tenha entre alguns dos seus membros um me dium escrevente,
mesmo que seja uma criança.
Todo aquele que recebeu o dom de escrever com facilidade sob a
influe ncia dos Espí ritos possui uma faculdade preciosa, pois se torna o
inte rprete entre o mundo visí vel e o mundo invisí vel; quase sempre e uma
missa o que ele recebeu em favor do bem, mas da qual ele na o deve se orgulhar,
95 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
porque essa faculdade lhe pode ser retirada se ele fizer mau uso dela, ou ate
mesmo voltar-se contra ele, no sentido de que ele escrevera coisas ma s e enta o
so tera a sua disposiça o os Espí ritos maus. Aquele que, apesar dos seus esforços
e de sua perseverança, na o consegue obte -la na o deve concluir com isso nada
desfavora vel contra si mesmo: e porque a seu organismo fí sico na o se presta a
isso, mas nem por isso ele fica deserdado das comunicaço es espí ritas; se na o as
recebe diretamente, ele pode obte -las — ta o belas e ta o bene ficas — atrave s de
um intermedia rio. Ale m disso, em compensaça o, ele pode ter outras faculdades
na o menos u teis. A privaça o de um sentido e quase sempre compensada por
outro sentido mais desenvolvido.
96 – Allan Kardec
CAPÍTULO VI
PAPEL E INFLUÊNCIA DO
MÉDIUM NAS MANIFESTAÇÕES
Para se compreender o papel dos me diuns nas manifestaço es, e preciso
entender a maneira como se opera a transmissa o do pensamento dos Espí ritos.
Aqui estamos falando dos me diuns escreventes.
Como ja dissemos, o Espí rito tem um envolto rio semimaterial que no s
nomeamos perispí rito. O fluido condensado — por assim dizer, ao redor do
Espí rito, para formar esse envolto rio — e o intermedia rio pelo qual ele atua
sobre os corpos; ele e o agente da sua força material, e e atrave s dele que o
Espí rito produz os feno menos fí sicos.
Se examinarmos certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa,
da cesta, ou da prancheta que escreve, enta o na o poderemos duvidar de uma
aça o exercida diretamente pelo Espí rito sobre esses objetos. A cesta se agita a s
vezes com tanta viole ncia que ela escapa das ma os do me dium; algumas vezes
ela ate se dirige a certas pessoas da reunia o para bater nelas; em outras
ocasio es, seus movimentos demonstram um sentimento afetuoso. A mesma
acontece quando o la pis esta na ma o do me dium; com freque ncia e atirado
longe com força, ou enta o a pro pria ma o, assim como a cesta, agita-se
convulsivamente e bate na mesa com raiva, mesmo quando o me dium esta na
maior calma, e fica admirado de na o ser senhor de si. Digamos, de passagem,
que esses efeitos denotam sempre a presença de Espí ritos imperfeitos; os
Espí ritos realmente superiores sa o constantemente calmos, dignos e
bene volos; se na o sa o escutados convenientemente, eles se retiram, e outros
97 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
tomam o lugar deles. Portanto, o Espí rito pode expor suas ideias diretamente
pelo movimento de um objeto para o que a ma o do me dium na o passa de apoio;
ele tambe m pode fazer isso sem que esse objeto esteja em contato com o
me dium.
A transmissa o do pensamento tambe m se efetua atrave s do Espí rito do
me dium, ou melhor, da sua alma, porque designamos por esse nome o Espí rito
encarnado. Neste caso, o outro Espí rito na o atua sobre a ma o para faze -la
escrever, como na o atua sobre a cesta; ele na o a toma e nem a guia, mas atua
sobre a alma com a qual ele se identifica. A alma, sob essa impulsa o, dirige a
ma o por meio do fluido que compo e seu pro prio perispí rito, a ma o dirige a
cesta e a cesta dirige o la pis. Notemos aqui uma coisa importante a saber: e que
o outro Espí rito na o substitui a alma, pois ele na o pode desloca -la; ele a domina,
a revelia dela, e lhe imprime a sua vontade. Quando dizemos a revelia dela, no s
estamos querendo dizer da alma agindo externamente pelos o rga os do corpo;
mas a alma, como Espí rito, ainda que encarnada, pode perfeitamente ter
conscie ncia da aça o exercida sobre ela por um Espí rito exterior. Nessa
circunsta ncia, o papel da alma por vezes e inteiramente passivo, e enta o o
me dium na o tem nenhuma conscie ncia do que escreve ou do que diz, se for um
me dium falante; pore m, ocasionalmente a passividade na o e absoluta, pois ele
tem uma conscie ncia mais ou menos vaga dessa aça o, embora sua ma o esteja
sendo levada por um movimento maquinal e sua vontade permaneça alheia.
Mas, se assim for, ira o dizer que nada prova que seja mesmo um Espí rito
exterior quem escreve e na o o Espí rito do me dium. Aqui e o caso de revelar um
erro compartilhado por algumas pessoas. No s enta o diremos que pode ocorrer
da alma do me dium se comunicar da mesma forma que um Espí ritos exterior;
e isso e facilmente concebí vel. Pois ja que podemos evocar o Espí rito de pessoas
vivas, ausentes ou presentes, e que esse Espí rito se comunica pela escrita ou
pela palavra do me dium, enta o por que o Espí rito encarnado no me dium na o
poderia igualmente se comunicar? Os fatos provam que em determinadas
circunstancias isso acontece — como no sonambulismo, por exemplo. Daí
segue que a comunicaça o feita pela alma do me dium tem menos valor?
Absolutamente na o. O Espí rito encarnado no me dium pode ser mais elevado do
98 – Allan Kardec
que alguns Espí ritos estranhos e enta o pode dar comunicaço es melhores: cabe
a no s julgarmos; nesse caso, ele fala como Espí rito desprendido da mate ria, e
na o como homem. A questa o a saber e se na o e sempre o Espí rito do me dium
quem esta emitindo seus pro prios pensamentos assim como alguns afirmam.
Essa opinia o absoluta e um sistema que so pode vir de uma observaça o
incompleta; por isso e sempre perigoso levantar teorias sobre coisas que na o
conhecemos profundamente ou das quais so pudemos ver um lado. Ha casos,
sem du vidas, em que a intervença o de um Espí rito exterior na o e incontesta vel,
mas basta que, em alguns, ela seja evidente para concluirmos que outro Espí rito
— que na o seja o do me dium — pode se comunicar. Ora, essa intervença o
externa na o poderia ser duvidosa quando, por exemplo, uma pessoa que na o
sabe ler nem escrever, de repente, escreva como me dium; quando um me dium
escreve ou fala uma lí ngua que ele na o conhece; quando, enfim, o que e o caso
mais comum, ele na o tem nenhuma conscie ncia do que escreve, que as ideias
ele que expressa sa o contra rias a sua maneira de ver, esteja fora dos seus
conhecimentos ou acima do alcance de sua intelige ncia. Sobre este u ltimo caso,
a experie ncia da provas ta o numerosas e ta o palpa veis que a du vida deixa de
ser permitida a quem tenha observado bastante, e sobretudo observado bem.
Seja qual for, portanto, o modo de aça o do Espí rito exterior para a
produça o da escrita, ou pela expressa o do pensamento pela palavra, o me dium
nunca passa de um instrumento, mas um instrumento mais ou menos co modo.
Isso nos da o ensejo de fazer uma observaça o importante que respondera
a quela questa o natural: por que todos os me diuns na o escrevem em todas as
lí nguas que eles desconhecem?
Sem du vida, o Espí rito comunicante compreende todas as lí nguas, pois as
lí nguas sa o a expressa o do pensamento, e que o Espí rito compreende pelo
pensamento; mas, para exprimir esse pensamento, falta-lhe um instrumento:
esse instrumento e o me dium. A alma do me dium que recebe a comunicaça o
exterior na o pode transmiti-la sena o pelos o rga os do corpo; ora, esses o rga os
na o podem ter para uma lí ngua desconhecida a flexibilidade que eles te m para
uma lí ngua que lhes e familiar. Um me dium que so saiba france s poderia
ocasionalmente dar uma resposta em ingle s, por exemplo, se o Espí rito assim
99 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
quiser fazer; mas os Espí ritos — que ja acham a linguagem humana muito lenta,
em comparaça o a rapidez do pensamento, tanto que eles a abreviam o quanto
podem — ficam impacientes com a resiste ncia meca nica que eles enfrentam;
daí por que nem sempre o fazem. Essa tambe m e a raza o pela qual um me dium
noviço — que escreve mal e lentamente, mesmo na sua lí ngua nativa —
geralmente na o obte m mais do que respostas breves e sem desenvolvimento;
por isso os Espí ritos recomendam que so façam perguntas simples por seu
interme dio. Para aquelas de um grande alcance, e preciso um me dium
experiente que na o ofereça nenhuma dificuldade meca nica ao Espí rito. No s na o
tomarí amos para ser nosso leitor um estudante que mal sabe soletrar. Um bom
opera rio na o gosta de se servir de maus instrumentos. Acrescentemos outra
consideraça o de uma gravidade muito grande no que se refere a s lí nguas
estrangeiras: os ensaios deste ge nero sa o sempre feitos com um objetivo de
curiosidade e de experimentaça o; ora, nada mais antipa tico aos Espí ritos do
que as provas a s quais tentem submete -los. Os Espí ritos superiores jamais se
sujeitam a isso, e se afastam logo que se pretenda entrar por esse caminho.
Tanto eles se comprazem com as coisas u teis e se rias quanto eles repugnam ter
que se ocuparem com coisas fu teis e sem finalidade. Os incre dulos dira o que e
para se convencerem, e que esse propo sito e u til, ja que isso pode ganhar
adeptos para a causa dos Espí ritos. A isto os Espí ritos respondem: “A nossa
causa na o precisa dos que te m orgulho o bastante para se suporem
indispensa veis; no s chamamos para no s aqueles que nós queremos, e estes
sa o quase sempre os mais pequeninos e os mais humildes. Jesus fez os milagres
que os escribas lhe pediam? E de que homens ele se serviu para revolucionar o
mundo? Se quiserem se convencer, voce s te m outros meios que na o o de
façanhas; comecem primeiramente por se submeterem: na o e correto que o
discí pulo imponha sua vontade ao mestre.”
Daí decorre que, salvo algumas exceço es, o me dium repassa o pensamento
dos Espí ritos pelos meios meca nicos que esta o a sua disposiça o, e que a
expressa o desse pensamento pode — e deve, na maioria das vezes — ser
afetada pela imperfeiça o desses meios; sendo assim, o homem inculto, o
100 – Allan Kardec
campone s,35 poderia dizer as mais belas coisas, expressar as mais elevadas e as
mais filoso ficas ideias, falando como campone s; para os Espí ritos o pensamento
e tudo e a forma na o vale nada. Isso responde a s objeço es de alguns crí ticos a
respeito das incorreço es de estilo e de ortografia que podem ser atribuí das aos
Espí ritos, mas que podem vir tanto do me dium como do Espí rito. So ha
futilidade em se apegar a essas coisas.
Se, do ponto de vista da execuça o, o me dium e na o e mais do que um
instrumento, noutro aspecto ele exerce uma influe ncia muito grande. Ja que,
para se comunicar, o Espí rito externo se identifica com o do me dium, essa
identificaça o so pode ocorrer enquanto houver entre eles alguma simpatia e,
por assim dizer, afinidade. A alma exerce sobre o outro Espí rito uma espe cie de
atraça o ou repulsa o conforme o grau de sua semelhança ou dissimilaridade;
ora, os bons te m afinidade com os bons, e os maus com os maus; daí segue que
as qualidades morais do me dium te m uma influe ncia capital sobre a natureza
dos Espí ritos que se comunicam por seu interme dio. Se ele for vicioso, os
Espí ritos inferiores vira o se agrupar em torno dele e estara o sempre prontos
para ocupar o lugar dos Espí ritos bons que foram chamados. As qualidades que
atraem os bons Espí ritos sa o: bondade, gentileza, simplicidade de coraça o,
amor ao pro ximo e desapego das coisas materiais; os defeitos que os repulsam
sa o: o egoí smo, a inveja, o ciu me, o o dio, a gana ncia, a sensualidade e todas as
paixo es pelas quais o homem se prende a mate ria. Um meio por excele ncia
seria, portanto, aquele que, pela facilidade da execuça o, juntasse as qualidades
morais no mais alto grau.
A influe ncia do Espí rito do me dium tambe m pode ser exercida de outra
maneira: se ele for hostil ao Espí rito estranho que se comunica, podera ser-lhe
um inte rprete infiel, alterar ou transviar o seu pensamento, ou ainda traduzi-lo
em termos impro prios. O mesmo acontece entre no s quando confiamos a um
homem de ma -fe uma missa o de confiança.
A faculdade mediatriz, qualquer que seja o seu grau, na o e enta o suficiente
35 O autor aqui toma a figura do camponês como exemplo de algue m iletrado, obviamente que na o por
preconceito, mas porque era o exemplo cla ssico naquela e poca (se culo XIX), em raza o das mí nimas
condiço es que o homem do campo tinha de acesso a escola, especialmente em comparaça o com quem
vivia na zona urbana. — N. T.
101 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
para garantir boas comunicaço es; e preciso — acima de tudo, e em condiço es
expressas — um me dium simpa tico aos bons Espí ritos. A repulsa destes para
com os me diuns inferiores do ponto de vista moral e facilmente compreendida.
Por acaso no s tomamos como confidentes dos nossos pensamentos as pessoas
que na o estimamos?
Algumas pessoas realmente esta o mal-informadas com relaça o a s
comunicaço es; ha quem normalmente so receba ou transmita coisas triviais ou
grosseiras — para na o dizer mais nada. Elas devem deplorar isso, por ser um
indí cio certo da natureza dos Espí ritos que se agrupam em torno delas, porque
certamente na o sa o Espí ritos superiores que usam tal linguagem; portanto,
nunca seria demais elas fazerem todos os esforços para se livrarem de aco litos
ta o pouco recomenda veis, a menos que encontrem prazer neste tipo de
conversaço es; em todos os casos, no s as encorajamos a evitarem fazer alarde
disso, pois poderia dar uma ideia nada lisonjeira das simpatias que elas
encontram no mundo dos Espí ritos. Completaremos o que temos a dizer sobre
os me diuns a medida que a seque ncia de nossas instruço es o exigir.
Agora, sera que e absolutamente impossí vel ter boas comunicaço es
atrave s de me diuns imperfeitos? E o que veremos no pro ximo capí tulo.
102 – Allan Kardec
CAPÍTULO VII
INFLUÊNCIA DO AMBIENTE
SOBRE AS MANIFESTAÇÕES
Seria um grave erro acreditar que e preciso ser me dium para atrair a si os
seres do mundo invisí vel. O espaço e repleto deles; no s os temos
constantemente em torno de no s, ao nosso lado, vendo-nos, observando-nos,
participando das nossas reunio es, seguindo-nos ou nos evitando conforme os
atraí mos ou os repelimos. A faculdade mediatriz nada tem a ver com isto: ela
na o e mais do que um meio de comunicaça o. De acordo com o que vimos a
respeito das causas de simpatia ou antipatia dos Espí ritos, facilmente
compreenderemos que devemos estar cercados daqueles que te m afinidade
com o nosso pro prio Espí rito conforme este seja elevado ou degradado. Agora,
vamos considerar o estado moral do nosso planeta e entenderemos qual e o
ge nero de Espí ritos que deve predominar entre os Espí ritos errantes. Se
tomarmos cada povo em particular, poderemos julgar — pelo cara ter
predominante dos habitantes, pelas suas preocupaço es e seus sentimentos
mais ou menos morais e humanitários — os tipos de Espí ritos que ali
preferencialmente se encontram.
Os Espí ritos na o sa o outra coisa sena o nossas almas libertas dos corpos, e
que carregam consigo o reflexo das nossas qualidades e das nossas
imperfeiço es; eles sa o bons ou maus dependendo do que fomos, com exceça o
daqueles que, tendo deixado suas impurezas no fundo do alambique terreno,
se elevaram acima da turba dos Espí ritos imperfeitos. Na realidade, o mundo
espí rita e , portanto, apenas um extrato quintessenciado do mundo corpo reo e
103 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
que dele tira os bons e os maus odores.
Partindo deste princí pio, suponhamos uma reunia o de homens levianos,
inconsequentes, ocupados com seus prazeres; quais sera o os Espí ritos que os
cercara o de prefere ncia? Com certeza na o sera o Espí ritos superiores, muito
menos os sa bios e filo sofos do nosso mundo iriam gastar o seu tempo aí . Desta
forma, todas as vezes que os homens se reu nem, eles te m com eles uma
assembleia oculta que simpatiza com suas qualidades ou com seus defeitos, e
isto independentemente de toda e qualquer ideia de evocação. Admitamos
agora que estes homens tenham a possibilidade de conversar com os seres do
mundo invisí vel por meio de um inte rprete, ou seja, por um me dium; quais sa o
os que va o responder ao chamado deles? Evidentemente, aqueles que esta o la ,
bem pro ximos, e que na o perdem uma ocasia o para se comunicar. Se um
Espí rito superior for chamado numa assembleia fu til, ele podera vir e ate
mesmo proferir algumas palavras razoa veis, como um bom pastor que vem
para o meio de suas ovelhas desgarradas; mas desde que ele na o se veja nem
compreendido nem ouvido, ele vai embora dali, como voce s o fariam no lugar
deles, e os outros ficam com o campo livre.
Nem sempre basta que uma assembleia seja se ria para receber
comunicaço es de uma ordem elevada; ha pessoas que na o riem jamais e cujo
coraça o nem por isso e mais puro. Ora, e o coraça o principalmente que atrai os
bons Espí ritos. Nenhuma condiça o moral exclui as comunicaço es espí ritas; mas
se estivermos em ma s condiço es, estaremos em contato com os nossos
semelhantes, que na o deixam de nos enganar, e muitas vezes lisonjeando
nossos preconceitos.
Por na o ser de ordem superior, nem sempre por isso o Espí rito e mau:
muitas vezes e apenas desajuizado. Se voce se divertir com seus gracejos, ele se
entregara a elas com o maior prazer e lhe dara pontos pelo sal de epigramas
que raramente levam a falsidade e que, de forma jovial, muitas vezes da o liço es
picantes. Sa o os brincalho es36 do mundo espí rita, assim como os Espí ritos
36 No texto original, Kardec grafou vaudevillistes, uma menção àqueles que ganhavam a vida praticando
vaudevilles (vaudeviles, aportuguesado), que eram típicos espetáculos de rua, geralmente cômicos e
satíricos, muito comuns na cultura francesa dos séculos XVIII e XIX, misturando encenações teatrais
populares com dança, música, truques, mágicas etc. — N. T.
104 – Allan Kardec
superiores dele sa o os sa bios e os filo sofos.
Por aí se ve a enorme influe ncia do ambiente sobre a natureza das
manifestaço es inteligentes; entretanto, essa influe ncia na o se exerce como
algumas pessoas afirmaram, quando ainda na o se conhecia o mundo dos
Espí ritos igual conhecemos hoje, e antes que experie ncias mais conclusivas
viessem esclarecer as du vidas. Quando as comunicaço es concordam com a
opinia o dos assistentes, na o e que essa opinia o se reflita no Espí rito do me dium
como num espelho, mas porque voce s te m convosco Espí ritos que sa o
simpa ticos a voce s — tanto para o bem quanto para o mal — e que se
sintonizam com o vosso sentido; e a prova disso e que se voce s tiverem a força
para atrair outros Espí ritos ale m daqueles que vos cercam, esse mesmo
me dium vai usar uma linguagem totalmente diferente e vos dira as coisas mais
distantes dos vossos pensamentos e convicço es. Em resumo, as condiço es do
meio sera o tanto melhores quanto mais houver homogeneidade para o bem,
mais sentimentos puros e elevados, e mais desejo sincero de se instruir sem
ideias preconcebidas.
Nesse meio, tre s elementos podem influenciar de forma alternada ou
simulta nea: a assembleia participante, pelos Espí ritos que eles atraem; o
me dium, pela natureza de seu pro prio Espí rito que serve de inte rprete; e
aquele que interroga. Este u ltimo, por si so , pode dominar todas as outras
influe ncias e, na o obstante as condiço es desfavora veis do entorno, pode
algumas vezes obter grandes coisas atrave s de sua ascende ncia — se o objetivo
ao qual ele se propo e for u til, pois os Espí ritos superiores ve m ao seu chamado,
e por ele; os outros se calam, como aprendizes diante dos seus mestres.
A influe ncia do ambiente faz compreender que quanto menos numerosas
forem as reunio es, melhor, porque assim e mais fa cil se obter a homogeneidade.
Os grupos pequenos e í ntimos sa o sempre mais favora veis a s belas
comunicaço es; pore m, e compreensí vel que se cem pessoas reunidas estiverem
suficientemente concentradas e atentas, elas obtera o mais do que dez que
estivessem distraí das e fazendo barulho. O que principalmente e necessa rio
entre os presentes e uma comunhão de pensamentos; se essa comunha o visar
o bem, enta o os bons Espí ritos vira o facilmente e com boa vontade. Nunca seria
105 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
demais tomar todo o cuidado com os novos membros introduzidos nas
reunio es; tem gente que leva perturbaça o consigo para onde quer que va . Os
mais prejudiciais, nesse caso, na o sa o os que ignoram o assunto, nem mesmo
aqueles que na o acreditam: a convicça o so e adquirida pela experiencia, e ha
pessoas que querem se esclarecer de boa-fe . Aqueles de quem devemos nos
proteger sa o principalmente as pessoas de ideias preconcebidas, os incre dulos
que duvidam de tudo, ate mesmo da evide ncia; os orgulhosos que pretendem
ter exclusivamente a luz interior, querendo em tudo impor a sua opinia o e
olhando com desde m os que na o pensam como eles. Na o se deixem enganar
pelo suposto desejo deles de se instruí rem; ha muitos deles que ficariam muito
aborrecidos se fossem forçados a admitir que estavam errados. Tenham
cuidado sobretudo com esses oradores insí pidos que querem sempre dizer a
u ltima palavra: os Espí ritos na o gostam de palavras inu teis.
106 – Allan Kardec
CAPÍTULO VIII
RELAÇÕES COM OS ESPÍRITOS
A maneira de se relacionar com os Espí ritos na o e um dos pontos menos
u teis. Se considerarmos a dista ncia que separa as duas extremidades da escala,
veremos sem dificuldade a necessidade de certas precauço es, conforme a
categoria dos Espí ritos e seus ha bitos. Na o basta, pois, que estejamos
propriamente em boas condiço es; e preciso conhecer o caminho mais favora vel
para atingir o objetivo com mais segurança. Com isso, teremos que examinar o
procedimento que conve m adotarmos para as reunio es, os evocadores, a
linguagem a ser usada com os Espí ritos, o tipo de questo es que podemos lhes
dirigir.
As reuniões
E evidente que no s nos referimos a s reunio es que te m um propo sito se rio.
Quanto a quelas que sa o realizadas com o objeto de divertimento e curiosidade,
vamos deixa -los a si mesmas; ali, os participantes esta o livres para pedir
fortuna e falar sobre seus segredinhos, com a garantia pre via do investimento
do seu dinheiro. No entanto, no s advertimos que essas reunio es frí volas te m
uma grave inconvenie ncia: e que algumas pessoas podem levar a se rio o que
quase sempre e uma lorota da parte dos Espí ritos levianos, que se divertem a s
custas daqueles que os escutam. Quanto a s pessoas que nunca viram nada, na o
e la que elas devem ir para tirar suas primeiras liço es e nem para formar
convicço es, pois elas poderiam se enganar redondamente quanto a natureza
107 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
dos seres que compo em o mundo espí rita, assim como algue m que julgaria todo
o povo de uma grande cidade pelos habitantes dos seus subu rbios.
De tudo o que temos dito, concebe-se que o sile ncio e o recolhimento sa o
as condiço es de primeira ordem; mas o que na o e menos necessa rio e a
regularidade das reunio es. Em todas elas sempre ha aqueles Espí ritos que
poderí amos chamar de frequentadores assíduos, e na o estamos nos referindo
aos Espí ritos que se encontram em toda a parte e que se metem em tudo;
estamos falando tanto de Espí ritos familiares quanto daqueles que sa o
interrogados mais assiduamente. Na o devemos supor que esses Espí ritos na o
tenham outra coisa a fazer sena o nos ouvir; eles te m suas ocupaço es e, ale m
disso, podem estar em condiço es desfavora veis para serem evocados. Quando
as reunio es sa o realizadas em dias e hora rios fixos eles se organizam de acordo
e e raro que faltem a elas. Ha ate alguns que levam a pontualidade ao excesso;
eles ficam ofendidos com um atraso de quinze minutos, e se eles mesmos
marcarem o hora rio do encontro, seria em va o chama -los alguns minutos antes.
Sem du vidas, eles podem vir fora das horas determinadas, e ve m com muita boa
vontade — se o objetivo for u til. Pore m, nada e mais prejudicial a s boas
comunicaço es do que chama -los a torto e a direito, quando a fantasia nos
domina, e sobretudo sem motivo se rio; como eles na o sa o forçados a se
submeterem aos nossos caprichos, eles podem muito bem na o nos atender, e e
principalmente nessa hora que outros podem o lugar e o nome deles.
Na o ha hora cabalí stica para as evocaço es; portanto, a escolha do hora rio
e completamente indiferente. Aquelas em que as ocupaço es cotidianas
permitem mais calma e relaxamento sa o as melhores ocasio es. Os Espí ritos que,
para uma coisa qualquer, prescrevessem horas prediletas consagradas aos
seres infernais, nos contos fanta sticos, seriam indubitavelmente Espí ritos
mistificadores. O mesmo acontece com relaça o para os dias aos quais a
superstiça o atribuiu uma influe ncia imagina ria.
Nada impediria tambe m que as reunio es fossem realizadas diariamente,
mas haveria uma inconvenie ncia em sua freque ncia muito grande. Se os
Espí ritos culpam o apego exagerado a s coisas desse mundo, eles igualmente
recomendam na o descuidar dos deveres que a nossa posiça o social nos impo e;
108 – Allan Kardec
faz parte das nossas provaço es. Alia s, para a sau de do corpo, nosso pro prio
Espí rito precisa na o estar constantemente voltado para um mesmo objetivo, e
sobretudo para as coisas abstratas; para tanto, ele presta mais atença o nelas
quando na o esta cansado. As reunio es semanais ou quinzenais sa o suficientes;
elas se realizam com mais solenidade e concentraça o quando elas na o sa o ta o
pro ximas. Estamos falando das sesso es em que realiza um trabalho regular, e
na o daquelas em que um me dium iniciante se dedica aos exercí cios necessa rios
para se desenvolver; estas, propriamente falando, na o sa o sesso es; sa o antes
liço es que dara o resultados tanto mais rapidamente quanto mais forem
multiplicadas. Pore m, uma vez desenvolvida a faculdade, e essencial na o abusar
dela, pelos motivos que acabamos de dar. A satisfaça o que a posse dessa
faculdade proporciona a certos novatos suscita em alguns deles um entusiasmo
que e muito importante moderar. Eles devem ponderar que ela lhes foi dada
para o bem, e na o para satisfazer uma va curiosidade. Quando dizemos o bem,
queremos dizer o dos seus semelhantes, e na o apenas o seu próprio bem. Para
tanto, um me dium que queira ter um relacionamento se rio com os Espí ritos
deve evitar ceder a curiosidade dos amigos ou conhecidos que venham assedia –
lo com questo es ociosas; enta o, ele deve prestar um auxí lio prestimoso e
desinteressado quando se trata de coisas uteis; agir de outra forma seria
egoí smo, e o egoí smo e uma chaga.
O local
Tambe m na o existe nenhum lugar especí fico para as comunicaço es
espí ritas; deve-se inclusive evitar aqueles que, por sua natureza, costumam
impressionar a imaginaça o. Os bons Espí ritos ve m a qualquer local onde um
coraça o puro os convida para o bem, e os maus Espí ritos na o te m predileça o
sena o pelos locais onde eles encontram simpatias. Os cemite rios exercem mais
influe ncia sobre o nosso pensamento do que sobre os Espí ritos, e a experie ncia
demonstra que os Espí ritos ve m com a mesma facilidade tanto ao quarto mais
simples sem apare ncia diabo lica quanto aos tu mulos ou capelas em ruí nas,
tanto em plena luz do dia quanto no clara o da lua.
109 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
Ja que a escolha do local e indiferente, e u til na o o alterar sem necessidade.
O fluido vital — de que cada Espí rito errante ou encarnado e , de alguma forma,
um foco — irradia em torno dele pelo pensamento. Com isso, entendemos que
num local habitual deva haver um eflu vio desse fluido que, por assim dizer,
forma nesse lugar uma atmosfera moral com a qual os Espí ritos se identificam.
Seria ate mesmo preferí vel um lugar que fosse reservado exclusivamente a esse
tipo de encontros e que na o fosse — se assim podemos nos expressar —
profanado por preocupaço es vulgares, porque esse local seria um verdadeiro
santua rio de onde os maus Espí ritos estariam excluí dos, em raza o de ali os
elementos da atmosfera moral estarem menos misturados do que num lugar
comum.
A melhor acomodaça o fí sica e aquela que e mais conforta vel e que pode
proporcionar o mí nimo de perturbaça o e distraça o. Nos objetos que servem de
decoraça o, tudo o que pode elevar o pensamento e lembrar o assunto tratado e
u til, mas que fique bem claro que qualquer acomodaça o ou ornamentaça o que
remeta ao grimo rio37 e absurda — dizemos ate que e perigosa, por causa das
ideias supersticiosas que isso necessariamente deve fomentar. No s repetimos
aqui o que dissemos la atra s a respeito das horas: os Espí ritos que
recomendassem coisas desse tipo, ou quaisquer pra ticas mí sticas, sa o Espí ritos
inferiores que se diverte com a credulidade, ou que, talvez, eles mesmos
estejam dominados pelas ideias que tiveram durante sua vida. Dissemos e na o
nos cansamos de repetir: para os Espí ritos superiores o pensamento e tudo e a
forma na o e nada; e pelos bons pensamentos que os atraí mos, e na o pelas
fo rmulas va s; aqueles que da o importa ncia a s coisas materiais provam com isso
que ainda esta o sob a influe ncia da mate ria. Se, em algum momento, a evocaça o
esteve envolvida de miste rios e de sí mbolos, foi porque pretendiam se esconder
das pessoas comuns e queriam dar a si mesmos um prestí gio diante dos
ignorantes. Hoje, a luz brilha para todo o mundo, e e em va o querer coloca -la
debaixo de um alqueire.
Tudo o que dissemos das reunio es em que todos se ocupam com
37 Grimório: coleção medieval de feitiços, rituais e encantamentos mágicos atribuídas a fontes clássicas
hebraicas ou egípcias. — N. T.
110 – Allan Kardec
comunicaço es espí ritas se aplica naturalmente a s comunicaço es individuais; e
por isso que na o faremos nenhuma mença o especial a respeito. O mesmo
ocorre com tudo o que nos resta examinar. Tomamos as reunio es como modelo
porque elas conte m as condiço es mais complexas de que cada um podera
aplicar aos casos particulares. Acrescentaremos tambe m que, quando
realizadas em boas condiço es, as reunio es te m uma vantagem no fato de que
va rias pessoas unidas por uma ideia comum possuem mais forço para atrair os
bons Espí ritos, que gostam de se encontrar num ambiente simpa tico onde
possam derramar luz atrave s de seu ensinamento. No entanto, ha situaço es em
que eles preferem — e ate recomendam — as comunicaço es isoladas. O que ha
de melhor a fazer nesses casos e se conformar com a decisa o deles.
Evocações
Algumas pessoas pensam que, quando se trata principalmente de
ensinamentos gerais, devemos nos abster de evocar esse ou aquele Espí rito, e
que e preferí vel esperar aquele que bem queira se comunicar. Elas se baseiam
naquela opinia o que, chamando um determinado Espí rito, na o se pode ter
certeza de que seja ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem
espontaneamente e por sua pro pria aça o prova melhor a sua identidade, pois
assim ele mostra o desejo que tem de estar em contato conosco. Na nossa
opinia o, isso e um erro: primeiramente porque sempre ha em torno de no s
Espí ritos — na maioria das vezes de baixo ní vel — que na o querem outra coisa
sena o se comunicar; em segundo lugar e ate por esta u ltima raza o, na o chamar
nenhum em particular e abrir a porta para todos os que queiram entrar. Numa
reunia o, na o dar a palavra a ningue m e deixa -la livre a todo mundo, e no s
sabemos o que isso resulta. O chamado direto feito a um determinado Espí rito
representa um laço entre ele e no s: no s o chamamos pelo nosso desejo e assim
impomos uma espe cie de barreira aos intrusos, que facilmente podem nos
induzir ao erro sobre sua identidade. Sem um chamado direto, um Espí rito
normalmente na o teria nenhum motivo para vir ate no s, se na o for um Espí rito
familiar nosso. A propo sito, a experie ncia prova que em qualquer situaça o a
111 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
evocaça o e preferí vel. Quanto a questa o de identidade, falaremos a respeito
dela adiante.
Portanto, essa regra na o e absoluta. Nas reunio es regulares, sobretudo
naquelas onde se realiza um trabalho contí nuo, sempre ha Espí ritos — como
dissemos — frequentadores assí duos, que comparecem sem serem chamados,
e que, exatamente por causa da regularidade das sesso es, ja ficam preparados:
muitas vezes eles tomam a palavra espontaneamente para dizer o que se deve
fazer ou para desenvolver um tema de debate, e enta o eles sa o facilmente
reconhecidos, seja pela forma da linguagem que e sempre ide ntica, seja pela
escrita, seja por certos ha bitos que lhes sa o familiares, ou, finalmente, seja pelos
nomes que eles indicam, ora no começo e ora no encerramento.
Quanto aos Espí ritos estranhos, a maneira de lhes evocar e mais simples:
na o existe fo rmula sacramental ou mí stica, bastando faze -la em nome de Deus,
nos seguintes termos ou equivalentes: Rogo a Deus todo-poderoso que
permita ao Espírito… (designe-o com certa precisa o) se comunicar conosco;
ou enta o: Em nome de Deus todo-poderoso, rogo ao Espírito de… que tenha
a bondade de comunicar conosco. Se ele puder vir, a resposta obtida
geralmente e : Sim, ou: Já estou aqui; ou ainda: O querem de mim?
Muitas vezes ficamos surpresos com a prontida o com que um Espí rito
evocado se apresenta — mesmo na primeira vez: e como se ele ja estivesse
preparado; de fato, e o que acontece quando preparamos de antema o a sua
evocaça o. Essa preparaça o e uma espe cie de evocaça o antecipada, e como no s
sempre temos conosco os nossos Espí ritos familiares que se identificam com o
nosso pensamento, eles preparam os caminhos de tal sorte que, se na o se
opuser, o Espí rito que desejamos chamar ja se acha presente. Em caso
contra rio, e o Espí rito familiar do me dium, do interrogador ou ainda o de um
dos frequentadores que vai busca -lo — o que na o leva muito tempo. Quando o
Espí rito evocado na o pode vir imediatamente, o mensageiro (Mercúrio,38 se
preferirem) marca um prazo, a s vezes de cinco minutos, quinze minutos, uma
hora e meia ou ate va rios dias; quando ele chega, o mensageiro diz: Ele está
38 Mercúrio: menção ao personagem da mitologia latina designado como o mensageiro dos deuses,
equivalente a Hermes, na mitologia grega. — N. T.
112 – Allan Kardec
aqui; e enta o podemos começar as perguntas que queremos lhe fazer.
Quando dizemos para que se faça a evocaça o em nome de Deus,
esperamos que a nossa recomendaça o seja levada a se rio e na o levianamente;
aqueles que na o vissem nisso nada mais do que uma fo rmula sem
conseque ncias fariam melhor abstendo-se.
Espíritos que podemos evocados
Podemos evocar todos os Espí ritos, qualquer que seja o grau da escala a
que eles pertençam: tanto os bons quanto os maus, desde os que deixaram a
vida a pouco tempo como aqueles que viveram nas e pocas mais antigas, dos
homens ilustres ate os ano nimos, os nossos parentes e amigos, assim como os
que na o conhecemos; mas isto na o quer dizer que sempre eles queiram ou
possam atender ao nosso chamado. Independente da pro pria vontade deles ou
da permissa o — que lhes pode ser recusada por uma força superior — eles
podem ser impedidos de atender a evocaça o, por motivos que nem sempre nos
e permitido saber.
Entre as causas que podem se opor a manifestaça o de um Espí rito,
algumas te m a ver com dele e outras sa o questo es externas. Entre as primeiras,
devemos colocar suas ocupaço es ou as misso es que ele esteja cumprindo e das
quais ele na o pode se afastar para ceder aos nossos desejos; neste caso, sua
visita e apenas adiada.
Ha tambe m a sua pro pria situaça o. Se bem que o estado de encarnaça o
na o seja um obsta culo absoluto, pode ser um impedimento em certos
momentos, sobretudo quando essa encarnaça o ocorre nos mundos inferiores e
quando o pro prio Espí rito esta pouco desmaterializado. Nos mundos
superiores, naqueles em que os laços entre o Espí rito e a mate ria sa o muito
fracos, a manifestaça o e quase ta o fa cil quanto no estado errante, e em todos os
casos mais fa cil do que nos mundos onde a mate ria corporal e mais compacta.
As causas externas te m a ver principalmente com a natureza do me dium,
com a da pessoa que evoca, com o meio no qual se faz a evocaça o e, enfim, com
a finalidade a que se propo em. Alguns me diuns recebem mais particularmente
113 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
comunicaço es de seus Espí ritos familiares, que podem ser mais ou menos
elevados; outros sa o aptos a servir de intermedia rios a todos os Espí ritos; isso
depende da simpatia ou da antipatia, da atraça o ou da repulsa o que o Espí rito
pessoal do me dium exerce sobre o outro Espí rito, que pode toma -lo por
inte rprete com prazer ou com repugna ncia. Isso tambe m depende — apesar
das qualidades í ntimas do me dium — do desenvolvimento da faculdade
mediatriz. Os Espí ritos ve m mais voluntariamente e sobretudo sa o mais
explí citos com um me dium que na o lhes ofereça nenhum obsta culo fí sico. Alia s,
havendo total igualdade de condiço es morais, quanto mais facilidade tenha o
me dium para escrever ou para se expressar mais suas relaço es com o mundo
espí rita se generalizam.
E preciso ainda levar em conta a facilidade que deve proporcionar o ha bito
de ser comunicar com esse ou aquele Espí rito; com o tempo, o Espí rito estranho
se identifica com o do me dium e ainda com aquele que o chama. Fora a questa o
da simpatia, estabelecem-se entre eles relaço es fluí dicas que tornam as
comunicaço es mais ra pidas; e por isso que um primeiro encontro nem sempre
e ta o satisfato rio quanto poderí amos desejar, e e por isso tambe m que os
pro prios Espí ritos pedem frequentemente para serem chamados de novo. O
Espí rito que vem habitualmente se sente em casa: familiariza-se com seus
ouvintes e inte rpretes; ele fala e age mais livremente.
Resumindo, do que acabamos de dizer, resulta: que a faculdade de evocar
todo e qualquer Espí rito na o implica que o Espí rito seja obrigado a ficar a s
nossas ordens; que ele pode vir num momento e na o vir em outro, com um
me dium ou um evocador que lhe agrade e na o com outro; que ele pode dizer o
que quiser sem ser constrangido a dizer o que ele na o queira; que ele pode ir
embora quando lhe agradar; que, finalmente, por causas dependentes ou na o
da sua vontade, depois de se mostrar assí duo durante algum tempo, ele de
repente pode deixar de vir.
Da possibilidade de evocar os Espí ritos encarnados resulta na de evocar o
Espí rito de uma pessoa viva. Ele enta o responde como Espí rito, e na o como
homem; muitas vezes suas ideias na o sa o mais as mesmas. Esse tipo de
evocaça o requer prude ncia, pois ha circunsta ncias em que elas podem ter
114 – Allan Kardec
inconvenie ncias. A emancipaça o da alma, como se sabe, quase sempre ocorre
durante o sono; ora, a evocaça o a provoca se a pessoa na o estiver dormindo, ou
pelo menos produz um entorpecimento e uma suspensa o momenta nea das
faculdades sensitivas. Enta o, seria perigoso se nesse instante a pessoa estivesse
numa situaça o em que precisasse de toda a sua conscie ncia. Tambe m seria
perigoso se ela estivesse muito adoentada, pois a enfermidade poderia ser
agravada. De resto, o perigo e atenuado no sentido de que o Espí rito conhece as
care ncias do seu corpo e se conforma, na o ficando ausente ale m do tempo
necessa rio; assim sendo, por exemplo, quando ele percebe que seu corpo vai
despertar, ele o diz e informa que ele vai ser forçado a se retirar. Ja que os
Espí ritos podem reencarnar na Terra, acontece muitas vezes que evocamos
pessoas sem que saibamos que elas estejam vivas; no s mesmos o podemos ser
evocados sem suspeitarmos disso, mas enta o as circunsta ncias na o sa o mais
ide nticas, e isso na o teria nada de prejudicial.
As pessoas ficam admiradas em ver o Espí ritos dos homens mais ilustres
— aos quais dificilmente elas ousariam falar quando eles estavam vivos —
atender ao chamado dos homens mais comuns; isso so pode surpreender
aqueles que na o conhecem a natureza do mundo espí rita; qualquer um que
tenha estudado esse mundo sabe que a posiça o ocupada na Terra na o lhe da
nenhuma supremacia la , e que la talvez o poderoso possa estar abaixo daquele
que foi seu empregado; esse e o sentido daquela ma xima de Jesus: “Os grandes
sera o rebaixados e os pequenos sera o elevados”, ou dessa outra: “Quem se
humilha sera exaltado, e quem se exaltar sera humilhado.” Em suma, um
Espí rito pode na o ocupar entre seus semelhantes a categoria que lhe supomos;
mas se ele for verdadeiramente superior, ele deve ter depurado todo o orgulho
e toda a vaidade, e desde enta o ele olha o coraça o, e na o a apare ncia.
Linguagem a ser usada com os Espíritos
O grau de superioridade ou inferioridade dos Espí ritos naturalmente
indica o tom que devemos usar com eles. E evidente que quanto mais eles sejam
elevados mais eles te m direito ao nosso respeito, a s nossas consideraço es e a
115 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
nossa submissa o. Enta o na o devemos lhes demonstrar menos respeito do que
demonstrarí amos se estivessem vivos, mas por outros motivos: na Terra, no s
levarí amos em consideraça o a categoria e a posiça o social deles; no mundo dos
Espí ritos, a nossa defere ncia visa so a superioridade moral. A pro pria elevaça o
deles os po e acima das infantilidades das nossas formas de adulaça o. Na o e com
palavras que podemos cativar a benevole ncia deles, mas pela sinceridade dos
sentimentos. Portanto, seria ridí culo lhes dar os tí tulos que os nossos padro es
consagram a distinça o das classes, e que, se vivos, pudessem inflamar a vaidade
deles; como eles sa o realmente superiores, na o somente eles na o da o
importa ncia a isso como tambe m deploram tal coisa. Um bom pensamento e
mais agrada vel para eles do que os epí tetos mais elogiosos; se fosse de outro
modo, eles na o estariam acima da humanidade. O Espí rito de um venera vel
eclesia stico que foi na Terra um prí ncipe da Igreja, homem de bem e um
praticante da lei de Jesus, certa vez respondeu a algue m que o tinha evocado
dando-lhe o tí tulo de Monsenhor: “Voce deveria dizer ao menos ex-monsenhor,
porque aqui so tem Deus como Senhor. Saiba bem que eu vejo muitos que se
ajoelhavam diante de mim na Terra, diante dos quais hoje eu mesmo me
inclino.”
Quanto a questa o de saber se devemos ou na o tratar os Espí ritos por tu39,
isso tem pouquí ssima importa ncia. O respeito esta no pensamento, e na o nas
palavras; tudo depende da intença o dispensada, ja que os costumes quanto a
esse quesito na o sa o os mesmos em todos os idiomas. Enta o, podemos ou na o
tratar os Espí ritos com tu, conforme sua categoria ou grau de familiaridade que
existe entre eles e no s, como farí amos perante os nossos semelhantes.
Se os Espí ritos na o se importam com as palavras, por outro lado eles
gostam de que saibamos agradecer a boa vontade deles — seja por se
39 Assim como no nosso português, a língua francesa tem uma forma mais respeitosa de tratar
determinadas pessoas (desconhecidos, autoridades, alguém mais idoso e, em geral, qualquer um em
ocasiões de certa formalidade) usando o pronome da segunda pessoa do plural (vous = “vós”) em vez da
segunda pessoa no singular (tu = “tu”, ou “você”, no caso da língua falada no Brasil), usada entre familiares,
amigos e em ocasiões menos formais. Por exemplo; Vous étes três gentil = “Vós sois muito gentil”, em vez
de Tu es três gentil = “tu és muito gentil” ou “Você é muito gentil”. No português brasileiro, também
costumamos simplificar o pronome “vós” como o termo informal “vocês”: “Vós deveis vos amar uns aos
outros” = “Vocês devem se amar uns aos outros”. — N. T.
116 – Allan Kardec
apresentarem, seja por nos responderem. Consequentemente, devemos lhes
agradecer, como tambe m devemos agradecer a queles que se apegam a no s e
nos protegem; isso e uma forma de lhes incentivar a continuarem. Seria um
grave erro crer que a forma imperativa possa ter alguma influe ncia sobre eles:
esse seria um modo infalí vel de afastar os bons Espí ritos. Podemos lhes pedir,
mas na o mandar neles, pois eles sa o esta o a s nossas ordens, e tudo o que denota
orgulho os repulsa. Os pro prios Espí ritos familiares abandonam aqueles que
lhes desprezam e que se mostram ingratos a eles.
Ainda que na o sejam de primeira categoria, nem por isso os Espí ritos
merecem menos consideraça o de nossa parte, especialmente quando eles nos
revelam uma relativa superioridade. Quanto aos Espí ritos inferiores, o cara ter
deles nos indica a linguagem que devemos ter com eles. Ha alguns dentre os
quais que, conquanto sejam inofensivos e ate sejam gentis, sa o levianos,
ignorantes, estouvados; trata -los igual aos Espí ritos se rios, assim como certas
pessoas fazem, seria o mesmo que ajoelhar-se diante de um colegial ou de um
asno trajado de doutor. O tom de familiaridade na o seria descabido para com
eles, e eles na o se aborrecem com isso; eles, ao contra rio, aceitam esse
tratamento de boa vontade.
Entre os Espí ritos inferiores existem muitos que sa o infelizes. Quaisquer
que sejam as faltas que eles estejam expiando, seus sofrimentos sa o razo es
ainda maiores para nossa comiseraça o tanto quanto e certo que ningue m pode
se orgulhar de escapar destas palavras do Cristo: “Que atire a primeira pedra
aquele que estiver sem pecado”. A bondade que lhes devotamos significa um
alí vio para eles; na falta de simpatia, eles devem encontrar a indulge ncia que
no s gostarí amos que todos tivessem para conosco.
Os Espí ritos que revelam sua inferioridade pelo cinismo da sua linguagem,
suas mentiras, a baixeza dos seus sentimentos e a perfí dia dos seus conselhos
sa o seguramente menos dignos do nosso interesse do que aqueles cujas
palavras demonstram arrependimento; no s lhes devemos pelo menos a
piedade que devotamos aos maiores criminosos, e o meio de os reduzir ao
sile ncio consiste em mostrar-se superiores a eles: eles so se familiarizam com
as pessoas de quem eles acreditam na o ter nada a temer. Aqui e o caso de falar
117 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
com autoridade para afasta -los — o que sempre podemos conseguir atrave s de
uma vontade firme, intimando-os em nome Deus e com o apoio dos bons
Espí ritos. Eles se inclinam diante da superioridade moral, assim como o
culpado diante do juiz.
Em resumo, seria ta o desrespeitoso tratar de igual para igual os Espí ritos
superiores quanto seria ridí culo ter a mesma veneraça o por todos sem exceça o.
Tenhamos veneraça o para com aqueles que a merecem, reconhecimento pelos
que nos protegem e nos auxiliam, e para todos os demais uma benevole ncia de
que talvez um dia no s mesmos tenhamos necessidade. Ao penetrar no mundo
incorpo reo no s aprendemos a conhece -lo e esse conhecimento deve nos guiar
nas nossas relaço es com os que la habitam. Os Antigos, na sua ignora ncia,
levantaram altares para eles; para no s eles sa o apenas criaturas mais ou menos
perfeitas, e no s so levantamos altares a Deus (Veja: Politeísmo no Vocabula rio).
Questões a serem endereçadas aos Espíritos
Quem estiver bem compenetrado dos princí pios que desenvolvemos ate
agora compreendera sem dificuldades a importa ncia, do ponto de vista pra tico,
do assunto que vamos abordar; ele e a sua conseque ncia e aplicaça o, e de certa
maneira no s poderí amos ate prever a sua conclusa o pelo conhecimento que a
escala espí rita nos da do cara ter dos Espí ritos, conforme a categoria que eles
ocupam. Essa escala nos fornece a medida do que podemos lhes perguntar e do
que na o devemos esperar deles. Um estrangeiro que viesse ao nosso paí s com
a crença de que todos os homens aqui sejam iguais em cie ncia e em moralidade
enta o encontraria aqui muitas anomalias; mas tudo ficara bem explicado a
partir do momento em que ele tivesse compreendido que cada um fala e escreve
de acordo com suas aptido es; e a mesma coisa com o mundo espí rita. Desde
que vemos os Espí ritos ta o distantes uns dos outros, sob todos os aspectos,
enta o compreendemos facilmente que nem todos esta o aptos a resolver todas
as dificuldades e que uma questa o mal endereçada pode nos expor a va rios
equí vocos.
Estabelecido este princí pio, sera que e conveniente fazer perguntas aos
118 – Allan Kardec
Espí ritos? Algumas pessoas pensam que deverí amos nos abster disso e que e
preciso deixa -los tomar a iniciativa daquilo que eles queiram dizer. Essas
pessoas se baseiam no fato de que falando espontaneamente, o Espí rito fala
mais livremente, que ele so diz o que quer e que assim podemos ter mais
certeza de ter a expressa o dos pro prios pensamentos deles. Elas acham ate que
e mais respeitoso esperar pelo ensinamento que ele julgue apropriado nos dar.
A experie ncia contradiz esta teoria, como tantas outras nascidas no iní cio das
manifestaço es. O conhecimento das diversas categorias de Espí ritos traça o
limite do respeito que lhes e devido e prova que, a menos que se tenha certeza
de que se trata apenas de seres superiores, o ensinamento esponta neo deles
nem sempre sera muito edificante. Mas, deixando de lado essa consideraça o, e
assumindo que o Espí rito seja bastante elevado para dizer somente coisas boas,
o seu ensinamento geralmente seria muito limitado se na o fosse instigado por
questionamentos. Assistimos muitas vezes a sesso es la nguidas ou nulas, por
falta de um tema especí fico para discussa o. Ora, como os Espí ritos so
respondem definitivamente quando lhes conve m, ao agirmos adequadamente,
no s na o cometemos nenhuma viole ncia contra o livre-arbí trio deles. Muitas
vezes eles mesmos provocam indagaço es dizendo: O que voce quer? Pergunte
e eu te responderei. Normalmente tambe m eles pro prios nos interrogam, na o
para se instruí rem, mas para nos colocarem a prova ou para nos fazerem
expressar nossos pensamentos mais claramente. Reduzir-se diante deles a um
papel puramente passivo seria um excesso de submissa o que eles na o pedem;
o que eles querem e atença o e recolhimento. Quando eles espontaneamente
tomam a palavra sem esperar perguntas — como dissemos la atra s ao falar das
evocaço es —, e o caso enta o de na o os interromper e de seguir a linha que eles
traçam. Mas como isso nem sempre acontece, e bom ter em ma os um assunto
ja preparado na falta da iniciativa dos Espí ritos. Regra geral: quando um
Espí rito fala, na o se deve interrompe -lo; e quando, por um sinal qualquer, ele
demonstrar a intença o de falar, deve-se esperar e so falar quando tiver certeza
de que ele na o tem mais nada a dizer.
Se, em princí pio, as perguntas na o desagradam aos Espí ritos, ha algumas
delas que lhes sa o soberanamente antipa ticas e das quais e preciso abster-se
119 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
completamente, sob pena de na o ter resposta, ou de ter uma ma resposta.
Quando dizemos que as perguntas sa o desagrada veis, queremos nos referir aos
Espí ritos elevados; ja os Espí ritos inferiores, estes na o sa o ta o escrupulosos;
podemos lhes perguntar o que quisermos sem os ofender, ate as coisas mais
absurdas, e eles respondem tudo, mas como eles mesmos dizem: “Para uma
pergunta estu pida, uma resposta estu pida”, e seria bem louco quem os levasse
a se rio.
Os Espí ritos podem deixar de responder por va rios motivos: 1° a pergunta
pode lhes desagradar; 2° nem sempre eles possuem os conhecimentos
necessa rios; 3° ha coisas que eles esta o proibidos de revelar. Logo, se eles na o
respondem a uma indagaça o e porque na o querem, na o podem ou na o devem.
Seja qual for o motivo, uma regra invaria vel e que todas as vezes que um
Espírito se recusa categoricamente a responder, nunca se deve insistir, caso
contra rio a resposta sera dada por um desses Espí ritos levianos, sempre
prontos a se intrometer em tudo e que pouco se incomodam com a verdade. Se
a recusa na o for absoluta, podemos pedir ao Espí rito para que atenda ao nosso
desejo; ele o faz a s vezes, mas nunca cede a exige ncia. Esta regra na o se aplica
aos desenvolvimentos que podemos e que ate devemos solicitar sobre um
ponto que na o esteja suficientemente explí cito. Quando um Espí rito quer
encerrar uma conversa, geralmente o indica com uma palavra, tal como: adeus,
chega por hoje, ja e tarde, ate outra hora etc. Esta palavra quase sempre e sem
apelaça o; a imobilidade do la pis e uma prova de que o Espí rito se foi, e enta o
na o devemos insistir.
Dois pontos essenciais devem ser considerados nas questo es: o conteu do
e a forma. Pela forma elas devem — embora sem fraseologia ridí cula —
demonstrar o respeito e a consideraça o que se deve ao Espí rito que se
comunica, se ele for superior, e nossa benevole ncia, se ele for igual a no s ou
inferior. De outro ponto de vista, as questo es devem ser claras, precisas e sem
ambiguidade; e preciso evitar aquelas que te m um significado complexo: e
melhor fazer duas, se for necessa rio. Quando um assunto requer uma se rie de
perguntas, e importante que elas sejam classificadas em ordem, que se
encadeiem e se sucedam metodicamente; por isso e sempre u til prepara -las
120 – Allan Kardec
previamente, o que, alia s, como dissemos, e uma espe cie de evocaça o
antecipada que prepara os caminhos; meditando sobre elas com a cabeça
descansada, no s as formulamos e as classificamos melhor, e enta o obtemos
respostas mais satisfato rias. Isso na o impede de acrescentarmos, durante o
dia logo, questo es complementares nas quais na o tí nhamos pensado, ou que
possam ser sugeridas pelas respostas; mas o quadro esta sempre traçado, e isso
e o essencial. O que devemos evitar e passar abruptamente de um assunto para
outro com perguntas sem seque ncia e lançadas atravessadas no assunto
principal. Acontece tambe m muitas vezes que algumas das questo es
preparadas de antema o, na expectativa de certas respostas, tornam-se inu teis
e, neste caso, no s as passamos adiante. Um fato que tambe m ocorre muito
frequentemente e que a resposta por vezes se antecipa a pergunta e que, mal
sejam pronunciadas as suas primeiras palavras, o Espí rito responde sem a
deixar ser completada. A s vezes ele ate responde a um pensamento expresso
em voz baixa por um dos participantes, sem que a pergunta tenha sido feita, e
sem que o me dium saiba. Se na o tive ssemos a cada momento provas patentes
da absoluta neutralidade do me dium, fatos deste tipo na o poderiam deixar
du vidas a esse respeito.
Com relaça o ao conteu do, as questo es merecem uma especial atença o de
acordo com o tema. Perguntas frí volas, de pura curiosidade e de comprovaça o
sa o as que desagradam aos espí ritos se rios; eles as repelem ou na o respondem
a elas; os espí ritos levianos se divertem com elas.
As perguntas de comprovaça o normalmente sa o feitas por quem ainda
na o adquiriram uma convicça o e que procura assim se certificar da existe ncia
dos Espí ritos, da sua perspica cia e da sua identidade; sem du vidas isso e muito
natural da parte deles, mas erram completamente o alvo, e sua insiste ncia neste
sentido deve-se a sua pro pria ignora ncia das bases sobre as quais a cie ncia
espí rita se apoia — bases totalmente diferentes daquelas das cie ncias
experimentais. Portanto, quem quiser aprender sobre essas bases deve
resignar-se a seguir um caminho completamente diferente e deixar de lado os
procedimentos das nossas escolas. Se eles pensam que so podem fazer isso
experimentando a sua maneira, seria melhor se absterem. O que diria um
121 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
professor a quem um aluno tentasse impor o seu me todo, que quisesse lhe ditar
para agir dessa ou daquela forma e fizesse as experie ncias a seu modo? Mais
uma vez: a cie ncia espí rita tem os seus princí pios, e aqueles que querem
conhece -la devem se conformar com isso, sena o eles na o podera o dizer que sa o
aptos a julga -la. Esses princí pios sa o os seguintes no que concerne a s questo es
de comprovaça o:
1°) Os Espí ritos na o sa o ma quinas que possam ser movidas a vontade; sa o
seres inteligentes que so fazem e dizem o que querem, e que na o podemos
submeter aos nossos caprichos;
2°) As provas que desejamos ter da existe ncia deles, da sua perspica cia e da
sua identidade eles pro prios nos da o espontaneamente e por sua pro pria
vontade em va rias ocasio es; mas eles as da o quando querem e da maneira
que querem; cabe a no s esperar, ver e observar, e essas provas na o nos
faltara o: devemos pegá-las de passagem; se as quisermos provocar,
enta o elas nos escapara o, e com isso os Espí ritos nos provam sua
independe ncia e seu livre-arbí trio.
Esse princí pio e , inclusive, aquele que rege todas as cie ncias de
observaça o. O que faz o naturalista que estuda os ha bitos de um inseto, por
exemplo? Ele o segue em todas as manifestaço es de sua intelige ncia ou de seu
instinto; observa o que se passa, mas espera que os feno menos se apresentem;
ele na o pensa em provoca -los nem em desviar seu curso; ele sabe, ale m disso,
que se o fizesse, na o os teria mais em sua simplicidade natural. O mesmo
acontece com relaça o a s observaço es espí ritas.
Pelo que hoje sabemos, entendemos que na o basta que um Espí rito seja
se rio para resolver qualquer questa o se ria ex professo40; nem basta, como
vimos, que tenha sido instruí do na Terra para resolver uma questa o de cie ncia,
pois ele ainda pode estar imbuí do de preconceitos terrenos; e preciso que ele
seja suficientemente elevado ou que seu desenvolvimento como Espí rito tenha
se realizado dentro do cí rculo de ideias que queremos lhe submeter,
desenvolvimento esse a s vezes bem diferente daquele que pudemos observar
40 Ex professo: expressão em latim que significa “com conhecimento de causa”, “magistralmente”. — N. T.
122 – Allan Kardec
nele durante sua vida; mas tambe m acontece muitas vezes que outros Espí ritos
mais elevados venham em auxí lio do interrogado e supram a sua insuficie ncia;
isso acontece sobretudo quando a intença o do interrogador e boa, pura e sem
segundas intenço es. Em suma, quando nos dirigimos pela primeira vez a um
Espí rito, a primeira coisa a fazer e aprender a conhece -lo, a fim de julgar a
natureza das questo es que podemos lhe dirigir com mais certeza.
Os Espí ritos geralmente da o pouca importa ncia a s questo es de interesses
puramente materiais, a quelas que concernem a coisas da vida privada.
Estarí amos enganados se pensa ssemos enta o que encontrarí amos neles guias
infalí veis que podemos consultar a qualquer momento sobre o progresso ou os
resultados dos nossos nego cios. Repetimos ainda: os Espí ritos levianos
respondem a tudo; se voce quiser, eles va o prever ate a alta ou a queda da bolsa,
dizer se o marido que voce espera sera moreno ou loiro etc., e ainda mais se o
acaso os fizer acertar.
Na o incluí mos entre as questo es frí volas todas aquelas que te m um
cara ter pessoal: devemos aprecia -las com bom senso. Mas os Espí ritos que
melhor podem nos orientar neste sentido sa o os nossos familiares, aqueles que
esta o encarregados de zelar por no s e que, pelo ha bito que eles te m de nos
seguir, identificam-se com nossas necessidades; estes, sem du vida, conhecem
nossos afazeres melhor do que no s mesmos; logo, e a eles que devemos dirigir
este tipo de coisas, e devemos tambe m faze -lo com calma, serenidade, com um
apelo se rio a sua benevole ncia, e na o levianamente; todavia, pedir isso a
queima-roupa e ao primeiro Espí rito que aparecer valeria tanto quanto se
dirigir a primeira pessoa que encontrar no caminho.
Por conseguinte, nossos Espí ritos familiares podem nos esclarecer e, em
muitas circunsta ncias, eles o fazem de uma maneira eficiente; mas a ajuda deles
nem sempre e patente e fí sica; na maioria das vezes e oculta; ajudam-nos com
uma se rie de adverte ncias indiretas que eles provocam, mas que infelizmente
nem sempre no s levamos em conta, do que resulta que muitas vezes so
podemos culpar a no s mesmos pelas nossas tribulaço es. Quando os
interrogamos, em certos casos, eles podem nos dar conselhos objetivos, mas,
em geral, limitam-se a nos mostrar o caminho, recomendando-nos para na o nos
123 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
perturbarmos, e para isso eles te m um duplo motivo. Em primeiro lugar, as
tribulaço es da vida — se na o forem fruto das nossas pro prias faltas — fazem
parte das provaço es que devemos suportar; eles podem enta o nos ajudar a
suporta -las com coragem e resignaça o, pore m na o lhes cabe desvia -las. Em
segundo lugar, se eles nos guiassem pela ma o para evitar todos os
contratempos, o que farí amos com o nosso livre-arbí trio? No s serí amos como
crianças mantidas na andadeira ate a idade adulta. Eles nos dizem: Eis o
caminho, siga o caminho certo; vou te inspirar a fazer o que e melhor para voce ,
mas use sua conscie ncia, como uma criança usa as pernas para andar.”
Os Espí ritos podem prever o futuro? Essa e a pergunta que todo novato
na o deixa de fazer; quanto a isso, diremos apenas uma palavra. A Provide ncia
foi sa bia em nos esconder o futuro; quantos tormentos essa ignora ncia nos
poupa! Sem falar que se no s o conhece ssemos, enta o nos entregarí amos
cegamente ao nosso destino, abdicando de toda iniciativa. Os pro prios Espí ritos
so sabem do futuro em raza o de sua elevaça o, e por isso os Espí ritos inferiores
que esta o sofrendo acreditam que sofrem para sempre. Quando eles sabem do
futuro, na o devem revela -lo; entretanto, a s vezes eles podem levantar uma
ponta do ve u que o encobre, mas enta o fazem isso espontaneamente, porque
julgam que seja u til — nunca e a nosso pedido. E a mesma coisa com o nosso
passado. Insistir neste ponto, como nos outros, quando eles se recusam a
responder, e tornar-se joguete dos espí ritos mistificadores.
Na o poderí amos fazer uma revisa o de todas as variedades de perguntas
que e possí vel fazer sem reproduzir aqui o que esta contido no Livro dos
Espí ritos. Enta o, a ele nos remetemos para o desenvolvimento de todas as
questo es que dizem respeito ao futuro, a s existe ncias anteriores, a s
descobertas, aos tesouros escondidos, a s cie ncias, a medicina etc.
Médiuns remunerados
Ainda na o conhecemos me diuns escreventes dando consultas a tanto por
sessa o; talvez isso venha a acontecer, por isso algumas palavras sobre este
assunto nos parecem u teis. Diremos primeiro que nada se prestaria mais ao
124 – Allan Kardec
charlatanismo e a fraude do que tal profissa o. No s diremos primeiramente que
nada se prestaria melhor ao charlatanismo e ao embuste do que uma profissa o
como essa. Se temos visto falsos sona mbulos, veremos ainda muito mais falsos
me diuns, e so isso ja seria motivo real de desconfiança. O desinteresse, ao
contra rio, e a resposta mais perempto ria que podemos oferecer aos que na o
enxergam nos fatos nada mais do que um truque ha bil. Na o ha charlatanismo
desinteressado; qual seria enta o a intença o das pessoas que usassem da
mistificaça o sem proveito e ainda mais quando sua reconhecida honestidade os
coloca acima de qualquer suspeita? Se o lucro que um me dium retirasse da sua
faculdade pode ser um motivo de suspeita, isso jamais seria uma prova de que
tal suspeita fosse fundamentada; logo, ele poderia ter uma verdadeira aptida o
e agir de muito boa-fe ao mesmo tempo em que se beneficiasse; neste caso,
vejamos se e razoavelmente possí vel esperar algum resultado satisfato rio.
Quem compreendeu bem o que dissemos das condiço es necessa rias para
servir de inte rprete dos bons Espí ritos, das numerosas causas que podem
afasta -los, das circunsta ncias independes da vontade deles e que muitas vezes
sa o um obsta culo a sua vinda, enfim, de todas as condiço es morais que podem
exercer uma influe ncia sobre a natureza das comunicaço es, como poderí amos
supor que um Espí rito — por menos elevado que fosse — estivesse a qualquer
hora do dia a s ordens de um empresa rio de sesso es e submisso a s suas
exige ncias para satisfazer a curiosidade do primeiro que aparecesse? Sabemos
da aversa o dos Espí ritos por tudo o que cheira a cobiça e egoí smo, do pouco
caso que eles fazem das coisas materiais; e ainda querem que eles ajudem a
traficar a presença deles! Isso e repugnante ao pensamento, e seria preciso
conhecer muito pouco a natureza do mundo espí rita para acreditar que
pudesse ser assim. Mas como os Espí ritos levianos sa o menos escrupulosos e
so procuram ocasia o para se divertirem a s nossas custas, ocorre que, o
resultado e que se na o for mistificado por um falso me dium, tem-se toda a
chance de ser mistificado por alguns de tais Espí ritos. So estas reflexo es da o a
medida do grau de confiança que devemos depositar nas comunicaço es desse
ge nero. De resto, para que serviriam hoje me diuns remunerados, ja que, se a
pro pria pessoa na o possui essa faculdade, ela pode encontra -la na sua famí lia,
125 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
entre seus amigos ou entre conhecidos?
A inconvenie ncia que acabamos de apontar ja na o e a mesma quando se
trata de manifestaço es puramente fí sicas. A natureza dos Espí ritos que se
comunicam nessas circunsta ncias o torna facilmente compreendido; pore m,
como a faculdade dos me diuns de influe ncia fí sica nem sempre esta a sua
disposiça o, ela muitas vezes faria falta a quele que a deveria ter no momento
marcado para satisfazer as exige ncias do pu blico. A faculdade mediatriz,
mesmo dentro deste limite, na o foi dada para desfilar nos palcos, e quem
pretendesse ter os Espí ritos a s suas ordens para os exibir em pu blico, com
raza o, pode estar sob suspeita de charlatanismo ou de prestidigitaça o mais ou
menos ha bil. Que estejamos avisados todas as vezes que virmos anu ncios de
supostas sesso es de espiritismo ou de espiritualismo a um preço para cada
lugar.
126 – Allan Kardec
CAPÍTULO IX
TEMAS DE ESTUDO
Quando evocamos parentes, amigos e alguns personagens famosos, para
comparar suas opinio es de ale m-tu mulo com as que eles tinham quando vivos,
a s vezes ficamos embaraçados em manter as conversas sem cair nas
banalidades e futilidades. Por isso, ser u til indicarmos a fonte de onde podemos
tirar temas de observaça o, por assim dizer, ilimitados.
Como vimos, o mundo espí rita apresenta variedades do ponto de vista
intelectual e moral, tanto quanto a humanidade; devemos mesmo dizer muito
mais, pois, seja qual for a dista ncia que separa os homens na Terra, desde o
primeiro degrau ate o u ltimo, ha Espí ritos abaixo e acima desses limites. Para
conhecermos um povo, precisamos ve -lo da base ao topo, estuda -lo em todas
as fases da vida, sondar seus pensamentos, nos aprofundar sobre os seus
ha bitos í ntimos, numa palavra, fazermos — por assim dizer — uma dissecaça o
moral. Somente multiplicando as observaço es e que podemos compreender as
analogias e anomalias e estabelecer um julgamento atrave s da comparaça o.
Quem poderia contar os volumes escritos sobre etnografia, antropologia e o
estudo do coraça o humano? E, no entanto, ainda estamos longe de ter dito tudo.
O que se faz pelos homens tambe m pode ser feito pelos Espí ritos, e esse e u nico
meio de aprendermos a conhecer esse mundo que nos interessa tanto mais
quanto a morte — a qual somos todos submissos — nos conduz a ela mesma,
pela pro pria força das coisas. Ora, esse mundo nos e revelado atrave s das
manifestaço es inteligentes dos Espí ritos; podemos, pois, entrevistar os
habitantes de todas as classes, na o apenas sobre generalidades, mas sobre as
particularidades da sua existe ncia ale m-tu mulo, e assim julgar o que la nos
127 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
espera de acordo com a nossa conduta aqui embaixo. Ate agora, o destino que
estava reservado para no s na o passava de objeto de um ensinamento teo rico:
as manifestaço es espí ritas nos mostram esse destino abertamente, fazem-nos
toca -lo com o dedo e com a vista atrave s dos exemplos mais impressionantes e
cuja realidade na o poderia ser posta em du vida por quem lhe dirija um olhar
perscrutador. E para esta realidade que queremos fornecer os meios de
constataça o atrave s do direcionamento de estudos.
Se a evocaça o de homens ilustres e dos Espí ritos superiores e
eminentemente u til pelos ensinamentos que eles nos da o, a evocaça o dos
Espí ritos comuns na o e menos — se bem que eles sejam incapazes de resolver
as questo es de alto porte. Pela sua inferioridade eles mesmos se revelam, e
quanto menor for a dista ncia que os separa de no s, mais reconhecemos neles
semelhanças com a nossa pro pria situaça o. Portanto, e do mais alto interesse,
pelo duplo ponto de vista psicolo gico e moral, estudar a posiça o daqueles que
foram nossos contempora neos, que seguiram a rota da vida lado a lado
conosco, de quem conhecemos o cara ter, os ha bitos, as virtudes e os ví cios,
ainda que eles fossem os homens mais obscuros: no s os compreendemos
melhor porque eles esta o no nosso ní vel; com freque ncia eles nos oferecem
traços caracterí sticos da mais alta importa ncia, e acrescentamos que e nesse
cí rculo — de certo modo í ntimo — que a identidade dos Espí ritos se revela,
sobretudo da maneira menos contesta vel. E , como vemos, uma mina
inesgota vel de observaço es, mesmo pegando so os homens cuja vida apresente
alguma particularidade com relaça o ao ge nero da morte, da idade, das boas e
ma s qualidades, da posiça o feliz ou infeliz na Terra, dos costumes, do estado
mental etc.
Com os Espí ritos elevados o quadro de estudos se alarga; ale m das
questo es psicolo gicas, que te m um limite, podemos lhes propor uma
imensidade de problemas morais que se estendem ao infinito sobre todas as
posiço es da vida, sobre a melhor conduta a seguir nessa ou naquela
determinada circunsta ncia, sobre os nossos deveres recí procos etc. O valor da
instruça o que podemos receber sobre um assunto qualquer (moral, histo rico,
filoso fico ou cientí fico) depende inteiramente do estado do Espí rito que
128 – Allan Kardec
interrogamos; cabe a no s julgar.
Fora as perguntas propriamente ditas, podemos solicitar aos Espí ritos
superiores dissertaço es sobre assuntos oferecidos ou escolhidos por eles em
uma se rie que lhes apresentamos. Podemos deste modo tomar como texto as
qualidades, os ví cios e os desvios da sociedade, tais como a avareza, o orgulho,
a preguiça, o ciu me, o o dio, a raiva, a caridade, a mode stia etc. Espí ritos um
pouco menos elevados, pore m inteligentes, podem tratar de uma maneira feliz
assuntos menos graves, mas na o menos interessantes; outros, enfim,
dependendo da sua aptida o e da facilidade de execuça o que o me dium lhes
apresenta, podem ditar obras volumosas.
A forma de fazer perguntas e de coordena -las e , como acabamos de ver,
uma coisa essencial. Encontraremos numerosas aplicaço es disso nos artigos
publicados na Revista espírita, sob o tí tulo de Conversas Familiares de Além-
Túmulo. Podemos pega -los como modelos de procedimento a seguir nas
relaço es que no s mesmos queremos estabelecer com os Espí ritos.
129 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
CAPÍTULO X
CONSELHOS AOS NOVATOS
O conhecimento da cie ncia espí rita baseia-se numa convicça o moral e
numa convicça o material; a primeira e adquirida pelo raciocí nio e a segunda
atrave s da observaça o dos fatos. Para o novato, seria lo gico ver primeiro e
raciocinar depois; infelizmente nem sempre pode ser assim. Seria impossí vel
fazer um curso pra tico de espiritismo como se faz um curso de fí sica ou de
quí mica; os feno menos que sa o da compete ncia dessas duas cie ncias podem ser
reproduzidos a vontade: podem enta o reproduzi-los gradativamente diante dos
olhos do estudante, procedendo do simples ao composto. O mesmo na o ocorre
com os feno menos espí ritas: no s na o os manuseamos como uma ma quina
ele trica; devemos aceita -los tal como se apresentam, pois na o cabe a no s lhes
apontar uma ordem meto dica. O resultado e que muitas vezes eles sa o
ininteligí veis ou pouco conclusivos para o iniciante; os feno menos podem
causar admiraça o sem convencer.
Podemos evitar essa inconvenie ncia seguindo um caminho contra rio, ou
seja, começando pela teoria, e e isso que no s recomendamos a todo mundo que
queira seriamente se esclarecer. Pelo estudo dos princí pios da cie ncia —
princí pios perfeitamente compreensí veis sem experimentaça o pra tica — no s
adquirimos uma primeira convicça o moral que so precisa ser corroborada
pelos fatos; agora, como neste estudo preliminar todos os fatos ja foram
revistos e comentados, disso resulta que quando os vemos logo os
compreendemos, seja qual for a ordem em que as circunsta ncias permitam que
eles sejam observados.
Procura mos reunir nas nossas tre s publicaço es todos os elementos
130 – Allan Kardec
necessa rios para esta finalidade, considerando a cie ncia em todos os seus
aspectos, e dando sobre os diversos pontos as explicaço es permitidas pelo
estado atual das coisas. Uma leitura atenta destas obras sera enta o uma
primeira iniciaça o que permitira esperar pelos fatos, ou que dara os meios para
os provocar com conhecimento de causa, se nada se opuser, e isto sem nos
perdermos em tentativas que podem ser infrutí feras por na o terem sido
dirigidos dentro dos limites da possibilidade. Nesta Instrução prática
encontram-se todos os princí pios fundamentais necessa rios para os iniciantes;
na Revista espírita, ale m de extensos desenvolvimentos, temos uma
considera vel variedade de fatos e de aplicaço es; finalmente, no Livro dos
Espíritos tem o pro prio ensinamento dos Espí ritos sobre todas as questo es de
metafí sica e de moralidade que esta o ligadas a doutrina espí rita.
131 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
CAPÍTULO XI
INFLUÊNCIA DO ESPIRITISMO
Os adversa rios do espiritismo inicialmente usaram contra ele a arma do
ridí culo e, sem cerimo nia, tacharam todos os seus adeptos de loucura: essa
arma na o somente se enfraquece, mas tambe m começa a tornar-se ridí cula em
si mesma a medida que cresce o nu mero desses supostos loucos em todos os
paí ses, e porque seria necessa rio enviar para os hospí cios os homens mais
eminentes, pelos seus conhecimentos e pela sua posiça o social. Enta o eles
mudaram de ta tica e, assumindo um tom mais se rio, lamentaram o destino
reservado a humanidade por essa doutrina da qual eles exaltaram os perigos
sem refletir que proclamar o perigo de uma coisa significa constatar a realidade
dela. Se o espiritismo e uma quimera, por que se preocupar tanto com ele? E
como combater moinhos de vento; deixem-no em paz e ele tera uma bela morte.
Mas eis que em vez de morrer, ele se propaga com uma rapidez incrí vel, e os
seus seguidores se multiplicam por todos os pontos do planeta, a tal ponto que
se isso continuar, em breve, havera mais loucos do que pessoas sensatas. Agora,
quem contribuiu para esse resultado? Foram os pro prios adversa rios que sem
querer fizeram a propaganda dele; suas crí ticas produziram o efeito do fruto
proibido. Cada um disse a si mesmo: ja que implicam tanto com esse monstro,
significa enta o que existe um monstro — um raciocí nio muito lo gico. E com a
curiosidade ajudando, todos querem ver, nem que seja atrave s dos dedos,
cobrindo os olhos; foi assim que muitas pessoas foram levadas a pensar sobre
isso, sem que de outra forma talvez elas na o teriam ouvido falar dele, ou pelo
menos na o teriam se ocupado com ele. Se o espiritismo e uma realidade, e
porque faz parte da natureza, pois na o e uma teoria, uma opinia o, um sistema:
132 – Allan Kardec
ele e um fruto dos fatos. Se for perigoso, e preciso lhe dar um direcionamento.
Na o se suprime um rio, mas sim orienta-se o seu curso. Vamos ver enta o em
poucas palavras quais sa o esses supostos perigos.
Dizem que ele pode produzir uma impressa o nociva sobre as faculdades
mentais. Ja nos explicamos suficientemente no decorrer desta obra sobre a
verdadeira fonte desse perigo, que vem precisamente daqueles que acreditam
combate -lo inoculando nos ce rebros fracos a ideia do diabo ou do demo nio. A
exaltaça o, e verdade, tambe m pode vir num sentido oposto; mas deixando de
lado todas as ideias do espiritismo, na o vemos algum ce rebro perturbado por
uma falsa apreciaça o das coisas mais sagradas? Os jornais noticiaram
recentemente o fato de uma jovem camponesa que cortou o pro prio pulso com
um machado ao tomar literalmente estas palavras do Evangelho: Se a tua mão
é motivo de escândalo, corta a tua mão. Por causa disso deverí amos concluir
que o Evangelho e perigoso? E sera que aquela ma e que matasse os filhos para
envia -los mais rapidamente ao paraí so provaria que a ideia do paraí so e
perigosa?
Em apoio a esta alegaça o contra o espiritismo sa o citados nu meros, e
dizem, por exemplo, que nos Estados Unidos — num u nico paí s — conta-se
quatro mil casos de loucura causados por essas ideias. Perguntaremos primeiro
a queles que apresentam fatos deste tipo de que fonte eles extraí ram esses
dados e se as estatí sticas que estabelecem sa o realmente aute nticas.
Acreditamos que seja retirado de alguns jornais do paí s que, como todos os
adversa rios, acreditando ter o monopo lio do bom senso, considerando todos
aqueles que acreditam nas manifestaço es dos Espí ritos como ce rebros
rachados; na o e de surpreender que com tal sistema eles tenham encontrado
quatro mil desses casos; este nu mero ate nos parece muito modesto, porque
hoje eles sa o contados em centenas de milhares. Pois enta o, construam
hospí cios para todos eles! Mas ja basta deste assunto, que na o merece um
exame se rio. Vejamos uma acusaça o muito mais grave.
O espiritismo — dizem algumas pessoas — esta arruinando a religia o.
Temos muita raza o em dizer que nada e mais perigoso do que um amigo
desastrado. Essas pessoas na o imaginam que dizendo isso elas mesmas estejam
133 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
atacando a religia o na sua base fundamental: a sua eternidade. Como uma
religia o estabelecida pelo pro prio Deus poderia estar ameaçada por algumas
batidas?! Enta o voce s acreditam no poder desses Espí ritos que, outras vezes,
segundo voce s, na o passam de ilusa o! Por isso, pelo menos estejam de acordo
com voce s mesmos. Se esses Espí ritos sa o mitos, o que voce s te m a temer? Se
existirem, duas coisas uma: ou voce s acreditam que eles sejam muito poderosos
ou voce s acreditam que a religia o seja muito fraca; escolham! Mas — va o dizer
—, no s na o tememos os Espí ritos, pois na o acreditamos neles; no s so tememos
as falsas doutrinas daqueles que as defendem: que seja! Mas, segundo voce s,
aqueles que acreditam nos Espí ritos sa o loucos; enta o voce s te m medo de que
os loucos abalem a Igreja?! Escolha novamente! Quanto a no s, diremos que
quem usa essa linguagem na o tem fe , porque e na o ter fe no poder de Deus
acreditar que, por causas ta o fracas, seja vulnera vel uma religia o da qual Jesus
disse: As portas do inferno na o prevalecera o contra ela.
Vejamos, pore m, em que a doutrina espí rita e contra ria aos princí pios
religiosos. O que ensinam esses Espí ritos ta o perigosos? Eles dizem o seguinte:
Amem a Deus acima de todas as coisas e ao pro ximo como a si mesmos. Amem-
se uns aos outros como irma os. Perdoem seus inimigos; esqueçam as inju rias;
façam aos outros o que voce s gostariam que eles fizessem a voce s. Na o se
contentem apenas em na o fazer o mal, mas façam o bem; suportem com
pacie ncia e resignaça o as tristezas da vida; eliminem do coraça o o egoí smo, o
orgulho, a inveja, o o dio e o ciu me. Eles dizem tambe m: Deus vos da os bens da
terra para fazerem bom uso deles e na o para os usufruí rem como os avarentos;
a sensualidade rebaixam voce s ao ní vel do bruto. Mas Jesus tambe m disse tudo
isso; sua moral e , portanto, a do Evangelho. Eles ensinam o dogma da
fatalidade? Na o; eles proclamam que o homem e livre em todas as suas aço es e
responsa vel pelas pro prias obras. Sera que eles dizem que pouco importa a
conduta de algue m aqui neste mundo, e que o destino e o mesmo apo s a morte?
De forma alguma! Eles reconhecem as puniço es e as recompensas futuras; eles
fazem mais: eles evidenciam tudo isso, porque sa o os pro prios seres que esta o
felizes ou infelizes que ve m nos retratar os seus sofrimentos e as suas alegrias.
E verdade que eles na o explicam tudo exatamente como fazemos entre no s; que
134 – Allan Kardec
eles na o admitem um fogo fí sico que queime eternamente almas imateriais.
Mas o que importa a forma, se a substa ncia existe?! A menos que se afirme que
a forma deva prevalecer sobre a substa ncia, o sentido figurado sobre o
significado literal. As pro prias crenças religiosas na o se modificaram em muitas
passagens das Escrituras, especialmente sobre os seis dias da criaça o, que no s
sabemos muito bem na o serem mais seis vezes vinte e quatro horas, mas talvez
seis vezes cem mil anos? E sobre a idade do globo terrestre, sobre o movimento
da Terra em torno do Sol? Na o e verdade que o que antes era considerado uma
heresia digna do fogo terrestre e celeste, e como a derrubada da religia o, na o
foi admitido pela Igreja, depois que a cie ncia positiva passou a demonstrar na o
o erro do texto, mas a falsa interpretaça o que lhe havia sido dada? O mesmo
acontece com o inferno, que a igreja ja na o situa nos lugares mais baixos da
terra desde que ali se po s um olhar investigativo; a alta teologia admite
perfeitamente a existe ncia de um fogo moral; ela na o atribui mais um lugar
especí fico ao purgato rio desde que sondamos as profundezas do espaço, e
pensa que ele poderia estar em toda parte, ate mesmo ao nosso lado; e a religia o
na o sofreu com isso; ao contra rio, ela se beneficiou por na o se endurecer diante
das evide ncias dos fatos. Na o se deve julgar a religia o pelo que ainda e ensinado
nas escolas das aldeias, onde as doutrinas superiores na o seriam
compreendidas. O alto clero e mais esclarecido do que o mundo geralmente
acredita, e ele provou em muitas ocasio es que, se necessa rio, ele sabe sair das
velhas rotinas da tradiça o e dos preconceitos; mas ha pessoas que querem ser
mais religiosas do que a religia o e que a rebaixam pela mesquinhez das suas
opinio es; para eles a forma e tudo, e ate sobrepo e a moral do Evangelho, que
eles praticam muito pouco: sa o estes que mais lhe fazem mal. Em que enta o a
doutrina espí rita seria perniciosa? Ela explica o que estava inexplicado;
demonstra a possibilidade daquilo que se pensava ser impossí vel; prova a
utilidade da oraça o; ela apenas diz que so a prece de coraça o e eficaz e que a
dos la bios e uma va simulaça o; quem se atreveria a argumentar o contra rio? A
na o eternidade das tristezas, reencarnaça o: eis aqui enta o a grande pedra no
caminho! Mas se estes fatos nunca se tornarem ta o o bvios e ta o comuns como
o movimento da Terra em torno do Sol, sera preciso se render a evide ncia, tal
135 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
como foi feito com o resto, e, procurando fazer isso desde ja , talvez fosse menos
difí cil concordar que na o se acredita. Na o nos apressemos, pois, em pronunciar
um julgamento que poderia ser demasiado precipitado, e aproveitemos as
liço es da histo ria.
O maior inimigo da religia o e o materialismo, e este na o tem adversa rio
mais duro do que a doutrina espí rita. O ESPIRITISMO ja trouxe de volta ao
ESPIRITUALISMO inu meros materialistas obstinados que ate enta o tinham
resistido a todos os argumentos teolo gicos; isso porque o espiritismo faz mais
do que argumentar, ele torna as coisas patentes. Ele e , portanto, o mais
poderoso auxiliar das ideias religiosas, porque da ao homem a convicça o do seu
destino futuro e como tal ele deve ser acolhido como um benefí cio para a
humanidade. Ele reavivou em mais de um coraça o a fe na Provide ncia, fez
nascer a esperança no lugar da du vida; fez mais: resgatou mais de uma ví tima
do suicí dio, restaurou a paz e a conco rdia nas famí lias, acalmou o dios,
amorteceu paixo es brutais, desarmou a vingança e levou resignaça o a alma do
sofredor. Sera que ele e subversivo da ordem social e da moralidade pu blica?
Essa doutrina — que condena o o dio e o egoí smo, que prega o desinteresse, o
amor ao pro ximo, sem exceça o de seitas ou castas — na o pode excitar paixo es
hostis, e seria deseja vel para a paz do mundo e para a felicidade da raça humana
que todos os homens compreendessem e praticassem tais princí pios; eles na o
teriam nada a temer uns dos outros.
Eis para onde a loucura do espiritismo conduz entre aqueles que,
aprofundando-se nesses miste rios, veem nas manifestaço es algo diferente de
mesas que giram ou demo nios que da o provocam batidas.
136 – Allan Kardec
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promovido pela
PEADE – Plataforma de Estudos Avançados da Doutrina Espírita
www.luzespirita.org.br/peade
137 – Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas
